ANGELA TEIXEIRA DE ALMEIDA MÚSICA, GÊNERO E DOR DE AMOR: as composições de Dolores Duran e Maysa (1950-1974) Assis 2017 ANGELA TEIXEIRA DE ALMEIDA MÚSICA, GÊNERO E DOR DE AMOR: as composições de Dolores Duran e Maysa (1950-1974) Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Mestra em História. (Área de conhecimento: História e Sociedade) Orientadora: Dra. Lúcia Helena Oliveira Silva Bolsista: CNPQ Assis 2017 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da F.C.L. – Assis – Unesp A447m Almeida, Angela Teixeira de Música, gênero e dor de amor: as composições de Dolores Duran e Maysa (1950-1974) / Angela Teixeira de Almeida. Assis, 2017. 268 f.: il. Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis Orientador: Dra. Lúcia Helena Oliveira Silva 1. Música brasileira. 2. Compositoras. 3. Samba. 4. Brasil – História – Anos 1950. I. Título. CDD 780.981 AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço à minha mãe, Dolores, pela dedicação e força na nossa formação, sempre firme e lúcida nos criou (eu e meus dois irmãos, Ronaldo e Rafael) com muito amor, cuidado e afeto. Agradeço à minha orientadora, Lúcia Helena Oliveira Silva, pelas infinitas horas de orientação, sempre prestativa e afetuosa, me orientou não apenas para os deveres acadêmicos, mas também para a vida. Aos professores integrantes da banca examinadora, Maria de Fátima da Cunha e Wilton Carlos Lima da Silva, fica o registro da minha enorme gratidão por aceitarem participar de meu exame de qualificação e da banca de defesa de Mestrado. Agradeço a generosa leitura do meu trabalho na qualificação e das valiosas sugestões para a finalização da dissertação. Agradeço, principalmente ao professor Wilton Carlos Lima da Silva, pelas infinitas conversas e reflexões sobre música que me ajudaram a trilhar o caminho para a escrita dessa dissertação. Seus conselhos foram essenciais, desafiando-me a acreditar no meu potencial. E também quero deixar meus agradecimentos aos professores do Departamento de História que contribuíram com minha formação intelectual e acadêmica, e que, portanto, estiveram de algum modo presentes neste trabalho. As minhas queridas amigas, Erica Ferreira Abade, Juliana Bardella Fiorot e Micheli Antônia Salles, que não me abandonaram nesse processo tão penoso de construção da dissertação. Agradeço também, as minhas amigas da infância, Adriana Cristina Riggo, Daiane Lapa de Andrade, Juliani Gabrieli da Silva e Vanessa Kelly Santana (in memoriam) que mesmo distantes contribuíram com energias positivas. Agradeço em especial ao meu amigo Varlei Silva, pela dedicação e ajuda fundamental que ofereceu durante minha estadia em Campinas, sem sua ajuda não teria conseguido realizar com êxito a pesquisa na Unicamp. E finalmente ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que fomentou esta pesquisa e possibilitou sua realização. Lembra que tempo feliz Ah! que saudade Ipanema era só felicidade Era como se o amor doesse em paz (Carta ao Tom 74, Chico Buarque de Holanda) ALMEIDA, Angela Teixeira de. Música, Gênero e Dor de Amor: as composições de Dolores Duran e Maysa (1950 -1974). 2017. 264 f. Dissertação (Mestrado em História). - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2017. RESUMO Nesse trabalho analisaremos a atuação de duas cantoras e compositoras de grande talento no cenário musical, antes monopolizado pelos homens, Dolores Duran e Maysa, ambas com uma linguagem poética na qual o amor era comumente retratado enquanto fossa, ilusão e dor em canções que, cheias de sentimentos e emoções, expressavam o sentimento de perda, as desesperanças, os desencontros e a solidão, ou seja, o sentimento real de seus amores. As letras aqui analisadas são entendidas como expressão de vivências pessoais e das percepções das duas compositoras, das tensões e possibilidades de uma nova forma de feminilidade no período retratado, no qual as mulheres puderam ultrapassar as limitações de seu papel social circunscrito ao espaço doméstico e à submissão. Iremos abordar, através das letras das compositoras, o tema do amor e dor, as relações amorosas, na visão feminina, pouco divulgado na época, pois a maioria das canções eram compostas por homens. Assim, apontaremos uma desnaturalização do papel da mulher vigente no período. Também iremos abordar às intensas transformações econômicas, culturais e sociais ocorridas na década de 1950, que é reconhecida como “Anos Dourados”. Houve uma sucessiva mudança de hábitos, pois as cidades começaram a crescer, tanto territorial como populacionalmente, em um processo crescente de “modernização” através da popularização do cinema norte- americano e da entrada da televisão. Iremos discutir como a mulher está vivenciando as mudanças do período, tanto na economia como na sociedade e também pensar como a mulher tem sido retratada nos meios midiáticos (revista, rádio e a musica), a partir de duas matrizes (a mulher do lar e a leviana) e como certos produtos refletiam essa dicotomia. Palavras-chaves: Anos Dourados; Música; Compositoras; Samba-canção; Gênero. ALMEIDA, Angela Teixeira de. Music, Genre and Pain of Love: the Dolores Duran and Maysa’s compositions (1950 -1974). 2017. 264 p. Dissertation (Master in History). Faculty of Sciences and Letters, Assis Campus, São Paulo, State University “Júlio de Mesquita Filho”, Assis, 2017. ABSTRACT In this paper we will analyze the performance of two great female singers and composers in the musical scene, previously monopolized by the men, Dolores Duran and Maysa, both with a poetic language in which the love was normally portrayed as depression, illusion and pain in songs that, full of feelings and emotions, expressed the feeling of loss, hopelessness, mismatch and loneliness, that is, the real feeling of their loves. Here, the lyrics analyzed are understood as expressions of personal experiences and perceptions of the two female composers, from the tensions and possibilities of a new form of femininity in the portrayed period where the women were able to overcome the limitations of their social role limited to domestic space and submission. We will discuss, through the lyrics of the composers, the themes of love and pain, love relationships, in the feminine view, little publicized at the season, because most of the songs were composed by men. Thus, we will point out a denaturation of the role of women in the period under consideration. We will also address the intense economic, cultural, and social transformations that occurred in the 1950s, known as "Golden Years". There was a successive change in habits because the cities began to grow, both territorially and populationally, in a growing process of "modernization" through the popularization of American cinema and television entry. We will discuss how the woman is experiencing the changes of the period, both in the economy and in society, and also to think about how women have been portrayed in the media (magazine, radio and music), from two matrices (the home woman and the reckless woman) and how especific products reflected this dichotomy. Keywords: Golden years; Music; Female composers; Samba-song; Genre. LISTA DE FIGURAS Figura 1: Capa e contracapa do LP 12 polegadas Dolores Duran canta para você dançar, Copacabana, 1957..............................................................................................73 Figura 2: Capa e contracapa do LP 10 polegadas Dolores Duran canta para você dançar Copacabana, 1957...............................................................................................77 Figura 3: Capa e contracapa do LP 12 polegadas Dolores Duran canta para você dançar 2, Copacabana, 1958..........................................................................................80 Figura 4: Capa e contracapa do LP Esse norte é minha sorte, Copacabana, 1959........83 Figura 5: Capa do disco de Dolores Duran e Tito Madi, de número 47, da 1ª. edição da coleção História da Música Popular Brasileira, de 1972, da Editora Abril.................. 90 Figura 6: Capa do disco de Dolores Duran e Tito Madi, de número 46, da 2ª. edição da coleção Nova História da Música Popular Brasileira, de 1978, da Editora Abril.........90 Figura 7: Capa do disco de Dolores Duran e Tito Madi, de número 46, da 3ª. edição da coleção História da Música Popular Brasileira Grandes Compositores, de 1983, da Editora Abril....................................................................................................................90 Figura 8: Capa e contracapa do CD Entre amigos, Biscoito Fino, 2009.........................96 Figura 9: Capa e contracapa do box Os Anos Dourados de Dolores Duran, Music From EMI, 2010........................................................................................................................98 Figura 20: Capa e contracapa do LP 10 polegadas Convite para ouvir Maysa, RGE, 1956...............................................................................................................................139 Figura 11: Capa do segundo LP de 10 polegadas, Maysa, RGE, 1957.........................143 Figura 12: Capa e contracapa do LP, 12 polegadas, Convite para ouvir Maysa nº2.....146 Figura 13: Capa do álbum “Convite para ouvir Maysa, nº 3”, lançado em 1958, pela RGE...............................................................................................................................150 Figura 14: Capa do LP “Convite para ouvir Maysa, nº4”, RGE, 1959.........................155 Figura 15: Capa do disco “Voltei”, lançado em 1960..................................................161 Figura 16: Capa do disco “Maysa canta sucesso”, lançado em 1960, RGE.................163 Figura 17: Capa do disco “Maysa Song Before Dawn”, gravado em 1961, pela Columbia Stereo............................................................................................................165 Figura 18: Capa e contracapa do disco “Barquinho”, lançado em 1961, pela gravadora Columbia.......................................................................................................................169 Figura 19: Capa e contracapa do BOX Maysa Internacional, produzido pela gravadora Discobertas, em 2014....................................................................................................174 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.................................................................................................. 13 1. MUDANÇAS CULTURAIS DA DÉCADA DE 50 E UM NOVO FEMININO......................................................................................................... 17 1.1. NEM DO LAR, NEM LEVIANA: A CONDIÇÃO FEMININA NA DÉCADA DE 1950............................................................................. 17 1.2. MULHERES NA CENA MUSICAL: GÊNERO E MÚSICA.... 23 1.3. “LEVAMOS A VIDA A CANTAR”: O RÁDIO E AS SUAS RAINHAS.................................................................................................. 29 1.4. O SAMBA-CANÇÃO E O CENÁRIO MUSICAL DOS “ANOS DOURADOS”............................................................................. 42 2. “POR CAUSA DE VOCÊ”: DORES E AMORES EM DOLORES DURAN......................................................................................................... 62 2.1. A MEMÓRIA DE DOLORES DURAN: TRAJETÓRIA INTENSA E BREVE, A OBRA SEMPRE RECORDADA.................. 65 2.1.1. De Adiléia à Dolores: origem e carreira.............................. 65 2.1.2. Entre homenagens e regravações......................................... 85 2.2. COMPOSIÇÕES DE AMOR E DOR........................................... 99 2.2.1. As parcerias musicais / as boas companhias....................... 124 3. “MARCADA”: FOSSA, SUCESSO E ESTIGMA EM MAYSA............ 131 3.1. A MEMÓRIA DE MAYSA: NARRATIVAS SOBRE A BELEZA, A VOZ, O SUCESSO E A VIDA ATRIBULADA.............. 135 3.1.1. A caminho da bossa-nova................................................... 158 3.1.2. Homenagens.................................................................. 172 3.2. COMPOSIÇÕES DE “FELICIDADE INFELIZ”...................... 175 CONCLUSÃO.................................................................................................... 189 FONTES............................................................................................................. 196 BIBLIOGRAFIA............................................................................................... 197 ANEXOS............................................................................................................. 202 ANEXO A: Letras das canções de Dolores Duran.......................................... 203 ANEXO B: Letras das canções de Maysa........................................................ 238 INTRODUÇÃO O objetivo dessa dissertação é analisar na trajetória de duas grandes cantoras e compositoras da década de 1950, Dolores Duran e Maysa, como suas composições refletiam o período e as angústias de ser mulher na época. Também iremos abordar vários assuntos referentes ao contexto cultural como a música, o rádio e as grandes intérpretes do período. Mesmo em processo de modernização, a sociedade brasileira ainda lutava pelos “valores morais”, valorizando as “moças de família”, cujo padrão moral garantia o respeito social, um bom casamento e uma vida de “rainha do lar”. E estigmatizando as “levianas”, mulheres que saiam do contexto moral da época, por exemplo, morando sozinhas, frequentando ambientes boêmios, fumando, consumindo bebidas alcoólicas, se dedicando a certos trabalhos como os de atrizes e cantoras, entre outros hábitos e comportamentos considerados indesejados ou imorais. No primeiro capítulo discutiremos, de forma mais geral, como a mulher está vivenciando as mudanças do período, tanto na economia como na sociedade, enquanto o seu papel social muda em relação aos períodos anteriores, como um reflexo das intensas transformações do mundo pós-guerra, e as particularidades do campo artístico-musical para as mulheres naqueles tempos. É um contexto de maior protagonismo feminino, e a mulher se vê capaz de modificar seu destino sentido-se mais confiante para sair da proteção das “quatro paredes” de seu lar e descobrir novas formas de vida, que se expressam em novos hábitos e modos. Encontramos várias pesquisas, que têm a música como objeto de estudo com ênfase em seu caráter social e cultural, e diversas destas analisam a letra como meio de compreender um período específico da história, assim como outras, cada vez em maior número, que analisam a participação das mulheres na música popular brasileira, não somente como intérpretes, mas como compositoras e adotando uma perspectiva de análise dimensionada a partir dos estudos sobre as relações de gêneros. A importância de abordagens sobre a música popular brasileira em uma perspectiva de gênero, capaz de afirmar os espaços do feminino em um universo majoritariamente masculino representa um avanço necessário e urgente de uma historiografia crítica e dinâmica. 14 Em meio aos estudiosos mais referenciados sobre a história da música popular brasileira, como Tinhorão (1979, 1982), Aguiar (1989), Lenharo (1995), Tatit (1995) e Napolitano (2000, 2001, 2005, 2008 e 2010), passam a ocupar uma posição de destaque trabalhos que adotam como objeto de estudo a mulher na música, seja como compositora, intérpretes e analisando sua representação nas letras de vários estilos musicais, como Cruz (1992), Avancini (1996), Matos (2005), Amorin (2009), Murgel (2010), Jacomel (2012), entre outras. Essas pesquisas ajudam a enriquecer o campo historiográfico, abrindo caminho para novas abordagens nos estudos de gênero na música, onde a mulher foi, durante muito tempo, deixada de lado. Através dessa breve contextualização do período histórico busca-se detalhar as várias funções da mulher nesse período e como ela era vista pela sociedade, para oferecer elementos para a compreensão do lugar em que as compositoras estavam inseridas e como essas mudanças puderam se refletir ou não em suas obras. O enfoque é predominantemente sobre a dimensão lírico-poética das músicas, em que as letras são o objeto central de análise, como documento histórico ainda pouco conhecido e analisado, de um estilo musical pouco abordado – o samba-canção - para analisarmos os valores socioculturais ali expressos e que refletem uma visão do período sobre o feminino e suas inter-relações. 1 Com isso, o objetivo desse trabalho é perceber no universo da música popular brasileira, em especial no samba-canção, na década de 50 do século XX, com seus cantores e compositores, as particularidades das composições de duas de suas grandes cantoras– Dolores Duran e Maysa – que se destacaram em um período monopolizado pelo gênero masculino. Utilizaremos como marco teórico o conceito de habitus, proposto por Bourdieu (1974, 1983 e 1984), que permite superar a dicotomia indivíduo/sociedade, apontando a forma como a disposição de agir, sentir e pensar dos agentes sociais é resultado de relações com determinada estrutura social. Em nosso entender, a relação entre agentes e estrutura se traduz em formas de sociabilização e de construção de identidades que permitem tanto a conservação de tradições quanto a afirmação de rupturas através de 1 É fundamental limitar as ambições do presente trabalho para aquém das abordagens musicológicas e linguísticas, no sentido de que as diversas questões que se referem às questões técnico-operativas, acústicas e de teoria musical (como harmonia, contraponto, linguagem e estruturação da música), assim como à gramática, fonética, semântica, lexicologia, estilística e outras áreas estão além de nossas ambições e de nossos objetivos. 15 novas configurações culturais; e a indústria cultural e a música podem ser percebidas como instâncias produtoras de valores e identidades. A metodologia desenvolvida no trabalho é o levantamento e a analise das composições das duas cantoras na década de 1950, quando Dolores Duran e Maysa compuseram cerca de 30 canções cada, marcando tanto os lugares comuns em um tipo de composição que é marcado pela dor de amor, como as particularidades de tais letras frente às letras de compositores do período, para apontar contrastes entre o eu lírico feminino e masculino. O trabalho apresentará ao seu final três capítulos, dos quais dois fazem parte do presente relatório para a qualificação. Na estrutura proposta, o primeiro capítulo, intitulado Mudanças Culturais da década de 1950 e um novo feminino, é voltado ao contexto histórico da década de 1950 “Anos Dourados” em relação à condição feminina e às características do campo artístico-musical para as mulheres que nele se inseriram. Esse capítulo é dividido em quatro subcapítulos, sendo que o primeiro, Nem do lar, nem leviana: a condição feminina na década de 1950 aponta as transformações nos modos de vida da mulher daquele período que para além do “lar” busca conquistar novos meios de vida ao completar os estudos, fazer um curso superior, trabalhar (vendedora, telefonista, doméstica, artistas de teatro, cantora, etc.) e morar sozinha; enquanto o segundo, Mulheres na cena musical: gênero e música, no qual aborda a mulher como compositora e a questão de gênero na época em que havia poucas compositoras e uma enorme dificuldade de conseguirem o reconhecimento; o terceiro, “Levamos a vida a cantar”: o rádio e as suas rainhas, discute a ascensão das cantoras do rádio e seu papel na popularização desse meio de comunicação, e finalmente, o quarto, O samba-canção e o cenário musical dos “Anos Dourados”, detalha o cenário musical e o estilo do samba-canção, ritmo de grande sucesso nos anos 1950 do século XX. O segundo capítulo, cujo título é “Por causa de você”: dores e amores em Dolores Duran é voltado para a trajetória e a obra da compositora e cantora, acompanhando ao longo de sua carreira musical nas rádios, nas boates cariocas e na televisão a confecção de suas letras. O capítulo se subdivide em duas partes, sendo a primeira, A memória de Dolores Duran: trajetória intensa e breve, obra sempre recordada, explorando a memória biográfica e os trabalhos acadêmicos sobre a artista de carreira breve e intensa, interrompida pela sua morte aos 29 anos, além de mencionar a origem de sua carreira, a 16 mudança para o nome artístico e as várias homenagens que a cantora recebeu após sua morte prematura. A segunda, Composições de amor e dor, com foco sobre as 35 composições que foram feitas durante os anos de 1955 a 1959, que exploravam suas vivências e observações da vida sentimental da época e de sua postura como uma mulher a frente do seu tempo. Abordaremos suas parcerias musicais e como elas ajudaram a lapidar uma jovem compositora, mulher sensível, corajosa e muito inteligente, Dolores Duran descobriu sua paixão pela música ainda muito cedo, aos 12 anos, sempre interpretando com eficiência músicas de diferentes ritmos, mas foi somente em 1955 que começou a compor em um estilo que ela brilhava, samba-canção. O terceiro capítulo, “Marcada”: fossa, sucesso e estigma em Maysa, será composto por quatro partes, a primeira, A memória de Maysa: narrativas sobre a beleza, a voz, o sucesso e a vida atribulada, que analisará a memória biográfica e os trabalhos acadêmicos sobre a cantora e compositora que viveu uma vida intensa com amores e desamores, cheia de escândalos, a segunda, A caminho para Bossa-Nova, onde abordaremos as influências desse novo ritmo na carreira da cantora. A terceira parte será focado nas homenagens recebidas após sua morte e o último subtítulo, Composições de “felicidade infeliz”, será sobre os muitos discos gravados e as mais de 30 canções que ela compôs. Maysa encantava com seu estilo único, logo no seu primeiro LP conseguiu alcançar muito sucesso, e não demorou a ser consagrada, tanto no rádio como na TV, uma das melhores cantoras e compositoras do samba-canção. Também foi uma das precursoras da Bossa Nova, juntamente com Dolores Duran, mas nunca perdeu seu estilo fossa. Como já afirmado anteriormente, as letras aqui analisadas são entendidas como expressão de vivências pessoais e das percepções das duas compositoras, das tensões e possibilidades de uma nova forma de feminilidade no período retratado, no qual as mulheres puderam ultrapassar as limitações de seu papel social circunscrito ao espaço doméstico e à submissão. Iremos abordar, através das letras das compositoras, o tema do amor e dor, as relações amorosas, na visão feminina, pouco divulgado na época, pois a maioria das canções eram compostas por homens. Assim, apontaremos uma desnaturalização do papel da mulher vigente no período. 17 1. MUDANÇAS CULTURAIS DA DÉCADA DE 1950 E UM NOVO FEMININO “ANOS DOURADOS” 1.1. Nem do lar, nem leviana: a condição feminina na década de 1950. O ingresso das mulheres no campo artístico e intelectual no século XX foi marcado por inúmeros desafios, na busca de se obter reconhecimento em uma área monopolizada pelo gênero masculino. Este capítulo tem como objetivo abordar questões de gênero e música no Brasil da década de 1950, a partir de três referenciais: o rádio, que desde 1930 se encontra em grande expansão; o samba-canção, gênero musical através do qual, lentamente, algumas mulheres se inseriam no meio artístico e as mulheres como intérpretes e principalmente como compositoras2 desse estilo musical. Assim, algumas das questões que orientam nossa reflexão são: Quais são os espaços reservados para o gênero feminino na década de 1950? Quais os obstáculos percorridos pelo gênero feminino para se estabelecer em meio a um processo de modernização da sociedade brasileira, com ampliação da urbanização, avanços tecnológicos e constituição de um mercado fonográfico? Como as cantoras e compositoras vão, através de seu trabalho e da divulgação de suas obras pelo rádio, se desviar de um caminho traçado pela sociedade machista e androcêntrica da época, que as veem apenas como simples donas de casas e esposas dedicadas? A década de 1950 é chamada de “Anos Dourados” devido às intensas transformações econômicas, culturais e sociais ocorridas a partir dos governos de Getulio Vargas (no seu segundo governo 1951-1954) e Juscelino Kubitschek (1956- 1961). Houve uma crescente mudança de hábitos, pois as cidades começaram a crescer, tanto territorial como populacionalmente, em um processo de acentuada “modernização” através da popularização do cinema norte-americano, da entrada da 2 A riqueza da questão de gênero enquanto tema da história, já foi suficientemente abordada por diferentes autores, destacamos em termos teóricos Tilly (1994) e Smith (2003), e enquanto uma reflexão sobre o tema e a historiografia brasileira podemos citar Soihet (1997), Del Priore e Bassanezi (2007) e (2009). Sobre essa disputa por espaços de legitimação das mulheres na literatura um trabalho bastante interessante é a tese de Fanini (2009) sobre as candidaturas femininas à Academia Brasileira de Letras. 18 televisão3, e de uma nova relação com a música, a partir de novas tecnologias para aperfeiçoar as gravações e melhorar a performance do cantor. A década de 50 trouxe uma série de inovações tecnológicas para a indústria do entretenimento. Em 1950, a televisão chegou ao país; em 1951, foi a vez do LP de 33 rotações; e, em 1953, do disco de 45 rotações. Paralelamente, o emprego da fita magnética e o advento da máquina de múltiplos canais, em substituição ao antigo registro em cera, proporcionaram o aperfeiçoamento do processo de gravações do som. (NEVES, 2008, p.43) O conjunto de transformações naquele período criava um claro contraste com a década anterior, principalmente em relação ao papel da mulher na sociedade, pois ocorria uma maior inserção feminina no mercado de trabalho e uma quebra de alguns tabus estabelecidos para as moças de “família”. Ser mulher nos “Anos Dourados” era ser mãe, esposa e dona de casa e, portanto, eram constantemente afirmados valores tradicionais identificados com a feminilidade, como a doçura, a resignação e o instinto materno, assim como a proposição de um modelo de família estruturado segundo os padrões das elites. (BASSANEZI, 1997, p. 607-608). As mulheres começavam a conquistar seus espaços, saindo da função de dona de casa e assumindo outros papéis, mesmo que ainda muito precário e desvalorizado, a mulher volta-se para o mercado de trabalho, ampliava seus estudos, algumas se estabelecem no campo artístico e intelectual. O caminho é sempre mais penoso, devido aos preconceitos da época, principalmente para as mulheres da classe baixa e média, sendo que: Novas oportunidades começaram a surgir para as mulheres das camadas médias, principalmente nas chamadas ‘atividades femininas’, profissões que permitiam conciliar o trabalho com o cuidado do lar. (MARTINS, 2002, P.30) Essas “atividades femininas” seriam profissões como: secretárias, vendedoras, professoras, empregadas, enfermeiras e babás. Quando a mulher partia para o campo das fábricas, sofriam um preconceito ainda maior, pois seu trabalho era visto como masculinizado, sobre isso Rago (2006) demonstra: As barreiras enfrentadas pelas mulheres para participar do mundo dos negócios era, sempre muito grande, independentemente da classe social a que 3 Nos anos 50 ocorre a inauguração da TV Tupi, que estende seu alcance para os principais centros urbanos do país, através das Emissoras Associadas, o que se traduziu em uma liderança de audiência pelos primeiros vinte anos do mercado televisivo nacional, sendo superada nos vinte anos posteriores pelo crescimento da Rede Globo. (HAMBURGUER, 1988) 19 pertencem. Da variação salarial à intimidação física, da desqualificação intelectual ao assédio sexual, elas tiveram sempre de lutar contra inúmeros obstáculos para ingressar em um campo definido – pelo homem – como ‘naturalmente masculino’. (RAGO, 2006, p. 581) Tinhorão (1982) em seu livro “Música Popular, Mulher e Trabalho” menciona que Noel Rosa, compôs uma música para sua namorada que trabalhava em uma fábrica, a música “Três apitos”4 (composta em 1933) onde Noel explica que ao ouvir o apito da fábrica lembra-se de sua amada, mas que ela vendo-o na rua, finge não reconhecê-lo, devido a vergonha de ser uma operária. Aliás, como conta Almirante em seu livro No tempo de Noel Rosa, trabalhar como operária ainda constituía uma vergonha para as mocinhas, o que as levava a esconder dos namorados sua verdadeira atividade, obrigando-as muitas vezes a fingir que não viam seus pretendentes quando surpreendidas a caminho dos empregos. (TINHORÃO, 1982, p. 7). Rago (2006) aborda que o trabalho das mulheres nas fábricas sofreu uma grande queda “assim, enquanto em 1872 as mulheres constituíam 76% da força de trabalho nas fábricas, em 1950, passaram a representar apenas 23%” (p. 581), isso é explicado pela ampla incorporação do trabalho masculino nos distritos industriais (como o metalúrgico, siderúrgico e mecânico), substituindo o trabalho feminino. A modernização dos grandes centros das cidades ampliou as atividades comerciais, assim a mulher conseguiu se estabelecer nesses centros como balconistas e vendedoras, embora tal como nas fábricas sua jornada de trabalho era intensa e mal remunerada. Da década de 1920 a 1950 o ingresso das mulheres em serviços bancários, comercias e de seguros teve um aumento considerável “as mulheres foram incorporadas em postos na telegrafia, telefonia, contabilidade e como escriturárias, secretárias, guarda-livros, entre outros cargos”. (MATOS, BORELLI, 2013, p.134.). A difusão da máquina de escrever abriu para as mulheres o promissor serviço de datilógrafa. Todos esses empregos demandavam preferencialmente moças solteiras (consideradas mais disponíveis), ágeis, assíduas, dóceis e submissas. Por outro lado, a necessidade de qualificação profissional levou à expansão dos cursos de Secretariado, Contabilidade e Comércio, com escolas e salas especiais para mulheres. (MATOS, BORELLI, 2013, p.134.). Mesmo ainda ocupando esses cargos, que na época eram considerados altos, as mulheres teriam que preencher vários requisitos, o que tornava cada vez mais difícil de 4 “Quando o apito da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você./ Mas você anda sem dúvida bem zangada/ ou está interessada em fingir que não me vê/ Você que atende ao apito de uma chaminé de barro/ por que não atende ao grito, tão aflito,/ da buzina do meu carro?”. 20 que uma mulher da classe baixa e média, casada ou solteira com filhos, viesse a ocupá- los. Nos “Anos Dourados” estava cada vez mais comum encontrar a mulher fora do ambiente do lar, ela começava a conquistar um espaço no mercado de trabalho e estabelecer um novo conceito de mulher. À imagem da mulher trabalhadora vem associar-se outras imagens que povoavam o universo feminino daquela época, como as artistas de cinema, as primeiras-damas, as cantoras do rádio e as misses. Entre o tradicional e o moderno formava-se uma nova mulher consciente de que poderia assumir novos papéis além de esposa e mãe. (MARTINS, 2002, p. 31) Esse processo de formação de um novo modo de vida para as mulheres abriu caminhos para os cursos profissionalizantes e acesso às universidades, ainda que muitas moças fossem induzidas pelos pais e pela sociedade a seguirem o caminho do matrimônio. As já referidas mudanças da década de 1950 colocaram o papel da mulher no centro das discussões sobre a forma de organização da sociedade e o papel feminino em seu interior. Em um contexto de disputa entre as tradições patriarcais e as transformações de uma sociedade mais urbana e cosmopolita, imersa em uma ampliação da penetração e do poder da mídia (na forma do rádio, da televisão, do cinema, das revistas do período, entre outras manifestações), o que permitia o questionamento das limitações do espaço feminino dentro das barreiras do lar. Sobre isso, pode-se afirmar que: Nesse quadro, pode-se constatar uma efervescência de discursos, produzidos por diferentes segmentos da sociedade, abordando o comportamento e o papel social das mulheres. Muitas das vozes que se faziam ouvir nesse cenário representavam-nas como as “donas de casa” pacatas, devotadas aos filhos e ao marido e, por isso, obedientes às convenções sociais. Tal situação reforçava um determinado modelo de gênero feminino, que estabelecia relação, em certa medida, às mulheres provenientes das classes médias e dominantes, caracterizadas por sua elegância e bem vestir. (SANTOS, 2011, p. 12) Matos (2006) relata que nos anos 1940 e 1950 as relações entre homem e mulher mantinham a convicção do pacto conjugal, casamento de papel passado, o que é reafirmado por Bassanezi (2014), ou seja, o homem deveria assumir seu papel de provedor e trabalhador em troca do afeto exclusivo da mulher, que deveria zelar pela sua família, pelo conforto do lar, do marido e dos filhos, que fosse caseira e guardasse certa decência e reserva perante a sociedade. 21 Ir para um caminho diferente dos ditos tradicionais era considerado perda da feminilidade natural da mulher, como o instinto materno, além de sua doçura e fragilidade, uma cobrança que advinha de todas as direções (família e sociedade), denegriam as jovens que ousassem ter uma postura diferente, caracterizando-as como levianas e imorais. Embora houvesse uma constante preocupação na educação para o autocontrole das moças de família, as regras e modelos não impediam que algumas moças fugissem aos padrões estabelecidos e com isso contribuíssem para que os limites impostos fossem ampliados. Em meio ao esforço de normatização, seguir as regras começava a ficar cada vez mais difícil, pois durante meados dos anos 50, além da forte influência do cinema5 e da música americana, como o rock 'n' roll, as oportunidades educacionais e de emprego para as mulheres também começam a oferecer perspectivas de independência e de mudanças cada vez maiores. Até os homens solteiros e pertencentes à classe mais alta, influenciados também por essa onda mais rebelde, são caracterizados como “bandos de bagunceiros” e playboys, que violam lei roubando carros e se orgulhando da má fama que conquistam. A década de 1950 trouxe transformações culturais e novos significados para as experiências vividas, sem que outras formas de vivência tenham desaparecido, pois se mantiveram residuais, convivendo com outras experiências emergentes. É neste sentido que as relações conjugais formais, através do casamento de papel passado, vão conviver com outras formas de relacionamento que já vinham se delineando desde a década anterior: são os relacionamentos “alternativos”, mesmo que clandestinos e ilegais. (NASCIMENTO, 2014, p. 72). Essas mudanças fazem com que, aos poucos, as mulheres que trabalham fora de casa começam a ter uma maior aceitação da classe média, devido ao desenvolvimento capitalista, ao aumento do consumo, as novas ideias de modernidade que surgem nesse período e lógico também pelas “exigências impostas por várias mulheres convictas de que trabalhar as favorecia”. (BASSANEZI, 2013, p. 506). 5 “Nos anos 1950, quando se torna de fato um bem de consumo no Brasil, o cinema, ao mesmo tempo que contribui com novos padrões de comportamento e traz novas musas de indiscutível sensualidade (Marilyn Monroe, Jane Mansfield, Gina Lollobrigida e Sofia Loren), cultiva o ideal de menina-moça, pura e meiga (nas personagens retratadas por Doris Day, Grace Kelly, Debbie Reynolds). E ao lado de galãs bem- comportados, como Rock Hudson, traz os jovens ‘rebeldes’ na pele de Marlon Brando (O selvagem, 1953) e James Dean (Juventude transviada, 1955) – sinais notáveis da efervescência dos tempo”. (BASSANEZI, 2014, p.146) 22 Assim, essas pioneiras conseguem ampliar seu espaço na sociedade, deixando de lado o imaginário de “mulher frágil” de tempos atrás e contribuindo ainda mais para o desenvolvimento da emancipação feminina que irá intensificar nas décadas de 1960 e 1970. Mas essa mulher moderna, ainda recebia criticas, pois Mesmo com a maior aprovação social da ‘mulher que trabalha’, essa figura continuava hierarquicamente inferior à da ‘boa esposa’, mãe e ‘dona de casa ideal’. Para muitos, casamento e trabalho são incompatíveis, não só porque o envolvimento profissional prejudica a dedicação a casa e família, mas também porque ‘os homens não gostam de mulheres independentes’. (BASSANEZI, 2013, p. 508). Para as mulheres negras as dificuldades eram ainda maiores, segundo Nepomuceno (2013), uma vez que após a abolição a desigualdade cresceu cada vez mais e que a ascensão da mulher no mercado de trabalho cresceu de maneira irregular entre as da classe média e alta e as negras, “com determinadas situações de nítidos privilégios para umas e exclusão para outras”. (p.383) Nos postos disponíveis para mulheres na indústria e no comércio, a discriminação racial vigorava disfarçada pelo eufemismo da ‘boa aparência’, exigida das candidatas aos empregos. Persistiu por décadas, funcionando com eficiência como estratégia para alijar a população negra daqueles trabalhos considerados mais adequados à ‘pessoas de pele branca’. (NEPOMUCENO, 2013, p. 387). Assim as mulheres negras encontraram poucas alternativas de trabalhos. Sendo mais comum trabalhar como serviço em casa de família, agricultoras, meeiras, vendedoras de legumes, entre outros. Esse perfil de mulher era o avesso da mulher submissa e dona de casa que era pregado na época, por isso muitas vezes as mulheres negras não eram consideradas adequadas para um casamento.6 Os estudos sobre as mulheres e mulheres negras estão crescendo cada vez mais, preenchendo uma grande lacuna existente na historiografia brasileira, trabalhos como a coletânea organizada por Del Priore e Bassanezi (2006) contendo vinte autores que escrevem sobre diferentes questões do feminino, seu cotidiano, suas representações e práticas femininas, desde o período colonial ao século XX, ou Bassanezi e Pedro (2013), com vinte autores que se dedicam ao tema em um recorte temporal que enfoca o século XX e XXI no país são demonstrações desse vigor. 6 Rago (2006) ao estudar o universo do trabalho feminino, principalmente nas indústrias do final do século XIX e começo do século XX, descreve que nos documentos encontrados sobre as trabalhadoras “normalmente, as mulheres negras são apresentadas [...] como figuras extremamente rudes, bárbaras e promíscuas, destituídas, portanto, de qualquer direito de cidadania”. (p. 582). 23 1.2. MULHERES NA CENA MUSICAL: GÊNERO E MÚSICA As transformações econômicas da década de 50 do século XX inserem o país em uma nova lógica cultural, no qual permanências e inovações disputam espaços que mudam a lógica das relações cotidianas e os espaços de convívio e intimidade, quando se afirmam aquilo que Gomes (1999, p. 12) define como uma “multiplicidade de modernidades e modernismos” 7. Os códigos tradicionais pautavam a sociedade pelo domínio da família extensa e patriarcal recebem questionamentos e abrem espaços para as individualidades que permitem a invenção de tradições e a redefinição de lugares de sociabilidade e identidade. Desde as primeiras décadas do século XX a identidade feminina, segundo Maluf e Mott (1998), é reelaborada a partir de novos comportamentos introduzidos pela urbanização e industrialização, sendo que assim as mulheres se libertam de uma sociedade que julga e critica a arte, assumem novas práticas cotidianas e desenvolvem novas sociabilidades no âmbito público e privado. Para Calazans e Nunes os “Anos Dourados”: foram marcados pela ambiguidade. A divisão de papéis sociais entre os gêneros permanecia tradicional, mas, com a crescente inserção da mulher no mercado de trabalho, começaram a surgir algumas mudanças comportamentais. Aos poucos, mulheres solteiras já podiam alugar apartamento e morar sozinhas. Em meio à liberalização de costumes, elas começaram a dar voz a seus desejos e expectativas, seja escrevendo para revistas, seja compondo canções falando de seus sentimentos. As cantoras/compositoras Maysa e Dolores Duran se sobressaíram com uma nova linguagem sobre os relacionamentos amorosos. (CALAZANS; NUNES, 2011, p.7). Os grandes veículos da mídia difundiam esse conceito de mulher dona de casa, que desde a infância era treinada e instruída a ser uma boa esposa e mãe dedicada, ditando a conduta correta que elas teriam que seguir, mas algumas seguiram o caminho oposto, lutando para ir além do que a sociedade lhe atribuía. Muitas dessas mulheres seguiram o caminho artístico, sendo intérpretes e/ou compositoras, adentrando em um espaço monopolizado pelos homens, no qual 7 Tendo como modelo a cidade de São Paulo e a década de 50, por exemplo, MATOS (2001, p. 51) afirma: “a cidade conviveu com a aceleração da industrialização, entrada do capital estrangeiro, modernização da produção, ampliação de certos bens de consumo, em particular os automóveis, tornando a sociedade mais veloz, também mais conectada pelo rádio e particularmente mais visual com a penetração lenta da TV e marcada por um número crescente de cinemas e teatros.” 24 enfrentaram grande dificuldade para se estabelecer no meio artístico, mas abriram espaços para afirmar e consolidar tal campo de trabalho. Há que se pontuar a fragilidade política da presença dessas mulheres no meio radiofônico, pois sua participação, principalmente, das cantoras, ainda era vista como algo menor. No entanto, é inegável que as mulheres do rádio abriram caminho para a admissão da mulher no mundo do trabalho, fenômeno que começa a se consolidar a partir de meados do século XX. (CALAZANS; NUNES, 2012, p.7). Hupfer, por sua vez, também chama a atenção sobre as dificuldades de ser uma mulher-artista nesta época: Ser estrela do rádio numa época em que os valores sociais impunham à mulher um comportamento baseado no recato, na discrição, com observância absoluta dos sagrados valores da família e do lar, não era fácil. Mesmo assim, centenas de mulheres, já no final da década de 1920, aventuravam-se a fazer carreira diante dos microfones. E conquistar o titulo de Rainha do Rádio era, com certeza, a garantia de que haviam chegado lá. (HUPFER, 2009, p. 72) Pontes (2008) em seu estudo sobre mulheres oriundas do campo intelectual (Lúcia Miguel Pereira, Patrícia Galvão e Gilda de Mello e Souza) e atrizes de teatro (Cacilda Becker, Maria Della Costa, Nydia Licia, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Cleyde Yáconis) nos ajuda a entender o processo de introdução da mulher no campo artístico, mostrando através de algumas trajetórias de lutas e de busca de representatividade em um ambiente com característica da modernidade, mas ainda sob domínios conservadores e patriarcais. Os trabalhos de atriz ou escritora, assim como outros com ligação com a arte (pintura, dramaturgia e moda) começam a ganhar espaço na década de 1950, ainda sobre olhares de desprezo e censura pela sociedade da época e essas mulheres que inventaram outros modos de vidas, também tiveram que enfrentar outra barreira além do preconceito da sociedade, pois o campo artístico era um ambiente predominantemente masculino, de forma que as atrizes, escritoras, cantoras e compositoras enfrentaram conflitos e dilemas muito semelhantes para se afirmarem profissionalmente. Entre alguns desses dilemas se destaca a necessidade de abandonar o nome original e escolher um nome artístico, que para além do reflexo de uma prática recorrente no meio artístico também refletia muitas vezes os preconceitos sociais que motivavam algumas mulheres, principalmente as de classes mais altas, que eram pressionadas por suas famílias para não associarem seus sobrenomes a um modo de vida 25 que era estigmatizado como sendo de prostitutas e de mulheres de moral duvidosa. (PONTES, 2008, p. 156) As mulheres, neste espaço teatral e cinematográfico, não tinham o papel mais importante, visto que tal papel ainda era reservado apenas para os homens, sendo elas, nas palavras de Dina Sfat8 (1938-1989), apenas como “enfeite do bolo”, ou seja, ficando com um papel secundário no cinema e no teatro nacional. (PONTES, 2008, p. 6) Utilizando como base os estudos de Pontes (2008), podemos pensar, na mesma perspectiva que a autora, como eram o cotidiano e os dilemas das mulheres que se firmaram no ambiente musical, seja somente como intérpretes ou ainda como compositora e intérprete da década de 1950. Assim como as atrizes de teatro, as cantoras das rádios e, principalmente, as que cantavam nas boates do Rio de Janeiro e de São Paulo, eram consideradas mulheres promíscuas, de vida fácil e de moral duvidosa, sendo que muitas só conseguiam alcançar a fama depois de muito tempo de carreira e só assim desfrutaram de algum prestigio9. O estudo dessas mulheres artistas (cantoras e compositoras) é um tema muito relevante para discutir a relação de gênero, assim podemos verificar os contrastes existentes no período em relação às mulheres, que lutavam por um papel maior na sociedade, substituindo a consagrada visão de submissa e dona de casa. A questão de gênero é um tema muito discutido desde os fins do século XX e aqui não trataremos de seu conceito teórico, pois existem vários estudos com esse intuito, iremos apenas discutir como a mulher em meados do século, enfrenta as dificuldades desse período, principalmente quando se torna uma mulher do meio artístico. Os movimentos feministas só começam no Brasil nos finais dos anos 60, e ganham força somente na metade da década de 1970, mas as mulheres já estão questionando seus papéis e discutindo a ampliação de seus espaços sociais décadas antes10 para mudar alguns conceitos existentes em suas épocas. 8 Reconhecida atriz de teatro, televisão e cinema, estreou em 1962 como atriz amadora e se popularizou no Teatro de Arena. (PONTES, 2008, p.6) 9 Trataremos desse assunto com mais relevância no subcapítulo 1.3. 10 A bibliografia sobre a luta das mulheres no Brasil ao longo de todo o século XX em prol de maiores liberdades e pela afirmação de direitos civis é bastante expressiva. Destacamos: Soihet (1974), Barros (1979), Hahner (1981), Leite (1984), Teles (1993), Rago (1995/1996), entre outros. SOIHET, Rachel. Bertha Lutz e a ascensão social da mulher, 1919-1937, Dissertação de Mestrado História/UFF, 1974; 26 Nosso enfoque se concentra na década de 50, como um cenário de mudanças, que em nosso entender afirma-se de maneira positiva para formar um novo modelo de feminilidade e de forma bastante visível as novas formas de viver11. Embora ainda sofrendo represálias por se comportar se maneira diferente das regras ditas “corretas” para as mulheres, muitas delas, principalmente as mais jovens, provavelmente influenciadas pelo cinema e pela música americana (rock’n’roll), se rebelaram contra as regras e as tradições. Os novos canais de mobilidade que surgem com as oportunidades educacionais e de emprego proporcionam o vislumbre, por parte de muitos jovens, de possibilidades maiores de ascensão econômica e status social – o que também colabora para o declínio relativo do poder paterno, fazendo brotar nas mentes juvenis um sentimento de importância maior e independência. (BASSANEZI, 2014, p. 150) Tendo como exemplo uma de nossas cantoras/compositoras como modelo, temos uma descrição do biógrafo de Maysa, Neto (2007), de diversas cenas em que a biografada demonstra sua rebeldia, quando já em 1951, com 15 anos, burlava algumas regras impostas às mulheres da época como usar maquiagem forte durante o dia e vestir calças jeans. Perrot (2007) aponta que já no século XIX, na Europa, havia limitações impostas às mulheres no campo da música, pois reconhece que os obstáculos já existiam inicialmente por parte da família. E a música? Aí se acumulam obstáculos. Por parte das famílias, para começar [...]. O pai de Félix e Fanny Mendelssohn, igualmente dotados, escreve a esta última, em 1820, a respeito da música: “É possível que, para ele, a música venha a ser uma profissão, enquanto, para você, não será mais do que um ornamento". (PERROT, 2007: 104-105). No século XX, no Brasil, o quadro não era diferente, pois Murgel (2010), a partir de um exaustivo levantamento das compositoras do século XX conclui que o ingresso das mulheres nesse campo foi muito difícil e acompanhado de profundas suspeitas sobre a “integridade moral” das que se aventuraram. Se na literatura e na poesia as mulheres levaram anos para obterem algum HAHNER, June E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas. São Paulo: Brasiliense, 1981; TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve historia do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993, BARROS, Mônica Siqueira Leite de. As mulheres trabalhadoras e o anarquismo no Brasil. Dissertação de mestrado em História, UNICAMP, Campinas, 1979; LEITE, Mirian L. Moreira. Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura. São Paulo. Ed. Ática, 1984; RAGO, Margareth. Mulher, História e feminismo. Campinas/ S.P. Cadernos AEL, 1995/1996. 11 Sobre as particularidades desse período ver: CARVALHAES, Flávia Fernandes de. ; MANSANO, Sonia Regina Vargas. Mulheres e Lutas Políticas: Conquistas e Limites Vividos na Segunda Metade do Século XX. Revista Inter. Interdisc. INTERthesis, Florianópolis, v.13, n.2, p. 141-164 Mai-Ago. 2016. 27 reconhecimento (cf. TELLES, 1997), na canção, e em especial na canção popular, eram completamente desconhecidas, com a honrosa exceção de Chiquinha Gonzaga, que sofreu preconceitos durante toda sua carreira. Mesmo como cantoras, as mulheres só “aparecem” a partir dos anos de 1920. (MURGEL, 2010, p.01) Murgel (2010) critica a pouca visibilidade que a historiografia da música popular brasileira deu para as mulheres cantoras e/ou compositoras desse período, de modo que a história da musica popular “é fortemente marcada pelo apagamento da experiência feminina, só lembrada eventualmente por suas intérpretes e sempre em relação ao universo masculino que as cercava e cerceava”. (p.02) A autora questiona sobre o estudo das compositoras no Brasil, declarando que apenas Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran e Maysa são reconhecidas na história da música popular brasileira e se projeta a analisar esse período com mais detalhes para descobrir o motivo dessa escassez de mulheres como compositoras nas versões “oficiais” da história da música popular brasileira. Assim destaca que: O caminho para a composição feminina no Brasil foi árduo e lento, e a percepção das diferenças entre os gêneros, em especial, na construção de um eu feminino diferenciado do discurso masculino sobre “o que seríamos” também foi gradual. (MURGEL, 2010, p.13) A autora, em seu estudo, faz um levantamento sobre as compositoras que existiram no período entre Chiquinha Gonzaga e Dolores Duran e Maysa, apontando diversas mulheres que não são lembradas por suas composições, como Carmen Miranda, somente reconhecida como intérprete (compôs duas músicas na década de 1930, uma delas - Os hôme implica comigo12 em parceria com Pixinguinha)13, ou . Almira Castilho, que na década de 1950 compôs vários sucessos gravados por seu marido, Jackson do Pandeiro (entre as quais “’Chiclete com banana’14, musicada por 12 Meu Deus, eu já não posso mais/ Viver assim Com esses home implicando/ Por causa de mim/ Eles gosta da gente/ Eu já sei por que é/ É porque eles não pode Vivê sem muié/ Eu não gosto dos home/ Porque eles são ruim/ Quarqué coisa que eu faço/ Eles falam de mim/ Eles pensa que eu sou dessas/ Garotas de arengação/ Mas estão muito enganado Comigo não violão! 13 Murgel (2010, p. 6) vê o caso de Carmem Miranda como um claro exemplo dessa misoginia na memória sobre as compositoras, pois por ser uma grande intérprete é incapacitada de compor uma canção. Tal perspectiva é reafirmada na biografia da cantora, escrita por Castro (2005), onde o autor se convence que “a ideia da letra pode ter sido dela (Carmen Miranda), mas os versos tortos tinham todos os cacoetes de Josué (Josué de Barros (1888 – 1959), mais conhecido por ter descoberto Carmen Miranda, foi cantor, compositor, violonista, letrista e bandolinista)”. (CASTRO, 2005: 63) 14 “Eu só ponho bip-bop/ No meu samba/ Quando Tio Sam tocar o tamborim/ Quando ele pegar no pandeiro/ E no zabumba/ Quando ele entender/ Que o samba não é rumba/ Aí eu vou misturar/ Miami com Copacabana/ Chicletes eu misturo com banana/ E o meu samba vai ficar assim”. 28 Gordurinha15 e gravada pela primeira vez em 1958” e regravada por Gilberto Gil que a considera uma precursora do Tropicalismo) (MURGEL, 2010, p.6). O trabalho de Murgel (2010) resgata parcerias de Lina Pesce, ainda na década de 1920, de Marília Batista com Noel Rosa, na década de 1930, Dilú Mello, na década de 1940, e em 1958, um ano depois que Dolores Duran gravou sua primeira canção (“Por causa de você”) um LP gravado por Inezita Barroso que apresenta novas compositoras como Babi de Oliveira, Juracy Silveira, Zica Bérgami, Leyde Olivé e Edvina de Andrade16. A questão a ser levantada é porque essas compositoras não conseguiram um reconhecimento como Dolores e Maysa? Segundo Murgel, seria mais por uma questão da “centralização da indústria fonográfica e da difusão alcançada pelos artistas que atuavam no Rio de Janeiro”. (MURGEL, 2010, p. 11). Outra possibilidade é divulgada por Santa Cruz (1992), onde comenta que: Nessas três décadas (1930, 1940 e 1950) é insignificante o número de compositoras atuando no cenário brasileiro da música popular. Foram poucas as que lograram êxito no mercado fonográfico. Ao que tudo indica, geralmente, esse acesso ao grande público só se tornava possível com a intermediação de um pai, marido ou qualquer outro parente, normalmente já engajado no meio. Tanto que, das cinco compositoras remanescentes da primeira metade do século (e detectadas no decorrer desta pesquisa), quatro estão nessa situação. (SANTA CRUZ, 1992, p. 19). 17 Devido ao machismo da sociedade, ser cantora era o máximo permitido às mulheres, de forma que ”impossibilitadas de exercerem a auto-expressão, elas reproduziam os discursos dos compositores” (CALAZANS, NUNES, 2012, p. 4). Muitas vezes sem perceber, que estavam reforçando ainda mais o machismo da época. Marques (2002), assim como Murgel e Santa Cruz, aborda a dificuldade que as mulheres tinham em ter um reconhecimento como compositoras, e as razões pelas quais a grande maioria delas foram excluídas na história da música. O autor utiliza para confirmar seu argumento, a citação de Mendonça (1982): Merecem ser refletido (...) os motivos que determinaram a ausência de letras de músicas compostas por mulheres nas décadas de 1930/1940. Ocorre que, 15Waldeck Artur de Macedo, mas conhecido como Gordurinha, foi um humorista, compositor, radialista e cantor brasileiro, fez sucesso na década de 1940 e 1950. 16 Esse disco, com direção musical de Hervé Cordovil trazia 14 composições das autoras citadas. Inezita Barroso. Inezita apresenta Babi de Oliveira - Juracy Silveira - Zica Bérgami - Leyde Olivé - Edvina de Andrade (Copacabana/1958). (MURGEL, 2010, p.10). 17 A autora menciona as compositoras Carolina Cardoso de Menezes, Gilda de Abreu, Zilda Gonçalves, Dona Ivone Lara e Dilu Melo, sendo essa última, a única, segundo a autora, que fugiria da regra de parentesco na música. (SANTA CRUZ, 1992, p. 20). https://pt.wikipedia.org/wiki/Humorista https://pt.wikipedia.org/wiki/Compositor https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Radialismo&action=edit&redlink=1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Cantor 29 naquela época, as mulheres não tinham ainda se apropriado de um discurso através do qual pudessem se constituir como seres humanos participantes [...]. Observa-se, por exemplo, que, até 1940 [as mulheres] não podiam participar da vida política do país [...] ou seja, a mulher não tinha ainda uma voz que pudesse ser significativa [...] Por esse motivo, se existiram mulheres compositoras, não chegaram a ter acesso aos meios de comunicação. (MENDONÇA, 1982, p.97).18 Nesse trabalho não pretendemos analisar esse processo das compositoras que não obtiveram reconhecimento no período das décadas de 30, 40 e 50, apenas mencionamos esses estudos para mostrar a dificuldade de ser cantora e compositora em uma época em que o machismo dominava a sociedade brasileira. É nesse contexto de preconceitos e disputas que se inserem as trajetórias e obras de Dolores Duran e de Maysa, objetos dos capítulos 2 e 3, respectivamente. Onde iremos analisar sua memória, nas biografias e trabalhos acadêmicos realizados sobre elas, e nas letras de suas composições, analisando o perfil dessas compositoras, como retratavam o amor, a dor e a angustia de ser mulher na década de 1950. 1.3 “Nós somos as cantoras do Rádio”: o Rádio e suas Rainhas Muitos estudos apontam que o rádio foi um instrumento que divulgou a cultura no país, influenciou comportamentos e inspirou e ditou modas e valores, mas poucos se especializaram nas intérpretes que movimentavam o período da década de 1940 e 1950. Uns dos primeiros trabalhos a abordar o tema foi Lenharo (1995), que se dedicou às trajetórias de Nora Ney e Jorge Goulart e o meio artístico de seu tempo. O autor apresenta o contexto cultural e social das décadas de 40 e 50, passando de forma ligeira pelas décadas seguintes (60, 70 e 80), utilizando-se de um amplo leque de fontes 18 Mendonça comete um equívoco, pois o voto feminino foi instituído pelo Código Eleitoral de 1932 e permitindo a eleição já para a Assembléia Constituinte de 1934 da deputada paulista Carlota Pereira de Queirós assim como a participação como delegada classista, pela capital federal, de Almerinda Farias Gama. As lutas femininas existiam em diversas esferas, como prova a partir da Constituição de 1934, tornando cláusula pétrea o voto feminino, a eleição de Antonieta de Barros, a primeira deputada estadual negra do Brasil, em Santa Catarina. “Vários artigos da Constituição de 1934 iriam de fato beneficiar a mulher, entre eles os que estabeleciam a regulamentação do trabalho feminino, a igualdade salarial e a proibição de demissão por gravidez. Mas a questão do papel da mulher não despertava consenso. O grupo católico, articulado em torno do Centro Dom Vital, fazia restrições à emancipação feminina, considerando-a uma ameaça à estabilidade familiar. Esse ponto de vista iria se manifestar freqüentemente nas expressões do cotidiano. Nas revistas humorísticas ilustradas, a mulher emancipada passaria a ser objeto de inúmeras charges e caricaturas.” (CPDOC, Anos de Incerteza (1930 - 1937), In: A era Vargas: dos anos 20 a 1945: Participação política feminina. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/Constituicao1934/ParticipacaoFeminina , visitado em 13/12/22016) http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos30-37/Constituicao1934/ParticipacaoFeminina 30 e lançando luzes sobre as revistas de teatro, os dancings e as boates até o apogeu do rádio e o começo da televisão. Lenharo (1995) descreve o crescimento da boemia no Rio de Janeiro, principalmente na Lapa, lugar dos famosos cabarés, onde circulava artistas, boêmios e malandros. Utilizando as memórias de Goulart e Nora Ney, o autor monta o cenário da Lapa, em crescimento desde 1910 e que atingiu seu período de ouro mais ou menos entre o final dos anos 1940. Os bares: o Siri, o Café Colosso, o Capela, o Café Bahia, o Imperial, os cabarés: o Apolo, o Royal Pigalle, o Vienna Budapeste, o Novo México e o Casanova faziam enorme sucesso. Nessa década também é famosa pelos repertórios musicais que embalavam os dancings (casa noturna dançantes onde abrigavam orquestras e cantores de prestigio como Jamelão, Nelson Gonçalves, Elizeth Cardoso, Jorge Goulart e Ruy Rey), os sambas-canção e os tangos argentinos. Esses espaços boêmios agitaram e dinamizaram a vida artística da cidade, o autor comenta: O Dancings trazia a opção nova para o tímido e o solteiro, sem alardear que ele, de fato, não tivesse outra alternativa para divertir-se. Era só comprar um cartão com trinta músicas, a “mil e quinhentos” cada uma. Escolhia-se a bailarina, mas dançava-se pouco por música tocada, pois as orquestras estavam orientadas para abreviar as músicas, fazendo-as curtas, na média de um minuto, para a casa faturar mais. (LENHARO, 1995, p. 23) Essas bailarinas, segundo Nora Ney, viviam em uma ambiguidade, ao mesmo tempo em que encantavam os salões, como deixa claro o samba-canção de Alberto Ribeiro e Jorge Faraj em 1939, “Garota do Dancing”, cujo verso “o perfume envolvente dos seus cabelos fatais” demonstra o fascínio que as envolviam. Também tinha sua imagem associadas a da prostituta, por trabalhar usando seu corpo, pois ele era oferecido a troco de dinheiro para se dançar. Tanto que para a sociedade da época, quando um homem casava-se com uma bailarina, ele fez uma oferta generosa, pois, tirou-a de um “mundo de pecados”. O que Lenharo deixa claro em seu livro é a construção da figura do cantor e compositor, que vê nesses cabarés, boates e dancing uma oportunidade para ganhar a vida, divulgando suas músicas e consequentemente, o samba e o samba-canção. Vários artistas estavam em alta, como: Wilson Batista, Ataulfo Alves, Custodio Mesquita, Silvio Caldas, Lamartine Babo, Ari Barroso, Nássara e uma figura muito especial, Araci de Almeida, que nesse momento divulga as músicas de Noel Rosa. 31 Também descreve a importância do rádio para alavancar a carreira dos artistas e na produção de uma cultura de massa, juntamente com as revistas da época e o teatro de chanchadas19: Depois do fechamento dos cassinos, o implemento de teatro de revista e das chanchadas cinematográficas formam com o rádio um tripé básico da produção massiva de cultura, mas o rádio sempre manteve um papel mais abrangente e concentrador. Ao redor desse tripé gravitavam a indústria do disco, as editoras de músicas, as revistas especializadas, a publicidade. (LENHARO, 1995, p.135) O rádio logo virou fenômeno popular, por ser um veículo que distribuía divertimento e informação, informação essa que estava cada vez mais ágil, divulgando acontecimentos do dia-a-dia das grandes cidades. O rádio também é responsável pela enorme migração do campo para a cidade, pois apresentava um mundo novo a esse migrante. Em meados dos anos 1950 a Televisão começou a ganhar espaço e fascinar os telespectadores. Ela reproduzia o padrão dos programas radiofônicos com os programas de auditórios (Chacrinha), musicais (encontro de grandes músicos e compositores e na década de 60, com os festivais de músicas da Record), humorísticos e as propagandas que começavam a ganhar espaço e as garotas-propagandas era uma sensação. O fascínio das imagens conquistou os ouvintes das rádios, que não estavam em queda livre, mas diminuía sua audiência e seus programas de auditório já não tinha o público de antes, caindo na mesmice. (LENHARO, 1995, p.160) Também merecem destaque a dissertação de Avancini (1996) e os livros de Hupfer (2009) e Aguiar (2010) que utilizam as rainhas do rádio como base para entenderem como funcionavam as indústrias da comunicação (rádio, revistas e a indústria fonográfica) e o papel social do cantor na década de 1940 e 1950. Avancini (1996), na dissertação intitulada “Nas tramas da fama: as estrelas do rádio em sua época áurea, Brasil, anos 40 e 50” irá abordar como as grandes estrelas do rádio ganharam espaço nesse meio de comunicação, que no inicio tinha a função educacional, ou seja, de promover o aumento do nível cultural e intelectual da população. 19 As chanchadas, espetáculos ou filmes, era um tipo de comédia musical carnavalesca que tentou imitar os filmes musicais norte-americanos, no entanto, o realizador brasileiro ao perceber a impossibilidade de fazer um produto semelhante ao importado, passou a fazer adaptações debochadas dos originais americanos. 32 A autora, assim como Hupfer (2009), acredita que a mudança de rumo na função do rádio, foi devido à introdução das propagandas, que irá sustentar financeiramente as emissoras e também a contratação dos cantores com mais apelo popular, dando mais visibilidade aos programas, principalmente no final da década de 1940, com os programas de auditórios. Avancini (1996) baseia-se nos estudos de José Ramos Tinhorão e Maria Elvira Federico, uns dos principais estudiosos do assunto, para explicar a popularização do rádio. Hupfer (2009) analisa algumas intérpretes do rádio, a indústria fonográfica e a publicidade, traçando um perfil da indústria cultural brasileira, na década de 1940 e 1950, utilizando o concurso das Rainhas do Rádio, para demonstrar a evolução indústria cultural. A autora descreve o perfil de cada rainha e como é seu papel dentro dessa indústria de comunicação (rádio, revistas e indústria fonográfica), pois elas são umas das principais mantenedoras (com as vendas dos discos e da publicidade) dessas indústrias. Por sua vez, Aguiar (2010) também celebra as intérpretes do período analisando a vida e a obra das principais cantoras da época, como Dolores Duran, Maysa, Zezé Gonzaga, Ademilde Fonseca, Angela Maria, Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Nora Ney, Linda Batista, Dircinha Batista, Isaurinha Garcia e Inezita Barroso. O autor revela várias histórias das principais cantoras do período, as dificuldades, as conquistas de cada uma e a relação com a principal rádio do período, a Rádio Nacional. Em termos cronológicos Hupfer (2009) identifica o inicio da história do rádio no Brasil a partir de “20 de abril de 1923, quando o antropólogo Roquette-Pinto e seu professor Henrique Moritze fundam a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro” (p.30), com o lema de levar o progresso e a cultura para toda a população, e que se tornará um poderoso instrumento de divulgação e entretenimento em poucos anos. O rádio utilizou muitos meios para se tornar cada vez mais popular, em uma grade de programação na qual os programas de variedades e de auditórios alcançando altos índices de audiência ao mesmo tempo em que as propagandas faziam crescer as emissoras com os patrocínios. Segundo Hupfer: 33 A propaganda foi a grande responsável pelos novos rumos que o veículo passou a tomar. Com a introdução do patrocínio, surgem os programas de variedades, e, com eles, os artistas populares e a música popular invadem o rádio. (HUPFER, 2009, p. 31). Em 1936, entra no ar uma das emissoras de rádio mais famosas do Brasil, a Rádio Nacional, que divide espaços com outras emissoras como Rádio Tupi, Rádio Record, Rádio Cruzeiro do Sul e Rádio Globo. Wasserman (2002) declara que: A Rádio Nacional criou a fórmula dos programas de auditório, passando a reunir mil pessoas num só palco. Mas a popularização, como fenômeno, só aconteceu a partir da segunda metade da década de 1940, com a introdução de outros estilos, como as grandes orquestras, principalmente as big bands internacionais. A moda, que predominava na vendagem de discos e também nas paradas de sucesso, gerava uma certa frustração pela ausência de um som mais vigoroso (timbres de samba) na música brasileira. (WASSERMAN, 2002, p.27) Essa influência da música americana começava a ser criticado pelos folcloristas20 da época, principalmente por Almirante e Lúcio Rangel, que criaram, em 1954, a Revista da Música Popular, com o intuído de legitimar a música popular brasileira, o samba. A Revista da Música Popular teve um período curto de duração, de 1954 a 1956, mas publicou vários títulos onde criticava o cenário musical da época, caracterizando-a como decadente, pela grande oferta de ritmos variados e influências estrangeiras, adotando uma postura de defesa das ideias dos folcloristas que utilizando o pensamento de Mário de Andrade, um dos primeiros estudiosos da música popular, valorizavam o samba da época de Noel Rosa como o único símbolo musical nacionalista. Napolitano (2005) sobre isso menciona: A Revista da Música Popular, portanto, tomou para si uma tarefa inusitada: folclorizar aquilo, na perspectiva de Mário de Andrade, (NÃO TEM UM “que” AQUI) era acusado de ser a expressão da mistura e da degeneração cultural do Brasil: o samba carioca. Mas os ‘folcloristas urbanos’ não se intimidaram com as visões de Mário sobre o gênero. Apropriaram-se de suas falas que, devidamente deslocadas, acabavam por legitimar o enviesamento do seu próprio projeto. Tratava-se de aplicar, na cultura popular urbana do samba, o método de localização, coleta e classificação do ‘fato folclórico’, isolando-o paradoxalmente, dos desdobramentos da mesma cultura urbana 20 Eram os críticos que “tomaram para si a tarefa de ‘salvar’ a música popular, tratava-se de separar o passado glorioso do samba e da música popular como um todo da popularização (exageros performáticos, fanzinato apaixonados e acríticos, tratamento musical indevido de gêneros nacionais) e da internacionalização crescente (misturas musicais com o jazz, rumba, bolero, sem critérios seletivos)”. (NAPOLITANO, 2005, p. 60) 34 que havia desenvolvido o vírus da sua própria contaminação. (NAPOLITANO, 2005, p. 60) O autor comenta que além da revista, Almirante, Lúcio Rangel e outros patrocinadores da revista, divulgavam nos programas de rádio e em vários shows os sambas e os compositores de grande renome da Época de Ouro, 1930, sendo o mais famoso o “I Festival da Velha Guarda”, em 1954, na Rádio Record, “que reuniu os pioneiros do samba, Pixinguinha, Donga e João da Baiana entre outros”. (p. 61) Wasserman (2002) realiza um levantamento das músicas mais tocadas nas rádios durante os anos de 1954 a 1956, período em que a Revista da Música Popular circulou, para averiguar a porcentagem que a música estrangeira ocupava nas programações das rádios e assim questionar a suposta crise que a música brasileira passava na época, em função da difusão cada vez maior desse gênero musical no país. Segundo a autora, o samba ainda era um ritmo muito executado nas maiores emissoras de rádios, mas também dividia espaço com outros ritmos como a rumbas, jazz, boleros, fox e marchinhas de Carnaval e o samba-canção. O samba-canção ou samba de fossa, dos conhecidos compositores Antonio Maria, Herivelto Martins, Lupicínio Rodrigues e Ataulfo Alves também fazia grande sucesso, assim como o baião de Luiz Gonzaga (Gonzaguinha era o filho que só gravou na década de 70-80!). Neto (2007) esclarece que o “termo ´fossa´, gíria surgida nesse período para se referir às dores de amor, passaria para o vocabulário musical brasileiro como um gênero caracterizado por melodias dolentes e letras que falavam de corações partidos” tornando-se quase que uma modinha. Segundo Neto (2007, p. 54); Os sambas-canções de Antonio Maria – autor de ´Ninguém me ama´21, quase um hino à dor-de-cotovelo – e da carioca Dolores Duran – que compôs junto com Edison Borges a ´Canção da Tristeza’ 22- com sua atmosfera noturna e passional, eram o exemplo mais bem-acabado do estilo. 21 A música de Fernando Lobo e Antônio Maria, gravada por Nora Ney, Lúcio Alves e Nat king Cole, entre outros, lança um lamento: “Ninguém me ama, Ninguém me quer, Ninguém me chama, De ´meu amor´, A vida passa, E eu sem ninguém, E quem me abraça, Não me quer bem, Vim pela noite tão longa, De fracasso em fracasso, E hoje descrente de tudo, Me resta o cansaço, Cansaço da vida, Cansaço de mim, Velhice chegando, E eu chegando ao fim”. 22 A música, também conhecida como “A morte desse amor”, gravada pela própria Dolores Duran e também por Lúcio Alves, entre outros, tem em sua letra o pedido de “Que eu nunca mais escute, O som da tua voz, Que eu não te veja mais, jamais, E que não me comova mais, O teu olhar, Que tudo teu em 35 Tendo como base seu levantamento das músicas, a autora declara que: [...] é possível verificar que o samba ocupava 30% do repertório de sucesso, seguido de perto pelo samba-canção, também com quase 30%. Já as marchas tinham menos de 10%, mas esse índice variava conforme o mês, por causa do Carnaval, podendo chegar, em fevereiro, a ocupar 50% do repertório total. Os ritmos internacionais, como o bolero, o tango, a rumba e o fox tomavam 20% do repertório. Essa porcentagem era quase invariável e por isso mesmo, os críticos da RMP afirmavam que um número cada vez maior de boleros e ritmos estrangeiros tomava conta das rádios, das revistas especializadas e da vendagem de discos. Para a Revista esse cenário era “apocalíptico e trágico” e caberia ao próprio periódico retomar a tradição perdida. (WASSERMAN, 2008, p.) No meio desse cenário de criticas, as intérpretes começaram a ganhar mais visibilidade quando os concursos de Rainha de Rádio ajudaram a popularização das cantoras, além dos programas de auditórios que também eram uma ponte de ligação entre as cantoras e seu publico, permitindo que elas começassem a ser reconhecida pelas músicas que cantam e fizessem, em alguns casos, mais sucesso que o compositor. O inicio da carreira de cantora seguia dois caminhos, ou a moça era de uma família que seguia traços artísticos, como o pai que canta ou toca algum instrumento musical, e assim desde criança tem uma relação maior com a música, ou a moça era de família mais humilde, e que em sua maioria, “não admitiam ter entre seus integrantes uma artista de rádio, vista, a partir de meados da década de 1930, como uma pessoa de moral duvidosa”. (HUPFER, 2009, p.72) A propagação da radiodifusão nos lares brasileiros permite então que as vozes das cantoras ganhem destaque, que por sua vez permitiu que revistas de variedades explorassem o filão mercadológico de noticiar a vida das novas estrelas e dos destaques do rádio, inclusive com o surgimento de publicações especializadas sobre o veículo e seus artistas e bastidores como a Revista do Rádio e a Radiolândia. Wasserman (2002) aborda que a Revista de Música Popular também divulgava algumas cantoras do rádio, mas seu foco era mais os compositores, pois acreditava, em uma perspectiva misógina, que a ascensão das intérpretes “parecia corroborar a ideia de mim se vá, E mais além, se eu te lembrar, Terá de ser assim, Com mágoa e dor, Que eu viva para sempre, A morte deste amor”. 36 decadência, enquanto que, a fase do compositor tornava-se cada vez mais símbolo de um passado representativo da brasilidade”. (p.43)23 No entanto o processo de divulgação dos artistas e criação dos concursos de eleição das Rainhas e dos Reis do Rádio tinha como consequência serem muito requisitados para gravarem discos e alguns compositores insistissem que suas canções fossem gravadas pelos intérpretes mais populares, como por exemplo, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e Nora Ney, inclusive sendo a última muito requisitada por Antonio Maria (que consagrou interpretações de algumas de suas composições como Menino Grande, Ninguém me ama e Onde anda você). O concurso de Rainha do Rádio iniciou-se em 1943, com a iniciativa do presidente da Associação Brasileira de Rádio (ABR) e diretor da Radio Nacional, Vítor Costa, e tinha como objetivo arrecadar dinheiro para a construção de um Hospital dos Radialistas. A votação era feita a partir da compra de cupons que vinham nas populares revistas de rádio da época, como a Radiolândia e a Revista do Rádio, vinculando o artista ao poder econômico de seus patrocinadores. As revistas especializadas traziam curiosidades dos artistas, como estilo de vida, amores e casamentos, ao mesmo tempo em que divulgavam fofocas dos bastidores do rádio, como na famosa coluna “Mexericos da Candinha” da Revista do Rádio, na qual personagens fictícias criadas pela revista contavam casos e escândalos das estrelas e onde, na maioria dos escândalos, a mulher levava o ônus de ser sempre culpada de um casamento mal sucedido ou por uma traição. Essas revistas alcançaram grandes sucessos, principalmente pelos fãs-clubes que queriam seguir de perto seus artistas favoritos. A grande vencedora dos fãs-clubes era Emilinha Borba, que fazia muito sucesso tanto na Rádio Nacional como nos filmes da Atlântica, ao mesmo tempo em que mantinha uma grande rivalidade com Marlene, como um grande jogo publicitário da Rádio Nacional para receber cartas dos fãs e também vender as fichas nas revistas para os concursos de Rainha do Rádio. Uma recorrência nesses jogos publicitários era as revistas divulgarem uma imagem das artistas enquanto moças prendadas, sendo que muitas das entrevistas na 23 A autora fez uma amostragem dos artistas que mais aparecem na revista, e podemos perceber que a grande maioria são compositores e/ou cantores que divulgam os sambas tradicionais. Entre eles estão: Almirante, Aracy de Almeida, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Pixinguinha, Sinhô e Wilson Batista. 37 qual o cotidiano das cantoras era o foco sobravam detalhes de como a artista era prendada, religiosa e de família. O papel social de ídolos, que essas cantoras assumiam, as obrigava a assumirem certas posturas de reforço dos preconceitos machistas, pois elas ainda lutavam contra vários tabus da época, sendo pressionadas a darem bons conselhos e exemplos de boa conduta para suas fãs. Lenharo deixa claro isso quando analisa a imprensa da época: Ao longo dos anos 50 o meio artístico sofreu uma pressão muito forte de uma imprensa fascistóide, orquestrada pelo cabotino Roger Daltro, editor-chefe da revista Escândalo e de outras congêneres, menos constante. A linha editorial da revista adotava um moralismo chulo, rebarbativo, para atrair a atenção do leitor envolvido pela teia conservadora dos costumes. (LENHARO, 1995, p.194) As principais rainhas do rádio foram: Linda Batista (1936) que reinou por 11 anos até o concurso ser reorganizado pela Associação Brasileira do Rádio em 1948, Dircinha Batista (1948), Marlene (1949), Dalva de Oliveira (1951), Mary Gonçalves em (1952), Emilinha Borba (1953), Ângela Maria (1954), Vera Lúcia (1955), Dóris Monteiro (1956-1957) e a ultima rainha foi Julie Joy (1958). Linda e Dircinha Batista eram irmãs, vinham de famílias de artistas, pois seu pai, Baptista Júnior, era ventríloquo, cantor e compositor e começaram suas carreiras ainda crianças. Linda cantava marchinhas e foi batizada como “Rainha das Marchinhas”, gravou mais de 22 filmes entre 1930 e 1960. Fez muito sucesso como intérprete da música do carnaval de 1950, Nega maluca, de Fernando Lobo e Evaldo Rui e do samba- canção Vingança, de Lupicínio Rodrigues, em 1951. Dircinha era considerada cantora de mais talento, pois tinha uma voz mais trabalhada, trabalhou em diversas emissoras de rádios e fez muito sucesso gravando o samba-canção Nunca, também de Lupicínio Rodrigues em 1952. A terceira Rainha do Rádio, Marlene, ao iniciar sua carreira como cantora, sofreu uma pressão negativa da família, mas mesmo assim não desistiu de ir morar no Rio de Janeiro para começar sua careira artística. No começo era crooner do Copacabana Palace e em 1948 foi trabalhar na Rádio Nacional, quando ganhou o concurso de rainha, em 1949, ainda não era uma cantora muito conhecida, revelando assim como o concurso tinha sido dominado pelos patrocinadores, e não pelos fãs- clubes que comprava os cupões nas revistas, pois quem era a favorita para ganhar o concurso era Emilinha Borba. Depois de ganhar o concurso, Marlene, tornou-se muito 38 popular, principalmente por conta da criação de uma rivalidade com Emilinha Borba. Gravou um grande sucesso de Luis Antonio e Jota Jr, em 1951, Lata d’água. Dalva de Oliveira já fazia sucesso em 1936 no Trio de Ouro, casada com uns dos integrantes, o compositor e cantor Herivelto Martins, ela era a estrela do trio e garantiu seu sucesso até 1948, quando decide seguir carreira solo depois da separação tumultuada com Herivelto Martins. Grava o samba Tudo acabado, de J. Piedade e Osvaldo Martins, em 1950, começando uma batalha musical com o ex-marido. Dalva ganha uma fama de mulher devassa, depois da música de Herivelto Martins Caminho Certo, onde diz “Eu deixei o meu caminho certo/ E a culpada foi ela/ Transformava o lar na minha ausência/ E qualquer coisa abaixo da decência” e Cabelos Brancos. Em seguida Ataulfo Alves presenteia Dalva com a canção Errei sim, que se torna um grande sucesso na época. O caso passa por diversas situações, as revistas da época hostilizam a cantora, colocando-a como uma mãe relapsa e a acusando de ser a culpada do casamento não ter dado certo24. Mary Gonçalves, rainha em 1952, não era conhecida por ser cantora e sim pelos seus trabalhos no cinema. Segundo Hupfer (2009) ela “tinha pouco espaço na imprensa, e essa situação só mudou com a proximidade do concurso”. (p.87). Nesse ano, gravou pela Sinter o LP Convite ao romance, no qual incluiu três composições de Johnny Alf, Estamos sós, O que é amar e Escuta. Lançou também, em disco de 78 rpm, os sambas- canção Rotina, de Billy Blanco e Vem depressa, de Klécius Caldas e Armando Cavalcânti. No ano seguinte, gravou com Lírio Panicali & Orquestra o baião Coreana (Humberto Teixeira e Felícia de Godoy) e o bolero Aperta-me em teus braços, de José Maria de Abreu e Jair Amorim. Gravou também o samba-canção Podem falar, de Johnny Alf. Emilinha Borba é a mais popular das Rainhas do Rádio, predileta ao posto desde 1949, quando perde a coroa para Marlene, só consegue ganhar em 1953. Conhecida como a “favorita da marinha” tinha uma imagem de “mulher do lar” e gostava de valorizar essa imagem. Hupfer (2009) declara que “ajustar a imagem aos valores vigentes significava ser aceita, já que era conceito corrente que ‘gente de rádio boa coisa não é’”. (p. 89). Gravou grandes sucessos como: Chiquita bacana, de Alberto 24 A vida amorosa do casal é tema de diversos estudos, principalmente por Lenharo (1995), Castro (2015), Aguiar (2010) e Hupfer (2009). https://pt.wikipedia.org/wiki/Johnny_Alf https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Armando_Cavalc%C3%A2nti&action=edit&redlink=1 https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Armando_Cavalc%C3%A2nti&action=edit&redlink=1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Maria_de_Abreu https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Maria_de_Abreu https://pt.wikipedia.org/wiki/Jair_Amorim 39 Ribeiro e João de Barro (1949) e Tomara que chova, de Paquito e Romeu Martins (1950). A sétima rainha coroada em 1954, Ângela Maria, vinda de família humilde, trabalhou de operária e de atendente. Começou a cantar no coral da igreja e em 1949 participou de vários programas de calouros, tornando-se uma cantora do rádio em 1954, participando de vários programas na Rádio Mayrink Veiga e na Rádio Nacional. Interpretou várias composições de Herivelto Martins como: Recusa (1954), Serenata a Virgem Maria (1956), Papai Noel esqueceu (1956), Deus te abençoe (1957) e Mamãe (1958). Vera Lúcia, rainha em 1955, nasceu em Portugal em 1930, quando completou 10 anos veio morar no Brasil. Aos 20 anos começou a participar dos programas de colouros, trabalhou na Rádio Guanabara e na Nacional. Vera Lúcia não era uma cantora popular e a explicação de ter ganhado o concurso de rainha foi pelo fato do gaúcho Manoel Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Rádio e apresentador de um programa na Rádio Nacional, queria homenagear a cantora Carmen Miranda, que estava no Brasil para tratar de alguns problemas de saúde. E teve a ideia de eleger uma portuguesa para ser a Rainha daquele ano. O radialista através de sua influência junto aos meios de comunicação articulou de modo tão competente que a sua candidata acabou sendo eleita25. A penúltima rainha, Dóris Monteiro, vinha de uma família da classe média, e não recebeu criticas da família quando decidiu sem cantora, mas deveria terminar os estudos antes de seguir carreira. Começou a carreira participando de muitos programas de calouros, como muitas cantoras da época, sendo contratada pela Rádio Tupi em 1951. Nas revistas da época era conhecida como “menina-moça”, pois era acompanhada pela mãe em todos seus compromissos profissionais, ganhando uma reportagem especial da Revista do Rádio, em 1953, quando casou-se com Carlos Ruy. Hupfer (2009) menciona essa reportagem, onde a revista faz questão de colocar os valores familiares de boa filha sendo entregue ao bom moço para o casamento: A menina-moça conheceu seu príncipe encantado, Carlos Ruy. Casou-se. A mamãe deixou de ser vista ao seu lado. Cedeu lugar, muito justamente, ao marido. O que não quer dizer que a mamãe tenha perdido a vez no coração de Dóris, não. Mas o mais importante: Dóris cortou as tranças. Num golpe, rompeu com o passado. Tornou-se mulher. (HUPFER, 2009, p. 96). 25Mais informações sobre a Rainha do Rádio, Vera Lúcia, no site Rádio em Revista. Disponível em: http://www.radioemrevista.com/vera-lucia-rainha-em-1955/ Visitado em: 01/02/2107. http://www.radioemrevista.com/vera-lucia-rainha-em-1955/ 40 Essa imagem era sempre transmitida pelas revistas, que mesmo sentindo os ventos da modernidade, da mulher mais dona de si, ainda preservava a imagem de boa moça, principalmente das estrelas do rádio, pois elas influenciavam a maioria das moças dos anos 1950. A última representante do concurso de rainha do rádio, Julie Joy, não recebeu muitos holofotes da mídia, como aconteceu com suas antecessoras, pois o concurso já estava se desgastando e não tinha mais o glamour dos tempos passados. Começou sua carreira em meados dos anos 50, interpretando canções em inglês e posteriormente passou a interpretar músicas brasileiras. Gravou o primeiro disco em 1956, com o fox Verão Em Veneza (Incini e Ribeiro Filho), e o samba Finge Gostar (Jaime Florence e Chico Anysio). Por essa época também passou a fazer parte do elenco de artistas da Rádio Nacional, onde cantava, preferencialmente em inglês, alguns sucessos da época. Ao observarmos as Rainhas do Rádio, podemos perceber como o concurso era um jogo de propagandas de patrocinadores, como Lenharo (1995) alerta. O título Rei/Rainha do Rádio tinha grande peso na vida artística dos cantores, pois significava triunfo, prêmios, reconhecimento público, estrelato. Gravadoras, emissoras (Nacional versus Tupi) arrecadadoras (UBC versus SBACEM) estavam na jogada. O cantor que chegava ao título não o fazia por voto popular e sim por votos pagos que rendiam dinheiro à ABR. Empresas patrocinavam os cantores a ponto de reverter o cômputo geral da votação final. Ficara célebre o concurso a partir de 1949, em que Marlene, patrocinada pela Antártica, conseguira vencer Emilinha, então favorita. (LENHARO, 1995, p. 70). Muitas cantoras de renome como: Nora Ney, Dolores Duran, Zezé Gonzaga, Elizeth Cardoso e Maysa, ficaram fora desses concursos, ficando claro que para se torna uma rainha não era preciso apenas cantar bem e ter carismas. E sim ser indicada por um bom patrocinador dos programas de rádio, principalmente da Rádio Nacional. No campo musical a participação feminina era claramente estigmatizante, sendo que poucas mulheres se aventuraram a colocar sua “integridade moral” sob suspeita ao assumirem a função pública de artista, quer como intérprete, quer como compositora, embora o crescente prestígio das cantoras, que através das “ondas do rádio” eram alçadas à categoria de divas da música e passam a dividir o prestígio que anteriormente era atribuído a cantores, como Mario Reis, Francisco Alves, Lamartine Babo, Almirante, João Goulart, Jorge Veiga, entre outros, vai questionar os preconceitos vigentes. 41 No entanto, nesse campo artístico, se o espaço do canto era ocupado por homens e mulheres, a composição, por sua vez, era um reduto claramente masculino, sendo que em relação aos sambas-canções os destaques enquanto compositores eram Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins e Antônio Maria. Nesse contexto, mesmo alcançando um grande sucesso como intérpretes as mulheres ainda não tinham voz para cantar seus sentimentos e vontades, apenas emprestavam a voz para os compositores da época, de modo que esse tipo de “ventriloquismo” artístico, no qual a identidade de gênero feminina era um produto do “eu lírico” de compositores masculinos, produziu um amplo repertório de canções que reafirmavam certos papéis e estigmas, ou como afirma Santa Cruz (1992): Muitas das “cantoras do rádio” e algumas da atualidade – sem qualquer consciência crítica - emprestaram seus talentos vocais à difusão de canções totalmente depreciativas da imagem feminina, reiterando preconceitos morais, religiosos, e culturais da sociedade contra a mulher. (p.16). Um exemplo disso é o samba, lançado no carnaval de 1950, Nega Maluca26 composto por Fernando Lobo e Evaldo Rui, que é interpretada por Linda Batista, tornando-se um grande sucesso uma letra em que podemos identificar um preconceito duplo contra o gênero feminino: o racial, discriminador da mulher negra, e o moral, penalizando-a por ser mãe solteira. (SANTA CRUZ, 1992, p.17) Há muitos outros exemplos que podemos citar, pois a mulher como intérprete muitas vezes, até sem perceber, divulgava a violência e denegria a imagem feminina. Santa Cruz declara que “na realidade, elas asseguravam através do seu canto o que outras mulheres já referendavam, nos lares, nas escolas (por meio das mães e das professoras) e principalmente no relacionamento afetivo-sexual com os parceiros”. (p.17) A ruptura dessa perspectiva masculina do “eu lírico” feminino, que se manifesta pelo monopólio dos compositores sobre o repertório das cantoras é, além da qualidade poética e do sucesso alcançado, que as composições de Dolores Duran e Maysa surgem como um marco na historiografia da música popular brasileira nesse período. 26 Tava jogando sinuca/ E uma nega maluca/ Me apareceu./ Vinha com o filho no colo/ E dizia pro povo/ Que o filho era meu:/ Meu senhor,/ Toma que o filho é seu!/ Meu senhor,/ Guarda o que Deus lhe deu!/ Há tanta gente no mundo,/ Mas, meu azar é profundo./ Veja você meu irmão,/ A bomba estourou na minha mão./ Tudo acontece comigo,/ Eu que nem sou do amor./ Até parece castigo,/ Ou então, influência da cor. 42 1.4. O samba-canção e o cenário musical dos “Anos Dourado” Conforme já afirmamos, nos finais da década de 1940 e inicio da década de 1950, nos deparamos com um cenário musical muito diversificado, no qual os ritmos se alternavam entre os estrangeiros e os regionais, sendo os primeiros representados pelo bolero27, rumba28, fox29, tango30, mambo31 e valsa32 e os segundos pelo choro33, samba34, baião35, xote36, coco37 e a moda de viola38. No meio desse contexto o samba e suas várias nuanças dá lugar para o samba- canção que se torna um grande sucesso nesse período. O ritmo, também conhecido como fossa ou dor-de-cotovelo, começa a ganhar espaço na década de 1940 e 1950, sendo o mais tocado fora do período carnavalesco. (CASTRO, 2015, p. 72). Napolitano descreve o período como rico em relação aos vários gêneros musicais, diferentes de alguns estudiosos, como Castro (1990), que define o período como uma “grande quermesse”, onde se produzia música de forma comercial. 27 Gênero musical de origem latino-americana, Cuba, sendo o primeiro sucesso a música “Aquellos ojos verdes” (1929), composto pelo cubano Nilo Menéndez. 28 Dança cubana, com ritmos que influenciou o flamenco. Seus instrumentos típicos são: Chocalho, congas e claves. 29 Ritmo conhecido por ser uma marcha. Não é um ritmo árabe, mas sim uma variação do foxtrot. 30 O tango é de origem argentina, ritmo dançante que fez muito sucesso nas boates da Argentina no século XIX, utiliza os instrumentos musicais: piano, acordeão, bandoneón , violão, violino e contrabaixo. 31 Ritmo também de origem cubana, com ritmos mais rápidos que o Tango, utilizando trombone e trompete como uns dos seus instrumentos musicais. 32 A valsa surge na Áustria e na Alemanha, sendo um ritmo mais da elite, chega ao Brasil com a corte portuguesa em 1808. 33 Ritmo que surgiu a partir de 1970, no Rio de Janeiro, “da fusão de ritmos europeus com ritmos afro- brasileiros. Eles utilizavam, entre outros instrumentos, violão, flauta, cavaquinho, que dão à música um aspecto sentimental, melancólico e ‘choroso’”. http://www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/cultura/choronovo.html. Visitado em 01/02/2017. 34 O samba, oriundo do Rio de Janeiro, suas raízes vem do samba-de-roda, nascido na Bahia. Sendo o primeiro samba registrado em 1916, Pelo Telefone, gravado no Rio de Janeiro. 35 Baião originou-se na região nordeste do Brasil, espalhando para outras regiões devido aos sucessos de Luis Gonzaga na década de 1940. Seus instrumentos musicais são: Triangulo Sanfona e Zabumba. 36 Xote é um ritmo musical dançante executado por diversos cantores e conjuntos de forró. É um rítmo dançante muito tocado nas festas juninas em diversos estados do Nordeste brasileiro. O xote gaúcho é uma variação do ritmo, tocado no extremo sul do Brasil. https://www.significados.com.br/xote/ Visitado em 13/11/ 2017. 37 Um dos principais ritmos executados nas festas juninas, o coco é uma das tradições da cultura nordestina. Marcado pela leva dos instrumentos de percussão – ganzá, surdo, pandeiro e triângulo. O ritmo ficou conhecido em 1953, quando Jackson do Pandeiro, grava a música “Sebastiana” de Rosil Cavalcanti e no ano seguinte, outro sucesso cantado por Jackson do Pandeiro “Um a Um” composta por Edgar Ferreira. (SEVERIANO, Jairo; MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de música brasileira. 6. ed. São Paulo: Editora 34, 2006. v.1:1901-1957, p.298-307). 38 “No Brasil tomou a significação de um tipo de canção rural. Na região centro-oeste e sudeste, as modas de viola são previamente escritas e decoradas. Já no Nordeste, os cantadores cantam de improviso”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Moda_de_viola Visitado em 13/11/2017. http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/07/aquellos-ojos-verdes.html http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/07/aquellos-ojos-verdes.html http://www.revelacaoonline.uniube.br/a2002/cultura/choronovo.html https://www.significados.com.br/xote/ https://pt.wikipedia.org/wiki/Moda_de_viola 43 A cena musical dos anos 1950, como já destacou Lenharo, era mais rica do que as vozes apocalípticas descreviam. Ao lado das marchinhas gritadas, sambas lascados e boleros gemidos, muitos eventos musicais dos anos 1950 apontam para a modernidade musical, e foram incorporados ao repertório mais valorizado da MPB. Consagrou-se um tipo de audiência de música popular que não chegava a romper completamente com os paradigmas de música brasileira dos anos 1930, agregando alguns gêneros musicais nordestinos, sertanejos e estrangeiros. (NOPOLITANO, 2010, p.65). Encontramos poucas referências sobre o assunto, devido ao maior interesse dos pesquisadores pelos períodos anteriores e posteriores à década de 195039, como o samba (no Rio de Janeiro) e a bossa nova. O período também é pouco estudado na História da Música Brasileira. Severiano (2008) o delimita entre os anos 1946-1957 como “a transição” (p. 271). Em outra ocasião, Severiano e Mello referem-se a “uma espécie de ponte entre a tradição e a modernidade” (2006, p. 241). Marcos Napolitano (2005) traz como proposta de periodização da música brasileira, num terceiro momento,