PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS FLÁVIA ELAINE SOARES FERREIRA LOMBARDI CRISE MIGRATÓRIA VENEZUELANA: DO DISCURSO E NORMAS PROTETIVAS À PRÁTICA SECURITÁRIA NO BRASIL, COLÔMBIA, EQUADOR E PERU MARÍLIA 2023 FLÁVIA ELAINE SOARES FERREIRA LOMBARDI CRISE MIGRATÓRIA VENEZUELANA: DO DISCURSO E NORMAS PROTETIVAS À PRÁTICA SECURITÁRIA NO BRASIL, COLÔMBIA, EQUADOR E PERU Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”, Campus de Marília, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais, sob orientação do Prof. Dr. Sérgio Luiz Cruz Aguilar. MARÍLIA 2023 Nome: Flávia Elaine Soares Ferreira Lombardi Título: Crise migratória venezuelana: do discurso e normas protetivas à prática securitária no Brasil, Colômbia, Equador e Peru Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”, Campus de Marília, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais, linha de pesquisa Relações Internacionais e Desenvolvimento. BANCA EXAMINADORA Orientador: Prof. Dr. Sérgio Luiz Cruz Aguilar Instituição: UNESP Marília-SP Prof. Dr. Antônio Mendes da Costa Braga Instituição: UNESP Marília-SP Profa. Dra. Mariana Moron Saes Braga Instituição: UNESP Marília-SP Prof. Dr. Edinilson Donisete Machado Instituição: UENP Jacarezinho-PR e UNIVEM Prof. Dr. Vinícius Roberto Prioli de Souza Instituição: UNISALESIANO Lins-SP Marília, 20 de março de 2023. AGRADECIMENTOS A Deus pelo dom da vida, por cada experiência e prova vencida. Aos meus pais Cleide e Ilton, exemplos de vida e dignidade, que sempre estiveram presentes em cada escolha, acompanhando os percalços das minhas trajetórias acadêmica e pessoal. Meus alicerces, base sólida de carinho, amor e compreensão, muito obrigada por tudo. Eu não chegaria até aqui sem vocês segurando minhas mãos. Ao professor e orientador Dr. Sérgio Aguilar que com sua maestria e dedicação proporcionou uma jornada de muito aprendizado e conhecimento, que não mediu esforços para orientar cada novo passo nas sucessivas e necessárias mudanças de percurso. Ao Professor Dr. Edinilson Donisete Machado que gentilmente aceitou fazer parte da minha banca de qualificação e teceu comentários e questionamentos tão importantes para a redação final desta tese. Ao Professor Dr. Antônio Braga que amistosamente aceitou fazer parte de minha banca de qualificação e tão atentamente indicou perspectivas que enriqueceram a pesquisa. À Professora Dra. Mariana Braga que gentilmente aceitou fazer parte da banca de defesa desta tese, por suas considerações, objetivas e relevantes. Ao Professor Dr. Vinícius Prioli, com quem tive o privilégio de fazer parte do mesmo corpo docente, por aceitar fazer parte do encerramento desta fase tão importante de minha vida acadêmica e elaborar questionamentos essenciais para a conclusão. Para Raquel, presente divino, que com sua inocência e alegria me dá forças para continuar. LOMBARDI, F. E. S. F. Crise migratória venezuelana: do discurso e normas protetivas à prática securitária no Brasil, Colômbia, Equador e Peru [tese]. Marília: Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”; 2023. RESUMO Esta pesquisa abordou a securitização das migrações venezuelanas no contexto da Emergência de Saúde Pública Internacional em razão do Covid-19. Para tanto, no capítulo primeiro, foram usados três conceitos-chave: securitização, mecanismo causal e a construção da segurança. No capítulo metodológico foi abordado o Process Tracing, como método que orientou a coleta de dados da pesquisa. Foi explicada a escolha do método comparativo como instrumento de análise dos casos selecionados. O corte temporal foi realizado sob a perspectiva do Process Tracing orientando a coleta de dados a partir do aumento das migrações venezuelanas para os países da América do Sul. Noutro aspecto, o método comparativo foi utilizado com a finalidade de comparar os países objeto deste estudo, a saber: Brasil, Colômbia, Equador e Peru. O terceiro capítulo situou a crise econômico-social e humanitária da Venezuela. Neste capítulo foi realizada a coleta de dados da migração, das normas de proteção aos direitos dos migrantes, das restrições a direitos, do discurso político e dos atos de xenofobia. O quarto capítulo, de abordagem analítica, abarcou o processo de securitização da migração venezuelana com tentativas de securitização em 2018 e adoção de algumas normas excepcionais, para ao final, analisar a securitização bem-sucedida com adoção de normas fora da política normal. No quinto capítulo foi feita a comparação entre os processos de securitização ocorridos nos países objeto da pesquisa. Nas considerações finais, os principais aspectos da tese foram retomados, demonstrando as similitudes e diferenças entre os processos de securitização comparados. PALAVRAS-CHAVE: Migração. Segurança. Process Tracing. LOMBARDI, F. E. S. F. Crise migratória venezuelana: do discurso e normas protetivas à prática securitária no Brasil, Colômbia, Equador e Peru [tese]. Marília: Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio Mesquita Filho”; 2023. ABSTRACT This research addresses the securitization of Venezuelan migrations in the context of the International Public Health Emergency due to Covid-19. For this purpose, in the first chapter, three key concepts were used: securitization, causal mechanism and the construction of security. In the methodological chapter, it was exactly the Process Tracking, as a method that guided the research data collection. The choice of the comparative method as an instrument for analyzing the selected cases was explained. The temporal cut was carried out from the perspective of Process Tracing, guiding the collection of data from the increase in Venezuelan migrations to South American countries. In another aspect, the comparative method was used with the purpose of comparing the countries object of this study, namely: Brazil, Colombia, Ecuador and Peru. The third chapter situates the economic, social and humanitarian crisis in Venezuela. In this chapter, data were collected on migration, norms for the protection of migrants' rights, restrictions on rights, political discourse and acts of xenophobia. The fourth chapter, with an analytical approach, addresses the securitization process of Venezuelan migration with securitization attempts in 2018 and the adoption of some induced norms, in order to finally analyze the successful securitization with the adoption of norms outside the normal policy. In the fifth chapter, a comparison was made between the securitization processes that took place in the countries under study. In the final considerations, the main aspects of the thesis were resumed, demonstrating the similarities and differences between the compared securitization processes. KEYWORDS: Migration. Security. Process Tracing. LISTA DE FIGURAS Figura 1 Variantes do Process Tracing 36 Figura 2 Mecanismo causal de resultado 36 Figura 3 Cadeia causal 2015 37 Figura 4 Cadeia causal 2018 38 Figura 5 Cadeia causal 2020 38 Figura 6 Process Tracing aplicável aos fluxos migratórios em 2018 e 2020, com identificação dos mecanismos causais hipotéticos e seus efeitos 40 Figura 7 Process Tracing aplicável ao fluxo migratório em 2020 no contexto da Pandemia de Covid-19, com identificação dos mecanismos causais hipotéticos e seus efeitos 41 Figura 8 Process Tracing da securitização da migração venezuelana no caso brasileiro 84 Figura 9 Process Tracing da securitização da migração venezuelana no caso colombiano 87 Figura 10 Process Tracing da securitização da migração venezuelana no caso equatoriano 90 Figura 11 Process Tracing da securitização da migração venezuelana no caso peruano 93 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Tabela comparativa dos casos estudados 103 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACNUR Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados ANVISA Agência Nacional de Saúde CAN Comunidade Andina CPF Cadastro de Pessoa Física CIDH Comissão Interamericana de Direitos Humanos CONARE Comitê Nacional para Refugiados CTPS Carteira de Trabalho e Previdência Social ESPIN Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional FARC Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia OEA Organização dos Estados Americanos OIM Organização Internacional para as Migrações OMS Organização Mundial de Saúde ONU Organização das Nações Unidades OPAS Organização Pan-Americana de Saúde PDVSA Petróleo da Venezuela Sociedade Anônima PEP Permissão Especial de Permanência PF Polícia Federal R4V Plataforma de Coordenação Interagencial para Refugiados e Migrantes da Venezuela RNE Registro Nacional de Estrangeiros SUS Sistema Único de Saúde UNHCR Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados UNASUR União das Nações Sul-Americanas UNASUS Universidade Aberta do SUS UBS Unidade Básica de Saúde SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................................... 12 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...................................................................................... 18 1.1 Nação e soberania ............................................................................................................. 18 1.2 Migração e refúgio ............................................................................................................ 19 1.3 Securitização e o conceito de segurança ......................................................................... 21 1.4 Teoria da Securitização .................................................................................................... 24 1.5 Securitização como mecanismo causal ........................................................................... 29 1.6 Construção da segurança ................................................................................................. 31 1.7 Contextos de securitização ............................................................................................... 33 2 METODOLOGIA E TÉCNICA DA PESQUISA ............................................................. 35 2.1 Process Tracing e os Mecanismos Causais Hipotéticos ................................................. 35 2.2 Método comparativo ........................................................................................................ 43 3 CRISE MIGRATÓRIA VENEZUELANA ....................................................................... 46 3.1 Estudo dos casos ............................................................................................................... 49 3.1.1 No Brasil ......................................................................................................................... 51 3.1.1.1 Normas de proteção aos migrantes ........................................................................... 52 3.1.1.2 Normas que determinaram o fechamento das fronteiras e o controle fronteiriço pelas Forças Armadas ............................................................................................................ 54 3.1.1.3 Discurso político .......................................................................................................... 55 3.1.1.4 Atos de xenofobia ........................................................................................................ 57 3.1.1.5 Acesso a direitos: documentação, saúde, incentivos financeiros ............................ 57 3.1.2 Na Colômbia ................................................................................................................... 58 3.1.2.1 Normas de proteção aos migrantes ........................................................................... 60 3.1.2.2 Normas que determinaram o fechamento das fronteiras e o controle fronteiriço pelas Forças Armadas ............................................................................................................ 61 3.1.2.3 Discurso político .......................................................................................................... 62 3.1.2.4 Atos de xenofobia ........................................................................................................ 64 3.1.2.5 Acesso a direitos: documentação, saúde, incentivos financeiros ............................ 66 3.1.3 No Equador .................................................................................................................... 67 3.1.3.1 Normas de proteção aos migrantes ........................................................................... 68 3.1.3.2 Normas que determinaram o fechamento das fronteiras e a utilização de membros das forças armadas no controle fronteiriço ......................................................... 71 3.1.3.3 Discurso político .......................................................................................................... 72 3.1.3.4 Atos de xenofobia ........................................................................................................ 73 3.1.3.5 Acesso a direitos: documentos, saúde, incentivos financeiros ................................ 73 3.1.4 No Peru ........................................................................................................................... 75 3.1.4.1 Normas de proteção aos migrantes ........................................................................... 76 3.1.4.2 Normas que determinaram o fechamento das fronteiras e o controle fronteiriço pelas Forças Armadas ............................................................................................................ 77 3.1.4.3 Discurso político .......................................................................................................... 78 3.1.4.4 Atos de xenofobia ........................................................................................................ 79 3.1.4.5 Acesso a direitos: documentos, saúde e incentivos financeiros .............................. 80 4 FASES DO PROCESSO DE SECURITIZAÇÃO ............................................................ 81 4.1 Brasil .................................................................................................................................. 81 4.2 Colômbia ........................................................................................................................... 85 4.3 Equador ............................................................................................................................. 88 4.4 Peru .................................................................................................................................... 91 5 COMPARAÇÃO DOS PROCESSOS DE SECURITIZAÇÃO ...................................... 94 5.1 Normas de proteção aos migrantes ................................................................................. 94 5.2 Normas que determinaram o fechamento das fronteiras e o controle fronteiriço pelas Forças Armadas ...................................................................................................................... 97 5.3 Discurso político ................................................................................................................ 99 5.4 Atos de xenofobia ............................................................................................................ 100 5.5 Acesso a direitos .............................................................................................................. 101 5.5.1 Documentos .................................................................................................................. 101 5.5.2 Acesso à saúde .............................................................................................................. 102 5.5.3 Incentivos financeiros .................................................................................................. 102 5.6 Tabela comparativa dos casos estudados ..................................................................... 103 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 104 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 107 Referências Bibliográficas................................................................................................... 107 Referências de documentos .................................................................................................. 115 Sites eletrônicos pesquisados ............................................................................................... 116 12 INTRODUÇÃO As migrações estão ligadas à humanidade desde os primórdios e ocorriam por necessidade de coleta de alimentos ou fatores climáticos. No século XX, muitas migrações ocorreram em razão das guerras, representando a luta por sobrevivência. As duas primeiras décadas do século XXI trouxeram consigo o aumento exponencial de migrações internacionais. Segundo a Organização das Nações Unidas, o número de migrantes internacionais no mundo chegou no ano de 2019 a 272 milhões (ONU, 2019, s/p). O contingente atual de migrantes internacionais já ultrapassou a previsão feita para o ano de 2050, haja vista que tem sido muito difícil prever os motivos que geram estes fluxos migratórios, tais como catástrofes naturais, instabilidade governamental ou econômica (ONU, 2019, s/p). Os movimentos migratórios trazem consigo diversas inseguranças. Sob a perspectiva dos migrantes, os receios podem estar atrelados à língua, ao acesso a meios de sobrevivência, dificuldades em obter informações sobre regularização de documentos no país de destino. Sob a ótica do país receptor, muitas circunstâncias contribuem para a insegurança nas migrações: atentados contra estrangeiros (xenofobia), legislação baseada na segurança nacional, burocracia que cria entraves para regularização migratória. Um dos maiores fluxos de migrações atual é o de venezuelanos. Até janeiro de 2021, a crise econômica, política e humanitária na Venezuela foi responsável pela migração de aproximadamente 5,4 milhões de pessoas (R4V, 2021). O volume migratório tornou a crise venezuelana o segundo maior contexto de deslocamento mundial e o primeiro na região da América do Sul (R4V, 2021). O agravamento da crise econômico-política e humanitária na Venezuela no ano de 2018 e ampliação do fluxo migratório para os países vizinhos, gerou uma série de instabilidades nas cidades com maior número de migrantes recebidos. Nestas, é possível citar que houve o aumento de insegurança, maior busca por atendimentos médicos, superlotação de unidades de acolhimento, entre outras situações que exigiram atuação do Estado. Nessa perspectiva, destaca-se que a indagação que originou o desenvolvimento da tese foi: A recepção dos migrantes venezuelanos realizada por Brasil, Colômbia, Equador e Peru foi realizada com respaldo nos direitos dos migrantes? A hipótese inicial é de que o discurso político defendeu a garantia dos direitos dos migrantes venezuelanos, entretanto, as políticas adotadas demonstraram que argumentos de segurança nacional foram utilizados em detrimento dos interesses dos migrantes. 13 Dos países receptores de migrantes venezuelanos, no ano de 2018, foram identificados os seguintes números: a Colômbia recebeu 1.842.390, o Equador 513.903, o Peru 1.286.464 e o Brasil 325.763. Parte significativa dos migrantes realiza o percurso a pé para sair da Venezuela (CNN ESPANHOL, 2018), o que exige que eles acessem o Brasil ou a Colômbia por meio das fronteiras terrestres. A maior parte do fluxo migratório de venezuelanos se concentrou na Colômbia. No caso do Brasil, nota-se que parte dos migrantes tem se utilizado da travessia do país como passagem para chegar ao Equador ou Peru para reagrupamento familiar ou em busca de melhores condições de trabalho, por exemplo (CNN ESPANHOL, 2018). Nestes países é possível notar que a migração de venezuelanos após 2018, apresentou diversas dificuldades, tais como o acesso à moradia, à saúde, à documentação, ao mercado de trabalho (CNN ESPANHOL, 2018). Brasil, Colômbia, Equador e Peru são signatários dos principais instrumentos internacionais de proteção aos Direitos Humanos dos migrantes e refugiados. Esses países possuem, ainda, normas internas que garantem direitos fundamentais a pessoas em deslocamento. No entanto, com o agravamento da crise migratória, em cidades específicas (no Brasil e na Colômbia, por exemplo) notou-se que as decisões de autoridades governamentais se utilizaram de argumentos de interesse nacional em detrimento dos interesses dos migrantes, como necessidade de redução do acolhimento de venezuelanos com controle de fronteira, e redução da superlotação de unidades de saúde e de acolhimento. Com tais discursos objetivou- se dificultar o ingresso nos países responsáveis pela recepção do maior número de migrantes venezuelanos. Embora as pautas de proteção aos Direitos Humanos tenham sido atualizadas nos países objeto desta pesquisa, como, por exemplo, a ampliação do reconhecimento do status de refugiado pela Declaração de Cartagena de 1984, demonstrando como objetivo a garantia dos direitos fundamentais aos migrantes, com afastamento, em tese, do discurso de que a política migratória estaria fundada na segurança nacional, verificou-se que tais proteções foram afastadas com a incidência da crise migratória venezuelana (pós 2018) e com o reconhecimento da Pandemia em 2020. O objetivo geral da pesquisa foi sustentar a discrepância entre as normas de proteção aos Direitos Humanos dos migrantes e as políticas migratórias adotadas para venezuelanos no Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Os objetivos específicos nortearam o desenvolvimento da tese, possibilitando compreender a aplicabilidade da teoria da securitização, explanar a securitização como mecanismo causal no contexto da Pandemia de Covid-19 e entender a construção da segurança na política de migração para venezuelanos. 14 A tese sustenta que a discrepância entre o discurso de proteção aos direitos dos migrantes venezuelanos e a adoção de políticas migratórias excepcionais só foi possível em razão do contexto de exceção proporcionado pelo reconhecimento da Emergência de Saúde Internacional. A Teoria da securitização é o marco teórico desta pesquisa, utilizada para explicar a adoção de normas migratórias excepcionais durante a Pandemia de Covid-19. Referida teoria foi elaborada pela Escola de Copenhague, segundo a qual o processo de securitização ocorre como consequência de um discurso com fundamento na ameaça existencial, tornando um problema como sendo de segurança com a finalidade de justificar a adoção de medidas extraordinárias. Desse modo, o resultado da securitização das normas relacionadas às políticas migratórias em relação aos venezuelanos decorreu da identificação destes como uma ameaça de contaminação dos nacionais pelos venezuelanos e do colapso do sistema de saúde local, incapaz de atender às necessidades de nacionais e migrantes, circunstâncias que ameaçariam sobremaneira a vida dos nacionais. Como determinação extrema, para conter a circulação do Coronavírus, foram adotadas diversas providências, entre elas o fechamento das fronteiras com a Venezuela, o controle de fronteira comandado pelas Forças Armadas, dentre outras decisões locais que foram objeto de análise no curso desta pesquisa. Entretanto, a teoria da securitização não explicou completamente a razão da adoção e tolerância de normas excepcionais. Assim sendo, o estudo foi aprofundado para analisar o conceito de mecanismos causais, utilizado para explicar o porquê a securitização foi bem- sucedida em 2020 e não em 2018 momentos de maior fluxo migratório nos países objeto desta tese. Desse modo, utilizou-se das concepções de Guzzini (2011) para abordar a securitização como verdadeiro mecanismo causal do enrijecimento das normas de migração. A discrepância entre a legislação e a política migratória apontou para a necessidade de abordagem do conceito de construção da segurança como fator social, de modo a demonstrar que a adoção de medidas fundadas em segurança fez parte de um processo. A utilização da teoria da securitização em conjunto com os conceitos de mecanismos causais e de construção da segurança teve por objetivo a comprovação da hipótese de discrepância entre as normas de Direitos Humanos e as políticas migratórias para venezuelanos. Para esse fim, foram realizadas pesquisas em relação às medidas restritivas adotadas pelo Brasil, Colômbia, Equador e Peru com o agravamento da crise migratória no ano de 2018 e no contexto da Pandemia de Covid-19 nos anos de 2020-2021. 15 A pesquisa iniciou com contextualização da crise econômico-política e humanitária da Venezuela, de forma a identificar os motivos da migração venezuelana, crise posteriormente reconhecida como violação dos Direitos Humanos. Para esse propósito, foram utilizados dados e notícias das agências de migração e refúgio a fim de demonstrar a queda na migração e acolhimento de venezuelanos durante a Pandemia e os desafios pelos quais os migrantes passaram nos países de acolhida. Foram identificadas as normas governamentais adotadas e as relações entre o fechamento das fronteiras e o controle de ingresso nestas pelas Forças Armadas. Foram analisados, tanto em 2018 quanto em 2020, dados relacionados a atos de xenofobia, discurso das autoridades, acesso à saúde, documentação e benefícios financeiros aos migrantes venezuelanos já acolhidos. As pesquisas iniciais foram de cunho bibliográfico e documental, especialmente no que tange aos dados das agências de controle de migração, agência das Nações Unidas para Migração e Refúgio, além destas bases de pesquisa, foram utilizados documentos de Organizações Não Governamentais (Cáritas, Cruz Vermelha, Médicos Sem Fronteiras) e reportagens das mídias locais. Para fundamentar a tese, foram descritas e analisadas as normas estatais de fechamento das fronteiras, que resultaram na impossibilidade de migração legal durante a Pandemia de Covid-19, bem como seus reflexos nos índices de migração e políticas públicas adotadas no contexto da pandemia. Utilizou-se do método de pesquisa comparativo, definindo-se o método por comparar: as normas de proteção aos direitos dos migrantes, as normas excepcionais (elaboradas durante os anos 2018 e 2020-2021) que determinaram o fechamento e controle de fronteiras, o discurso político, atos de xenofobia e o acesso a direitos como saúde, documentação, incentivos econômicos, no Brasil, Colômbia, Equador e Peru, países que receberam parte do fluxo populacional venezuelano. O trabalho foi desenvolvido a partir do conceito de segurança proposto por Waever (1995) e desenvolvido com a Teoria da Securitização elaborada pela Escola de Copenhague, que trabalhou com desenvolvimento de teorias que permitiram a análise da segurança internacional sob uma nova perspectiva, denominada abrangente. Para a fundamentação teórica foram utilizados os estudos de Buzan, Waever e Wilde (1998) reunidos na publicação do livro Security: a New Framework for Analysis, no qual pode ser notada a diminuição do enfoque militar dado aos assuntos de segurança. Esta pesquisa fundamentou-se, ainda, na designação da securitização como mecanismo causal que aponta a justificativa do sucesso na adoção de políticas excepcionais e urgentes em 2020 e não em 2018, no ápice da migração venezuelana para os países da América 16 do Sul. O conceito de mecanismo causal remete à circunstância que foi fundamental para o resultado, desse modo, retirando-se o mecanismo, o resultado seria diferente. Na elaboração dos argumentos utilizou-se também o conceito de construção da segurança como um processo, de modo a demonstrar que a adoção de medidas excepcionais só foi possível porque havia um desempenho no sentido de construir o significado da segurança tipificando a migração venezuelana como um risco. Na abordagem da construção da segurança como um processo foram citados os argumentos de McDonald (2008). As perspectivas deste autor permitem compreender o papel das imagens no discurso de ameaça existencial no contexto da Pandemia de Covid-19. McDonald (2008) aponta para a importância das imagens no processo de construção da segurança, tal importância não foi creditada pela Escola de Copenhague, que ressalta o ato de fala como nexo causal para a securitização. A escolha pelo método de pesquisa orientou a identificação das técnicas que foram utilizadas na coleta de informações e dados necessários para a fundamentação. Foi utilizado o método dedutivo com coleta de dados e a análise qualitativa com estratégia comparativa para desenvolver os argumentos em relação aos países objetos da análise. Para cumprir o objetivo da pesquisa e identificar fatores que podem ter gerado o resultado de securitizações bem- sucedidas, foi utilizado ainda o Process Tracing. A escolha da utilização do Process Tracing, método que não é tão recente, mas com diversos aspectos controvertidos na pesquisa de Ciência Política, ocorreu em razão da necessidade de identificação do contexto que contribuiu para a tendência de securitização das normas de políticas migratórias para venezuelanos na América do Sul. O Process Tracing pode ser utilizado com diversos objetivos: criar, testar teorias ou explicar resultados (BEACH; PEDERSEN, 2016). Nesta pesquisa, utilizou-se do process tracing como ferramenta útil para explicação do resultado de adesão de normas migratórias excepcionais. Com o uso do Process Tracing foi possível descrever os mecanismos causais que contribuíram para que o discurso fundado em restrição de direitos fosse acolhido em 2020 e não em 2018. O Process Tracing como técnica de pesquisa busca expor os mecanismos causais (FALLETI; LYNCH, 2009) que contribuíram para a criação de normas restritivas e excepcionais referentes à migração venezuelana na América do Sul durante o reconhecimento da Emergência de Saúde Pública Internacional, entre os anos de 2020 e 2021. A utilização do Processo Tracing se circunscreveu à primeira etapa de pesquisa, na qual foram reunidos dados da crise migratória venezuelana, com foco nos anos de 2018 e 2020- 2021. 17 Inicialmente, foi identificado o fluxo migratório em 2018 e 2020-2021, posteriormente foram analisadas as variáveis intervenientes da cadeia causal (por exemplo, atos de xenofobia, fechamento das fronteiras) individualmente, por meio de dados coletados dos sites de migração (ACNUR, OIM, R4V), dos canais oficiais dos países em estudo e da mídia local. Na segunda etapa da pesquisa, a fim de identificar as mudanças ocorridas nas políticas migratórias na América do Sul, optou-se por utilizar o método comparativo em relação às normas para migrantes venezuelanos, adotadas no contexto da Emergência de Saúde Pública Internacional gerada pela Pandemia de Covid-19. Para tanto, a comparação como método de pesquisa teve por objetivo permitir a generalização de afirmações no curso da pesquisa, pois abordou situações comuns ou divergentes. A tese se estruturou em outros cinco capítulos: o primeiro, é conceitual e abordou os conceitos de nação, soberania, migração e refúgio e a teoria tradicional da securitização proposta pela Escola de Copenhague, especialmente os estudos de Buzan, Waever e de Wilde (1998), bem como as teorias alternativas a ela apresentadas, analisando, ainda, o conceito de mecanismos causais e de construção da segurança. O segundo capítulo foi dedicado ao método do Process Tracing, como abordagem qualitativa que orientou a coleta e análise de dados, abordando o método comparativo, como ferramenta que indicou a pesquisa por diferenças e concordâncias entre os dados pesquisados. O terceiro capítulo abordou as origens da crise econômica da Venezuela, reconhecida como violação de direitos humanos, com ápice da migração em 2018 e declínio a partir de 2020. No quarto capítulo foi realizada a análise dos casos do Brasil, Colômbia, Equador e Peru, tratando das medidas adotadas no contexto da Emergência de Saúde Pública Internacional ocasionada pela Pandemia de Covid-19. No quinto capítulo foi feita a comparação dos processos de securitização ocorridos entre os países objetos de estudo apontando as similitudes e diferenças. Nas considerações finais, a cronologia dos principais aspectos da pesquisa foi retomada, confirmando a hipótese de discrepância entre as normas de proteção aos direitos dos migrantes e as políticas migratórias para venezuelanos. 18 1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Este capítulo é dedicado à fundamentação teórico-conceitual da pesquisa, de forma a compreender os principais aspectos que serão trabalhados no desenvolvimento e delimitação dos argumentos desta tese. 1.1 Nação e soberania Antes de adentrar à análise dos conceitos específicos que fundamentam a pesquisa é necessário abordar conceitos que são essenciais para a construção dos argumentos. Para tanto, é preciso definir os termos nação e soberania. A importância de estabelecer o significado do termo nação está fundada na abordagem das migrações, enquanto ingresso em dado espaço territorial de cidadãos ligados a outra nação. A abordagem do termo soberania se coaduna com a possibilidade da criação de restrições estatais que visam o controle de ingresso de estrangeiros em seus territórios, de modo a impedir que tais pessoas possam causar transtornos ao poder estatal. Sob o aspecto geral, a nação seria a união de pessoas em razão de laços naturais. Esta união é a base necessária para a organização do poder em forma de Estado nacional (ROSSOLILLO, 1998). Sob o aspecto jurídico, nação é o elo entre o indivíduo e Estado. A partir do pertencimento à nação é que se torna possível o reconhecimento de direitos e a exigência destes em face do Estado (NOVELINO, 2014). Desse modo, o termo nação está ligado ao sentimento de pertencimento, de laços de proximidade entre pessoas que compartilham cultura em comum. Na perspectiva sociológica, Anderson (2008) aponta o conceito de nações como comunidades imaginadas, pois os vínculos entre os indivíduos seriam formados independentemente de hierarquias e desigualdades, concebidas por meio de estruturas baseadas em uma espécie de camaradagem horizontal. Ocorreria o reconhecimento de um “nós” coletivo proveniente de relações distintas. Dessa forma, seria a partir do momento em que a comunidade é imaginada que ela seria modelada. O nacionalismo e a nacionalidade seriam produtos culturais. Nesse sentido, a nação seria uma comunidade política imaginada, limitada e soberana. O autor observa que, em razão de pertencerem a uma nação que alguns indivíduos se qualificam como titulares dela, por vezes, excluem pessoas que não pertencem a tal categoria. É por meio 19 da aversão a pessoas que não compartilham dos mesmos laços culturais (nação) que é praticada a xenofobia1. Matteucci (1998) ensina que a soberania em sentido amplo seria o poder de mando em última instância. Enquanto em sentido estrito, de acordo com as formações do estado moderno, seria a plenitude do poder estatal, “sujeito único e exclusivo da política”. Relacionando a soberania ao tema desta pesquisa, é necessário observar que a sua utilização ocorre como fundamento para a escolha dos tipos de políticas migratórias adotadas por um Estado, e, em certa medida, para garantir restrições a estrangeiros com base no argumento de segurança nacional. A ideia de soberania relacionada ao conceito de nação estreita a aplicação da proteção conferida aos Direitos Humanos dos migrantes, ainda que Estados assumam um discurso de proteção, na prática muitas decisões são embasadas em argumentos relacionados à soberania2. 1.2 Migração e refúgio A abordagem dos temas de migração e refúgio se relaciona à travessia de fronteiras. A migração ocorreu em diversos momentos da história, por vezes, em razão de mudanças climáticas, oportunidade de melhores condições de vida, fugas de guerras. Nesse sentido, abordar os termos migração e refúgio significa tratar da condição de locomoção do ser humano, por questões pessoais ou imbuído da necessidade de salvar-se. A migração refere-se a um termo genérico de travessia de uma fronteira internacional, um movimento populacional que independe da extensão ou das causas, que pode incluir pessoas deslocadas, refugiadas ou migrantes econômicos. Destaca-se que, em termos migratórios, são considerados migrantes documentados aqueles que atendem às exigências do país de destino, como por exemplo, visto de permanência, noutro aspecto, são considerados migrantes irregulares os indocumentados. Observe-se que, a migração econômica trata da mudança de país em razão de busca de melhores condições de vida do migrante e de sua família (OIM, 2009). O refúgio é instituto internacional que objetiva garantir o acolhimento em país de destino de migrante perseguido em seu país de residência. A perseguição no país de residência 1 Aversão à estrangeiros. Ellermann, 2020; Rzepnikowska, 2019. 2 Utilizando-se a ideia de soberania nacional, para fundamentar a imposição de restrições ao ingresso de migrantes, em desrespeito à imposição dos Tratados Internacionais, assinados em razão da ideia de soberania compartilhada, nos termos da definição dada por Habermas, 2001. 20 habitual deve estar fundada em motivos de raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou das suas opiniões políticas, a proteção conferida pelo estado de refugiado encontra respaldo no Estatuto dos Refugiados, art.º 1.º - A, n.º 2, de 1951, e alterações promovidas pelo Protocolo de 1967 (OIM, 2009). Desse modo, é possível considerar como migrantes todas as pessoas que se deslocam de suas residências habituais. Entretanto, só é possível considerar refugiado aquele que se enquadra nas razões atribuídas pelo Estatuto de Refugiados e seu Protocolo Facultativo. Para os signatários da Declaração de Cartagena de 1984, é possível ampliar a incidência da proteção conferida ao refúgio, de modo que [...] consideram-se refugiadas as pessoas que tenham fugido dos seus países porque a sua vida, segurança ou liberdade tenham sido ameaçadas pela violência generalizada, a agressão estrangeira, os conflitos internos, a violação maciça dos Direitos Humanos ou outras circunstâncias que tenham perturbado gravemente a ordem pública (DECLARAÇÃO DE CARTAGENA, 22 DE NOVEMBRO DE 1984). Com a adoção da Declaração de Cartagena de 1984 é possível ampliar a incidência da proteção conferida pelo refúgio, de forma que o país de acolhimento garanta os Direitos Humanos do refugiado e não possa devolvê-lo. Entretanto, a concessão de refúgio com base na ampliação promovida não tem sido a medida adotada. No mesmo sentido, a proteção aos Direitos Humanos cede em momentos de alto índice migratório. Tais circunstâncias trazem consigo o questionamento desta tese. A recepção de migrantes venezuelanos no Brasil, Colômbia, Equador e Peru foi feita com base nos Direitos Humanos? A hipótese inicial é de que, embora o discurso tenha se pautado em argumentos de proteção aos Direitos Humanos, na prática, as políticas adotadas em momentos de alto índice migratório foram baseadas em argumentos de segurança, vislumbrando-se a securitização da migração venezuelana. A seguir será apresentado minuciosamente o quadro teórico-conceitual que fundamenta a pesquisa desenvolvida com base na compreensão da Securitização e sua aplicabilidade às políticas migratórias. Antes de adentrar ao estudo da securitização é importante fundamentar algumas escolhas estatais em teorias que foram utilizadas também como referência para a securitização. Sob a perspectiva teórica das Relações Internacionais, responsáveis por formulação de conceitos e metodologias que tratam do funcionamento das relações no ambiente internacional, é que se situam as políticas migratórias. A escolha por políticas migratórias com controle mais rígido e, fortalecimento do argumento de segurança nacional são fundamentadas no Realismo, que preceitua tratar-se de interesse nacional a decisão sob quais indivíduos poderiam ingressar no território de determinado país (WEINER, 1985). Neste cenário realista existem duas 21 realidades, uma interna e outra internacional. Na realidade interna, o Estado é soberano para impor suas decisões e, noutro aspecto, na realidade internacional, haveria um ambiente anárquico, no qual o estado deve garantir o interesse nacional (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). A teoria Neorrealista, com origem no final da década de 70 do século passado, é responsável por manter a ideia de segurança nacional na atuação internacional. Tal teoria permite mudanças em políticas migratórias de acordo com os interesses estatais, se há interesse em estímulo do progresso econômico, por exemplo, há estímulo na política migratória (LEÃO, 2012; CULPI, 2019). Destaca-se que o aspecto principal da Teoria Realista para os estudos de segurança está fundado na relação entre o conceito de poder e o setor militar (BUZAN; HANSEN, 2009). Dos anos 90 aos anos 2000 foi notada certa mudança de paradigma nos estudos de segurança internacional, que refletiu as alterações na forma como a segurança internacional era pensada. Enquanto na teoria realista a segurança era atrelada a ideia de defesa ou guerra, sob nova perspectiva, a segurança deixou de lidar apenas com o setor militar, incorporando assuntos dos setores político, econômico, societal e ambiental, esta tendência ganhou repercussão com os estudos de Buzan, Waever e Wilde (1998) iniciados em razão da insatisfação com a Teoria Realista que não mais explicava os receios relacionados ao desenvolvimento da sociedade da época. Tais estudos se desenvolveram precipuamente no continente europeu. Na Dinamarca, na Universidade de Copenhague, foi criado, em 1985, o Copenhagen Peace Research Institute, responsável por apresentar novas perspectivas de segurança internacional, de forma que os assuntos relacionados à segurança foram significativamente ampliados. Em sua obra Security: A new framework for analysis, publicada em 1998, os autores esclarecem que os assuntos relacionados à segurança podem originar de cinco diferentes setores: militar, político, ambiental, econômico e societal. Os setores são ambientes de diferentes discursos onde os valores podem representar focos de lutas pelo poder (BUZAN, WAEVER, WILDE, 1998). 1.3 Securitização e o conceito de segurança A securitização trata de assuntos que podem ser incluídos na agenda de segurança de um país em razão da ameaça que oferecem. Segundo Waever (1995) existiu um movimento geral que objetivou ampliar a agenda de segurança. A abordagem deixou de ser pensada com foco estrito na segurança nacional, passando para o foco da segurança das pessoas (indivíduos ou coletividade). Observando-se que a segurança das pessoas pode ser afetada de diversas 22 maneiras, tais como: bem-estar econômico, preocupações com o meio ambiente, mudanças na identidade cultural e direitos políticos, assuntos que passaram a interessar mais à segurança pessoal do que questões militares propriamente ditas. Antes de abordar a ampliação no aspecto de segurança, Waever (1995) propõe estratégias para identificar o conceito de segurança, considerando que não é desejável que tudo seja inserido nesta pauta. Seguindo este ideal, Waever (1995) elabora alguns questionamentos, tais quais: Como, identificar o caráter específico das questões de segurança, diferenciando de outras questões que afligem o ser humano? Até qual ponto pode ser aplicado o método de segurança à agenda ampliada? Para Waever (1995) o significado de segurança deve ter como paradigma o conceito de segurança nacional. A especificidade do conceito de segurança estaria inserida no discurso e estratégias de defesa utilizadas. Nesse aspecto, Waever (1995, p. 4) afirma que [...] a partir da modalidade de tipos de interações em uma arena social específica, podemos repensar o conceito "segurança" de uma forma que seja verdadeira para a discussão clássica. Ao trabalhar de dentro da discussão clássica, podemos conceituar segurança nacional, ameaça e soberania, e mostrar como, no nível coletivo, eles assumem novas formas sob novas condições (WAEVER, 1995, p. 4, tradução da autora). Waever (1995) aborda a possiblidade da ampliação da agenda de segurança para tratar de assuntos que vão além dos temas militares, mantendo a qualidade na caracterização dos problemas de segurança, bastando, para isso, que exista a urgência (reivindicação pelo Estado do uso legítimo de meios extraordinários) e ameaça potencial à soberania (impedindo que o Estado cuide de outros assuntos). Para Waver (1995), a segurança não trata apenas de temas ligados à soberania (do Estado) e identidade (da nação). É um problema que pode ser considerado ainda de segurança quando “priva o Estado da capacidade de gerir por si mesmo, o que, (...) por sua vez, enfraquece a ordem política. Tal ameaça deve, portanto, ser enfrentada com a mobilização do máximo esforço” (WAEVER, 1995, p. 6, tradução da autora). O uso de meios extraordinários para conter as ameaças é justificado pelo Estado e suas elites, que podem, sempre, a depender das circunstâncias usar o discurso de securitização de um assunto para tentar controle sobre ele. Desse modo, algo é “um problema de segurança, quando as elites assim o declaram” (WAEVER, 1995, p. 6, tradução da autora). Para Waever (1995) não há como definir o que significa segurança de maneira objetiva, a definição de segurança sempre perpassa pelos sujeitos, nas palavras do autor, “a segurança é articulada apenas a partir de um lugar, em voz institucional, pelas elites” (WAEVER, 1995, p. 6, tradução da autora). Desse modo, é possível identificar duas faces do 23 conceito segurança: segurança nacional como segurança do Estado, fundada em sua soberania e, segurança social, como segurança da sociedade (nação) fundada em sua identidade. Assim, para proteger a sociedade da imigração, integração ou imperialismo haveria a possibilidade de se transformar tais assuntos em segurança social, securitizando-os. Dessa maneira, ao Estado competiria a proteção da soberania e à sociedade a proteção de sua identidade, não havendo simetria em tal situação, pois a sociedade pode usar do Estado para proteger seus interesses. Em um cenário de integração, segurança estatal e segurança social estariam cada vez mais em campos separados, cada um com um objeto referente (WAEVER, 1995). Em um cenário no qual a sociedade requer atuação do Estado para proteger seus interesses sob o manto da segurança, há menor integração, voltando-se à ideia de Estado-nação (WAEVER, 1995). Mas quem teria legitimidade para falar em nome da sociedade? Na prática, diferentemente do Estado, não há um órgão representativo, assim, quem usa o discurso em nome da sociedade são suas instituições e atores sociais. Há diferença entre as decisões políticas cotidianas e as decisões que tratam de segurança em nome da sociedade. Não há como identificar previamente quem tem legitimidade para pleitear a segurança em nome da sociedade. O que é possível, é analisar em retrospectiva, se houve legitimidade no discurso de um ator social (se a sociedade apoiou ou não o discurso). Por conseguinte, “(...) na maioria das vezes, não há representantes da sociedade geralmente legitimados e incontestados: existe o Estado ou não há nada” (WAEVER, 1995, p. 17, tradução da autora). Ocorre que considerar que a própria sociedade, por meio de seus atores, tem a legitimidade para discorrer acerca da segurança, pode ensejar ampliação significativa dos assuntos protegidos sob o seu manto, que permitiram adoção de medidas excepcionais. Nesse sentido, afirma Waever: É fácil vislumbrar efeitos potencialmente preocupantes se certas questões sociais, como a migração, forem securitizadas. Elizabeth Ferris ilustra como isso já aconteceu na Europa, com o resultado de que os enquadramentos anteriormente dominantes da imigração como uma questão humanitária ou de economia doméstica estão sendo excluídos por noções de ameaças à segurança (WAEVER, 1995, p. 17, tradução da autora). À vista disso que se desenvolve o tema desta tese, a utilização de um discurso que implica em proteção, sob o argumento de segurança social utilizado durante a Emergência de Saúde Pública Internacional com o objetivo de securitizar a migração venezuelana. 24 1.4 Teoria da Securitização A Escola de Copenhague propõe a ampliação da agenda de segurança a diferentes tipos de ameaças. Explorando as ameaças a objetos de referência e a securitização das ameaças (militares e não militares). A construção do conceito de segurança é algo muito mais específico do que qualquer ameaça ou problema. Considerar um problema como de segurança exige o cumprimento de requisitos bem específicos, capazes de diferenciar em relação ao funcionamento meramente político, os problemas devem ser encenados como uma ameaça existencial a um objeto de referência, em razão da gravidade da ameaça, o ator (securitizante) gera o endosso das medidas de urgência. Desse modo, o estudo aborda como os atores usam objetos de referência e dinâmicas de interação que operam no reino da segurança. A segurança internacional estaria enraizada nas tradições de política e poder e tem uma agenda distinta da segurança doméstica. A questão pode ser encontrada no tradicional entendimento político-militar de segurança. Nesse contexto, segurança é sobre sobrevivência. É quando um problema é apresentado como uma ameaça existencial para um objeto de referência designado (tradicionalmente, mas não necessariamente, o estado, incorporando governo, território e sociedade). A natureza especial das ameaças à segurança justifica o uso de medidas extraordinárias para lidar com elas. A invocação da segurança foi a chave para legitimar o uso da força, mas de forma mais geral abriu o caminho para o Estado mobilizar, ou tomar poderes especiais, para lidar com ameaças existenciais. Tradicionalmente, ao dizer “segurança”, um representante do estado declara uma condição de emergência, reivindicando assim o direito de usar quaisquer meios necessários para bloquear um desenvolvimento ameaçador (WÆVER, 1988, 1995b apud BUZAN, WAEVER; WILDE, 1997, p. 21, tradução da autora). A segurança é um movimento que transforma as decisões políticas para além das regras pré-estabelecidas (uma questão especial de política). A securitização é uma versão extrema da politização. Segundo Buzan, Waever e Wilde (1997), as questões podem variar de não politizadas, ou seja, não discutidas no cenário político (sociedade civil ou poderes constituídos), para questões politizadas (debatidas) ou questões securitizadas (que exigem a adoção de medidas excepcionais dado o caráter emergencial e especial do tema). A alocação das questões políticas em não politizadas, politizadas ou securitizadas tem variação de Estado para Estado e depende de circunstâncias temporais. A princípio qualquer questão pode variar de não politizada a securitizada, dependendo dos movimentos dos atores sociais e do Estado. O termo “ameaça existencial” possui nova feição que é capaz de redefinição do conceito de Segurança Internacional, de forma a integrar novos atores e questões à agenda de segurança. A “ameaça existencial” pode atingir uma população ou um grupo de indivíduos. Considerar algo como uma ameaça existencial não significa que realmente o seja, a ameaça é 25 considerada mais pela forma que o problema é colocado no cenário político. Identificar a securitização não exige a demonstração de indicadores objetivos, haja vista que a securitização é verificada na forma pela qual se identifica uma ameaça existencial com resultados políticos substanciais (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998). O estudo da securitização está atrelado ao discurso. Quando os atores conseguem utilizar do argumento da ameaça existencial e fazer com que o público tolere as violações de regras, que deveriam ser obedecidas, há um caso de securitização. O discurso que apresenta algo como objeto de securitização, por si só, não realiza a securitização, esta ocorre quando o público aceita ou tolera os argumentos (ameaça existencial, urgência, medidas extremas). Desse modo, se não existirem sinais de aceitação, afirma-se que não existe securitização, mas mero movimento de securitização. Na securitização, após a legitimação do discurso de ameaça existencial, o agente securitizador fundamenta a quebra em uma situação extrema, e argumenta que alguém não pode tratar alguém de forma normal, é exatamente a auto violação das regras que é considerada um ato de segurança. “Uma securitização bem-sucedida tem, portanto, três componentes (ou etapas); ameaças existenciais, ação de emergência e efeitos nas relações inter unidades por libertar-se das regras” (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998, p. 26, tradução da autora). O argumento que define a securitização é a necessidade de sobrevivência, dessa forma se a conduta excepcional não for adotada “será tarde demais e não existiremos para remediar nosso fracasso” (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998, p. 26, tradução da autora). A securitização não depende necessariamente do uso da palavra segurança, mas do discurso da ameaça existencial com necessidade de adoção de medidas extremas e aceitação ou tolerância de um público significativo. A securitização pode ser ad hoc ou institucionalizada (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998). Nesta pesquisa, foi identificada que securitização ad hc ocorreu no caso das migrações venezuelanas para países da América Latina no período da Pandemia de Covid-19. Identificou- se também, a securitização institucionalizada, com a criação de procedimentos burocráticos permanentes. Assim, afirma-se que a securitização não exige a presença ostensiva dos militares, mas pode ser vislumbrada com a criação de procedimentos burocráticos tendentes a criar dificuldades de ingresso e permanência nos países receptores. A securitização não trata de temas de política habitual, mas de temas que urgem medidas extremas, pois objetivam proteger bens de uma ameaça existencial. Ocorre que uma vez que a ameaça é identificada e controlada, a política a respeito desta ameaça deve integrar a agenda política habitual, ocorrendo a dessecuritização. Destaca-se que a securitização deve ser considerada medida de exceção. 26 A possibilidade de securitização e sua aceitação se trata sempre de uma escolha política. O caráter intersubjetivo da securitização é embasado também na construção social, desse modo, considerando que um objeto referente é algo que deva sobreviver, é possível que atores argumentem que referido objeto está sofrendo uma ameaça existencial, de forma que sejam justificáveis medidas excepcionais, tais argumentos podem ser seguidos ou tolerados. Assim, a securitização só será bem-sucedida se o discurso foi aceito ou tolerado pela audiência. O que permite a conclusão de que a segurança não depende nem do sujeito nem do objeto, mas das relações entre sujeitos (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998). O discurso de securitização sempre apresenta dois cenários futuros possíveis: o primeiro cenário trata da previsibilidade do que acontecerá com a ameaça se uma decisão excepcional for adotada; e o segundo, o que acontecerá com a ameaça se a decisão excepcional não for tomada. Não há como estabelecer critérios objetivos para a securitização, pois a escolha do que significa segurança é uma escolha qualitativa, em relação a quais assuntos há interesse em etiquetar como temas relacionados à segurança e assumir os efeitos dali decorrentes, ou seja, há sempre uma escolha política. O estudo das circunstâncias do processo de securitização é considerado relevante quando se analisa a perspectiva de que algumas condições são facilitadoras para o discurso de segurança. Em relação às condições internas identificadas no processo de securitização, é importante mencionar, que o discurso de securitização precisa incluir termos de segurança que caracterizem a ameaça, um ponto sem retorno e uma possível saída. Em relação às condições sociais externas, destaca-se que existem duas condições salutares: o ator securitizador deve estar em posição de autoridade (ainda que não se trate de autoridade oficial). A outra condição tem relação à ameaça (certos objetos são mais ameaçadores, por exemplo tanques). As condições facilitadoras podem ser resumidas em [...] condições sociais externas do discurso: autoridade e ameaças relacionadas, (...) condições facilitadoras (1) a demanda interna discurso deve seguir a gramática de segurança, (2) as condições sociais relativas à posição de autoridade para o ator securitizador – isto é, a relação entre autoridade e audiência e, portanto, a probabilidade da audiência aceitar as reivindicações em uma tentativa de securitização, e (3) características das supostas ameaças que facilitam ou impedem a securitização (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998, p. 33, tradução da autora). Os atores que agem com o propósito de securitização nem sempre fundamentam seu discurso no termo segurança. Buzan, Waever e Wilde (1998) defendem que o que precisa ser analisado, a fim de se identificar critérios políticos de ameaças existenciais, é o argumento de que a questão deve ter prioridade sobre todo o resto e, por isso, admite a violação das regras (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998). 27 Para que um discurso de securitização seja identificado há necessidade, portanto, da condição de autoridade do ator securitizador, acolhimento dos argumentos pela audiência e o resultado de tornar o tema assunto de segurança. Apesar de construírem um argumento que permitiria, a princípio, qualquer tema no discurso de segurança, a depender do ato de fala da autoridade e da audiência, que admita a inclusão do tema na agenda de segurança, não é qualquer assunto que deve ser securitizado. Na argumentação a respeito dos estudos de segurança, os autores aderem à corrente construtivista, por entenderem que a construção do que é segurança é social, e não teórica. Os autores apresentam três tipos de unidades relacionadas ao estudo de segurança que fazem parte do processo de securitização. As unidades são divididas em objetos de referência, atores securitizantes e atores funcionais. Os Objetos de Referência são bens que são vistos como existencialmente ameaçados e que têm uma reivindicação legítima de sobrevivência. Os Atores Securitizantes são sujeitos que securitizam questões declarando que um objeto de referência está existencialmente ameaçado. Os Atores Funcionais, por outro lado, são atores que influenciam nas decisões de um setor e podem contribuir ou dificultar a securitização de objetos de referência. Os atores securitizantes, geralmente, são os Estados que, em razão de uma decisão política identificam algum objeto de referência que está sendo ameaçado existencialmente, para justificar medidas excepcionais, fora da política normal. Enquanto os atores funcionais são sujeitos que podem contribuir para que a securitização ocorra (BUZAN; WAEVER; WILDE, 1998). Avalia-se que para a teoria da securitização a segurança não é plenamente subjetiva, pois existem limites no estabelecimento de assuntos de segurança, embora tais limites possam ser socialmente alterados. Nesse aspecto, a securitização depende da reação da sociedade quanto ao tema segurança. A sociedade pode reagir atuando, por exemplo, por intermédio de organizações da sociedade civil ou tentando levar o assunto para a esfera política e, potencialmente, esfera militar (manifestações populares, atos de violência). Identificamos que no caso das migrações, tal ameaça pode ser controlada em termos de legislação e controle de fronteiras. A atuação da mídia influencia muitas decisões, contribuindo ou não para a securitização, especialmente para definir “quem são as partes nos conflitos; sobre o que são os conflitos? Com sua atração por histórias simples, a mídia muitas vezes contará as notícias em termos de ‘nós’ e ‘eles’ ou, no caso de notícias estrangeiras, notícias de ‘sérvios’ e ‘muçulmanos’ (BUZAN, WAEVER, WILDE, 1998, p. 124, tradução da autora). 28 O que se notou com a abordagem da segurança proposta pela Teoria da Securitização foi que os argumentos de segurança são intersubjetivos e construídos com o tempo. Ainda, merece destaque na teoria o fato de que a inclusão de objetos referentes no âmbito da segurança depende da atuação de um legitimado, com acolhimento de seus argumentos pela audiência e adoção de medidas excepcionais justificadas pela necessidade de proteção ao objeto referente. Embora a Teoria da Securitização tenha dado destaque para a participação do público na definição da agenda de segurança, tal raciocínio é criticado por Balzacq (2019), que também aborda a securitização. Desse modo, é necessária a análise das teorias alternativas ao modelo de securitização proposto pela Escola de Copenhague. A teoria da securitização dá especial relevância para o ato de fala, ou seja, o discurso da autoridade, no sentindo de que a performance da autoridade é que inicia o processo de securitização. Entretanto, a aplicação empírica da teoria só seria possível quando identificada a ressonância dos atos de fala no público, que aceita ou, ao menos, tolera a violação das regras normais sob o argumento de segurança. Nesse aspecto, a teoria da securitização apresenta uma falha, ao definir que a securitização é subjetiva (pois depende da performance da autoridade) e, fundamentar que a securitização bem-sucedida seria intersubjetiva (pois depende da aceitação ou tolerância do público). Essa transição entre o ato de fala e aceitação pelo público não foi ajustada na teoria (BALZACQ, 2019). Destaca-se que a audiência não participa da decisão do que é uma ameaça, nesse caso, não haveria propriamente um público, mas expectadores, razão pela qual a adoção das medidas excepcionais e urgentes estão fora da política normal. Para que a teoria da securitização seja empiricamente comprovada, não é exigido que as medidas excepcionais sejam adotadas, mas que o discurso de ameaça existencial possua ressonância suficiente para que seja “possível legitimar medidas de emergência ou outros passos que não teriam sido possíveis se o discurso não tivesse forma de ameaças existenciais” (BALCZAQ, 2019, p. 12, tradução da autora). O primeiro aspecto problemático na teoria da securitização proposta pela Escola de Copenhague trata da definição de segurança como mero ato de fala. O discurso da autoridade que inclui determinado caso como pertencente à segurança e apresenta possíveis soluções como uma promessa, testa, até mesmo, a autoridade do soberano, no sentido de verificar se o Estado consegue conter a ameaça. Dessa forma, o ato de fala seria um movimento de segurança e não a constituição da segurança em si (BALZACQ, 2019). Ocorre que a habilidade da autoridade na utilização das palavras vai além de apenas criar uma abordagem com argumentos de segurança, pois nem sempre se refere às ameaças 29 propriamente ditas, mas é capaz de conferir “uma realidade social às questões de segurança ou estabelecer uma nova ordem de coisas” (BALZACQ, 2019, s/p, tradução da autora). Em teoria alternativa à securitização Balzacq (2019) trata da abordagem de governo como mecanismo de estudo de práticas discursivas e não discursivas, agregando um conjunto heterogêneo de elementos que permitem a securitização, tais como: discursos, instituições, decisões administrativas, decisões regulatórias e leis, a relação entre estes elementos permite que o engajamento humano e não humano interfira na securitização. Conforme a abordagem da Escola de Copenhague, é possível identificar que a adoção de medidas fora da política normal representa a despolitização, de outro modo, a dessecuritização, ou seja, a discussão de decisões políticas e inserção na pauta da política normal representa a politização (BALZACQ, 2019). Em outro aspecto, segundo as alternativas à teoria da securitização proposta por Balzacq (2019), a securitização não é externa à política, mas uma espécie de política do extraordinário (BALZACQ, 2019). 1.5 Securitização como mecanismo causal Para aplicação empírica da Teoria da Securitização e identificação de variáveis que contribuíram para a securitização foram utilizadas as perspectivas teóricas defendidas por Guzzini (2011) em seu artigo intitulado Securitization as a causal mechanism. Considerar algo como uma ameaça à segurança perpassa as óticas objetiva e subjetiva. A abordagem objetiva é insuficiente para demonstrar o que desencadeia a insegurança, e o aspecto subjetivo deixa margem para que tudo possa ser caracterizado como uma ameaça à segurança. Portanto, tais critérios não seriam adequados para a aplicação empírica da securitização (GUZZINI, 2011). A ideia inicial da securitização fundada no ato de fala, não explica a adoção de medidas excepcionais em razão de decisão fora da política normal, às vezes, o que acontece é o oposto, o aumento da discussão sobre a ameaça, o que a literatura aponta como politização (GUZZINI, 2011). Nesse sentido, a fim de identificar os aspectos que contribuem para a securitização é importante mencionar que a teoria da securitização não é uma forma padrão, na qual é possível encaixar várias situações e se obter a afirmação de que houve a securitização. Ao contrário, a aplicação empírica da teoria da securitização remete a várias indagações sobre quais circunstâncias contribuíram para que a adoção de normas fora da política normal fossem bem- sucedidas. Diante deste cenário, afirma-se qua a securitização é um processo (GUZZINI, 2011). 30 Nesse diapasão, se destaca a abordagem de Guzzini (2011) ao apresentar técnicas alternativas de estudo da securitização, de forma que a análise do processo de securitização seja realizada dentro de um contexto, cuja explicação utiliza do método de pesquisa Process Tracing. Para tanto, mereceu destaque o raciocínio de Guzzini (2011) no sentindo de que o ato de fala não se trata de um evento, mas de um processo. Dessa forma, a aplicação empírica da Teoria da Securitização só pode ser feita considerando-se os contextos específicos e analisando os mecanismos que podem explicar como algo aconteceu. Tal explicação só pode ser feita após o fato, não sendo possível que seja feita a previsão de mecanismos, haja vista que no contexto eles podem ou não ser ativados (GUZZINI, 2011). Sob tais perspectivas inicia-se a abordagem da aplicação empírica da Teoria da Securitização, estratégia hábil a nortear, posteriormente, os estudos sobre o processo de securitização das políticas migratórias para Venezuelanos no contexto da Pandemia de Covid- 19. Guzzini (2011) argumenta que a aplicação empírica da Teoria da Securitização deve considerar que a securitização age como mecanismo causal, cujo efeito é a adoção de medidas excepcionais, fora dos padrões habituais da política. Discorrendo a respeito da teoria da escola de Copenhague, Guzzini (2011) assegura que o caráter subjetivo da securitização não permite que qualquer assunto seja inserido na pauta de segurança. Desse modo, segurança não seria compreendida por sua substância, mas por seu desempenho: securitização. Assim sendo, o simples discurso de uma autoridade apontando para uma ameaça relacionada a um objeto de referência não é capaz de securitizá-lo. O êxito na securitização depende de a audiência acolher o discurso de ameaça que justifique a adoção de medidas excepcionais e urgentes (GUZZINI, 2011). Assim, a securitização precisa ser identificada como um processo que ao final pode levar às decisões excepcionais fora da política normal ou, dependendo do contexto, ampliar o debate político (politização). Compreender a securitização como um processo remete a diversas indagações, tais como: sob quais condições, com qual audiência, em relação a qual discurso a securitização é bem-sucedida? (GUZZINI, 2011). Destaque-se que o argumento da securitização como um processo. Na análise deste processo a securitização atua como mecanismo causal. Os mecanismos causais podem explicar o porquê algo aconteceu, sendo que tal explicação é posterior ao fato. Desse modo, não há como um mecanismo ser utilizado como fator de previsibilidade (GUZZINI, 2011). A segurança é resultado de uma construção social e, de forma que, a performance do ato de fala não é momentânea, mas depende de um processo. A aplicação empírica da Teoria 31 da Securitização depende de contextos culturais específicos, nos quais o discurso (ato de fala) performativo é utilizado (GUZZINI, 2011). A securitização bem-sucedida não depende de um conceito genérico de amigo- inimigo, mas na distinção eu-outro que atua nos discursos políticos, na opinião pública e na receptividade do público em geral a certos movimentos políticos. Não há como supor que tais situações sejam universais, de forma que a securitização previamente seja analisada como bem-sucedida (GUZZINI, 2011, p. 335, tradução da autora). Diante da abordagem de Guzzini (2011) propõe-se compreender a securitização como mecanismo causal dentro da técnica de pesquisa chamada Process Tracing, o que permite maior coerência da aplicação da Teoria da Securitização a situações reais. “A interpretação da securitização como mecanismo causal considera que a teoria possa ser aplicada em diversas situações, mas o seu conteúdo exato depende do contexto” (GUZZINI, 2011, p. 336, tradução da autora). A partir da estratégia defendida por Guzzini (2011) optamos por utilizar o Process Tracing compreendendo a securitização como mecanismo causal nos contextos de 2018 e 2020, com a Pandemia de Covid-19, tal estratégia será abordada no próximo capítulo. Antes de adentrar ao próximo capítulo é necessário abordar o terceiro conceito-chave desta tese: a construção da segurança. Posto que se a securitização é um processo, é necessário compreender como que se dá a construção da segurança no curso deste processo, quais são os fatores intervenientes e quais são os resultados: securitização ou politização. 1.6 Construção da segurança Neste tópico o objeto de estudo é o conceito de construção da segurança proposto por McDonald em 2008. Antes de abordar a construção da segurança como parte de um processo social, McDonald (2008) resume o conceito de securitização o qual trata-se de uma conduta externalizada por meio de atos de fala, produzidos, geralmente, por um líder político, que atribui uma questão específica como uma ameaça à sobrevivência. Tal comportamento é amparado no consentimento do eleitorado, que permite adoção de medidas excepcionais, ou seja, com a suspensão da “política normal” (McDONALD, 2008). O quadro de securitização é aplicável à situação das migrações internacionais, especialmente em democracias liberais. Segundo McDonald, desde 2001 é notável o tratamento de migrantes e requerentes de asilo com base em argumentos de soberania (do Estado) e identidade (da nação). É possível notar a adoção de estratégias de segurança na linguagem para caracterizar tais pessoas e, na adoção de respostas para proteção da ameaça que elas 32 representam, por meio de atuação militar e reforço no controle de fronteiras. Especialmente no caso das democracias liberais, signatárias de Tratados Internacionais que exigem a adoção de políticas migratórias sobre movimentos populacionais, a securitização pode ser identificada quanto à adoção de políticas restritivas, neste cenário fica evidente a dicotomia entre política e segurança. Para o autor, em seus comentários acerca da estrutura da securitização, os temas debatidos em “política normal” não carregam o status de segurança, no qual se discute medidas excepcionais, portanto, fora da “política normal”. Para McDonald, nestas circunstâncias fica evidente a escolha por caracterizar os migrantes como uma ameaça. Tal conduta é comunicada pelos líderes políticos e parece justificar as medidas de urgência e suspensão das regras normais (entendidas como debate político e obediência às normas internacionais) (McDONALD, 2008). McDonald aborda a securitização para além do ato de fala proposto pela Escola de Copenhague, ao refutar o argumento de que a securitização é construída por meio do simples ato de fala (inserida na teoria do ato de fala de Austin). A confiança no ato de fala como movimento que gera a securitização é perigosa, porque a linguagem é um meio pelo qual um significado é comunicado. Mas não é o único meio, sendo importante destacar a existência das imagens, práticas burocráticas e comportamentos. Segundo McDonald (2008), muitos autores ressaltaram a importância das imagens e representações visuais na construção da segurança. Identificar a importância das imagens no discurso de segurança implica em considerar a alternativa de outros atores securitizadores usando a justificativa do uso de normas emergenciais, o que não coaduna com a proposta de uso de medidas específicas de urgência, pois, estes outros autores (mídia, por exemplo) não são propensos ao engajamento em tais assuntos. Destaca-se que, embora se deva considerar a importância das imagens e da mídia, é possível vislumbrar que a mídia não atua como ator securitizante, mas contribui para o discurso de segurança de autoridades legitimadas. Desse modo, McDonald (2008) destaca que a prática da securitização não se baseia exclusivamente nos atos de fala, apontando para tal característica estreita da teoria da securitização. Citando Bigo (2002) e a Escola de Paris3, o autor defende que é possível identificar condutas de securitização adotadas por burocratas no controle de fronteiras. Para McDonald (2008), os autores da Teoria da Securitização não se preocuparam com a importância do contexto no processo de securitização, a divisão em setores e a diferença dos 3 Escola de estudos de segurança, que possui como principal expoente Didier Bigo, que agrega às questões de segurança conceitos operacionais das relações internacionais, da sociologia e criminologia. Tais estudos se baseiam nos processos de securitização abordados pela Escola de Copenhague bem como nas obras de Bordieu e Foucault (LANGWALD, 2021). 33 meios de securitização nos setores não é suficiente para demonstrar quão importante é o contexto de análise. Bigo (2002) argumenta que inserir questões relativas à imigração sob responsabilidade de profissionais da área de segurança, tais como a polícia e os militares trata da construção da migração como uma ameaça à segurança. Segundo os argumentos de McDonald (2008), a construção da segurança vai muito além da designação de uma ameaça, e este é o foco estreito da teoria da Escola de Copenhague. Assim, o autor sugere que a designação da segurança depende menos da forma da ameaça em si do que dos contextos particulares em que a segurança é construída. 1.7 Contextos de securitização Abordar a securitização segundo a concepção teórica da Escola de Copenhague significa analisar contextos em que decisões políticas são adotadas com fundamento na ameaça a bens protegidos, tal circunstância pode ser aceita ou acolhida pelo público, o que justifica o uso de medidas excepcionais. Entretanto, a securitização não ocorre nos mesmos moldes quanto à sua aplicação empírica. Se no contexto Pós-Guerra Fria a Escola de Copenhague investigava a ampliação da pauta de segurança, especialmente na Europa ocidental, a securitização em muitos aspectos contava com o apoio da audiência. Quando se relaciona a securitização às migrações para a União Europeia, é possível notar que muitos Estados criaram diversas barreiras sob o argumento da proteção à segurança, especialmente após o atentado terrorista no dia 15 de novembro de 2015 em Paris, que forneceu cobertura para emboscar inimigos da civilização, de forma a caracterizar que a crise de refugiados representava uma ameaça à segurança (DE GENOVA, 2016). A securitização das migrações no contexto americano também encontra respaldo na proteção à identidade da nação americana, de modo que não é interessante sob o aspecto político a migração em massa de mexicanos ou sul-americanos. As migrações foram ainda mais securitizadas pós atentados terroristas de 11 de setembro, o que justificou uma guerra ao terror, de forma a atribuir procedimentos ainda mais burocráticos para o ingresso de muçulmanos no país (MCDONALD, 2008). Nota-se que as realidades europeia e americana dificultam o ingresso de migrantes, por diversas barreiras (físicas e burocráticas), tal circunstância se difere em parte na América do Sul, haja vista que, em regra, o ingresso de migrantes, especialmente os latino-americanos não encontra grandes óbices. Entretanto, a garantia de acesso não ocorre em relação aos direitos 34 assegurados após o ingresso, de forma que em muitas situações, o cenário torna o migrante indocumentado, seja porque os documentos migratórios estão vencidos, seja porque o migrante não os tem. Assim, abordar a securitização da migração venezuelana para Brasil, Colômbia, Equador e Peru significa identificar medidas que tornaram mais difíceis o ingresso de venezuelanos nesses países, constituindo-se verdadeiras barreiras burocráticas, com base na segurança nacional, de forma que a imagem caricata que se tem dos migrantes venezuelanos é no sentido de que eles contribuem com o aumento da criminalidade, e disputarão as mesmas vagas (de trabalho, escola, assistência social) que os nacionais. 35 2 METODOLOGIA E TÉCNICA DA PESQUISA O conhecimento científico se distingue do conhecimento popular. Enquanto o conhecimento popular é transmitido de geração em geração, sem técnicas, geralmente por meio da oratória, o conhecimento científico é obtido de modo racional por meio de procedimentos científicos (MARCONI; LAKATOS, 2021). Nesse sentido, o que difere o conhecimento popular do conhecimento científico seria a forma de observação, enquanto o conhecimento popular não apresenta técnica de observação o conhecimento científico identifica técnicas que nortearão a busca de informações (MARCONI; LAKATOS, 2021). As pesquisas científicas devem ser fundadas em métodos que permitam ao pesquisador desenvolver a abordagem de maneira disciplinada com procedimentos formais para encontrar as informações necessárias. Nesse aspecto, a presente pesquisa utilizou o método dedutivo, por meio do qual a análise parte de premissas individuais a fim de se buscar a generalização provável por meio da comparação de fatos. A pesquisa fundamentada no método dedutivo que realiza a comparação é uma abordagem que mantém sua importância, especialmente, no âmbito das ciências sociais. Como referência no âmbito da utilização da comparação é possível citar os pontos de vista de Sartori (1994), como especialista em utilização de comparação aplicada à política. Além do método comparativo, foi utilizado o rastreamento de processos (Process Tracing) a fim de analisar a cadeia causal de eventos que podem ter contribuído para a securitização da migração venezuelana nos países objetos desta tese. 2.1 Process Tracing e os Mecanismos Causais Hipotéticos O Process Tracing foi escolhido considerando o objetivo geral da tese: rastrear os mecanismos causais que levaram ao resultado (adoção de normas migratórias excepcionais) nos estudos de caso selecionados: Brasil, Colômbia, Equador e Peru. O Process Tracing identifica o nexo de causalidade existente entre a sequência de fatos e o resultado analisado, de forma que o pesquisador possa descrever uma linha do tempo e, nesta sequência de fatos constatar quais foram os mecanismos que contribuíram para o resultado. Referido método apresenta três variantes que podem ser utilizadas dependendo dos objetivos da pesquisa. O método, pode, portanto, ser utilizado para criar, aplicar ou refinar teorias ou para explicar resultados (BEACH; PEDERSEN, 2016). Nesta tese foi escolhida a 36 variante de explicação de resultados, com a finalidade de obter maior compreensão acerca dos processos que produziram o resultado. Figura 1. Variantes do Process Tracing Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009. Para aqueles que estudam o Process Tracing a definição de mecanismos causais é fundamental, afinal, distinguem-se de variáveis intervenientes, assim sendo, os mecanismos causais são aqueles que uma vez analisados, contribuem para o resultado (FALLETI e LYNCH, 2009). Na relação de causa e efeito, o mecanismo causal é um elo sem o qual o efeito não seria produzido. Assim, identificada a causa, se excluído o elo e o efeito desaparecer estamos diante de um mecanismo causal, caso o efeito permaneça estamos diante de variáveis que podem contribuir para o resultado, mas que por si só não o produzem. O mecanismo causal que orienta a produção de determinado resultado depende do contexto em que ele é encontrado, dessa forma, o mesmo mecanismo operando em diferentes contextos pode levar a resultados diferentes (FALLETI e LYNCH, 2009). Assim, o modelo básico se A causa B deve ser analisado dentro de um contexto, que não gera causa ou efeito, mas afeta como os mecanismos interagem. Desse modo, o mesmo mecanismo causal dentro de contextos diferentes produzirá resultados diferentes. Figura 2. Mecanismo causal de resultados Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009. Causa Mecanismo Causal Efeito Se A Mecanismo causal Causa B Contexto 37 Para desenvolvimento deste raciocínio é importante definir o significado de contexto e mecanismo causal. Segundo Falleti e Lynch (2009) que se orientam pelas perspectivas teóricas de Pawson (2000) e Bunge (1997), o contexto pode ser definido em sentido amplo como os aspectos relevantes de um cenário, no qual o conjunto de condições leva a possibilidade de considerar de forma provável um resultado que ocorreu por meio de um mecanismo causal ou uma série de mecanismos. Enfatiza-se que a explicação causal exige que seja definido o mecanismo e o contexto que geraram o resultado objeto de estudo. Para tanto, é necessário na identificação do contexto analisar o período. É possível que contextos parecidos tenham resultados diferentes em razão do período (FALLETI; LYNCH, 2009). No caso do desenvolvimento desta tese o contexto é essencial para o resultado, pois quando identificada a causa como o fluxo migratório acentuado e o efeito como utilização de medidas excepcionais de controle de migração, o contexto de relativa segurança, não acatou o discurso “nós versus eles” de forma que não foram adotadas políticas extremas em 2015. A alteração no discurso com a utilização de argumentos de segurança foi identificada em 2018 dando início ao processo de securitização nos países objeto de estudo. O resultado da securitização durante o período reconhecido como Pandemia de Covid-19 levou a conclusão de que o mecanismo causal hipotético da securitização só ocorreu em razão do contexto da Pandemia de Covid-19. Figura 3. Cadeia causal 2015 Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009. Fluxo migratório acentuado 2015 Variável internveniente Não gerou a adoção de medidas excepcionais Nós X Eles 38 Figura 4. Cadeia causal 2018 Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009. Figura 5. Cadeia causal 2020 Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009. Aplicando os estudos de Beach e Pedersen (2016), foi selecionando o resultado da adoção de normas migratórias excepcionais para venezuelanos nos anos de 2020-2021, utilizando-se o diálogo entre quatro casos (Brasil, Colômbia, Equador e Peru) para medir a variação das variáveis intervenientes, foram identificadas as variáveis independentes constantes que interferiram no processo de tomada de decisão ao longo do tempo, para tanto foram resgatados fatos desde 2015, passando por 2018 até 2020-2021 a fim de se estudar as variáveis em termos de antes e depois. Nesse cenário, a identificação do ponto de partida foi fundamental para constatar as alterações no contexto que geraram resultados diferentes. Ressalta-se que para fins desta pesquisa, o ponto de partida de análise se deu no ano de 2015 com aumento da migração venezuelana, sendo o ponto de encerramento em 2021, com o a adoção de normas excepcionais. A escolha dos períodos se deu com base em momentos importantes para o ambiente contextual, situações relevantes para os efeitos detectados. A utilização da teoria é fundamental para observar os contextos que são mais salientes para as hipóteses que serão testadas, desse modo, a natureza do resultado determinará quais Fluxo migratório acentuado 2020 Securitização Adoção de medidas excepcionais Pandemia Fluxo migratório acentuado 2017 Variáveis intervenientes Adoção de medidas excepcionais em alguns países Nós X Eles Segurança nacional 39 eventos ou condições de fundo foram cruciais (FALLETI; LYNCH, 2009). São os elementos que indicam a mudança que demonstram a existência de um contexto diferente. A definição das variáveis, no caso em estudo, por exemplo, situação econômica, garantia de acesso à saúde e educação, fatores de estabilidade política que definem o efeito. Desse modo, se identificou como causa o fluxo de migração venezuelana no ano de 2015, que se acentuou em 2018 e se agravou em 2020, como mecanismos causais foram identificados os processos de securitização (as formas de recepção dos discursos nós versus eles) e como contexto crucial, foi constatado o Reconhecimento da Pandemia e, como efeitos a adoção de medidas legais excepcionais (Ver figuras 3, 4 e 5). Para justificar a adoção de medidas legais excepcionais, foi utilizada a teoria da Escola de Copenhague (BUZAN, WAEVER; WILDE, 1998), que demonstra como o discurso de segurança quando acolhido pelo público pode garantir a ampliação da agenda de segurança, significando a securitização de algumas políticas públicas, que passam a utilizar estratégias urgentes e excepcionais (fora da política normal). A securitização das políticas para migrantes venezuelanos é a tese desta pesquisa. Para detectar quais foram as circunstâncias que contribuíram para que o processo de securitização iniciasse, foram traçadas linhas do tempo entre a ampliação do fluxo de migração de venezuelanos para países da América do Sul e o enrijecimento das normas de recepção destes migrantes, que ocorreu de maneiras diferentes nos períodos estudados. A partir daí foram verificadas as cadeias causais. 40 Figura 6. Process Tracing aplicável aos fluxos migratórios em 2018 e 2020, com identificação dos mecanismos causais hipotéticos e seus efeitos Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009; BEACH; PEDERSON, 2016. Na figura 6, foram identificados os diferentes mecanismos causais nos fluxos migratórios dos anos de 2018 e 2020. Destacando-se que a construção da migração venezuelana como argumento de segurança ocorreu de forma gradual. Em 2018, devido ao intenso fluxo migratório, foram adotadas algumas restrições ao ingresso de venezuelanos. Fluxo migratório acentuado 2018 Adoção de algumas medidas restritivas Fluxo migratório acentuado 2020 Adoção de medidas excepcionais Mecanismo Causal: SEGURANÇA NACIONAL Mecanismo Causal: SECURITIZAÇÃO 41 Figura 7: Process Tracing aplicável ao fluxo migratório em 2020 no contexto da Pandemia de Covid-19, com identificação dos mecanismos causais hipotéticos e seus efeitos Fonte: Elaboração própria a partir de FALLETI; LYNCH, 2009; BEACH; PEDERSON, 2016. Mecanismo Causal B: SEGURANÇA Mecanismo Causal D: NORMAS TEMPORÁRIAS CONTEXTO: PANDEMIA DE COVID-19 CAUSA A: Risco de contaminação EFEITO A: Fechamento das fronteiras CAUSA B: Controle de acesso ao país EFEITO B: Uso das Forças Armadas CAUSA C: Discurso na mídia EFEITO C: Atos de xenofocia CAUSA D: Crise econômica EFEITO D: Negativa de acesso a direitos Mecanismo causal A: DISCURSO NÓS VERSUS ELES Mecanismo causal C: REPERCUSSÕES NA MÍDIA 42 Na figura 7 analisando os mecanismos causais que justificaram a adoção de políticas excepcionais, nota-se que a securitização só foi possível em razão do contexto, o que permitiu a adoção de políticas fora da política normal, haja vista a receptividade do público às decisões de contenção da circulação do coronavírus. 43 Nesta pesquisa a utilização do Process Tracing foi fundamental para nortear as decisões sobre quais aspectos provavelmente seriam relevantes para a explicação causal, por meio do método foi possível abordar os contextos relevantes que deram validade aos argumentos, bem como comparar contextos entre os países objeto da tese (FALLETI; LYNCH, 2009). 2.2 Método comparativo A fim de analisar os contextos de securitização das políticas migratórias para venezuelanos na América do Sul oi escolhido o método comparativo, identificando, portanto, semelhanças e discordâncias no processo de securitização entre países da América do Sul, utilizando-se como corte metodológico a análise comparativa entre Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Para tanto, é necessária uma breve abordagem do método comparativo. Para análise do método comparativo é essencial retomar os argumentos de John Stuart Mill (1984). O autor propôs padrões essenciais para o desenvolvimento de um raciocínio lógico e científico. Ele abordou estratégias básicas de pesquisa em relação à análise de certos fenômenos, de modo que a escolha entre as circunstâncias que precedem ou seguem o fenômeno é relacionada à uma lei invariável: a comparação de casos em que o fenômeno ocorre e a comparação de casos em que o fenômeno não ocorre (MILL, 1984). Discorrendo acerca do método da concordância e do método da diferença, Mill (1984) definiu que ambos são métodos de eliminação. A utilização do método da diferença deve ser feita em casos nos quais os testes artificiais são possíveis, como por exemplo, pesquisas na área das ciências da saúde. Em outra circunstância, o método da concordância deve ser utilizado quando os testes não são possíveis, observa-se ser o caso de muitas pesquisas em ciências sociais. Mill (1984) apresenta, ainda, o método das variações concomitantes, recomendando-se a sua aplicabilidade quando foi impossível a eliminação ou isolamento de determinado fenômeno (natural ou permanente). Nesta situação, deve ser observada a variação da causa em relação ao resultado. Destaca-se o argumento de que, se um fenômeno possui determinada variação, todas as vezes que ocorre outro fenômeno que varia da mesma forma, haveria uma relação de causa e efeito entre eles (MILL, 1984). Estudos sobre o método comparativo são realizados também por Durkheim (2004). O sociólogo afirma que, não havendo instrumento para provar que um fenômeno é causa do outro, resta a comparação entre os casos para averiguação das situações em que estão simultaneamente presentes ou ausentes. De forma que seja possível identificar situações de que um fenômeno 44 dependa do outro nas diferentes combinações. Se os fenômenos podem ser produzidos sob a vista do observador, o método seria de experimentação, entretanto, caso a experimentação direta não seja possível, deve-se lançar mão da experimentação indireta, ou seja, o método comparativo. Compreende-se que para a aplicação do método comparativo, devem ser selecionados casos que se relacionem entre si, com circunstâncias peculiares de causa e efeito. Para fins desta pesquisa selecionamos o Brasil, a Colômbia, o Equador e o Peru, que, por circunstâncias geográficas, receberam a maior parte do fluxo dos migrantes venezuelanos na América do Sul. Em sua abordagem acerca do método de estudo de caso, Lijphart (1971) esclarece que o método objetiva a “explicação científica que consiste em dois elementos básicos (1) o estabelecimento de relações empíricas gerais entre duas ou mais variáveis enquanto (2) todas as outras variáveis são controladas, isto é, mantidas constantes” (LIIPHART, 1971, p. 683). Aplicando o raciocínio do método comparativo, Sartori (1994) ensina que a comparação deve ser utilizada como ferramenta hábil a verificar o falso, se uma generalização (regular) se corresponde com os casos em que se aplica. Para ele, comparar significa confrontar uma coisa com outra, mas sem objetivar ao controle. Comparar significa assemelhar e diferenciar os limites. Para justificar a comparação é necessário verificar que os objetos do método comparativo sejam similares em parte e diferentes em outra parte. Segundo Sartori (1994) para que de fato exista a utilização do método comparativo, é preciso comparar alguma coisa com outra e em qual aspecto, é preciso desenvolver a estratégia que será usada para comparar, com atenção às diferenças em contextos que são similares e em similitudes em contextos que são diferentes. Assim, fora comparados os processos de securitização das políticas para migrantes venezuelanos ocorridos no Brasil, Colômbia, Equador e Peru, no contexto da Pandemia de Covid-19. Portanto, aplicando a técnica cross- country. Para Morlino (1994), a escolha dos casos se relaciona com as situações comuns ou diferentes em cada conjunto de casos escolhidos. Há uma dimensão sincrônica quando um mesmo caso é estudado em momentos diferentes e sucessivos, e uma dimensão diacrônica quando casos que são diferentes são estudados no mesmo momento. Notamos que, embora o processo de securitização tenha ocorrido nos países objeto de estudo, é notável que as variáveis possuíram importância diferente no resultado. Bartolini (1994) argumenta que a utilização do método comparativo no estudo da ciência política tem como primordial objetivo a identificação de regularidades nos acontecimentos, de forma que seja possível a elaboração de proposições teórico-empíricas, nas 45 quais se admite a contestação e a explicação das regularidades. O contexto da Pandemia de Covid-19 contribuiu significativamente para a adoção de normas excepcionais, nesse aspecto apresentando regularidade comum nos países em estudo. Panebianco (1994) afirma que a comparação permite individualizar um conjunto de condições causais, usando generalizações, e reconstruindo as inter-relações. As explicações individuais aliadas à identificação do mecanismo causal que origina o fenômeno específico objeto de estudo, permitem o controle das hipóteses generalizantes. No desenvolvimento desta tese optou-se pela utilização do método dedutivo com aplicação do método comparativo. Para tanto, foram identificados os países responsáveis pela acolhida de parte o fluxo de migrantes venezuelanos, selecionando-se como objeto de pesquisa a política migratória adotada no Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Utilizando das concepções de Sartori (1994), foi necessário identificar o que comparar nestes países a fim de verificar a incidência da teoria da securitização nas políticas migratórias para venezuelanos no contexto da Emergência de Saúde Pública Internacional gerado pela Pandemia de Covid-19. Como objeto de comparação foram selecionados cinco aspectos: normas de proteção aos direitos dos migrantes; normas que determinaram o fechamento das fronteiras e o controle fronteiriço feito pelas Forças Armadas; o discurso político na mídia; atos de xenofobia e acesso à direitos como documentação, saúde e incentivos financeiros. Após a definição dos aspectos que seriam comparados, a pesquisa prosseguiu mapeando as condutas estatais antes e depois da intensificação do fluxo migratório, para, posteriormente, realizar a comparação dos processos de securitização ocorridos entre os países objeto da tese. 46 3 CRISE MIGRATÓRIA VENEZUELANA Antes de adentrar aos estudos da migração venezuelana é importante comp