UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Faculdade de Ciências Câmpus de Bauru Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência PAULA CRISTINA CONSTANTINO SANTOS Mulheres, Maternagem e Matemática: uma conversa sobre redistribuição, reconhecimento e representação Bauru/SP 2024 PAULA CRISTINA CONSTANTINO SANTOS Mulheres, Maternagem e Matemática: uma conversa sobre redistribuição, reconhecimento e representação Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação para a Ciência da Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Educação para a Ciência. Orientadora: Profa. Dra. Deise Aparecida Peralta. Bauru/SP 2024 Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Dados fornecidos pelo autor(a). S237m Santos, Paula Cristina Constantino Mulheres, Maternagem e Matemática: uma conversa sobre redistribuição, reconhecimento e representação / Paula Cristina Constantino Santos. -- Bauru, 2024 210 p. Tese (doutorado) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências, Bauru Orientadora: Deise Aparecida Peralta 1. Justiça Social. 2. História Oral. 3. Capitalismo. 4. Equidade de Gênero. 5. Teoria Crítica. I. Título. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Câmpus de Bauru ATA DA DEFESA PÚBLICA DA TESE DE DOUTORADO DE PAULA CRISTINA CONSTANTINO SANTOS, DISCENTE DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO PARA A CIÊNCIA, DA FACULDADE DE CIÊNCIAS - CÂMPUS DE BAURU. Aos 18 dias do mês de outubro do ano de 2024, às 14:00 horas, por meio de Videoconferência, realizou-se a defesa de TESE DE DOUTORADO de PAULA CRISTINA CONSTANTINO SANTOS, intitulada Mulheres, Maternagem e Matemática: uma conversa sobre Redistribuição, Reconhecimento e Representação. A Comissão Examinadora foi constituída pelas seguintes membros: Profa. Dra. DEISE APARECIDA PERALTA (Orientadora - Participação Virtual) do Departamento de Economia Administração e Educação / FCAV - UNESP campus Jaboticabal, Profa. Dra. NATALY CARVALHO LOPES (Participação Virtual) do Departamento de Ciências da Natureza, Matemática e Educação / Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Profa. Dra. DANIELA CARDOZO MOURÃO (Participação Virtual) do Departamento de Matemática / FEG – UNESP campus Guaratinguetá, Profa.Dra. MARIA EDNÉIA MARTINS (Participação Virtual) do Departamento de Matemática / FC – UNESP campus Bauru, Profa. Dra. LUZIA DE FATIMA BARBOSA FERNANDES (Participação Virtual) do Instituto de Ciências Exatas, Naturais e Educação / Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM. Após a exposição pela doutoranda e arguição pelos membros da Comissão Examinadora que participaram do ato, de forma presencial e/ou virtual, a discente recebeu o conceito final: APROVADA. Nada mais havendo, foi lavrada a presente ata, que após lida e aprovada, foi assinada pelo(a) Presidente(a) da Comissão Examinadora. Profa. Dra. DEISE APARECIDA PERALTA Faculdade de Ciências - Câmpus de Bauru - Av. Engenheiro Edmundo Carrijo Coube, 14-01, 17033360 www.fc.unesp.br/poseducacaoCNPJ: 48.031.918/0028-44. http://www.fc.unesp.br/poseducacaoCNPJ Dedico esta tese a todas as mulheres que, de alguma forma, foram excluídas dos espaços acadêmicos. Que nossas lutas e reivindicações abram cada vez mais espaços, e que possamos ocupar, com reconhecimento, redistribuição e representação, todos os lugares que quisermos. AGRADECIMENTOS À todas as entidades que me auxiliaram, me protegeram e me aconselharam. À minha querida orientadora Prof. Dra. Deise Aparecida Peralta, que aceitou o desafio desta orientação e que me ensinou tanto em um momento tão difícil. Agradeço profundamente pelo carinho, cuidado e atenção. À minha querida Prof. Dra. Ivete Maria Baraldi (in memoriam), por ter iniciado essa jornada comigo e ser uma das inspirações para a discussão deste tema. Gratidão por ter feito parte da minha história. À minha família, que foi minha fonte de energia e esteve ao meu lado em todos os momentos, oferecendo suporte e amparo incondicionais. Ao Bruno, que pacientemente me acompanhou ao longo dos anos dedicados a este trabalho acadêmico. Aos integrantes do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Avançadas em Currículo (NIPAC) e do Grupo de Teoria Crítica e Educação em Ciências e Matemática (GTCEM) que me acolheram e contribuíram de forma significativa para a minha formação acadêmica e pessoal. Às professoras que, em meio a tantas demandas, se dispuseram a participar da Roda de Conversa e compartilharam momentos tão importantes de suas vidas, meu sincero agradecimento. Por fim, aos membros da banca, Profa. Dra. Daniela Cardozo Mourão, Profa. Dra. Luzia de Fatima Barbosa Fernandes, Profa. Dra. Maria Edneia Martins e Profa. Dra. Nataly Carvalho Lopes, expresso meu profundo respeito e gratidão. “Vou começar com a Ivete indignada, uma mulher indignada pelos tempos atuais de postura misógina e machista da sociedade [..]. Também gostaria de me apresentar hoje como uma mulher casada com o Ronaldo e mãe dos meus dois filhos Pedro e Matheus, que eu falo muito, dou muitos exemplos deles. São as crias que me ajudam a me construir, desconstruir e a me enlouquecer também um pouco a cada dia. Eles são as minhas melhores produções, atualmente é a melhor forma que me apresento ao mundo, que é o Pedro e o Matheus”. (Trechos da palestra da Ivete Maria Baraldi na SELMAT, Bauru, 20191) 1https://www.youtube.com/watch?v=6YgV_6XT3L0 mailto:ivete.baraldi@unesp.br https://www.youtube.com/watch?v=6YgV_6XT3L0 RESUMO Esta pesquisa discute a relação entre mulheres, maternagem e a presença feminina nos cursos de Licenciatura em Matemática a partir das experiências de docentes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). O estudo é fundamentado na teoria tridimensional de justiça social de Nancy Fraser, abordando as dimensões de reconhecimento, redistribuição e representação. A partir dessa base teórica, a pesquisa pretende, especificamente, entender como essas categorias influenciam as trajetórias das mulheres em áreas relacionadas a aprender, ensinar e pesquisar Matemática. A hipótese central da pesquisa é o não reconhecimento, ou o falso reconhecimento, que afeta mulheres em cenários de ensino e pesquisa relacionados à Matemática, resulta de padrões institucionalizados de valoração cultural e má (re) distribuição material que impedem mulheres, principalmente as que estão em condição de maternagem, de participarem em igualdade de condições entre pares do mundo acadêmico. Garantir justiça exige, portanto, transformar padrões culturais, implementar políticas de redistribuição de recursos e direitos, e assegurar a participação paritária das mulheres, com ênfase na reparação das injustiças, historicamente, institucionalizadas. A metodologia adotada é qualitativa, baseada na História Oral, e desenvolvida por meio de Rodas de Conversa com docentes dos cursos de Licenciatura em Matemática da Unesp, proporcionando um espaço para narrar experiências pessoais e profissionais. Essas narrativas são analisadas segundo a teoria de Fraser, permitindo uma interpretação das experiências em relação a reconhecimento, redistribuição e representação. Os resultados revelam que as injustiças associadas a essas dimensões são particularmente agudas no campo da Matemática. As tensões entre gênero e maternagem são exacerbadas por um ambiente acadêmico que prioriza a produtividade e a mercantilização do conhecimento. As docentes enfrentam desafios significativos, incluindo a invisibilidade de suas contribuições acadêmicas e a falta de suporte institucional para conciliar maternidade e carreira. Esse ambiente, inserido em um contexto de capitalismo financeirizado, cria barreiras adicionais para a emancipação e o reconhecimento das mulheres. A pesquisa conclui que, para promover uma universidade mais justa e equitativa, é fundamental revisar e reformular as políticas institucionais voltadas à equidade de gênero. Isso envolve questionar e transformar a lógica produtivista predominante e reconhecer a maternagem como uma dimensão legítima e relevante na vida das docentes. Para construir um ambiente acadêmico inclusivo e justo, é necessário superar as barreiras impostas por essa lógica, permitindo que as mulheres exerçam plenamente suas funções profissionais e responsabilidades com o cuidado. Palavras-chave: Justiça Social; História Oral; Capitalismo; Equidade de Gênero; Teoria Crítica. ABSTRACT This research discusses the relationship between women, motherhood and the presence of women in undergraduate courses in Mathematics based on the experiences of professors at the Paulista State University “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). The study is based on Nancy Fraser's three-dimensional theory of social justice, addressing the dimensions of recognition, redistribution and representation. Based on this theoretical basis, the research specifically aims to understand how these categories influence the trajectories of women in areas related to learning, teaching and researching Mathematics. The central hypothesis of the research is that the lack of recognition, or false recognition, that affects women in teaching and research settings related to Mathematics results from institutionalized patterns of cultural valuation and poor material (re)distribution that prevent women, especially those in a position of mothering, from participating on equal terms among their peers in the academic world. Ensuring justice therefore requires transforming cultural patterns, implementing policies for the redistribution of resources and rights, and ensuring the equal participation of women, with an emphasis on redressing historically institutionalized injustices. The methodology adopted is qualitative, based on Oral History, and developed through Conversation Circles with professors from undergraduate Mathematics courses at Unesp, providing a space to narrate personal and professional experiences. These narratives are analyzed according to Fraser's theory, allowing an interpretation of the experiences in relation to recognition, redistribution and representation. The results reveal that the injustices associated with these dimensions are particularly acute in the field of Mathematics. Tensions between gender and mothering are exacerbated by an academic environment that prioritizes productivity and the commodification of knowledge. Female professors face significant challenges, including the invisibility of their academic contributions and the lack of institutional support to reconcile mothering and career. This environment, inserted in a context of financialized capitalism, creates additional barriers to the emancipation and recognition of women. The research concludes that, in order to promote a more just and equitable university, it is essential to review and reformulate institutional policies aimed at gender equity. This involves questioning and transforming the prevailing productivist logic and recognizing motherhood as a legitimate and relevant dimension in the lives of female teachers. To build an inclusive and fair academic environment, it is necessary to overcome the barriers imposed by this logic, allowing women to fully exercise their professional roles and care responsibilities. Keywords: Social Justice; Oral History; Capitalism; Gender Equity; Critical Theory. LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ABC - Academia Brasileira de Ciências AMS - Sociedade Matemática Americana AVC - Acidente Vascular Cerebral CAADI - Coordenadoria de Ações Afirmativas Diversidade e Equidade CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CBPF - Centro Brasileiro de Pesquisa Física CCI - Convivência Infantil CEFAM - Centros Específicos de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico COVID - Corona Virus Disease CPA - Comissão Permanente de Avaliação DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DTA - Diretoria Técnica Administrativa. EBA - Escola das Belas Artes ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente EJA - Educação de Jovens e adultos ELÃ - Escola Livre de Artes Embraer - Empresa Brasileira de Aeronáutica EUA - Estados Unidos da América GEPEM - Grupo de Ensino e Pesquisa na Educação Matemática GHOEM - Grupo de História Oral e Educação Matemática GTCEM - Grupo de Trabalho em Teoria Crítica e Educação em Ciências e Matemática IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e estatística IFRJ - Instituto Federal do Rio de Janeiro INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IMF - Instituto de Matemática e Física IMPA - Instituto de Matemática Pura e Aplicada IPS - Instituto de Pesquisa Social IOS - Sistema Operacional do iPhone IREM - Instituto de Pesquisa e Educação Matemática LGBTQIAPN+ - Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, Não-binárias e mais MEC - Ministério da Educação NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço NIPAC - Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Avançadas em Currículo OIM - Olimpíada Internacional de Matemática OMS - Organização Mundial da Saúde PHEIC - Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional POSMAT - Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais PROPG - Pró-Reitoria de Pós-Graduação RGPG - Regimento Geral da Pós-graduação SBM - Sociedade Brasileira de Matemática SELMAT - Semana da Licenciatura em Matemática TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TEA - Transtorno do Espectro Autista TO - Terapeuta ocupacional UEM - Universidade Estadual de Maringá UFBA - Universidade Federal da Bahia UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFSCar - Universidade Federal de São Carlos UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESP - Universidade Estadual “Júlio de Mesquita filho” UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas USP - Universidade de São Paulo UTI - Unidade de Terapia Intensiva VASP - Viação Aérea São Paulo SUMÁRIO CAPÍTULO I ............................................................................................................................ 15 1. Introdução ............................................................................................................................ 15 1.1 Memorial: Quando a pesquisa encontra a pesquisadora .......................................... 15 1.1.1 Apresentação: dizeres sobre uma pesquisa ........................................................ 18 1.1.2 Hipótese, Tese e Objetivos: as pretensões e intencionalidades.......................... 23 1.1.3 Enunciações já registradas sobre o tema desta pesquisa ................................... 25 1.2 Compreendendo nossas compreensões ....................................................................... 30 1.2.1 Teoria Crítica......................................................................................................... 30 1.2.2 A Teoria Crítica Feminista ................................................................................... 33 1.2.3 Reconhecimento na Teoria Crítica ...................................................................... 35 1.2.4 O modelo crítico de Nancy Fraser ....................................................................... 36 1.2.5 Uma busca não apenas por reconhecimento, mas também por redistribuição e representação .................................................................................................................. 38 1.2.6 Feminismo e a teoria tridimensional ................................................................... 43 1.3 Mulheres, Matemática, Maternagem: dilemas de reconhecimento, redistribuição e representação ...................................................................................................................... 52 1.3.1 Ser mulher em uma sociedade patriarcal ........................................................... 52 1.3.2 Aprender, ensinar e pesquisar: mulheres e as lutas por reconhecimento........ 58 1.3.3 M³: questões sobre reconhecimento cultural, redistribuição socioeconômica e representação institucional ............................................................................................ 62 1.3.4 Mulheres na Matemática: uma história de falso reconhecimento? .................. 64 1.3.5 Reconhecimento, Redistribuição e Representação na Maternagem ................ 68 CAPÍTULO II .......................................................................................................................... 76 2. Metodologia ......................................................................................................................... 76 2.1 A Roda de Conversa ..................................................................................................... 76 2.1.1 Compreendendo as Rodas .................................................................................... 76 2.1.2 O espaço que eu, elas e as Rodas ocupamos ........................................................ 76 2.1.3 Dispositivo de visibilidade: remédios afirmativos e/ou transformativos?........ 79 2.2 A História Oral .............................................................................................................. 86 2.2.1 A História Oral como metodologia ...................................................................... 86 2.2.2 A História Oral na nossa Roda de Conversa ...................................................... 88 2.2.3 Passos da nossa Roda de Conversa ...................................................................... 90 2.2.4 Questões analíticas ................................................................................................ 95 CAPÍTULO III ........................................................................................................................ 99 3. Resultados: descrição e análises ......................................................................................... 99 3.1 Rodas de Conversa ........................................................................................................ 99 3.1.1 Primeira Roda de Conversa ................................................................................. 99 3.1.2 Segunda Roda de conversa ................................................................................. 116 3.1.3 Terceira Roda de conversa ................................................................................. 138 3.2 Aproximações .............................................................................................................. 156 3.2.1 Redistribuição ...................................................................................................... 156 3.2.2 Reconhecimento ................................................................................................... 163 3.2.3 Representação ...................................................................................................... 182 3.2.4 À margem – redistribuição, reconhecimento e representação ........................ 187 CAPÍTULO IV ....................................................................................................................... 191 4. Conclusões ......................................................................................................................... 191 4.1 Diagnóstico .................................................................................................................. 191 4.2 Crítica .......................................................................................................................... 194 4.3 Considerações Finais .................................................................................................. 197 Referências ............................................................................................................................. 202 Pra todas as mulheres Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Essa vai pra todas as mulheres Marianas, índias, brancas, negras, pardas, indianas Essa vai pra você que sentiu aí no peito O quanto é essencial ter, no mínimo, respeito Essa dor é secular e em algum momento há de curar Diga sim para o fim de uma era irracional, patriarcal Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Então eu canto pra que em todo canto Encanto de ser livre, de falar, possa chegar, não mais calar Então eu canto pra que em todo canto Encanto de ser livre, de falar, possa chegar, não mais calar Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Abafaram nossa voz Mas esqueceram de que não estamos sós Então eu canto pra que em todo canto Encanto de ser livre, de falar, possa chegar, não mais calar Então eu canto pra que em todo canto Encanto de ser livre, de falar, possa chegar, não mais calar (Mariana Nolasco2) 2https://www.youtube.com/watch?v=sURA8RSUELg https://www.letras.mus.br/mariana-nolasco/ https://www.youtube.com/watch?v=sURA8RSUELg 15 CAPÍTULO I Jamais saberemos enquanto não começarmos. O processo em si é o caminho, é o objetivo. Gerda Lerner 1. Introdução3 1.1 Memorial: Quando a pesquisa encontra a pesquisadora Parece clichê pesquisadores falarem sobre seu percurso ao iniciar uma pesquisa, mas são suas escolhas que fazem com que ela aconteça. Nas estradas da vida, escolhemos caminhos que, por mais que pareçam distantes do que queremos, acabam nos levando para onde deveríamos ir. Escrever este texto é um misto de sentimentos: felicidade, por realizar um dos sonhos de uma garotinha, e alívio, por ver concretizadas horas e horas de leituras, estudos, discussões e choro (que não foram poucos). É também um ato de resistência e de reconhecimento por tudo aquilo que lutei e abdiquei. Contarei um pouco da história desta pesquisa, que se mistura com a minha história, entendendo que nenhuma das duas se faz sozinha, mas em consonância. Falar de inclusão é algo que já estava em meus planos desde a graduação e o mestrado, no qual estudei algumas reestruturações nos cursos de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita filho” (Unesp) e o que elas discutiam sobre Educação Inclusiva. A ideia para o doutorado era expandir e aprofundar essa pesquisa, mas no meio do caminho havia uma pandemia4. Uma pandemia que ceifou diversas vidas e, dentre 3 O trabalho que apresento está escrito ora em primeira pessoa do singular, ora em primeira pessoa do plural. Entendo que há momentos da pesquisa que trilhei individualmente, mas também há momentos em que conversei com os referenciais, com minha orientadora, com a banca de qualificação, com as participantes da pesquisa e também com o leitor. Assim, esse movimento acontece de maneira espontânea, pois, uma pesquisa se constitui na solitude de um pesquisador em diálogo com seus referenciais, com seus dados, com suas inquietações e com o leitor. 4A pandemia de COVID-19, também conhecida como pandemia de coronavírus, é uma pandemia da doença por coronavírus 2019 (COVID-19), causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV- 2). O vírus foi identificado pela primeira vez a partir de um surto em Wuhan, China, em dezembro de 2019. As tentativas de contê-lo falharam, permitindo que o vírus se espalhasse para outras áreas da China e, posteriormente, para todo o mundo. Em trinta de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o surto como Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (PHEIC) e, em 11 de março de 2020, como pandemia. A OMS declarou o fim da PHEIC no dia cinco de maio de 2023, apesar de ainda continuar a se referir a ela como uma pandemia. Até três de março de 2024, conforme a OMS, 774 834 237 casos foram confirmados em 231 países e territórios, com 7 037 007 mortes atribuídas à doença, tornando-se 16 elas, a da minha querida Ivete5, professora que me orientou tanto na parte acadêmica quanto na vida. Diante das circunstâncias, não consegui dar continuidade e foi necessário recalcular a rota. Nesse momento da minha vida, me vi perdida, buscando redescobrir quem eu era, o que queria e quem queria me tornar. Com ajuda de profissionais, iniciei meu processo de reencontro, e nesse caminho me vi mulher, o que foi muito significativo. Comecei a me olhar e a questionar os lugares que já ocupei, os que ocupo e os que ocuparei sendo mulher. Ivete, que sempre me acompanhou e me acompanha, iniciou uma de suas palestras na Semana da Licenciatura em Matemática (SELMAT) da Unesp de Bauru, com os dizeres trazidos na epígrafe: Vou começar com a Ivete indignada, uma mulher indignada pelos tempos atuais de postura misógina e machista da sociedade [...]. Também gostaria de me apresentar hoje como uma mulher casada com o Ronaldo e mãe dos meus dois filhos Pedro e Matheus, que eu falo muito, dou muitos exemplos deles. São as crias que me ajudam a me construir, desconstruir e a me enlouquecer também um pouco a cada dia. Eles são as minhas melhores produções, atualmente é a melhor forma que me apresento ao mundo, que é o Pedro e o Matheus (Baraldi, 2019). Essa fala, mesmo que inconscientemente, me atravessou e ficou ressoando em mim, trazendo recordações e vivências das várias facetas de Ivete: a professora, a orientadora, a pesquisadora, a amiga, a filha, a esposa, a mãe e a mulher6. Durante todo esse processo de assimilação dessa realidade, surgiram diversos questionamentos, dentre eles: Como é ser mulher, com suas peculiaridades, dentro de um lugar como os departamentos de Matemática, um dos espaços7 responsáveis pelos cursos de Licenciatura em Matemática, por onde circulei grande parte da minha vida acadêmica? Quem são essas professoras que formam outras mulheres? Essas mulheres passaram por diversos desafios e conquistas para ocuparem esses lugares. O que acontece depois? Como elas pensam suas presenças e seu trabalho nesses lugares? Estou sempre a refletir sobre essas questões. Desses momentos de reflexões, surgiram os primeiros direcionamentos da pesquisa que intento relatar neste texto. a quinta mais mortal da história. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pandemia_de_COVID-19 Acesso em: 20 mar. 2024. 5 Ivete Maria Baraldi é licenciada em Ciências com Habilitação em Matemática pela Universidade Estadual Paulista - Unesp - de Bauru - SP (1992). Mestre (1996) e doutora (2003) em Educação Matemática pela Unesp - Rio Claro, SP. É professora, com dedicação exclusiva, do Departamento de Matemática - Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru. Docente e orientadora nos Programas de Pós-Graduação em Educação Matemática (UNESP - Rio Claro) e Educação para Ciências (UNESP - Bauru). Faleceu em janeiro de 2021 devido a COVID-19. https://memorial.unesp.br/homenagem/11/ivete-maria-baraldi 6 Neste texto, assim como também no contexto da pesquisa, o uso da palavra “mulher” deve ser entendido como se referindo à pluralidade de mulheres (trans, cis, não binárias...). 7 Identificamos que há professores que lecionam nos cursos de licenciatura em Matemática que são locados em outros departamentos, como por exemplo, o Departamento de Educação. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pandemia_de_COVID-19 https://memorial.unesp.br/homenagem/11/ivete-maria-baraldi 17 Uma pesquisa com temática tão orgânica acaba por se fundir com a minha vida pessoal que, ao passar por todo um processo de autoconhecimento como mulher, me impactar pelas questões trazidas pela Ivete, me afetar pelos diálogos com minha atual orientadora - Deise8, que me amparou e me acolheu nessa nova jornada - e a convivência com as mães da academia; me fizeram olhar para a maternidade9. Não, não sou mãe, mas me sinto cobrada pela sociedade e até mesmo por mim. Cobrada pela sociedade por não ter e também por não querer ter filhos. E, por mim, por deixar reverberar nos meus sentimentos uma certa culpa por priorizar a minha profissionalização e o ingresso no mercado de trabalho, ao passo que a idade avança e os hormônios retrocedem. Essas cobranças, presentes na vida das mulheres, parecem indiretamente proporcionais a estímulos para que mulheres vivenciem plenamente o ser e o estar no mundo acadêmico10 com suas especificidades respeitadas. Ao estudar sobre a maternidade pude conhecer melhor sobre a maternagem, na qual a primeira se relaciona com o processo biológico, institucional, social e cultural da relação entre mãe e filho, já a segunda se refere ao ato de cuidar, o qual pode ser realizado por qualquer cuidador, não estando necessariamente relacionada à mãe biológica. A distinção desses dois termos me possibilitou pensar as características do cuidado para além do gerar, desvinculado do que foi se constituindo social e culturalmente de que o cuidado, na maioria das vezes, é de responsabilidade apenas da mulher. Nesse sentido, parece promissor e necessário ouvir as docentes que formam professores da área para compreender quais são as barreiras que elas enfrentam e enfrentaram na permanência na academia. Afinal, não é difícil aceitar que há diversos fatores que impactam a carreira das mulheres e que mulheres distintas são afetadas de formas diferentes pelo machismo, pelo racismo e pela LGBTQIA+fobia11 que existem na universidade. Afinal, existem na sociedade brasileira como um todo. E aqui faço a defesa de que isso se faz presente na academia de forma geral e não seria prerrogativa da área de Matemática. No entanto, também parece ser possível defender que, historicamente, áreas relacionadas com as Ciências “ditas” exatas acabam sendo mais segregacionistas às mulheres e isso aumenta com as interseccionalidades de cultura, cor, gênero, sexualidade, classe, maternagem, etc. Assim 8http://lattes.cnpq.br/3567054664699910 9 Gostaria de manifestar a priori que a palavra maternidade neste texto, e também no desenvolver da pesquisa, não se refere somente a processo biológico, mas também social e cultural que cercam a maternidade e mais a frente faremos a distinção entre maternidade e maternagem. 10 A expressão “mundo acadêmico” é usada aqui como sinônimo de ambiente que, se relacionando com a universidade, é permeado por conhecimento, formação e produções de natureza científica. 11 O termo LGBTQIA+fobia representa todo tipo de agressão, intolerância e aversão a toda a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, transgênero, queers, intersexo, assexual e + é incluído para que outras siglas possam ser englobadas ao movimento. http://lattes.cnpq.br/3567054664699910 18 sendo, pesquisas empíricas que convoquem mulheres a refletirem e identificarem obstáculos institucionais, simbólicos e materiais à sua permanência na academia são necessárias. Esta minha pesquisa de doutoramento começa, então, a se delinear diante das inquietações advindas do processo de me reconhecer e conhecer o ambiente que me cerca e após diversas discussões com a Deise sobre a importância de desenvolver investigação que, ouvindo mulheres, não fique só na suposição ou na possibilidade de projetar nas outras as minhas experiências e percepções particulares. Minhas escolhas recaíram sobre fazer um estudo que me coloque junto a mulheres, docentes/pesquisadoras/gestoras/formadoras atuantes em cursos de Licenciatura em Matemática, documentando suas histórias de inserção no mundo acadêmico e de conciliação entre escolhas (ou não-escolhas) profissionais e pessoais, em específico relacionadas à maternagem. É importante destacar que o foco nos cursos de Licenciatura em Matemática se deve à proximidade com minha trajetória acadêmica: minha formação inicial se dá em Matemática, bem como minhas experiências, expectativas e projeções futuras se relacionam a essa área. A esse interesse particular ainda se somam resultados de um trabalho anterior12 que, dentre outras injustiças, discute a invisibilidade a que estão sujeitas as mulheres na História da Matemática. Ainda preocupada com a falta de reconhecimento às mulheres, nesta pesquisa de doutorado busco privilegiar a presença de mulheres, seja como referencial teórico, seja como participantes da pesquisa, seja como fontes de corroboração aos argumentos defendidos sobre a temática. Nesse sentido, trata-se de uma pesquisa feita por mulheres, com mulheres e amparada em outras mulheres. Dessa forma, este texto é composto apenas por mulheres13. 1.1.1 Apresentação: dizeres sobre uma pesquisa Para desenvolver o trabalho de pesquisa, em termos metodológicos, me apoio nos pressupostos da História Oral, buscando ouvir as participantes sobre ser mulher no cotidiano de ensino, pesquisa, extensão e gestão relacionada aos cursos de Licenciatura em Matemática. A opção foi a de ouvi-las de forma coletiva, de modo que as discussões acontecem na forma de Roda de Conversa, oportunizando amparo entre as participantes por meio de identificações e entendimentos das próprias experiências, ao ter contato com as experiências de outras. 12SANTOS, P. C. C.; TAVEIRA, F. A. L.; PERALTA, D. A. O Falso Reconhecimento de Mulheres na História da Matemática. Perspectivas da Educação Matemática, v. 15, n. 40, p. 1-22, 20 dez. 2022. Disponível em https://periodicos.ufms.br/index.php/pedmat/article/view/16550 . 13 Foi feita uma escolha, de natureza estética e política, por citar neste texto somente autoras mulheres. https://periodicos.ufms.br/index.php/pedmat/article/view/16550 19 Neste trabalho proponho constituir narrativas a partir do coletivo, pois acredito que precisamos de espaços e oportunidades para conversar, para olhar além da determinação e delimitação dos espaços, promovendo a compreensão que temáticas como a maternagem merecem um tratamento coletivo, seja pela complexidade simbólica: mulheres são “incentivadas” a se tornarem mães por uma demanda social, mas acabam por arcar com as responsabilidades de forma individual e com a falta de reconhecimento se o “ser mãe” não se ativer à norma padrão cisgênero, heterossexual, cristão, casada, branco; seja pela dimensão material representada pelas barreiras bem concretas que elas enfrentam para permanecer na universidade (toda a rede de apoio, necessária para cuidar e educar uma criança se torna mais escassa tanto quanto mais pobre for a mãe). Como podem as mulheres, educadas a partir de reforços a estereótipos de maternidade e maternagem, em se tornando mães se depararem com um cenário de ausência de suporte da coletividade? A presença ou permanência de mulheres negras e mulheres brancas que não possuem segurança financeira, incluindo aquelas que são responsáveis pelo cuidado e educação de crianças/filhos, em atividades (de ensino, pesquisa, extensão e gestão) nos cursos de Licenciatura em Matemática precisam inspirar outras formas de produção de conhecimento diferente e diverso daquele produzido por pessoas que não sofreram as violências de gênero no mundo acadêmico, nem tiveram que moldar à intersecção entre formas distintas de opressão para sobreviver na universidade. Mulheres conversando é o caminho escolhido para colocar “o dedo na ferida”: o que se tem em termos de pesquisa, ensino, extensão e gestão na universidade hoje foi construído, dentre outras coisas, com base no desequilíbrio de gênero. Os “famosos” da Matemática são homens, a organização curricular dos cursos de Licenciatura em Matemática ainda se mantém fiel aos cânones da área, que são majoritariamente feitos por homens, a História da Matemática é um desfile de nomes de homens, na qual as mulheres tinham de usar pseudônimos ou ter a tutela de homens para participar. Tal histórico, certamente, admite impacto na perpetuação de relações desiguais de gênero na área e na experiência de mulheres-alunas nos cursos de Licenciatura em Matemática, pois, afinal, as bibliografias são quase que exclusivamente formadas por homens. Não é incomum que uma aluna passe pelos cursos em referências a mulheres, e depois se torne uma professora/pesquisadora/gestora com possibilidades de reproduzir o que vivenciou nesses cursos. Em termos de referência teórica, me apoio na teoria de justiça apresentada por Nancy Fraser (Fraser, 2008). Trata-se de um referencial que oferece suporte à crítica de injustiças 20 institucionalizadas, subsidiando diagnósticos de realidades, tanto relacionados aos potenciais emancipatórios quanto aos obstáculos à emancipação. O empreendimento filosófico de Nancy Fraser se caracteriza por um ideário que permite fundamentar e fomentar lutas para o enfrentamento às formas de dominação à época. Para essa pensadora, a “justiça ocupa um lugar especial no panteão das virtudes” (Fraser, 2014, p. 265), tornando-se necessário compreender a justiça também a partir da injustiça que acometem às pessoas, considerando a estrutura de desigualdades que define a sociedade capitalista e nega reconhecimento equânime a todas as pessoas, sem distinções. E nesse sentido, Fraser (2022) alerta sobre como a ausência de uma oposição ostensiva às violências sofridas pelas mulheres não equivale à inexistência de injustiça, mas exaltam a individualidade, fetichizam relações humanas e inferiorizam a vida psíquica, ao passo que negam a necessidade das condições materiais para realização de ambos. E ao fazer isso, discute sobre reconhecimento, redistribuição e representação. O que Fraser (2022) alerta é que o fato de não haver uma oposição explícita ou evidente às violências sofridas pelas mulheres não significa que essas injustiças não existam. Muitas vezes, as injustiças continuam a ocorrer de maneira silenciosa ou normalizada, sem que haja resistência ou confronto visível. Ao dizer que isso "exalta a individualidade", sugere que, em vez de se reconhecer e combater as violências como problemas estruturais e coletivos, elas são vistas de maneira isolada, como questões individuais. Esse foco na individualidade pode desviar a atenção das causas sistêmicas e culturais das injustiças, impedindo um enfrentamento mais eficaz. Assim, as questões de opressão e desigualdade podem ser invisibilizadas ou tratadas como problemas pessoais, em vez de questões sociais que demandam uma resposta coletiva. Essas concepções traçam um diagnóstico sobre como as mulheres sofrem diversas injustiças e que para superá-las é necessário que haja remédios que contemplem as três dimensões de justiças: reconhecimento, redistribuição e representação, as três de forma indissociável. A proposta é “tratar o reconhecimento como uma questão de status social”, ou, melhor dizendo, a partir do modelo de status, modelo que postula que “o que exige reconhecimento não é a identidade específica de um grupo, mas a condição dos membros do grupo como parceiros integrais na interação social”, sendo assim o não reconhecimento significa “subordinação social no sentido de ser privado de participar como um igual na vida social” (Fraser, 2007, p. 107). O reconhecimento a partir do modelo de status social é equivalente a “examinar os padrões institucionalizados de valoração cultural em função de seus efeitos 21 sobre a posição relativa dos atores sociais”, sendo que quando estes padrões constituem as pessoas como capazes de participarem como iguais da vida social “aí nós podemos falar em reconhecimento recíproco e igualdade de status”, contudo, ao contrário, quando estes padrões institucionalizados de valoração constituam algumas pessoas como “inferiores, excluídos, completamente ‘os outros’, ou simplesmente invisíveis, ou seja, como menos do que parceiros integrais na interação social, então nós podemos falar de não reconhecimento e subordinação de status” (Fraser, 2007, p. 108). Todavia, a ideia da autora é que justiça requer redistribuição, reconhecimento e representação. Assim, as questões de justiça devem ser analisadas, ao mesmo tempo, sob três perspectivas distintas e indissociáveis, sendo elas: as injustiças econômicas (que requerem redistribuição) – de caráter estrutural – as injustiças culturais (que requerem reconhecimento) – de caráter simbólico – e as injustiças políticas (que requerem representação) – de caráter institucional. A primeira categoria de injustiças está enraizada na estrutura político-econômica da sociedade, tendo como exemplos a exploração, a marginalização econômica e a privação das condições materiais de subsistência. Já as injustiças da segunda categoria estão enraizadas nos padrões sociais de interpretação simbólica, a exemplos das ações de dominação, discriminação e desrespeito (Fraser, 2022). As injustiças da terceira categoria estão relacionadas a não participação justa nos processos de tomadas de decisões políticas, ela ocorre quando certos grupos são excluídos ou marginalizados na esfera política, impedindo sua participação plena e igualitária. Essa autora ainda defende que a principal injustiça econômica é a má distribuição, sendo que todas as injustiças redistributivas decorrem dela. Já em termos de injustiça cultural, a principal segue sendo o falso reconhecimento, assim como a principal injustiça política é a falsa representação. Esse referencial me dá suporte para compreensão, registros e discussões sobre as questões referentes à redistribuição (ou má redistribuição), reconhecimento (ou falso reconhecimento) e representação (ou falsa representação) das mulheres na sociedade e no mundo acadêmico, considerando maternagem e suas atividades profissionais em cursos de Licenciatura em Matemática. Uma Roda de Conversa pode ser um espaço, isso se constituído livre de assimetrias, onde mulheres tenham a oportunidade de perceber como os seus modos de pensar, fazer e ensinar Matemática foram construídos no cerne de uma cultura científica que privilegia certo modelo de conhecimento que parece neutro (cultuado como representante do ápice da objetividade), mas que é estereótipo do masculino. As mulheres, conversando, podem explorar outros pontos de vista, ampliando mentalidades sobre pensar, fazer e ensinar 22 Matemática por pessoas que foram historicamente oprimidas, desprovidas de privilégios e sofrem com marcadores sociais que as obrigam a lutar constantemente contra violências para conciliar vida pessoal e carreira profissional. Em um ambiente tão masculino, e digo não só pela presença física de homens, mas, sobretudo, pela cultura impregnada; as mulheres podem se empoderar conversando, criando redes de solidariedade, e percebendo que suas especificidades encontram ressonância em outras mulheres, e podem entrar em consonância para pensar enfrentamentos. Pesquisas como a proposta aqui, invariavelmente, têm um forte apelo político e não menos invariável é o seu potencial de politizar enquanto a investigação é desenvolvida. Em termos de estrutura, este texto que relata o desenvolvimento da minha pesquisa de doutoramento, se organiza em capítulos14: no primeiro faço uma introdução sobre os caminhos percorridos, um memorial de como foi o percurso até chegar na temática de pesquisa, trazendo o problema de pesquisa, uma enunciação dos trabalhos que se aproximam da temática discutida e aspectos fundantes da pesquisa (objetivos, hipótese e tese). Ainda no primeiro capítulo apresento a teoria tridimensional de justiça de Nancy Fraser e apontamentos sobre sua relação com a temática. A história das mulheres na sociedade, sua inserção na docência, na Matemática e a sua relação com a maternagem também é discutida neste capítulo. Os aportes metodológicos são apresentados no segundo capítulo, no qual apresento o percurso metodológico abordado neste trabalho, utilizando como metodologia a História Oral, e desenvolvida por meio de Roda de Conversa. Constituo um panorama do espaço em que as mulheres participantes das Rodas de Conversa ocupam e informações sobre a presença feminina na universidade. Neste capítulo, também apresento alguns dispositivos de visibilidade que contribuem nas discussões sobre quais ações a universidade tem disponibilizado para romper com as injustiças presente na academia. O terceiro capítulo é destinado às Rodas de Conversa, trago na íntegra os diálogos das participantes da pesquisa. Também apresento as aproximações, a minha proposta é trazer a teoria para conversar com as participantes das Rodas de Conversa, incluindo a pesquisadora que se fez presente tanto nas Rodas como na construção teórica dos trabalhos. No quarto e último capítulo apresento as conclusões. Retomando os objetivos, o problema de pesquisa, a tese e a hipótese são tecidas as considerações finais. 14 Entendemos neste trabalho por capítulo cada uma das (sub)divisões do texto que, mesmo podendo ser lido separadamente e comunicando começo-meio-fim de um assunto, juntas dão ao leitor os elementos teóricos e metodológicos para compreender o problema de pesquisa em questão. 23 No decorrer do texto, trago quatro obras de uma artista mineira, Valdete Campos15, nas quais retrata suas vivências, angústias e experiências de ser mulher em nossa sociedade. Uma obra da Thaís Basílio16 que pesquisa sobre o conceito “corpos-máquina”, outra obra é de autoria de Maria Conejo17, que explora temas como o corpo feminino, a identidade e a sexualidade. As outras obras que apresento são uma de minha autoria com colegas18 e outra do meu acervo pessoal. As obras não serão “explicadas”, pois a minha proposta é que elas tragam reflexões e possibilitem interpretações múltiplas de acordo com o olhar de cada leitora e leitor. Ao trazer essas e outras obras e, também músicas e outras expressões artísticas, intento compartilhar com quem lê o meu trabalho de constituição da pesquisa (e de escrita deste texto) que foi amparado na Arte na mesma medida em que se apoiou em leituras de artigos, livros, teses e dissertações. A junção de Arte com Ciência me constitui como pessoa e pesquisadora, em todas as suas especificidades, e em decorrência também torna específica a constituição do seu trabalho de pesquisa. 1.1.2 Hipótese, Tese e Objetivos: as pretensões e intencionalidades Alguns discursos e comportamentos sobre a inserção e permanência das mulheres na Matemática são permeados por preconceitos e discriminação. Enquanto cultivarmos um fazer matemático que privilegia uma Matemática excludente, não conseguiremos romper com injustiças contra as mulheres que se prolongam há séculos. É necessário quebrar esse ciclo, repensar em uma nova forma de aprender, ensinar e fazer Matemática para que esta seja inclusiva e assim haja uma reparação política, cultural e econômica. 15 A artista nasceu em Machado em Minas Gerais e mora em Campinas desde a sua infância. Em 2006 iniciou seus estudos em artes plásticas. É socióloga e arteterapeuta. O principal tema de sua obra gira em torno do universo feminino e o sacrifício deste ser para se encaixar em uma sociedade arbitrária, moralista e tradicionalista (vma.campos@hotmail.com). 16 Thaís Basilio é graduada em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) e pós-graduada em Linguagens Artísticas, Cultura e Educação no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Atualmente é mestranda na linha de Linguagens Visuais do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais – Escola das Belas Artes (EBA) - UFRJ. Tem como formação artística os cursos “Desenvolvimento de Projetos” e “Cor e Forma”, no EAV Parque Lage, bem como a mentoria artística “Poéticas Femininas na Periferia”, pelo Artistas Latinas. É artista residente na Escola Livre de Artes (ELÃ), no Galpão Bela Maré. Desenvolve uma pesquisa sobre o conceito de “corpos-máquina”, temáticas atravessadas pelas seguintes questões: gênero, raça e trabalho, automatização e fabricação de subjetividades, robotização do corpo, “algoritmização” da vida, e o devir negro pelo mundo. https://womenonwalls.co/thaisbasilio 17 Maria Conejo é uma artista visual mexicana, formada pela Escola de Design do Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura do México. Seu trabalho é centrado na representação do corpo feminino, destacando temas de liberdade, prazer, e questionando estereótipos culturais. https://www.larousse.es/autor/maria-conejo/ 18 Lívia Furlan (Psicóloga e Arteterapeuta), Patrícia Palata (Advogada e Arteterapeuta) e Valdete Campos (Socióloga e Arteterapeuta). mailto:vma.campos@hotmail.com https://womenonwalls.co/thaisbasilio https://www.larousse.es/autor/maria-conejo/ 24 Decorrente disso, trago como problema de pesquisa a seguinte questão: Quais as potencialialidades da teórica tridimensionalidade da Nancy Fraser para fundamentar análises referentes à relação: mulheres, maternagem e matemática, considerando as experiências de docentes dos cursos de Licenciatura em Matemática da Unesp? Nesse sentido, esta pesquisa parte da hipótese de que o não reconhecimento, ou o falso reconhecimento, que afeta mulheres em cenários de ensino e pesquisa relacionados à Matemática, resulta de padrões institucionalizados de valoração cultural e má (re) distribuição material que impedem mulheres, principalmente as que estão em condição de maternagem, de participarem em igualdade de condições entre pares do mundo acadêmico. Garantir uma forma emancipatória de reconhecimento exigiria, portanto, a transformação desses padrões, mas também políticas de redistribuição de recursos e direitos que garantissem às mulheres a participação paritária com ênfase na reparação da dimensão econômica, cultural e política das injustiças. Em termos de tese a ser defendida, e em consonância com a hipótese explicitada, defendo que a discussão sobre reconhecimento, redistribuição e representação desenvolvida por Nancy Fraser oferece possibilidades de diagnósticos dos obstáculos para inclusão das mulheres na esfera de atuação profissional na universidade, considerando a maternagem na fronteira entre produção e reprodução social na sociedade capitalista. Isso posto, em decorrência de essas mulheres se enquadrarem em uma questão de falso reconhecimento, má redistribuição e falsa representação. E essa questão pode ser exposta e delineada se mulheres, que são professoras e pesquisadoras, tiverem oportunidade de conversar, compartilhando experiências em um ambiente livre de coerções e assimetrias. Assim sendo, o objetivo geral desta pesquisa é discutir a relação entre mulheres, maternagem e a presença feminina nos cursos de Licenciatura em Matemática a partir das experiências de docentes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), em uma perspectiva de reconhecimento, redistribuição e representação, segundo o modelo de justiça social de Nancy Fraser. Os objetivos específicos são compreender o percurso histórico das mulheres na sociedade, docência e Matemática; identificar as questões que cercam a maternidade e a maternagem e sua relação com a sociedade; produzir narrativas que expressem as experiências das mulheres participantes da pesquisa em relação ao gênero, maternagem e docência e caracterizar potências, limites e desafios relatados por mulheres que exercem a maternagem e a docência nos cursos de Licenciatura em Matemática da Unesp com a perspectiva de reconhecimento, redistribuição e representação. 25 1.1.3 Enunciações já registradas sobre o tema desta pesquisa Em uma consulta feita no portal Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)19 de teses e dissertações com as palavras-chave: Mulher; Maternidade20; Matemática encontrei onze trabalhos21. Dentre eles, nenhum contemplava as três temáticas em conjunto. Quatro eram na área da Educação e relacionavam as mulheres e a Matemática, os outros eram na área da saúde e relacionavam a mulher e as questões da maternidade. Para a seleção dos trabalhos, li os respectivos resumos e, quando o tema se relacionava com a temática de interesse, examinei o sumário e as discussões apresentadas no trabalho. O interesse nas pesquisas acadêmicas (mestrado e doutorado) se deu, pois busquei identificar o que a academia estava discutindo sobre o trinômio em questão. É importante registrar que tenho ciência de que alguns trabalhos não foram apontados na pesquisa por não conterem em seu título, resumo ou palavras-chave os termos utilizados para pesquisa. Considero que possa haver outros trabalhos que tragam em seu desenvolvimento discussões acerca da tríade pesquisada, mas por não estarem explícitos nos itens citados acima eles não aparecem na busca. Questões como essas me fazem pensar na forma com que estruturamos e apresentamos o nosso trabalho, como queremos que ele seja apresentado e seja fonte para outras pesquisas? Esses elementos têm que ter destaque e aparecerem em lugares estratégicos para que sejam encontrados ao serem pesquisados nos bancos de teses, dissertações e periódicos. 19https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/sobre-a-cap 20 Ao iniciar a pesquisa a proposta era estudar as questões da maternidade, depois de aprofundamentos teóricos identificamos a necessidade de discutir não apenas a maternidade, mas sim a maternagem, ação que abarca não apenas pessoas que biologicamente se tornam mãe, mas pessoas que são responsáveis pelo cuidado. Assim, podemos incluir todas as formas de ser mulher. 21Identificação dos onze trabalhos encontrados disponível em: https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu- rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing https://www.gov.br/capes/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/sobre-a-cap https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu-rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu-rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing 26 Quadro 1. Trabalhos que relacionam mulher e Matemática no portal CAPES Tipo de trabalho Título Ano Universidad e Objetivo Autor Dissertação Trajetórias profissionais de mulheres cientistas em cargos de chefia 2019 Universidad e de Taubaté Analisar as trajetórias profissionais de mulheres cientistas das áreas das Ciências Exatas e da Terra e Engenharias que atuaram e/ou atuavam em cargos de chefia em uma Instituição Pública de Pesquisa na área de Ciência e Tecnologia. Priscilla Sousa Frigi Raimundi Dissertação A divisão sexual do trabalho e a dimensão generificada do campo científico: um recorte da Universidade Federal de Viçosa 2020 Universidad e Federal de Viçosa Compreender a desigualdade de gênero no Centro de Ciências Exatas da Universidade Federal de Viçosa. A partir de uma análise dos Currículos Lattes dos docentes de três departamentos – Engenharia Civil, Matemática e Física – aos quais os (as) professores (as) estão vinculados (as), foram entrevistados 10 docentes, 6 mulheres e 4 homens, a fim de compreender as estratégias de permanência por parte das mulheres em espaços masculinizados. Jamille Mylena de Freitas Gomes Dissertação Percepção de barreiras e suportes na carreira acadêmica dos estudantes de Matemática: um estudo de gênero' 2021 Universidad e Federal de Itajubá Analisar como as barreiras e suportes percebidos por estudantes de Matemática em suas trajetórias se relacionam com o seu gênero e influenciam na continuidade da carreira acadêmica feminina, bem como identificar relações desses fatores com o processo de ensino da Matemática vivenciado por esses estudantes. Daniele Aparecida de Oliveira Dissertação EtnoMatemáticas na Produção das Ceramistas Terena 2023 Universidad e Federal da Grande Dourados Identificar e apresentar as técnicas (ticas) de fazer, conhecer, entender, lidar (materna) com o tempo, o barro, o fogo, as formas presentes no trabalho das mulheres terenas ceramistas e artesãs no processo de confecção da arte indígena. Zanone Cristovao Rodrigues Fonte: Elaborado pela autora. 27 No periódico CAPES, com os descritores: Mulher e Maternidade e Matemática, nos últimos dez anos (2013 – 2023), identifiquei seis trabalhos22, a partir dos quais apenas um retratava a relação mulher e Matemática. O artigo intitulado “Uma perspectiva histórica do ensino da Matemática no feminino” de Henriques (2006) teve como objetivo analisar a evolução do ensino feminino, particularmente no que diz respeito à Matemática, focando a presença ou ausência desta disciplina e tentando encontrar algumas justificativas para o desenvolvimento dos planos curriculares do ensino feminino. A breve busca sobre a interseção entre mulher, maternidade e Matemática revelou uma lacuna significativa na literatura acadêmica existente. Apesar da ampla produção de estudos sobre mulheres e Matemática (Machado, 2023; Oliveira; Cavalari, 2023; Almeida; Almeida; Amorim, 202123), bem como sobre mulheres e maternidade (Pimenta; Serralha, 2024; Santos; Galrão; Sousa, 2024), a combinação dessas três temáticas em uma única investigação não se mostrou tão evidente na busca realizada. Esse achado sublinha a necessidade de estudos integrados que abordem interações entre elas. Procurando as palavras-chave: Maternidade e Matemática no Google Scholar, com o filtro das palavras constarem no título, identifiquei um artigo que traziam a temática no título do trabalho, no qual os autores desenvolvem um ensaio acerca do poder de ação (agency) da maternidade, dos lares e das mídias em processos de produção de conhecimento24. Os trabalhos encontrados no portal CAPES focam predominantemente em áreas distintas: mulheres e Matemática em um lado e maternidade em outro. Quatro dissertações analisadas abordam a presença feminina e os desafios no campo da Matemática, enquanto outras pesquisas se concentram na maternidade e suas implicações na área da saúde. Nenhum dos estudos identificados integra de maneira coesa a temática da maternidade com a presença feminina na Matemática, evidenciando uma fragmentação nas abordagens acadêmicas. Dessa forma, se nota que a temática em ênfase neste trabalho a partir dos trabalhos encontrados não é abordada de forma conjunta. Não identifiquei nenhum trabalho que tenha o enfoque desta pesquisa, isso demonstra a necessidade da problematização, discussão e 22 Identificação dos seis trabalhos encontrados: https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu- rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing 23 ALMEIDA, Dione Alves de; ALMEIDA, Shirley Patrícia Nogueira de Castro e AMORIM, Mônica Maria Teixeira. As desigualdades de gênero na docência em Matemática no Ensino Superior: uma revisão de literatura a partir de estudos recentes no Brasil. Revista de Ensino de Ciências e Matemática, v. 12, n. 3, p. 1-26, abril-junho, 2021. 24Título do artigo: “O Poder de Ação das Mídias, da Maternidade e dos Lares na Educação Matemática”. Revista PUC/SP. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/emp/article/view/62013/42897 Acesso em 13 nov. 2023. https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu-rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing https://docs.google.com/document/d/1DY96j8bk3R9MxUXDQAes69Mu-rX170d15uTg6qn67ac/edit?usp=sharing https://revistas.pucsp.br/emp/article/view/62013 https://revistas.pucsp.br/index.php/emp/article/view/62013/42897 28 reflexão dessa temática, olhar para o trinômio: mulher, maternidade e Matemática de formas associadas. Isso posto, a seleção de trabalhos, incluindo a leitura de resumos, sumários e discussões, permitiu identificar a relevância e a especificidade dos temas tratados. No entanto, como já destacado, é importante reconhecer que alguns trabalhos relevantes podem não ter sido incluídos, devido à sua ausência nos critérios de busca estabelecidos, como títulos e palavras-chave. Essa limitação sugere que pode haver outros estudos que tratem das questões relacionadas, mas que não foram identificados nessa busca. Em conclusão, essa busca não apenas confirma a falta de estudos que integrem Mulher, Maternidade e Matemática, mas também enfatiza a necessidade de um enfoque mais holístico e crítico sobre essas questões. A pesquisa desenvolvida e que passa a ser relatada nos próximos capítulos tem o potencial de preencher essa lacuna, oferecendo uma análise necessária sobre como a maternagem e a justiça social influenciam a presença das mulheres nos cenários relacionados ao aprender, ensinar e fazer Matemática. Ao abordar a tríade, Mulheres-Maternagem-Matemática, de forma integrada, a pesquisa pode contribuir para uma compreensão das injustiças a que mulheres estão sujeitas nesses cenários e para o desenvolvimento de políticas e práticas acadêmicas equitativas. 29 Figura 1. Sacrifício I Fonte: Arquivo pessoal, Valdete Campos. 30 Compreender as coisas que nos rodeiam é a melhor preparação para compreender o que há mais além. Hipátia de Alexandria 1.2 Compreendendo nossas compreensões No dia 30 de janeiro de 2024, o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)25, Ricardo Galvão, em uma mesa redonda no evento GBMeeting26, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) disse que um movimento chamado Parent Science27, que faz reivindicações pela igualdade de gênero “atrapalha muito”, porque a organização “manda o tempo todo requisições ao CNPq para a criação de processos de bolsas separadas para as mulheres e julgamento separado para as mulheres”. A postura do presidente do CNPq é uma evidência de como reconhecimento e redistribuição não caminham nas políticas por igualdade de condições de crescimento na carreira científica para as pessoas que são mães. Afinal, reconhece-se o impacto da maternidade ao se adotar a anotação de licença-maternidade no lattes28, mas rejeita-se a necessidade de políticas de distribuição de bolsa produtividade que considere as especificidades das pesquisadoras que são mães. Para compreender como as questões de reconhecimento, redistribuição e representação estão atreladas a questões das mulheres e seu modo de estar no mundo culturalmente e politicamente, nesta seção apresento constructos teóricos que ajudam nessa compreensão. 1.2.1 Teoria Crítica29 Teoria Crítica é uma corrente filosófica que se tornou conhecida, mundialmente, relacionada à expressão “Escola de Frankfurt”. Com o termo “Escola de Frankfurt” procura-se designar a institucionalização dos trabalhos de um grupo de intelectuais marxistas, não ortodoxos, que na década dos 25Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (até 1974 o Conselho Nacional de Pesquisas, cuja sigla, CNPq). 26 É um evento organizado pelos estudantes da Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 27 Para mais informações: https://www.parentinscience.com/ 28A Plataforma Lattes representa a experiência do CNPq na integração de bases de dados de Currículos, de Grupos de pesquisa e de Instituições em um único Sistema de Informações. Para mais informações: https://lattes.cnpq.br/ 29 Aqui apresentamos o surgimento da Teoria Crítica a partir do histórico europeu, pois foi o caminho realizado por Nancy Fraser, a teórica que discutiremos, é importante demarcar que nesse histórico eurocêntrico identificam-se processos de exclusões e segregações. E nesse sentido, fazemos um movimento, tal como a própria Teoria Crítica defende, de atualizá-la segundo o nosso contexto. https://www.parentinscience.com/ https://lattes.cnpq.br/ 31 anos 20 permaneceram à margem de um marxismo-leninismo “clássico”, seja em sua versão teórico-ideológica, seja em sua linha militante e partidária (Freitag, 1973, p.10). Entretanto, ainda segundo Freitag (1973), essa associação não se faz das mais adequadas, pois a sede do grupo de intelectuais, o Instituto de Pesquisa Social (IPS), deixou de existir no pós-guerra e a maior parte da produção intelectual foi, e é desenvolvida fora de Frankfurt30. A palavra escola também sugere uma unidade teórica que é inexistente entre esses e essas pensadores e pensadoras. Fundado em três de fevereiro 1923, e vinculado a Universidade de Frankfurt em 1924, o IPS, em seus primeiros anos, teve como diretor o historiador marxista, de Viena, Carl Gruenberg e contou com o apoio financeiro de Felix Weil, um rico herdeiro argentino que contribuiu com parte de sua fortuna para a fundação do Instituto. Inicialmente, as investigações do IPS focaram na história do socialismo. Somente em 1930, ao assumir a direção, Max Horkheimer delineou o que viria a ser conhecido como um programa31 de Teoria Crítica da Sociedade. Dessa forma, o conceito de Teoria Crítica foi introduzido por Horkheimer, sendo entendido como um conhecimento orientado para a ação, ao invés de buscar pureza ou neutralidade (Peralta, 2023). Assim sendo, Horkheimer deu início a um trabalho coletivo e interdisciplinar, o que foi uma grande inovação na época, mudando a sua ênfase que era em pesquisas que discutiam a história do socialismo e do movimento operário e voltando-se para a análise crítica dos problemas do capitalismo (Freitag, 1973; Ferrarese, 2017; Cyfer, 2018; Peralta, 2023). É interessante destacar que nesse período, por Teoria Crítica se entende como exercício filosófico de oposição ao pensamento cartesiano positivista. Entende-se que é necessário pensar nas questões teóricas e práticas. A Teoria pretende compreender a conexão dos acontecimentos, com o intuito de mostrar como as coisas são e também fazer previsões de como elas poderiam ser (Benhabib, 1986; Oliveira, 2021). A Teoria Crítica não se limita a descrever o que existe, mas busca revelar as contradições da realidade com o intuito de transformá-la. Assim, ao fazer teoria, não devemos apenas retratar como as coisas são, mas também apontar possibilidades de mudança. A crítica, então, surge como uma ferramenta que, ao mesmo tempo, diagnostica o presente e projeta o 30 O Instituto esteve em atividade em Frankfurt nos primeiros anos da década de 1930, depois sucederam inúmeras transferências devido ao exílio imposto a muitos dos seus integrantes pelo nazismo de Hitler (Peralta, 2023). 31 Horkheimer fornece as bases para formulação da Teoria Crítica, fundamentalmente, em dois artigos: "A presente situação da filosofia social e as tarefas de um Instituto de Pesquisa Social", de 1931, e "Teoria tradicional e teoria crítica", de 1937. 32 futuro, evidenciando os obstáculos a serem superados e as ações necessárias para essa superação. O objetivo da Teoria Crítica é justamente apresentar a realidade como um processo em constante transformação, sugerindo o que pode ser, sem se prender às limitações do que já é. Com a ascensão do nazismo, entre 1933 e 1950, o Instituto que reunia muitos intelectuais judeus, muda sua sede para Genebra, onde grandes intelectuais como Horkheimer, Adorno, Marcuse, Fromm, Neumann e Pollock emigram e continuam realizando seus trabalhos e alguns nomes como Friedrich Pollock, Erich Fromm e Franz Neumann se filiam a ele. Em 1934, o Instituto é reaberto em Nova York, vinculando-se à Universidade de Columbia, dando início a um grande período em que as produções intelectuais relacionadas à Teoria Crítica e as principais obras da primeira geração foram produzidas, dentre elas encontramos títulos como o artigo “Teoria Tradicional e Teoria Crítica” e a pesquisa empírica “A Personalidade Autoritária”, respectivamente, de autoria de Horkheimer e Adorno. Em seu artigo Teoria Tradicional e Teoria Crítica, publicado em 1937, Horkheimer discute dois princípios básicos da Teoria Critica, com base em seus estudos de Karl Marx: a orientação para a emancipação e o comportamento crítico. Esse estudo é importante, pois vai culminar em discussões que darão novas vertentes para a Teoria Crítica. Segundo o autor, a orientação para a emancipação dará a possibilidade ao indivíduo de compreender a sociedade em seu conjunto, permitindo constituir uma teoria, abrindo caminho para compreender as relações sociais (Cyfer, 2018). O segundo ponto: o comportamento crítico discute que a Teoria Crítica não se limita em apenas descrever o mundo social, mas também observa o que poderia existir e faz uma análise sobre esse distanciamento (Cyfer, 2018). E baseado nesses princípios dez anos depois, Adorno e Horkheimer em “Dialética do esclarecimento” fazem uma investigação sobre a razão humana, quando buscam entender a forma que a razão é usada como um instrumento universal que contribui para gerar outros instrumentos, e se torna um subsídio da aparelhagem econômica. Segundo os autores, essa é “a única forma de racionalidade que se pode encontrar no capitalismo tardio e, por isso, não têm outra saída a não ser reconhecer que se defrontaram com uma aporia: a autodestruição do esclarecimento” (Cyfer, 2018, p. 20). De acordo com Adorno e Horkheimer em “Dialética do Esclarecimento”, o pensamento fruto do esclarecimento deve estar associado à reflexão, se isso não acontecer a sua relação com a verdade pode ser colocada em dúvida. Esse diagnóstico é questionado por 33 Jürgen Habermas que, sendo um grande nome da segunda geração da Teoria Crítica, se opõe a Adorno e Horkheimer. De acordo com Cyfer (2018) ele identifica que [...] para enxergar esses potenciais emancipatórios, seria preciso rever o próprio sentido de razão e de emancipação. Habermas defende a necessidade de a teoria crítica ampliar seus temas e encontrar um novo paradigma explicativo, pois as formulações originais de Marx não seriam mais suficientemente críticas para a realidade atual (Cyfer, 2018, p.21). Peralta (2012; 2023) defende que o modelo crítico de Habermas começa com uma crítica ao diagnóstico apresentado na obra "Dialética do Esclarecimento", revisitando o modelo estabelecido no texto "Teoria Tradicional e Teoria Crítica". Para ele, retirar a centralidade da razão nos processos voltados à emancipação implica questionar as condições para uma postura crítica frente ao conhecimento histórico, o que coloca em dúvida o próprio projeto da Teoria Crítica. Em sua oposição ao diagnóstico de Adorno e Horkheimer, Habermas argumenta que suas conclusões foram influenciadas pelo contexto histórico difícil que enfrentavam. No entanto, para Peralta (2023), Habermas ressalta que as possibilidades de emancipação não estavam estruturalmente comprometidas, mas que o conceito de emancipação, formulado por Karl Marx e, posteriormente, retomado por Horkheimer, precisaria ser reformulado de acordo com cada sociedade e época. Nesse sentido, Habermas não defende o abandono da crítica como método, mas sugere que “as formulações iniciais da Teoria Crítica talvez não sejam suficientemente críticas para lidar com as realidades atuais” (Peralta, 2023, p. 34). Segundo Allen (2016), o pensamento de Habermas teve repercussão pelo mundo, o que trouxe novos métodos, temas e debates para o campo, auxiliando em novas discussões e ampliações de debates teóricos. Nesse contexto, autoras e autores que se filiam à Teoria Crítica passam a ampliar o debate inaugurado pelos primeiros autores da Teoria Crítica, e dentre esses se destacam autoras como Nancy Fraser, Seyla Benhabib e Iris Young, filósofas estadunidenses, apontadas como a primeira geração da Teoria Crítica feminista. 1.2.2 A Teoria Crítica Feminista A seção anterior conta um pouco sobre o histórico e alguns desdobramentos da Teoria Crítica até nos aproximarmos dos debates feministas. Nesta seção, discuto uma mudança gradual de enfoque que, a partir do deslocamento da reivindicação por igualdade material para a reivindicação de reconhecimento cultural, tem fomentado o debate por justiça social na Teoria Crítica. 34 Desde que Horkheimeir assumiu o IPS, e publicou “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”, houve um novo desdobramento no foco das lutas por emancipação. As discussões sobre as desigualdades econômicas começaram a serem inseridas na disputa de espaços relacionados ao não reconhecimento de certas identidades culturais, e nesse contexto surge a contribuição do feminismo à Teoria Crítica. Segundo Sanchez (2017) A tarefa da teoria crítica feminista consiste em corrigir essa ausência, revelando as relações de dominação de gênero que foram ocultadas pelos teóricos críticos, criticando estruturalmente o androcentrismo do capitalismo, analisando sistematicamente a dominação masculina e revisando os conceitos de democracia e de justiça. Seria preciso reconstruir a ideia de esfera pública a partir da crítica à separação entre público e privado para que fosse possível desvendar os limites da democracia representativa (p. 86-87). Destarte, desde o início, a Teoria Crítica se encarregou profundamente do diagnóstico das assimetrias sociais e das discussões voltadas para questões econômicas e debates sobre relações de gênero, bem como impactos às oportunidades políticas dos indivíduos, assim como sua representação política efetivamente democrática, não se expressaram de forma marcadamente evidente. Isso passa a ser denunciado e assume lugar na agenda, principalmente, de teóricas críticas. De acordo com Sanchez (2017), inicialmente a preocupação era superar o economicismo de determinadas leituras do marxismo e incorporar novos elementos à crítica do capitalismo, ou seja, ir além da crítica à economia capitalista. A partir dos anos de 1970, em decorrência desse debate, houve a chamada “virada cultural”, na qual a cultura se torna o foco do debate nas Ciências Sociais. Se antes, o foco estava na violência contra as mulheres e a desigualdade no mercado de trabalho, agora o interesse passa a ser a identidade e a representação política, relacionando as lutas sociais e culturais. A Teoria Crítica teve distintas recepções dentro dos diferentes feminismos. Diferente do que aconteceu no feminismo alemão, no qual as questões relacionadas ao domínio da razão sobre a natureza se fizeram centrais no debate, as autoras americanas deram mais enfoque aos escritos de Jürgen Habermas e “aos problemas da modernidade em seus diálogos com as teorias da diferença e da pós-modernidade e autoras como Nancy Fraser e Seyla Benhabib desenvolveram suas teorias” (Oliveira, 2017, p. 14). Dessa forma, a relação entre a Teoria Crítica e o feminismo se justifica desde a década de 1970, e hodiernamente, devido a lacunas em seu debate. E nesse cenário, as filósofas Nancy Fraser, Seyla Benhabib e Iris Marion Young encabeçaram essa “virada feminista” e 35 com elas foi possível destacar ao menos três constelações temáticas dessa primeira geração de teóricas críticas feministas: Um pensamento sobre a natureza, que permite colocar a natureza humana, feminina e biológica, no seu lugar devido inatingível e supérfluo; uma reflexão sobre a emancipação e os paradoxos dessa busca; e, enfim, uma teoria da forma devida capitalista que oferece uma visão fecundada articulação entre produção e reprodução (Ferrarese, 2017, p. 179) Uma teoria feminista tende a seguir o momento cultural de uma época, pois o movimento feminista de uma forma geral passa por diferentes fases em contextos distintos, tanto históricos como políticos. Segundo Cyfer (2018, p. 31) os três pontos trazidos acima “exprimem uma boa parte das reflexões atuais na Teoria Crítica feminista, mas deixa de fora outras tantas, como a produção sobre democracia, justiça, reconhecimento, psicanálise e vulnerabilidade” algumas discussões que são feitas, sobretudo com Habermas e Honneth. Ainda sobre essas temáticas Ferrarese (2017, p. 183) aponta que “os discursos políticos, científicos modernos e contemporâneos procuraram separar freneticamente os planos ontológico e social” colocando manifestações da vulnerabilidade em primeiro e segundo plano. Segundo a autora, A tarefa de uma Teoria Crítica feminista deve ser a de lembrar que os dois níveis de realidade são inseparáveis. É necessário tanto trazer à luz aquilo que o levantamento e o estabelecimento perpétuo dessa fronteira permitem, esquecem e dissimulam, quanto operar um deslocamento. Mundo social e vulnerabilidade ontológica devem ser pensados em conjunto, a fim de mostrar como eles se engendram e se coproduzem (Ferrarese, 2017, p. 183). Dessa forma, olhar para uma Teoria Crítica feminista requer relacionar o mundo social e a vulnerabilidade ontológica, pois assim, ao fazer um diagnóstico do tempo presente será mais viável e mais próximo de não realizar exclusões. Algumas autoras foram pioneiras nas discussões feministas dentro da Teoria Crítica, na próxima seção apresento o modelo crítico de uma dessas autoras, Nancy Fraser. 1.2.3 Reconhecimento na Teoria Crítica Nancy Fraser traz discussões e diálogos sobre o reconhecimento em sua teoria e suas discussões vêm a partir de autores da Teoria Crítica, como Axel Honneth. É importante pontuar que “a categoria ‘reconhecimento’ enquanto ‘luta social’ tem uma longa trajetória histórica desde Maquiavel, Hobbes, Hegel, Nietzsche, passando pelos contemporâneos da Teoria Social e Crítica” (Fuhrmann, 2013, p. 1). Axel Honneth, sociólogo e filósofo social contemporâneo, é um dos autores mais destacados da chamada "terceira geração" da Escola de Frankfurt. Seus estudos discutem a 36 intersubjetividade nos problemas da sociedade capitalista atual. O tema central de sua teoria é a categoria "Reconhecimento Intersubjetivo e Social", conceito fundamental para entender a origem das relações e ações sociais conflituosas, bem como para compreender o processo evolutivo das sociedades (Fuhrmann, 2013, p. 6). A chamada "Teoria do Reconhecimento" baseia-se nos estudos sobre a formação da identidade de George Herbert Mead e nas premissas universais de reconhecimento social de Georg W. Friedrich Hegel. De maneira concisa, a tese central de Honneth afirma que a identidade dos indivíduos é definida por um processo intersubjetivo, mediado pelo reconhecimento. Nesse sentido, a busca por reconhecimento ocorre em três dimensões: amor, solidariedade e direito, e não pela simples inclusão econômica. A falta de reconhecimento intersubjetivo e social é apontada como a principal origem dos conflitos sociais. Nancy Fraser questiona a centralidade do conceito de reconhecimento e propõe pensar formas de dominação social e tipos de conflitos nas sociedades atuais. Segundo Santos (2012, p. 2), a autora [...] questiona principalmente o fato de a gramática do reconhecimento ter se tornado a forma normativa hegemônica da luta política atual e aos efeitos que essa gramática funda na dinâmica dos conflitos sociais, considerando-se que tal teoria pode esvaziar grande parte das reivindicações dos movimentos sociais e da teoria crítica referentes às questões distributivas, além de ser um modelo que se distancia da despolitização das lutas sociais, que são diversas e complexas. Assim, Nancy Fraser discute três problemas centrais que a teoria do reconhecimento apresenta; o primeiro é deixar de lado as questões materiais referentes à justiça distributiva, pois não está claro que o conceito de reconhecimento contempla as lutas por redistribuição; o segundo seria o reconhecimento ser uma categoria que esconde e intensifica o separatismo e dominação entre grupos; e o terceiro seria um déficit político na teoria de reconhecimento, ao propor incluir questões de distribuição e de representação. Dessa forma, por meio de crítica a esses pontos da teoria do reconhecimento, Nancy Fraser aponta um modelo crítico que coloca na centralidade não apenas o reconhecimento, a redistribuição ou a representação, mas a indissociabilidade entre eles. 1.2.4 O modelo crítico de Nancy Fraser Nancy Fraser é uma pensadora contemporânea em filosofia política, atualmente, professora de Filosofia e Política na New School for Social Research, Nova Iorque, Estados Unidos. 37 Em 1969, ela se formou em Filosofia e defendeu seu doutorado em 1980, na City University of New York (Bressiani, 2020). Em sua trajetória, Nancy Fraser se dedicou a alguns assuntos, mas teve três grandes temas de interesse que sempre estiveram presentes: Feminismo (Fraser, 2013; 2007), Justiça (Fraser, 1997; 2008) e Capitalismo (Fraser; Jaeggi, 2018; 2020; Fraser, 2020). Dessa forma, ela traz em sua produção características de suas experiências na política, como militante, trazendo um engajamento em movimentos sociais, principalmente contra a segregação racial nos Estados Unidos, em movimentos estudantis e mais tarde em lutas feministas (Fraser, 2007). Fraser (2003b, p. 57), afirma que a melhor definição do que é Teoria Crítica foi apresentada por Marx, em 1843, como “a auto clarificação das lutas e das vontades da época”, ou seja, trata-se de um movimento de reflexão e conscientização sobre as forças e motivações que impulsionam lutas contemporâneas, permitindo articulações mais precisas para reivindicações e estratégias em relação ao contexto social e histórico em que estão inseridos. Nancy Fraser desenvolveu grande parte de sua teoria baseada nos trabalhos desenvolvidos por Jürgen Habermas, principalmente, tecendo críticas à distinção entre “sistema” e “mundo da vida”. Para Habermas, o sistema possui propriedades estruturais e o mundo da vida tem propriedades hermenêuticas, mas para Fraser, todas as instituições possuem as duas dimensões: estruturais e interpretativas e tudo deve ser estudado de forma hermenêutica e estrutural (Campillo, 1993, p.31). Assim, Nancy Fraser afirma uma necessidade de introduzir outras temáticas como gênero nas discussões por meio da crítica ao marco teórico da Teoria da Ação Comunicativa, desenvolvida por Habermas. Dessa forma, Fraser se debruça em estudos referente a redistribuição e reconhecimento e discute sobre as questões de gênero a partir dessa perspectiva. Por anos, pesquisadores e filósofos defenderam uma teoria de justiça voltada para a redistribuição como Rawls, ou para o reconhecimento como Young, segundo Fraser (2022, p. 246) o objetivo é “desenvolver uma teoria crítica do reconhecimento, uma teoria que identifique e defenda apenas as versões da política cultural da diferença que possam ser coerentemente combinadas com políticas sociais de igualdade”. Nancy Fraser discute sobre a questão de redistribuição, relacionada com a desigualdade material presente no mundo, e também sobre a questão de reconhecimento, relacionada com aspectos simbólicos e culturais. 38 Em discussões com alguns autores, como Rainer Forst32, Nancy Fraser foi questionada por defender uma teoria apolítica, dizendo que a questão política não fazia parte do seu debate e seu olhar estava direcionado apenas para a dimensão econômica e cultural, a partir dessas discussões a autora teoriza a terceira dimensão nomeando-a de representação. Segundo Fraser (2009), distribuição e reconhecimento são políticos por natureza, no sentido de serem contestados e permeados por poder; e eles, frequentemente, têm sido tratados como elementos que demandam a tomada de decisão do Estado. Mas eu considero o político em um sentido mais específico, constitutivo, que diz respeito à natureza da jurisdição do Estado e das regras de decisão pelas quais ele estrutura as disputas sociais. O político, nesse sentido, fornece o palco em que as lutas por distribuição e reconhecimento são conduzidas. Ao estabelecer o critério de pertencimento social, e, portanto, determinar quem conta como um membro, a dimensão política da justiça especifica o alcance daquelas outras dimensões: ela designa quem está incluído, e quem está excluído, do círculo daqueles que são titulares de uma justa distribuição e de reconhecimento recíproco (2009, p.19). Dessa forma, para Nancy Fraser, as injustiças sociais devem ser analisadas pelas três dimensões: reconhecimento, redistribuição e representação, sendo que a terceira dimensão, a política fornece os subsídios para que as outras duas dimensões aconteçam. Segundo Correia (2021, p. 70) “para um cidadão participar da esfera pública, em pé de igualdade, deve ter reconhecimento e condições socioeconômicas mínimas, assim, alcançaremos uma concepção abrangente de justiça”. Assim, ao acrescentar a terceira dimensão, Nancy Fraser propõe uma dimensão relacionada ao aspecto político que visa uma representação dos cidadãos como sujeitos iguais na sociedade. 1.2.5 Uma busca não apenas por reconhecimento, mas também por redistribuição e representação A partir da teoria da justiça que Nancy Fraser participa do debate contemporâneo da Teoria Crítica sobre Reconhecimento, no grupo de pesquisa33 no qual participo e tem como um dos coordenadores a Deise, minha orientadora, há pesquisas sendo desenvolvidas que demonstram a potencialidade de Nancy Fraser para discutir a temática. Em suas formulações iniciais, Nancy Fraser não direciona apenas o reconhecimento como essencial para a justiça social, ela defende que a redistribuição e a representação também estejam alinhadas ao reconhecimento, pois essas são questões diretamente relacionadas à produção de injustiças 32 filósofo alemão conhecido principalmente por suas contribuições ao campo da filosofia política e da teoria da justiça. Ele é professor de Filosofia na Universidade Goethe em Frankfurt, na Alemanha. 33 Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Avançadas em Currículo (NIPAC), Coordenadores: Profa. Assoc. Deise Aparecida Peralta e Prof. Assoc. Harryson Júnio Lessa Gonçalves. Grupo de Trabalho em Teoria Crítica e Educação em Ciências e Matemática (GTCEM). 39 sociais (Fraser, 2006; 2009; 2017; 2022). Para Fraser (2022, p. 28) “devemos nos ver com uma nova tarefa intelectual e prática: desenvolver uma teoria crítica do reconhecimento, uma teoria que identifique e defenda apenas as versões da política cultural da diferença que possam ser coerentemente combinadas com políticas sociais de igualdade” ela ainda acrescenta “ao formular esse projeto, pressuponho que a injustiça hoje requer ambos, redistribuição e reconhecimento” e mais tarde ela acrescenta a representação. Nessa concepção tridimensional de justiça, redistribuição, reconhecimento e representação, se inserem, respectivamente, em três dimensões: a socioeconômica, a cultural ou simbólica e a política, que são independentes e irredutíveis entre si (Correia, 2021). Na dimensão socioeconômica é possível identificar injustiças que estão relacionadas à submissão econômica e a desigualdade de classe, nas quais a estrutura econômica de determinada sociedade explora e marginaliza seus cidadãos, reforçando a injustiça distributiva, com uma concentração desigual de riquezas. Já na dimensão cultural, existem injustiças que são ocasionadas por padrões institucionalizados de dominação, que “privam os cidadãos de representatividade social, comunicativa ou interpretativa” (Correia, 2021, p. 21). Na dimensão política, a falsa representação se apresenta nos obstáculos políticos à paridade participativa. Dessa forma, a má redistribuição se relaciona com os impedimentos econômicos e o falso reconhecimento está relacionado com os impedimentos simbólicos e culturais. Ambos estão interligados e “precisam ser entendidos para conhecer a diferença histórica para a paridade de participação” (Correia, 2021, p. 22). Como apresento acima, após discussões e debates, Fraser (2009) propõe que as injustiças sociais são melhores diagnosticadas quando olhamos para essas três vertentes: redistribuição, reconhecimento e representação34. Para combater essas injustiças Nancy Fraser em seu modelo bidimensional, propõe remédios afirmativos e transformativos para remediarem as injustiças sociais, a partir dos quais os primeiros são destinados a correção de efeitos desiguais de arranjos sociais sem afetar a estrutura que lhe sustenta e o segundo que também corrige os efeitos desiguais, mas por meio da remodelação da estrutura. É importante ressaltar que para a terceira dimensão (representação), até o momento, Fraser, não discute sobre remédios afirmativos/transformativos como fez para as outras duas dimensões. Para compreender um pouco mais discuto cada uma dessas dimensões e quando houver, seus possíveis remédios. 34 Fraser já trazia em suas discussões anteriores a paridade de participação, no qual trazia algumas reflexões relacionadas às questões políticas e tomadas de decisões, mas com a terceira dimensão essas questões ganharam mais destaque e se entrelaçaram a questão de reconhecimento e redistribuição. 40 1.2.5.1 Redistribuição A redistribuição nos permite uma reestruturação econômica que se relaciona com dois pontos de vista, filosófico e político, no primeiro, procura-se padrões ou normas que possam ser refletidas na justiça e o político se relaciona com as lutas sociais dentro da esfera pública (Correia, 2021). As questões de redistribuição vêm criticar as injustiças que se relacionam com, por exemplo, “baixo salário, expropriação e exploração dos trabalhadores, trabalho doméstico não remunerado e as diferenças entre trabalhos específicos para os homens e os trabalhos específicos para as mulheres” (Correia, 2021, p.34). O que mostra a necessidade de uma redistribuição de recursos econômicos, assim como reavaliar as formas de trabalho e suas respectivas remunerações, buscando modificações na estrutura da sociedade. A má redistribuição ocasiona obstáculos econômicos que dificultam a participação do indivíduo em sociedade, privando-os de uma melhor qualidade de vida e sendo submetido à exploração e privação de um padrão de vida adequado. Nancy Fraser apresenta algumas soluções, nas quais ela chama de remédios para a injustiça, e os divide em duas categorias: os remédios afirmativos, que são destinados a correção de efeitos desiguais de arranjos sociais, sem afetar a estrutura que lhe sustenta e os remédios transformativos que, assim como os afirmativos corrige os efeitos desiguais, mas por meio da remodelação da estrutura (Fraser, 2022). Assim, identifico como remédio para a injustiça econômica algum tipo de reestruturação político-econômica. O que pode implicar, por exemplo, na redistribuição de renda e na reorganização da divisão de trabalho. Os remédios afirmativos de redistribuição podem ser identificados como os programas do governo, que fornecem auxílio financeiro para as populações mais carentes, mas entendo que esse tipo de recurso não elimina as diferenças das classes sociais, na verdade, “sustentam- na, pois oferecem a ajuda material mínima necessária para a subsistência, além de criar estratificações sociais” (Correia, 2021, p. 35). Os remédios transformativos estão relacionados à redução das desigualdades sociais, desestruturando a cultura dominante enraizada, incentivando assim, a união dos cidadãos e que estes sejam solidários entre eles. 1.2.5.2 Reconhecimento 41 A questão do reconhecimento está relacionada com os padrões de valorização cultural enraizados na sociedade, segundo Fraser, “o reconhecimento remete, então, a uma questão de posição social. O não reconhecimento, ao contrário, significa subordinação social, no sentido de ser privado de participar como igual na vida social” (2013, p. 752). O reconhecimento caracteriza uma relação de troca ideal entre os sujeitos, na qual cada um vê o outro como igual, mas também como diferente. “Se estima que esta relação é constitutiva da subjetividade: um se converte em sujeito individual só em virtude de reconhecer outro sujeito e ser reconhecido por ele” (Fraser, 2006b, p. 20). Ou seja, é necessário se reconhecer enquanto sujeito coletivo, através das suas identificações, mas também como sujeito individual, o qual possui suas particularidades e especificidades enquanto ser. O reconhecimento está relacionado com as questões culturais ou simbólicas da sociedade. Essas questões envolvem a valorização e a afirmação das culturas de grupos que foram historicamente oprimidos ou desvalorizados. O falso reconhecimento está relacionado com a desvalorização da cultura, segundo Fraser (2007) “o não reconhecimento é uma questão de impedimentos, externamente manifestados e publicamente verificáveis, a que certos indivíduos sejam membros integrais da sociedade” (p. 114). O remédio para a injustiça cultural está relacionado a uma mudança cultural ou simbólica. E podem ser afirmativos ou transformadores, vai depender se haverá ou não alteração na estrutura ao promover a superação da injustiça. De acordo com Fraser (2022), muitas vezes os remédios de reconhecimento admitem uma concepção subjacente de redistribuição. 1.2.5.3 Representação A Representação é uma dimensão que olha para o aspecto político. Essa dimensão política estabelecida por Nancy Fraser está relacionada à sua constituição, jurisdição e formulação de regras para decidir as estruturas que serão aceitas na sociedade. “A dimensão política, portanto, é a esfera onde serão discutidas as decisões que irão colocar em prática a dimensão econômica e cultural na sociedade” (Correia, 2021, p. 78). De acordo com Fraser (2008), a representação tem o intuito, em parte, de explicar as “injustiças no plano da política ordinária”, que aparecem internamente nas sociedades políticas e quando algumas regras ou tomadas de decisões são tendenciosas e privam a 42 participação “políticas de pessoas que já contam como membro, assim, privando e prejudicando a sua capacidade para participar como pares na interação social” (p. 22). De acordo com Fraser (2009) A dimensão política da justiça especifica o alcance daquelas outras dimensões: ela designa quem está incluído, e quem está excluído, do círculo daqueles que são titulares de uma justa distribuição e de reconhecimento recíproco. Ao estabelecer regras de decisão, a dimensão política também estipula os procedimentos de apresentação e resolução das disputas tanto na dimensão econômica quanto na cultural: ela revela não apenas quem pode fazer reivindicações por redistribuição e reconhecimento, mas também como tais reivindicações devem ser introduzidas no debate e julgadas. Centrada em questões de pertencimento e procedimento, a dimensão política da justiça diz respeito prioritariamente à representação. Em um nível, pertinente ao aspecto do estabelecimento das fronteiras do político, a representação é uma questão de pertencimento social (Fraser, 2009, p. 19-20). Assim, a dimensão política é a esfera na qual acontecerão as discussões em relação às decisões que colocarão em prática a dimensão econômica e cultural na sociedade. Quando há injustiças acontecendo nessa dimensão, posso relacioná-la a falsa representação, essa falsa representação pode ocorrer dentro das fronteiras políticas ou de regras decisórias que neguem os sujeitos de participar em pé de igualdade com os demais. De acordo com Correia (2021) o nome “representação” foi escolhido devido a sua aliteração com as dimensões: reconhecimento e redistribuição, mas, principalmente, pela sua polissemia “que aborda sobre a injustiça de primeira ordem, relacionada à participação política, e, a injustiça no meta nível, relacionada às questões de desenquadramento” (p. 78). Como retratado por Fraser (2008, p. 257) a representação “pode significar tanto enquadramento simbólico quanto participação política”. Para a autora, é de suma importância pensar “a dimensão política da justiça a partir desses dois sentidos e desenvolver a relação entre os dois, porque a concebo em dois níveis”. A falsa representação identifica um tipo de injustiça que diz respeito “aos obstáculos especificamente políticos à paridade participativa, derivada da constituição política da sociedade e distinta da estrutura da classe e da ordem de status” (Troian, 2020, p. 65). A falsa representação pode acontecer independente das injustiças relacionadas à má redistribuição e falso reconhecimento. De acordo com Fraser (2009) a falsa representação se dá em dois níveis: falta ou falsa representação política comum, que podem ser exemplificados: os sistemas eleitorais nos quais se constituem grupos minoritários. E o mau enquadramento, que “surge quando os limites da comunidade se fazem de tal maneira que excluem erroneamente a alguns a oportunidade de participar, em absoluto, nos debates acerca da justiça” (Troian, 2020, p. 66). 43 Nancy Fraser não teoriza remédios afirmativos ou transformativos relacionados à terceira dimensão, mas aponta algumas estratégias para remediar essas injustiças, como: inclui reformas institucionais relacionadas a sistemas eleitorais inclusivos que possua uma representação proporcional de minorias e grupos marginalizados; a participação ativa dos cidadãos nas decisões políticas da comunidade; reconhecer as diferenças e incluir os grupos marginalizados também entra como estratégias para lidar com essas injustiças. Dessa forma, a dimensão política se torna muito importante e agrega a teoria bidimensional de justiça. Fraser (2008, p. 49-50) reforça que “as três dimensões estão em relações de mútuo imbricamento e influência recíproca” (Fraser, 2008, p. 49-50), todas se relacionam e do mesmo