Investigação das Propriedades Físicas de Metais Moleculares, da Terra Preta de Índio e o Parâmetro de Grüneisen Fonônico ISYS FERNANDES MELLO Isys Fernandes Mello Investigação das Propriedades Físicas de Metais Moleculares, da Terra Preta de Índio e o Parâmetro de Grüneisen Fonônico Orientador: Prof. Dr. Valdeci Pereira Mariano de Souza Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Câmpus de Rio Claro, para obtenção do título de Mestre em Física. Rio Claro 2019 M527i Mello, Isys Fernandes Investigação das Propriedades Físicas de Metais Moleculares, da Terra Preta de Índio e o Parâmetro de Grüneisen Fonônico / Isys Fernandes Mello. -- Rio Claro, 2019 69 p. : il., tabs., fotos Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Rio Claro Orientador: Valdeci Pereira Mariano de Souza 1. Metais moleculares. 2. Efeitos de correlação eletrônica. 3. Constante dielétrica. 4. Frequência de plasma. 5. Ressonância paramagnética eletrônica. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca do Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Rio Claro. Dados fornecidos pelo autor(a). Essa ficha não pode ser modificada. Isys Fernandes Mello Investigação das Propriedades Físicas de Metais Moleculares, da Terra Preta de Índio e o Parâmetro de Grüneisen Fonônico Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “ Júlio de Mesquita Filho” - Câmpus de Rio Claro, para obtenção do título de Mestre em Física. Comissão Examinadora Prof. Dr. Mariano de Souza (orientador) IGCE/UNESP - Rio Claro, SP Prof. Dr. Ricardo Egydio de Carvalho IGCE/UNESP - Rio Claro, SP Prof. Dr. Marcio Daldin Teodoro UFSCar - São Carlos, SP APROVADA Rio Claro, SP, 01 de Julho de 2019. 2 À minha mãe, Izabel Fernandes, por abdicar de sua vida para trabalhar o máximo posśıvel para que eu estivesse aqui hoje. Agradecimentos Primeiramente agradeço imensamente ao meu orientador Prof. Dr. Mariano de Souza por acreditar e abrir as portas do grupo para mim. Eu sempre digo que não há orientador como ele nesse mundo. É inspirador ver o amor e a dedicação dele com a Ciência e eu só tenho a agradecer por todo o aprendizado e confiança proporcionados a mim nesses dois anos de Mestrado. Foram muitas discussões acerca dos diversos aspectos da pesquisa, da F́ısica e da vida acadêmica. Ter esse apoio incondicional no mestrado me proporcionou um crescimento exponencial tanto como f́ısica quanto como ser humano. É uma honra para mim ser orientada pelo prof. Mariano. Agradeço à minha amada mãe Izabel por nunca desistir de mim e acreditar no meu potencial desde que eu era bem pequena. Ela é a razão de eu estar aqui hoje, então, devo a ela este trabalho. A Ciência ainda é complexa para a maioria de nós, mas mamãe fala com orgulho a todos sobre sua filha cientista. À minha amada avó Dayr que mesmo dizendo não entender nada do que eu faço não deixou de me incluir em suas orações um dia sequer. Me enche de alegria ver ela presenciando a realização do meu sonho. Ao meu pai que, em vida, não pode ser tão presente o quanto quis, mas tenho certeza que sonhou esse futuro lindo pra mim. O ceticismo não me permite acreditar que ele esteja aqui assistindo tudo que acontece, mas meu coração diz que ele se enche de orgulho a cada passo que dou. Agradeço também a “tia Valéria” pelos anos de alfabetização e ensino fundamental e principalmente por toda a paciência e atenção em sala de aula com uma aluna “diferente” das demais crianças. Individualmente agradecerei a alguns professores da graduação, obviamente cada um, à sua maneira, colaborou para que eu estivesse aqui hoje. Primeiramente ao querido Prof. Dr. Marciano Carneiro (INFES-UFF) por me ajudar a encontrar o caminho quando eu achava que a F́ısica não era pra mim. Recordo-me vagamente dele falar que eu tinha potencial. Houveram momentos em que eu não acreditei muito nisso, mas o pouco que pude ouvir de Marciano me levou à F́ısica do Estado Sólido. O conhecimento vence barreiras e hoje eu venço as minhas. Muitos daqueles que eram vistos como “excelentes alunos” no ińıcio do curso ficaram nessas barreiras e eu, desacreditada por alguns, cheguei até aqui. Obrigada por todo apoio, Marciano, você nos inspira em muitos aspectos. Ao Prof. Dr. Luciano Medeiros (INFES-UFF) pela orientação na primeira monitoria da minha vida, pelos anos de PIBID que fizeram de mim mais humana e por despertar em mim meu lado professora. Ao coordenador do curso de licenciatura em F́ısica do IFES - Cariacica, prof. José Bohland pelos esforços incansáveis para que eu conseguisse me graduar a tempo de não perder a inscrição no mestrado. Aqui cabe incluir também a secretária Euzanete que contribuiu na resolução das questões burocráticas. Ao Prof. Dr. Cleiton Kenup pelo tempo de iniciação cient́ıfica que me fizeram ver a beleza da supercondutividade. E por último mas não menos importante ao amado Prof. Dr. Fernando Leal que, mesmo distante, continua sendo minha inspiração, meu professor mais genial. Fernando, muito obrigada por nunca deixar de acreditar e investir em mim. Com você eu aprendi e cresci absurdamente. Sinto falta das discussões sobre F́ısica e as 3 4 aulas incŕıveis tanto sobre TQC, quanto nas disciplinas obrigatórias (F́ısica Moderna I e II, F́ısica Matemática I e II, Teoria Eletromagnética I e II). Essas palavras são pequenas demais perto de toda gratidão e carinho que tenho por você, Fernando. Ao meu companheiro de vida e namorado Danilo Prado por estar ao meu lado nos dias bons e ruins sendo meu suporte e me dando forças para seguir. O amor veio por acaso no meio do caminho do mestrado e tornou tudo tão positivo e mais leve. Obrigada por toda a paciência, atenção, compreensão e cuidado que você sempre tem comigo. Agradeço também à familia de Danilo pelo acolhimento, principalmente a minha sogra Edna e seu marido Vlamir pelo enorme carinho, ter uma famı́lia me amparando aqui é extremamente confortante. Aos meus amigos de graduação Josianne, Weslley Lourenço, Nathanael Nardoto (principalmente), Charles Aguiar e Bernardo Moreira pela amizade e companheirismo que nem a distância separou. A vida nos deu destinos distintos e sinto falta de vocês todos os dias, mas eu sei que em breve nos encontraremos e voltaremos a compartilhar nossas experiências de vida e acadêmicas. Às minhas meninas f́ısicas Jakeline Rabelo (UFPel), Julie Souza (UFMG), Bárbara Camile (UnB), Júlia Marcolan (UFF) e Carlla Oliveira (UFPR) por compartilhar suas histórias, pesquisas cient́ıficas, sonhos e lutas diárias comigo e serem, por muitas vezes um porto seguro. Ser mulher e fazer ciência ainda é dif́ıcil, mas estamos aqui para mudar isso. Mulheres, cientistas e guerreiras. Ao meu querido amigo e companheiro de grupo Lucas Squillante. O destino não coloca as pessoas em nosso caminho por acaso e eu já sabia disso quando conheci o Lucas. Obrigada por estar ao meu lado todo o tempo e pelo apoio incondicional. Não posso deixar de mencionar aqui também meus colegas de grupo Paulo Menegasso e Cesar Sônego por todo apoio com os aspectos experimentais e pela enorme disponibilidade para esclarecer dúvidas. À todas as mulheres na história que lutaram para que pudéssemos estudar, ter autonomia, ser o que quisermos. Lugar de mulher é na ciência SIM! À todos que contribuiram de maneira direta ou indireta na minha formação. Infelizmente não tenho como citar todos aqui, mas a gratidão existe. Agradeço por fim à Unesp e à CAPES pela bolsa de estudos. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nı́vel Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. 5 “But she said: ‘Where’d you wanna go? How much you wanna risk?’ [...] I want something just like this.” Coldplay 6 Resumo Neste trabalho de Mestrado foram explorados aspectos fundamentais da F́ısica do Estado Sólido através de três frentes de pesquisa. A primeira e principal frente de pesquisa é referente ao estudo da chamada fase ferroelétrica de Mott-Hubbard nos condutores moleculares orgânicos quase-unidimensionais da famı́lia (TMTTF)2X, onde TMTTF é a molécula tetrametiltetratiafulvaleno e X é um contra-ânion monovalente. Tal investigação foi realizada através de experimentos de constante dielétrica e o denominado Positive Up Negative Down (PUND) a qual permite obter informações acerca da polarização elétrica intŕınseca de um sistema ferroelétrico. Os resultados mostram a anisotropia para a constante dielétrica e a presença de polarização intŕınseca abaixo de Tco. Uma segunda frente é relacionada às oscilações de cargas em sólidos onde foi investigado o quão suscet́ıvel tais oscilações são à variações de volume. Esta análise foi realizada através do cálculo do parâmetro de Grüneisen fonônico para a frequência de plasma. Os cálculos realizados mostram que as oscilações de carga são fortemente influenciadas por variações de volume e, consequentemente de pressão. A última frente de estudo é relacionada ao solo da Amazônia conhecido como Terra Preta de Índio para o qual foram realizadas medidas de ressonância paramagnética eletrônica. Esta permitiu obter informações acerca de propriedades conectadas ao spin eletrônico do sistema. As medidas mostram um posśıvel ordenamento ferromagnético na TPI, o qual pode ser devido à presença de ferro no sistema. Palavras-chave: Metais moleculares, Efeitos de correlação eletrônica, Constante dielétrica, Frequência de plasma, Ressonância paramagnética eletrônica. 7 Abstract In this Master thesis, fundamental aspects of Solid State Physics were explored through three research topics. The first and main research topic is the investigation of the so-called Mott-Hubbard ferroelectric phase in quasi-one-dimensional organic molecular conductors of the (TMTTF)2X family, where TMTTF is the tetramethyltetrathiafulvalene molecule andX is a monovalent counter-anion. This investigation was carried out through dielectric constant and the so-called Positive Up Negative Down (PUND) experiments, which enable to obtain physical information about the intrinsic electric polarization of a ferroelectric system. Our results reveled the anisotropy of the the dielectric constant and the presence of intrinsic electric polarization below Tco. The second topic is related to the charge oscillations in solids, the so-called plasma frequency, where it was investigated how susceptible such frequency is to volume variations. This analysis was performed by calculating the phononic Grüneisen parameter for the plasma frequency. The calculations reveled that the charge oscillations are strongly influenced by changes in volume and, consequently, of pressure. The last research topic is related to the Amazonian soil known as Terra Preta de Índio, for which electron spin resonance measurements were performed. This allowed to obtain information about properties connected to the electronic spin of the system. The measurements reveled a possible ferromagnetic ordering in TPI, which may be due to the presence of iron in the system. Keywords: Molecular metals, Electronic correlation effects, Dielectric constant, Plasma frequency, Electron spin resonance. Sumário 1 Introdução 10 2 Aspectos Teóricos 14 2.1 Ferroeletricidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 2.1.1 Dipolos elétricos e o campo elétrico molecular ~Em . . . . . . . . . 14 2.1.2 A equação de Clausius-Mossotti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 2.1.3 Ferroeletricidade - Conceitos básicos . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 2.1.3.1 Dipolos elétricos intŕınsecos: polarizabilidade orientacional 19 2.1.3.2 Classes de ferroelétricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 2.1.3.3 Ordem-desordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 2.1.3.4 Deslocamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 2.1.3.5 Domı́nios ferroelétricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 2.2 A correlação eletrônica e o modelo de Hubbard . . . . . . . . . . . . . . . 23 3 Condutores Moleculares Orgânicos da Famı́lia (TMTTF)2X 26 3.1 Os condutores moleculares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 3.2 A transição metal-isolante de Mott (MI) e o ordenamento de carga (CO) . 27 4 O Parâmetro de Grüneisen Fonônico e as Oscilações de Carga em Sólidos 32 4.1 A frequência de plasma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32 4.2 O parâmetro de Grüneisen fonônico para a frequência de plasma . . . . . 36 4.2.1 Elétrons “frios” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 4.2.2 Elétrons “quentes” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 5 Aspectos Experimentais 42 5.1 F́ısica de baixas temperaturas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 5.2 Medidas de polarização elétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 5.3 Positive Up Negative Down (PUND) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 5.4 Constante dielétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 5.5 Ressonância paramagnética eletrônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48 6 Resultados Experimentais 50 6.1 Resistividade elétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 6.2 Constante dielétrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 6.3 Positive up negative down (PUND) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 7 A Terra Preta de Índio 55 7.1 Origem e composição da TPI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 7.2 Resultados experimentais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 8 Conclusões e perspectivas 61 8 SUMÁRIO 9 Apêndice A Teoria fenomenológica para a transição de fase ferroelétrica 62 Caṕıtulo 1 Introdução É sabido na literatura que elétrons não interagentes podem ser descritos teoricamente através do modelo de gás de elétrons [1]. Entretanto, quando o regime passa a ser interagente o modelo de gás de elétrons deixa de ser válido e técnicas de muitos corpos sofisticadas precisam ser empregadas para a descrição apropriada do comportamento dos sistema. Um exemplo é o modelo de Hubbard o qual está relacionado à energia de um sistema considerando além da energia cinética de elétrons, a interação entre eles [2]. ⍴ (𝜇 Ω .c m ) T (K) U Figura 1.1: Resistividade elétrica versus temperatura para o urânio mostrando o comportamento caracteŕıstico de um metal (dρ/dT > 0) [3]. Do ponto de vista experimental se tomarmos uma amostra do elemento urânio, a resistividade mostrará um comportamento clássico de metais, ou seja, uma curva com a derivada da resistividade em função da temperatura positiva conforme mostra a Figura 1.1. No entanto, para alguns sistemas tanto a derivada positiva (metais), quanto a derivada negativa (isolantes) são observadas, mostrando que nestes ao se variar a temperatura há uma transição de fase de metal para isolante. Dentro deste contexto, a F́ısica dos chamados sistemas eletrônicos fortemente correlacionados tem sido tópico de alto interesse da comunidade cient́ıfica. A forte interação entre elétrons dá origem a fenômenos como a supercondutividade (SC), onde dois elétrons interagem por intermédio de um fônon formando um “Par de Cooper” [4]. Podemos citar aqui outras fases como a fase isolante de Mott e a denominada fase de carga-ordenada (CO) [5, 6]. Entre os sistemas explorados atualmente um grande interesse cient́ıfico é direcionado aos condutores moleculares orgânicos da famı́lia (TMTTF)2X, onde TMTTF é tetrametiltetratiafulvaleno e X é um contra-ânion que pode ser X = AsF6, SbF6 ou PF6 [6]. Ocorre que ao se aplicar pressão nestes sistemas, que pode ser qúımica para o caso de se variar o ânion, ou hidrostática, consegue-se alcançar diversas outras fases trazendo à tona um rico diagrama de fases [7]. Assim, estes sistemas possibilitam um estudo de 10 CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO 11 diversas fases de interesse no campo dos efeitos de correlação eletrônica. 1 0 21 0 0 1 0 1 1 0 2 1 0 3 1 0 4 ρ ( Ω .cm ) T ( K ) ( T M T T F ) 2 P F 6 Figura 1.2: Resistividade ρ em função da temperatura T para o sistema (TMTTF)2PF6. É posśıvel observar que ocorre uma mudança de derivada em T ∼ 240K caracterizando uma transição de metal dρ/dT > 0 para isolante dρ/dT < 0 [8]. Merece destaque aqui a fase isolante de Mott. Quando a energia de interação coulombiana entre os elétrons se torna comparável ou superior à energia cinética dos mesmos, estes se localizam, ou seja, exibem um comportamento de isolante com gap de energia entre as chamadas bandas de Hubbard, uma vez que o fenômeno decorre de interação eletrônica. Sabe- se que medidas de resistividade versus temperatura (ρ x T ) se mostram distintas para isolantes e condutores [1]. Conforme mencionado aqui, ao se medir um material que apresente transição MI é esperado, portanto, que abaixo da temperatura de transição ocorra uma mudança de derivada nas curvas de resistividade. Tais medidas já foram realizadas nos metais moleculares da famı́lia (TMTTF)2X e demonstram esse caráter 1.2 [8]. Outra fase de interesse a ser explorada neste trabalho é a fase de carga ordenada. Na transição para CO ocorre um rearranjo das cargas [6]. Na temperatura de transição Tco, junto com o ordenamento de carga, tem-se uma quebra de simetria fazendo com que haja uma desproporção de cargas entre os śıtios, ou seja, se tem moléculas com maior concentração de cargas que as outras, de maneira alternada. Isso leva à formação de dipolos elétricos entre elas, portanto uma polarização finita no eixo cristalográfico referente ao empilhamento das mesmas (eixo a) originando uma fase ferroelétrica. Buscando compreender melhor aspectos fundamentais desta fase, medidas de constante dielétrica, essenciais em sistemas ferroelétricos, já foram realizadas [9, 10] revelando assinatura em Tco para os diversos sais e também o caráter anisotrópico dos sistemas, ou seja, as contribuições referentes aos eixos cristalográficos a e c∗ (componente do eixo c) possuem ordens de grandeza distintas [11]. Neste trabalho de Mestrado a principal frente de estudo se concentra na investigação de aspectos fundamentais da chamada fase ferroelétrica de Mott-Hubbard [11]. Ainda, foi dedicado parte deste trabalho a um estudo teórico da frequência de plasma através do parâmetro de Grüneisen fonônico. Em um sólido ao se considerar uma condutividade variante com o tempo, ou seja, com um campo elétrico oscilante, chega-se à chamada função dielétrica dependente da frequência ω. Surge então a frequência de plasma ωp que está relacionada às oscilações de carga no sólido. O parâmetro de Grüneisen é uma relação entre a expansão térmica e o calor espećıfico de um material. Nele, pode-se considerar três contribuições: fonônica, magnética e eletrônica [12], ou seja: Γ = V ∑ i ciΓi κT ∑ i Γi , (1.1) onde i se refere ao tipo de contribuição, c é o calor espećıfico e κT é a compressibilidade 12 isotérmica. Levando em consideração o modelo de Debye, tem-se uma frequência ω que é dependente do vetor de onda ~k. A frequência tem um valor de corte ωD, ou seja, um valor max́imo de frequência em um sólido e, consequentemente, uma temperatura θD associada a essa frequência. O parâmetro de Grüneisen referente às vibrações da rede deve portanto, estar ligado à essa temperatura. Assim, para um sólido, dentro da abordagem de Debye tem-se [12,13]: Γph = −∂ ln θD ∂ lnV , (1.2) que pode ser escrito para cada modo de vibração como: Γi = −∂ lnωi ∂ lnV . (1.3) Assim, o parâmetro de Grüneisen fonônico Γph se mostra uma ferramenta adequada para analisar a influência das variações da frequência de interesse em função do volume do sólido. Buscando compreender melhor a dependência da frequência de plasma com temperatura e volume levando em consideração o modelo de gás de elétrons [1], neste trabalho de Mestrado foi realizado o cálculo de Γ para dois casos: 1. Baixas temperaturas, onde a frequência total do sólido é imperada pela frequência de plasma; 2. Altas temperaturas, que também pode ser visto como um caso geral, onde além das oscilações de carga são consideradas as oscilações térmicas. Por fim, um outro sistema de interesse neste Mestrado foi a Terra Preta de Índio (TPI) que são na verdade “manchas” presentes no solo da Amazônia de interesse da comunidade cient́ıfica devido à sua alta fertilidade. Em sua composição encontram-se diversos elementos tais como C, P, Mn, Fe, O, entre outros [14]. Sua origem é ligada aos povos pré-colombianos, possuindo cerca de 7.000 anos. Tem sido proposto que sua origem esteja ligada às atividades humanas no local, pois, também são encontrado artefatos ind́ıgenas como cerâmicas, ver por exemplo [14,15]. Diversos estudos foram realizados buscando entender a sua composição e formação, entre eles podemos citar: espectroscopia Raman, Scanning Transmission Electron Microscopy (STEM), Energy Dispersive X-Ray (EDX) [14], Electron Energy Loss Spectroscopy (EELS) [16], Nuclear Magnetic Resonance (NMR) [17]. Tais experimentos mostram que a estrutura da TPI é formada por uma part́ıcula de carbono, ao redor da qual outros elementos se aglomeram, conforme mostram os resultados de EDX [14]. Entretanto, um estudo mais profundo do magnetismo ainda é, de certa forma escasso na literatura, estando por vezes atrelado apenas à medidas de susceptibilidade magnética com o objetivo de estimar compostos ali presentes [18]. Assim, um estudo através de ressonância paramagnética eletrônica (ESR) [19] foi realizado buscando investigar aspectos f́ısicos deste solo. Esta dissertação de Mestrado está organizada da seguinte forma: • Caṕıtulos 2 e 3: Uma discussão teórica baseada na literatura para a ferroeletricidade e os condutores moleculares orgânicos visando proporcionar um embasamento teórico para a compreensão dos aspectos f́ısicos relacionados à fase ferroelétrica de Mott- Hubbard, bem como fenômenos decorrentes de correlação eletrônica. Serão apresentados também resultados da literatura para tais sistemas; CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO 13 • Caṕıtulo 4: Seção dedicada à frente teórica explorada neste trabalho de Mestrado. Aqui será discutida a frequência de plasma, mostrando sua origem e finalizando com a análise realizada para ωp através do parâmetro de Grüneisen fonônico; • Caṕıtulo 5 e 6: Apresentação e discussão dos aspectos experimentais relevantes para a realização das medidas nos sistemas orgânicos. No caṕıtulo 5 também fazem- se presentes aspectos fundamentais do experimento de ressonância paramagnética eletrônica, utilizado para a investigação da TPI. No caṕıtulo 6 serão mostrados e discutidos os resultados obtidos das medidas nos metais moleculares para este trabalho; • Caṕıtulo 7: Aspectos relacionados à Terra Preta de Índio (TPI) serão apresentados, incluindo uma revisão da literatura. Por fim, serão apresentados e discutidos os resultados referentes a esta frente de pesquisa; • Caṕıtulo 8: Conclusões dos tópicos estudados neste trabalho e perspectivas são apresentadas. Caṕıtulo 2 Aspectos Teóricos 2.1 Ferroeletricidade Nesta seção segue uma discussão baseada em textos clássicos de Eletromagnetismo [20,21] e F́ısica do Estado Sólido [1] principalmente sobre dielétricos, polarização elétrica e ferroeletricidade. Este é um embasamento teórico fundamental para a construção deste trabalho de Mestrado. 2.1.1 Dipolos elétricos e o campo elétrico molecular ~Em Um dipolo elétrico é constitúıdo de uma extremidade positivamente carregada e outra negativamente carregada. Um modelo mais simples é explorado principalmente nos cursos básicos de graduação contendo uma carga positiva e uma carga negativamente carregada, como mostra a Figura 2.1. Um caso mais de acordo com a realidade seria, por exemplo, representado por moléculas, uma carregada negativamente e outra com excesso de carga positiva e, portanto, carregada positivamente. d p Figura 2.1: Representação simples esquemática de um dipolo elétrico formado por uma carga positiva e outra negativa. Tem-se então um momento de dipolo elétrico ~p, representado aqui pelo vetor [22]. Ao se aplicar campo elétrico em um meio dielétrico podem-se ter dois casos: i) O material possui dipolos elétricos intŕınsecos que se orientarão na direção do campo elétrico, minimizando a energia total; ii) O material não possui dipolos elétricos intrinsecamente, no entanto, forma dipolos elétricos induzidos a partir da aplicação deste campo elétrico. O campo elétrico no meio dielétrico será uma soma do campo elétrico referente aos dipolos elétricos e do campo elétrico aplicado. Esta análise é dita macroscópica por considerar uma quantidade N de dipolos elétricos distribúıdos em um volume total V , conforme exemplo dado na Figura 2.2. É fundamental, então, uma análise microscópica que nos permita acessar informações acerca do campo elétrico referente à um único dipolo elétrico. Este campo elétrico é denominado Campo Elétrico Molecular ~Em e é descrito pela soma do campo elétrico aplicado ~E, do campo elétrico referente aos dipolos elétricos relativamente distantes do ponto de referência ~EP e do campo elétrico referente aos dipolos elétricos 14 CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 15 mais próximos do ponto de referência ~Eprox [20]. Portanto, ~Em = ~E + ~EP + ~Eprox. (2.1) R E Figura 2.2: Meio dielétrico composto por diversos dipolos elétricos (elipses menores) orientados na direção de um campo elétrico ~E aplicado. O ćırculo com raio R é a região considerada para o cálculo de ~Em cf. Equação 2.1 [20]. Ainda, para simplificar os cálculos, pode-se considerar os dipolos elétricos distantes como uma densidade superficial de carga de polarização σP . Assim, ~EP será descrito como [20]: ~EP = 1 4πε0 ∮ σP ~r − ~r′ | ~r − ~r′ |3 dA, (2.2) onde, ~r = 0, ou seja, toma-se a origem no centro do ćırculo, ∣∣∣~r′∣∣∣ = ∣∣∣ ~−r′∣∣∣ = R, o elemento de área para raio fixo é dA = R2 sin θdθdϕ e ε0 é a permissividade do vácuo. Ainda, σP = ~P · n̂ (2.3) σP = −P cos θ, onde, ~P é a polarização elétrica do sistema. Tendo que ~P se alinhará com o campo elétrico aplicado e resolvendo a integral, tem-se: ~EP = ~P 3ε0 . (2.4) Substituindo a Equação (2.4) na Equação 2.1, tem-se: ~Em = ~E + ~P 3ε0 + ~Eprox. (2.5) Considerando um material isotrópico, sem impurezas e defeitos, temos que ~Eprox = 0, ou seja, não haverão dipolos elétricos próximos interagindo com o dipolo elétrico de referência. Portanto o campo elétrico molecular ~Em será: ~Em = ~E + ~P 3ε0 . (2.6) Na subseção seguinte a Equação de Clausius-Mossotti é discutida. 16 2.1. FERROELETRICIDADE 2.1.2 A equação de Clausius-Mossotti Macroscopicamente sabe-se que a polarização elétrica é diretamente proporcional ao campo elétrico aplicado [20], de maneira que ~P = χ~E, (2.7) onde, χ = ε− ε0, (2.8) ou seja, χ é a diferença entre a permissividade do material e a permissividade do vácuo. Lembrando que a constante dielétrica relativa ε é escrita como: ε = ε ε0 . (2.9) No entanto, a polarização elétrica é definida também levando-se em conta os momentos de dipolo elétrico através da relação: ~P = 1 V ∑ i ~pi, (2.10) onde, ~pi é o momento de dipolo elétrico e V é o volume do sistema. Ainda, tendo N dipolos elétricos por unidade de volume V , tem-se: ~P = 1 V n~p = N~p, (2.11) onde o momento de dipolo elétrico está relacionado através das cargas e da distância entre as mesmas pela relação bem conhecida [21]: ~p = q~l. (2.12) Microscopicamente, também pode-se expressar o momento de dipolo elétrico proporcionalmente ao campo elétrico molecular, ou seja: ~p = ηm ~Em, (2.13) onde ηm é uma grandeza denominada polarizabilidade molecular [20]. Tendo a Equação 2.5 onde ~Eprox = 0, a mesma pode ser reescrita utilizando a Equação 2.13, então temos: ~p = ηm ( ~E + ~P 3ε0 ) . (2.14) Multiplicando ambos os lados da Equação acima por N , tem-se: N~p = Nηm ( ~E + ~P 3ε0 ) . (2.15) Mas, ~P = N~p, logo, ~P = Nηm ~E +Nηm ~P 3ε0 (2.16) Nηm ~E = ~P −Nηm ~P 3ε0 Nηm ~E = ~P ( 1−Nηm 1 3ε0 ) Nηm ~E = ~P ( 3ε0 −Nηm 3ε0 ) CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 17 ~P = 3Nηm ~Eε0 (3ε0 −Nηm) . (2.17) Substituindo as Equações 2.8 e 2.7 na Equação 2.17, ε− ε0 = 3Nηmε0 (3ε0 −Nηm) (2.18) (3ε0 −Nηm)(ε− ε0) = 3Nηmε0 3ε0 ( 1− Nηm 3ε0 ) (ε− ε0) = 3Nηmε0 3ε0(ε− ε0) = Nηmε+ 3Nηmε0 −Nηmε0 3ε0(ε− ε0) = Nηm(ε− ε0 + 3ε0) 3ε0(ε− ε0) = Nηm(ε+ 2ε0) ηm = 3ε0(ε− ε0) N(ε+ 2ε0) . (2.19) Reescrevendo a Equação 2.19 em termos da constante dielétrica relativa ε: ηm = 3ε0(εε0 − ε0) N(εε0 + 2ε0) (2.20) ηm = 3ε20(ε− 1) Nε0(ε+ 2) ηm = 3ε0(ε− 1) N(ε+ 2) . (2.21) A Equação 2.21 é a chamada equação de Clausius-Mossotti que nos permite obter informações sobre a polarizabilidade molecular à partir de uma grandeza macroscópica. Em outras palavras, a partir da constante dielétrica relativa de um material é posśıvel se obter informações acerca de um dipolo elétrico daquele meio [1, 20]. 2.1.3 Ferroeletricidade - Conceitos básicos Na seção anterior, foi mostrada uma equação para o campo elétrico molecular: ~Em = ~E + ~P 3ε0 . A principal caracteŕıstica de um sistema ferroelétrico é a presença de polarização elétrica ~P0 com valor finito mesmo na ausência de um campo elétrico aplicado, ou seja, há momento de dipolo elétrico finito de maneira intŕınseca no material. Tal polarização intŕınseca também é conhecida como polarização elétrica espontânea. Assim, esses sistemas apresentarão campo elétrico molecular não nulo mesmo se ~E = 0. Portanto: ~Em = ~P0 3ε0 . (2.22) Lembrando que ~p = ηm ~Em, e, ainda, ~P = N~p, 18 2.1. FERROELETRICIDADE logo, ~P = Nηm ~Em. (2.23) Pode-se concluir, então que ~P0 = Nηm ~P0 3ε0 . (2.24) Como ~P0 6= 0, a única forma da equação acima ter validade é se: Nηm 3ε0 = 1. (2.25) Portanto, ηm = 3ε0 N . (2.26) Tem-se então uma condição para que um material seja ferroelétrico, a polarizabilidade é inversamente proporcional ao número de dipolos elétricos por volume. Ainda, tendo a Equação 2.21, pode-se escrever isoladamente a constante dielétrica ε ηm = 3ε0(ε− 1) N(ε+ 2) (2.27) Nηm = 3ε0 (ε− 1) (ε+ 2) Nηm 3ε0 = (ε− 1) (ε+ 2) Nηmε 3ε0 + 2Nηm 3ε0 = ε− 1 Nηmε 3ε0 + 2Nηm 3ε0 + 1 = ε 2Nηm 3ε0 + 1 = ε− Nηmε 3ε0 2Nηm 3ε0 + 1 = ε ( 1− Nηm 3ε0 ) ε = ( 1 + 2Nηm 3ε0 ) ( 1− Nηm 3ε0 ) . (2.28) Conforme discutido acima, para um material ferroelétrico na ausência de campo elétrico aplicado temos a condição exposta na Equação 2.26. Ao substitúı-la na Equação 2.28, conclui-se que ε −→∞, para campo elétrico aplicado nulo ~E = 0. Outra caracteŕıstica de um material ferroelétrico é o comportamento peculiar da polarização elétrica ao se aplicar campo elétrico, conforme Figura 2.3. A transição ferroelétrica segue a teoria de transições de fase de segunda ordem de Landau [1], tendo como parâmetro de ordem a polarização elétrica. O caráter ferroelétrico, então, é exibido apenas abaixo de uma temperatura cŕıtica ou temperatura de Curie Tc, que será diferente para cada material. Cabe aqui uma analogia com o magnetismo, onde tem-se os ferromagnetos com a magnetização como parâmetro de ordem [1]. Resultados de polarização elétrica para um material real podem ser observados na Figura 2.4. CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 19 P E Pmax - Pmax EC- EC Figura 2.3: Curva esquemática de histerese para um material ferroelétrico. Ao se aumentar continuamente o campo elétrico aplicado E a polarização elétrica P aumenta até um valor máximo Pmax. Ao se retirar o campo elétrico não se reduz a polarização elétrica. Um comportamento análogo é alcançado ao se inverter o campo elétrico, onde a polarização elétrica alcança também um valor de saturação −Pmax sendo igual em módulo ao anterior. Figura adaptada de [20]. Scanned by CamScanner Figura 2.4: Curva experimental da variação da polarização elétrica versus temperatura T para o sistema Sr1−xBaxNb2O6 variando a concentração de Sr e Ba. É observado um comportamento do tipo parâmetro de ordem, ou seja, tem-se polarização elétrica finita abaixo de Tc e polarização nula acima desta [23]. 2.1.3.1 Dipolos elétricos intŕınsecos: polarizabilidade orientacional Pode-se analisar um caso espećıfico para a polarizabilidade, onde o momento de dipolo elétrico vem exclusivamente de dipolos elétricos intŕınsecos e não depende da aplicação de campo elétrico externo para tal, conforme mencionado anteriormente. Aqui, tem-se uma dependência com a temperatura e pode-se utilizar a distribuição de Maxwell-Boltzmann para se estimar o valor médio de dipolos elétricos com uma dada energia, ou seja, numa dada configuração orientacional considerando para tanto o campo elétrico molecular ~Em. Genericamente, um dipolo elétrico com momento de dipolo elétrico ~p sujeito à um campo elétrico ~E tem um energia potencial U da forma: U = −~p · ~E. (2.29) Fisicamente a Equação 2.29 nos mostra que o sistema terá energia mı́nima ao se alinhar os dipolos elétricos ao campo elétrico ~E, portanto ao se aplicar um campo elétrico no sistema, o mesmo buscará esta configuração. No entanto, conforme mencionado acima aqui considera-se apenas o campo elétrico 20 2.1. FERROELETRICIDADE molecular, portanto: U = −pEm cos θ. (2.30) Ainda, pela distribuição de Maxwell-Boltzmann a probabilidade B de se encontrar um dipolo elétrico com uma dada energia U é dada pela relação: B(U) = Ce−βU , (2.31) tendo que C é uma constante de normalização e β = 1 kBT , onde kB é a constante de Boltzmann e T é a temperatura. Pode-se então calcular o valor médio: 〈p cos θ〉 = ∫ (p cos θ)eβpEm cos θ sin θdθdϕ∫ eβpEm cos θ sin θdθdϕ , (2.32) em coordenadas esféricas devido à dependência angular resultante do produto escalar entre ~p e ~E da Equação 2.29, observando que como não há dependência das grandezas na integral com a parte radial r, a integral em r será igual tanto no numerador quanto no denominador, por isso a parte radial se encontra ausente na Equação 2.32. Reconhecendo aqui a chamada função de Langevin [20], x = βEmp, (2.33) e resolvendo a integral, tem-se o resultado: 〈p cos θ〉 = p [ cothx− 1 x ] . (2.34) Tendo que o momento de dipolo elétrico é pequeno, podemos tomar o limite x � 1, de maneira que é posśıvel analisar e simplificar o termo cothx ao se expandir os termos exponenciais. Assim, tem-se que cothx ≈ 1 2x (2 + x2) ( 1 + x2 6 )−1 . (2.35) E ainda, o último termo da Equação 2.35 pode ser expandido em série binomial, onde:( 1 + x2 6 )−1 = 1− x2 6 + x4 36 . (2.36) Portanto, cothx ≈ 1 2x (2 + x2) ( 1− x2 6 ) (2.37) ≈ 1 2x [ 2− 2x2 6 + x2 − x4 6 ] ≈ 1 2x [ 2 + 4x2 6 ] ≈ 1 x + x 3 . (2.38) Logo, 〈p cos θ〉 = p [ cothx− 1 x ] CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 21 〈p cos θ〉 = px 3 . (2.39) Tendo a Equação 2.33 e substituindo na Equação 2.39, conclui-se que 〈p cos θ〉 = p2Em 3kBT . (2.40) E, por fim, vetorialmente ~p = p2 3kBT ~Em, (2.41) onde ~p é o momento de dipolo elétrico efetivo referente aos dipolos elétricos intŕınsecos. Este é um tratamento clássico para tal grandeza levando em conta a orientação destes dipolos elétricos com o campo elétrico molecular. A dependência com a temperatura mostra que de fato apenas agitações térmicas influenciam nos dipolos elétricos intŕınsecos. Isto é visto em medidas de corrente de despolarização onde há uma assinatura na temperatura de transição. Assim, ao integrar a curva de corrente de despolarização e observar o comportamento da polarização elétrica do sistema verifica-se que ele se torna nula a partir de Tc. Este tratamento não dá acesso, no entanto, as informações acerca da transição de fase ferroelétrica. Caracteŕısticas como o parâmetro de ordem e um tratamento quântico podem ser feitos através da teoria fenomenológica, também conhecida como teoria de transição de fase de Landau. Esta teoria é brevemente discutida no Apêndice A deste trabalho. 2.1.3.2 Classes de ferroelétricos De uma maneira geral, em um cristal a ferroeletricidade é dada por um deslocamento dos ı́ons, o que permite que estes se aproximem de ponto com excesso de cargas e haja a formação de dipolos elétricos, conforme mostra a Figura 2.5. Embora esse tipo de comportamento possa ser causado em paraelétricos sob a aplicação de campo elétrico (e suprimido com a retirada deste campo elétrico), em ferroelétricos esse deslocamento ocorre de maneira intŕınseca ao se variar temperatura. Em outras palavras, ao se reduzir a temperatura para T < Tc, há o deslocamento e, portanto, a formação dos dipolos elétricos mesmo na ausência de campo elétrico. Assim, um campo elétrico não é capaz de destruir esses dipolos elétricos ditos intŕınsecos. Estes só poderão ser desfeitos por agitações térmicas. T > TC T < TC T < TC E Figura 2.5: Figura esquemática demonstrando a organização dos ı́ons (esferas com sinal positivo) e cargas negativas (esferas com sinal negativo) antes da transição (centro-simétrica - T > Tc). Na fase ferroelétrica, a simetria é quebrada, ou seja, há deslocamento de ı́ons (T < Tc) levando a formação de dipolos elétricos. Ainda, com aplicação de campo elétrico com sentido oposto ao deslocamento intŕınseco da fase haverá um deslocamento dos ı́ons no sentido do campo elétrico aplicado. Figura adaptada de [23]. Assim, duas classes de ferroelétricos podem ser definidas, os denominados ferroelétricos de ordem-desordem e os causados por deslocamento. 22 2.1. FERROELETRICIDADE 2.1.3.3 Ordem-desordem Este grupo é composto principalmente pelos chamados Sais de Rochelle e pelos di- hidrogenados, como por exemplo KH2PO4 [24]. Ocorre aqui uma transição de uma fase paraelétrica (desordenada) para uma fase ferroelétrica (ordenada) governada pelo movimento individual dos ı́ons. Tomando como exemplo os compostos di-hidrogenados acima de Tc tem-se uma ligação de hidrogênio e portanto uma distribuição simétrica de maneira que um átomo de hidrogênio se ligue à dois átomos de oxigênio, ou seja, sem uma direção preferencial. Ao se reduzir a temperatura e alcançar Tc os átomos de hidrogênio tomam um direção preferencial da ligação passando a se ter uma fase ordenada no sistema. Por consequência tem-se a formação de dipolos intŕınsecos. O átomo de hidrogênio é composto por 1 elétron e 1 próton em sua estrutura, mas existem ainda os isótopos do hidrogênio, ou seja, formas alteradas deste átomo. Um dos isótopos do hidrogênio é o Deutério que também possui 1 elétron e 1 próton, mas é acrescido de 1 nêutron em seu núcleo. Isto aumenta a massa de aproximadamente m = (1.67 × 10−27) kg para m = (3.3484 × 10−27) kg, ou seja, seu valor dobra. Embora a massa do hidrogênio/deutério corresponda a um percentual pequeno do sistema di- hidrogenado, a troca causa alterações nas propriedades ferroelétricas do material, como por exemplo em Tc e na constante dielétrica ε conforme indicado na Tabela 2.1, este é chamado efeito isotópico [1, 24]. Sistema Tc (K) KH2PO4 123 KD2PO4 213 KH2AsO4 96 KD2AsO4 162 Tabela 2.1: Compostos di-hidrogenados e suas respectivas temperaturas de transição para a fase ferroelétrica. Observa-se que Tc aumenta significamente ao se trocar hidrogênio por deutério [1]. 2.1.3.4 Deslocamento Outra classe de ferroelétricos é composta principalmente por estruturas do tipo perovskita [1]. A estrutura mais básica destes compostos apresenta a forma ABO3, como por exemplo o sistema BaTiO3 que acima de Tc possui estrutura semelhante ao cloreto de sódio NaCl. Ao se reduzir a temperatura para abaixo de Tc tem-se o deslocamento dos ı́ons de Ba e Ti, enquanto que o oxigênio se mantém fixo, ver Figura 2.6. Essa “deformação” na estrutura resulta na formação de dipolos elétricos e caracterizam assim uma fase ferroelétrica no sistema. 2.1.3.5 Domı́nios ferroelétricos Considera-se um cristal ideal um sólido sem efeitos de borda e defeitos, ou seja, um cristal infinito. Assim tem-se uma polarização uniforme em todo o material. No entanto, um caso real inclui um sistema com dimensões bem definidas e, por mais “puro” que o mesmo seja, haverão impurezas e defeitos nos quais a polarização espontânea certamente será distinta da presente em outras regiões do sólido. Desta forma, não se tem polarização espontânea uniforme o que implica na redução da densidade de carga do sistema [23]. Seja, ~D = ε0 ~E + ~P , (2.42) CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 23 Figura 2.6: Célula unitária do sistema BaTiO3, onde as esferas em vermelho representam O, as esferas em verde representam Ba e a esfera em azul no centro representa o átomo de Ti. As setas em vermelho correspondem ao deslocamento abaixo de Tc. Figura adaptada de [1]. onde ~D é o vetor deslocamento elétrico, ε0 é a permissividade no vácuo, ~E é o campo elétrico e ~P é a polarização elétrica. Tendo que, ∇ · ~D = ρ, (2.43) onde ρ é a densidade de cargas livres do sistema. Ou ainda, tendo um meio dielétrico com permissividade ε, ~D = ε ~E + ~PS , (2.44) sendo ~PS a polarização espontânea do sistema. Figura 2.7: Esquema mostrando domı́nios ferroelétricos. As setas representam a direção da polarização espontânea ~PS . As áreas formadas pelas linhas tracejadas representam as chamadas paredes de domı́nio e separam as regiões com orientações distintas. Figura adaptada de [23]. Para obter informações sobre a densidade de cargas do sistema, segue-se a Equação de Poisson tomando-se o divergente do campo elétrico. Assim, ∇ · ~E = 1 ε (∇ · ~D −∇ · ~PS), (2.45) ou seja, o termo referente à ~PS age como um campo de despolarização reduzindo a densidade de cargas do sistema ferroelétrico. Este campo de despolarização está relacionado a uma energia, assim, se no caso ideal com polarização elétrica uniforme este termo é nulo, então tem-se o mı́nimo desta energia. Em um caso não ideal o sistema apresenta regiões com orientações diferentes de polarização buscando minimizar a energia. Essas regiões são os chamados domı́nios ferroelétricos. Um esquema de domı́nios ferroelétricos é mostrado na Figura 2.7. 2.2 A correlação eletrônica e o modelo de Hubbard A teoria de bandas [1] permite distinguir muito bem metais e isolantes. Enquanto em metais tem-se os elétrons livres que como o próprio nome diz podem “transitar” livremente no material, em isolantes os elétrons estão bem localizados, respeitando o prinćıpio da incerteza, de maneira que a banda de condução é vazia e não pode ser ocupada devido ao gap de energia que a separa da banda de valência (Figura 2.8). Esta teoria é válida quando elétrons não interagem entre si, e portanto, perde sua validade no estudo de fases decorrentes de correlação eletrônica. 24 2.2. A CORRELAÇÃO ELETRÔNICA E O MODELO DE HUBBARD E ne rg ia gap isolante metal Figura 2.8: Bandas de valência e condução para um isolante e para um metal. No isolante tem-se uma banda totalmente preenchida e outra vazia de maneira que o gap de energia é grande o suficiente para que não seja posśıvel ocupar a banda vazia. Já para o metal tem-se a banda de condução parcialmente preenchida [1]. Em trabalho publicado em 1978 [2], J. Hubbard mostra um hamiltoniano que considera além do termo de energia cinética referente ao movimento de elétrons outros dois termos relacionados à interação Coulombiana [2]. H = t ∑ iσ (c†i+1,σ ci,σ + c†i,σ ci+1,σ) + 1 2 ∑ i Vi−j ninj + 1 2 ∑ i,σ U niσni,−σ. (2.46) small, the electron is almost entirely localized at a lattice site and moves only virtually, at short durations compati- ble with the Heisenberg uncertainty principle. On the other hand, when it is large, the electron can move throughout the crystal. We thus obtain a simple local picture for the competi- tion between itinerant and localized tendencies underly- ing the rich phenomena that correlated materials exhibit. The mapping of the lattice model onto an impurity model— the basis of the dynamical mean-field theory—simplifies the spatial dependence of the correlations among electrons and yet accounts fully for their dynamics—that is, the local quantum fluctuations missed in static mean-field treat- ments like the Hartree–Fock approximation. Besides its conceptual value of providing a quantum analog of the classical mean field, the mapping of a lattice model onto the Anderson impurity model has had great practical impact. Applications of DMFT have led to a lot of progress in solving many of the problems inherent to strongly correlated electron systems, such as the Mott metal–insulator transition, doping of the Mott insulator, phase separation, and the competition of spin, charge, and orbital order. The potential for system-specific modeling of materi- als using DMFT was recognized early on.7 But actual im- plementation required combining ideas from band theory and many-body theory.8 Vladimir Anisimov’s group in Eka- terinburg, Russia, and one of us (Kotliar) first demon- strated the feasibility of this approach using a simplified model of a doped three-dimensional Mott insulator, La1⊗xSrxTiO3. The electrons in that material are divided into two sets: weakly correlated electrons, well described by a local-density approximation (LDA) that models the ki- netic energy of electron hopping, and strongly correlated (or more localized) electrons—the titanium d orbitals— well described using DMFT. The one-body part of the Hamiltonian is derived from a so-called Kohn–Sham Hamiltonian. The on-site Coulomb interaction U is then added onto the heavy d and f orbitals to obtain a model Hamiltonian. DMFT (or more precisely, “LDA + DMFT”) is then used to solve that Hamiltonian. Just as the Kohn–Sham equations serve as a reference system from which one can compute the exact density of a solid, the Anderson impurity model serves as a reference system from which one can extract the density of states of the strongly correlated electrons. The parallel between DFT and DMFT is best seen in the functional approach to DMFT,9 outlined in box 2. It constructs the free energy of the system as a function of the total density and the local Green function. Finding the extrema of the functional leads to a self-consistent determination of the total energy and the spectra. These and related efforts to combine many-body theory with band-structure methods are an ac- tive area of research.10,11 The metal–insulator transition How does an electron change from itinerant to localized be- havior within a solid when a control parameter such as pressure is varied? The question gets at the heart of the Mott transition problem, which occurs in materials as var- ied as vanadium oxide, nickel selenium sulfide, and layered organic compounds.1,11 Those materials share similar high- temperature phase diagrams, despite having completely different crystal structures, orbital degeneracies, and band structures: In each, a first-order phase transition separates a high-conductivity phase from a high-resistivity phase. At low temperatures, in contrast, the materials exhibit very different ordered phases: Organics are superconducting, vanadium oxide forms a metallic and an antiferromagnetic insulating phase, and nickel selenium sulfide forms a broad region of itinerant antiferromagnetism. The Mott transition is central to the problem of mod- eling strongly correlated electrons because it addresses di- rectly the competition between kinetic energy and corre- lation energy—that is, the wavelike and particlelike character of electrons in the solid. Indeed, systems near the Mott transition display anomalous properties such as metallic conductivities smaller than the minimum pre- dicted within a band picture, unconventional optical con- 56 March 2004 Physics Today http://www.physicstoday.org 1 0.5 0 1 0.5 0 D E N S IT Y O F S T A T E S a b c 1 0.5 0 U = 0 U W/ = 0.5 U W/ = 1.2 EF ENERGY +EF U 2 W ⊗EF U 2 1 0.5 0 U W/ = 2 U d Figure 2. The density of states (DOS) of electrons in a material varies as a function of the local Coulomb interac- tions between them. This series illustrates how the spectral features—as measured by photoemission or tunneling experiments, say—evolve in the dynamical mean-field solution of the Hubbard model at zero temperature and half filling (the same number of electrons as lattice sites). U is the interaction energy and W is the bandwidth of noninteracting electrons. (a) For the case in which elec- trons are entirely independent, the DOS is assumed to have the form of a half ellipse with the Fermi level EF, lo- cated in the middle of the band, characteristic of a metal. (b) In the weakly correlated regime (small U), electrons can be described as quasiparticles whose DOS still resem- bles free electrons. The Fermi liquid model accounts for the narrowing of the peak. (c) In strongly correlated met- als, the spectrum exhibits a characteristic three-peak struc- ture: the Hubbard bands, which originate from local “atomic” excitations and are broadened by the hopping of electrons away from the atom, and the quasiparticle peak near the Fermi level. (d) The Mott metal–insulator transi- tion occurs when the electron interactions are sufficiently strong to cause the quasiparticle peak to vanish as the spectral weight of that low-frequency peak is transferred to the high-frequency Hubbard bands. Figura 2.9: Gráfico de densidade de estados versus energia, tendo como centro a energia de Fermi EF . No primeiro caso (a) não há interação entre os elétrons U = 0. Percebe-se que a densidade de estados tem apenas um máximo localizado em EF e, portanto, não há gap de energia, caracterizando uma fase metálica. Ao aumentar um pouco a interação Coulombiana U é observado um alargamento que ocorre de maneira simétrica em relação à EF (b), até que a densidade de estados se distribui de maneira a se ter três pontos de máximo (c). Aumentando-se ainda mais U ocorre a separação das bandas com gap de energia U caracterizando assim uma fase isolante [28]. O primeiro termo de H é associado à energia cinética dos elétrons, por isso a presença de operadores aniquilação e criação, ou seja, um elétron é destrúıdo em um śıtio e criado em um outro śıtio vizinho. Já no segundo termo V refere-se à interação Coulombiana entre dois śıtios vizinhos enquanto que ni e nj representam o operador que quantifica o número de elétrons em cada śıtio. Agora para o último termo U está relacionado à interação entre dois elétrons em um mesmo śıtio e niσ representa o número de elétrons com spin σ enquanto que ni,−σ se refere ao número de elétrons com spin oposto. O aumento da interação Coulombiana, dependendo do tipo (mesmo śıtio ou śıtios distintos) traz à tona principalmente dois fenômenos: a transição metal-isolante de Mott e o ordenamento de carga. Em altas temperaturas o termo t relativo à energia cinética é maior que a repulsão Coulombiana, ou seja, respeitando o prinćıpio de exclusão de Pauli, os elétrons se movem de um śıtio a outro caracterizando um estado metálico. Ao se reduzir a temperatura CAPÍTULO 2. ASPECTOS TEÓRICOS 25 t e U se tornam comparáveis até que em t ∼ U os elétrons se localizam caracterizando uma fase isolante. Os chamados isolantes de Mott podem ser explicados através das chamadas bandas de Hubbard mostradas na Figura 2.9. Agora vamos analisar o termo de repulsão Coulombiana entre śıtios vizinhos V . Considerando um aumento gradativo de V observa-se que à partir de um valor cŕıtico VC [29] a repulsão Coulombiana entre śıtios será expressiva de maneira que elétrons em śıtios vizinhos se tornam percept́ıveis. Desta maneira, os mesmos tenderão a se afastar, ocasionando um deslocamento entre os śıtios. Haverá agora então uma desproporção de carga a qual é dependente da repulsão entre śıtios e, pois ocorre devido ao V expressivo. Caṕıtulo 3 Condutores Moleculares Orgânicos da Famı́lia (TMTTF)2X Transições de fase estão presentes a todo momento no cotidiano, um exemplo clássico disso é a água que se solidifica ao atingir a temperatura de 0◦C (∼ 273 K) no ńıvel do mar. Além deste exemplo bem conhecido, a mudança de temperatura de um sistema pode trazer à tona novas fases. Se pensar do ponto de vista da interação entre elétrons, dentro do campo dos chamados sistemas eletrônicos fortemente correlacionados a supercondutividade (SC) possui grande destaque na comunidade cient́ıfica. Segundo a teoria formulada por John Bardeen, Leon Cooper e John Schrieffer a qual ficou conhecida como teoria BCS e deu aos três pesquisadores o prêmio Nobel em F́ısica em 1972, a supercondutividade surge da formação de pares de elétrons intermediados por fônons (pares de Cooper) [4]. Assim, abaixo da temperatura de transição tem-se a formação dos pares e a queda abrupta da resistividade do material para zero. Do ponto de vista tecnológico, a ocorrência de supercondutividade em temperatura ambiente se mostra uma enorme inovação devido à diversas aplicações posśıveis. Desta forma, compreender aspectos fundamentais da fase supercondutora e buscar a supercondutividade em altas temperaturas se tornou um grande interesse da comunidade cient́ıfica. P P´ A B Figura 3.1: Esquema proposto por Little composto por uma “espinha” (A) e cadeias laterais ligadas à esta espinha nos pontos centrais (P, P’, ...) [25]. Neste contexto, em 1964, William Little propôs um mecanismo para que se pudesse alcançar SC acima da temperatura ambiente [25]. Um exemplo simples de funcionamento deste mecanismo é mostrado na Figura 3.1. Considere uma molécula composta por uma “espinha” e cadeias laterais altamente polarizáveis. Ao se mover um elétron por esta espinha, uma carga é induzida na cadeia lateral. Esta, por sua vez pode atrair um segundo elétron e assim ter a formação de “pares” de elétrons, caracteŕıstica de um sistema supercondutor. Ou seja, ao invés de uma interação entre elétrons intermediada por fônons, teria-se a polarização elétrica fazendo este papel. Desde então, teve-se uma busca por sistemas que se adequassem a essa configuração. Um sistema orgânico em particular 26 CAPÍTULO 3. CONDUTORES MOLECULARES ORGÂNICOS DA FAMÍLIA (TMTTF)2X 27 se assemelha bastante a estrutura proposta por Little, os chamados sais de Fabre da série (TMTTF)2X. 3.1 Os condutores moleculares Figura 3.2: Molécula de TMTTF mostrando a organização dos átomos na mesma com estrutura simétrica possuindo no centro uma ligação dupla entre dois átomos de carbono e grupos metileno em suas extremidades [6]. Abaixo, a estrutura de (TMTTF)2X indicando o empilhamento das moléculas-base, a posição dos contra-ânions nas cavidades formadas pelos seis grupos metileno e a célula unitária tricĺınica (em azul) do sistema [9]. Os condutores moleculares orgânicos da famı́lia (TMTTF)2X são sistemas à base de carbono com grupos metileno em suas extremidades (ver Figura 3.2) que apresentam diversas fases conforme mostra a Figura 3.3. As diversas fases podem ser alcançadas ao se variar a temperatura, pressão hidrostática aplicada ou alterar o contra-ânion. Sistemas moleculares orgânicos são, portanto extremamente promissores por permitirem a investigação de diversas fases decorrentes da forte interação entre elétrons. A célula unitária é composta por duas moléculas tetrametiltetratiafulvaleno (TMTTF) empilhadas ao longo do eixo cristalográfico a que juntas doam um elétron para um contra-ânion X que aqui pode ser PF6, SbF6 ou AsF6, tem-se uma banda de energia dita um quarto-preenchida (quarter-filled) [27]. O empilhamento ocorre em zig-zag e de maneira que haja duas distâncias distintas entre moléculas de maneira alternada. Isso significa que as moléculas se organizam em pares formando d́ımeros [6]. Além disso, essa organização ao longo do eixo a causa uma sobreposição de orbitais que origina o caráter unidimensional do sistema, ou seja, há uma condutividade elétrica maior ao longo deste eixo, ver por exemplo Figura 3.4 [6, 7, 26]. 3.2 A transição metal-isolante de Mott (MI) e o ordenamento de carga (CO) No caṕıtulo anterior foi feita uma breve descrição do modelo de Hubbard onde, através da inclusão de termos referentes à interação Coulombiana é posśıvel se explicar as fases isolante de Mott e o ordenamento de carga e se mostra adequado para explicar fenômenos decorrentes de forte correlação eletrônica. Da Equação 2.46 tem-se além do termo referente à cinética dos elétrons, dois termos relacionados à interações Coulombianas. Ao se reduzir a temperatura para o sistema (TMTTF)2SbF6, por exemplo, na temperatura de transição T=154 K ocorre a transição metal-isolante de Mott, devido à localização dos elétrons. Para este contra-ânion as transições de ordenamento de carga e metal-isolante ocorrem simultaneamente, portanto Tρ = Tco, no entanto para os demais contra-ânions as temperaturas de transição metal-isolante Tρ variam e são distintas de Tco. Para X = AsF6 e PF6, por exemplo, Tρ se mostra superior à mencionada anteriormente. A transição metal-isolante de Mott é observada para os diversos sistemas através de medidas 28 3.2. A TRANSIÇÃO METAL-ISOLANTE DE MOTT (MI) E O ORDENAMENTO DE CARGA (CO) Figura 3.3: Diagrama temperatura versus pressão para os sistemas moleculares (TMTTF)2X e (TMTSF)2X indicando a presença das fases de ordenamento de carga (CO), antiferromagnética (AF), spin-Peierls (SP), isolante de Mott (MI), spin density wave (SDW) e supercondutora (SC) [7]. Figura 3.4: Resistividade elétrica para o sistema (TMTTF)2SbF6 medida para os eixos a (quadrado preto preenchido), b′ (losango vermelho) e c∗ (cruz azul) mostrando uma maior condutividade (σ = 1/ρ) para o eixo a, conforme esperado e mencionado no texto [30]. de resistividade em função da temperatura, conforme mostrado na Figura 3.5. O ponto de inversão da curva indica a temperatura de transição Tρ. Ainda, ao observar o diagrama de fases mostrado na Figura 3.3 verifica-se que esses sistemas também estão sujeitos à ordenamento de carga. Para os sais de Fabre a transição ocorre dentro da fase de Mott, ou seja, abaixo de Tco há uma desproporção de carga no sistema. Na estrutura do sistema, Figura 3.2, é posśıvel visualizar que no contra-ânion há um centro de inversão de simetria, de maneira que existem duas distâncias curtas entre um átomo de flúor (contra-ânion) e um átomo de enxofre (TMTTF). Na fase de carga ordenada há uma quebra de simetria onde ocorre um deslocamento do plano de contra-ânions fazendo com que se tenham moléculas com maior densidade de carga e outras com menor densidade de carga [6]. A Figura 3.6 mostra posśıveis configurações ao CAPÍTULO 3. CONDUTORES MOLECULARES ORGÂNICOS DA FAMÍLIA (TMTTF)2X 29 532 Naturwissenschaften (2007) 94:527–541 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 R ef le ct iv it y 85 K 12 K 0 10 102 103 104 105 1000 2000 3000 C o n d u ct iv it y ( Ω −1 c m −1 ) Frequency (cm−1) 85 K 1.2 K TTF-TCNQ (a) (b) Fig. 6 a Optical reflectivity and b conductivity of TTF-TCNQ parallel to the stack direction b for temperatures above and be- low the CDW transition TCDW = 53 K (data taken from Basista et al. 1990). The insulating state is seen by the drop in the low- frequency reflectivity. The suppression of the conductivity below 300 cm−1 indicates the opening of the CDW gap. For comparison, the thin red lines represent the simple metallic behavior according to the Drude model with a plasma frequency of ωp/(2πc) = 42 000 cm−1 and a scattering rate of 1/(2πτc) = 1200 cm−1 Charge order The crucial point of a CDW is the Fermi surface nes- ting; the driving force is the energy reduction of the occupied states right below the Fermi energy EF when the superstructure is formed (cf. Fig. 5). Well distinct from a CDW is the occurrence of CO. The Coulomb repulsion V between adjacent lattice sites may lead to the preference of alternatingly more or less charge as depicted in Fig. 4c. The extended Hubbard model is a good description of the relevant energies (Seo and Fukuyama 1997): H = − t ∑ j=1 ∑ σ=↑↓ ( c+ j,σ c j+1,σ + c+ j+1,σ c j,σ ) + U ∑ j=1 n j↑n j↓ + V ∑ j=1 n jn j+1. (1) Here t denotes the hopping integral to describe the kinetic energy, U is the on-site Coulomb repulsion, and V the nearest neighbor interaction. The dispro- portionation of charge on the molecules represents a short-range order and has to be commensurate with the lattice. CO may be accompanied by a slight lattice distortion (Fig. 4d), but this is a secondary effect. In contrast to a CDW, a metallic state above the ordering temperature is not required. If it is the case (metallic state), the gap in the density of states due to the super- structure also causes a metal-insulator transition. The quasi-one-dimensional (TMTTF)2 X salts are poor conductors at ambient temperature and exhibit a rapidly increasing resistivity as the temperature is lowered (Fig. 7). The reason is the accumulation of two effects, which severely influence the energy bands as depicted in Fig. 8. The first one is a structural: Due to the interaction with the anions (Fig. 2) the molecular stack is dimerized as visualized in Fig. 4b. The conduction band is split by a dimerization gap Fig. 7 Temperature dependence of the DC resistivity of several Fabre and Bechgaard salts. As the temperature is reduced, the charges become increasingly localized in (TMTSF)2AsF6 and (TMTSF)2PF6 before the charge-ordered state is entered be- low 100 K. (TMTSF)2SbF6 shows a transition from a metal- like state directly into the charge-ordered state at TCO = 150 K. (TMTSF)2PF6 undergoes a SDW transition at TSDW = 12 K. Only (TMTSF)2ClO4 remains metallic all the way down to ap- proximately Tc = 1.2 K, where it becomes superconducting (after Dressel et al. 2001) Figura 3.5: Resistividade versus temperatura para os sistemas (TMTTF)2X e (TMTSF)2X. A resistividade diminui com a redução da temperatura exibindo um caráter metálico até Tρ onde há uma mudança de derivada e a resistividade passa a aumentar de maneira expressiva com a redução de T , indicando um comportamento isolante de Mott [8]. Naturwissenschaften (2007) 94:527–541 531 (a) (b) (c) (d) (e) (f ) (g) Fig. 4 a Stack of equally spaced organic molecules with charge ρ = ρ0 = 1/2e per molecule, for instance. b The dimerization of the stack leads to alternating distances between adjacent mole- cules. c Charge ordering modulates the electronic charge ρ per molecule to ρ0 + δ and ρ0 − δ, as indicated by the gray values. d The charge disproportionation can be accompanied by a lattice dimerization; besides a (– + – +) pattern, the (– – + +) alternation is also possible in two different fashions: e (– – | + + | – – | + +) and f ( + – | – + | + – | – +). g In addition, the magnetic moments located at the molecular dimers can pair and form spin singlets Charge density wave The energy dispersion forms electronic bands that are filled up to the Fermi wave vector kF. In one dimension, the Fermi surface consists of only two sheets at ±kF . The crucial point is that the entire Fermi surface can be mapped onto itself by a 2kF translation. Because the density of states in one dimension diverges as (E − E0) −1/2 at the band edge E0, the electronic system is very susceptible to 2kF excitations. The result of the Fermi surface nesting and divergency of the electronic density of states is a spatial modulation in the charge density ρ(r) with a period of λ = π/kF (Fig. 5), which does not have to be commensurate to the lattice: This is called a CDW. Long-range charge modulation is crucial because a CDW is a k-space phenomenon. Mediated by electron–phonon coupling, this causes a displacement of the underlying lattice (Peierls instability). The gain in electronic energy due to the lowering of the occupied states has to overcompensate the energy required to modulate the lattice (Monceau 1985; Grüner 1994). The consequence of the CDW formation is an energy gap 2�CDW in the single particle excitation spectrum, as observed in the activated behavior of electronic transport or a sharp onset of optical absorption. In addi- tion, collective excitations are possible, which allow for translation of the density wave as a whole. Although pinning to lattice imperfections prevents Fröhlich su- perconductivity, the density-wave ground state exhibits several spectacular features, like a pronounced non- linearity in the charge transport (sliding CDW) and a strong oscillatory mode in the gigahertz range of frequency (pinned-mode resonance) (Grüner 1994). The theory of CDW was triggered by the obser- vations made on the charge-transfer salt TTF-TCNQ in the 1970s and 80s (Denoyer et al. 1975; Heeger and Garito 1975; Kagoshima et al. 1988), in spite of the fact that the compound exhibits a more complex scenario in the temperature range between 60 and 33 K due to fluctuations, separate ordering in the different stacks, transverse coupling, commensurate and incom- mensurate phases, etc. In Fig. 6 the optical properties of TTF-TCNQ are presented as an example (Basista et al. 1990). Clear deviations from the Drude behavior of a conventional metal (Dressel and Grüner 2002) are observed due to the one-dimensional nature; a similar behavior has been reported for the Bechgaard salts (TMTSF)2 X (Dressel 2003). When the temper- ature is reduced below the TCDW ≈ 53 K, the low- frequency reflectivity drops because an energy gap opens at the Fermi level. The single-particle gap opens around 290 cm−1, but, in addition, a strong mode is found between 50 and 100 cm−1. The explanation of this feature and indications of the pinned-mode resonance at even lower frequencies is still under debate. Fig. 5 a In a regular metal, the charge is homogeneously distributed in space. The conduction band is filled up to the Fermi energy EF . b A modulation of the charge density with a wavelength λ = π/kF changes the periodicity; hence, in k-space the Brillouin zone is reduced, which causes a gap 2�CDW at ±kF . The system becomes insulating ρ ρ E EF kF-kFπ a - π a E EF kF kk -kFπ a - π a 2ΔCDW π /kF (a) (b) Figura 3.6: Moléculas (retângulos) empilhadas nas seguintes condições: (a) igualmente espaçadas e com a mesma densidade de cargas; (b) Com duas distâncias distintas se alternando, ou seja, com formação de pares (d́ımeros); (c) Com desproporção de cargas, ou seja, com moléculas mais carregadas (retângulo azul escuro) e outras menos carregadas (retângulo azul claro) organizadas de maneira alternada tendo a mesma distância entre elas; (d), (e) e (f) Possibilidades para o caso onde tem-se dimerização e desproporção de cargas ocorrendo no sistema [8]. se ter desproporção de carga e dimerização, tanto simultaneamente quanto tendo apenas um desses. Pelo modelo de Hubbard, conforme discutido no caṕıtulo anterior, tem-se que o ordenamento de carga ocorre quando a repulsão Coulombiana entre śıtios vizinhos alcança um valor cŕıtico. Nos sistemas em questão esse aumento de V vêm, portanto, acompanhado da quebra de inversão de simetria levando à um ordenamento das cargas que ocorrerá de maneira desproporcional. Acima de Tco, como já mencionado, a banda é parcialmente preenchida e a concentração de carga é a mesma entre as moléculas. A desproporção de carga δ se dará de maneira que as moléculas passarão a ter alternadamente ρ = (0, 5e + δ) e ρ = (0, 5e − δ) onde e representa a carga elementar do elétron e = (1, 6 × 10−19) C, levando à formação de dipolos elétricos e, portanto, dando origem a chamada fase ferroelétrica de Mott-Hubbard [6]. 30 3.2. A TRANSIÇÃO METAL-ISOLANTE DE MOTT (MI) E O ORDENAMENTO DE CARGA (CO) Espera-se, então, que haja uma polarização elétrica espontânea ~P abaixo de Tco. A ocorrência de ~P pode ser verificada através de medidas já discutidas anteriormente, como por exemplo na constante dielétrica ε′ tendo como caracteŕıstica a existência de um máximo em Tco ao se medir ε′ × T . A divergência segue a lei de Curie-Weiss, de maneira que: ε′ = A |T − Tco| . (3.1) In all (TMTTF)2X compounds under investigation a bend is observed below T� in the G=G0ð1=TÞ dependences near some temperature TCO. The position of this bend and the corresponding magnitude of TCO can be determined more exactly in the temperature dependence of the logarithmic derivative dðlogGÞ=dð1=TÞ. The appropriate value of TCO are shown in Table I. As can be seen from Figs. 2 and 3 after some transitional temperature interval at T < TCO, the G=G0ð1=TÞ dependence again takes the form of a close linear variation with a new activation energy �2, the magnitude of which is also indicated in Table I. At lower temperatures the behavior of the CSA con- ductors differs from that of NCSA ones. In the case of CSA the thermally activated decrease of conductance continues down to the transition temperature in the magnetic ordered state TMO. That corresponds to a transition into the spin- Peierls state (SP) for the PF6 anion at TSP ¼ 19K26) and into the antiferromagnetic state (AF) for the SbF6 anion at TN ¼ 8K.27) In the case of (TMTTF)2Br features of the transition into the AF state at TN ¼ 15K become apparent in the temperature dependences of the conductance and dielec- tric permittivity.14) In Br salt the values of TCO ¼ 28K and TN ¼ 15K are relatively close to each other. In the temperature range below TCO a different behavior is observed for (TMTTF)2X conductors with NCSA tetrahedral anions BF4 and ReO4. In these compounds, after some thermoactivated variation of GðTÞ below TCO, an anion ordering occurs at TAO with formation of a superstructure with wave vector q ¼ ð1=2; 1=2; 1=2Þ for both salts. As can be seen from Fig. 3 the AO transitions in these salts have a more abrupt character than near TCO. In the case of (TMTTF)2BF4 it corresponds even to an increase of conductivity [Fig. 3(b)]. In the case of the SCN anion we did not observe any noticeable anomaly in the GðTÞ dependence below T� down to the AO transition temperature at TAO ¼ 169K with q ¼ ð0; 1=2; 1=2Þ28) [Fig. 3(a)]. As can be seen from Fig. 3(a), ReO4 and SCN salts show below TAO a thermoactivated decrease of G with a similar large activation energy �3 ¼ 2000K (Table I). In the case of BF4 salt, because the lower magnitude of TAO ¼ 39K, the range of GðTÞ decrease is close to our experimental resolution and preventing the evaluation of �3 in this salt [Fig. 3(b)]. At lower temperature an AF transition occurs in the case of the SCN anion.28) 3.2 Dielectric permittivity The magnitude of the dielectric permittivity was calcu- lated by the standard equation �0 ¼ ImG=!. Figure 5 shows the temperature dependences of �0ðTÞ at frequency 100 kHz for CSA (PF6, AsF6, and SbF6) and NCSA (BF4 and ReO4) anions. As can be seen the �0ðTÞ dependences do not show any visible anomalies in the temperature range near the maximum of GðTÞ at T � T�. Narrow peaks in the �0ðTÞ dependences are observed at TCO, where an abrupt drop of conductance occurs (Figs. 2 and 3). In the case of AsF6, SbF6, BF4, and ReO4, the �0ðTÞ magnitude shows a divergence at TCO. Indeed, the maximum value of �0 reaches the huge value of the order of 106 (Fig. 5). There are some anomalies in the �0ðTÞ dependence for NCSA anions BF4, ReO4, and SCN near the temperature of anion ordering transition TAO. In BF4 salt, the magnitude of �0 decreases below TCO down to about 40K approaching the resolution level of our measurements. However, at 39K we observed a jump of the �0 magnitude about two times (at frequency 100 kHz), reproducible for several cycles of temperature variation around 40K. After this jump the �0 Fig. 4. Details of the temperature dependences of G=G0 in the temper- ature range near the maximum of the conductivity for (TMTTF)2X salts with X ¼ SCN (squares), PF6 (circles), AsF6 (diamonds). Table I. Parameters of (TMTTF)2X conductors. Anion X T� (K) �1 (K) TCO (K) �2 (K) TAO (K) �3 (K) Low temp. state Br �200 75 28 — — — AFM PF6 250 300 70 370 — — SP AsF6 230 175 100.6 360 — — SP SbF6 �170 — 154 500 — — AFM BF4 220 580 83 750 39 — — ReO4 290 800 227.5 1400 154 2000 — SCN 265 500 — — 169 2000 AFM Fig. 5. Temperature dependence of the real part of the dielectric permittivity �0 at 100 kHz for (TMTTF)2X with X ¼ PF6 (stars), BF4 (squares), AsF6 (circles), SbF6 (diamonds), ReO4 (triangles). J. Phys. Soc. Jpn., Vol. 75, No. 5 SPECIAL TOPICS F. NAD and P. MONCEAU 051005-4 Figura 3.7: Constante dielétrica versus temperatura medida em ν = 100 kHz ao longo do eixo a para X = SbF6 (diamantes), PF6 (estrelas), BF4 (quadrados), AsF6 (ćırculos) e ReO4 (triângulos). Os máximos observados indicam a transição para fase de carga ordenada para os sistemas mencionados [31]. Figura 3.8: Constante dielétrica versus temperatura medida em ν = 1kHz ao longo do eixo c∗, referente à contribuição iônica para X = SbF6, PF6 - H12, PF6 - D12 e AsF6 . Os máximos observados indicam a transição para fase de carga ordenada para os sistemas mencionados e tem-se valores cerca de três ordens de grandeza menores que os encontrados para o eixo a. Estes resultados foram obtidos pela primeira vez no Solid State Physics Lab da Unesp - Rio Claro, ver Ref. [9]. O acesso às diferentes contribuições é obtido através da aplicação de campo elétrico AC com frequências distintas para cada. Enquanto que para a contribuição iônica frequências da ordem de 1kHz são adequadas para a contribuição eletrônica são necessárias frequências maiores [1]. Espera-se, portanto uma resposta expressiva na constante dielétrica ao se medir cristais de TMTTF ao longo do eixo a (polarização eletrônica), no qual tem-se CAPÍTULO 3. CONDUTORES MOLECULARES ORGÂNICOS DA FAMÍLIA (TMTTF)2X 31 o empilhamento das moléculas e portanto a formação de dipolos elétricos abaixo de Tco, conforme resultados mostrados na Figura 3.7 [31]. Além disso, é prevista uma contribuição menos expressiva referente aos ı́ons, na direção cristalográfica c∗. Esta seria cerca de três ordens de grandeza menor que a polarização eletrônica [11]. Medidas da chamada contribuição iônica foram realizadas pela primeira vez pelo Solid State Physics Lab corroborando com a previsão teórica e são mostradas na Figura 3.8. No corpo deste trabalho de mestrado medidas ao logo de ambos os eixos foram realizadas e serão mostradas e discutidas em seção futura. Caṕıtulo 4 O Parâmetro de Grüneisen Fonônico e as Oscilações de Carga em Sólidos 4.1 A frequência de plasma O eletromagnetismo é regido pelas bem conhecidas quatro equações de Maxwell, aqui mostradas em sua formulação macroscópica na forma diferencial [21]: ∇ · ~D = ρf ; ∇ · ~B = 0; (4.1) ∇× ~E = −∂ ~B ∂t ; (4.2) ∇× ~H = ~Jf + ∂ ~D ∂t , (4.3) onde, ~D é o vetor deslocamento elétrico, ρf representa a densidade de cargas livres, ~Jf é a densidade de corrente das cargas livres e ~B, ~E e ~H são respectivamente os campos magnético, elétrico e auxiliar (também chamado de indução magnética). O vetor deslocamento elétrico surge ao considerarmos um meio dielétrico, ou seja, um meio polarizável. Ele está relacionado às chamadas cargas livres ρf e cargas ligadas ρb. Enquanto as cargas ligadas são as cargas induzidas na polarização do sistema, as livres estão relacionadas à condução elétrica, ou seja, às cargas externas. Se pensarmos na forma microscópica para a Lei de Gauss, temos: ∇ · ~E = ρ ε0 , (4.4) onde ε0 é a constante de permissividade dielétrica no vácuo e ρ se refere à densidade de carga total no material (ρ = ρf + ρb). Ainda, ∇ · ~P = −ρb. (4.5) 32 CAPÍTULO 4. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO E AS OSCILAÇÕES DE CARGA EM SÓLIDOS 33 A Equação (4.4) pode ser escrita como: ∇ · ~E = (ρb + ρf ) ε0 (4.6) ∇ · ( ~Eε0 ) = (ρb + ρf ) ∇ · (ε0 ~E) = −∇ · ~P + ρf . ∇ · (ε0 ~E) +∇ · ~P = ρf . ∇ · (ε0 ~E + ~P ) = ρf . Mas, ∇ · ~D = ρf , Assim, ∇ · (ε0 ~E + ~P ) = ∇ · ~D, (4.7) E, portanto, ~D = ε0 ~E + ~P . (4.8) Se o sistema não está polarizado (~P = 0): ~D = ε0 ~E. Agora, ampliando essa situação para um meio qualquer, temos: ~D = ε ~E, onde ε é a permissividade do meio considerado. A razão entre as permissividades de um meio qualquer e do vácuo nos dá uma nova grandeza f́ısica denominada constante dielétrica relativa ε: ε = ε ε0 . (4.9) Agora, podemos reescrever o vetor deslocamento elétrico como uma função da constante dielétrica da seguinte forma: ∇ · ~D = ∇ · (εε0 ~E). (4.10) Se ao invés de um campo elétrico constante no tempo, tomarmos a solução em ondas planas, ou seja, um campo elétrico oscilante no tempo teremos uma função dielétrica que dependerá da frequência ω e do vetor de onda ~k [1]. Reescrevendo ~D, temos: ∇ · ~D(~k) = ∇ · [ε(~k)ε0 ~E(~k)]. (4.11) Para se obter um caso geral é necessário considerar todas as contribuições em ~k, desta forma, o campo elétrico pode ser definido como: ~E = ∑ ~E(~k)ei ~k·~r. (4.12) Assim, a Equação (4.11) se torna: ∇ · ~D = ∇ · [∑ ε(~k) ~E(~k)ei ~k·~r ] = ρf ε0 . (4.13) 34 4.1. A FREQUÊNCIA DE PLASMA E, ainda, ∇ · ~E = ∇ · [∑ ~E(~k)ei ~k·~r ] = ρ ε0 . (4.14) Dividindo (4.13) por (4.14), temos: ∇ · ~D ∇ · ~E = ρf ρ (4.15) ∇ · [ ∑ ε(~k) ~E(~k)ei ~k·~r] ∇ · [ ∑ ~E(~k)ei~k·~r] = ρf ρ ε(~k) = ρf ρ . (4.16) Mas, ρ(~k) = ρf (~k) + ρb(~k) (4.17) ρf (~k) = ρ(~k)− ρb(~k). Substituindo em (4.16): ε(~k)ε0 = 1− ρb(~k) ρ(~k) . (4.18) Ao se tomar o caso extremo para grandes comprimentos de onda, ou seja, k → 0 e portanto ε(ω, 0), vamos considerar o movimento de um elétron livre. Seu movimento se dá apenas devido à força elétrica, assim, podemos aplicar a 2a Lei de Newton no sistema (imaginando um caso unidimensional) em questão, obtendo: m d2x dt = −eE, (4.19) onde, ~F = −e ~E, considerando apenas a direção x. Assumindo aqui que x possui solução dependente do tempo x(t) e de uma frequência ω, temos: x(t) = eiωt. (4.20) Ao tomarmos a primeira e a segunda derivada de x em relação a t, obtemos: ẋ = iωeiωt (4.21) ẍ = i2ω2eiωt = −ω2eiωt. Logo, m(−ω2eiωt) = −eE (4.22) −ω2mx = −eE. Multiplicando ambos os lados pela carga fundamental e, temos: −ω2mex = −e2E (4.23) −ex = −e2E ω2m . CAPÍTULO 4. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO E AS OSCILAÇÕES DE CARGA EM SÓLIDOS 35 Lembrando do Eletromagnetismo que o momento de dipolo elétrico pode ser escrito como: p = −ex. (4.24) Já a polarização por volume é dada pela soma de todos os momentos de dipolo elétrico. Se temos um sistema com n elétrons, então P = n(−ex) (4.25) P = −nex. Voltando agora à equação (4.23) e multiplicando ambos os lados da mesma por n, obtemos: −nex = −ne2E ω2m P = −ne 2E ω2m . (4.26) Ou seja, aqui se tem uma polarização elétrica como função da frequência de um sólido. Vimos anteriormente que, D = εε0E, (4.27) e, portanto, ε = D ε0E . (4.28) Considerando agora a dependência com a frequência, podemos reescrever a Equação (4.28) substituindo a Equação (4.8). Toma-se agora então: ε(ω) = D(ω) ε0E(ω) (4.29) ε(ω) = ε0E(ω) + P (ω) ε0E(ω) . Portanto, ε(ω) = 1 + P (ω) ε0E(ω) . (4.30) Utilizando a Equação (4.26), temos: ε(ω) = 1− 1 ω2 ne2 mε0 , (4.31) em unidades do SI ou ε(ω) = 1− 4πne2 mω2 , (4.32) em unidades gaussianas (CGS). Aqui, ε(ω) é a chamada função dielétrica. As constantes presentes na equação podem ser agrupadas definindo uma nova grandeza f́ısica denominada frequência de plasma ωp, relacionada às oscilações de carga no sólido, ver Figura 4.1 [1]: ω2 p = ne2 mε0 (SI) (4.33) ω2 p = 4πne2 m (CGS). 36 4.2. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO PARA A FREQUÊNCIA DE PLASMA + + + + + + + + _ _ _ _ _ _ _ _ + + + + + + + + + + + + + + + + + + + - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Figura 4.1: Modelo simples mostrando uma oscilação de plasma. Aqui tem-se um plano onde há um deslocamento do gás de elétrons para a direita ultrapassando uma distância da posição fixa dos ı́ons. Tem-se assim uma densidade de cargas superficial negativa à direita (em vermelho) e outra positiva à esquerda (em azul). No entanto, há uma força restauradora resultante da atração dos ı́ons carregados positivamente tendendo a trazer os elétrons de volta a sua posição inicial. Figura adaptada de [13]. 4.2 O parâmetro de Grüneisen fonônico para a frequência de plasma Grandezas termodinâmicas são extremamentes importantes em F́ısica do Estado Sólido, principalmente por permitirem detectar transições de fase, tanto clássicas quanto quânticas. Por exemplo, assinatura em medidas de cv versus T [1, 13]. Essas grandezas podem ser determinadas matematicamente através da conhecida energia livre de Helmholtz F [13], definida como: F = U − TS, (4.34) onde, U é a energia interna do sistema, T é a temperatura e S a entropia. Ainda, a energia interna e a entropia estão atreladas através da relação [13]: T ( ∂S ∂T ) V = ( ∂U ∂T ) V . (4.35) O que nos permite chegar à uma expressão para a entropia S: S = ∫ T 0 1 T ′ ∂U(T ′, V ) ∂T ′ dT ′. (4.36) Agora, a energia interna U , considerando a aproximação harmônica, ou seja em um regime de pequenas oscilações, é definida como [13]: U = Ueq + ∑ ~ks 1 2 ~ωs(~k) + ∑ ~ks ~ωs(~k) eβ~ωs(~k−1) , (4.37) onde, Ueq é a energia no ponto de equiĺıbrio, ωs é a frequência angular referente ao ramo s, ~k é o vetor de onda e β é uma relação envolvendo a constante de Boltzmann kB e a temperatura T definida como 1 kBT . CAPÍTULO 4. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO E AS OSCILAÇÕES DE CARGA EM SÓLIDOS 37 Derivando a energia livre em relação ao volume podemos determinar a pressão do sistema: P = − ( ∂F ∂V ) T . (4.38) Podemos substituir na Equação (4.34) as equações para a entropia e para a energia interna e determinar através da Equação (4.38) a pressão em um cristal dentro da aproximação harmônica: P = − ∂ ∂V [ Ueq + ∑ 1 2 ~ωs(~k) ] + ∑ ~ks ( − ∂ ∂V ) 1 eβ~ωs(~k−1) . (4.39) Ainda, sabendo que a expressão para o coeficiente de expansão térmica é dada como [13]: α = 1 3B ( ∂P ∂T ) , (4.40) em que B é: B = −V ( ∂P ∂V ) T . (4.41) E, reconhecendo que: ns = 1 eβ~ωs(~k) , (4.42) onde, ns é o número médio de excitações do modo normal ~ks relacionado a uma determinada temperatura T . Dentro da aproximação harmônica e levando em conta as vibrações da rede, temos a expressão para o calor espećıfico cv em um dado ~k, ou seja, a contribuição de um determinado modo normal ~k em um ramo s para cv: cvs(~k) = ~ωs(~k) V ∂ns(~k) ∂T . (4.43) Agora, tomando a derivada logaŕıtmica da frequência angular relativa a um modo em relação ao volume podemos definir uma grandeza denominada parâmetro de Grüneisen [13]: Γ~ks = −∂ lnωs(~k) ∂ lnV . (4.44) Aqui, pode-se ainda tomar a média ponderada e reescrever a expressão para a expansão térmica como: α = Γcv 3B . (4.45) Aqui observa-se a importância do parâmetro de Grüneisen, onde o mesmo se mostra como ferramenta para se observar transições de fase, pois está intimamente ligado a grandezas como o coeficiente de expansão térmica e o calor espećıfico. Dentro do modelo de Debye, tendo-se a chamada frequência de corte ωD, temos a mesma expressão para Γ, ou seja: Γ~ks = −∂ lnωD ∂ lnV , (4.46) uma vez que todas as frequências de modo normal irão variar de maneira linear com ωD [13], pois [1]: ω = vk, (4.47) 38 4.2. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO PARA A FREQUÊNCIA DE PLASMA onde v é a velocidade do som, e, KD = ωD v , (4.48) sendo, KD o vetor de onda de corte, portanto, ω = ωD KD k (4.49) De uma maneira mais geral ainda, Γ leva em conta não apenas contribuições fonônicas como discutido acima, mas também eletrônicas e magnéticas, estabelecidas pela relação já mencionada anteriormente [12]: Γ = V ∑ i ciΓi κT ∑ i Γi , No corpo deste trabalho, a importância é enfatizada na análise da influência das oscilações de carga em sólidos. Para isso, nos é extremamente útil a expressão fonônica para Γ, considerando a chamada frequência de plasma ωp demonstrada e explicada anteriormente. Vimos na última seção que a frequência de plasma é definida como: ω2 p = ne2 mε0 . (4.50) Ao se estudar um sólido tem-se o modelo do gás de elétrons onde consideram-se elétrons livres e não interagentes [1] sendo adequado, portanto, para descrever metais. Neste modelo, temos que a energia do gás é descrita pela seguinte relação [1]: E = ~2 2m ( N3π2 V ) 2 3 , (4.51) onde, N é o número de elétrons, V é o volume e ~ é uma relação envolvendo a constante de Planck h definida como: h 2π = 6.626× 10−34 2π . (4.52) Podemos ainda reescrever a Equação(4.51) da seguinte forma: N = V 3π2 ( 2mE ~2 ) 3 2 . (4.53) No entanto, como a frequência de plasma é escrita em termos do número de elétrons por volume, n, é conveniente reescrevermos a relação acima a fim de se obter uma relação que possua explicitamente uma dependência com n [1]. n = N V (4.54) n = 1 3π2 ( 2mE ~2 ) 3 2 . CAPÍTULO 4. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO E AS OSCILAÇÕES DE CARGA EM SÓLIDOS 39 Substituindo a Equação (4.54) na Equação (4.50), ω2 p = ne2 mε0 (4.55) ω2 p = 1 3π2 ( 2mE ~2 ) 3 2 e2 mε0 ω2 p = 1 3π2 ( 2mE ~m 2 3 ) 3 2 e2 ε0 ω2 p = 1 3π2 ( 2m 1 3E ~2 ) 3 2 e2 ε0 ω2 p = m 1 2 3π2 ( 2E ~2 ) 3 2 e2 ε0 . E, por fim, ωp = 1 (3π2) 1 2 ( 2m ~2 ) 3 4 e (mε0) 1 2 E 3 4 . (4.56) Agora, temos para o Parâmetro de Grüneisen fonônico a relação: Γ = − ∂(lnω) ∂(lnV ) . (4.57) Pela regra da cadeia, temos: ∂(lnω) = 1 ω ∂ω, (4.58) e, ∂(lnV ) = 1 V ∂V. (4.59) Assim, Γ = −V ω ∂ω ∂V . (4.60) E, lembrando que ω é função da energia E e do volume V . Assim, a derivada de ω em relação à V será dada pela expressão: ∂ω ∂V = ∂ω ∂E ∂E ∂V . (4.61) Daqui analisaremos duas situações, uma em regimes de baixas temperaturas onde as oscilações de carga predominam e o termo referente às oscilações térmicas é despreźıvel e, ainda, o caso em que essas oscilações não podem ser desprezadas, portanto, considerando este termo [1]. O primeiro caso será denominado “elétrons frios” e o segundo “elétrons quentes”. 4.2.1 Elétrons “frios” Aqui a frequência será dada unicamente pela frequência de plasma [1]. Agrupando termos constantes, temos: ωp = 1 (3π2) 1 2 ( 2m ~2 ) 3 4 e (mε0) 1 2 E 3 4 (4.62) ωp = C1E 3 4 . 40 4.2. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO PARA A FREQUÊNCIA DE PLASMA Tomando a derivada: ∂ω ∂E = C1 3 4 E− 1 4 . (4.63) Lembrando que a energia é dada por: E = ~2 2m ( 3π2N V ) 2 3 . (4.64) Mais uma vez, separando as constantes a fim de facilitar os cálculos, E = C2V − 2 3 . (4.65) Derivando a energia, temos: ∂E ∂V = −2 3 C2V − 5 3 . (4.66) Substituindo as derivadas na expressão para Γ, obtemos: Γ = V − 2 3 2E (3π2N) 2 3 ~2 2m . (4.67) Observa-se então que o parâmetro de Grüneisen não é suscet́ıvel à variações de temperatura neste caso, conforme sugere o termo “elétrons frios”. Existe, no entanto, uma dependência com o volume e também com a energia. Podemos concluir então que as oscilações de carga são extremamente vulneráveis a aplicação de pressão no sistema. 4.2.2 Elétrons “quentes” Aqui temos temperaturas consideráveis, de maneira que a relação de dispersão precisa incluir o termo referente às oscilações térmicas [1], conforme comentado anteriormente. Temos, então a relação de dispersão: ω2 = ω2 p + v2k2 (4.68) ω2 = ω2 p + 2E m k2 (4.69) ω2 = ω2 p + 3kBT m k2, (4.70) onde, kB é a chamada constante de Boltzmann e tem valor kB = (1, 38 × 10−23)m2 kg s−2 K−1, T é a temperatura do sistema, m é a massa do elétron e k o chamado número de onda. Podemos reescrever a Equação (4.70) como: ω2 = Ne2 + 3kBTk 2V ε0 V mε0 . (4.71) A relação para a energia é a mesma citada anteriormente, na Equação (4.51). Substituindo a Equação 4.54 e tomando a raiz quadrada, temos: ω = [ 1 3π2 ( 2mE ~2 ) 3 2 e2 + 3kBTk 2ε0 ] 1 2 ( 1 mε0 ) 1 2 . (4.72) A derivada para a energia em função do volume também já foi calculada acima e é dada por: ∂E ∂V = −2 3 C2V − 5 3 . (4.73) CAPÍTULO 4. O PARÂMETRO DE GRÜNEISEN FONÔNICO E AS OSCILAÇÕES DE CARGA EM SÓLIDOS 41 Já a derivada relativa à frequência ω será: ∂ω ∂E = ∂ ∂E [ 1 3π2 ( 2m ~2 ) 3 2 e2E 3 2 + 3kBTk 2ε0 ] 1 2 ( 1 mε0 ) 1 2 (4.74) = ∂ ∂E  1 3π2 ( 2m ~2 ) 3 2 e2E 3 2 mε0 + 3kBk 2ε0T mε0  1 2 = 1 2 [ C3E 3 2 + C4T ]− 1 2 3 2 C3E 1 2 , onde, novamente C3 e C4 são termos referentes ao agrupamento das constantes para facilitar os cálculos. Substituindo as constantes para obter Γ, temos: Γ = V − 2 3C3E 1 2C2 2(C3E 1 2 + C4T ) . (4.75) Ao se tomar os limites T → 0 e T →∞ podemos analisar o comportamento Γ ao se variar a temperatura. Para o primeiro caso, temos: lim T→0 Γ = V − 2 3C3E 1 2C2 2C2E 3 2 . (4.76) Substituindo as constantes, conclúımos que: lim T→0 Γ = V − 2 3 2E (3π2N) 2 3 ~2 2m . (4.77) lim T→∞ Γ = 0. (4.78) Assim, vemos que em baix́ıssimas temperaturas voltamos ao caso de elétrons frios, o que já era esperado. E, quando T → ∞, Γ → 0. Por fim, substituindo as constantes temos uma expressão final para Γ: Γph = 1 2V − 2 3E 1 2[ 1 3π2 ( 2m ~2 ) 3 2 e2 mε0 E 3 2 + 3kBk2 m T ] [(3π2N) 2 3 ~2 2m ][ 1 3π2 ( 2m ~2 ) 3 2 e2 mε0 ] . (4.79) Esta equação pode ser considerada uma forma geral para ambos os casos. Através deste resultado é posśıvel observar que com o aumento da temperatura, os efeitos referentes à frequência de plasma se tornam despreźıveis. Tendo o parâmetro de Grüneisen como uma grandeza que mostra como a frequência varia com o volume, é posśıvel concluir que a frequência se torna constante com o volume, ainda considerando altas temperaturas. Uma análise referente à influência da energia nos permite concluir que, para o caso de elétrons frios, valores muito pequenos de E implicam em uma divergência no referido parâmetro. A energia para os elétrons vem das oscilações de carga, E = ~ωp, portanto uma redução na energia implica diretamente em uma redução em ωp. Ainda, tendo a Equação (4.60), observa-se que Γ é inversamente proporcional à frequência, que no caso de elétrons frios é oriunda exclusivamente de ωp. Portanto, já é esperado que tal divergência ocorra para ωp → 0, e assim, para E → 0. Por fim, analisando as variações abruptas de volume, nota-se que ao se reduzir drasticamente V a divergência é observada em ambos os casos. Isso significa que ao se reduzir o volume do sólido um aumento na frequência ocorre drasticamente de maneira a causar a divergência em Γ. Conforme colocado para elétrons frios, fica claro aqui para um caso geral que as oscilações de carga são altamente suscet́ıveis à pressurização. Caṕıtulo 5 Aspectos Experimentais 5.1 F́ısica de baixas temperaturas Diversas fases da matéria como a fase isolante de Mott e a supercondutividade são alcançadas apenas em temperaturas demasiadamente inferiores à temperatura ambiente (T ∼ 300K). Assim, pode-se dizer que a temperatura é um parâmetro crucial e determinante em propriedades da matéria. Um dos maiores exemplos conforme citado aqui é a supercondutividade. Em 1911, Kamerlingh Onnes observou que em torno de 4,2 K a resistividade do mercúrio cáıa abruptamente. Onnes foi contemplado com o prêmio Nobel de F́ısica em 1913 como reconhecimento à sua pesquisa de propriedades da matéria em baixas temperaturas e a liquefação do Hélio. Figura 5.1: Evolução dos métodos de refrigeração ao longo dos anos. A linha tracejada faz a separação entre baixas temperaturas T ∼1 K e ultra baixas temperaturas 1 K < T < 10−6 K [33] . A necessidade de se investigar fases exóticas da matéria levou ao interresse da comunidade em alcançar temperaturas cada vez mais baixas. Isso levou ao desenvolvimento de outros métodos e modelos de criostatos (Figura 5.1). Atualmente é posśıvel se alcançar temperaturas da ordem de de 10−6 K através da chamada desmagnetização adiabática [33]. 42 CAPÍTULO 5. ASPECTOS EXPERIMENTAIS 43 O Solid State Physics Lab, mostrado na Figura 5.2, possui um criostato de 4He, ciclo fechado e tubo pulsado Teslatron-PT da Oxford instruments podendo alcançar até 1,4 K. Modelos como este se destacam por não haver a necessidade de injeção nem perda de hélio. Através de compressão/expansão de gás hélio é posśıvel o resfriamento destes sistemas [33]. Compartimentos do tipo Dewar já são conhecidos por permitir, por exemplo, transporte/armazenamento de nitrogênio ĺıquido. Nestes há uma camada de isolamento com vácuo para que trocas de calor com o ambiente sejam minimizadas ao máximo e há ainda paredes espelhadas para que não haja nenhum tipo de absorção de radiação que ocasione em aquecimento do sistema. Criostatos também necessitam de tal cuidado, de maneira que é necessária, antes do primeiro resfriamento, a conexão de uma bomba de vácuo de maneira a deixar o vácuo no sistema o mı́nimo posśıvel, em geral, 10−7 mbar. Há ainda linhas criogênicas as quais, conectadas à uma bomba de circulação permitem a circulação do hélio, responsável pelo resfriamento do sistema. Vale ressaltar ainda que o criostato contém um magneto supercondutor através do qual é posśıvel através da aplicação de corrente no mesmo atingir campos magnéticos de até 12 T. O laboratório foi constrúıdo com recursos Fapesp através do projeto No. 2011/22050-4. Figura 5.2: Solid State Physics Lab presente na Unesp - Rio Claro. O laboratório consta de um criostato Teslatron-PT e uma estrutura que permite medidas de transporte elétrico e expansão térmica de alt́ıssima resolução com equipamentos como nanovolt́ımetro, fonte de corrente, eletrômetro e ponte de capacitância. Além disso dispõe também de microscópio e instrumentos que permitem a realização de contatos elétricos em amostras com dimensões de ordem inferior à miĺımetros. . 5.2 Medidas de polarização elétrica Em um sistema ferroelétrico a polarização elétrica é a principal grandeza f́ısica a demonstrar esse caráter. Ciclos de histerese obtidos através de dados de polarização elétrica versus campo elétrico e temperatura, bem como medidas de constante dielétrica são capazes de nos fornecer informações como a temperatura de transição do sistema. No entanto, esse tipo de medida não é algo trivial de ser realizado. A literatura traz que o chamado “circuito Sawyer-Tower” [32] se mostra adequado para a realização de tais medidas. Neste, um capacitor auxiliar é conectado em série com a amostra, conforme configuração indicada na Figura 5.3. Por estarem ligados desta forma, a carga armazenada 44 5.2. MEDIDAS DE POLARIZAÇÃO ELÉTRICA nos dois será igual e isso possibilita o cálculo da polarização na amostra, bem como o valor de tensão na mesma. Para isto, um gerador de sinais e um osciloscópio são utilizados. Este último nos fornecerá os valores da tensão aplicada e da tensão no capacitor auxiliar. CauxCam Figura 5.3: Circuito Sawyer-Tower com a amostra e um capacitor auxiliar de valor conhecido conectados em série e sob aplicação de tensão. Um gerador de sinais é utilizado para aplicar a tensão no sistema como um sinal triangular conforme indicado no esquema colocado acima. O gerador de sinais permite que um campo elétrico seja aplicado, retirado e invertido através de um sinal bem definido. Neste caso, é definido um sinal triangular para que a variação de tensão seja constante durante todo o ciclo. O circuito apesar de simples exige cuidados extremos, pois a polarização elétrica, por exemplo, no sistema (TMTTF)2PF6 é da ordem de alguns µC/cm2, conforme Ref. [34]. Circuitos montados de maneira grosseira com fios convencionais e placas convencionais estão sujeitos a fuga, tais como acúmulos de cargas, capacitância parasita, entre outros. Ainda, vários ciclos de carga e descarga também podem colaborar para uma “camuflagem” nos resultados. Ciclos de histerese caracteŕısticos destas fugas de carga são mostrados na literatura e um exemplo é mostrado na Figura 5.4. Figura 5.4: Curva esquemática de uma histerese (polarização elétrica versus campo elétrico) resultante de fuga resistiva em um circuito [35]. Em um primeiro momento pode se confundir com uma histerese ferroelétrica, no entanto esta não apresenta, por exemplo, polarização elétrica de saturação. CAPÍTULO 5. ASPECTOS EXPERIMENTAIS 45 Para que seja posśıvel realizar tais medidas nos sistemas é necessária a realização de contatos elétricos nestes. Amostras com faces paralelas e dimensões apropriadas são selecionadas visando a simulação de um capacitor de placas paralelas. Para isto, duas faces paralelas são cobertas por uma camada homogênea de tinta condutora (eletrodos), podendo ser tinta carbono ou prata, por exemplo. Esse tipo de contato elétrico permitiu realizar as medidas citadas no corpo deste trabalho de mestrado. Após realizados os contatos elétricos a amostra é fixada em um soquete constitúıdo de material isolante para que não haja nenhuma interferência nas medidas. Este soquete permite uma adaptação ao porta-amostras inserido no criostato. Vale ressaltar a dificuldade em realizar tais contatos pois as amostras aqui estudadas possuem dimensões inferiores a 1mm, assim, é necessária a utilização de fios de ouro extremamente finos (espessura indicada na Figura 5.5). Os contatos elétricos dos fios nos pinos da soquete são realizados utilizando-se tinta condutora. Além disso os fios são também fixados na máscara utilizando um verniz isolante e capaz de suportar variações de temperatura. Isso permite que a amostra permaneça suspensa e reduz a possibilidade de haver rompimento dos contatos, bem como que o “stress” sobre a amostra seja reduzido. carbon paste gold wire (Ø = 20 μm) Figura 5.5: Amostra de (TMTTF)2PF6 − D12 com contatos realizados para medidas ao longo do eixo cristalográfico c∗. Ampliado, tem-se um esquema dos contatos mostrando mais detalhes como a fixação e dimensã