UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “Julio de Mesquita Filho” Instituto de Artes – Campus São Paulo CAMILA SERINO LIA CONSTELAÇÃO DE FAZERES ARTÍSTICOS DE EDUCADORAS E EDUCADORES NO CAMPO DA MEDIAÇÃO CULTURAL São Paulo 2023 CAMILA SERINO LIA CONSTELAÇÃO DE FAZERES ARTÍSTICOS DE EDUCADORAS E EDUCADORES NO CAMPO DA MEDIAÇÃO CULTURAL Tese de doutoramento apresentada ao Programa de Pós-graduação em Artes, com área de concentração em Arte e Educação do Instituto de Artes Universidade Estadual Paulista (Unesp), como requisito parcial para obtenção do título de doutora em Artes. Linha de pesquisa: processos artísticos, experiências educacionais e mediação cultural Orientadora Profa. Dra.: Rejane Galvão Coutinho São Paulo 2023 Ficha catalográfica desenvolvida pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Artes da Unesp. Dados fornecidos pelo autor. L693c Lia, Camila Serino, 1972– Constelação de fazeres artísticos de educadoras e educadores no campo da mediação cultural / Camila Serino Lia. – São Paulo, 2023. 219 f.: il. color. Orientadora: Profa. Dra. Rejane Galvão Coutinho Tese (Doutorado em Artes) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Instituto de Artes 1. Arte e educação. 2. Professores – Formação. 3. Mediação cultural. 4. Criação (literária, artística etc.). I. Coutinho, Rejane Galvão. II. Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes. III. Título. CDD 701.15 Bibliotecária responsável: Laura M. de Andrade – CRB/8 8666 CAMILA SERINO LIA CONSTELAÇÃO DE FAZERES ARTÍSTICOS DE EDUCADORAS E EDUCADORES NO CAMPO DA MEDIAÇÃO CULTURAL Tese de doutoramento apresentada ao Programa de Pós- graduação em Artes, com área de concentração em Arte e Educação do Instituto de Artes Universidade Estadual Paulista (Unesp) como requisito parcial para obtenção do título de doutora em Artes. Tese de doutoramento aprovada em: 20/12/2022 Banca examinadora ___________________________________________ Profa. Dra. Rejane Galvão Coutinho Instituto de Artes/Unesp – orientadora ___________________________________________ Profa. Dra. Rita Luciana Berti Bredariolli Instituto de Artes/Unesp ___________________________________________ Profa. Dra. Auana Lameiras Diniz Grupo de pesquisa GPIHMAE /Instituto de Artes/Unesp ___________________________________________ Profa. Dra. Inaê Coutinho de Carvalho Pesquisadora independente ___________________________________________ Profa. Dra. Valquíria Prates Pereira Teixeira Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto Dedico às pessoas que estão ao meu lado. AGRADECIMENTOS À minha orientadora, professora Rejane Galvão Coutinho, pelo olhar preciso, acolhedor e instigador. À banca examinadora, Rita Luciana Berti Bredariolli, Auana Lameiras Diniz, Inaê Coutinho de Carvalho e Valquíria Prates Pereira Teixeira, pelos olhares generosos. À suplência da banca, Guilherme Nakashato, Sidiney Peterson Ferreira de Lima e Valeria Peixoto de Alencar, pelas inspirações, referências e escutas. Às educadoras e aos educadores que aceitaram o meu convite para participar das conversas virtuais e partilhar generosamente suas narrativas em arte e educação, Andrea Amaral Biella, Auber Bettinelli, Flávia de Paiva Coelho, Jordana Aparecida Alvaro Braz, Karen Cristina Celotto Montija, Lais Garcia Rocha, Mirela Agostinho Estelles, Maurício André da Silva, Renan Reis Braz, Sophia de Oliveira Novaes e Tamara Faifman Maciel. A todos os colegas do grupo de pesquisa GPIHMAE, pelos ensinamentos e partilhas infinitas, em especial Auana Lameiras Diniz, Camila Feltre, Patricia Marchesoni Quilici, Levi Fernando Lopes Vieira Pinto, Lucas Oliveira, Maristela Rodrigues, Valéria Alencar, Sidiney Peterson Ferreira e Thelma Löbel. Ao amigo Rodrigo Monteiro, pelas conversas sobre nossas pesquisas e experiências. Aos amigos Erick Orloski e Christiane Coutinho, pela amizade. À amiga e professora Angela Di Sessa, pela disponibilidade de olhar, com profundidade, as minhas imagens fotográficas. Ao coletivo Arteducação Produções, pela garra que dedicamos juntos à arte/educação e pela nossa imensa amizade, em especial Ana Amália por fazer parte da minha constelação. Ao Luiz Destefano, pela viabilização da plataforma virtual de pesquisa. À Sandra Pereira, pelo cuidado com a revisão da tese. À Patricia Marchesoni Quilici, pela revisão da tradução do resumo em inglês. À minha família, de coração. Ao meu marido, Almir Rosa Claudio, pelo amor, sempre. Às meninas, Thais, Manuela, Maria Rosa e Isabel, pelas alegrias e presenças. À Capes, pelo apoio financeiro. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001 Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte, não o horizonte prospectivo, mas um existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades. Então vamos vivê-las, com a liberdade que formos capazes de inventar, não botar ela no mercado. Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos. Ailton Krenak RESUMO Esta pesquisa apresenta uma constelação de fazeres artísticos concebidos e desenvolvidos por educadoras e educadores nos processos de mediação cultural, junto com o público, em ações educativas em exposições de arte em instituições culturais da cidade de São Paulo e na III Bienal de Assunção. Ao partir da compreensão de que esses fazeres se elaboram desde processos formativos, artísticos e pedagógicos e se ampliam como redes de criação no contato do público com a arte, esta pesquisa busca dar visibilidade à autoria e à autonomia das educadoras e educadores, em relação aos seus processos criativos e à dimensão do fazer artístico junto com o público. Para compor e dar forma a essa constelação de fazeres, foi desenvolvida uma narrativa visual que entrelaça relatos e imagens (registros fotográficos) representativos das experiências da pesquisadora e educadoras/es colaboradoras/es. Como instrumento de produção colaborativa de dados, criou-se um ambiente virtual, por meio do software livre Moodle, com fóruns temáticos em que a pesquisadora e colaboradoras/es desenvolveram conversas de modo assíncrono. A Pesquisa Educacional Baseada em Arte é alicerce metodológico para a construção da narrativa baseada em imagens fotográficas, e a Cartografia compõe a fase exploratória em campo. O conceito de Redes de criação fundamenta a produção de sentidos, a partir do diálogo com as colaboradoras e colaboradores desenvolvido na plataforma virtual, e, por fim, a constelação dos seus fazeres plurais. Palavras-chave: mediação cultural; fazeres artísticos; processos de criação; arte educação; imagem fotográfica. ABSTRACT This research presents a constellation of several artistic making conceived and developed by educators along with the audience within processes of cultural mediation activities that take place in art exhibitions in cultural institutions of Sao Paulo city and also at the III Bienal of Assunção. Departing from the comprehension that these making processes are developed through formative, artistic and pedagogical processes and they are amplified when coming into contact with the audience, like creation networks, this research aims to bring visibility to the educators’ authorship and autonomy, related to their creative processes and the artistic making dimension in collaboration with the audience. In order to compose and to shape this constellation of several making processes, a visual narrative which interlaces representative narratives and images (photographs) from the researcher and the educators’ experience was developed. A virtual environment was created as a tool of collaborative data production, through the free software Moodle, with thematic debate rooms in which the researcher and the collaborators developed asynchronous conversations. The Art Based Educational Research is the methodological foundation to the narrative construction based on photographs, and the Cartography composes an exploratory phase at field. The creation network concept bases the production of meaning, from the dialogue with the collaborators developed at the virtual platform, and, at last, the constellation of their diverse making processes. Key-words: cultural mediation; artistic making; creation processes; art education; photographic image. RESUMO IMAGÉTICO Imagens-chave: SUMÁRIO Introdução: desenhar um começo 11 1 Constelação: imagens da experiência 22 1.1 Constelar 24 1. 2 Atravessar 30 1.3 Compor 40 1.4 Respirar 56 1.5 Imagem erótica 60 1.6 Imagens bússolas 69 Entremeio 82 2 Constelação: redes de fazeres plurais 113 2.1 Constelando 115 2.2 Redes de criação 123 2.3 Conectando 126 2.4 Estrelas educadoras/educadores 136 3 Constelação: fazeres em contexto 153 3.1 Circular 155 3.2 Fabular 168 3.3 Abrigar 180 3.4 Performar 192 Conclusão: coreografar um desfecho 206 Referências 211 11 Introdução: desenhar um começo Para iniciar esta tese, convoco o desenho e suas afinidades com a escrita, com o intuito de buscar traduções do pensamento visual elaborado no percurso da pesquisa. Como materialização de sensações, impressões, ideias e reflexões, o desenho alinhava- se às palavras escritas à mão nos momentos de anotações, marcações, esboços, fichamentos e sínteses. Para além dessa nobre função, desenhar e escrever, por extensão (quase) natural, teve um papel acalentador nos momentos de dúvidas e de sentimentos de inquietude que costumam nos acompanhar na pesquisa acadêmica e que foram acentuados nos últimos anos pelas crises ecológicas e sociais em que vivemos. O desenho que se faz tese possui linhas que apresentam direção e intenção de investigar os fazeres artísticos desenvolvidos por educadoras e educadores em seus processos de mediação cultural com o público que entra em contato com a arte em instituições culturais de São Paulo. Ao trabalhar como educadora em instituições da cidade, visitar exposições e participar de eventos ofertados por programas educativos, fui percebendo a diversidade de termos utilizados nos textos de paredes das exposições, nas publicações, nos materiais educativos e nos meios de divulgação impressos e virtuais. Eles despertaram a minha curiosidade por isto que pareciam ter em comum: a convocação do público para o contato com a arte por meio do fazer artístico, poético e lúdico. Destaco estes termos: experiência poética, ação poética, experiência lúdica, experimento, proposta poética, visita com ateliê, ateliê educativo, visita com oficina temática, visita e oficina, visita com atividade prática, atividade poética em ateliê e atividade lúdica. Palavras que me fisgaram. E então fui colecionando-as em minhas anotações. A pluralidade de modos dos educativos conceberem esse comum gerou em mim interesses e também perguntas. Às quais experiências essas palavras estariam coladas? Ao entrecruzar linhas do desenho da pesquisa em curso com a minha experiência em arte educação, busquei algumas respostas e, inevitavelmente, a minha linha de vida mostrava-me como eu vinha fundando, experimentando e concebendo o fazer, a 12 produção e a criação artística como aspectos do conhecimento em arte. Nessa linha, há vincos mais profundos – os das minhas concepções, verdades e convicções que se tornaram minhas certezas –, que me levam a compreender que ações educativas mobilizam e qualificam as nossas experiências com a arte ao conjugarem a experiência estética com a experiência artística, ao confluírem e integrarem o perceber, o ver, o sentir, o tocar, o conversar sobre e o fazer arte. A minha certeza é a de que essas dimensões da experiência não estão separadas, e ela é impregnada pela concepção de experiência estética do filósofo estadunidense John Dewey (1859–1952), desenvolvida em seu livro Arte como experiência (2010). Ele afirma que a experiência estética é aquela em que se vivencia, de forma integrada e completa, sem separação, as dimensões prática, emocional e intelectual, de modo que o processo de criação (prática) se associa à ação intelectual. Durante minhas caminhadas por instituições – museus, centros culturais e galerias da cidade –, passei a notar, com mais atenção, os ambientes convencionalmente destinados ao “ver arte” e ao “fazer arte”: o ambiente expositivo e o ateliê, respectivamente. O que separava e distinguia essas dimensões da experiência com a arte? Elas estariam delimitadas por fronteiras arquitetônicas ou condicionadas por projetos expositivos ou propósitos artísticos e educacionais? Considerei então que essas dimensões ora se articulavam e se integravam, ora se confundiam e se sobrepunham, ora se distanciavam e se negavam por meio dos processos educativos e seus meios/ modos de convocar o encontro com a arte. Das minhas certezas, uma que está vincada em minha linha da vida é a de que o encontro significativo com a arte e a cultura, mais especificamente em relação àquela produção artística com a qual temos contato em uma exposição, pode ser deflagrado por meio de um processo interpretativo mediado por uma educadora ou educador. Esse processo é favorecido por uma abordagem construtiva, como uma abordagem dialogal, problematizadora, prática e interativa que “contribui para o surgimento da construção de um ou vários processos interpretativos” (DARRAS, 2008, p. 38) pelas pessoas envolvidas na mediação e no qual estão em jogo as suas diferentes percepções, memórias e pensamentos. Tais processos interpretativos mobilizam conhecimentos do 13 sujeito e o levam a criar e a construir diálogos com a produção artística em jogo no processo educativo. Outra certeza que está amalgamada em minha linha de vida é a Abordagem Triangular do Ensino da Arte, elaborada pela professora Ana Mae Barbosa. Base teórica de projetos educativos em exposições de arte em um centro cultural em São Paulo em que atuei de 2001 a 2007, essa abordagem representou uma transformação em minha formação como educadora, ao romper com a visão de ensino de arte com enfoque modernista, na qual a produção artística seria indiferente a um referencial imagético. Com propostas de mediação cultural que contemplavam a produção, a contextualização e a leitura como ações articuladas e integralizadoras da experiência do público com a arte, alarguei, sobretudo, meu entendimento sobre a arte no contexto das exposições, onde poderia ir “além” do ver, observar, conversar e do “não tocar”. Assim, ao ter acesso à diversidade de recursos de mediação cultural que incluíam a produção e o fazer reflexivo, pude experimentar abordagens educativas mais complexas e, consequentemente, expandir os meios e processos de interpretação das pessoas que participavam das minhas visitas a exposições. Minhas certezas também são atravessadas pela necessidade de compreender (e defender) a arte e cultura como patrimônio de todos, ideologicamente apoiada pelo significado antropológico de cultura que não se refere a ela como signo de distinção social que diz respeito a alguns estratos sociais e entende que a existência humana não pode ser desvinculada da vida cultural. Em consonância com tal entendimento, a concepção de cultura como campo de relações dos indivíduos e das coletividades com o simbólico reflete os seus “modos de ser, conviver e se expressar”, em alargamento de sentido “coerente com a própria trajetória dos seres humanos em busca de uma concepção menos desigual e mais democrática da existência” (MIRANDA, 2018, p. 7). Essa noção vincula-se, sobretudo, com a expressão “direitos culturais”, apresentada pela primeira vez na Constituição Federal promulgada em 1988, comprometida com ideais de cidadania. O direito cultural é um direito humano e fundamental, baseado nos princípios de liberdade, igualdade de acesso ou de oportunidade para a fruição dos bens simbólicos, de diversidade cultural e de participação na vida simbólica. Como quaisquer outros, o direito cultural precisa ser útil 14 às coletividades, ou seja, cumpre função social e materializa-se quando auxilia no desenvolvimento da cidadania cultural (CUNHA FILHO, 2018, p. 13). Os direitos culturais têm como objetivo dotar as pessoas da “capacidade de fruir, discutir e até propor mudanças nos modos de criar, fazer e viver, em todos os domínios de interesse e deliberação coletivos [...] ligados aos mundos artístico e memorial”, mas também ao cotidiano. E como seu mais caro objetivo, os direitos culturais devem nos lembrar do “elemento comum e congregador de uma sociedade agora laica e pluralista, que é a cidadania” (CUNHA FILHO, 2018, p. 95 - 96). As instituições que compõem a paisagem desta pesquisa, embora sejam de diferentes naturezas, tais como museais, artísticas, culturais e socioeducativas, partilham uma missão educativa e estão imbuídas do papel de fortalecer a cidadania, respeitar a diversidade cultural e qualificar a vida da sociedade. É possível compreender o exercício dos direitos culturais de modo transversal e abrangente em cada uma dessas instituições, realizado por meio de ações, programas e projetos desenvolvidos por diferentes áreas e profissionais que as compõem, além dos setores educativos. Em princípio, esses espaços públicos seriam lugares destinados a todas as pessoas de todos os grupos culturais e sociais, para que pudéssemos dialogar sobre todo e qualquer assunto que nos interessasse. Nesses espaços, o pluralismo cultural deveria ser sempre valorizado, sem que uma cultura fosse exclusiva ou superior à outra. Neles, as exclusões não seriam permitidas, e todos os modos de ser, conviver e se expressar seriam equivalentes e complementares. Compreender as nossas diferenças como incompletudes é vislumbrar a cultura como lugar de troca, intercâmbio, reciprocidade, colaboração e participação, em vez de compreendê-las como completas – isoladas como ilhas. Como diz o pensador Ailton Krenak, diante desse tempo, que consome nossas existências, precisamos “cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu”, para “enriquecer as nossas subjetividades”, com liberdade e inventividade (KRENAK, 2019, p.32). Esses espaços públicos das instituições culturais seriam lugares para o exercício de suspender o céu e para exercer sem censura um dos nossos direitos culturais mais caros, o da liberdade de expressão, sem com isso ferir a liberdade uns dos outros? Neste momento, essa é uma incerteza, mais do que uma certeza. 15 Desenham-se assim as primeiras linhas neste texto introdutório – as linhas originárias de minhas convicções, que guiam o desejo de aprofundar minha compreensão sobre outros modos e sentidos para o fazer, criar e produzir arte que variam e se intercambiam em processos educativos concebidos e propostos por educadoras e educadores, no contexto contemporâneo das ações educativas voltadas às exposições de museus e instituições culturais na cidade de São Paulo. O desejo era de redesenhar-me, de tensionar as verdades–certezas–vincos. Para isso, era preciso fazer mais perguntas, indagar-me constantemente, arriscar-me a novos pensamentos. Afinal, pesquisar, assim como ensinar e aprender, exige a curiosidade que, como disse Paulo Freire, não pode ser tolhida, silenciada ou negada. Ela deve ser a “pedra fundamental” que nos move, nos inquieta, nos mantém em pé por nossas buscas, de tal modo que “não haveria existência humana sem a abertura de nosso ser ao mundo, sem a transitividade de nossa consciência” e que nos aproxima de nossos achados (FREIRE, 1996, p. 84-90). Ao questionar a minha experiência/ existência e aquelas que eu percebia ao meu redor na convivência com outras educadoras e outros educadores, pressenti que era preciso considerar os fazeres artísticos em relação à infinidade de ações educativas que aconteciam em museus, centros culturais e Sescs no entrelaçamento de aspectos históricos, artísticos e educacionais/ formativos. Nesse desenho inicial, compreendi que esses aspectos fertilizavam o solo para o desenvolvimento de pesquisas, experimentações e abordagens plurais de mediação cultural em instituições culturais da cidade. Entretanto, como abarcar a infinidade? Por onde e até onde ir com a pesquisa? Então, outros fazeres artísticos foram sendo desenhados, delineados, investigados. Um desses fazeres, para o qual busquei lançar meu olhar e definir um limite espacial/ temporal para a pesquisa – se delimitar for mesmo possível –, é o fazer arte que está situado no contexto do século 20, com a transformação do papel educacional e social dos museus desde uma origem moderna, como procurei abarcar pelo prisma de fragmentos da história do Museu de Arte de São Paulo (Masp), a partir da pesquisa da 16 professora Rita Berti Bredariolli, que situa a construção de conceitos da educação modernista, como “criatividade”, “liberdade”, “imaginação criadora”, “livre-expressão” e “fruição desinteressada”, por meio da história e das lembranças de Suzana Rodrigues – a “personagem moderna” – e do Club Infantil de Arte, inaugurado em 3 de abril de 1948 nesse museu e criado e dirigido por Suzana. Busquei ressonâncias dessa linha modernista em minhas experiências e linha de vida e, assim, lancei olhares para o meu contexto de atuação no programa educativo do Centro Cultural Banco do Brasil (SP), por ter sido um período profícuo de aprendizagens e pelo foco que desenvolvemos no fazer artístico, no âmbito da mediação cultural e em consonância com os processos formativos, como aconteceu na exposição erotica – os sentidos da arte, em 2005. A partir desse ponto, tracei linhas entre o contexto do Masp e contextos históricos mais próximos da minha contemporaneidade. Entre outras possibilidades de sobrevoos e pousos do meu olhar sobre eventos da história do ensino da arte e da arte educação em museus e centros culturais no Brasil, um evento cativava- me desde muito tempo antes da pesquisa de doutorado se consolidar– a exposição O Labirinto da moda: uma aventura infantil. Com a curadoria de Gláucia Amaral, essa exposição foi apresentada pela primeira vez no Sesc Pompeia, em São Paulo, em janeiro de 1996, e o seu programa educativo foi coordenado e orientado pelas arte educadoras Ana Amália Tavares Bastos Barbosa e Maria Christina de Souza Lima Rizzi e do arte educador Cildo Oliveira, que também foram responsáveis pela “preparação dos monitores”, termo usado naquele momento. O meu primeiro desenho de O Labirinto da moda: uma aventura infantil aconteceu quando Ana Amália, que coordenava a formação da equipe da ação educativa no CCBB/SP, da qual eu fazia parte, mostrou o catálogo dessa exposição e o material educativo Olho vivo. Na época, conhecer esse material significou abrir meus olhos para uma história da arte educação com a qual, até então, eu não tinha plena consciência de que poderia estar vinculada à minha história e aos meus fazeres. Dessa infinidade de possibilidades, durante os dois primeiros anos da pesquisa (no período que antecedeu a pandemia da covid-19) caminhei, literalmente, em direção aos fazeres artísticos propostos por educadoras e educadores. Nessa etapa exploratória, intensifiquei visitas a exposições de arte e participei de atividades oferecidas pelos 17 programas educativos de algumas instituições. No contato com a arte nessas exposições, em condições diferentes e complementares como visitante, pesquisadora e participante das propostas dos educativos, busquei, no método da Cartografia, fundamentos para exercitar variedades de atenção e começar a perceber e a produzir possíveis dados da pesquisa (KASTRUP, 2015). A perspectiva da A/R/Tografia, uma metodologia de Pesquisa Educacional Baseada em Arte, foi outro recurso metodológico para ampliar a minha compreensão acerca dos significados construídos na e pela pesquisa, elaborados nessa relação com a arte, sobretudo na confluência de visualidades das produções das/dos artistas, das proposições das/dos educadoras/es e das produzidas por mim, nas linguagens do desenho e da fotografia. A articulação entre os papéis da artista, fotógrafa, pesquisadora e educadora e integração da theoria, praxis e poiesis considerada por essa perspectiva metodológica produziram outra mudança em minha trajetória, pela compreensão de que esses campos de experiências poderiam conviver em harmonia e enriquecimento mútuo, em vez de apartados uns dos outros. Os meus estudos das Metodologias Educacionais Baseadas em Arte e das Metodologias Baseadas em Arte foram expandidos por contribuições mais recentes, que se corporificam nas vozes de pesquisadores estrangeiros e brasileiros em congressos, seminários e publicações, tais como os livros Pesquisa Educacional Baseada em Arte: A/r/tografia, organizado por Belidson Dias e Rita L. Irwin (2013), e Ideas Visuales. Investigación Baseada en Artes e investigación artística, de Ricardo Marín Viadel e Joaquín Roldán (2017), cujo enfoque impulsionou a presença de imagens fotográficas nesta pesquisa. Como diz Belidson Dias, diferentemente da pesquisa tradicional, essas metodologias são baseadas no conceito de que o sentido "não é encontrado, mas construído e que o ato da interpretação construtiva é um evento criativo" e é por meio de "formas criativas" que elas "estabelecem oportunidades de ver, experimentar o ordinário, aprender a compreender as novas e diferentes maneiras de se fazer pesquisa em artes" (DIAS, 2013, p. 24). Essa escolha dialoga com a ideia da pesquisa inventiva da Cartografia, e essas escolhas, articuladas entre si e com outros aportes teóricos – sobretudo do campo da fotografia, - convergiram para a construção de sentidos e conhecimentos elaborados pela e na experiência com a arte, a educação e a pesquisa. 18 Entre o fim de 2018 e início de 2019 eu havia esboçado alguns nomes de educadoras e educadores com os quais queria adensar conversas, com a perspectiva de aprofundar a investigação acerca de suas práticas e processos, a partir das minhas primeiras percepções das ações que eu havia participado. O desejo agora era o de pousar atenção e dar zoom no modo como concebiam os seus fazeres com autonomia e autoria. Nesse entremeio, aprofundei meus estudos nessas publicações da professora Cecília Almeida Salles sobre processos de criação artística, sendo: Gesto Inacabado (2008), Redes de criação: construção da obra de arte (2006) e o Processos de criação em grupo: diálogos (2017). Como aporte teórico para acompanhar movimentos de criação, por meio da investigação de documentos de processo como índices do pensamento dos artistas, o conjunto dessas leituras instigou-me a tecer paralelos com os processos de criação das educadoras e educadores e [re]elaborar mais questões. Como concebiam as suas proposições educativas? Em quais circunstâncias e contextos? Junto com as equipes? Como desdobravam-se nos processos de criação com o público? Como eles compreendiam a experiência do público com a arte a partir dessas proposições? Nutrida pela ideia de acompanhar processos por meio de documentos, comecei a vislumbrar cartografar relatórios, fotografias, registros em vídeos e cadernos de anotações das educadoras e dos educadores, a fim de compor narrativas híbridas, em que texto (escrito) e imagem (visual) se encontram e se relacionam, como a a/r/tografia propõe (IRWIN, 2008, p. 93). No entanto, esse desenho que se formava na pesquisa começava a se fragmentar. As linhas pareciam frágeis, muito finas e tênues entre nós. Ao longo desses últimos anos, soube de educativos das instituições sendo reduzidos ou fechados, de equipes inteiras sendo despedidas ou substituídas por outras e quase perdi a conta de educadoras e educadores de exposições temporárias que não encontrei mais, pois, há muito tempo, tornaram-se itinerantes, retirantes, desempregados, resistentes. Senti tristeza. Desesperança. Um parêntese, um caminho. Em meados de março de 2019, voltei a atuar como mediadora neste projeto do Instituto Arte na Escola: o curso online Arte na Escola 19 Contemporânea, voltado a professores de Arte de todo o Brasil. Eu havia atuado em edições anteriores e também, entre 2010 e 2012, havia experienciado a mediação a distância no projeto Rede São Paulo de Formação Docente (REDEFOR), voltado a professores de Arte e realizado pelo Instituto de Artes da Unesp. A experiência de mediação em ambiente virtual mostrava-me a potência dos diálogos entre participantes nos fóruns virtuais, e a ideia de elaborar um ambiente virtual para conversar com educadoras e educadores foi sendo amadurecida. Acontece então uma virada na pesquisa. Comecei a levantar hipóteses sobre limitações e potencialidades de um espaço virtual para "reunir" educadoras e educadores. Havia riscos e dificuldades com a tecnologia e com a plataforma virtual de aprendizagem utilizada para fins de pesquisa, mas vislumbrei um lugar para encontros, para acolher e partilhar imagens, experiências e reflexões, para cocriação de narrativas. Um lugar para pesquisar e, sobretudo, aprender junto. Um lugar para resistir. O ambiente virtual foi modelado em meados de 2019, com o apoio técnico de Luiz Destefano, e abrangeu 5 fóruns como espaços para conversas entre pesquisadora e colaboradores. Das 15 pessoas convidadas, 11 pessoas aceitaram e participaram desse momento de produção de dados da pesquisa. Profissionalmente, elas atuam no campo da educação formal e não formal e, transitam por diferentes campos do conhecimento nos quais são formadas, como arte, design, teatro, história da arte, fotografia, audiovisual, artes do corpo, arquitetura, performance, arte terapia, arqueologia, pedagogia e psicologia. As instituições da cidade de São Paulo que foram cenário das ações educativas narradas por elas, foram: Centro Cultural Banco do Brasil, Centro Cultural Fiesp, Museu Lasar Segall, Serviço Social do Comércio, Museu de Arte Moderna, Museu de Arte Contemporânea, Museu de Arqueologia e Etnologia, Instituto Tomie Ohtake, Museu da Imagem e do Som e em uma residência educativa na III Bienal Internacional de Assunção, Paraguai. Entretanto, saliento que essa pesquisa não buscou abordar os trabalhos dos educativos dessas instituições, mas dar foco nos profissionais que atuam no campo da mediação cultural que, ao colaborarem com a pesquisa, situaram os seus fazeres – por 20 meio de exemplos de seus processos e projetos, visitas, oficinas – desenvolvidos nos contextos dessas instituições. Desse grupo de 11 pessoas, organizei três subgrupos para mediar as conversas nos fóruns virtuais que aconteceram de janeiro a março de 2020, terminado às vésperas do período de isolamento físico da covid-19. Desenhadas essas linhas, no capítulo 1, Constelação: imagens da experiência, apresento a abordagem de narrativa baseada em imagens que concebi como uma constelação para relacionar os meus processos formativos e fazeres artísticos em mediação cultural aos fazeres de outros contextos históricos. Dos aportes teóricos para o fazimento da narrativa imagética de minha história como arte/ educadora, diálogo com a noção de tempo/ espaço em espiral, que elaborei a partir de BREDARIOLLI (2014), com as concepções de educação, arte/educação e mediação cultural de FREIRE (1996), MACHADO (2010), BARBOSA e COUTINHO (2009), com o conceito de processo de criação em rede de SALLES (1998, 2006 e 2017), com a concepção de momento decisivo de BRESSON (2015), entre outros. Entre o primeiro capítulo e o seguinte, há o Entremeio, que é uma apresentação mais minuciosa da etapa da pesquisa em campo, a partir de KASTRUP (2015), e das imagens que produzi em instituições culturais da cidade de São Paulo. No capítulo 2, Constelação: redes de fazeres plurais, apresento o desenvolvimento da plataforma virtual de pesquisa, aprofundo a fundamentação do conceito de redes de criação de SALLES (1998, 2006 e 2017), o conceito de experiência estética de DEWEY (2010) e, por fim, uma primeira apresentação dos colaboradores da pesquisa a partir dos dados produzidos na plataforma, à luz de JOSSO (2004) e RIOS (2010). No capítulo 3, Constelação: fazeres em contexto, desenvolvo as minhas análises e reflexões dos dados produzidos nos fóruns a partir da criação de quatro linhas de força elaboradas no entrelaçamento dos relatos e imagens das educadoras e educadores, que dimensionam qualidades, aspectos e questões de seus fazeres artísticos, sendo: Circular, Fabular, Abrigar e Performar. As análises e reflexões são aprofundadas à luz das autoras e autores tratados no capítulos anteriores e pequenas tessituras, à medida que adentrei no universo de cada um dos fazeres das educadoras e educadores e senti necessidade de expandir estes conceitos em rede: a roda coletiva em WARSCHAUER (1993), a narrativa e a imaginação em MACHADO (2004), a metamorfose em COCCIA (2020), fazer junto em PRATES (2017), o ritual 21 performático em DUNCAN (1995) e, por fim, volto a RIOS (2010), para abordar as dimensões poéticas do fazer artístico das educadoras e educadores. Na conclusão, coreografo um desfecho acerca do meu processo de pesquisa, sobretudo ponderando os desafios de desenvolver uma narrativa baseada em imagens e no acompanhamento de processos e redes dos fazeres artísticos na mediação cultural, retomando SALLES (1998, 2006 e 2017). Por fim, quero destacar o tratamento das legendas das imagens, que ocorre com pequenas diferenças, a depender da parte da pesquisa em que são apresentadas, ora sem legendas, quando a apresentação e contextualização estão garantidas no texto que antecede ou sucede, ora com legendas por imagem ou por conjuntos de imagens. Como palavras que fazem parte do meu vocabulário imagético, algumas imagens são reapresentadas, de modo que, como a apresentada na conclusão, me despi da necessidade de legendá-la. Dessa forma, a numeração das imagens não corresponde exatamente à quantidade total de imagens (se forem calculadas por unidade). 22 1 Constelação: imagens da experiência Imagem 1 Autorretrato na oficina da ação educativa da exposição erotica – os sentidos na arte, CCBB – SP, 2006. Acervo da autora. Inicio este texto em companhia de imagens-estrela que guiam e iluminam o trajeto desta escrita. São imagens fotográficas com as quais convivo. Observo, relembro e elaboro olhares, ideias, sentidos e reflexões sobre imagens das experiências em arte educação que envolvem fazeres artísticos integrados a práticas de mediação cultural desenvolvidos em projetos educativos, nos quais tenho atuado em diferentes papéis: educadora, supervisora, formadora e produtora. Nesses projetos, costumo estar com uma câmera fotográfica à mão e olhar à espreita para notar, captar presenças, atmosferas, acontecimentos, movimentos e detalhes de alguma cena. São imagens que estão sendo concebidas há tempos... Quando volto meu olhar às imagens que produzi, para escolher quais delas vou utilizar para compor este texto, dou-me conta de que a constelação se torna cada vez maior, pois ela também é formada por outras imagens, além das que fiz. São imagens que vi e vejo, das que lembro ou imagino. Produzidas em contextos distantes no tempo ou no espaço da minha existência, conheci essas imagens apenas por meio de livros, catálogos de exposição e conversas com pessoas das quais me aproximei em função da 23 pesquisa, dos trabalhos e de encontros. Abrigo-as – imagens e pessoas – como parte da constelação que está em mim, que resulta de acontecimentos relacionados à arte e à educação, os quais venho investigando e recriando sentidos e sentimentos, com minhas histórias de vida como arte educadora. Este capítulo, constelado por imagens, não é uma “breve história” que resgata o passado em linha reta até os dias de hoje. Não é um “movimento de recuo”, em uma busca ilusória da origem de tal conhecimento que me levaria a entender o meu agora, como se esse agora fosse o “meio” ou o “fim” de uma única história. Afinal, “por que ainda não nos desvencilhamos da ideia de tempo como linha reta, composta da disposição de sucessivos acontecimentos, compreendidos como ‘fatos’?” Essa pergunta é feita pela professora Rita Bredariolli em “Um breve histórico” ou de como (re)conhecemos histórias sobre arte e educação (BREDARIOLLI, 2014, p. 97). Uma das possíveis respostas a essa pergunta é que nos acostumamos nesse modelo de tempo, subsidiário de uma convencional noção da história, mantida em sedimentação não somente pelos livros que circularam – e continuam circulando – por nossos anos escolares, mas também pela convivência com estruturas narrativas dadas a certo romance – assistidas no cinema ou em nossas casas, definindo a trama de novelas, telejornais, propagandas ou quaisquer outros programas propostos ao entretenimento –, repousa as noções de “evolução” e “progresso” (BREDARIOLLI, 2014, p. 97). Assim, o movimento que me proponho a fazer não é o de traçar uma linha reta feita com régua como uma linha do tempo que me levaria, com precisão, à compreensão da história do tema da pesquisa. Meu movimento vai se fazendo e refazendo pelo gesto do corpo inteiro, organicamente. Esse movimento experimenta fazer curvas no tempo e no espaço. Não me conforta esta narrativa linear “de acontecimentos em uma sucessão temporal definida pela relação causal entre passado e presente” (BREDARIOLLI, 2014, p. 98) que nos acostumamos a reproduzir pautada em uma noção idealista de “história desenhada sob uma ideia de que o presente é consequência de acontecimentos passados e para entendê-lo devemos encontrar a ’origem’ passada, sua gênese, e ’resgatá-la‘, ’recuperá-la‘ para compreender nosso estado atual dos acontecimentos que compõem nosso ambiente” (BREDARIOLLI, 2014, p. 98). O passado 24 não é um todo absoluto que conseguimos apreender com exatidão por meio daquilo que experimentamos, ouvimos ou lemos. Ele não pode ser emoldurado como fotografia. Busco um movimento que não seja o de me voltar ao que as imagens “contam” e “representam”, como se elas fossem “preencher” todo o espaço narrativo dedicado às minhas experiências e às histórias encadeadas em sequência. O caminho da minha busca é um “trabalho de reconstituição, mas sempre lacunar”, no qual lido com “indícios, fragmentos, vestígios, discursivos e/ ou imagéticos” (BREDARIOLLI, 2014, p. 98), que vai sendo elaborado por meio de relações, aproximações e edições de imagens e de palavras que se materializam na narrativa imagética e verbal. Nesse espaço em branco do papel digito palavras e insiro imagens. É um movimento de interação e criação com a sua materialidade e visualidade: vazios, lacunas, espaçamentos, margens, silêncios, intervalos, parênteses, esperas, dobras, vírgulas, pausas... pontos-finais. Uma imagem pode sugerir mais do que uma resposta, uma explicação, uma afirmação ou uma ilustração em relação ao texto. Ela evoca dúvida, leva ao desvio, permite indagação, deixa impressão, aguça lembranças, sugere imprecisão, envolve reflexão e gera questionamento. 1.1 Constelar Desenhar-se no espelho, experimentar um processo de impressão, ouvir e inventar histórias, cantar um verso, construir cidades imaginárias com papel, compor um jornal, inventar uma máscara com papelão e tecidos, escrever uma poesia, bordar um coração... São exemplos de fazeres artísticos que educadoras e educadores propõem para mediar as relações de crianças e adolescentes com a arte e a cultura durante visitas a exposições em instituições culturais. São fazeres concebidos, gestados, investigados, experienciados e compartilhados, desde a formação inicial e continuada, nos projetos educativos nos quais atuam. São fazeres em processo, pois estão em transformação, aprofundamento e ampliação de um projeto para outro, de uma exposição para outra, de uma visita para outra, de um grupo de pessoas para outro. 25 Esses fazeres artísticos concebidos e vivenciados por nós, educadoras e educadores, engendram e potencializam as nossas leituras, interpretações e construção de significados por meio da arte e para a arte, que, nas instâncias de mediação com os diferentes públicos, serão continuamente ampliados. São assim processos em movimento de expansão que nos atravessam e nos acontecem quando nos disponibilizamos a aprender com o encontro que está por vir com o público que visitará a exposição, quando estamos abertos para essa experiência incerta com esse/essa “outro/a” que ainda não conhecemos ou conhecemos tão pouco por meio de breves informações sobre o perfil, necessidades e interesses do grupo colhidas pelas equipes que agendam a visita das escolas. Então, nesse breve intervalo de espera de um grupo de pessoas que está para chegar à exposição, vamos nos deixando levar por expectativas e desejos de colocar em prática aquilo que foi idealizado e planejado com tanto cuidado para a visita. Talvez, até os visitantes chegarem ao museu ou ao centro cultural, ainda dê tempo de tomar água, café, passar batom, ajeitar o cabelo, respirar fundo... O grupo chega! É o momento de nos colocarmos em estado de disponibilidade às possibilidades de reelaboração de nossas ideias e intenções, para que não se esgotem ou se fechem em si mesmas, sobretudo, por meio de atitude questionadora (crítica, sensível e reflexiva) em relação àquilo que nos propomos a fazer. Mas esse encontro com o outro, que é público1 e funda minha compreensão dos processos de aprender/ ensinar arte e como mediação cultural, não foi compreendido por mim tão imediatamente, em um estalar de dedos. Foi por meio de estudos e encontros vividos ao longo destes mais de 20 anos de trabalho no campo da arte educação, sobretudo, pelo trabalho persistente de minha atenção, percepção e escuta nas conversações e 1 Opto pelos termos público/s e visitante/s baseando-me neste verbete elaborado por Adriana Mortara Almeida no glossário do Caderno da Política Nacional de Educação Museal (PNEM): “muitos termos designam os públicos presentes nos museus – convidados, visitantes, usuários, clientes, espectadores, consumidores, comunidade – de acordo com a visão da instituição e o contexto em que está inserida”. No caso, esta pesquisa direciona-se ao público presencial. Dos comportamentos esperados desse público, destaco estes que identifico nos setores educativos e nos programas públicos que situo nesta pesquisa: “apreciar esteticamente obras de arte e outros objetos, assim como aprender sobre temas e formas apresentadas nas exposições e outras ações voltadas aos públicos” e “participar das ações propostas aos públicos de maneira ativa, chegando a protagonizar algumas dessas ações”. Essa ideia de público está implicada com a “maneira por meio da qual alguns museus” e instituições culturais “têm transformado a ação de seus públicos” como um movimento que “muda a ideia de que a quantidade de público é determinante da qualidade das ações que o museu oferece, para a ideia de que a qualidade da experiência vivida pelo público no museu é mais importante.” Fonte: https://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2018/06/Caderno-da-PNEM.pdf (p. 99 – 100). Acesso em: nov. 2022. https://www.museus.gov.br/wp-content/uploads/2018/06/Caderno-da-PNEM.pdf 26 fazeções com arte educadores/as, na interação com a história de vida de cada um/a, suas visões de mundo, repertórios e experiências singulares. Desde minha pesquisa de mestrado, interessa-me compreender a interdependência entre as múltiplas camadas da formação e da prática educativa. Minha intenção é tecer relações entre os momentos nos quais educadoras e educadores estão se formando e se preparando para as ações educativas que irão desenvolver – momentos de estudo, reflexão, pesquisa, planejamento, negociação, experimentação, produção de materiais, testagem de proposições e ensaios – e os momentos em que estão atuando diretamente com o público em contato com produções artísticas e culturais das mais diversas naturezas. Portanto, é da perspectiva desse contexto de formação em trabalho que meu olhar é lançado na investigação dos fazeres artísticos engendrados no campo da mediação cultural. Um ponto de vista que considera que tais fazeres estão circunstanciados em um campo de atuação profissional que vem se configurando desde a década de 1990. Esse entendimento está situado em um contexto mais amplo, como escreveram as professoras Ana Mae Barbosa e Rejane Coutinho, em 2009, na apresentação do livro Arte/educação como mediação cultural e social: ...temos um campo aberto no Brasil, um campo abrangente em formação no qual se entrecruzam diferentes áreas do conhecimento. [...] Com as práticas de mediação, buscam-se teorias para fundamentar as experiências e, em razão da necessidade de mediadores para a cena contemporânea, eles próprios têm se organizado em cursos de aprofundamento e, principalmente, investido em formações em serviço. Em busca de suprir a ausência de formações específicas, ou seja, os processos de formação que acompanham o desenrolar dos trabalhos, configuram-se como uma característica de nosso contexto. (2009, p. 8 – 9) Ao escolher abordar os fazeres dos arte educadores/as desde seus processos de formação continuada, considero dois princípios que me são caros: o de autonomia e o de autoria em relação às suas ideias e às suas práticas e processos junto com os sujeitos envolvidos na mediação cultural. No contexto das instituições culturais da cidade de São Paulo, onde venho atuando, a autoria de artistas e curadores é reconhecida e garantida; entretanto, para nós, arte educadores/as, o reconhecimento de nossas autorias por aquilo que concebemos, desenvolvemos e concretizamos no âmbito educacional, 27 artístico e cultural envolve negociações, por vezes cansativas, com as instituições. Nossos créditos, sejam citados como pessoas físicas ou jurídicas por meio dos coletivos ou empresas com os quais estamos vinculados, precisam ser identificados e anunciados nas fichas técnicas de catálogos e folhetos, nos textos de parede nas exposições, nos materiais de divulgação, e, sobretudo, vinculados aos conteúdos educativos que elaboramos para e nas instituições onde trabalhamos. Somos autores/as, não somos anônimos/as, mas ter nossos nomes informados nas publicações é apenas um exemplo de um direito a ser respeitado. Este é outro exemplo simples, porém significativo, de como autoria e autonomia vão se enlaçando. Em uma época em que as equipes de educadores usavam uniformes, uma condição normal, no entanto, contestada, certa vez, quando fui supervisora de um projeto educativo em um museu da cidade, presenciei uma cena constrangedora: a diretora quis impor que a camiseta do uniforme da equipe fosse da cor laranja. Eu vinha de uma experiência anterior em um centro cultural no qual a equipe de produção e coordenação do educativo tinha autonomia para escolher a cor e o modelo do uniforme, além de orçamento próprio para criar junto com um designer o logo e a imagem da camiseta, que, geralmente, era uma apropriação ou recriação baseada na obra de um(a) artista da exposição. As camisetas ficavam tão bonitas que visitantes se interessavam em adquiri-las, e alguns conseguiam negociá-las com os/as educadores/as, como presentes ao término da exposição, se não fossem mais precisar delas, claro. O uniforme não era da cor laranja, mas atendia à sua função mais primária – diferenciar e destacar a equipe do educativo nos ambientes do centro cultural – e, “colada” a essa função, a camiseta agregava valores estéticos, sociais e afetivos expressos nessas relações entre as obras da exposição, os/as educadores/as e os públicos. Essa roupagem, que nos revestia com as imagens das obras, tornava possível nosso corpo, educativo e coletivo, ser também performático e implicado com a ruptura da domesticação dos nossos sentidos pela instituição. A autonomia para criar nossa roupa de trabalho possibilitou que experimentássemos, com designers e costureiras, o processo de criação e confecção de outros acessórios de vestir personalizados, como aventais e bolsas que serviam para acondicionar pranchas de imagens e objetos utilizados como material de apoio durante a visitação. Uma das peças de vestir de 28 autoria dessa equipe foi uma jaqueta semelhante à de fotógrafos e arqueólogos, com bolsos e acessórios acoplados como elementos incorporados a uma estratégia de mediação baseada em um jogo-visita, que era proposto pelos/as educadores/as aos grupos de escolares, para quem essas estratégias lúdicas eram concebidas, levando em consideração a singularidade do evento, das obras da exposição e do público mediado. Havia a valorização da dimensão lúdica e cênica da roupa, como elemento performático da mediação cultural. Não recordo o argumento utilizado pela diretora para o uso da cor laranja. Talvez tenha esquecido de propósito, pois aquela situação me deixou bastante inquieta, especialmente por ela não considerar a possibilidade da escolha horizontal e coletiva e ignorar a opinião dos/das educadores/as que vestiriam aquela camiseta seis dias por semana e por muitos meses. Talvez a cor ganhasse outro sentido se tivesse sido escolhida democraticamente. Se ao menos tivéssemos partilhado referências sobre nossos interesses e afinidades estéticas e culturais, por exemplo, com as túnicas dos monges budistas, com o chakra sacro Svadhisthana, com a cor das chamas do fogo, dos corais do mar, do pôr do sol... Por fim, após muitas conversas, definimos outra cor. Essa foi uma das muitas situações nas quais aprendi a necessidade de resistir, não à cor laranja, mas a esses dispositivos de poder. Resistir, nesse contexto, foi aprender a persistir em nossas escolhas, refletir sobre nossas argumentações, tensionar e friccionar ideias, por meio de diálogos, por vezes exaustivos, e ensaiar negociações para romper com hierarquias institucionais. Afinal, nossas escolhas refletem o respeito às obras e à exposição que estão sendo apresentadas. São escolhas portadoras de conteúdo cultural, no qual estão indissociáveis as relações entre a arte, educador/a e público. Pela natureza colaborativa de nossos processos e produções, podemos flertar com termos do campo do direito autoral, como coautoria e pluriautoria, que indicam a criação integrada, ou seja, quando uma obra intelectual, de natureza literária, científica ou artística, resulta de contribuição de mais de um/a autor/a. Mas, para melhor dimensionar o modo como a autoria é elaborada em processos colaborativos em ambientes de aprendizagem e criação, convoco os estudos realizados pela professora Cecilia Almeida Salles sobre processos de criação em grupo e redes de criação nos quais 29 “os diálogos com a cultura, as trocas entre os sujeitos e os intercâmbios de ideias nos colocam diante do mais amplo campo de interações” e em uma “rede complexa em permanente construção” (SALLES, 2006, p.149), a partir da qual é desafiante, porém não impossível, pensar a autoria por sua presença, em vez de ausência ou apagamento, e por sua multiplicidade de interações, em vez de inseparabilidade dos outros. Somos muitos, estamos no meio de muitos. Para nós, a autoria ocorre em processos coletivos de criação. Elas são tecidas e configuradas em um “fazimento” em rede, na relação com os outros, que, a bem da verdade, não se sabe muito bem por quem ou quando começa e termina exatamente. Ou seja, por meio de processos criativos em que há “um cruzamento de indivíduos com um projeto comum”, que pode ser a obra ou a prática educativa e, portanto, em “maior densidade de interação” ou em processos que se dão em continuidade uns com os outros ou um após o outro. Portanto, um processo coletivo que resulta de um processo individual que foi descontinuado ou, quando existe a possibilidade de “que as autorias se desloquem ao longo do tempo”, integra o projeto do/a artista e/ou do/a arte educador/a, como no caso de produções artísticas contemporâneas, em que o aspecto da interatividade “é responsável pela viabilização da multiplicação de autorias" (SALLES, 2006, p. 149-154). Para Salles, pensar a autoria, de dentro das redes de criação, é compreendê-la em sua perspectiva relacional. Como artistas, agimos em “meio à multiplicidade de interações e diálogos” e encontramos modos de nos manifestar na relação e interação com os outros, de onde surge a autoria que “é distinguível, porém, não separável dos diálogos com o outro; não se trata de uma autoria fechada em um sujeito, mas não deixa de haver espaço de distinção” (SALLES, 2006, p. 152). Na mediação cultural como encontro, o/a arte educador/a desenvolverá estratégias para gerar e potencializar as trocas e inter-relações entre os sujeitos envolvidos no processo de interação, leitura, interpretação e produção da arte e articulará as diversas percepções, memórias e ideias de todos os participantes, para que, juntos, possam construir uma complexa rede de criação de sentidos do campo da arte. Para que esse encontro se faça como uma rede de criação, a autoria e autonomia dos sujeitos envolvidos são interdependentes, uma não se faz sem a outra, como um organismo vivo, em contínuo devir. 30 1.2 Atravessar Imagem 2 31 Imagem 3 32 Imagem 4 Essa documentação fotográfica (imagens apresentadas) foi realizada por mim durante a visita da educadora Mariana Zanetic, junto com um grupo de estudantes de uma escola pública, à exposição Fatos: Antônio Manuel2, que aconteceu de 21 de abril 2 A exposição Fatos: Antonio Manuel teve curadoria de Paulo Venancio Filho e apresentou uma retrospectiva com cerca de 70 obras, produzidas pelo artista desde a década de 1960. Antonio Manuel (Avelãs de Caminha, Portugal, 1947) vive e trabalha no Rio de Janeiro. 33 a 08 de julho de 2007, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. As visitas de grupos escolares duravam cerca de uma hora e meia, e essas imagens mostram o momento em que Mariana propõe uma caminhada dentro do espaço expositivo, levando em conta as possibilidades de circulação influenciadas pelos efeitos da obra Muros (Ocupações/Descobrimentos - 1998/2007)3. Não há um sentido único nem obrigatório, portanto, a educadora teve autonomia para coreografar movimentos no espaço expositivo e experimentar modos de caminhar, de ocupar, de perceber, de ver e de estar presente em relação ao trabalho artístico com aquele grupo de pessoas. Juntos, atravessaram com curiosidade os buracos dos muros feitos de tijolo e cimento e tocavam o vermelho da pintura que se faz como arquitetura. Mariana escolheu um lugar tranquilo para se sentarem em roda no meio da instalação do artista. “O que vocês acham que é isso?” imagino que ela possa ter perguntado ao grupo, expressando seu interesse pela curiosidade dos outros: um desejo de aprofundar uma conversa. Então, em meio a essa constelação de imagens, vou buscar as ressonâncias com uma das leituras que me acompanha desde o tempo em que Rejane Coutinho, na época a profissional responsável pela formação continuada do educativo, nos iniciou para um aprendizado e ensinamento que se faz e refaz orgânica e constantemente em mim, em busca da intrínseca relação entre nossas concepções e práticas, entre nossas ideias e reflexões e o nosso ler e fazer o mundo. O livro é Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa, de Paulo Freire (1996), e escolho este trecho para ilustrar: ...estimular a pergunta, a reflexão crítica sobre a própria pergunta, o que se pretende com esta ou aquela pergunta em lugar da passividade em face das explicações discursivas do professor, espécies de respostas a perguntas que não foram feitas. Isso não significa realmente que devamos reduzir a atividade docente em nome da curiosidade necessária, a puro vai-e-vem de perguntas e respostas, que burocraticamente se esterilizam. A dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não 3 Na exposição do CCBB/SP realizada em 2007 a instalação foi intitulada Muros, que também é nomeada como Ocupações/Descobrimentos. Trata-se de uma instalação do artista Antonio Manuel realizada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea (MAC/Niterói) em 1998. Ela consiste em paredes construídas no interior do espaço expositivo em diálogo com a arquitetura local, nas quais são abertos buracos a marretadas. 34 apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos (1996, p. 86). No percurso que concebeu e desenvolveu, Mariana interage com os integrantes do grupo, fazendo-lhes perguntas, introduzindo informações e articulando as suas falas em um processo de leitura e interpretação que, nesse contexto de educação, tem afinidade com as concepções que Rejane escreve, alguns anos depois, em seu texto Estratégias de mediação e a abordagem triangular (2009), em que afirma que as “várias camadas de referências contextuais se sobrepõem, relacionando-se e interferindo na ação e devem ser levadas em consideração no processo de mediação; são elas: as do objeto ou obra; as dos sujeitos envolvidos, leitores e mediadores; e as do lugar onde a ação de desenrola” (COUTINHO, 2009, p. 177). Ao situar a concepção de Paulo Freire sobre a leitura como “um ato de apropriação do conhecimento na interação do sujeito com o mundo, com seu meio social e cultural”, Rejane frisa que “as experiências anteriores e a visão de mundo orientam e direcionam o sentido da leitura e da interpretação” dos agentes interatores nesse processo de tal modo que “não existe uma única interpretação de uma produção artística, mas uma pluralidade de pontos de vista que podem ser complementares ou não [...] não há interpretações certas ou erradas, mas interpretações mais pertinentes ou mais coerentes, interpretações mais convincentes ou mais personalizadas” (2009, p. 175). Após passagens por outros ambientes expositivos, Mariana seguiu com o grupo para o espaço de oficina e propõe ao grupo a construção de uma página de jornal, cujo procedimento de composição com imagens e palavras corresponde ao procedimento utilizado pelo artista em um de seus projetos mais emblemáticos: uma publicação no O Jornal, em 1973. Após o veto e a censura de suas obras em uma exposição individual no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Antonio Manuel transformou as obras censuradas em textos e imagens diagramados em formato de jornal e convenceu os editores a publicá-las naquele jornal, tornando-as disponíveis aos leitores que o adquirissem. 35 Ao registrar o percurso da visita de Mariana, assim como outros percursos singulares com grupos diferentes desenvolvidos por ela e outros/as integrantes da equipe da ação educativa dessa exposição, observo e sou afetada pela mediação que ela desenvolve. Com as imagens, crio um discurso de natureza não-verbal para destacar os diversos momentos das visitas articulados como um todo integrado ao processo da mediação cultural, fundamentado no conceito de Abordagem Triangular do ensino da arte –voltarei a escrever sobre o assunto mais adiante. Esse momento de produção na oficina completava, assim, o processo de recepção de modo a fazer o sujeito estabelecer conexões com os procedimentos artísticos semelhantes aos que o artista utilizou na elaboração daquela obra, ou do seu conjunto de obras, é uma maneira de garantir a sua experiência de recriação e de ampliar as possibilidades de entendimento, de leitura e de interpretação dos objetos. Posto dessa forma, em vez de circunscrever o desafio se amplia, pois os procedimentos implícitos na elaboração de uma obra são variados, e também inusitados, em especial quando tratam de obras de arte contemporânea, transpondo fronteiras entre as linguagens” (COUTINHO, 2009, p. 179) O ambiente da oficina da ação educativa dessa exposição era espaçoso e poderia acolher pequenos grupos conduzidos por duas ou três educadoras ao mesmo tempo. Em quatro bancadas, os participantes criavam os jornais, por meio de materiais, procedimentos, suportes e recursos que podem ser observados nas imagens a seguir, em visita mediada pela educadora Branca Helena Pimentel. 36 Imagem 5 37 Imagem 6 38 Imagem 7 39 Imagem 8 Com as imagens consteladas, vou elaborando uma narrativa visual que se apresenta como um continuum de acontecimentos percebidos em situações que me afetaram, afinal, não há documentação fotográfica fora da experiência de quem a documenta. São acontecimentos escolhidos, interpretados e registrados por mim, por meio da fotografia, que demarcam minha presença permeável ao que observei ao meu redor. Caminho, observo, contemplo, componho, enquadro, produzo imagens de fazeres artísticos em processos de ideação, experimentação, criação, investigação, crítica, tensão, reflexão, produção e reinvenção. Fazeres compartilhados e entretecidos pelos sujeitos – educadores/as e públicos – que, juntos, participavam de experiências com a arte, fazeres feitos para muitos e com muitos, que vão e vêm, entram em fila na exposição e saem dela para sentar-se em roda na varanda, no zigue-zague da oficina para a exposição ou do ateliê para o jardim. Ao conceber essas experiências pela perspectiva de seus processos no desenrolar de muitos tempos e espaços, nos quais as ações são postas em relação, por meio dessas imagens, deparo-me com o desafio de mantê-las em lugares 40 preestabelecidos, em direção a apenas uma narrativa. Às vezes, as imagens condensam- se e aproximam-se, outras vezes, distanciam-se. Quais imagens escolher? Com qual começar ou continuar junto com o texto? 1.3 Compor Imagem 9 41 Imagem 10 42 Imagem 11 amostra de meu arquivo pessoal, que contém imagens documentais que produzi com câmera fotográfica digital em exposições de arte no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, de 2001 a 2008, em casas históricas do Museu da Cidade de São Paulo, de 2008 a 2010, e com câmera de celular, na exposição Linhas de histórias – o livro ilustrado em sete autores, que foi apresentada em três unidades do Sesc: Santo André (de 08 de julho a 26 de novembro de 2017), Campinas (de 13 de abril a 22 de julho de 2018) e Araraquara (de 15 de setembro a 16 de dezembro de 2018). Às vezes, quando mexo no meu arquivo de imagens fotográficas, tenho uma sensação de desestabilização semelhante à de quando adentro uma exposição de artes visuais. Na exposição, leio textos de paredes em que as obras são apresentadas a partir de determinada ideia e conceito curatorial que as ordena e organiza, por exemplo, cronologicamente ou por núcleos temáticos, em busca de definir possíveis caminhos do meu olhar naquele ambiente. Entretanto, mais alguns passos são suficientes para me fazer sentir imersa em um lugar onde a experiência de fruição e contemplação me desloca para tempos infinitos e lugares imensos de um universo particular. Por onde seguir? Esse deslocamento corporal no ambiente da exposição pode causar sensações de prazer e estranhamento, pois inaugura uma experiência de conhecimento, ainda indefinida, que está permeada por dúvidas, encantamentos e inquietações. O que vejo? Diante daquilo que me surpreende, busco elaborar sentidos com aquilo que sei e as imagens que conheço. Há uma profusão delas. Então, as imagens são ativadas. 43 Elas estão em meus arquivos e começam a ser analisadas, escolhidas, sentidas e pensadas. Observo-as em movimento, em relação. As imagens dançam? Nas cenas que as imagens mostram e a partir delas e também nas de outras imagens ativadas pela minha memória e imaginação, percebo permanências, recorrências, insistências e transformações nos espaços ocupados por fazeres artísticos. E então, ao ser afetada pelas imagens, indago-me acerca desses fazeres: quais espaços ocupam, desocupam, abandonam, invadem, inauguram, transformam? O fazer artístico pode acontecer no ateliê, na exposição, em uma oficina ao ar livre, durante uma caminhada e em espaços virtuais? Como arte educadores/as, no contexto na cidade de São Paulo, não é sempre que temos esses espaços garantidos para desenvolver as nossas proposições com os mais diversos públicos que visitam as exposições de arte nos museus, nos centros culturais, nos Sescs. Quando desafiados/as pela impossibilidade de ocupar ou permanecer em determinados lugares onde nossas práticas artísticas de mediação cultural poderiam ser desenvolvidas, elas são reinventadas, com caixas, baús, carrinhos, bolsas e aventais, que se transformam em ateliês ambulantes. Como e quais transformações conceituais sobre arte e educação ocorrem no âmbito dessas práticas desenvolvidas por diferentes arte educadores ou como idealizamos e concebemos o fazer artístico em nossas visitas, oficinas e ateliês? Por que incorporamos dimensões artísticas e poéticas em nossas propostas de mediação cultural? Quais intencionalidades projetamos para as experiências dos públicos com a arte? Podem ser múltiplas as linguagens, procedimentos e materiais que caracterizam os modos como esses fazeres acontecem, entretanto, o fazer artístico está sempre implicado na produção de novas materialidades? Como o corpo, o movimento e a voz conjugam-se e desvelam materialidades e imaterialidades em nossas práticas educativas nas mais diversas linguagens artísticas? Entretenho-me com as imagens. Experimento seleções, arranjos e combinações. Procuro compreender o que estou fazendo, buscando e descobrindo com elas. Como as relaciono? Arranjo e combinação são conceitos da matemática: arranjo é a possibilidade de diversificar maneiras de organizar um conjunto de objetos em ordem sequencial; e combinação é a 44 possibilidade de diversificar a escolha de objetos de um conjunto maior, sem que sua ordem importe. Na fotografia analógica, por exemplo, um arranjo pode ser desenvolvido desde a produção das imagens, quando observamos, selecionamos e registramos os acontecimentos da realidade nos 24 ou 36 quadros do filme fotográfico, como unidades de um conjunto que pode ser ampliado ou expandido com outros filmes que tivermos à disposição. Com a revelação química do filme, a imagem latente é processada e, ainda que com cores invertidas, torna-se visível por meio do negativo. Então, um arranjo visual é assegurado nesse suporte de base de acetato como uma sequência das imagens de cada fotograma. Na etapa seguinte desse processo, a depender do modo de trabalho de cada fotógrafo/a, esse arranjo pode ser editado e reduzido a arranjos menores quando uma ou mais imagens são selecionadas para a gravação no papel fotográfico. Múltiplas combinações são possíveis logo que selecionamos elementos de um conjunto que pode ser proveniente de uma realidade enquanto fenômeno diante de nossos olhos e do qual estamos imersos para escolher, enquadrar e capturar momentos ou instantes que podem ser recombinados, rearranjados ou reescritos por meio de diferentes ordenações das imagens. Explorar diferentes arranjos e combinações possibilita-me pensar sobre as imagens desde o momento de sua produção, experimentar formas de vê-las e mostrá-las, de construir e de reconstruir significados a partir delas. Ao mexer em meus filmes negativos e diapositivos (slides) enquanto escrevo, lembro-me de um detalhe significativo desse processo com o filme fotográfico 35mm, que acompanhou, a partir da década de 1990, o desenvolvimento e aprimoramento do meu repertório técnico e estético sobre fotografia e imagem – um formato utilizado por amadores e profissionais até a fotografia digital torna-se mais acessível e popular –, pois ele garante a retomada da experiência com o tempo, por intermédio da numeração registrada nas margens inferior e superior do negativo. Ou seja, temos cada imagem em um tempo/ espaço predefinido como número um, dois, três e assim por diante, em um arranjo visual que situa cada imagem em relação ao que foi fotografado antes e depois e, no sentido convencional (ocidental) de leitura da esquerda para a direita e de cima para baixo, que define o ponto de partida e o de chegada desse arranjo. 45 O contato fotográfico (ou folha de contato) – produzido por meio da impressão direta do rolo de filme ou de sequência de negativos ou positivos em papel fotossensível – pode ser usado como um diário ou bloco de notas visuais que possibilita visão daquilo que capturamos no filme, como índice do nosso processo criativo ou suporte que indicaria uma cronologia dos atos de tomada do nosso olhar. Em um dossiê sobre as folhas de contato como materialidade do processo de criação fotográfica, os pesquisadores Camila Mangueira Soares e Fabrício Fava provocam-me reflexões: o ato de tomada enquanto definição estática do pensamento fotográfico reflete uma lógica de simplificação e linearidade atrelada ao seu processo de criação. Viés que possui vínculo com uma noção maquínica, onde podemos encontrar, por exemplo, expressa na linearidade dos manuais de instruções de uso de aparelhos, e cuja herança está no berço industrial. Assim, sob essa ótica de simplificação, o fazer fotográfico parece compreendido como uma espécie de relógio que, por sua vez, opera num fluxo ordenado de passos retilíneos e etapas pré-determinadas para gerar visibilidade. (SOARES; FAVA, 2017, p. 33) Na perspectiva dos processos subjetivos de criação, essa lógica de simplificação e linearidade pode ser rompida pelos modos diversos de fazer fotográfico de cada um de nós: as folhas de contato podem ser utilizadas como esboços, nos quais as imagens podem ser riscadas, descartadas, marcadas, destacadas, selecionadas, reenquadradas e recortadas, entre uma infinidade de gestos e ações, que também podem ser previstos nas folhas de contato digitais, por meio de softwares de gestão de imagens, que vão dos mais populares e acessíveis, como o Google Fotos, até os mais sofisticados, como o Adobe Bridge ou o Lightroom. As folhas de contato, como recurso de criação, indicam possibilidades de ruptura da lógica linear “determinada e irreversível ligada à construção de sentido na fotografia” para além do ato de tomada, para percebermos a “mobilidade do pensamento fotográfico” em contextos de criação (FAVA; SOARES, 2017, p.31 – 41), por meio da infinidade de interações entre pensamento e materialidade imbricados com os processos fotográficos analógicos e digitais. 46 Imagem 12 Meu pensamento ganha um movimento circular. O que o move? Ao consultar meus arquivos digitais, percebo que a profusão de imagens é gigantesca, quase um caos. Sinto um desespero, e meus pensamentos e sentimentos oscilam. Então, faço uma pausa, respiro fundo, fecho os olhos. Penso na estratégia que desenvolvi para me relacionar com as imagens no início do percurso que me trouxe até este ponto da narrativa: a constelação de imagens para este doutorado. Começo a lembrar de detalhes das cenas fotografadas das visitas educativas. São gestos, expressões, cenas e materialidades em imagens que, relacionadas entre si, indicam sequências, interdependências e circularidades entre momentos que se tocam, se juntam, se sobrepõem: momentos nos quais os/as educadores/as estão propondo ações que envolvem a observação, contemplação, fruição, análise, interpretação, contextualização e fazer artístico na exposição ou em outros ambientes anexos, como o ateliê ou oficina. Jogo com minhas imagens para testar possibilidades de constelações visuais, experimento sequências, encaixes, transições, espaços vazios. Elaboro nova composição. 47 Imagem 13 48 Imagem 14 49 Imagem 15 50 Imagem 16 51 Imagem 17 52 Imagem 18 53 Então escolho algumas imagens que documentei da visita do educador Breno Menezes com um grupo de estudantes de uma escola pública da cidade de São Paulo à exposição Impressões Originais: a gravura desde o século XV, que aconteceu no CCBB/SP, de 31 de outubro de 2006 a 07 de janeiro de 2007 (conjunto de imagens apresentadas). O momento da oficina de arte educação dedicado ao fazer arte propriamente dito como produção de materialidades – uma proposta que recorre ao procedimento de impressão da gravura – aconteceu no fim da visita, no entanto, lembro-me de que, no percurso do Breno, o fazer artístico parecia se mover entre os muitos tempos e espaços da sua mediação: diante de uma xilogravura, ele conversou com as crianças sobre a técnica de escavar áreas na matriz de madeira, que funcionam como uma imagem em negativo – como um carimbo – para obter a imagem final e propôs que elas investigassem, com uma lupa, as texturas aveludadas da impressão de uma gravura em metal. Depois, as convocou a imaginar que um cartaz foi produzido a partir de um desenho feito sobre a pedra calcária, entintado e reproduzido em um papel. Ele mostrou e pediu que as crianças tocassem e manuseassem uma matriz de metal com desenhos de sua autoria. Ele contou a elas as nuances de seu próprio processo de criação. Depois de atravessarmos essas cenas fotográficas, adentramos nos ambientes expositivos nos quais o grupo e o educador percorrem. Eles mergulham nos contextos históricos, sociais, culturais e artísticos e nos processos de impressão produzidos desde o século 15, por meio das articulações e encadeamentos que o educador propõe em relação ao conjunto das obras expostas e ao se aproximarem de uma área cenográfica que evoca o ambiente de um ateliê de gravura. Essas cenografias são cenários e reconstituições em exposições que “remetem a um mundo ausente, situado fora do museu, afastado no tempo e no espaço”, por meio de “ajuda do texto, de cenografia, de documentos, de acessórios e de outros instrumentos museográficos” que evocam ou reconstituem um contexto e um ambiente para as obras ou coleções, “a fim de sugerir esse mundo, de criar uma imagem dele” (GOB & DROUGHET, 2019, p. 169 – 170). Em diálogo com o discurso curatorial da exposição Impressões originais, que enfatizava a história das técnicas e processos de impressão, a ação educativa dessa exposição sugeriu: 54 construir com os visitantes reflexões sobre a gravura, seus processos de impressão e sua influência em nossa vida cotidiana. Para isso, propomos um diálogo sobre a exposição, suas obras, seus contextos e uma experiência reflexiva com uma atividade de impressão, explorando a possibilidade da divulgação de uma imagem ou de uma ideia4. Com minhas imagens fotográficas, posso dizer que o fazer artístico move algo nas pessoas. A minha percepção é a de que ele interpenetra e perpassa os muitos momentos da experiência com a arte, mesmo quando ainda é só vislumbre de uma ideia incerta e imprecisa, um desejo ou busca de algo a ser concretizado mais adiante, talvez no museu, na escola, na cidade, na vida das pessoas que se desdobra em seus cotidianos. O nosso desejo de fazer arte pode ser movido quando observamos as qualidades de um objeto artístico e conversamos sobre ele, confabulamos, elaboramos contextualizações, inter-relacionamos informações e levantamos hipóteses sobre o que estamos percebendo. Em seu texto Sobre mapas e bússolas: apontamentos a respeito da abordagem triangular, Regina Stela Machado diz que é nesse instante da leitura que percebemos as “ressonâncias e repercussões que a obra provoca” em nós “uma maneira particular e única” que é a de “viver a experiência estética, fruto da compreensão, da intimidade, dos insigths” e do nosso contato com a arte, de modo que a “leitura, fruto do exercício da imaginação e da percepção, pode tornar-se assim produção de conhecimento estético” (MACHADO, 2010, p. 71). Há algo gerado no encontro com a arte que impulsiona a nossa sensibilidade, imaginação e pensamento: um detalhe percebido no objeto artístico, uma sonoridade que emana no ambiente, uma pergunta que fazemos uns aos outros, uma história compartilhada. Algo nos entretém, nos provoca, nos toca. Ou nos afasta, causa repulsa ou receio? Regina Machado situa os três eixos de aprendizagem artística – produção, leitura e contextualização – como “conjuntos possíveis de ações complementares e interconectadas” e que podem se “manifestar concretamente em redes intermináveis de relações”, e o eixo da produção envolve ações de configurações (toda vez que alguém produz uma forma), ou seja, refere-se à realização de uma escultura, dança, música, filme, ou outras 4 Trecho do material educativo da ação educativa Impressões Originais: a gravura desde o século XV, que teve pesquisa, conceito e desenvolvimento do Arteducação Produção. 55 formas de produção artística; refere-se à produção de pensamentos sobre arte, por exemplo, quando alguém escreve um texto dando forma a ideias; refere-se a experiências de leitura, quando alguém, diante de uma obra de arte, configura para si mesmo um encontro e “entende poeticamente”, quer dizer, realiza para si mesmo uma forma significativa de encontro com aquela obra. (MACHADO, 2010, p. 65) O eixo da produção abarca ações “que caracterizam a aprendizagem do fazer artístico em contato com os materiais e princípios de formatividade das diferentes linguagens artísticas”, sendo ações que se referem à nossa capacidade de produzir arte, “mas também a capacidade de produzir leituras e relações conceituais, tão importantes para a experiência da Arte e que também integram a concretização de formas artísticas” (MACHADO, 2010, p. 65). Ao constelar as imagens de experiências de mediação cultural, evidencio as dimensões de leitura, contextualização e produção em articulação e conjugadas de tal modo que levariam, quase certamente, as pessoas do público a terem uma experiência significativa de aprendizado com a arte. Mas essas dimensões do aprender arte sempre estiveram relacionadas? Podem afastar-se ou conflitar-se nas práticas de educadoras e educadores de outros tempos e espaços? Continuo investigando minhas imagens de outros projetos. As ações educativas que registrei ocorreram em contextos plurais: centros culturais, casas históricas do museu da cidade, Sescs, entre outros. Em cada um deles, as estratégias educativas são afetadas e modeladas nas e pelas relações com a arte, a arquitetura e a cidade que as educadoras e educadores acessam e investigam, por meio dos acervos, arquivos e exposições dessas instituições culturais em que atuam. Nessa relação, que também é indicativa dos modos como cada instituição define e pratica as suas políticas de preservação, comunicação e difusão, é que a mediação se dá de modos plurais, seja em ações pontuais nas exposições temporárias de curta a longa duração, seja em instâncias de projetos educativos com duração predeterminada ou em ações e projetos desenvolvidos no âmbito de programas permanentes. Como os modos de operar que se desenrolam nas instituições convidam, autorizam, acolhem, incentivam, 56 acessibilizam e promovem a interação e participação dos sujeitos envolvidos nos processos de mediação cultural? Na complexidade de cada um desses contextos, efetivam-se os processos formativos individuais e coletivos dos educativos, processos ora mais ora menos aprofundados e duradouros, de onde emergem as distintas práticas de mediação cultural. Embora inseridas no circuito de identidade cultural de cada instituição, autorias e autonomias são tensionadas, engendradas e demarcadas por meio dessas práticas. Elas possuem dimensão poética, que é também ética, política e técnica. Uma dimensão que é constituída, manifestada e reelaborada nos contextos culturais, sociais e históricos em que as educadoras e educadores vivem, por meio de suas histórias, repertórios, saberes, escolhas, interesses e investigações individuais e coletivas. Em sua dimensão ética e política, essas práticas refletem lutas e conquistas de vida com a arte e a educação e, em sua dimensão poética e técnica, imprimem particularidades nos fazeres artísticos de determinados corpos-coletivos de educativos. Como convergir tantas perguntas nesta escrita? 1.4 Respirar O hábito de produzir fotografias de exposições e de ações educativas é uma extensão do meu trabalho como educadora. É um hábito que se construiu no entretecer de minhas experiências, na intimidade que desenvolvi em relação a atmosferas estéticas. Fotografar, para mim, é busca movida pelo desejo de investigar aquilo que está entre as coisas, pessoas e os ambientes. Para ampliar compreensão sobre o que pode ser essa atmosfera na qual me coloco em estado de presença, trago Gernot Böhme, que situa o conceito de “atmosfera” no discurso estético como algo indeterminado, difuso: As atmosferas são indeterminadas sobretudo no que diz respeito ao seu estado ontológico. Não temos certeza se devemos atribuí-las aos objetos, aos ambientes dos quais elas procedem ou aos sujeitos que as experimentam. Também não temos certeza onde elas estão. Elas parecem preencher o espaço com uma certa tonalidade de sensação, tal como uma névoa. (BÖHME, 1993, p. 2) 57 Imagem 19 Ao ampliar esse conceito pelo viés da nova estética, Böhme chama atenção para a relação entre as qualidades dos ambientes e estados humanos. Para ele, “esse ‘e’, esse entre, por meio do qual qualidades ambientais e estados se relacionam, é a atmosfera”. Diferentemente do que ele chama de velha estética, que seria essencialmente a estética do julgamento preocupada com “juízos, discussões conversações” que oferecem vocabulário à crítica e à história da arte, a nova estética está preocupada com a experiência sensível, com a sensibilidade e com a experiência da presença da arte, ou seja, com a sua atmosfera. (BÖHME, 1993, p. 3 – 4) A ideia da câmera fotográfica como dispositivo para olhar me fisgou quando a fotografia analógica emerge, com potência, como linguagem artística e poética, durante o meu trabalho de conclusão de curso (TCC) no curso de Artes Plásticas, entre 1994 e 1995. Naquele momento, percebi a nova forma de olhar desenvolvendo-se em mim. Nessa mesma época, Angela Di Sessa, professora das disciplinas Fotografia 1 e 2 e orientadora de meu TCC, apresentou aos alunos a produção e pensamento de Henri 58 Cartier-Bresson (1908 – 2004), por intermédio do famoso texto O momento decisivo5. Nós lemos a fotocópia da versão transcrita para o português pela Bloch Editores. Em 2015, o texto foi publicado no Brasil. A partir de suas experiências como fotógrafo e fotojornalista, Bresson traz ensinamentos para um olhar atento, comprometido com os acontecimentos ao redor. Um olhar que não pode hesitar, ser vago ou deixar-se levar pelo descuido: É para cada um de nós, partindo de nosso olho, que começa o espaço que vai se ampliando até o infinito, espaço presente que nos surpreende com mais ou menos intensidade e que vai imediatamente fechar-se nas nossas lembranças e ali modificar-se. De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa o momento preciso. Nós jogamos com coisas que desaparecem, e quando desapareceram, é impossível fazê-las reviver (BRESSON, 2015, p. 18). Bresson oferece lições que são para o olhar e também para a vida. Nesse texto, ao refletir sobre a relação entre forma e conteúdo, entre o reconhecimento da significação de um acontecimento e o da “organização rigorosa das formas percebidas que exprimem” esse acontecimento, ele diz: “é vivendo que nós nos descobrimos; ao mesmo tempo que descobrimos o mundo exterior, ele nos forma, mas nós também podemos agir sobre ele. Deve-se estabelecer um equilíbrio entre esses dois mundos, o interior e o exterior, que num diálogo constante formam apenas um, e é este mundo que precisamos comunicar” (2015, p. 29). Um olhar que vê o mundo e se vê através do obturador da câmera, um olhar que repousa sobre as peles e plasticidades das coisas, um olhar que investiga e compõe vagarosamente – e não vagamente – aquilo que se movimenta nos arredores do seu próprio corpo, que percorre as sutilezas do mundo, pelo caminhar lento, para que seja possível sentir a própria respiração. Imagens que respiram. As relações com a produção da imagem efetuam-se em processualidade, como acontecimentos, durante a ação de fotografar com a câmera em punho ou com o celular. 5 O momento decisivo foi publicado originalmente em 1952 como Images à la Sauvette, com textos e fotografias de Henri Cartier-Bresson, uma linda capa com colagens do artista francês Henri Matisse e a colaboração de Tériade e pela Editions Verve, Paris. O livro trazia um pequeno conjunto das melhores fotografias de Cartier-Bresson até aquele momento, além de escritos sobre experiências que marcariam a história da fotografia e memória coletiva de gerações de fotógrafas e fotógrafos. No mesmo ano, o livro foi publicado em inglês. 59 São relações com durabilidade, embora com variação de tempo, elaboradas desde antes, imediatamente após a captação das imagens ou estendendo-se mais adiante, aos momentos de análise, edição, arquivamento e publicação. A cada contato com as imagens, portanto, ocorrem reelaborações de sentido acerca das experiências vividas no contexto em que foram produzidas. Na relação sensível com elas, elaboro sentidos sobre o que vivencio, percebo e vejo. Elaboro um pensamento visual acerca do vivido e não apenas o analiso a partir do que já sei e do que as imagens reapresentam de determinado tempo/ espaço, como convencionalmente nos acostumamos a interpretar a fotografia. Tenho necessidade de ir além das primeiras impressões, não fico indiferente a elas. Investigo o que não está ali, o que pode ter se perdido por alguma falha do equipamento fotográfico, o que pode não ter sido visto por ligeira distração, o que ficou à margem de minha experiência e escapou do enquadramento do olhar. Assim, a partir dessa relação investigativa e criativa com as imagens, faço seleções, recortes, composições, edições e escolhas do que será excluído ou incluído, apagado ou preservado. O desejo que emerge dessa relação com as imagens é contar uma história elaborada na fricção entre aquilo que as imagens nos mostram e aquilo que a nossa visão nos priva de ver. O que eu não vejo ou ainda não percebi? O que está ausente? Aonde leva o que vejo? O que não está registrado na imagem, mas faz parte de sua história? Vejo-me pensando em imagens. Preciso recorrer a outro pesquisador da imagem. “O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha”, escreve Didi- Huberman, em seu livro O que vemos, o que nos olha. Deparo-me com a sensação de que algo me olha e, ao mesmo tempo, me habita. “Inelutável, porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha”, continua o autor ao abrir o capítulo 1. A inelutável cisão do ver com o convite de nos levar como leitores-aprendizes a indagar sobre um paradoxo do ver “em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois” (2010, p. 29). Leio todo o livro. Mas o desafio de trazê-lo como pensamento vivo para minha narrativa é imenso. Suas ideias provocam meu desassossego em relação as imagens que vão se encadeando e persistindo: as imagens de ateliês, de lugares de criação, das fazeções artísticas. “Quando vemos o que está diante de nós, por que uma outra coisa sempre nos olha, impondo um em, um dentro?” (HUBERMAN, 2010, p. 30). Um olhar erótico? 60 1.5 Imagem erótica Imagem 20 Um lugar que é transformado no e pelo tempo e, com isso, traz para esta pesquisa possibilidades de [re]pensar e apresentar múltiplos sentidos para as ações educativas, enquanto fazer artístico, e de investigar ecos e ressonâncias de fazeres de outros tempos e lugares da educação. Esse lugar é um demarcador da presença e permanência (e insistência) de um setor educativo em uma instituição, pois, muitas vezes, ele é a própria sala do educativo, onde acontecem atividades internas – de estudo, de produção, de reuniões, de acervo de materiais, entre outras –, com as ações abertas aos públicos, e isso exige que o espaço se torna um lugar multifuncional (em termos físicos, por exemplo, de arranjos do mobiliário) e com planejamento flexível das atividades pelos educadores. O convite é para conhecer esse lugar. 61 Imagem 21 Observe essa imagem, entre. Imagine-se neste lugar. Explore-o, perceba a sua dimensão, suas cores e luzes, o clima. Nas paredes laterais, existem espelhos, mire-os, observe-se. O que é o erotismo para você? Observe ao redor, há mais pessoas junto com você nesse ambiente, mova-se entre elas, silenciosa e delicadamente. Escolha um dos espelhos e coloque-se em frente a ele. Concentre-se na sua imagem. Pegue a caneta hidrográfica para que você possa se desenhar no espelho. Agora vamos caminhar pelo ambiente e observar o desenho de todos. Como foi a sensação de olhar-se e desenhar- se? Conversamos na exposição erotica sobre o erotismo que configura o ato de olhar. Onde o erotismo está presente? 62 Imagem 22 63 Imagem 23 Imagens apresentadas: Desenhos no espelho. Produções dos educadores Auber Bettinelli e Carolina Zolli. 2005. Acervo da autora. 64 Com esses trechos e imagens, procuro (re)elaborar o momento de uma visita educativa na exposição erotica – os sentidos na arte, que aconteceu no CCBB – SP, entre outubro de 2005 e janeiro de 2006, com curadoria de Tadeu Chiarelli. Para escavar a memória, remexo nos meus arquivos de imagens documentais desse período e releio o material educativo produzido pela equipe educativa da qual eu participava para essa exposição. Nele, lê-se: ...a ação educativa da exposição "erotica - os sentidos da arte" convida você a ampliar algumas questões que se relacionam com o universo da exposição. A exposição apresenta uma seleção de obras de arte e objetos arqueológicos pertencentes a diversas coleções nacionais e internacionais. A escolha desses trabalhos foi feita por um curador e revelam suas ideias acerca do erotismo na arte. Assim como o curador, cada pessoa pode ter uma ideia diferente sobre o que é erótico, essa ideia varia de acordo com seus valores pessoais e contexto histórico.8 Em seguida, temos esta pergunta: "O que é o erotismo para você?" e de um espaço para anotações ou desenhos, essas informações contextuais e proposição de criação compunham esse material gráfico e refletiam conceitos e abordagem educativa que também estruturavam as visitas educativas. No material, continuamos a ler: Arte emociona e faz pensar. Mas qual o significado de uma obra de arte? Não há resposta definitiva para esta pergunta ilusoriamente simples. Afinal, a riqueza de uma obra de arte está diretamente relacionada à sua capacidade de produzir significados, muitas vezes aparentemente incompreensíveis. Para compreender uma obra de arte é preciso vivenciá-la. O objetivo da ação educativa é contextualizar as obras e instigar o visitante a realizar a sua própria interpretação. De maneira interativa, visa estimular o visitante a refletir criticamente sobre a arte e a sua relação com o mundo e com o seu universo.6 Esse trecho sintetiza a perspectiva da Abordagem Triangular nessa e em outras ações educativas da qual integrei, junto com o coletivo Arteducação Produções, nesse centro cultural, em exposições que aconteceram entre o ano de sua abertura, em 2001, até 2008. Outras equipes também desenvolveram ações educativas nesse período, havia um revezamento, pois precisávamos esperar que cada projeto de exposição ou ciclo de exposições temporárias fossem aprovados e patrocinados por meio das leis de incentivo 6 Material educativo impresso elaborado pelo Programa Educativo – Arteducação Produções para a exposição erotica, os sentidos da arte, no CCBB SP, de 12.10.2005 a 08.01.2006. 65 à cultura. Além de nós, as ações educativas para outras exposições foram desenvolvidas por outras duas equipes, coordenadas pelas arte educadoras Maria Christina de Souza Lima Rizzi e Denyse Emerich. Embora fossem diferentes, os projetos educativos partilhavam da Abordagem Triangular como um conceito comum que alicerçava a concepção e o desenvolvimento das propostas, com oficinas para as visitas agendadas de público escolar ou espontâneo. Erotismo na arte e no ato de olhar eram alguns dos "fios condutores" da visita, como costumávamos dizer sobre aspectos da exposição que elegíamos como pertinentes e potentes para serem desenvolvidos com o público agendado. Nesse caso específico, o público era prioritariamente jovem, pois a exposição tinha indicação etária para maiores de 16 anos, por isso, o teor das conversas em nossas visitas considerava sutilezas das subjetividades dos adolescentes e jovens. Para a ação educativa dessa exposição, assim como acontecia em todos os outros projetos, esses primeiros fios de conversas eram escolhidos a partir de um processo intenso de pesquisa, reflexão, experimentação e elaboração entre a equipe que envolvia coordenação conceitual e pedagógica, supervisão, educadores e produção, durante o período de pré-produção, que durava entre dois a três meses, e antecedia a abertura da exposição e, portanto, a ação educativa em si. Esse período abrangia a formação inicial dos educadores, assunto sobre o qual me debrucei em minha dissertação de mestrado Experiências de educadores: convite para reflexão sobre a formação contínua. Para este momento, quero relembrar mais um fragmento dessa experiência em erotica, que foi um dos encontros de formação com uma das coordenadoras do projeto, a artista e arte educadora Ana Amália Barbosa. O convite é para pensar junto com você, a partir deste exemplo, como o fazer que o/a educador/a desenvolverá “lá na frente" com o público começa a ser elaborado muito antes dele "entrar em cena" na ação educativa na exposição. Para quem é professor/a, esse momento equivale aos planejamentos e formações com seus pares, antes das aulas começarem. Para um/a artista, seria a fase de ensaios, das experimentações, dos esboços. Embora as intenções sejam diferentes, em comum são momentos embrionários dos processos de criação que se desdobram em uma proposição educativa ou em um objeto ou manifestação artística. 66 As memórias e reflexões, a partir dessa experiência, que detalho nos próximos trechos também estão tecidas no artigo A mediação cultural pela perspectiva da arte – educação: comentários sobre uma experiência (COUTINHO e LIA, 2018), que escrevi em coautoria com minha orientadora, Rejane Galvão Coutinho. Tendo como um dos tópicos de nossas investigações o sentido de experiência estética de John Dewey, que ancora a conceituação da Abordagem Triangular, investimos na ideia de que tanto a compreensão da arte pelos públicos como pelos educadores também passava pela produção ou fazer artístico. Está contida aqui a ideia de que "para compreender uma obra de arte é preciso vivenciá-la". Nessa perspectiva que partilho com vocês, quero salientar a busca por coerência teórica e metodológica entre a formação dos educadores e a concepção da proposição prático reflexiva para a ação educativa da exposição erotica. Nesse exemplo, é o desenho que escolho como mote para revelar essa articulação entre os fazeres experimentados nos encontros de formação e os fazeres propostos na ação educativa. Foi em uma tarde de outubro de 2005, em um dos encontros de formação inicial, com um grupo de 15 arte educadores que atuariam na exposição, que desenhamos. Ou nos formamos desenhando? Ana Amália propôs um exercício de desenho em que ela foi modelo, e nós a desenhamos a partir de diferentes pontos de vista. Começou com ela apresentando instruções no PPT: “Desenhar é marcar uma superfície com um objeto pontudo. Isso pode ser feito de inúmeras maneiras, mas o principal está em como olhamos. Imaginem que seus olhos estão na sua mão que desenha, e vamos desenhar" (BARBOSA, 2005).7 Ana Amália considerou o fato de que as educadoras e os educadores tinham formação em diversas áreas do conhecimento, não eram