Revista EDICIC, v.1, n.3, p.1-17, Jul./Sep. 2011. Disponible en: .
PROFISSIONAIS MEDIADORES DA INFORMAÇÃO: EXPERIÊNCIAS
DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS EM DOIS CURSOS DE
BIBLIOTECONOMIA BRASILEIROS
Carlos Cândido de Almeida
Professor do Departamento de Ciência da Informação – Universidade Estadual
Paulista (Unesp/Marília) – Brasil
RESUMO
O contexto político, social e econômico determina as condições materiais da formação
cultural do indivíduo e influencia a constituição de sua consciência crítica e responsabilidade
social. O objetivo deste relato é descrever as experiências didáticas e as reflexões geradas
a partir de discussões em sala de aula com alunos em disciplinas dedicadas ao acesso à
informação nos cursos de Biblioteconomia da Universidade Estadual Paulista - UNESP,
Estado de São Paulo, e Universidade Federal de Alagoas - UFAL, Estado de Alagoas, a
saber: Disseminação da Informação, ministrada em 2007 e 2010, Fontes e Disseminação da
Informação I, ministrada em 2008 e 2009, além de Biblioteca e Ação Cultural, realizada em
2008 e 2009. Percebeu-se, a partir da experiência em sala, que os alunos de
Biblioteconomia dispõem de um relativo conhecimento das instituições bibliotecárias e de
seus serviços; muitos, alias, relataram que não conheciam os principais serviços de uma
biblioteca antes de cursarem as respectivas disciplinas.
Palavras-Chave: Profissional da Informação; Mediador da Informação; Formação
Profissional; Biblioteconomia; Responsabilidade Profissional.
ABSTRACT
The context political, social and economical determines the material conditions of the
individual's cultural formation and it influences in the constitution of the critical conscience
and social responsibility. The aim of this paper is to describe the didactic experiences from
discussions in classroom with students in disciplines dedicated to information access in the
Brazilian librarianship courses from São Paulo State University (Unesp), state of São Paulo,
and Federal University of Alagoas (UFAL), state of Alagoas, precisely: Information
Dissemination, supplied in 2007 and 2010, and Information Dissemination and Sources,
supplied in 2008 and 2009, besides Library and Cultural Action, accomplished of 2008 to
2009. It was noticed, starting from the experience in classroom, that the Librarianship
students have low knowledge of the institutions librarians and their services; they told that
not to know the main library services before they study them referred disciplines.
Keywords: Information Professional; Information Mediator; Professional Formation;
Librarianship; Professional Responsibility.
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1 INTRODUÇÃO
O contexto político, social e econômico determina as condições materiais
objetivas na formação cultural do indivíduo, e não é preciso ser sociólogo para
sustentar esta afirmação. As instituições escolares também fornecem elementos que
contribuem para a socialização dos indivíduos. Quando os jovens, a partir dos 17
anos, chegam às universidades brasileiras para a realização de seus cursos de
graduação, um problema crucial interfere no desenvolvimento das atividades
acadêmicas, o conhecimento da realidade social (práticas sociais, valores,
instituições e artefatos construídos socialmente). Esse fenômeno repercute na
constituição de uma consciência crítica e na responsabilidade social do sujeito, em
especial, nos cursos de Biblioteconomia que são protagonistas do processo de
formação do mediador da informação, profissional que procura interferir em um dado
ambiente, o qual deve ser antecipadamente conhecido, defendendo o livre acesso à
informação.
Contudo, para se informar sobre a realidade social, o alunado deve
reconhecer alguns caracteres básicos da sociedade. O Brasil não é um país
homogêneo em termos econômicos, culturais e sociais, é notória a crítica sobre suas
desigualdades, que apesar de diminuídas nos últimos anos, ainda se mostram
avassaladoras. A desigualdade e as diferenças regionais lançam questões que
impactam na formação acadêmica dos mediadores da informação, e não podemos
desconsiderar estes fatos sob pena de os egressos saírem dos cursos sem uma
exata dimensão do contexto que os espera.
Sendo assim, o objeto desta reflexão compreende as experiências didáticas
junto à formação do profissional bibliotecário, sujeito mediador da informação, em
duas universidades públicas brasileiras, localizadas em estados cujos aspectos
econômicos e culturais são distintos, a saber: Alagoas (região Nordeste) e São
Paulo (região Sudeste). O objetivo deste relato é examinar as discussões com
alunos em sala de aula e a curta experiência em disciplinas dedicadas
explicitamente ao acesso à informação nos cursos de Biblioteconomia, da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), São Paulo, nos anos 2007 e 2010, e
Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Alagoas, entre os anos 2008 e 2009.
As disciplinas consideradas são essenciais para se pensar o ideário do
agente da informação, que além de conhecimento técnico e especializado, deve
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identificar necessidades informacionais e propor serviços ajustados às diversas
comunidades. Tais disciplinas estão comumente inseridas na parte central do eixo
curricular denominado Recursos e Serviços da Informação, e são indicadas a seguir:
Disseminação da Informação, Fontes e Disseminação da Informação I e Biblioteca e
Ação Cultural.
Sem recorrer ao uso de enquetes, questionários ou entrevistas, lancei mão do
exame de minhas experiências e algumas afirmações oriundas dos debates
proporcionados pelos encontros das disciplinas. Receio que a validade deste relato
seja questionável, como é questionável qualquer abordagem que coleta dados
perceptuais, requisitando, por exemplo, um diário de pesquisa. Reminiscência, esta
seria a palavra mais apropriada para designar o produto dessas impressões.
Entretanto, acredito que uma parcela significativa de nossas decisões sobre a
atualização de uma disciplina ou a respeito da relação dos conteúdos discutidos em
sala com a realidade encontrada pelos egressos, está sustentada por fragmentos
retidos na memória individual que se movem na direção de uma representação
social que permite interpretar e avaliar a atuação docente.
O principal referencial teórico que ajuda a explicar essa condição da realidade
social decorre da leitura de García Canclini (1998) sobre as diferentes
temporalidades históricas convivendo em um mesmo contexto, o que se apresenta
plenamente na sociedade brasileira. Além disso, devo sublinhar o papel dos teóricos
da Biblioteconomia que tratam de expor criticamente os problemas da área no Brasil.
Acredito que o conhecimento destas diferenças interfere na formação de
mediadores, profissionais que disseminam informação, animadores e agentes
culturais. Conhecer a realidade social e as instituições bibliotecárias é um
pressuposto para planejar quaisquer serviços de informação.
2 O PROFISSIONAL MEDIADOR DA INFORMAÇÃO
Suponho que para o profissional da informação - neste caso exclusivo, o
bibliotecário – assumir uma responsabilidade e compromisso com o acesso à
informação, ele deva conhecer, antecipadamente, a dinâmica da sociedade, seus
antagonismos e contradições, para então, planejar intervenções no ambiente social.
Entendo e ademais defendo que, a formação de mediadores não ocorre apenas no
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nível teórico, e disciplinas acadêmicas não suprirão todas as respostas aos
problemas reais a serem enfrentados. Contudo, também me soa estranho um
processo formativo que passe ao largo dos debates que explicam as razões que
levaram, por exemplo, as bibliotecas a uma condição de pouca representatividade
para vida de um brasileiro.
Sabemos que os alunos de Biblioteconomia dispõem de um relativo
conhecimento das instituições bibliotecárias (bibliotecas públicas, bibliotecas
escolares, bibliotecas universitárias e bibliotecas especializadas), muitos, alias,
relatam não conhecer precisamente quais os principais serviços de uma biblioteca
antes de cursar as referidas disciplinas (Disseminação da Informação, Fontes e
Disseminação da Informação I e Biblioteca e Ação Cultural). Esse registro,
isoladamente, provaria o impacto da sociedade brasileira na formação crítica do
sujeito em relação aos serviços de informação em bibliotecas.
Acredito que as influências derivadas de fatores culturais, questões históricas
e geográficas, incidem na percepção dos alunos sobre os problemas brasileiros, e
tal contexto determina as condições da consciência de responsabilidade com o
acesso à informação para as populações desfavorecidas. Uma pergunta deve ser
feita a essa altura: como ser responsável e/ou comprometido com o acesso à
informação sem conhecer as comunidades atendidas e as instituições bibliotecárias?
Antes de sugerir elementos para responder a pergunta, ilustrando com os
relatos de minhas experiências, devemos prosseguir definindo a função deste
profissional. Podemos afirmar que uma função social não se constrói apenas pela
autorreferência. Em sociedade, as funções são construídas e consolidadas pelas
interações dos sujeitos situados socialmente. Isso significa que um bibliotecário não
nasce com uma função única e imutável, mas a constrói e a atualiza em constante
diálogo com a sociedade. A função manifesta uma necessidade que deve ser
correspondida com o exercício de uma ação, seja a de informar ou de permitir o
acesso a documentos registrados.
Nesse sentido, o bibliotecário teria várias funções, as quais dependem mais
desse estreito diálogo do que do corpo de pessoas que defende os interesses de
uma profissão. Em outras palavras, não se institui funções ao acaso ou pela livre
escolha de alguns eleitos, mas, sobretudo, pela dinâmica interacional implicada no
movimento da sociedade. Podemos até assumir que o bibliotecário deve,
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obrigatoriamente, mediar a informação, mas essa função será aceita quando
socialmente reconhecida. Esse diálogo preside as relações de uma profissão com a
sociedade, e quando está em desacordo, obviamente a profissão terá que alterar
seu fazer característico.
Acreditamos, assim como Almeida Júnior (2009), que o centro das ações da
profissão de bibliotecário está na mediação da informação, isto é, em uma atividade
que manifesta a interferência como única forma de garantir à sociedade o acesso à
informação. Sem um posicionamento deste tipo, não haveria aproximação entre
conteúdos e usuários nem mesmo a apropriação efetiva da informação. Em outros
termos, não haveria a internalização da informação para a geração de novos
conhecimentos.
Um profissional mediador da informação, e nesta classe incluímos
particularmente o bibliotecário, escolhe a interferência à neutralidade – ainda na
linha de Almeida Júnior -, a realização à potência, o ato à intenção. Esse
profissional conhece os serviços – ou deveria conhecê-los – e os produtos de
informação, dos tradicionais aos contemporâneos, e sabe como nenhum outro, as
formas de conduzir a instalação destes serviços em instituições que não os
possuem.
O conhecimento da comunidade antecede a implementação de planos e de
ações. A responsabilidade para com o acesso deve tomar como base disciplinas de
caráter teóricos e práticos que promovem a relação dos estudantes com as
realidades vividas pelas pessoas. Assim, que disciplinas, no contexto da formação
de bibliotecários, promoveriam diretamente essa dialética?
3 AS DISCIPLINAS
As disciplinas ministradas na Unesp e UFAL compõem o quadro de matérias
essenciais para se refletir sobre a existência e as funções de um mediador, tratam
de desenvolver um ideário das responsabilidades e compromissos pactuados com a
sociedade atendida. As disciplinas elencadas a seguir procuram levar o graduando a
situações de reflexão sobre a realidade das bibliotecas brasileiras e dos serviços de
referência disponíveis ao público usuário.
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A disciplina Disseminação da Informação, por exemplo, foi ministrada
inicialmente no 1º semestre de 2007 e, em uma segunda oportunidade, no 1º
semestre de 2010. Ela consta no currículo e está organizada para ser oferecida no
início do 3º ano do Curso de Biblioteconomia da Unesp, câmpus de Marília. Outras
disciplinas estão imbricadamente correlacionadas a esta, como a de Estudos de
Usuário, Fontes de Informação e as de fundamentação teórica, tal como as de
Comunicação, História e Introdução à Ciência da Informação. Disseminação da
Informação é uma disciplina de 6 créditos (cada crédito correspondendo a 15 horas
de atividade), ou 90 horas, obrigatória, mas diferentemente das demais, é o espaço
privilegiado para se ressaltar as funções das bibliotecas públicas e comunitárias,
além do papel social e das responsabilidades do profissional bibliotecário.
A ementa compreende os elementos tópicos: “Processo de referência.
Serviço de referência e informação. Instrumentos de referência. Administração de
rotinas do Serviço de Referência. Educação do Usuário. Processo tecnológico de
disseminação da informação. Comutação e intercâmbio bibliográfico. Centros
referenciais. Serviços de alerta” (UNIVERSIDADE ESTADUAL..., 2007).
Os objetivos da disciplina procuram levar o alunado a entender o papel das
bibliotecas (unidades de informação) como canais de circulação da informação na
sociedade; refletir sobre as facilidades e barreiras que elas apresentam no processo
de disseminação da informação; compreender o serviço de referência e informação
nas unidades de informação e refletir sobre a administração e o desempenho do
serviço de referência e informação, com vistas à melhoria da execução da função de
informar, nos diferentes tipos de unidades de informação e para diferentes públicos
(UNIVERSIDADE ESTADUAL..., 2007).
O programa abriga conteúdo sobre a relação da informação com a cidadania
e o desenvolvimento, as práticas, as agências e os agentes da disseminação da
informação, bem como as barreiras para a apropriação da informação pelo usuário.
Outro eixo central do programa corresponde às atividades básicas do setor de
referência, os aspectos teóricos e práticos do serviço em unidades de informação. O
conteúdo programático ressalta, sobretudo, as atividades básicas do serviço de
referência, bem como as educacionais, disseminativas e culturais.
A metodologia de ensino empregada recobre aulas expositivas, discussões
em grupo, análise de textos e visitas técnicas. A metodologia de avaliação utilizada
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foi a resenha de obras, a apresentação de resenhas e a elaboração de projeto de
atividade disseminativa. As obras selecionadas para guiar os debates foram as que
mostraram maior relevância para reconstituir o contexto social dos serviços de
referência e atividades de disseminação, entre eles, merece registro especial:
Almeida Júnior (1997, 2003), Barros (2003) e Milanesi (2003). Além de os autores
mencionados, outros elementos deram suporte às discussões em sala de aula no
ano de 2007, sobretudo, a visita a 4 (quatro) unidades de informação, a saber: uma
biblioteca pública, uma biblioteca comunitária e duas bibliotecas especializadas no
setor agropecuário do município de Londrina, Estado do Paraná. O contato com
estes espaços procurou ressaltar os problemas citados em sala de aula e
sintetizaram uma realidade que não é apenas aparente.
No 2º semestre de 2008 e 1º semestre de 2009 desenvolvi o mesmo trabalho
na UFAL, contudo, a configuração curricular disponível agrupa as questões ligadas a
fontes de informação aos temas centrais de disseminação da informação. Nesse
sentido, a disciplina Fontes e Disseminação da Informação I, de conteúdo
obrigatório, tem uma carga de 60 horas, ou seja, 4 créditos. Essa disciplina possui
dois eixos estruturais, de um lado, as fontes de informação, e de outro, as atividades
de disseminação da informação. No entanto, minha preocupação é ressaltar aqui o
campo da disseminação da informação, identificando situações em que o
bibliotecário - neste instante na condição de aluno - deve desenvolver uma
consciência das condições sociais sobre as quais vive a maior parte dos brasileiros
e a respeito do papel dos mediadores e das instituições bibliotecárias.
A ementa da disciplina resume as principais discussões nos seguintes
tópicos: “Evolução e tendências do serviço de referência. Fontes de informação
gerais e especializadas, impressas e eletrônicas. Fontes utilizadas para seleção da
informação. O contexto da produção e acesso às fontes de informação geral no
Brasil. Características, uso e critérios de avaliação dos diversos tipos de fontes de
informação, gerais e especializadas. Técnicas de disseminação da informação.
Serviços e produtos de disseminação da informação. Avaliação de serviços e
produtos de informação” (UNIVERSIDADE FEDERAL..., 2008a).
Em outras palavras, as questões essenciais da prática do serviço de
referência em bibliotecas e unidades de informação são objeto desta disciplina,
além, é claro, das questões relativas às fontes de informação. Os objetivos da
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disciplina procuram possibilitar aos alunos: “Discutir os problemas humanos
relacionados às atividades de disseminação da informação; Reconhecer os
principais serviços e produtos de disseminação da informação; Conhecer e
classificar as fontes de informação mais utilizadas em unidades de informação”
(UNIVERSIDADE FEDERAL..., 2008a).
O programa, no que respeita os tópicos de disseminação da informação,
intenta sensibilizar os alunos a conhecer o serviço de referência e informação, seu
conceito e evolução, a disseminação da informação, destacando as técnicas,
serviços e procedimentos para viabilizar a relação com o usuário. Além disso,
discutimos os principais produtos da disseminação da informação e as estratégias
para a avaliação de serviços de referência, destacando as técnicas de coleta de
dados para desenvolver análises periódicas dos serviços de informação.
A metodologia consistiu de aulas expositivas, orientações individuais e em
grupo, avaliação e discussão de trabalhos, utilizando como recursos didáticos slides
e projetor multimídia. As atividades dos discentes contemplarem a leitura, a
discussão de textos, a realização de avaliação escrita, a apresentação de seminário
e a elaboração de projeto de disseminação de fontes de informação (construção de
guias e/ou tutoriais). A bibliografia selecionada privilegiou os autores que apontam
elementos da realidade dos serviços de informação brasileiros e experiências
estrangeiras a respeito do serviço de referência, a saber: Almeida Júnior (1997a,
2003), Barros (2003), Figueiredo (1992, 1996, 1999), Grogan (1995), Macedo (1984;
1990). Naturalmente, outros autores e textos foram incorporados e recomendados
aos alunos, além da indicação de matérias de revistas etc.
A disciplina Biblioteca e Ação Cultural foi oferecida no 2º semestre de 2008 e
2009. Apesar de sua importância para discutir a responsabilidade do profissional
mediador da informação, esta disciplina não era obrigatória no currículo do curso de
Biblioteconomia da UFAL, mesmo com uma carga de atividades de 60 horas.
Contudo, a questão da obrigatoriedade de uma disciplina pode sugerir duas
compreensões: por um lado, a disciplina é considerada complementar ou acessória;
por outro, uma disciplina optativa desta natureza representa tão somente o mais alto
grau de flexibilização de um currículo.
Na ementa identificamos os respectivos elementos sumários: “Concepções de
ação cultural. Ação cultural em centros de informação. A biblioteca como
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instrumento de ação cultural. Ação cultural e realidade regional” (UNIVERSIDADE
FEDERAL..., 2008a). Para tanto, os objetivos a serem alcançados pelos alunos
foram: conceituar ação e animação cultural; distinguir políticas e projetos de ação,
animação e fabricação cultural em unidades de informação, bem como analisar as
atividades típicas de ação cultural em unidades de informação.
O programa dessa disciplina exigiu um conhecimento geral sobre a cultura, o
que depende, obviamente, de disciplinas que sustentam tal discussão, como
Sociologia e Antropologia. Como sabemos, nem todos os cursos de Biblioteconomia
brasileiros possuem estas disciplinas de fundamentação geral no sentido de
amparar uma leitura crítica da realidade social.
Desse modo, o conteúdo programático da referida disciplina previu a
discussão conceitual sobre ação cultural, a análise dos sistemas de produção
cultural na sociedade, a apresentação dos equipamentos culturais e das práticas de
ação, animação e fabricação cultural, as quais foram ilustradas pelo exame das
atividades culturais em bibliotecas e sua relação com os agentes e os mediadores
culturais. Por fim, foi necessário discutir a imbricação da ação cultural com a cultura
regional, neste caso, vale ressaltar uma incursão nos elementos característicos da
cultural nordestina (tradições, folclore, músicas e estereótipos) e as concepções de
identidade cultural.
Para operacionalizar tais conteúdos, foi necessário – além das aulas
expositivas, discussões e orientações –, pensar em estratégias de aproximar os
alunos dos temas. Nesse sentido, a via de contato foi o debate, a elaboração de
resenhas e a estruturação de um pré-projeto de atividade cultural (animação ou
ação). Em 2009, no lugar das resenhas, adotei resumos de textos e, principalmente,
o diário de curso, que consiste em um exame crítico do registro das aulas, dos
debates e dos textos sugeridos, com a finalidade de o aluno expressar a
discursividade de seu pensamento no instante em que avalia a progressão das
discussões dos conceitos. Além disso, substituindo o projeto de atividade cultural foi
proposta uma observação e análise em grupo de uma atividade cultural
desenvolvida em equipamentos culturais da cidade de Maceió, Alagoas.
A fundamentação teórica privilegiou obras que problematizam os conceitos de
cultura, de identidade cultural e de ação cultural, principalmente em suas relações
com a biblioteca. Entre os autores, destaquei Almeida Júnior (1997), Coelho Netto
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(1986, 1997), Milanesi (2003), Freire (1976), Garcia (1985), Garcia Canclini (1998),
Hall (2001).
Essas disciplinas, tanto as que enfrentam a problemática da disseminação da
informação quanto à de ação cultural, revelam a necessidade de conteúdos de
fundamentação geral, principalmente, os oriundos das ciências humanas, como
História, Antropologia, Sociologia e Pedagogia. Um mediador da informação
comprometido com o acesso à informação deve estar amparado por uma leitura
crítica das relações humanas. Contudo, quais meios ou estratégias didáticas podem
ser utilizadas para promover os debates necessários à conscientização do futuro
profissional?
4 EXPERIÊNCIAS DIDÁTICO-PEDAGÓGICAS: DO DIALÓGICO AO DIALÉTICO
O objetivo deste relato é examinar as percepções obtidas em sala de aula nas
disciplinas dedicadas explicitamente ao acesso à informação nos cursos de
Biblioteconomia da Unesp, nos anos 2007 e 2010, e UFAL, entre os anos 2008 e
2009. A questão do acesso à informação foi tratada de uma maneira qualitativa, isto
é, a quantidade de acessos que uma instituição bibliotecária recebe deve ser inferior
à menção da qualidade do acesso. Para assimilar informação, as pessoas precisam
de tempo hábil e capacitação para tal empreendimento, o que não é possível apenas
com os projetos ocasionais que permitem um sujeito ter contato apenas com um
sistema de informação automatizado.
Nas disciplinas em questão, a qualidade do acesso foi sublinhada em relação
à quantidade. Uma instituição bibliotecária deve ocupar-se da qualidade do acesso
aos materiais, qualidade esta que permite a construção de conhecimento. Nesse
sentido, quantas vezes uma pessoa retira um material não é útil para garantir a
transformação da informação em conhecimento, e fundamentalmente o uso do
conhecimento para a ação individual ou coletiva.
De modo geral, o principal método que sustentou os encontros das disciplinas
foi o diálogo. A conversação foi o recurso didático utilizado para aproximar os
elementos conceituais dos textos à realidade identificada. Esse diálogo é um dos
processos básicos da socialização, isto é, a integração e envolvimento do sujeito
nas questões comuns. Os alunos participaram de debates suscitados por um tema
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ou texto gerador, que proporcionasse o reconhecimento da realidade dos
dispositivos de acesso à informação na sociedade brasileira. No caso das
bibliotecas, elegi, dentre outras, duas obras de Almeida Júnior (1997, 2003), por este
tomar como objetos de análise e crítica a instituição biblioteca pública e os
profissionais bibliotecários.
A despeito de a aterrorizante realidade em que se encontram as bibliotecas
públicas mencionadas pelo autor, a questão principal para os alunos era se envolver
com os problemas destas instituições e revisitar suas experiências anteriores a
respeito das bibliotecas, com o objetivo de superar possíveis inconsistências,
preconceitos e desconhecimentos. A partir dos contatos anteriores dos alunos com
bibliotecas – ou da ausência destes –, pude continuar o diálogo a respeito das
possíveis soluções para uma biblioteca pública no contexto brasileiro e um
contingente de profissionais que devem, ao fim e ao cabo, promover o acesso à
informação.
Nesse processo, os ideais preconizados pelos manifestos ou declarações da
Federação Internacional de Associações de Bibliotecas e Instituições, sobre
bibliotecas públicas (INTERNATIONAL..., 2004) e bibliotecas escolares
(INTERNATIONAL..., 2000) foram observados, sempre articulando estes ideais
orientadores com a defasagem encontrada.
O mesmo processo dialógico promoveu a comparação entre os discursos de
autores de países desenvolvidos – em que os problemas básicos de acesso a
registros de informação foram superados ou extremamente diminuídos – e o
pensamento de teóricos nacionais. Esse é o caso, por exemplo, da compreensão do
serviço de referência nas abordagens de Grogan e Jahoda, por um lado, e de
Almeida Júnior e Macedo, por outro. O processo de referência não é nem pode ser
tão mecânico e direto, sem constrangimentos sociais e econômicos. Para um aluno
que percebe a realidade social, notará rapidamente que as questões envolvidas
superam as fases ou o conjunto de passos de um processo de atendimento ao
usuário, que não é um sujeito a-histórico. A saída teórica e prática foi pensar – e
fazer com que os alunos reflitam a respeito – que, os profissionais da informação
são mediadores, e como tais, devem reconhecer seu papel histórico-social e a
necessária interferência que consiste na base que distingue um mediador de um
profissional tradicional (ALMEIDA JÚNIOR, 2009).
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Há alunos que contestam o comportamento dos profissionais atuantes,
dizendo que os mesmos não possuem uma conduta adequada frente às demandas
e às mudanças tecnológicas. Mais uma vez, os mesmos confrontam a observação
sobre a prática dos profissionais na promoção do acesso à informação em
bibliotecas ou outros serviços de informação com a teoria discutida e criticada em
sala de aula. A conclusão provisória a que cheguei foi que as teorias disponíveis são
pouco modestas e muito exigentes, e a realidade brasileira é mais complexa do que
as aparências sugerem.
O procedimento dialético não apenas proporcionou um dispositivo operatório
que se aplica aos problemas encontrados em ambos os contextos – acadêmico e
vivido –, mas revelou que algumas posições ainda precisam ser assumidas
integralmente. Nesse sentido, acredito que foi útil expor durante as aulas sobre a
escolha nas últimas quatro décadas dos bibliotecários brasileiros pelos serviços de
informação especializada, enquanto que os espaços públicos de circulação da
informação, os quais se apóiam no acesso público da informação, não foram ainda
admitidos como fundamentais para os mediadores. Em decorrência disso,
bibliotecas públicas e bibliotecas escolares, espaços legítimos para o acesso à
informação, foram minimamente considerados nas políticas brasileiras sobre o setor.
Um registro recente é o notório teor patrimonialista do conceito de biblioteca escolar
presente na Lei nº 12.244, de 24 de maio de 2010, a qual é considerada tão
somente um conjunto de documentos, e não uma coleção de serviços ao público
escolar.
Outro aspecto que envolveu os alunos foram os temas de ação cultural, os
quais pressupõem o conhecimento da cultura local. No caso da cultura nordestina,
foi necessário que o aluno revisasse os elementos básicos que constituíam a cultura
regional, pois toda ação cultural ocorre em um espaço social que dispõe de
identidades culturais. Hall (2000), com sua noção contemporânea de identidade
cultural e García Canclini (1998), que analisa o contexto do hibridismo cultural na
América Latina, são autores cujas ideias foram essenciais para se pensar a cultura
local frente aos processos de mundialização dos bens culturais. Como ilustração na
disciplina Biblioteca e Ação Cultural, é pertinente citar as músicas do cantor e
compositor Luiz Gonzaga, entre elas, A Triste Partida, que resgata elementos
culturais da saga do nordestino brasileiro.
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Com efeito, é argumentado junto aos alunos que não há possibilidade de se
promover e realizar atividades culturais em equipamentos desta natureza (centros
culturais, bibliotecas públicas, bibliotecas escolares, museus entre outros), sem um
conhecimento anterior da dimensão cultural que nos rodeia. A partir disso, os alunos
discutem a respeito das análises das atividades culturais, classificando
preliminarmente as práticas encontradas como ação, animação ou fabricação
cultural. Parece um processo complexo, mas é extremamente necessário para
organizar os conceitos e testá-los frente à realidade.
5 ÚLTIMAS IMPRESSÕES
Julga-se na ciência que as impressões como estas não servem para garantir
a veracidade de um fenômeno, mas para mim elas têm o papel de sugerir e
antecipar respostas das quais poderíamos obter apenas por um processo mais
longo de pesquisa. Acredito que o conhecimento positivo, herdeiro da ciência
comtiana, nem sempre é superior às especulações.
O debate, como a principal ferramenta para a compreensão mútua e
construção do saber, foi o recurso didático utilizado e se apresentou como uma
forma de combinar discurso teórico e realidade social. No contexto dos debates,
pude organizar e sistematizar algumas reflexões, as quais passo a resumir a seguir.
Em primeiro lugar, identifiquei que não há diferenças substanciais entre o
conhecimento geral do funcionamento de bibliotecas e serviços de informação entre
os alunos dos dois estados. O propalado desenvolvimento econômico de um estado
não determina – como causa eficiente – o entrosamento de jovens com as
bibliotecas. Segundo: é nítida a compreensão dos alunos de que para trabalhar em
serviços de informação, é imprescindível mais contato com as práticas
biblioteconômicas e menos atenção à literatura teórica, a qual pretende situar
razoavelmente o aluno no contexto brasileiro. Talvez a dificuldade esteja em
trabalhar com a ansiedade dos graduandos frente à realidade do mercado de
trabalho que os pressionam a dominar o exercício de certas práticas antes de
conhecer a dimensão social das mesmas.
Em terceiro lugar, percebi que o incentivo à leitura ficou comprometido, em
virtude de esses futuros profissionais pensarem a leitura dos usuários como algo
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objetivo, fora das relações sociais em que ocorrem. Além disso, uma quarta
elucubração, é que a discussão da responsabilidade profissional do mediador
perante os problemas da sociedade brasileira revelou uma posição fatalista, com
alunos ressaltando que pouco ou quase nada pode se alterar com a ação individual
do profissional, porque sem a iniciativa do poder público, a ação concebida deverá
ser diminuída e insignificante.
Uma quinta observação é que, a despeito de essa última posição, há
discursos apaixonados, em que se declara com vigor a função social do profissional.
Em sexto lugar, a especialização crescente das disciplinas, sem um discurso
integrador dos docentes pode comprometer a formação de um mediador, sujeito que
depende de competências adquiridas em todas as disciplinas e não unicamente nas
dedicadas em disseminação da informação. Por fim, o conhecimento distanciado
sobre as diferenças geográficas, econômicas e sociais entre os estados brasileiros,
onde muitos poderão atuar, compromete a leitura crítica da heterogeneidade cultural
brasileira.
Em síntese, percebi indutivamente que não haverá responsabilidade nem
comprometimento com o acesso à informação se os profissionais mediadores não
conhecerem a realidade social, ou não produzirem mecanismos de intervenção
adequados a esta. Para conseguir que os futuros mediadores possam ser
responsáveis e partícipes do acesso irrestrito à informação, sugiro, modestamente,
que mais disciplinas dos cursos de Biblioteconomia integrem a discussão do papel
social da profissão, atrelado ao conhecimento técnico exigido. No contexto
contemporâneo, em que as tecnologias de comunicação e informação não
conseguiram ainda a desejada desintermediação dos processos sociais, não há
mais porque sustentar que as atividades ligadas ao público são apêndices ou
serviços ligeiramente práticos.
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