UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA AVALIAÇÃO HEPÁTICA POR MEIO DOS EXAMES IMAGINOLÓGICOS, BIOQUÍMICOS E CITOPATOLÓGICO EM PAPAGAIOS VERDADEIROS (Amazona aestiva) MANTIDOS SOB CUIDADOS HUMANOS THATIANA FELIX SANCHES BOTUCATU - SP 2023 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA AVALIAÇÃO HEPÁTICA POR MEIO DOS EXAMES IMAGINOLÓGICOS, BIOQUÍMICOS E CITOPATOLÓGICO EM PAPAGAIOS VERDADEIROS (Amazona aestiva) MANTIDOS SOB CUIDADOS HUMANOS THATIANA FELIX SANCHES Dissertação apresentada junto ao programa de Pós-Graduação em Animais Selvagens para obtenção do título de Mestre. Orientadora: Prof.a Titular Maria Jaqueline Mamprim BOTUCATU - SP 2023 1 FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA SEÇÃO TÉC. AQUIS. TRATAMENTO DA INFORM. DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - CÂMPUS DE BOTUCATU - UNESP BIBLIOTECÁRIA RESPONSÁVEL: ROSEMEIRE APARECIDA VICENTE-CRB 8/5651 Sanches, Thatiana Felix. Avaliação hepática por meio dos exames imaginológicos, bioquímicos e citopatológico em papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) mantidos sob cuidados humanos / Thatiana Felix Sanches. - Botucatu, 2023 Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia Orientador: Maria Jaqueline Mamprim Capes: 50500007 1. Papagaio (Ave). 2. Fígado - Doenças. 3. Ultrassom. 4. Citopatologia. 5. Diagnóstico por imagem. 6. Patologia clinica veterinária. Palavras-chave: Citopatologia por agulha fina; Diagnóstico por imagem; Hepatopatia; Patologia clínica; Ultrassom. 2 Mini Biografia da Autora Graduação em medicina veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) em dezembro de 2012. Realizou Programa de Aprimoramento Profissional e Saúde Pública em Medicina de Animais Selvagens pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCAV- Unesp) – Campus de Jaboticabal, durante o período de março de 2013 a fevereiro de 2015. Durante os anos de 2015 a 2021 atuou como médica veterinária na prática de clínica médica de animais silvestres e exóticos mantidos como pets na cidade de São Paulo, capital. Desde de março de 2021 é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Animais Selvagens da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FMVZ-Unesp) – Campus de Botucatu. 3 Nome da autora: Thatiana Felix Sanches Título: AVALIAÇÃO HEPÁTICA POR MEIO DOS EXAMES IMAGINOLÓGICOS, BIOQUÍMICOS E CITOPATÓGICO EM PAPAGAIOS VERDADEIROS (Amazona aestiva) MANTIDOS SOB CUIDADOS HUMANOS. COMISSÃO EXAMINADORA Profa. Dra. Titular Maria Jaqueline Mamprim Presidente e Orientadora Departamento de Cirurgia Veterinária e Reprodução Animal Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Unesp – Botucatu Profa. Dra. Titular Sheila Canevese Rahal Membro Departamento de Cirurgia Veterinária e Reprodução Animal Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Unesp – Botucatu M. V. Dra. Isabela Cristina de Souza Marques Membro Faculdade de Tecnologia em Saúde – Fatesa – Ribeirão Preto Data da Defesa: 14 de junho de 2023. 4 Agradecimentos institucionais: O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001. À CAPES pela bolsa de estudos, número do processo 88887.641755/2021-00. À FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), convênio número 01.12.0530.00. Ao CEMPAS - Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens da FMVZ. Agradecimentos Agradeço, primeiramente, com muito carinho aos papagaios verdadeiros que fizeram parte deste estudo, sem eles este trabalho não seria possível. A Profa. Dra. Maria Jaqueline Mamprim por ter me aceitado como orientada e por ter abraçado meu projeto de mestrado. Obrigada por essa oportunidade linda e por ter aberto as portas do Setor de Diagnóstico por Imagem para que eu pudesse aprender tanto. A Dra. Jeana Pereira da Silva por toda a ajuda e dedicação com a realização dos exames de imagem, com o desenvolvimento do projeto e também por ter me aguentado atrás de você pra acompanhar os exames de outros projetos. A Vanessa Wickbold, Priscila Zorzetto e Karina Menezes do Laboratório de Patologia Clínica Veterinária (LPCVet) por ter disponibilizado o laboratório para que os exames bioquímicos fossem processados, e por terem ficado até depois do expediente rodando meu material. Muito obrigada meninas por tornarem o laboratório uma segunda casa pra mim. Ao Alexandre Battazza e a Fernanda Zuliani pela realização da leitura das lâminas de citopatologia e por aceitarem o desafio. As residentes do Serviço de Diagnóstico por Imagem Paula Campbell, Andriele Suppi, Alice Jorge, Amanda Ishi por todo carinho e paciência em me explicar e ensinar tantas coisas sobre as diferentes modalidades do diagnóstico por imagem. Vocês foram fundamentais para meu crescimento profissional nessa especialidade. Obrigada também pelos momentos de descontração e por fazerem do Setor de Imagem o lugar mais leve e acolhedor do HV. A Profa. Dra. Leticia Rocha Inamassu por me acolher em suas aulas e nas discussões dos casos da rotina no Setor de Diagnóstico por Imagem, pelos ensinamentos, pelas dicas e pelos momentos de descontração também. Aos professores do Laboratório Clínico Veterinário Profa. Dra. Regina Kiomi Takahira, Prof. Dr. Paulo Fernandes Marcusso e, em especial a Profa. Dra. Livia Fagundes Moraes, por terem me acolhido e ensinado tantas coisas sobre o mundo da patologia 1 clínica veterinária e por terem me mostrado tantas coisas na arte da docência. Muito obrigada por terem me dado essa oportunidade e pelo carinho. Aos funcionários e residentes do Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (CEMPAS) por terem disponibilizado os animais e o espaço para que eu pudesse realizar o estudo. E em especial ao Senhor Levi por ter me ajudado com o manejo dos papagaios e por todo o carinho com os animais. A minha mãe, Fatima, e a minha vó, Patrocínia, pelo apoio e orações, e aos meus sogros, Conceição e Samuel, que nos ajudaram tanto com a mudança para Botucatu. Ao meu marido, Fernando, por ter embarcado nessa experiência comigo. Por termos realizado nosso sonho de adolescente, da época que estávamos no cursinho pré- vestibular, de estudar na mesma universidade. Às vezes, nem imaginamos que sonhos que foram deixados para trás podem se realizar de uma forma diferente e inesperada. Obrigada por todo amor, carinho e paciência, principalmente, nos momentos difíceis. E aos meus filhos felinos Sara, Suzy, Simon e Stella por sempre ficarem comigo deitados no meu colo, pisando no computador ou passando em frente a tela, pedindo carinho ou simplesmente deitados ao meu lado me fazendo companhia enquanto eu passava horas escrevendo ou estudando. Vocês tornaram tudo mais leve e cheio de amor. Lista de tabelas Capítulo 2. Artigos científicos Artigo 1. Exame Ultrassonográfico e Elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios-verdadeiros (Amazonas aestiva) hígidos Tabela 1. Resultados obtidos nas mensurações realizadas através da elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios verdadeiros (Amazona aestiva). Artigo 2. Mensurações da silhueta hepática em exame radiográfico de papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) hígidos Tabela 1. Resultados obtidos nas mensurações da silhueta hepática no exame radiográfico na projeção ventrodorsal. Artigo 3. Avaliação comparativa dos exames hepáticos de bioquímica e citopatologia por agulha fina em papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) Tabela 1. Resultados dos exames bioquímicos séricos para avaliação hepática de Amazona aestiva. Tabela 2. Número de aves que obtiveram diferentes valores de AST de acordo com o resultado da citopatologia por agulha fina. Lista de figuras Capítulo 1. Considerações iniciais 3. Revisão de literatura Figura 1. Projeção radiográfica ventrodorsal com esquema das mensurações realizadas para a avaliação da silhueta hepática. A-B: largura cintura da ampulheta cardiohepática; C-D: largura da silhueta hepática em sua maior dimensão; E-F: largura hepática direita. Fonte: SANCHES et al., 2023. Figura 2. Imagem ultrassonográfica modo B do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) em corte transversal. É possível observar o parênquima grosseiro e identificar os lobos hepáticos direito (D) e esquerdo (E) e o coração (C). Fonte: SANCHES, 2023. Capítulo 2. Artigos científicos Artigo 1. Exame Ultrassonográfico e Elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios-verdadeiros (Amazonas aestiva) hígidos Figura 1. Imagem ultrassonográfica modo B do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) em corte transversal. É possível observar o parênquima grosseiro e identificar os lobos hepáticos direito (D) e esquerdo (E). Note o íntimo contato do ápice cardíaco (a) com os lobos hepáticos, (c) coração. Figura 2. Imagem Ultrassonográfica 2D Shear Wave do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva). A. Imagem ultrassonográfica do lobo direito hepático. B. Realização das mensurações na ROI. Artigo 2. Mensurações da silhueta hepática em exame radiográfico de papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) hígidos Figura 1. Projeção radiográfica ventrodorsal com esquema das mensurações realizadas para a avaliação da silhueta hepática. A-B: largura cintura da ampulheta cardiohepática (LCA); C-D: largura da silhueta hepática em sua maior dimensão (LSH); E-F: largura hepática direita (LHD); G-H: distância esterno-costela direita (DEC). LISTA DE ABREVIATURAS 2D SWE – two-dimensional Shear Wave elastography ALT – alanina aminotransferase ARFI – acoustic radiation force impulse AST – aspartato aminotransferase CAF – citopatologia por agulha fina Cempas – Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens CEUA – Comissão de Ética no Uso de Animais CPK – creatinina fosfoquinase E – Módulo de Young EMR – elastography magnetic resonance FA – fosfatase alcalina FMVZ – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia g - grama GGT – gama glutamiltransferase GLDH – glutamato desidrogenase kg – quilograma kPa – quilopascoal m/s – metros por segundo ml – mililitros PP – piroxidal 5-fosfato pSWE – point Shear Wave ROI – region of interest SISBIO – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade SWE – Shear wave TE – transiente elastography Unesp – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista Filho” 2 SUMÁRIO RESUMO ........................................................................................................ 3 ABSTRACT .................................................................................................... 4 CAPÍTULO 1: Considerações iniciais ............................................................. 5 1. Introdução ................................................................................................. 6 2. Objetivos ................................................................................................... 8 3. Revisão de literatura ................................................................................ 8 3.1 Psitaciformes ....................................................................................................... 8 3.2 Anatomia e fisiologia hepática ............................................................................ 9 3.3 Hepatopatias em psitacídeos ............................................................................ 10 3.4 Métodos diagnósticos das hepatopatias em psitacídeos ................................. 13 4. Referências Bibliográficas ..................................................................... 30 CAPÍTULO 2: Artigos científicos .................................................................. 38 Artigo 1. Exame Ultrassonográfico e Elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios-verdadeiros (Amazonas aestiva) hígidos .............. 39 Resumo ................................................................................................................... 39 1. Introdução ............................................................................................................ 39 2. Material e Métodos .............................................................................................. 41 3. Resultados ........................................................................................................... 44 4. Discussão ............................................................................................................ 46 5. Conclusão ............................................................................................................ 49 6. Referências ......................................................................................................... 49 Artigo 2. Mensurações da silhueta hepática em exame radiográfico de papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) hígidos ................................. 53 Resumo ................................................................................................................... 53 1. Introdução ............................................................................................................ 53 2. Material e Métodos .............................................................................................. 54 3. Resultados ........................................................................................................... 56 4. Discussão ............................................................................................................ 57 5. Conclusão ............................................................................................................ 60 6. Referências ......................................................................................................... 60 Artigo 3. Avaliação comparativa dos exames hepáticos de bioquímica e citopatologia por agulha fina em papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) ........................................................................................................ 63 Resumo ................................................................................................................... 63 1. Introdução ............................................................................................................ 63 2. Material e Métodos .............................................................................................. 64 3. Resultados ........................................................................................................... 66 4. Discussão ............................................................................................................ 67 5. Conclusão ............................................................................................................ 73 6. Referências ......................................................................................................... 73 Apêndices ................................................................................................... 76 3 SANCHES, T. F. Avaliação hepática por meio dos exames imaginológicos, bioquímicos e citopatológico em papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) mantidos sob cuidados humanos. Botucatu, 2023. 90 p. Dissertação (Mestrado em Animais Selvagens) – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Campus de Botucatu, Universidade Estadual Paulista. RESUMO O diagnóstico de hepatopatias em psitacídeos pode ser difícil, pois os sinais clínicos são inespecíficos e vários testes diagnósticos são necessários. Diante das dificuldades encontradas em se obter o acompanhamento da doença hepática, esse estudo objetivou avaliar a condição hepática de papagaios mantidos em cativeiro pela radiografia, elastografia, citopatologia hepática e dosagens séricas bioquímicas para obter referências de normalidade e detectar possíveis alterações. Foram avaliados 20 papagaios verdadeiros submetidos aos exames de radiografia, ultrassonografia, citopatologia por agulha fina, bioquímica sérica e elastografia 2D Shear Wave sob sedação. As aves foram divididas em 2 grupos (CAF normal e alterada) para as análises comparativas bioquímicas e mensurações para padrões de normalidade nos exames de imagem. No grupo de aves com CAF normal, foi realizado o exame radiográfico, e se obteve, na projeção ventrodorsal, a média da largura da silhueta hepática de 2,34 cm, e os valores máximo e mínimo foram de 2,01 e 2,66 cm. Já na elastografia as médias encontradas foram de 1,47 m/s e 6,55 kPa, com os intervalos de 1,36 a 1,59 m/s e 5,55 a 7,56 kPA. Na comparação da atividade enzimática entre o grupo de aves com CAF normal e alterada houve significância estatística apenas para a AST (p=0,04) e as provas de função hepática apresentaram valores normais para os 2 grupos. A AST pode trazer informações a respeito da lesão hepática, mas a influência da lesão muscular sobre seus valores séricos é significativa. A CAF se mostrou um método seguro e funcional para a espécie e a elastografia um método diagnóstico promissor. Palavras-chave: hepatopatia, diagnóstico por imagem, ultrassom, exame radiográfico, patologia clínica, citopatologia por agulha fina 4 SANCHES, T. F. Liver evaluation through analysis of imaging, biochemical and cytopathological examinations of blue-fronted parrots (Amazona aestiva) kept under human care. Botucatu, 2023. 90 p. Dissertation (Master’s Degree in Wild Animals) – Faculty of Veterinary Medicine and Animal Science, Campus of Botucatu, São Paulo State University. ABSTRACT The diagnosis of liver disease in psittacine birds can be difficult, as clinical signs are nonspecific and several diagnostic tests are required. Faced with the difficulties encountered in monitoring liver disease, this study aimed to evaluate the liver condition of amazon parrots kept in captivity using radiography, elastography, liver cytopathology and serum biochemical measurements to obtain normality references and detect possible changes. For this study, 20 blue- fronted amazon parrots (Amazona aestiva) underwent radiography, ultrasonography, fine needle cytopathology, serum biochemistry and 2D Shear Wave elastography under sedation. The birds were divided into 2 groups (normal and altered FNC) for biochemical comparative analyzes and measurements for normality patterns in imaging exams. In group of birds with normal FNC, the radiographic examination, ventrodorsal projection, the average width of the liver silhouette was 2.34 cm, and the maximum and minimum values were 2.01 and 2.66 cm. In elastography, the averages found were 1.47 m/s and 6.55 kPa, with the intervals from 1.36 to 1.59 m/s and 5.55 to 7.56 kPa. Comparing enzymatic activity between the group of birds with normal and altered FNC, there was statistical significance only for AST (p=0.04) and liver function tests showed normal values for both groups. AST could provide information about liver injury, but the influence of muscle injury on its serum values is significant. FNC proved to be a safe and functional method for the species and elastography a promising diagnostic method. Keywords: liver disease, diagnostic imaging, ultrasound, radiographic examination, clinical pathology, fine needle cytopathology. 5 CAPÍTULO 1: Considerações iniciais 6 1. Introdução A ordem Psittaciformes é composta por 403 espécies pertencentes as famílias: Strigopidae, Cacatuidae, Psittacidae e Psittaculidae (GILL et al., 2023). No Brasil são listadas 87 espécies de psitacídeos pertencentes a família Psittacidae, sendo 12 espécies do gênero Amazona (PACHECO et al., 2021). É comum no Brasil a manutenção de animais silvestres como animais de estimação (BONELLO, 2006) e os papagaios ganham a simpatia devido sua inteligência, curiosidade e capacidade de imitar sons, sendo uma espécie muito procurada como animal de companhia (SICK, 1997). Sob cuidados humanos, a maioria dos Psittaciformes recebe dieta inadequada, tendo como consequência distúrbios nutricionais que representam os problemas de saúde mais frequentes na rotina clínica de aves de companhia (GRESPAN e RASO, 2014). A doença hepática gordurosa, também conhecida como lipidose hepática, é comum em papagaios mantidos como animais de companhia em consequência da alimentação frequentemente a base de sementes com alto teor de gordura ad libitum (STANFORD, 2005). O diagnóstico de doenças hepáticas em psitacídeos pode ser difícil, pois os sinais clínicos são inespecíficos e, frequentemente, as manifestações clinicas de insuficiência hepática não ocorrem até estágios avançados da doença (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; REAVILL e LENNOX, 2007). Dessa forma, a identificação das hepatopatias é realizada com base em uma compilação de evidências a partir da história clínica, exame físico, testes de patologia clínica, exames de imagem e exame histopatológico por meio de biópsia (DONELEY, 2004; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005, CARCIOFI e OLIVEIRA, 2007). A interpretação das atividades de enzimas hepáticas frequentemente avaliadas em mamíferos tem sido aplicada nas aves; contudo, estudos experimentais que analisam a sensibilidade e a especificidade dessas enzimas se limitam a poucas espécies aviárias (CAMPBELL, 2015). 7 O aumento hepático é facilmente demonstrado em radiografias ventrodorsais, sendo a hepatomegalia um achado de alteração comum em aves (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). O exame ultrassonográfico permite a avaliação da estrutura interna dos órgãos, possibilitando a observação da extensão, gravidade e desenvolvimento de doenças hepáticas (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001), sendo que algumas alterações no parênquima hepático podem ser observadas ultrassonograficamente, tais como neoplasia, cisto, inflamação, congestão ou degradação gordurosa (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011b; AUGUSTO e HILDEBRANDT, 2014). No entanto, a realização da biópsia hepática é frequentemente necessária para diagnosticar, de forma definitiva e caracterizar adequadamente a doença hepática (GRUNKEMEYER, 2010), A biópsia hepática em humanos ainda é considerada o exame “padrão ouro” para avaliação e caracterização da doença hepática (RIFAI et al., 2011; SPOREA et al., 2013), pois possibilita a classificação do estágio da fibrose e também permite a observação, quando presente, de esteatose, necrose e atividade inflamatória (BARR et al., 2015). Entretanto, é um procedimento invasivo com alto custo e, apesar de baixo, há o risco de complicações graves, como hemorragia (RIFAI et al., 2011). A elastografia é um método novo e não invasivo para o estadiamento da doença hepática crônica, desenvolvida para reduzir o número de biópsias, tornando-se um procedimento amplamente aplicado para a detecção de fibrose hepática, em medicina humana, sendo um procedimento mais confortável e sem riscos para o paciente quando comparado a biopsia (RIFAI et al., 2011). Diversos estudos em pacientes humanos portadores de fibrose hepática demonstraram que a velocidade das ondas de cisalhamento possuí correlação com os estágios da fibrose hepática, assim a elastografia por Shear Wave (SWE) é amplamente aplicada como método diagnóstico para prever o estadiamento da fibrose hepática em humanos (TAMURA et al., 2019). Na medicina veterinária, os estudos utilizando a técnica de elastografia são recentes e baseiam-se na padronização de valores de referência em diferentes tecidos como baço, fígado, rins e próstata de cães e 8 gatos; e também para avaliação de neoplasias mamárias em cadelas (FERNANDEZ et al., 2017). Desta forma o presente estudo objetivou uma avaliação elastográfica, radiográfica e de bioquímica sérica de animais considerados hígidos pela citopatologia por agulha fina e exame clínico, bem como avaliar os valores bioquímicos observados em animais com alterações ao exame citológico. 2. Objetivos 2.1. Objetivo Geral Avaliar o parênquima hepático de psitacídeos por meio dos exames ultrassonográfico, radiográfico, laboratorial e citopatologia aspirativa. 2.2. Objetivos específicos a) Avaliar o parênquima hepático de uma população de psitacídeos, provenientes de apreensões, por meio do exame ultrassonográfico Modo B e elastográficos e considerados normais quando comparados à citopatologia por agulha fina; b) Fazer as mensurações da silhueta cardiohepática em papagaios com CAF normal; c) Comparar os níveis enzimáticos séricos de papagaios verdadeiros sem alterações e com alterações no exame citopatológico por agulha fina. 3. Revisão de literatura 3.1 Psitaciformes 9 A ordem Psittaciformes é composta por 403 espécies pertencentes as famílias: Strigopidae, Cacatuidae, Psittacidae e Psittaculidae (GILL et al., 2023). No Brasil são listadas 87 espécies de psitacídeos pertencentes a família Psittacidae, sendo 12 espécies do gênero Amazona (PACHECO et al., 2021). É comum no Brasil a manutenção de animais silvestres como animais de estimação (BONELLO, 2006) e os papagaios ganham a simpatia devido sua inteligência, curiosidade e capacidade de imitar sons, sendo uma espécie muito procurada como animal de companhia (SICK, 1997). Sob cuidados humanos, a maioria dos Psittaciformes recebe dieta inadequada, tendo como consequência distúrbios nutricionais que representam os problemas de saúde mais frequentes na rotina clínica de aves de companhia (GRESPAN e RASO, 2014). Melo et al. (2018) realizaram um estudo baseado na aplicação de um questionário a respeito da alimentação de psitacídeos sob cuidados humanos em residências brasileiras e, diante das 130 respostas coletadas, constataram que 60% das aves recebiam uma dieta a base de sementes de girassol acrescida de outros itens alimentares (ração extrusada, verduras, legumes e comida caseira). O Amazona aestiva representado por 79,20% dos psitacídeos no estudo. Nas aves cativas, a obesidade é um distúrbio nutricional comum, e os papagaios do gênero Amazona sp. estão entre as espécies que possuem predisposição para esta condição, estando a lipidose hepática entre os efeitos deletérios do acúmulo de gordura (GRESPAN e RASO, 2014). 3.2 Anatomia e fisiologia hepática O fígado é um órgão acessório do sistema digestório e a maior glândula do corpo (ZAEFARIAN et al., 2019) com funções endócrina e exócrina (DENBOW, 2015). O fígado normal de uma ave adulta tem a coloração vermelho-púrpura escuro e é composto pelos lobos direito e esquerdo (GRUNKEMEUER, 2010), unidos cranialmente na linha média (DENBOW, 2015; 10 DONELEY, 2016), com o lobo direito sendo maior na maioria das espécies (GRUNKEMEUER, 2010). O fígado fica envolto por uma cápsula fina e elástica de tecido conjuntivo, que permite sua expansão (DONELEY, 2016). A região cranioventral dos lobos circunda o ápice do coração e a superfície visceral está em contato com o proventrículo, ventrículo e baço (GRUNKEMEUER, 2010). Ventralmente, o fígado está em contato direto com o esterno e, na maioria das aves, o fígado saudável não se estende além da borda caudal do esterno (SCHMIDT et al., 2015). Segundo ZAEFARIAN (2019) o fígado é um órgão vital que está envolvido em uma ampla gama de funções, incluindo o metabolismo de gorduras, carboidratos, proteínas, vitaminas e minerais, remoção de resíduos e desintoxicação. É o principal local de armazenamento das vitaminas lipossolúveis (A, D, K e E), bem como da vitamina B12, glicogênio, alguns minerais (Fe e Cu) e também está envolvido na ativação da vitamina D. O fígado é o principal local de fagocitose pelas células de Kupffer, que destroem células sanguíneas envelhecidas e patógenos que podem entrar através do sangue porta-hepático. Quando presente, a vesícula biliar, está localizada na superfície visceral do lobo direito e pode ter formato de pera, alongada ou cilíndrica (SCHMIDT et al., 2015). A bile é drenada de ambos os lobos do fígado pelos ductos hepáticos direito e esquerdo (GRUNKEMEUER, 2010). As pombas, a maioria dos psitacídeos e avestruzes não possuem vesícula biliar (DONELEY, 2016). Nestas espécies, o ramo do ducto hepático direito forma o ducto hepatoentérico direito que se esvazia diretamente no duodeno (GRUNKEMEUER, 2010). 3.3 Hepatopatias em psitacídeos O tecido hepático tem uma capacidade maior de regeneração do que muitos outros tecidos, assim como uma grande capacidade de reserva funcional, dessa forma, fazer o diagnóstico precoce de doença hepática é difícil, 11 porque até 80% da função hepática deve estar comprometida antes que um processo patológico possa se tornar clinicamente aparente (JAENSCH, 2000). Após uma necrose hepática extensa, geralmente, observa-se a regeneração do parênquima sem cicatrizes, desde que a matriz extracelular normal permaneça intacta (DONELEY, 2004; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). A lesão hepática crônica comumente se manifesta como fibrose (DONELEY, 2004; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). A fibrose ocorre devido a um aumento anormal na deposição de colágeno e outros componentes da matriz extracelular em decorrência à lesão crônica, podendo ser consequência de uma variedade de causas (BARR et al., 2015). As células estreladas hepáticas mudam de células armazenadoras de lipídio típicas para células com aparência de miofibroblasto, que posteriormente desenvolve capacidade de sintetizar colágeno, levando ao desenvolvimento da fibrose hepática (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). Portanto, a fibrose consiste em uma doença crônica e debilitante que frequentemente resulta da hepatite crônica em psitacídeos (LEE et al., 2011). Sua etiologia geralmente não é determinada, mas pode estar relacionada a desnutrição crônica, processos infecciosos, exposição a toxinas e doenças imunomediadas e a ocorrência de hiperplasia dos ductos biliares é, frequentemente, observada em psitacídeos com doenças hepáticas, inclusive hepatites crônicas, fibrose hepática e lipidose hepatocelular (LEE et al., 2011). Já foram descritos como causa de fibrose hepática crônica parasitismo por Platynosomum proxillicens em cacatua (Cacatua sulphurea) (KAZACOS et al., 1980) e Histomonas meleagridis em codornas (HASSAN et al., 2020). Como resultado de fibrose crônica uma doença em estágio final ou cirrose é caracterizada pela perda da arquitetura hepática normal devido a regeneração do parênquima, seguido por fibrose e, frequentemente, hiperplasia dos ductos (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). O tecido fibroso é depositado na área da lesão, levando a uma extensa remodelação do tecido e mudanças nas capacidades funcionais dos hepatócitos (DONELEY, 2004). A obesidade é uma condição clínica frequentemente observada em papagaios do gênero Amazona, podendo ser ocasionada por inatividade física combinada com alta ingestão de gordura (LEVINE, 2003; GRESPAN e RASO, 12 2014). A obesidade aviária pode resultar em problemas como fígado gorduroso, falta de resistência física devido ao impacto da gordura nos sacos aéreos, aterosclerose em artérias coronárias e outros vasos sanguíneos e até acidente vascular cerebral devido a êmbolos gordurosos de hipercolesterolemia (LEVINE, 2003). A síndrome do fígado gorduroso, conhecida também por degeneração hepática gordurosa, lipidose hepática ou esteatose hepática é uma doença comum em psitacídeos cativos (CARCIOFI e OLIVEIRA, 2007), especialmente papagaios do gênero Amazona (GODOY, 2007). Ocorre em consequência do desequilíbrio do metabolismo energético, associado ao acúmulo excessivo de gordura abdominal e hepática (HARRISSON E MCDONALD, 2005). É observada em aves adultas alimentadas com dieta a base de sementes predominantemente oleaginosas (especialmente sementes de girassol), ou quando guloseimas gordurosas (laticínios, chocolate, etc) são oferecidas (DAVIES, 2000). Nos casos das aves engaioladas acredita-se também que esteja associado à falta de exercícios, devido à restrição de espaço, combinado ao alto consumo de alimento, provocando um balanço energético positivo (ZAEFARIAN et al., 2019). Pode ser fatal se não for diagnosticada a tempo e tratada agressivamente (CARCIOFI e OLIVEIRA, 2007). Morte súbita em Amazona sp. tem sido descrita, tendo como única alteração histopatológica o acúmulo de gordura nos hepatócitos (CARCIOFI e OLIVEIRA, 2007; MACWHIRTER, 2010). Devido à inespecificidade dos sinais clínicos, o diagnóstico de doenças hepáticas em psitacídeos pode ser difícil e, (REAVILL e LENNOX, 2007) frequentemente, as manifestações clinicas de insuficiência hepática não ocorrem até o estágio avançado da doença (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). Entre os diversos sinais clínicos podem ser observados anorexia, perda de peso, letargia, fraqueza, diarreia, poliuria, polidipsia, diminuição do empenamento, obesidade, regurgitação, êmese, morte súbita e dispneia pode ocorrer em casos de hepatomegalia e/ou ascite (LUMEIJ, 1994; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; GRUNKEMEUER, 2010; GRANGE, 2014). 13 Existem alguns sinais clínicos que são altamente sugestivos de insuficiência hepática, entretanto, nenhum é patognomônico (LUMEIJ, 1994; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). A insuficiência hepática está associada a colorações amarelas ou verdes dos uratos e/ou fezes, o que pode resultar em biliverdinúria ou bilirrubinúria (LUMEIJ, 1994). As penas desenvolvem uma cor preta brilhante devido á exposição da melanina pela perda total do pigmento verde ou azul normal (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). Crescimento excessivo do bico e das unhas, hematomas ou sangramento na pele e tempo de coagulação prolongado podem estar associados à insuficiência hepática (LUMEIJ, 1994; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005). Dessa forma, a identificação das hepatopatias é realizada com base em uma compilação de evidências a partir da história clínica, exame físico, testes de patologia clínica, exames de imagem e exame histopatológico por meio de biópsia (DONELEY, 2004; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005, CARCIOFI e OLIVEIRA, 2007). 3.4 Métodos diagnósticos das hepatopatias em psitacídeos 3.4.1 Exames bioquímicos O volume total de sangue de uma ave é de aproximadamente 10% (6 a 12ml/100g) do peso do seu corpo, mas podem haver variações dessa quantidade entre as espécies (ECHOLS, 1999). Como regra geral, 10% do volume total sanguíneo, ou o equivalente a 1% do peso corpóreo da ave, pode ser coletado com segurança de aves saudáveis (POWER, 2006; DYER e CERVASIO, 2008). Dessa forma, 1ml de sangue pode ser coletado de uma ave saudável que pesa 100 gramas sem efeitos deletérios para o animal (ECHOLS, 1999; POWER, 2006; DYER e CERVASIO, 2008). A punção venosa da veia jugular é um procedimento que pode ser usado para coleta de sangue da maioria das espécies de aves, sendo a veia jugular direita geralmente a de escolha, devido ao seu calibre ser maior que o da jugular esquerda (CAMPBELL, 1994; ECHOLS, 1999; POWER, 2006). Para a realização de testes bioquímicos em amostras de sangue de aves é 14 recomendado o uso de tubos contendo heparina de lítio como anticoagulante (HOCHLEITHNER, 1994; ECHOLS, 1999; CRAY e ZAIAS, 2004; DONELEY, 2016). Anormalidades no hemograma de pacientes aviários com doença hepática são inespecíficas, mas podem dar uma indicação quanto à cronicidade e condição patológica subjacente do processo da doença (GRANGE, 2014). A anemia pode ocorrer nesses casos como resultado de coagulopatias, trauma hepático ou hemocromatose, enquanto leucocitose pode estar presente em doenças hepáticas infecciosas ou inflamatórias (GRUNKEMEYER, 2010). O hemograma pode revelar parasitas que causam danos hepáticos (GRUNKEMEYER, 2010), como, por exemplo, Haemoproteus spp. (DONOVAN et al., 2008), Plasmodium spp. e Leucocytozoon spp. (FERRELL et al., 2007). De acordo com CAMPBELL (2015), a interpretação das atividades de enzimas hepáticas comumente avaliadas em mamíferos tem sido aplicada nas aves. Contudo, estudos experimentais que analisam a sensibilidade e a especificidade dessas enzimas se limitam a poucas espécies aviárias. Como a especificidade e a sensibilidade dessas enzimas podem variar em função da espécie e da natureza da doença hepática, é possível fazer apenas considerações generalizadas a respeito das alterações nas atividades enzimáticas. Nas aves, segundo SCHIMIDT et al. (2007), as provas de função hepática podem ser realizadas por testes de atividade enzimática, onde a aspartato aminotransferase (AST), a alanina aminotransferase (ALT) e a glutamato desidrogenase (GLDH) refletem lesão hepatocelular. Enquanto, a gama glutamiltransferase (GGT) e a fosfatase alcalina (FA) apresentam-se aumentadas em casos de colestase ou indução por drogas. Também podem ser realizados testes metabólitos ou testes funcionais do fígado por meio da dosagem do colesterol total, ácidos biliares, bilirrubinas, glicose e as proteínas. A alta atividade da AST tem sido encontrada em uma infinidade de tecidos (fígado, músculo esquelético e cardíaco, cérebro e rins), mas principalmente no fígado e tecidos musculares, e sua distribuição entre os tecidos varia dependendo da espécie (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; CAPTELLI e CROSTA, 2013, CAMPBELL, 2015). Com o auxílio de um 15 cofator, o piroxidal 5-fosfato (PP), sua função é catalisar a transaminação de L- aspartato e 2-oxoglutarato a oxalacetato e glutamato (VILA, 2013). A atividade plasmática da AST é sensível, mas não específica para dano hepatocelular e lesão muscular, sendo frequentemente avaliada juntamente com a creatinina fosfoquinase (CK), uma enzima muscular específica, para diferenciar entre os danos hepáticos e musculares (HARR, 2002; HARR, 2005; HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; CAPTELLI e CROSTA, 2013, CAMPBELL, 2015). Já as mudanças na AST podem indicar danos aos hepatócitos, mas não identificarão o estado funcional do fígado (FUDGE, 2000). As concentrações de ácidos biliares podem fornecer informações sobre a capacidade funcional do fígado (GRANGE, 2014). A desvantagem dos ácidos biliares é que muitos processos de doenças crônicas podem ter concentrações normais (FUDGE, 2000). A atividade da ALT ocorre em muitos tecidos diferentes (HOCHLEITHNER, 1994) como no fígado e no músculo esquelético, extravasando para o sangue quando há lesão tecidual (CAMPBELL, 2015). Esta enzima catalisa a transaminação reversível da L-alanina e o 2-oxoglutarato a piruvato e L-glutamato e, como a AST, também precisa do cofator PP para atuar (VILAS, 2013). O valor diagnóstico da ALT em aves é muito baixo. Sua atividade plasmática não é um teste especifico, tampouco sensível, para a detecção de doença hepatocelular em aves (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; CAMPBELL, 2015). Em muitos casos, pacientes com lesão hepática grave tiveram atividades de ALT normais (HOCHLEITHNER, 1994; DONELEY, 2016). A GGT é uma enzima encontrada nas células das membranas dos ductos biliares (DONELEY, 2016), que possui alta especificidade e baixa sensibilidade para o tecido hepático aviário (FUDGE, 2000; DONELEY, 2016). Aumentos significativos de GGT são devido á obstrução ou danos a árvore biliar que podem incluir neoplasias, inflamação ou colelitíase (HARR, 2005; GRANGE, 2014). Dano hepático sozinho não altera significativamente a concentração plasmática da GGT (HARR, 2005). 16 Níveis elevados de GGT foram observados em pombos com doença hepática súbita induzida experimentalmente (LUMEIJ, 1997). Aumentos marcantes também foram relatados em aves com carcinoma do ducto biliar (HARR, 2005). Nota-se aumento da atividade sérica da GGT em algumas aves com doença hepática, porém em outras não, indicando que a atividade plasmática pode aumentar em algumas espécies dependendo da origem da alteração hepática; entretanto, a importância dessa enzima na detecção de doenças hepáticas nas aves ainda não foi totalmente definida (CAMPBELL, 2015). Níveis muito baixos de atividade da FA foram encontrados no fígado das espécies aviárias estudadas, e os aumentos na atividade plasmática parecem ser específicos para atividade osteoblástica e alteração óssea associado ao crescimento, trauma, reparo, osteomielite, neoplasia, hiperparatireoidismo nutricional secundário e deposição da casca do ovo (HARR, 2002; HARR, 2005; CAMPBELL, 2015). A realização de mais investigações em doenças colestáticas e do trato biliar, como o carcinoma biliar, poderá elucidar a sensibilidade e especificidade da FA nesses casos (HARR, 2002; HARR, 2005). O colesterol plasmático provém tanto da dieta como da síntese hepática (VILA, 2013). É eliminado na forma de ácidos biliares e sua concentração aumenta quando há obstrução extra-hepática, fibrose hepática e hiperplasia dos ductos biliares (CAMPBELL, 2015). As aves carnívoras apresentam uma concentração plasmática maior em relação as aves que se alimentam de frutas ou de grãos (HOCHLEITHNER, 1994). Altas concentrações de colesterol podem ser causadas por hipotireoidismo, dietas ricas em gorduras e lipemia, ocorre também durante a vitelogênese em aves fêmeas que se preparam para a oviposição e no período pós-prandial (CAMPBELL, 2015). A hipercolesterolemia, geralmente, é acompanhada por lipemia, especialmente em papagaios do gênero amazona, araras e cacatuas com degeneração hepática gordurosa (HOCHLEITHNER, 1994). Hipocolesterolemia pode estar associada ao estágio final da falência hepática, má digestão ou má absorção e inanição (CAPITELLI e CROSTA, 2013, CAMPBELL, 2015). 17 As concentrações de ácidos biliares podem fornecer informações sobre a capacidade funcional do fígado, pois dependem da extração, conjugação e excreção hepática (REAVILL e LENNOX, 2007). A desvantagem dos ácidos biliares é que muitos processos de doenças crônicas podem ter concentrações normais (FUDGE, 2000). Em várias espécies de aves ainda não foram estabelecidas as faixas de variações de referência da concentração plasmática de ácidos biliares em amostras obtidas em jejum, havendo a necessidade de obtenção de intervalos de referência para testes espécie-específicos (CAMPBELL, 2015). Conforme VILA (2013) a importância clínica das concentrações de bilirrubina ou biliverdina nas aves ainda é desconhecida. Sabe-se que a biliverdina é a responsável pela coloração esverdeada dos uratos que aparecem nos casos de doença hepática. No plasma, a presença desta coloração ocorre em doenças hepatobiliares graves e está associada a um prognóstico desfavorável. A grande maioria das proteínas circulantes no plasma são sintetizadas pelo fígado, a exceção das imunoglobulinas (VILA, 2013), que são produzidas pelos linfócitos B e plasmócitos e são importantes componentes da proteína total do plasma (CAMPBELL, 2015). Dentre as proteínas plasmáticas produzidas pelo fígado estão: a albumina, que representa de 40 a 50% do teor de proteína total do plasma das aves, proteínas de transporte, proteínas de coagulação, fibrinogênio, enzimas e hormônios (CAMPBELL, 2015; ZAEFARIAN et al., 2019). A hipoproteinemia pode ser verificada na insuficiência hepática devido a menor produção de albumina, mas pode estar presente em outros casos como na doença renal, má absorção intestinal, inanição e parasitose gastrointestinal (CAMPBELL, 2015). Na insuficiência hepática há diminuição significativa dos valores das proteínas totais, concomitantemente à diminuição da proporção albumina/globulinas (SCHIMIDT, 2007). Anormalidades proteicas podem ser ainda mais investigadas com eletroforese para determinar as mudanças relativas em cada fração proteica. No entanto, os intervalos de referência normais na eletroforese não foram determinados para todos os pacientes aviários (GRUNKEMEYER, 2010), 18 havendo a necessidade de mais estudos para definir melhor seu valor diagnóstico (JAENSCH, 2000). 3.4.2 Biópsia e citopatologia hepática Considerada o exame “padrão ouro”, a biópsia hepática, é frequentemente necessária para diagnosticar de forma definitiva e caracterizar adequadamente a doença hepática (GRUNKEMEYER, 2010; RIFAI et al., 2011; SPOREA et al., 2013), pois possibilita a classificação do estágio da fibrose e também permite a observação, quando presente, de esteatose, necrose e atividade inflamatória (BARR et al., 2015). No entanto, o tecido obtido por meio da biópsia representa apenas uma pequena fração do volume hepático (aproximadamente 1/50.000 do volume total do fígado em humanos) podendo resultar em erro de amostragem, uma vez que, processos inflamatórios e fibrose se distribuem de forma irregular pelo parênquima hepático (CUI et al., 2003; BARR et al., 2015). Amostras de tecido hepático podem ser obtidas por técnicas percutâneas com agulha as cegas ou técnicas guiadas por ultrassom, endoscopia e laparoscopia (GRUNKEMEYER, 2010). A informação obtida através da biópsia é dependente do método de colheita, da natureza da doença e da forma que a amostra é fixada (JAENSCH, 2000; GRUNKEMEYER, 2010). Uma biópsia hepática pode ser realizada em aves com peso corporal superior a 145 gramas e a biópsia guiada é possível em aves com peso corporal a partir de 350 gramas (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001), sendo um procedimento relativamente seguro em aves pesando pelo menos 250 gramas (KOLLIAS, 1984). Em aves, o lóbulo direito é preferido por causa de seu tamanho maior, mas isso aumenta o risco de perfuração da vesícula biliar em espécies que a apresentam (JAENSCH, 2000). Dentre os riscos inerentes a realização da biópsia hepática estão: hemorragia grave, perfuração de órgãos internos, asfixia secundária ao vazamento de liquido livre no celoma em sacos aéreos rompidos 19 iatrogenicamente e riscos anestésicos em pacientes clinicamente comprometidos (GRUNKEMEYER, 2010). Previamente a realização de uma biópsia hepática, recomenda-se administrar vitamina K1 (1 a 2mg/kg) entre 24 e 48 horas antes do procedimento, como método profilático contra possíveis hemorragias em consequência da deficiência da mesma (KOLLIAS, 1984; KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001). O exame de citopatologia por agulha fina (CAF) constitui em um procedimento menos invasivo e pode ser realizada guiada por ultrassom (NORDERBERG et al., 2000; RADEMACHER et al., 2012). Essa técnica fornece uma amostragem de tecido com risco mínimo para a coleta do tecido suspeito dentro da cavidade corporal, podendo ser realizada em animais conscientes ou sedados, dependendo do temperamento e da condição clínica do paciente (RADEMACHER et al., 2012). A CAF guiada por ultrassom na medicina de animais silvestres e exóticos mostrou-se segura e efetiva em pequenos mamíferos, aves e répteis (RAMIRO et al., 1993; NORDERBERG et al., 2000; HAUPTMAN et al., 2001). A vantagem desta técnica diagnóstica é que os testes de coagulação geralmente não são necessários, a menos que o hemograma ou a condição clínica do paciente sugiram uma coagulopatia (RADEMACHER et al., 2012). Nordberg et al. (2000) realizaram um estudo em que 27 papagaios sadios do gênero Amazona foram submetidos a CAF guiada por ultrassom, a fim de avaliar a viabilidade da realização da técnica usando diferentes métodos para a coleta de material. De acordo com o estudo as amostras de melhor qualidade (baixa hemodiluição e alto número e qualidade de células hepáticas) foram obtidas inserindo superficialmente a agulha no parênquima hepático repetidas vezes rapidamente enquanto o mínimo de aspiração por sucção era aplicado. Após a coleta de amostra, foi realizado exame ultrassonográfico do fígado no qual não foi detectada hemorragia em nenhum dos papagaios, assim como não houve mortalidade ou morbidade. A realização do exame citopatológico hepático na rotina veterinária de pequenos animais está se expandindo devido sua rapidez de diagnóstico, simplicidade da técnica e por se tratar de um procedimento menos invasivo, em 20 comparação a biópsia (TEIXEIRA e LAGOS, 2007). Além de possibilitar a identificação das alterações hepatocelulares com base nas características dessas células (CAMPBELL e GRANT, 2022). Dessa forma, a busca por métodos não invasivos para a avaliação hepática são um importante campo de pesquisa em crescimento (CUI et al., 2003; BARR et al., 2015). 3.4.3 Exames radiográfico e ultrassonográfico Técnicas por imagem são particularmente importantes para o diagnóstico de doenças nas aves (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2011). Elas fornecem muitas informações sobre o tamanho, forma e estrutura dos órgãos internos e dão suporte a interpretação de resultados clínicos e laboratoriais (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). Nos exames radiográficos aviários os sacos aéreos proporcionam um contraste negativo permitindo a diferenciação da silhueta dos órgãos celomáticos (MCMILLAN, 1994; PEES, 2008; KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2011; NAGUIB, 2017). Devido aos tamanhos relativamente pequenos de diversas espécies, são rotineiramente realizados exames radiográficos do corpo inteiro, permitindo em uma única imagem a avaliação conjunta da cavidade celomática e do sistema esquelético (ARNUAT, 2006). O exame radiográfico adequado é aquele que permite a obtenção de pelo menos duas projeções em planos ortogonais (por exemplo, lateral e ventrodorsal) com a menor sobreposição possível de estruturas na área de interesse (PRAES, 2013). No entanto, o conhecimento da anatomia radiográfica normal é fundamental para a interpretação correta dos exames de imagem (SMITH et al., 1990) Para a realização da projeção ventrodorsal, a ave é posicionada em decúbito dorsal com ambas as patas estendidas caudalmente e asas lateralmente ao corpo para evitar sobreposição (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2011). Para a projeção lateral a ave deve ser posicionada em decúbito lateral direito com os membros pélvicos esticados caudalmente e os torácicos 21 estendidos dorsalmente (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2011; STANFORD, 2017). Em várias espécies de aves, principalmente em papagaios, a silhueta cardíaca juntamente com a hepática forma uma ampulheta. O fígado é melhor avaliado na projeção ventrodorsal, junto ao coração, através da avaliação desta forma de ampulheta (FARROW, 2009; KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010; KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011a; CROSTA et al., 2018). Em condições fisiológicas, na projeção ventrodorsal, a silhueta hepática normalmente não se estende além das linhas imaginárias que unem o coracoide e o acetábulo bilateralmente, e quando aumentado ultrapassa essa delimitação (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011a; PINTO et al., 2017). Porém, dentre as limitações da avaliação hepática na projeção ventrodorsal está a sobreposição do proventrículo com o lobo hepático esquerdo (HARCOURT-BROWN, 2005). Se a ave estiver com o proventrículo repleto ou com aumento patológico torna-se difícil saber se o fígado está aumentando ou não nesta região (HARCOURT-BROWN, 2005; CROSTA et al., 2018). Segundo MCMILLAN (1994) a largura da silhueta hepática pode ser avaliada através de mensurações na projeção ventrodorsal. Onde, primeiro é mensurada, a partir da região anatômica do ápice cardíaco, a distância entre o esterno e o limite do gradil costal direito (distância esterno/costela) (medida C- D na Fig. 1). A medida obtida deve ser dividida por dois e o valor resultante é a estimativa do tamanho normal esperado da silhueta hepática direita. Depois é realizada a mensuração da largura direta da silhueta hepática. A mensuração é realizada a partir da mesma região de encontro do ápice cardíaco com o esterno até a borda direta da silhueta hepática (medida A-B na Fig. 1). Se a medição do tamanho da silhueta hepática direita for maior que o valor esperado obtido pela distância esterno/costela dividido por dois, o fígado é considerado aumentado. E se for menor, é considerado reduzido. 22 O aumento hepático é facilmente demonstrado em radiografias ventrodorsais, sendo a hepatomegalia um achado de alteração comum em aves (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). As identificações de hepatomegalia na projeção lateral são menos consistentes, porque nesta projeção o fígado só pode ser diferenciado dos órgãos circundantes por meio do uso de contraste (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001). No entanto, de modo geral, na projeção lateral o fígado não deve ultrapassar o esterno (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001; PINTO, 2017; CROSTA et al., 2018). Já diminuição do volume da silhueta hepática (microhepatia) e a assimetria hepática ocorrem com menos frequência que a hepatomegalia (PINTO, 2017). Apesar de existirem diferentes métodos conhecidos para serem obtidas mensurações da silhueta hepática, existem poucos dados disponíveis na literatura a respeito de intervalos de referência para essas medidas radiográficas dentre as diferentes espécies de aves (GEERINCKX, et al., 2019). Figura 1. Projeção radiográfica ventrodorsal com esquema das mensurações realizadas para a avaliação da silhueta hepática. A-B: largura cintura da ampulheta cardiohepática; C-D: largura da silhueta hepática em sua maior dimensão; E-F: largura hepática direita. Fonte: SANCHES et al., 2023. 23 Estudos radiográficos com dados numéricos de largura hepática, largura da silhueta cardiohepática ou com a relação proposta por MCMILLAN (1994) foram feitos apenas com algumas espécies aviárias, tais como Cyanopsitta spixii (RETTMER, et al., 2011), Falco rusticolus e híbridos de Falco rustico lus com Falco peregrinus (CALIENDO et al., 2016) e Psittacus erithacus (ZOLLER et al., 2019). O conhecimento desses parâmetros é de grande interesse, devido ao fato de os distúrbios hepáticos em aves serem difíceis de diagnosticar (GEERINCKX, et al., 2019). Doenças infecciosas e metabólicas frequentemente causam aumento simétrico da silhueta hepática, sendo as mais frequentes, enquanto neoplasias e doenças granulomatosas promovam aumento assimétrico (PINTO, 2017). A hepatomegalia também pode estar associada com neoplasias, processos inflamatórios e lipidose, e a microhepatia é atribuível a fibrose hepática em estágio final, mas em algumas aves ocorre sem o processo patológico aparente (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011a). Sugere-se que isso está associado a aves com dietas inadequadas ou baseadas em sementes (DAVIES, 2000). O exame radiográfico não possibilita um esclarecimento complementar, pois para diferenciar uma massa neoplásica de um aumento de fígado causado por outra etiologia são necessários o exame ultrassonográfico e a coleta de material histológico ou citológico (NORDBERG et al., 2000). O exame ultrassonográfico proporciona mais informações, principalmente no que diz respeito à estrutura interna, ou seja, o parênquima do órgão (KRAUTWALD- JUNGHANNS e PEES, 2010). A ecotextura fisiológica do fígado é homogênea, delicadamente granulada e com média ecogenicidade (Figura 2), com sua estrutura interna interrompida por vasos sanguíneos, os quais seguem transversal e longitudinalmente (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001; HOCHLEITHNER, 2006; KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). 24 Existem três janelas acústicas para abordar as vísceras celomáticas do paciente aviário: (1) a abordagem cranioventral, na linha média, caudal ao esterno; (2) a abordagem caudoventral, entre os ossos púbicos; e (3) a abordagem lateral, na área do flanco diretamente atrás da última costela de cada lado (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011b). Embora nem sempre seja necessário, o ideal seria realizar jejum de 2 a 4 horas antes do exame (HELMER, 2005), pois o trato gastrointestinal pode prejudicar a avaliação devido as sombras acústicas ou reverberação que os gases causam (AUGUSTO e HILDEBRANDT, 2014). O exame ultrassonográfico permite a avaliação da estrutura interna dos órgãos, possibilitando a observação da extensão, gravidade e a evolução das doenças hepáticas (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001). Alterações do parênquima tais como neoplasia, cisto, inflamação, congestão ou degeneração gordurosa podem ser sugeridas pelo exame ultrassonográfico (KRAUTWALD- JUNGHANNS e PEES, 2011a; AUGUSTO e HILDEBRANDT, 2014). Figura 2. Imagem ultrassonográfica modo B do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) em corte transversal. É possível observar o parênquima grosseiro e identificar os lobos hepáticos direito (D) e esquerdo (E) e o coração (C). Fonte: SANCHES, 2023. 25 Em estudo ultrassonográfico hepático de tucanos toco (Ramphastos toco) realizado por Silva et al. (2019), foi possível caracterizar os contornos hepáticos, as características do parênquima (ecotextura, ecogenicidade), evidenciar as paredes dos vasos portais e avaliar a vesícula biliar, demonstrando o quanto o exame ultrassonográfico é elucidativo para espécies aviárias. Em aves, a vesícula biliar repleta é facilmente reconhecida ultrassonograficamente como uma estrutura de arredondada a oval no interior do parênquima hepático (HOCHLEITHNER, 2006; KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2017). Normalmente, é observada como um órgão liso e nitidamente definido, com paredes finas, de reflexo intenso e conteúdo anecogênico (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011b). Alguns vasos maiores, como a veia porta direita e a artéria hepática direita, podem ser vistos juntos a vesícula biliar. Na maior parte dos psitaciformes e dos columbiformes a vesícula biliar está ausente (HOCHLEITHNER, 2006; KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). Basicamente, a ultrassonografia pode diferenciar não apenas as mudanças dentro do parênquima hepático (por exemplo, difusas ou focais) e seu tamanho, mas também mudanças na forma e no sistema venoso hepático (GRUNKEMEYER, 2010). Assim como acontece em espécies de mamíferos, a imagem ultrassonográfica de um fígado gorduroso em aves é caracterizada por aumento da ecogenicidade (ou seja, alterações difusas no parênquima hepático) e hepatomegalia (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011a; AUGUSTO e HILDEBRANDT, 2014). A infiltração gordurosa, que causa o aumento da ecogenicidade do fígado, é comumente observada em psitacídeos sob cuidados humanos em instituições zoológicas ou em residências e, geralmente, é ocasionada por dieta não equilibrada ou com alto valor energético, associado à restrição de exercícios (AUGUSTO, 2007). Um diagnóstico etiológico exato da causa da doença, no entanto, não é possível apenas com o auxílio do ultrassom, mas é um método que facilita medidas diagnósticas adicionais como punção para colheita de biopsia (GRUNKEMEYER, 2010). Estudos ultrassonográficos também permitem um diagnóstico rápido e confiável quanto a presença de líquido livre na cavidade 26 celomática, enquanto estudos radiográficos apenas mostram sombras difusas nesses casos (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001). 3.4.4 Elastografia Dentro da ultrassonografia diagnóstica, um método novo e não invasivo para o estadiamento da doença hepática crônica tem sido desenvolvido para reduzir o número de biópsias. A elastografia tornou-se um procedimento amplamente aplicado para a detecção de fibrose hepática, em medicina humana, sendo um procedimento mais confortável e sem riscos para o paciente do que a biopsia (RIFAI et al., 2011). A elastografia, ou imagem de elasticidade, é uma modalidade de imagem de ultrassom que pode fornecer informação clinicamente útil sobre a rigidez tecidual (BARR, 2017). Essa técnica utiliza a elasticidade alterada dos tecidos moles em várias doenças para produzir informações qualitativas e quantitativas, que podem ser utilizadas para fins diagnósticos (SIGRIST et al., 2017). A rigidez tecidual é estimada pela propriedade física denominada Módulo de Young (E), uma proporcionalidade constante que relaciona uma força aplicada por unidade de área (estresse) com a mudança relativa resultante na dimensão do tecido (tensão), e os métodos de elastografia por ultrassom podem ser divididos em duas categorias: quase-estáticas, ou de tensão, e dinâmica, ou ondas de cisalhamento (OZTURK et al., 2018). Dentre as diferentes técnicas de elastografia que possibilitam a avaliação, de forma não invasiva, do tecido hepático com base na rigidez tecidual estão: elastografia transitória (Transiente Elastography - TE); elastografia de quantificação pontual por onda de cisalhamento (point Shear Wave elastography - pSWE); elastografia bidimensional por onda de cisalhamento (two-dimensional Shear Wave elastography - 2D-SWE) e elastografia por ressonância magnética (elastography magnetic resonance - EMR) (SPOREA et al., 2013; JUNIOR et al., 2020). Ambas as elastografia pSWE e 2D-SWE envolvem o uso da tecnologia denominada Impulso de Força de Radiação Acústica (Acoustic Radiation Force Impulse - ARFI) (BARR et al., 2015). 27 A ARFI produz uma força mecânica capaz de gerar ondas de cisalhamento nos tecidos avaliados (BARR, 2017). É um método capaz de quantificar as propriedades mecânicas do tecido, pois afere a velocidade de propagação da onda de cisalhamento induzida pela radiação acústica através do mesmo (FRULIO e TRILLAUD, 2013). Segundo BARR (2017) as ondas de cisalhamento se propagam no tecido de forma semelhante a uma pedra arremessada em um lago. Nessa analogia, as ondas de cisalhamento são representadas pelas ondulações na água, enquanto a pedra atua como a força aplicada, que é produzida pelos pulsos da ARFI. A velocidade da onda de cisalhamento é estimada através do movimento tecidual em sua resposta com o uso de ultrassom em modo B (BARR, 2017). A aferição é expressa em metros por segundo (m/s), que representa a velocidade da onda de cisalhamento percorrendo perpendicularmente a sua fonte de origem (FRULIO e TRILLAUD, 2013). A velocidade varia de acordo com a rigidez tecidual, sendo assim, tem velocidade mais lenta em tecidos mais moles e mais rápidas em tecidos mais rígidos (BARR, 2017). A elastografia por Shear Wave (SWE) utiliza um software específico acoplado ao aparelho de ultrassonografia tradicional para a realização do exame (SCHMILLEVITCH e GORSKI, 2013). A imagem projetada na tela do ultrassom em modo B, possibilita a visualização do órgão e a escolha da região de interesse (region of interest – ROI) e para a aquisição dos valores de velocidade das ondas de cisalhamento (JUNIOR et al., 2020). Por meio do transdutor são emitidos pulsos acústicos que geram ondas de cisalhamento na ROI e ao mesmo tempo, pulsos de captação são também são emitidos pelo transdutor para avaliar em metros por segundo (m/s) a rigidez tecidual (SPOREA et al., 2013). Já a elastografia por 2D Shear Wave funciona da mesma forma, mas possibilita avaliar uma ROI maior e realiza a propagação das ondas em profundidades crescentes no tecido detectando o tempo de chegada da onda de cisalhamento em múltiplos locais laterais a região de incidência (CARVALHO et al., 2015). Isso permite a geração de elastograma de acordo com o módulo de Young do tecido (kPa ou m/s) em tempo real (JUNIOR et al., 2020). 28 Diversos estudos em pacientes humanos portadores de fibrose hepática demonstraram que a velocidade das ondas de cisalhamento possuí correlação com os estágios da fibrose hepática, assim a elastografia por Shear Wave é amplamente aplicada como método diagnóstico para prever o estadiamento da fibrose hepática em humanos (TAMURA et al., 2019). Na medicina veterinária, os estudos utilizando a técnica de elastografia são recentes e baseiam-se na padronização de valores de referência em diferentes tecidos como baço, fígado, rins e próstata de cães e gatos; e também para avaliação de neoplasias mamárias em cadelas (FERNANDEZ et al., 2017). A investigação da rigidez hepática por meio da elastografia já foi descrita em cães, gatos e coelhos. Nestes estudos diferentes técnicas foram utilizadas como a elastografia de transição, elastografia point Shear Wave e elastografia 2D Shear Wave (QIU et al., 2018; TAMURA et al., 2019; KIM et al., 2020; PARK et al., 2021; CHA et al., 2022; PONAMAREV et al., 2022; PUCCINELLI, 2022). No estudo conduzido por Tamura et al. (2019) com elastografia 2D Shear Wave, cães com fibrose hepática clinicamente relevante (classificação ≥F2) demonstraram achados elastográficos maiores em comparação a cães sem fibrose hepática de relevância clínica (classificação F0-1), semelhantes aos encontrados em pacientes humanos. A elastografia 2D Shear Wave é uma técnica que possibilita a avaliação do tecido hepático como um todo. Sua técnica é simples, segura, e não invasiva (BARR, et al., 2015). Podendo ser realizada com o animal sedado ou acordado (QIU, et al. 2018; TAMURA, et al., 2019), sendo a única exigência a realização de jejum prévio para melhor visualização hepática e diminuição de artefatos gerados pelo trato gastrointestinal (BARR et al., 2020). O uso da elastografia tem amplo potencial clínico nas áreas de diagnóstico e monitoramento (PALMERI e NIGHTINGALE, 2011). Na medicina humana, estudos demonstram sua utilidade na caracterização de neoplasias (mama, próstata, fígado e tireoide), estadiamento da fibrose hepática de forma 29 não invasiva, avaliação de coágulos venosos, visualização de inflamação e cicatrização tecidual (PALMERI e NIGHTINGALE, 2011). Estes são alguns exemplos das possibilidades que os métodos elastográficos podem oferecer para as aplicações clínicas na medicina veterinária nos próximos anos (CARVALHO et al., 2015). 30 4. Referências Bibliográficas ARNUAT, L. S. 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Journal of Avian Medicine and Surgery, 33 (3): 218-228, 2019. 38 CAPÍTULO 2: Artigos científicos 39 Artigo 1. Exame Ultrassonográfico e Elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios-verdadeiros (Amazonas aestiva) hígidos Thatiana Felix Sanchesa, Maria Jaqueline Mamprima, Jeana Pereira da Silvaa, Alexandre Battazzab, Sheila Canevese Rahala aFaculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – Unesp – Campus Botucatu/SP, Brasil bLaboratório de Patologia Veterinária ObjetivaVet – Botucatu/SP, Brasil Resumo O diagnóstico de doenças hepáticas em psitacídeos pode ser difícil, pois os sinais clínicos são inespecíficos, nesse sentido a elastografia 2D Shear Wave tem sido empregada em humanos para detecção das alterações hepáticas como um método substituto as biópsias. Este estudo teve por objetivo realizar mensurações elastográficas 2D Shear Wave do parênquima hepático de papagaios verdadeiros, considerados hígidos por meio do exame clínico e avaliação de citopatologia por agulha fina do parênquima. Foram realizadas a avaliação ultrassonográfica hepática modo B e as mensurações das velocidades das ondas de cisalhamento em m/s em 10 papagaios submetidos à jejum de 3 horas e posterior sedação. Ultrassonográficamente ao modo B foi possível diferenciar os dois lobos hepáticos direito e esquerdo, sendo o lobo direito maior em relação ao esquerdo. O parênquima hepático mostrou-se de ecotextura grosseira, com ecogenicidade média e margens regulares. Dentre os valores obtidos no exame de elastografia 2D-SW foram encontradas as seguintes médias: 1,47 m/s e 6,55 kPa, com os intervalos de confiança de 95% de 1,36 a 1,59 m/s e 5,55 a 7,56 kPA. A elastografia se mostrou um método diagnóstico factível e promissor para a avaliação hepática em papagaios verdadeiros, podendo postergar a realização de métodos invasivos, tais como biópsias, para o diagnóstico de hepatopatias. Palavras-chave: ultrassonografia, psitacídeos, citopatologia aspirativa, elastograma hepático 1. Introdução 40 O diagnóstico de doenças hepáticas em psitacídeos pode ser difícil, pois os sinais clínicos são inespecíficos e, frequentemente, as manifestações clínicas de insuficiência hepática não ocorrem até o estágio final da doença (HOCHLEITHNER e HOCHLEITHNER, 2005; REAVILL e LENNOX, 2007). As modalidades de exames por imagem são particularmente importantes para o diagnóstico de doenças nas aves (PEES, 2013), pois elas fornecem muitas informações quanto ao tamanho, forma e estrutura dos órgãos internos e dão suporte a interpretação de resultados clínicos e laboratoriais (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2010). O exame ultrassonográfico permite a avaliação da estrutura interna dos órgãos, possibilitando a observação da extensão, gravidade e desenvolvimento de doenças hepáticas (KRAUTWALD-JUNGHANNS et al., 2001). Algumas alterações do parênquima hepático podem ser determinadas pelo exame ultrassonográfico e dentre essas podemos observar neoplasia, cisto, inflamação, congestão ou degradação gordurosa (KRAUTWALD-JUNGHANNS e PEES, 2011; AUGUSTO e HILDEBRANDT, 2014). No entanto, a biópsia hepática é frequentemente o padrão ouro para diagnosticar de forma definitiva e caracterizar adequadamente a doença hepática, pois possibilita a classificação do estágio da fibrose e também permite a observação, quando presente, de esteatose, necrose e atividade inflamatória (GRUNKEMEYER, 2010; BARR et al., 2015). Porém, trata-se de um procedimento invasivo e, apesar de baixo, há o risco de complicações graves, como hemorragia (RIFAI et al., 2011). Por outro lado, a citopatologia por agulha fina (CAF) guiada por ultrassom fornece uma técnica de amostragem com risco mínimo para a coleta do tecido suspeito dentro da cavidade corporal (NORDERBERG et al., 2000; RADEMACHER et al., 2012). Pode ser realizada em animais conscientes ou sedados, dependendo do temperamento e da condição clínica do paciente (RADEMACHER et al., 2012). Devido aos riscos dos métodos diagnósticos invasivos um método novo e não invasivo para o estadiamento da doença hepática crônica tem sido desenvolvido para reduzir o número de biópsias, a elastografia, que se tornou um procedimento amplamente aplicado para a detecção de fibrose hepática em 41 medicina humana, sendo um procedimento mais confortável e sem riscos para o paciente quando comparado à biopsia (RIFAI et al., 2011). Diversos estudos em pacientes humanos portadores de fibrose hepática demonstraram que a velocidade das ondas de cisalhamento possuí correlação com os estágios da fibrose hepática, assim a elastografia por Shear Wave é amplamente aplicada como método diagnóstico para prever o estadiamento da fibrose hepática em humanos (TAMURA et al., 2019). Na medicina veterinária, os estudos utilizando a técnica de elastografia são recentes e baseiam-se na obtenção de valores de referência em diferentes tecidos como baço, fígado, rins e próstata de cães e gatos; e também para avaliação de neoplasias mamárias em cadelas (FERNANDEZ et al., 2017). Portanto, o objetivo deste trabalho foi obter referências de normalidade na elastografia 2D Shear Wave do fígado de papagaios hígidos, a fim de possibilitar a utilização desse método não invasivo para diagnóstico de fibrose hepática nesta espécie. 2. Material e Métodos Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” (FMVZ-Unesp) sob o número CEUA 0079/2021, e também obteve autorização pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBIO) sob o número 78644-1. Foram avaliados 32 papagaios verdadeiros (Amazona aestiva) e somente entraram para o estudo as 10 aves que apresentaram o exame de citopatologia hepática sem alterações. Os papagaios verdadeiros estavam alocados no Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Silvestres (Cempas) do Hospital Veterinário, pertencente a FMVZ-Unesp. As aves, foram provenientes de apreensão onde eram mantidas em cativeiro de forma ilegal, portanto foram submetidas a diferentes tipos de manejo ambiental e alimentar. Durante a permanência no CEMPAS, as aves foram mantidas em recinto coletivo amplo com acesso a solário, alimentadas com ração extrusada, frutas e água ad libitum. 42 Todas as aves eram adultas, com peso médio de 382 gramas e sexo indeterminado. No dia anterior a realização do estudo as aves foram acondicionadas em gaiolas individuais, para que cada indivíduo pudesse ser avaliado separadamente, e receberam suplementação de 2,5mg/kg de vitamina K1 (fitomenadiona) pela via intramuscular visando minimizar a ocorrência de hemorragias durante a realização da CAF, de acordo com o sugerido por Kollias (1984) e Krautwald-Junghanns et al. (2001). No dia do estudo, a contenção física foi realizada manualmente para a pesagem e aplicação da medicação sedativa composta por 30mg/kg de cetamina e 5mg/kg midazolam pela via intramuscular, e também 0,2mg/kg de cetoprofeno e 5mg/kg cloridrato de tramadol por via oral como analgésicos devido à realização da CAF. A escolha da via oral como via de administração teve como objetivo facilitar a administração desses fármacos no dia seguinte aos procedimentos. Exame ultrassonográfico As aves foram submetidas somente a jejum alimentar prévio de três horas, para realização da sedação, a fim de impedir a interferência de conteúdo alimentar e gases intestinais na obtenção das imagens ultrassonográficas e evitar falsos positivos na elastografia. O exame ultrassonográfico do celoma foi realizado com a ave em decúbito dorsal e equipamento LOGIQ® S8 (GE Healthcare, Korea) com transdutor linear de 8,5 a 10 Hz acoplado a ave na região caudal ao esterno. A plumagem da região caudal ao esterno e cranial a abertura da cloaca foi umedecida e afastada com álcool isopropílico 1:1 diluído em água para promover a exposição da pele, e evitar artefato de gás. Para obtenção das imagens foi utilizado gel ultrassonográfico como meio de contato entre o transdutor e a pele da ave. No ultrassom modo B, foram realizadas as imagens do fígado nos cortes transversal e longitudinal para a avaliação do parênquima, descrevendo a ecogenicidade e ecotextura. A pré-avaliação ultrassonográfica compõe o pré- 43 requisito para uma análise mais fidedigna da elastografia 2D Shear Wave (BARR et al 2020). A área de interesse (ROI) foi posicionada no lobo direito hepático com a caixa de mensuração em uma profundidade de 1cm abaixo da cápsula hepática (BARR et al 2020). Com este equipamento também foi realizada a elastografia ultrassonográfica 2D Shear Wave sendo avaliada a rigidez hepática por meio de 12 mensurações em quilopascal (kPa) e metros por segundo (m/s) em cada ROI no lobo hepático direito de cada ave. Destas 12 mensurações foram desconsideradas duas com valores extremos, a fim de garantir o critério de confiabilidade para os valores de IQR/M ≤30% para as medidas em kPa e IQR/M ≤15% para as medidas em m/s (BARR et al., 2020). Citopatologia por agulha fina - CAF As amostras citopatológicas foram coletadas no lobo direito hepático devido seu maior tamanho em relação ao lobo esquerdo, segundo sugerido por Jaensch (2000) e na região escolhida como ROI para a elastografia. A CAF guiada por ultrassom foi realizada com agulha 24G ¾” por capilaridade com movimentos rápidos e repetidos de “vai e vem” em diferentes direções. O material coletado foi depositado em lâmina de vidro e o esfregaço citológico realizado com a técnica de squash. Os esfregaços citológicos foram submetidos a Coloração Panótico® Rápido (Laborclin, Brasil), de acordo com as orientações da bula do produto. Os esfregaços citológicos foram analisados por dois patologistas experientes. Nos primeiros minutos após a realização da CAF as aves foram acompanhadas ultrassonograficamente para avaliação da presença ou ausência de complicações hemorrágicas em decorrência do procedimento. Diante da não ocorrência de complicações as aves foram alocadas individualmente em caixas de transporte, sob aquecimento, para acompanhamento da recuperação da sedação. Quando as aves já conseguiam manter-se em estação e empoleirar retornaram para as gaiolas individuais e foram mantidas até o dia seguinte para ficarem sob observação. No dia seguinte foram avaliadas quanto ao seu estado 44 geral e antes de serem devolvidas ao recinto coletivo receberam mais uma dose analgésica de cetoprofeno e cloridrato de tramadol por via oral. Análise estatística: As análises estatísticas foram executadas com o software SAS® Studio. Todos os dados foram avaliados quanto ao seu padrão de normalidade com o teste de Shapiro-Wilk. Para os valores obtidos nas mensurações elastográficas foram determinadas as médias, desvios padrões, valores mínimos e máximos com intervalos de confiança de 95%. 3. Resultados Ao exame ultrassonográfico modo B os fígados dos papagaios verdadeiros, foram localizados na região médio-ventral da cavidade, com a face cranial em íntimo contato com o ápice cardíaco e a face caudal com o ventrículo, e apresentaram contornos regulares e definidos. Foi possível diferenciar dois lobos hepáticos sendo o direito maior em relação ao esquerdo. O parênquima hepático se mostrou homogêneo com ecotextura grosseira e ecogenicidade média (Figura 1), sendo interrompido pelos vasos hepáticos caracterizados por estruturas anecoicas. A vesícula biliar não foi caracterizada, pois é ausente nesta espécie. Não foram observadas complicações hemorrágicas em decorrência da realização da CAF e todas as aves apresentaram boa recuperação após o procedimento. As amostras de tecido obtidas pela CAF foram compostas por hepatócitos, células de ductos e células inflamatórias que possibilitaram a avaliação citopatológica e a presença ou ausência de alterações. Porém, foram encontrados fatores limitantes tais como alterações anatômicas (lordose) e presença de conteúdo em trato gastrointestinal que impossibilitaram a realização do procedimento. Outro fator limitante foi a ocorrência de amostras com celularidade insuficiente para que a avaliação citopatológica pudesse ser efetuada. 45 A presença de alterações como microvacuolizações, macrovacuolizações e pigmentos basofílicos intracitoplasmáticos, assim como a impossibilidade da realização da CAF devido aos fatores limitantes citados e amostras com celularidade insuficientes constituíram os fatores excludentes para que apenas 10 aves fossem classificadas como sem alterações citológicas hepáticas e inclusas nos resultados finais obtidos nas mensurações elastográficas. Os resultados das mensurações efetuadas na elastografia encontram-se na tabela 1, seguindo o teste de Shapiro-Wilk todas as variáveis estudadas possuem distribuição normal (p > 0,05). A figura 2 ilustra localização da obtenção das imagens e dados da elastografia 2D Shear Wave. Figura 1. Imagem ultrassonográfica modo B do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva) em corte transversal. É possível observar o parênquima grosseiro e identificar os lobos hepáticos direito (D) e esquerdo (E). Note o íntimo contato do ápice cardíaco (a) com os lobos hepáticos, (C) coração. Figura 2. Imagem Ultrassonográfica 2D Shear Wave do fígado de papagaio verdadeiro (Amazona aestiva). A. Imagem ultrassonográfica MODO B do lobo direito hepático. B. Realização das mensurações na ROI. 46 Tabela 1. Valores obtidos das mensurações realizadas por meio da elastografia 2D Shear Wave em fígado de papagaios verdadeiros hígidos. Mensurações elastográficas Média Desvio padrão Intervalo de confiança de 95% Velocidade (m/s) 1,47 ±0,16 1,36 a 1,59 Kilopascal (kPa) 6,55 ±1,40 5,55 a 7,56 4. Discussão Com o propósito de gerar dados ultrassonográficos de ecotextura, ecogenicidade e elastográficos de papagaios verdadeiros, esse estudo realizou os exames de imagem em um grupo de aves com exame de citopatologia por agulha fina com resultados celulares dentro dos padrões de normalidade e também sem a presença de sinais clínicos. A CAF mostrou-se um método seguro para ser realizado em papagaios, pois não foram observadas complicações hemorrágicas e as aves apresentaram boa recuperação logo após o procedimento. A escolha da CAF como método diagnóstico teve como base o fato de ser um exame que se aproxima do “padrão ouro” (biópsia hepática), por ser uma técnica de menor risco e possuir alta eficácia na avaliação e identificação das alterações hepatocelulares (TEIXEIRA e LAGOS, 2007; ADALI et al., 2020). Dentre os riscos inerentes à realização d