ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES COMUNICAÇÃO E DESIGN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM MÍDIA E TECNOLOGIA LUZIA DE FATIMA TURATO TIK...TOK... SEU DESPERTAR COMO RECURSO PEDAGÓGICO NA DESNATURALIZAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO Bauru 2022 LUZIA DE FATIMA TURATO TIK...TOK... SEU DESPERTAR COMO RECURSO PEDAGÓGICO NA DESNATURALIZAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO Trabalho de Conclusão do Curso de Mestrado Profissional do Programa de Pós-graduação em Mídia e Tecnologia, da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, para obtenção do título de Mestre em Mídia e Tecnologia, sob a orientação da Profa. Dra. Célia Maria Retz Godoy dos Santos. Área de Concentração: Ambientes Midiáticos e Tecnológicos. Linha de Pesquisa: Gestão Midiática e Tecnológica Bauru 2022 FICHA CATALOGRÁFICA T929t Turato, Luzia de Fátima TIK...TOK... Seu despertar como recurso pedagógico na desnaturalização de estereótipos de gênero / Luzia de Fátima Turato. -- Bauru, 2022 127 p.: tabs. Dissertação (mestrado profissional) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru Orientadora: Celia Maria Retz Godoy dos Santos 1. Mídias digitais como recurso pedagógico. 2. Linguagem inclusiva de gênero. 3. TikTok como recurso pedagógico. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru. Dados fornecidos pelo autor(a). ATA DA DEFESA PÚBLICA DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Câmpus de Bauru ATA DA DEFESA PÚBLICA DA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DE LUZIA DE FATIMA TURATO, DISCENTE DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MÍDIA E TECNOLOGIA, DA FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES, COMUNICAÇÃO E DESIGN - CÂMPUS DE BAURU. Aos 24 dias do mês de agosto do ano de 2022, às 14:00 horas, no(a) sala de reuniões da Seção Técnica de Pós-graduação da FAAC/Unesp/Bauru, realizou-se a defesa de DISSERTAÇÃO DE MESTRADO de LUZIA DE FATIMA TURATO, intitulada Tik... Tok...Seu despertar como recurso pedagógico na desnaturalização de estereótipos de gênero. A Comissão Examinadora foi constituida pelos seguintes membros: Professora Doutora CELIA MARIA RETZ GODOY DOS SANTOS (Orientador(a) - Participação Virtual) do(a) Departamento de Comunicacao Social da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicacao e Design / Universidade Estadual Paulista, Professor Doutor SÉRGIO LUIS IGNÁCIO DE OLIVEIRA (Participação Virtual) do(a) Faculdade Franklin Covey, Professora Doutora RAQUEL CABRAL (Participação Virtual) do(a) Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design / Universidade Estadual Paulista. Após a exposição pela mestranda e arguição pelos membros da Comissão Examinadora que participaram do ato, de forma presencial e/ou virtual, a discente recebeu o conceito final:_A_P_RO_V_A_DA_ . Nada mais havendo, foi lavrada a presente ata, que após lida e aprovada, foi assinada pelo(a) Presidente(a) da Comissão Examinadora. Professora Doutora CELIA MARIA RETZ GODOY DOS SANTOS Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design - Câmpus de Bauru - Av. Engº Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, 17033360 http://www.faac.unesp.br/posgraduacao/tvdigital/CNPJ: 48.031.918/0029-25. http://www.faac.unesp.br/posgraduacao/tvdigital/CNPJ DEDICATÓRIA As minhas queridas filhas Talita e Laís, amores da “mamis”, que me inspiram e retroalimentam as minhas lutas diárias para a continuidade de meus estudos, para a busca de minhas realizações, conquistas e superações pessoais. Para elas deixo aqui registrada a minha grande mensagem: busquem sempre o caminho do bem, dando graças a tudo, sempre!! A meu esposo Roque, companheiro, parceiro de todas as horas e motivador de minha autoestima por me lembrar cotidianamente que sou amada. Pela sua inspiração e incentivo diário, mesmo que de forma silenciosa e introspectiva, com atitudes carinhosas de tolerância e respeito servindo-me cafezinhos e porçõezinhas de frutas entre as refeições em que me perco no tempo durante os estudos. E principalmente, pela sua contribuição para o meu crescimento pessoal nas dimensões: humanas e espirituais. À memória de minha mãe que mesmo analfabeta ensinou-me as mais importantes lições da vida. A meu pai, que aos 91 anos de idade ainda continua me incentivando a partir de sua contínua pergunta: Está estudando e dando aulas, “fia”? A quem respondo: Sim, estudando e aprendendo a ensinar. AGRADECIMENTOS A Deus por todas as bênçãos recebidas. A todos os professores e professoras das disciplinas desse curso. Em especial à professora Drª. Celia Retz, a quem expresso minha grande admiração e gratidão por sua sumidade docente, clareza e autonomia no trabalho de orientação para a realização dessa pesquisa, valorizando, reconhecendo minhas competências e habilidades e incentivando-me a buscar novos desafios, novos conhecimentos e uma nova formação. À professora Drª. Raquel Cabral por sua serenidade e falas consistentes e muito bem fundamentadas que me levaram à escolha do tema desse estudo, como forma de contribuir para a formação de uma cultura de comunicação para a paz. À diretora da escola, prof.ª. Silmara Viscovini que prontamente me atendeu autorizando a realização do estudo na escola e colocando-se à disposição para o que fosse necessário. À professora Gabriela Oliveira, minha ex-aluna exemplar e dedicada aos estudos e a quem passei meu “jaleco” com muito orgulho. Hoje, uma excelente profissional que irá contribuir para a realização desse estudo desenvolvendo-o junto aos alunos e alunas. À professora Eliana, coordenadora da escola pela atenção e profissionalismo com que participou da entrevista agregando conhecimentos para a realização deste trabalho. À professora Brunna Maria, também minha ex-aluna, dedicada e competente, que orgulhosamente ainda guarda consigo o caderno das nossas aulas de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental, com letras cuidadosamente desenhadas e em perfeito estado. Hoje, profissional da área e carinhosamente contribui para a realização desse trabalho participando da entrevista. Ao professor Celso, profissional competente e conectado com as mudanças tecnológicas contribuiu significativamente com esse trabalho compartilhando seus conhecimentos via entrevista. E a todos os alunos e alunas que participaram do estudo de caso. Se o meu compromisso é realmente com o homem concreto, com a causa de sua humanização, de sua libertação, não posso por isso mesmo prescindir da ciência, nem da tecnologia, com as quais me vou instrumentando para melhor lutar por esta causa. (FREIRE, 2007, p. 22). TURATO, LUZIA, DE FÁTIMA. TIK...TOK... SEU DESPERTAR COMO RECURSO PEDAGÓGICO NA DESNATURALIZAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO. Trabalho de Conclusão (Mestrado Profissional Mídia e Tecnologia) - FAAC - UNESP, sob a orientação da Profa. Dra. Célia Maria Retz Godoy dos Santos, Bauru, 2022. RESUMO O objetivo deste estudo foi verificar os fatores de ordem comunicacional, linguística e textual-discursiva, condicionados ao aplicativo TikTok que podem caracterizá-lo como recurso pedagógico motivacional e interferente na aprendizagem, tendo como exemplificação o uso da linguagem inclusiva de gênero para a desnaturalização de estereótipos presentes nas práticas discursivas orais e escritas, num estudo de caso, junto aos alunos das 1ªs séries do Ensino Médio da EE Dr. Francisco de Paula Abreu Sodré, em Ubirajara/SP. A metodologia empregada consistiu numa abordagem quanti- qualitativa, sendo a primeira etapa uma revisão bibliográfica narrativa para levantamento dos aportes teóricos e descrição dos conceitos, especialmente, no que se refere a plataforma digital TikTok, sua implantação e uso; bem como sua expressividade linguística discursiva que possa caracterizá-lo como recurso pedagógico. Numa segunda etapa desenvolveu-se uma pesquisa exploratória, via entrevista semiestruturada em profundidade com amostragem de júris junto a docentes desta escola e um estudo quase-experimental – com grupo de controle – usando a técnica de questionário direto no universo escolhido. Este método levanta a maneira como as situações e acontecimentos são vividos e experienciados pelos indivíduos, permitindo acesso aos componentes descritivos e comportamentais, para se observar o quanto o gênero TikTok motiva e interfere na disposição para uma determinada temática no processo de ensino e discussão desta, ou seja, como um recurso pedagógico. Entende-se que os aspectos motivacionais de aprendizagem se centram no uso de recursos significativos às práticas sociais cotidianas. Como resultado, observou os aspectos motivacionais e interferentes do TikTok que podem facilitar a comunicação, neste caso específico, sobre o uso da linguagem inclusiva de gênero na desnaturalização de estereótipos presentes nas práticas discursivas orais e escritas que contribuem para a violência de gênero. Palavras-chave; TikTok; recurso pedagógico; linguagem discursiva; estereótipos de gênero. TURATO, LUZIA, DE FÁTIMA. TIK...TOK... SEU DESPERTAR COMO RECURSO PEDAGÓGICO NA DESNATURALIZAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO. Trabalho de Conclusão (Mestrado Profissional Mídia e Tecnologia) - FAAC - UNESP, sob a orientação da Profa. Dra. Célia Maria Retz Godoy dos Santos, Bauru, 2022. ABSTRACT The aim of this study was to verify the factors of a communicational, linguistic and textual-discursive order, conditioned to the TikTok application that can characterize it as a motivational pedagogical resource and interfering in learning, having as an example the use of gender-inclusive language for the denaturalization of stereotypes present in oral and written discursive practices, in a case study, together with the students of the 1st grades of the High School of EE Dr. Francisco de Paula Abreu Sodré, in Ubirajara/SP. The methodology used consisted of a quantitative-qualitative approach, the first stage being a narrative bibliographic review to survey the theoretical contributions and description of the concepts, especially with regard to the digital platform TikTok, its implementation and use; as well as its discursive linguistic expressiveness that can characterize it as a pedagogical resource. In a second stage, exploratory research was developed, through semi-structured in-depth interviews with jury sampling with teachers of this school and a near-experimental study – with control group – using the technique of direct questionnaire in the chosen universe. This method raises the way situations and events are experienced and experienced by individuals, allowing access to descriptive and behavioral components, to observe how much the TikTok genre motivates and interferes in the disposition for a given theme in the teaching and discussion process, that is, as a pedagogical resource. It is understood that the motivational aspects of learning focus on the use of significant resources to everyday social practices. As a result, he observed the motivational and interfering aspects of TikTok that can facilitate communication, in this specific case, about the use of gender-inclusive language in the denaturalization of stereotypes present in oral and written discursive practices that contribute to gender violence. Keywords; TikTok; pedagogical resource; discursive language; gender stereotypes. ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES FIGURAS Figura 1 - Coronavírus versus corona Lisa 20 Figura 2 - Os apps mais Tops de 2019, em termos de acessos 41 Figura 3 - Tik Tok, whatsApp e Facebook entre apps mais baixados 42 Figura 4 - Ferramentas do TikTok 42 Figura 5 - Memes na educação 44 Figura 6- Produção de memes no TikTok 47 Figura 7 - Atividades dos brasileiros no TikTok na quarentena 48 Figura 8- USP mostra bastidores de pesquisa, via TikTok 49 Figura 9 - Produção de conteúdo estudantil no TikTok 50 GRÁFICOS Gráfico 1 - Gênero dos alunos nos grupos do teste ............................................................ 84 Gráfico 2 – Raça declarada nos grupos estudados ............................................................ 84 Gráfico 3 – Ocupação declarada pelos integrantes dos grupos ......................................... 85 Gráfico 4 – Índice de pessoas que tem religião .................................................................. 85 Gráfico 5 – Area de moradia dos respondentes ................................................................. 86 Gráfico 6 –Mídia digital preferida. ................................................................................... 87 Gráfico 7 – Frequência de uso do app fora da sala de aula ............................................... 89 Gráfico 8 – Frequência de uso de apps em sala de aula com professores .......................... 90 Gráfico 9 – Equipamento mais utilizado para os apps ...................................................... 90 Gráfico 10 – App mais atrativo para uso em sala de aula ................................................. 91 Gráfico 11 – Linguagem dos meios digitais em relação as construções culturais ............... 94 Gráfico 12 –Contribuição da linguagem para as práticas discursivas de gênero ............... 94 Gráfico 13 – Forma que a linguagem estereotipada de gênero aparece nas redes ............. 96 Gráfico 14 – O que mais chama atenção na linguagem do TikTok ................................... 97 Gráfico 15 - Temas normalmente abordados no TikTok .................................................. 98 Gráfico 16 – O uso do TikTok como recurso pedagógico em sala de aula. ........................ 99 QUADROS Quadro 1 – Comparação antes e após o teste referente aos apps mais utilizados 88 Quadro 2 – Comparação do TikTok com recursos tradicionais da sala de aula ................ 93 Quadro 3 - Percepção de estereótipos de gênero na linguagem midiática ......................... 95 Quadro 4 - Exemplos de linguagem estereotipada nas redes sociais .................................. 96 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 11 2 ANÁLISE SITUACIONAL E APORTES TEÓRICOS: COMUNICAÇÃO E CULTURA DE CONVERGÊNCIA 14 2.1 Da comunicação de massa à cultura de convergência 14 2.2 Interação e produção de sentido nas práticas discursivas 16 2.3 A linearidade nos gêneros digitais e a linguagem como recurso para adesão 23 2.4 Recursos pedagógicos para desconstrução cultural de práticas docentes 28 2.5 O uso das redes sociais na ação pedagógica com a temática: a linguagem inclusiva de gênero 31 3 O TIKTOK COMO ELO DA COMUNICAÇÃO: ASPECTOS TÉCNICOS E LINGUÍSTICOS 37 3.1 A plataforma TikTok e as redes sociais digitais 38 3.2 As linguagens e a produção de sentido do TikTok 43 3.3 O TikTok e o uso da linguagem inclusiva de gênero: aspectos interferentes e motivacionais. 51 4 O ESTUDO DE CASO 55 4.1 O objeto do estudo: a escola estadual Dr. Francisco de Paula Abreu 56 4.2 A pesquisa de campo 59 4.2.1 O estudo exploratório 59 4.2.1.1 Os procedimentos do estudo exploratório 61 4.2.1.2. Os resultados das entrevistas com especialistas 62 4.2.2 Oestdudo quase- experimental: processo e resultados 81 4.2.2.1 A construção do instrumento e aplicação 81 4.2.2.2 O perfil dos grupos estudados 83 4.2.2.3 Os modos de uso dos apps preferidos pelos participantes. 87 5 CONSIDERAÇÕES 101 REFERÊNCIAS 106 GLOSÁRIO 114 APÊNDICES 116 ANEXOS 120 11 1 INTRODUÇÃO Frente aos grandes avanços comunicacionais, graças as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICS), vale lembrar de um tema de relevância social que ainda enfrenta grandes desafios e problemas a serem vencidos e que demanda um olhar mais atento pelas políticas públicas: a desigualdade de gênero culturalmente naturalizada em nossas práticas discursivas orais e/ou escritas, formais e informais. Por mais que estejamos engajadas nas questões feministas, observa-se ainda a necessidade da superação de grandes desafios que impedem a plena conquista de nossos direitos femininos, a começar uso da linguagem utilizada, seja nas práticas discursivas cotidianas ou institucionalizadas e/ou veiculadas nas principais mídias sociais contemporâneas. Linguagens essas, muitas vezes derrogativas, eufemistas, irônicas e excludentes sobre as mulheres que sempre foram renegadas ao papel de submissa ao gênero masculino. Nesta perspectiva, reflexões como as deste trabalho faz-se pertinentes para desconstrução do uso de estereótipos e preconceitos linguísticos de gênero principalmente os presentes nas redes sociais mais usadas na contemporaneidade. A escolha deste tema para a realização da pesquisa desse deu, porque além de ser um direito humano básico, a igualdade entre os gêneros é considerada um dos pilares para a construção de uma sociedade livre, o que é crucial para acelerar o desenvolvimento sustentável. Empoderar mulheres e meninas tem um efeito multiplicador e colabora com o crescimento econômico e o progresso. No entanto poderia ser sobre qualquer outra temática, pois a intenção é verificar a interferência do TikTok como recurso tecnológico para gerenciar melhor o plano pedagógico em salas de aula, ampliando a comunicação entre estudantes e professores, além de estimular o interesse e a aprendizagem. Assim, na busca dos fatores de ordem comunicacional, linguística e textual- discursiva, condicionados ao aplicativo TikTok que podem caracterizá-lo como recurso pedagógico motivacional e interferente na aprendizagem, o presente trabalho teve como conteúdo da experimentação a temática sobre o uso da linguagem inclusiva de gênero para a desnaturalização de estereótipos presentes nas práticas discursivas orais e escritas, num estudo de caso junto aos alunos das 1ªs séries do Ensino Médio na EE. Dr. Francisco de Paula Abreu Sodré, em Ubirajara, SP. A metodologia empregada consistiu-se em uma abordagem quanti-qualitativa. 12 Inicialmente a revisão bibliográfica narrativa foi relatada na segunda seção deste trabalho, na qual se contextualizou os aportes teóricos e a descrição dos conceitos, especialmente, no que se refere a plataforma digital TikTok, sua implantação e uso; bem como sua expressividade linguística discursiva que possa caracterizá-lo como recurso pedagógico. Para os conceitos, definições, entendimentos e visões dos autores sobre a linguagem das mídias digitais de modo geral, buscou-se aportes em autores como: Santaella, (2003, 2005, 2014)), Martino (2014), Fiorin, (2008), Kerckhove (2007, 2009); Kenski (2012, 2013); Levy (1999); Castells (1999, 2002); Bakhtin (1990-2011b) e Marcuschi (2004, 2010) dentre outros que ampararam a investigação e deram sustentação para as discussões e análises. Numa secção específica, o capítulo destaca o uso das redes sociais na ação pedagógica com a temática: a linguagem inclusiva de gênero embasados nos fundamentos teóricos de autores como Recuero (2009); Ryle (1949); Santos (2015); Serafim e Sousa (2011); Leal e Oliveira (2018), entre outros. A seção três traz especificamente os aspectos técnicos, sociais e inclusivos do TikTok característicos de sua multimodalidade linguística motivacional e produtoras de sentidos, sejam eles discursivos, significativos e inclusivos ou interferentes na aprendizagem pedagógica enquanto rede social. Já a quarta seção descreve inicialmente a Escola Estadual Dr. Francisco de Paula Abreu Sodré, objeto da pesquisa de campo. Também traz algumas características sobre o procedimento do estudo – denominado de quase-experimental - que consistiu em uma intervenção num grupo teste (usando o Tik Tok) e um grupo de controle a fim de se avaliar a interferência deste recurso pedagógico. Inicialmente realizou-se um levantamento exploratório via entrevista semiestruturada em profundidade com amostragem de júris (ou especialistas na área) junto aos docentes e, posteriormente a experimentação. Vemos que um (GC) grupo de controle científico é aquele que permite o estudo experimental de uma variável por vez. É a parte vital do método científico. Seu desenho envolve uma experiência controlada com dois grupos ou duas amostras, a serem comparadas para testar a hipótese que se quer comprovar. O GC serve como base de comparação para o grupo que recebe o tratamento em teste, sem sofrer nenhuma intervenção: serve somente como elemento de comparação com o (GT) grupo-teste, no qual é introduzida a intervenção para verificação da variável a ser testada, mantendo-se as demais condições (pelo menos em https://pt.wikipedia.org/wiki/Amostra_(estat%C3%ADstica) 13 tese) idênticas as do GC, a serem contrastadas para chegar a uma conclusão sobre um fator, condição ou tratamento que se quer medir. De tal modo, é possível explicar as diferenças eventuais constatadas ao final do estudo, convalidando ou não a hipótese testada (SELLTIZ e WRIGHTSMAN (1975). Vale esclarecer ainda, que os delineamentos de pesquisa quase-experimental são aqueles que não têm distribuição aleatória dos sujeitos nos grupos-teste nem nos grupos-controle. Eles fornecem um meio de estudar alguns tratamentos sociais que naturalmente ocorrem e são processos intermediários entre um experimento propriamente dito (no qual se consegue uma alta validade interna, por ter distribuição aleatória dos sujeitos e dos grupos-controle) e os pré-experimentos que não possuem validade interna. Assim como não houve a possibilidade de se controlar todas essas variáveis – especialmente em relação a composição dos grupos teste e controle, pois foram diferentes turmas de alunos, podemos nomear este estudo de quase-experimental (SELLTIZ, WRIGHTSMAN e COOK, 1975) especialmente, porque na área das ciências sociais aplicadas o delineamento experimental é difícil aplicação. De tal modo, construiu-se instrumentos a serem utilizados no teste quase experimental junto aos alunos das 1ªs séries do Ensino Médio a fim de controlar as variáveis possíveis, de forma que apenas uma delas – a interferência do Tik Tok - estivesse aberta à investigação. Em outras palavras, significa que, idealmente, ao longo de todo processo as condições foram organizadas para serem similares nos dois grupos - exceto em relação a variável de teste, que foi a inserção da aula endo o Tik Tok com recurso pedagógico. Como resultados constatou-se no estudo quase-experimental, que o Tik Tok é um recurso pedagógico interferente no processo de ensino-aprendizado, na medida em que auxilia a apreensão de conteúdos, memorizando e atraindo atenção nos processos de ensino intencionalmente organizados por educadores da escola ou fora dela – hipótese demonstrada mais enfaticamente nas considerações finais deste relato. 14 2 ANÁLISE SITUACIONAL E APORTES TEÓRICOS: COMUNICAÇÃO E CULTURA DE CONVERGÊNCIA Neste capítulo apresenta-se a revisão literária de conceitos, definições, entendimentos e visões de autores diversos sobre a comunicação de massa, a cultura de convergência; a interação e produção de sentido nas práticas discursivas sociais; e a linguagem das mídias digitais de um modo geral, que ampararam a investigação e deram sustentação as discussões e análises aqui relatadas. Traz ainda aportes teóricos sobre as características da linguagem dos gêneros digitais, bem como dos recursos pedagógicos que podem ser utilizados para desconstrução cultural de práticas docentes tradicionalmente naturalizadas em sala de aulas. Por último, pontua alguns aportes específicos sobre o uso das redes sociais na ação pedagógica sobre a linguagem inclusiva de gênero a partir de análises situacionais e do estudo de caso descrito pesquisa. 2.1 Da comunicação de massa à cultura de convergência Da cultura de comunicação de massa à “cultura das mídias” (SANTAELLA, 2003) destaca que as transformações tecnológicas, os processos de produção e de consumo comunicacionais sinalizam um período de transição extraordinária que passa de uma realidade social que prioriza a recepção para outra de criação e interação, na qual os novos hábitos possibilitam a construção de formas inéditas de relacionamentos interpessoais e organizacionais- graças ao tipo de signos, de mensagens e de comunicação capazes de interferir muito mais na sensibilidade e nas reflexões dos seres humanos. Tais transformações propiciam o surgimento de ambientes socioculturais, ou seja, inter-relações de circunstâncias que acompanham um fato ou uma situação que vão determinar o ambiente cultural de uma população. Em outras palavras, o conjunto estrutural (valores, crenças, lugar, tempo, emissor e receptor) em que se produz a mensagem é o responsável em grande parte pela cultura vigente. Haja vista o isolamento social provocado pela pandemia COVID.19 que ampliou exponencialmente o uso dos recursos digitais de comunicação protagonizando as redes sociais como principais meios de conexão e interação entre jovens e adolescentes, que abruptamente se viram confinados em seus lares afastados de seus grupos de amigos e colegas de escola. Não obstante o prolongamento da pandemia, já se observava a consolidação e ampliação de 15 uma cultura comunicativa suportada pelas redes sociais e gêneros digitais com suas múltiplas linguagens nas práticas discursivas cotidianas e nas educacionais. Com a incorporação das tecnologias digitais e da conexão em rede emerge-se a necessidade de sua inserção nas instituições educacionais, sendo elas uma das ambiências fundamentais a serem atingidas pela Cultura Digital, especialmente no contexto atual. Frente à necessidade de se manterem conectados com seus (as) estudantes, desafiados a encontrarem outras formas e possibilidades de manutenção e oferta de ensino-aprendizagem todos(as), os docentes das instituições de ensino, inclusive no âmbito da Educação Básica, em sua maioria, buscaram adaptar-se em caráter emergencial de forma remota, utilizando-se de plataformas e recursos digitais para o preparo e envio de aulas com atividades online como estratégia interativa num processo de convergência, mas que demandaram desconstruções culturais das práticas tradicionais, para as mais inovadoras e contextuais, conforme diz Martino: A convergência, portanto, não existe exclusivamente por conta das tecnologias - embora tenham importância para isso. A tecnologia cria as possibilidades, mas depende de um outro fator para ganhar um tom mais próximo da produção humana – sua dimensão cultural (MARTINO, 2014, p.35). Sobre cultura de convergência, Martino (2014, p.36) destaca que ela parte do princípio “de que as diferentes mídias tendem a ser agregadas e ressignificadas na experiência dos indivíduos, gerando novas articulações na maneira como esses fenômenos são vivenciados”, possibilitando a cada indivíduo ser potencialmente um produtor de mensagens. “Em uma cultura da convergência, não só as divisões entre formas de produção e recepção da cultura mudam, mas a própria maneira de contar histórias encontra outros caminhos” (MARTINO, 2014, p.38). Neste sentido: Os processos de convergência são dinâmicos, e acontecem no momento em que o indivíduo recria, em sua vida cotidiana, as mensagens e as experiencias em conjunto com as mensagens que chegam da mídia - e que ele, por sua vez, pode “re-criar”. A cultura da convergência representa uma alteração, aliás, na maneira como o indivíduo é visto no processo de comunicação (MARTINO, 2014, p.36). Convergir não significa identificar-se, “Significa, isto sim, tomar rumos que, não obstante as diferenças, dirijam-se para a ocupação de territórios comuns, nos quais as diferenças se roçam sem perder seus contornos próprios.” (SANTAELLA, 2005, p.7). 16 Para Santaella (2005), o universo fluido, sempre mutável e as conexões favorecem um mundo interativo propiciado pelas ferramentas tecnológicas da atualidade, uma vez que “na hipermídia, o texto, o desenho, os gráficos, os diagramas, os mapas, as fotos, os vídeos, as imagens geradas computacionalmente, e o som e os ruídos mesclam-se em hiper-sintaxes híbridas e sem fronteiras definidas” (SANTAELLA, 2005, P.63). Uma vez conectados à internet são transmitidos em sites abertos para a interação do internauta, entre ambientes físicos, remoto e virtuais ou que disparam, mediante sensores, um constante processo dialógico interativo, próprio da cultura digital. E ainda conforme autora (2003) essa cultura propicia a escolha e consumo individualizados na busca de informação e de entretenimentos, em oposição ao consumo de massa, fazendo com que os sujeitos se percebam como indivíduos ativos, críticos e produtores autorais em ambientes digitais, suportados pela linguagem, que para Kerckhove (2007) se constitui de uma ação psicotecnológica: A linguagem está relacionada com nossa mente, com nossos pensamentos. Tem um poder próprio de ação, de meditação, de ordenação de ideias, quando é escrita. Toda tecnologia de suporte à linguagem é uma psicotecnologia. É uma tecnologia que, via linguagem, conecta o indivíduo, o interior e o exterior. A psicotecnologia é, predominantemente, uma tecnologia da linguagem. E cada vez que muda o suporte para a linguagem, muda a sensibilidade do usuário e da cultura (KERCKHOVE, online 2007). A novidade neste termo é que as transformações tecnológicas na constituição e ordenação dos processos mentais oferecidos pelo uso destas tecnologias tem por propósito incorporar a esta ciência outra compreensão das mídias, ou seja, não como meras ferramentas adquiridas e usadas pela humanidade, mas numa nova condição – que segundo Kerckhove (2009) é usado para designar outro campo na área de psicologia, voltado à pesquisa das características psicológicas, desenvolvidas pelos indivíduos, em inseridos em ambientes tecnológicos e em constante transformação, como é o caso da sociedade atual, na qual os produtos digitais estão rotineiramente presentes na vida de todos. 2.2 Interação e produção de sentido nas práticas discursivas Partindo do princípio de que “(...) o dialogismo é o modo de funcionamento real da linguagem e o princípio constitutivo do enunciado” (FIORIN, 2008, p. 24), assim 17 como, “[] são as relações de sentidos que se instauram entre enunciados” (p. 19), vê-se na ótica Bakhtiniana, que a linguagem é uma forma ou processo de interação entre os sujeitos. Então, pode compreender a mídia e as redes sociais digitais enquanto espaço de interatividade e de construção social pela linguagem dialógica presente em seus gêneros textuais e recursos tecnológicos, produtores de enunciados e discursos comunicativos. Os recursos tecnológicos digitais da informação e da comunicação trazem consigo novas formas de comportamento e de relacionamentos entre os sujeitos, já que eliminam as barreiras físicas, geográficas e temporais, facilitando, além do acesso à informação a interatividade e entretenimento. (SANTAELLA, 2003). No caso do isolamento provocado pelo Covid.19, por exemplo, observa-se nos diferentes relatos e comentários deste período, que a cultura digital individualizada, de algum modo, contribuiu na superação das angústias e tristezas provocadas pelo isolamento social e trouxe um novo cenário comunicativo, cuja dinâmica sociocultural impôs as instituições de ensino, práticas pedagógicas remotas de caráter emergencial capazes de modificar, arquitetar e planejar percursos didáticos diferentes para alcançar objetivos prioritários de aprendizagens condizentes com as novas demandas sociais. Isso ocorreu com todos os estudantes, pois nesta época priorizou-se a mediação da tecnologia digital, via internet como forma de garantir a continuidade dos trabalhos educacionais. Para Marcuschi (2010, p.16) “na atual sociedade da informação, a Internet é uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo” e que se “bem aproveitada, ela pode tornar-se um meio eficaz de lidar com as práticas pluralistas sem sufocá-las,” embora ainda não se saiba, como isso possa ser desenvolvido. Considerando que os gêneros digitais produzidos por diferentes usuários já permeiam a nossa sociedade como um todo, demanda-se a necessidade de vinculá-los às práticas pedagógicas de maneira a ampliar a inclusão da educação formal, para além dos muros escolares utilizando-se de instrumentos digitais familiares ao uso discente, uma vez que conforme Kenski (2013), o espaço online se apresenta como um link com um plano social diferenciado, que agrega pessoas em um mesmo espaço virtual. A realidade das tecnologias de comunicação e informação potencializa-se muito, na medida em que toda e qualquer forma de interação entre os sujeitos permite a superação das barreiras de distância e de tempo, mas que por si só, não nos definem enquanto sociedade. Para Martino (2014), tudo aquilo que fazemos em decorrência de 18 nossas “[] potencialidades, são desenvolvidas a partir de uma série de demandas apresentadas pela própria vida em comunidade, demandando a integração de seus usuários a uma mesma comunidade discursiva”. Complementar a isso, Bakhtin (2006, p.70-71) destaca que é: [] é indispensável que o locutor e o ouvinte pertençam à mesma comunidade linguística, a uma sociedade claramente organizada. E mais, é indispensável que estes dois indivíduos estejam integrados na unicidade da situação social imediata, quer dizer, que tenham uma relação de pessoa para pessoa sobre um terreno bem definido. É apenas sobre este terreno preciso que a troca linguística se torna possível; um terreno de acordo ocasional não se presta a isso, mesmo que haja comunhão de espírito. Como vemos, para o autor a linguagem é social por excelência e qualquer processo que a envolva também o é, como é o caso da constituição do sujeito nos apontamentos de Fiorin (2008). Para ele são três os tipos de dialogismo, a saber: o dialogismo constitutivo do indivíduo-sujeito, que se refere a um processo puramente dialógico; o dialogismo constitutivo, em que um enunciado só adquire sentido em relação com outros enunciados, por isso a afinidade de diálogo é inerente ao enunciado, ou constitutiva dele; e o dialogismo composicional, que se relaciona à apropriação do discurso de outrem na constituição de enunciados. Para Fiorin (2008), o dialogismo é constitutivo não só da comunicação concreta, mas da própria consciência, que se dá por meio da linguagem ou no estudo da construção de significado: na semiótica das palavras materializadas em enunciados discursivos que servem como meio e lócus de diálogo entre diferentes instâncias sociais: Até aqui, já podemos perceber que as relações dialógicas são a condição sine quo non da linguagem, pois elas são relações de sentido, a partir das quais é possível aos parceiros de interação construírem sentidos para os enunciados, textos, discursos etc., ou seja, a construção de sentido sempre se dá de forma dialógica. Por isso, no estudo da linguagem, as relações existentes entre enunciado e realidade, entre o enunciado e o locutor (autor) devem ser estudadas; deve-se ter em conta essas relações de sentido que se instauram entre as diferentes instâncias da palavra no jogo da interação (BAKHTIN, 2011b [1959/60], p. 307-330). Já num momento mais recente Volochinov (2013c [1930b], p.164) diz que o “caráter dialógico é algo inerente à linguagem como um todo: não é algo exclusivo da linguagem verbalizada”, defendendo que mesmo a linguagem interior é algo “dialógico e repleto de valorações”. Afirma que o próprio pensamento, até sem ter sido 19 exteriorizado pelo indivíduo em nenhum momento, a um ouvinte potencial ou a um público qualquer, é modelado a partir desse (SANTOS, 2015, online). Deste modo, quando somos estimulados por diferentes redes sociais que requerem diversidade de linguagem (verbal, não verbal, mista), como o TikTok, por exemplo, o dialogismo acontece a partir dos processos interativos e das construções de sentidos favorecidas pelo reconhecimento das diferentes linguagens usadas por seus usuários interlocutores. Entende-se que a linguagem verbal é toda aquela, segundo Castro (2021, online) que se estrutura por meio da palavra – oral e escrita e não necessariamente por “verbalizar” no sentido da oralidade, pois “ao escrevermos, utilizamos uma estrutura configurada em sua relação com um determinado código”, mas, para que a comunicação aconteça é necessário que esse código seja compreendido e reconhecido por seus interlocutores, além de saber usá-la para atos comunicativos eficientes. Assim: [ ] é correto dizer que, para que façamos uso da linguagem verbal, é essencial que sejamos falantes/usuários de uma língua, que consiste em um sistema de representação (social e historicamente construído), formado por signos linguísticos (CASTRO, 2021. online). Ademais, pela necessidade de nos comunicarmos e nos construirmos socialmente recorre-se a variadas formas de contatos, não se limitando ao uso da linguagem verbal, valendo-nos da chamada linguagem não verbal nos atos comunicativos. Essa modalidade não se estabelece por meio de palavras, usando muitas vezes, índices, ícones e símbolos. E, mesmo quando o interlocutor não compartilha o mesmo código, é possível efetivar a comunicação por meio gestos, mímicas, e até mesmos posturas corporais e expressões faciais. São incontáveis os modos de ocorrências desta linguagem e de gêneros textuais que se constroem valendo-se desse tipo de linguagem, destacando-se neste contexto, os digitais (CASTRO, 2021. online). A exemplo, o meme, um gênero textual relativamente novo é considerado um texto de conotação visual, que permite, assim como a charge, inserir não só imagem para compor uma “brincadeira”. É a linguagem verbal valendo-se da mista, na medida em que se permeiam mais que uma linguagem, como se observa na figura 1, que no contexto de pandemia do coronavírus, traz a pintura artística, modificada pelas máscaras e texto escrito a frente desta (CASTRO, 2021. online). 20 Figura 1 - Coronavírus versus corona Lisa Fonte: Plataforma Redigir, 2020 Observa-se então que “a linguagem é mista, quando há um uso simultâneo da linguagem verbal e da não verbal na construção da mensagem” objetivando ampliar “as possibilidades comunicativas, uma vez que, em determinados atos comunicativos, apenas a verbal ou apenas a não verbal não se faz suficientes” (CASTRO, 2021, online). Santos (2015) esclarece ainda que, para Volochinov (2013 [1930], p. 165), a “ideologização da linguagem interior” é uma forma que usamos para discutir conosco mesmo, determinada ideia ou estímulo recebido, no sentido de nos convencer para a melhor decisão. E, para que se compreenda de forma adequada seu sentido, deve-se atentar para o diálogo que se instaura na linguagem por meio da adaptação do contexto físico/espacial compartilhado pelos interlocutores, pelas interrelações entre interlocutores sobre o conhecimento da situação e pela valoração compartilhada por eles na situação. Em outras palavras para a compreensão da linguagem, o locutor precisa adequar-se às condições desse contexto, seja ele verbal ou extra verbal, o que significa ter conhecimento sobre. O dialogismo é constituído por relações entre índices sociais de valores que constituem o enunciado, ou seja: o sujeito social quando se depara com outros enunciados, interage com os discursos concordando ou não, complementando e construindo a interação. Por isso dizemos que a língua é dialógica e os enunciados são proferidos por vozes, discursos ou sujeitos que se encontram de algum modo com outrem, participando de uma interação viva. É o caso do TikTok, que mesmo num monólogo, numa expressão de riso, ou numa “curtida” - ao toque de uma tela - traz o dialogismo, já que nesse ato, aparentemente individual, há vozes que dialogam. 21 De fato, o dialogismo não se restringe ao diálogo face a face, mas a todo enunciado no processo de comunicação manifestado em diferentes dimensões (WIKIPÉDIA, online). Vemos no aplicativo TikTok que as tendências, gírias e expressões, particularmente compreensíveis pelos seus usuários jovens, os aproximam de temas complexos pelo humor. Por exemplo, quando dois sujeitos estão expostos ou compartilham um vídeo na rede do TikTok e ambos sorriem, sem falar nada um com o outro, mesmo assim, na visão do autor está havendo um diálogo, que consiste no compartilhamento do conteúdo disponível pela plataforma. Essa rede, a princípio, apresentou uma tendência a dificultar a comunicação com quem não participava dela, porém diversos grupos começaram a compartilhar seus gostos específicos. Tais práticas impulsionaram novas formas de expressões além do humor transformando comportamentos e linguagens, em sua maioria conotativamente e não verbais, fazendo com que uma grande quantidade e pessoas se sentisse mais à vontade com esse estilo e com a necessidade de pertencer ao grupo. Por exemplo, os jovens podem não saber se o conteúdo consumido faz parte de seu gosto pessoal ou se é apenas a repetição de uma tendência que os levam a participar deste, mas o diálogo estabelecido por essa mídia acontece e os inserem neste processo de construção de sentido. O aplicativo remete “as panelinhas da escola”, tornando-se a representação virtual de uma situação cotidiana. Daí ser muito positivo para essas pessoas encontrem um espaço no qual se sintam acolhidas e estimuladas para ajudar outros indivíduos. Nota-se que os usuários do TikTok são acolhedores, pelo menos se observarmos os comentários. Segundo Santos, a incompreensão do enunciado por quem está fora da instância de sua produção se dá justamente pelo desconhecimento do contexto extra verbal. É necessário conhecê-lo. Por isso, como vemos na acepção volochinoviana o contexto comporta três elementos: 1) um horizonte espacial compartilhado por ambos os falantes; 2) o conhecimento e a compreensão comum da situação, igualmente compartilhados pelo enunciador e enunciado e, finalmente, 3) a valoração compartilhada pelos dois, na situação (VOLOCHINOV, 2013a [1926], p. 78). Isso, nos faz pensar que: [..] sempre uma dessas vozes, independente de nossa vontade e de nossa consciência, coincide com a visão, com as opiniões e com as valorações da classe a que pertence. (SANTOS 2015, p.22). Desta maneira, a partir do conceito de que “[..] o dialogismo é o modo de funcionamento real da linguagem, é o princípio constitutivo do enunciado [observa-se 22 que] as relações de sentidos se instauram entre enunciados” (FIORIN 2008, p.24, p.19), sem as quais não há enunciação, nem interações verbais e não verbais. Portanto, as diferentes esferas discursivas são constitutivas dos enunciados. Logo, na teoria dialógica da linguagem, também o compartilhamento da modalidade não verbal entre os interlocutores é de suma importância para a compreensão e construção dos sentidos, pois a interação verbal está em constante diálogo com a não verbal. É o que vemos nos vídeos do TikTok que usa do dialogismo não verbal mobilizando diferentes habilidades dos usuários, coordenando movimentos corporais, cenário, figurino, narrativa e áudio. Além do mais, possibilita criações autorais, expressão de pontos de vista e sentimentos, reúne a turma, ainda que virtualmente, criando e recriando conteúdos com muito humor, elaborando pequenas histórias, dublagens e participando de desafios variados. Considera-se ainda que para a compreensão adequada do sentido, é preciso atentar para o diálogo que se instaura na linguagem, percebendo “o que é “visto conjuntamente”, “sabido conjuntamente” e “avaliado conjuntamente”, são fatores que compõe o diálogo que se estabelece na linguagem e permite a construção do sentido: que só ocorre de forma dialógica” (SANTOS 2015, p. 27). Para Santos (2015, p.29) o dialogismo Bakhtiniano mostra-se como condição essencial para a construção de sentido da enunciação, à medida que “[..] quando do uso da linguagem, estabelecem-se relações de diálogo com as diferentes instâncias enunciativas” com marcas dialógicas de diferentes tipos, que “refletem e refratam questões de ordem social e individual e que são determinantes” do todo que é a enunciação. Além disso, vemos que as características dos hipertextos – na qual se inclui o TikTok – torna-o um “evento virtual, descentralizado e interativo, sem um espaço de leitura e escrita definidos” (MEYER, 2020, online), portador de novas percepções interpretativas nos ambientes digitais. Por causa da quebra da linearidade deste tipo de produção textual é possível observar a capacidade de compreensão do aluno sobre um tema e a ligação que ele fará com o TikTok: assunto que discutiremos mais detalhadamente no próximo item. 23 2.3 A linearidade nos gêneros digitais e a linguagem como recurso para adesão A necessidade constante do ser humano de interagir e comunicar-se com o outro fez surgir diferentes gêneros textuais utilizados todas as vezes que os falantes estão inseridos em alguma situação comunicativa, ainda que inconscientemente. Eles são incontáveis, flexíveis e adaptáveis às diversas realidades. As novas mídias e a internet, frente às diferentes situações comunicacionais, acabaram criando gêneros e alterando outros, demonstrando que eles estão a serviço dos falantes e às necessidades de seu tempo. Assim, surgiram gêneros textuais adaptados à essa nova realidade: os gêneros digitais. É importante observar, contudo, que mesmo para gêneros contemporâneos, a estrutura da comunicação e a forma com a qual nos expressamos continuam seguindo parâmetros similares, os quais estabelecem uma relação dialógica com as formas textuais preexistentes (PEREZ, online). Todavia, as características das modalidades digitais não seguem uma linearidade de leitura do começo ao fim, mas sim,“[...] por meio de buscas, descobertas e escolhas, que irão levar à produção de UM sentido possível, entre muitos outros” (KOCH, 2007, p.28), diferenciando-se dos demais gêneros textuais por sua hipertextualidade, categorizando-se como um processo de leitura e escrita eletrônica, que é “dinâmico, flexível na linguagem, que dialoga com outras interfaces semióticas, adiciona e acondiciona à sua superfície formas outras de textualidade” (XAVIER, 2010, p.208). Por isso, pode-se dizer que, são marcantes alguns dos principais atributos da produção dos gêneros digitais tais como: o tamanho mais curto, mais objetivo e direto no diálogo entre elementos verbais e audiovisuais e, quase sempre, exigem a presença de hipertextos, assim como de abreviaturas e da linguagem interativa. Conforme (KOCH, 2006, p.13) estes gêneros vão além da abordagem sintático-semântica, visto que é uma a unidade básica de comunicação em relação a interação humana. Deste modo, a partir da Linguística Textual, os textos deixam de ser vistos como produtos prontos e acabados e ganham uma nova dimensão ao serem considerados como parte viva dos processos comunicativos de uma sociedade concreta, passando a ser constituídos como elementos de uma atividade complexa ou como instrumentos de realização de intenções comunicativas e sociais do falante (KOCH, 2006, p. 14). 24 Neste aspecto, o conceito de coerência passa a incorporar, além dos fatores sintático-semânticos, uma série de condições de ordem pragmática e contextual, que contribuem não só para que a coerência passe a ser vista como um “princípio de interpretabilidade” (CHAROLLES, apud KOCH, 2006, p. 20), mas ainda, em defesa da inexistência de “sequências de enunciados incoerentes em si, visto que, numa interação, é sempre possível construir um contexto em que uma sequência, aparentemente incoerente, passe a fazer sentido” (KOCH, 2006, p. 20). Relacionando os fatores de ordem pragmática e contextual vemos que algumas expressões curiosas são bastante utilizadas nesta plataforma e mesmo sem legendas e comentários, como por exemplo os “trends”, que são termos usados para designar as “modinhas” do momento, ou os challenges e as músicas ou ainda as siglas “DR” e “DC” que possuem significados específicos, aparecem a todo momento no aplicativo. Para Xavier (2010, p. 209) “ler o mundo tornou-se virtualmente possível, haja vista que sua natureza imaterial o faz ubíquo, por permitir que seja acessado em qualquer parte do planeta, a qualquer hora do dia e, por mais de um leitor simultaneamente”. Neste sentido, Kenski (2013) destaca que a mediação tecnológica facilita a aprendizagem já que considera as características de cada usuários e/ou alunos. A partir de links os alunos podem, além de acessar conteúdos, textos, imagens, sons, vídeos, manterem-se conectados de forma interativa e colaborativa. A partir do TikTok, por exemplo, é possível compartilhar as tendências do momento, as trends (desafios, modinhas, músicas, coreografias, tutoriais de maquiagem ou dublagens) reproduzindo- as de forma natural em suas comunidades sociais. Os elementos deste app - hipertextuais, multilinear, intertextual, rápido, interativo, transitório, dinâmico e acessível - fazem parte da prática discursiva do público que os compartilha. Assim, ao considerarmos que a construção de sentido textual acontece pelos processos dialógicos, pela intertextualidade com outros textos e pela polifonia que, conforme Fiorin (2008) incluí outras vozes de enunciadores reais ou possíveis, observa-se que existem várias perspectivas com as quais o locutor se identifica ou não. Então, vemos que o texto não tem um sentido em si mesmo, pois se constrói a partir da leitura, numa situação interativa. Assim, ancorado nos pressupostos de Fiorin (2008, p. 24), de que “[..] o dialogismo é o modo de funcionamento real da linguagem, é o princípio constitutivo do enunciado” e no fato dele se constituir numa ferramenta eficaz “para se analisar o efeito de novas tecnologias na linguagem e o papel da 25 linguagem nessas tecnologias” (MARCUSCHI, 2010, p. 16) é que se chega ao questionamento deste estudo: o TikTok pode ser considerado um recurso pedagógico motivador e interferente na desnaturalização cultural de gênero pela linguagem? Observa-se que usuários do Tik Tok normalmente se inspiram entre si próprios para a criação dos vídeos, podendo ser exatamente iguais aos seus contextos de vida ou mesmo similares. Eles se utilizam de símbolos ou hashtag como #IB (abreviação de inspired by em inglês, que em português é “inspirado em”), que é seguido do nickname do usuário inspirador, para dar o crédito a uma determinada ideia nesta plataforma. É um hábito comum entre eles. Usam termos como “Flopar”, para demonstrar que um vídeo não obteve sucesso ou que recebeu poucas visualizações, ou a palavra “hitar” para quando este viralizou, ou ainda o termo “fy”, para caracterizar um determinado grupo cultural. Esta característica inspiradora e agregadora da plataforma pode ser útil também para motivar a autonomia e estímulo do aluno para o aprendizado disposicional, que segundo Ryle (1949), é um aspecto que estaria na gênese da explicação dos fatos no mundo, enquanto potencialidades do comportamento do indivíduo cognitivo, que inserido em um meio é capaz de “saber como” desempenhar as ações. Para o autor: Quando dizemos que o vidro é frágil ou que o açúcar é solúvel, usamos conceitos disposicionais cuja força lógica é a seguinte. A fragilidade do vidro não consiste no fato de que em um dado momento se faça em pedaços. Pode ser frágil sem que seja quebrado. Dizer que é frágil, significa que se alguma vez é, ou tenha sido, golpeado ou forçado, se fará ou se foi feito em cacos. Dizer que o açúcar é solúvel, significa que se o coloca na água se dissolve ou se dissolveria. (RYLE, 1949, p.43, tradução nossa). De tal modo, os indivíduos tendem a agir de determinada maneira a partir do significado externo presente na linguagem comum. As disposições e os estímulos, por assim dizer, caracterizam-se por tornarem possível a construção do conhecimento, a partir da ação de um agente, inserido em um meio e que interage com ele. Nesta ótica, o TikTok caracteriza-se pelas próprias expressões das disposições dos sujeitos, em um meio que oferece a possibilidade de ação, estimulando o aprendizado em grupo, que são melhor entendidas, segundo certas concepções, padrões ou gêneros textuais. É o que Marcuschi (2010, p.20) confirma quando diz que os gêneros textuais propiciam [...] ao contrário do que se imaginava, uma interação altamente participativa”, 26 ao criarem “[...] formas de organizar e administrar os relacionamentos interpessoais nesse novo enquadre participativo” (Idem, p. 20-21). Percebe-se, portanto, aspectos relevantes para o uso pedagógico do gênero digital TikTok ao se considerar os seguintes aspectos: 1)seu franco desenvolvimento e um uso cada vez mais generalizado; 2) suas peculiaridades formais e funcionais, não obstante terem eles contrapartes em gêneros prévios; e 3) a possibilidade que oferecem de se rever conceitos tradicionais, permitindo repensar nossa relação com a oralidade e a escrita (MARCUSCHI, 2010, p. 16). Frente a estes apontamentos, destaca-se a pertinência da reflexão sobre o uso pedagógico da linguagem presente nas ferramentas digitais como recurso motivador e interferente para a compreensão do modo de ser, agir, pensar e se comunicar na contemporaneidade. Ou ainda, sobre a necessidade recente de se capacitarem para entender o que, como, o porquê e quando usar as diferentes mídias sociais ponderando as práticas discursivas contextuais de seus alunos; intervindo e mediando-as de forma interativa e significativa. Entende-se que a linguagem multidimensional do hipertexto em práticas pedagógicas pode ser capaz de estimular a ponderação, o debate e a reflexão sobre temas relevantes à sociedade atual, como por exemplo neste estudo. Logo faz-se pertinente pensar a linguagem interativa presente nas redes sociais digitais como aspecto primordial dos processos de comunicação na Web - a coexistência, o confronto e mesmo o conflito entre diferentes vozes dialógicas e polifônicas - que evidenciam o modo como seus usuários se relacionam quando publicam uma mensagem e ela desencadeia reações discursivas nos participantes: “quando a publicação recebe comentários dos usuários e diversas vozes confluem na construção do diálogo” (SANTAELLA, 2014, p.207). Em função das considerações já enfatizadas por Bakhtin (1982) sobre a riqueza e diversidade dos gêneros discursivos, graças as inesgotáveis possibilidades da atividade humana e “porque em cada esfera da práxis existe todo um repertório de gêneros discursivos que se diferenciam e crescem à medida que se desenvolve e se complexifica a própria esfera”, Santaella (2014) amplia a noção de gêneros discursivos para as manifestações que ocorrem nas redes sociais digitais, batizando-os de gêneros “híbridos”: 27 [ ] dado o fato de que, nas redes, a discursividade estritamente verbal vaza as fronteiras não só da linearidade típica do verbo, no hipertexto, quanto também da exclusividade do discurso verbal nas misturas que este estabelece com todas as formas das imagens fixas e em movimento e com as linguagens sonoras, do ruído, à oralidade e à música, na multimídia” (SANTAELLA, 2014, p.209). Assim, ao propor que a hibridização discursiva atinja seu ápice nos ambientes das redes sociais que se “constituem em ambientes virtuais programados [..] justamente para promover o diálogo no seu mais alto grau de intensificação”( SANTAELLA , 2014, p.209) destaca que a riqueza semiótica do hibridismo discursivo se utiliza do termo “hipermídia” para a linguagem das redes digitais que trazem um gênero discursivo eminentemente híbrido, hipermidiático, o qual, a partir “de ações associativas e interativas do receptor, vão se juntando, transmutando-se em versões virtuais que são possíveis devido à estrutura de caráter não sequencial e multidimensional do hipertexto”. Essa estrutura é multilinear, indo de “um ponto a outro da informação, com um simples e instantâneo clique ou toque”. É também interativa, pois implica na manipulação por parte do usuário-leitor, alterando substancialmente, os conceitos de escrita e de texto, numa mistura compacta e intricada de linguagens. Essa mistura densa e complexa de linguagens, feita de hipersintaxes multimídia -- povoada de símbolos matemáticos, notações, diagramas, figuras, também povoada de vozes, música, sons e ruídos -- inaugura um novo modo de formar e configurar informações, uma espessura de significados que não se restringe à linguagem verbal, mas se constrói por parentescos e contágios de sentidos advindos das múltiplas possibilidades abertas pelo som, pela visualidade e pelo discurso verbal. Isso parece dar guarida à hipótese de que, nas raízes de todas as misturas possíveis de linguagens, encontram-se sempre três matrizes fundamentais: a verbal, a visual e a sonora, em todas as variações que cada uma delas realiza (SANTAELLA,2014, p. 213). Diante do exposto e considerando que “[] vivemos o digital, somos o digital, fazemos o digital. Isso faz parte de nós, cidadãos inseridos no mundo contemporâneo, e se não faz ainda, deveria fazer, ou vai fazer logo” (COSCARELLI, 2009, p.13), observa-se a importância do uso didático-pedagógico da linguagem para aproveitar e ampliar as oportunidades de interação em ambientes virtuais de aprendizagem condizentes com as transformações do mundo contemporâneo. 28 De fato, há diversas práticas de linguagem ambientadas na Internet, cujos usuários são outros, portanto, os saberes e necessidades também os são. Logo, os modos de fazer não podem continuar sendo os mesmos para que se possa atender às práticas discursivas que a vida contemporânea pode exigir como é o caso dos mecanismos hipertextuais utilizados pelos estudantes que vivenciam a construção de uma linguagem para alguns ambientes virtuais como a presente no gênero digital TikTok que nos leva a reflexão sobre seu uso nas diversas modalidades verbais e não verbais. Pode-se dizer então que esta plataforma seria um recurso pedagógico? Ela pode atuar na desconstrução cultural das práticas tradicionais dos docentes? Tema que se discute a seguir. 2.4 Recursos pedagógicos para desconstrução cultural de práticas docentes O termo “recurso pedagógico” pode ser entendido como aquele que “auxilia a aprendizagem de quaisquer conteúdos, intermediando os processos de ensino- aprendizagem, intencionalmente organizados por educadores na escola ou fora dela” (EITERER, online). Ensinar e aprender tem ganhado novos significados na sociedade globalizada, conectada, que com advento da internet, segundo Castells (2016) possibilitou outras oportunidades de aprendizagem virtual, nascidas a partir da disseminação e uso das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) criando um cenário, no qual elas têm um papel importante nas mudanças sociais: fazendo surgir uma geração de pessoas conectadas, que formam nichos culturais baseados na informação, conhecimento, interatividade e compartilhamento. Evidencia-se assim, a necessidade de trazer para dentro das salas de aula as tecnologias digitais de informação e comunicação para delas fazer uso pedagógico possibilitando o desenvolvimento de habilidades e competências para práticas cotidianas efetivas dos aprendizes do século XXI, conforme já propõe a competência geral, no quinto parágrafo da Base Nacional Curricular Comum (BNCC): Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BNCC, 2018) 29 Entre inúmeras possibilidades de uso pedagógico, a versão digital de muitos materiais didáticos já pode ser aproveitada como recurso em sala de aula ou em casa para exploração de múltiplas funcionalidades oferecidas por plataformas educativas, e- books, sites, apps etc. Estes gêneros, devido suas multifuncionalidades e interatividade permitem aos seus usuários adicionar a eles links, imagens, vídeos, referências e diversos formatos de conteúdo, transformando a linearidade textual, a forma como lemos e aprendemos e, consequentemente, os métodos de ensino-aprendizagem. Assim, dado seu caráter altamente motivacional, as atividades com gêneros digitais são atrativas para as crianças, adolescente e jovens e ainda, conforme Serafim e Sousa (2011) mesmo quando a produção de vídeos digitais está associada ao lazer e entretenimento, ela tem um vasto potencial educacional, podendo ser explorada como atividade de ensino-aprendizagem: [ ] a exploração do vídeo pelas escolas como ferramenta motivacional não é nova, no entanto, existe um mau uso desta produção imagética, na qual muitas vezes é esquecida sua dimensão estética. Ocorre certo reducionismo nesta rica linguagem, hoje extremamente enriquecida pelas funções multimídia (SERAFIM E SOUSA 2011, p.29). Já Moran (1995, p.27) destaca que as potencialidades do vídeo fazem crer que este utensílio também tem uma “interatividade funcional” à medida que: [ ] é sensorial, visual, linguagem falada, linguagem musical e escrita. Linguagens que interagem superpostas, interligadas, somadas, não separadas. Daí a sua força. Somos atingidos por todos os sentidos e de todas as maneiras. O vídeo nos seduz, informa, entretém, projeta em outras realidades (no imaginário), em outros tempos e espaços. Cabe, pois, aos docentes despertarem-se para o uso pedagógico das ferramentas digitais usadas pelas novas gerações como recurso motivador de aprendizagem e interferentes na compreensão do modo de ser, agir, pensar e se comunicar. Compete- lhes ainda, saber o que, como, o porquê e quando usar as diferentes mídias sociais considerando as práticas discursivas de seus alunos nos diferentes contextos, intervindo e mediando-os de forma interativa e significativa, via práticas pedagógicas inovadoras. Nesse sentido, Coscarelli (2011, p. 31) afirma que “os professores precisam encarar esse desafio de se preparar para essa nova realidade, aprendendo a lidar com os recursos básicos e planejando formas de usá-los em suas salas de aula”, apontando que conforme a sociedade muda, a noção de gênero textual também se modifica. Ao se trabalhar com gêneros digitais, ao contrário do tradicional, permite-se que o aluno 30 desfrute das múltiplas linguagens presentes num mesmo gênero para a construção de sua autoria. Coscarelli (2011), destaca ainda, que não basta que se utilizem dos múltiplos recursos semióticos do gênero para simples postagens nas mídias digitais, é preciso antes uma conexão entre tais recursos e os objetivos pretendidos de forma que a atividade proposta seja coletiva, democrática e pedagogicamente mediada pelo docente. Infere-se que as mudanças socioculturais no contexto pandêmico do Covid 19, impuseram práticas de ensino remoto emergencial capazes de, estrategicamente, arquitetar e planejar percursos pedagógicos capazes de alcançar objetivos prioritários de aprendizagens frente aos novos comportamentos de convívio social mediados pela tecnologia e a internet. Para Marcuschi (2010, p.16) “na atual sociedade da informação, a Internet é uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo” e se “bem aproveitada, pode tornar-se um meio eficaz de lidar com as práticas pluralistas sem sufocá-las,” embora ainda não se saiba como isso possa ser desenvolvido. De tal modo, considerando que os gêneros digitais produzidos por diferentes usuários já permeiam a nossa sociedade, demanda-se a necessidade de vinculá-los as práticas pedagógicas para ampliar de forma inclusiva a educação para além dos muros escolares, utilizando-se de ferramentas e instrumentos digitais familiares ao discente. Para Santos et al. (2020, online) negar o uso das tecnologias digitais em sala de aula seria um retrocesso para a educação, que está passando por um processo de adaptação, no qual os docentes estão se reinventando e aprendendo metodologias nas quais a tecnologia digital tem se tornado “uma oportunidade de contribuir positivamente tanto no ensino remoto, quanto aos processos de aprendizagem, proporcionando novas formas de ensinar e, principalmente, de aprender”. Ele acrescenta que: Esse momento atual deve ser encarado como uma oportunidade para ressignificação da prática acadêmica e de mudanças de algumas posturas[...] é uma oportunidade para compartilharmos conhecimento e aprendermos juntos a cuidar do outro, a olhar como a ferramenta tecnológica pode possibilitar o acesso à aprendizagem e ser um complemento ao encontro presencial. A metodologia tradicional de ensino precisa se reinventar na prática, de forma a tornar o ensino mais atrativo, pois do jeito que se encontra não têm apresentado resultados satisfatórios no processo de ensino-aprendizagem. (SANTOS, et al. 2020, online) Destaca-se aqui, a importância de práticas pedagógicas que integrem as mídias digitais à sala de aula de forma satisfatória, intervindo e mediando-as de maneira 31 interativa e significativa capazes de incitar discussões e reflexões críticas sobre grandes temáticas de interesse social, como o papel da linguagem na violência de gênero, por exemplo. Vale ainda salientar, que a escolha, o consumo e a busca de informação e entretenimentos individualizados, em oposição ao consumo de massa, fazem com que os sujeitos se percebam indivíduos ativos em ambientes digitais (SANTAELLA, 2003). Daí a ideia de se verificar de que modo recursos digitais - tal como o TikTok - pode ser interferente no uso da linguagem inclusiva de gênero para a desnaturalização de estereótipos presentes nas práticas discursivas orais e escrita que contribuem para a violência de gênero nas instituições educacionais. Essas contam com espaços interativos favoráveis a “uma troca de posições e visões de mundo, que permitem uma aproximação entre culturas num mundo de aprendizagem” (SERAFIM e SOUSA, 2011, p.26). Na visão de Marcuschi (2004), o gênero digital é uma evolução dos gêneros textuais tradicionais, pois todo o aparato textual é constituído eletronicamente de forma interativa e dinamizada. A partir do momento em que o professor começa a usá-los com objetivo educacional, oferece ao aluno - via e-mails, chats, blogs, vídeos conferência, TikTok e todos os outros recursos disponíveis na Internet - uma nova visão dos gêneros textuais, aliando o ensino ao prazer da comunicação digital, em um processo evolutivo de aprendizagem. 2.5 O uso das redes sociais na ação pedagógica com a temática: a linguagem inclusiva de gênero Muito se tem usado as redes sociais por todas as faixas etárias em práticas cotidianas informais, seja para o entretenimento e/ou trocas comunicativas de informações úteis e familiares. Todavia estes usos inda são muito tímidos quando se compara ao ensino-aprendizado formal institucionalizado. Evidencia-se então, que o uso diário das redes para ações sociais comunicativas, já se constitui potencialmente num recurso pedagógico, pois os alunos usam e gostam. Mas a questão que se coloca é: como voltar o olhar dos estudantes para as redes sociais como possiblidade de aprendizagem de maneira pedagógica e não apenas como entretinimento, distração e passa tempo Tal questionamento permitiria pensar no uso de recursos digitais familiares aos estudantes, para estímulos motivacionais introdutórios e para o desenvolvimento de 32 conteúdos curriculares, a partir de temáticas provocadoras de questionamentos, debates e posicionamentos críticos construtivos de aprendizagens significativas para desenvolvimento humano e a vida cidadã. Frente ao exposto, cabe analisar as várias possibilidades pedagógicas proporcionadas por esse universo digital e sua adequação para atingir os objetivos propostos, tanto nos processos de ensino, quanto nos aspectos motivacionais e interferentes na aprendizagem, a partir das respostas dos próprios alunos sobre tais recursos. Nesta perspectiva, tema e formato devem estar relacionados ao conteúdo curricular em uma diversidade de estratégias atrativas para os estudantes, ponderando os novos formatos contemporâneos de ensino. Lembrando que as TDICs, conforme BNCC (2018), têm alterado nossas formas de trabalhar, de se comunicar, de se relacionar e de aprender na sociedade atual. Todo esse processo demanda sua incorporação às práticas pedagógicas como meio para promover aprendizagens mais significativas alinhadas à realidade dos estudantes que já as utilizam em outras áreas de suas vidas, fazendo com que tenham maior engajamento e interesse pelas atividades pedagógicas, oportunizando a todos a inclusão digital. Ou ainda, que tais recursos estimulem o desenvolvimento de competências e habilidades relacionadas ao uso crítico e responsável. No paradigma educacional atual, as TDICs estão mais presentes, via redes sociais, livro digital, gamificação e outros recursos e formatos que servem de mediadores dos processos de ensino e aprendizagem (SILVA, 2011). Vemos, portanto, que a aprendizagem dos conteúdos com o uso da tecnologia exige a afinidade entre professores e alunos. Seja para entender o perfil do alunado, as formas e dispositivos moveis utilizados, os materiais e a cultura digital, enfim esta proximidade facilita cognitivamente a qualidade desta relação dialógica, a adesão dos alunos e, consequentemente, a menos evasão destes. Para a autora, a dificuldade de aprender está na falta de interação pedagógica. Por sua vez, esses recursos podem estimular esse intercâmbio, ajudando na colaboração individual e/ou coletiva por meio das diferentes mídias que podem promover a compreensão sobre a temática e conteúdo curricular proposto, além de facilitar a absorção de novas temáticas, via Inteligência Artificial, realidade aumentada e ou virtual, vídeos, aulas, animações e simulações. Observa-se que tais práticas permitem um pouco mais de participação e imersão do aluno no assunto de forma mais interativa. 33 Quanto mais imerso, maior possibilidade de aprender. Totalmente diferente de aprender algo estático e sim numa relação dialógica entre as TDICs e a vivência prática. Observa- se ainda que tais conhecimentos demandam outras práticas e metodologias educacionais que considerem a linguagem desse público para sua formação e desenvolvimento humano. De fato, a escola conforme edificada hoje na sociedade é um espaço de “racionalidade” e de formação de sujeitos, além de ser um lugar de sociabilidade diversa, de reflexões, sensações e (cri)atividades. Contudo, ela não é um elemento neutro na (re)(des)construção dos indivíduos, pois seus “códigos, símbolos e arranjos arquitetônicos constroem e são construídos a partir de discursos dizíveis e visíveis” que de certo modo, são imperceptíveis a nós de “tão naturalizados em nossos corpos [que] não nos perguntamos como foram introduzidos ali” (LEAL e OLIVEIRA, 2018, p. 2), constituindo-se culturalmente. As práticas culturais modificam-se e com elas as realidades dos sujeitos, demandando possibilidades de uso e apropriação de recursos comunicacionais interativos entre seus interlocutores, que na contemporaneidade são protagonizados pelas mídias digitais. A prática de uso dos recursos comunicacionais significativos a seus usuários, ao incitar o interesse e a curiosidade, atua como facilitador do processo de ensino e aprendizagem propiciando reflexões críticas sobre temas relevantes à sociedade no seu tempo e de seus contextos. Logo, as instituições educacionais são desafiadas a cada dia ao desenvolvimento de práticas pedagógicas propícias, que dialoguem e favoreçam o uso e apropriação das ferramentas de comunicação digitais atuais que influenciam o pensamento e o comportamento das novas gerações, como os novos modos de aprender dos nascidos da geração Z, por exemplo. Essa geração “[...] têm o estudo como prioridade”. E que pela “[...]diversidade de mídias disponíveis, a velocidade no tráfego de informação, a interatividade no ambiente virtual e o uso cotidiano desses ativos tecnológicos[...]” (REZENDE, online), estabelecem outros discursos incorporando-os a todas as práticas sociais. Neste estudo específico, procura-se verificar os fatores de ordem comunicacional, linguística e textual-discursiva condicionados ao aplicativo TikTok que podem caracterizá-lo como recurso pedagógico motivacional e interferente na aprendizagem, tendo como temática de experimentação o uso da linguagem inclusiva de 34 gênero para a desnaturalização de estereótipos presentes nas práticas discursivas orais e escritas cotidianas. No quase-experimento foi escolhido para observar a violência de gênero, culturalmente presente nas práticas discursivas orais e escritas mediante estereótipos. Embora já seja pauta de discursos pedagógicos, ainda é uma demanda nos debates públicos mais aprofundados sobre os aspectos relacionados ao uso da linguagem inclusiva para sua desconstrução e desnaturalização, as quais contribuem e reforçam as desigualdades entre os gêneros. Considerada um fenômeno estrutural, a violência de gênero, com raízes complexas instituídas social e culturalmente, é um tema relevante e pertinente. E na perspectiva pedagógica das redes sociais há a possibilidade de suscitar e instigar a cultura de igualdade entre homens e mulheres a partir de práticas pedagógicas de respeito as variantes linguísticas como processo para a desconstrução e desnaturalização de estereótipos de gêneros advindos de um sistema patriarcal. Destarte, não basta apenas práticas docentes de socialização de opiniões diversas entre estudantes e familiares, implica-se reflexões importantes sobre questões políticas e de relações de poder historicamente construídas. Para Galtung (1990), dentre os tipos de violência, a “cultural” é considerada a mais sutil, indireta e duradoura, pois uma vez presente nos discursos sociais, nos produtos culturais e no comportamento humano apreendidos através do tempo pelas crenças, valores e costumes, não permite identificar claramente nem vítima nem agressor. Assim, a violência não estaria nas crenças e costumes em si, mas na forma como eles são utilizados para justificar e/ou legitimar, sem que as demais tipologias de violência lhes pareçam erradas. Uma vez embasada em diferenças culturais, étnicas e de gênero, a violência cultural pode se manifestar de diferentes formas, dentre elas pela linguagem presente nos discursos sociais de diferentes contextos e práticas comunicativas, nas modalidades verbais e não verbais, e como um atributo invariante cujas mudanças podem ser extremamente lentas e difíceis de se enxergar: “[…] A violência cultural faz com que a violência direta e estrutural apareça, ou mesmo seja sentida como, correta – ou ao menos não errada” (GALTUNG, 1990, p. 291). Como exemplo, é possível citar trechos de algumas letras de músicas machistas de grande sucesso, cantadas por todas as faixas etárias, nas quais as mulheres são tratadas como objeto sexual e /ou objeto de posse como nos trechos a seguir: http://jpr.sagepub.com/content/27/3/291.short 35 [...]Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha... Que cocê vai fazer com o resto? / O resto? Pode deixar que eu aproveito" (SANDY &JUNIOR, online). [...]"Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço / Joga ela no meio / Mete em cima / Mete em baixo / Depois de nove meses / Você vê o resultado" (AXÉ BAHIA, 0nline). [...] mas você não dá, ou melhor, dá, mas pra todo mundo! [...]Estendi o tapete, mas ela é rueira. Dei todo amor, tratei como flor. Mas no fim era uma trepadeira (EMICIDA, online). Frente aos novos contextos comunicativos, em que está imersa toda a geração milienius, faz-se pertinente uma reflexão pedagógica mais aprofundada sobre as formas e usos que estes fazem da linguagem presente, especialmente nas redes sociais. Neste aspecto, enquanto recurso pedagógico, as redes sociais, por serem de uso familiar aos aprendizes, favorecem a aprendizagem do conteúdo curricular por seu caráter motivacional, que suscita a curiosidade e, consequentemente, leva a uma melhor compreensão, interpretação e produção de sentido sobre os temas discutidos, como no caso desse estudo, cuja temática foi a violência de gênero a partir da linguagem usada no TikTok. Vale esclarecer que a escolha deste tema para a realização da pesquisa intervencionista se deu por ser um assunto atual e de importância inestimável para as relações sociais, mas que poderia ser sobre qualquer outra temática, pois a intenção é verificar a interferência do TikTok como recurso tecnológico para gerenciar melhor o plano pedagógico em salas de aula, ampliando não só a comunicação entre estudantes e professores, mas também estimulando o interesse e a aprendizagem deles. Por isso, vamos fazer um aparte para apresentar um pouco sobre o tema escolhido, refletindo sobre os papeis sociais das relações de gênero que atribuem autoria e autonomia à mulher em suas produções discursivas, condizentes com as práticas multimidiáticas da atualidade, coerentes com o contexto sociopolítico e que inquerem uma educação pautada em direitos humanos. Neste sentido, observa-se que os papéis de homens e de mulheres não são naturais, biológicos e determinados de forma imutável em todas as épocas e culturas. Segundo Possas (apud GONÇALVES, 2006, p. 73-74) “[...] os papéis normativos, os comportamentos atribuídos a homens e mulheres e a relação entre os sexos não são discursos neutros, mas representações construídas repletas de significados e de relações de poder”. Pode-se dizer que as diferenças sexuais e os papéis sociais são significações históricas e socialmente construídas de modo relacional por ambos os sexos. 36 Em outras palavras, é o conjunto das relações sociais que transmuta as diferenças biológicas entre homens e mulheres em produtos da atividade humana, muitos dos quais vistos e solidificados como se fossem naturais, mas que infelizmente ainda não foram consolidadas nas práticas pedagógicas, seja pela falta de uma formação docente adequada ou pelos ataques aos estudos sobre o tema: [...] o gênero e a sexualidade estão inseridos como temas transversais nos Programas Curriculares Nacionais-PCN’s, mas há uma ausência acerca dessas discussões nas instituições escolares, propiciada até mesmo pela falta de preparo das/os educadoras/es como pelos ataques que os estudos de gênero vêm sofrendo a partir do projeto da “Escola Sem partido” e da “Ideologia de Gênero”. (LEAL e OLIVEIRA, 2018, online) Portanto, conforme o conceito de natural, que diz respeito a algo que é inerente, a determinada coisa, naturalizar significa atribuir qualidades essenciais ao que, na verdade, é fruto de atividades humanas, enquanto desnaturalizar é explicitar o caráter social de fenômenos concebidos como naturais. Neste caso, tanto naturalizar quanto desnaturalizar são situações que não ocorrem de fato, visto que não é plausível inserir uma essência em algo ou destituí-lo de uma. Por isso, quando se reflete sobre desconstruções e desnaturalizações desses papéis, verifica-se que as relações de gênero estão presentes na sociedade e na escola, de modo que a sexualidade também é afetada a partir do gênero. Ao se construir o “sujeito homem” e o “sujeito mulher” na configuração universalizante também se estabelecem as condições sexuais e desejantes destes, reproduzindo discursos naturalizantes, referentes aos primeiros papéis sociais recebidos, mesmo antes de nascermos, parecendo inerentes a nós ou a uma heteronormatividade que contraria a ideia das diferenças e institui padrões de relacionamento para os indivíduos. (LEAL, C. J.; OLIVEIRA, L.B.2018, online) Como dito, percebe que nossa sociedade dualista, que ressalta valores binários e institui diferenças hierárquicas entre os sujeitos, tem causado preconceitos, violências e discriminações de toda ordem, em especial, a violência de gênero a partir de estereótipos presentes na linguagem das práticas discursivas orais e escritas arraigadas no patriarcado, as quais demandam reflexões pedagógicas do uso das redes sociais neste nicho comunicativo. Assim, usadas das formas mais inusitadas possíveis, as redes sociais não podem ser desvinculadas das possíveis propostas educativas das quais possam fazer 37 parte, à medida que elas denotam novas práticas discursivas necessárias para serem incorporadas as práticas sociais, especialmente as educacionais, capazes de minimizar as possíveis barreiras entre a realidade do indivíduo e seu processo social ou educativo. Baseada em uma estrutura social composta por indivíduos conectados por um ou vários tipos de relações, observa-se que as redes sociais subsidiam a possibilidade de compartilhamento de informações, conhecimentos, interesses e esforços em busca de objetivos comuns e podem ser desenvolvidas e aplicadas a diferentes temáticas, tais como a deste estudo, que se refere a violência de gênero. (ARAUJO & VILAÇA, 2017). Contudo, há que se considerar os processos de interações comunicacionais como propriedade, em maior ou menor grau, considerando tais interações como parte das percepções do universo contextual dos envolvidos que são influenciados por elas e por suas motivações particulares e que proporciona a propriedade de “social” a estes espaços digitais: [...] a interação é aquela ação que tem um reflexo comunicativo entre o indivíduo e seus pares, como reflexo social. A interação, pois, tem sempre um caráter social perene e diretamente relacionado ao processo comunicativo (RECUERO, 2009, p.31). Assim, o uso das redes sociais na ação pedagógica tendo como temática a linguagem inclusiva de gênero possibilita, conforme Recuero (2009), laços sociais, a partir da qualidade das interações e das trocas sociais estabelecidas entre os atores, as quais proporcionam a difusão das informações a partir de conteúdos e mensagens de forma mais rápida e mais interativa. É uma estratégia propícia às práticas pedagógicas para desnaturalização de estereótipos e construção de uma cultura comunicativa mais humanizada: hipótese que se pretende demostrar nesta dissertação. 3 O TIKTOK COMO ELO DA COMUNICAÇÃO: ASPECTOS TÉCNICOS E LINGUÍSTICOS Este capítulo versa especificamente sobre os aspectos técnicos, sociais e inclusivos do TikTok característicos de sua multimodalidade linguísticas motivacionais e produtoras de sentidos significativos as práticas discursivas sociais que podem caracterizá-lo como interferente na aprendizagem pedagógicas, enquanto rede social. 38 3.1 A plataforma TikTok e as redes sociais digitais As “redes sociais digitais” são uma das formas dos indivíduos se relacionarem na internet. “[…] São as relações interpessoais mediadas pelo computador que acontecem através da interação social em busca da comunicação” (FREITAS, 2010, online). Já o termo mídias digital se refere a qualquer meio de comunicação que se utilize de tecnologia digital para proporcionar trocas de informações, ideias e interesses. Portanto, pode-se afirmar que toda rede social é uma mídia social formada por comunidades, sejam elas presenciais ou virtuais. De acordo com Lévy (1999, p. 127): uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. Vemos ainda que, a mídia social nasce a partir da interação gerada por algum interesse, que não exige vínculo e não há obrigatoriedade de reciprocidade neste processo (PEREIRA; COELHO; MONTEIRO, 2019). O TikTok é uma modalidade de mídia social de destaque na atualidade. É “um dos espaços mais comuns de compartilhamento de informação, conteúdo e conhecimento em rede, que cada vez mais, se populariza e é constantemente alimentado por seus próprios membros” (MONTEIRO, 2020, p.11). É um aplicativo ou programa de computador concebido para processar dados eletronicamente, com o intuito de resolver problemas e facilitar a execução de tarefas, apropriadas para gerar e produzir audiovisuais de quinze a sessenta segundos pelos usuários, oferecendo amplos recursos para editá-los. É possível incluir filtros, legendas, trilha sonora, gifs, fazer cortes e usar a criatividade, sendo construído com linguagens de programação específica para celulares, utiliza-se de sistemas operacionais Android (Google) e/ou iOS (Apple). Segundo Monteiro (2020, p.11) ele “[...] tornou-se o aplicativo mais baixado na App Store e está entre as dez mídias sociais mais acessadas no mundo, com mais de oitocentos milhões de usuários ativos.” Nos últimos anos, tornou-se uma das maiores plataformas de aprendizagem do mundo: está disponível em mais de cento e cinquenta mercados e 75 idiomas, considerado o mais baixado, em mais de quarenta países. Nele, os criadores fazem uma variedade de vídeos curtos sobre uma diversidade imensa de 39 assuntos, desde dicas de culinária a movimentos de dança e habilidades matemáticas. A hashtag #LearnOnTikTok atualmente tem mais de sete bilhões de visualizações. Criado em 2016 pela startup chinesa Byte Dance, o aplicativo TikTok cresceu após a aquisição do Music.ly, uma ferramenta com as mesmas funcionalidades, com conteúdo em formato multimídia que permite a seus usuários postar e compartilhar vídeos de até sessenta segundos. “É o principal destino para vídeos móveis de formato curto. Nossa missão é inspirar criatividade e trazer alegria” (TIKTOK, 2020, online). Conforme dados do TikTok (2020), o aplicativo tem, além da missão de “inspirar a criatividade e trazer alegria”, o objetivo de [...] “criar um espaço acolhedor para todos”. E ainda, preconiza a segurança, a diversidade, a inclusão e a autenticidade, informando que oferece um ambiente seguro que ajuda a todos seus usuários a se expressarem espontaneamente (TIKTOK, 2020). Seu formato permite a produção de vídeos curtos que podem ser editados muito facilmente, com dublagens divertidas, músicas de fundo, gráficos, filtros e hipertextos. Ele oferece a seus usuários, especialmente aos jovens e adolescentes, ambientes virtuais fascinantes para entretenimentos e interatividade. Tais formatos com suas múltiplas linguagens tornaram-se mais ativos pelos usuários na rede web, destacando-se a produção de conteúdo em diferentes formas como desafios, duetos, vídeos de reações com as famosas e divertidas “dancinhas” ou o contar uma história impressionante ou compartilhar uma curiosidade. Hoje, o gênero digital TikTok tornou-se o preferido dos millenials, (do inglês: Millenials), cujo conceito sociológico se refere à coorte social, ou grupo de pessoas “dos nascidos após o início da década de 1980 até, aproximadamente, o final do século XX” (Wikipédia, 2021, online). Com clipes engraçados, desafios de hashtags numa linguagem mista de efeitos sonoros e visuais em vídeos criativos, observa-se que o TikTok se tornou o ambiente virtual favorito dos estudantes, que continuam aprendendo em espaços outros, que não os da sala de aula, mesmo em meio ao contexto de isolamento social durante a quarentena. Protagonizando-se entre as redes sociais mais visualizadas , o aplicativo vem ganhando simpatia global por seu formato divertido e leve na hora de ocupar a memória do celular, dispositivo mais usado por jovens e adolescentes, consolidando-se como “[ ] o mais popular na pandemia de Covid-19” superando o YouTube em número de downloads que atingiu 78 milhões só no último mês de abril” (EDITOR CM. 2020, online). https://www.consumidormoderno.com.br/author/editorcm/ 40 Como dito, ao permitir produções autorais e compartilhamento de vídeos na Internet de maneira simples e prática, os jovens e adolescentes fazem dublagens, transições, desafios, duetos e as famosas reactions, que demandam habilidades e competências como criar, analisar, formatar e a capacidade de síntese de um conteúdo, em apenas sessenta segundos. Além de assistir aos vídeos, que permitem interações entre si, seus usuários ainda podem: seguir perfis, curtir e comentar publicações, criar efeitos enriquecedores dos conteúdos audiovisuais e de produções cada vez mais individuais, personalizadas, mesmo que isso demande a criação de uma conta na plataforma. Percebe-se assim que, uma vez inscrito e logado, os usuários têm à disposição um excelente rol de efeitos especiais para aplicar aos seus vídeos tornando-os mais exclusivos, é de fácil acesso. Seu crescimento tem sido exponencial nas diferentes faixas etárias, sexo, etnia, carreira ou classe social, embora já tenha sido acusado – pela The Intercept Brasil (2020, online) - de instruir seus moderadores de conteúdo, a suprimir publicações de utilizadores considerados “muito feios, pobres ou com deficiências”. Conhecido como Douyin na China - é um aplicativo de mídia digital para criar e compartilhar vídeos curtos, que se diferencia das demais redes sociais pelo seu mecanismo de interação. Ao começar a usá-lo, o usuário já tem a sua disposição alguns vídeos populares e, conforme vai interagindo, outros conteúdos relacionados são sugeridos. Essa inteligência artificial diferenciada é outro ponto a favor de sua popularização, além de sua simplicidade e ludicidade. Somado as características apontadas, também é possível escolher o conteúdo de sua preferência, seguir o perfil de outros e compartilhar vídeos com os seguidores (TIKTOK, 2020). Apesar de não ser necessário criar uma conta para ter acesso aos vídeos pelo desktop, o aplicativo exige que seus tiktokers façam login para visualizar e publicar qualquer conteúdo via smartphone. Para Monteiro (2021) “o aplicativo, que vem crescendo desde os meados de 2019, se popularizou nos últimos meses devido ao distanciamento ou isolamento social recomendado para evitar a proliferação do novo coronavírus, Covid-19” conforme podemos observar na figura 2. 41 Figura 2 - Os apps mais Tops de 2019, em termos de acessos Fonte: Tech Tudo, 2020 No Brasil não foi diferente: situa-se entre as dez mídias sociais na Web mais acessadas, oportunizando um lugar de encontro independente de interesses, que oferece espaço para momentos de alegria e inspiração, nunca tão relevante quanto se fez em 2020 no contexto de Pandemia Global, devido a perda do convívio social e das dificuldades e incertezas pessoais e econômicas em todo o mundo. Seu público quer autenticidade e diversidade nos conteúdos e prefere expressar a sua individualidade de maneira descontraída. Por isso dentre as estratégias do TikTok estão os mecanismos de contar uma história (ex.: #historiasdetiktok), de compartilhar dicas (ex.: #secuida), de participar de uma campanha (ex.: #agostolaranja) ou fazer uma brincadeira (ex.: #lookolhosvendados), além do usuário poder ver as quais challenges estão bombando no momento, na aba “Descobrir” e explorar as hashtag. Em meio a um turbilhão de mudanças, o TikTok veio proporcionar, por sua expressão e criatividade, principalmente entre os jovens e adolescentes, o senso de comunidade e conexão, ainda que separados fisicamente, tornando-se um dos apps mais baixados em 2020. (Figura 3). https://www.tiktok.com/tag/historiasdetiktok?lang=pt_BR https://www.tiktok.com/tag/secuida?lang=pt_BR https://www.tiktok.com/tag/agostolaranja?lang=pt_BR https://www.tiktok.com/tag/lookolhosvendados?lang=pt_BR 42 Figura 3 - TikTok, WhatsApp e Facebook entre apps mais baixados Fonte: Tech Tudo, 2020 Para Monteiro (2020, p. 12): O aplicativo se destaca pelo público estratégico que alcança: cerca de 66% de seus usuários têm menos de 30 anos, uma geração de jovens conectados com idade majoritariamente entre 15 e 25 anos, que costumam gravar esquetes de humor ou dublagem de músicas, filmes, séries e demais vídeos da internet. (Figura 4). Figura 4 - Ferramentas do TikTok Fonte: TikTok, 2020 O TikTok também apresenta contribuições para o processo de aprendizagem ao possibilitar a produção e divulgação de conteúdos educativos capazes de despertar “a curiosidade e o engajamento dos alunos aumentando o interesse pelos estudos e tornando o ato de aprender mais motivacional, colaborativo, interativo e, principalmente, significativo” (MONTEIRO, 2020, online). Ainda segundo o autor, além de trazer contribuições significativas para a aprendizagem criativa, “a produção de vídeos no TikTok promove maior interação dos alunos no processo de construção do 43 próprio conhecimento e permite o desenvolvimento de habilidades e competências educacionais.” Já sobre sua linguagem ideal, o app resolve quem serão seus usuários, qual sua previsão de crescimento (escalabilidade) e se é preciso que seja compatível com outras linguagens, pois ele é acompanhado de um Sistema Servidor (também chamado de back-end), que é responsável pelas regras de negócio e pelo armazenamento de dados. 3.2 As linguagens e a produção de sentido do TikTok Com uma “interatividade funcional” proporcionada pelas diferentes linguagens que nos atinge pelos diversos sentidos e maneiras, o audiovisual além de ser atrativo, conforme Moran (1995, p.27) “informa, entretém e nos projeta em outras realidades (no imaginário), em outros tempos e espaços”. Como isso, a abordagem humorística contida nos vídeos do TikTok contribui para um aprendizado mais agradável, podendo ser útil tanto para distribuição de conteúdo curriculares, quanto para a produção colaborativa, além de fluência tecnológica na plataforma, mediações pedagógicas para possíveis adequações da linguagem e domínio de variantes linguísticas em diferentes níveis de formalidade (inclusive o registro formal) adequadas ao público e à situação comunicativa contextual. Para Barin (2020, online), apesar dos estudantes serem considerados nativos digitais e usuários de redes sociais, há uma diferença significativa para eles, entre criar vídeos recreativos para o lazer e os de conteúdos educacionais: [..] a produção de conteúdo requer dos estudantes não apenas apropriar-se da tecnologia, mas buscar informações sobre o conteúdo e compreender sua dinâmica para assim gravar sua produção. Além disso, os estudantes desenvolvem outras habilidades, como a criatividade, a resolução de problemas, a organização, o senso crítico, características tão importantes para o mundo do trabalho. Num ambiente virtual rico em linguagem mista e polifônica, propício a construções dialógicas, o TikTok oportuniza práticas discursivas interativas por diferentes modalidades linguísticas que se complementam, “uma vez que, em determinados atos comunicativos, apenas a verbal ou apenas a não verbal não se faz suficientes” (CASTRO, 2021, online), propiciando a criação de comunidades discursivas apoiadas na interconexão e em interesses comuns. 44 Utilizada de forma recreativa, a plataforma permite aos jovens e adolescentes aproximarem-se de temas complexos de maneira lúdica, criativa e carregada de conotatividade que dão leveza ao assunto, como o uso dos memes (Figura 5). Quando um assunto é apresentado com memes, de forma descontraída e despojada, livre das formalidades da língua padrão, este tende a cativá-los ainda mais e a compartilhá-los não só entre seus pares, mas a toda uma rede social. Tais práticas torna-se a representação virtual de uma comunidade social exaltadas pelo uso da linguagem mista de maneira coloquial. Dentre o uso da linguagem mista, destaca-se o da linguagem corporal (postura, olhares, expressões faciais,) que deixa seus usuários, principalmente os mais tímidos, mais à vontade para a externar e expressar seus pensamentos, seus modos de agir e estilos próprios de suas comunidades discursivas. Toda essa expressividade linguística permite, sob um olhar atendo do educador, uma melhor mediação do ensino aprendizagem. (Figura 5). Figura 5 - Memes na educação Fonte: Portal Deviante, 2020 Destarte, apesar de desafiadora, tais atividades proporcionam aos estudantes oportunidades de aprender não apenas o conteúdo específico, mas também contribui para romper com os paradigmas estruturais do ensino-aprendizagem tradicionais, centradas no professor, à medida que tais práticas de apresentação e produção de conteúdo demandam além da apropriação satisfatória das tecnologias digitais, a busca 45 de informações sobre o conteúdo e a compreensão de sua dinâmica para assim “desenvolverem outras habilidades, como a criatividade, a resolução de problemas, a organização, o senso crítico, características tão importantes para o mundo do trabalho” (BARIN, 2020, online): Assim, podemos inferir que o uso do TikTok no contexto educacional pode se dar em mais de uma dimensão, ou seja, tanto na distribuição de conteúdo, como nos processos avaliativos criativos, que requerem do estudante uma posição de protagonismo, rompendo com os velhos paradigmas da educação pautados na mera transmissão do conhecimento. Esses processos criativos requerem níveis cognitivos mais elevados, podendo contribuir de forma mais efetiva para a construção de saberes, visto que demandam maior esforço da memória de trabalho e, comumente acessam a