UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA LUIZ FERNANDO CARVALHO A ESCOLHA DA LICENCIATURA EM MATEMÁTICA NA UNESP: O QUE DIZEM OS INGRESSANTES Presidente Prudente 2017 LUIZ FERNANDO CARVALHO A ESCOLHA DA LICENCIATURA EM MATEMÁTICA NA UNESP: O QUE DIZEM OS INGRESSANTES Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP/ Campus de Presidente Prudente, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Raquel Miotto Morelatti. Presidente Prudente 2017 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho ao meu pai, Evandro, meu maior incentivador e exemplo de caráter, força e humildade. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, agradeço à minha família, a principal razão de todo esforço realizado durante esta etapa da minha vida: meus amados pais, Evandro e Maria Isabel (in memoriam), pelos exemplos de caráter, esforço, e honestidade; meu irmão, Robson, pela alegria contagiante e pelo cuidado que existe entre nós desde quando éramos crianças; meus adoráveis sobrinhos, Isabely e Pedro, que me ajudam a ter força em tudo o que faço; minha namorada, Priscila, pelo companheirismo, amizade e amor que tem me dado em todos os momentos da minha vida. Deixo um agradecimento especial à minha Orientadora, Prof.ª Dr.ª Maria Raquel Miotto Morelatti, pessoa que tenho imenso respeito e admiração desde o início da minha vida na universidade, pelo apoio, por acreditar em mim, pelas orientações, por todos os saberes compartilhados e, ainda, pelos diversos momentos de alegrias proporcionados. Agradeço, grandemente, às professoras que integraram minha banca, Prof.ª Dr.ª Leny Rodrigues Martins Teixeira e Prof.ª Dr.ª Ana Lúcia Manrique, pelas contribuições imprescindíveis para o bom desenvolvimento desta pesquisa, pela dedicação e também pela paciência que tiveram comigo desde a qualificação até o momento da defesa de Mestrado. Não poderia deixar de agradecer aos amigos de casa, companheiros de república, Alex, Jessé, Matheus e Messias, pelos vários momentos de descontração, importantíssimos para o desenvolvimento do presente trabalho. Além disso, agradeço aos grandes amigos, Maria Cecília e Hélio Maria, pela presença e torcida no momento da minha defesa de Mestrado. Assinalo aqui minha gratidão aos Coordenadores dos seis Cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, pelo apoio no momento das aplicações dos questionários desta investigação. Deixo, também, meu muito obrigado aos 154 respondentes desta pesquisa, os ingressantes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, sem os quais não seria possível alcançar os objetivos propostos. Agradeço, também, a todos os integrantes do grupo de Pesquisa GPEA, pelas contribuições com o projeto desta pesquisa. Enfim, deixo o meu muito obrigado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes - pelo financiamento da pesquisa, e a todos que, de alguma maneira, participaram desta valiosa conquista. Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. (Paulo Freire) RESUMO A presente pesquisa, vinculada à linha “Processos Formativos, Ensino e Aprendizagem” do Programa de Pós-Graduação em Educação da FCT/UNESP de Presidente Prudente, foi impulsionada pelo seguinte questionamento: por que algumas pessoas ainda possuem o desejo de ingressar nos cursos de licenciatura em Matemática, mesmo diante da baixa atratividade da profissão de professor? Com o propósito de responder a tal questão, definiu-se como objetivo geral: investigar o que motiva as pessoas a escolherem o curso de Licenciatura em Matemática, bem como revelar as justificativas dadas para tal escolha. Neste sentido, foram definidos como local de pesquisa os seis cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, presentes nos municípios de Guaratinguetá, Bauru, Ilha Solteira Presidente Prudente, Rio Claro e São José do Rio Preto, e como participantes da investigação os estudantes que ingressaram nestes cursos no ano letivo de 2016. Para atingir o objetivo geral da investigação, foram delineados os seguintes objetivos específicos: caracterizar cada um dos seis cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP; identificar características e analisar a atratividade dos cursos em questão; caracterizar o perfil dos estudantes participantes da pesquisa; identificar como os sujeitos da pesquisa avaliam a profissão de professor nos níveis de ensino fundamental e médio; e, por fim, descrever e analisar os fatores que foram determinantes para os sujeitos da investigação na escolha pela licenciatura em Matemática da UNESP. Optou-se por uma pesquisa qualitativa, de natureza analítico-descritiva, do tipo survey. Durante o processo investigativo foram percorridas as seguintes etapas: imersão no tema e construção do referencial teórico; estudos dos Projetos Políticos Pedagógicos dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP; leitura e análise dos relatórios da VUNESP referentes aos vestibulares, dos anos de 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, dos referidos cursos; aplicação de um questionário com questões abertas e fechadas junto aos estudantes investigados; organização e análise dos dados coletados. Os resultados revelaram que os ingressantes nos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP são, em geral, pessoas com baixo poder aquisitivo e repertório cultural. Mostram, ainda, que as escolhas pelo curso de licenciatura, muitas vezes está determinada por condicionantes como a proximidade do campus com o local onde reside e o fato da universidade ser pública e reconhecida socialmente e não pela docência. Quando se pergunta de modo mais direto sobre o que motivou a escolha pela docência, evidenciam-se justificativas pessoais ou internas, como o gosto pela Matemática e um sentimento altruísta de ajudar as pessoas. Por outro lado, as justificativas dadas por aqueles licenciandos que não querem seguir a carreira docente após conclusão do curso, são vinculadas a fatores externos, como a falta de respeito de alunos pelo professor e a desvalorização salarial, corroborando com os aspectos de desprestígio da carreira docente indicada pela literatura. Palavras-chave: Atratividade da Carreira Docente; Motivações para a escolha da Profissão de Professor; Escolha pela Licenciatura em Matemática. ABSTRACT This research, linked to the line “Processos Formativos, Ensino e Aprendizagem” of the Programa de Pós-Graduação em Educação da FCT/UNESP from Presidente Prudente, was stimulated by the following question: why do some people still have the desire to enter the courses of degree in Mathematics, even if the teaching profession has low attractiveness? With the purpose to answer this question, the main objective was defined: investigate what motivates people to choose the courses of degree in Mathematics, as well as reveal the reasons given to justify this choice. In this sense, six courses of degree in Mathematics of UNESP, present in the counties of Guaratinguetá, Bauru, Ilha Solteira, Presidente Prudente, Rio Claro e São José do Rio Preto, were defined as the locals of the research, and, as the research participants, the students who entered this courses in the academic year of 2016. To achieve the main objective of the investigation, the following specifics objectives were delineated: to characterize each of the six courses of degree in Mathematics of UNESP; identify characteristics and analyze the attractiveness of this courses; characterize the profile of the students who participated of the research; identify how the research participants evaluate the teaching profession in the levels of elementary and high school; and, to finish, describe and analyze the determinant factors that made the research participants chose the courses of degree in Mathematics of UNESP. This research was chosen to be qualitative, of an analytical-descriptive nature, of the type survey. During the investigation process, the following steps were taken: immersion in the theme and construction of the theoretical referential; studies of the political-pedagogic projects of the courses of degree in Mathematics of UNESP; reading and analysis of the VUNESP reports about the entrance exams, of the years 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, of the mentioned courses; application of a questionnaire with open and closed questions among the investigated students; organization and analysis of the collected data. The results reveal that the entrants in the courses of degree in Mathematics of UNESP are, in general, people with low purchasing power and cultural repertoire. They also show that the reason why they chose to enter in the courses of degree, were, a lot of times, determined by conditioning as the proximity of the university campus with the place they live and the fact that the university is public and is social recognized, and not because of the teaching. When they were asked directly about the reasons to choose the teaching, they used personal or internal justifications, as the fact that they like Mathematics and an altruistic feeling to help people. On the other hand, the justification given by those who doesn’t want to follow the teaching career after they graduate, are linked to external factors, as the respect lacking from the students with the teachers and wage devaluation, corroborating with the aspects of the lack of prestige of the teaching career indicated by the literature. Key Words: Attractiveness of Teaching Profession; Reasons to choose the Teaching Profession; Choose of the Course of Degree in Mathematics LISTA DE FIGURAS Figura 1- Mapa com as cidades que possuem Unidades da UNESP com cursos de Licenciatura em Matemática................................................................................ 22 LISTA DE QUADROS Quadro 1- Relação das Instituições/Programas encontrados no levantamento, Número total de trabalhos nos Portais e Número de trabalhos relacionados à temática da presente pesquisa................................................................................................................................ 26 Quadro 2- Relação dos Eventos investigados no levantamento, Número total de trabalhos nos anais e Número de trabalhos relacionados à temática da presente pesquisa................................. 26 Quadro 3- Dissertações selecionadas a partir do levantamento bibliográfico..................................... 28 Quadro 4- Publicações de eventos selecionadas a partir do levantamento bibliográfico.................... 31 Quadro 5- Relação dos objetivos específicos e dos métodos para atingi-los........................................ 66 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1- População das cidades sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2010............................................................................................................................ 76 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Números de docentes na Educação Básica brasileira em 2015, por faixa etária e sexo........................................................................................................................ 47 Tabela 2 - Número de Matrículas na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, nos municípios sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2015.................................................................................................................................... 77 Tabela 3- Número de habitantes nas microrregiões dos municípios sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2010.................................................................. 78 Tabela 4- Taxa de escolarização, de 6 a 14 anos, 2010 e Nota média do IDEB nos anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental dos municípios sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2015.................................................................. 79 Tabela 5- Renda per capita (R$) em 2014 e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal dos municípios sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2010.................................................................................................................................... 79 Tabela 6- Percentuais e esgotamento sanitário adequado dos municípios sedes dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP, 2010.................................................. 80 Tabela 7- Número de vagas ofertadas no vestibular para cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP a cada ano, por unidade universitária e período........................... 88 Tabela 8- Relação candidato/ vaga no vestibular para Licenciatura em Matemática da UNESP nos anos de 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, por unidade universitária e período................................................................................................................................ 89 Tabela 9 - Total de inscritos no vestibular para Matemática da UNESP nos anos de 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, por sexo e unidade universitária..................................... 89 Tabela 10 - Total de inscritos no vestibular de alguns importantes cursos, da área de exatas, da UNESP nos anos de 2013, 2014, 2015, 2016 e 2017, por unidade universitária........................................................................................................................ 90 Tabela 11- Número de participantes da investigação e número de ingressantes no ano de 2016 por unidade da UNESP......................................................................................... 94 Tabela 12- Participantes da investigação, segundo a faixa etária e sexo.......................... 95 Tabela 13- Participantes da investigação, segundo a cor ou raça autodeclarada.............. 97 Tabela 14- Frequências e percentuais referentes aos participantes da investigação que trabalham ou não trabalham............................................................................................... 97 Tabela 15- Frequências e percentuais referentes à faixa salarial dos participantes da investigação que trabalham................................................................................................ 98 Tabela 16- Frequências e percentuais referentes à renda familiar total dos participantes da investigação................................................................................................................... 99 Tabela 17- Número de dependentes da renda familiar total dos participantes da investigação....................................................................................................................... 99 Tabela 18- Frequências e percentuais referentes ao modo como residem os participantes da investigação............................................................................................. 100 Tabela 19 - Frequências e percentuais referentes à natureza da escola em que estudaram os participantes da investigação........................................................................ 101 Tabela 20 – Frequências e percentuais referentes ao nível de escolaridade dos pais dos participantes da investigação.............................................................................................. 102 Tabela 21- Frequências e percentuais referentes ao modo como os participantes da investigação se mantêm informados................................................................................... 103 Tabela 22- Frequências e percentuais referentes ao Lazer preferido dos participantes........................................................................................................................ 103 Tabela 23 – Como é ser professor segundo os participantes da investigação.................. 105 Tabela 24- Como é ser professor segundo os participantes da investigação: cruzamento da variável difícil com as variáveis gratificante, frustrante e outro................................. 106 Tabela 25- Percentuais e frequências das respostas dos participantes da investigação à seguinte situação: “ser professor nos dias atuais é melhor ou pior que ser professor no passado?”........................................................................................................................... 108 Tabela 26- Frequências e percentuais referentes à Percepção dos participantes da investigação sobre o salário atual dos professores do ensino fundamental e médio.......... 111 Tabela 27- Frequências e percentuais de respostas dos participantes à seguinte questão: “você quer ser professor de Matemática?”................................................................... 114 Tabela 28- Frequências e percentuais referentes à relação dos participantes da investigação com a Matemática do Ensino Básico........................................................ 116 Tabela 29- Frequências e percentuais das respostas dos participantes da investigação à seguinte questão: “Você teve dificuldade com a Matemática na Educação Básica?”....... 116 Tabela 30- Frequências e percentuais de respostas dos participantes da investigação à seguinte questão: “você se recorda de algum professor de Matemática do ensino fundamental ou médio?”............................................................................................ 117 Tabela 31- Frequências e percentuais das respostas dos participantes da investigação à seguinte questão: “O que te levou a opção pela Licenciatura na UNESP”........................ 118 Tabela 32- Frequências e percentuais das respostas dos participantes da investigação à seguinte questão: “O que te levou a cursar Licenciatura em Matemática nesta unidade da UNESP”......................................................................................................................... 119 Tabela 33- Percentuais e frequências referentes aos motivos da escolha pela profissão de professor de Matemática apontados pelos participantes da presente investigação................................................................................................................ 120 Tabela 34- Percentuais e frequências referentes aos motivos da não escolha pela profissão de professor de Matemática apontados pelos participantes da presente investigação........................................................................................................................ 121 LISTA DE SIGLAS ABC (Paulista) - Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul ANPEd - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação APEOESP- Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo BAEE - Bolsa de Apoio Acadêmico e Extensão CAPES- Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEB - Câmera de Educação Básica CEPFE - Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores CNE - Conselho Nacional de Educação CNFP - Congresso Nacional de Formação de Professores ECA- Estatuto da criança e do adolescente EDUCERE- Congresso nacional de educação ENADE - O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes ENEM- Encontro Nacional de Educação Matemática FCT- Faculdade de Ciências e Tecnologia GPEA- Ensino e Aprendizagem como Objeto da Formação de Professores GT- Grupos de Trabalho IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDEB- Índice de Desenvolvimento da Educação Básica IDHM- Índice de Desenvolvimento Humano Municipal INEP- Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica LDB- Lei de Diretrizes e Bases MAR- Município de Marília MEC- Ministério da Educação MTE- Ministério do Trabalho e Emprego OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico PIBID- Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência PNAD- Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios PPGE- Pós-Graduação em Educação PPP – Projeto Político Pedagógico PUC/PR PUC/ SP- Pontifícia Universidade Católica de São Paulo RAIS- Relação Anual de Informações Anuais SIPEM- Seminário Internacional de Pesquisa em Educação Matemática SPSS - Statiscal Package for the Social Science UEM- Universidade Estadual de Maringá UERJ- Universidade Estadual do Rio de Janeiro UFG – Universidade Estadual de Goiás UFMG- Universidade Federal de Minas Gerais UFMT- Universidade Federal do Mato Grosso UFPEL- Universidade Federal de Pelotas UFPR- Universidade Federal do Paraná UFRGS- Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRJ- Universidade Federal do Rio de Janeiro UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas UNIMEP- Universidade Metodista de Piracicaba UNINOVE- Universidade Nove de Julho UNISINOS- Universidade do Vale do Rio dos Sinos USP- Universidade de São Paulo UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” USP- Universidade de São Paulo VUNESP- Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO..................................................................................................... 19 1.1. Questão, local e participantes da investigação....................................................... 21 1.2. Organização da dissertação.................................................................................... 22 2. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO: IMERGINDO NA TEMÁTICA A SER INVESTIGADA........................................................................................... 24 2.1. Principais diferenças entre a presente dissertação e as dissertações encontradas.. 36 2.2. Tendências investigativas e metodológicas dos trabalhos encontrados nos anais de eventos............................................................................................................... 38 2.3. Revelações das pesquisas encontradas: uma síntese......................................... 39 3. REFERENCIAIS TEÓRICOS DA INVESTIGAÇÃO: A PROFISSÃO DOCENTE E SUA ATRATIVIDADE.................................................................. 41 3.1. Gênese do trabalho docente................................................................................... 41 3.2. Importantes dados sobre o cenário atual da Profissão Docente no Brasil............. 46 3.3. Considerações gerais sobre a Atratividade da Carreira Docente........................... 49 3.3.1. Possíveis causas do problema da baixa atratividade da carreira docente.............. 52 3.3.2. A escolha ou não escolha pela profissão de professor........................................... 58 3.3.3. Alguns apontamentos para a mudança no quadro da atratividade da carreira docente................................................................................................................... 60 4. PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS: OBJETIVOS, INSTRUMENTOS, ABORDAGEM E CAMINHOS DA INVESTIGAÇÃO....................................... 65 4.1. Objetivos da pesquisa............................................................................................. 65 4.2. A abordagem e Natureza da pesquisa.................................................................... 66 4.3. Instrumentos de coleta de dados............................................................................ 68 4.4. Etapas da Investigação: o caminho percorrido...................................................... 70 5. UM PANORAMA DOS CURSOS DE LICENCIATURA EM MATEMÁTICA DA UNESP E DO PERFÍL DE SEUS INGRESSANTES.................................................................................................. 75 5.1. Caracterização dos locais de coleta de dados: um olhar sobre as Licenciaturas em Matemática da UNESP.................................................................................... 75 5.1.1. Breve olhar sobre os municípios onde se localizam os cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP............................................................................................... 76 5.1.2. Conhecendo cada um dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP.. 80 5.1.3. Considerações gerais sobre as Licenciaturas em Matemática da UNESP.......... 86 5.2. Atratividade dos Cursos de Matemática da UNESP.......................................... 88 5.3. Perfil dos ingressantes nos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP.... 94 6. PROFISSÃO DOCENTE SOB O PRISMA DOS INGRESSANTES EM LICENCIATURA EM MATEMÁTICA............................................................... 105 7. FATORES DETERMINANTES PARA A ESCOLHA DA LICENCIATURA EM MATEMÁTICA NA UNESP......................................................................... 113 8. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................. 123 REFERÊNCIAS................................................................................................................. 127 ANEXOS........................................................................................................................... 132 ANEXO A – Questionário utilizado na investigação........................................................ 132 ANEXO B – Termo de Consentimento livre e esclarecido............................................... 138 19 1. INTRODUÇÃO A baixa procura pelos cursos de licenciatura é um tema que vem tomando destaque no cenário brasileiro e isso se deve, principalmente, às discussões realizadas por alguns pesquisadores da área de Educação, como Gatti e Barreto (2009); Gatti et al (2010); Jesus (2004); Souto e Paiva (2013), dentre outros, pelas unidades formadoras de professores, pelas autoridades e, ainda, pelas pessoas em geral que se mostram cada vez mais preocupadas com a Educação. Tais discussões tomam força ao passo que o esvaziamento dos cursos de licenciatura evidencia um prognóstico de déficit no quadro de professores, o que prejudicaria ainda mais a qualidade da Educação. Elas têm se intensificado também devido à preocupação gerada pelo risco de fechamento de algumas destas licenciaturas, por conta da falta de estudantes matriculados. O preocupante cenário resultante da atratividade 1 das licenciaturas causou angústia e despertou o interesse de se aprofundar na questão. Neste sentido, a ideia da pesquisa surge como fruto de um processo de construção e amadurecimento, impulsionados pelas preocupações e autoquestionamentos ocorridos durante a trajetória acadêmica do pesquisador. As primeiras reflexões sobre o tema surgiram no ano de 2011, ainda antes do ingresso no curso de Licenciatura em Matemática da Faculdade de Ciências Tecnologia “Julio de Mesquita Filho” (FCT/UNESP) de Presidente Prudente, quando a relação candidato/vaga do curso se mostrou muito baixa em relação aos quocientes dos outros cursos do mesmo campus universitário. Neste momento, surgiram questionamentos sobre o que determinava esta disparidade entre as atratividades destes cursos. Nos anos posteriores, a repetição do baixo quociente da Licenciatura em Matemática continuou a incomodar e a gerar novos questionamentos. Em certo momento do curso, surgiu a oportunidade ao pesquisador de participação do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID/Capes) de Matemática da FCT/UNESP, projeto na época coordenado pela orientadora da presente pesquisa. Este lhe possibilitou o desenvolvimento de atividades em parceria com professores de uma escola pública estadual localizada em Presidente Prudente, visando potencializar o processo de ensino e aprendizagem. Proporcionou, ainda, o aprofundamento teórico sobre Educação e 1 Na presente dissertação o termo Atratividade será utilizado como sinônimo da expressão “baixa procura”, seguindo a tendência de alguns autores, tais como Gatti et al (2010); Gatti e Barreto (2009) e Souto e Paiva (2013). 20 Educação Matemática, além de participações em ações, experiências metodológicas e práticas docentes inovadoras. Foi a partir deste projeto que o pensar sobre educação, sobretudo no âmbito da Matemática, tornou-se uma prática mais frequente e passou a ter uma natureza mais crítica. Atividades realizadas no âmbito do PIBID, somadas às conversas de corredor e também às discussões ocorridas durante algumas disciplinas de cunho pedagógico do curso, inquietaram cada vez mais o pesquisador e o levaram a refletir com mais fundamentos sobre a problemática da baixa atratividade pelas licenciaturas. Foi desta maneira que surgiram incertezas, tais como: o que ainda tem motivado as pessoas a escolherem os cursos de licenciatura, uma vez que é evidente o problema da atratividade do curso? A escolha por ser professor é uma postura refletida ou um ato simplesmente circunstancial? Como os estudantes das licenciaturas avaliam a carreira do professor da Educação Básica? Eles reconhecem valor que a sociedade atribui para a profissão de professor? Estes questionamentos caminharam junto com o pesquisador até o último ano no curso de Licenciatura em Matemática. A esta altura já havia o desejo de se desenvolver um trabalho para buscar respostas para tais questões. Foi neste momento que surgiu a ideia de se construir um projeto de pesquisa que abordasse as questões da baixa procura pela profissão docente e os fatores que ainda têm motivado as pessoas a escolherem os cursos de Licenciatura em Matemática. A intenção de se construir um projeto de pesquisa marca o início de uma nova etapa. Chega-se ao momento de buscar opiniões de professores e colegas. Surge-se a necessidade de imergir em textos relacionados ao tema sobre os quais se tem curiosidade, com o propósito de circunscrever a ideia de investigação. Pelo menos três razões justificam a importância de se pesquisar tal tema: A primeira delas fundamenta-se no apontamento feito por Gatti e Barreto (2009) de que o tema da atratividade da carreira docente, apesar de ser muito discutido, ainda é uma questão pouco investigada. Neste sentido, considerando a relevância social do professor, pesquisar o tema se torna algo muito importante. A segunda refere-se ao fato de que a relevância social de se pesquisar os fatores que levam as pessoas a escolherem a profissão docente, mais especificamente, a docência na área de Matemática para a Educação Básica, encontra respaldo no fato de que compreendendo as razões desta opção pode-se permitir novas maneiras de enxergar o processo de formação de do professor de Matemática, além de possibilitar novas reflexões em busca de ações para atrair mais pessoas para a profissão de professor 21 A terceira razão respalda-se no fato de que ao se realizar uma investigação relacionada à questão da atratividade da carreira docente, especificamente na área de Matemática, realiza- se uma importante contribuição com relação ao campo investigativo da Educação Matemática. 1.1. Questão, local e participantes da investigação O pesquisador, ao trazer a questão da atratividade da carreira docente para a sua realidade, observou, por meio da experiência pessoal e mediante análise prévia dos relatórios sobre a relação candidato/vaga da Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (VUNESP), que o curso de Licenciatura em Matemática da FCT/UNESP de Presidente Prudente, apesar de ser gratuito e possuir tradição, também estava inserido na problemática da baixa procura 2 . Frente a essa angustia, por meio de conversas com a professora orientadora e reflexões no âmbito do grupo de pesquisa “Ensino e Aprendizagem como Objeto da Formação de Professores” (GPEA) 3 , chegou-se a seguinte questão de pesquisa: levando-se em consideração a problemática da baixa atratividade da profissão de professor, por que algumas pessoas ainda possuem o desejo de ingressarem nos cursos de licenciatura em Matemática? Com o propósito de realizar um trabalho amplo, que abarcasse uma amostra consideravelmente suficiente para a confiabilidade dos dados, foram determinados como lócus da investigação os seis cursos de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual Paulista (UNESP), localizados nas unidades de Presidente Prudente, São José do Rio Preto, Guaratinguetá, Ilha Solteira, Bauru e Rio Claro, como mostra a Figura 1, a seguir: 2 Tal constatação está descrita na seção 5 deste relatório. 3 O GPEA, grupo cujo pesquisador é membro desde 2014, foi criado em 2002 e está vinculado ao PPGE da FCT/UNESP de Presidente Prudente, é certificado pela UNESP e cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil. Tem como líderes a professora doutora Maria Raquel Miotto Morelatti e o professor doutor Paulo César de Almeida Raboni, ambos vinculados à Linha de Pesquisa “Processos Formativos, Ensino e Aprendizagem” do PPGE. Tem como preocupação a pesquisa sobre ensino e aprendizagem como uma dimensão nuclear da competência profissional docente, analisando suas implicações na formação de professores em cursos de Licenciatura em Matemática e em Ciências Naturais e na sua atuação no âmbito da Educação Básica. 22 Figura 1- Mapa com as cidades que possuem Unidades da UNESP com cursos de Licenciatura em Matemática Posteriormente, foram definidos como participantes da investigação os estudantes ingressantes nos seis cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP no ano de 2016. Tal opção encontra respaldo no fato de que no momento da coleta de dados as representações destes estudantes sobre as suas escolhas profissionais ainda estariam recentes. Em seguida é apresentado o modo como o presente estudo está estruturado. 1.2. Organização da dissertação Esta dissertação está estruturada em nove seções, incluindo esta que se destina à apresentação da investigação, a introdução. Na Seção 2, intitulada “Levantamento Bibliográfico: imergindo na temática da questão a ser investigada”, apresenta-se um levantamento bibliográfico das produções (teses, dissertações e publicações em anais de eventos), realizado com o propósito de localizar trabalhos com temáticas que se relacionam com o da presente investigação. Também são apresentadas as diferenças principais entre as dissertações encontradas e esta pesquisa, além das tendências investigativas e metodológicas dos trabalhos encontrados nos anais de eventos. 23 Na Seção 3, denominada “Referenciais teóricos da investigação: a profissão docente e sua atratividade”, são apresentados os fundamentos teóricos da pesquisa. Primeiramente, são feitas considerações sobre o início do trabalho docente no Brasil. Posteriormente, são discutidos importantes dados sobre o cenário da atual profissão de professor no Brasil e por fim, são tecidas considerações gerais sobre a atratividade da carreira docente, apontando as possíveis causas dos problemas, a questão da escolha ou não escolha da profissão e alguns apontamentos para mudança no quadro da atratividade da carreira docente. Na quarta Seção, “Pressupostos metodológicos: objetivos, instrumentos, abordagem e caminhos da investigação”, são apresentados, inicialmente, os objetivos da pesquisa. Posteriormente, são justificadas a abordagem e a natureza da investigação. Na sequência, apresentam-se os instrumentos utilizados para as coletas de dados e, por último, são elencadas as etapas que descrevem o caminho percorrido na pesquisa. Na Seção 5, nomeada “Um panorama dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP e do perfil de seus ingressantes”, apresenta-se, primeiramente, uma caracterização do lócus investigativo e, logo após, uma análise do perfil dos participantes da pesquisa. A Seção 6, intitulada “Profissão docente sob o prisma dos ingressantes em licenciatura em Matemática”, apresenta descrições e análises de dados coletados por meio de um questionário, versando sobre como os participantes da investigação avaliam e o que consideram da profissão docente. Na Seção 7, “Fatores determinantes para a escolha da licenciatura em matemática da UNESP”, são feitas descrições e análises de dados coletados por meio da aplicação de um questionário, com o propósito de apresentar as revelações das escolhas dos participantes da investigação pelo curso de licenciatura em Matemática e, ainda, as justificativas dadas para tal escolha. Por fim, na seção 8, são feitas as considerações finais, tendo em vista os objetivos propostos na presente investigação. 24 2. LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO: IMERGINDO NA TEMÁTICA A SER INVESTIGADA Com o propósito de conhecer “em que pé” se encontra o conhecimento a respeito do tema de estudo da presente pesquisa, realizou-se um levantamento bibliográfico das produções que discutem as seguintes questões: problemáticas da baixa atratividade da carreira docente; baixa procura pelos cursos de licenciatura; motivos que levam as pessoas aos cursos de licenciatura; e motivos que levam as pessoas a seguirem a carreira docente. Considera-se tal levantamento uma das principais tarefas para o bom andamento desta pesquisa, uma vez que por meio dele foi possível enxergar as principais diferenças existentes entre o que já foi publicado e o que o pesquisador se propôs a realizar, o que possibilitou pensar sobre os delineamentos e os caminhos da investigação. Cabe aqui ressaltar que, embora o objetivo desta dissertação esteja limitado somente aos cursos de Licenciatura em Matemática, durante o levantamento bibliográfico foram considerados, ainda, os trabalhos que se referiam a qualquer outra licenciatura. Optou-se por realizar o levantamento nestas condições, pois, caso contrário, se assumiria a possibilidade de encontrar um número muito reduzido de publicação. Assim, iniciou-se a busca pelas teses e dissertações, por meio de sites dos cursos de Pós-Graduação em Educação e Educação Matemática, que obedeceu a dois critérios previamente estabelecidos. Adequaram-se ao levantamento os cursos que possuíam conceito atribuído pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) acima de quatro, além disso, foram explorados exclusivamente os trabalhos publicados a partir do ano de 2005 4 . Nestas condições, foram percorridos 20 portais de cursos de Pós- Graduação. Para não limitar o levantamento às dissertações ou teses, foi feito também um vasto mapeamento nos anais de importantes eventos científicos nacionais sobre Educação e Educação Matemática 5 . Para tanto, novamente, foram considerados somente os trabalhos publicados a partir do ano 2005. Durante o levantamento, o processo de seleção de trabalhos ocorreu mediante três maneiras de corte. Primeiramente, eram acessados os sites dos eventos ou dos programas de pós-graduação e iniciadas as leituras dos títulos dos trabalhos, um a um. Deste modo, eram 4 Esta escolha se deu no final do ano de 2014, quando se pretendia buscar somente trabalhos publicados nos últimos 10 anos, a contar a partir de 2005, tendo em vista a intenção de se trabalhar com publicações atuais relacionadas ao tema de pesquisa. 5 Os nomes de cada evento estão detalhados no Quadro 2 desta dissertação. 25 selecionados os títulos que apresentavam relações com a temática da presente investigação. A partir daí, iniciava-se uma nova etapa do levantamento, a leitura dos resumos dos trabalhos cujo título havia sido selecionado. Neste ponto, por meio das leituras, eram selecionados os resumos que apresentavam relações com a temática da presente pesquisa. Por fim, para decidir quais, de fato, seriam selecionados ou descartados, eram lidos integralmente os trabalhos cujos resumos haviam sido selecionados no corte anterior. Vale destacar que, durante a busca pelos trabalhos, em boa parte dos repositórios foi possível realizar a leitura dos títulos, um a um. Porém, em alguns casos, não foi possível realizar este modo de busca, devido às deficiências encontradas nos portais. Nessas condições, visando um levantamento preciso, foram utilizados alguns descritores, tais como: “Atratividade da carreira docente”, “Escolha pela profissão docente” e “Ser professor”. Além disso, é importante dizer que nos anais de alguns dos eventos, as buscas foram realizadas somente nos Grupos de Trabalhos (GTs) e/ou eixos 6 que se relacionavam com a temática a ser investigada. Em seguida são apresentados os Quadros 1 e 2, que sintetizam os resultados encontrados no levantamento bibliográfico. 6 Esta informação está detalhada no Quadro 4 26 Quadro 1- Relação das Instituições/Programas encontrados no levantamento, Número total de trabalhos nos Portais e Número de trabalhos relacionados à temática da presente pesquisa. Instituição de Ensino Programa de Pós- Graduação N° de Trabalhos N° de Trabalhos na Temática Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) Educação Matemática Não foi possível contar 7 2 Educação: Currículo Educação: Psicologia e Educação Universidade Federal De Minas Gerais (UFMG) Educação 921 1 Educação e Docência Universidade De São Paulo (USP) Educação 1395 1 Universidade Estadual De Maringá (UEM) Educação 473 0 Universidade Federal De Goiás (UFG) Educação 251 0 Universidade Federal De Uberlândia (UFU) Educação 450 0 Universidade Federal Do Paraná (UFPR) Educação 356 0 Universidade Federal Do Rio De Janeiro (UFRJ) Educação 381 0 Universidade Do Estado Do Rio De Janeiro (UERJ) Educação 472 0 Universidade Do Vale Do Rio Dos Sinos (UNISINOS) Educação 375 0 Pontifícia Universidade Católica Do Rio Grande Do Sul (PUC/RS) Educação 350 0 Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul (UFRGS) Educação 1566 0 Universidade Federal De São Carlos (UFSCAR) Educação 479 0 Pontifícia Universidade Católica Do Paraná (PUC/PR) Educação 505 0 Universidade Estadual Paulista Júlio De Mesquita Filho/Marília (UNESP/MAR) Educação 532 0 Universidade Estadual De Campinas (UNICAMP) Educação 3532 0 Universidade Federal De Pelotas (UFPEL) Educação 162 0 Universidade Federal De Santa Catarina (UFSC) Educação 531 0 Universidade Metodista De Piracicaba (UNIMEP) Educação 353 0 Universidade Nove De Julho (UNINOVE) Educação 28 0 Fonte: Organizado pelo autor, com base nos resultados alcançados no levantamento bibliográfico. Quadro 2- Relação dos Eventos investigados no levantamento, Número total de trabalhos nos anais e Número de trabalhos relacionados à temática da presente pesquisa. Evento N° de Trabalhos N° de Trabalhos na Temática ENEM 2167 3 ANPEd 946 3 CNFP e CEPFE 386 3 SIPEM 143 1 Educere 1768 0 Fonte: Organizado pelo autor, com base nos resultados alcançados no levantamento bibliográfico. 7 Não foi possível contar devido obstáculos encontrados no site onde se encontra o banco de dissertações e teses. (www.pucsp.br/pos-graduacao/mestrado-e-doutorado) 27 Como apresentado nos Quadros 1 e 2, durante o levantamento foram identificados mais de 18.500 títulos. Deste total, mais de 13.100 eram de dissertações e teses e mais de 5.400 eram títulos de publicações em anais de eventos. Ao final foram selecionados 14 trabalhos com assuntos que se relacionam com tema da investigação, sendo quatro dissertações e 10 trabalhos de eventos. Vale ressaltar que nenhuma tese foi selecionada durante o levantamento. Todas as publicações selecionadas foram lidas e sintetizadas pelo pesquisador, considerando-se as principais informações, tais com o objetivo do trabalho, os sujeitos investigados, a metodologia utilizada e os principais resultados obtidos. Optou-se por organizar tais informações por meio dos Quadros 3 e 4, apresentados a seguir: 28 Título Autor (es) Programa/Ano de Defesa Objetivo (s) Sujeito (s) Metodologia Resultados Principais Motivações para a escolha da Licenciatura em Matemática e Pedagogia: um estudo com alunos da PUC/ SP e UFMT Levi de Oliveira Souza Mestrado Profissional em Ensino de Matemática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/2010 Diante da diminuição do número de estudantes dos cursos de Matemática e o aumento do número de estudantes nos cursos de Pedagogia, o objetivo da investigação foi traçar o perfil dos estudantes dos cursos de graduação em Matemática e em Pedagogia de duas universidades, a PUC/SP e a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), identificando os principais motivos que levam os alunos a se interessarem pela docência. 138 estudantes, sendo seis do curso de Matemática e 72 do curso de Pedagogia da PUC/ SP e 18 do curso de Matemática e 42 do curso de Pedagogia da UFMT. Aplicação de um questionário socioeconômic o As analises dos perfis demonstraram que os respondentes são na sua maioria oriundos da classe C ou D, de famílias com média que ultrapassa cinco membros e com renda familiar de até três salários mínimos. Além disso, revelaram pessoas com pouco acesso à cultura e a atividades de lazer, que concluíram o Ensino Médio em cursos regulares de escolas públicas e que possuem mãe e pai que pouco estudaram. A maioria dos respondentes declara que escolheu o magistério porque quer se tornar professor e, deste modo, tentar melhorar a educação, transformando a realidades das escolas brasileiras. A Atratividade da Carreira Docente: um estudo em uma escola pública de um município da grande São Paulo Tânia Lima Programa de Pós-graduação em Educação da PUC-SP/2010 Investigar e analisar os interesses dos estudantes do terceiro ano do Ensino Médio, em relação à escolha ou não da profissão de professor. 122 alunos concluintes do terceiro ano do Ensino Médio de uma escola da rede pública de um município do ABC paulista. Duas fases: primeiramente coletou-se dados com a aplicação de um questionário, e posteriormente , realizou-se sete memoriais e um grupo de discussão composto por dez alunos. Os resultados da investigação revelaram que estes estudantes enaltecem a profissão de professor e a reconhecem como primordial na formação de seu caráter, no entanto, para a grande maioria, ela não representa uma possibilidade de escolha profissional. A não escolha está ligada a visão “romantizada” da profissão e têm influências de cunho social, cultural e institucional, como as condições de trabalho, desvalorização da profissão e baixa remuneração. Para alguns, a justificativa para a não escolha pela profissão de professor está em aspectos intrínsecos da disciplina, como por exemplo, acharem a Matemática chata, complicada e difícil de aprender. Quadro 3- Dissertações selecionadas a partir do levantamento bibliográfico 29 A atratividade do magistério para o ensino básico: estudo com ingressantes de cursos superiores da Universidade de São Paulo (USP) Luciana França Leme Pós-Graduação em educação da Universidade de São Paulo/2012 Analisar o perfil dos ingressantes nos cursos de Pedagogia, Licenciatura em Física e Licenciatura em Matemática da USP, bem como os fatores que determinaram suas escolhas de se tornarem ou não professores do Ensino Fundamental e Médio. Além disso, buscou-se investigar se os estudantes do curso de Medicina da mesma Universidade já almejaram serem professores da Educação Básica em algum momento de suas vidas. Convocados em primeira chamada para a matrícula no ano de 2010, nas carreiras de Licenciatura em Pedagogia (São Paulo), Licenciatura em Física/ Matemática e no curso de Medicina da USP, presentes nas Faculdades ou Institutos nos dias determinados para a realização da matrícula ou confirmação do interesse pela vaga Questionário autoaplicável Os resultados da pesquisa mostraram que é similar a comparação do nível socioeconômico dos licenciandos da USP com os demais alunos de licenciaturas do Brasil e de outros países. Revelou ainda que o desempenho desses alunos no vestibular foi inferior a todos os outros cursos da USP, o que indica que a licenciatura aparenta ser uma das poucas alternativas possíveis para o ingresso nessa universidade. Os resultados do trabalho revelam que ser professor não é a principal razão para a escolha da licenciatura por parte expressiva dos respondentes. Uma quantidade importante de estudantes manifestou não querer ser professor da Educação Básica ou mostrou ter dúvida quanto a ser. Curiosamente, os fatores que mais influenciam nas escolhas pelo magistério vão de encontro, em sua maioria, as questões de sexo (mulheres), curso (pedagogia), idade (de 17 a 19 anos), salário e aspectos de ordem subjetiva (gosto pelo ensino, boas experiência na escola, gosto pelas crianças). Por outro lado, aparecerem como fatores mais influentes para a não escolha da carreira docente os ligados ao desprestígio pela profissão (incluindo a baixa remuneração) e a imagem ruim que se tem da escola. Por que ser professor? Uma análise da carreira docente na educação básica do Brasil Alexandre William Barbosa Duarte Programa de Pós-graduação em Educação, Conhecimento e Inclusão Social da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais/2013 Diante do eminente colapso da educação básica no país, resultado da acentuada queda do número de profissionais da educação e do crescimento do número de matriculas procedente das políticas de expansão do ensino implementadas nas últimas décadas, o objetivo principal do trabalho foi compreender, por meio da análise das políticas públicas dos Estados de Minas Gerais e Pernambuco, o problema Inexistente A investigação pautou-se em um estudo teórico, no qual identificou-se e analisou-se políticas públicas, em âmbito estadual e nacional, e ações dos diferentes setores da sociedade civil que têm como Por meio de estudos de textos legislativos das diferentes instâncias governamentais e documentos oficiais disponibilizados por instituições acadêmicas, organismos internacionais, movimento sindical e por organizações de incentivo privado, foi identificado que a questão da baixa atratividade da carreira docente vem constituindo um amplo debate no contexto educacional do país e gerando uma grande preocupação nestes diversos setores. No entanto, conforme tem ressaltado as instituições representativas do professorado, estas políticas não proporcionam os resultados esperados e, muitas vezes, se apresentam na contramão dos objetivos propostos, contribuindo, principalmente, para um forte processo de desvalorização profissional. 30 Fonte: Organizado pelo autor da baixa atratividade da profissão de professor no cenário educacional brasileiro. foco a valorização docente e a busca pela inserção de novos profissionais na carreira. 31 Título Autor (es) Evento Objetivo (s) Sujeito (s) Metodologia Resultados Principais A escolha profissional do curso de pedagogia: análise das representações sociais de discentes Ana Cláudia Lopes Chequer Sar aiva; Alvanize Valente Fernandes Ferenc GT8: Formação de Professor Anped 2010 Analisar as representações sociais de estudantes de uma instituição pública superior, os fatores que motivaram as suas escolhas, além de identificar aqueles que contribuíram e influenciaram nesse processo. 40 estudantes do terceiro ano do curso de Pedagogia de uma instituição pública de ensino. Para a realização da pesquisa foram utilizados um formulário e um questionário. Para grande parte dos respondentes, a escolha do curso em discussão se deu em consequência da não aprovação em outros cursos pretendidos, da facilidade de aprovação do curso de Pedagogia e pelo fato do mesmo ser oferecido no período noturno, possibilitando a conciliação de atividades acadêmicas com as profissionais. Outro fator relevante apontado pelos estudantes como referência para a escolha do curso de Pedagogia foi à presença de alguns familiares em atividades profissionais vinculadas à Educação. Atratividade da docência para o ensino básico na visão ingressante de cursos superiores Luciana França Leme GT8: Formação de Professor Anped 2010 Relatar dados preliminares de uma investigação que busca produzir informações que possibilitem a comparação do perfil de estudantes que optaram ou não por cursos de licenciatura, subsidiando a formulação de políticas públicas voltadas à carreira em questão. Ingressantes do ano de 2010 dos cursos de licenciatura em Física, Matemática, Pedagogia e Medicina da USP. Desenvolveu- se um estudo de caso, com abordagem qualitativa. A Medicina tem entre seus ingressantes grande parte dos estudantes entre 17 e 24 anos, enquanto os ingressantes das licenciaturas são mais velhos. Quanto à condição econômica, verificou-se que os ingressantes da medicina têm maior poder aquisitivo em relação aos das licenciaturas. Os dados preliminares do questionário sugerem, num primeiro olhar, que as condições socioeconômicas e familiares parecem ser mais preponderantes para a escolha profissional da docência. Atratividade do magistério para o ensino básico: estudo com alunos de cursos superiores Luciana França Leme GT8: Formação de Professor- Anped 2012 Apresentar os principais resultados de um estudo de Mestrado. Buscou-se explorar fatores que se evidenciam incidir na atratividade da carreira docente em uma determinada população. Ingressantes do ano de 2010 nos cursos de Pedagogia, Licenciatura em Física, Licenciatura em Matemática e Medicina da USP. Foi aplicado 512 questionários aos ingressantes. Estudantes da Pedagogia tendem a se interessar mais pela carreira docente do que os outros licenciandos. Entre as razões mais pontuadas pelos estudantes da Física e Matemática estavam razões pouco ligadas à carreira docente. No caso específico dos licenciandos em Física, o interesse pela área pereceu ter sido construído no seio familiar, uma vez que 30% de seus pais tinham ocupações ligadas à indústria e construção civil. Com relação à Pedagogia, as razões mais valoradas pelos ingressantes estiveram relacionadas a características da própria carreira docente: gosto pela área de educação, gosto por crianças e engajamento social. As razões mais apontadas e que receberam maior peso pelos ingressantes para não querer ser professor foram: o interesse em seguir carreira acadêmica e o interesse em outras áreas profissionais. Destacaram-se também as razões mais assinaladas pelos ingressantes da Medicina para não seguirem a carreira docente. Estes acham o trabalho do professor bastante difícil devido as condições estruturais da Quadro 4- Publicações de eventos selecionadas a partir do levantamento bibliográfico 32 escola e por conta dos desafios impostos por crianças e jovens que, segundo eles, não costumam respeitar os docentes. Licenciatura em matemática: um curso cada vez menos procurado para formação profissional Marcos Antonio Santos de Jesus; Adelma dos Santos X Enem Relatar uma pesquisa que buscou identificar fatores que influenciaram professores de Matemática na escolha de sua carreira profissional. 62 professores residentes em municípios localizados na Baixada Santista no Litoral do estado de São Paulo. Aplicação de questionário tipo lápis e papel, composto por sete questões fechadas. O fato de gostarem de matemática foi o motivo que mais influenciou os respondentes a optarem pela carreira docente. Dos 62 participantes da pesquisa, 43 afirmaram que o fato de gostarem de matemática foi o que mais influenciou no momento da escolha profissional. Outros sete professores disseram que a oportunidade de trabalho oferecida pela profissão foi o motivo que mais os influenciaram, enquanto oito afirmaram que gostam de matemática e acreditam que o curso pode ser uma porta de entrada para o mercado de trabalho. Carreira docente, carências docentes e a previsível insuficiência de professores de Matemática. Hustana Maria Vargas XI Enem Contribuir para o aprofundamento das questões relacionadas à escassez de professores de Matemática, mediante dois aspectos: a formação de professores na perspectiva do perfil socioeconômico de estudantes de Licenciatura e a questão da carreira. Caracterização socioeconômic a dos estudantes de Matemática Constatou-se que os estudantes de Matemática são mais desfavorecidos socioeconomicamente quando comparados com um grupo formado por outras áreas, tais como: Administração, Agronomia, Biologia, Direito, Medicina, Medicina Veterinária, entre outros. Por meio dos dados da instituição Federal, foi possível comparar os cursos de Matemática, Letras, Biologia, Medicina, Direito e Engenharia. Neste caso o cenário se repetiu, pois os alunos de Matemática ficaram numa situação mais crítica que os demais cursos, no que se refere ao aspecto socioeconômico. Em síntese, revelou-se a existência de distâncias hierárquicas entre as várias áreas no interior das instituições de ensino superior. Muitos dos problemas presentes no cotidiano da formação e prática docente, como por exemplo, a desmotivação, carência de recursos materiais, entre outros, encontram sua origem nas desigualdades gritantes entre as condições da carreira do professor e outras carreiras. Concepções, memórias e escolha profissional de futuros professores de Matemática. Thaís Leal da Cruz Silva XI Enem O texto traz resultados de uma pesquisa que investigou crenças, concepções, memórias de experiências com a Matemática e escolha profissional de estudantes de licenciatura em Matemática. Estudantes de uma turma do curso de Licenciatura em Matemática do Instituto Federal do Usou recursos da pesquisa do tipo etnográfica. Sujeitos foram acompanhados desde o segundo As considerações finais ressaltam os indícios de que as experiências com a Matemática influenciam crenças e concepções dos licenciandos sobre a Matemática e sua aprendizagem. Os professores foram elementos importantes na formação da escolha dos estudantes pelo curso de Licenciatura em Matemática. Além disso, o ambiente familiar favorável também surge como justificativa para a escolha dos respondentes. 33 Espírito Santo, campus Cachoeiro de Itapemirim período até o quarto do curso, durante 12 meses, através de observação de aulas, registro em diário de bordo, aplicação de questionários e entrevistas. A pesquisa de campo mostrou que podem ser complexas as relações entre memórias dos alunos e suas crenças e concepções sobre a Matemática e escolha profissional. Desafio a ser vencido: o desencanto dos egressos com a profissão e a escassez de Professores de Matemática Lélia de Oliveira Cruz; Arno Bayer VI SIPEM Apresenta resultados parciais de uma pesquisa em andamento que, levando em consideração a falta de atratividade pela carreira docente, teve como propósito investigar a visão dos licenciandos e egressos que estão fora da docência sobre as suas decisões de não assumir e não permanecer na profissão docente, bem como os motivos que os conduziram a esta decisão e, ainda, como as autoridades educacionais tem tratado este problema. Licenciandos e egressos do curso de Matemática do CESC/UEMA Foram coletados dados por meio das atas de colação de grau e questionário respondido pelos egressos. Concluiu-se que de 1989, ano de início do curso, até 2004, haviam sidos formados 115 professores, dos quais, aproximadamente, 70% assumiram e permaneceram na docência. Perceberam também que no ano de 2005 houve uma inversão, pois quase 70% dos egressos não assumiram a docência. Desta forma, o fenômeno da falta de atratividade se fazia presente pela primeira vez no curso. A falta de atratividade e/ou o desencanto que culmina, muitas vezes, com a busca do docente por outras profissões, pode ter sua origem na formação inicial e concretizar-se no desenvolvimento profissional. Todavia, outros fatores têm se apresentado como também motivadores para que os egressos abandonem e/ou não assumam a docência, os quais serão estudados na pesquisa em andamento. A escolha de estudantes universitários pelo curso de licenciatura em Ciências Biológicas e o (des) interesse pela profissão docente Amanda Leal Castelo Branco; Ana Claudia Lopes Chequer Saraiva; Gínia Cezar Bontempo. II CNFP e CEPFE- Eixo 1- Formação inicial de Professor para a Educação Básica Apresentar resultados de uma investigação que teve como objetivo analisar a escolha de estudantes de uma Universidade Federal da Zona da Mata Mineira pelo curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e o (des) interesse pela profissão de professor. 22 estudantes do curso de Ciências Biológicas e 17 estudantes do Bacharelado e Licenciatura em Ciências Biológicas, que se A partir de uma abordagem qualitativa, utilizou-se como instrumento de coleta de dados questionários semiestruturad As analises dos dados apontaram que mais da metade dos Licenciandos/bacharelandos de fato escolheram cursar Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas, o que caminha na contramão dos Licenciandos. Estes, mesmo tendo como primeira opção de curso a Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas não foram aprovados , restando, portando, a opção apenas pela Licenciatura. Os estudantes de Licenciatura apontaram como motivos orientadores de suas escolhas principalmente o gosto pela Biologia e a influências de ex-professores desta disciplina, sobretudo no Ensino Médio. Quantos aos estudantes de 34 encontravam entre o 8º e o 10º período dos respectivos cursos. os. Licenciatura/Bacharelado evidenciou-se que os mesmos, quando prestam o vestibular, pretendem somente o Bacharelado. Neste caso a Licenciatura se torna uma opção complementar, configurando-se como mais uma possibilidade de acesso ao mercado de trabalho. Faltam professores! Reflexões acerca dos salários docentes e a atratividade do magistério Andreza Barbosa; Marcos Luis Gomes. II CNFP e CEPFE Eixo 4- Políticas de formação de professores Discutir em que medida a atratividade da docência é afetada pelos salários recebidos pelos professores brasileiros Análise de caráter bibliográfico documental de estudos da área de Educação e Economia, bem como de documentos de organismos internacionais. Os estudos e as analises realizadas evidenciaram que a escassez de professores é uma problemática que cada vez mais atinge as escolas brasileiras. Embora grande parte das ações para a solução deste problema seja voltada à formação de professores, evidencia-se que a questão salarial impacta grandemente a atratividade da docência, que leva a escassez de professores. As análises mostraram que a principal justificativa para não optar por um curso de licenciatura ou para abandonar a carreira docente é o baixo valor do salário recebido. A consolidação da escolha profissional pela docência durante a formação inicial Alvanize Valente Fernandes Ferenc; Tarcísia Carolina Roberto Duarte. III CNFP e CEPFE Eixo 1- Formação inicial de Professor para a Educação Básica Socializar os processos e os resultados de uma investigação que teve como objetivo analisar o papel do professor na consolidação da escolha profissional pela docência durante o curso de licenciatura. 57 estudantes matriculados (a partir do quarto período) em um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas de uma Universidade pública de Minas Gerais. Aplicação de questionários e entrevistas. Os dados revelam que boa parte dos estudantes optou pela Licenciatura pelo fato de querer ser professor. Parte considerável mencionou a baixa concorrência do curso no vestibular como motivação para a escolha. Alguns estudantes apontaram ainda como motivo para a sua escolha o fato de gostarem da área de ensino e da Educação. Dos 57 respondentes, 28 declaram que quando ingressaram no curso queriam ser professor e 28 declararam o contrário disso. Um estudante não respondeu esta questão. Quando perguntados se naquele momento queriam ser professores, obteve-se o seguinte resultado: 21 ainda não estavam decididos, três não queriam e 33 queriam ser professores. Dos oito estudantes entrevistados, sete ingressaram no curso incertos de suas escolhas, apesar das influências de seus docentes passados e do interesse pelo estudo da Biologia. No entanto, tais estudantes, no decorrer do curso, foram descobrindo o prazer de aprender a ensinar e a responsabilidade do ser professor. Constatou-se que a prática pedagógica dos professores, as metodologias por eles utilizadas e sua relação com os 35 Fonte: Organizado pelo autor estudantes influem na consolidação da escolha pela licenciatura durante a formação inicial destes professores em potencial. A influência dos professores na consolidação das escolhas dos licenciando pela docência ficou evidente nesse estudo. 36 2.1. Principais diferenças entre a presente dissertação e as dissertações encontradas 8 . Esta seção é resultado de análises realizadas sobre o Quadros 3, apresentado anteriormente. Tem como propósito central, destacar as principais diferenças existentes entre as dissertações levantadas e a proposta da presente investigação. Dissertação 1- Motivações para a escolha da Licenciatura em Matemática e Pedagogia: um estudo com alunos da PUC/ SP e UFMT O autor da Dissertação 1 delineou o seguinte objetivo para sua pesquisa: Considerando a diminuição do número de estudantes dos cursos de Matemática e o aumento do número de estudantes nos cursos de Pedagogia, temos por objetivo traçar o perfil dos alunos dos cursos de Graduação em Matemática e em Pedagogia de duas universidades, uma no Estado de São Paulo, a PUC-SP, e a outra no Estado do Mato Grosso, a UFMT; identificando os principais motivos que levam os alunos a se interessarem pela docência. (SOUZA, 2010, p.26). Com pode-se observar mediante o objetivo apresentado anteriormente, a Dissertação 1 norteou-se pelo movimento de diminuição do número de estudantes dos cursos de Matemática e o aumento do número de estudantes nos cursos de Pedagogia. Neste ponto, ainda na orientação do objetivo, surge a primeira diferença a ser destacada, uma vez que o propósito da investigação apresentada nesta neste relatório norteou-se pela problemática da baixa atratividade da carreira docente evidenciada pela literatura atual. Outro ponto de divergência refere-se ao próprio objetivo. A Dissertação 1 propôs traçar o perfil de estudantes de dois cursos de graduação, para identificar os motivos principais que os levam a se interessarem pela docência. Já a pesquisa que se apresenta neste relatório buscou investigar o que motiva as pessoas a escolherem o curso de Licenciatura em Matemática (não necessariamente a escolha pela docência), buscando revelar as justificativas dadas para tal escolha, com a intenção de compreender se esta foi refletida ou circunstancial. A ação de centrar-se nas análises dos perfis em busca da identificação dos motivos que levaram os estudantes a se interessarem pela docência é uma originalidade da Dissertação 1. Por sua vez, a dissertação que se descreve neste relatório possui a análise do perfil dos estudantes somente como um objetivo específico da investigação. Observam-se, ainda, diferenças com relação aos participantes e aos locais de coleta de dados. A presente pesquisa teve como participantes os ingressantes dos cursos de Licenciatura 8 Para ter maior clareza das diferenças apontadas nesta seção, sugere-se ao leitor que, antes de iniciar a leitura, avance até a seção 4 deste relatório referente à metodologia da pesquisa, e leia os objetivos delineados para a presente investigação. 37 em Matemática da UNESP, enquanto os sujeitos da Dissertação 1 foram estudantes de Matemática e Pedagogia da PUC/ SP e da UFMT. Dissertação 2- A Atratividade da Carreira Docente: um estudo em uma escola pública de um município da grande São Paulo A Dissertação 2 é o segundo trabalho exposto no Quadro 3. Diferentemente da presente dissertação, a autora optou por investigar estudantes do Ensino Médio (122 estudantes) de uma escola da rede pública de um município do ABC paulista. No que tange aos objetivos, ocorre também divergências. A pesquisadora buscou investigar e analisar os “interesses” dos estudantes. Sua busca, portanto, não foi investigar motivações da escolha pela licenciatura, mas sim a intenção dos estudantes de ser ou não ser professor, isto é, compreender se há ou não a possibilidade de escolha profissional docente pelos seus participantes. Outra diferença se dá na metodologia utilizada, uma vez que para atingir seus os objetivos, além da análise de questionários, a autora apreciou sete memoriais dos participantes e ainda formou um grupo de discussão composto por dez estudantes. Dissertação 3- A atratividade do magistério para o ensino básico: estudo com ingressantes de cursos superiores da Universidade de São Paulo (USP) A terceira dissertação localizada teve por objetivo analisar o perfil dos ingressantes dos cursos de Pedagogia, Licenciatura em Física e Licenciatura em Matemática da USP, bem como os fatores que determinaram suas escolhas de se tornarem ou não professores do Ensino Fundamental e Médio. Buscou-se investigar ainda se os estudantes do curso de Medicina da mesma Universidade já almejaram serem professores da Educação Básica em algum momento de suas vidas. A Dissertação 3 possui diferenças notáveis em seu objetivo quando comparada com a proposta da pesquisa que se descreve neste relatório, uma vez que colocou em foco a análise do perfil dos estudantes. Também porque objetivou investigar se os estudantes de Medicina já pensaram em serem professores da Educação básica. O autor realizou comparações socioeconômicas e também contrastou as opiniões dos estudantes, o que se difere muito da proposta deste trabalho. 38 Dissertação 4: Por que ser professor? Uma análise da carreira docente na educação básica do Brasil A quarta e última dissertação localizada, sintetizada no Quadro 3, apresentou uma proposta com diferenças expressivas com relação à pesquisa que se descreve neste relatório. Fica claro que se trata de estudo totalmente teórico, em que se buscou compreender, por meio de análises de políticas públicas, o problema da baixa atratividade da profissão docente no Brasil. Diferente da Dissertação 4, as análises da pesquisa descrita neste relatório, além de fundamentarem-se em teorias, pautaram-se também em dados empíricos coletados por meio de aplicação de questionários. Além disso, não havia intenção de compreender o problema da baixa atratividade. 2.2. Tendências investigativas e metodológicas dos trabalhos encontrados nos anais de eventos. Conforme apresentado no Quadro 4, durante o levantamento realizado nos anais de eventos científicos, foram localizados 10 trabalhos cujos conteúdos relacionam-se com a temática da presente pesquisa. Dentre todos os estudos encontrados, somente foi exposto na modalidade “Painel” o de autoria de Luciana França Leme, intitulado “Atratividade da docência para o ensino básico na visão ingressante de cursos superiores”. Todos os outros trabalhos, portanto, foram apresentados na modalidade “Comunicação Oral”. Vale ressaltar também que a maioria dos trabalhos apresenta parte de resultados ou resultados parciais de uma pesquisa. Nota-se, ainda, que dos dez trabalhos localizados, seis abordam a Licenciatura em Matemática, sendo que quatro destes tratam especificamente desta área. Com relação às tendências investigativas abordadas, o que fica mais evidente é a questão da escolha da profissão de professor. Dos dez trabalhos localizados, seis versam sobre os fatores (motivos) que influenciam e/ou contribuem com o processo de escolha pela licenciatura ou pela profissão de professor. Nota-se, ainda, que os fatores que colaboram com a problemática da atratividade da carreira docente são abordados por duas pesquisas, sendo que uma destas tem como foco a questão dos baixos salários recebidos pelos professores. Também se evidencia nos trabalhos localizados a comparação de perfil entre estudantes que escolhem ou não por cursos de licenciatura, a problemática da escassez de 39 professor e, ainda, a questão dos egressos de cursos de licenciaturas que decidem não seguir na carreira docente. No que se refere às metodologias utilizadas, observa-se certa variedade. Encontra-se nos trabalhos resultados alcançados por meio de: análise documental, estudo de caso, pesquisa do tipo etnográfica e levantamento de dados. Com relação aos instrumentos de coleta de dados, o que se destaca é a utilização de questionário, uma vez que, nove dos dez trabalhos fizeram uso deste instrumento durante suas coletas. Três destes declararam explicitamente terem usado questionários do tipo Socioeconômico. Quanto aos participantes dos trabalhos encontrados, o que se destaca são estudantes universitários de cursos como Licenciatura em Matemática, Licenciatura/Bacharel em Ciências Biológicas, Licenciatura em Física, Pedagogia e Medicina. Vale destacar que um dos trabalhos teve como sujeito professores atuantes em municípios localizados na Baixada Santista. Em outro foram sujeitos estudantes egressos de um Curso de Matemática. 2.3. Revelações das pesquisas encontradas: uma síntese De modo geral, as pesquisas localizadas durante o levantamento bibliográfico revelam, como principais motivos para a escolha da profissão docente, o gosto que se tem pela área de Educação ou pela disciplina específica da licenciatura escolhida, além das boas experiências vivenciadas na escola, marcadas pelo bom exemplo de um professor. As pesquisas evidenciam, ainda, outros fatores que motivam a escolha pela profissão, são eles: o fato de gostar de crianças; a questão da não aprovação em outros vestibulares prestados; a baixa concorrência dos vestibulares para cursos de licenciatura; a oportunidade de se ter um emprego; e a presença de professores na família. Algumas das pesquisas localizadas exploraram, também, os motivos declarados pelas pessoas para a não escolha da profissão docente. Neste caso, a baixa remuneração e a desvalorização/ desprestígio da profissão surgem como os principais fatores apontados. Ainda são revelados como fatores que afastam as pessoas da profissão de professor motivos como as condições de trabalho que o profissional está sujeito, a imagem ruim que se tem da escola, o desrespeito dos estudantes com o professor, o interesse por outras áreas, além de fatores intrínsecos da disciplina específica, como, por exemplo, o fato de ser algo de difícil aprendizado. As pesquisas apontam, também, que aqueles que optam pela carreira de professor, são em geral, pessoas de baixa renda. 40 Conhecido o que se tem produzido sobre o tema a ser investigado, pode-se dizer que, em primeiro lugar, esta pesquisa irá colaborar com as discussões sobre a atratividade da carreira docente e os motivos que levam as pessoas a seguirem ou não o caminho da profissão de professor, ampliando os debates que se tem sobre essas importantes temáticas. Além disso, a presente investigação contribuirá com este grupo de trabalhos a partir das análises, pouco exploradas na literatura atual, da atratividade dos cursos de Licenciatura em Matemática da UNESP. Por fim, mais um diferencial deste trabalho, que irá agregar valor ao que se tem produzido na temática em questão, são os resultados alcançados, especificamente, com os estudantes ingressantes, no ano de 2016, nas Licenciaturas em Matemática da UNESP. 41 3. REFERENCIAIS TEÓRICOS DA INVESTIGAÇÃO: A PROFISSÃO DOCENTE E SUA ATRATIVIDADE Esta seção apresenta discussões construídas com base nas ideias de autores presentes na literatura, tendo com o propósito central a exploração, de modo sistematizado, dos conceitos abordados na construção da presente investigação, visando possibilitar a aproximação do leitor com a sustentação teórica do presente trabalho. 3.1. Gênese do trabalho docente O princípio da educação no Brasil se deu em tempos de colonização, quando, em 1549, foram enviados a Salvador os primeiros padres jesuítas, chefiados por Manuel de Nóbrega. Tais “Soldados de Deus” tinham como missão difundir entre os povos indígenas a fé e o modo de convivência cristã. Suas atividades eram realizadas em classes de alfabetização e se limitavam a leitura e a escrita, pois a intenção era introduzir a língua portuguesa para a catequização. (DI GIORGI E LEITE, 2010). O início, aparentemente positivo, que colocava a população indígena diante de conhecimentos diferenciados e novos princípios religiosos, necessita de um olhar mais crítico e uma análise histórica cuidadosa. Conforme apontam Viera e Farias (2003), os jesuítas foram enviados às terras brasileiras para servirem ao propósito dos colonizadores: a obtenção de lucro por meio da exploração das riquezas naturais. Nesse sentido, como se pode perceber, as iniciativas educativas carregavam consigo um interesse de dominação da metrópole sobre o território colonizado. “A ação da companhia de Jesus assegura a hegemonia espiritual da Metrópole sobre o novo território. Se os soldados do rei conquistam pela força, aos soldados de Deus cabe a conquista pela persuasão”. (Vieira e Farias 2003, p. 35). O trabalho dos Jesuítas foi desenvolvido em duas fases. A primeira foi orientada pelo plano de estudos idealizado por Manuel da Nóbrega 9 , tendo como foco o ensino das primeiras letras, a catequese a música e alguma iniciação profissional. A segunda fase inspirou-se pelos princípios do Ratio Studiorum, concentrando-se no ensino de humanidades, filosofia e teologia. (VIERA E FARIAS, 2009) Em 1556 entram em vigor as Constituições para a Companhia de Jesus. Neste momento, tudo indica que o plano de Nóbrega se esbarrou em resistências relacionadas à 9 Manuel da Nóbrega foi um padre Português, chefe do primeiro grupo de Jesuítas que vieram para o Brasil em 1549. 42 própria religião. No novo modo de trabalho, surge a preocupação em educar os filhos dos colonos e na formação dos futuros Sacerdotes. (VIERA E FARIAS, 2009) Deste modo, a educação estabelecida foi se transformando com o passar do tempo em um sistema cada vez mais voltado aos ricos, no qual o intuito era educar uma parte das elites para assegurar a continuidade do que já havia sido conquistado na colônia. O que se tinha era um ensino excludente. Na época, a realidade apresentava condições econômicas, sociais e políticas que não favoreciam o desenvolvimento de um sistema educativo, nem remetiam ao interesse pela educação, uma vez que as atividades para a sobrevivência não exigiam sequer um preparo mínimo das pessoas, como por exemplo, a leitura e a escrita. Neste cenário, cerca de duzentos anos depois de sua chegada, em 1759, os Jesuítas foram expulsos pelo Marquês de Pombal 10 . (DI GIORGI E LEITE, 2010). Tal expulsão não foi um acontecimento que se restringiu somente ao contexto da Educação, mas representa apenas uma face do poder político e econômico alcançados pelos portugueses sobre a colônia brasileira. (VIERA E FARIAS, 2009) Inicia-se o período pombalino, que demarca um momento importante na história da Educação do Brasil e do avanço do trabalho docente. Entra em cena, contrapondo-se ao ensino de caráter religioso, o poder estatal como agente responsável pelo estabelecimento de novos rumos para a Educação. (VIEIRA E FARIAS, 2007). A colônia não contava com um sistema arrecadador que permitisse receber o imposto que seria destinado às aulas régias e também não tinha recursos para substituir as escolas Jesuítas fechadas ou para encontrar professores que assumissem as classes. Deste modo, o Brasil inicia o século XIX sem ter um sistema educacional bem estabelecido. Apesar da chegada da família real portuguesa ter acarretado mudanças no que se refere à educação superior, não houve progressos com relação à educação elementar, pois a elite a recebia em casa, em forma de ensino privado. Portanto, recordar-se das primeiras iniciativas educacionais no Brasil e, consequentemente, das primeiras formas de trabalho docente, é um exercício desanimador, já que o acesso à escola era privilégio da minoria (DI GIORGI E LEITE, 2010). O tempo passa, chega-se no período compreendido entre a Independência e a República do país, que foi marcado pelo início do reconhecimento da importância da Educação Escolar. Foi no Império que se estabeleceu o Ato Adicional de 1834, que promoveu 10 Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, era ministro plenipotenciário do Rei Dom José e representante em Portugal do Despotismo Esclarecido, uma forma de governo característica da Europa marcada por ideias progressistas. 43 a descentralização do ensino. Movimento que isentou o Governo Central das responsabilidades com relação à Educação elementar, atribuindo-as as províncias, que pouco fizeram em favor desse nível de ensino, devido à falta de recursos. (DI GIORGI E LEITE, 2010). É importante ressaltar que a extinção da escravatura, fato ocorrido em 1888 e responsável pelo início da imigração europeia, teve interferência no desenvolvimento educacional do Brasil. Os imigrantes europeus, acostumados com um sistema de ensino mais avançado, contribuíram ativamente por meio de reivindicações para o desenvolvimento da instrução popular. O fato dos imigrantes serem oriundos de países onde a educação escolar estava universalizada os tornou preocupados com a educação de seus filhos. (DI GIORGI E LEITE, 2010). Percebeu-se ainda o progresso no campo educacional, quando os lucros com o café implicaram o crescimento industrial e comercial no Brasil. Os quadros lucrativos foram ampliados, desenvolveram-se indústrias nos centros urbanos, e assim, como assinalam Di Giorgi e Leite (2010), foram criadas novas necessidades dos sistemas de ensino a nível elementar. Neste ponto da história, embora se tenha avançado no sentido da emancipação da Educação nacional, ainda não se tem uma situação animadora com relação à educação democrática no Brasil. Conforme apontam Viera e Farias (2003), embora o Império apresente um agradável resultado no que se refere às iniciativas educacionais em relação ao período anterior, ainda não está prevista a ideia de educação para a maioria dos brasileiros. O privilégio de se ter acesso à educação é da nobreza, situação que vai se modificar somente com o início do próximo período. Entra em cena o Brasil republicano. Neste ponto, Di Giorgi e Leite (2010) ressaltam que as ideias republicanas, liberais, favoreciam o crescimento, ainda que modesto, da industrialização no país. Os autores também ressaltam que, visando à formação da elite e de parte das classes que surgiam nos grandes centros urbanos, a União cuidava de reformar e aumentar as oportunidades educacionais nos níveis médio e superior. O período republicano, que antecede a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi marcado pelo pouco crescimento do ensino elementar. Depois da guerra, o tema da Educação volta a ser pautado com mais frequência no Brasil, pois, as consequências das lutas afloraram o sentimento de nacionalismo e contribuíram no sentindo de auxiliar as pessoas a pensar nos problemas sociais. Nestes termos, iniciam-se campanhas contra o analfabetismo da população e intensifica-se a busca pela educação democrática. (DI GIORGI E LEITE, 2010). 44 Quando se avança neste período da história chama a atenção o crescimento das indústrias e as movimentações nas cidades. Esses acontecimentos são marcas do advento do capitalismo, que segundo Silveira (1995), provocou uma grande mudança no modo de produção, que passa a se basear na cidade e na indústria. Além disso, as inovações na produção exigiam conhecimentos específicos que não podiam ser aprendidos espontaneamente, como era no campo. Sendo assim, surge a necessidade de um ensino sistematizado. Portanto, é como uma necessidade imposta pelos capitalistas que surge generalização da escola. Neste momento da reflexão vale ressaltar os avanços que se teve com a Constituição de 1934, que além de fixar as bases para a política nacional de educação, atribuiu à União a competência para fixar o plano nacional, compreendendo o ensino em todos os graus e ramos e reconhecendo a educação como direito de todos os cidadãos, com a condição do ensino primário ser gratuito e obrigatório e extensivo a adultos. (DI GIORGI E LEITE, 2010). Numa época em que já eram visíveis o crescimento econômico e a modernização do Brasil, finalmente foi promulgada, em 1961, a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (LDB). Tal lei veio a favorecer mais a ideologia da escola privada do que a emancipação da escola pública. Neste contexto, Di Giorgi e Leite (2010) chamam a atenção para o fato de que somente há apenas 61 anos o Brasil conta com uma legislação que junta os diferentes níveis e modalidades de ensino em um único texto. Após o golpe de 1964, os militares assumem o poder do país e, assim, inicia-se um ciclo de cinco governos de presidente generais. O congresso nacional é fechado, os partidos políticos dissolvidos e são estabelecidas eleições indiretas para governadores e presidentes. Com a nova constituição de 1967, incorporam-se leis de exceção e a ditadura é institucionalizada. (DI GIORGI E LEITE, 2010) Neste período, por meio de duas leis, foram definidos novos rumos ao campo educacional. A primeira, Lei n. 5.540/ 1968, regulamentou a reforma universitária, instituindo os princípios para a organização e funcionamento do Ensino Superior. Esta reforma promoveu uma grande expansão de oferta de matrículas, no entanto esse crescimento ocorreu de forma desordenada, sem a preocupação com as exigências mínimas de qualidade. A segunda, Lei n. 5.692/ 1971, fixou as diretrizes e bases para os ensinos de primeiro e segundo graus, com os propósitos de conter a crescente demanda para o Ensino Superior e promover a profissionalização de nível médio, todavia este esforço profissional “ficou no papel” e as escolas passaram a oferecer habilitações de “faz de conta”. (DI GIOGE E LEITE, 2010) 45 No retorno ao Estado Democrático nos marcou a Constituição de 1988. Ela trouxe consigo um longo capítulo sobre educação, no qual o princípio da gestão democrática foi estabelecido. Além disso, a educação foi estabelecida como um direito público subjetivo e o ensino fundamental passou a ser obrigatório e gratuito para todos. (DI GIORGI E LEITE, 2010). Finalmente, os indicadores sobre a expansão da oferta de ensino no Brasil mostraram um crescimento significativo. Desse modo, conforme destacam Di Giorgi e Leite (2010), visando o desenvolvimento econômico e atendendo as necessidades do capital, foi preciso ampliar oportunidades educacionais, mesmo que não significasse um ensino de qualidade. O saldo que se deve ressaltar é que pela primeira vez na história do Brasil praticamente cem por cento da população pode ser atendida nas escolas. Diante de tudo isso, nota-se que a iniciativa educacional no Brasil teve um caráter excludente, e não tinha outro objetivo senão a dominação das terras brasileiras. (VIEIRA E FARIAS, 2007). Mudanças no âmbito educacional ocorreram no decorrer da história, mas o ensino, em grande parte do tempo, foi privilégio dos ricos. Deve-se observar, ainda, que a expansão do ensino é relativamente muito recente se comparada com a data de início da educação brasileira e começou a tomar forma, sobretudo, a partir de outro interesse de dominação, o interesse em favor do capital. Contudo, a educação chegou às massas populares e junto com esse acontecimento mudanças ocorreram no contexto da profissão docente. A passagem de um sistema de ensino que antes atendia a elite para um sistema de ensino voltado para as massas, teve por consequência o aumento na quantidade de professores e alunos, isto é, gerou novas oportunidades, mas também implicou em novos problemas qualitativos. O aumento das responsabilidades dos professores não foi acompanhado de melhoria dos recursos materiais e tampouco das condições de trabalho em que se exerce a docência (ESTEVES, 1995) Para Valle (2006, p.179) a frágil e tardia “[...] democratização do sistema de educação brasileiro – quanto à sua expansão e à oferta de um ensino de qualidade – acaba postergando a edificação dessa carreira e favorecendo uma enorme fragmentação do corpo docente”. Mudanças sociais repentinas têm por consequência o desajustamento do indivíduo, uma vez que, o mesmo perde as referências culturais conhecidas. Tais desajustamentos surgem ao passo que as coisas não funcionam como antes, tornando complexo o ato de posicionar-se diante da nova situação em que se está inserido. Neste sentido, conforme aponta Esteves (1995, p.97), “[...] os professores enfrentam circunstâncias de mudanças que os obrigam a fazer mal o seu trabalho, tendo de suportar a crítica generalizada, que sem analisar 46 essas circunstâncias, os considera como responsáveis imediatos pelas falhas dos sistemas de ensino.” Atribuir ao professor a culpa pelos impasses da educação contribui para o desprestígio acelerado da profissão docente. A imagem social do professor, já tão comprometida, se degrada ainda mais quando se coloca o docente como dono de todos os males dos sistemas de ensino. A condição de “bode expiatório” pode produzir, por exemplo, justificativas para o processo sobre o qual o professor foi inserido, o chamado processo de proletarização. Em síntese, após a expansão do ensino, a profissão de professor passou por algumas mudanças sociais, o que gerou consequências expressivas no trabalho docente. Como visto, houve um aumento na complexidade da profissão causado pelas mudanças repentinas, que colocaram os professores diante de novas exigências, desacompanhadas da preocupação com o preparo do professor para o seu novo cenário de atuação. Além disso, a categoria foi inserida em um processo de funcionarização ou proletarização, o que implica na perda de autonomia sobre sua atividade, em problemas salariais e, por consequência, no rebaixamento da relevância social da profissão. Acredita-se que a nova condição que o professor foi inserido tem contribuído para o afastamento das pessoas da profissão docente. Afinal, uma profissão que tanto exige de uma pessoa e não tem a devida valorização, tanto social como econômica, não costuma ser alvo de escolha dos jovens, principalmente daqueles que possuem melhores econômicas. 3.2. Importantes dados sobre o cenário atual da Profissão Docente no Brasil Nesta seção abrem-se as “cortinas” para um panorama do atual cenário da profissão docente no país. Para a construção de tal tarefa, tomou-se como base, principalmente, dados presentes no livro “Professores do Brasil: impasses e desafios”, das professoras Bernadete Gatti e Elba Barreto (Gatti, Barreto, 2009). As autoras apresentam e discutem dados obtidos em órgãos que realizam coletas sistemáticas sobre os docentes, tais como: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Relação Anual de Informações Anuais (RAIS), Ministério da Educação (MEC), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD). Na elaboração do presente panorama, foram utilizados, ainda, dados presentes na Sinopse Estatística da Educação Básica, produzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) no ano de 2015. Tal sinopse é resultado dos dados coletados pelo Censo Escolar junto aos estabelecimentos de ensino. 47 Nestes termos, inicia-se esta seção com um panorama, apresentando importantes números referentes à profissão docente, que revelam o quão grande é a classe trabalhadora docente. No Brasil, do total de empregos registrados em 2006, 8,4%, destinavam-se a professores, segundo a RAIS 11 . Conforme indicado, existiam, em 2006, 2.949.428 postos de trabalho para professores e outros profissionais de ensino, como supervisores, psicopedagogos, coordenadores pedagógicos, orientadores educacional, pedagogos, dentre outros. Vale ressaltar que 77% dos postos de trabalho, registrados pelo MTE para profissionais do ensino, eram femininos. (GATTI, BARRETO, 2009). Considerando somente classe docente, registrou-se 2.803.761 empregos no Brasil em 2006, em todos os níveis de ensino. (GATTI, BARRETO, 2009). O que se vê é uma enorme massa de empregos, que revela uma classe de trabalhares, de fato, muito ampla. Dados mais recentes, retirados da Sinopse Estatística da Educação Básica INEP (2016), apresentados na tabela, a seguir, também revelam importantes situações com relação ao número, sexo e idade dos docentes da Educação básica brasileira. Tabela 1 – Números de docentes na Educação Básica brasileira em 2015, por faixa etária e sexo. Feminino Masculino Total Faixa etária Frequência % Frequência % Frequência % Até 24 anos 82.804 4,7 23.681 5,4 106.485 4,9 De 25 a 32 anos 358.131 20,5 109.946 25,2 468.077 21,4 De 33 a 40 anos 508.866 29,1 127.563 29,3 636.429 29,1 De 41 a 50 anos 534.881 30,5 105.997 24,3 640.878 29,3 50 anos ou mais 266.507 15,2 68.778 15,8 335.285 15,3 Total 1.751.189 100 435.965 100 2.187.154 100 Fonte: Dados organizados pelo autor, com base nos do INEP (2016). N= 2.187.154 Conforme os dados expressos na Tabela 1, o total de docentes atuantes na Educação Básica no ano de 2015 era de 2.187.154. Nota-se nestes dados também, que esse montante era composto majoritariamente por mulheres, que representavam mais de 80% do total de professores. Ao discutirem o problema da atratividade da carreira docente no Brasil, Gatti et al (2010, p.144 ) afirmam que: “Talvez o fato de a grande maioria dos docentes nas redes de ensino e dos licenciandos ser do sexo feminino coloque a questão de gênero em nosso 11 A RAIS é um relatório de dados socioeconômicos encomendado pelo Ministério do Trabalho e Emprego brasileiro às pessoas jurídicas e outros empregadores. 48 contexto social como um dos fatores intervenientes nessas motivações e na escolha pela docência”. Outro dado importante sobre a profissão de professor apresentado na Tabela 1 é o fato de que, em 2015, menos de 5% do total de professores possuía até 24 anos de idade, faixa etária de um professor iniciante. Por outro lado, mais de 15% deste total tinha 50 anos ou mais, estando, portanto próximo da aposentadoria. Boa parte dos professores, 29,3%, possuía entre 41 e 50 anos de idade. Na faixa etária de 33 a 40 anos situava-se 29,1%, enquanto 21, 4% do total possuía de 25 a 32 anos de idade. Embora os intervalos de idade criados pelo INEP (2016) não estejam uniformes quanto à amplitude, dificultando a análise, pode-se dizer que a quantidade de professores com mais idade é consideravelmente superior à quantidade de professores mais jovens. Desta forma, com o passar do tempo, a tendência é existir mais professores em idades de aposentadorias do que jovens professores ingressantes. Tal fato pode ser entendido como um agravante para o preenchimento de vagas para o magistério em nossas escolas, o que sinaliza para o futuro um possível déficit de professores para a toda a educação básica, prejudicando ainda mais a qualidade da educação básica brasileira. Gatti e Barreto (2009), ao analisarem o perfil socioeconômico do professorado, considerando somente pessoas que têm a docência como trabalho principal e aqueles que são professores tanto em seu trabalho principal, quanto no secundário (2.660.724 pessoas no total), apontaram que a maioria (61,3%) dos docentes se autoclassificou como brancos, enquanto 38,7% como não brancos (conjunto predominantemente formado por pardos).