RENATA BUZETI GARCIA DE SOUZA AVALIAÇÃO DA CONTAMINAÇÃO POR HIDROCARBONETOS DO SOLO E DA ÁGUA DA REGIÃO DE AVARÉ BAURU-SP 2016 RENATA BUZETI GARCIA DE SOUZA AVALIAÇÃO DA CONTAMINAÇÃO POR HIDROCARBONETOS DO SOLO E DA ÁGUA DA REGIÃO DE AVARÉ Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre em Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”. Área de Concentração Saneamento. Orientador: Prof. Dr. Paulo Cesar Lodi BAURU 2016 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus que é a minha salvação, refúgio e fortaleza. Que me faz voar com asas como de águias para atingir os meus sonhos. Agradeço ao meu marido e melhor amigo Victor por todo o seu grande apoio, amor incondicional, companhia e paciência por todos os momentos em que estive ausente. Agradeço aos meus pais Nemésio e Renata que me ensinaram o caminho da vida e ao meu irmão Fernando que me enche de alegria desde que nasceu. Agradeço ao meu sogro Hamilton e sogra Vera por todo o apoio, por serem minha segunda família e por serem meus Amigos. Agradeço à minha querida tia Zenaide que cedendo seu apartamento tornou possível a realização desse mestrado. Agradeço ao meu orientador Prof. Dr. Paulo Cesar Lodi pela paciência, dedicação e segurança que me passou durante esse trabalho. Agradeço ao meu novo amigo Prof. Paulo Fogaça pela paciência, ajuda com os relatórios e principalmente pelas valiosas dicas. Agradeço aos meus modernos avós Ruy, Marcia, Nemésio e Nadir, por todo apoio e por me alegrarem sempre com suas aventuras. i Resumo Este trabalho tem como objetivo a avaliação da contaminação da água e solo por hidrocarbonetos em dois postos de combustíveis denominados Postos A e B, em dois municípios da região de Avaré (SP). Foram avaliadas as concentrações de contaminantes identificadas nas amostras de água e solo coletadas pelas empresas A e B e, comparadas aos Valores de Intervenção da CETESB para solos e águas subterrâneas. Confirmada a contaminação por hidrocarbonetos em ambos os postos e reclassificadas essas áreas como Áreas Contaminadas (AC), foi avaliada a eficácia das técnicas de remediação executadas no Posto A e, através do comparativo traçado entre 21 casos similares da região de Avaré, traçado um plano de remediação para o Posto B. Foram avaliadas as técnicas praticadas no Posto A, de Bombeamento e Tratamento, Biorremediação e Extração de Vapores do Solo. Os principais resultados mostraram uma significativa redução de BTEX totais entre 74,44% e 97,85%, com exceção apenas do ponto onde encontra-se a bomba de sucção do efluente que apresentou aumento, devido à migração da fase residual. Em relação ao Posto B, o comparativo traçado, resultou em um plano de remediação que conta com a associação das técnicas de Bombeamento e Tratamento e, Biorremediação com o uso de Bioestimulantes, visando a aceleração do processo de remediação, tendo em vista que o único meio de abastecimento de água do Posto B trata-se de poço artesiano. A avaliação das investigações permitiu: a classificação de ambos os postos como AC, a identificação das fontes primárias e secundárias de contaminação, o estudo do fluxo de água subterrânea e a direção e extensão da contaminação ao longo do tempo. Além disso, a metodologia de ações corretivas baseadas no risco (ACBR) permitiu o traçado dos possíveis cenários de risco. O processo de remediação dos postos, continua em operação até que essas concentrações se tornem nulas. Palavras chave: água e solo, contaminação, hidrocarbonetos, valores orientadores, monitoramento, postos de abastecimento, remediação. ii Abstract This study aims to evaluate the contamination of water and soil for hydrocarbons in two gas stations called Stations A and B in two cities in the Avare (SP) region. Were evaluated the concentrations of contaminants identified in water and soil samples collected by companies A and B, and compared to CETESB Intervention Values for soil and groundwater. Confirmed the hydrocarbon contamination in both stations and reclassified these areas as Contaminated Areas (CA), it was evaluated the effectiveness of remediation techniques performed in Station A and, through the comparative drawn between 21 similar cases of Avare region, tracing a remediation plan for the Station B. The combination of techniques Pumping and Treatment, Bioremediation and Soil Vapor Extraction used were evaluate regarding the station A. The main results showed a significant reduction of total BTEX between 74.44% and 97.85%, except from the point where was installed the extraction pump which increased the concentration of contaminants because of the movement of the residual phase. About the B Station, the comparative draw resulted in a remediation plan that has the combination of Pumping and Treatment and Bioremediation using Biostimulyators, aiming to accelerate the remediation process, considering that the only way of Station B water supply was a artesian well. The evaluation allowed: the classification of both station as AC, the identification of primary and secondary sources of contamination, the study of groundwater flow, and the direction and extent of the contamination over time and. Besides that, the methodology called corrective actions based in risk (CABR) allowed the possible risk scenarios. The process of remediation stations remains in operation until the concentrations become null. Word Keys: water and soil, contamination, hydrocarbon, guiding values, monitoring, gas stations, remediation. iii Sumário Resumo .................................................................................................................. i Abstract ................................................................................................................ ii Sumário ............................................................................................................... iii Lista de figuras ................................................................................................... vi Lista de tabelas ................................................................................................... ix Lista de siglas ..................................................................................................... xi 1. INTRODUÇÃO................................................................................................ 1 2. JUSTIFICATIVA ............................................................................................. 4 3. OBJETIVOS ................................................................................................... 6 3.1. Objetivo Geral .............................................................................................. 6 3.2. Objetivos Específicos .................................................................................. 6 4. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ........................................................................... 7 4.1. Contaminação do solo e água subterrânea por combustíveis ...................... 7 4.2. Contaminantes - Origem e Características ................................................ 13 4.3. Dinâmica dos contaminantes ..................................................................... 19 4.4. Procedimentos de identificação de uma Área Contaminada ...................... 26 4.5. Valores Orientadores ................................................................................. 30 4.6. Análise de Risco ........................................................................................ 32 4.7. Técnicas de Remediação de áreas contaminadas ..................................... 35 4.8. Revisão de Artigos .................................................................................... 41 5. MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................ 47 5.1. Métodos de Análise de solos e águas subterrâneas .................................. 48 5.2. Posto A ...................................................................................................... 51 5.2.1. Caracterização da região do Posto A ............................................... 51 5.2.2. Instalações do Posto A ..................................................................... 57 5.2.3. Análise do solo local ......................................................................... 59 iv 5.2.4. Análise do fluxo da água subterrânea local ...................................... 61 5.3. Posto B ...................................................................................................... 63 5.3.1. Caracterização da região do Posto B ............................................... 63 5.3.2. Instalações do Posto B ..................................................................... 68 5.3.3. Análise do solo local ......................................................................... 69 5.3.4. Análise do fluxo de agua subterrânea ............................................... 71 6. RESULTADOS OBTIDOS E PROVIDÊNCIAS ............................................. 72 6.1. Posto A ...................................................................................................... 73 6.1.1. Investigação Confirmatória ............................................................... 73 6.1.2. Investigação Detalhada ....................................................................... 76 6.1.3. Delimitação da pluma de contaminação .............................................. 83 6.1.4. Análise de VOC’s ................................................................................ 86 6.1.5. Análise de Risco ............................................................................... 90 6.1.6. Métodos de Remediação executados ............................................... 93 6.2. Posto B .................................................................................................... 101 6.2.1. Investigação Confirmatória ............................................................. 101 6.2.2. Investigação Detalhada .................................................................. 108 6.2.3. Delimitação da pluma de contaminação ......................................... 109 6.2.4. Análise de VOC’s ........................................................................... 112 6.2.5. Análise de Risco ............................................................................. 113 6.2.6. Métodos de remediação propostos ................................................. 115 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................ 127 7.1. Posto A .................................................................................................... 128 7.2. Posto B .................................................................................................... 136 8. CONCLUSÕES ........................................................................................... 137 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................... 140 ANEXOS ............................................................................................................ 146 v Anexo A- Valores Orientadores para Solos e Águas Subterrâneas no Estado de São Paulo ....................................................................................................... 147 vi Lista de figuras Figura 1 - Grupos de hidrocarbonetos .................................................................. 14 Figura 2 - Combustíveis provenientes do refino do petróleo................................. 17 Figura 3 - Zona Satura e Zona Não Saturada ...................................................... 20 Figura 4 - Relação NAPL's com a água ............................................................... 21 Figura 5 - Transformação de fases dos LNAPL.................................................... 22 Figura 6 - Deslocamento e intensidade da pluma de contaminação..................... 23 Figura 7 - Processo de Infiltração......................................................................... 24 Figura 8 - Processo de Advecção ........................................................................ 24 Figura 9 - Processo de Difusão ............................................................................ 25 Figura 10 - Processo de Dispersão ...................................................................... 25 Figura 11 - Processo de Volatilização .................................................................. 25 Figura 12 - Processos Físicos, Químicos e Biológicos ......................................... 26 Figura 13 - Evolução da pluma de contaminação no tempo ................................. 27 Figura 14 - Fluxograma das etapas de gerenciamento de áreas contaminadas ... 29 Figura 15 - Distribuição das áreas contaminadas ................................................. 30 Figura 16 - Etapas análise de risco ..................................................................... 35 Figura 17 - Técnicas de remediação implantadas até dezembro de 2013 ............ 37 Figura 18 - Processo biológico da quebra de contaminantes ............................... 39 Figura 19 - Comparação entre os custos do tratamento de solos empregando diferentes técnicas de tratamento ........................................................................ 39 Figura 20 - Esquema de sistema SVE ................................................................. 41 Figura 21 - Esquema de sondagem a percussão por martelo hidráulico para coleta de amostras de solo ............................................................................................. 49 Figura 22 - Poço de monitoramento para coleta de amostras de água subterrânea ............................................................................................................................. 50 Figura 23 - Localização de Itaí no Estado de São Paulo ...................................... 52 Figura 24 - Unidades hidrográficas de gerenciamento de recursos hídricos do Estado de São Paulo ........................................................................................... 53 Figura 25 - Localização Município de Itaí na área de recarga do Aquífero Guarani ............................................................................................................................. 54 Figura 26 - Relevo do Estado de São Paulo ........................................................ 55 Figura 27 - Depressão do Paranapanema ........................................................... 55 vii Figura 28 - Mapa pedológico Estado de São Paulo. ............................................ 56 Figura 29 - Instalações do Posto A ...................................................................... 58 Figura 30 - Locação dos pontos PM1 a PM7 para sondagem .............................. 59 Figura 31 - Perfil do solo Posto A ......................................................................... 60 Figura 32 - Sentido da movimentação da água subterrânea ................................ 62 Figura 33 - Folha Cartográfica do Município de Itaí .............................................. 62 Figura 34 - Fluxo da água subterrânea ................................................................ 63 Figura 35 - Localização de Iaras no Estado de São Paulo ................................... 64 Figura 36 - Unidades hidrográficas de gerenciamento de recursos hídricos do Estado de São Paulo ........................................................................................... 65 Figura 37 - Localização Município de Itaí na área de recarga do Aquífero Guarani ............................................................................................................................. 66 Figura 38 - Depressão do Paranapanema ........................................................... 67 Figura 39 - Mapa pedológico Estado de São Paulo ............................................. 67 Figura 40 - Instalações Posto B ........................................................................... 69 Figura 41 - Locação dos pontos PM1 e PM2 para sondagem .............................. 70 Figura 42 - Perfil do solo Posto B ......................................................................... 71 Figura 43 - Sentido da movimentação da água subterrânea ................................ 72 Figura 44 - Fluxo da água subterrânea ................................................................ 72 Figura 45 - Perfil dos poços de monitoramento .................................................... 74 Figura 46 - Locação dos pontos PM1 a PM7 - Investigação Confirmatória .......... 75 Figura 47 - Locação dos pontos PM8 a PM14 - Investigação Detalhada ............. 77 Figura 48 - Delimitação da pluma de contaminação ............................................. 84 Figura 49 - Estimativa da extensão da pluma de contaminação ........................... 86 Figura 50 - Medição de VOC's em PM8 ............................................................... 87 Figura 51 - Medição de VOC's em PM9 ............................................................... 87 Figura 52 - Medição de VOC's em PM10 ............................................................. 87 Figura 53 - Medição de VOC's em PM11 ............................................................. 88 Figura 54 - Medição de VOC's em PM12 ............................................................. 88 Figura 55 - Medição de VOC's em PM13 ............................................................. 88 Figura 56 - Medição de VOC's em PM14 ............................................................. 89 Figura 57 - Relação da concentração de VOC's nos pontos PM8 a PM14 ........... 89 Figura 58 - Delimitação pluma de VOC's ............................................................. 90 Figura 59 - Modelo padrão de bomba pneumática utilizada para bombeamento.. 95 viii Figura 60 - Sistema de tratamento de água subterrânea ..................................... 97 Figura 61 - Instalação do sistema de remediação do posto A .............................. 98 Figura 62 - Cronograma das atividades investigatórias realizadas ....................... 99 Figura 63 - Caracterização e classificação de resíduos ..................................... 100 Figura 64 - Locação dos pontos PM1 e PM2 - Investigação Confirmatória ........ 102 Figura 65 - Perfil poços de monitoramento ......................................................... 103 Figura 66 - Locação dos pontos PM03 a PM13 - Investigação Detalhada.......... 108 Figura 67 - Delimitação da pluma de contaminação ........................................... 110 Figura 68 - Intervalos de variação de K para diversos solos .............................. 111 Figura 69 - Estimativa da extensão da pluma de contaminação ......................... 112 Figura 70 - Estimativa de locação de área para análise de VOC's ..................... 113 Figura 71 - Esquema de revestimento com argamassa impermeabilizante para caixa separadora de água e óleo ....................................................................... 116 Figura 72 - Nata de cimento e água ................................................................... 117 Figura 73 - Proximidade entre Itaí e Iaras .......................................................... 118 Figura 74 - Local de instalação E.T. ................................................................... 124 Figura 75 - Esquema de remediação Posto B .................................................... 125 Figura 76 - Locação sistema de remediação ...................................................... 126 Figura 77 - Levantamento de AC entre 2002 e 2014 .......................................... 127 Figura 78 - Evolução da contaminação em PM3 ................................................ 129 Figura 79 - Evolução da contaminação em PM4 ................................................ 130 Figura 80 - Evolução da contaminação em PM9 ................................................ 131 Figura 81 - Evolução da contaminação em PM10 .............................................. 132 Figura 82 - Evolução da contaminação em PM11 .............................................. 133 Figura 83 - Evolução da contaminação em PM13 .............................................. 133 Figura 84 - Evolução da contaminação em PM5 ................................................ 134 Figura 85 - Evolução da remediação por coleta ................................................. 135 ix Lista de tabelas Tabela 1 - Áreas Contaminadas no Estado de São Paulo ...................................... 1 Tabela 2 - Proporção de acidentes ........................................................................ 9 Tabela 3 - Relação de Normas Técnicas de fiscalização de postos de abastecimento. ..................................................................................................... 11 Tabela 4 - Transformações sofridas pelos contaminantes. .................................. 16 Tabela 5 - Comparação entre BTEX e HPA ......................................................... 18 Tabela 6 - Comparação quantitativa entre alguns compostos constituintes da gasolina e óleo diesel ........................................................................................... 19 Tabela 7 - Relação meio x caminho de exposição ............................................... 34 Tabela 8 - Informações técnicas e localização das sondagens ............................ 59 Tabela 9 - Características físicas do solo amostrado ........................................... 61 Tabela 10 - Cargas e potenciais hidráulicos ......................................................... 61 Tabela 11 - Informações técnicas e localização das sondagens .......................... 70 Tabela 12 - Cargas e potenciais hidráulicos ......................................................... 71 Tabela 13 - Informações técnicas dos poços de monitoramento .......................... 74 Tabela 14 - Informações técnicas e localização das sondagens .......................... 77 Tabela 15 - Resultados analíticos amostras solos-BTEX ..................................... 78 Tabela 16 - Resultados analíticos amostras solos-BTEX ..................................... 78 Tabela 17 - Resultados analíticos amostras solos-HPA ....................................... 79 Tabela 18 - Resultados analíticos amostras solos-HPA ....................................... 80 Tabela 19 - Resultados analíticos amostras água-BTEX ..................................... 81 Tabela 20 - Resultados analíticos amostras água-HPA ....................................... 82 Tabela 21 - Possíveis cenários de contaminação ................................................ 92 Tabela 22 - Distâncias criticas ............................................................................. 93 Tabela 23 - Estado de contaminação do solo local .............................................. 93 Tabela 24 - Estado de contaminação da água subterrânea local ......................... 94 Tabela 25 - Cronograma do processo de remediação.......................................... 99 Tabela 26 - Concentração dos parâmetros analisados, ponto PM01 ................. 104 Tabela 27 - Concentração dos parâmetros analisados, ponto PM02 ................. 105 Tabela 28 - Concentração dos parâmetros analisados nas amostras de água .. 106 Tabela 29 - Concentração dos parâmetros analisados nas amostras de água .. 107 Tabela 30 - Possíveis cenários de contaminação .............................................. 114 x Tabela 31 - Distancias criticas ........................................................................... 115 Tabela 32 - Estado de contaminação do solo local ............................................ 115 Tabela 33 - Estado de contaminação da água subterrânea local ....................... 116 Tabela 34 - Comparação características Posto A e Posto B .............................. 119 Tabela 35 - Levantamento de áreas contaminadas em municípios limítrofes ..... 120 Tabela 36 - Comparativo entre casos similares.................................................. 121 xi Lista de siglas ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas AC Área Contaminada ACBR Ações Corretivas Baseadas no Risco ANP Agencia Nacional de Petróleo AR Área Reabilitada para Uso Declarado ART Anotação de Responsabilidade Técnica AS Área Suspeita CWA Lei da água limpa – ‘’Clean Water Act’’ BTEX Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno, Xilenos. CETESB Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo CNRH Conselho Nacional de Recursos Hídricos CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente DNAPL Fase Liquida Não Aquosa Densa - ‘’Dense non-aqueous phase liquid’’ ET Estação de Tratamento HPA Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos HTP Hidrocarbonetos Totais de Petróleo IUPAC União Internacional de Química Pura e Aplicada – ‘’International Union of Pure and Applied Chemistry’’ ISR Instalação de Sistema Retalhista LI Licença de Instalação LNAPL Fase Liquida Não Aquosa Leve- ‘’Light non-aqueous phase liquid’’ LO Licença de Operação LP Licença Prévia LQ Limite de Quantificação OMS Organização Mundial da Saúde PA Posto de Abastecimento PF Posto Flutuante PNRH Política Nacional de Recursos Hídricos xii POA Processos Oxidativos Avançados PR Posto Revendedor SAAC Sistema de Armazenamento Aéreo de Combustíveis SQI Substâncias Químicas de Interesse UGRHI Unidade de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo VI Valores de Intervenção VOC Compostos Orgânicos Voláteis – ‘’Volatile Organic Compound’’ VO Valores Orientadores VP Valores de Prevenção VRQ Valores de Referência de Qualidade 1 1. INTRODUÇÃO A contaminação do solo e da água subterrânea por hidrocarbonetos é ocorrência comum devido ao derrame de combustíveis em postos de abastecimento. Apesar de subestimado, esse problema merece atenção devido à frequência com que acontece e o modo como coloca a saúde humana em risco por ser causado pelo derrame de substâncias que possuem componentes altamente tóxicos (SANTOS, 2009). Uma das principais causas para o aumento da frequência com que esse problema acontece foi o intenso avanço tecnológico e industrial que gerou uma grande demanda por automóveis próprios e voltados para logísticas industriais (FREIRE, 2011). Aumentando-se o número de automóveis, aumentaram-se também a necessidade de postos de abastecimento de combustíveis e, visualizando esse mercado, foram estabelecidos milhares de postos sem observância às normas reguladoras (SANTOS, 2009). Esse fato, juntamente com o pouco conhecimento sobre contaminantes provenientes de combustíveis e pouca fiscalização, são responsáveis hoje, por uma das mais graves causas de contaminação como mostra a tabela 1. Tabela 1 - Áreas Contaminadas no Estado de São Paulo Fonte: CETESB, 2014. Vários são os fatores que geram o derrame de combustíveis. As falhas humanas operacionais estão relacionadas ao manuseio incorreto da bomba no ato 2 do abastecimento do automóvel que, formam poças de combustíveis no pátio das ilhas de abastecimento e; no descarregamento de combustíveis dos caminhões transportadores para os tanques submersos que, se preenchidos além do nível estabelecido, geram o transbordamento dos respiros (GUIGUER, 1996). A princípio como não haviam conhecimento e consciência da presença de contaminantes nas águas subterrâneas, não haviam legislações específicas que determinassem diretrizes para o uso, preservação e monitoramento. As águas subterrâneas, que são uma parcela das águas superficiais provenientes de precipitações através da infiltração, ocupam poros e vazios intergranulares dos solos sedimentares. Segundo Santos (2009), apesar de toda a água encontrada abaixo da superfície ser essencialmente subterrânea, a definição de água subterrânea é dada apenas a água em circulação na zona saturada. O fator que a torna apropriada para o consumo humano é o próprio ato da infiltração dessas águas, onde ocorre um processo de depuração natural com retenção de partículas sólidas, neutralização de pH e remoção de microrganismos. Essas águas são consideradas de maior pureza que os mananciais superficiais e, portanto, adequadas para o consumo humano (SILVA, 2003). Em 1970, foi identificada pela primeira vez a presença de compostos de combustíveis diluídos em poços de água para abastecimento humano nos Estados Unidos. Várias alterações posteriores e reorganizações nas agências do governo federal motivaram a criação da Lei da Água Limpa ‘’ Clean Water Act’’ (CWA) em 1972, onde o monitoramento das águas subterrâneas é tratado na seção 305, item b, estabelecendo critérios para os diferentes usos das águas subterrâneas. Essa Lei surgiu como aprimoramento da Lei Federal de Controle e Poluição das águas ‘’ Federal Water Pollution Control Act ‘‘, de 1948 que estabelecia critérios para controle da poluição das águas, antes dessa data as leis existentes nos Estados Unidos tratavam apenas da preservação dos cursos d’água para fins de navegação. No Brasil, a primeira legislação criada a respeito das águas tratava sobre o domínio das águas comuns e particulares do território nacional, concessões, autorizações, fiscalizações, uso da energia hidrelétrica e a proibição das contaminações que causassem danos à saúde humana. Diretrizes sobre o aproveitamento das águas subterrâneas e pluviais também foram traçadas neste Decreto n.º 24.643, de 10 de julho de 1934, chamado O Código das Águas. 3 A fim de selecionar as atividades relacionadas às águas subterrâneas, a Resolução do Conselho Nacional de Recursos Hídricos, CNRH, n° 15, de 11 de janeiro de 2001, determina que atividades que causem alterações nessas águas, tanto de proteção quanto de mitigação devem apresentar:  Descrição e previsão dos impactos;  Estimativas de fonte pontuais e difusas de contaminação e;  Avaliação das características e uso do solo superficial e das águas subterrâneas. Todas essas resoluções dão atualmente as diretrizes necessárias, para o controle das águas subterrâneas. Entretanto além da proteção deste recurso se faz necessário a proteção do solo, recurso fundamental que segundo a Comissão das Comunidades Europeias (2006, é responsável pelas funções vitais de:  Manutenção do ciclo da água e dos nutrientes;  Conservação das reservas minerais e de matérias-primas;  Produção de alimentos e;  Manutenção da atividade sócio-econômica. 4 2. JUSTIFICATIVA A ocorrência de contaminação ambiental por hidrocarbonetos causa prejuízos à saúde humana no momento em que os vapores expelidos pelos contaminantes são inalados, ocorre a ingestão da água ou, de vegetais plantados no solo contaminado (BRAGA, 2005). Devido a esse fato, o uso inapropriado do solo pode trazer extensas consequências de difícil recuperação para a qualidade das águas. O derrame de contaminantes pode comprometer extensas áreas imprescindíveis para o desenvolvimento regional, por isso a necessidade de fiscalização a respeito de atividades contaminadoras de risco para o solo, são hoje reconhecidas mundialmente (RODRIGUES e DUARTE, 2003). Segundo o Boletim de Abastecimento de Fevereiro de 2015 da Agência Nacional de Petróleo, ANP, o Brasil possui cerca de 40.266 revendedores de combustíveis líquidos para automóveis. A maior parte desses, concentrada nas regiões metropolitanas do país, sendo o Estado de São Paulo, devido ao maior fluxo de automóveis, o possuidor do maior número de postos instalados seguido por Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Bahia (GOUVEIA, 2004). Segundo a Relação de áreas contaminadas da CETESB de 2014, o Estado de São Paulo possui atualmente 4.771 áreas cadastradas classificadas como contaminadas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento da ONU, no ano 2000, estabeleceu no plano dos Objetivos do Milênio, como seu 7º objetivo a ‘’Garantia da qualidade de vida e respeito ao meio ambiente’’. Dentre as 4 metas a serem atingidas por esse objetivo, a meta C trata da ‘’Redução da população sem acesso a água potável’. O risco para a saúde humana da contaminação do solo e da água por combustíveis ainda é subestimado (CETESB, 2001). Segundo o National Research Council, NRC, de 1997, é fundamental a criação de bancos de dados das tecnologias de remediação de contaminação por combustíveis existentes e eficazes, visto que cada local possui características específicas e, um maior número de estudos facilitaria comparações e a escolha das tecnologias a serem utilizadas. 5 Assim, esta pesquisa se justifica pelo crescente número de áreas contaminadas identificadas no Estado de São Paulo que comprometem a água subterrânea usada para abastecimento da população e, pelo fato de que, apesar das inúmeras legislações existentes, a consciência das graves consequências da contaminação do solo e da água subterrânea sob postos de abastecimento ainda não é tratada pelos proprietários e consumidores dos postos com a atenção necessária. Ademais, este trabalho discute ainda dados técnicos para conhecimento do problema, desde a disponibilidade de água, qualidade dos recursos, legislações existentes, conhecimentos sobre os contaminantes, identificação de áreas contaminadas, até os processos de remediação disponíveis. Buscando-se determinar as principais fontes de contaminação e, como ocorre a dinâmica dos processos envolvidos. Para tanto, foram estudados dois casos de áreas contaminadas devido à vazamentos em postos de abastecimento de combustíveis em municípios distintos. 6 3. OBJETIVOS 3.1. Objetivo Geral Realizar a avaliação dos relatórios das Investigações Confirmatória e Detalhada, emitidos pelas empresas A e B, do solo e da água por hidrocarbonetos de dois postos de abastecimento de combustíveis nos municípios de Itaí e Iaras, na região da Avaré (SP). 3.2. Objetivos Específicos Visando o cumprimento do objetivo geral, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos:  Identificação de duas áreas de postos de abastecimento potencialmente contaminadas por combustíveis na região de interesse de Avaré-SP;  Levantamento da área de atuação, instalações e histórico de contaminação dos postos escolhidos;  Comparação dos resultados das Investigações Confirmatória e Detalhada com os Valores de Intervenção para solos e águas subterrâneas, estabelecidos pela CETESB na Tabela de Valores Orientadores para Solos e Água Subterrânea no Estado de São Paulo de 2005;  Identificação das possíveis causas de contaminação;  Análise do sentido e extensão das plumas de contaminação;  Comparativo entre casos de contaminação por combustíveis em postos de abastecimento similares, identificados na região de interesse de Avaré-SP;  Apresentação dos resultados dos processos de remediação executados levantados no comparativo. 7 4. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA Este capítulo foi referenciado em livros, artigos, dissertações, leis e normas a respeito da dinâmica de contaminantes e processos de remediação. Descrevem- se também as características dos contaminantes e suas consequências para a saúde humana, métodos investigativos, valores orientadores definidos pela CETESB, definição de áreas contaminadas e remediadas, dinâmica da pluma de contaminação e métodos de remediação. O Manual de Gerenciamento de Áreas Contaminadas da CETESB, também foi analisado de modo a esclarecer como é feita a classificação de uma área e quais as etapas e os processos investigativos envolvidos. O processo de análise de risco foi descrito visando o esclarecimento dos possíveis cenários de riscos. Os métodos de remediação associados para recuperação das áreas contaminadas dos estudos de caso em questão, também foram descritos a fim de proporcionar o entendimento das técnicas realizadas. A revisão bibliográfica foi elaborada de forma a proporcionar o embasamento para a análise dos resultados obtidos. 4.1. Contaminação do solo e água subterrânea por combustíveis Contaminantes são compostos químicos artificiais que entram em contato com o meio ambiente através da ação do homem e, em concentrações específicas, causam danos à saúde humana e alterações no meio onde estão inseridos. Esses podem ser encontrados nos solos, sedimentos, rochas, águas subterrâneas, zonas não saturada e saturada, e, estruturas de construções, de acordo com sua capacidade de transporte que permiti a migração de um local para outro através da transformação entre as fases líquida, sólida e vapor. Apresentando uma área evidências de substâncias tóxicas acima dos valores de segurança estabelecidos pelos órgãos reguladores, essa pode ser definida como área contaminada (CETESB, 2004). 8 Segundo a CETESB (2007), uma área, local, ou terreno exposto a contaminação devido à presença de substâncias poluidoras seja por armazenagem, depósito ou infiltração, de modo acidental ou natural, é considerada uma área contaminada. Apesar do maior espaço ocupado na mídia a respeito da contaminação de solos e águas por combustíveis tratar de grandes derrames industriais, os pequenos vazamentos ocorrentes em postos de combustíveis representam 73% dos casos de áreas contaminadas no Estado de São Paulo (CETESB, 2014). Segundo Sanchez (1998), são quatro os problemas principais das áreas contaminadas. O primeiro considera o risco à saúde pública; o segundo, o risco de comprometimento sobre as propriedades existentes sobre essas áreas; o terceiro, as restrições ao desenvolvimento urbano e; o quarto a redução do valor imobiliário da área, fato esse que coloca os proprietários locatários também em alerta a respeito das atividades que estão sendo exercidas em sua área. Outra importante causa diz respeito aos aspectos construtivos como, a pavimentação mal executada que devido à solicitação começa a apresentar rachaduras, o mal assentamento das tubulações que fazem a ligação das bombas aos tanques e, a alvenaria das caixas separadoras e acumuladoras que muitas vezes não são impermeabilizadas corretamente. Os materiais usados também influenciam no risco de acidentes de contaminação. Tanques e tubulações de má qualidade podem sofrer corrosão antes do previsto e microfissuras devido à baixa resistência do material que está sujeito à vibrações em virtude do intenso tráfego de veículos. Todas essas falhas ocorrem em elementos enterrados, dificultando a identificação do problema até que seja constatada a contaminação no solo ou na água subterrânea. Esses fatos podem ocorrer isoladamente ou em conjunto, como é o caso do combustível derramado no momento do abastecimento que se infiltra no solo devido às rachaduras no piso. A tabela 2 apresenta os dados segundo a CETESB relacionados à proporção das causas de acidentes em postos de combustíveis no último estudo realizado em 2006. 9 Tabela 2 - Proporção de acidentes Fonte: CETESB, 2006a. Segundo Freire (2011), o tempo de operação dos postos, sem passar por reformas, deve ser considerado, pois, a vida útil dos tanques e tubulações é estimada entre 20 e 25 anos, razão pela qual a área sob os postos mais antigos constitui a maior proporção das áreas de risco. Tanques fissurados podem perder de 2 a 3 litros de combustíveis por dia, valores esses não considerados pelos funcionários e proprietários por se assemelharem ao volume de perda comum no ato do abastecimento. Porém, sendo esses valores perdidos por vazamento no solo, ao longo de 10 a 15 anos acabam por atingir áreas afora dos limites dos postos (CETESB, 1999a). A respeito das legislações, a Lei Federal nº6938/81, regulamentada pelo Decreto Federal nº 99274/90, sobre a Política Nacional de Meio Ambiente, fornece um importante passo classificando postos de abastecimento de combustíveis como estabelecimentos com potencial contaminador, devido ao armazenamento de substâncias com potencial tóxico, lavagem de veículos, serviços de troca de óleo e geração de resíduos. Atualmente a legislação mais importante que regulamenta as atividades dos postos de abastecimento é a Resolução CONAMA n° 420 de 2009, que fornece diretrizes sobre procedimentos de instalação de postos de abastecimento de combustíveis e exigi licenciamento ambiental para seu funcionamento. 10 Esta resolução afirma que postos de abastecimento não praticam apenas a atividade de abastecimento e os classifica de acordo com 4 práticas:  Posto Revendedor (PR): onde se revende combustível derivado de petróleo com equipamentos e sistema de armazenamento e medição de combustível;  Posto de Abastecimento (PA): instalação que possui equipamentos de armazenamento, com registrador de volume próprio para abastecimento de quaisquer equipamentos móveis, como automóveis, aeronaves, embarcações, etc. cujos produtos sejam destinados unicamente para o uso do detentor do empreendimento, como clubes, condomínio ou afins;  Instalação de Sistema Retalhista (ISR): instalação com tanques de armazenamento de óleo diesel, óleo combustível, querosene destinados ao exercício da atividade de Transportador Revendedor Retalhista e;  Posto Flutuante (PF): embarcação sem propulsão destinada para armazenamento, distribuição e comércio de combustíveis que opera em local determinado. A não observância desta resolução pode suspender parcialmente ou totalmente a atividade de postos como forma de penalidade e, em casos menos severos, aplicar multas até que a licença seja obtida. São 3 as licenças necessárias para o funcionamento:  Licença Prévia (LP): emitida antes do início das instalações, diz respeito a aprovação da localização, do projeto e a viabilidade ambiental. Em caso de reprovação, identifica quais os critérios devem ser atendidos;  Licença de Instalação (LI): que após projeto aprovado, autoriza a instalação do posto. Pode ser emitida juntamente com a LP e;  Licença de Operação (LO): que após a completa instalação do posto, autoriza o início da atividade comercial. Uma atualização foi dada a Resolução 273 de 2000 em dezembro de 2002, estabelecida pela Resolução CONAMA n° 319, sobre prevenção e controle da poluição em postos de abastecimento, dando diretrizes a respeito da montagem e 11 instalação de equipamentos. A partir dessa Resolução que colocou os estados e os municípios também como fiscalizadores, várias normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, criadas a partir de 1997, começaram a ser observadas conforme a tabela 3. Tabela 3 - Relação de Normas Técnicas de fiscalização de postos de abastecimento. Fonte: MARANHÃO et al., 2007. Item Norma Título 1 NBR 13212:2004 Posto de serviço – Construção de tanque atmosférico subterrâneo em resina termofixa reforçada com fibras de vidro, de parede simples ou dupla 2 NBR 13312:2003 Posto de serviço - Construção de tanque atmosférico subterrâneo em aço carbono 3 NBR 13781:2001 Posto de serviço - Manuseio e instalação de tanque subterrâneo de combustíveis 4 NBR 13782:2001 Posto de serviço - Sistemas de proteção externa para tanque atmosférico subterrâneo em aço-carbono 5 NBR 13783:2005 Posto de serviço - Instalação do sistema de armazenamento subterrâneo de combustíveis – SASC 6 NBR 13784:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Seleção de métodos para detecção de vazamentos e ensaios de estanqueidade em sistemas de abastecimento subterrâneo de combustíveis (SASC) 7 NBR 13785:2003 Posto de serviço - Construção de tanque atmosférico de parede dupla, jaquetado 8 NBR 13786:2005 Posto de serviço - Seleção dos equipamentos para sistemas para instalações subterrâneas de combustíveis 9 NBR 13787:1997 Controle de estoque dos sistemas de armazenamento subterrâneo de combustíveis (SASC) nos postos de serviço 10 NBR 13895:200 Construção de Poços de Monitoramento e Amostragem - Procedimentos 11 NBR 14605:2000 Sistema de drenagem oleosa 12 NBR 14606:2000 Entrada em espaço confinado 13 NBR 14639:2001 Instalações elétricas 14 NBR 14722:2001 Tubulação não metálica 15 NBR 14867:2002 Tubos metálicos flexíveis 16 NBR 14973:2004 Remoção e destinação de tanques subterrâneos usados 17 NBR 15005:2003 Válvula antitransbordamento 18 NBR 15015:2006 Válvulas de esfera flutuante 19 NBR 15072:2004 Construção de tanque atmosférico subterrâneo ou aéreo em aço-carbono ou resina termofixa reforçada com fibra de vidro para óleo usado 20 NBR 15118:2004 Câmaras de contenção construídas em polietileno 21 NBR 15138:2004 Armazenagem de combustível - Dispositivo para descarga selada 22 NBR 15139:2004 Armazenagem de combustível - Válvula de retenção instalada em linhas de sucção 12 Tabela 3 - Relação de Normas Técnicas de fiscalização de postos de abastecimento (continuação). Fonte: MARANHÃO et al., 2007. Em 2003 a Lei Complementar nº 125, exigiu que postos de abastecimento deveriam ter área mínima de 1.440m² para lotes localizados no meio da quadra e, 1.000m² para lotes localizados em esquinas. Por fim em janeiro de 2006a, além das 3 licenças LP, LI e LO, a CETESB, por meio da decisão da diretoria nº 010-2006-C, passou a exigir os seguintes anexos, para o licenciamento dos postos de abastecimento.  Anexo I: Procedimento para Licenciamento Ambiental de Postos e Sistemas Retalhistas de Combustíveis – Roteiro Único;  Anexo II: Quadros de Exigências para o Licenciamento Ambiental de Postos e Sistemas Retalhistas de Combustíveis;  Anexo III: Roteiro de Inspeção de Tanques Aéreos de Armazenamento de Combustíveis e suas Tubulações 23 NBR 15205:2005 Armazenamento de combustível – Revestimento interno de tanque instalado, com a criação de parede dupla e espaço intersticial 24 NBR 15288:2005 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis — Posto revendedor veicular (serviços) — Plano de atendimento a emergências (PAE) 25 NBR 15427:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Válvula de segurança da mangueira 26 NBR 15428:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Manutenção de unidade de abastecimento 27 NBR 17505-1:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 1: Disposições gerais 28 NBR 17505-2:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 2: Armazenamento em tanque e em vasos 29 NBR 17505-3:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 3: Sistemas de tubulações 30 NBR 17505-4:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 4: Armazenamento em recipientes e em tanques portáveis 31 NBR 17505-5:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 5: Operações 32 NBR 17505-6:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 6: Instalações e equipamentos elétricos 33 NBR 17505-7:2006 Armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis - Parte 7: Proteção contra incêndio para parques de armazenamento com tanques estacionários 13  Anexo IV: Procedimento para Identificação de Passivos Ambientais em Estabelecimentos com Sistema de Armazenamento Subterrâneo de Combustíveis; contendo 3 anexos: o Tabela para determinação do número de sondagens; o Procedimento para avaliação de gases no solo e; o Procedimento para amostragem de água subterrânea.  Anexo V: Procedimento para Identificação de Passivos Ambientais em Estabelecimentos com Sistema de Armazenamento Aéreo de Combustíveis (SAAC), contendo um único anexo para amostragem de água subterrânea;  Anexo VI: Procedimento para Remoção de Tanques e Desmobilização de Sistema de Armazenamento e Abastecimento de Combustíveis, contendo um único sub anexo para avaliação de gases no solo e;  Anexo VII: Ações Corretivas Baseadas em Risco (ACBR) aplicadas a Áreas Contaminadas com Hidrocarbonetos Derivados de Petróleo e Outros Combustíveis Líquidos. Todas essas Leis e Decretos facilitam a fiscalização dos postos de abastecimento, que não podem ser instalados e iniciar suas atividades sem que todas as exigências sejam cumpridas para a obtenção da licença. Mesmo após o início das atividades é necessário ainda que os procedimentos de monitoramento sejam mantidos. 4.2. Contaminantes - Origem e Características O petróleo, mundialmente conhecido como fonte de energia, é composto por uma complexa mistura de decomposição de matéria orgânica de plantas e animais, carbono, hidrogênio e pequenas porções de oxigênio, nitrogênio e enxofre. O petróleo imediatamente extraído, chamado de óleo cru, ainda é a matéria prima principal dos combustíveis produzidos em todo o mundo. Isso se deve às características da sua composição que contam com 84,5% de carbono, 13,0% de 14 hidrogênio, 1,5% de enxofre, 0,5% de nitrogênio e 0,5% de oxigênio (SANTOS, 2009). Ao passar pelo processo de refinaria que ocorre através de intervalos de temperatura e pressão a que se sujeita o petróleo bruto, os combustíveis resultantes são classificados em três grupos de acordo com o número de átomos de carbono, sendo eles: as gasolinas, com 4 a 12 átomos de carbono; os destilados, com 9 a 20 átomos de carbono e; os óleos pesados, com mais de 14 átomos de carbono (MARIANO, 2006). Todos os combustíveis derivados do petróleo obtidos a partir de diferentes faixas de destilação, são compostos por hidrocarbonetos em diferentes proporções que, por estarem presentes no petróleo bruto, são chamados de Hidrocarbonetos Totais de Petróleo, HTP. A composição do petróleo muda de acordo com a localização onde é extraído, porém o que é comum no petróleo encontrado em todos os lugares são as altas proporções de hidrocarbonetos em sua composição (THOMAS et al., 2001). Os hidrocarbonetos, são compostos químicos constituídos por átomos de carbono e hidrogênio em organizações variadas. Esses são formados em grandes profundidades, cerca de 150 quilômetros abaixo da terra e trazidos à superfície ao longo de milhares de anos através dos processos geológicos (PATNAIK, 1996). São divididos em 2 grupos como mostra a figura 1: Figura 1 - Grupos de hidrocarbonetos Fonte: Adaptado de SILVA, 2002. Alifáticos Aromáticos Alcanos Monoaromáticos Alcenos Policíclicos Aromáticos Alcinos Diaromáticos Cicloalcanos Hidrocarbonetos 15 O grupo dos Alifáticos tem como características cadeias cíclicas (fechadas) ou acíclicas (abertas), sem a presença de anéis de benzeno, com ligações simples, duplas ou triplas. Já os Aromáticos são caracterizados pela presença de dois ou mais anéis de benzeno (SILVA, 2002). Segundo Sánches (1998), os HTP são tóxicos pois, afetam diretamente o sistema nervoso central e causam mutações celulares associadas ao câncer em homens e animais, afetando também os ecossistemas. Por serem hidrofóbicos não se misturam com facilidade ao meio líquido ficando a sua maior parte retida no solo (BAPTISTA, 2007). A princípio as partículas retidas ficam depositadas como líquidos imiscíveis e essas, são caracterizadas como fonte continua de contaminação, pois, devido às ações biológicas, ao longo do tempo vão se disseminando passando pelos processos de transformação entre as fases liquidas e gasosas (MENEGHETTI, 2007). Os produtos identificados em maior proporção nos acidentes envolvendo postos de abastecimento, de acordo com as estatísticas da CETESB publicadas em 2006a foram gasolina com 71,1% dos casos e óleo diesel com 18,6%. Segundo o Boletim Gerencial da Superintendência de Abastecimento nº 47 de 2015 da ANP, foram comercializados no ano de 2014 cerca de 4.200.000m³ de gasolina e 4.700.000m³ de óleo diesel. A gasolina e o óleo diesel, combustíveis tratados neste trabalho, são produtos derivados do petróleo, essenciais para as atividades diárias e industriais. Em se tratando de contaminação por HTP provenientes de combustível, são destacados dois grupos:  BTEX - formado por Hidrocarbonetos Mono Aromático  HPA - formado por Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos No fracionamento do Petróleo no momento da destilação entre 30° C e 215° C, obtêm - se a gasolina. Nas refinarias ocorrem ainda os processos de craqueamento e polimerização, para produção desse combustível responsável pelo abastecimento de toda a frota de automóveis pequenos como carros e motos (NEIVA, 1986). 16 A gasolina possui uma mistura de hidrocarbonetos compostos de 4 a 12 átomos de carbono, chamados Hidrocarbonetos Mono Aromáticos, dentre eles o mais importante em se tratando de contaminação por combustíveis o grupo BTEX, Benzeno, Tolueno, Etilbenzeno e Xileno que aparece nas proporções de 18 a 25% na gasolina (TIGUEROS, 2008). A tabela 4 mostra algumas particularidades do grupo BTEX: Tabela 4 - Transformações sofridas pelos contaminantes. Fonte: TECNOHIDRO, 2001. A respeito das consequências para a saúde humana esses hidrocarbonetos são considerados depressores do sistema nervoso central e podem levar a morte em casos de exposições agudas. O tolueno possui a maior capacidade de volatilização e, ao ser inalado de forma excessiva e por longo período de tempo, age causando distúrbios na fala, visão, audição e controle muscular. Já o benzeno, que possui maior capacidade de dissolução, age afetando a medula óssea, causando mutações genéticas geradoras de tumores e cânceres, especialmente leucemia aguda (TIGUEROS, 2008). O grupo dos Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos, HPA, está presente no óleo diesel responsável atualmente pelo abastecimento de motores que trabalham a explosão como ônibus, navios, locomotivas, tratores e demais automóveis de grande porte. Esse óleo é obtido entre o ponto de ebulição de 180ºC a 380ºC do petróleo e possui as substâncias resultantes do próprio processo de refinaria do petróleo a saber querosene, gasóleos e nafta pesada (SANTOS, 2009). Diferentemente do grupo BTEX, os HPA são compostos de 12 a 20 átomos de carbono e atualmente, são reconhecidos mais de 100 HPA pela União 17 Internacional de Química Pura e Aplicada, IUPAC, porém, devido à importância industrial e ambiental o grupo de HPA estudado é formado por 16 elementos prioritários ao todo: Naftaleno, Acenaftileno, Acenafteno, Fluoreno, Fenantreno, Antraceno, Fluoranteno, Pireno, Benzo (a) Antraceno, Criseno, Benzo (b) Fluoranteno, Benzo (k) Fluoranteno, Benzo (a) Pireno, Indeno (1, 2, 3) Pireno, Dibenzeno (a h) Antraceno e Benzo (g, h, i) Perileno (FOGAÇA, 2014). Dentre as consequências da exposição desses componentes lipossolúveis ao homem tem-se o alto potencial carcinogênico de formação de tumores e alterações genética que, uma vez inalados, ingeridos ou em contato com o homem adentram à membrana celular e acumulam-se no tecido adiposo (NETTO, 2000). Neste trabalho avaliou-se a contaminação proveniente dos combustíveis compostos de BTEX e HPA, ambos obtidos no processo de refino do petróleo conforme a figura 2. Figura 2 - Combustíveis provenientes do refino do petróleo Comparando-se as características dos grupos BTEX e HPA na tabela 5, tem- se: 18 Tabela 5 - Comparação entre BTEX e HPA Nota: 1 Influência direta na Densidade. 2 Influência direta no Potencial de Infiltração e Mobilidade. O grupo dos BTEX difere dos HPA em relação ao tamanho das cadeias de carbono. Devido ao maior número de átomos de carbono existentes na estrutura dos HPA, esses são considerados mais densos, menos solúveis e menos móveis que os BTEX. Os HPA possuem ainda, maior capacidade de serem adsorvidos pelas partículas orgânicas do solo, o que os torna mais difícil de serem degradados em caso de contaminação em fase adsorvida do que os BTEX. Em contrapartida possuindo, o grupo dos BTEX, um menor número de átomos de carbono, são considerados substâncias menos densas, portanto, com maior potencial de infiltração no meio subterrâneo. Esse fato aumenta a extensão da contaminação e diminui o tempo necessário para que o contaminante atinja o lençol freático. Outra importante característica do BTEX é a volatilidade (CORSEUIL, 1992). Em relação a mobilidade e potencial de expansão os HPA causam efeitos menos agressivos do que o grupo dos BTEX, porém não menos perigosos. Outra importante comparação trata-se da presença de substâncias tóxicas nos combustíveis gasolina e óleo diesel. A tabela 6 apresenta a proporção desses contaminantes em cada combustível. 19 Tabela 6 - Comparação quantitativa entre alguns compostos constituintes da gasolina e óleo diesel Fonte: Silva (2002) Os compostos tóxicos comparados aparecem em menores proporções no óleo diesel, reforçando assim a ideia de que a gasolina possui maior potencial de contaminação em caso de vazamentos de mesmo porte. 4.3. Dinâmica dos contaminantes Antes de se abordar o comportamento dos contaminantes, se faz necessário o entendimento das áreas em que o solo se divide. São duas essas áreas, divididas em zona não saturada e zona saturada como mostra a figura 3. Composto Quantidade Gasolina Diesel Carbonos (C5-C10) - % peso (C10-C30) - % peso n-Pentano 5 5,75-10,92 - n-Octano 8 0,36-1,43 0,1 n-Dodecano 12 0,04-0,09 1,0-2,5 n-Heptadecano 17 0,31-1,96 1,4-2,9 n-Pentadecano 15 - 1,9-3,1 Benzeno 6 0,12-3,50 0,003-0,10 Tolueno 7 2,73-21,80 0,007-0,70 Etilbenzeno 8 0,36-2,86 0,007-0,20 Xilenos (orto,meta e para) 8 3,22-8,31 0,037-1,109 Naftaleno 10 0,09-0,49 0,01-0,80 Benzo(a)pireno 20 0,19-2,8 mg/kg 0,000005-0,00084 Pireno 16 - 0,000018-0,015 POLIAROMÁTICOS AROMÁTICOS ALCANOS 20 Figura 3 - Zona Satura e Zona Não Saturada A zona não saturada é a primeira camada onde as águas superficiais se infiltram preenchendo os vazios entre os poros que também são compostos de partículas de ar. Essa zona também é conhecida como zona de aeração ou vadosa. Pela gravidade, as águas superficiais continuam a se infiltrar até encontrar uma profundidade onde os poros estão completamente preenchidos (saturados) por água. A essa camada localizada abaixo da zona não saturada, dá-se o nome de zona saturada (BOSCARDIN et al., 2004). A divisão entre essas duas zonas é chamada de nível freático. Abaixo desse nível são formados os reservatórios naturais de águas subterrâneas por infiltração, a uma baixíssima velocidade ao longo de vários dias, meses e anos. A contaminação do meio subterrâneo acontece quando os contaminantes percorrem essas áreas comprometendo o solo e a água confinada. O estudo da dinâmica da contaminação no solo e na água permiti a identificação dos sistemas de transportes dos contaminantes (SANTOS, 2009). A solubilidade, massa específica, pressão de vapor e viscosidade dos combustíveis para abastecimento de automóveis, são características que influenciam diretamente a mobilidade e a expansão desses contaminantes tanto no solo como na água (FREIRE, 2011). Os contaminantes provenientes de combustíveis são classificados devido à suas características como Fase Líquida Não Aquosa, NAPL, pois possuem 21 propriedades físicas e químicas que os tornam imiscíveis em contato com a água (NEWELL et al., 1995). Os NAPL’s são classificados em 2 tipos de acordo com a densidade, Fase Liquida Não Aquosa Leve, LNAPL, que possui densidade menor do que a água; e Fase Liquida Não Aquosa Densa, DNAPL, que possui densidade maior do que a água, caso por exemplo dos hidrocarbonetos utilizados em atividade industriais. A figura 4 mostra a relação dos NAPL’s com a água. Figura 4 - Relação NAPL's com a água Fonte: Hidroplan, 20161. Os combustíveis gasolina e óleo diesel se enquadram na classe dos LNAPL e, no momento do derrame se infiltram com facilidade na zona não saturada, migrando pelo solo até a zona saturada à medida que passam por 4 fases características como mostra a figura 5 (FERREIRA, 2000). 1 Disponível em: http://www.hidroplan.com.br/noticia.php?cod=3088. Acesso em: Fevereiro de 2016. 22 Figura 5 - Transformação de fases dos LNAPL A primeira fase ocorre logo após a infiltração na primeira camada do solo, zona não saturada, através dos fenômenos de infiltração e capilaridade. O LNAPL penetra formando uma fina película que, a medida em que passa pelos poros, tem frações de suas partículas retidas, formando pequenos gânglios de contaminantes. Essa fase recebe o nome de fase residual ou adsorvida, e é localizada entre a superfície e o limite superior da fase livre. A importância dada a essa fase varia de acordo com porosidade do solo, concentração e viscosidade do contaminante, pois ao longo do tempo as partículas retidas nos poros vão se transformando nas demais fases, fazendo com que a contaminação seja constante. Logo abaixo da fase residual, tem-se a fase livre, formada pela parte liquida de LNAPL que não foi adsorvida pelos coloides do solo. A fase livre tem localização exata logo acima do nível da água subterrânea, porém não possui um limite bem definido e sim faixas de transição que variam de espessura e extensão de acordo com a viscosidade e solubilidade do contaminante infiltrado. A fase dissolvida é o LNAPL dissolvido na água subterrânea dando início a contaminação da água, variando a extensão do liquido dissolvido de acordo com a solubilidade do contaminante. Esses hidrocarbonetos podem ainda formar películas sobre a superfície do solo submerso e, apesar de estarem em concentrações menores, podem atingir áreas mais extensas. Por fim para os LNAPL em fase de vapor (fase gasosa dos contaminantes) a transformação ocorre de acordo com a volatilidade de cada 23 contaminante que é vaporizado e ocupa os espaços vazios entre os poros. Portanto, aparece em maiores proporções nas regiões vadosas do solo, podendo essa fase de vapor chegar até a superfície e ser inalada (MARIANO, 2006). Durante todas essas fases toma forma a pluma de contaminação que segundo a CETESB (2004), é a delimitação da área que possui a presença de contaminante, tanto no solo como na água. A pluma também mostra a intensidade da concentração do contaminante, que é mais elevada quanto mais próxima a fonte e mais ao centro da pluma como mostra a figura 6. O deslocamento também pode ser observado de acordo com a perda de intensidade. Figura 6 - Deslocamento e intensidade da pluma de contaminação Vários fatores são responsáveis pela formação da pluma. A respeito dos contaminantes as características levadas em consideração são a densidade, solubilidade, concentração no meio e a relação do contaminante com as partículas orgânicas do solo, responsáveis pela biodegradação. Segundo Santos (2009), os elementos menos solúveis se movimentam sobre o nível freático, devido ao fato de possuírem uma menor densidade. Características do ambiente também são levadas em consideração como o volume das precipitações, a quanto tempo o contaminante está em contato com o meio subterrâneo e a presença de microrganismos decompositores. Sobre as características do solo a principal é a granulometria que está diretamente relacionada a sua permeabilidade. A disseminação do contaminante 24 está diretamente ligada a capacidade permeável do solo, pois, quanto maior for essa, maior será a facilidade de penetração do contaminante (NRC, 2003). Os processos de formação de uma pluma de contaminação podem ser classificados em Processos Físicos, referentes ao transporte dos contaminantes; e Processos Químicos e Biológicos referentes a transformação desses compostos. Dentre os Processos Físicos, no momento do derrame do combustível, tem-se:  Infiltração: quando o LNAPL vazado na superfície ou no meio subterrâneo penetra o solo verticalmente passando pelos poros, como mostra a figura 7. Figura 7 - Processo de Infiltração  Advecção: trata-se do processo de maior eficiência de transporte do LNAPL pois, ocorre através do próprio fluxo e velocidade da água subterrânea, como mostra a figura 8 (SANTOS, 2009). Figura 8 - Processo de Advecção  Difusão: quando o LNAPL migra da área de maior concentração para a de menor concentração, independentemente de a água estar em repouso ou movimento, como mostra a figura 9 (SANTOS, 2009). 25 Figura 9 - Processo de Difusão  Dispersão: quando o LNAPL se movimenta junto ao fluxo da água subterrânea e, além disso, migra da área de maior concentração para a de menor contração, como mostra a figura 10 (SANTOS, 2009). Figura 10 - Processo de Dispersão  Volatilização: quando o LNAPL passa do estado líquido para o gasoso, produzindo vapores que preenchem os espaços vazios entre os poros, como mostra a figura 11 (FREIRE, 2011). Figura 11 - Processo de Volatilização Já os Processos Químicos e Biológicos agem no sentido de alterar a concentração dos contaminantes através da relação entre o contaminante e as partículas do solo. Dentre os mais importantes tem-se:  Adsorção: fenômeno que acontece na fase residual, quando frações do LNAPL aderem às partículas de solo devido à atração da natureza química das partículas com o contaminante (SANTOS, 2009). 26  Biodegradação: quando o LNAPL interage com os microrganismos presentes no solo, que através do metabolismo, decompõem ao longo do tempo o contaminante (SANTOS, 2009). Tanto os Processos Físicos, como os Químicos e Biológicos podem ocorrer simultaneamente conforme a figura 12. Figura 12 - Processos Físicos, Químicos e Biológicos 4.4. Procedimentos de identificação de uma Área Contaminada A classificação das áreas no Estado de São Paulo é feita de acordo com o Manual de Procedimentos para Gerenciamento de Áreas Contaminadas, da CETESB de 2007 que, as divide em:  Área Potencialmente Contaminada (AP);  Área Suspeita de Contaminação (AS) e;  Área Contaminada (AC). A Área Potencialmente Contaminada (AP), é aquela onde são desenvolvidas atividades com potencial contaminante e de risco ao meio ambiente. Os postos de abastecimento de combustíveis são hoje classificados, conforme lei já citada, como estabelecimentos que exercem essas atividades de alto risco ambiental. 27 A Área Suspeita de Contaminação (AS), é aquela que demonstra pequenos sinais de contaminação, por exemplo, percepção de perda constante ou de cheiro excessivo de combustíveis, perda da vegetação natural e corrosões. Já a Área Contaminada (AC), é aquela onde a contaminação foi comprovada e ainda está acontecendo de modo a apresentar riscos à saúde e bem-estar da população, fauna e flora e comprometer a qualidade do solo e das águas. Nessa área os contaminantes podem estar localizados logo abaixo das instalações de alvenaria e pátios; nos casos de aterros, nos materiais que o compõem ou; no solo nas zonas saturada e não saturada. Segundo Sanchez (1998), essa área ainda pode ser classificada como Área Degradada pois, a degradação implica alterações negativas nas propriedades físicas e químicas do solo. O grande risco das áreas contaminadas está como mostra a figura 13, no contato do homem com o contaminante. No caso de um vazamento de combustível continuo, o contaminante se dissemina tomando a forma de pluma de contaminação até que medidas de contenção e remediação sejam tomadas. Porém, em muitos casos, antes que a contaminação seja percebida e a remediação seja executada, o homem entra em contato com o contaminante através de poços para abastecimento de água, plantações e inalação do vapor. Figura 13 - Evolução da pluma de contaminação no tempo De acordo com Santos (2009), a detalhada e extensa avaliação da contaminação, o estudo da dinâmica e a análise das concentrações dos contaminantes são fatores que podem dificultar uma proteção eficiente. Segundo a CETESB 1999b, o Processo de Identificação de Áreas Contaminadas é composto por duas grandes etapas. A primeira diz respeito a um 28 conjunto de processos visando a identificação e classificação das áreas e a segunda visando a remediação. No processo de identificação, a princípio tem-se a definição das regiões de interesse que, segundo a CETESB 1999b são aquelas onde há manipulação de substâncias cujos componentes químicos possam causar danos à saúde e ao meio ambiente. Após essa definição são levantadas informações em busca de Áreas Potencialmente Contaminadas através da Avaliação Preliminar. No ato dessa avaliação devem ser executadas as atividades de coleta de dados existentes, busca do histórico das atividades exercidas no estabelecimento, estudos sobre o meio físico e reconhecimento da área. Uma vez que as informações obtidas forneçam evidências de possível contaminação essa área é então classificada como AS. A etapa seguinte consiste na Investigação Confirmatória, que tem por objetivo confirmar a presença ou a ausência de contaminantes. Essa confirmação é feita por métodos diretos de análise de amostras. Confirmada a presença de contaminantes acima dos Valores de Intervenção estabelecidos pela CETESB, a área é finalmente classificada como AC. A fase de remediação é iniciada com a Investigação Detalhada que, diferentemente da Investigação Confirmatória, tem como objetivo: quantificar e delimitar a contaminação; obter informações a respeito dos componentes contaminantes e suas concentrações; e detalhes sobre a fonte contaminadora, a fim de que o processo de remediação seja planejado de modo eficaz. O Projeto de Remediação deve ter base técnica consistente de modo a não prejudicar ainda mais o ambiente onde será instalado. Técnicas de remediação podem ser associadas visando não só o fim da contaminação, mas em um menor período de tempo e a um baixo custo. Depois de definidas as técnicas a serem usadas e os possíveis impactos, a proposta é enviada ao órgão de controle ambiental para a aprovação. Após aprovado, são instalados os poços de monitoramento e a estação de tratamento. A remediação deve ser feita por profissionais devidamente qualificados com registro de Classe e recolhimento da Anotação de Responsabilidade Técnica, 29 ART, seguir cronograma específico e ter constante monitoramento da eficiência do sistema em andamento. Por fim após atingir a descontaminação pretendida a área pode ser reclassificada como Área Recuperada (AR). A figura 14 ilustra o processo de identificação das áreas contaminadas. Figura 14 - Fluxograma das etapas de gerenciamento de áreas contaminadas Fonte: CETESB, 1999b. Etapas de Gerencimaneto.2 Segundo o Levantamento de Áreas Contaminadas Anual, realizado pela CETESB, em 2013 a situação das áreas contaminadas encontra-se dividida, conforme a figura 15, em: 2 Disponível em: http://areascontaminadas.cetesb.sp.gov.br/11-2/. Acessado em: maio de 2015. Definição da região de interesse Processo identificação áreas contaminadas Investigação detalhada Projeto de remediação Remediação Monitoramento AP AS AC Processo de recuperação de AC's Identificação áreas potencialmente contaminadas Avaliação preliminar Investigação Confirmatória Comparação dos valores encontrados em amostras com os Valores Orientadores da CETESB 30 Figura 15 - Distribuição das áreas contaminadas Fonte: CETESB, 2013. Relação de áreas contaminadas e reabilitadas.3 4.5. Valores Orientadores Os valores das concentrações de contaminantes encontrados nas análises das amostras, em ambas as investigações detalhada e confirmatória, são comparados com os chamados Valores Orientadores, VO, da CETESB. Segundo a primeira lista de valores orientadores para Solos e Águas Subterrâneas para o Estado de São Paulo da CETESB de 2001, Valores Orientadores são: “Concentrações de substâncias químicas derivadas por meio de critérios numéricos e dados existentes na literatura científica internacional, para subsidiar ações de prevenção e controle da poluição, visando à proteção da qualidade dos solos e das águas subterrâneas e o gerenciamento de áreas contaminadas. ’’ Em relação ao solo, esses valores foram derivados do risco do contato do homem com o contaminante por diversas vias. Foram considerados a intensidade de exposição por meio de contato direto, ou indireto como a ingestão de alimentos plantados em solos contaminados, e a constatação de alterações significativas na saúde do homem. Já em relação aos valores para a água subterrânea, sendo essa 3 Disponível em: http://a.sp.gov.br/areas-contaminadas/wp-ntent/uploads/sites/45/2013/11/texto- explicativo.pdf. Acessado em: maio de 2015. 31 fonte de abastecimento, foram observadas a intensidade do contato direto, como a ingestão, que causaram alterações (CETESB, 2001). Em 2001 o Relatório de Estabelecimento de Valores Orientadores para Solos e Águas Subterrâneas no Estado de São Paulo foi publicado, contendo valores orientadores para 37 substâncias. Em 2005, esse relatório foi atualizado contemplando ao todo 84 substâncias e, definindo três classes de valores a saber, o Valor de Referência de Qualidade, VRQ; o Valor de Prevenção, VP; e o Valor de Intervenção, VI (CETESB, 2005). Segundo a Lei Estadual 13.577, de 08 de julho de 2009 e o Decreto nº 59.263, de 05 de junho de 2013, os valores orientadores são instrumentos de proteção e gerenciamento da qualidade dos solos e das águas. As análises de amostras de solo e água subterrânea devem ter sua composição comparada com o estabelecido nesse relatório para identificar concentrações excessivas de contaminantes e classificar áreas. O Valor de Referência de Qualidade é a concentração máxima de uma substância para que a água e o solo sejam considerados de qualidade. Para os solos esses valores são obtidos a partir da observação de áreas agrícolas e pequenas áreas florestais da região metropolitana do Estado de São Paulo. Para as águas esses valores são determinados a partir do sistema de monitoramento iniciado em 1990 composto de cerca de 180 poços instalados em reservatórios de águas subterrâneas estratégicos do estado, os quais são analisados a cada 180 dias pela CETESB (CETESB, 2001). O Valor de Prevenção é um valor de função preventiva ambiental. É o limite acima do qual podem ocorrer alterações significativas na qualidade dos solos e das águas. Indica até qual intensidade de contaminante um solo pode estar exposto sem que aja prejuízo de suas funções primárias e da reserva de água subterrânea. Dos três valores orientadores, esse é o mais restritivo, pois é considerado como sendo um curto aumento do Valor de Referência de Qualidade (CETESB, 2001). O Valor de Intervenção é o valor máximo acima do qual já não há mais possibilidade de uso tanto do solo como da água subterrânea, existindo risco potencial no contato direto ou indireto para a saúde humana. É o valor orientador mais alto entre os 3 existentes e, uma vez ultrapassado necessita imediata intervenção, sendo a área analisada classificada como AC (CETESB, 2001). 32 4.6. Análise de Risco Segundo Moraes et al. (2014), metodologias que levam em consideração o tipo de contaminação e os impactos ambientais, vêm sendo desenvolvidas a fim de quantificar o risco à saúde humana em áreas contaminadas. A partir da quantificação do risco, medidas de gerenciamento adequadas promovem a manutenção do risco em níveis aceitáveis, o impedimento ou eliminação da exposição humana. De acordo com o Sistema de Licenciamento de Postos de Abastecimento de Combustíveis da CETESB de 2006b, a Análise de Risco é uma ferramenta que visa esclarecer a real consequência e abrangência da contaminação e facilita a escolha dos procedimentos de remediação. Trata-se de uma análise qualitativa e/ou quantitativa que busca possíveis impactos negativos na saúde do homem e do meio ambiente expostos à contaminação. A Análise de Risco é dividida em 3 níveis de impacto:  Nível 1 - Resposta a vazamentos operacionais, restritos, de pequenos volumes, com capacidade local de resposta. A companhia ou instituição responsável deve ter condições de atender individualmente;  Nível 2 - Vazamento de proporção intermediária, de abrangência regional, que requer o apoio de diferentes empresas e instituições, e agências governamentais;  Nível 3 - Vazamento de grandes proporções, de abrangência nacional ou internacional. São esperadas grandes demandas de recursos humanos e materiais. Operações de resposta são geralmente coordenadas pelo Governo Federal. Para execução da Avaliação de Risco a princípio tem-se o processo de Coleta, Avaliação e Validação dos dados. Essa etapa envolve o levantamento de dados locais e históricos, sua interpretação e aprovação, utilizando os dados gerados pela Avaliação Preliminar, Investigação Confirmatória e Detalhada. 33 Segundo a CETESB (2007), é fundamental que o levantamento leve em consideração o mapeamento dos pontos contaminados a fim de proporcionar a delimitação da contaminação. A segunda etapa trata-se da Avaliação da Exposição que segundo Moraes et al. (2014), objetiva a estimativa do tipo e frequência as exposição do homem às Substâncias Químicas de Interesse (SQI). A primeira parte dessa avaliação é composta pela caracterização dos cenários de exposição que relaciona os itens:  Fonte de contaminação;  Substâncias Químicas de Interesse  Receptores potenciais;  Caminhos de exposição;  Ponto de Exposição;  Via de ingresso. Como fonte de contaminação são considerados os pontos de possíveis vazamentos de SQI para o meio ambiente. Como SQI tem-se as substâncias produzidas ou comercializadas na área em análise. Como receptores potenciais são considerados os indivíduos residentes no local da AC, residentes próximos à AC e, possíveis residentes futuros. Como caminhos de exposição segundo a ATSDR (2005), são considerados os descritos na tabela 7. 34 Tabela 7 - Relação meio x caminho de exposição Fonte: Adaptado de ATSDR, 2005. Quanto aos pontos de exposição são identificados os locais de possível contato do homem com as SQI, podendo ser considerado nesse casso o próprio local da fonte de contaminação além dos pontos abrangidos pelos caminhos de exposição. Por fim, as vias de ingresso do contaminante aos receptores que são a ingestão, contato dérmico e inalação. Simultaneamente a etapa da Avaliação de Exposição ocorre a Análise de Toxicidade. Essa análise leva em consideração o perfil toxicológico das SQI, utilizando estudos de toxicidade em animais de experimentação e em humanos contaminados (MORAES et al., 2014. Por fim a etapa da Caracterização do Risco quantifica a probabilidade da ocorrência de formação de tumores nos receptores expostos ou possivelmente expostos as SQI. Nessa etapa são levados em consideração ainda as possíveis incertezas associadas à coleta de dados a fim de estabelecer os limites de variação dos resultados. Como último item dessa etapa tem-se o Gerenciamento e Comunicação do Risco que, segundo ATSDR (2005), defini o modo como será exposto o nível de risco e as ações de recuperação. A figura 16 apresenta o fluxograma das etapas da Análise de Risco. 35 Figura 16 - Etapas análise de risco Fonte: Adaptado de USEPA, 1989. 4.7. Técnicas de Remediação de áreas contaminadas As áreas contaminadas possuem sempre uma fonte primária e, no caso da contaminação por vazamento de combustíveis em postos de abastecimento, possuem também uma fonte secundária. Como fonte primária tem-se as atividades responsáveis pelo derrame dos contaminantes no solo como as falhas humanas operacionais e os aspectos construtivos. Já a fonte secundária diz respeito a parcela do contaminante adsorvida pelo solo que, devido à processos naturais de biodegração sofre disseminação pelo solo e água ao longo do tempo agindo como uma fonte de contaminação contínua. Segundo a ABNT NBR 15515-1 de 2008, o processo de remediação pode ser definido como: “Aplicação de técnica ou conjunto de técnicas em uma área comprovadamente contaminada visando a remoção, contenção ou redução das concentrações dos contaminantes presentes, de modo a assegurar a reabilitação da área com limites aceitáveis de risco à saúde humana e ao meio ambiente para o uso declarado. ’’ Investigação Confirmatória Avaliação da Exposição Análise de Toxicidade Fonte de contaminação; Perfil toxicológico Substâncias Químicas de Interesse Parâmetros toxicológicos Receptores potenciais; Caminhos de exposição; Ponto de Exposição e; Via de ingresso. Coleta, Avaliação e Validação Gerenciamento do risco Análise de incertezas Quantificação do risco Caracterização do Risco Investigação Detalhada Avaliação Preliminar 36 Por se tratarem de falhas construtivas ou operacionais, as fontes primárias costumam possuir simples remediação. Informações como estado de conservação dos tanques de armazenamento, das bombas de abastecimento, do piso, da caixa separadora de água e óleo e da regularidade dos demais serviços dos postos inclusive do treinamento dos funcionários são suficientes para a localização da fonte primária. O desafio consiste na remediação da fonte secundária que, como dito anteriormente, é a parcela de contaminante distribuído no solo e na água que continua a se expandir. Para que um eficiente método de remediação seja proposto, não basta apenas a localização da pluma, mas, também, uma busca por histórico de contaminações; perfil geológico, análise da permeabilidade, nível da água e fluxo do contaminante no solo. Segundo Meneghetti (2007), vários processos físico-químicos têm sido executados como processos remediatórios de áreas contaminadas por hidrocarbonetos, porém, a maioria desses processos exige longos períodos de tempo, em alguns casos, sendo até mesmo necessária a paralisação das atividades dos postos, envolvendo altos investimentos. Os processos dividem-se em dois grupos ex situ que, envolve a escavação de todo o solo contaminado e bombeamento da água, para outro local de tratamento e in situ onde o solo e a água contaminados são tratados no local onde estão. Os processos in situ são mais viáveis uma vez que não envolvem custos de escavações, transportes e disposição final do material tratado (MENEGHETTI, 2007). Alguns métodos de remediação têm demonstrado maior eficácia conforme indica o texto explicativo sobre relação de áreas contaminadas e reabilitadas no Estado de São Paulo de 2013 (figura 17). 37 Figura 17 - Técnicas de remediação implantadas até dezembro de 2013 Fonte: CETESB, 2013. Essas técnicas podem ser associadas de modo a atingir o objetivo de recuperação da área em um menor espaço de tempo a um menor custo. Então baseados nas estatísticas, considerando as características da área e atuação dos postos analisados neste trabalho e com o resultado desejado, foram utilizadas técnicas de Bombeamento e Tratamento, através de Biorremediação, e Extração de Vapores do Solo (SVE) associadas. Segundo Freire (2011), o processo de bombeamento e tratamento é um dos mais utilizados mundialmente devido à sua eficácia, facilidade de implantação e operação. O processo consiste na instalação de poços de maneira estratégica de forma que a água seja bombeada dos poços de monitoramento para um sistema de tratamento. Normalmente reatores anaeróbios são usados a fim de atingir o nível de descontaminação necessário. No momento da reinjeção da água tratada é necessário que o bombeamento seja feito de modo gradual para que não haja alteração no gradiente hidráulico, o que deslocaria a pluma de contaminação (EPA, 1994). De acordo com Oliveira (1992), os objetivos do bombeamento dos poços para a manipulação da pluma são:  Conter a pluma de contaminação; 38  Remover a pluma, após detida a fonte de contaminação primária;  Desviar a água subterrânea ainda não atingida pelo contaminante e;  Evitar que a água contaminada atinja uma área de água potável. Nos postos analisados neste trabalho, o tratamento utilizado em conjunto com o bombeamento foi a biorremediação. A biorremediação é um processo biológico que vem sendo usado com sucesso no tratamento de áreas contaminadas por efluentes industriais, esgotos domésticos, aterros de resíduos perigosos e aterros de resíduos urbanos que, possuem compostos orgânicos tóxicos que dificultam seu descarte (DIAS, 2000). O primeiro relato a respeito da degradação de Hidrocarbonetos Totais de Petróleo por microrganismos ocorreu em 1908 quando Stormer isolando a bactéria Bacillus Hexabovorum e inserindo-a em solo contaminado com os contaminantes tolueno e xileno, observou o crescimento da mesma, desde que mantida sua condição aeróbia. Cerca de 20 anos após essa descoberta Gray e Thornton identificaram em amostras de solo coletadas em áreas não contaminadas, cerca de 146 espécies de bactérias amplamente distribuídas no solo, capazes de degradar hidrocarbonetos naturalmente, isto é sem indutores. Dentre as espécies de bactérias com essa capacidade estão Micrococcus, Mycobacterium, Bacterium, Bacillus e Spirillum. (CORSEUIL e ALVAREZ, 1996). Segundo Mariano et al. (2007), a biorremediação age de forma a decompor poluentes específicos através de agentes biológicos. O processo consiste na degradação de contaminantes através da atividade metabólica dos microrganismos presentes na matéria orgânica do solo. Os microrganismos degradam moléculas de contaminantes que necessitam para suas atividades metabólicas, reduzindo-as a partículas menores, e gerando CO2 e H2O que são liberados para o meio, conforme ilustra a figura 18. É um processo de atenuação que pode ocorrer naturalmente e ser acelerado com a inserção de nutrientes como nitrogênio, fosforo e oxigênio que aumentam a reprodução e aceleram as atividades metabólicas dos microrganismos (MARTINS et al., 2003). 39 Figura 18 - Processo biológico da quebra de contaminantes Fonte: DIAS, 2000. Adaptado. No caso dos hidrocarbonetos, as parcelas de carbono fornecem energia para as funções vitais dos microrganismos, sendo esse fato, o responsável por classificá-los como biorremediáveis. (OLIVEIRA, 1992). Segundo Santos et al. (2007), por ser um processo biológico é considerado mais seguro quando comparado a processos físico-químicos. Não se faz necessária a adição de substâncias solventes, o que torna o processo menos agressivo, sem consequências ao meio ambiente. Segundo Mariano et al. (2007), dentre as vantagens da técnica da biorremediação está o processo da mineralização do contaminante que gera elementos absorvidos naturalmente pelo meio ambiente. Outra vantagem relacionada a biorremediação trata-se do baixo custo dos tratamentos biológicos em comparação aos demais tratamentos apresentados na figura 19. Figura 19 - Comparação entre os custos do tratamento de solos empregando diferentes técnicas de tratamento Fonte: Adaptado de JUWARKAR et al., 2010. 40 Como fatores limitantes da biorremediação tem-se as condições do solo, a intensidade e o tipo de microrganismos decompositores que, no caso dos decompositores de hidrocarbonetos não estão presentes em grandes quantidades no solo. A falta de nutrientes, responsável pela queda das atividades metabólicas, também é uma condição tendo em vista que essa encontra-se diretamente ligada ao aumento da biodisponibilidade dos hidrocarbonetos (MORAES et al., 2014). O sistema de extração de vapores do solo foi desenvolvido na década de 70 com o intuito de impedir que contaminantes em fase gasosa adentrassem as residências e estabelecimentos causando intoxicações e explosões. Depois de alguns anos essa técnica começou a ser utilizada para tratamento de solos contaminados com contaminantes voláteis e consistia na colocação de tubos e bombas a vácuo que coletavam os vapores das zonas não saturadas. Percebeu- se uma significativa diminuição na quantidade de contaminantes e então em 1995 a técnica de extração de vapores do solo já era responsável por 20% dos métodos de remediação (NRC, 1997). Segundo Nobre et al. (1998), o sistema SVE é composto de: poços perfurados na zona contaminada, com filtros que facilitam a saída dos compostos voláteis, VOC’s; poços de injeção de ar; bombas de vácuo; compressores de ar e separadores de água/ar. O SVE remove os VOC’s situados na zona não saturada do solo eliminando assim uma fonte de contaminação, pois, esses vapores podem movimentar-se e tornarem-se líquidos novamente contaminando novas áreas. Alguns importantes fatores a serem analisados para o sucesso do processo de SVE são a umidade do solo pois, a água ocupa os poros vazios dificultando a passagem do ar, a permeabilidade e a capacidade volátil dos contaminantes (NRC, 1997). Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, EPA, de 1994, dentre as vantagens do sistema SVE estão a eficácia, fácil instalação e manutenção, baixa perturbação no local de instalação e a possibilidade de associação com demais técnicas. Entre as desvantagens estão a baixa eficiência para solos pouco permeáveis e os 10% finais de VOC’s disponíveis na zona não saturada dificilmente extraídos através de sistemas convencionais. A figura 20 apresenta o esquema de montagem e funcionamento do sistema SVE. 41 Figura 20 - Esquema de sistema SVE Fonte: TRANNIN, 2014. 4.8. Revisão de Artigos Esta parte da Revisão Bibliográfica dedica-se a revisão dos artigos pertinentes produzidos a fim de prover embasamento e traçar um breve panorama do material que tem sido produzido a respeito da contaminação por hidrocarbonetos no solo e na água subterrânea. Estendendo-se o problema de contaminação por HTP ao redor do mundo, Ayininuola et al. (2015), estudaram as consequências da contaminação do solo por óleo diesel em áreas de recarga de aquíferos no município de Ibadan, Nigéria. Considerando-se a extrema escassez de água potável local, o estudo torna-se relevante a fim de promover a preservação das águas subterrâneas. Devido à precariedade das estradas e veículos, o derrame de refinados de petróleo acontece com maior frequência no continente africano. Grande parte das causas desse tipo de acidente no continente é condicionada às falhas humanas e aos meios de transporte. Dez amostras de solo foram coletadas próximas às áreas ribeirinhas e de recarga de aquíferos. Foram contaminadas com porções de óleo diesel que 42 totalizavam cerca de 10% do valor do seu peso. Dessas amostras, cinco foram lacradas de forma a evitar a interação com o ar e a luz solar e as demais foram expostas às condições climáticas normais sem nenhuma restrição. Durante 140 dias foram estudados os coeficientes de permeabilidade dessas amostras. Apesar das amostras estarem inicialmente significativamente compactadas, essas apresentaram porosidade alta suficiente para absorver o óleo derramado em um curto espaço de tempo. Houve perda significativa de permeabilidade na superfície das amostras devido ao alto nível de preenchimento dos vazios por óleo diesel. Em relação ao armazenamento, as amostras expostas às condições climáticas locais apresentaram uma remediação natural que promoveu a melhora dos valores do coeficiente de permeabilidade. A consequência imediata e duradoura do derramamento de óleo diesel demonstra a perda de porosidade do solo, fato esse que, até que o coeficiente de permeabilidade retorne a valores acessíveis para penetração das águas, compromete o reabastecimento dos aquíferos. Calza et al. (2015), avaliou a contaminação da água subterrânea pelo componente Benzeno do grupo dos BTEX, em um posto de combustível em zona urbana da cidade de Barueri, a fim de propor uma técnica de remediação adequada. Através da fase de identificação da situação atual, treze poços de monitoramento foram instalados dos quais em três, foi identificada a presença do Benzeno. A identificação da contaminação ocorreu de acordo com a Decisão de Diretoria 103 da CETESB de 2007 e 263 da CETESB de 2009, que exige a confirmação através da emissão de laudos laboratoriais. Amostras de solo permitiram a classificação do mesmo como argilo-arenenoso. No estabelecimento não havia presença de poço artesiano o que eliminou o risco imediato de contaminação por ingestão de água. Levando em consideração todos os fatos levantados na identificação e sendo a contaminação encontrada apenas na fase dissolvida, foi proposta a técnica de Multi Phase Extraction, MPE para remediação. O processo de remediação com duração em torno de dezoito meses e medições da intensidade do Benzeno realizadas a cada seis meses, indicou uma eficiente dispersão espacial da pluma de contaminação. Foram detectadas reduções para 7,10g/L, 232,20g/L, 840,10g/L, 26,80g/L e 1,40g/L para os pontos PM11, PM12, PM13, PMN03 e PMN04 respectivamente. Os valores obtidos resultaram em concentrações abaixo do 43 estabelecido pelo CMA de 892,00g/L, não apresentando assim mais risco a saúde do homem. Segundo Antoniolli et al. (2007), ainda que a biotecnologia da biorremediação esteja limitada à população de microrganismos e sua biodisponibilidade, a variedade de métodos a saber, bioaumentação, bioestimulação, fitorremediação, landfarming, compostagem e biorreatores, relacionados à biorremediação, possibilita o aumento da eficiência dessa técnica. Ainda que grande parte dos microrganismos presentes no solo possua a capacidade de degradar hidrocarbonetos, os microrganismos que degradam os HPA como fonte de carbono para suas atividades metabólicas possuem complexas enzimas que transformam as moléculas de HPA em enzimas necessárias para seu processo de metabolismo. Tendo em vista esse fato, os consórcios microbianos mostraram-se mais eficazes na degradação dos HPA do que apenas os microrganismos presentes no local contaminado. Dentre as formas de metabolização dos HPA, a principal trata-se do metabolismo aeróbico realizado pelas bactérias e fungos. De acordo com Freitas et al. (2012), a medida em que o meio ambiente é agredido pelas atividades contaminantes do homem, os microrganismos degradam os contaminantes usando-os como nutrientes para sua autopreservação. Esse processo biológico de remediação trata-se de uma própria defesa do meio ambiente sendo por isso, classificado como ecologicamente correto possível de ser potencializado. A ação e relação dos microrganismos com os contaminantes são os principais fatores responsáveis pela renovação dos ecossistemas. Sendo assim, o aprofundamento do estudo da relação contaminantes versus meio contaminado, torna-se oportuno. Foram observados resultados positivos na utilização das bactérias Pseudomonas putida e Pseudomonas aeruginosa para degradação do grupo BTEX presente na gasolina comercial. As bactérias Acidovorans, Acinetobacter, Agrobacterium, Alcaligenes, Aeromonas, Arthrobacter, Beijemickia, Burkholderia, Bacillus, Comomonas, Corynebacterium, Cycloclasticus, Flavobacterium, Gordonia, Microbacterium, Moraxella, Mycobacterium, Micrococcus, Neptunomonas, Nocardia, Paracoccus, Pasteurella, Polaromonas, Pseudomonas, Ralstonia, Rhodococcus, Sphingomonas, Stenotrophomonas, Streptomyces e Vibrio, também se mostraram eficientes em outros estudos. Além 44 das bactérias, leveduras e fungos filamentosos também se mostram eficientes na decomposição desses contaminantes. Em relação às características físico-químicas do solo arenoso favoráveis a degradação de hidrocarbonetos aromáticos, Bento et al. (2010), avaliou a condição dos fatores pH, umidade e disponibilidade de nutrientes, a saber nitrogênio, fósforo, ferro e enxofre, em amostras de solo coletadas na Unidade de Mapeamento de Itapoã, a profundidade de 20cm, classificadas como Argissolo Vermelho-Amarelo Distrófico Arênico. Para a avaliação essas amostras foram contaminadas propositalmente com 500mgkg-1 do HPA Antraceno e inoculadas com o consórcio de seis bactérias, a saber, Mycobacterium fortuitum, Bacillus cereus, Microbacterium sp., Gordonia polyisoprenivorans, Microbacteriaceae bacterium e Naphthalene-utilizing bacterium, e um fungo, o Fusarium oxysporum. A mineralização do contaminante foi quantificada através do método da respirometria. Nas amostras sujeitas à maiores umidades verificou-se o aumento da mineralização do Antraceno e diminuição do tempo de remediação. Em relação ao pH, ainda que as amostras tenham sido inoculadas com consócio especifico de bactérias e nutrientes que aumentam a biodisponibilidade desses, quando o pH não foi alterado, mantendo-se a intensidade natural do solo de 4,5, as atividades de degradação foram inibidas. Em relação aos nutrientes, o aumento de 100kgha-1 na disponibilidade de nitrogênio diminuiu a mineralização do contaminante. Em contrapartida, o aumento da disponibilidade de ferro, enxofre e fósforo, não apresentaram resultados significativos. A inoculação do consórcio de bactérias e fungo demonstrou um significativo aumento de CO2, confirmando o verificado anteriormente por KÄSTNER et al. (1998), onde a introdução dessas bactérias e fungo apresentou uma taxa de degradação dez vezes superior e um tempo de remediação sete vezes inferior ao solo composto apenas pelas bactérias autóctones. A eficiência da bioaumentação, técnica da biorremedi