UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” CAMPUS DE SÃO PAULO - INSTITUTO DE ARTES BACHARELADO EM ARTES VISUAIS “A BELEZA INFINITA DE UMA TELA EM BRANCO” VÍCTOR DE MELLO BENEVIDES ALVES SÃO PAULO 2023 VÍCTOR DE MELLO BENEVIDES ALVES “A BELEZA INFINITA DE UMA TELA EM BRANCO” Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” como pré-requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais, sob a orientação do Professor Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira. Orientador: Pelópidas Cypriano de Oliveira SÃO PAULO 2023 Ficha catalográfica Ficha catalográfica desenvolvida pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Artes da Unesp. Dados fornecidos pelo autor. A474b Alves, Víctor de Mello Benevides, 1998- A beleza infinita de uma tela em branco / Víctor de Mello Benevides Alves. -- São Paulo, 2023. 68 f. : il. color. Orientador: Prof. Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira. Coorientador: Ricardo de Araujo Kobayashi Junior. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Artes Visuais) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Instituto de Artes. 1. Arte - Estudo e ensino. 2. Cinema - Produção e direção. 3. Artistas - Narrativas pessoais. 4. Curta-metragem. I. Oliveira, Pelópidas Cypriano de. II. Kobayashi Junior, Ricardo de Araujo, 1996-. III. Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes. III. Título. CDD 791.436 Bibliotecária responsável: Laura M. de Andrade - CRB/8 8666 VÍCTOR DE MELLO BENEVIDES ALVES “A BELEZA INFINITA DE UMA TELA EM BRANCO” Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” como pré-requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais. BANCA EXAMINADORA __________________________________________________________ Orientador Prof. Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira Unesp - IA ____________________________________________________________________ Ricardo de Araujo Kobayashi Junior AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a minha família, que permitiu que eu dedicasse anos da minha vida ao meu sonho, e me acompanha na minha jornada até hoje; à minha mãe Cristina, à minha tia Sílvia, à minha avó Gertrudes, e à minha pequena prima Maria Clara. Agradeço aos meus amigos, que enxergaram humanidade em mim e, acreditando em mim, me ensinaram a acreditar também; aos amigos que perdi e aos amigos que deixei para trás, e mais do que tudo aos que aqui ainda estão. Mais do que todos, agradeço à minha parceira de vida Victoria, que todo dia continua a me mostrar a beleza do espírito humano. Agradeço também aos nossos filhos adotivos, Pinky, Farinha, Baco, Pudim, e Nina. Por fim, agradeço ao meu orientador, o Professor Dr. Pelópidas, assim como o membro da banca Ricardo Kobayashi, por todo o apoio, conselhos e auxílio que os dois proporcionaram ao longo da produção deste projeto. RESUMO O intuito deste trabalho de conclusão de curso é, em primeiro lugar, examinar o processo de mistificação da Arte, e as consequências deste fenômeno na produção artística. Para este fim, a primeira parte deste texto é uma análise em retrospectiva da minha vida e jornada artística, do meu nascimento até a vida adulta, enquanto que a segunda parte relata a produção do filme “A Beleza Infinita de uma Tela em Branco”, um curta-metragem produzido, escrito, dirigido e editado por mim, gravado em Super 8, cuja história deverá servir como uma meditação a respeito dessas ideias traduzida para a linguagem artística do Cinema. Este é um projeto pessoal, no qual estarei examinando memórias e ideias fundamentais à minha personalidade e minha identidade artística. Em outras palavras, este projeto deve servir como uma forma de terapia. Palavras-chave: audiovisual, Cinema, cinema analógico, cinema independente, processo criativo ABSTRACT The intent of this Course Conclusion Work is, primarily, to examine the process of mystification of Art, and the consequences this phenomenon poses for artistic production. To that end, the first part of this text is a retrospective analysis on my life and artistic journey, from my birth till manhood, whereas the second part details the production of the film “The Infinite Beauty of a Blank Canvas”, a short film produced, written, directed and edited by myself, shot on Super 8, the story of which shall serve as a meditation on these ideas, translated to the artistic language of Cinema. This is a personal project, one in which I will be examining memories and ideas which are fundamental to my personality and my artistic identity. In other words, this project shall serve as a form of therapy. Keywords: audiovisual, Cinema, analog cinema, independent cinema, creative process SUMÁRIO 1 Introdução……………………………………………………………………… 10 2 Menino Bolha…………………………………………………………………...11 2.1 Homem-Aranha………………………………………………………………..11 2.2 The Walking Dead……………………………………………………………..18 2.3 As Crônicas de Gelo e Fogo….……………………………………………...27 2.4 Baco Exu do Blues …..…………………………………………………...…..32 3 O Projeto…………………………………………………………………………41 3.1 Ideias rejeitadas…………………………………………………………… ....41 3.2 A ideia certa…………………………………………………………………….44 3.3 Roteiro…..………………………………………………………………………45 3.4 Pré-produção….………………………………………………………………..54 3.5 Produção….…………………………………………………………………….66 3.6 Pós-produção……….………………………………………………………….67 4 Conclusão……………………………………………………………………….68 Referências……………………………………………………………………...69 10 1 INTRODUÇÃO Eu não nasci artista. Não nasci com talento. Eu não acredito que “talento” exista, e considero a ideia por si só sintoma de uma doença cultural. Uma doença que tenta nos impor, através de ideias como essa, a falácia determinista de que certos indivíduos são inerentemente melhores do que outros. No final das contas, eu sou um indivíduo nada excepcional, de origens nada excepcionais. Analisando minha trajetória artística até este ponto, eu não posso oferecer uma história iconográfica de superação, muito menos uma narrativa mítica de herança cultural. Mas por muito tempo acreditei na mentira. Incentivado por minhas circunstâncias e por aqueles ao meu redor a me considerar especial, imaginei que a conquista viria até mim. Tais noções me impediram de transformar minhas paixões em objetivos, e meus estudos em treinamento. A mentira me levou a achar que minhas dores me tornavam especial, e que minha aptidão era inerente. Nas próximas páginas, dissertarei sobre a importância do Cinema em minha vida, e sobre a jornada que me levou à ideia deste projeto. 11 2 MENINO BOLHA Sobre esta primeira parte: minha família nunca foi muito comunicativa, então a informação que apresentarei nesses primeiros parágrafos sobre minha história familiar será esparsa e pode conter alguns equívocos. Muitos desses fatos eu acabei descobrindo por acidente, ouvindo conversas entre membros mais velhos da minha família. 2.1 Homem-Aranha Nasci pobre, e pelos primeiros meses da minha vida, morei em São Bernardo do Campo. Era uma casa pequena, mas nela moravam meus avós maternos, minha mãe, minha tia e talvez até meu pai. A família da minha mãe já havia passado dificuldades financeiras traumáticas, e até onde eu sei, minha mãe foi a primeira pessoa da família a cursar o Ensino Superior. Eu não sei se ela não conseguiu ser aprovada em uma instituição pública ou se foi por escolha própria, mas eu sei que meus avós não poderiam pagar uma faculdade particular, então ela começou a trabalhar com 17 anos, e usou o dinheiro para pagar o próprio ensino. Meu pai veio de origens extremamente humildes, e há muito que eu não sei da sua história familiar. Eu sei que ele passou boa parte da sua juventude no interior, e que sua família já viveu no sertão da Bahia. Muito do que eu sei sobre sua juventude vem de histórias horríveis que ele me contou quando eu era criança. Houve uma ocasião em que ele espiou dentro de uma panela na qual minha avó estava cozinhando uma galinha inteira, e ele viu o corpo decapitado da ave se debatendo contra o calor da panela. Eu sei que assim que sua família se mudou para São Paulo, ele começou a trabalhar em uma oficina mecânica, ainda criança. Ele me contou da ocasião em que roubou a Kombi da minha avó com nove anos de idade e causou um acidente na Avenida Cupecê. Ele me mostrou uma foto dele em um dos seus primeiros empregos, no qual ele era abaixado para dentro de um túnel de mineração em um balde, acendia uma banana de dinamite debaixo da terra, e era içado novamente antes que a dinamite explodisse. 12 Meus pais se conheceram porque meu pai estava namorando uma prima da minha mãe, e minha tia por parte de mãe estava namorando o irmão do meu pai. Não sei exatamente quando o relacionamento começou, mas quando eu nasci minha mãe ainda morava na casa dos pais em São Bernardo do Campo. Ela tinha 32 anos. Dentro de alguns meses, ela juntou todo o dinheiro que podia e nos mudamos para um apartamento de 45m2 em um conjunto habitacional na Cidade Ademar. Quando eu tinha cinco meses de idade, meus pais terminaram, e meu pai foi morar no interior. Meus pais continuaram em contato após a separação, pelo meu bem. Em retros- pectiva, enxergo como isso não serviu a mim ou à minha mãe de forma alguma. Meu pai, morando no interior, pôde ter carreiras diferentes, correr atrás de vários sonhos, e cultivar uma vida social saudável sem ne- nhuma responsabilidade. en- quanto que minha mãe teve que sustentar um filho sozinha, enquanto trabalhava dez horas por dia em um emprego insalubre e cuidava dos seus pais. Descobri quando adulto que meu pai nunca pagou pensão, e que a ajuda finan- ceira que ele proporcionava du- rante minha infância e ado- lescência consistia em um valor simbólico e inconsistente, equi- valente a R$300 por ano. Foi só na minha vida adulta que vi a desproporcionalidade dos far- dos atribuídos a cada um. Figura 1: Foto minha com meus pais Fonte: acervo pessoal do autor 13 Desde pequeno cultivei uma paixão por Cinema, ilustração e toda forma de arte narrativa, e não levou muito tempo até que essas paixões se tornassem uma parte fundamental da minha personalidade. Minhas memórias mais antigas são todas informadas pela arte que eu consumia quando criança. Me lembro de assistir Homem-Aranha no cinema aos três anos de idade, fascinado com as sequências de ação. Me lembro de desenhar o Bob Esponja no chão da casa dos meus avós, e de como eu e um amigo nos divertimos tentando bolar uma fórmula estrutural para ilustrar os X-Men. Me lembro da minha mãe gritando comigo depois de me chamar muitas vezes, porque eu estava distraído brincando com meu boneco do Homem-Aranha. Cada vez mais, meus pensamentos foram sendo completamente tomados pelas histórias que me cativavam. Nascido em uma família sem muita estrutura para me criar ou para cultivar meus interesses, vivi realidades diferentes simultaneamente ao longo da minha infância, e em cada uma dessas realidades aprendi sobre arte e a experiência humana. Morava com a minha mãe na Cidade Ademar. Morávamos ao lado de uma favela, e minha mãe sempre foi uma pessoa paranoica com ideias questionáveis relacionadas à classe e criminalidade, então nessa realidade, não pude criar amizades ou conexões na vizinhança. Minha mãe sempre teve medo de que se eu fosse jogar bola na quadra, seria exposto ao consumo de drogas ou recrutado pelo tráfico. Mais do que isso, minha mãe nasceu em meados dos anos 60, e cresceu no sistema de educação público durante a ditadura militar. Até hoje ela carrega noções idealistas sobre mérito e sucesso, ideias pelas quais ela sacrificou sua juventude, trabalhando mais do que qualquer pessoa deveria trabalhar, sem descanso, para garantir confortos a ela e a mim. Ela nunca gostou de morar em um conjunto habitacional. Essa realidade foi marcada por solidão. Não conhecia meus vizinhos e minha comunidade, e minha mãe sempre foi uma pessoa quieta, sem muito tempo ou energia para viver experiências novas ou me ensinar muita coisa. Mas ela, assim como eu, gostava de filmes. O primeiro DVD que compramos foi Vida de Inseto, e logo nossa coleção começou a crescer. Homem-Aranha; 14 O Senhor dos Anéis; Harry Potter; Matrix; Piratas do Caribe; Hellboy; Constantine; Guerra dos Mundos; Eu, Robô; A Múmia; Van Helsing; Tarzan. Esses filmes me cativaram profundamente, e alimentaram meu interesse pelo Cinema. Eu tinha cinco anos quando assisti Matrix pela primeira vez, então ainda estava aprendendo a ler, mas o DVD não tinha uma faixa de áudio dublada em português, então minha mãe assistia ao meu lado e lia as legendas em voz alta. Matrix foi um dos filmes que mais capturou minha imaginação e incentivou minha criatividade quando criança. Era um filme que fazia eu me sentir como se estivesse lá, na imundice cinzenta do mundo das máquinas, ou lutando contra os agentes nas ruas polidas da Matrix. Havia algo na linguagem cinematográfica que fazia aquele mundo parecer mais real e tangível do que outros filmes, e isso foi um dos primeiros fatores a despertar minha curiosidade a respeito do processo de criação no Cinema. Estudava próximo à Avenida Cupecê, em uma escola de bairro chamada Novo Espaço. Lá não me destaquei academicamente. Tinha uma memória excepcional e uma facilidade em observar os padrões que tentavam nos ensinar, então sempre fui muito bem em provas, mas nunca tive a motivação ou o interesse de estudar, ou fazer lição de casa, então nunca me dei ao trabalho de tentar. Essa realidade também foi marcada por solidão. Não tive facilidade em me enturmar, e não fiz muitas amizades duradouras na escola. Aparentemente, viver isolado de contato humano em casa acabou atrasando o desenvolvimento de certos traquejos sociais que as outras crianças já tinham adquirido. Mas essa realidade também foi marcada pela atenção que recebi por conta do meu gosto por ilustração. Enquanto as outras crianças estudavam ou conversavam durante a aula, eu desenhava, e ao invés de receber críticas dos professores, recebia elogios e comentários de incentivo. Me diziam que eu tinha talento, que eu era especial, e eu comecei a acreditar. Passava minhas tardes na casa dos meus avós em São Bernardo do Campo. Era uma casa pequena e simples em uma rua pacata, com uma infestação interminável de baratas que provavelmente criou a fobia que tenho das criaturas até hoje. Minha avó era ainda mais quieta que a minha mãe, 15 com ansiedades ainda mais graves a respeito do mundo. Ela passava a maior parte do tempo cuidando dos afazeres domésticos, sozinha. Meu avô era um alcoólatra profundamente deprimido e estagnado, embora eu não compreendesse isso na época. Eu imagino que na maioria das lembranças que eu tenho dele, ele estava bêbado. Nenhum deles me ensinou muita coisa. Essa realidade também foi marcada por solidão, mas também me proporcionou mais aprendizado artístico do que qualquer outro lugar. Na sala, tinha uma TV de tubo com o que minha mãe hoje descreve como TV a cabo (mas que eu acredito ter sido gatonet), e foi na frente dessa TV que eu passei as minhas tardes de semana pela maior parte da minha infância, assistindo tudo que o Cartoon Network e outros canais voltados à animação tinham a oferecer em meados dos anos 2000. As Terríveis Aventuras de Billy e Mandy; Coragem, o Cão Covarde; Yu Yu Hakusho; Cavaleiros do Zodíaco. Quando nada de interessante passava na TV eu desenhava, tentando emular a identidade visual de Mark Bagley, usando as poucas edições de Homem-Aranha Millennium que eu tinha como referência. Figura 2: Foto minha com meu pai, à cavalo Fonte: acervo pessoal do autor 16 Passava meus finais de semana e meus meses de férias com o meu pai no interior. Ele morava em um sítio pequeno próximo à Pilar do Sul, no interior de SP. Ele teve várias mudanças de carreira ao longo dos anos, mas por boa parte da minha infância ele foi adestrador de cavalos. Clientes entregavam cavalos por alguns meses, meu pai cuidava dos animais, adestrava, treinava, e devolvia o animal pronto para competição. Ele próprio chegou a participar de competições na juventude. Na parede do seu quarto, havia um retrato com uma foto dele a galope, ao lado de um troféu que ele ganhou em uma prova de tambor, uma conquista da qual ele se orgulhava muito. E não abrigávamos só cavalos. Ao longo da minha infância, recebemos ou adotamos dezenas de cavalos, várias vacas e bois, uma ovelha e mais de 100 cachorros. Houve uma época em que tínhamos 23 cachorros vivendo no sítio. Essa realidade foi marcada por incontáveis sentimentos diferentes e conflitantes, ao ponto que até hoje eu luto para assimilar o impacto que essas memórias têm na minha pessoa. Meu pai era um homem brutal, feito de contradições. Era um fanático religioso extremamente conservador. Ele acreditava na história de Adão e Eva, e não acreditava que os dinossauros tenham existido. Ele acreditava que retratações de violência na mídia eram uma abominação e um perigo para as mentes da juventude, mas colocou uma revista Playboy nas minhas mãos quando eu tinha sete anos. Era violentamente homofóbico, e repreendia com agressão toda atitude que não se adequasse aos seus ideais de masculino, uma vez avisando que me bateria se eu falasse “com voz de mulherzinha” novamente. Criticava fervorosamente a promiscuidade dos outros, mas cometeu adultério em vários relacionamentos. Frequentemente me contava histórias da sua juventude, muitas delas sobre transgressões que havia cometido, variando de contravenções amenas como furto de carros até crimes gravíssimos como estupro, sempre infantilmente orgulhoso das suas travessuras. Nunca bebeu ou fumou, e desprezava usuários de drogas. Tudo isso, eu assimilei como normalidade durante a infância, e só depois de adulto pude analisar de forma crítica esses aspectos da minha criação. 17 Ainda assim, o tempo que passei no interior me ensinou muito. Não sobre arte. Quando no interior, nossa única opção de entretenimento midiático era comprar um DVD pirata do Ed na lan house de Pilar do Sul, e por alguns anos nem isso era uma opção, pois não tínhamos luz elétrica. No interior, aprendi muito sobre a vida, e sobre a impermanência da vida, e sobre a beleza e o terror do mundo natural. À tarde, o céu é composto do azul mais vívido que você pode ver, e tudo ao seu redor é estático, no seu devido lugar, desde as árvores, até a cerca, até as terras vizinhas no horizonte, e a única coisa que corta o silêncio é o assobio do vento ou o cantarolar distante dos passarinhos. À noite, o silêncio é cruel, e você só consegue ouvir os seus próprios passos na grama, e o mundo ao seu redor é um vazio interminável, um único tom de preto que nenhuma lanterna consegue penetrar, e a única luz no mundo é o céu estrelado. A paz e a beleza são constantes, no ar limpo que você respira, nos campos abertos em que você pode correr até perder o fôlego, nos animais brincando livres de qualquer responsabilidade. Mas a violência sempre aparece; quando a chuva cai, ela pode derrubar o seu teto ou afogar os seus animais ou te jogar para dentro de um rio; seus animais podem matar uns aos outros, ou adoecer, ou te atacar. Eu vi incontáveis animais nascerem, vi incontáveis animais morrerem, aprendi a dar vermífugo a um cavalo, aprendi a castrar um boi, aprendi a fazer colonoscopia em vaca, aprendi a dar injeção em cachorro, aprendi a sacrificar um animal doente, aprendi a andar a cavalo, e aprendi a atirar em ratos com espingarda. Próximo à natureza, a vida e a morte sempre te seguem. Dormia na Cidade Ademar, estudava na Cupecê, à tarde em São Bernardo e final de semana em Pilar do Sul. Em cada uma dessas realidades, eu tinha algo a aprender, e uma parte importante do meu crescimento foi aprender como eu podia conciliar essas realidades diferentes, e aprender também quando eu não podia. Ao longo da minha infância e adolescência, meu pai se envolveu em muitos relacionamentos com mulheres diferentes, enquanto que minha mãe nunca teve tempo ou espaço na sua vida para tentar de novo. Lembro de quando eu passei um final de semana com a minha primeira madrasta no interior, e ao chegar em casa, contei para minha 18 mãe como tinha sido, e a reação dela foi gritar comigo. A partir daí, meu pai me incentivou a não contar para a minha mãe quando eu passasse tempo com as minhas madrastas, e eu menti para ela em quase todos os finais de semana da minha infância. Figura 3: Foto de um aniversário Fonte: acervo pessoal do autor Por outro lado, eu observei desde muito novo que enquanto minha mãe me deixava ver filmes violentos, mas cobria meus olhos durante as cenas de sexo, meu pai me deixava ver filmes com sexo, mas cobria meus olhos em cenas violentas, e deduzi que se eu assistisse ao mesmo filme com os dois separadamente, poderia assistir a qualquer filme que eu quisesse por completo, independente das restrições. Saber manobrar os obstáculos ao seu redor é uma arte por si só. E é claro, meu evento familiar favorito era ir ao Cinema, um templo dedicado à arte que me cativava, que ainda por cima me permitia ter uma experiência comunal com a minha família, unida. 2.2 The Walking Dead Minha transição da infância para a adolescência foi um período de fortes mudanças e descobertas. Foi nessa época que fui apresentado a realidades novas, e tive que lidar pela primeira vez com questões de identidade. Minhas considerações filosóficas se tornaram mais significativas, e foi nessa época que meu gosto por Cinema e por histórias se aprofundou, através da descoberta de novas linguagens artísticas. 19 Sou ateu desde os dez anos de idade. Lembro de ler em uma apostila de Ciências na escola que alguns estudiosos acreditavam que a Humanidade teria criado o divino como forma de amenizar o terror nascente de sua compreensão da própria mortalidade, e que essa explicação fez mais sentido do que toda resposta teológica para meus questionamentos existenciais que eu tinha ouvido até então. Quando compartilhei meu novo ponto de vista com meu pai, ele reagiu de forma agressiva, então fingi ter sido convencido pelos próximos anos, mas entendi desde ali que a necessidade de convencer os outros através da coerção era sinal de uma fraqueza lógica da premissa. Minha mãe nunca foi muito religiosa, então ela nunca enxergou um problema nisso. De qualquer forma, me libertar da fé no divino foi fundamental para o descobrimento de ideias que informaram, e continuam a informar, meu crescimento pessoal. Eu tinha algo em torno de dez anos de idade quando minha avó veio morar conosco. Ela estava se afastando do meu avô, cujo alcoolismo o havia tornado agressivo e instável, e o abuso do álcool havia iniciado um quadro progressivo de demência. Pelos próximos dois anos, minha mãe e minha tia tentaram tratar a dependência do meu avô longe de mim e da minha avó, e eventualmente ele parou de beber. Pouco tempo depois, ele morreu. Minha vida pessoal encontrou um pouco de estabilidade quando minha mãe conseguiu juntar dinheiro o suficiente para se mudar comigo e com minha avó para um apartamento maior, em um condomínio de verdade, no Largo Treze. Essa conquista foi o resultado de anos de esforço, e minha mãe conseguiu nos garantir um pouco do “conforto” que ela queria. Eu não fiquei tão entusiasmado quanto ela. Eu gostava da nossa casa antiga e não entendia o porquê dela não gostar. Passei a estudar no Colégio Jesus Maria José, uma escola católica de bairro. O ímpeto da decisão que minha mãe tomou foi o mesmo que para a escola anterior. Ela acreditava que o ensino público era inadequado, então buscou o ensino particular mais acessível que pudesse encontrar. Não senti uma diferença imediata nas dinâmicas sociais desse novo ambiente, apesar de ser um espaço muito maior e mais bem construído, mas uma curiosidade 20 que eu percebi sobre as duas escolas é que na Cidade Ademar, algumas crianças eram zombadas por serem mais ricas que as demais, enquanto que nessa escola nova, algumas crianças eram zombadas por serem mais pobres que as demais. Também não tive muita facilidade em me enturmar na escola nova. Meu interesse por Cinema e narrativas já estava se tornando um pouco mais sofisticado nessa época. Ainda na escola antiga, em duas ocasiões eu e um colega havíamos invadido a sala de informática durante o intervalo e usado um dos poucos computadores disponíveis para assistir filmes ilegalmente na Internet. Era nossa intenção assistir a filmes que sabíamos que nenhum de nossos pais nos deixaria assistir. Foram nessas ocasiões que assistimos os primeiros minutos de Jogos Mortais VI, assim como os primeiros minutos de Ninja Assassino. Essas duas cenas despertaram uma gama de possibilidades criativas na minha mente, e eu percebi que existia uma imensidão de filmes que eu não conhecia, mas que queria conhecer. Em retrospectiva, eu consigo enxergar o porquê do meu fascínio. Praticamente todos os filmes que haviam me cativado quando criança eram moralmente simples e emocionalmente reconfortantes. Não havia complexidade, pois os protagonistas eram sempre carismáticos e exemplares, e mesmo quando agindo contra a ordem vigente, eram retratados transparentemente como heroicos. E não havia risco, pois os heróis sempre saiam ganhando. É uma perspectiva filosófica similar a de muitas religiões, simples e determinista. Em filmes considerados adequados para crianças, existia uma determinação moral objetiva e destino fixo, enquanto que esses filmes voltados para um público adulto não pareciam ter. Em outras palavras, eu descobri que existiam filmes sem Deus e me apaixonei. Me lembro de assistir o remake de Sexta Feira 13 nessa época, de pé em frente à TV de madrugada, a incerteza e o perigo da trama (em retrospectiva, extremamente rudimentar) infinitamente cativantes. Com um computador em casa, se tornou habitual passar a madrugada acordado assistindo filmes de terror. Ao mesmo tempo, eu estava desenvolvendo um interesse especial por narrativas de longa duração, em grande parte devido ao manga Naruto. Tinha 21 começado a ler a partir do volume 15, que um colega da antiga escola havia me emprestado em um dia de aula. Me apaixonei pela arte, não só pelo traço, mas pela identidade visual da história. Nunca havia lido um manga, assim como nunca havia colecionado nenhuma revista em quadrinhos, então nem imaginava qual seria o padrão de lançamento. O próximo volume que comprei foi o 17, e depois o 20. Quando descobri que era um lançamento mensal, me comprometi a comprar todos os próximos lançamentos, ao mesmo tempo em que iria caçar os primeiros volumes, que estavam faltando. E assim fiz. Segui a história até o final, e me emocionei com cada novo volume que saía. Novamente, mesmo sem o repertório ou as ferramentas para discernir o que eu sentia, eu sabia que havia algo ali, na estrutura narrativa, que me capturou. Por alguns anos, voltei a ilustrar com uma frequência muito maior, e minha arte foi profundamente influenciada por estilos orientais. E mais importante do que isso, as lembranças que eu mantenho até hoje, da história e de sua estrutura, informam profundamente o meu entendimento de estrutura narrativa. Tenho, até hoje, todos os 72 volumes de Naruto em uma gaveta no meu quarto. Nunca gostei do anime. A TV a cabo também foi uma descoberta relevante nessa época. Foi revolucionário ter, de repente, uma disponibilidade aparentemente ilimitada de conteúdo a se descobrir, e canais o suficiente para criar todo um ecossistema de opções. Rapidamente me familiarizei com os canais que me interessavam, e a eles dediquei muito do meu tempo livre. Os canais dedicados exclusivamente à transmissão de filmes, é claro, foram essenciais para a minha contínua descoberta de gêneros e experiências novas. Me lembro que filmes de terror, filmes violentos de ação e comédias “pastelão” dessa época chamaram minha atenção. Mas é claro, ainda criança, também dediquei muito do meu tempo a canais de animação, embora fosse mais difícil do que antes encontrar conteúdo que prendesse minha atenção em canais voltados a um público infantil. Fiquei interessado no canal Animax, dedicado à transmissão de animes o dia inteiro. Dos que pude assistir no meu tempo livre, Fullmetal Alchemist foi o que mais me marcou. Nessa mesma época, descobri os Simpsons, e essas duas séries mudaram por completo minha perspectiva do que “desenhos animados” poderiam ser. Eram cheios de violência estilizada, 22 profanidades, e assuntos adultos o suficiente para serem incompreensíveis para uma criança da minha idade. E em meados de 2010, tive uma experiência que informou minha trajetória artística de forma imensurável. Estava de pé, em frente à TV, assistindo aos Simpsons, como fazia todos os dias ao voltar da escola, quando de repente, no intervalo comercial, vi uma cena de um homem, vestido com roupões hospitalares, andando pelos corredores desertos e depredados de um hospital abandonado, e encontrando no final de um corredor, portas marcadas com as palavras “NÃO ABRA MORTOS DENTRO”, as trancas acorrentadas e lacradas a cadeado. Ele ouve, horrorizado, grunhidos do outro lado, e mãos em necrose atravessam a fresta entre as portas, procurando algo para agarrar. O título aparece: The Walking Dead. Por meses, fiquei obcecado, pesquisando informações sobre a série, revirando material promocional, ansioso pela estreia. O primeiro episódio foi transmitido no Brasil pela Fox na noite do dia 2 de Novembro de 2012, e foi tudo que eu esperava e muito mais. A violência chocante, a complexidade moral, os conflitos emocionais, a injustiça onipresente na história, a tragédia. Eu nunca tinha tido uma experiência como aquela antes. No dia seguinte, eu pesquisei em todos os lugares que eu pude, procurando descobrir quando a série seria lançada em DVD. Minha mãe me disse que levaria tempo, e depois de ler uma matéria em uma revista que dizia que a primeira temporada teria apenas seis episódios, ela me disse que dificilmente haveria uma segunda temporada, pois a história não tinha longevidade. Eu discordei. Assisti aos episódios seguintes religiosamente, e todo dia continuei a pesquisar informações sobre o lançamento em DVD. Com o final da temporada, fiquei sedento por mais do mesmo conteúdo, e descobri que a série era baseada em um quadrinho. Rapidamente achei um website onde poderia ler os quadrinhos de graça, rudemente traduzidos para a língua portuguesa, e até o lançamento da segunda temporada, eu havia lido todas as 90 edições lançadas até então. 23 Figura 4: Ilustração de aprox. 2011 Fonte: acervo pessoal do autor Deixo aqui uma decla- ração de amor (e minha reco- mendação sincera a quem quer que esteja lendo) aos quadri- nhos de The Walking Dead. Não só por ser uma parte essencial da minha adolescência, mas por ser um exemplo de narrativa inteligente, um com o qual eu consigo aprender muito até hoje. De qualquer forma, com a chegada da segunda temporada, eu me deparei com um problema. Os episódios eram transmitidos na Fox dois dias depois da transmissão original pela AMC nos Estados Unidos. Frustrado com não poder ver os episódios o mais cedo possível, pedi conselhos aos adultos ao meu redor. Embora muitos não soubessem como poderiam me ajudar, o genro da minha primeira madrasta, tendo piedade da minha situação, me ensinou a baixar torrents, e me apresentou ao (hoje falecido) website eztv.re, que disponibilizava todos os episódios de todas as séries relevantes do momento, minutos depois de sua transmissão original. Todo domingo à noite, eu ficava acordado em segredo, e recarregava a página inicial incessantemente, esperando o novo episódio aparecer, e foi assim que passei a assistir televisão. Na época, eu não falava inglês, e os torrents não vinham com legendas disponíveis, então a princípio eu também precisava assistir o mesmo episódio dois dias depois para acompanhar o diálogo, enquanto que domingo de madrugada eu tentava acompanhar a trajetória da narrativa através apenas do contexto visual. Incrivelmente, meu cérebro ainda era jovem e maleável o suficiente para aprender um segundo idioma através da observação e do contato, então quando a segunda temporada de The Walking Dead chegou ao fim, eu já era praticamente fluente. 24 Aprender um segundo idioma foi fundamental para essa época de descobrimento, visto que foi apenas através do Inglês que eu pude ver a magnitude da arte cinematográfica. Que existia uma cultura inteira dedicada a essa arte. Ou, simplesmente, que filmes e quadrinhos eram arte! A percepção que eu tinha até esse momento era a de que “arte” era algo distante da minha realidade, que tinha algo a ver com museus cheios de ricaços pomposos, ou pinturas de valor incompreensível para meros mortais. Foi revolucionário ser repentinamente exposto a uma cultura que valorizava as coisas que eu sempre amei, como arte. E foi também um passo importante para a minha jornada de aprendizado, sendo nessa época que fui apresentado à imensidão da História do Cinema, e à quantidade ilimitada de formas de expressão que essa mídia permite. Descobri todo um ecossistema online dedicado a cinema, quadrinhos, e à cultura popular com a qual eu havia crescido. Comecei a passar a maior parte do meu tempo livre no YouTube, acompanhando canais de grande, médio e pequeno porte que produziam conteúdo voltado à Cultura Pop, e tive um interesse específico desde o início em canais de críticos de cinema. Foi meu primeiro contato com uma discussão aprofundada sobre filmes, da perspectiva de pessoas que tinham um interesse profundo pela mesma mídia que eu. Se há poucos anos meu sonho era ser cineasta, de repente me deparei com uma opção infinitamente mais viável: crítico de cinema. E como paciência não é uma habilidade comumente empunhada por crianças, eu simplesmente não pude esperar. Queria ser rico e famoso quando chegasse aos 14 anos, falando sobre filmes na Internet. Tentei gravar meu rosto com a webcam fixa de um laptop, e depois com uma câmera digital do início dos anos 2000, apenas para me revirar de vergonha com a imagem de uma criança envergonhada falando em direção à câmera. Tentando produzir conteúdo audiovisual da minha própria autoria pela primeira vez, descobri que havia uma diferença gritante entre as habilidades, conhecimentos e carisma que eu acreditava ter, e as habilidades, conhecimentos e carisma que eu realmente tinha. 25 Por outro lado, eu pude observar fluidez e facilidade em outros aspectos da produção audiovisual. Quando minha mãe descobriu que eu estava assistindo episódios novos de The Walking Dead antes dela, eu me ofereci a disponibilizar legendas para que ela também pudesse assistir antes da estréia, visto que ela não falava Inglês. Eu sabia da existência de sites dos quais eu poderia baixar legendas em português, mas eu temia que pudesse haver erros na tradução, e eu queria mostrar para minha mãe que havia aprendido outro idioma, então eu baixei softwares gratuitos de criação e edição de legenda, e passei a produzir legendas para cada episódio novo que saía. Usei essa nova habilidade para produzir legendas para quaisquer conteúdos do audiovisual nos quais consegui colocar as mãos. Como havia recentemente adquirido um fascínio por terror, zumbis, e mais especificamente The Walking Dead, criei legendas para conteúdos adjacentes à série publicados pela emissora AMC em seu canal oficial no YouTube, assim como para filmes independentes de baixíssimo orçamento publicados diretamente no YouTube por seus criadores, em específico fan films da série de games de zumbi Left 4 Dead. Passei a publicar todos esses projetos em um canal no YouTube, denominado MrV Bonzao, e eventualmente publiquei todos os episódios de The Walking Dead que haviam sido lançados até então, com as minhas legendas, neste mesmo canal. Mesmo nessa época, o algoritmo do YouTube já conseguia facilmente detectar violações graves de direitos autorais, e enquanto os vídeos dos bastidores da série receberam apenas advertências, os episódios inteiros que eu havia publicado foram removidos da plataforma, a posição na época sendo a de que vídeos com mais de 15 minutos que violassem direitos autorais seriam removidos. Determinado a mantê-los no ar, eu percebi que todos os episódios tinham entre 42 e 44 minutos, para encaixarem em uma grade horária de uma hora na televisão, com aproximadamente 17 minutos de comerciais, distribuídos em quatro intervalos, e que por conta disso todo episódio era dividido em quatro blocos de aproximadamente 11 minutos, e as transições entre os blocos apresentavam uma tela completamente escura por 26 poucos segundos, para facilitar a introdução dos intervalos por parte da emissora. Passei, então, a republicar todos os episódios, bloco por bloco. O canal MrV Bonzao chegou a ter mais de 100 inscritos. Eventualmente eu perdi o entusiasmo que havia me levado a iniciar o projeto, e comecei a receber comentários de desaprovação, reclamando que eu não estava postando com a mesma frequência de antes, então eu troquei de e-mail e abandonei meu canal, com o intuito de escapar da perturbação. Anos depois, no auge de minhas inseguranças adolescentes, e envergonhado das minhas produções infantis, deletei o canal. Hoje me arrependo dessa decisão. Nessa mesma época, havia uma tendência internacional entre os jovens aspirantes ao audiovisual que escolhiam passar seu tempo livre no YouTube, os video tributes. Eram montagens construídas com cenas de qualquer série popular do momento, editadas ao ritmo de alguma música pop da época, independente da conexão (ou desconexão) entre os dois, essencialmente os percussores das fancams de hoje. Devido à época na qual isso se popularizou, algumas das séries que mais foram submetidas a esse tratamento foram Breaking Bad, The Walking Dead, Game of Thrones, Dexter, Sherlock e Supernatural, enquanto que as músicas escolhidas normalmente consistiam de pop rock genérico de baixíssima qualidade (eu acredito que essa tendência contribuiu para a popularização de bandas como Imagine Dragons, Awolnation, e OneRepublic). Acabei descobrindo depois de adulto que esses vídeos faziam parte de um movimento cultural da época, fortemente associado à plataforma Tumblr, e à criação da palavra fandom. Eu era um consumidor ávido desses vídeos, e até cheguei a tentar produzir os meus próprios, mas o único software de edição de vídeo ao qual eu tinha acesso na época era o lamentável Windows Movie Maker, que não pôde tolerar a carga de um projeto dessa escala. Menciono aqui este fenômeno cultural como forma de contextualizar minha proximidade a esse espaço da Internet, tanto na época quanto agora. Sempre foi minha intenção realizar um projeto audiovisual como Trabalho de Conclusão de Curso, mas eu reconheço que possuo conhecimento suficiente a respeito dessa subcultura para escrever uma tese sobre o assunto. 27 Acompanhei de perto o despertar e crescimento de uma escola filosófica de adoração à propriedade intelectual, e culto à marca; a pregação de axiomas na arte, e formadores de opinião da Internet tendo influência sobre a indústria cinematográfica. Vi conglomerados midiáticos sendo formados nos alicerces desse espaço, e depois ruírem sob o peso avassalador da indiferença pública, permitindo que o mesmo processo se repetisse em outro lugar, de novo e de novo. Se eu acabar por seguir uma carreira artística no futuro, muito do que observei na evolução dessa subcultura nos últimos 11 anos virá a informar meu trabalho. 2.3 As Crônicas de Gelo e Fogo A minha adolescência, embora importante para o meu aprendizado artístico, foi um período de grande sofrimento emocional. Ao mesmo tempo em que passei a ser exposto a obras cada vez mais sofisticadas e desafiadoras, tive que lidar com sentimentos profundos de isolamento, a minha criação até então tendo causado danos visíveis à minha desenvoltura social. Esses dois processos acabaram por alimentar um ao outro, e quando cheguei à vida adulta, havia me tornado alguém que vivia através do imaginário. Enquanto os espaços online de discussão sobre cinema haviam me garantido um entendimento rudimentar do processo de análise artística, eles também me permitiam vislumbrar o que era considerado em tais círculos como o cânone da sétima arte, ao mesmo tempo em que apresentavam críticos com um conhecimento histórico e teórico sobre a forma que era admirável, assim como uma capacidade invejável de persuasão dialética. Em outras palavras, percebi que tinha muitos filmes para assistir, e muito conhecimento ainda a adquirir. E embora essa época da minha vida tenha sido marcada por filmes que são tradicionalmente considerados clássicos, como Oldboy, Cidade de Deus, Clube da Luta, Seven, Pulp Fiction, O Massacre da Serra Elétrica, O Poderoso Chefão, e Psicose, dediquei muito mais tempo ao que o grupo dominante desses espaços online determinava ser “os clássicos”. Não 28 surpreendentemente, os filmes reverenciados como os fundamentos do Cinema por homens brancos estadunidenses de meia idade e mal crescidos eram, quase que exclusivamente, blockbusters produzidos para um público juvenil entre os anos de 1975 e 2000, que lançaram franquias bilionárias. Tubarão; Star Wars; Indiana Jones; E.T.: O Extraterrestre; Caça-Fantasmas; Jurassic Park; Matrix; e é claro, o que esse grupo parece considerar o último filme bom que já foi feito, O Senhor dos Anéis. Inquestionavelmente, muitos desses filmes são bons, e alguns são excepcionais, mas a obsessão da ordem vigente nesses espaços com a própria infância é algo que me frustra profundamente. Ainda assim, encontrei vozes que possuíam uma admiração muito mais adulta e sincera pela forma, que me apresentaram todo um mundo de cinema independente, e me incentivaram a apreciar a experiência cinematográfica por si só. Enquanto que na infância havia me apaixonado pelo espaço físico do cinema por conta da experiência sensorial de ver e ouvir um filme em dimensões sobre-humanas, e na pré-adolescência havia aprendido a valorizar a experiência comunal do Cinema, especificamente depois de vivenciar estreias lotadas de filmes gigantescos, na minha adolescência desenvolvi uma apreciação mais íntima pela telona. Passei a buscar filmes aclamados, ou filmes novos de cineastas reverenciados, e buscava a sala escura do cinema pelo simples fato de que era a forma ideal de contemplar aquelas obras. Assisti no cinema Django Livre, Gravidade, 12 Anos de Escravidão, O Grande Hotel Budapeste, Garota Exemplar, Interestelar, e iniciei a tradição anual de acompanhar os Oscars, participando do diálogo online acerca da legitimidade da cerimônia e dos filmes indicados, e me utilizando do debate a respeito dos melhores filmes do ano para descobrir filmes e cineastas novos. Naturalmente, também continuei a praticar pirataria. A tentativa desesperada de estúdios e produtoras de atribuir tendências financeiras negativas na indústria cinematográfica à pirataria sempre me pareceu uma falácia, e quanto mais me informei sobre o assunto ao longo dos anos, mais minhas suspeitas se confirmaram. Eu enxergo a pirataria como uma 29 ferramenta de democratização da arte, proporcionando acesso à experiência artística a pessoas que de outra forma não o teriam. Em muitos dos círculos que frequentava, era incentivado a buscar filmes fora do radar convencional, e me atentar a mais filmes de baixo orçamento e estrangeiros, feitos por artistas desconhecidos, mas em grande parte, minha única opção viável de como esses filmes era através da pirataria, e nenhum discurso moralista poderia me convencer a não ir atrás dessas experiências. Foi graças à pirataria que tive acesso a queridos da crítica como Drive, A Caça, Heróis de Ressaca, Os Suspeitos, O Abutre, O Homem Duplicado, Sob a Pele, Birdman e Sicario, assim como os infames A Serbian Film e A Centopeia Humana. Também foi através da pirataria que descobri o que é até hoje meu filme favorito. Whiplash conta a história de um jovem universitário que sonha em se tornar um dos bateristas de jazz mais reverenciados da História, e o abuso ao qual ele se submete nas mãos de um instrutor explosivo, que acredita que a grandeza só nasce da dor. O filme é amplamente reconhecido como uma obra prima, e na primeira vez em que o assisti, tive uma experiência visceral e inesquecível, ao ponto que quando os créditos apareceram, me lembrei repentinamente de que estava assistindo um filme, de tão tangível que havia sido a experiência. É uma tradução meticulosa de um sentimento específico para a linguagem cinematográfica, ao mesmo tempo em que é um estudo crítico desse sentimento, o que o alimenta, e suas consequências. É um filme que fica melhor quanto mais eu penso nele. Todas essas experiências vieram a me ensinar muito sobre a forma, e sobre a arte de contar uma história, mas não foi apenas através do Cinema que eu estava aprendendo. Meu interesse na cultura pop me levou a estudar de forma mais aprofundada a mídia dos quadrinhos, e minha paixão por essa mídia também se intensificou na época. Continuava lendo os novos lançamentos de Naruto e The Walking Dead, e passei a visitar clássicos como Watchmen, Sin City, A Piada Mortal, e O Cavaleiro das Trevas do Frank Miller, histórias que alimentaram meu gosto pelas artes da ilustração e da narrativa. 30 Também continuava assistindo séries por torrent, e para nesse quesito nunca me importei muito com a opinião pública ou o consenso crítico. Assisti séries que ninguém assistia e que foram rapidamente canceladas, como Revolution, The Following e Under the Dome, assistia séries que tiveram um certo impacto como Spartacus e Hell on Wheels, e assisti séries que se tornaram marcos culturais como Dexter, Sherlock e Breaking Bad, e uso muitas dessas histórias até hoje como referência (seja positiva ou negativa) para estudar estrutura narrativa de longa duração. Mas sem sombra de dúvida, minha maior descoberta naquele momento foi As Crônicas de Gelo e Fogo. É uma série de livros épicos de fantasia medieval, escritos por George R. R. Martin, e a história é um triunfo. Martin traz à tona todas as convenções narrativas do gênero da fantasia, as examina através da lente filosófica do pós-modernismo, e as subverte, dissecando a experiência humana em incontáveis escalas, desde a mais íntima até a mais grandiosa. Os livros contam a história de uma terra análoga à Europa medieval, com elementos de fantasia sendo lentamente introduzidos na história. A maior parte da narrativa assume a forma de um drama político, no qual podemos examinar alicerces fundamentais da civilização humana como religião, classe, gênero e guerra, como afetam a estrutura da sociedade, como alimentam um ao outro, e como podemos manobrar, combater e destruir essas construções, antes que elas nos conduzam ao apocalipse. É uma obra fundamentalmente política e radical, com ideias filosóficas essenciais e revolucionárias, camufladas na estrutura narrativa de uma história tradicional de fantasia. Depois de começar a ler esses livros, foi impossível não me apaixonar. A princípio pela imensidão de detalhes pela qual esse mundo fictício era formado; depois pela verdade inegável na forma como a obra retrata a experiência humana, tanto nos conflitos emocionais dos personagens quanto nas ideias sociológicas exploradas na história; depois pela complexidade incomparável da trama, com conspirações dentro de conspirações e tamanha profundidade textual que praticamente toda passagem tem um sentido duplo, triplo, ou ainda mais denso, e saber que nada é o que parece ser a princípio; 31 depois pela coragem e integridade artística necessária para trazer tanto do real para o imaginário, e usar o imaginário para se retratar ao real. E hoje, continuo a admirar e estudar essa obra prima, não só por tudo que ela declara, mas pela maestria artística que ela apresenta. Esses livros são até hoje, e continuarão a ser, minha maior inspiração. Mas enquanto eu descobria maravilhas no mundo da arte, minha vida pessoal se tornava cada vez mais sufocante. Minha casa permanecia silenciosa, e minha relação com minha mãe e minha avó permanecia fria, então passava todo o meu tempo livre assistindo filmes, lendo e jogando videogames. Foi nessa época que comecei a perceber comportamentos nocivos na minha mãe, em específico sua tendência a acumular frustrações durante o expediente apenas para despejá-las em quem ela pudesse despejar (no caso, eu). Muitas vezes, o único som que penetrava o silêncio em casa eram os gritos da minha mãe direcionados a mim. Ao mesmo tempo, meu pai havia mudado de carreira, e seu novo emprego como vendedor de ração para animais de grande porte exigia que ele viajasse entre cidades com muito mais frequência, então muitas vezes passávamos a maior parte dos finais de semana que eu tinha com ele trabalhando. Começamos a frequentar o sítio com menos frequência, e passei muitas noites da minha adolescência nas casas das minhas madrastas. Meu pai era um adúltero e exigia que eu participasse de suas mentiras, não só para as minhas madrastas, mas para minha mãe, o que eu acredito que acabou contribuindo para um distanciamento entre eu e outras pessoas. Na escola, tinha dificuldade em socializar, mas permaneci em negação quanto a isso até os meus 15 anos, quando meus colegas passaram a apontar de forma séria minha falta de desenvoltura social como uma falha a ser corrigida. Rapidamente entrei em um estado depressivo, um que eu acredito durar até hoje, e do qual eu tive poucas pausas ao longo dos últimos anos. Meus próximos anos de adolescência foram marcados por pensamentos suicidas e distanciamento social intenso. 32 E conforme me retraí, meus colegas puderam observar certas qualidades em mim que julgaram ser sinal de talento ou genialidade. Tinha muita facilidade com matemática e ciências exatas, e muitas vezes me destacava nas provas apesar de não estudar. Tinha (e tenho) uma memória fotográfica referente a muitos assuntos, em específico do ramo artístico. E é claro, eu desenhava bem. Todos esses fatores, combinados ao estado depressivo em que me encontrava, contribuíram para a forma que decidia me enxergar, a de um gênio artisticamente brilhante, mas psicologicamente torturado. E essa imagem que criei de mim mesmo, combinada com a rejeição social que sofria dos meus semelhantes, contribuiu para um sentimento de ódio à minha própria pessoa, que acabava por transbordar em desprezo pelos outros. Houve momentos na minha adolescência em que estive próximo de me tornar um incel, e meu maior medo nessa época era virar um desses jovens que cometem atentados em escolas. Comecei aos poucos a sair dessa espiral de isolamento graças a alguns amigos que enxergaram em mim uma pessoa, e que me deram uma chance de conexão humana apesar de tudo. Embora não tenha mais contato com algumas dessas pessoas, eu sempre serei grato pela chance que me deram. Meu processo de politização e crescimento filosófico verdadeiro só se iniciou porque essas pessoas me mostraram perspectivas novas, não através do diálogo, mas através das suas vidas. No final das contas foi um período doloroso, mas necessário na minha jornada de amadurecimento pessoal e artístico. 2.4 Baco Exu do Blues Uma consequência infeliz da criação passiva que eu havia recebido foi que nenhum adulto havia se dado ao trabalho de me explicar as burocracias da vida adulta. No terceiro ano do ensino médio, fui a única pessoa da minha sala que não havia feito o Enem, em grande parte porque simplesmente não sabia o que era, e tinha vergonha de perguntar. Minha mãe era a única pessoa na minha família imediata que possuía ensino superior, e ela nunca 33 havia me explicado. O único vestibular que prestei naquele ano foi o da Anhembi Morumbi, e se me lembro bem, passei com facilidade para o curso de Cinema, mas minha mãe não poderia de forma alguma pagar a mensalidade, então tive que fazer um ano de cursinho. O cursinho foi infernal. Era no centro, e tinha que acordar às 4h50 para pegar o ônibus. Ao mesmo tempo, tinha que passar a tarde estudando e no começo estava dormindo quatro ou cinco horas por dia, e acabei ficando doente na primeira semana. Fui me habituando com o ritmo ao longo do ano, mas o ritmo em questão era brutal, e comecei a comer por stress, chegando a comer em média 12 ovos por dia. Indeciso a respeito do meu futuro, mas sabendo que seria uma carreira no ramo das artes, tentei entrar em todas as universidades públicas da cidade, mas nunca tendo tido uma aula decente de artes na vida, fui mal nas provas de habilidades específicas, e o único lugar no qual passei foi a Unesp. Nesse momento, houve uma mudança repentina no meu comportamento, uma que até hoje não consigo explicar por completo. Ao longo da minha vida, meus pais haviam me bombardeado com suas ideias extremamente conservadoras a respeito do uso recreativo de drogas, e associado tais valores a ideias tradicionais de produtividade e mérito. E até então eu, em minha existência resguardada e amplamente desinformada, havia internalizado boa parte dessas ideias, e não só me recusava a usar tais substâncias, mas desaprovava abertamente o uso que meus amigos faziam. Mas eu acho que depois de passar um ano no cursinho sacrificando todo o meu tempo para um único objetivo, apenas para conseguir resultados medianos, e tendo minha mãe como um exemplo de alguém que havia dedicado toda a sua juventude e décadas da sua vida à busca do ideal capitalista de “sucesso”, decidida a esperar até a aposentadoria para viver suas paixões, apenas para conquistar uma vida de classe média da qual ela nem tinha tempo para usufruir, eu pude adquirir outra perspectiva. Consegui enxergar a futilidade da busca cega por capital, e as ideias puritanas de uma vida digna associadas à essa busca. No final das contas somos todos carne, e todo o tempo que dedicamos a ideais externos de mérito não valerá a pena. 34 Pelo menos eu acho que era isso que eu estava pensando. O que eu sei é que comecei a beber. E quando comecei a beber, observei uma melhora drástica na minha desenvoltura social. E com uma vida social em expansão, também passei a ter uma vida amorosa. Para alguém que havia passado a infância e a adolescência em isolamento, estar de repente vivendo a experiência humana de forma tão real e intensa foi embriagante. E durante as primeiras semanas de faculdade, fui apresentado a incontáveis realidades diferentes da minha, e através das conexões que estava criando com outras pessoas, pude observar a diversidade inerente à experiência humana, incontáveis pessoas diferentes com valores diferentes vivendo vidas diferentes. Comecei a me radicalizar politicamente, me interessando por ideias libertárias e marxistas, me tornando vegetariano, e passando a praticar introspecção de uma forma mais consciente, questionando seriamente pela primeira vez minha identidade racial e minha sexualidade. A sensação que tive foi a de que minha vida até aquele ponto havia sido uma mentira, e que eu ainda precisava aprender a viver. Por alguns meses, ainda estava interessado nos estudos, meu uso recreativo de drogas e minha vida amorosa servindo como formas de conhecer novas experiências, mas em meados de 2018, as coisas começaram a mudar. Passei por algumas desilusões amorosas devastadoras, a tensão política pela qual a nação passava me preocupava mais a cada dia, e minha relação com meu pai estava se tornando cada vez mais difícil. Meu pai sempre fora um homem fervorosamente religioso, mas após receber tratamento quiroprático para um lesão grave que havia sofrido nas costas, ele foi recrutado pelo quiroprata para uma nova religião, e em pouco tempo todos os momentos que passávamos juntos começaram a ser dedicados a isso. Comecei a ser levado a igrejas dessa nova fé todos os finais de semana, e frequentemente alguém tentava me converter a mando do meu pai. Enojado por essas experiências, me afastei, e as atualizações que passei a receber da situação foram ficando cada vez mais preocupantes. Eventualmente, meu pai fundou uma seita religiosa, da qual ele seria o líder, e instalou a sede no sítio no qual eu havia crescido. Seus seguidores eram 35 quase que exclusivamente paulistanos brancos e conservadores de classe média-alta. Fiquei revoltado com a profanação do meu lar de infância, e com os sinais claros de megalomania e desconexão com a realidade que meu pai estava apresentando, e passamos a discutir com frequência. Eu não conseguia entender como um homem negro que cresceu em meio à miséria poderia estar liderando uma seita de bolsonaristas, em um momento político tão tenso, enquanto que ele parecia crescentemente frustrado com a minha radicalização política, culpando minha mãe e o ensino público. Eventualmente, chegamos a uma discussão que acabou com meu pai gritando injúrias homofóbicas direcionadas a mim. Depois desse dia nunca mais o vi, e pretendo nunca mais vê-lo no futuro. Romper laços com meu pai me permitiu enxergar, em retrospectiva, a qualidade do seu caráter, e os danos irreversíveis que ele havia causado no meu desenvolvimento, assim como nas vidas de outras pessoas, em especial a da minha mãe. Só ali consegui enxergar que ela havia sido condenada a criar um filho sozinha, ao mesmo tempo em que trabalhava incontáveis horas em um serviço impiedoso, sem nenhuma ajuda financeira. Hoje, quando me perguntam sobre minha família, prefiro dizer que não tenho pai, tamanha vergonha e ódio que sinto do ser humano que ele era. Esses sentimentos foram difíceis de lidar, e combinados à decepção imensurável de ver um fascista ascender à presidência, foi impossível. Ao longo do próximo ano, minha produção artística quase que parou, e me entreguei por completo ao hedonismo. Em retrospectiva, reconheço que eu estava passando por problemas seríssimos de dependência química e vício em sexo, em uma tentativa de me anestesiar de dores emocionais que eu sentia constantemente. Me reunir com os meus amigos no bar, ou em casa, e até mesmo ir à faculdade, tornaram-se pretextos dos quais eu poderia me utilizar para fugir dos meus pensamentos, seja no fundo de uma garrafa ou no corpo de outra pessoa. 36 Mas ao mesmo tempo em que alimentei esses demônios, meu maior vício se tornou a Música. Ia para festas, mais do que qualquer outra coisa, para dançar, e passava o dia inteiro escutando músicas. Comecei a frequentar shows pela primeira vez na vida, e cada vez mais tentava desesperadamente me desconectar da minha mente e me conectar com meu corpo. Eu queria fugir para dentro da Música. Figura 5: Foto de evento universitário em 2019 Fonte: Anderson Marques (Acervo Memorial) Essa época da minha vida foi especialmente marcada por artistas que cantavam sobre a vida boêmia, não só porque eu me identificava com as letras das músicas, mas porque havia uma verdade emocional brutal sendo transmitida em todos os outros aspectos da música. Meus ouvidos estavam sempre poluídos com Hippie Sabotage, Two Feet, Rihanna, The Weeknd, e mais do que todos os outros, Baco Exu do Blues. Não existia trilha sonora melhor para quando eu fosse me destruir. Tentando compreender, em retrospectiva, o porquê de a Música ter se tornado tão viciante nesse momento, formulei uma teoria. 37 Toda arte se conecta com o observador através do sensorial, e embora as limitações sensoriais de cada linguagem artística sejam um fator determinante para a criação e disseminação de novas mídias, eu acredito que existam níveis diferentes de consciência nos quais uma obra pode te tocar, e que seja também por isso que existam tantas formas diferentes de expressão artística. Cada mídia se utiliza de um conjunto único de ferramentas sensoriais para se conectar com o observador, mas eu acredito que o nível de consciência que uma mídia consegue alcançar determina a intensidade do seu efeito, o que acaba por informar sua estrutura. Por exemplo, uma música se utiliza de uma faixa de som contendo ritmos e melodias para construir padrões que o ouvinte aprende a acompanhar ao longo da experiência. A melodia se conecta com a parte mais emocional da mente humana, enquanto que o ritmo se conecta com a parte do cérebro que determina as funções motoras, e incrivelmente, faz com que nosso corpo se mova acompanhando o ritmo. A música é então, uma mídia que se conecta ao ouvinte nos níveis emocionais e corporais. A experiência é primal e intensa, e não precisa se estender por muito tempo para que alcançamos uma catarse. Em contraponto, um filme narrativo se utiliza de imagens em sucessão, normalmente acompanhadas de uma faixa de som (cuja parte mais fundamental tende a ser o diálogo entre personagens), para construir uma história que o observador vê se desenrolar ao longo da experiência. A sequencialidade da narrativa se conecta com a parte mais racional da mente humana, mas as emoções externalizadas pelos personagens do filme se conectam com sua parte mais emocional. Filmes são então, uma mídia que se conecta com o observador em um nível racional, e ocasionalmente chega a um nível emocional. A experiência, portanto, não é tão intensa quanto aquela proporcionada por uma música, o que por sua vez determina que a experiência precisa ser prolongada para alcançar os mesmos níveis de catarse. Voltando à autodestruição. O processo de cura se iniciou lentamente, e necessitou que eu me afastasse de relações que me faziam mal, e focasse 38 em pessoas com quem eu pudesse me conectar de forma mais autêntica. Foi quando conheci o amor da minha vida, e comecei a me libertar de certos vícios. Mas qualquer tipo de crescimento emocional teria que esperar, pois logo surgiu o Covid-19, e a quarentena destruiu minha mente. Quando a pandemia se iniciou, minha avó estava começando a mostrar sinais visíveis de demência, e pelo bem da sua saúde, assim como para aplacar a hipocondria da minha mãe, decidimos levar o risco a sério. Não demorou muito até que o confinamento trouxesse à tona tensões reprimidas entre eu e minha mãe, e naquele primeiro ano houve muita gritaria e abuso psicológico na minha casa. Sempre fui mais desperto à noite e mais sonolento durante o dia, mas nessa época escolhia ficar acordado de madrugada especificamente para não ter que lidar com ninguém. Conforme os meses se passaram, fui falando com cada vez menos pessoas, o que levou as pessoas a pararem de me chamar, o que fez com que eu me sentisse abandonado, e evitasse ainda mais as pessoas. Conforme esse ciclo de isolamento se intensificava, minha depressão também se intensificou, passei a comer cada vez menos, e passei a sentir que as únicas companhias com as quais eu podia contar eram as da minha namorada, e do nosso rato de estimação, Farinha, que faleceu mais tarde naquele mesmo ano. Figura 6: Ilustração em grafite de 2020 Fonte: acervo pessoal do autor 39 Só comecei a melhorar quando fui para a casa da minha namorada, e fiquei lá por oito meses seguidos. Foi um período de crescimento emocional, no qual aprendi muito sobre introspecção, comunicação não violenta, e empatia. Quando voltei para casa, a situação havia piorado drasticamente. Haviam descoberto um tumor no cérebro da minha avó, que foi removido cirurgicamente. A cirurgia deu certo, mas deixou sequelas irreversíveis que transformaram a vida de todos nós em uma tragédia. Minha avó agora precisa de assistência constante, 24 horas por dia, então nos últimos dois anos, todo o dinheiro da sua aposentadoria vem sendo gasto com cuidadoras, que precisam estar presentes em casa todo dia, o dia inteiro. Ela perdeu a habilidade da fala, quase que por completo, tornando nossa comunicação quase que impossível, e seu quadro de demência se tornou irreversível, ao ponto que ela passa todas as horas em que está acordada, chorando de dor em voz alta, mesmo quando não há dor alguma. O que antes era uma casa silenciosa, se tornou um ambiente serenado com gritos de dor incessantes todos os dias. Minha casa é deprimente. No final de 2021, a única saída que achei da minha condição foi um retorno à arte que esteve comigo desde o início: o Cinema. Aos poucos, voltei a assistir filmes com uma certa frequência, e antes que pudesse ver, estava assistindo a três filmes por noite. Voltei a praticar a pirataria, voltei a ir sozinho ao cinema, e voltei a me apaixonar pela forma, agora tendo uma perspectiva completamente diferente, moldada por todas as experiências que haviam me marcado nos anos em que me afastei da arte. Comecei a catalogar todos os filmes que assistia no IMDB, iniciei uma tradição anual com minha namorada de dedicar as noites do mês de Outubro a estudar o gênero do terror, comecei a fazer listas de quais eram os melhores filmes do ano, comecei a fazer páginas e páginas de anotações sobre filmes que revisitava, comprei um microfone semiprofissional com a intenção de iniciar um canal no YouTube, escrevi roteiros, aprendi como usar softwares de edição de áudio, passei incontáveis horas estudando a forma... 40 foi um período de retorno às minhas paixões de outrora, e poucas coisas na vida já me fizeram tão bem quanto redescobrir o Cinema. Minhas únicas produções de relevância dessa época são dois curtas-metragens que produzi, escrevi, dirigi, estrelei e editei: Gula (2021) e O Blues (2022). As duas produções foram projetos acadêmicos realizados às pressas (nos dois casos, na noite anterior à entrega), e estão disponíveis no YouTube. Também foi nessa época que experimentei pela primeira vez com fotografia analógica (um desejo de longa data), através de um projeto no qual fotografei cenários do Largo Treze durante a noite, com um rolo de filme 35mm em preto e branco. Figuras 7-10: Fotos do projeto de fotografia analógica do Largo Treze à noite Fonte: acervo pessoal do autor Eu acabei assistindo aproximadamente 130 filmes que foram lançados em 2021, e quase 200 lançados em 2022, e embora estivesse aprendendo muito, a vida real não deixa barato. Me apontaram que eu estava passando 41 todo o meu tempo imerso no estudo do Cinema, enquanto que minhas responsabilidades pairavam no horizonte, as maiores delas sendo meu TCC e o fato de que eu estava desempregado. Por mais que eu resistisse, chegou um momento em que não pude mais me enganar. O tempo passa para todos. 3 O PROJETO Desde que ingressei na universidade, sabia que meu TCC seria relacionado a Cinema, e não demorou muito para que decidisse que o projeto envolveria a produção de um filme. Mas sempre tive dificuldade em tratar minhas obrigações com seriedade, então acabei procrastinando por anos a construção de planos concretos para tal projeto. É claro, isso não quer dizer que não tive ideias ao longo dos anos. Muito pelo contrário, tive muitas, e a todas dediquei muito pensamento. Gostaria de dedicar os parágrafos seguintes às ideias que decidi não levar adiante como este projeto. Algumas das ideias que apresentarei a seguir foram ruminadas por meses, algumas por anos, mas no final todas foram descartadas. 3.1 Ideias rejeitadas PUTO: Originalmente concebido como um curta-metragem de humor negro, conta a história de um jovem neoliberal, que devota seus dias a um emprego que não lhe traz satisfação, no qual ele tem que acatar ordens do filho incompetente do seu chefe, e passa seu tempo livre com sua namorada, viciada em redes sociais e obcecada com padrões de beleza não só físicos, mas morais, e seus amigos de academia, que são caricatamente machistas. O bem mais precioso do protagonista é seu carro, velho e mequetrefe, mas que ele conquistou com seu dinheiro suado. Minha intenção era apresentar o protagonista como um indivíduo miserável, que segue à risca os procedimentos e expectativas sociais por pura inércia, e o filme estabeleceria seu cotidiano sufocante como uma piada. A história começa quando a namorada do protagonista termina o relacionamento, após descobrir, furiosa, que ele fuma em segredo. A 42 Sucessão de eventos que se segue seria uma crescente de pequenas frustrações que acabam sobrecarregando o protagonista no momento errado, quando ele está sendo antagonizado pelo filho incompetente do seu chefe. O protagonista explode e o agride, mas acaba matando o outro homem acidentalmente, e o resto da história seria o resto de sua aventura, conforme ele tenta ocultar um cadáver, e traria questionamento sobre ideias de sucesso e masculinidade, e no final o protagonista acabaria tendo que destruir seu carro, simbolizando seu desprendimento do material. Também tive a ideia de adicionar um personagem classicamente boêmio com quem o protagonista faria amizade, e introduzir certos elementos de surrealismo na narrativa. Esta ideia foi descartada porque claramente a história havia saído de controle em um certo ponto. Não poderia mais ser um curta-metragem, e todos os personagens e cenários que eu havia planejado exigiriam um orçamento tal qual eu nem consigo sonhar. O MÉTODO SOCRÁTICO: Este foi uma ideia simples. A premissa é que um grupo de universitários estudiosos e politizados estão sentados em uma mesa de bar, conversando sobre amenidades, quando de repente a conversa se torna sobre política, e apesar de todos os jovens serem politicamente próximos, cada um defende uma causa específica, e suas causas muitas vezes entram em conflito entre si. Os jovens se encontram em um impasse, e vemos muita discussão. Não sabia como queria terminar a história, mas sabia que o tema da narrativa seria a ideia de interseccionalidade, e resistência interseccional. Esta ideia foi descartada porque meu ego não é tão grande. Ainda gosto da ideia, e considero uma conversa importante, mas não sou a pessoa certa para iniciá-la. NOSSO RETRATO: Este era um projeto de paixão. O protagonista é um jovem neoliberal homofóbico e sexualmente frustrado, do tipo que assiste a podcasts de redpill, que está desempregado e endividado. Ele é despejado de casa e, se tem para onde ir, aceita a indicação de um amigo para morar com um outro jovem, cujo colega de quarto havia recentemente falecido. O 43 protagonista rapidamente descobre que seu novo colega de quarto é um artista pansexual e promíscuo que gosta de dar festas, e que ele havia pintado um retrato de seu antigo colega de quarto pouco antes de sua morte. Logo, o protagonista passa a suspeitar que seu novo colega de quarto é um assassino. As tensões aumentam, com sinais de que o artista pode estar envolvido em rituais de magia satânica. Essas suspeitas são temperadas com uma boa dose de tensão sexual reprimida entre os dois homens, e o filme rapidamente se torna um thriller erótico, culminando em uma cena na qual os dois enfim entram em um confronto físico, que acaba aos poucos se transformando em uma cena de sexo. O protagonista é forçado então a escolher, entre se manter devoto aos seus valores antigos, ou se entregar ao sentimento que agora o domina. Esta ideia foi abandonada por exatamente os mesmos motivos que “Puto”. A história, embora eu ame, saiu completamente de controle, tanto em termos de duração quanto em termos de orçamento. O PERFIL: Esta é uma ideia que nasceu do oportunismo. Meu grande amigo Diego tem um gêmeo idêntico, e queria me aproveitar dessa oportunidade. A história era, novamente, sobre um jovem neoliberal com problemas de auto-imagem, viciado em redes sociais, que tenta desesperadamente passar uma imagem de homem de negócios no Instagram, apesar de sua vida pessoal e profissional estar no buraco. De repente ele percebe que seu perfil no Instagram começou a postar fotos sozinho, fotos das quais ele é o foco, mas para as quais ele não estava presente. Ele descobre através do próprio Instagram que sua carreira está avançando, e que ele reatou o relacionamento com sua ex-namorada. Eventualmente, ele começa a investigar esse impostor, e acaba descobrindo que foi substituído por um clone. Quando confrontado, o clone explica que ele é na realidade, um robô humanoide com inteligência artificial genuína, que está servindo como teste beta para um programa abrangente de substituição, 44 e ele revela que foi criado por Mark Zuckerberg a partir do perfil de Instagram do protagonista. O robô só se destacou onde o protagonista não havia conseguido, porque ele se adequou à imagem que o protagonista havia criado de si mesmo para o público, uma imagem a qual ele mesmo jamais conseguiu se adequar. 3.2 A ideia certa Chegando ao final de Outubro, eu estava ficando desesperado. Todas as ideias que eu havia tido me agradavam, mas nenhuma delas parecia ser o caminho certo adiante. Todas dialogavam com sentimentos e ideias profundas que eu mantenho, mas eu não sentia uma urgência palpável pela produção de nenhuma delas, ainda mais considerando minhas limitações financeiras. Foi aí que eu verdadeiramente senti o peso de tudo que vinham me falando nos últimos anos, que meu tempo estava passando, e que eu precisava me movimentar. Estou prestes a completar 25 anos, e não queria estar onde estou agora. Tive experiências desagradáveis com o trabalho autônomo no último ano, e me arrependi de não ter passado por isso quando mais jovem. Em meu último serviço, descobri que minha presença física pode ser extremamente útil em situações em que tenho que lidar com o elemento humano, e aprendi que tenho mais estabilidade do que imaginava ter, para lidar com imprevistos e situações de emergência. Pela primeira vez, senti que estava pronto para dirigir outras pessoas. Há muito tempo eu já sabia que “talento” era uma mentira, mas foi só nesse momento, ao observar o quanto que eu havia aprendido com minhas novas experiências, não só sobre arte, mas sobre eu mesmo, que pude ver o quanto a ideia do talento havia me cegado a vida toda, e me levado à estagnação criativa. Como posso me considerar um artista, se nenhuma arte produzo? Assim, a ideia certa para este Trabalho de Conclusão de Curso nasce de uma mudança de perspectiva pela qual passei, uma que assemelho ao fenômeno do ser perante à morte descrito por Heidegger. 45 3.3 O Roteiro 46 47 48 49 50 51 52 53 54 3.4 Pré-produção O roteiro foi composto nas duas primeiras noites de Novembro, e através dele tentei transmitir minha recente mudança de perspectiva. Apesar do curto período de tempo que tive para capô-lo, acredito que as ideias por trás da história estavam suficientemente bem formadas para criar um conflito filosófico, e estou orgulhoso do produto final. E quando se trata dos outros aspectos da produção, algumas decisões já haviam sido tomadas anteriormente. Há meses, havia decidido que se possível, meu projeto seria gravado com uma câmera analógica. Não vou entrar em uma dissertação sobre o mérito do analógico em comparação com o digital, inclusive me frustra ouvir cineastas renomados tentarem explicar o que torna o analógico superior, apenas para reduzirem sua essencialidade a algo mágico ou inexplicável. Simplesmente, existe algo na reação química que ocorre na película, que traz um elemento de acaso à imagem, e a textura do analógico proporciona uma densidade visual que cativa os olhos. Uma construção digital, cinza, polida e sem contraste não consegue se equiparar. E é claro, na escala microscópica desta minha produção amadora, o dinheiro que eu haveria gasto em uma câmera digital seria mais do que o suficiente para criar uma experiência visualmente rica através do analógico, diante da qual optar pelo digital não valeria a pena. Havia comprado minha câmera (uma Rollei de 1970) de um homem assustador no Anhangabaú no dia 8 de Agosto. Naturalmente, o próximo passo após compor o roteiro seria comprar cartuchos de filme. Felizmente, pouco antes de adquirir minha câmera, em um festival de fotografia analógica, havia me deparado com um coletivo chamado Mundo em Foco, que disponibiliza não só os cartuchos, mas a revelação e o telecine em alta qualidade. Comprei deles três cartuchos de Kodak Ektachrome 500T no dia 1º de Novembro. O passo seguinte foi a produção dos storyboards, aos quais dediquei as próximas várias noites, pois durante o dia estava tentando recrutar um elenco que estivesse disposto a atuar de graça, ao mesmo tempo em que tentava assegurar todos os locais de gravação. 55 Figura 11: Primeira página dos storyboardsFonteFFjvjhvkj, Fonte: acervo pessoal do autor 56 Figura 12: Segunda página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 57 Figura 13: Terceira página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 58 Figura 14: Quarta página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 59 Figura 15: Quinta página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 60 Figura 16: Sexta página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 61 Figura 17: Sétima página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 62 Figura 18: Oitava página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 63 Figura 19: Nona página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 64 Figura 20: Décima página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 65 Figura 21: Décima-primeira página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 66 Figura 22: Décima-segunda página dos storyboards Fonte: acervo pessoal do autor 3.5 Produção A parte mais difícil da direção deste projeto provavelmente foi o cronograma, não porque estava cheio para mim, mas porque estava cheio para todas as pessoas que me ajudaram com a produção. Ter que reunir um elenco de última hora, com nenhum ator presente, é difícil, mas ter que garantir um dia em que todas as pessoas que são importantes para a gravação de uma determinada cena estejam disponíveis e dispostas a se encontrarem em um determinado lugar, em um determinado horário, é uma tarefa hercúlea, mesmo em um projeto com um valor de produção insignificante como o meu. Solavancos a parte, os dias entre a finalização do roteiro e o início das gravações foram excepcionalmente produtivos. Primeiramente, escalei minha 67 namorada e meu grande amigo Diego em dois dos papéis principais, e então consegui recrutar um técnico de áudio que estivesse disposto a trabalhar de graça. Ao mesmo tempo, havia garantido três locações com facilidade, mas ainda precisava de uma terceira. E ainda assim, era de suma importância que gravássemos o quanto antes possível, pois uma vez que eu entregasse os cartuchos após gravar, o retorno dos filmes escaneados estaria completamente fora do meu controle, e a data de apresentação do TCC estava se aproximando. A fotografia principal do projeto aconteceu inteiramente dentro de 72 horas, entre a meia noite do dia 12 e a meia noite do dia 15. De última hora, convenci meu orientador, o Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira, a atuar no filme, e na última hora antes das gravações do último dia consegui persuadir um aluno de Artes Cênicas a participar. Acho difícil falar em retrospectiva dessa parte do processo, em grande parte porque eu estava anormalmente focado. Nem incontáveis horas sem dormir pareciam deter meu entusiasmo para com o projeto, e ao longo deste mês de Novembro me tornei muito mais acostumado com imprevistos e obstáculos. E foi seguindo as instruções e dicas do meu orientador, que comecei a escrever este texto apenas depois da gravação do filme. 3.6 Pós-produção O coletivo Mundo em Foco, encarregado de realizar a revelação e o telecine do filme gravado, acabou me enviando os arquivos 24 horas antes da apresentação do meu TCC, o que acabou impossibilitando que o processo de edição fosse concluído até o prazo. A importação dos arquivos digitais revelou que a integridade física das películas havia sido comprometida em algum momento ao longo da produção. Todas as imagens foram prejudicadas de uma forma ou outra, e um dos cartuchos acabou sendo mais afetado que os demais, muitas de suas imagens tornando-se irrecuperáveis. A natureza da produção analógica torna impossível determinar com certeza em quais etapas do processo a qualidade das películas pode ter sido afetada, ou quais fatores podem ter contribuído para isso, seja o calor anormal que assolava São Paulo nos dias de gravação, seja algum deslize cometido na troca de cartuchos, seja a precariedade do processo de revelação utilizado. 68 4 CONCLUSÕES Um mês atrás, eu acreditava que a prática pelo bem da prática não valeria a pena. Eu vivia pelo produto final, e passei a desconsiderar o processo, e com isso, acabei me perdendo nos meandros deste mesmo processo, esperando pela mítica inspiração que viria me resgatar da estagnação. Iniciei este projeto como uma forma de comunicar, através da minha mais querida linguagem artística, a epifania que me despertou desse ciclo no qual eu me encontrava, mas o projeto também acabou se tornando uma parte fundamental dessa trajetória de aprendizado. Se era um produto final digno de festivais que eu estava esperando, com certeza não consegui o que queria. Os cartuchos estavam danificados (eu imagino que por conta do calor) e um deles estava quase que irrecuperável. O produto final será incompreensível! E ainda assim, aprendi muito mais do que poderia imaginar que aprenderia. Descobri que consigo escrever, e senti o valor de todas as horas que passei estudando estrutura narrativa, ao mesmo tempo em que estava me despejando por completo na página. Fiz páginas e páginas de storyboards, só para externalizar o filme que eu já estava assistindo na minha mente. Descobri que consigo dirigir, não só enquadrar imagens belas ou falar sobre o Mise en Scène. Me conectei com pessoas. Vi todos ao meu redor se dedicando ao projeto, sem nenhuma expectativa de compensação, pura e simplesmente porque acreditavam nele. E se houve um motivo para acreditarem nele, é porque sabiam que eu acreditava. Me formo neste curso mais maduro do que entrei, mais experiente, talvez até mais sábio. Mais do que qualquer outra coisa, saio daqui disposto a me entregar ao processo, e a acreditar. 69 REFERÊNCIAS BONSHEK, Anna J. Mirror of consciousness: Art, creativity, and Veda. Motilal Banarsidass Publisher, 2001. CHATMAN, Seymour Benjamin. Story and discourse: Narrative structure in fiction and film. Cornell university press, 1978. COOPER, D. E. Heidegger. London: Claridge Press, 1996. COOPER, Patricia; DANCYGER, Ken. Writing the short film. Taylor & Francis, 2012. COUTINHO, Amanda. Teorizações do trabalho imaterial: a produtividade do artista no mundo do trabalho. Cadernos Cemarx, n. 8, p. 49-64, 2015. In Depth Cine - YouTube. Disponível em: . LEFEBVRE, Martin; FURSTENAU, Marc. Digital editing and montage: The vanishing celluloid and beyond. CiNéMAS, v. 13, n. 1, p. 69-107, 2002. LOERTSCHER, Miriam L. et al. As film goes byte: the change from analog to digital film perception. 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