UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E VETERINÁRIAS CÂMPUS DE JABOTICABAL POTENCIAL ANTIMICROBIANO DE MICROALGAS: USO DA BIOTECNOLOGIA PARA O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS AGENTES DE CONTROLE BACTERIANO Beatriz Fernandes Siqueira JABOTICABAL – SP 2025 I UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E VETERINÁRIAS CÂMPUS DE JABOTICABAL POTENCIAL ANTIMICROBIANO DE MICROALGAS: USO DA BIOTECNOLOGIA PARA O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS AGENTES DE CONTROLE BACTERIANO Beatriz Fernandes Siqueira Orientadora: Profa. Dra. Marita Vedovelli Cardozo JABOTICABAL – SP 2025 Trabalho de Conclusão de Curso (Iniciação Científica) apresentado à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias – Unesp, Câmpus de Jaboticabal, como parte das exigências para graduação em Zootecnia. II III Certificado de Aprovação do TCC IV AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente à Deus, por ter me mantido persistente por todo o processo da Graduação e principalmente, durante a escrita desde trabalho. Sou grata por Ele sempre ter sido minha fortaleza e nunca ter me deixado duvidar da minha fé. Aos meus pais, Sara e Paulo, por todo o apoio e suporte que sempre me deram, por sempre acreditarem em mim, da minha capacidade, de todo o esforço e por tudo o que fizeram e fazem para que nunca me faltasse nada. Agradeço por sempre fazerem o máximo para que eu não perdesse oportunidades que eles não tiveram. Ao meu parceiro e companheiro de vida, Gabriel Enrique Costa Moraes, por ter me apoiado nesse momento tão difícil e ao mesmo tempo tão especial, me acalmado e me dado segurança em todos os momentos mais difíceis e por ter vibrado comigo em cada conquista que tive até aqui. As minhas amigas de turma, Amanda, Giulia, Letícia, Maria Eugênia e Simone, à minha melhor amiga e irmã Beatriz, que estiveram comigo desde o início da Graduação, me ajudando nas minhas dificuldades, compartilhando momentos de difíceis e de alegria e, fazendo com que o caminho fosse mais fácil. Aos meus professores, por terem dado o melhor de si para compartilharem seus conhecimentos. Em especial, a minha orientadora Marita, por ter me acompanhado, orientado e ensinado, o incrível mundo da microbiologia. Ao Laboratório de Microbiologia da FCAV/UNESP – Jaboticabal e toda a equipe que esteve lá comigo, Heloisa, Leandro, Natália, Elka, Milena, Romário, Gabriel, Pamela e Mareliza, me ensinando, apoiando e ajudando, principalmente, durante o desenvolvimento deste trabalho. V À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP, pelo auxílio financeiro para desenvolvimento desta pesquisa - nº2024/18435-8. javascript:mediumPopup('/SAGe_WEB/printProcess.do?abstractProcessId=407953&typeProcess=true&showInPopup=true&org.apache.struts.taglib.html.TOKEN=685721c8cb25be8f36419bc7c85da48c&method=printProcess%27,%20%27popup%27) VI “Faça o melhor que puder. Seja o melhor que puder. O resultado virá na mesma proporção de seu esforço.” Mahatma Gandhi VII ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................... 1 2. REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................. 2 2.1. Produção Animal .................................................................................................. 2 2.2. Saúde animal ......................................................................................................... 4 2.3. Biotecnologia ........................................................................................................ 5 2.4. Microalgas............................................................................................................. 6 2.5. Resistência bacteriana ......................................................................................... 10 2.6. Extratos com ação antimicrobiana ...................................................................... 12 3. OBJETIVOS ....................................................................................................... 13 3.1. Objetivo Geral ........................................................................................................... 13 3.2. Objetivos Específicos ................................................................................................ 13 4. MATERIAL E MÉTODOS ................................................................................ 14 4.1. Produtos Testados ............................................................................................... 14 4.2. Padronização das cepas avaliadas ....................................................................... 14 4.3. Ensaios de Atividade Antimicrobiana ................................................................ 15 4.3.1. Teste de Concentração Inibitória Mínima (CIM) .................................................. 15 4.3.2. Teste de Concentração Bactericida Mínima (CBM) ............................................. 16 4.4. Coloração de Gram .................................................................................................... 17 4.5. MaldiTof .................................................................................................................... 17 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ........................................................................ 18 6. CONCLUSÕES .................................................................................................. 33 7. RESUMO ............................................................................................................ 33 8. SUMMARY ........................................................................................................ 34 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................ 36 1 1. INTRODUÇÃO Com o avanço da resistência bacteriana, torna-se cada vez mais difícil de encontrar um tratamento eficaz para infecções que acometem animais de produção (RHOUMA et al., 2022). Sistemas de produção animal que utilizam fármacos como promotores de crescimento, têm um papel importante para frear a disseminação da resistência através do uso de produtos alternativos (KASIMANICKAM; KASIMANICKAM; KASIMANICKAM, 2021). Na busca por alternativas eficazes ao uso de antimicrobianos no tratamento de infecções, a utilização de microrganismos que possuem ação antimicrobiana, como controle microbiológico, tem se tornado cada vez mais frequente. Esses organismos possuem atividade antimicrobiana natural e sua composição estrutural inclui uma variedade de compostos bioativos com ação antimicrobiana, tornando-os uma opção promissora para combater infecções. (DANQUAH et al., 2022). Entre os microrganismos, as microalgas são organismos eucarióticos, microscópicos e fotossintéticos; que vem tomando espaço no mercado biotecnológico, especialmente considerando que a maioria da proteína celular utilizada atualmente é proveniente de fungos leveduriformes e bactérias. Microalgas, em particular o gênero Chlorella, sobressaem por sua alta versatilidade, sendo consideradas "fábricas verdes" capazes de produzir uma ampla gama de compostos de alto valor agregado a um baixo custo de cultivo. Além disso, seu rápido crescimento permite a produção em larga escala, de forma sustentável, pois podem ser cultivadas em terras não aráveis e utilizam água de maneira mais eficiente, tornando-se uma alternativa viável em cenários de escassez hídrica. (JAREONSIN, et al., 2023). 2 Segundo o estudo de Michelon et al. (2021), a microalga Chlorella spp. possui efeitos antimicrobianos em bactérias patogênicas resistentes à fármacos, dentre elas Staphylococcus hyicus, Enterococcus faecalis e Streptococcus suis. Em outro estudo é evidenciado que extratos de Chlorella vulgaris possui atividade antimicrobiana contra cepas de bactérias e fungo, no qual esses efeitos são atribuídos aos compostos bioativos presentes em sua composição que podem inibir o crescimento de microrganismos patogênicos. No mesmo estudo, também é citada a presença de peptídeos em sua estrutura que atuam como antioxidantes e possuem efeitos inibitórios sobre a replicação de patógenos como HIV-1 e o HSV-1, um vírus altamente contagioso (transmitido por saliva ou lesões), sendo a principal causa do herpes labial e pode estar associado a infecções oculares (SAIDE et al., 2021). A avaliação do desempenho dessa microalga pode abrir novos caminhos para o desenvolvimento de tratamentos que substituam ou complementem o uso de antibióticos, como antissépticos, sanitizantes ou desinfetantes, contribuindo para a redução da resistência bacteriana. Diante dessas características promissoras, este estudo teve como objetivo avaliar o potencial antimicrobiano da microalga Chlorella sp. como uma alternativa sustentável e eficiente, a investigação busca determinar sua eficácia no controle de possíveis infecções ou contaminações bacterianas. 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1. Produção Animal A produção animal tem desempenhado um papel crucial na alimentação humana, fornecendo excelentes fontes de proteínas e nutrientes provenientes de carnes, leite e ovos, além disso as cadeias produtivas contribuem também com a produção de inúmeros 3 subprodutos, como fertilizantes, biogás, couro, lã, ração, diversificando e movimentando a economia mundial (NAYANANJALIE, 2021). Em 2022, a população mundial ultrapassou o marco de 8 bilhões de pessoas, resultando em um aumento significativo na demanda por alimentos, especialmente de origem animal. Devido a isso, a criação de animais, incluindo ruminantes, não ruminantes e a aquacultura, tornou-se ainda mais crucial para o abastecimento alimentar e nutricional, o que é fundamental para promover o crescimento e desenvolvimento saudável da população (UNFPA, 2023). Como consequência, os produtores agropecuários ao redor do mundo foram pressionados à tomarem medidas com rapidez para enfrentar os desafios da produção, além das mudanças climáticas e a disponibilidade de recursos que fazem parte do sistema de produção (KHADE; KHILLARE; DASTAGIRI, 2021). Atualmente, os sistemas extensivos e intensivos de produção buscam elevar as taxas produtivas, visando baixos custos através da utilização sustentável e eficiente dos recursos e de práticas agrícolas modernas (WU; BAZER; LAMB, 2020). Portanto, o aumento populacional junto às técnicas modernizadas fez com que a produção e o consumo mundial de carne (em toneladas) aumentasse proporcionalmente, como a carne bovina que passou de 57.636 milhões em 2020, para 60.354 milhões em 2024. O consumo também cresceu, de 56.048 milhões em 2020, para 58.470 milhões nos respectivos anos. Na produção de suínos, observou-se um total de 96.087 milhões em 2020, aumentando expressivamente para 115.563 milhões em 2024. Em 2020 o consumo mundial de carne suína passou de 95.253 milhões para 114.547 milhões em 2024. No setor avícola, a produção de carne de frango em 2020 foi de 99.656 milhões para um total de 104.151 milhões em 2024. Para o consumo mundial, constatou-se um valor de 97.255 4 milhões de carne, o que aumentou para um total de 101.792 milhões, nos anos de 2020 e 2024, respectivamente (USDA, 2024). Proporcionalmente ao crescimento da produção de carnes, houve um aumento considerável na taxa de lotação dos animais, o que compromete o bem-estar. A alta densidade por área juntamente às mudanças climáticas afetam de forma expressiva a pecuária, leva a exposição dos animais ao estresse térmico, causando prejuízos à saúde, queda no desempenho zootécnico e prejuízos econômicos (KUMAR et al., 2023; MORGADO et al., 2023). 2.2. Saúde animal A saúde animal é de extrema necessidade para garantir um bom bem-estar animal e manter o equilíbrio entre animais, humanos e ambiente. Visando alcançar a saúde plenas dos animais, é importante proporcionar condições de vida que lhes favoreçam, dentre elas, mantê-los livres de fome, sede, dor e desconforto, medo e concedê-los a liberdade de expressar seus comportamentos naturais da espécie (LOTTI; JUNIOR, 2023). Além disso, a boa sanidade está atrelada à sustentabilidade ambiental, que é de suma importância para prevenção e evitar a disseminação de doenças zoonóticas. Dessa forma, ao incorporar práticas sustentáveis nos manejos como utilização eficiente dos resíduos gerados, alteração de formulação de fármacos e produtos antimicrobianos, otimiza do processo, o que reduz problemas ambientais protegendo ecossistemas e contribui a longo prazo às indústrias de fármacos veterinários (SAHA; YARNALL; PALADINI, 2023). A fim de evitar ou reduzir a incidência de doenças nos sistemas produtivos, utilizava-se indiscriminadamente antibióticos como meios profiláticos e promotores de 5 crescimento. Essas práticas na produção mostraram resultados comprovados e significativos para os produtores, o que reduziu perdas e prejuízos econômicos, agregando maior valor ao produto destinado ao consumo humano. Em contrapartida, causou grandes preocupações frente à saúde pública devido a contaminação de alimentos por resíduos de fármacos veterinários e a resistência microbiana (PORTELLA et al., 2023). Frente a esse desafio, houve uma mobilização mundial para minimizar a resistência microbiana, com a necessidade de identificar padrões e tendências de possíveis riscos de disseminação da resistência. No caso do Brasil, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) implementou um Programa de Vigilância e Monitoramento da Resistência aos Antimicrobianos. Esse programa visa desenvolver novas formas de combater a evolução da resistência antimicrobiana e prevenir infecções alimentares provenientes de produtos de origem animal (MAPA, 2022). Visto isso, a procura por produtos alternativos que substituam os antibióticos e que sejam eficazes para o tratamento de infecções, vem se tornando cada vez mais frequente e exigido pelo mercado consumidor. Dentre as alternativas estão as biotecnologias, como aprimoramento de vacinas, ácidos orgânicos, extratos vegetais, probióticos e enzimas exógenas (SHEIDA et al., 2021; SUSANA et al., 2021; MEZALIRA, et al., 2023). 2.3. Biotecnologia A biotecnologia é constituída de práticas tecnológicas que a partir da manipulação, transformação e exploração das relações de microrganismos, plantas, animais e outros 6 organismos, tem-se melhor compreensão do funcionamento e suas aplicações práticas, trazendo otimização e sustentabilidade (BAZÁN BARBA; DOS SANTOS, 2020). Cada vez mais novas biotecnologias têm sido aplicadas na produção animal, a fim de minimizar os desafios frente a demanda crescente por alimentos de origem animal. Ao se deparar com as adversidades na produção, dentre elas a resistência bacteriana resultante da utilização de antibióticos, o mercado consumidor tem pressionado os sistemas produtivos na incorporação de formas alternativas e sustentáveis que resultem em melhores desempenhos zootécnicos sem comprometer a qualidade final dos alimentos e retardar a resistência microbiana (BHOGOJU; NAHASHON, 2022). Sendo assim, a indústria passou a utilizar microrganismos que atuam como biofábricas, como por exemplo os fungos, as bactérias e as microalgas que, além de ser uma fonte de proteína celular, dispõem de inúmeros nutrientes como vitaminas do complexo B, C e E, aminoácidos, hidratos de carbono, β-caroteno, ácido fólico, ácido pantotênico, entre outros, apresentando assim potencial excelente para atuarem como fármacos (BRATOSIN; DARJAN; VODNAR, 2021). 2.4. Microalgas As microalgas são microrganismos eucariontes, fotoautotróficos, ou seja, são capazes de produzir sua própria energia, além de utilizarem o CO2 para biofixação para a fotossítese, o que é possível devido ao conteúdo pigmentar de clorofilas presentes nas células. Em alguns casos dependendo da disponibilidade de luz e CO2, algumas espécies de algas podem ter o comportamento autotrófico, que produzem sua própria energia ou heterotrófico, que não produzem sua própria energia. Esses organismos são encontrados 7 em locais úmidos/aquáticos como oceanos, águas salobras, água doce, lagos, rios entre outros (SOARES, 2021). As microalgas utilizam a energia luminosa, nutrientes inorgânicos, CO2 e água para produzir O2. Dentre suas finalidades, a capacidade das microalgas permite a remoção de materiais com potenciais poluentes como resíduos tóxicos e metais pesados de águas residuais de indústrias de destilaria, domésticas ou laticínios. A aplicação desses organismos no processo de tratamento de águas residuais é muito benéfica, já que tem um impacto ambiental reduzido (PEREIRA, 2021). Além do que foi citado, de acordo com Chen e Xu, (2021), a capacidade de mitigação do CO2 de algumas espécies de microalgas pode variar de 6% a 20%. Essa variação se dá pela porcentagem de saturação de dióxido de carbono no ar, que quando acima de 20% torna o ambiente fortemente ácido, o que ocasiona a degradação da clorofila, impedindo sua atividade e multiplicação. Por outro lado, quando em condições favoráveis para seu desenvolvimento, sintetizam uma biomassa rica em compostos de grande valor nutricional, como demonstrado na Figura 1 (CHEN; XU, 2021; FERNANDES; CORDEIRO, 2021). Figura 1. Potencial de uma microalga como biofábrica. Carboidratos (C), Proteínas/enzimas (P/E), Lipídeos (L), Vitaminas (V), Pigmentos (Pig). Fonte: FERNANDES; CORDEIRO, 2021. 8 Frente a isso, sua aplicação na nutrição animal tem sido mais frequente, dispondo de excelentes nutrientes como ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa, ômegas-3 e 6, proteínas, aminoácidos, vitaminas e pigmentos que atuam como substâncias antioxidantes. Sua utilização como suplemento na dieta de animais proporciona a produção de ácidos graxos, que estimula o desenvolvimento das vilosidades intestinais, aumentando absorção. Ainda, é uma proteína microbiana de ótima digestibilidade, que reflete na melhora do peso corporal, redução do consumo de ração e melhor eficiência alimentar (KUSMAYADI et al., 2021). 2.4.1. Chlorella Pertencente à família Chlorellaceae, do gênero Chlorella, estas microalgas são eucarióticas, de água doce, que possuem um crescimento autotrófico quando em contato com a luz, ou heterotrófico. Segundo Malhão (2021), sua composição é dependente de condições ambientais e genéticas, contudo, as espécies desse gênero oferecem cerca de 51% a 58% de proteína, de 12% a 17% de hidratos de carbono e de 14% a 22% de lipídios na matéria seca. Devido a sua alta composição proteica a microalga Chlorella pode ser implementada na alimentação de animais ruminantes e não ruminantes como fonte proteica têm influenciado no bom desempenho de animais, trazendo resultados como o aumento da quantidade e qualidade de ovos e no fortalecimento da imunidade de frangos (MALHÃO, 2021). Entretanto, muitos estudos demonstram a importância do seu potencial antimicrobiano, como no trabalho de Gupta et al., (2021), que utilizou o método de difusão em disco de Kirby-Bauer, avaliando a formação e o diâmetro do halo de inibição do crescimento bacteriano, cujo diâmetro é inversamente proporcional à concentração 9 inibitória mínima (MIC). O estudo revelou que a fração de carbonotetrachloreto (CCl4) da Chlorella sp. PR-1 apresentou atividade bactericida para o patógeno testado, no caso Salmonella Typhimurium com um diâmetro de inibição de >10mm (GUPTA et al., 2021). Em outro estudo, observou-se que a produção de nanopartículas de óxido de zinco (ZnONPs) sintetizadas a partir da biomassa de Chlorella vulgaris, mostraram efeito antibacteriano significativo para Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) e Enterococcus resistente à vancomicina (VRE) nas concentrações de 400 e 625 μg/mL, respectivamente (MOROWVAT et al., 2023). De acordo com Hussein et al.,(2020), foi demonstrado o potencial antimicrobiano da microalga Chlorella sp. em sinergia com nanopartículas de prata (AgNPs) por meio do método de difusão em ágar, avaliando a formação de zonas de inibição ao redor do composto testado. O extrato de Chlorella e nanopartículas foi aplicado para quatro patógenos diferentes, dentre eles Bacillus subtilis, Strepcoccus uberis, Klebsiella pneumoniae e Samonella sp., onde estes apresentaram zonas de inibição de 19mm, 19mm, 23mm e 18mm, respectivamente. A partir disso, é evidente o potencial antimicrobiano da microalga Chlorella, devido à presença de compostos bioativos em sua composição que lhe conferem propriedades sanitizantes, desinfetantes e antissépticas, tornando-a eficaz contra microrganismos patogênicos, incluindo bactérias resistentes. Sua ação antimicrobiana vem sendo explorada cada vez mais para trazer alternativas naturais e sustentáveis para o desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos. 10 2.5.Resistência bacteriana É importante ressaltar que os padrões de resistência variam geograficamente, além dos diferentes tipos de sistemas de produção animal, como também a exposição prévia dos animais e humanos aos antimicrobianos. Diante desse cenário, é fundamental manter uma vigilância contínua, promover o uso racional de antibióticos e adotar estratégias eficazes de controle de infecções, a fim de retardar o avanço da resistência e preservar a eficácia terapêutica dos antimicrobianos ainda disponíveis. A seguir serão descritos os perfis de resistência das cepas testadas no presente estudo. 2.5.1. Bacillus cereus O B. cereus apresenta alta resistência a antibióticos β-lactâmicos (como penicilina e ampicilina) e ao trimetoprima-sulfametoxazol. Em contrapartida, mostra boa sensibilidade a aminoglicosídeos (gentamicina, canamicina), glicopeptídeos (vancomicina), tetraciclinas, cloranfenicol, ciprofloxacino e carbapenêmicos (imipenem, meropenem), também apresenta resistência intermediária a eritromicina e clindamicina. Isolados multirresistentes são frequentes, com coeficientes de correlação de Pearson (r=1, correlação positiva perfeita) para todos os genes, com presença de enzimas resistentes a betalactamases, a bla1AMX, PEN e AMC, bla2 CTX, CAZ, tetA-DOX e ermA-E. (FARINA et al., 2024; MOHAMMADI et al., 2023; NAVANEENTHAN e EFFARIZAH, 2021). 2.5.2. Escherichia coli A E. coli apresenta alta resistência a antibióticos tradicionais como ampicilina, tetraciclinas, fluoroquinolonas e sulfonamidas, no entanto, possui sensibilidade a 11 carbapenêmicos (como imipenem e meropenem), amicacina e cloranfenicol. Genes como blaTEM, blaCTX-M, tetA, gyrA e ermB são comuns nos isolados resistentes, facilitando a disseminação da resistência (ADJEI et al., 2025; HARDIATI et al., 2021; SABENÇA et al., 2024). 2.5.3. Salmonella Dublin A Salmonella Dublin apresenta um padrão preocupante de resistência a múltiplas classes de antibióticos, sendo altamente resistente a sulfonamidas, tetraciclinas, aminoglicosídeos, beta-lactâmicos e fenicóis e há tendências crescentes de resistência a quinolonas. Por outro lado, os isolados permanecem suscetíveis a azitromicina e meropenem. A maioria das cepas é multirresistente, com perfis associados a genes como sul2, tetA, aph, floR e blaCMY-2 (CASAUX et al., 2023; PEREIRA et al., 2023; SREDNIK et al., 2021). 2.5.4. Staphlococcus aureus O S. aureus apresenta resistência significativa a diversos antibióticos, especialmente aos da classe dos beta-lactâmicos, como penicilina, amoxicilina, oxacilina e cefalosporinas, tendo uma resistência moderada a aminoglicosídeos, macrolídeos, tetraciclinas, fluoroquinolonas, cloranfenicol e rifampicina. As cepas multirresistentes, como o MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), são comuns e ainda causam muitas preocupações (BUJNÁKOVÁ e KARAHUTOVÁ, 2024; CHAI et al.,2022; EZEH et al., 2023; LECLERC et al.,2023). 12 2.5.5. Streptococcus agalactiae Streptococcus agalactiae apresenta alta sensibilidade a antibióticos beta- lactâmicos (penicilina, ampicilina, cefalosporinas), vancomicina e linezolida, no entanto, mostram resistência elevada a tetraciclinas, e resistência crescente a macrolídeos (como eritromicina), lincosamidas (clindamicina) e quinolonas. A presença de genes de resistência como tetM, tetO, ermB e linB contribui para esse cenário que dificulta o tratamento completo em algumas infecções, especialmente em biofilmes. O uso de beta- lactâmicos segue como a principal opção terapêutica, mas o monitoramento contínuo é essencial (HSU et al., 2025). 2.6. Extratos com ação antimicrobiana Com a crescente resistência bacteriana aos antimicrobianos tradicionais, vem sendo testadas e descobertas novas alternativas terapêuticas eficientes, incluindo o uso de extratos naturais provenientes de fontes não vegetais, como animais e microrganismos. Esses extratos bioquímicos apresentam potenciais significativos como agentes antimicrobianos, oferecendo mecanismos de ação diferenciados que podem interferir e dificultar o avanço da resistência microbiana. Extratos de origem animal, especialmente os peptídeos antimicrobianos (AMPs), são compostos encontrados em diversos organismos e demonstram eficácia contra uma ampla gama de patógenos, incluindo bactérias, fungos e vírus. Sua principal forma de atuação é a desestabilização da membrana celular dos microrganismos, levando à sua desintegração (CHEN et al., 2023). Já os extratos microbianos, produzidos por bactérias, fungos e até mesmo microalgas, são ricos em metabólitos secundários com potente atividade antimicrobiana. 13 Esses extratos apresentam diversas vantagens, como boa biocompatibilidade, menor toxicidade em relação a antimicrobianos sintéticos e uma diversidade de mecanismos de ação, como a inibição da síntese proteica, do DNA ou da parede celular. Os extratos de origem animal e microbiana representam uma alternativa promissora no enfrentamento da resistência antimicrobiana, sendo necessário maiores investimentos em métodos mais eficientes de extração e caracterização poderão ampliar seu uso, tanto na área da saúde quanto na indústria (GONZÁLEZ-PASTOR et al.,2023). 3. OBJETIVOS 3.1. Objetivo Geral Avaliar a capacidade antimicrobiana de extrato e cultura da microalga Chlorella sorokiniana para possível uso como sanitizante, antisséptico ou desinfetante na produção animal. 3.2.Objetivos Específicos • Determinar a Concentração Inibitória Mínima de extrato e cultura de Chlorella sp. frente às espécies Escherichia coli, Bacillus cereus, Salmonella Dublin, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae; • Determinar a capacidade Concentração Bactericida Mínima da Chlorella sp. frente às espécies Escherichia coli, Bacillus cereus, Salmonella Dublin, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae; • Comparar os gêneros bacterianos selecionados mais susceptíveis à Chlorella sorokiniana em relação a atividade antimicrobiana. 14 4. MATERIAL E MÉTODOS 4.1. Produtos Testados A cultura da microalga Chlorella sorokiniana foi cultivada em meio BG-11, um meio de cultura universalmente utilizado para o cultivo e manutenção de algas azuis estéril, (autoclavado a 120 °C, 1 atm), em sala climatizada a 24 ± 1,5 °C, com fotoperíodo controlado de 12 horas de luz e 12 horas de escuro, sob irradiância de 150 µmol fótons m⁻² s⁻¹. O cultivo foi conduzido em frascos de borossilicato tipo Schott, com capacidade total de 1 L e volume de trabalho de 500 mL, sendo mantido sob agitação contínua por meio da injeção de ar comprimido filtrado (0,2 µm). O produto aquoso de cultura da microalga foi preparado e recebido na concentração de 107 células. O extrato foi preparado a partir do cultivo da microalga C. sorokiniana. Inicialmente, foi realizad a centrifugação de 50 mL da cultura, até que a cultura atingisse sua fase exponencial de crescimento, a 4500 rpm por 10 minutos. O pellet obtido foi então submetido por 30 minutos ao tratamento de ultrassom ou ultrassonicação, que emite ondas ultrassônicas de alta frequência que provocam o cisalhamento e choques mecânicos (por meio de microbolhas no meio líquido), capazes de romper a parede celular, promovendo a extração eficiente dos metabólitos bioativos para extração dos compostos celulares. O produto de extrato aquoso de microalga foi preparado e recebido na concentração de 107 células. 4.2. Padronização das cepas avaliadas Os testes de avaliação da atividade antimicrobiana foram realizados utilizando cepas padrão de Escherichia coli, Bacillus cereus, Salmonella Dublin, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae. As amostras estocadas em ultra-freezer a -80 ºC e 15 serão recuperadas, inicialmente, em caldo Brain Heart Infusion (BHI, Kasvi®) e incubadas a 37 ± 2 ºC por 24 horas. Posteriormente, os inóculos serão semeados em placas de Petri contendo ágar Brain Heart Infusion (BHI, Kasvi®) e novamente incubados a 37 ± 2 ºC por 24 horas. Posteriormente, após o crescimento das colônias isoladas foram selecionadas com alça de inoculação estéril e suspendidas em solução salina estéril (NaCl 0,9%), até obtenção de uma suspensão homogênea e aferindo a densidade celular por espectrofotometria por meio da cubeta. A solução salina estéril foi utilizada como branco, em seguida, a suspensão bacteriana foi padronizada para uma absorbância entre 0,08 a 0,12 correspondente aproximadamente a 1 × 10⁸ UFC/mL, segundo McFarland 0,5. Foram realizados ajustes de diluição com solução salina estéril ou concentração da suspensão adicionando mais colônias da cepa testada, até atingir o valor desejado de absorbância. Após a padronização, as suspensões foram utilizadas imediatamente para os ensaios de atividade antimicrobiana. 4.3. Ensaios de Atividade Antimicrobiana Os ensaios para avaliação da atividade antimicrobiana foram realizados seguindo os padrões estabelecidos pelos guias do Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI, 2023a; 2023b). 4.3.1. Teste de Concentração Inibitória Mínima (CIM) Os produtos de cultura e extrato testados da microalga estavam na concentração de 10⁷ células/mL. O teste de susceptibilidade ao antimicrobiano foi realizado pela técnica de CIM. Os isolados testados foram recuperados em caldo BHI a 37 +/- 2°C por 18 horas 16 antes do teste. Foram distribuídos 50 µL de caldo Mueller Hinton cátion ajustado (concentração dupla) em todos os poços das 10 primeiras colunas da microplaca de 96 poços. A 11ª e 12ª colunas foram consideradas controle negativo e positivo, respectivamente, sendo a primeira contendo apenas caldo Mueller Hinton e a segunda, caldo Mueller Hinton e inóculo. Posteriormente, 100 µL da espécie de microalga foi adicionado à coluna 1, depois homogeneizado, e a mesma quantidade foi alíquotada e transferida para a coluna 2 e, assim sucessivamente, até a coluna 10, obtendo-se então diferentes concentrações da microalga Chlorella sorokiniana, por diluição dupla seriada. Em seguida, foi adicionada uma alíquota de 100 µL do inóculo de cada estirpe, de modo que o inóculo final fosse aproximadamente 5 × 10⁵ UFC/mL, e a placa foi incubada de acordo com o metabolismo de cada cepa avaliada (BrCAST, 2019). A Concentração Inibitória Mínima (CIM) foi definida como a menor concentração de Chlorella sorokiniana capaz de impedir o crescimento microbiano e foi determinada por leitura visual. 4.3.2. Teste de Concentração Bactericida Mínima (CBM) Para a técnica de CBM, após a determinação da CIM, aos ensaios que não foram notados crescimento bacteriano visível, através de semeadura por esgotamento, com auxílio de alças de inoculação 1µL em placas de ágar BHI e incubadas a 37ºC por 24 horas. A Concentração Bactericida Mínima (CBM) também foi definida como a menor concentração de microalgas capaz de impedir o crescimento bacteriano nas placas após o período de incubação. 17 4.4. Coloração de Gram Após o ensaio de CBM das cepas testadas realizou-se a coloração de Gram para os inóculos, para cultura e extrato. Em fluxo laminar, pegou-se uma pequena quantidade de cada colônia diluída em uma gota de água destilada sobre uma lâmina de vidro, formando um esfregaço fino. Após a secagem ao ar, as lâminas foram fixadas por calor, passando-as brevemente sobre a chama do bico de Bunsen. Em seguida, iniciou-se o processo de coloração de Gram: as lâminas foram coradas com cristal violeta por um minuto, lavadas com água, e tratadas com solução de Lugol por mais um minuto. Após nova lavagem, realizou-se a descoloração com álcool etílico a 95% por aproximadamente 15 segundos, seguida por lavagem imediata. Posteriormente, aplicou-se a safranina por 30 segundo como corante de contraste, e as lâminas foram lavadas e seca ao ar. As amostras foram analisadas ao microscópio óptico utilizando objetiva de imersão (100x). 4.5. MaldiTof As colônias obtidas a partir da observação dos testes de Concentração Bactericida Mínima (CBM) para cultura e extrato, foram posteriormente isoladas em ágar BHI e repicadas em caldo BHI suplementado com glicerol a 30% (1:1, v/v) e armazenadas a −80 °C até o momento da análise. Posteriormente, antes de iniciar a análise, as amostras foram reativadas em caldo BHI e incubadas a 37 °C de 18 à 24 horas. A identificação bacteriana foi realizada por espectrometria de massas com ionização por dessorção a laser assistida por matriz e tempo de voo (MALDI-TOF MS). A preparação das amostras, a aquisição dos dados e a análise foram conduzidas conforme descrito por Freiwald & Sauer (2009). Utilizou-se o espectrômetro Autoflex III Smartbeam (Bruker Daltonics), com o software MALDI Biotyper 3.1 para interpretação dos espectros de massa obtidos. Foram 18 aplicados os critérios de interpretação padrão estabelecidos pela Bruker: escores ≥ 2,0 indicaram identificação de alta confiabilidade; entre 1,7 e 1,99, identificação com confiabilidade moderada; e escores < 1,7 foram considerados inconclusivos, sendo os respectivos isolados excluídos da análise. 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO Após a aplicação da metodologia, pode-se observar a ausência de efeito antimicrobiano em todas as concentrações no CIM, tanto para a cultura quanto para o extrato de microalgas, nas cinco bactérias testadas, como visto nas imagens 1, 2, 3 para o produto de cultura e imagens 4, 5 e 6 para o produto de extrato de C. sorokiniana. Imagem 1. CIM – produto de cultura de C. sorokiniana, para Staphylococcus aureus e Escherichia coli. 19 Imagem 2. CIM – produto de cultura de C. sorokiniana, para Salmonella Dublin e Streptococcus agalactiae. Imagem 3. CIM – produto de cultura de C. sorokiniana, para Bacillus cereus. 20 Imagem 4. CIM – produto de extrato de C. sorokiniana, para Staphylococcus aureus e Escherichia coli. Imagem 5. CIM – produto de extrato de C. sorokiniana, para Salmonella Dublin e Streptococcus agalactiae. Imagem 6. CIM – produto de extrato de C. sorokiniana, para Bacillus cereus. . 21 Mesmo com os ensaios de CIM sem demonstrarem efeitos antimicrobianos, foi realizado CMB. Prosseguindo com a metodologia de CBM, em ambos os tratamentos (cultura e extrato) foram observados o crescimento de diferentes colônias, visto nas imagens 7, 8, 9 e 10 para o tratamento de cultura e imagens 11, 12, 13, 14 e 15 para o tratamento de extrato. Imagem 7. CBM – inóculo de cultura para S. aureus e E. coli. Imagem 8. CBM – inóculo de cultura para S. Dublin. Imagem 9. CBM – inóculo de cultura para S. agalactiae. Imagem 10. CBM – inóculo de cultura para B. cereus 22 Imagem 13. CBM – inóculo de extrato para S. Dublin Imagem 14. CBM – inóculo de extrato para S. agalactiae. Imagem 11. CBM – inóculo de extrato para S. aureus. Imagem 12. CBM – inóculo de extrato para E. coli. Imagem 15. CBM – inóculo de extrato para B. cereus. 23 Com base no CBM, foi realizada a investigação da possível fonte de contaminação dos produtos, como também a bactéria contaminante, sendo que desde o recebimento das amostras, toda a manipulação dos produtos de cultura e extrato durante as análises foi realizada em condições assépticas. Procedeu-se com colorações de Gram, dos CIM’s de cultura e extrato, das cinco bactérias testadas e foi possível a identificação de bastonetes em ambos os tratamentos como observado nas imagens 16, 17, 18, 19 e 20 para cultura e para extrato não foi diferente, sendo possível observar uma semelhança do contaminante, como visto nas imagens 21, 22, 23, 24 e 25, em todas as lâminas. Imagem 16. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de cultura: 1 – Staphylococcus aureus e 2 – Bactéria contaminante. 24 Imagem 17. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de cultura: 1 – Escherichia coli e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 18. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de cultura: 1 – Salmonella Dublin e 2 – Bactéria contaminante. 25 Imagem 19. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de cultura: 1 – Streptococcus agalactiae e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 20. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de cultura: 1 – Bacillus cereus e 2 – Bactéria contaminante. 26 Imagem 21. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de extrato: 1 – S. aureus e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 22. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de extrato: 1 – E. coli e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 23. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de extrato: 1 – S. Dublin e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 24. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de extrato: 1 – S. agalactiae e 2 – Bactéria contaminante. Imagem 25. Coloração de Gram do CIM para o tratamento de extrato: 1 – B. cereus e 2 – Bactéria contaminante. 27 De acordo com o trabalho de Shaima et al. (2022), as microalgas Chlorella sorokiniana (UKM2), Clhorella sp. (UKM8) e Scenedesmus sp. (UKM9), apresentaram atividade antimicrobiana contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, dentre elas: Staphylococcus aureus, S. epidermidis, Bacillus subtilis, B. cereus, B. thuringiensis e Pseudomonas aeruginosa, Shigella sonnei, Klebsiella pneumoniae, Escherichia coli, respectivamente. Como metodologia, foram utilizados ensaios antimicrobianos de difusão em disco e CIM e como extrato foram utilizados extratos metanólicos para Chlorella sp. e C. sorokiniana, sendo que a primeira demonstrou maior efeito bacteriostático, com atividade mais significativa para todas as bactérias testadas e a segunda apresentou atividade antimicrobiana limitada, com efeito somente para E. coli. No estudo de Shaima et al., (2022) utilizaram o ensaio antimicrobiano CIM e aplicaram o extrato metanólico de C. sorokiniana nos ensaios antimicrobianos. Já no presente estudo, tendo em comum a metodologia de CIM, foi utilizado extrato aquoso para cultivo e preparo dos produtos, fato este que pode ter influenciado a ausência de resultados significativos frente as cepas testadas. Em outro estudo, dentre as microalgas abordadas no trabalho, foram testados 5 tipos de extratos distintos (hexano, clorofórmio, etanol, metanol, água e frações desses solventes) para a Chlorella sp. FN1, no qual a mesma não apresentou efeito significativo para a metodologia de difusão em disco e spot-on-lawn um teste que visa avaliar a atividade antimicrobiana de substâncias, no qual o método consiste em espalhar uma suspensão bacteriana sobre uma placa com ágar, (tapete bacteriano uniforme) aplicando pequenas gotas da substância a ser testada são aplicadas diretamente sobre essa superfície ou furando ágar, para observar se a formação ou não de halos, o que indica que a substância testada possui ou não atividade antimicrobiana contra o microrganismo 28 inoculado. Contudo, apresentou atividade bacteriostática no CIM na concentração de 1mg/ml para as bactérias S. aureus, Listeria monocytogenes, Pseudomonas sp. e E. coli, (ALSENANI et al., 2020). Recordando de que no presente estudo foi utilizado extrato aquoso, no trabalho de Alsenani et al., (2020), foi utilizado o ensaio antimicrobiano através de CIM, porém, o trabalho trouxe 5 tipos de extratos diferentes para ensaio, o que pode ter influenciado nos resultados significativos de atividade bacteriostática para as bactérias testadas. O trabalho de Ustinskaya et al. (2024), mostrou que o extrato de C. sorokiniana, na presença de luz, apresentou afeito bacteriostático em bactérias Gram-positivas principalmente do gênero Bacillus, para o extrato de éter de petróleo, utilizou metodologias de ensaios de difusão em disco, com uma zona de inibição de 6,3mm até 10mm com o extrato total. Como citado no presente estudo, foram utilizados extratos aquosos para o preparo dos produtos, diferente de Ustinskaya et al. (2024), que utilizaram éter de petróleo, além do diferente ensaio antimicrobiano retratado, sendo uma justificativa plausível para a obtenção do efeito bacteriostático da microalga C. sorokiniana. Outros estudos utilizaram diferentes metodologias para avaliação da atividade antimicrobiana, como difusão em disco, microdiluição em caldo (CIM e CBM) e difusão em ágar, empregando distintos tipos de extratos de Chlorella sorokiniana. Entre os extratos utilizados, destacam-se: extrato aquoso celular aplicado na síntese verde de nanopartículas de prata, extrato metanólico bruto da biomassa e extrato da fração lipofílica. As bactérias que apresentaram sensibilidade aos extratos foram Staphylococcus aureus (ATCC 25923), Escherichia coli, Bacillus subtilis e Bacillus megaterium. No caso do extrato aquoso, observaram-se zonas de inibição de 20 mm para E. coli e 15 mm para 29 S. aureus, caracterizando efeito bactericida. O extrato metanólico apresentou zona de inibição de 21 mm sobre S. aureus, com CIM de 0,31 mg/mL e CBM de 2,5 mg/mL. Já o extrato da fração lipofílica demonstrou CIM variável, com destaque para B. subtilis (até 5,67 µg/mL), além de apresentar melhor inibição contra E. coli, com ação antimicrobiana predominantemente bacteriostática (LIO et al., 2025; LLOYD et al, 2023; KUMAR e BHARADVAJA, 2022). De acordo com os resultados da literatura, extratos metanólicos, frações lipídicas e extratos aquosos celulares utilizados em associação com a síntese de nanopartículas de prata apresentaram efeitos antimicrobianos significativos. No entanto, presente estudo, embora tenha sido utilizado o mesmo tipo de extrato (extrato aquoso) e o ensaio antimicrobiano CIM, não foram observados resultados expressivos. É importante ressaltar, que o pequeno diferencial do extrato aquoso apresentado no trabalho de Kumar e Bharadvaja, (2022), está associado à produção de nanopartículas de prata, o que pode ter potencializado a ação antimicrobiana e influenciado para resultados significativos. Foi possível observar que com os diferentes tipos de extratos e metodologias apresentados na literatura, esses obtiveram resultados expressivos com ação antimicrobiana da C. sorokiniana, diferente do presente estudo que foi identificada uma contaminação dos produtos testados, o que pode ter interferido negativamente nos resultados, justificando a ausência de efeito antimicrobiano da C. sorokiniana. Em continuidade à investigação da bactéria contaminante, esta foi isolada a partir das amostras que apresentaram crescimento no ensaio de CBM, procedendo à identificação da cepa utilizando a técnica de espectrometria de massas por MALDI-TOF (Matrix-Assisted Laser Desorption/Ionization – Time of Flight). O resultado da análise confirmou a presença da bactéria Pseudomonas oleovorans tanto nas amostras do extrato quanto da cultura de microalgas. 30 A identificação dessa espécie como contaminante é relevante, pois P. oleovorans é uma bactéria oportunista conhecida por sua resistência natural a diversos compostos antimicrobianos e por sua capacidade de sobreviver em ambientes com compostos orgânicos complexos (LEWANDOWSKA et al., 2025). Como visto nos resultados apresentados da literatura (Tabela 1), há estudos que mostram que Pseudomonas orfamida, P. aeruginosa e Pseudomonas sp., perturbam a homeostase do cálcio em microalgas, como Chlamydonomas reinhardtii, inibindo o crescimento, assim como P. aeruginosa libera compostos de baixo peso molecular, como pigmentos de fenazina que demonstram inibir microalgas verdes e cianobactérias (DAKHAMA et al., 1993). Em outro trabalho a Pseudomonas sp. foi capaz de alterar a morfologia das células de microalgas, devido aos efeitos de rizoxina S2 entre outros metabólitos (AIYAR et al. 2017; ROSE et al. 2021). Mesmo com diversos efeitos significativos da utilização da microalga C. sorokiniana, com os possíveis efeitos das bactérias do gênero Pseudmonas spp. que foram apresentados, pode-se inferir que a P. oleovorans contaminante encontrada no presente estudo pode ter desempenhado os mesmos mecanismos maléficos sobre as microalgas, competindo por metabólitos, consumindo ou degradando possíveis compostos bioativos presentes na biomassa, o que possivelmente pode ter mascarado ou neutralizado o potencial antimicrobiano real das amostras de extrato e cultura de C. sorokiniana. Portanto, a presença dessa contaminação pode ter sido um fator determinante para os resultados negativos observados nos ensaios de CIM, uma vez que os compostos antimicrobianos possivelmente produzidos pelas microalgas poderiam ter sido degradados ou inibidos pela ação da bactéria contaminante, o que justifica a ausência de inibição frente às cinco cepas bacterianas testadas e reforça a importância do controle 31 microbiológico rigoroso durante o cultivo/produção, manipulação e armazenamento dos produtos para garantir a fidelidade dos resultados obtidos. Foi concluído que houve contaminação cruzada no preparo para o envio das amostras ao laboratório. 32 Tabela 1. Tabela Comparativa — Estudos com Chlorella sorokiniana e Chlorella sp. Autor / Ano Microalga Bactérias Testadas Tipo de Extrato Utilizado Efeito Antimicrobiano Shaima et al. (2022) Chlorella sorokiniana (UKM2), Chlorella sp. (UKM8) S. aureus, S. epidermidis, B. subtilis, B. cereus, B. thuringiensis, E. coli, P. aeruginosa, K. pneumoniae, S. sonnei Extrato metanólico (biomassa em metanol) Bacteriostático (dependendo da cepa e concentração) Alsenani et al. (2020) Chlorella sp. (FN1) S. aureus, L. monocytogenes, E. coli, Pseudomonas sp. Extrato hexano, clorofórmio, etanol, metanol, água e frações desses solventes Bacteriostático (mais efetivo contra Gram- positivos) Ustinskaya et al. (2024) Chlorella sorokiniana Cultura mista de Gram-positivos ambientais, predominância de Bacillus spp. Extrato lipídico apolar com éter de petróleo Bacteriotático dependente de luz (fotoativado) Kumar & Bharadvaja (2022) Chlorella sorokiniana E. coli e S. aureus Extrato aquoso da biomassa (usado para síntese de nanopartículas de prata) Bactericida (atividade das SNPs biossintetizadas) Lloyd et al. (2023) Chlorella sorokiniana S. aureus ATCC 25923 e 3 cepas clínicas de MRSA Extrato metanólico bruto (CSME) Bactericida (com MIC de 0,31 mg/mL e MBC de 2,5 mg/mL) Lio et al. (2025) Chlorella sorokiniana E. coli, B. subtilis, B. megaterium Fração lipofílica extraída com carbonato de dimetila (DMC) Bacteriostático predominante (com MIC variável até 5,67 µg/mL) 33 6. CONCLUSÕES A partir dos resultados obtidos, são necessários estudos complementares para reforçar e comprovar o efeito antimicrobiano da microalga Chlorella sorokiniana, testando de forma mais ampla os tipos de extratos utilizados e realizar comparações para diferentes concentrações, considerando que todos esses fatores podem influenciar no efeito da microalga sobre os microrganismos patogênicos. 7. RESUMO Com o aumento da população mundial, a demanda por alimentos de origem animal, fez com que aumentasse a frequência da utilização de antimicrobianos como promotores de crescimento na produção. Contudo, a utilização destes fármacos acabou agravando a problemática da resistência bacteriana, o que torna o tratamento de infecções muito mais difícil. Frente a essa questão, o setor agropecuário necessita de novas alternativas, como produtos biotecnológicos, que tenham potencial de ação antimicrobiana. Dentre essas ferramentas biotecnológicas, o uso de microalgas entra exercendo um papel fundamental como agentes que impedem o avanço da resistência bacteriana e consequentemente das infecções e/ou contaminações bacterianas, sendo um composto sustentável e de fácil produção. Baseado nisso, o presente estudo tem como objetivo avaliar a microalga Chlorella sp. como um potencial agente antimicrobiano para uso em sistemas produtivos. Para a condução deste, foram realizados ensaios de mensuração de atividade antimicrobiana, através de teste de Concentração Inibitória Mínima (CIM), Concentração Bactericida Mínima (CBM). Estes ensaios foram realizados em cinco estirpes de microrganismos de importância na saúde animal, sendo eles Escherichia coli, Bacillus cereus, Salmonella Dublin, Staphylococcus aureus e 34 Streptococcus agalactie. Os resultados deste estudo indicaram ausência de efeito antimicrobiano para cultura e extrato de Chlorella sorokiniana e no ensaio de CBM, com o crescimento de colônias morfologicamente distintas, foi observada a contaminação dos produtos. Dessa forma, são necessários estudos complementares com diferentes extratos, concentrações para melhor avaliar o potencial antimicrobiano da microalga. Palavras-chave: Antibióticos, Microalga, Resistência bacteriana. 8. SUMMARY With the increase in the world population, the demand for animal-based foods has led to an increase in the use of antimicrobials as growth promoters in production. However, the use of these drugs has exacerbated the problem of bacterial resistance, making the treatment of infections much more difficult. Faced with this issue, the agricultural sector needs new alternatives, such as biotechnological products with antimicrobial potential. Among these biotechnological tools, microalgae play a fundamental role as agents that prevent the advancement of bacterial resistance and, consequently, bacterial infections and/or contamination, being a sustainable and easy-to-produce compound. Based on this, the present study aims to evaluate the microalgae Chlorella sp. as a potential antimicrobial agent for use in production systems. To conduct this study, tests were carried out to measure antimicrobial activity through Minimum Inhibitory Concentration (MIC) and Minimum Bactericidal Concentration (MBC) tests. These tests were performed on five strains of microorganisms of importance in animal health, namely Escherichia coli, Bacillus cereus, Salmonella Dublin, Staphylococcus aureus, and Streptococcus agalactie. The results of this study indicated no antimicrobial effect for Chlorella sorokiniana culture and extract, and in the CBM assay, with the growth of 35 morphologically distinct colonies, contamination of the products was observed. Thus, further studies with different extracts and concentrations are needed to better assess the antimicrobial potential of microalgae. Keywords: Antibiotics, Microalgae, Bacterial resistance. 36 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADJEI, D., Mughogho, T., Michael, O., Saidu, S., Amegatcher, G., & Forson, A. (2025). Characterization of the Phenotypic and Genotypic Antibiotic Resistance Markers in Escherichia coli (E. coli) Associated With Diabetes and Nondiabetic Patients. International Journal of Microbiology, 2025. https://doi.org/10.1155/ijm/3694023. AIYAR, Prasad et al. Antagonistic bacteria disrupt calcium homeostasis and immobilize algal cells. Nature Communications, v. 8, n. 1, p. 1756, 2017. ALSENANI, F. et al. 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