UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP CÂMPUS DE JABOTICABAL GÊNESE, MINERALOGIA E DINÂMICA DO FÓSFORO NOS SOLOS DO PLANALTO OCIDENTAL PAULISTA Romário Pimenta Gomes Engenheiro Agrônomo 2017 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA – UNESP CÂMPUS DE JABOTICABAL GÊNESE, MINERALOGIA E DINÂMICA DO FÓSFORO NOS SOLOS DO PLANALTO OCIDENTAL PAULISTA Romário Pimenta Gomes Orientador: Prof. Dr. José Marques Júnior Coorientadora: Dra. Lívia Arantes Camargo Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias – Unesp, Câmpus de Jaboticabal, como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em Agronomia (Ciência do Solo). 2017 Gomes, Romário Pimenta G633 g Gênese, mineralogia e dinâmica do fósforo nos solos do Planalto Ocidental Paulista / Romário Pimenta Gomes. – – Jaboticabal, 2017 xiv, 76 p. : il. ; 29 cm Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, 2017 Orientador: José Marques Júnior Banca examinadora: Mara Cristina Pessôa da Cruz, Antônio Carlos de Azevedo. Bibliografia 1. Óxidos de ferro. 2. Fósforo. 3.Espectroscopia de reflectância difusa. I. Título. II. Jaboticabal-Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. CDU 631.416.2 Ficha catalográfica elaborada pela Seção Técnica de Aquisição e Tratamento da Informação – Diretoria Técnica de Biblioteca e Documentação - UNESP, Câmpus de Jaboticabal. DADOS CURRICULARES DO AUTOR ROMÁRIO PIMENTA GOMES – nascido no dia 26 de julho de 1994, no município de Manicoré – AM, cursou Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Amazonas – Câmpus de Humaitá – AM, de 2010 a 2016. Foi bolsista de iniciação científica no período de 2011 a 2015. Atualmente é aluno de Mestrado do curso de Pós-Graduação em Agronomia (Ciência do Solo) pela FCAV/UNESP Jaboticabal (Bolsista CAPES). Membro do grupo de pesquisa Caracterização do Solo para fins de Manejo Específico (CSME) da UNESP Câmpus de Jaboticabal. “Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito.” (Martin Luther King) DEDICO A Deus, pelo dom da vida. Aos meus pais, Maria Helena Pimenta Gomes e Rosinei da Costa Gomes, pela educação, valores e incentivo, a minha família pela fé em mim e apoio moral. OFEREÇO Aos meus pais Maria Helena Pimenta Gomes e Rosinei da Costa Gomes, por serem os pilares de minha caminhada na vida, por sempre lutarem pelo meu melhor, por me darem amor, carinho e incentivo, sem dúvida sendo meus exemplos de caráter, determinação e superação. Essas palavras não bastam, faltam adjetivos para expressar meu sentimento de gratidão e carinho por vocês. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus, pelas bênçãos a mim concedidas, por me proteger e me guiar em cada etapa de minha vida. À Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, pela realização deste curso de pós-graduação. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo financiamento da bolsa de estudos. Ao MCTI/CNPQ – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações/Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – Universal/2016 (Processo n. 402796/2016-0). Ao meu orientador Prof. Dr. José Marques Júnior e a minha coorientadora Lívia Arantes Camargo, pelos ensinamentos, orientação e confiança, durante esse período de mestrado. Aos professores membros da Banca de Qualificação, Newton La Scala Júnior e Marcílio Vieira Martins Filho, cujas correções e sugestões contribuíram, de forma significativa, para a melhoria do presente estudo. Aos professores membros da Banca de Defesa, Mara Cristina Pessôa da Cruz e Antônio Carlos de Azevedo, pela disponibilidade e contribuições para a melhoria do trabalho e o avanço profissional. Ao meu amigo e parceiro nesta trajetória de mestrado Laércio Santos Silva, por todo apoio, ajuda e acompanhamento pessoal e profissional. Agradeço a todos os integrantes do grupo Caracterização do Solo para Fins de Manejo Específico (CSME), Angélica Bahia, Diego Siqueira, Ivanildo Amorim, Ludmila Freitas, Renato Aquino, Danilo Baldo, Milene Moara, Daniel de Bortoli, Rafael Peluco, Vinicius Augusto, Kathleen Fernandes, Nelida Quiñonez, Gabriel Cirilo, Gustavo, Frederico Sianci e Beatriz França, pela troca de experiências e acompanhamento durante a pesquisa e a realização deste trabalho. A minha família, em especial aos meus avôs e avós, pela confiança e amor, ao meu irmão Roberto Pimenta Gomes pelo apoio e incentivo sempre que preciso. A todos os que, verdadeiramente, torceram por mim e que de forma direta ou indireta contribuíram para a conclusão deste curso de mestrado. Muito obrigado! viii SUMÁRIO RESUMO.......................................................................................................................... x ABSTRACT ..................................................................................................................... xi LISTA DE FIGURAS ...................................................................................................... xii LISTA DE TABELAS .................................................................................................... xiv CAPÍTULO 1 – CONSIDERAÇÕES GERAIS .................................................................. 1 1.1 Introdução .................................................................................................................. 1 1.2 Revisão de Literatura ................................................................................................. 4 1.2.1 Impacto global do fósforo ........................................................................................ 4 1.2.2 Influência da geologia e da dissecação da paisagem na mineralogia da argila dos solos tropicais ............................................................................................................ 6 1.2.3 Relações entre a mineralogia da fração argila e o fósforo no solo ........................ 10 1.2.4 Fósforo no solo ...................................................................................................... 14 1.2.5 Uso de espectroscopia de reflectância difusa nos atributos do solo ..................... 16 1.2.6 Caracterização do Planalto Ocidental Paulista ...................................................... 18 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 20 CAPÍTULO 2 – MINERALOGIA DA ARGILA RELACIONADA AO FÓSFORO NOS COMPARTIMENTOS GEOLÓGICOS E GEOMORFOLÓGICOS DO PLANALTO OCIDENTAL PAULISTA (SÃO PAULO, BRASIL) ........................................................ 36 Resumo .......................................................................................................................... 36 Abstract .......................................................................................................................... 37 2.1 Introdução ................................................................................................................ 38 2.2 Material e Métodos ................................................................................................... 40 2.2.1 Localização e caracterização da área ................................................................... 40 2.2.2 Compartimentos da paisagem ............................................................................... 41 2.2.3 Planejamento amostral .......................................................................................... 43 2.2.4 Metodologia de laboratório .................................................................................... 45 2.2.4.1 Análises químicas e granulométricas ................................................................. 45 2.2.4.2 Análises mineralógicas. ...................................................................................... 47 2.2.4.3 Fósforo total. ...................................................................................................... 48 ix 2.2.4.3.1 Digestão por aqua régia invertida (teor semitotal EPA 3051A) ....................... 48 2.2.4.3.2 Digestão por ácido fluorídrico (HF) + nítrico (HNO3) ....................................... 49 2.2.4.4 Fósforo adsorvido. .............................................................................................. 49 2.2.4.5 Resina trocadora de ânions. ............................................................................... 49 2.2.4.6 Análises por espectroscopia de reflectância difusa (ERD). ................................ 50 2.2.4.7 Análises quimiométricas. .................................................................................... 51 2.2.5 Análise estatística ................................................................................................. 52 2.3 Resultados e Discussão ........................................................................................... 52 2.3.1 Mineralogia da fração argila e conteúdo total de P ............................................... 52 2.3.2 Cristalinidade dos principais minerais da argila e conteúdo adsorvido e disponível de P ............................................................................................................... 55 2.3.3 Assinatura espectral dos solos relacionada ao conteúdo de P total e adsorvido .. 58 2.4 Conclusões ............................................................................................................... 65 REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 65 x GÊNESE, MINERALOGIA E DINÂMICA DO FÓSFORO NOS SOLOS DO PLANALTO OCIDENTAL PAULISTA Resumo – Nos solos tropicais, o fenômeno de adsorção de fósforo é regido pela mineralogia da fração argila, que, por sua vez, é afetada pelo material de origem e intensidade de dissecação da paisagem. Desse modo, objetivou-se relacionar o fósforo total e adsorvido com principais minerais da fração argila dos solos do Planalto Ocidental Paulista, São Paulo, associando com a geologia e o grau de dissecação da paisagem. Foram selecionadas cinquenta e cinco amostras de solo representativas da variabilidade fisiográfica do Planalto Ocidental Paulista, na profundidade de 0,0 – 0,2 m, para a caracterização das formas de fósforo, mineralogia da argila por difração de raios-x (DRX) e espectroscopia de reflectância difusa (ERD); utilizou-se também calibração quimiométrica através da regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR). Verificou-se que o P total e o P adsorvido são influenciados pela geologia e grau de dissecação da paisagem, e são covariativos dos óxidos de Fe e Al, sendo esses óxidos importantes indicadores de ambientes com maiores e menores potenciais de adsorção e com baixos e altos teores de P. A caracterização das curvas espectrais permite diferenciar o conteúdo de P total com base na mineralogia da fração argila. A análise por regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR) dos dados espectrais evidencia a influência dos óxidos de ferro no conteúdo de P total e adsorvido, sendo a Hm ao P total e a Gt ao P adsorvido. Palavras-chave: hematita, goethita, espectroscopia de reflectância difusa, PLSR, adsorção de P. xi GENESIS, MINERALOGY AND DYNAMICS OF THE PHOSPHORUS IN THE SOILS OF THE WESTERN PAULISTA PLATEAU Abstract – In tropical soils, the phenomenon of phosphorus adsorption is governed by the mineralogy of the clay fraction, which in turn is affected by the material of origin and intensity of dissection of the landscape. the objective was to relate the total phosphorus and adsorbed with the main minerals of the clay fraction of the soils of the Planalto Ocidental Paulista, associating with the geology and the degree of dissection of the landscape. Were selected fifty - five soil samples representative of the physiographic variability of the Planalto Ocidental Paulista, in the depth of 0.0 - 0.2 m, for the characterization of phosphorus forms, clay mineralogy by X - ray diffraction (XRD) and diffuse reflectance spectroscopy (DRS); it was also used chemometric calibration Through the partial least squares regression (PLSR). It was verified that the total P and adsorbed P are influenced by the geology and degree of dissection of the landscape, and are covariate of the Fe and Al oxides, and these oxides are important indicators of environments with higher and lower adsorption potentials and with low and high levels of P. The characterization of the spectral curves allows to differentiate the total P content based on the mineralogy of the clay fraction. Partial least squares regression analysis (PLSR) of the spectral data shows the influence of iron oxides on the total and adsorbed P content, with Hm at the total P and Gt at the adsorbed P. Keywords: hematite, goethite, diffuse reflectance spectroscopy, PLSR, adsorption P. xii LISTA DE FIGURAS Figura 1 (Capítulo 1) – Limites planetários para um espaço operacional seguro para a humanidade na terra, por Rockstrom et al. (2009) (a) e Hunter et al. (2016) (b)...............................................................................................................5 Figura 2 (Capítulo 1) – Proposta de modelo de evolução da paisagem (geomorfogênese) no Planalto Ocidental Paulista. Adaptado do Projeto CNPQ (Proc.n. 402796/2016-0)........................................................................................7 Figura 3 (Capítulo 1) – Análise bibliométrica dos termos “phosphorus e mineralogy” na base de dados SCOPUS (pesquisa realizada em junho de 2017).. ................................................................................................................. 12 Figura 4 (Capítulo 1) – Parte do ciclo do fósforo no ambiente. Adaptado de Fink, Inda e Barrón (2016). .......................................................................................... 14 Figura 5 (Capítulo 1) – a) Mapa do Brasil; b) mapa do Estado de São Paulo; c) unidade morfoescultural, e d) modelo litoestratigráfico da Bacia Bauru proposto por Fernandes e Coimbra (2000).. ...................................................................... 19 Figura 1 (Capítulo 2) – a) Mapa do Brasil; b) mapa do Estado de São Paulo; c) mapa da intensidade de formas do terreno pela assinatura geomorfométrica (escala ultradetalhada < 1:5.000). Adaptado de Silva (2016); d) unidades de dissecação da paisagem propostas por Silva (2016) a partir do mapa de intensidade de formas do terreno. ....................................................................... 42 Figura 2 (Capítulo 2) – a) Mapa de ferro ditionito do Planalto Ocidental Paulista; b) mapa de ferro oxalato do Planalto Ocidental Paulista; c) mapa geológico atualizado do Planalto Ocidental Paulista (escala semidetalhada 1:200.000). Adaptado de Fernandes et al. (2007). ................................................................. 44 Figura 3 (Capítulo 2) – Esquema de funcionamento do equipamento espectrofotômetro Lambda 950 UV/Vis/NIR acoplado com uma esfera integradora de 150 mm de diâmetro. Adaptado de Barrón, UCO........................ 50 Figura 4 (Capítulo 2) – Espectros de reflectância difusa (ERD) representativos dos compartimentos geológicos: Formações Serra Geral (SG) e Vale do Rio do Peixe (VRP) do Planalto Ocidental Paulista. Grau de dissecação da paisagem: Pouco dissecada (Pd), Intermediariamente dissecada (Id) e Altamente dissecada (Ad). Teores de óxidos de ferro totais no extrato sulfúrico (Fe2O3), fósforo total (PHNO3+HF). ........................................................................................................... 60 Figura 5 (Capítulo 2) – Importância da variável para projeção (VIP) do P total (HNO3+HF) (a) e P adsorvido (b) medida no VIS-NIR. ............................................. 62 xiii Figura 6 (Capítulo 2) – Modelos de regressão: Ptotal (PHNO3+HF) correlacionado com a hematita (Hm) determinada por DRX (a) e ERD (b) e P adsorvido com goethita (Gt) por DRX (c) e ERD (d) .................................................................... 64 xiv LISTA DE TABELAS Tabela 1 (Capítulo 1) – Estudos desenvolvidos nos últimos anos pelo grupo CSME (Caracterização de solos para fins de manejo específico) sobre fósforo e mineralogia da fração argila nos solos dentro do Planalto Ocidental Paulista................................................................................................................13 Tabela 1 (Capítulo 2) – Geologia, geomorfologia e classificação dos solos estudados.............................................................................................................43 Tabela 2 (Capítulo 2) – Valores médios dos atributos químicos e granulométricos dos pontos selecionados nos solos do Planalto Ocidental Paulista, na profundidade 0,0 - 0,20 m................................................................46 Tabela 3 (Capítulo 2) – Valores médios dos principais constituintes mineralógicos encontrados na fração argila e fósforo total nos solos do Planalto Ocidental Paulista, na profundidade 0,0 - 0,20 m..........................................................................................................................53 Tabela 4 (Capítulo 2) – Valores médios de P adsorvido, resina e atributos cristalográficos dos principais minerais da fração argila dos solos do Planalto Ocidental Paulista, na profundidade 0,0 - 0,20 m..........................................................................................................................57 Tabela 5 (Capítulo 2) – Resumo dos resultados obtidos pela calibração dos modelos de regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR) para o P total (HNO3+HF), P adsorvido, utilizando espectros no visível e infravermelho próximo (VIS-NIR)..............................................................................................................61 Tabela 6 (Capítulo 2) – Valores médios de hematita (Hm) e goethita (Gt) por difração de raios-x (DRX) e espectroscopia de reflectância difusa (ERD) nos solos do Planalto Ocidental Paulista, na profundidade 0,0 - 0,20 m..........................................................................................................................63 1 CAPÍTULO 1 - CONSIDERAÇÕES GERAIS 1.1 Introdução O Planalto Ocidental Paulista caracteriza-se como importante área de ocupação econômica do Estado de São Paulo, abrangendo aproximadamente 50% da área territorial. Destaca-se por ser uma das principais áreas de cultivo de citros do País, contribuindo com cerca de 80% da produção nacional, tendo ainda significativa participação na produção de açúcar e álcool. Entretanto, para o avanço agrícola nessas áreas, são necessários investimentos em tecnologias em diversos setores, inclusive no conhecimento da variação dos atributos do solo, seja de natureza química e física, seja mineralógica. Uma das alternativas é entender o padrão espacial dos minerais da fração argila dos solos, principalmente dos óxidos de Fe e Al, pois eles variam naturalmente em função da paisagem (o relevo) (TROEH, 1965; BOCKHEIM et al., 2005; CAMARGO et al., 2008a,b; MINÁR; EVANS, 2008) e, consequentemente, influenciam sobre os atributos de importância agrícola (MESQUITA FILHO; TORRENT, 1993; BIGHAM et al., 2002; KNADEL et al., 2012; INDA et al., 2013), como, por exemplo, o fósforo adsorvido (GÁLVEZ et al., 1999; ALMEIDA et al., 2003; ROLIM NETO et al., 2004; BARBIERI et al., 2009; WENG et al., 2012; CAMARGO et al., 2015; FINK et al., 2016). Nos solos tropicais, dois dos minerais mais abundantes são os óxidos de ferro, especificamente hematita e goethita (SCHWERTMANN; TAYLOR, 1989). Esses óxidos são produtos da dissolução de minerais primários (litogênicos) e secundários (pedogênicos) que contêm ferro (Fe+2) em sua estrutura cristalina (CORNELL; SCHWERTMANN, 1996). Embora esses óxidos sejam formados a partir de íons de ferro e normalmente coexistindo no solo, a ocorrência de um é em detrimento do outro (SCHWERTMANN; TAYLOR, 1989; KÄMPF; CURI, 2000). Ao contrário da Gt, a Hm tem sua formação preferencial em solos derivados de material de origem rico em ferro, como rochas basálticas (SCHWERTMANN, 1985; BIGHAM et al., 2002). Inda Júnior e Kämpf (2005) relataram que, além do material de origem, a formação e a estabilidade desses minerais são condicionadas 2 pelas características pedoambientais (temperatura, umidade, teor de matéria orgânica, pH, entre outros), características que proporcionam grande variação na cor, na forma e na própria constituição dos óxidos de ferro (SCHWERTMANN; CARLSON, 1994). Estas são razões que elegem os óxidos de ferro à função de pedoindicadores ambientais, por refletirem as condições de pedogênese sob as quais teriam sido formados (FITZPATRICK; SCHWERTMANN, 1982). A geomorfologia, aqui mencionada como o grau de dissecação da paisagem, também determina a formação dos óxidos de ferro, como relatado por Coventry et al. (1983) e Williams e Coventry (1979) em solos da Carolina do Norte. Numa relação de causa-efeito, esses autores relataram que, nos pedoambientes pouco dissecados da paisagem, isto é, onde o intemperismo foi mais atuante (pedogênese prevaleceu à morfogênese), os solos eram mais profundos, com boas condições de drenagem, ou seja, ambientes oxidantes dominavam Hm de melhor cristalinidade na fração argila. Por sua vez, a Gt era o principal óxido de ferro dos pedoambientes altamente dissecados, onde os solos eram mais rasos (contato lítico), com presença de estagnação de água por um determinado período de tempo, configurando condições redutoras. Curi e Franzmeier (1984) afirmam que isso ocorre porque a Gt é formada nas primeiras etapas do intemperismo de minerais primários, portanto acumula-se em solos jovens ou nos horizontes próximos às rochas. Diversos estudos têm demonstrado que o teor e as caraterísticas cristalográficas dos óxidos de ferro determinam o processo de adsorção de P no solo (TORRENT et al., 1992; 1994; ALMEIDA et al., 2003; CAMARGO et al., 2012; FINK et al., 2014). De forma geral, a Gt apresenta maior potencial de adsorção quando comparada à Hm, sendo atribuído a sua maior área de superfície específica e quantidade de OH- em superfície. Segundo Mesquita Filho e Torrent (1993) e Torrent et al. (1994), esses óxidos adsorvem fortemente P a sua estrutura por meio de ligações com alta energia de adsorção. A respeito disso, Paula et al. (2016) encontraram, em 1 kg de solo, aproximadamente 20 g de Gt e 30 a 60 g de Hm, em um Latossolo Vermelho distrófico. Nesta mesma área, Camargo et al. (2015) encontraram, em 1 kg de solo, cerca de 401 a 552 mg de fósforo adsorvidos, comprovando o potencial de adsorção de P aos óxidos de ferro. Neste 3 sentido fica clara a importância do estudo dos óxidos de ferro na caracterização e na relação das formas de P em solos, a exemplo do Planalto Ocidental Paulista, que possui grandes amplitudes desses óxidos, variando de 13 a 228 g kg-1 (SILVA, 2016). Todavia, as metodologias tradicionais, como a difratometria de raios-x (DRX), também inviabilizam a caraterização de óxidos de ferro e do fósforo adsorvido em grandes áreas, devido à necessidade de um grande número de amostras, tornando o trabalho oneroso e moroso no processamento das análises (BAHIA et al., 2015). Ao contrário disso, a espectroscopia de reflectância difusa (ERD) tem sido proposta na identificação e na quantificação indireta dos minerais, sobretudo da Hm e Gt, os quais são fortemente associados à cor do solo. Essa técnica permite a caracterização simultânea de muitos atributos do solo com relevância agronômica e ambiental (VISCARRA ROSSEL et al., 2006a; McBRATNEY et al., 2002, 2006; VISCARRA ROSSEL et al., 2010; CAÑASVERAS et al., 2010; KODAIRA; SHIBUSAWA, 2013), além de serem adaptáveis para uso em campo (VISCARRA ROSSEL; McBRATNEY, 1998). A mineralogia do solo é um dos principais indicadores da variação dos processos pedogenéticos (CAMARGO, 2013). Como a assinatura espectral por ERD é produto da variação dos minerais presentes no solo (BARRÓN et al., 2000), cada solo apresenta curva espectral própria que expressa os processos pedogenéticos do solo e sua capacidade de suporte no uso, ocupação e manejo do fósforo. Diante do que foi supracitado em razão da grande extensão territorial do Planalto Ocidental Paulista (12,4 milhões de hectares do Estado de São Paulo) e sua importância no setor agrícola, faz-se necessário o uso de estratégias eficientes para o manejo sustentável, especialmente em uma perspectiva de escassez mundial no fornecimento de adubo fosfatado. Deste modo, objetivou-se relacionar o fósforo total e adsorvido com os principais minerais da fração argila dos solos do Planalto Ocidental, associando com a geologia e o grau de dissecação da paisagem. 4 1.2 Revisão de Literatura 1.2.1 Impacto global do fósforo O fósforo (P) é essencial para todas as formas de vida, porém grande parte dos solos contém apenas baixas concentrações de P. Sabendo disso, a adição de P na forma de fertilizantes é essencial para produção de alimentos no mundo todo (DUAN et al, 2011; TOWNSEND; PORDER, 2012; OBERSTEINER et al., 2013). Entretanto, as reservas mundiais de P estão estimadas em 10 x 1015 g de P, estando mal distribuídas dentro do globo, sendo concentrado em pequenas regiões dos Estados Unidos, Norte da África (principalmente Marrocos e Argélia), China, Rússia e Oriente Médio (USGS, 2016). O P não tem nenhum substituto na produção de alimentos em um mundo de 9 bilhões de pessoas previstos para o ano de 2050. Sendo assim, assegurar P suficiente será fundamental para a segurança alimentar no futuro (CORDELL et al., 2011). No entanto, a principal fonte mundial de P é o fosfato de rocha, mas este é um recurso finito e não renovável, cada vez mais escasso e caro. Cordell et al. (2009) estimaram que, em 2035, a demanda de fósforo superará a oferta. Embora o prazo exato possa ser incerto, não há fontes alternativas de P no mercado que possam substituir a atual produção global de 20 milhões de toneladas de P a partir de rochas fosfatadas. Aumenta, portanto, a necessidade do uso eficiente de P para atender às demandas do aumento da produção agrícola e, ao mesmo tempo, a sustentabilidade ambiental (TENKORANG; LOWENBERG-DeBOER, 2008; WORSTALL, 2013). O conceito de limites planetários para um espaço operacional seguro para a humanidade na Terra (Figura 1a) foi introduzido por Rockstrom et al. (2009a,b) e identificados nove sistemas globais que, se cruzados, mudariam o sistema da Terra com consequências inaceitáveis para os seres humanos. Um desses limites pertence ao P, que foi baseado nas condições oceânicas e proposto para ser dez vezes o fluxo pré-industrial de oceanos (ROCKSTROM et al., 2009a,b). Porém, Hunter et al. (2016) descobriram que já foram atravessados quatro desses limites: 5 mudanças climáticas, integridade da biosfera, mudanças do sistema terrestre e ciclos biogeoquímicos (ciclos de fósforo e nitrogênio) (Figura 1b). A fertilização com P, no longo prazo, provoca acúmulo significativo do nutriente no solo, o que representa uma crescente ameaça para o ambiente aquático (BOLLAND et al., 1996; ZHUANG et al., 2007). O P também é considerado um grande poluente de cursos d’água, especialmente em águas superficiais, já que ocorre pouca percolação deste elemento. Além disso, o excesso de P causa a eutrofização, que é o enriquecimento excessivo de nutrientes no corpo d’água; sendo assim, os nutrientes estimulando o crescimento de algas e de plantas, que prejudicam a utilização da água, e com o aumento do consumo de oxigênio, causam também a mortandade de peixes (KLEIN; AGNE, 2012). Figura 1. Limites planetários para um espaço operacional seguro para a humanidade na terra por Rockstrom, et al. (2009) (a) e Hunter et al. (2016) (b). Nos ecossistemas marinhos, ocorreu, nos últimos, anos o desenvolvimento de centenas de "zonas mortas" nos oceanos e na foz dos rios que atravessam regiões do mundo onde a agricultura intensiva em insumos é praticada, em particular nos EUA e na Europa. A maior dessas zonas mortas está no Golfo do México, perto de onde o Rio Mississippi descarrega, tendo uma área superficial surpreendentemente extensa de cerca de 7.000 km2 e, aparentemente, continua expandindo-se a uma taxa alarmante, assim como muitas outras zonas mortas 6 (cerca de 400), em outras partes do globo (DIAZ; ROSEMBERG, 2008; DOMAGALSKI; JOHNSON, 2012), sendo necessário o desenvolvimento de medidas que possibilitem a redução da perda deste nutriente. As medidas de controle da eutrofização por P, nas áreas de exploração agrícola, restringem-se ao correto dimensionamento das adubações, estando associadas a práticas conservacionistas de controle da erosão do solo (RESENDE, 2002). Além do que, a adubação com P possui efeito prolongado nas culturas subsequentes. Sendo assim, dependendo do sistema, é possível aplicar uma quantidade única de P e realizar cultivos sucessivos sem manutenções anuais (SOUZA et al., 2010). No Brasil, a agricultura é praticada predominantemente em solos que se encontram parte em estado degradado e, também, em outros casos, em estágio avançado de alteração intempérica, com predominância de óxidos de ferro e alumínio. Para alcançar patamares de produção e produtividade, milhares de toneladas de fertilizantes industriais de alta solubilidade são aplicados anualmente aos solos brasileiros. 1.2.2 Influência da geologia e da dissecação da paisagem na mineralogia da argila dos solos tropicais O solo é produto da ação combinada dos denominados fatores de formação do solo, a saber: material de origem, relevo e o tempo (fatores passivos), somados ainda o clima e os organismos (fatores ativos). Entre esses fatores, as propriedades morfológicas, químicas, físicas e mineralógicas de um solo são fortemente influenciadas pelo material de origem (SANTOS et al., 2010) e são controladas pelo fator tempo. Segundo Fanning e Fanning (1989), quanto menor a intensidade do fator tempo, mais o solo herda as características do material de origem, especialmente quando o solo é produto do intemperismo da rocha que o sustenta, denominado, neste caso, de solos autóctones. Já os fatores climáticos e fisiográficos assumem papel coadjuvante na pedogênese. Entretanto, nem sempre o solo formado é produto originário do próprio local onde ocorre atualmente, denominado de alóctone, ou substrato geológico que o 7 sustenta, principalmente quando em uma dada região há mistura de geologias com distinto grau de metamorfismo e relevo bastante movimentado. Neste aspecto, o relevo, que pode ser compreendido como um conjunto de elevações ou feições geográficas definidas pela altitude, declividade, uniformidade e extensão das superfícies (FREIRE, 2006; VASCONCELOS et al., 2012), encontra-se em pleno processo evolutivo. Simultaneamente, à medida que o relevo altera o material de origem, o tempo de remoção e a deposição de material, escoamento superficial e regime do lençol freático, ele também é modificado (BUOL et al., 1980; BOCKHEIM et al., 2005). Por essa isocronicidade, Jenny (1941) atribuiu ao relevo a função mais de agente de remoção e de distribuição do solo do que de formação. Tal constatação reforça a ideia de que a formação do solo é um balanço entre a pedogênese e a geomorfogênese (MACMILLAN; SHARY, 2009). Neste estudo, a influência da geomorfologia é representada pelo grau de dissecação da paisagem, que pode ser compreendida como o balanço entre a pedogênese (formação do solo) e a geomorfogênese (esculpimento da paisagem), sendo que, em ambientes onde a pedogênese é mais atuante que a morfogênese, há um favorecimento à formação e ao aumento da espessura do solo (ambientes pouco dissecados). Em contrapartida, ambientes onde a morfogênese é mais ativa, o processo atua no sentido de esculpir a paisagem, permitindo a expressão mais efetiva da rocha do que do solo, classificados como altamente dissecados (Figura 2). Figura 2. Proposta de modelo de evolução da paisagem (geomorfogênese) no Planalto Ocidental Paulista. Adaptado do Projeto CNPQ (Proc.nº 402796/2016-0). 8 Falar sobre a formação do solo e associar a paisagem é o mesmo que tratar das transformações dos minerais do solo, uma vez que as condições impostas pelo pedoambiente (temperatura, umidade, teor de matéria orgânica, pH e Eh, entre outros) (KÄMPF; CURI, 2000), atuam nos processos de dissolução, oxirredução, complexação de espécies químicas. Enfim, são responsáveis pela neoformação de minerais secundários, os pedogênicos, destacando-se os óxidos de ferro por serem constituídos, em sua maioria, de produtos de neoformação provenientes da alteração de sedimentos e materiais de solo (SCHWERTMANN, 1966; SCHWERTMANN, 1985; SCHWERTMANN; TAYLOR, 1989; CORNELL; SCHWERTMANN, 1996). A respeito da gênese dos óxidos de ferro, seguindo a evolução do solo, Curi e Franzmeier (1984) afirmam que a Gt é o primeiro óxido de ferro pedogênico formado nas primeiras etapas do intemperismo dos minerais primários, concentrando-se em solos jovens ou nos horizontes próximos às rochas. Essa mesma afirmação explica o predomínio de Gt nas unidades altamente dissecadas, verificado no estudo de Silva (2016). Em complemento, a Hm é favorecida nas partes mais altas do relevo, nas pedoformas lineares, convexas e pouco dissecadas (COVENTRY et al, 1983; WILLIAMS; COVENTRY, 1979; SILVA, 2016). Isto porque, na cota mais alta do relevo, o solo normalmente é mais bem drenado, com temperaturas mais elevadas e alto teor de ferro (no caso, solos oriundos de rochas básicas), baixo teor de matéria orgânica e facilidade de desidratação da ferridrita (BUOL et al., 1997; KÄMPF; CURI, 2000). Assim como os óxidos de ferro, alguns estudos têm apresentado a influência da paisagem também na formação da Gb e Caulinita (Ct) (SILVA et al., 2001). De acordo com Ghidin et al. (2006) e Camargo et al. (2008a), a Ct tem formação e ocorrência preferencial em solos localizados na posição de baixada da paisagem (CURI; FRANZMEIER, 1984), principalmente quando esta apresenta formas côncavas. Silva et al. (2001), avaliando o efeito do material de origem e a posição topográfica em solos da Baixada Sul Fluminense no Rio de Janeiro, encontraram solos mais cauliníticos nas porções de baixada de uma topossequência, com presença de ciclos alternados de umedecimento e secagem. Já Reatto et al. (2008), numa topossequência de Latossolos no Planalto Central do Brasil, 9 encontraram maior relação gibbsita/(gibbsita+caulinita) em solos do relevo mais movimentado quando comparada a áreas mais planas. É provável que as condições de relevo mais movimentado ou mais declivoso favoreçam o rejuvenescimento relativo destes solos, pela maior exposição do material de origem, contribuindo para a formação e a estabilidade da Ct em relação à gibbsita (Gb). Ainda, com a ação do intemperismo, possivelmente o Si é acarreado das posições mais altas da paisagem, concentrando-se nas depressões, o que favorece a formação e os maiores teores de Ct bem como sua estabilidade nas posições mais baixas da paisagem (GHIDIN et al., 2006; SCHAEFER et al., 2008). Curi e Franzmeier (1984), no Planalto Central do Brasil, concluem que a predominância de Gb no topo de uma topossequência decorre do processo intenso de dessilicatização, com remoção de silício para posições mais baixas da vertente. Baseado no conceito de superfícies geomórficas aplicados à pedologia (DANIELS et al., 1971; GERRARD, 1993; RUHE, 1969) e suas relações cronológicas entre o solo e as superfícies geomórficas, observa-se que vários trabalhos tratam deste assunto, associando também a mineralogia. No cerrado brasileiro, Rodrigues e Klamt (1978) notaram que o conteúdo de Gb dos solos diminuiu das superfícies mais antigas para as mais recentes, sendo o mesmo observado por outros autores (CURI; FRANZMEIER, 1984; CAMARGO et al., 2008a). Para Marques Júnior et al. (1997), o conhecimento dos limites das superfícies geomórficas em uma determinada área agrícola pode indicar locais específicos de manejo com adoção de práticas mais eficientes e sustentáveis ao ambiente. Nos trabalhos desenvolvidos por Klamt e Beatty (1972) e Uberti e Klamt (1984), foi observado que o maior grau de desenvolvimento dos solos ocorreu em posição de topo, com dominância de solos distróficos; por outro, lado em posições de terraços e áreas escarpadas, ou dissecadas, predominavam solos mais jovens e eutróficos. Estudando as relações solo-paisagem em uma litossequência no município de Pereira Barreto-SP, Campos et al. (2007) observaram que os segmentos de forma côncava apresentavam valores mais elevados de soma de bases, valor T e saturação por bases, que os de forma linear. Isso porque as áreas 10 côncavas atuam como sítio de deposição dos sedimentos advindos de outros ambientes. Diante disso, torna-se substancial o conhecimento dos aspectos geológicos nos quais o solo foi ou ainda está sendo desenvolvido e sua relação com o grau de dissecação da paisagem e formas da paisagem, visto que a geomorfologia influencia o tipo e a forma dos minerais formados e, por conseguinte, a distribuição dos atributos do solo (MARQUES JÚNIOR; LEPSCH, 2000; CUNHA et al., 2005; CAMPOS et al., 2007). Essas informações possibilitam separar áreas mais homogêneas e, consequentemente, adotar manejo específico e avaliação dos efeitos da agricultura na qualidade ambiental (SOUZA et al., 2003; CORÁ et al., 2004). 1.2.3 Relações entre a mineralogia da argila e o fósforo no solo A mineralogia da fração argila é de grande importância no estudo dos solos, não só por desempenhar papéis importantes nas propriedades química, física e morfológica do solo, ou por possuírem minerais de grande ocorrência, mas também, por guardar testemunho de sua evolução, podendo ser considerados pedoindicadores ambientais do solo, por serem reflexo das condições ambientais de origem e por persistirem por longo tempo no solo (FEY; DIXON, 1981; SCHULZE, 1984; SCHWERTMANN; CARLSON, 1994; CORNELL; SCHWERTMANN, 1996). Os principais minerais da fração argila regem a dinâmica de P nos solos tropicais intemperizados, com predomínio da formação de complexos de esfera interna do P com os óxidos e os hidróxidos de ferro e de alumínio e argilominerais (MEURER et al., 2006). Esses complexos de esfera interna indicam que o P está fortemente ligado à superfície de minerais altamente estruturados através de ligação covalente (ESSINGTON, 2003; SPOSITO, 2008). Além disso, o P é adsorvido preferencialmente por grupos de superfícies hidroxilas em óxidos de ferro (SPARKS, 2003; SPOSITO, 2008), ocorrendo pela troca de ligantes como OH2 + e OH- da superfície desses compostos pelos fosfatos da solução e pela 11 incorporação desse ânion na estrutura interna dos argilominerais (BERKHEISER et al., 1980; SHARPLEY et al., 2005). As amplitudes de P adsorvido a Hm, encontradas por Barrón et al. (1988) e Torrent et al. (1994), foram de 0,8 a 4,1 μmol de P m-2 em amostras naturais, e na Gt foram de 1,62 a 3,13 μmol de P m -2, sendo influenciado pelo tamanho, pela morfologia e pelo grau de substituição do Al na estrutura do cristal. Embora a adsorção média de P por unidade de área de superfície seja semelhante para Gt e Hm, a Gt, tipicamente, adsorve mais P como resultado de sua área de superfície específica (ASE) maior em relação a Hm (TORRENT et al., 1994). Estudos de Torrent et al. (1990) sugerem que a adsorção de P pela Gt é simples e ocorre principalmente na face do cristal com índice de Miller 110, e para Hm é atribuído às faces basais do mineral (TORRENT et al., 1994). Em uma escala cronológica de trabalhos publicados, a maior adsorção de P deu-se na presença de Gt quando comparada a Hm (BIGHAM et al., 1978; KARIM; ADAMS, 1984; FONTES; WEED, 1996; ROLIM NETO et al., 2004; CAMARGO et al., 2015). Estudando a adsorção de fósforo em diversos Latossolos do Brasil, Ker (1995) observou que o aumento do caráter caulinítico dos solos implica a redução da capacidade de adsorção de P, levando a entender que o papel da caulinita parece secundário em comparação com os constituintes oxídicos. Estudos de Valladares et al. (2003) observaram que solos originários de rochas de natureza basáltica apresentaram maior potencial de adsorção de P, consistindo no estudo de Gonçalves et al. (2011) em solos formados pelos sedimentos do intemperismo do basalto em relação àqueles derivados de sedimentos de granito e arenito. Em todas essas investigações, os autores afirmam que as variações do potencial dos solos em adsorver P devem-se ao tipo de mineral predominante, teor e atributos cristalográficos dos minerais. No panorama internacional, com base na análise bibliométrica da plataforma SCOPUS, é possível destacar o aumento quantitativo de publicações com a temática fósforo e mineralogia, a partir de 1994 até os dias atuais, sendo grande parte dos documentos publicados, provenientes das ciências agrárias, biológicas e ambientais, mostrando assim a importância dos tópicos abordados neste trabalho para o meio científico (Figura 3). http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-70542016000400369#B7 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-70542016000400369#B7 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-70542016000400369#B101 12 Figura 3. Análise bibliométrica dos termos “phosphorus e mineralogy” na base de dados SCOPUS (pesquisa realizada em junho de 2017). Poucos são os estudos que relacionam a geomorfologia com a formação dos minerais pedogênicos e sua influência nos atributos químicos e físicos do solo. Entretanto, o grupo CSME desenvolveu trabalhos nesse sentido, a exemplo dos estudos de Camargo et al. (2008ab; 2015) e Barbieri et al. (2009; 2013), que criaram modelos em escala local (pequena escala) de ocorrência de Hm, Gt e variáveis covariativas, como o P, o que resultou em zonas específicas de manejo, com baixo custo de insumos e menor impacto ambiental. Esses estudos podem ser observados na Tabela 1. Além da mineralogia, a matéria orgânica (MO) assume papel importante no processo de retenção de P (ANDRADE et al., 2003; ANTELO et al., 2007), uma vez que ácidos orgânicos (ácidos húmicos) inibem o crescimento dos cristais de óxidos de ferro, aumentando a área de superfície específica e, portanto, favorecendo a retenção de P pelos óxidos (BARRÓN et al., 1988). Entretanto, o efeito ambivalente da MO permite que ela atue de diversas formas na retenção de fosfato, seja alterando a forma cristalina dos minerais, seja retardando o contato direto de P na 13 Tabela 1. Estudos desenvolvidos nos últimos anos pelo grupo CSME (Caracterização de solos para fins de manejo específico) sobre fósforo e mineralogia da fração argila nos solos dentro do Planalto Ocidental Paulista. Autor e ano Assunto de estudo Localização Área Barbieri et al., 2009 Hillslope curvature, clay mineralogy, and phosphorus adsorption in an Alfisol cultivated with sugarcane Catanduva-SP 2 áreas de 1 ha Montanari et al., 2010 Caracterização mineralógica de Latossolos em diferentes feições do relevo Jaboticabal-SP 158 ha Camargo et al., 2012 Spatial correlation between the composition of the clay fraction and contents of available phosphorus of an Oxisol at hillslope scale Guariba-SP 1 ha Oliveira et al., 2013 Modelagem geoestatística das incertezas da distribuição espacial do fósforo disponível no solo, em área de cana-de- açúcar Tabapuã-SP 200 ha Barbieri et al., 2013 Comportamento dos óxidos de ferro da fração argila e do fósforo adsorvido, em diferentes sistemas de colheita Guariba-SP 1 ha Marques Jr et al., 2014 Magnetic susceptibility and diffuse reflectance spectroscopy to characterize the spatial variability of soil properties in a Brazilian Haplustalf Catanduva-SP 1 ha Bahia et al., 2015 Procedures using diffuse reflectance spectroscopy for estimating hematite and goethite in Oxisols of São Paulo, Brazil Guatapará e Guariba-SP — Peluco et al., 2015 Mapeamento do fósforo adsorvido por meio da cor e da suscetibilidade magnética do solo Guatapará-SP 380 ha Camargo et al., 2015 Mapping of clay, iron oxide and adsorbed phosphate in Oxisols using diffuse reflectance spectroscopy Guariba-SP 500 ha Marques Jr et al., 2015 Sampling planning of micronutrients and aluminium of the soils São Paulo, Brasil 24,8 milhões ha superfície dos óxidos, isto é, reduzindo a força de retenção (FINK et al., 2016). Segundo Antelo et al. (2007), a MO carregada negativamente pode alterar a carga superficial dos óxidos de ferro, provocando a repulsão eletrostática dos fosfatos, sendo necessário o entendimento dessa dinâmica de P no solo, desde sua origem, equilíbrio químico no sistema solo e, por fim, as vias de saída do sistema. 14 1.2.4 Fósforo no solo A fonte de P em sistemas naturais são os minerais primários fosfatados, que com o processo de intemperismo e a formação do solo, ou seja, pedogênese, (GATIBONI, 2003) acabam liberando P no sistema solo. No caso em solução, este é readsorvido. Com o avanço da pedogênese, os minerais fosfatados vão sendo degradados e contribuindo cada vez menos no fornecimento de P ao sistema. O avanço do intemperismo faz com que aumentem os sítios de adsorção aniônica, mudando o caráter da fase sólida do solo de fonte para dreno (ROLIM NETO et al., 2004), aumentando as ligações covalentes de difícil reversibilidade e, consequentemente, o potencial de adsorção de P no solo. Na Figura 4 está parte do ciclo do P no ambiente. Figura 4. Parte do ciclo do fósforo no ambiente, adaptado de Fink, Inda e Barrón (2016). No solo, o P pode ser adsorvido ou dessorvido, dependendo da concentração, cristalinidade, área de superfície específica e grupos hidroxila na superfície dos óxidos de ferro (FINK et al., 2016). Estes fatores, por sua vez, são afetados pelo material de origem, pela intensidade do intemperismo e pelas condições de drenagem (BARRÓN; TORRENT, 1996; MOTTA; KAMPF, 1992; INDA JÚNIOR; KAMPF, 2005; SCHAEFER et al., 2008). 15 O P da solução do solo é denominado fator intensidade (I). O suprimento de I, à medida que o fósforo é absorvido, é mantido pelo fator quantidade (Q), quantitativamente maior que o I. Há, portanto, um equilíbrio entre o fator I e Q. Esta interdependência caracteriza o fator capacidade de P, quantitativamente definido pela relação Q/I. Em solos com maior adsorção de P, como os mais argilosos e, de modo particular, os mais intemperizados, a relação Q/I será maior do que em solos com menor adsorção, como nos arenosos e, se argilosos, menos intemperizados. Portanto, para o mesmo valor de Q + I, um solo argiloso terá menos P em solução (I) e mais P-lábil (Q) que um solo arenoso. Por outro lado, para solos com o mesmo valor de I, a planta terá mais P à sua disposição naquele com maior Q, maior fator capacidade (NOVAIS; SMYTH, 1999). Além disso, o teor natural de P presente no solo é insatisfatório ao adequado crescimento de plantas. Apesar de seu teor total no solo variar de 100 a 1.000 mg kg-1 (BRADY; WEIL, 1996), ou entre 200 e 3.000 mg kg-1 (NOVAIS; SMYTH, 1999), menos de 0,1 % desse total está na solução do solo, cujos valores variam entre 0,002 e 2,0 mg L-1 (FARDEAU, 1996). Estima-se que 5% a 25% do fósforo solúvel adicionado ao solo, como adubo, sejam aproveitados pela cultura, e que 95% a 75% dele sejam adsorvidos (FALCÃO; SILVA, 2004). Devido a essa baixa disponibilidade, o P também é um fator limitante para a produtividade das culturas (QIAO et al., 2013), pois a aplicação de P em quantidades que excedem a absorção da planta pode acarretar perdas deste elemento e subsequente acúmulo de P em corpos d’água próximos ao cultivo (NEWMAN, 1997; SIBBESEN; RUNGE-METZGER, 1995). Contudo, para ajudar na compreensão de P no solo, existem métodos indiretos que auxiliam a identificação e a quantificação de determinados elementos no solo, principalmente em grandes áreas que necessitam de um grande banco de dados amostral. Esses métodos indiretos possibilitam gerar informações em um curto espaço de tempo, assim como também facilitar o estudo entre os atributos de interesse agronômico, que apresentam certa relação. 16 1.2.5 Uso de espectroscopia de reflectância difusa na avaliação de atributos do solo Para caracterização e mapeamento de grandes áreas, faz-se necessário um número grande de amostras; sendo assim, os métodos tradicionais, como no caso a difração de raios-x com o pré-tratamento de concentração de óxidos de ferro, para determinação de Gt e Hm, são onerosos, dispendiosos, causam riscos ao manipulador pelo uso de reagentes perigosos e impactos ambientais, quando descartados indevidamente (VISCARRA ROSSEL et al., 2006b; CAMARGO et al., 2015; BAHIA et al., 2015). Nessa perspectiva, a espectroscopia de reflectância difusa (ERD) torna-se uma técnica alternativa que pode ser utilizada para complementar os métodos convencionais de análise do solo (MADARI et al., 2006; VISCARRA ROSSEL et al., 2009a,b), principalmente em grandes áreas, pois ao contrário do DRX, esta técnica é rápida, menos dispendiosa, não destrutiva e simples (CAMARGO et al., 2015). Visando a atender a esta crescente demanda de informações detalhadas dos solos tropicais, especialmente de atributos mineralógicos, cada vez mais tem sido empregado o uso de técnicas indiretas, a exemplo da Austrália, que tem por assinatura espectral obtida por sensores orbitais conseguido realizar mapas de Hm e Gt de toda a federação (769.902.400 ha) (VISCARRA ROSSEL et al., 2010). No Brasil, estudos incipientes, em pequenas áreas, já foram desenvolvidos usando métodos indiretos na caraterização de óxidos de ferro como assinatura espectral por ERD (ALMEIDA et al., 2003; BAHIA et al., 2015). A assinatura espectral por ERD, para quantificação de óxidos de ferro, foi proposta por Torrent e Barrón (1993) para quantificar Hm e Gt, e vem sendo utilizada para a quantificação de minerais, em diversos países, como, por exemplo: na Espanha (TORRENT; BARRÓN, 2002; WERFF DER et al., 2015), na China (CHEN et al., 2002; HU et al., 2013) e na Austrália (VISCARRA ROSSEL et al., 2009a, 2010). A ERD tem seu princípio baseado na cor emitida quando o fluxo radiante incide sobre a matéria; neste estudo, o solo, ou seja, a influência das propriedades do solo sobre a absorção e a reflexão da energia medida permite relacionar bandas 17 espectrais; no caso, a faixa do visível (VIS) e infravermelho próximo (NIR) com os atributos do solo, e assim quantificá-los de maneira indireta. Sabendo disso, quanto mais escura e intensa a cor do solo, características de solos que têm como constituintes a Hm, maghemita e a presença de MO, menor energia é refletida, ocorrendo o rebaixamento da curva em função do comprimento de onda. Entretanto, quando a amostra de solo apresenta minerais de cores claras, como Gt e, com menor intensidade, ocorre a elevação da curva de reflectância, pois a maior parte da energia incidida na amostra foi refletida. Portanto, a cor é um atributo morfológico confiável na identificação dos óxidos de ferro (RESENDE, 1976; SCHWERTMANN, 1993). Várias técnicas de calibração, baseadas nos espectros VIS-NIR, foram utilizadas no desenvolvimento de modelos para estimar propriedades do solo, considerando a vantagem de evitar a colinearidade (XU; XIE, 2012; ZHANG, 2010; ZHANG et al., 2011). O programa Parles (VISCARRA ROSSEL, 2008) implementa a regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR), que é comumente desenvolvida com uma ampla gama de largura de banda espectral para obter alta precisão de previsão em função da calibração de modelos. Vale ressaltar que esse método é baseado na absorção espectral característica dos elementos do solo e também usa correlações entre o elemento solo e seus constituintes, como: óxidos de ferro e minerais de argila (BARTHOLOMEUS et al., 2008). Quando se utiliza o PLSR para calibração de um modelo, também é possível visualizar os gráficos de importância da variável na projeção (VIP), podendo assim ser possível identificar mais positivamente as bandas que estão influenciando as previsões PLSR do atributo de interesse (YAN et al., 2013). Conhecendo os princípios das relações de causa e efeito do solo e observando isso em grandes áreas, essa ferramenta possibilita nova perspectiva no gerenciamento específico em grandes compartimentos do solo, que necessita de um grande banco de dados, podendo ser adquirido em um curto espaço de tempo e com menor custo (CAMARGO et al., 2015). A agricultura, consequentemente, enfrenta o desafio de elaborar estratégias de gestão que possam limitar as perdas de P do solo para corpos d’água (rios e oceanos) e o fornecimento adequado de P. O sucesso de tais estratégias de 18 gestão, principalmente em grandes regiões, dependerá do conhecimento da rocha que deu origem ao solo, em quais posições na paisagem o P tem-se acumulado, como P é distribuído nos perfis de solo, e quão prontamente o P é liberado para o escoamento e a cultura em desenvolvimento. 1.2.6 Caracterização do Planalto Ocidental Paulista O planalto Ocidental Paulista estende-se a noroeste das Cuestas Basálticas, compreendendo aproximadamente uma área de 126.000 km2, cerca de aproximadamente 50% do Estado de São Paulo (Figura 5a, b). Suas maiores altitudes alcançam aproximadamente 1.000 m na divisa com as Cuestas Basálticas; mas, dentro da unidade, varia de 300 a 900 metros (Figura 5c). Caracterizado por vales pouco profundos com encostas de inclinações suaves (10 a 20%), proporcionando um relevo ligeiramente ondulado sob a forma de colinas amplas e baixas, com topos aplainados, influenciando a densidade de drenagem e favorecendo as atividades agrícolas (ALMEIDA, 1964). A sequência suprabasáltica neocretácea é formada pelos grupos Bauru e Caiuá (FERNANDES; COIMBRA, 2000) (Figura 5d), sendo composta pelas formações Uberaba, Vale do Rio do Peixe, Araçatuba, São José do Rio Preto, Presidente Prudente e Marília. Seu contato basal é discordante (não conformidade), sobretudo com basaltos da Fm. SG (Grupo São Bento). Na base da sequência, geralmente ocorre delgado estrato de aspecto brechoide, com clastos angulosos de basalto, sustentado por matriz arenosa imatura. 19 Figura 5. a) Mapa do Brasil; b) mapa do Estado de São Paulo; c) unidade morfoescultural, e d) modelo litoestratigráfico da Bacia Bauru proposto por Fernandes e Coimbra (2000). A região do planalto Ocidental situa-se essencialmente sobre rochas do Grupo Bauru, que é constituído por diversas formações predominantemente de rochas areníticas com predomínio da formação Vale do Rio do Peixe (Fm. VRP) (57,1% da região do planalto), e algumas manchas cimentadas por carbonato de cálcio, que hoje tem uma área de 370.000 km2, estando composta por camadas de espessura submétrica, com estruturação tabular típica e arenitos intercalados com siltitos ou lamitos arenosos e assenta-se diretamente sobre basaltos. Além disso, a 20 Fm. VRP corresponde a depósitos essencialmente eólicos, acumulados em extensas áreas planas, na forma de lençóis de areia e campos de dunas baixas (FERNANDES, 2004). Os basaltos da formação Serra Geral (Fm. SG) são oriundos do período Cretáceo inferior, com aproximadamente 133 milhões de anos, segundo Renne et al. (1992), constituindo cerca de 15,5% da região do planalto ocidental, sendo assim um importante compartimento geológico na região, tendo como substrato rochas vulcânicas (IPT, 1981). Essa região é caracterizada por possuir 97% das rochas de caráter básico-intermediário (basalto e andesitos) e apenas 3% de rochas ácidas (riodacitos e riolitos) (NARDY et al., 2002); além disso, os dados geoquímicos dos basaltos mostram que eles não são homogêneos. Dentro da Fm. VRP e SG existem compartimentos geomorfológicos com níveis de dissecação da paisagem, que é o balanço entre a pedogênese (formação do solo) e a morfogênese (esculpimento da paisagem). Estudos da influência do relevo e do material de origem associados originam dados importantes na compreensão da distribuição dos solos na paisagem de uma dada região, assim como oferecem elementos de predição dos atributos físicos, químicos e mineralógicos do solo (RESENDE et al., 2007), auxiliando também em trabalhos convencionais de levantamento e de mapeamento de solos (LACERDA; BARBOSA, 2012). REFERÊNCIAS ALMEIDA, J. A.; TORRENT, J.; BARRÓN, V. Cor de solo, formas do fósforo e adsorção de fosfatos em Latossolos desenvolvidos de basalto do extremo-sul do Brasil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v.27, p.985-1.002, 2003. doi: 10.1590/ S0100-06832003000600003. ALMEIDA, F. F. M. Fundamentos geológicos do relevo paulista. Boletim do Instituto Geográfico e Geológico. v.41, p.169-263, 1964. ANDRADE, F. V.; MENDONÇA, E. S.; ALVAREZ V, V. H.; NOVAIS, R. F. Adição de ácidos orgânicos e húmicos em Latossolos e adsorção de fosfato. 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Utilizou-se também calibração quimiométrica através da regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR). Verificou-se que o P total e o P adsorvido são influenciados pela geologia e grau de dissecação da paisagem, e são covariativos dos óxidos de Fe e Al, sendo esses óxidos importantes indicadores de ambientes com maiores e menores potenciais de adsorção e com baixos e altos teores de P. A caracterização das curvas espectrais permite diferenciar o conteúdo de P total com base na mineralogia da fração argila. A análise por regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR) dos dados espectrais evidencia a influência dos óxidos de ferro no conteúdo de P total e adsorvido, sendo a Hm ao P total e a Gt ao P adsorvido. Palavras-chave: hematita, goethita, espectroscopia de reflectância difusa, PLSR, adsorção de P. 37 Clay mineralogy of phosphorus related in the geological and geomorphological compartments of the Western Paulista Plateau Abstract – In tropical soils, the phenomenon of phosphorus adsorption is governed by the mineralogy of the clay fraction, which in turn is affected by the material of origin and intensity of dissection of the landscape. the objective was to relate the total phosphorus and adsorbed with the main minerals of the clay fraction of the soils of the Planalto Ocidental Paulista, associating with the geology and the degree of dissection of the landscape. Were selected fifty - five soil samples representative of the physiographic variability of the Planalto Ocidental Paulista in the depth of 0.0 - 0.2 m, for the characterization of phosphorus forms, clay mineralogy by X - ray diffraction (XRD) and diffuse reflectance spectroscopy (DRS). It was also used chemometric calibration Through the partial least squares regression (PLSR). It was verified that the total P and adsorbed P are influenced by the geology and degree of dissection of the landscape, and are covariate of the Fe and Al oxides, and these oxides are important indicators of environments with higher and lower adsorption potentials and with low and high levels of P. The characterization of the spectral curves allows to differentiate the total P content based on the mineralogy of the clay fraction. Partial least squares regression analysis (PLSR) of the spectral data shows the influence of iron oxides on the total and adsorbed P content, with Hm at the total P and Gt at the adsorbed P. Keywords: hematite, goethite, diffuse reflectance spectroscopy, PLSR, adsorption P. 38 2.1 Introdução O Brasil ocupa a décima primeira posição no ranking dos países com reserva de fosfato de rocha (USGS, 2014), mas assim como no panorama mundial, o aumento crescente da população estimada para 2050, em torno de 9,1 bilhões, preocupa os setores agrícolas, uma vez que a escassez de fertilizantes fosfatados limita a produtividade e restringe a vida dos ecossistemas aquáticos (CORDELL et al., 2011; FINK et al., 2016). A reserva de fósforo (P) é quase que unicamente geoquímica, ou seja, da rocha (OBERSTEINER et al., 2013), sendo o conteúdo de P total no solo dependente da riqueza do material de origem em P, e como grande parte do P se encontra ocluída ou fortemente adsorvida nos compostos de ferro, pode-se inferir que sua dinâmica tem influência da intensidade do intemperismo (GATIBONI et al., 2013), caraterísticas mineralógicas do solo (ALMEIDA et al., 2003; BARBIERI et al., 2013; CAMARGO et al., 2012, 2015) e dissecação da paisagem (DAVIS et al., 1998). De forma geral, os maiores teores de P total são encontrados em solos desenvolvidos de rochas vulcânicas (basalto), devido à presença de apatita com grande conteúdo de P (RHEINHEIMER et al., 2008). Em solos tropicais, sob ação do intemperismo, o P contido em apatita pretérita tende a continuar nos solos, na forma oclusa, ou seja, aprisionado aos óxidos, como hematita (Hm= α-Fe2O3) e goethita (Gt= α-FeOOH) (GÁLVEZ et al., 1999). Entretanto, embora os teores de P total no solo sejam elevados, grande parte é fortemente retida aos minerais da fração argila, como Gt, Hm, gibbsita e caulinita, assumindo papel importante na caracterização de um solo como dreno ou fonte (ROLIM NETO et al., 2004). Com o aumento do intemperismo, principalmente em condições tropicais, os solos tornam-se mais eletropositivos e com grande capacidade de adsorver e reter ânions, tais como fosfato. De acordo com Novais e Smyth (1999), mais de 2 mg cm-3 de P podem ser adsorvidos, o equivalente a 9.200 kg ha-1 de P, incorporado a 0 - 20 cm, que, para Camargo et al. (2015) e Barbieri et al. (2013), isso se deve à influência dos óxidos de Fe e Al. A despeito disso, Paula et al. (2016) encontraram em 1,0 kg de solo aproximadamente 20 g de Gt e 30 a 60 g de Hm em um Latossolo Vermelho distrófico. Nesta mesma classe de solo, Camargo et al. (2015) 39 afirmam ter encontrado em 1 kg de solo cerca de 401 a 552 mg de fosfato adsorvido, reforçando o potencial dos óxidos de ferro em adsorver P. Todavia, além do tipo de mineral, vários pesquisadores ressaltam que o fenômeno de adsorção de P aos minerais oxídicos é também afetado pelas características do mineral, por exemplo, área de superfície específica (ASE) e substituição isomórfica (SI) (BARRÓN; TORRENT, 1996; ROLIM NETO et al., 2004; CAMARGO et al., 2012), que, por sua vez, tanto o mineral como as características cristalográficas são afetados pela forma e intensidade de dissecação da paisagem (COVENTRY et al., 1983; KÄMPF; CURI, 2000; FINK et al., 2016; SILVA, 2016). O relevo desempenha papel substancial na formação e na variação espacial dos óxidos de ferro, por interferir na distribuição da água no solo, na promoção de reações químicas e no transporte de sólidos ou de materiais em solução (GHIDIN et al., 2006). Estes efeitos foram confirmados nos estudos de Camargo et al. (2008) e Montanari et al. (2010), que constataram predominância de Gt nas formas côncavas da paisagem, enquanto nas lineares e convexas a Hm foi o mineral predominante. Isso porque, nos pedoambientes lineares e convexos, a infiltração da água é facilitada, o ambiente é mais seco e a temperatura é mais elevada, ou seja, condições oxidantes que favorecem a formação da Hm. Já nas pedoformas côncavas, os solos normalmente estão sob condições redutoras, uma vez que permanecem úmidos por mais tempo e tendem a acumular matéria orgânica, caraterísticas ambientais que proporcionam a formação da Gt (SCHWERTMANN, 1985; CAMARGO et al., 2008; OLIVEIRA JÚNIOR et al., 2011). Assim, o fato de o relevo condicionar a ocorrência e a predominância de um determinado mineral, ele também interfere nos atributos covariativos do óxido de ferro e, por consequência, nas formas de P (BARBIERI et al., 2013). Desta forma, o conhecimento do comportamento dos óxidos de ferro relacionados à complexidade da paisagem é de suma importância para planejar a melhor forma de uso do P na agricultura, minimizando perdas e custos com insumos agrícolas. Aliado a este problema, os métodos tradicionais, como a difratometria de raios-x (DRX) também inviabilizam a caraterização de óxidos de ferro e do P adsorvido em grandes áreas, devido à necessidade de grande número de amostras, onerosidade e morosidade 40 no processamento das análises (BAHIA et al., 2015), bem como o uso de extratores químicos prejudiciais ao manipulador e ao meio ambiente. Neste caso, busca-se, por técnicas indiretas, minimizar custo e tempo, como, por exemplo, o uso da espectroscopia de reflectância difusa (ERD) (VISCARRA ROSSEL, 2008). A ERD tem sido proposta na identificação e na quantificação indireta dos minerais, sobretudo da Hm e Gt, os quais são fortemente associados à cor do solo. Ao contrário do DRX, esta técnica é rápida, menos dispendiosa, não destrutiva, simples e, às vezes, mais precisa na identificação dos óxidos de ferro do que a análise convencional, DRX (CAMARGO et al., 2015). Além disso, a ERD permite a caracterização simultânea de muitos atributos do solo com relevância agronômica e ambiental (McBRATNEY et al., 2008; KODAIRA; SHIBUSAWA, 2013), além de ser adaptável para uso em campo (VISCARRA ROSSEL; McBRATNEY, 1998). Ainda, o método de regressão de mínimos quadrados parciais (PLSR) possibilita calibrar modelos de predição obtidos por regressões, permitindo avaliar a importância dos minerais na predição de P adsorvido por meio do índice de importância das variáveis (VIP) (YAN et al., 2013; VISCARRA ROSSEL, 2008; CAMARGO et al., 2015). Neste aspecto, devido à grande importância do Planalto Ocidental Paulista no setor agrícola, abrangendo cerca de 12,4 milhões de hectares do Estado de São Paulo, considerado o principal produtor de citros, açúcar e álcool, objetivou-se relacionar o fósforo total e adsorvido com os principais minerais da fração argila dos solos do Planalto Ocidental, associando com a geologia e o grau de dissecação da paisagem. 2.2 MATERIAL E MÉTODOS 2.2.1 Localização e caracterização da área O estudo foi realizado na área do Planalto Ocidental Paulista, de aproximadamente 126.000 km2, que ocupa 48% da área total do Estado de São Paulo, com aproximadamente 2 milhões de hectares ocupados pelo basalto da Formação Serra Geral (15,5%), 7,4 milhões de hectares por arenito da Formação Vale do Rio do Peixe (57,1%) e 3,6 milhões de hectares por outras formações 41 sedimentares (27,5%) (FERNANDES et al., 2007). O relevo caracteriza-se por ser levemente ondulado com predomínio de colinas amplas e baixas com topos aplanados (ROSS; MOROZ, 1996). Segundo o IPT (1981), o compartimento geológico mais expressivo é o arenito do Grupo Bauru. A altitude varia de 357 a 610 m e, segundo a classificação climática de Thornthwaite (1948), o clima predominante nas regiões norte e noroeste do Planalto é o tropical com estação seca de inverno (C2rA’a’), enquanto na região sul prevalece o clima temperado úmido com verão quente (B4rB’4a). Já nas partes leste e sudeste, o clima é temperado úmido com inverno seco e verão quente (B2rB’3a). Os solos de maior ocorrência são classificados como Argissolo Vermelho-Amarelo, Latossolo, Latossolo férrico, Neossolo Litólico, Nitossolo Vermelho e Gleissolo Háplico (EMBRAPA, 2013). 2.2.2 Compartimentos da paisagem O mapa de intensidade de formas do terreno foi elaborado segundo método proposto por Vasconcelos et al. (2012), baseado na assinatura geomorfométrica (Figura 1c). Este método tem por objetivo diminuir a subjetividade da identificação de compartimentos pelos modelos conceituais de paisagem (TROEH, 1965; DALRYMPLE et al., 1968; DANIELS et al., 1971), podendo ser aplicado em diversas escalas. A partir da interpretação do mapa de intensidade de formas do terreno (modelos pedogeomorfológicos), foi feita a caracterização do Planalto Ocid