1 UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Ciências e Letras Departamento de Linguística O DISCURSO SOBRE A AULA DE MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA REVISTA NOVA ESCOLA Carlos Eduardo da Silva Ferreira Araraquara – SP 2 0 1 5 2 UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Ciências e Letras Departamento de Linguística O DISCURSO SOBRE A AULA DE MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA REVISTA NOVA ESCOLA Dissertação para apresentação ao Exame de Defesa do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara para a obtenção do título de Mestre nesta área. Linha de pesquisa: Estrutura, organização e funcionamento discursivos e textuais. Orientação: Professora Doutora Marina Célia Mendonça. Bolsa: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) Araraquara – SP 2 0 1 5 3 CARLOS EDUARDO DA SILVA FERREIRA UNESP – Faculdade de Ciências e Letras /Campus de Araraquara O DISCURSO SOBRE A AULA DE MATEMÁTICA: ARTICULANDO VOZES NA REVISTA NOVA ESCOLA Data da defesa: 31 de março de 2015 MEMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA: ______________________________________________________________ Profa. Dra. Marina Célia Mendonça (UNESP/ FCL) Presidente da banca e orientadora da dissertação ______________________________________________________________ Prof. Dr. Geraldo Tadeu Souza (UFSCar/Sorocaba) Membro titular ______________________________________________________________ Profa. Dra. Letícia Marcondes Rezende (UNESP/ FCL) Membro titular ______________________________________________________________ Profa. Dra. Anise de Abreu Gonçalves D'Orange Ferreira (UNESP/ FCL) Membro suplente ______________________________________________________________ Profa. Dra. Jauranice Rodrigues Cavalcanti (UFTM) Membro suplente 4 Dedico este trabalho a todos os lares, e inclusive ao meu. Dedico também a todas as pessoas que passaram por minha vida – seja a forma como for -, pois são elas todas que me formam, que me transpassam certo ar de instigantes transformações. Aos sonhadores praticantes de realidade terrena-transcendental. Ao caos que nos move! À querida sophia. 5 Agradecimentos Agradeço a minha família, a minha orientadora, a todos meus professores que se dedicaram profundamente ao trabalho de participarem comigo em minha construção como sujeito; professores que estiveram comigo no prezinho, no Fundamental I e II, no Ensino Médio, na Graduação e na Pós-Graduação, em cursos como música, informática, idiomas, dança, profissionalizante e inúmeras outras formas que me ajudaram/ajudam com que eu me expresse. De alguma forma, levo comigo com um enorme respeito. A base desta dissertação se firmou no meu caminho da Pós-graduação, por isso agradeço imensamente a todos os debates proporcionados principalmente pelos/mediados por meus grandes professores da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, lugar onde me formei. Ressalto também a presença importante de meus professores no Ensino Básico. As relações escolares sempre foram para mim momentos de debates. Sinto que tive belezas e também tive confrontos moralistas, mas tudo isto me constitui e constitui minha luta na esfera pedagógica. Agradeço a todos colegas de turmas que passaram por mim. Cada um sabe da importância que dou às suas atuações. Gosto de estar nos bastidores, atuando na calada! Obrigado às pessoas e às entidades como a CAPES que me auxiliam financeiramente. 6 ‘Creo que he visto una luz al otro lado del río…’ Jorge Drexler ‘Nenhum signo cultural, quando compreendido e dotado de um sentido, permanece isolado: torna-se parte da unidade da consciência verbalmente constituída. A consciência tem o poder de abordá-lo verbalmente. Assim, ondas crescentes de ecos e ressonâncias verbais, como as ondulações concêntricas à superfície das águas, moldam, por assim dizer, cada um dos signos ideológicos. Toda refração ideológica do ser em processo de formação, seja qual for a natureza de seu material significante, é acompanhado de uma refração ideológica verbal, como fenômeno obrigatoriamente concomitante. A palavra está presente em todos os atos de compreensão e em todos os atos de interpretação. ’ Marxismo e Filosofia da Linguagem 7 RESUMO Fazendo uma leitura das revistas Nova Escola do período de março/1986 a dezembro/2012, esta nossa pesquisa promove debates, a partir da perspectiva teórica da Análise Dialógica do Discurso, sobre discursos veiculados por esta/nesta revista educacional. Investigamos neste trabalho como são construídas as compreensões sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que ressignificam o sentido de aula de Matemática na revista Nova Escola: como discursos atribuídos ao professor de matemática se manifestam sobre o acontecimento aula? Como se materializam ao longo da história deste periódico nas seções de Nova Escola? Por meio da análise dos discursos referentes ao ensino de matemática em capas, plano de aula e matérias/reportagens produzidos pela revista Nova Escola podemos construir uma rede de dados de como são pensadas/refletidas/preparadas as relações diretas e radiais (difusas) entre professor–aluno–conhecimento durante o processo do momento aula. Fazemos metodologicamente uma análise das capas de Nova Escola demarcando e correlacionando períodos e características entre 1986 e 2012. Esse movimento nos dá caminhos para um debate maior, relacionado a uma pontuação entre a voz da instituição Nova Escola, a voz do professor de matemática e vozes sobre o ensino de matemática. Trazendo para nossa dissertação esse movimento exploratório, cotejamos oito capas de edições regulares e mais cinco de edições paralelas que se ligam diretamente à chamada de temática sobre “Educação matemática”. O corpus também é composto por exemplos de gêneros de reportagem/matérias na correlação com planos de aula. Como o periódico alterou algumas formas de apresentação (gêneros) de seus discursos sobre a aula de matemática no decorrer do tempo, investigamos como planos de aulas e/ou reportagens materializam e articulam vozes (da instituição, do professor, do estudante) num conjunto de casos que destacamos como exemplos representantes deste deslocamento. Que efeitos de sentido ligados ao dizer sobre aula de matemática se configuram diante da emergência de certos gêneros e não outros? Como podemos interpretar uma substancial alteração genérica que vai do emprego de reportagens para usos se sequências didáticas/planos de aula? Esta escolha permite confrontar relações entre a voz da instituição da revista (capa e reportagens) e vozes dos professores (“depoimentos” e planos de aula) – ainda que perpassadas pela escolha da revista. Para desenvolvermos este nosso trabalho, além de selecionar quais discursos podem nos dar bases para realizar uma análise discursiva pretendemos sobre- elevar possíveis mudanças de guinada/de foco/de perspectivas que acreditamos que Nova Escola empregou. Para tal, trabalhamos no sentido de analisar os rearranjos da instauração de vozes do professor de Matemática sobre práticas do ensino desta disciplina ao longo da revista bem como as marcas de alterações estrutural-discursivas ao cotejarmos os discursos materializados nas seções do periódico. A mobilização de conceitos ligados à compreensão de linguagem, valores discursivos em diálogo, esfera enunciativa, enunciado/enunciação e vozes discursivas dão contorno ao debate central desta nossa dissertação: o discurso sobre o acontecimento/evento, este entendido por meio de instâncias do dado e do novo, por atributos de ressignificação, em jogos de instabilidade e estabilidade. Palavras-chave: Análise Dialógica de Discursos/ estudos discursivos; Revista Nova Escola; Educação matemática; vozes; jogos de instabilidade/estabilidade. 8 ABSTRACT This work promotes debates on the discourses vehiculated by the educational magazine Nova Escola, through the perspective of the Dialogic Discourse Analysis. The editions used are those from March/1986 to December/2012. We investigated how the comprehensions about the movement of circulation and voices emergence are built. These understandings reframe the concepts about the Math class in the Nova Escola magazines. How do discourses attributed to math teachers unfold in relation to the class event? How are they materialized through the history of this periodical in the Nova Escola sections? How can we establish discursive relations between these voices and the discourses vehiculated by the official curricular proposals documents engendered in the political-educational field? By analyzing discourses that refer to math teaching (lesson plans, articles/reporters) developed by Nova Escola – with teachers’ interaction in this mediatic space, e.g. readers response - we can build a data network of how the direct and radial (diffuse) relations between the triad “teacher- student-knowledge during the class moment process” are thought, reflected and prepared . Focusing that, we may relate discussions not strictly to the notion of Math classes in the used editions of the publication, but also direct reflections about the class moment itself, how it is faced/interpreted and conducted. In addition to select which discourses can give us bases to perform a discursive analysis, we pose some other questions in the development of our work, as “how does the Math teacher’s discourse is expressed in certain genres internal to the magazine?” Hence, we intend to over-raise possible changes of focus/perspectives yaw that we believe Nova Escola employed. In order to accomplish it, we worked to analyze the Math teacher’s voices instauration rearrangements on teaching techniques/practices shown in the magazine, as well as the structural-discursive alterations marks identified in collating the discourses materialized in the periodical sections. Keywords: Dialogic Discourse Analysis/ discourses studies; Nova Escola magazine; Mathematical Education; voices; instability/stability games. S U M Á R I O INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10 1- Fundamentação teórico-metodológica: discussões na análise dialógica do discurso ........................................................................................................ 21 1.1- Reflexões iniciais: uma espiral se montando ............................................. 21 1.2- 1.2-Os olhares via ADD: o círculo bakhtiniano e as contribuições para o acontecimento .................................................................................................... 29 1.2.1- Linguagem....................................................................................... 34 1.2.2- Valores e sentidos ........................................................................... 38 1.2.3- Voz .................................................................................................. 39 1.3- A pesquisa em Ciências Humanas ............................................................. 44 2- Embates no discurso sobre educação no Brasil: perspectivas para uma escola do acontecimento .................................................................................. 55 2.1- Uma histórica concepção de/sobre aula ..................................................... 57 2.2- Tendências/Modelos na formação de professores e os consequentes debates sobre disciplinas escolares no Brasil ................................................................. 60 2.3- O discurso científico e o discurso escolar: imagens no gênero aula .......... 71 3- A revista Nova Escola: uma análise discursiva. Vozes em debates sobre o ensino de matemática ................................................................................... 77 3.1- Contextualizações do material: panorama constituinte da Nova Escola como revista educacional .................................................................................. 77 3.2- Relações entre mídia e educação no processo de formação educacional ... 85 3.3- Análises iniciais: as capas como discursos da instituição .......................... 87 3.4- Confrontos: Nova Escola e um caso de rearranjo de vozes sobre o ensino de matemática .................................................................................................. 108 CONCLUSÃO ............................................................................................... 134 REFERÊNCIAS ............................................................................................ 138 10 INTRODUÇÃO A constatação de que o ensino escolar não está suprindo os requisitos da sociedade atual, precisando, assim, de reformulações e mudanças, fez com que Isabel Alarcão (2001) e seus colaboradores lançassem uma planificação de uma escola reflexiva, em analogia ao que Nóvoa (1995) e Schön (1998) chamaram de professor reflexivo. Esta concepção educacional considera a escola um organismo em vida, em desenvolvimentos nas atuações de suas práticas, norteada pelo fim de educar. Uma Escola Reflexiva é uma escola inteligente, autônoma e responsável, que decide o que precisa fazer nas situações específicas da sua exigência e registra o seu pensamento no projeto político-pedagógico que vai sendo pensado e (re)construído no cotidiano das práticas pedagógicas. A Escola Reflexiva pensa o presente para projetar o futuro, o que a torna mais situada, mais responsável e preparada para as situações emergentes, mais flexível e livre. É uma escola que se pensa através de seus atores (ALARCÃO, 2001). Podemos perceber, desse modo, que se pudermos obter um princípio regulador de uma Escola Reflexiva, ele seria aquele que experimenta e toma a complexidade dos diversos situares do viver atual. O viver, o sentir, o refletir são complexos, e complexas são as inter-relações que são estabelecidas entre o que nós, seres humanos somos, e o que a história e a ciência são. Colocarmos a nós mesmos numa atuação dinâmica na contemporaneidade requer que reconheçamos que a história é instável e caótica, e que as direções de nossa existência são entremeadas por tensões, rupturas, dúvidas, porém, em compensação, são estes os momentos que nos permitem a pulsão de uma “criatividade científica” (PRIGOGINE, 1996). É justamente esta Escola Reflexiva que tem em sua atuação a prática da “criatividade científica” que coloco como espinha dorsal nas questões da atuação da Escola para os sujeitos. O sujeito ‘aluno’ da escola é um ser que ressignifica seus compromissos com o mundo numa escola que se propõe a refletir, argumentar, ouvir, questionar: chamar todos os sujeitos envolvidos ali a se constituírem com/na linguagem em atitude responsiva. Não se trata apenas de uma prática discursiva e pedagógica comum, mas daquela que se organiza com propriedade, produz e usa conhecimento para intervir, orientada pela informação mais atualizada possível, coloca questões pertinentes e as enfrenta. Em relação à linguagem, isso se traduz numa cidadania atuante e dialógica que 11 elege o fluxo do movimento como inspiração, rejeitando a permanência do mesmo e a fixidez mórbida do passado (GERALDI, 2004). Ensinar não é mais transmitir e informar, ensinar é ensinar o sujeito aprendente a construir respostas, portanto só pode partir de perguntas. (...) Poderemos não produzir as respostas desejadas, mas somente nossa memória de um futuro outro para as gerações com as quais hoje trabalhamos poderá iluminar nosso processo de construção desta nova identidade (GERALDI, 2010, p. 100). Atribuir à aula o acontecimento, como Geraldi (2010) nos coloca, é afirmar que este momento/acontecimento aula engloba e se estrutura enquanto processo, ou seja, é buscar compreender a complexidade dos sujeitos perante os momentos interacionais que vivemos. Cabe a este conjunto de atuares entre os “atores” dimensionar a própria força complexa que age entre os si nas relações com o(s) outro(s) e com o(s) mundo(s). Desta forma, não se tem alunos – entidade abstrata e impessoal –, e sim sujeitos aprendentes. Esta instância única, singular, irrepetível, potencial, grávida de “devires”, projeções confluentes do já-dito atrelada aos planos de dizer dos participantes das cenas discursivas – com base no modo como Geraldi (2004) nos coloca – constitui a base da ideia sobre acontecimento, um dos conceitos centrais desta nossa dissertação. É justamente este o elemento que dispomos para amarrar, ajustar e dinamizar nossas reflexões. Para isso, reconhecer a alteridade é condição sine qua non para constituir sentidos do viver, compartilhando as responsabilidades de nossas respostas ao nosso pertencimento ao humano em processo constante de se fazer. A linguagem é uma atividade constitutiva das consciências humanas e a certeza de que os sistemas linguísticos nunca estão prontos e acabados, mas se vão construindo na história, deve nos levar a retomar sistematicamente as enunciações, buscando detectar nelas mesmas os elementos indicadores de caminhos a percorrer (GERALDI, 2010). A imutabilidade do passado abre as portas para projeções de um futuro não fixo, não imóvel, nem imutável. Sobre esta nossa pesquisa, se há a incômoda sensação da “mistura” de uma abordagem linguístico-discursiva ligada às humanidades a uma temática, com configuração pouco comum a esta base, no campo das Exatas, gostaríamos de ressaltar 12 que o estranhamento e o número baixo de atrelamentos interdisciplinares1 estão ligados a um histórico formal das práticas dos sujeitos em nossas vivências sociais. É justamente nesta linha que este estudo também se configura: é “um trabalho de pesquisa e uma ação política, não de políticas partidárias, mas de denúncia junto à classe docente”, como diria Armando Maia, o camelô da Matemática do Largo da Carioca, matéria veiculada na revista Nova Escola e que trataremos em nossos trabalhos. Partindo destas discussões de ensino abordadas por Geraldi (2010), a respeito da concepção sobre a movimentação da prática do gênero do discurso aula, nossa pesquisa propõe analisar, via dialogicidade, como são construídas as compreensões sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que ressignificam o conceito de aula de Matemática na revista educacional Nova Escola: como o discurso do professor de matemática se manifesta sobre essa temática? Como ele se materializa ao longo da história deste periódico? É de grande importância que sejam desenvolvidas pesquisas que abordem os embates de questões teórico-práticas do momento aula, no sentido de aprofundarmos discussões que nos levem a lugares que dinamizem os processos intersubjetivos e nos proporcionem reflexões sobre o estar no mundo, o ser no mundo, o vir a ser, permitindo ampliar as discussões sobre formação de professores e sobre a produção de identidade na escola. Como exposto, a nossa proposta no mestrado é analisar discursos retirados da revista Nova Escola, publicação periódica mensal publicada desde 1986, pela Fundação Victor Civita. Esta revista voltada aos professores – inicialmente com o subtítulo de “Para professores do 1º grau”, e nos dias atuais aparece com o subtítulo “A revista de quem educa” – atualmente aborda múltiplos assuntos da área educacional e está dividida em seções e editorias, nas quais constam artigos, ensaios, entrevistas com especialistas, relatos de experiências, planos para sala de aula, oferecendo auxílio ao professor em sua prática cotidiana e seções destinadas à divulgação de trabalhos desenvolvidos pelo país. No intuito de disseminar atividades culturais, a revista se firma por meio de suas abordagens. Tendo em vista a influência que esta revista possui hoje no meio de circulação pelo Brasil – não se tem outro impresso de temática educacional entre as 30 1 Discutiremos em momento oportuno sobre a conceituação a qual tomamos para o termo interdisciplinar/interdisciplinaridade. 13 revistas de maior circulação nacional2 – e por suas divulgações de abordagens educativas, este estudo busca analisar as diferentes – ou não – concepções do construto aula nos discursos dirigidos à área da Matemática, em específico no campo da Educação Matemática. Sobre a área de estudos da Educação Matemática, numa espécie de concerto a quatro mãos3, o pesquisador da Unicamp Antonio Miguel (p. 6-7)4 comenta o seguinte a respeito dos posicionamentos das pesquisas sobre este espaço: Independentemente do espaço acadêmico nos quais são hoje internacionalmente desenvolvidas as pesquisas em Educação Matemática e independentemente da natureza da formação acadêmica dos produtores de conhecimento em tal prática social de investigação, podemos afirmar que um dos pontos básicos de divergência entre os integrantes da comunidade de educadores matemáticos diz respeito ao locus epistemológico da Educação Matemática. Há os que acreditam e defendem que o seu estatuto epistemológico estaria melhor definido se a situássemos no interior do campo da Educação, aqui concebida como uma prática social de investigação. Já para outros, ela estaria melhor situada e definida no interior do campo da Matemática, aqui igualmente concebida como campo de investigação. Há, finalmente, os que acreditam e defendem a independência e autonomia da educação matemática em relação tanto à Matemática quanto à Educação, encarando-a, portanto, como uma nova disciplina ao lado das demais já constituídas e consolidadas. Concordamos com o posicionamento do autor/pesquisador. Nesta direção, nossos dizeres têm como ponto de partida para esta pesquisa trabalhos desenvolvidos pelos estudos bakhtinianos. Temos como fundamentação do nosso olhar o entendimento de que nós, seres humanos, fazemos processos representativos/referenciais envolvendo a história da cultura humana, envolvendo os sujeitos sócio-históricos que nos antecederam, conferindo às nossas colocações uma rede de confrontos de ações, gestos e pontos de vista, instaurando a natureza da dialogicidade, a responsividade/respondibilidade consigo próprio e com o outro (alteridade), processo psicossociobiológico o qual chamaremos de linguagem. Sendo assim, os estudos linguísticos contribuem analiticamente para as discussões sobre valoração de mundo, 2 Dados estes verificáveis no Instituto Verificador de Circulação (IVC), além de constarem na página da Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER): . 3 MIGUEL, Antonio; GARNICA, Antonio Vicente Marafioti; IGLIORI, Sonia Barbosa Camargo; AMBROSIO, Ubiratan D’. A educação matemática: uma área de conhecimento em consolidação. O papel da constituição de um grupo de trabalho dessa área na ANPED. Disponível em: . Acesso em 05/09/2012. 4Disponível em . Acesso em 05/09/2012. http://www.ufrrj.br/emanped/paginas/conteudo_producoes/docs_26/educacao.pdf 14 sobre mecanismos de estabilizações e desestabilizações de discursos em circulações nas inúmeras esferas de atuação na humanidade. Marchezan (2008) assim nos coloca a respeito do emprego da Análise Dialógica do Discurso (ADD) como “óculos” teórico: Na perspectiva bakhtiniana, buscar a compreensão das “formas concretas dos textos” (do discurso, do enunciado), que ocorrem em condições dialógicas, que não são naturais, imprevistas, mas, sim, sociais, históricas, é alcançar também o homem, a sociedade que o constitui e é constituída por ele. Tal como o homem, o texto é complexo, heterogêneo; dele ressoam vozes sociais diversas, que se apóiam, que se debatem. Reiteração de outras vozes já conhecidas, o texto é, ao mesmo tempo, uma voz única e irreproduzível. E é essa singularidade mesma que explica sua existência, seu acontecimento (p. 6). Nestes dizeres percebemos como a ADD orienta-se na interpretação discursiva, numa construção de sentidos articulada com a história e a sociedade, possuindo nestes dois pontos – linguístico e histórico – um posicionamento analítico para a construção do ser humano, em si e com o outro. Desse modo, esta proposta de trabalho parte dos estudos bakhtinianos do discurso, analisando o lugar de (res)significação que é o discurso, assim como é o construto aula, isto dentro do material discursivo-matemático produzido pela revista Nova Escola. Pretende-se, assim, conjungir reflexões sobre Teoria Discursiva e abordagens nas Teorias Educacionais e Educação Matemática por meio das compreensões do momento aula. Trabalhos nessa linha abordada aqui são desconhecidos. Temos conhecimento apenas de trabalhos que relacionam Língua Materna e Matemática, ou Matemática, Educação e tradições do Ensino. Não se verificou a existência de um trabalho com a proposta teórica na ADD vinculada ao ensino de Matemática, podendo este percurso ser tomado como significativo, visto que esse caminho discursivo poderá contribuir com uma perspectiva reflexiva de como a aula de Matemática tem sido abordada pela mídia, e como se relacionam discursos/ideologias sobre o ensino matemático ao discurso oficial, ao discurso de professores de Matemática e a de outros profissionais. Por meio destes vários discursos, nosso interesse é responder à seguinte pergunta: qual é a noção de ‘aula de matemática’ – e consequentemente ‘aula’ (gênero, em geral) e ‘escola’ – que está sendo constituída nestes interdiscursos? Para as informações sobre o desenvolvimento da revista são conhecidos materiais que trabalham com estas informações, como as pesquisas a seguir, localizadas 15 na área da Educação: Pedroso (1999), Faria (2002), Costa (2003), Marrone (2003), Bueno (2007) e Ramos (2009). Além destes estudos ligados à área da Educação encontramos também trabalhos de viés linguístico-discursivo nos textos periódicos da revista Nova Escola, como Silveira (2006) que os focalizou como um suporte matérico para análise em “Um estudo das capas da revista Nova Escola: 1986-2004”, observando permanências, rupturas ou alterações expressivas nesta materialidade midiática de consumo. Mônica Salles Gentil (2006), em seu trabalho Revistas da área de educação e professores - Interlocuções, investiga não só análises em textos de periódicos educacionais, mas também a apropriação das revistas por parte dos professores, considerando não somente “o poder de um produto cultural midiático, mas também o(s) poder(es) de seu leitor” (RAMOS, 2009, p. 9). A pesquisadora Ramos (2009), em suas leituras de trabalhos relacionados à revista Nova Escola, opina da seguinte maneira sobre o trabalho de Gentil (2006): A autora analisou três revistas constatadas como as mais lidas pelo professor, incluindo a Nova Escola, partindo da Análise de Discurso francesa para entender a imagem que tais revistas fazem dos professores, ao mesmo tempo em que entrevistando professores procurou descobrir as imagens que estes fazem das revistas. Afora este trabalho de Gentil, nenhum outro de que se tenha conhecimento focalizou apropriações ou representações dos professores em relação à revista, a partir de entrevistas e/ou questionários (p. 9). Numa pesquisa que analisa a elaboração e a apropriação do modelo curricular no ensino de História pela Nova Escola, numa época de transição paradigmática do ensino desta matéria – pós-ditadura militar –, Ramos (2009) dá por resultados que, se quisermos atribuir à revista a qualificação de ‘material com abordagem inovadora’, o conteúdo “só foi inovador à medida que Nova Escola não poderia destoar do que o seu leitor discutia, acreditava, projetava”. Com a inserção dos PCNs, a historiógrafa da educação nos mostra que foram tomadas novas concepções como diretrizes havendo, após o período dos governos dos militares, uma entrada das vertentes marxistas nas reflexões de ensino. Com isso, os focos eram constituídos de um saber fazer em dimensão do presente, com manutenções da noção de história pátria – tradicionalidade curricular – sem, assim, instaurar uma reflexão de movimentos confluentes da projeção entre passado e futuro. O que poderemos analisar por meio desta nossa pesquisa será como as materialidades históricas dialogam com o quadro 16 epistemológico curricular da Matemática; há movimentação no construto aula de Matemática? Partir da ADD para uma análise de atividades educacionais será uma abordagem significativa para as relações entre o corpus material e as articulações das vozes de professores de Matemática promovendo, assim, um espaço que dialoga com questões do Ensino e da Educação, principalmente no âmbito discursivo do cenário brasileiro. Diante desse trabalho linguístico entre as pesquisas linguístico-discursivas com a área da Educação, assim nos expõe Anjos-Santos, Lanferdini e Cristovão (2008)5: Dessa forma, como aponta Machado (2009), os linguistas aplicados com foco em atividades educacionais deveriam analisar criticamente os conteúdos/conhecimentos científicos selecionados como núcleo a ser ensinado numa determinada sociedade, assim como fazer emergir interpretações ocultadas em função do processo de transposição didática. Na percepção da autora, tal análise poderia elucidar as marcas linguístico-discursivas que dão um tom de neutralidade aos documentos de orientação educacional e as ideologias a eles subjacentes (p.378). Segundo parâmetros educacionais oficiais, a escola propõe-se ser um espaço de práticas reflexivas entre sujeitos, em constante construção no mundo. Ela tem promovido isto? De que maneira esta formação pode se realizar? Considerando-se a complexidade dos processos relacionais, por efeito da cognição humana, os sujeitos são mais ou menos indivíduos. Esta ideia de único se dá numa esfera material, de cada organismo humano ser um, e não um outro, visto que quem é um e quem é o outro se baseia na relatividade do processo de enunciação linguística. A ideia bakhtiniana de o ser humano ser cingindo com os aprendizados do/com o outro mostra-nos que o tal indivíduo não é senão, também, formas relacionais dos outros que se dão em um. É esse sistema radicular-pivotante, paradoxo, complexificado que a educação escolar tem em mãos para lidar. Por meio da análise dos discursos referentes ao ensino de matemática (plano de aula, matérias/reportagens) desenvolvidos pela revista Nova Escola – juntamente com a interação de professores no espaço desta mídia (materializada, por exemplo, em cartas de leitores) – podemos construir uma rede de dados de como são 5 Dos saberes para ensinar aos saberes didatizados: uma análise da concepção de sequência didática segundo o ISD e sua reconcepção na revista “Nova Escola”. Disponível em http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/1102/110208.pdf. Acesso em 05/09/2012. http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/1102/110208.pdf 17 pensadas/refletidas/preparadas as relações diretas e radiais (difusas) entre professor – aluno – conhecimento durante o processo do momento aula. Com este foco, podemos relacionar discussões não estritamente à noção de aulas de Matemática no decorrer das publicações da revista em questão, mas sim direcionar reflexões sobre o momento aula em si, como é encarado, conduzido. O pressuposto teórico que move a pesquisa é o inevitável embate entre o estável-instável. Como usamos uma teoria que permite focalizar o que é dinâmico em sistemas de expressão e que toma o diálogo com o outro, adequando experiências dos sujeitos com seus outros, a abordagem desta dinamicidade se torna profícua nas discussões. Para realizar essa adequação ao outro ou àquilo que é dado, é necessário que o pesquisador lance “mão de um processo operatório de montagem e desmontagem de unidades, categorias e conseqüentemente de valores e significados” (REZENDE, 2008, 132)6. Existe uma variação radical de experiência entre o pesquisador e seu outro (variação espaço-temporal dos sujeitos sócio-históricos)7 e de expressões linguísticas correspondentes, singularidades estas que demarcam nossas situações de vivências, em suas complexidades, que precisam estar no horizonte de quem se coloca a confluí-los. Posicionamo-nos nesta centralidade de movimentações situando nossas perspectivas de olhares, nossas escolhas enunciativas e nossas reflexões analíticas no domínio dos estudos discursivos numa contribuição aos estudos da Educação e Educação matemática. O procedimento metodológico adotado, considerando reflexões desenvolvidas por Geraldi (2012), será: cotejaremos enunciados produzidos nas esferas político-pedagógica e midiática e os analisaremos considerando que materializam 6 Ressignificamos, aqui, as discussões da pesquisadora Letícia Marcondes Rezende em que ela discute a radical variação no ensino de línguas. Trazemos esta questão para o âmbito teórico desta nossa pesquisa, pois tanto Rezende quanto nós nos posicionamos a favor da tese da indeterminação da linguagem e dos posicionamentos de ancoragens feitos pelos sujeitos. Apesar de estarmos em teorias com bases de autores distintas, a saber Culioli e Círculo de Bakhtin, compartilhamos noções equivalentes em nossas pesquisas. 7 Nesta relação de alteridade entre o sujeito pesquisador e seu outro, estamos entendendo que este outro não necessariamente é um sujeito persona, mas sim é uma instância relacionada a uma barreira, uma noção que instabiliza a atividade dos sujeitos. Podemos ter uma noção semântica, por exemplo, como elemento outro de um/dos sujeitos, ou seja, é um obstáculo no percurso da atribuição de sentidos na cadeia enunciativa. 18 contornos sociais/ideológicos e seus conflitos correspondentes a respeito da aula de matemática. Tendo como um corpus matérias jornalísticas que materializam as vozes dos professores de Matemática nos números da revista Nova Escola pretende-se, então, analisar os discursos que são produzidos a respeito do momento aula de Matemática: como se compreende este “espaço” de interações? Como ele é programado? Como os professores que ali se posicionam concebem o “momento aula”? A revista Nova Escola é dividida em seções e editorias, nas quais constam artigos, ensaios, entrevistas com especialistas, relatos de experiências, planos para sala de aula, oferecendo auxílio ao professor em sua prática cotidiana. A partir de uma leitura das 258 revistas da Nova Escola acessadas (de março/1986 a dezembro/2012), analisando o periódico como um enunciado todo, fizemos alguns recortes a fim de fazer uma análise dialógica a respeito da concepção sobre a movimentação da prática do gênero do discurso aula de matemática que a revista Nova Escola vem conceituando. Para desenvolvermos este nosso trabalho, além de selecionar quais discursos podem nos dar bases para realizar uma análise discursiva, dispomos de algumas perguntas, tais quais: como são construídas as compreensões sobre o movimento de circulação e emergência de vozes que ressignificam o conceito de aula de Matemática na revista educacional Nova Escola? Como o discurso do professor de matemática se manifesta em determinados gêneros internos à revista? Como se materializa esse discurso ao longo da história do periódico? Como podemos estabelecer relações discursivas entre estas vozes e os discursos veiculados pelos documentos oficiais das propostas curriculares engendradas no interior do campo político-educacional? Por meio da análise dos discursos referentes ao ensino de matemática desenvolvidos pela revista Nova Escola – juntamente com a interação de professores no espaço desta mídia – podemos construir uma rede de dados de como é pensada/representada a aula de matemática considerando as relações diretas e difusas entre professor-aluno-conhecimento durante o processo do momento aula. Selecionamos para análise, na dissertação, os gêneros do discurso plano de aula, reportagens e capa, em que se materializam as vozes da revista e dos professores de matemática. 19 Nosso trabalho na dissertação consiste em analisar vozes nos discursos materializados em Nova Escola ligados ao ensino de matemática. Como o periódico alterou algumas formas de apresentação de seus discursos no decorrer do tempo (diagramação, seções etc), investigamos uma rede de relações que constroem o que estamos chamando de alterações na tonalidade discursiva, um deslocamento da voz do professor. Em Estética da criação verbal, Bakhtin nos coloca que o tom de um discurso “não é determinado pelo material do conteúdo ou pela vivência do locutor, mas pela atitude do locutor para com a pessoa do interlocutor (a atitude para com sua posição social, importância, etc)” (1997, p. 396). Desta forma, pretendemos sobre-elevar esta mudança de guinada/de foco/de perspectivas que acreditamos que Nova Escola empregou. Para tal, trabalhamos no sentido de analisar os rearranjos da instauração de vozes do professor de Matemática sobre práticas do ensino desta disciplina ao longo da revista bem como as marcas de alterações estrutural-discursivas ao cotejarmos os discursos materializados nas seções do periódico. Em nossos caminhos abdutivos, tomamos como corpus para análise o gênero capa, observando suas alterações no decorrer dos anos e, neste recorte do corpus, pretendemos encontrar a voz da revista sobre o acontecimento da aula de matemática. O corpus também é composto por gêneros que compreendem vozes de professores. Como o periódico alterou algumas formas de apresentação de seus discursos no decorrer do tempo, investigaremos também planos de aulas e/ou reportagens quando materializam o discurso sobre a aula de matemática. Esta escolha permite confrontar relações entre a voz da instituição da revista (capa e reportagens) e vozes dos professores (“depoimentos” e planos de aula) – ainda que perpassadas pela escolha da revista. Os resultados desta pesquisa contribuem com: 1) os estudos bakhtinianos do discurso, em particular com a reflexão sobre a concepção do “sentido em movimento” (neste caso, o sentido de aula e de aula de matemática produzidos em Nova Escola); 2) as relações entre as esferas da educação (em especial, no que diz respeito ao ensino/aprendizagem de matemática) e da linguística; 3) a esfera educacional (esta pesquisa pode servir como um elemento de atuação político-educacional em prol de uma escola de caráter motivador e construtivo para a nossa “sociedade humana”, composta por sujeitos em constante movimentação). 20 Para encerrar esta nossa reflexão inicial, não podemos de explicitar com maior clareza que este trabalho desenvolveu-se, ao longo de nosso prazo de cumprimento do curso de mestrado, no constante diálogo com a prática do momento aula de matemática. Os caminhos que traçamos aqui abrem espaços para trabalhos futuros que centralizam a gênese do processo na prática educacional, ou seja, as reflexões aqui instigadas estão nos dando base para as ampliarmos num outro momento de produção. Outra questão a ser explicitada diz respeito à profunda ligação destas nossas pesquisas com a prática docente. Os debates aqui instalados colocam-se numa longa cadeia de crítica educacional na qual estamos entendendo que uma tradição monologizante no plano discursivo do momento aula tem sido constantemente realizada no conjunto englobante das instituições escolares. Um início deste debate é trilhado no decorrer de nossa dissertação, porém não propomos neste momento o intenso debate sobre este nosso posicionamento, mas que, em certa medida, provocamos inter-relações que corroboram esta interpretação. 21 1- Fundamentação teórico-metodológica: discussões na análise dialógica do discurso Configuramos nesta parte uma apresentação dos principais conceitos teórico-metodológicos que mobilizamos no decorrer de nossa dissertação. A teoria na qual temos nosso ponto estabilizante para instabilizarmos nossas análises, a ADD, orienta-nos na direção da interpretação discursiva, numa construção de sentidos articulada na história e nas dinâmicas sociais que a produzem, possuindo nestes dois pontos – linguístico e histórico – um posicionamento analítico perante a construção do ser humano, a saber: construção de si em si e com o outro. Como proposta de análise bakhtiniana, estamos entendendo que os variados conceitos desenvolvidos pelo círculo bakhtiniano estão interligados em si numa perspectiva ampla, num mosaico emaranhado e coeso. Se quisermos analisar o corpus em estratos, poderemos, mas sem perder de vista que o diálogo é o elemento fundante das reflexões nesta área (BRAIT, 1994). Este nosso trabalho analítico toma um cenário de debates críticos toda enunciação: dependendo de como abordamos essa dinâmica analítica (estilo, forma, entre outros), nosso discurso vai se posicionando acerca de determinadas ideologias e corroborando, assim, a importante pontuação do círculo bakhtiniano de que o signo é ideológico (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004 [1929]). Para esta nossa dissertação, a discussão sobre metodologia em ciências humanas nos é bastante cara, pois como pano de fundo de toda pesquisa encontra-se um histórico do como fazer, o que se costuma dizer e um desejo/plano de dizer. A partir de agora, destacamos alguns pontos centrais referentes a conceitos e temáticas relacionadas às discussões do círculo bakhtiniano para que haja um embasamento para o que analisaremos em Nova Escola. Tomamos, assim, confrontos a partir de discussões do círculo bakhtiniano, refletindo, também, textos desenvolvidos no interior da área da ADD. 1.1- Reflexões iniciais: uma espiral se montando Por motivos organizacionais para a apresentação de nossos pontos, trazemos, neste primeiro momento, conceitos desenvolvidos pela teoria discursiva na qual estamos. No decorrer deste nosso item, iremos afunilando e ampliando conceitos à medida que vão surgindo especificidades em nosso horizonte discursivo. É necessário 22 pontuar também que entendemos esta parte teórico-metodológica como um momento de explanação de nossos embasamentos teóricos na relação prático-metodológica. Entendemos metodologicamente que teoria e prática não se desvinculam no lugar social de pesquisadores/analistas dos discursos no qual estamos. Beth Brait (1994) coloca a nós que um projeto comum do Círculo é o reconhecimento da natureza dialógica da linguagem: a natureza dialógica da linguagem é um conceito que desempenha papel fundamental no conjunto das obras de Mikhail Bakhtin, funcionando como célula geradora dos diversos aspectos que singularizam e mantêm vivo o pensamento desse produtivo teórico (p.11). As relações dialógicas dos discursos, tramas de ser/significar(-se) no mundo, e os confrontos da alteridade dessas relações tomarão destaque no contexto desta pesquisa encaminhando-a, portanto, a perspectivas que buscam o encontro com o outro, compartilhando experiências, reflexões e valores que se alteram mutuamente. Sendo assim, nesta abordagem teórica, o outro deixa de ser uma realidade abstrata a ser definida e traduzida por um conceito. Em outras palavras, metodologicamente, o sujeito da pesquisa é visto como alguém cuja palavra se confronta com a do pesquisador, refratando ideologias e exigindo-lhe resposta, configurando uma cadeia enunciativa de enunciações de valores. Em contrapartida, a palavra do pesquisador recusa-se a assumir a aura de neutralidade imposta pelo método e integra-se à vida, participando das relações e das experiências, muitas vezes contraditórias, que o encontro com o outro proporciona. Atribuir sentidos é ler a palavra como signo que reflete e refrata valores ideológicos advindos de uma memória discursiva dos sujeitos. Nossa posição como pesquisadores analistas do discurso coloca-nos a interpretar projetos de dizer dos sujeitos numa determinada esfera enunciativa ou em lugares institucionais. Estamos entendendo, segundo os estudos do círculo bakhtiniano, que a noção de ideologia marca a impossibilidade de se conceber uma neutralidade nos sistemas de expressão (linguagem), fazendo com que entendamos que os enunciados contêm marcas de olhares sob o mundo, além de guardarem sinais de mudanças sociointeracionais; colocamos destaque no entendimento de uma máxima: a palavra faz- se signo ideológico visto que acumula as entonações do diálogo vivo de que é matéria, ou, nos termos do Círculo, “cada palavra se apresenta como a arena em miniatura onde 23 se entrecruzam e lutam os valores sociais de orientação contraditória” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004, p. 66). A ideologia, nesta perspectiva, implica um sistema unificante. Ela é mediadora na integração social, na coesão do grupo; uma dinâmica de ações e pensamentos adjuntos tendo princípios da ética na vida. Não entendemos, deste modo, que haja uma completa racionalidade ideológica, mas formações imaginárias de um inconsciente, produto/produção da visão ideológica – é provável que aqui esteja a base da compreensão de ideologia como “inversão do real”; devido a este estatuto não reflexivo e não transparente da ideologia é que se vinculou a ela a noção de dissimulação, de distorção. A tradição marxista, que entende, de um certo modo, a ideologia como o mecanismo que deforma/corrompe a realidade, tem apresentado a suposição de que um discurso ideológico serve para legitimar e reproduzir o poder da classe dominante. Por outro lado, temos uma noção de ideologia não tão restrita como neste sentido. A ideologia pode ser vista de maneira mais ampla, entendida como uma visão de mundo de uma determinada comunidade social, num determinado tempo histórico. Nesse sentido, todos os discursos são ideológicos. Como estamos entendendo ideologia na relação com discurso? Para desenvolver tal questão, tomaremos reflexões desenvolvidas pelo filósofo francês Paul Ricoeur (apud BRANDÃO, 1986), que possui debates profícuos sobre sujeito, consciência, interpretação e outros pontos fundantes sobre o ser nos processos das significações. Ele nos dá algumas pistas. Elenquemos cinco delas: 1. A ideologia perpetua um ato fundador inicial. Tal perpetuação está ligada à necessidade do próprio grupo de obter uma imagem, uma representação de si mesmo. Nesse sentido, é “função da distância que separa a memória social de um acontecimento que, no entanto, trata-se de repetir. Seu papel não é somente o de difundir a convicção para além do círculo dos pais fundadores, para convertê-la num credo de todo o grupo, mas também o de perpetuar a energia inicial para além do período de efervescência” (RICOEUR apud BRANDÃO, 1986, p. 24); 2. A ideologia é dinâmica e motivadora, impulsiona uma práxis social que a materializa. Não apenas um reflexo de uma formação social, ela é uma justificação [porque movida pelo desejo de demonstrar que o grupo que a professa tem razão de ser 24 o que é] (BRANDÃO, 1986, p.25) e projeto, uma vez que dita as regras de um modo de vida; 3. Há um caráter simplificatório e esquemático das ideologias. A ideologia apresenta um caráter codificado para se dar uma visão de conjunto, de história, de mundo. Visando à eficácia de suas ideias, ela é racionalizadora, e se expressa por meio de máximas, slogans e formas lapidares em que a retórica está sempre presente; 4. A ideologia é operatória e não temática. Isto é, “[...] ela opera atrás de nós, mais do que a possuímos como um tema diante de nossos olhos” (BRANDÃO, 1986, p.25); 5. A ideologia apresenta-se como conservação e resistência às mudanças, visto que essas põem em risco a ordem estabelecida pela mesma. Ela se sedimenta enquanto os fatos e as situações se transformam, o que pode causar um enclausuramento ideológico e uma aceitação de uma naturalização social dos acontecimentos (BRANDÃO, 1986, p.25). Estamos conceituando ideologia, desta maneira, como práticas usuais de ferramentas simbólicas (ações e pensamentos) voltadas à criação e/ou à manutenção de relações de interpretação do mundo e de práticas sociais. A conceituação de discurso, em nossa teoria, pode nos levar a entender este conceito, por exemplo: a) como demarcação dos campos do saber, seja ele prático ou teórico: discurso do jornalismo, o discurso da física, da linguística, entre outros; b) como demarcação de planos ideológicos: o discurso marxista, o discurso fundamentalista, entre outros; c) como demarcação de planos históricos ou epistemológicos: discurso renascentista, discurso iluminista, discurso geneticista, discurso criacionista, entre outros; d) como demarcação de base explicativa, como caráter temático: discurso da negação de Deus, discurso homofóbico, discurso da paridade social, discurso da vitimização do negro, entre outros. Os discursos materializam as ideologias, as formas de ver o mundo. Sendo assim, não há como separar radicalmente este plano, digamos, ligado fortemente a um http://pt.wikipedia.org/wiki/Epistemologia 25 ideário de pontos de vista maliciado pela vivência (ideologia) da forma materializante/materializada (discurso). Ideia versus matéria, abstrato versus concreto não se dicotomizam nesta nossa perspectiva, mas sim realizam jogos de representação pelos sujeitos. Aquilo a que temos acesso, então, são a valores ideológicos, tramas discursivas que nos farão interpretar acontecimentos na relação de uma dinâmica de valores, podendo o pesquisador, por exemplo, confrontar-se com sua visão de mundo e seu projeto de dizer perante os olhares múltiplos de seu corpus em análise. Nosso trabalho, por exemplo, analisa os discursos enunciados pela Nova Escola em determinados gêneros discursivos, promovendo uma reflexão/refração de valores ali enunciados, sendo estes investigados, fazendo que nós nos posicionemos atribuindo sentidos possíveis a estes valores discursivos. Assim, ao referir-nos em nossas análises ao termo ideologia ou ao termo discurso, embasamo-nos na compreensão de que tanto valores ideológicos e/ou valores discursivos se imbricam no nosso horizonte interpretativo, cabendo refletir este quadro contextual que lançamos. Entendemos que o “sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade de mudança e até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato de compreensão desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento" (BAKHTIN, 2003, p. 378). Desta maneira, compreender segundo a perspectiva dialético-dialógica bakhtiniana, no nosso ponto de vista, coloca-nos a ler o mundo munidos de uma fina sensibilidade atenciosa a efeitos de produção de sentidos nas relações ideológicas intersubjetivas, que são dinâmicas, complexas, sistêmicas. Concebemos, neste parâmetro, que, sendo os processos interpretativos assimétricos uns aos outros pela diferença subjetivo-relacional de cada sujeito, entendemos que os sujeitos enfrentam um “problema de construir, no fluxo das instabilidades, uma estabilidade, e confessá-la ao Outro como uma posição provisória que permite propor uma hipótese” (GERALDI, 2003, p. 259). Há de se ressaltar, porém, que é nesta condição instabilizante que nós, sujeitos, nos instauramos como sujeitos, levando-nos a entender, assim, que a estabilização, o acabamento é sempre provisório, relação esta que permite o desdobramento espaço-temporal dos sujeitos, atrelando potencialmente uma memória do passado, um presente presentificado e uma memória de futuro, constituintes de um projeto de dizer. Podemos analisar que a noção de leitura utilizada por Geraldi no trecho supracitado não diz respeito apenas à leitura da palavra escrita, mas sim a uma atividade maior, global, de posicionamento de si na relação com o Outro, numa leitura 26 de mundo(s). O fluxo do devir propõe uma cadeia de “famílias parafrásticas de atos”. Entendemos que a provisoriedade é um estabelecimento fundante para a perspectiva dialógica, em que a constituição de si e do outro se dá na relação de graus de experiências. A noção de enunciado (complexa e talvez (im)prescindível), neste nosso campo discursivo, toma corpo como materialidade para colocarmos neste espaço de arena o embate de processos constituintes de sentidos. A concepção do conceito bakhtiniano de enunciado (enunciação de valores ideológicos do signo; a constituição da palavra/consciência como produto-produção nos gêneros – estas formas “mais ou menos estabilizadas”, em contínua composição) que tomaremos entende que é possível analisar discursos pela relação das enunciações de valores expressos pelas diversas formas de semioses, ou seja, de expressões/expressividades que materializam o fluxo do devir, do processo mais profundo chamado linguagem. É importante ressaltar que entendemos que as diversas semioses possuem especificidades em suas formas composicionais, além de todo um contorno valorativo atribuído por meio da relação dialógico-dialética dos sujeitos, na temporalidade, nos espaços – cronotopo, conceito desenvolvido em Estética da criação verbal (2003). Considerando as posições de Geraldi (2010) a partir de seus escritos sobre o Círculo bakhtiniano, tomaremos um conceito teórico central para este nosso trabalho: o conceito de acontecimento. Sobre ele, elencamos duas relevâncias acentuadas para a compreensão de nossos dizeres; a saber:  acontecimento como instante do devir: ato responsável, respondível, irrepetível, singular, configuração da existência, ética das ações humanas na confluência entre eu-outro/ natureza-sociedade. Neste sentido, toda aula é um acontecimento, assim como todo enunciado é, haja vista uma produção de natureza epilinguística do acontecimento, que se pauta numa noção fundante de “racionalidade silenciosa”, que consistiria num trabalho de natureza cognitivo-cultural.  acontecimento como processo de atribuição de sentidos: processos de instabilidade/estabilidade, do dizível/já-dito. O acontecimento, deste modo, são as experimentações de novos caminhos, sem exigir que já estejam prontos antes de serem percorridos, colocando-os como apostas, como tentativas, como devir. São as possibilidades do devir grávido de instantes. A aula projetada no debate de uma gama de possibilidades mobiliza a metalinguagem explicitada na busca de entendimentos. É o 27 espaço da ressignificação das significações em temas – aqui entendendo tema e significação como proposto por Bakhtin/Volochinov (2004). Dessa forma, a figura da espiral potencializa nosso entendimento uma vez que saindo de um lugar A e irmos a um lugar B, ao retomarmos a A já não temos mais um mesmo movimento, pois já nos transformamos. Esta “nova” movimentação guarda uma memória. O que temos são sobreposições ou convívios multiplanares de movimentos de significações. Estamos entendendo que o estudo sobre sujeito, perante a óptica do círculo bakhtiniano e de leituras sobre recepções desta, revela-nos a concepção relacionada de um sujeito não só histórico, social, ideológico, mas também corpo, vivência. Tem-se um sujeito construído na linguagem, pelo “outro”, com uma construção de si mesmo pelas experiências de olhares de “outros”, em divergências e convergências. Neste rumo, o sujeito possui um projeto de fala que não depende apenas de sua intenção, mas sim de um “outro (primeiramente é o “outro” com quem fala, depois o “outro” ideológico, tecido por variedades de discursos do contexto) e, ao mesmo tempo, o sujeito é corpo (são as outras vozes que o constituem). De acordo com Compagnon (apud BRAIT, 1996, p. 107), toda enunciação produz simultaneamente um enunciado e um sujeito; não há sujeito anterior à enunciação ou à escritura. A enunciação é constitutiva do sujeito, o sujeito advém da enunciação para se posicionar, se referenciar, ancorar. Assim, a constituição dos sujeitos para o círculo de Bakhtin ocorre por meio da interação e (re)produção de dizeres, atribuindo valores, organizando sentidos e ressignificando interpretações na sua práxis do contexto imediato e social. Dialogando com o Círculo, a ADD vai entender que a “consciência individual não só nada pode explicar, mas, ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social. A consciência individual é um fato sócio-ideológico.” (BAKHTIN, 1992, p. 35). Tem-se aqui a noção de construção de sentidos em que para se produzir um sentido, deve-se haver uma compreensão na situação, no dentro (texto) e no fora (história). Toda essa trama de dizeres que constituem os sujeitos liga-se a que o círculo de Bakhtin denomina dialogismo. Como já colocamos, estamos lendo que a constituição dialógica opera como cerne da constituição do sujeito, inclusive do conhecimento no campo das Ciências Humanas. Sendo assim, não há um único ser humano cuja condição de humanidade não advenha da sua interlocução com os demais, posto que sua existência é dotada de significados anteriormente predicados e marcada pelo modo como um se posicionará na continuidade a essa interlocução. 28 O “sujeito da compreensão não pode excluir a possibilidade de mudança e até de renúncia aos seus pontos de vista e posições já prontos. No ato de compreensão desenvolve-se uma luta cujo resultado é a mudança mútua e o enriquecimento" (BAKHTIN, 2003, p. 378). Sobre a ressignificação da língua, expõe-nos Bakhtin (2003): O sentido é potencialmente infinito, mas pode atualizar-se somente em contato com outro sentido (do outro), ainda que seja com uma pergunta do discurso interior do sujeito da compreensão. Ele deve sempre contatar com outro sentido para revelar os novos elementos da sua perenidade (como palavra revela os seus significados somente no contexto). Um sentido atual não pertence a um (só) sentido mas tão somente a dois sentidos que se encontraram e contataram. Não pode haver "sentido em si" ele só existe para outro sentido, isto é, só existe com ele. Não pode haver um sentido único, ele está sempre situado entre os sentidos, é um elo na cadeia dos sentidos, a única que pode existir realmente em sua totalidade. Na vida histórica essa cadeia cresce infinitamente e por isso cada elo seu isolado se renova mais e mais, como que torna a nascer (p. 382). A respeito da apropriação e uso que o ser humano atribui à língua, o filósofo russo Mikhail Bakhtin, com seu grupo, mostra se posicionar à frente de seu tempo, já que estabelece preliminarmente uma teoria que primazia o caráter da enunciação como processo não reiterável, pressuposto de outras enunciações, ou seja, é um “acontecimento discursivo projetado a partir de uma memória” (SANTOS, p. 1)8. Entendemos que: o discurso representável converge com o outro discurso representativo em um nível e em isonomia. Penetram um no outro, sobrepõe-se um ao outro sob diferentes ângulos dialógicos. [...] Como resultado desse encontro, revelam-se e aparecem em primeiro plano novos aspectos e novas funções da palavra (BAKHTIN, 2008, p. 309). O acontecimento se liga, assim, à instância profunda da ressignificação discursiva, interação sem a qual os sujeitos não se constituiriam como persona dialógica. Não há álibi para tal colocação perante a existência. Só se é/está na assunção de um lugar a se colocar e aflorar. 8 Texto em versão digitalizada: SANTOS, Jefferson Fernando Voss dos. “A respeito de Bakhtin e Foucault: aproximações e disparidades entre os conceitos de enunciado”. Disponível em: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao12/art_04.php. Acesso em 05/09/2012. http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao12/art_04.php 29 Compreendemos enunciados, esta instância formada nas/pelas expressividades, quando conferimos às palavras relações que despertam em nós, sujeitos, ressonâncias ideológicas e/ou relacionadas à nossa vida. Daí a contrapalavra, momento dialógico constituinte dos enunciados, no qual se é estabelecida uma cadeia de “conversas” para termos respostas, expressividades que não provêm de uma gênese estritamente histórico-temporal canônica. As relações cronotópicas instauram estabilizações aos sujeitos/seres humanos em suas culturas de um modo que este movimento espaço-temporal extrapole a causalidade imediata (isto resulta naquilo, e veio daquilo), encaminhando-nos a uma gestão que nos coloque na centralidade organizadora de pontos de vista (excedente de visão). Daí, também, uma dialética que assume categoricamente este colocar ou não em enunciados. A cada palavra da enunciação que estamos em processo de compreender, fazemos corresponder uma série de palavras nossas, formando uma réplica. Quanto mais numerosas e substanciais forem, mais profunda e real é a nossa compreensão (BAKHTIN, 1992/1999, p. 132). A linguagem opera atuando nas cenas discursivas e por condições estruturantes de expressividade (língua, música, dança, matemática...) que, como produto cultural de discursos anteriores, se remodela a cada interação, a cada dia, em cada perspectiva de cada sujeito em diferentes espaços e tempos. Daí a complexidade do acontecimento. É na linha tênue entre psicologicismo e objetificação que a história da ciência e nós mesmos, atualmente pessoas de carne e osso, temos nos instaurado. Os discursos representam, de um certo sentido, consciências de sujeitos no jogo da estabilização/instabilização da produção de sentidos. É nesta recolocação constante, é neste investimento de energias entre o formal e o empírico, o psíquico e o social, um “interior” e um “exterior” que vamos concebendo instâncias de um eu com outro(s), instalando uma realidade possível na cadeia que coloca a interpretação de sentidos como cenários discursivo central: o acontecimento discursivo. 1.2- Os olhares via ADD: o círculo bakhtiniano e as contribuições para o acontecimento Mikhail Mikhailovich Bakhtin, nascido em 17 de novembro de 1895, na cidade de Orel e falecido em 6 de março de 1975 na Moscou socialista, foi filósofo, 30 filólogo e pensador russo, teórico da cultura europeia e das artes. Bakhtin ao lado de um conjunto de pensadores, artistas e teóricos estabelece um grupo intelectual de pesquisas nas ciências humanas. Os escritos dele em conjunção a este grupo – o nomeado Círculo de Bakhtin – abordam uma variedade de assuntos, dando base a trabalhos de estudiosos posteriores num grande número de diferentes tradições (o marxismo, a semiótica, vertentes na Análise do Discurso, estruturalismo, a crítica religiosa) e em disciplinas tão diversas como a crítica literária, História, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Música e Psicologia. Embora Bakhtin fosse atuante nos debates sobre estética e literatura, que ganharam lugar na União Soviética na década de 1920, sua posição de destaque não se tornou bem conhecida até sua “redescoberta” por estudiosos russos na década de 1960. É criador de uma nova teoria sobre o romance europeu, incluindo o conceito de polifonia em uma obra literária. Explorando os princípios artísticos do romance de François Rabelais e Dostoiévski, o círculo de Bakhtin desenvolve uma teoria sobre cultura ocidental popular na Idade Média e no Renascimento, sobre as estabilizações de ideias referentes ao ridículo, ao humor. O grupo trabalha/desenvolve conceitos que estruturam áreas hoje como Estudos Literários, Linguística e diversos cursos das Ciências Humanas, conceitos tais como, por exemplo, polifonia, cultura cômica, cronotopo, carnavalização, sátira menipeia, gênero do discurso, dialogismo, identidade/identificação, alteridade, vozes, esferas de comunicação. Bakhtin foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de estudiosos preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura e arte, rede esta que incluía, por exemplo, o linguista Valentin Volochinov (1895-1936) e o teórico literário Pavel Medvedev (1891-1938). Importante ressaltar que este conjunto de autores configurava um grupo de estudos e debates com contribuições e desenvolvimentos teórico-analíticos de todos. Bakhtin é destacado por sua produção: foram atribuídos(as) a ele escritos/obras que ainda estão sendo traduzidos(as) do russo, além de ser o integrante que (sobre)viveu por mais dias que os outros. Abramos uma discussão sobre estas últimas considerações. Com seus trabalhos, Craig Brandist, destaquemos Repensando o Círculo de Bakhtin (2012) – uma coletânea de ensaios que resultam de cuidadosas pesquisas nos arquivos da Rússia – apresenta uma contribuição importante para uma visão mais crítica e histórica da obra de Bakhtin e “seu Círculo”, sem uma abordagem de tom idealizador e hagiográfico, que 31 caracterizou as primeiras recepções no ocidente. Além disso, Brandist (2012) tem sempre o cuidado de valorizar a contribuição de outros membros do círculo, como por exemplo Volochinov e Medvedev, apresentados como profícuos pesquisadores, em vez de simples discípulos de Bakhtin e de meros contribuintes do “grandioso líder: Bakhtin”. No caso de Volochinov, os estudos de Brandist (2012) não apenas apontam diferenças entre sua obra e a de Bakhtin, mas também contribuições às reflexões presentes nas obras assinadas por Bakhtin. Como afirma Brandist (2012), todo esse movimento de debates estilístico- autorais não se trata de desmascarar Bakhtin, mas de desmistificá-lo. A avaliação de influências não somente intelectuais como também político-institucionais não desmerece o trabalho do Círculo, mas permite uma compreensão mais crítica das origens de suas fundamentações, tudo isso com a autoridade/autoria de quem não somente teve acesso aos arquivos, mas também os interpreta com perspicácia contribuindo, assim, ao estudo de documentos até agora pouco ou nada examinados por outros estudiosos. Esta ideia do “desmacaramento” de Bakhtin tem sido abordada com certa recorrência em alguns últimos estudos sobre o círculo. Um exemplo é a obra que citamos a seguir. Com um título chamativo (e/ou agressivo-impactante), o livro Bakhtin desmascarado: história de um mentiroso, de uma fraude, de um delírio coletivo (2012), de Bronckart e Cristian Bota, antes de qualquer coisa, é um trabalho de revisão crítica sobre o ato do fazer biográfico. De qualquer forma, estamos entendendo os escritos do Círculo como múltiplos, resultado de interações entre diversas áreas de estudos, produzindo uma base filosófica pautada na dinâmica do devir, na constante reflexão entre o estável e o instável, o já-dito e o vir-a-ser. Cristalizar Bakhtin como o agente único e fundante de inúmeros debates linguísticos, filosóficos, científicos e artísticos é reduzir as discussões do Círculo que, como viemos ressaltando, é composto por um grupo de filósofos na interação. Um dos aspectos mais inovadores da produção do Círculo de Bakhtin foi entender linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo – e não como um sistema autônomo por si mesmo, auto-organizador, mas sim condição/princípio articulada(o) pelo debate de posicionamento entre uma posição discursiva eu e uma posição posta a um outro no mundo. A visão filosófica da 32 linguagem no círculo bakhtiniano é configurada numa trama de dizeres que marca não só uma estruturação comunicativa de um sujeito que se expressa, mas também o debate de marcas histórico-ideológicas de uma sociedade humana, que se alteram no decorrer dos tempos, produzindo um horizonte interpretativo para os sujeitos sócio- historicamente constituídos pela/na linguagem, centralizando estas questões para promover um debate sobre a trama discursiva que ao enunciarmos colocamos em cena. Desta forma, o círculo contribui significativamente para as questões sobre estabilidade e instabilidade dos sentidos, bem como para questões sobre as relações dos sujeitos com o mundo (alteridade; reflexão e refração dos sentidos; formas mais estabilizadas dos dizeres; interações entre os sujeitos; ética e estética, entre outras questões). Em Estética da criação verbal ([1979] 2000, p. 301), escreve o filósofo que a “língua materna, seu vocabulário e sua estrutura gramatical, não conhecemos por meio de dicionários ou manuais de gramática, mas graças aos enunciados concretos que ouvimos e reproduzimos na comunicação efetiva com as pessoas que nos rodeiam", concepção esta que entende que a língua só existe em função do uso que locutores (quem fala ou escreve ou se expressa) e interlocutores (quem lê ou escuta ou interpreta) fazem dela em situações (prosaicas ou formais) de comunicação. O ensinar, o aprender e o uso das formas linguísticas passam necessariamente pelo sujeito, o agente das relações sociais e o responsável pela composição e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se vale do conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus textos. Além disso, um enunciado sempre é modulado pelo falante a partir e para o contexto social, histórico, cultural e ideológico. É uma constante busca pelos sentidos do já-dito e do porvir. Em Marxismo e Filosofia da linguagem, temos Bakhtin/Volochinov colocando que: A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo pessoal ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.) (2004 [1977], p. 112). Da mesma forma, afirma que a situação social mais imediata e o meio social determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação que em sua totalidade é socialmente dirigida. Antes de qualquer 33 coisa, ela seria determinada da maneira mais imediata pelos participantes do ato de fala, explícitos ou implícitos, em ligação com uma relação bem precisa; a situação dá forma à enunciação, impondo-lhe esta ressonância em vez daquela. A situação e os participantes mais imediatos determinam a forma e o estilo ocasionais da enunciação. Retornando ao ponto já mencionado de que “a palavra dirige-se a um interlocutor”, vale acrescentar que segundo Bakhtin (2004 [1977], p. 114), toda palavra comporta duas faces. Ela tanto se dirige para alguém como procede de alguém. Ela constitui o produto da interação do locutor e do ouvinte. Nessa relação dialógica entre locutor e interlocutor no meio social, em que o verbal e o não verbal influenciam de maneira determinante a construção dos enunciados, outro dado ganhou contornos de tese: a interação por meio da linguagem se dá num contexto em que todos participam em condição de igualdade, esta utópica e ahistórica haja vista uma existência ideológica de uniformidade monologizante das palavras (signos), dos discursos. Aquele que enuncia busca selecionar palavras apropriadas para formular um texto montado em certas intenções enunciativas, focando uma compreensão da parte do(s) outro(s) – seu(s) destinatário(s). Esta compreensibilidade diz respeito a um sujeito operar construções léxico-gramaticais baseado num jogo cultural entre o empírico e o formal das relações intersubjetivas. Assim, um sujeito pode construir um enunciado que visa a não ser entendo dentro de certas situações enunciativas, assim como também pode haver uma possibilidade de entendimento por sujeitos de que um enunciado feito por alguém não tinha como intenção fazer-se claro. Em ambas as situações há compreensões. Não há “álibi” dentro do ato ético das vivências (BAKHTIN, 2010). Estas intencionalidades que se configuram se articulam, pois nós, sujeitos, participamos tanto como enunciadores quanto destinatários dos enunciados. Um termo chave teórico em todo trabalho do Círculo é edinstvennji: singular, irrepetível, excepcional, incomparável, sui generis. O evento (situação irrepetível), o inacabamento (o que está sempre por ser alcançado), o antirracionalismo (a não Verdade)9, o ato (a interação) e, acima de tudo, o axiológico (o vínculo valorativo 9 Antirracionalismo, aqui, diz respeito à oposição racionalista ligada ao modelo estritamente cartesiano no qual podem ser configuradas interpretações enunciativas ligadas a um direcionamento exclusivo de verdade. Por exemplo, a visão de que há uma forma correta e única no uso linguístico; o algebrismo matemático direcionado ao modelo 1 para 1, ou seja, o 34 que marca um lugar) tomam espaços neste nosso trabalho. Nossos dizeres se fincam na instância do debate e da interpretação sobre um acontecimento discursivo que são os discursos sobre a aula de matemática em seu acontecimento, ou seja, um dizer de um lugar, enunciado por sujeitos, sobre a forma de alguns gêneros componentes de um produto cultural (revista). Os conceitos do Círculo nos promovem instabilizações a fim de tomarmos posicionamentos interpretativos dos discursos que analisamos. A teoria se faz presente em nossas práticas numa articulação teórico-metodológica na práxis analítica. 1.2.1- Linguagem O pressuposto teórico que move a pesquisa é o inevitável embate entre o estável-instável. Como usamos uma teoria que permite focalizar o que é dinâmico em sistemas de expressão e que toma o diálogo com o outro, adequando experiências dos sujeitos com seus outros, a abordagem desta dinamicidade se torna profícua nas discussões. Para realizar essa adequação ao outro ou àquilo que é dado, é necessário que o pesquisador lance “mão de um processo operatório de montagem e desmontagem de unidades, categorias e conseqüentemente de valores e significados” (REZENDE, 2008, 132)10. Existe uma variação radical de experiência entre o pesquisador e seu outro (variação espaço-temporal dos sujeitos sócio-históricos)11 e de expressões linguísticas entendimento de verdade única no equacionamento matemático; estes são casos de um discurso que instaura uma visão monologizante das interações enunciativas. 10 Ressignificamos, aqui, as discussões da pesquisadora Letícia Marcondes Rezende em que ela discute a radical variação no ensino de línguas. Trazemos esta questão para o âmbito teórico desta nossa pesquisa, pois tanto Rezende (2008) quanto nós nos posicionamos a favor da tese da indeterminação da linguagem e dos posicionamentos de ancoragens feitos pelos sujeitos. Apesar de estarmos em teorias com bases de autores distintas, a saber Culioli e Círculo de Bakhtin, compartilhamos noções equivalentes em nossas pesquisas. Neste nosso trabalho não caberá ampliarmos correlações teórico-metodológicas, mas estas serão desenvolvidas em artigos e/ou em nossos trabalhos de doutorado. 11 Nesta relação de alteridade entre o sujeito pesquisador e seu outro, estamos entendendo que este outro não necessariamente é um sujeito persona, mas sim é uma instância relacionada a uma barreira, uma noção que instabiliza a atividade dos sujeitos. Podemos ter uma noção semântica, por exemplo, como elemento outro de um/dos sujeitos, ou seja, é um obstáculo no percurso da atribuição de sentidos na cadeia enunciativa. É polêmica esta questão quando relacionada à alteridade, pois a relação sujeito-objeto dependerá de ordens instaladas na enunciação por um sujeito organizador ou diremos que um objeto não exerce relação de alteridade por si (não é um ente), mas sim são os discursos sobre ele, ou seja, a instância da 35 correspondentes, singularidades estas que demarcam nossas situações de vivências, em suas complexidades, que precisam estar no horizonte de quem se coloca a confluí-los. De ordem teórica, a perspectiva bakhtiniana que assumimos faz-nos tomar como ponto de partida que reflitamos a conceituação de linguagem situada na perspectiva de uma prática social na qual o discurso, moldado pelas relações de poder e por ideologias, apresenta-se como uma rede de processos de significação, manifestação de pontos de vista, de subjetividades, provocando efeitos nas construções identitárias, nos sistemas de conhecimentos, crenças, os quais nem sempre estão aparentes na estrutura organizacional do discurso introduzindo-se a ideia da constitutividade do sujeito pela e na linguagem (BAKHTIN, 2003). De ordem metodológica, caminhamos na perspectiva de uma visão de realidade como descontínua, não linear, considerando o acontecimento, o evento. O caráter da singularidade e da cotidianidade ganham espaços como objeto de estudo numa longa história da prática excludente da variação, cabendo ao analista, nesta perspectiva em que nos colocamos, compreendê-la e interpretá-la (LAVILLE E DIONNE, 1999; SCHNITTMAN, 1996). Remetemo-nos, assim, às discussões do círculo de Bakhtin por serem os estudiosos pertencentes a este grupo autores que concebem o estudo dos signos verbais inserido no universo dos bens simbólicos, no “mundo da cultura”, e, por fazerem parte de uma realidade, a qual constituem e que lhes constitui, dialogam a relação verbal e não verbal. Neste sentido, atualmente há inúmeros trabalhos na área da ADD que realizam estudos, a partir das reflexões do Círculo, refletindo sobre materialidades relacionadas também a um não verbal, corroborando investigações sobre a constitutividade de relações intersemióticas na atividade que é a linguagem, avançando, assim, o quadro teórico-metodológico dos estudos bakhtinianos. Com este conjunto de pressupostos, os teóricos do Círculo de Bakhtin vão propor o estudo da linguagem humana enquanto uma atividade sócio-histórica, orientada para a ação comunicativa, por meio de sua manifestação nas diversas línguas, num trabalho que não a concebe apenas como estrutura desarticulada de uma situação enunciativa. E, ao tomar como foco de seus estudos um caráter híbrido das semioses, a palavra que o configura personificado? De qualquer maneira, ambas concepções promovem a interpenetração de vozes na instância do diálogo e interpretadas por sujeitos numa rede de orquestração de escutas. Desta forma, eu e outro se separam/delimitam/identificam diferentes um do outro, mas se ligam por formas alteritárias, tais como completude e diferenciação. 36 orientação para o outro e o diálogo entre consciências estabelecem, como elementos sine qua non aos estudos da linguagem, de um lado, as relações entre enunciado e realidade e, de outro, aquelas entre o enunciado, seu(s) produtor(es) e seu(s) interlocutor(es). O homem, em suas inter-relações ordinárias de comunicação, concebe novas formas de atuação, de compreensão e interação por meio das inovações advindas das redes de relações de trabalho na/pela cultura em que ele está imerso. Novos objetos/artefatos faze-o florescer para novos acontecimentos na singularidade histórica. “Dessa perspectiva, portanto, o homem é constituído na e pela linguagem ao dar compreensões de sentido ao mundo, a si e aos outros homens, por meio de uma relação dialogal entre as significações que se quer trocar, adquirir ou pôr em circulação” (BARONAS et al, 2013, p. 27). A questão das relações dialógicas entre enunciados e discursos se dão nas reflexões dos textos dos integrantes do chamado Círculo de Bakhtin por meio das reflexões sobre linguagem e seu funcionamento voltado a inúmeras facetas de embates. De importante e produtiva reflexão, os pensadores do Círculo integram a seus discursos o debate sobre a natureza ressignificativa da linguagem. É o que temos em Bakhtin/Volochinov em Estética da Criação Verbal – foco aqui para o capítulo 7 desta obra – sobre o significação e tema, sobre o dado e o criado. Estando num jogo de relações, essas duas configurações categóricas nos colocam a compreender que no enunciado posto há sempre algo criado a partir de um dado (ideia de responsividade atrelada a uma arquitetônica do dizer). Por meio do já-dito mobilizam-se possibilidades presentes do dizer, projetando um futuro. Neste sentido, como há uma valoração de discussão prévia, configura-se o que Bakhtin/Volochinov chamam de significação, uma instância em estado de dicionário, uma ligação ainda descontextualizada para um certo acontecimento/evento enunciativo. É no acontecimento – e somente nele – que a estabilização provisória pode ser feita. É nesta integração orgânica de um conjunto de possibilidades que o enunciado é colocado. Por exemplo, ao tomarmos o léxico poltrona teremos inúmeras situações enunciativas nas quais ele pode ser investido. É numa espécie de debate semântico-pragmático das situações discursivas que se operam 37 as possibilidades do dizer, tanto num sentido de enunciação ou co-enunciação12. Poltrona em si pode nos ajudar a termos uma lista de usos situacionais, vinda pelas experiências que deslizam entre a forma lexical e o empírico (recheio provindo de experiências discursivas), porém é na situação dita concreta que há a realização do conjunto de possibilidade de usos deste léxico. Todo acontecimento discursivo instaura, então, um trabalho com o dado (significação), atualizando-o num evento, tornando-o novo (tema). Não há, assim, uma polarização: um novo não é novidade exclusiva, surgimento escandalizante proporcionado por uma inauguração, assim como não há uma não novidade, pois a atualização do tema instaura um novo cenário discursivo, este sim singular, irrepetível. Nesta dialética, corre paralelamente a ela a perspectiva dialógica, num jogo de estabilizações provisórias exercido por um constante trabalho sócio-cognitivo. Podemos chamar de poltrona uma pessoa cujas características queremos destacar para alguém numa situação que é necessário velar/excluir sujeitos de uma interação discursiva ou mesmo metaforizar por algum aspecto emotivo, estilístico etc. O que diferencia poltrona de cadeira, de banco, de sofá, de trono, de tábua? O que podemos recuperar de traços semânticos ao rearranjarmos o termo poltrona para um uso menos comum? Estas são possíveis questões instigadas pelos processos de significação. Ao refletirmos sobre processos linguísticos atrelados a aspectos de base constitutiva em jogos expressivo-discursivos, configuramos, portanto, uma perspectiva metodológica para conduzir o estudo do enunciado, tomando enunciados gerados nas situações expressivo-comunicativas como uma unidade do discurso. Na mesma coletânea de ensaios do Estética da criação verbal – mais especificamente em ‘Apontamentos 1970-1971’, há uma exposição da noção de texto encaminhada a planos enunciativos, isto é, à forma como enunciados estariam (inter)ligados a uma rede de outros textos/enunciados/discursos. Portanto, nesta linha interpretativa, não há enunciados únicos ou isolados. Há sempre enunciados anteriores e/ou posteriores, levando-nos a uma questão metodológica do constante enfrentamento 12 Entendamos aqui que co-enunciador equivale à instância discursiva do destinatário, demarcando que há uma produção compreensiva dele pelo enunciado de um enunciador/locutor tanto como no enunciado, já que ele é um componente integrante da situação enunciativa fazendo, assim, que essa seja uma instância que provoca formas de dizer de um enunciador. Nos textos do Círculo não é comum termos o termo co-enunciador, mas sim destinatário haja vista traduções advindas de influências da Teoria da Comunicação desenvolvida em Jakobson. 38 de um certo todo, recorte provisório que se é estabelecido por sujeitos em certos momentos históricos e em certas situações enunciativas. 1.2.2- Valores e sentidos A leitura dos textos do Círculo nos coloca a entender que compreender significa orientar-se para a consciência do outro e de um/seu universo instalado, esquematizando redes de uma memória discursiva composta por uma ética de juízo de valores, relacionando práticas sociais passadas, a fim estabelecer no momento presente do acontecimento uma explicitação de interpretações, fazendo, num jogo assimétrico de relações, uma constante busca de estabilização (interpretação) de caminhos possíveis (sentidos). Os sentidos são produzidos sempre na relação dos discursos. E é nesta relação que há um atravessamento ideológico dos signos. Não vivemos alheios à ideologia. Fazemos uma contínua e vital operação de estabilização de sentidos em meio à instabilidade da linguagem. O ser humano expressa-se. Essa condição psicossociobiológica tem por base uma regulação entre jogos que estabilizam sentidos possíveis em um determinado tempo e espaço, dentro de uma situação discursiva, em certo gênero discursivo, de certos modos de dizer. Configura-se, assim, elementos de uma natureza interacional, de base dialógica, dialética, de confrontos, de embates entre formas expressivas e empirismo. São nas relações na natureza social que os espaços do confronto eu x outro se darão. Dessa forma, nós nos constituímos e nos transformamos sempre pela relação com outro, uma vez que, como nos mostra Amorim (2004), a alteridade funda-se na relação entre o sujeito e seu outro, ou melhor, seus outros. A relação eu-outro-outros, em contextos sócio-histórico-culturais, instaura a possibilidade da ampliação dos horizontes dos sujeitos, no desdobramento dos lugares enunciativos, na multiplicidade de vozes, na configuração da polifonia entre o que é dito e o como se diz, em que “a palavra se dirige e nesse gesto o outro já está posto” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992 [1929], p. 113). É neste cenário discursivo que vozes, fios-enunciados ou então fios que os sujeitos, em seus atos interpretativos, organizam os mais variados enunciados referenciando determinadas expressividades a um grupo social ou a uma determinada temática. 39 Analogamente, Emerson (2010, p. 69), ao discutir os conceitos de diálogo e alteridade (trabalhados no círculo bakhtiniano) quando da constituição de subjetividades, salienta que “as palavras não podem ser concebidas sem as vozes que as falam” e fora do contexto social, histórico, cultural e político da situação de interação. Sendo assim, a busca de sentidos está condicionada dialogicamente por valores dos sujeitos dentro de um construto social, no embate entre eu e outro, entre a natureza natural e a natureza social, subjetivismo e objetivismo. O cotejamento discursivo instaurado pelo trabalho psicossociobiológico para uma estabilização provisória dos sentidos (REZENDE, 2008), num porto de passagens (GERALDI, 2003), coloca-nos a entender que o acontecimento do ato enunciativo único, singular e irrepetível, mas resultado de uma trama de dizeres, é elemento fundante para entendermos mecanismos de estruturação e funcionamento linguísticos. As palavras – no termo entendido dentro do conceito do círculo bakhtiniano referente a um turno ou a um argumento da trama de dizeres – ganham corpo material para a realização da expressividade dos sujeitos. Isto nos faz entender que interpretar é voltar-se para valores introjetados e ressignificados pelos sujeitos, permitindo num determinado tempo e espaço uma possível ancoragem. 1.2.3- Voz Uma imagem do discurso não deixa de ser uma imagem do homem que fala. Mikhail Bakhtin Fazemos, a seguir, alguns caminhos para compreendermos o conceito de voz nos estudos dialógicos com base no Círculo bakhtiniano. Voz é uma cadeia enunciativa ligada a um sujeito que se expressa e está intimamente ligada à interpretação de sujeitos ao “ouvir”/compreender um posicionamento social. Podemos refletir sobre vozes, noção plural, já que estamos trabalhando com o embate da constante instabilidade do devir e, por isso, descobrimos uma voz por meio da aproximação de outras (via cotejamento de enunciados). Colocar que a voz é histórica, temporal, cultural não a delimita muito. Tentemos pontuá-la com maior clareza: a voz é uma cadeia enunciativa de tonalidade valorativa que assumirá, por interpretação dos sujeitos, uma destinação ideológica, marcando certas especificidades nos sujeitos do discurso. Esta destinação 40 específico-interpretativa faz-nos demarcar lugares sociais, estes sendo produtos/resultados da significação das instâncias discursivas (sujeitos, espaço, tempo, ideologias). A voz permite o reconhecimento do estilo de um grupo de sujeitos, uma marca de uma determinada classe social. A voz emitida permite uma orientação ideológica de referências a um lugar social, uma orientação de uma memória dos dizeres situada em grupos específicos de sujeitos. O nome voz coloca em diálogo algumas outras categorias bakhtinianas referentes à sonoridade. Apesar de conceitos teórico-metodológicos (filosóficos por base), estes guardam uma relação à escuta: ouvir vozes e interpretá-las; ecos de vozes de enunciados outros; ressonância de vozes; reverberação das vozes. Desta forma, corroboramos a noção de que a voz apenas aparecerá na relação com outros posicionamentos. No enunciado “sempre estão presentes ecos e lembranças de outros enunciados, com que ele conta, que ele refuta, confirma, completa, pressupõe e assim por diante” (FIORIN, 2008 p. 21). À pergunta de quem é essa voz podemos responder, por exemplo, é a voz do professor, é a voz da revista, é a voz dos excluídos da sociedade, é a voz dos marginais, são as vozes dos moradores de ruas. Podemos pontuar que estas são respostas aliadas a cenários historicamente situados, delineados por um viés de referenciação. No processo de busca da estabilização provisória dos sentidos, a voz se posiciona como fonte de um sentido personalizado, tendo na base um sujeito autor- pessoa. É válido ressaltar que, como nos coloca Bubnova (2011), a produção de sentidos pelos sujeitos: não se trata de uma "metafísica da presença", dos sentidos pré-existentes e imóveis, nem de algo fantasmagórico, mas de um constante devir do sentido permanentemente gerado pelo ato-resposta, que vai sendo modificado no tempo ao ser retomado por outros participantes no diálogo (p. 274). Podemos dizer que o conceito voz se identifica com opinião, ideia, ponto de vista, postura ideológica. Desta forma, como nos mostram os estudos bakhtinianos, na obra de Dostoiévski, o herói de uma novela "não é uma imagem, e sim a palavra plena, a voz pura; não o vemos, mas o escutamos” (BAKHTIN [BAJTÍN]13, 1994 [1929], p. 13 Como se trata de trabalhos desenvolvidos em língua espanhola, citaremos distintamente a forma da escrita do nome de Bakhtin, em que em espanhol é citado como Bajtín. 41 45 apud BUBNOVA, 2011, p. 276). “A compreensão do mundo (de realidades) é modelada por meio de "visões do mundo materializadas nas vozes"” (BAKHTIN [BAJTÍN], 1996, p. 354 apud BUBNOVA, 2011, p. 276). Ao conceituarmos voz, conceituamos alguma forma de escuta. Sendo termos fortemente ligados ao campo semântico musical, podemos entender que escutar é colocar-se na cadeia discursiva num trabalho de interpretação; é engendrar sentidos nos cenários montados pelos sujeitos; é se colocar na orquestração de orquestrações outras; é trabalhar na estabilização de sentidos. Despolarizando a atividade do trabalho da escuta, escutar é realizar uma operação discursiva bilateral, ou seja, há um duplo processo em que tanto locutor e interlocutor produzem e emanam sentidos na relação dialógica eu-outro. A partir desta discussão inicial que tomamos, gostaríamos de desenvolver uma linha de reflexão a respeito deste conceito do círculo bakhtiniano pautando-nos na relação dialógica que estabelecemos a seguir: voz de e voz sobre. Para ampliarmos esta proposta conceitual, é interessante recorrermos a mais um conceito desenvolvido pelo círculo bakhtiniano: polifonia. A noção metafórica de polifonia em sua relação com o diálogo refere-se à orquestração de vozes em diálogo aberto, sem solução. Na busca dos sentidos, a polifonia instaura um debate caótico do devir, a fim de realizar o trabalho epilinguístico de referenciações e estabilizações. Atrelada à interpretação de valores sociais em circulação num determinado tempo e espaço possíveis, a polifonia é uma característica das cadeias expressivas, das materialidades resultantes de uma determinada prática discursiva (gênero), numa mistura de sons, de vozes, de sujeitos, de jogos de percepções, de escutas num emaranhado conjunto em que nós sujeitos vamos estabelecendo referenciais e valorações. Bakhtin (BAJTÍN, 1975 apud BUBNOVA, 2011) nos coloca que: toda palavra (enunciado) concreta encontra o objeto que é dirigido ao falado [...], discutindo, avaliando, envolto em uma neblina que lhe faz sombra ou, ao contrário, na luz das palavras alheias já ditas sobre ele. Encontra-se enredado e penetrado por ideias comuns, ponto de vista, avaliações alheias, acentos. A palavra orientada ao seu objeto entra neste meio dialogicamente agitado e tenso das palavras, valorações e acentos alheios, se entrelaça com suas complexas interrelações, funde-se com umas, repele outras, entrecruza- se com terceiras (p. 89-90). 42 Este jogo exposto no excerto sobre o encoberto – neblina – e o exposto – luz – põe em questão o trabalho dialético-dialógico da busca da estabilização dos sentidos. Sendo o signo ideológico, a trama discursiva é puro caos, devir, polifônico. Interpretar, neste sentido, é estabilizar provisoriamente uma possibilidade. Enunciar é estabilizar expressivamente valores. Desta forma, podemos investigar pontos de referência e certos valores que sujeitos expressam por meio das vozes que nos chegam. Ampliando isto, toda interpretação é única, pois carrega um amálgama de valores singulares, com entonações14 peculiares. Assim, o que estamos chamando de voz de liga-se à referenciação de um lugar social na interpretação polifônica: a voz do professor, a voz do aluno, a voz do analista, a voz do louco. Configura-se, aqui, uma remissão não a um sujeito em especificidade, mas sim a um grupo social, sendo sua voz materializada no signo por meio do já-dito, por uma memória discursiva que estabiliza determinadas nuances recorrentes. Podemos dizer que, neste sentido, nesta conceituação que instauramos há uma aproximação e um distanciamento relacionado ao conceito de autoria, pois este implica delimitar a explicitação do sujeito e aquele não, no entanto há uma implicação. Já a reflexão referente à noção de voz sobre coloca-nos não frente a um grupo determinado, como pontuamos anteriormente, mas sim a uma remissão ideológica, temática, instaurando uma referenciação relacionada ao assunto. Desta forma, podemos ter investigações relacionadas a vozes sobre o ensino de matemática, sobre a aprendizagem escolar, sobre o que é analisar, sobre a loucura. Voz de e sobre não se opõem uma a outra, pelo contrário. Ambos modos se constroem nas relações de referenciação e valoração. Temos uma distinção entre elas no tocante à fonte: a primeira referenciando e oferecendo valorações com ênfase nos sujeitos e a segunda referenciando e oferecendo valorações com ênfase nas relações ideológico-temáticas. Nosso entendimento é de que todo sentido é uma resposta a enunciados anteriores (responsividade/respondibilidade), e de que todo autor é responsável pelo sentido do enunciado que expressa, compartilhando uma coautoria significante com um destinatário de sua resposta (alteridade). Ao atuar e ao falar, somos autores dos atos responsáveis que envolvem nossa posição no mundo e nosso ser. A realidade da 14 No círculo bakhtiniano, o conceito de tom/entonação refere-se a valorações sociais das relações dialógicas. 43 linguagem – como ato na vertente bakhtiniana – é a de pluralidade de linguagens sociais e de discursos ideológicos que constituem um meio dinâmico. As sequências de sentido, instigadas pelas vozes, constituem um diálogo permanente, inacabado, instaurando um efeito polifônico para estabilizações de sentidos. As palavras tornam-se enunciado e adquirem um autor, isto é, um criador de um enunciado determinado cuja posição está sendo expressa. Aqui, é a voz sobre – um referencial temático – que toma partido. A voz é também a metáfora do corpo, da presença necessária dos sujeitos no diálogo, no tempo aberto. Instaura-se, aqui, a voz de, marcando um lugar social. Cada voz possui sua cronotopia – sua raiz espaço-temporal – que a situa como única (autoria), e sua ideologia, que a identifica como entidade social. A voz nos coloca de frente a um mundo com suas modulações, acentos e entonações, cada um dos quais é portador de nuances de sentidos sociais e situacionalmente personalizados. Reconhecendo o dialogismo como noção constitutiva da linguagem e atribuindo um papel privilegiado à presença de discursos “outros”, isto é, atribuíveis a outra fonte enunciativa, destacamos, nas abordagens enunciativas pós-bakhtinianas, o trabalho desenvolvido por Authier-Revuz (1990) que, partindo da concepção dialógica da linguagem formulada pelo círculo de Bakhtin e da abordagem sobre sujeito e de sua relação com a linguagem formulada por Freud e por Lacan, elabora uma distinção categórica entre heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva. Partindo dessas bases teórico-metodológicas, Authier-Revuz (1990, p. 26) propõe “uma descrição da heterogeneidade mostrada como formas linguísticas de representação de diferentes modos de ne