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UNESP – Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita Filho”
Faculdade de Ciências e Letras
Departamento de Linguística
O DISCURSO SOBRE A AULA DE
MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA
REVISTA NOVA ESCOLA
Carlos Eduardo da Silva Ferreira
Araraquara – SP
2 0 1 5
2
UNESP – Universidade Estadual Paulista
“Júlio de Mesquita Filho”
Faculdade de Ciências e Letras
Departamento de Linguística
O DISCURSO SOBRE A AULA DE
MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA
REVISTA NOVA ESCOLA
Dissertação para apresentação ao Exame de
Defesa do Programa de Pós-Graduação em
Linguística e Língua Portuguesa da Faculdade
de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara para
a obtenção do título de Mestre nesta área.
Linha de pesquisa: Estrutura, organização e
funcionamento discursivos e textuais.
Orientação: Professora Doutora Marina Célia
Mendonça.
Bolsa: Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES)
Araraquara – SP
2 0 1 5
3
CARLOS EDUARDO DA SILVA FERREIRA
UNESP – Faculdade de Ciências e Letras /Campus de Araraquara
O DISCURSO SOBRE A AULA DE
MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA
REVISTA NOVA ESCOLA
Data da defesa: 31 de março de 2015
MEMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA:
______________________________________________________________
Profa. Dra. Marina Célia Mendonça (UNESP/ FCL)
Presidente da banca e orientadora da dissertação
______________________________________________________________
Prof. Dr. Geraldo Tadeu Souza (UFSCar/Sorocaba)
Membro titular
______________________________________________________________
Profa. Dra. Letícia Marcondes Rezende (UNESP/ FCL)
Membro titular
______________________________________________________________
Profa. Dra. Anise de Abreu Gonçalves D'Orange Ferreira (UNESP/
FCL)
Membro suplente
______________________________________________________________
Profa. Dra. Jauranice Rodrigues Cavalcanti (UFTM)
Membro suplente
4
Dedico este trabalho a todos os lares,
e inclusive ao meu. Dedico também a todas as pessoas que passaram
por minha vida – seja a forma como for -, pois são elas todas que me formam, que
me transpassam certo ar de instigantes transformações.
Aos sonhadores praticantes de realidade terrena-transcendental.
Ao caos que nos move!
À querida sophia.
5
Agradecimentos
Agradeço a minha família, a minha orientadora, a todos meus
professores que se dedicaram profundamente ao trabalho de
participarem comigo em minha construção como sujeito; professores
que estiveram comigo no prezinho, no Fundamental I e II, no Ensino
Médio, na Graduação e na Pós-Graduação, em cursos como música,
informática, idiomas, dança, profissionalizante e inúmeras outras
formas que me ajudaram/ajudam com que eu me expresse. De alguma
forma, levo comigo com um enorme respeito.
A base desta dissertação se firmou no meu caminho da Pós-graduação,
por isso agradeço imensamente a todos os debates proporcionados
principalmente pelos/mediados por meus grandes professores da
Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, lugar onde me formei.
Ressalto também a presença importante de meus professores no
Ensino Básico. As relações escolares sempre foram para mim
momentos de debates. Sinto que tive belezas e também tive
confrontos moralistas, mas tudo isto me constitui e constitui minha
luta na esfera pedagógica. Agradeço a todos colegas de turmas que
passaram por mim. Cada um sabe da importância que dou às suas
atuações. Gosto de estar nos bastidores, atuando na calada! Obrigado
às pessoas e às entidades como a CAPES que me auxiliam
financeiramente.
6
‘Creo que he visto una luz al otro lado del río…’
Jorge Drexler
‘Nenhum signo cultural, quando compreendido e dotado
de um sentido, permanece isolado: torna-se parte da
unidade da consciência verbalmente constituída. A
consciência tem o poder de abordá-lo verbalmente. Assim,
ondas crescentes de ecos e ressonâncias verbais, como as
ondulações concêntricas à superfície das águas, moldam,
por assim dizer, cada um dos signos ideológicos. Toda
refração ideológica do ser em processo de formação, seja
qual for a natureza de seu material significante, é
acompanhado de uma refração ideológica verbal, como
fenômeno obrigatoriamente concomitante. A palavra está
presente em todos os atos de compreensão e em todos os
atos de interpretação. ’
Marxismo e Filosofia da Linguagem
7
RESUMO
Fazendo uma leitura das revistas Nova Escola do período de março/1986 a
dezembro/2012, esta nossa pesquisa promove debates, a partir da perspectiva
teórica da Análise Dialógica do Discurso, sobre discursos veiculados por
esta/nesta revista educacional. Investigamos neste trabalho como são construídas
as compreensões sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que
ressignificam o sentido de aula de Matemática na revista Nova Escola: como
discursos atribuídos ao professor de matemática se manifestam sobre o
acontecimento aula? Como se materializam ao longo da história deste periódico
nas seções de Nova Escola? Por meio da análise dos discursos referentes ao
ensino de matemática em capas, plano de aula e matérias/reportagens produzidos
pela revista Nova Escola podemos construir uma rede de dados de como são
pensadas/refletidas/preparadas as relações diretas e radiais (difusas) entre
professor–aluno–conhecimento durante o processo do momento aula. Fazemos
metodologicamente uma análise das capas de Nova Escola demarcando e
correlacionando períodos e características entre 1986 e 2012. Esse movimento nos
dá caminhos para um debate maior, relacionado a uma pontuação entre a voz da
instituição Nova Escola, a voz do professor de matemática e vozes sobre o ensino
de matemática. Trazendo para nossa dissertação esse movimento exploratório,
cotejamos oito capas de edições regulares e mais cinco de edições paralelas que se
ligam diretamente à chamada de temática sobre “Educação matemática”. O corpus
também é composto por exemplos de gêneros de reportagem/matérias na
correlação com planos de aula. Como o periódico alterou algumas formas de
apresentação (gêneros) de seus discursos sobre a aula de matemática no decorrer
do tempo, investigamos como planos de aulas e/ou reportagens materializam e
articulam vozes (da instituição, do professor, do estudante) num conjunto de casos
que destacamos como exemplos representantes deste deslocamento. Que efeitos
de sentido ligados ao dizer sobre aula de matemática se configuram diante da
emergência de certos gêneros e não outros? Como podemos interpretar uma
substancial alteração genérica que vai do emprego de reportagens para usos se
sequências didáticas/planos de aula? Esta escolha permite confrontar relações
entre a voz da instituição da revista (capa e reportagens) e vozes dos professores
(“depoimentos” e planos de aula) – ainda que perpassadas pela escolha da revista.
Para desenvolvermos este nosso trabalho, além de selecionar quais discursos
podem nos dar bases para realizar uma análise discursiva pretendemos sobre-
elevar possíveis mudanças de guinada/de foco/de perspectivas que acreditamos
que Nova Escola empregou. Para tal, trabalhamos no sentido de analisar os
rearranjos da instauração de vozes do professor de Matemática sobre práticas do
ensino desta disciplina ao longo da revista bem como as marcas de alterações
estrutural-discursivas ao cotejarmos os discursos materializados nas seções do
periódico. A mobilização de conceitos ligados à compreensão de linguagem,
valores discursivos em diálogo, esfera enunciativa, enunciado/enunciação e vozes
discursivas dão contorno ao debate central desta nossa dissertação: o discurso
sobre o acontecimento/evento, este entendido por meio de instâncias do dado e do
novo, por atributos de ressignificação, em jogos de instabilidade e estabilidade.
Palavras-chave: Análise Dialógica de Discursos/ estudos discursivos; Revista Nova
Escola; Educação matemática; vozes; jogos de instabilidade/estabilidade.
8
ABSTRACT
This work promotes debates on the discourses vehiculated by the
educational magazine Nova Escola, through the perspective of the Dialogic
Discourse Analysis. The editions used are those from March/1986 to
December/2012. We investigated how the comprehensions about the movement of
circulation and voices emergence are built. These understandings reframe the
concepts about the Math class in the Nova Escola magazines. How do discourses
attributed to math teachers unfold in relation to the class event? How are they
materialized through the history of this periodical in the Nova Escola sections?
How can we establish discursive relations between these voices and the discourses
vehiculated by the official curricular proposals documents engendered in the
political-educational field? By analyzing discourses that refer to math teaching
(lesson plans, articles/reporters) developed by Nova Escola – with teachers’
interaction in this mediatic space, e.g. readers response - we can build a data
network of how the direct and radial (diffuse) relations between the triad “teacher-
student-knowledge during the class moment process” are thought, reflected and
prepared . Focusing that, we may relate discussions not strictly to the notion of
Math classes in the used editions of the publication, but also direct reflections
about the class moment itself, how it is faced/interpreted and conducted. In
addition to select which discourses can give us bases to perform a discursive
analysis, we pose some other questions in the development of our work, as “how
does the Math teacher’s discourse is expressed in certain genres internal to the
magazine?” Hence, we intend to over-raise possible changes of focus/perspectives
yaw that we believe Nova Escola employed. In order to accomplish it, we worked
to analyze the Math teacher’s voices instauration rearrangements on teaching
techniques/practices shown in the magazine, as well as the structural-discursive
alterations marks identified in collating the discourses materialized in the
periodical sections.
Keywords: Dialogic Discourse Analysis/ discourses studies; Nova Escola
magazine; Mathematical Education; voices; instability/stability games.
S U M Á R I O
INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10
1- Fundamentação teórico-metodológica: discussões na análise dialógica
do discurso ........................................................................................................ 21
1.1- Reflexões iniciais: uma espiral se montando ............................................. 21
1.2- 1.2-Os olhares via ADD: o círculo bakhtiniano e as contribuições para o
acontecimento .................................................................................................... 29
1.2.1- Linguagem....................................................................................... 34
1.2.2- Valores e sentidos ........................................................................... 38
1.2.3- Voz .................................................................................................. 39
1.3- A pesquisa em Ciências Humanas ............................................................. 44
2- Embates no discurso sobre educação no Brasil: perspectivas para uma
escola do acontecimento .................................................................................. 55
2.1- Uma histórica concepção de/sobre aula ..................................................... 57
2.2- Tendências/Modelos na formação de professores e os consequentes debates
sobre disciplinas escolares no Brasil ................................................................. 60
2.3- O discurso científico e o discurso escolar: imagens no gênero aula .......... 71
3- A revista Nova Escola: uma análise discursiva. Vozes em debates sobre
o ensino de matemática ................................................................................... 77
3.1- Contextualizações do material: panorama constituinte da Nova Escola
como revista educacional .................................................................................. 77
3.2- Relações entre mídia e educação no processo de formação educacional ... 85
3.3- Análises iniciais: as capas como discursos da instituição .......................... 87
3.4- Confrontos: Nova Escola e um caso de rearranjo de vozes sobre o ensino
de matemática .................................................................................................. 108
CONCLUSÃO ............................................................................................... 134
REFERÊNCIAS ............................................................................................ 138
10
INTRODUÇÃO
A constatação de que o ensino escolar não está suprindo os requisitos da
sociedade atual, precisando, assim, de reformulações e mudanças, fez com que Isabel
Alarcão (2001) e seus colaboradores lançassem uma planificação de uma escola
reflexiva, em analogia ao que Nóvoa (1995) e Schön (1998) chamaram de professor
reflexivo.
Esta concepção educacional considera a escola um organismo em vida, em
desenvolvimentos nas atuações de suas práticas, norteada pelo fim de educar.
Uma Escola Reflexiva é uma escola inteligente, autônoma e responsável, que decide
o que precisa fazer nas situações específicas da sua exigência e registra o seu
pensamento no projeto político-pedagógico que vai sendo pensado e (re)construído
no cotidiano das práticas pedagógicas. A Escola Reflexiva pensa o presente para
projetar o futuro, o que a torna mais situada, mais responsável e preparada para as
situações emergentes, mais flexível e livre. É uma escola que se pensa através de
seus atores (ALARCÃO, 2001).
Podemos perceber, desse modo, que se pudermos obter um princípio
regulador de uma Escola Reflexiva, ele seria aquele que experimenta e toma a
complexidade dos diversos situares do viver atual. O viver, o sentir, o refletir são
complexos, e complexas são as inter-relações que são estabelecidas entre o que nós,
seres humanos somos, e o que a história e a ciência são.
Colocarmos a nós mesmos numa atuação dinâmica na contemporaneidade
requer que reconheçamos que a história é instável e caótica, e que as direções de nossa
existência são entremeadas por tensões, rupturas, dúvidas, porém, em compensação, são
estes os momentos que nos permitem a pulsão de uma “criatividade científica”
(PRIGOGINE, 1996).
É justamente esta Escola Reflexiva que tem em sua atuação a prática da
“criatividade científica” que coloco como espinha dorsal nas questões da atuação da
Escola para os sujeitos. O sujeito ‘aluno’ da escola é um ser que ressignifica seus
compromissos com o mundo numa escola que se propõe a refletir, argumentar, ouvir,
questionar: chamar todos os sujeitos envolvidos ali a se constituírem com/na linguagem
em atitude responsiva.
Não se trata apenas de uma prática discursiva e pedagógica comum, mas
daquela que se organiza com propriedade, produz e usa conhecimento para intervir,
orientada pela informação mais atualizada possível, coloca questões pertinentes e as
enfrenta. Em relação à linguagem, isso se traduz numa cidadania atuante e dialógica que
11
elege o fluxo do movimento como inspiração, rejeitando a permanência do mesmo e a
fixidez mórbida do passado (GERALDI, 2004).
Ensinar não é mais transmitir e informar, ensinar é ensinar o sujeito aprendente a
construir respostas, portanto só pode partir de perguntas. (...) Poderemos não
produzir as respostas desejadas, mas somente nossa memória de um futuro outro
para as gerações com as quais hoje trabalhamos poderá iluminar nosso processo de
construção desta nova identidade (GERALDI, 2010, p. 100).
Atribuir à aula o acontecimento, como Geraldi (2010) nos coloca, é afirmar
que este momento/acontecimento aula engloba e se estrutura enquanto processo, ou
seja, é buscar compreender a complexidade dos sujeitos perante os momentos
interacionais que vivemos. Cabe a este conjunto de atuares entre os “atores”
dimensionar a própria força complexa que age entre os si nas relações com o(s) outro(s)
e com o(s) mundo(s). Desta forma, não se tem alunos – entidade abstrata e impessoal –,
e sim sujeitos aprendentes. Esta instância única, singular, irrepetível, potencial, grávida
de “devires”, projeções confluentes do já-dito atrelada aos planos de dizer dos
participantes das cenas discursivas – com base no modo como Geraldi (2004) nos
coloca – constitui a base da ideia sobre acontecimento, um dos conceitos centrais desta
nossa dissertação. É justamente este o elemento que dispomos para amarrar, ajustar e
dinamizar nossas reflexões.
Para isso, reconhecer a alteridade é condição sine qua non para constituir
sentidos do viver, compartilhando as responsabilidades de nossas respostas ao nosso
pertencimento ao humano em processo constante de se fazer. A linguagem é uma
atividade constitutiva das consciências humanas e a certeza de que os sistemas
linguísticos nunca estão prontos e acabados, mas se vão construindo na história, deve
nos levar a retomar sistematicamente as enunciações, buscando detectar nelas mesmas
os elementos indicadores de caminhos a percorrer (GERALDI, 2010). A imutabilidade
do passado abre as portas para projeções de um futuro não fixo, não imóvel, nem
imutável.
Sobre esta nossa pesquisa, se há a incômoda sensação da “mistura” de uma
abordagem linguístico-discursiva ligada às humanidades a uma temática, com
configuração pouco comum a esta base, no campo das Exatas, gostaríamos de ressaltar
12
que o estranhamento e o número baixo de atrelamentos interdisciplinares1 estão ligados
a um histórico formal das práticas dos sujeitos em nossas vivências sociais. É
justamente nesta linha que este estudo também se configura: é “um trabalho de pesquisa
e uma ação política, não de políticas partidárias, mas de denúncia junto à classe
docente”, como diria Armando Maia, o camelô da Matemática do Largo da Carioca,
matéria veiculada na revista Nova Escola e que trataremos em nossos trabalhos.
Partindo destas discussões de ensino abordadas por Geraldi (2010), a
respeito da concepção sobre a movimentação da prática do gênero do discurso aula,
nossa pesquisa propõe analisar, via dialogicidade, como são construídas as
compreensões sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que
ressignificam o conceito de aula de Matemática na revista educacional Nova Escola:
como o discurso do professor de matemática se manifesta sobre essa temática? Como
ele se materializa ao longo da história deste periódico? É de grande importância que
sejam desenvolvidas pesquisas que abordem os embates de questões teórico-práticas do
momento aula, no sentido de aprofundarmos discussões que nos levem a lugares que
dinamizem os processos intersubjetivos e nos proporcionem reflexões sobre o estar no
mundo, o ser no mundo, o vir a ser, permitindo ampliar as discussões sobre formação de
professores e sobre a produção de identidade na escola.
Como exposto, a nossa proposta no mestrado é analisar discursos retirados
da revista Nova Escola, publicação periódica mensal publicada desde 1986, pela
Fundação Victor Civita. Esta revista voltada aos professores – inicialmente com o
subtítulo de “Para professores do 1º grau”, e nos dias atuais aparece com o subtítulo “A
revista de quem educa” – atualmente aborda múltiplos assuntos da área educacional e
está dividida em seções e editorias, nas quais constam artigos, ensaios, entrevistas com
especialistas, relatos de experiências, planos para sala de aula, oferecendo auxílio ao
professor em sua prática cotidiana e seções destinadas à divulgação de trabalhos
desenvolvidos pelo país.
No intuito de disseminar atividades culturais, a revista se firma por meio de
suas abordagens. Tendo em vista a influência que esta revista possui hoje no meio de
circulação pelo Brasil – não se tem outro impresso de temática educacional entre as 30
1 Discutiremos em momento oportuno sobre a conceituação a qual tomamos para o termo
interdisciplinar/interdisciplinaridade.
13
revistas de maior circulação nacional2 – e por suas divulgações de abordagens
educativas, este estudo busca analisar as diferentes – ou não – concepções do construto
aula nos discursos dirigidos à área da Matemática, em específico no campo da
Educação Matemática.
Sobre a área de estudos da Educação Matemática, numa espécie de concerto
a quatro mãos3, o pesquisador da Unicamp Antonio Miguel (p. 6-7)4 comenta o seguinte
a respeito dos posicionamentos das pesquisas sobre este espaço:
Independentemente do espaço acadêmico nos quais são hoje internacionalmente
desenvolvidas as pesquisas em Educação Matemática e independentemente da
natureza da formação acadêmica dos produtores de conhecimento em tal prática
social de investigação, podemos afirmar que um dos pontos básicos de divergência
entre os integrantes da comunidade de educadores matemáticos diz respeito ao locus
epistemológico da Educação Matemática. Há os que acreditam e defendem que o seu
estatuto epistemológico estaria melhor definido se a situássemos no interior do
campo da Educação, aqui concebida como uma prática social de investigação. Já
para outros, ela estaria melhor situada e definida no interior do campo da
Matemática, aqui igualmente concebida como campo de investigação. Há,
finalmente, os que acreditam e defendem a independência e autonomia da educação
matemática em relação tanto à Matemática quanto à Educação, encarando-a,
portanto, como uma nova disciplina ao lado das demais já constituídas e
consolidadas.
Concordamos com o posicionamento do autor/pesquisador. Nesta direção,
nossos dizeres têm como ponto de partida para esta pesquisa trabalhos desenvolvidos
pelos estudos bakhtinianos. Temos como fundamentação do nosso olhar o entendimento
de que nós, seres humanos, fazemos processos representativos/referenciais envolvendo
a história da cultura humana, envolvendo os sujeitos sócio-históricos que nos
antecederam, conferindo às nossas colocações uma rede de confrontos de ações, gestos
e pontos de vista, instaurando a natureza da dialogicidade, a
responsividade/respondibilidade consigo próprio e com o outro (alteridade), processo
psicossociobiológico o qual chamaremos de linguagem. Sendo assim, os estudos
linguísticos contribuem analiticamente para as discussões sobre valoração de mundo,
2 Dados estes verificáveis no Instituto Verificador de Circulação (IVC), além de constarem na página da
Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER): .
3 MIGUEL, Antonio; GARNICA, Antonio Vicente Marafioti; IGLIORI, Sonia Barbosa Camargo;
AMBROSIO, Ubiratan D’. A educação matemática: uma área de conhecimento em consolidação. O
papel da constituição de um grupo de trabalho dessa área na ANPED. Disponível em:
. Acesso em
05/09/2012.
4Disponível em .
Acesso em 05/09/2012.
http://www.ufrrj.br/emanped/paginas/conteudo_producoes/docs_26/educacao.pdf
14
sobre mecanismos de estabilizações e desestabilizações de discursos em circulações nas
inúmeras esferas de atuação na humanidade.
Marchezan (2008) assim nos coloca a respeito do emprego da Análise
Dialógica do Discurso (ADD) como “óculos” teórico:
Na perspectiva bakhtiniana, buscar a compreensão das “formas concretas dos textos”
(do discurso, do enunciado), que ocorrem em condições dialógicas, que não são
naturais, imprevistas, mas, sim, sociais, históricas, é alcançar também o homem, a
sociedade que o constitui e é constituída por ele. Tal como o homem, o texto é
complexo, heterogêneo; dele ressoam vozes sociais diversas, que se apóiam, que se
debatem. Reiteração de outras vozes já conhecidas, o texto é, ao mesmo tempo, uma
voz única e irreproduzível. E é essa singularidade mesma que explica sua existência,
seu acontecimento (p. 6).
Nestes dizeres percebemos como a ADD orienta-se na interpretação
discursiva, numa construção de sentidos articulada com a história e a sociedade,
possuindo nestes dois pontos – linguístico e histórico – um posicionamento analítico
para a construção do ser humano, em si e com o outro.
Desse modo, esta proposta de trabalho parte dos estudos bakhtinianos do
discurso, analisando o lugar de (res)significação que é o discurso, assim como é o
construto aula, isto dentro do material discursivo-matemático produzido pela revista
Nova Escola. Pretende-se, assim, conjungir reflexões sobre Teoria Discursiva e
abordagens nas Teorias Educacionais e Educação Matemática por meio das
compreensões do momento aula.
Trabalhos nessa linha abordada aqui são desconhecidos. Temos
conhecimento apenas de trabalhos que relacionam Língua Materna e Matemática, ou
Matemática, Educação e tradições do Ensino. Não se verificou a existência de um
trabalho com a proposta teórica na ADD vinculada ao ensino de Matemática, podendo
este percurso ser tomado como significativo, visto que esse caminho discursivo poderá
contribuir com uma perspectiva reflexiva de como a aula de Matemática tem sido
abordada pela mídia, e como se relacionam discursos/ideologias sobre o ensino
matemático ao discurso oficial, ao discurso de professores de Matemática e a de outros
profissionais. Por meio destes vários discursos, nosso interesse é responder à seguinte
pergunta: qual é a noção de ‘aula de matemática’ – e consequentemente ‘aula’ (gênero,
em geral) e ‘escola’ – que está sendo constituída nestes interdiscursos?
Para as informações sobre o desenvolvimento da revista são conhecidos
materiais que trabalham com estas informações, como as pesquisas a seguir, localizadas
15
na área da Educação: Pedroso (1999), Faria (2002), Costa (2003), Marrone (2003),
Bueno (2007) e Ramos (2009).
Além destes estudos ligados à área da Educação encontramos também
trabalhos de viés linguístico-discursivo nos textos periódicos da revista Nova Escola,
como Silveira (2006) que os focalizou como um suporte matérico para análise em “Um
estudo das capas da revista Nova Escola: 1986-2004”, observando permanências,
rupturas ou alterações expressivas nesta materialidade midiática de consumo.
Mônica Salles Gentil (2006), em seu trabalho Revistas da área de educação
e professores - Interlocuções, investiga não só análises em textos de periódicos
educacionais, mas também a apropriação das revistas por parte dos professores,
considerando não somente “o poder de um produto cultural midiático, mas também o(s)
poder(es) de seu leitor” (RAMOS, 2009, p. 9). A pesquisadora Ramos (2009), em suas
leituras de trabalhos relacionados à revista Nova Escola, opina da seguinte maneira
sobre o trabalho de Gentil (2006):
A autora analisou três revistas constatadas como as mais lidas pelo professor,
incluindo a Nova Escola, partindo da Análise de Discurso francesa para entender a
imagem que tais revistas fazem dos professores, ao mesmo tempo em que
entrevistando professores procurou descobrir as imagens que estes fazem das
revistas. Afora este trabalho de Gentil, nenhum outro de que se tenha conhecimento
focalizou apropriações ou representações dos professores em relação à revista, a
partir de entrevistas e/ou questionários (p. 9).
Numa pesquisa que analisa a elaboração e a apropriação do modelo
curricular no ensino de História pela Nova Escola, numa época de transição
paradigmática do ensino desta matéria – pós-ditadura militar –, Ramos (2009) dá por
resultados que, se quisermos atribuir à revista a qualificação de ‘material com
abordagem inovadora’, o conteúdo “só foi inovador à medida que Nova Escola não
poderia destoar do que o seu leitor discutia, acreditava, projetava”. Com a inserção dos
PCNs, a historiógrafa da educação nos mostra que foram tomadas novas concepções
como diretrizes havendo, após o período dos governos dos militares, uma entrada das
vertentes marxistas nas reflexões de ensino. Com isso, os focos eram constituídos de um
saber fazer em dimensão do presente, com manutenções da noção de história pátria –
tradicionalidade curricular – sem, assim, instaurar uma reflexão de movimentos
confluentes da projeção entre passado e futuro. O que poderemos analisar por meio
desta nossa pesquisa será como as materialidades históricas dialogam com o quadro
16
epistemológico curricular da Matemática; há movimentação no construto aula de
Matemática?
Partir da ADD para uma análise de atividades educacionais será uma
abordagem significativa para as relações entre o corpus material e as articulações das
vozes de professores de Matemática promovendo, assim, um espaço que dialoga com
questões do Ensino e da Educação, principalmente no âmbito discursivo do cenário
brasileiro. Diante desse trabalho linguístico entre as pesquisas linguístico-discursivas
com a área da Educação, assim nos expõe Anjos-Santos, Lanferdini e Cristovão
(2008)5:
Dessa forma, como aponta Machado (2009), os linguistas aplicados com foco em
atividades educacionais deveriam analisar criticamente os conteúdos/conhecimentos
científicos selecionados como núcleo a ser ensinado numa determinada sociedade,
assim como fazer emergir interpretações ocultadas em função do processo de
transposição didática. Na percepção da autora, tal análise poderia elucidar as marcas
linguístico-discursivas que dão um tom de neutralidade aos documentos de
orientação educacional e as ideologias a eles subjacentes (p.378).
Segundo parâmetros educacionais oficiais, a escola propõe-se ser um espaço
de práticas reflexivas entre sujeitos, em constante construção no mundo. Ela tem
promovido isto?
De que maneira esta formação pode se realizar? Considerando-se a
complexidade dos processos relacionais, por efeito da cognição humana, os sujeitos são
mais ou menos indivíduos. Esta ideia de único se dá numa esfera material, de cada
organismo humano ser um, e não um outro, visto que quem é um e quem é o outro se
baseia na relatividade do processo de enunciação linguística.
A ideia bakhtiniana de o ser humano ser cingindo com os aprendizados
do/com o outro mostra-nos que o tal indivíduo não é senão, também, formas relacionais
dos outros que se dão em um. É esse sistema radicular-pivotante, paradoxo,
complexificado que a educação escolar tem em mãos para lidar.
Por meio da análise dos discursos referentes ao ensino de matemática (plano
de aula, matérias/reportagens) desenvolvidos pela revista Nova Escola – juntamente
com a interação de professores no espaço desta mídia (materializada, por exemplo, em
cartas de leitores) – podemos construir uma rede de dados de como são
5 Dos saberes para ensinar aos saberes didatizados: uma análise da concepção de sequência
didática segundo o ISD e sua reconcepção na revista “Nova Escola”. Disponível em
http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/1102/110208.pdf. Acesso em 05/09/2012.
http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/1102/110208.pdf
17
pensadas/refletidas/preparadas as relações diretas e radiais (difusas) entre professor –
aluno – conhecimento durante o processo do momento aula. Com este foco, podemos
relacionar discussões não estritamente à noção de aulas de Matemática no decorrer das
publicações da revista em questão, mas sim direcionar reflexões sobre o momento aula
em si, como é encarado, conduzido.
O pressuposto teórico que move a pesquisa é o inevitável embate entre o
estável-instável. Como usamos uma teoria que permite focalizar o que é dinâmico em
sistemas de expressão e que toma o diálogo com o outro, adequando experiências dos
sujeitos com seus outros, a abordagem desta dinamicidade se torna profícua nas
discussões. Para realizar essa adequação ao outro ou àquilo que é dado, é necessário que
o pesquisador lance “mão de um processo operatório de montagem e desmontagem de
unidades, categorias e conseqüentemente de valores e significados” (REZENDE, 2008,
132)6.
Existe uma variação radical de experiência entre o pesquisador e seu outro
(variação espaço-temporal dos sujeitos sócio-históricos)7 e de expressões linguísticas
correspondentes, singularidades estas que demarcam nossas situações de vivências, em
suas complexidades, que precisam estar no horizonte de quem se coloca a confluí-los.
Posicionamo-nos nesta centralidade de movimentações situando nossas
perspectivas de olhares, nossas escolhas enunciativas e nossas reflexões analíticas no
domínio dos estudos discursivos numa contribuição aos estudos da Educação e
Educação matemática.
O procedimento metodológico adotado, considerando reflexões
desenvolvidas por Geraldi (2012), será: cotejaremos enunciados produzidos nas esferas
político-pedagógica e midiática e os analisaremos considerando que materializam
6 Ressignificamos, aqui, as discussões da pesquisadora Letícia Marcondes Rezende em que ela
discute a radical variação no ensino de línguas. Trazemos esta questão para o âmbito teórico
desta nossa pesquisa, pois tanto Rezende quanto nós nos posicionamos a favor da tese da
indeterminação da linguagem e dos posicionamentos de ancoragens feitos pelos sujeitos. Apesar
de estarmos em teorias com bases de autores distintas, a saber Culioli e Círculo de Bakhtin,
compartilhamos noções equivalentes em nossas pesquisas.
7 Nesta relação de alteridade entre o sujeito pesquisador e seu outro, estamos entendendo que
este outro não necessariamente é um sujeito persona, mas sim é uma instância relacionada a
uma barreira, uma noção que instabiliza a atividade dos sujeitos. Podemos ter uma noção
semântica, por exemplo, como elemento outro de um/dos sujeitos, ou seja, é um obstáculo no
percurso da atribuição de sentidos na cadeia enunciativa.
18
contornos sociais/ideológicos e seus conflitos correspondentes a respeito da aula de
matemática.
Tendo como um corpus matérias jornalísticas que materializam as vozes dos
professores de Matemática nos números da revista Nova Escola pretende-se, então,
analisar os discursos que são produzidos a respeito do momento aula de Matemática:
como se compreende este “espaço” de interações? Como ele é programado? Como os
professores que ali se posicionam concebem o “momento aula”?
A revista Nova Escola é dividida em seções e editorias, nas quais constam
artigos, ensaios, entrevistas com especialistas, relatos de experiências, planos para sala
de aula, oferecendo auxílio ao professor em sua prática cotidiana.
A partir de uma leitura das 258 revistas da Nova Escola acessadas (de
março/1986 a dezembro/2012), analisando o periódico como um enunciado todo,
fizemos alguns recortes a fim de fazer uma análise dialógica a respeito da concepção
sobre a movimentação da prática do gênero do discurso aula de matemática que a revista
Nova Escola vem conceituando. Para desenvolvermos este nosso trabalho, além de
selecionar quais discursos podem nos dar bases para realizar uma análise discursiva,
dispomos de algumas perguntas, tais quais: como são construídas as compreensões
sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que ressignificam o conceito
de aula de Matemática na revista educacional Nova Escola? Como o discurso do
professor de matemática se manifesta em determinados gêneros internos à revista?
Como se materializa esse discurso ao longo da história do periódico? Como podemos
estabelecer relações discursivas entre estas vozes e os discursos veiculados pelos
documentos oficiais das propostas curriculares engendradas no interior do campo
político-educacional?
Por meio da análise dos discursos referentes ao ensino de matemática
desenvolvidos pela revista Nova Escola – juntamente com a interação de professores no
espaço desta mídia – podemos construir uma rede de dados de como é
pensada/representada a aula de matemática considerando as relações diretas e difusas
entre professor-aluno-conhecimento durante o processo do momento aula.
Selecionamos para análise, na dissertação, os gêneros do discurso plano de aula,
reportagens e capa, em que se materializam as vozes da revista e dos professores de
matemática.
19
Nosso trabalho na dissertação consiste em analisar vozes nos discursos
materializados em Nova Escola ligados ao ensino de matemática. Como o periódico
alterou algumas formas de apresentação de seus discursos no decorrer do tempo
(diagramação, seções etc), investigamos uma rede de relações que constroem o que
estamos chamando de alterações na tonalidade discursiva, um deslocamento da voz do
professor.
Em Estética da criação verbal, Bakhtin nos coloca que o tom de um
discurso “não é determinado pelo material do conteúdo ou pela vivência do locutor, mas
pela atitude do locutor para com a pessoa do interlocutor (a atitude para com sua
posição social, importância, etc)” (1997, p. 396).
Desta forma, pretendemos sobre-elevar esta mudança de guinada/de foco/de
perspectivas que acreditamos que Nova Escola empregou. Para tal, trabalhamos no
sentido de analisar os rearranjos da instauração de vozes do professor de Matemática
sobre práticas do ensino desta disciplina ao longo da revista bem como as marcas de
alterações estrutural-discursivas ao cotejarmos os discursos materializados nas seções
do periódico.
Em nossos caminhos abdutivos, tomamos como corpus para análise o
gênero capa, observando suas alterações no decorrer dos anos e, neste recorte do corpus,
pretendemos encontrar a voz da revista sobre o acontecimento da aula de matemática. O
corpus também é composto por gêneros que compreendem vozes de professores. Como
o periódico alterou algumas formas de apresentação de seus discursos no decorrer do
tempo, investigaremos também planos de aulas e/ou reportagens quando materializam o
discurso sobre a aula de matemática. Esta escolha permite confrontar relações entre a
voz da instituição da revista (capa e reportagens) e vozes dos professores
(“depoimentos” e planos de aula) – ainda que perpassadas pela escolha da revista.
Os resultados desta pesquisa contribuem com: 1) os estudos bakhtinianos do
discurso, em particular com a reflexão sobre a concepção do “sentido em movimento”
(neste caso, o sentido de aula e de aula de matemática produzidos em Nova Escola); 2)
as relações entre as esferas da educação (em especial, no que diz respeito ao
ensino/aprendizagem de matemática) e da linguística; 3) a esfera educacional (esta
pesquisa pode servir como um elemento de atuação político-educacional em prol de
uma escola de caráter motivador e construtivo para a nossa “sociedade humana”,
composta por sujeitos em constante movimentação).
20
Para encerrar esta nossa reflexão inicial, não podemos de explicitar com
maior clareza que este trabalho desenvolveu-se, ao longo de nosso prazo de
cumprimento do curso de mestrado, no constante diálogo com a prática do momento
aula de matemática. Os caminhos que traçamos aqui abrem espaços para trabalhos
futuros que centralizam a gênese do processo na prática educacional, ou seja, as
reflexões aqui instigadas estão nos dando base para as ampliarmos num outro momento
de produção.
Outra questão a ser explicitada diz respeito à profunda ligação destas nossas
pesquisas com a prática docente. Os debates aqui instalados colocam-se numa longa
cadeia de crítica educacional na qual estamos entendendo que uma tradição
monologizante no plano discursivo do momento aula tem sido constantemente realizada
no conjunto englobante das instituições escolares. Um início deste debate é trilhado no
decorrer de nossa dissertação, porém não propomos neste momento o intenso debate
sobre este nosso posicionamento, mas que, em certa medida, provocamos inter-relações
que corroboram esta interpretação.
21
1- Fundamentação teórico-metodológica: discussões na análise dialógica do
discurso
Configuramos nesta parte uma apresentação dos principais conceitos
teórico-metodológicos que mobilizamos no decorrer de nossa dissertação. A teoria na
qual temos nosso ponto estabilizante para instabilizarmos nossas análises, a ADD,
orienta-nos na direção da interpretação discursiva, numa construção de sentidos
articulada na história e nas dinâmicas sociais que a produzem, possuindo nestes dois
pontos – linguístico e histórico – um posicionamento analítico perante a construção do
ser humano, a saber: construção de si em si e com o outro.
Como proposta de análise bakhtiniana, estamos entendendo que os variados
conceitos desenvolvidos pelo círculo bakhtiniano estão interligados em si numa
perspectiva ampla, num mosaico emaranhado e coeso. Se quisermos analisar o corpus
em estratos, poderemos, mas sem perder de vista que o diálogo é o elemento fundante
das reflexões nesta área (BRAIT, 1994). Este nosso trabalho analítico toma um cenário
de debates críticos toda enunciação: dependendo de como abordamos essa dinâmica
analítica (estilo, forma, entre outros), nosso discurso vai se posicionando acerca de
determinadas ideologias e corroborando, assim, a importante pontuação do círculo
bakhtiniano de que o signo é ideológico (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004 [1929]).
Para esta nossa dissertação, a discussão sobre metodologia em ciências
humanas nos é bastante cara, pois como pano de fundo de toda pesquisa encontra-se um
histórico do como fazer, o que se costuma dizer e um desejo/plano de dizer.
A partir de agora, destacamos alguns pontos centrais referentes a conceitos e
temáticas relacionadas às discussões do círculo bakhtiniano para que haja um
embasamento para o que analisaremos em Nova Escola.
Tomamos, assim, confrontos a partir de discussões do círculo bakhtiniano,
refletindo, também, textos desenvolvidos no interior da área da ADD.
1.1- Reflexões iniciais: uma espiral se montando
Por motivos organizacionais para a apresentação de nossos pontos,
trazemos, neste primeiro momento, conceitos desenvolvidos pela teoria discursiva na
qual estamos. No decorrer deste nosso item, iremos afunilando e ampliando conceitos à
medida que vão surgindo especificidades em nosso horizonte discursivo. É necessário
22
pontuar também que entendemos esta parte teórico-metodológica como um momento
de explanação de nossos embasamentos teóricos na relação prático-metodológica.
Entendemos metodologicamente que teoria e prática não se desvinculam no lugar social
de pesquisadores/analistas dos discursos no qual estamos.
Beth Brait (1994) coloca a nós que um projeto comum do Círculo é o
reconhecimento da natureza dialógica da linguagem:
a natureza dialógica da linguagem é um conceito que desempenha papel
fundamental no conjunto das obras de Mikhail Bakhtin, funcionando como
célula geradora dos diversos aspectos que singularizam e mantêm vivo o
pensamento desse produtivo teórico (p.11).
As relações dialógicas dos discursos, tramas de ser/significar(-se) no
mundo, e os confrontos da alteridade dessas relações tomarão destaque no contexto
desta pesquisa encaminhando-a, portanto, a perspectivas que buscam o encontro com o
outro, compartilhando experiências, reflexões e valores que se alteram mutuamente.
Sendo assim, nesta abordagem teórica, o outro deixa de ser uma realidade abstrata a ser
definida e traduzida por um conceito. Em outras palavras, metodologicamente, o sujeito
da pesquisa é visto como alguém cuja palavra se confronta com a do pesquisador,
refratando ideologias e exigindo-lhe resposta, configurando uma cadeia enunciativa de
enunciações de valores. Em contrapartida, a palavra do pesquisador recusa-se a assumir
a aura de neutralidade imposta pelo método e integra-se à vida, participando das
relações e das experiências, muitas vezes contraditórias, que o encontro com o outro
proporciona.
Atribuir sentidos é ler a palavra como signo que reflete e refrata valores
ideológicos advindos de uma memória discursiva dos sujeitos. Nossa posição como
pesquisadores analistas do discurso coloca-nos a interpretar projetos de dizer dos
sujeitos numa determinada esfera enunciativa ou em lugares institucionais.
Estamos entendendo, segundo os estudos do círculo bakhtiniano, que a
noção de ideologia marca a impossibilidade de se conceber uma neutralidade nos
sistemas de expressão (linguagem), fazendo com que entendamos que os enunciados
contêm marcas de olhares sob o mundo, além de guardarem sinais de mudanças
sociointeracionais; colocamos destaque no entendimento de uma máxima: a palavra faz-
se signo ideológico visto que acumula as entonações do diálogo vivo de que é matéria,
ou, nos termos do Círculo, “cada palavra se apresenta como a arena em miniatura onde
23
se entrecruzam e lutam os valores sociais de orientação contraditória”
(BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 66).
A ideologia, nesta perspectiva, implica um sistema unificante. Ela é
mediadora na integração social, na coesão do grupo; uma dinâmica de ações e
pensamentos adjuntos tendo princípios da ética na vida. Não entendemos, deste modo,
que haja uma completa racionalidade ideológica, mas formações imaginárias de um
inconsciente, produto/produção da visão ideológica – é provável que aqui esteja a base
da compreensão de ideologia como “inversão do real”; devido a este estatuto não
reflexivo e não transparente da ideologia é que se vinculou a ela a noção de
dissimulação, de distorção.
A tradição marxista, que entende, de um certo modo, a ideologia como o
mecanismo que deforma/corrompe a realidade, tem apresentado a suposição de que um
discurso ideológico serve para legitimar e reproduzir o poder da classe dominante. Por
outro lado, temos uma noção de ideologia não tão restrita como neste sentido.
A ideologia pode ser vista de maneira mais ampla, entendida como uma
visão de mundo de uma determinada comunidade social, num determinado tempo
histórico. Nesse sentido, todos os discursos são ideológicos.
Como estamos entendendo ideologia na relação com discurso?
Para desenvolver tal questão, tomaremos reflexões desenvolvidas pelo
filósofo francês Paul Ricoeur (apud BRANDÃO, 1986), que possui debates profícuos
sobre sujeito, consciência, interpretação e outros pontos fundantes sobre o ser nos
processos das significações. Ele nos dá algumas pistas. Elenquemos cinco delas:
1. A ideologia perpetua um ato fundador inicial. Tal perpetuação está ligada
à necessidade do próprio grupo de obter uma imagem, uma representação de si mesmo.
Nesse sentido, é “função da distância que separa a memória social de um acontecimento
que, no entanto, trata-se de repetir. Seu papel não é somente o de difundir a convicção
para além do círculo dos pais fundadores, para convertê-la num credo de todo o grupo,
mas também o de perpetuar a energia inicial para além do período de efervescência”
(RICOEUR apud BRANDÃO, 1986, p. 24);
2. A ideologia é dinâmica e motivadora, impulsiona uma práxis social que a
materializa. Não apenas um reflexo de uma formação social, ela é uma justificação
[porque movida pelo desejo de demonstrar que o grupo que a professa tem razão de ser
24
o que é] (BRANDÃO, 1986, p.25) e projeto, uma vez que dita as regras de um modo de
vida;
3. Há um caráter simplificatório e esquemático das ideologias. A ideologia
apresenta um caráter codificado para se dar uma visão de conjunto, de história, de
mundo. Visando à eficácia de suas ideias, ela é racionalizadora, e se expressa por meio
de máximas, slogans e formas lapidares em que a retórica está sempre presente;
4. A ideologia é operatória e não temática. Isto é, “[...] ela opera atrás de
nós, mais do que a possuímos como um tema diante de nossos olhos” (BRANDÃO,
1986, p.25);
5. A ideologia apresenta-se como conservação e resistência às mudanças,
visto que essas põem em risco a ordem estabelecida pela mesma. Ela se sedimenta
enquanto os fatos e as situações se transformam, o que pode causar um enclausuramento
ideológico e uma aceitação de uma naturalização social dos acontecimentos
(BRANDÃO, 1986, p.25).
Estamos conceituando ideologia, desta maneira, como práticas usuais de
ferramentas simbólicas (ações e pensamentos) voltadas à criação e/ou à manutenção de
relações de interpretação do mundo e de práticas sociais.
A conceituação de discurso, em nossa teoria, pode nos levar a entender este
conceito, por exemplo:
a) como demarcação dos campos do saber, seja ele prático ou teórico: discurso do
jornalismo, o discurso da física, da linguística, entre outros;
b) como demarcação de planos ideológicos: o discurso marxista, o discurso
fundamentalista, entre outros;
c) como demarcação de planos históricos ou epistemológicos: discurso
renascentista, discurso iluminista, discurso geneticista, discurso criacionista,
entre outros;
d) como demarcação de base explicativa, como caráter temático: discurso da
negação de Deus, discurso homofóbico, discurso da paridade social, discurso da
vitimização do negro, entre outros.
Os discursos materializam as ideologias, as formas de ver o mundo. Sendo
assim, não há como separar radicalmente este plano, digamos, ligado fortemente a um
http://pt.wikipedia.org/wiki/Epistemologia
25
ideário de pontos de vista maliciado pela vivência (ideologia) da forma
materializante/materializada (discurso). Ideia versus matéria, abstrato versus concreto
não se dicotomizam nesta nossa perspectiva, mas sim realizam jogos de representação
pelos sujeitos. Aquilo a que temos acesso, então, são a valores ideológicos, tramas
discursivas que nos farão interpretar acontecimentos na relação de uma dinâmica de
valores, podendo o pesquisador, por exemplo, confrontar-se com sua visão de mundo e
seu projeto de dizer perante os olhares múltiplos de seu corpus em análise.
Nosso trabalho, por exemplo, analisa os discursos enunciados pela Nova
Escola em determinados gêneros discursivos, promovendo uma reflexão/refração de
valores ali enunciados, sendo estes investigados, fazendo que nós nos posicionemos
atribuindo sentidos possíveis a estes valores discursivos. Assim, ao referir-nos em
nossas análises ao termo ideologia ou ao termo discurso, embasamo-nos na
compreensão de que tanto valores ideológicos e/ou valores discursivos se imbricam no
nosso horizonte interpretativo, cabendo refletir este quadro contextual que lançamos.
Entendemos que o “sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade
de mudança e até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato de
compreensão desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o
enriquecimento" (BAKHTIN, 2003, p. 378). Desta maneira, compreender segundo a
perspectiva dialético-dialógica bakhtiniana, no nosso ponto de vista, coloca-nos a ler o
mundo munidos de uma fina sensibilidade atenciosa a efeitos de produção de sentidos
nas relações ideológicas intersubjetivas, que são dinâmicas, complexas, sistêmicas.
Concebemos, neste parâmetro, que, sendo os processos interpretativos assimétricos uns
aos outros pela diferença subjetivo-relacional de cada sujeito, entendemos que os
sujeitos enfrentam um “problema de construir, no fluxo das instabilidades, uma
estabilidade, e confessá-la ao Outro como uma posição provisória que permite propor
uma hipótese” (GERALDI, 2003, p. 259). Há de se ressaltar, porém, que é nesta
condição instabilizante que nós, sujeitos, nos instauramos como sujeitos, levando-nos a
entender, assim, que a estabilização, o acabamento é sempre provisório, relação esta que
permite o desdobramento espaço-temporal dos sujeitos, atrelando potencialmente uma
memória do passado, um presente presentificado e uma memória de futuro, constituintes
de um projeto de dizer. Podemos analisar que a noção de leitura utilizada por Geraldi no
trecho supracitado não diz respeito apenas à leitura da palavra escrita, mas sim a uma
atividade maior, global, de posicionamento de si na relação com o Outro, numa leitura
26
de mundo(s). O fluxo do devir propõe uma cadeia de “famílias parafrásticas de atos”.
Entendemos que a provisoriedade é um estabelecimento fundante para a perspectiva
dialógica, em que a constituição de si e do outro se dá na relação de graus de
experiências.
A noção de enunciado (complexa e talvez (im)prescindível), neste nosso campo
discursivo, toma corpo como materialidade para colocarmos neste espaço de arena o
embate de processos constituintes de sentidos. A concepção do conceito bakhtiniano de
enunciado (enunciação de valores ideológicos do signo; a constituição da
palavra/consciência como produto-produção nos gêneros – estas formas “mais ou
menos estabilizadas”, em contínua composição) que tomaremos entende que é possível
analisar discursos pela relação das enunciações de valores expressos pelas diversas
formas de semioses, ou seja, de expressões/expressividades que materializam o fluxo do
devir, do processo mais profundo chamado linguagem. É importante ressaltar que
entendemos que as diversas semioses possuem especificidades em suas formas
composicionais, além de todo um contorno valorativo atribuído por meio da relação
dialógico-dialética dos sujeitos, na temporalidade, nos espaços – cronotopo, conceito
desenvolvido em Estética da criação verbal (2003).
Considerando as posições de Geraldi (2010) a partir de seus escritos sobre o
Círculo bakhtiniano, tomaremos um conceito teórico central para este nosso trabalho: o
conceito de acontecimento. Sobre ele, elencamos duas relevâncias acentuadas para a
compreensão de nossos dizeres; a saber:
acontecimento como instante do devir: ato responsável, respondível,
irrepetível, singular, configuração da existência, ética das ações humanas na confluência
entre eu-outro/ natureza-sociedade. Neste sentido, toda aula é um acontecimento, assim
como todo enunciado é, haja vista uma produção de natureza epilinguística do
acontecimento, que se pauta numa noção fundante de “racionalidade silenciosa”, que
consistiria num trabalho de natureza cognitivo-cultural.
acontecimento como processo de atribuição de sentidos: processos de
instabilidade/estabilidade, do dizível/já-dito. O acontecimento, deste modo, são as
experimentações de novos caminhos, sem exigir que já estejam prontos antes de serem
percorridos, colocando-os como apostas, como tentativas, como devir. São as
possibilidades do devir grávido de instantes. A aula projetada no debate de uma gama
de possibilidades mobiliza a metalinguagem explicitada na busca de entendimentos. É o
27
espaço da ressignificação das significações em temas – aqui entendendo tema e
significação como proposto por Bakhtin/Volochinov (2004). Dessa forma, a figura da
espiral potencializa nosso entendimento uma vez que saindo de um lugar A e irmos a
um lugar B, ao retomarmos a A já não temos mais um mesmo movimento, pois já nos
transformamos. Esta “nova” movimentação guarda uma memória. O que temos são
sobreposições ou convívios multiplanares de movimentos de significações.
Estamos entendendo que o estudo sobre sujeito, perante a óptica do círculo
bakhtiniano e de leituras sobre recepções desta, revela-nos a concepção relacionada de
um sujeito não só histórico, social, ideológico, mas também corpo, vivência. Tem-se um
sujeito construído na linguagem, pelo “outro”, com uma construção de si mesmo pelas
experiências de olhares de “outros”, em divergências e convergências. Neste rumo, o
sujeito possui um projeto de fala que não depende apenas de sua intenção, mas sim de
um “outro (primeiramente é o “outro” com quem fala, depois o “outro” ideológico,
tecido por variedades de discursos do contexto) e, ao mesmo tempo, o sujeito é corpo
(são as outras vozes que o constituem). De acordo com Compagnon (apud BRAIT,
1996, p. 107), toda enunciação produz simultaneamente um enunciado e um sujeito; não
há sujeito anterior à enunciação ou à escritura. A enunciação é constitutiva do sujeito, o
sujeito advém da enunciação para se posicionar, se referenciar, ancorar.
Assim, a constituição dos sujeitos para o círculo de Bakhtin ocorre por meio
da interação e (re)produção de dizeres, atribuindo valores, organizando sentidos e
ressignificando interpretações na sua práxis do contexto imediato e social. Dialogando
com o Círculo, a ADD vai entender que a “consciência individual não só nada pode
explicar, mas, ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e
social. A consciência individual é um fato sócio-ideológico.” (BAKHTIN, 1992, p. 35).
Tem-se aqui a noção de construção de sentidos em que para se produzir um sentido,
deve-se haver uma compreensão na situação, no dentro (texto) e no fora (história).
Toda essa trama de dizeres que constituem os sujeitos liga-se a que o círculo
de Bakhtin denomina dialogismo. Como já colocamos, estamos lendo que a constituição
dialógica opera como cerne da constituição do sujeito, inclusive do conhecimento no
campo das Ciências Humanas. Sendo assim, não há um único ser humano cuja condição
de humanidade não advenha da sua interlocução com os demais, posto que sua
existência é dotada de significados anteriormente predicados e marcada pelo modo
como um se posicionará na continuidade a essa interlocução.
28
O “sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade de mudança e
até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato de compreensão
desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento"
(BAKHTIN, 2003, p. 378).
Sobre a ressignificação da língua, expõe-nos Bakhtin (2003):
O sentido é potencialmente infinito, mas pode atualizar-se somente em
contato com outro sentido (do outro), ainda que seja com uma pergunta do
discurso interior do sujeito da compreensão. Ele deve sempre contatar com
outro sentido para revelar os novos elementos da sua perenidade (como
palavra revela os seus significados somente no contexto). Um sentido atual
não pertence a um (só) sentido mas tão somente a dois sentidos que se
encontraram e contataram. Não pode haver "sentido em si" ele só existe para
outro sentido, isto é, só existe com ele. Não pode haver um sentido único, ele
está sempre situado entre os sentidos, é um elo na cadeia dos sentidos, a
única que pode existir realmente em sua totalidade. Na vida histórica essa
cadeia cresce infinitamente e por isso cada elo seu isolado se renova mais e
mais, como que torna a nascer (p. 382).
A respeito da apropriação e uso que o ser humano atribui à língua, o filósofo
russo Mikhail Bakhtin, com seu grupo, mostra se posicionar à frente de seu tempo, já
que estabelece preliminarmente uma teoria que primazia o caráter da enunciação
como processo não reiterável, pressuposto de outras enunciações, ou seja, é um
“acontecimento discursivo projetado a partir de uma memória” (SANTOS, p. 1)8.
Entendemos que:
o discurso representável converge com o outro discurso representativo
em um nível e em isonomia. Penetram um no outro, sobrepõe-se um
ao outro sob diferentes ângulos dialógicos. [...] Como resultado desse
encontro, revelam-se e aparecem em primeiro plano novos aspectos e
novas funções da palavra (BAKHTIN, 2008, p. 309).
O acontecimento se liga, assim, à instância profunda da ressignificação
discursiva, interação sem a qual os sujeitos não se constituiriam como persona
dialógica. Não há álibi para tal colocação perante a existência. Só se é/está na assunção
de um lugar a se colocar e aflorar.
8 Texto em versão digitalizada: SANTOS, Jefferson Fernando Voss dos. “A respeito de Bakhtin
e Foucault: aproximações e disparidades entre os conceitos de enunciado”. Disponível em:
http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao12/art_04.php. Acesso em 05/09/2012.
http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao12/art_04.php
29
Compreendemos enunciados, esta instância formada nas/pelas
expressividades, quando conferimos às palavras relações que despertam em nós,
sujeitos, ressonâncias ideológicas e/ou relacionadas à nossa vida. Daí a contrapalavra,
momento dialógico constituinte dos enunciados, no qual se é estabelecida uma cadeia de
“conversas” para termos respostas, expressividades que não provêm de uma gênese
estritamente histórico-temporal canônica. As relações cronotópicas instauram
estabilizações aos sujeitos/seres humanos em suas culturas de um modo que este
movimento espaço-temporal extrapole a causalidade imediata (isto resulta naquilo, e
veio daquilo), encaminhando-nos a uma gestão que nos coloque na centralidade
organizadora de pontos de vista (excedente de visão). Daí, também, uma dialética que
assume categoricamente este colocar ou não em enunciados.
A cada palavra da enunciação que estamos em processo de
compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas,
formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem,
mais profunda e real é a nossa compreensão (BAKHTIN, 1992/1999,
p. 132).
A linguagem opera atuando nas cenas discursivas e por condições
estruturantes de expressividade (língua, música, dança, matemática...) que, como
produto cultural de discursos anteriores, se remodela a cada interação, a cada dia, em
cada perspectiva de cada sujeito em diferentes espaços e tempos. Daí a complexidade do
acontecimento. É na linha tênue entre psicologicismo e objetificação que a história da
ciência e nós mesmos, atualmente pessoas de carne e osso, temos nos instaurado. Os
discursos representam, de um certo sentido, consciências de sujeitos no jogo da
estabilização/instabilização da produção de sentidos. É nesta recolocação constante, é
neste investimento de energias entre o formal e o empírico, o psíquico e o social, um
“interior” e um “exterior” que vamos concebendo instâncias de um eu com outro(s),
instalando uma realidade possível na cadeia que coloca a interpretação de sentidos como
cenários discursivo central: o acontecimento discursivo.
1.2- Os olhares via ADD: o círculo bakhtiniano e as contribuições para o
acontecimento
Mikhail Mikhailovich Bakhtin, nascido em 17 de novembro de 1895, na
cidade de Orel e falecido em 6 de março de 1975 na Moscou socialista, foi filósofo,
30
filólogo e pensador russo, teórico da cultura europeia e das artes. Bakhtin ao lado de um
conjunto de pensadores, artistas e teóricos estabelece um grupo intelectual de pesquisas
nas ciências humanas. Os escritos dele em conjunção a este grupo – o nomeado Círculo
de Bakhtin – abordam uma variedade de assuntos, dando base a trabalhos de estudiosos
posteriores num grande número de diferentes tradições (o marxismo,
a semiótica, vertentes na Análise do Discurso, estruturalismo, a crítica religiosa) e em
disciplinas tão diversas como a crítica literária, História, Filosofia, Sociologia,
Antropologia, Música e Psicologia. Embora Bakhtin fosse atuante nos debates sobre
estética e literatura, que ganharam lugar na União Soviética na década de 1920, sua
posição de destaque não se tornou bem conhecida até sua “redescoberta” por estudiosos
russos na década de 1960. É criador de uma nova teoria sobre o romance europeu,
incluindo o conceito de polifonia em uma obra literária. Explorando os princípios
artísticos do romance de François Rabelais e Dostoiévski, o círculo de Bakhtin
desenvolve uma teoria sobre cultura ocidental popular na Idade Média e no
Renascimento, sobre as estabilizações de ideias referentes ao ridículo, ao humor.
O grupo trabalha/desenvolve conceitos que estruturam áreas hoje como
Estudos Literários, Linguística e diversos cursos das Ciências Humanas, conceitos tais
como, por exemplo, polifonia, cultura cômica, cronotopo, carnavalização,
sátira menipeia, gênero do discurso, dialogismo, identidade/identificação, alteridade,
vozes, esferas de comunicação.
Bakhtin foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de estudiosos
preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura e arte, rede esta que incluía,
por exemplo, o linguista Valentin Volochinov (1895-1936) e o teórico literário Pavel
Medvedev (1891-1938). Importante ressaltar que este conjunto de autores configurava
um grupo de estudos e debates com contribuições e desenvolvimentos teórico-analíticos
de todos. Bakhtin é destacado por sua produção: foram atribuídos(as) a ele
escritos/obras que ainda estão sendo traduzidos(as) do russo, além de ser o integrante
que (sobre)viveu por mais dias que os outros.
Abramos uma discussão sobre estas últimas considerações. Com seus
trabalhos, Craig Brandist, destaquemos Repensando o Círculo de Bakhtin (2012) – uma
coletânea de ensaios que resultam de cuidadosas pesquisas nos arquivos da Rússia –
apresenta uma contribuição importante para uma visão mais crítica e histórica da obra
de Bakhtin e “seu Círculo”, sem uma abordagem de tom idealizador e hagiográfico, que
31
caracterizou as primeiras recepções no ocidente. Além disso, Brandist (2012) tem
sempre o cuidado de valorizar a contribuição de outros membros do círculo, como por
exemplo Volochinov e Medvedev, apresentados como profícuos pesquisadores, em vez
de simples discípulos de Bakhtin e de meros contribuintes do “grandioso líder:
Bakhtin”. No caso de Volochinov, os estudos de Brandist (2012) não apenas apontam
diferenças entre sua obra e a de Bakhtin, mas também contribuições às reflexões
presentes nas obras assinadas por Bakhtin.
Como afirma Brandist (2012), todo esse movimento de debates estilístico-
autorais não se trata de desmascarar Bakhtin, mas de desmistificá-lo. A avaliação de
influências não somente intelectuais como também político-institucionais não
desmerece o trabalho do Círculo, mas permite uma compreensão mais crítica das
origens de suas fundamentações, tudo isso com a autoridade/autoria de quem não
somente teve acesso aos arquivos, mas também os interpreta com perspicácia
contribuindo, assim, ao estudo de documentos até agora pouco ou nada examinados por
outros estudiosos.
Esta ideia do “desmacaramento” de Bakhtin tem sido abordada com certa
recorrência em alguns últimos estudos sobre o círculo. Um exemplo é a obra que
citamos a seguir. Com um título chamativo (e/ou agressivo-impactante), o livro Bakhtin
desmascarado: história de um mentiroso, de uma fraude, de um delírio coletivo (2012),
de Bronckart e Cristian Bota, antes de qualquer coisa, é um trabalho de revisão crítica
sobre o ato do fazer biográfico.
De qualquer forma, estamos entendendo os escritos do Círculo como
múltiplos, resultado de interações entre diversas áreas de estudos, produzindo uma base
filosófica pautada na dinâmica do devir, na constante reflexão entre o estável e o
instável, o já-dito e o vir-a-ser. Cristalizar Bakhtin como o agente único e fundante de
inúmeros debates linguísticos, filosóficos, científicos e artísticos é reduzir as discussões
do Círculo que, como viemos ressaltando, é composto por um grupo de filósofos na
interação.
Um dos aspectos mais inovadores da produção do Círculo de Bakhtin foi
entender linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo – e
não como um sistema autônomo por si mesmo, auto-organizador, mas sim
condição/princípio articulada(o) pelo debate de posicionamento entre uma posição
discursiva eu e uma posição posta a um outro no mundo. A visão filosófica da
32
linguagem no círculo bakhtiniano é configurada numa trama de dizeres que marca não
só uma estruturação comunicativa de um sujeito que se expressa, mas também o debate
de marcas histórico-ideológicas de uma sociedade humana, que se alteram no decorrer
dos tempos, produzindo um horizonte interpretativo para os sujeitos sócio-
historicamente constituídos pela/na linguagem, centralizando estas questões para
promover um debate sobre a trama discursiva que ao enunciarmos colocamos em cena.
Desta forma, o círculo contribui significativamente para as questões sobre estabilidade e
instabilidade dos sentidos, bem como para questões sobre as relações dos sujeitos com o
mundo (alteridade; reflexão e refração dos sentidos; formas mais estabilizadas dos
dizeres; interações entre os sujeitos; ética e estética, entre outras questões).
Em Estética da criação verbal ([1979] 2000, p. 301), escreve o filósofo que
a “língua materna, seu vocabulário e sua estrutura gramatical, não conhecemos por meio
de dicionários ou manuais de gramática, mas graças aos enunciados concretos que
ouvimos e reproduzimos na comunicação efetiva com as pessoas que nos rodeiam",
concepção esta que entende que a língua só existe em função do uso que locutores
(quem fala ou escreve ou se expressa) e interlocutores (quem lê ou escuta ou interpreta)
fazem dela em situações (prosaicas ou formais) de comunicação. O ensinar, o aprender
e o uso das formas linguísticas passam necessariamente pelo sujeito, o agente das
relações sociais e o responsável pela composição e pelo estilo dos discursos. Esse
sujeito se vale do conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e
redigir seus textos. Além disso, um enunciado sempre é modulado pelo falante a partir e
para o contexto social, histórico, cultural e ideológico. É uma constante busca pelos
sentidos do já-dito e do porvir.
Em Marxismo e Filosofia da linguagem, temos Bakhtin/Volochinov
colocando que:
A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse
interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo pessoal ou
não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao
locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.)
(2004 [1977], p. 112).
Da mesma forma, afirma que a situação social mais imediata e o meio social
determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a
estrutura da enunciação que em sua totalidade é socialmente dirigida. Antes de qualquer
33
coisa, ela seria determinada da maneira mais imediata pelos participantes do ato de fala,
explícitos ou implícitos, em ligação com uma relação bem precisa; a situação dá forma à
enunciação, impondo-lhe esta ressonância em vez daquela. A situação e os participantes
mais imediatos determinam a forma e o estilo ocasionais da enunciação.
Retornando ao ponto já mencionado de que “a palavra dirige-se a um
interlocutor”, vale acrescentar que segundo Bakhtin (2004 [1977], p. 114), toda palavra
comporta duas faces. Ela tanto se dirige para alguém como procede de alguém. Ela
constitui o produto da interação do locutor e do ouvinte.
Nessa relação dialógica entre locutor e interlocutor no meio social, em que o
verbal e o não verbal influenciam de maneira determinante a construção dos
enunciados, outro dado ganhou contornos de tese: a interação por meio da linguagem se
dá num contexto em que todos participam em condição de igualdade, esta utópica e
ahistórica haja vista uma existência ideológica de uniformidade monologizante das
palavras (signos), dos discursos. Aquele que enuncia busca selecionar palavras
apropriadas para formular um texto montado em certas intenções enunciativas, focando
uma compreensão da parte do(s) outro(s) – seu(s) destinatário(s). Esta
compreensibilidade diz respeito a um sujeito operar construções léxico-gramaticais
baseado num jogo cultural entre o empírico e o formal das relações intersubjetivas.
Assim, um sujeito pode construir um enunciado que visa a não ser entendo dentro de
certas situações enunciativas, assim como também pode haver uma possibilidade de
entendimento por sujeitos de que um enunciado feito por alguém não tinha como
intenção fazer-se claro. Em ambas as situações há compreensões. Não há “álibi” dentro
do ato ético das vivências (BAKHTIN, 2010). Estas intencionalidades que se
configuram se articulam, pois nós, sujeitos, participamos tanto como enunciadores
quanto destinatários dos enunciados.
Um termo chave teórico em todo trabalho do Círculo é edinstvennji:
singular, irrepetível, excepcional, incomparável, sui generis. O evento (situação
irrepetível), o inacabamento (o que está sempre por ser alcançado), o antirracionalismo
(a não Verdade)9, o ato (a interação) e, acima de tudo, o axiológico (o vínculo valorativo
9 Antirracionalismo, aqui, diz respeito à oposição racionalista ligada ao modelo estritamente
cartesiano no qual podem ser configuradas interpretações enunciativas ligadas a um
direcionamento exclusivo de verdade. Por exemplo, a visão de que há uma forma correta e única
no uso linguístico; o algebrismo matemático direcionado ao modelo 1 para 1, ou seja, o
34
que marca um lugar) tomam espaços neste nosso trabalho. Nossos dizeres se fincam na
instância do debate e da interpretação sobre um acontecimento discursivo que são os
discursos sobre a aula de matemática em seu acontecimento, ou seja, um dizer de um
lugar, enunciado por sujeitos, sobre a forma de alguns gêneros componentes de um
produto cultural (revista). Os conceitos do Círculo nos promovem instabilizações a fim
de tomarmos posicionamentos interpretativos dos discursos que analisamos. A teoria se
faz presente em nossas práticas numa articulação teórico-metodológica na práxis
analítica.
1.2.1- Linguagem
O pressuposto teórico que move a pesquisa é o inevitável embate entre o
estável-instável. Como usamos uma teoria que permite focalizar o que é dinâmico em
sistemas de expressão e que toma o diálogo com o outro, adequando experiências dos
sujeitos com seus outros, a abordagem desta dinamicidade se torna profícua nas
discussões. Para realizar essa adequação ao outro ou àquilo que é dado, é necessário que
o pesquisador lance “mão de um processo operatório de montagem e desmontagem de
unidades, categorias e conseqüentemente de valores e significados” (REZENDE, 2008,
132)10.
Existe uma variação radical de experiência entre o pesquisador e seu outro
(variação espaço-temporal dos sujeitos sócio-históricos)11 e de expressões linguísticas
entendimento de verdade única no equacionamento matemático; estes são casos de um discurso
que instaura uma visão monologizante das interações enunciativas.
10 Ressignificamos, aqui, as discussões da pesquisadora Letícia Marcondes Rezende em que ela
discute a radical variação no ensino de línguas. Trazemos esta questão para o âmbito teórico
desta nossa pesquisa, pois tanto Rezende (2008) quanto nós nos posicionamos a favor da tese da
indeterminação da linguagem e dos posicionamentos de ancoragens feitos pelos sujeitos. Apesar
de estarmos em teorias com bases de autores distintas, a saber Culioli e Círculo de Bakhtin,
compartilhamos noções equivalentes em nossas pesquisas. Neste nosso trabalho não caberá
ampliarmos correlações teórico-metodológicas, mas estas serão desenvolvidas em artigos e/ou
em nossos trabalhos de doutorado.
11 Nesta relação de alteridade entre o sujeito pesquisador e seu outro, estamos entendendo que
este outro não necessariamente é um sujeito persona, mas sim é uma instância relacionada a
uma barreira, uma noção que instabiliza a atividade dos sujeitos. Podemos ter uma noção
semântica, por exemplo, como elemento outro de um/dos sujeitos, ou seja, é um obstáculo no
percurso da atribuição de sentidos na cadeia enunciativa. É polêmica esta questão quando
relacionada à alteridade, pois a relação sujeito-objeto dependerá de ordens instaladas na
enunciação por um sujeito organizador ou diremos que um objeto não exerce relação de
alteridade por si (não é um ente), mas sim são os discursos sobre ele, ou seja, a instância da
35
correspondentes, singularidades estas que demarcam nossas situações de vivências, em
suas complexidades, que precisam estar no horizonte de quem se coloca a confluí-los.
De ordem teórica, a perspectiva bakhtiniana que assumimos faz-nos tomar
como ponto de partida que reflitamos a conceituação de linguagem situada na
perspectiva de uma prática social na qual o discurso, moldado pelas relações de poder e
por ideologias, apresenta-se como uma rede de processos de significação, manifestação
de pontos de vista, de subjetividades, provocando efeitos nas construções identitárias,
nos sistemas de conhecimentos, crenças, os quais nem sempre estão aparentes na
estrutura organizacional do discurso introduzindo-se a ideia da constitutividade do
sujeito pela e na linguagem (BAKHTIN, 2003).
De ordem metodológica, caminhamos na perspectiva de uma visão de
realidade como descontínua, não linear, considerando o acontecimento, o evento. O
caráter da singularidade e da cotidianidade ganham espaços como objeto de estudo
numa longa história da prática excludente da variação, cabendo ao analista, nesta
perspectiva em que nos colocamos, compreendê-la e interpretá-la (LAVILLE E
DIONNE, 1999; SCHNITTMAN, 1996).
Remetemo-nos, assim, às discussões do círculo de Bakhtin por serem os
estudiosos pertencentes a este grupo autores que concebem o estudo dos signos verbais
inserido no universo dos bens simbólicos, no “mundo da cultura”, e, por fazerem parte
de uma realidade, a qual constituem e que lhes constitui, dialogam a relação verbal e
não verbal. Neste sentido, atualmente há inúmeros trabalhos na área da ADD que
realizam estudos, a partir das reflexões do Círculo, refletindo sobre materialidades
relacionadas também a um não verbal, corroborando investigações sobre a
constitutividade de relações intersemióticas na atividade que é a linguagem, avançando,
assim, o quadro teórico-metodológico dos estudos bakhtinianos.
Com este conjunto de pressupostos, os teóricos do Círculo de Bakhtin vão
propor o estudo da linguagem humana enquanto uma atividade sócio-histórica,
orientada para a ação comunicativa, por meio de sua manifestação nas diversas línguas,
num trabalho que não a concebe apenas como estrutura desarticulada de uma situação
enunciativa. E, ao tomar como foco de seus estudos um caráter híbrido das semioses, a
palavra que o configura personificado? De qualquer maneira, ambas concepções promovem a
interpenetração de vozes na instância do diálogo e interpretadas por sujeitos numa rede de
orquestração de escutas. Desta forma, eu e outro se separam/delimitam/identificam diferentes
um do outro, mas se ligam por formas alteritárias, tais como completude e diferenciação.
36
orientação para o outro e o diálogo entre consciências estabelecem, como elementos
sine qua non aos estudos da linguagem, de um lado, as relações entre enunciado e
realidade e, de outro, aquelas entre o enunciado, seu(s) produtor(es) e seu(s)
interlocutor(es).
O homem, em suas inter-relações ordinárias de comunicação, concebe novas
formas de atuação, de compreensão e interação por meio das inovações advindas das
redes de relações de trabalho na/pela cultura em que ele está imerso. Novos
objetos/artefatos faze-o florescer para novos acontecimentos na singularidade histórica.
“Dessa perspectiva, portanto, o homem é constituído na e pela linguagem ao dar
compreensões de sentido ao mundo, a si e aos outros homens, por meio de uma relação
dialogal entre as significações que se quer trocar, adquirir ou pôr em circulação”
(BARONAS et al, 2013, p. 27).
A questão das relações dialógicas entre enunciados e discursos se dão nas
reflexões dos textos dos integrantes do chamado Círculo de Bakhtin por meio das
reflexões sobre linguagem e seu funcionamento voltado a inúmeras facetas de embates.
De importante e produtiva reflexão, os pensadores do Círculo integram a seus discursos
o debate sobre a natureza ressignificativa da linguagem. É o que temos em
Bakhtin/Volochinov em Estética da Criação Verbal – foco aqui para o capítulo 7 desta
obra – sobre o significação e tema, sobre o dado e o criado. Estando num jogo de
relações, essas duas configurações categóricas nos colocam a compreender que no
enunciado posto há sempre algo criado a partir de um dado (ideia de responsividade
atrelada a uma arquitetônica do dizer).
Por meio do já-dito mobilizam-se possibilidades presentes do dizer,
projetando um futuro. Neste sentido, como há uma valoração de discussão prévia,
configura-se o que Bakhtin/Volochinov chamam de significação, uma instância em
estado de dicionário, uma ligação ainda descontextualizada para um certo
acontecimento/evento enunciativo. É no acontecimento – e somente nele – que a
estabilização provisória pode ser feita. É nesta integração orgânica de um conjunto de
possibilidades que o enunciado é colocado. Por exemplo, ao tomarmos o léxico
poltrona teremos inúmeras situações enunciativas nas quais ele pode ser investido. É
numa espécie de debate semântico-pragmático das situações discursivas que se operam
37
as possibilidades do dizer, tanto num sentido de enunciação ou co-enunciação12.
Poltrona em si pode nos ajudar a termos uma lista de usos situacionais, vinda pelas
experiências que deslizam entre a forma lexical e o empírico (recheio provindo de
experiências discursivas), porém é na situação dita concreta que há a realização do
conjunto de possibilidade de usos deste léxico. Todo acontecimento discursivo instaura,
então, um trabalho com o dado (significação), atualizando-o num evento, tornando-o
novo (tema). Não há, assim, uma polarização: um novo não é novidade exclusiva,
surgimento escandalizante proporcionado por uma inauguração, assim como não há
uma não novidade, pois a atualização do tema instaura um novo cenário discursivo, este
sim singular, irrepetível. Nesta dialética, corre paralelamente a ela a perspectiva
dialógica, num jogo de estabilizações provisórias exercido por um constante trabalho
sócio-cognitivo. Podemos chamar de poltrona uma pessoa cujas características
queremos destacar para alguém numa situação que é necessário velar/excluir sujeitos de
uma interação discursiva ou mesmo metaforizar por algum aspecto emotivo, estilístico
etc. O que diferencia poltrona de cadeira, de banco, de sofá, de trono, de tábua? O que
podemos recuperar de traços semânticos ao rearranjarmos o termo poltrona para um uso
menos comum? Estas são possíveis questões instigadas pelos processos de significação.
Ao refletirmos sobre processos linguísticos atrelados a aspectos de base
constitutiva em jogos expressivo-discursivos, configuramos, portanto, uma perspectiva
metodológica para conduzir o estudo do enunciado, tomando enunciados gerados nas
situações expressivo-comunicativas como uma unidade do discurso.
Na mesma coletânea de ensaios do Estética da criação verbal – mais
especificamente em ‘Apontamentos 1970-1971’, há uma exposição da noção de texto
encaminhada a planos enunciativos, isto é, à forma como enunciados estariam
(inter)ligados a uma rede de outros textos/enunciados/discursos. Portanto, nesta linha
interpretativa, não há enunciados únicos ou isolados. Há sempre enunciados anteriores
e/ou posteriores, levando-nos a uma questão metodológica do constante enfrentamento
12 Entendamos aqui que co-enunciador equivale à instância discursiva do destinatário,
demarcando que há uma produção compreensiva dele pelo enunciado de um enunciador/locutor
tanto como no enunciado, já que ele é um componente integrante da situação enunciativa
fazendo, assim, que essa seja uma instância que provoca formas de dizer de um enunciador. Nos
textos do Círculo não é comum termos o termo co-enunciador, mas sim destinatário haja vista
traduções advindas de influências da Teoria da Comunicação desenvolvida em Jakobson.
38
de um certo todo, recorte provisório que se é estabelecido por sujeitos em certos
momentos históricos e em certas situações enunciativas.
1.2.2- Valores e sentidos
A leitura dos textos do Círculo nos coloca a entender que compreender
significa orientar-se para a consciência do outro e de um/seu universo instalado,
esquematizando redes de uma memória discursiva composta por uma ética de juízo de
valores, relacionando práticas sociais passadas, a fim estabelecer no momento presente
do acontecimento uma explicitação de interpretações, fazendo, num jogo assimétrico de
relações, uma constante busca de estabilização (interpretação) de caminhos possíveis
(sentidos). Os sentidos são produzidos sempre na relação dos discursos. E é nesta
relação que há um atravessamento ideológico dos signos. Não vivemos alheios à
ideologia. Fazemos uma contínua e vital operação de estabilização de sentidos em meio
à instabilidade da linguagem.
O ser humano expressa-se. Essa condição psicossociobiológica tem por base
uma regulação entre jogos que estabilizam sentidos possíveis em um determinado
tempo e espaço, dentro de uma situação discursiva, em certo gênero discursivo, de
certos modos de dizer. Configura-se, assim, elementos de uma natureza interacional, de
base dialógica, dialética, de confrontos, de embates entre formas expressivas e
empirismo. São nas relações na natureza social que os espaços do confronto eu x outro
se darão.
Dessa forma, nós nos constituímos e nos transformamos sempre pela relação
com outro, uma vez que, como nos mostra Amorim (2004), a alteridade funda-se na
relação entre o sujeito e seu outro, ou melhor, seus outros. A relação eu-outro-outros,
em contextos sócio-histórico-culturais, instaura a possibilidade da ampliação dos
horizontes dos sujeitos, no desdobramento dos lugares enunciativos, na multiplicidade
de vozes, na configuração da polifonia entre o que é dito e o como se diz, em que “a
palavra se dirige e nesse gesto o outro já está posto” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992
[1929], p. 113). É neste cenário discursivo que vozes, fios-enunciados ou então fios que
os sujeitos, em seus atos interpretativos, organizam os mais variados enunciados
referenciando determinadas expressividades a um grupo social ou a uma determinada
temática.
39
Analogamente, Emerson (2010, p. 69), ao discutir os conceitos de diálogo e
alteridade (trabalhados no círculo bakhtiniano) quando da constituição de
subjetividades, salienta que “as palavras não podem ser concebidas sem as vozes que as
falam” e fora do contexto social, histórico, cultural e político da situação de interação.
Sendo assim, a busca de sentidos está condicionada dialogicamente por
valores dos sujeitos dentro de um construto social, no embate entre eu e outro, entre a
natureza natural e a natureza social, subjetivismo e objetivismo. O cotejamento
discursivo instaurado pelo trabalho psicossociobiológico para uma estabilização
provisória dos sentidos (REZENDE, 2008), num porto de passagens (GERALDI, 2003),
coloca-nos a entender que o acontecimento do ato enunciativo único, singular e
irrepetível, mas resultado de uma trama de dizeres, é elemento fundante para
entendermos mecanismos de estruturação e funcionamento linguísticos. As palavras –
no termo entendido dentro do conceito do círculo bakhtiniano referente a um turno ou a
um argumento da trama de dizeres – ganham corpo material para a realização da
expressividade dos sujeitos. Isto nos faz entender que interpretar é voltar-se para valores
introjetados e ressignificados pelos sujeitos, permitindo num determinado tempo e
espaço uma possível ancoragem.
1.2.3- Voz
Uma imagem do discurso não deixa de ser uma
imagem do homem que fala.
Mikhail Bakhtin
Fazemos, a seguir, alguns caminhos para compreendermos o conceito de
voz nos estudos dialógicos com base no Círculo bakhtiniano.
Voz é uma cadeia enunciativa ligada a um sujeito que se expressa e está
intimamente ligada à interpretação de sujeitos ao “ouvir”/compreender um
posicionamento social. Podemos refletir sobre vozes, noção plural, já que estamos
trabalhando com o embate da constante instabilidade do devir e, por isso, descobrimos
uma voz por meio da aproximação de outras (via cotejamento de enunciados). Colocar
que a voz é histórica, temporal, cultural não a delimita muito.
Tentemos pontuá-la com maior clareza: a voz é uma cadeia enunciativa de
tonalidade valorativa que assumirá, por interpretação dos sujeitos, uma destinação
ideológica, marcando certas especificidades nos sujeitos do discurso. Esta destinação
40
específico-interpretativa faz-nos demarcar lugares sociais, estes sendo
produtos/resultados da significação das instâncias discursivas (sujeitos, espaço, tempo,
ideologias).
A voz permite o reconhecimento do estilo de um grupo de sujeitos, uma
marca de uma determinada classe social. A voz emitida permite uma orientação
ideológica de referências a um lugar social, uma orientação de uma memória dos dizeres
situada em grupos específicos de sujeitos.
O nome voz coloca em diálogo algumas outras categorias bakhtinianas
referentes à sonoridade. Apesar de conceitos teórico-metodológicos (filosóficos por
base), estes guardam uma relação à escuta: ouvir vozes e interpretá-las; ecos de vozes
de enunciados outros; ressonância de vozes; reverberação das vozes.
Desta forma, corroboramos a noção de que a voz apenas aparecerá na
relação com outros posicionamentos. No enunciado “sempre estão presentes ecos e
lembranças de outros enunciados, com que ele conta, que ele refuta, confirma,
completa, pressupõe e assim por diante” (FIORIN, 2008 p. 21).
À pergunta de quem é essa voz podemos responder, por exemplo, é a voz do
professor, é a voz da revista, é a voz dos excluídos da sociedade, é a voz dos marginais,
são as vozes dos moradores de ruas. Podemos pontuar que estas são respostas aliadas a
cenários historicamente situados, delineados por um viés de referenciação.
No processo de busca da estabilização provisória dos sentidos, a voz se
posiciona como fonte de um sentido personalizado, tendo na base um sujeito autor-
pessoa. É válido ressaltar que, como nos coloca Bubnova (2011), a produção de
sentidos pelos sujeitos:
não se trata de uma "metafísica da presença", dos sentidos pré-existentes e
imóveis, nem de algo fantasmagórico, mas de um constante devir do sentido
permanentemente gerado pelo ato-resposta, que vai sendo modificado no
tempo ao ser retomado por outros participantes no diálogo (p. 274).
Podemos dizer que o conceito voz se identifica com opinião, ideia, ponto de
vista, postura ideológica. Desta forma, como nos mostram os estudos bakhtinianos, na
obra de Dostoiévski, o herói de uma novela "não é uma imagem, e sim a palavra plena,
a voz pura; não o vemos, mas o escutamos” (BAKHTIN [BAJTÍN]13, 1994 [1929], p.
13 Como se trata de trabalhos desenvolvidos em língua espanhola, citaremos distintamente a
forma da escrita do nome de Bakhtin, em que em espanhol é citado como Bajtín.
41
45 apud BUBNOVA, 2011, p. 276). “A compreensão do mundo (de realidades) é
modelada por meio de "visões do mundo materializadas nas vozes"” (BAKHTIN
[BAJTÍN], 1996, p. 354 apud BUBNOVA, 2011, p. 276).
Ao conceituarmos voz, conceituamos alguma forma de escuta. Sendo termos
fortemente ligados ao campo semântico musical, podemos entender que escutar é
colocar-se na cadeia discursiva num trabalho de interpretação; é engendrar sentidos nos
cenários montados pelos sujeitos; é se colocar na orquestração de orquestrações outras;
é trabalhar na estabilização de sentidos. Despolarizando a atividade do trabalho da
escuta, escutar é realizar uma operação discursiva bilateral, ou seja, há um duplo
processo em que tanto locutor e interlocutor produzem e emanam sentidos na relação
dialógica eu-outro.
A partir desta discussão inicial que tomamos, gostaríamos de desenvolver
uma linha de reflexão a respeito deste conceito do círculo bakhtiniano pautando-nos na
relação dialógica que estabelecemos a seguir: voz de e voz sobre.
Para ampliarmos esta proposta conceitual, é interessante recorrermos a mais
um conceito desenvolvido pelo círculo bakhtiniano: polifonia.
A noção metafórica de polifonia em sua relação com o diálogo refere-se
à orquestração de vozes em diálogo aberto, sem solução. Na busca dos sentidos, a
polifonia instaura um debate caótico do devir, a fim de realizar o trabalho epilinguístico
de referenciações e estabilizações. Atrelada à interpretação de valores sociais em
circulação num determinado tempo e espaço possíveis, a polifonia é uma característica
das cadeias expressivas, das materialidades resultantes de uma determinada prática
discursiva (gênero), numa mistura de sons, de vozes, de sujeitos, de jogos de
percepções, de escutas num emaranhado conjunto em que nós sujeitos vamos
estabelecendo referenciais e valorações.
Bakhtin (BAJTÍN, 1975 apud BUBNOVA, 2011) nos coloca que:
toda palavra (enunciado) concreta encontra o objeto que é dirigido ao falado
[...], discutindo, avaliando, envolto em uma neblina que lhe faz sombra ou,
ao contrário, na luz das palavras alheias já ditas sobre ele. Encontra-se
enredado e penetrado por ideias comuns, ponto de vista, avaliações alheias,
acentos. A palavra orientada ao seu objeto entra neste meio dialogicamente
agitado e tenso das palavras, valorações e acentos alheios, se entrelaça com
suas complexas interrelações, funde-se com umas, repele outras, entrecruza-
se com terceiras (p. 89-90).
42
Este jogo exposto no excerto sobre o encoberto – neblina – e o exposto – luz
– põe em questão o trabalho dialético-dialógico da busca da estabilização dos sentidos.
Sendo o signo ideológico, a trama discursiva é puro caos, devir, polifônico. Interpretar,
neste sentido, é estabilizar provisoriamente uma possibilidade. Enunciar é estabilizar
expressivamente valores. Desta forma, podemos investigar pontos de referência e certos
valores que sujeitos expressam por meio das vozes que nos chegam. Ampliando isto,
toda interpretação é única, pois carrega um amálgama de valores singulares, com
entonações14 peculiares.
Assim, o que estamos chamando de voz de liga-se à referenciação de um
lugar social na interpretação polifônica: a voz do professor, a voz do aluno, a voz do
analista, a voz do louco. Configura-se, aqui, uma remissão não a um sujeito em
especificidade, mas sim a um grupo social, sendo sua voz materializada no signo por
meio do já-dito, por uma memória discursiva que estabiliza determinadas nuances
recorrentes. Podemos dizer que, neste sentido, nesta conceituação que instauramos há
uma aproximação e um distanciamento relacionado ao conceito de autoria, pois este
implica delimitar a explicitação do sujeito e aquele não, no entanto há uma implicação.
Já a reflexão referente à noção de voz sobre coloca-nos não frente a um
grupo determinado, como pontuamos anteriormente, mas sim a uma remissão
ideológica, temática, instaurando uma referenciação relacionada ao assunto. Desta
forma, podemos ter investigações relacionadas a vozes sobre o ensino de matemática,
sobre a aprendizagem escolar, sobre o que é analisar, sobre a loucura.
Voz de e sobre não se opõem uma a outra, pelo contrário. Ambos modos se
constroem nas relações de referenciação e valoração. Temos uma distinção entre elas no
tocante à fonte: a primeira referenciando e oferecendo valorações com ênfase nos
sujeitos e a segunda referenciando e oferecendo valorações com ênfase nas relações
ideológico-temáticas.
Nosso entendimento é de que todo sentido é uma resposta a enunciados
anteriores (responsividade/respondibilidade), e de que todo autor é responsável pelo
sentido do enunciado que expressa, compartilhando uma coautoria significante com um
destinatário de sua resposta (alteridade). Ao atuar e ao falar, somos autores dos atos
responsáveis que envolvem nossa posição no mundo e nosso ser. A realidade da
14 No círculo bakhtiniano, o conceito de tom/entonação refere-se a valorações sociais das
relações dialógicas.
43
linguagem – como ato na vertente bakhtiniana – é a de pluralidade de linguagens sociais
e de discursos ideológicos que constituem um meio dinâmico.
As sequências de sentido, instigadas pelas vozes, constituem um diálogo
permanente, inacabado, instaurando um efeito polifônico para estabilizações de
sentidos.
As palavras tornam-se enunciado e adquirem um autor, isto é, um criador
de um enunciado determinado cuja posição está sendo expressa. Aqui, é a voz sobre –
um referencial temático – que toma partido. A voz é também a metáfora do corpo, da
presença necessária dos sujeitos no diálogo, no tempo aberto. Instaura-se, aqui, a voz de,
marcando um lugar social.
Cada voz possui sua cronotopia – sua raiz espaço-temporal – que a situa
como única (autoria), e sua ideologia, que a identifica como entidade social. A voz nos
coloca de frente a um mundo com suas modulações, acentos e entonações, cada um dos
quais é portador de nuances de sentidos sociais e situacionalmente personalizados.
Reconhecendo o dialogismo como noção constitutiva da linguagem e
atribuindo um papel privilegiado à presença de discursos “outros”, isto é, atribuíveis a
outra fonte enunciativa, destacamos, nas abordagens enunciativas pós-bakhtinianas, o
trabalho desenvolvido por Authier-Revuz (1990) que, partindo da concepção dialógica
da linguagem formulada pelo círculo de Bakhtin e da abordagem sobre sujeito e de sua
relação com a linguagem formulada por Freud e por Lacan, elabora uma distinção
categórica entre heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva.
Partindo dessas bases teórico-metodológicas, Authier-Revuz (1990, p. 26)
propõe “uma descrição da heterogeneidade mostrada como formas linguísticas de
representação de diferentes modos de ne