UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP) FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO (FAAC) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA LINHA DE PESQUISA: PROCESSOS MIDIÁTICOS E PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS NAYARA KOBORI A VOZ DA IGREJA NO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”: RIBEIRÃO PRETO – 1961-1967 BAURU/SP 2017 2 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP) FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO (FAAC) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA LINHA DE PESQUISA: PROCESSOS MIDIÁTICOS E PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS A VOZ DA IGREJA NO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”: RIBEIRÃO PRETO – 1961-1967 Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Comunicação Midiática da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus Bauru (SP), pela aluna Nayara Kobori, sob orientação do Prof. Adj. Maximiliano Martin Vicente. BAURU/SP 2017 3 Kobori, Nayara. A voz da Igreja no “Diário de Notícias” : Ribeirão Preto – 1961-1967 / Nayara Kobori, 2017 159 f. Orientador: Maximiliano Martin Vicente Dissertação (Mestrado em Comunicação Midiática)– Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Bauru, 2017 1. Jornalismo Local. 2. Comunicação. 3. Ribeirão Preto. I. Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação. II. Título. 4 5 6 Nayara Kobori A VOZ DA IGREJA NO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”: RIBEIRÃO PRETO – 1961-1967 Área de Concentração: COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA Linha de Pesquisa: PROCESSOS MIDIÁTICOS E PRÁTICAS SOCIOCULTURAIS BANCA EXAMINADORA Presidente/Orientador: Prof. Adj. Maximiliano Martin Vicente Instituição: Unesp/Bauru Professor(a) 1: Profa. Adj. Maria Cristina Gobbi Instituição: Unesp/Bauru Professor(a) 2: Prof. Adj. Marcos Paulo da Silva Instituição: UFMS/Campo Grande RESULTADO: 7 Aos meus pais, Rejane e Carlos, meus eternos professores. Para todos os cidadãos de Ribeirão Preto, um pouco de História. 8 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Bem Maior. Em alguns lugares, é levado pelo nome Deus ou são forças da natureza que regem o universo. Em particular, acredito em uma congruência de forças, femininas e masculinas, que nos guiam espiritualmente e nos ajudam a traçar o destino. Ao Bem do mundo, obrigada por tudo: desde o início da aprovação do mestrado, até esse novo caminho que se abre. Gostaria de agradecer aos meus pais, Rejane e Carlos Kobori, que sempre me ensinaram a importância do estudo. Por toda a casa, os livros estiveram espalhados, sendo os principais objetos do nosso lar. Vocês são meus eternos professores. Agradeço imensamente ao meu orientador, Prof. Adj. Maximiliano Martin Vicente, que desde a graduação tem me inspirado. Mais do que um professor, você me ensinou o valor da humildade e da compreensão. Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (FAPESP), que financiou a minha pesquisa, durante todo o mestrado, no processo 2015/12364-2. A instituição sempre acreditou na força da pesquisa para transformar o mundo, por isso, me inspira a continuar a trilhar os passos da academia. Agradeço à minha amiga Aline Ferreira Pádua, companheira de graduação e pós-graduação, de artigos científicos e congressos, e que me ajudou muito durante toda a minha trajetória academia. Não só pela parceria de estudos, mas também pelas confidências compartilhadas. Agradeço aos amigos que fiz durante o Mestrado, em especial, a Priscila Caldeira, Fábio, Mariane e Mariana. Obrigada pelos ótimos almoços e pela evolução como ser humano que me proporcionaram ao longo desses dois anos e meio. Agradeço aos meus familiares, com carinho especial aos meus avós paternos (in memorian), aos meus avós maternos e a todos da família que acreditaram em mim. Também agradeço ao meu ex- namorado, Andrei Rigobello, que ficou ao meu lado em quase todos os anos do mestrado e me apoiou nos momentos difíceis. E ao meu namorado Renato Rosa, que teve toda a paciência, amor e carinho na etapa final da dissertação. Agradeço aos funcionários da Faculdade de Teologia e Filosofia de Ribeirão Preto, principalmente, a Ivone. Também aos seminaristas, que logo se consagram padres, e que foram responsáveis por me apresentar outras visões de mundo. Agradeço a todos os professores da graduação e pós-graduação da UNESP, com carinho à Profa. Adj. Maria Cristina Gobbi e ao Prof. Dr. Célio José Losnak. Agradeço a todos os funcionários da FAAC, em especial, o Silvio, pelo suporte desde o início. 9 “E através das dissidências que a História acerta os seus passos. Há um momento em que as possibilidades de uma proposta — religiosa ou política — parecem esgotar-se sob o peso dos anos, da rigidez de seus princípios, da inflexibilidade de sua disciplina, da intransigência de seus dogmas, da prepotência de seus líderes. Como a fonte seca à beira da estrada, incapaz de saciar a sede dos peregrinos que atraiu, a proposta vê- se rejeitada por seus discípulos dispostos a caminhar sem a tutela que lhes atrasa o passo. (...) Toda a história da Igreja é como uma teia entrelaçada por experiências místicas e disputas ideológicas, influências culturais e manobras políticas, heresias doutrinárias e inovações pastorais. O centro dessa teia, a fé no Senhor, permanece intangível. Mas sua extensão em intrincados labirintos é, de um lado, sinal da diversidade dos dons do Espírito e, de outro, obra dessa incessante busca que faz do ser humano, em seus anelos de perfeição, o aprendiz de Deus”. BETTO, Frei. Batismo de sangue: Guerrilha e morte de Carlos Marighella. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. p. 32. 10 KOBORI, Nayara. A voz da Igreja no “Diário de Notícias”: Ribeirão Preto – 1961-1967. 2017. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Comunicação Midiática). FAAC – UNESP, sob orientação do Prof. Adj. Maximiliano Martin Vicente. RESUMO A pesquisa “A voz da Igreja no Diário de Notícias: Ribeirão Preto - 1961-1967” tem como proposta realizar um levantamento dos editoriais escritos no “Diário de Notícias” (DN), durante os anos de 1960 e, assim, perceber as relações entre História, Comunicação, Jornalismo, Política e Sociedade. O foco principal está nos anos de 1963, 1964 e 1965 (embora os anos de 1966 e 1967 também tenham sido considerados), recorte escolhido por significar a passagem do governo democrático, para o regime autoritário imposto pelo golpe civil-militar. O jornal era mantido pela Arquidiocese da Igreja Católica de Ribeirão Preto e, por esse motivo, também foi necessário nos debruçarmos em estudos sobre a imprensa católica, Religião e Comunicação e, por fim, o jornalismo regional. As nossas considerações caminham para ressaltar as particularidades de um órgão católico regional, que fincou posicionamentos polêmicos em um conturbado período da História brasileira. Com isso, contribui para o debate do jornalismo do interior, imprensa católica, política e sociedade. Como ferramenta metodológica, utilizamos da Hermenêutica em Profundidade (HP) e, dessa forma, pudemos empreender um estudo ideológico sobre o meio de comunicação e perceber quais as intencionalidades por trás do texto escrito e produzir as inferências iniciais. PALAVRAS-CHAVE Jornalismo Local; Comunicação; Ribeirão Preto; Igreja Católica; Diário de Notícias; Anos 1960. 11 ABSTRACT The research "The Voice of the Church in the Newspaper: Ribeirão Preto - 1961-1967" has as its proposal to carry out a survey of the editorials written in the "Diário de Notícias" (DN) during the 1960s and, thus, to understand the relations Between History, Communication, Journalism, Politics and Society. The main focus is in the years 1963, 1964 and 1965, a cut chosen to signify the passage from democratic government to the authoritarian regime imposed by the civil- military coup. The newspaper was maintained by the Archdiocese of the Catholic Church of Ribeirão Preto and, for that reason, we also had to study Catholic press, Religion and Communication, and finally, regional journalism. Our considerations go on to highlight the particularities of a regional Catholic body, which has placed controversial positions in a troubled period of Brazilian history. With this, it contributes to the debate of journalism in the interior, the Catholic press, politics and society. As a methodological tool, we use Hermeneutics in Depth (HD), in this way, we could undertake an ideological study about the medium of communication and realize the intentionalities behind the written text and produce the initial inferences. KEY WORDS Local Journalism; Communication; Ribeirão Preto; Catholic Church; Diário de Notícias; 1960. 12 ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1. Recorte de Cabeçalho. Diário de Notícias. 06/01/1961. P.1 ........................................... 96 Figura 2. Recorte Corpo Editorial. Diário de Notícias. 03/01/1961. P.2........................................ 97 Figura 3. Recorte Corpo Editorial. Diário de Notícias. 09/05/1964. P.2........................................ 97 Figura 4. Organização da primeira página. Diário de Notícias. 06/01/1961. P.1 ........................... 99 Figura 5. Organização da segunda página em 1961. Diário de Notícias. 08/01/1961. P.2. ......... 101 Figura 6. Organização da segunda página em 1963. Diário de Notícias. 03/04/1963. P.2. ......... 102 Figura 7. Organização da terceira página em 1961. Diário de Notícias. 06/01/1961. P.3. .......... 104 Figura 8. Organização da terceira página em 1962. Diário de Notícias. 04/02/1962. P.3. ......... 105 Figura 9. Organização da terceira página em 1963. Diário de Notícias. 07/03/1963. P.3. .......... 106 Figura 10. Organização da quarta página. Diário de Notícias. 08/01/1961. P.4. ......................... 108 Figura 11. Organização da quinta página. Diário de Notícias. 08/01/1961. P.5. ........................ 109 Figura 12. Organização da sexta página. Diário de Notícias. 06/01/1961. P.6. ........................... 110 Figura 13. Organização da última página. Diário de Notícias. 06/01/1961. P.7. ......................... 111 13 SUMÁRIO CAPÍTULO 1: INTRODUÇÃO .................................................................................................. 14 CAPÍTULO 2: AS ARTICULAÇÕES ENTRE COMUNICAÇÃO, HISTÓRIA E JORNALISMO ............................................................................................................................. 21 2.1 As relações multidisciplinares entre Comunicação, História e Jornalismo .......................... 21 2.2 O desenvolvimento de pesquisas com a História e o Jornalismo ......................................... 25 CAPÍTULO 3: O JORNALISMO LOCAL E A IMPRENSA DO INTERIOR ..................... 29 3.1 O desenvolvimento da imprensa no interior do estado de São Paulo ....................................... 30 3.2 As discussões sobre jornalismo local e a imprensa do interior ................................................ 34 3.3 Reflexões sobre o modo de fazer jornalismo do interior .......................................................... 41 CAPÍTULO 4: HISTORIOGRAFIA .......................................................................................... 46 4.1 De Jânio a Castelo Branco .................................................................................................... 47 4.2 Ribeirão Preto: acontecimentos nacionais aos locais ............................................................ 54 4.3 O desenvolvimento da imprensa em Ribeirão Preto ............................................................. 58 CAPÍTULO 5: A IMPRENSA CATÓLICA ............................................................................. 64 5.1 A Igreja católica e a Imprensa .............................................................................................. 65 5.2 A opção pelos pobres ............................................................................................................ 70 CAPÍTULO 6: METODOLOGIA .............................................................................................. 75 6.1 O jornal enquanto fonte e objeto de pesquisa ....................................................................... 76 6.2 O estudo dos gêneros opinativos do jornalismo ................................................................... 79 6.3 A Hermenêutica em Profundidade e a ideologia .................................................................. 80 CAPÍTULO 7: DO CAMPO DA ANÁLISE .............................................................................. 88 7.1 O jornal dos padres ............................................................................................................... 90 7.2 Aspectos Gerais: características e diagramação ................................................................... 94 14 7.3 A Doutrina Social Cristã como solução .............................................................................. 113 7.4 Reforma Agrária e o homem do campo .............................................................................. 120 7.5 Do jornal aos sindicatos: Frente Agrária ............................................................................ 126 7.6 A Editorial Comunitária “Diário de Notícias” S/A ............................................................. 131 7.7 A “Revolução” e o governo Castelo Branco ....................................................................... 134 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................... 148 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................................ 152 15 1 INTRODUÇÃO A História é construída, moldada, revista, reformulada e reinterpretada. Michel de Certeau (2002), em sua obra “A Escrita da História”, relativiza a questão histórica, afirmando que a construção dos fatos depende de como tratamos os acontecimentos, sendo a narrativa da história uma interpretação, à luz do que acreditamos ser a “verdade”. Por isso, é necessário estar atento às fraturas da História, os meios de resistência, que tiram o olhar do lugar-comum para escrever novas formas narrativas que irão compor a nossa consciência de mundo. Dessa maneira, vemos na imprensa um instrumento que contribui para a elaboração da História, por meio de “narrativas que operam com categorias temporais entre três dimensões fundamentais: a mídia, a memória e a história” (MENEZES, 2012). Estamos falando de uma operação “midiográfica”, termo cunhado pela pesquisadora Sônia Menezes, ao referir-se à composição de história através dos meios de comunicação, levando em conta as práticas e elementos que conformam a produção midiática, além de sua reprodução e resignificação em um determinado espaço-tempo. A midiografia é, para nós, um complemento metodológico do que chamamos de História da Comunicação, pois carrega mais do que a descrição historiográfica dos acontecimentos, mas sim, todo o contexto que reveste a cultura e os diversos processos de construção do texto jornalístico. Nesse sentido, nosso trabalho procura atender a complexidade que envolve a escrita midiática na História, de um veículo particular do contexto brasileiro. Apresentamos o “Diário de Notícias” (DN), impresso católico da cidade de Ribeirão Preto, interior do estado de São Paulo, a partir de seu 33º aniversário, até os seus 40 anos de existência (1961-1967). O periódico foi inaugurado em 1928, pela família Silva Lisboa, mas ganhou notoriedade a partir de 1943, quando foi adquirido pela Arquidiocese católica de Ribeirão Preto. Assim, o jornal seguiu uma trajetória alinhada aos princípios cristãos, ora conservadores, ora progressistas. A pesquisa que realizamos está centrada justamente nesse ponto: observar o perfil editorial da folha, tendo em vista as pregações da Igreja Católica em nível mundial, bem como as questões sociais e políticas que envolviam os fenômenos que cercavam o diário. O desenvolvimento da pesquisa foi possível graças ao financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 2015/12364-2, que subsidiou todo o estudo durante a vigência do mestrado. O intuito de nossas reflexões, em um primeiro momento, era dar continuidade aos estudos realizados na graduação (2011-2014), quando 16 investigamos o comportamento editorial do “Diário da Manhã” (DM), outro periódico de Ribeirão Preto, no mesmo recorte temporal: 1961 a 1967. A monografia leva o título de “A atuação política do “Diário da Manhã”: Ribeirão Preto – 1961-1967” 1 , com orientação do Prof. Dr. Célio José Losnak. Com isso, seria possível desenhar as características dos jornais impressos da urbe e compreender como se desenvolviam as discussões sociais na imprensa. As pesquisas se complementam, na medida em que cada uma contribui para reconstruir os passos da imprensa do município, em um período recortado de tempo, sendo possível uni-las em um futuro, com o objetivo de mapear os jornais da época. Também é uma forma de observar como se portavam os matutinos locais diante da imposição do regime civil-militar-midiático, e entender as articulações entre Jornalismo, Comunicação, História e Sociedade. A justificativa do estudo em torno do jornalismo da localidade de Ribeirão Preto está pautada pela constatação de um número incipiente de pesquisas acadêmicas sobre os jornais da cidade durante os anos de 1960, sendo que a maioria dos estudos é oriunda de trabalhos de conclusão de curso, como é o caso da monografia “A Igreja Progressista e mobilização popular em Ribeirão Preto (1960-1964)”, de Daniel Marques Vilela (2004), e o livro-reportagem “O preço da luta – A Igreja Católica como ponto de partida”, das jornalistas Ana Paula Araújo Pinheiro e Anna Regina Bula Tomicioli (2000). A escolha do “Diário de Notícias” como objeto central de nosso estudo está na particularidade da folha, bem como a presença do matutino na cidade de Ribeirão Preto, já que o DN ocupava o terceiro lugar no pódio de distribuição no município. Todos os exemplares encontram-se arquivados na Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Seminário de Ribeirão Preto, localizada em Brodósqui-SP. Os arquivos estão encadernados, em blocos de três em três meses e, apesar das folhas estarem amareladas e algumas em processo de deterioração, é possível a consulta. O processo de digitalização dos exemplares foi realizado manualmente, com a fotografia o jornal e, posteriormente, edição das imagens para melhor visualização dos textos. Diante das singularidades do “Diário de Notícias”, a pesquisa ganhou novos contornos, que ultrapassaram os objetivos iniciais, que incluíam a descrição do comportamento do jornal na década de 1960 e as observações acerca da imprensa em Ribeirão Preto no período recortado. Novas reflexões tomaram corpo, como a discussão sobre o jornalismo católico, o 1 A monografia pode ser consultada através do acervo online da biblioteca da UNESP, no endereço eletrônico: https://www.athena.biblioteca.unesp.br. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), com bolsa de Iniciação Científica 2013/09924-0, https://www.athena.biblioteca.unesp.br/ javascript:openProcess('135363',%20'false') 17 desenvolvimento de teorias comunicacionais latino-americanas (pressupostos que foram aplicados na análise do DN) e o próprio comportamento da instituição católica de Ribeirão Preto, que manifestava seus ideais por meio dos textos opinativos do “Diário de Notícias”. Vimos a necessidade de nos debruçarmos sobre novos estudos, que contemplavam vieses de análise sobre a imprensa católica em nível local, bem como o comportamento da Igreja Católica durante os anos de Ditadura Militar, tanto a ala progressista (representada pela Doutrina Social Cristã e os adeptos à Teologia da Libertação), quanto a ala conservadora da instituição católica. Também não podíamos desconsiderar as características particulares que regem a imprensa do interior: um universo singularizado e especializado, em meio a uma crescente onda globalizante. Caminhamos na contramão de muitos estudos sobre a História da Imprensa no Brasil, que privilegiam os veículos das grandes capitais, advogando em nome de uma narrativa histórica universal, que bem sabemos, é construída. Assim, pretendemos contribuir para alavancar os estudos sobre jornalismo local, regional e interiorano, um campo de reflexão complexo, permeado de discussões que envolvem termos, conteúdos e particularidades. Portanto, como proceder diante da complexidade do fenômeno: uma imprensa católica e regional, inserida nos anos de autoritarismo da década de 1960 e que, por sua vez, compartilhava de ideologias contrastantes conservadoras e progressistas? Ora, partimos de pressupostos de escolhas feitas metodologicamente para também elaborarmos a construção da trajetória do veículo. Optamos por dividir a pesquisa em seis principais capítulos, incluindo a Introdução, que trazem a reflexões pontuais sobre os elementos que formulam a nossa pergunta inicial. No capítulo “As articulações entre Jornalismo e História”, aprofundamos os apontamentos da relação interdisciplinar entre História, Comunicação e Jornalismo. Pretendemos defender que esses campos se complementam e, trabalhar com eles ao mesmo tempo significa ter em mente a multidisciplinaridade das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Continuaremos a nossa reflexão, apontando quais são as características que definiram o desenvolvimento dos jornais do Brasil, e como as pesquisas sobre História da Comunicação contribuíram para a compreensão do fazer jornalístico atual. Outra discussão importante para o nosso estudo, e que também dá continuidade às pesquisas sobre História da Comunicação no Brasil, diz respeito às considerações sobre localidade. Abordaremos no capítulo “O jornalismo local e a imprensa do interior” o desenvolvimento dos jornais locais, com foco no interior do estado de São Paulo, seguindo a 18 discussão de como é a prática jornalística no interior e as complexidades da definição de jornalismo local. Por isso, no primeiro momento, tem-se uma descrição do desenvolvimento dos periódicos no Brasil, em especial, no interior do estado de São Paulo, como forma de compreender as articulações históricas e mudanças que ocorrem na imprensa dessa região. Tais considerações foram embasadas nos estudos elaborados por Hime (1998), Schwarz (2001), Barbosa (2007) e Nelson Werneck Sodré (1983). Algumas pontuações sobre a História da Imprensa no Brasil também foram descritas, já que é indissociável a relação da grande imprensa dos centros urbanos, com as práticas jornalísticas do interior. Assim, já vislumbramos as influências que os veículos de comunicação do eixo Rio de Janeiro e São Paulo tinham sobre as publicações locais. Após esse percurso, partimos para as reflexões que cercam as características do jornalismo local e imprensa do interior. Para isso, contamos com a colaboração da pesquisadora Aline Pádua (2016), que empreendeu um significativo estudo sobre o tema, durante o seu estágio em Portugal, em que esteve ao lado do Prof. Dr. Carlos Camponez. A contribuição deu-se no sentido de novas fontes bibliográficas, para completar os estudos sobre jornalismo do interior no Brasil, que ainda estão em processo de construção. Além disso, a pesquisa de Pádua (2016) serviu de base para organizarmos a reflexão sobre o jornalismo do interior e local, visto que muitas discussões pontuadas pela pesquisadora em sua dissertação de mestrado foram reinterpretadas no presente estudo. Outro ponto significativo foi a experiência de poder compartilhar dos mesmos grupos de estudo, orientador e produção de artigos científicos, já que tanto as reflexões de Pádua (2016), quanto esta pesquisa dialogam de forma bastante similar, se completando em diversas formas. É importante ressaltar a intensa discussão sobre os termos que envolvem o jornalismo local ou imprensa do interior, já que há uma multiplicidade de características para definir o que é o local, ou o jornalismo do interior, jornalismo regional e jornalismo de proximidade. Finalmente, o último subitem do Capítulo III tece reflexões sobre o modo de fazer jornalismo do interior, ou seja, o jornal local enquanto empresa. Assim, pretendemos estruturar os modelos de produção do “Diário de Notícias”, de acordo com os aportes teóricos de Bueno (2013), Beatriz Dornelles (2013) e Cicília Peruzzo (2005). Posteriormente, foi necessário um capítulo sobre o contexto espaço-temporal, no qual o DN estava inserido. Assim, nosso objetivo é perceber de que forma as nuances nacionais e locais 19 influenciavam o comportamento do periódico, bem como serviam de alimento para propagar a ideologia do veículo, principalmente, no concernente às decisões políticas da época. Tratamos de um item voltado ao governo de Jânio Quadros, a derrocada de João Goulart e os primeiros anos do regime autoritário do então Presidente Castelo Branco. Também trazemos um panorama da política municipal de Ribeirão Preto, como forma de compreender a política em nível local e, finalmente, como atuava a imprensa do município nos anos de 1960. “A Imprensa Católica” é um capítulo dedicado ao vislumbre das relações entre a Igreja e o jornalismo. Acreditamos que tal estudo serve de base para compreender o interesse da Cúria Metropolitana de Ribeirão Preto em ter um negócio na área jornalística e, além do mais, quais eram os pontos de vista pregados pela Madre Igreja Católica em Roma e como isso ressoava no “Diário de Notícias”. Durante uma leitura prévia dos exemplares do jornal, constatamos que havia uma grande aproximação de seus diretores religiosos, com as Doutrina Social Cristã e uma antecipação com a Teologia da Libertação, já que esta última foi consolidada no período posterior ao nosso recorte temporal, com a Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em 1968, em Medellín, na Colômbia. Dessa forma, percebemos que o DN atuou como um eco das pregações do continente latino, com espaços para discussões sobre a emancipação do povo e reflexões sobre as práticas políticas e econômicas. Assim, seguimos com o item “A opção pelos pobres”, que tem como objetivo pensar as práticas religiosas na América Latina, em um contexto de exploração e espoliação capitalista. Percebemos que não só o capitalismo era criticado pelo DN, mas também o comunismo – o jornal defendia que nenhuma das duas ideologias era suficiente para promover a libertação do povo contra as práticas de submissão e exploração do capital. A partir dessas considerações, teremos uma bagagem bibliográfica significativa para entender como e o que pensava o DN em seus editoriais; e se eles se relacionavam, ou não, com o que era difundido por uma ala progressista católica no continente latino-americano. No concernente à “Metodologia”, trazemos no primeiro subitem “O jornal enquanto fonte e objeto de pesquisa”, outra discussão que abarca questionamentos históricos e de comunicação. Tal reflexão se dá no sentido de compreender como os veículos de comunicação podem ser utilizamos enquanto consulta para determinado estudo, bem como objeto, com pesquisas que descrevem o comportamento desses jornais em um determinado espaço e tempo. Esta dissertação anda por esse caminho, já que propõe a descrição do “Diário de Notícias”, ao mesmo tempo em que utiliza o veículo como fonte, para discutir as representações sociais. 20 No subitem “O estudo dos gêneros opinativos do jornalismo”, trazemos um apanhado de referências que destacam a importância da opinião dos veículos de comunicação e, além disso, como a análise desses discursos pode contribuir para compreender a relação da sociedade, com a política e o jornalismo. As referências foram ancoradas nos estudos de Luiz Beltrão (1980) e José Marques de Melo (1985), dois grandes pesquisadores da Comunicação, pioneiros nas pesquisas sobre gêneros jornalísticos. Por fim, o subitem “A Hermenêutica em Profundidade e a ideologia”, decidimos utilizar a Hermenêutica em Profundidade (HP), de J. B. Thompson (1998), que trata justamente da questão ideológica e da análise dos meios de comunicação de massa como instrumento metodológico. O que mais no chamou atenção foi a importância que o pesquisador dá para o contexto em que o objeto se insere, empreendendo uma reflexão histórica como primeiro passo da metodologia. Vimos que nossa pesquisa se encaixava nesses preceitos que, de certa maneira, também contribuem para o amadurecimento nas relações entre História, Comunicação e Jornalismo, abordadas no início de nossa pesquisa. Nosso trabalho não estaria completo sem uma apresentação do objeto de estudo e, finalmente, a análise do veículo. Em um primeiro momento, trataremos da trajetória do “Diário de Notícias”, desde o ano de seu surgimento, até chegar aos anos de 1980, época em que datam os registros do fim do periódico, no item chamado de “O jornal dos padres”. Também trazemos a história de seus diretores, já que eles são figuras primordiais para entender o posicionamento do veículo. Importante ressaltar a ajuda das jornalistas ribeirão-pretanas Ana Paula Araújo Pinheiro e Anna Regina Bula Tomicioli, que desenvolveram múltiplas entrevistas sobre a condição da Arquidiocese do município, nos anos que seguiram o golpe civil-militar. Elas contribuíram para o resgate de uma memória silenciada, revelando atos de violência do regime em nível local. As jornalistas colaboraram para recuperar parte da história do próprio jornalismo na cidade, em especial de nosso objeto de estudo, que de certa forma, também aparecia como palco de resistência ao governo instaurado. Por fim, temos a análise dos editoriais do DN, o coração de nossa pesquisa. Nesse momento, almejamos conectar as nossas referências bibliográficas com os textos jornalísticos opinativos que lemos no DN. Trabalhar com opinião, com foco principal nos editoriais, é entender o posicionamento institucional da empresa jornalística que, em nosso caso, é a Arquidiocese católica de Ribeirão Preto. Portanto, fazemos jus ao nome da pesquisa, “A voz da Igreja no “Diário de Notícias””, já que procuramos não apenas vislumbrar o que o jornal 21 defendia, mas entender em que medida esse posicionamento também não fazia parte das pregações católicas em nível regional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) considera o Brasil como um dos países com maior número de católicos no mundo, com um número aproximado de 60% 2 . A Igreja fez e ainda faz parte da cultura da sociedade e, mesmo vivendo em um Estado laico, ela atua em questões políticas, se fazendo presente em momentos históricos do país, como mudanças políticas, revoluções e ditaduras. Com Ribeirão Preto não foi diferente: a cidade se estruturou e nasceu a mando dos princípios católicos. Não é a toa que nos primórdios de sua existência, o município foi batizado com nome de santo, conhecido como “São Sebastião”. Acreditamos que parte dessa forte influência da Igreja se deu pela comunicação – não estamos falando apenas no jornalismo, mas todo o conjunto de pregações, que faz da religião produtora e reprodutora de bens simbólicos, em uma prática estritamente comunicacional. Além disso, gostaríamos de entender as questões que envolveram o jornalismo em Ribeirão Preto e, de que forma, a cultura católica se fazia presente nos jornais locais. Portanto, o centro de nossa pesquisa está em refletir os apontamentos que cercam a imprensa católica no nível do interior, tendo como representante o DN. Trilhamos, pois, um percurso longo e complexo, porém necessário, que busca alcançar reflexões mais amplas dentro da História da Comunicação, das pesquisas em jornalismo do interior e da influência da imprensa católica. 2 Conferir: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para- 64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/ http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-ibge-e-a-religiao-cristaos-sao-86-8-do-brasil-catolicos-caem-para-64-6-evangelicos-ja-sao-22-2/ 22 2 AS ARTICULAÇÕES ENTRE COMUNICAÇÃO, HISTÓRIA E JORNALISMO O presente capítulo trata das relações e diálogos entre Comunicação, História e Jornalismo, sem deixar de lado a autonomia desses campos de saberes. A reflexão teórica trata da essência de nossa pesquisa, visto que estudamos o posicionamento específico de um órgão de imprensa, inserido em um determinado contexto espaço-temporal. Valemo-nos, portanto, das obras de Maximiliano Martin Vicente (2009), “História e Comunicação na nova ordem internacional”, de reflexões de Marialva Barbosa (2005), de Letícia Cantarela Matheus (2011) e de demais pesquisadores que deram aporte teórico para as nossas reflexões. Na primeira parte, apontamos para a multidisciplinaridade que envolve as relações entre Comunicação, História e Jornalismo, argumentando a importância de utilizar diversas disciplinas para compor o método interpretativo. No segundo momento, temos o desenvolvimento das pesquisas que envolvem Comunicação, História e Jornalismo, principalmente, no concerne às pesquisas comunicativas no decorrer dos anos. Importante ressaltar que a pesquisa em História da Comunicação, História do Jornalismo e História da Imprensa estão envolvidas nesse contexto, sendo parte importante na composição de nosso repertório bibliográfico. 2.1 As relações multidisciplinares entre Comunicação, História e Jornalismo Ao pensar nas relações entre História, Comunicação e Jornalismo adotamos um posicionamento multidisciplinar, como tentativa de compreender os diversos fenômenos que cercam as práticas sociais, superando interpretações monolíticas e fragmentadas, no processo de (re)produção e socialização do conhecimento. É um desafio teórico-metodológico, empreendido por diversos autores que buscam entender a complexidade do pensamento, tendo como finalidade resgatar o caráter de totalidade das concepções do conhecer, em uma metodologia que aceita que todas as teorias possuem conexões entre si. Uma relação de afinidade e conflito, nas palavras de Maximiliano Martin Vicente (2009). Assim, apesar de aceita e constantemente utilizada na sociedade, a multidisciplinaridade ainda convive com problemas e indagações não solucionadas. O desafio principal da reflexão multidisciplinar é compatibilizar duas ou mais epistemologias, que dialoguem e permitam alargar interpretações sobre determinado campo. Uma das possíveis maneiras de solucionar esse dilema é aproximar as áreas de conhecimento, para permitir que cada especialista transcenda a sua própria particularidade e abrace os saberes de outras disciplinas. Ou seja, é possível que o campo 23 autônomo, como é o caso da História e da Comunicação, incorpore saberes de outras ciências, ampliando os horizontes de discussão. Diante dessa forma dialética de pensar, quem ganha é o método interpretativo, pois ele define novos contornos e ampliações, correspondendo a função multidisciplinar. Voltamos, portanto, ao início, onde propomos o diálogo entre História, Comunicação e Jornalismo. Entendemos que o Jornalismo está inserido como parte da Comunicação, sendo uma das especializações-chave da grande área de conhecimento. Sendo assim, partimos para as considerações que envolvem a prática histórica com a jornalística. Para Maximiliano Martin Vicente (2009), tanto o Jornalismo, quanto a História coincidem na sua finalidade, ou seja, na compreensão e na decodificação da formação da sociabilidade. Esses dois saberes aceitam que o acontecimento deriva do fato entendido como o episódio desencadeador de mudanças no status quo social. Também compartilham que para tal ato ter destaque, ele deve se encaixar dentro do processo social no qual se atribui, ou não, relevância, visto que ele interfere nas relações sociais. Vicente (2009) continua dizendo que o acontecimento existe em função de um relato feito dele, e é justamente durante a construção da narrativa que o Jornalismo e a História dão as mãos, cada qual criando versões dentro de suas especificidades, que nos levam a refletir a estruturação da sociedade, validando determinados acontecimentos. Para Vicente (2009), qualquer narrativa, seja ela histórica ou jornalística, representa um saber objetivo ou subjetivo do mundo. Ou seja, é a partir da narrativa que construímos a realidade do acontecimento. Nesse sentido, estamos de acordo com o que diz Letícia Cantarela Matheus (2011), quando afirma que a História e o Jornalismo são atravessados e unidos pela sua condição comunicacional. A pesquisadora nos traz dois pressupostos para aprofundar ainda mais essa relação: o primeiro estabelece que o passado não se revela e não pode ser efetivamente acessado. Ele é interpretado e reinterpretado no presente, a partir do que resta de sua condição material e narrativa. O segundo trata da ação social, encarando as fronteiras entre passado, presente e futuro como móveis e não demarcações astrofísicas – ou seja, temos operações narrativas do que tratamos e enxergamos a projeção de seus significados. Trata-se, portanto, de retificar o conceito simplista de diferenças cronológicas entre História e Jornalismo. Mas, e quanto às concepções teóricas que acercam essas áreas de saberes? Quem nos responde é Le Goff (1999, p.93), ao tecer considerações relevantes para compreender o passado pelo presente, e o presente pelo passado, em suas próprias palavras. Em resumo, o 24 diálogo entre Jornalismo e História. O historiador Le Goff é conhecido pelos seus textos acerca da Idade Média, e nos coloca frente a frente com uma pergunta-chave: houve na Idade Média fenômenos históricos que podem esclarecer o presente imediato? O que se passa atualmente nos permite vislumbrar melhor o que aconteceu no tempo passado? Dando continuação à problemática, Le Goff atenta para as fontes de informação utilizadas no construto histórico – tanto de jornalistas, como de historiadores. Ele defende a adoção da chamada leitura do presente, do acontecimento, com uma profundidade histórica alargada para conseguir elaborar uma opinião fundamentada; também clama pela aplicação de um método crítico em relação às fontes, respeitando as singularidades de cada uma. Por fim, o historiador procura fugir da narrativa meramente descritiva para a interpretativa, tentando hierarquizar alguns fatos, distinguindo o que é fato de acidente, pois assim será possível relacionar esse evento com o passado já interpretado e avaliado pelos jornalistas e historiadores. É assim que História e Jornalismo trabalham juntos para a construção da realidade social. Todavia, não podemos deixar de mencionar que os jornalistas e historiadores elaboram uma reconstituição parcial dos acontecimentos, procurando atribuir um significado e sentido ao fato descrito. O maior ponto de encontro é, por conseguinte, a narrativa. Ela é a responsável por materializar a elaboração e o sentido nos fatos que estudam. A História usa a narrativa para explicar os discursos sociais na dimensão temporal em que aconteceram, garantindo a construção de relações e práticas sociais específicas do momento. O historiador ordena o tempo, descreve as redes de relacionamento e cria a narrativa histórica. Ele é o responsável pela elaboração da interpretação, determina as classificações e posições dos acontecimentos, dos homens, das ideias, do onde e quando se deram e justifica suas escolhas. Esses procedimentos também são encontrados durante a elaboração da narrativa jornalística. Ela também ocorre em contextos específicos, com recursos amparados nas estratégias narrativas dos textos, que almejam cativar os receptores. Por isso, a organização do texto midiático não é aleatória, mas sim, é realizada numa conjuntura determinada e objetiva efeitos específicos. Os jornalistas munem-se de códigos, articulações sintáticas e pragmáticas e outros recursos de linguagem que visam nortear a interpretação do destinatário/receptor. Paul Ricoeur (1994) nos diz que a narrativa é um meio de reconfigurar a nossa confusa e difusa experiência temporal e, por esse motivo, a identidade de um texto deveria ser buscada no tempo da experiência humana, pois toda e qualquer narrativa é um mundo temporal. É a diferença 25 entre contar o tempo e o tempo contado, para a construção do chamado mundo contado (RICOEUR, 1994). Para o autor, o tempo torna-se humano diante da articulação narrativa – a narrativa, por sua vez, atinge seu pleno significado, pois se torna uma condição da existência humana. De acordo com Motta (2005), Ricoeur abre um novo caminho para a compreensão da comunicação jornalística, uma atividade marcada pelo tempo, devido à atualidade, recenticidade e instantaneidade, como valores-notícia determinantes para o conhecimento jornalístico. Barbosa & Ribeiro (2009) sintetizam o que apresentamos, discorrendo que a investigação jornalística em conjunto com a História analisa as mensagens textuais, vistas como (re)produtoras de significados e intencionalidades. Para elas, ver a imprensa como representação de uma parcela social é identificar as relações dos veículos de comunicação social com o público no qual se destinam. As autoras finalizam dizendo que ao elaborarmos uma História do Jornalismo, estamos produzindo, de fato, História. Diante do que expomos até o momento, podemos afirmar que as convergências entre a História e o Jornalismo na abordagem dos acontecimentos encontram repercussão social que os mesmos podem ter. Nosso pressuposto é de que durante essa aproximação prevalece a procura de um ideal para o jornalista, e outro para o historiador. O primeiro tem como missão reconstituir e explicar ao seu leitor como se deu a sequência e os laços que vinculam às notícias apresentadas no cotidiano. A informação adquire um sentido, mesmo que possa ser desfocada por outros acontecimentos. Na pele no historiador, temos o processo de reconstituição dos caminhos do fato, até o momento presente, analisando as estruturas que envolviam a ocasião, até o desfecho com relação ao tema que se pesquisa. Barbosa (2005) relata que a explicação história nos leva a compreender as mudanças das questões sociais dentro das dimensões do espaço tempo. Dessa forma, relata a pesquisadora, que pensar socialmente os atos jornalísticos significa reconstituir, interpretar e dar sentido presumido às questões em uma dimensão espaço-temporal. Finalmente, vemos que o estudo do Jornalismo, da História e da Comunicação, bem como a relação entre essas áreas de conhecimento, elabora uma complexa pesquisa, que demanda a análise das textualidades e produção das mensagens, levando em conta a intencionalidade de quem escreve e o que se escreve, além do significado apreendido pelos receptores e o contexto no qual está inserido. Importante ressaltar que nenhuma narrativa é ingênua e, por esse motivo, as análises devem compreender as estratégias e intenções do narrador (VICENTE, 2009, p. 101). É, 26 portanto, construir um estudo em torno da questão discursiva, respeitando as especificidades e interpretando as relações sociais de poder. 2.2 O desenvolvimento de pesquisas com a História e o Jornalismo Os estudos de jornalismo no Brasil tiveram notável desenvolvimento nos últimos anos, devido ao amplo crescimento dos programas de pós-graduação em Comunicação no país, bem como a importância dessas pesquisas para a constituição do campo de saber comunicacional. Apesar das pesquisas em Jornalismo serem relativamente recentes, Hohlfeldt e Valles (2008) apontam que já no século XIX, no ano de 1873, José Higino Duarte Pereira realizou um dos primeiros estudos sobre jornalismo, a partir da análise do texto de Cônego Fernandes Pinheiro, publicado em uma revista cultural do Rio de Janeiro, que fala sobre a imprensa no país 3 . Dizia Fernandes Pinheiro que os holandeses, colonizadores da região de Recife, teriam introduzido a imprensa no território brasileiro – uma argumentação que incomodava os pernambucanos, que desqualificavam a posição de Fernandes como uma “inverdade histórica” (HOHLFELDT e VALLES, 2008, p.12). Já nesse contexto, percebemos o vínculo de estudos que relacionam o Jornalismo, através dos textos publicados, com a História, a partir das reflexões espaços-temporais de um determinado acontecimento. Nesse sentido, Barbosa (2005) defende que considerar a História nas pesquisas sobre imprensa, não é necessariamente realizar estudos históricos, mas sim, se valer da teoria para empreender uma análise. Para a autora, o principal postulado da historiografia diz respeito à interpretação – ou seja, não se trata apenas de recuperar o evento ocorrido, mas interpretá-lo, levando em consideração as subjetividades do pesquisados e as razões de uma determinada ação social. A aproximação da história para os estudos em jornalismo é fundamental, visto que procede a uma análise que responde os por quês das ações ocorridas no acontecimento, dentro do regime de historicidade, em que a narrativa jornalística instaura uma discussão fundamental em torno da temporalidade (BARBOSA, 2005, p. 52). O jornalismo é o alvo principal dos estudos que levam em conta a teoria da História, devido à abundância de fontes disponíveis e a relevância que adquiriu na sociedade (VICENTE, 2009, p. 20). De acordo com Vicente (2009), as pesquisas que envolvem a análise histórica do 3 PEREIRA DA COSTA, F. A. Estabelecimento e desenvolvimento da imprensa em Pernambuco. In: Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco. N. 309. Recife, 1891. 27 jornalismo fazem parte de um constructo maior, o da História da Comunicação Social, disciplina que nasce e se consolida no final da década de 1940, até meados de 1970. O autor ressalta que no início predominavam temas relacionados à contemporaneidade, com desenvolvimento de duas referências metodológicas principais: a primeira, consolidada nos Estados Unidos e na Europa, no final do século XIX, voltada para o estudo diacrônico da imprensa e para os assuntos de rádio e cinema, no auge do positivismo histórico. A segunda nasce da crítica ao modelo positivista, com o objetivo de avaliar os impactos do jornalismo nas audiências (VICENTE, 2009, p. 20). Vicente (2009) continua seus apontamentos, ressaltando que foi a partir do desdobramento político da Segunda Guerra Mundial, que os aportes teóricos sobre Comunicação ganharam novos contornos, incorporando teorias e metodologias de outras ciências humanas. Assim, pontua o autor que três grandes matrizes metodológicas traçariam abordagens sobre as relações entre comunicação e sociedade: o marxismo, o funcionalismo e a escola de Annales. Para o marxismo, a comunicação se pauta na tentativa de explicar a influência das relações materiais sobre a ideologia, dando um sentido à comunicação e à sua função histórica (VICENTE, 2009, p. 21). Já o funcionalismo surge como uma proposta investigativa de pesquisa social, com o objetivo de identificar os fins e as funções do objeto de estudo. Diz-nos Vicente, que essa metodologia tem como pretensão decodificar a realidade social, entendida como um sistema estruturado. A comunicação, nesse sentido, “teria como função principal estabelecer uma relação multidirecional e dinâmica entre os diversos elementos envolvidos, desde a emissão até a recepção das mensagens” (VICENTE, 2009, p. 22). Finalmente, o autor traz as considerações sobre o estruturalismo da Escola de Annales. O aporte teórico-metodológico estruturalista de Annales ficou conhecido pela incorporação de dois modelos de trabalho com a História e a Comunicação: o primeiro, com a interdisciplinaridade; o segundo, com o papel das movimentações de massas, protagonistas das transformações sociais. São destaque os estudos sobre estruturas e conjunturas econômicas, sociais, demográficas e muitas outras, que contribuíram para a construção da História da Comunicação Social (VICENTE, 2009, p. 25). Na América Latina, a entrada dos estudos sobre Comunicação Social teve início na década de 1930, especificamente, no ano de 1934, com a inauguração do curso de jornalismo da 28 Universidade de La Plata 4 (VICENTE, 2009, p. 29). De acordo com Vicente, em 1935 é inaugurado o primeiro curso superior de formação de jornalistas e publicitários no Brasil, na Universidade do Distrito Federal, Rio de Janeiro. Segundo o autor, a intenção era profissionalizar e formar mão de obra, e não a construção de um saber específico relacionado aos meios de comunicação. Entretanto, a situação se alteraria com as possibilidades de contato com obras e autores reconhecidos, com críticas aos modelos implantados pelos professores norte-americanos (VICENTE, 2009, p. 29). Diante desse embate e da própria realidade latino-americana, Vicente diz que emerge uma nova maneira de entender a Comunicação, com fundamento nos métodos frankfurtianos para conceituar o chamado “imperialismo cultural”, tendo com pano de fundo a Teoria da Dependência. Assim, os estudos comunicacionais latino-americanos destinam-se a criticar o caráter mercantilista e consumista da comunicação, com “uma série de trabalhos nos quais a militância política e a comunicação andavam de mãos dadas” (VICENTE, 2009, p. 32). Dessa maneira, o desenvolvimento dos estudos em Comunicação alcançou um novo patamar, que utiliza de diversos aportes teóricos e campos científicos que contribuem com a pesquisa. Marialva Barbosa (2005) cita a historiadora Agnes Heller para justificar que os estudos em Comunicação e dos atos jornalísticos possibilitou a criação da consciência do mundo histórico. Dessa maneira, a pesquisa em Comunicação, atrelada aos aportes teóricos da História, se preocupam com as razões, causas e por quês – ou seja, não basta observar que a mídia pode determinar como ou sobre o que pensar, mas sim, de que maneira isso acontece em um espaço social determinado e específico (BARBOSA, 2005, p. 53). Para a autora, a teoria da História fornece aos estudos de jornalismo a interpretação do passado em uma dimensão do pensamento histórico, percebendo como a ação jornalística se dá em um presente refletido sobre a história. Outra questão principal nos estudos que envolvem Comunicação, Jornalismo e História é a particularização. De acordo com Marialva Barbosa (2005, p. 56), ao procedermos à interpretação, não podemos generalizar as conclusões para todos os contextos, visto que cada espaço social está inserido em um determinado cenário, em uma conformidade histórica e trajetória particular. Por esse motivo, desenvolveram-se estudos próprios para o contexto latino- americano, que se diferenciavam das pesquisas comunicacionais nos Estados Unidos e Europa. Assim, “pensar historicamente pressupõe contextualizar os espaços sociais numa cadeia de fatos, 4 A Universidade de La Plata surgiu em uma parceria da Universidade Columbia, com o Sindicato dos Trabalhadores de Imprensa de Buenos Aires (cf. VICENTE, 2009, p. 29). 29 eventos, ocorrências, costumes, instituições que se conformam como um fluxo” de antes e depois (BARBOSA, 2005, p. 56). Barros (2011) ancora a ideia, ressaltando que delimitar o espaço a um determinado local, nos permite estudar com profundidade maior as relações sociais que se estabelecem. Para ele, devemos procurar caracterizar as peculiaridades que o acontecimento adquire, dentro de um recorte espaço-tempo. É o que defende Barbosa & Ribeiro (2009), quando salientam que embora a pesquisa no campo da História da Comunicação e o do Jornalismo tenha crescido nos últimos anos, a maioria dos trabalhos centra-se nas grandes capitais da região sudeste, ou seja, Rio de Janeiro e São Paulo. Apesar da relevância dos estudos, sendo importantes referências para a História da Comunicação e do Jornalismo brasileiro, além de importante fonte de consulta para inúmeros trabalhos, há poucos olhares sobre as especificidades e singularidades da produção comunicacional do interior do país, se comparados aos estudos que privilegiam as grandes metrópoles. Claro, que as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo possuem seu lugar ao Sol: primeiro, por serem reconhecidas como grandes centros econômicos e culturais e, também, por serem pioneiras no desenvolvimento da imprensa. Ainda assim, as pesquisadoras dizem que priorizar o eixo Rio-São Paulo esbarra no problema de colocar de lado outras perspectivas e dinâmicas locais complexas, que não se encaixam em predefinições hegemônicas das grandes capitais do sudeste. Quando estudamos uma pequena comunidade, procuramos entender como os acontecimentos macro se processam no âmbito daquele local. Por essa razão, o objeto de estudo, mesmo que demarcado no tempo, nos ajuda na compreensão de uma prática social específica, dita por Barros como uma “trajetória de determinados atores sociais, um núcleo de representações, uma ocorrência ou qualquer outro aspecto que o historiador considere revelador, em relação aos problemas sociais ou culturais que está disposto a examinar” (BARROS, 2011, p. 164). Assim, no próximo capítulo trataremos da questão do jornalismo localizado, recortado e específico, em um dado espaço-temporal, e as justificativas para estudar a História da Imprensa no interior, como prerrogativa para compreensão dos acontecimentos. 30 3 O JORNALISMO LOCAL E A IMPRENSA DO INTERIOR Diante das reflexões apresentadas sobre História, Jornalismo e Comunicação, faz-se necessário discutir as especificidades de nosso objeto de estudo. Tendo como premissa não cair em generalizações, entendemos que o “Diário de Notícias” está inserido em um contexto localizado, mais especificamente, em Ribeirão Preto, interior do Estado de São Paulo, onde o periódico nasceu, se desenvolveu e, finalmente, teve a sua morte anunciada nos anos de 1980. Assim, este capítulo explora a chamada Imprensa do Interior, trazendo as características, conceitos, aportes teóricos e discussões que envolvem o que é jornalismo local, os modos de produzir e de se fazer como empresa jornalística no interior. Ressaltamos que a pesquisa sobre o que é jornalismo local, jornalismo do interior, jornalismo regional e jornalismo de proximidade no Brasil ainda é fragmentária, visto a diversidade de periódicos no país, bem como as múltiplas particularidades que envolvem cada jornal do interior. Além disso, trava-se um intenso debate que envolve qual a correta definição de “Imprensa do Interior”: jornalismo local também é de interior? Jornalismo de proximidade também pode ser considerado jornalismo local? Em que medida o jornalismo do interior, local ou de proximidade é também comunitário? Podemos utilizar todas essas nomenclaturas como sinônimas? Pretendemos, portanto, traçar uma reflexão que nos dá aporte bibliográfico para responder tais perguntas. Valemo-nos, pois, de contribuições de Carlos Camponez, com o livro “Jornalismo de Proximidade”, obra portuguesa editada em 2002; a coletânea “A evolução do jornalismo em São Paulo”, de 2010, organizada por Dirceu Fernando Lopes, em 1998; o livro “Comunicação local e cidadania”, dos professores Maximiliano Martin Vicente e Danilo Rothberg; os textos da obra “Imprensa do interior: conceitos e contextos”, com organização de Francisco de Assis (2013); os artigos de Beatriz Dornelles, para completar os estudos que envolvem as práticas de jornalismo local e comunitário; e demais estudos que nos auxiliaram na composição do presente capítulo. Em um primeiro momento, trazemos o desenvolvimento da Imprensa do Interior no estado de São Paulo, com dados sobre o seu estabelecimento, evolução, bem como as características que envolvem diagramação e linguagem. Nesse momento, a intenção é fazer um apanhado das características mais evidentes dos veículos impressos do interior, que transpassam para quase todas as cidades paulistas. Posteriormente, no “Capítulo IV: Historiografia”, subitem “4.3 O desenvolvimento da imprensa em Ribeirão Preto”, traremos uma abordagem focalizada 31 nos jornais ribeirão-pretanos, desde a fundação dos primeiros folhetos, até o seu desenvolvimento no período que envolve a pesquisa, a década de 1960. Importante destacar a dissertação de Aline Ferreira Pádua (2016), “A Notícia: um retrato do jornalismo rio-pretense nos anos de 1950”, que serviu de base para os apontamentos aqui apresentados. Como forma de evitar distorções, preferimos chamar o nosso objeto de estudo, o “Diário de Notícias”, de jornal da localidade de Ribeirão Preto. Dessa forma, consideramos as particularidades do matutino, levando em conta a atuação do veículo em um espaço geográfico localizado interiorano. 3.1 O desenvolvimento da imprensa no interior do estado de São Paulo Relatar o desenvolvimento da imprensa no Brasil sempre foi um desafio. Teóricos e pesquisadores como Nelson Werneck Sodré (1983) e Juarez Bahia (1990) empenharam um amplo estudo dos veículos brasileiros, porém, devido à grandiosidade do território nacional, bem como o grande número de periódicos em circulação ao longo dos anos, não é possível contemplar todas as especificidades de cada jornal, em um determinado contexto. Porém, as pesquisas de Sodré e Bahia, e demais autores como Marialva Barbosa (2013) 5 e José Marques de Melo (2012) 6 , são de extrema importância para a compreensão da evolução do jornalismo. Os primeiros folhetos brasileiros datam o período do Império, em 1808, com a vinda da Família Real portuguesa para o Brasil, tendo como principal representante o “Correio Braziliense” (MARTINS e LUCA, 2013). De acordo com Ana Paula Goulart Ribeiro (2007), o jornalismo que se desenvolveu no país, principalmente na capital da época, o Rio de Janeiro, era marcado pela ideologia, atuação militante e panfletária. Para a autora, o objetivo desses jornais era tomar posição, como forma de mobilizar os leitores para as mais diversas causas. A imprensa, portanto, era artesanal, um instrumento político e era constituída essencialmente da opinião. Ressalta a pesquisadora, que a linguagem dos folhetos era agressiva, marcada pela paixão aos debates e com a finalidade de causar polêmica. Com o advento das transformações operárias no Brasil, o fim do escravismo e o advento da República no final do século XIX, a burguesia desenvolveu relações capitalistas, o que transformou a imprensa artesanal para a industrial (SODRÉ, 1983). As mudanças não foram 5 BARBOSA, Marialva. História da Comunicação no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2013. 6 MELO, José Marques de. História do Jornalismo: itinerário crítico, mosaico contextual. São Paulo: Paulus, 2012. 32 imediatas: segundo Sodré (1983), os jornais de grande renome e mais prestigiosos demoraram a modificar sua estrutura e linguagem. Diz o autor que o símbolo das inovações da imprensa brasileira foi o “Jornal do Brasil”, nascido em 1891, no Rio de Janeiro. O estado de São Paulo teve a primeira experiência de publicação jornalística apenas com a proclamação da Independência. No período anterior, não era permitido a leitura de periódicos estrangeiros, ou até mesmo de livros, sem a prévia autorização das Cortes Portuguesas (SODRÉ, 1983). Segundo Schwarcz (2001), a primeira tentativa de implantação de um órgão de imprensa paulista seria em 1823, com “O Paulista”. A autora pontua que o jornal tinha circulação bissemanal, com distribuição para grupos de leitores, que deveriam se revezar durante a leitura. Em 1827, surge o “O Farol Paulistano”, de José da Costa Carvalho, enquanto o Rio de Janeiro já contava com nove jornais impressos em circulação (HIME, 1998). As páginas dos jornais da época eram difíceis de manusear e extensas. Schwarcz (2001) descreve que as ilustrações eram quase inexistentes, aparecendo em conjunto com propagandas. No referente à diagramação, a autora diz que era confusa, com disposição aleatória dos textos em quatro colunas. Era comum misturar informação com publicidade, com notícias sobre incidentes particulares, como traição, brigas e discussões pessoais (SCHWARCZ, 2001). A autora destaca que apenas a primeira página era mais organizada: havia separação de atas, discursos, folhetins e editoriais. Hime (1998) disserta que o aumento do número de impressos paulistas deu-se com a implantação do curso de Direito do Largo São Francisco, em 1827, que impulsionou o surgimento de jornais como “O Observador Constitucional”, por Libero Badaró, em 1829; “O Constitucional”, em 1835; e “O Novo Farol Paulistano”, em 1831. De acordo com os dados levantados por Schwacz (2001), São Paulo tinha poucos jornais em circulação, comparado com o número de habitantes: em 1860, 12 folhas impressas eram distribuídas na cidade, para uma população com cerca de 20 mil pessoas. No interior do estado não era diferente: poucos jornais nasciam nos municípios, sendo que a maioria tinha vida efêmera (ROCHA e ZAUITH, 2011). O primeiro jornal do interior que se tem registro é “O Paulista”, lançado em 1842, por Diogo Antônio Feijó, na cidade de Sorocaba-SP (ROCHA e ZAUITH, 2011). Em seguida, dados mostram o surgimento dos jornais “O Nacional” e “O Mercantil”, ambos em Santos, no ano de 1850; “O Cometa” e “O Defensor”, em Sorocaba, em 1852; e já no contexto de luta pela República, o “Gazeta de Campinas”, em 1869, por Campos Sales e Quirino dos Santos 33 (CICILLINI e LIMA, 2005), e o semanário “A Lucta”, em Ribeirão Preto, 1884. De acordo com Rocha e Zauith (2011), a imprensa paulista irá ganhar força com o crescimento da cultura cafeeira, que tornou São Paulo o principal centro econômico do país. Assim, continuam as autoras, a imprensa do interior passou a manifestar um aspecto mais profissional, fruto de todo o contexto de emergência das cidades interioranas 7 . A imprensa do interior também é resultado da necessidade das elites locais terem um espaço de expressão (HIME, 1998), ou seja, os jornais também serviam como instrumentos de dominação da burguesia local, que manifestavam seus pontos de vista, com a finalidade de manter a hegemonia dominante. O século XX ficou marcado pelas evoluções tecnológicas das máquinas a vapor. O linotipo surge como uma forma mais rápida de impressão dos jornais, substituindo os modelos artesanais de produção, o que possibilita a circulação de jornais diários. Outro aspecto de mudança é o uso das ilustrações, que tomaram espaço nas páginas dos periódicos. A revista “Tico Tico”, por exemplo, foi a primeira no Brasil a publicar histórias em quadrinhos em série e jogos de entretenimento, em 1905 (MARTINS e LUCA, 2013). A linguagem torna-se mais objetiva, embora os moldes de jornalismo francês ainda prevalecessem em grande parte da imprensa brasileira. Para Barbosa (2007), “as bases para a construção do ideal de objetividade do jornalismo, que seriam aprofundadas com as reformas que passariam os jornais cinquenta anos mais tarde, estão lançadas na vira do século XIX para o XX” (BARBOSA, 2007, p. 40). Gradativamente, a imprensa irá se constituindo como empresa jornalística, com a origem dos cursos de jornalismo e o crescimento da publicidade. São escassos os estudos que tratam sobre as características e o desenvolvimento da imprensa do interior no começo do século XX, sendo que a maioria aponta para uma grande semelhança, entre as práticas da grande imprensa e os jornais do interior. Tal prerrogativa pode ser justificada pela necessidade de identificação – ou seja, os periódicos locais tendem a “imitar” o que era feito na grande imprensa, como fórmula de criar laços com os leitores e, também, acompanhar o que ocorria nas grandes urbes. Segundo as pesquisadoras Martins e Luca (2013), a partir da década de 1920, os meios de comunicação passam a se especializar em temáticas específicas. Para as autoras, a emergência do cinema e do rádio proporcionou o surgimento de publicações dedicadas a comentar essas novas mídias, como é o caso de “Cena Muda” (1921) e “Cinearte” (1923). Também é notável o 7 Não apenas a imprensa se desenvolveu, mas a cultura cafeeira proporcionou um amplo crescimento na economia do interior, o que emergiu as cidades com a instalação de ferrovias, advento de mão de obra imigrante e o começo da industrialização (ROCHA e ZAUITH, 2011). 34 crescimento de textos voltados para a temática feminina. França (2013) estudou as relações da imprensa do interior com o público feminino nos anos de 1930, e ressalta que os jornais passaram a ser portadores de uma diversidade de valores destinados à temática feminina – ao mesmo tempo em que reforçava certas representações sobre a mulher, também criava o diálogo entre o público conservador, com outras pessoas que estavam abertas às transformações sociais e culturais. Em 1937, o golpe de Estado Novo colocaria novas medidas de restrição à imprensa. É notável o surgimento de publicações anarquistas, que criticavam o autoritarismo de Getúlio Vargas, e outras publicações de trabalhadores em defesa de seus direitos e em resistência aos grupos dominantes (MARTINS e LUCA, 2013). Muitos periódicos foram perdidos nesse período, ou por empastelamento ou por queima de seus arquivos. É o caso do jornal de Ribeirão Preto “A Cidade”. A coleção do periódico foi perdida, com poucos exemplares disponíveis para consulta, o que resulta em uma grande lacuna para a história da imprensa do interior. O desenvolvimento dos jornais do estado de São Paulo, bem como de todo o país, teria contornos precisos no ano de 1950. A pesquisadora Ana Paula Goulart Ribeiro (2007) estudou a modernização da imprensa no país nos anos de 1950, a partir da análise dos veículos da cidade do Rio de Janeiro. Segundo ela, essa nova estruturação como empresa jornalística contou com a incorporação de novos elementos textuais, como o lead (O que? Quem? Onde? Quando? Como? Por que?), o conceito da pirâmide invertida, o advento do fotojornalismo, a separação entre opinião e informação, a busca constante pela objetividade do texto e a profissionalização dos trabalhadores da área. Continua a pesquisadora afirmando que essas reestruturações acompanhavam a diversificação da economia do país e os princípios desenvolvimentistas do governo de Juscelino Kubistchek. O novo texto jornalístico, carregado com os princípios de neutralidade, imparcialidade, deu considerável poder social ao jornalismo, que através de suas técnicas para tornar o texto mais “objetivo”, deu a ele áurea de “verdade” (RIBEIRO, 2007). Acompanhando esse desenvolvimento, a imprensa do interior daria início à sua modernização. De acordo com Pádua (2016), o ideal de modernidade permeou os jornais locais, com uma nova apresentação gráfica das notícias, inovação nas coberturas e renovação da linguagem jornalística. Araújo e Geraldo (2006) também apontam as modificações da imprensa interiorana, citando o ano de 1960 como marco. Os pesquisadores estudaram a memória do jornalismo impresso em Ribeirão Preto, com foco na profissionalização das redações nos anos de 1965 a 1982. Para os autores, os anos de 1960 e 1970 foram importantes para a consolidação do 35 conceito de reportagem no jornalismo impresso do município, principalmente, com a vinda de José Hamilton Ribeiro e Sérgio de Souza, que trouxeram na bagagem as experiências com veículos da grande imprensa e formularam o jornalismo local em modelos semelhantes aos que temos atualmente. Diante desses apontamentos sobre o surgimento da imprensa em São Paulo e os cenários que envolveram a produção de jornais locais no interior do estado, faz-se necessário discutir sobre a produção jornalística local, ou seja, a própria concepção do que é imprensa do interior e quais são os debates que envolvem essa conceituação. O próximo tópico se debruçará nas considerações de Carlos Camponez (2002) e demais estudos que envolvem o localismo, com o objetivo de compreender essas práticas jornalísticas e os modos de fazer jornalismo do interior. 3.2 As discussões sobre jornalismo local e imprensa do interior As fundamentações teóricas sobre o jornalismo local e a imprensa do interior têm sido palco de constantes discussões, tanto para definir a suas características, quanto as práticas jornalísticas que envolvem a localidade. No Brasil, os estudos que envolvem o local são fragmentários, mas são essenciais para a construção do saber sobre o tema. São notáveis os estudos de Beatriz Dornelles, Dirceu Fernando Lopes, João Carlos Correia, Cicília Peruzzo e Maximiliano Martin Vicente. Claro que há outros pesquisadores que discorrem e estudam essa vertente, colaborando para a compreensão acerca da imprensa do interior. Procuramos sintetizar e dialogar com esses autores e, dessa forma, elaborar as características que cercam o nosso objeto de estudo: o jornal da localidade de Ribeirão Preto, “Diário de Notícias”. Um dos países que mais desenvolveu pesquisas sobre a localidade foi Portugal – com destaque para a figura do pesquisador Carlos Camponez. De acordo com o pesquisador também português Joaquim Ribeiro (2010), a imprensa conhecida como regional em Portugal tem grande importância na vida das populações, já que, muitas vezes, é o único órgão de comunicação social lido na comunidade. A organização das urbes portuguesas se difere um pouco da apresentação das cidades brasileiras: há as chamadas “comunas”, pequenas comunidades independentes afastadas dos centros urbanos, que possuem relativa autonomia. Continua Ribeiro que os veículos locais de Portugal relatam acontecimentos ocorridos “à porta de casa”, dos quais nenhum outro periódico comenta, contribuindo para a unidade, identidade e desenvolvimento local. Esses jornais “têm uma participação ativa na comunidade, através da organização de debates, liderança 36 em projetos de relevância regional, organização de campanhas em defesa dos interesses do espaço territorial” e, assim, afirmam o local em face ao global (RIBEIRO, 2010, p. 5). Segundo Ribeiro (2010), a origem da imprensa localizada no interior em Portugal data a Revolução Liberal de 1820 8 , também chamada de Revolução do Porto, e a promulgação da Carta Constitucional portuguesa, com a proliferação de jornais locais e regionais ligados à Igreja Católica, pequenas empresas de comunicação ou autarquias. Ressalta o autor que a maioria desses periódicos surgiu das mãos das elites literárias da época, que contribuíram para efervescência cultural do século XIX. Um dos casos mais notáveis de jornais locais é o “Distrito de Évora”, fundado em 1866, pelo escritor Eça de Queirós, que percebia que as notícias não dependem “tanto da sua intensidade ou dimensão, mas da distância a que se encontram do nosso quotidiano imediato” (RIBEIRO, 2010, p. 5). Ribeiro (2010) diz que identificar a imprensa regional não é uma tarefa fácil. Há grande diversidade de termos que caracterizam esse tipo de jornalismo, entre eles “jornalismo local”, “jornalismo do interior”, “jornalismo regional” e “jornalismo de proximidade”. A diversidade de nomes não tornam essas concepções sinônimas em termos científicos – a discussão está justamente nesse ponto: conceber em que medida o localismo é dado pelo território e local de publicação, bem como o público a que se destina, ou pelo conteúdo veiculado (RIBEIRO, 2010, p. 10) 9 . Camponez (2002) afirma que dizer imprensa regional e do interior é dizer informação local. Mas, em que medida esses conceitos se aproximam e se afastam? O professor Carlos Camponez faz um aprofundado estudo sobre a imprensa local e regional portuguesa, tendo como fonte os impressos “Diário de Leiria”, “O Mensageiro”, “Voz do Domingo” e “Região de Leiria”. Apesar das fontes de consulta e a própria pesquisa ter sido realizadas na Europa, as considerações tecidas pelo pesquisador ultrapassam as fronteiras terrestres e marítimas, para desembarcar e serem aplicadas em diversas pesquisas que tratam 8 A Revolução Liberal do Porto de 1820 foi um movimento que resultou no retorno da Corte Portuguesa, que se encontrava no Brasil desde 1808, para Portugal e culminou com o fim do absolutismo e a promulgação da primeira Constituição do país. O movimento teve influência no Brasil, colônia Portuguesa na época, o que resultou na independência brasileira em 7 de setembro de 1822. Para mais informações sobre a Revolução Liberal do Porto, consultar: RAMOS, L. A. História do Porto. Porto: Editora Porto, 2000. 9 Para o nosso estudo, procuramos compreender as diversas posições adotadas pelos pesquisadores sobre imprensa do interior, costurando os principais conceitos que aparecem em nosso objeto de estudo. Assim como já explicitamos no começo do Capítulo, optamos por utilizar o termo “jornal da localidade de Ribeirão Preto”, para nos referirmos ao “Diário de Notícias”. Todavia, os conceitos sobre jornalismo local e imprensa do interior aqui apresentados formulam as características do objeto, sendo essenciais para a reflexão sobre o que é e como se faz jornalismo do interior. 37 sobre o jornalismo local e regional. A nosso ver, uma das reflexões mais importantes que pode ser tirada da obra do pesquisador é que toda imprensa, antes de ser nacional, passa necessariamente por características regionais. Ora, um jornal nascido nas capitais também é, antes de tudo, um elo com a comunidade geográfica na qual se destina. Entretanto, um dos aspectos que diferencia esses dois modelos de produção é sua forma de organização empresarial. Na imprensa nacional, temos uma abordagem de temas gerais e generalistas, voltadas para um público disseminado em diferentes territórios mais ou menos vastos (CAMPONEZ, 2002, p. 109) 10 . Tal consideração também é compartilhada pela pesquisadora Cicília Peruzzo (2005), quando afirma que historicamente, tanto o jornal, quanto o rádio e a televisão surgem em certo raio de abrangência local ou regional. Posteriormente, esses meios desenvolvem seu potencial de alcance, com alcance nacional ou internacional (PERUZZO, 2005, p. 69). No mesmo sentido, Dirceu Fernando Lopes (1998) complementa com a afirmação de que o morador buscará e encontrará nos diários locais as informações que interessam para o seu dia-a- dia, em uma linguagem acessível e particular. Esse mesmo leitor também busca as ocorrências em nível nacional e internacional, mas ele necessita de um órgão que reflita seus costumes e suas ideias, criando laços de identidade (BELTRÃO, 2013). É esse o papel dos veículos locais e regionais, que nas palavras de Luiz Beltrão, durante o I Seminário de Jornalistas do Interior de Pernambuco, faz desses meios “a voz jornalística de nossa cidade”. A imprensa local, portanto, aborda assuntos que afetam diretamente a vida das populações em seu ambiente de moradia e vida cotidiana (PERUZZO, 2005, p. 76). Diante de tais considerações, sobressai uma das principais características que transpassa todas as denominações que se definam por imprensa do interior, jornalismo local e regional: o localismo. Segundo Beatriz Dornelles (2013), o localismo é condicionado geograficamente pela área de circulação dos veículos do interior, o que restringe o âmbito de ação, já que os jornais estão amarrados às questões de espaço territorial, lugar de produção e cobertura dos acontecimentos. Assim, continua a pesquisadora, que os conteúdos locais são de interesse do público local, em especial, os temas ligados à economia do ambiente de atuação. Apesar de ressaltar o espaço geográfico enquanto característica principal, Dornelles (2013) também 10 Importante relembrar que uma das causas que torna a imprensa reconhecida como nacional é a importância de seu território em termos econômicos. A título de curiosidade e posicionamento, não acreditamos que os grandes jornais paulistas e cariocas atendam aos interesses da região norte do país, por exemplo. Entretanto, a relevância econômica e a áurea criada em torno da cidade como uma das que mais representa o Brasil, torna os de maior tiragem lá veiculados, símbolos de uma imprensa nacional. 38 evidencia que a produção do interior pode ser conhecida por outras características como a sede territorial de publicação, o âmbito de cobertura, a difusão dos acontecimentos, a intencionalidade do meio de comunicação, pelos contratos simbólicos e pelo tratamento do conteúdo, que demonstram a percepção do jornal sobre o leitor e a relação com as fontes institucionais. Colussi (2005) nos diz que para compreender o regional, devemos perceber que há uma ligação profunda entre e a localização territorial e a territorialização dos conteúdos. Nesse sentido, entendemos o regional e interior enquanto espaço, com mecanismos de produção que contemplam o sentimento de pertencimento. Nesse sentido, o jornal do interior é distribuído em áreas afastadas dos centros urbanos, tendo uma profunda ligação com o regional, que também está no inserido geograficamente, com tratamento de notícias locais. Ou seja, o local aparece como ideológico, com a percepção de conceitos de valores-notícia de proximidade. Dornelles (2013) aponta que a proximidade é o elemento mais importante de constituição dos periódicos regionais e interioranos, já que ela é local e ideológica, sendo transversal a todos os outros valores. Assim, é se valendo da proximidade que o jornalismo consegue perceber os contextos que determinam os outros valores-notícia e, portanto, organizar os elementos valorativos que dizem respeito à novidade, atualidade, relevância, consonância, desvio e negatividade. Dissertam Cicillini e Lima (2005), que a natureza do jornalismo do interior e a preferência dos leitores da cidade pelos diários locais são complementadas pelo fator da proximidade. Para Bueno (2013), a cobertura feita pelos meios locais preenche o vazio do que é veiculado pela grande imprensa, que devido a sua amplitude, não se ocupa com assuntos cotidianos dos municípios afastados das capitais. Carlos Camponez (2002, p. 19) diz que a imprensa local e regional se centra no compromisso com o seu território geograficamente localizado e com as pessoas que ali habitam, constituída por informações e notícias que se referem a sua área de atuação geográfica. Destaca o autor que, em essência, a questão refere-se a: (...) presença de uma forte territorialização, a territorialização dos seus públicos, a proximidade face aos agentes e instituições sociais que dominam o esse espaço, o conhecimento dos seus leitores e das temáticas correntes na opinião pública local (CAMPONEZ, 2002, p.19). Ao falar da proximidade, Camponez (2002) sustenta que ela pode abarcar outras questões além da dimensão territorial, como as vertentes temporal, psicoafetiva e social. A primeira marca a distância do leitor diante do momento em que se deram os fatos relatados, ou seja, a inserção do 39 acontecimento na História. A vertente psicoafetiva integra os valores compartilhados pelo público, como o sexo, segurança, dinheiro e destino. Finalmente, “a proximidade social diz respeito a temáticas relacionadas com a família, a profissão, a classe social, a religião, a ideologia ou política” (CAMPONEZ, 2002, p. 117). Baseando-se nos estudos do pesquisador francês Michel Mathieu, Camponez continua a descrever as características e funções da imprensa regional, com valores de proximidade, destacando quatro: 1) ela serve como união da comunidade a que se dirige; 2) é um complemento à experiência cotidiana, seja sobre acontecimentos próximos ou mais distantes; 3) responde questões banais acerca do que é novidade, reduzindo as incertezas dos leitores; 4) funciona como uma espécie de enciclopédia e sendo a referencia para o receptor ler o mundo e construir o presente. Essa organização no modelo de se fazer jornalismo transforma o local como centro das discussões, comprometido com o município, refletindo suas lideranças, disputas e tendências políticas. Para o autor: A proximidade tem a ver com as realidades sociais que nos rodeiam, os serviços de que dispomos na nossa vila ou aldeia. E essa realidade só pode ser apreendida pela imprensa local e por uma abordagem bastante segmentada do público (CAMPONEZ, 2002, p. 119). Peruzzo (2005) complementa com a reflexão, pontuando que além das dimensões geográficas, o chamado “território” também pode ser definido por bases culturais, ideológicas, idiomáticas, de circulação da informação e muito mais, embora a mídia local e regional tenha laços originados por uma determinada região, fato que dialoga com o locus territorial (PERUZZO, 2005, p. 76). De acordo com as considerações da autora, as dimensões como familiaridade no campo das identidades histórico-culturais, como as tradições, valores e religião, bem como as questões de proximidade de interesses, sejam eles de caráter ideológico, político ou social, são tão importantes quanto à base física, ou seja, o território. Portanto, “a mídia local se ancora na informação gerada dentro do território de pertença e de identidade em uma dada localidade ou região” (PERUZZO, 2005, p. 75). Segundo Fernandes (2013), há uma relação de cumplicidade entre o leitor e o veículo de comunicação, em que estaria subentendido a busca pela informação local. O autor pontua que o desenrolar dessa procura por notícias que informem o que ocorre na comunidade, não é apenas uma maneira de tomar conhecimento sobre os assuntos, mas também de fazer parte dos acontecimentos. Tem-se, desse modo, uma interação profunda entre leitor e mídia, que ultrapassa 40 a situação de estar meramente atualizado e informado, mas sim, dando a possibilidade de participação do leitor no fato relatado (FERNANDES, 2013). Importante ressaltar que os diários locais também veiculam informações de repercussão nacional, relativas ao país e acontecimentos internacionais, informando o leitor sobre as influencias dos acontecimentos de dimensão nacional, na perspectiva regional e do interior. A proximidade com o público, o espaço disponibilizado para abordar questões locais e regionais e o papel de fiscalizador da coisa pública atribuem ao jornal local e regional relevância suficiente para ser objeto de estudo científico tão importante quanto o jornalismo de massas e a imprensa das grandes capitais (COLUSSI, 2005). Lopes (1998) também complementa que os diários locais informam os interesses próximos de seus leitores, dando garantias de um processo de natural de identificação do receptor, independente da posição editorial adotada pelo periódico. Na perspectiva de Vicente (2010), por estar próximo do cidadão, o jornalismo local torna- se um meio facilitador de cidadania, uma vez que trata diretamente de temas relacionados com o público, permitindo a participação popular no desenvolvimento regional. Assim, o morador também atua como fiscalizador da coisa pública, reclamando seus direitos políticos e administrativas. O papel da imprensa local é tornar públicas as decisões, reivindicações e demais acontecimentos ocorridos na região, o que torna o jornal do interior a principal fonte de informação, sendo o melhor ponto de encontro para aqueles que desejam comprar, e aqueles que desejam vender uma ideia (VICENTE, 2010). Apesar disso, Vicente nos mostra que essas considerações não colocam o jornalismo local em um pedestal, já que muitos jornais são dominados pela elite financeira e intelectual do município, o que denota parte de estratégias de dominação e de hegemonia. Camponez também chama atenção para essa relação, já que, muitas vezes, a imprensa do interior reproduz o discurso das elites locais (muitas vezes, proprietárias dos veículos de comunicação), que assumem suas ideologias e interesses como parte dos interesses da população como um todo. João Carlos Correia (1998) também reforça essa ligação da imprensa com as elites, ressaltando a presença de marcas discursivas que fortalecem determinadas opiniões, em prol de interesses. Por isso, é necessária uma leitura crítica por parte de quem pesquisa jornalismo regional, para compreender a singularidade e originalidade do objeto de estudo, percebendo as articulações narrativas que compõem o conteúdo da mensagem. Entretanto, o que destacamos aqui é que o jornal local 41 convive de perto com os problemas da região onde circula, o que dá a imprensa do interior o papel de fiscalizador dos poderes políticos e administrativos (COLUSSI, 2005). A imprensa local, portanto, faz com que os leitores “se interessem pelo ambiente que os rodeia, por forma-los e leva-los a assumir, uma atitude participativa do ponto de vista social” (CAMPONEZ, 2002, p. 122). Nas palavras de Camponez, ela tem a função mantenedora da vida democrática, com a troca de ideias e promoção de debates. É nessa linha que Dornelles (2005) constrói o argumento de que a filosofia do jornal interiorano tem como pretensão voltar-se para a comunidade e atender seus anseios e reivindicações, formando um órgão que vai à contramão da grande mídia, tendo como função principal atender as necessidades particulares do espaço urbano em que está inserido. A autora diz que o localismo é o grande condicionante da circulação das folhas impressas, criando elos com a comunidade – fato que aproxima a mídia local com as práticas comunitárias, resultando em “manifestações de comprometimentos sociais de ambas, em maior ou menor grau e na disseminação da diversidade cultural, através da mídia local e comunitária” (DORNELLES, 2005, p.1). Todavia, é importante levar em conta o que nos diz Peruzzo (2005, p. 73), ao afirmar que embora várias práticas de empresas comerciais regionais se apresentam como comunitárias, nem toda comunicação local pode ser definida dessa maneira. Para a pesquisadora, “trata-se de uma confusão natural, visto que o comunitário não pressupõe uma compreensão uníssona” (PERUZZO, 2005, p. 73). Ou seja, para Peruzzo, há espaço para o comunitário nos meios de comunicação locais, em um sentido implícito que envolve a participação popular autônoma. “Trata-se de uma comunicação destinada a atender demandas locais mediante o exercício da cidadania, a partir dos próprios cidadãos” (PERUZZO, 2005, p. 77). Portanto, os jornais locais e regionais cumprem sua função comunitária na medida em que buscam trazer informações para os leitores sobre o espaço em que se encontram - mais uma vez, vemos a questão do valor do localismo e proximidade territorial (BUENO, 2013). Para Wilson da Costa Bueno (2013), o adjetivo “comunitário” não aparece somente na perspectiva participativa, mas também integra o quadro de quais notícias o público necessita, e como a imprensa local serve de alimento para a fome de notícias do dia-a-dia. Porém, nem todo jornalismo comunitário é local, ou vice-versa. De certa forma, os autores se complementam para dar um rosto para a imprensa local. A aproximação desse modelo de jornalismo com a História cria um campo de reflexão e 42 convergência que de forma alguma são excludentes, mas sim, se complementam quando utilizados em conjunto. Nas palavras de Peruzzo (2005), “se a mídia já tem por praxe transgredir fronteiras, de espaço ou de tempo, no âmbito regional estas se tornam ainda mais tênues” (PERUZZO, 2005, p. 73). As discussões que envolvem o jornalismo local e a imprensa do interior são múltiplas e ainda estão em efervescência. Além disso, os aportes teóricos aqui apresentados servem como âncora de reflexão para o nosso objeto de estudo, já que o “Diário de Notícias” aparece como jornal da localidade de Ribeirão Preto, apresentando elementos do jornalismo local, do interior, regional, com elementos de identificação da comunidade em que pertence. Mais do que a área geográfica, o DN também se aproxima ideologicamente do público católico, por ser dirigido pela Arquidiocese do município, o que corresponde aos apontamentos de proximidade além das fronteiras territoriais, mas também ideológicas, sociais, políticas e culturais, como ditos por Camponez (2002), Peruzzo (2005) e Dornelles (2013). 3.3 Reflexões sobre o modo de fazer jornalismo do interior Cicília Peruzzo (2005), ao estudar os aspectos conceituais e tendências da mídia regional e local, aponta para o desenvolvimento de estudos sobre imprensa do interior no Brasil, nos anos de 1990. Em seu artigo, ressalta a pesquisadora: Pressupõe-se que o jornalismo local seja aquele que retrate a realidade regional ou local, trabalhando, portanto, a informação de proximidade. O meio de comunicação local tem a possibilidade de mostrar melhor do que qualquer outro a vida em determinadas regiões, municípios, cidades, vilas, bairros, zonas rurais, etc. Por vezes, se cerca de distorções, como as que têm origem em vínculos com interesses político-partidários e econômicos, mas, mesmo acarretando vieses de informação, acaba contribuindo na divulgação de temas locais. Está num contexto vantajoso para o leitor ou telespectador, ou seja, a proximidade da informação. As pessoas acompanham os acontecimentos de forma mais direta, pela vivência ou presença pessoal, o que possibilita o confronto entre os fatos e sua versão midiática de forma mais natural (PERUZZO, 2005, p. 78). A autora sintetiza as considerações e os aportes teóricos que viemos discutindo até o momento, em uma passagem que evidencia a proximidade, enquanto valor-notícia principal da imprensa do interior, e o localismo, enquanto concepção que transcende as fronteiras geográficas e também recai sobre a questão ideológica. A busca pelo perfil da imprensa do interior e o jornalismo local, sobretudo, no interior do Estado de São Paulo, tem como pretensão diagnosticar tendências e conflitos midiáticos dessa região, em contraposição às demandas globais por informação (CICILLINI e LIMA, 2005). 43 Lopes (1998) afirma que os grandes impressos não eliminam os pequenos, pois os primeiros não têm condições de atender algumas funções, como as reivindicações das comunidades locais, além da expressão de valores que pertencem a uma determinada região. É o que também aponta Peruzzo (2005), ao dizer que a globalização permitiu a revalorização da imprensa do interior e do jornalismo local, em uma perspectiva que atende diferentes contextos e múltiplas formas, porém com exigência no enquadramento nos padrões nacionais da grande mídia. Ou seja, temos uma empresa jornalística do interior interada com as questões locais que, de certa maneira, tem inspiração de produção com os veículos nacionais, com padrões de identificação e técnicas jornalísticas semelhantes com a grande imprensa. Para Joaquim Ribeiro (2010): Como distinguir então a imprensa nacional da regional ou local? Creio que a grande diferença passa pelo interesse que desperta nos leitores. Um jornal nacional é aquele cujos conteúdos despertam o interesse dos leitores de qualquer ponto do país. Contém informações que interessam a qualquer pessoa, na mesma medida, em todo o território nacional (RIBEIRO, 2010, p. 24). A produção de periódicos locais atende, portanto, a demanda regionalizada, o valor- notícia de proximidade e o localismo. Outro ponto de destaque é a condição financeira da imprensa do interior, que define práticas jornalísticas, em um equilíbrio entre procedimentos editoriais, comerciais e promoção de produtos (CICILLINI e LIMA, 2005), muito mais do que apenas a questão ideológica do local. Para Cicillini e Lima (2005), um dos grandes méritos do jornalismo do interior é sobreviver enquanto empresa, já que a imprensa é condicionada por aspectos políticos e técnicos, não apenas econômico. De acordo com Wilson da Costa Bueno (2013), o jornal enquanto empresa jornalística deve organizar sua maneira de produção, levando em conta o produto final da empresa, o público ao qual se destina e os elementos que pertencem à comunidade que mantém relações com o jornal. Para Dornelles (2013), há três vertentes principais para a imprensa do interior: as empresas jornalísticas, os jornais engajados socialmente e, por fim, as folhas que servem aos interesses políticos. No primeiro caso, destaca a autora que as empresas jornalísticas se definem pelo lucro, com espaço para a publicidade, com cobertura dos acontecimentos locais que, em geral, não têm espaço na grande imprensa. Já os jornais engajados socialmente são definidos por Dornelles como veículos que apresentam características de empresas jornalísticas, mas com interesses na cidadania e participação popular. Finalmente, as folhas que servem aos interesses 44 políticos tem foco na própria política, com forte relação com o poder econômico da região, o que influencia diretamente nos conteúdos veiculados (DORNELLES, 2013). Apesar disso, Colussi (2005) diz que o jornal local ainda carrega características estereotipadas, que foram construídas no passado. De acordo com a autora, a imprensa do interior é ainda, para alguns, artesanal, mais opinativa do que informativa, que discute problemas ao mesmo tempo em que interfere na política, denuncia e faz fofoca, além de inúmeras precariedades técnicas. Também há a questão do compromisso com o município, o que reflete em assuntos de disputas, lideranças e paixões políticas (COLUSSI, 2005). O apontamento de Colussi (2005) dialoga com a definição de Bueno (2013), que reconhece o impresso local enquanto jornal “quase artesanal”, seguido do jornal local estruturado e o jornal regional. Para o pesquisador, há um viés pluralista, com inúmeros formatos, estruturas, concepções ideológicas, editoriais e objetivos. Em uma definição de acordo com a área de veiculação dos impressos, o jornal “quase artesanal” e o “local estruturado” seriam publicações com limite de circulação geográfica, com foco no município sede; já o “jornal regional” abarcaria uma cobertura maior, além da sede, sendo veiculado nas cidades adjacentes (BUENO, 2013). Bueno (2013) também ressalta que a imprensa “quase artesanal” é caracterizada por não possuir estrutura empresarial definida, com uma organização que se assemelha aos primeiros periódicos locais, com circulação semanal ou trissemanal, porque falta estrutura para a veiculação diária. Para ele, nesse tipo de publicação não há separação entre a redação e o setor comercial, contando com um grupo reduzido de redatores, com acúmulo de funções na parte administrativa e jornalística, com poucos casos de profissionais especializados e com formação superior. É na imprensa “quase artesanal”, diz Bueno, que temos a figura do diretor-proprietário que se liga ao jornalismo por prestígio e status social, sendo responsável por todas as etapas de produção do veículo. Continua o pesquisador que a linguagem é rebuscada, com textos meramente opinativos e laudatórios, em uma aproximação com os tons literários, e não há espaço para conteúdos nacionais. Não há muita publicidade e, em muitos casos, são financiadas pelo governo para sobreviver, com propaganda oficial e partidária (BUENO, 2013). Nos estudos sobre imprensa local em Portugal, Joaquim Ribeiro (2010) aponta duas definições que descrevem a publicação regional. A primeira, como aquela que não tem veiculação diária, o que acreditamos ser uma forma ultrapassada, já que existem inúmeros periódicos com distribuição de segunda a domingo; a segunda é a que não é vendida na 45 generalidade do território nacional (RIBEIRO, 2010, p. 16). Entretanto, o autor opta pelo que dita a Lei de Imprensa de 1999 (Lei n.º 2/99, de 13 de Janeiro, alterada pela Lei n.º 18/2003, de 11 de Junho), em Portugal, que define as publicações locais pelo conteúdo e distribuição que se destinam, com predominância em comunidades regionais. Embora o caráter “quase artesanal” dito por Bueno (2013), as pesquisadoras Cicillini e Lima (2005) apontam que os jornais do interior já aderiram ao uso de tecnologias, com a modernização de projetos gráficos, softwares e qualidade de impressão compatível com as grandes redações. Para as autoras, os jornais do interior do Estado de São Paulo não podem mais ser chamados de artesanais, no que diz respeito aos recursos técnicos, já que mais de 80% dos veículos já são impressos em off-set e cerca de 90% possuem redação informatizada 11 . Temos, portanto, a segunda definição de Bueno (2013), do jornal local estruturado, atua enquanto produto de consumo. Nesse sentido, é observado o tipo de linguagem e as formas de cobertura – de acordo com o pesquisador, a imprensa do interior possui maior cobertura jornalística, com foco nos assuntos locais, com tiragem ampla e periodicidade diária. Por ter seguido os princípios modernizantes, há profissionais especializados, com separação de conteúdos informativos e opinativos, principalmente, com a