UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO’ (UNESP) FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES, COMUNICAÇÃO E DESIGN (FAAC) PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO MICHEL FRANCISCO AMÂNCIO AÇÃO CONTRA-HEGEMÔNICA EM REDE: COMUNICADORES MARXISTAS NO BRASIL BAURU (SP) 2022 MICHEL FRANCISCO AMÂNCIO AÇÃO CONTRA-HEGEMÔNICA EM REDE: COMUNICADORES MARXISTAS NO BRASIL Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Comunicação, sob a orientação da Professor Doutor Maximiliano Martin Vicente. BAURU (SP) 2022 Programa de Pós-graduação em Comunicação Área de Concentração: Comunicação midiática Linha de Pesquisa: Processos Midiáticos e Práticas socioculturais Banca Examinadora: Prof. Dr. Maximiliano Martin Vicente (presidente e orientador) Instituição: UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Prof. Dr. Carlo José Napolitano Instituição: UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Prof. Dr. Rafael Bellan Rodrigues de Souza Instituição: UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO AGRADECIMENTOS Ao longo de minha trajetória como pesquisador, iniciada em 2015, foram raros os momentos em que não me senti desconfortável no ambiente acadêmico. Tenho certeza de que esse sentimento é bastante generalizado, especialmente entre aqueles que frequentam uma espécie de limbo profissional entre as seguintes opções: exercer um trabalho altamente especializado e se sentir insuficiente por não ter tido o mesmo padrão de consumo e formação básica que os seus colegas acadêmicos; ou exercer trabalhos estigmatizados como “não- especializados”, com o sentimento de que está ocupando o lugar de pessoas que supostamente precisariam mais e que não tiveram as mesmas oportunidades de ensino que tive. Não cheguei sozinho a essas considerações. Fui apresentado a esse dilema há pouco tempo, através de um texto curto do teórico inglês Mark Fisher, intitulado sugestivamente como “Não prestar para nada”, em que relata sua experiência acadêmica e profissional lidando com a depressão – fenômeno que só pode ser entendido coletivamente. A partir desse escrito, minha relação com a academia melhorou significativamente: a autocobrança foi ajustada a parâmetros mais realistas; o sofrimento oriundo de violências simbólicas institucionais foi politizado; e o mal-estar permaneceu, mas de uma forma menos incapacitante. Espero que eu não seja mal interpretado por agradecer, antes de qualquer pessoa próxima, a um autor inglês falecido e seu excelente artigo sobre depressão e capitalismo. Mas foi só a partir da compreensão de que meu sofrimento não é privativo que pude, conscientemente, buscar o fortalecimento de vínculos afetivos com pessoas fundamentais nesses últimos anos e meses. As relações, ainda que permaneçam os inúmeros desafios e demandas, tornaram-se parte essencial de uma sensação de leveza politizada – termo que acabei de inventar sem qualquer critério, mas que não compromete o padrão científico que você verá nas próximas páginas. Por falar em leveza e politização, gostaria de agradecer ao meu orientador, professor Max, que personifica essas características. Agradeço não só pela orientação neste trabalho de pesquisa, mas pela presença insubstituível em minha formação crítica e acadêmica, desde as aulas na graduação, passando por iniciação científica e mestrado. Por fim, agradeço aos comunicadores marxistas e suas assessorias, que gentilmente nos atenderam e concederam as entrevistas que compõem esta pesquisa. “Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo. Esse tempo pertence a meus afetos. É para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis. Isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’. As bibliotecas, os livros, são uma grande necessidade de nossa vida humanizada”. Antonio Candido AMÂNCIO, Michel Francisco. Ação contra-hegemônica em rede: comunicadores marxistas no Brasil. 2022. 126p. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Programa de Pós- Graduação em Comunicação, Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2022. RESUMO Esta pesquisa qualitativa propõe uma análise exploratória sobre o ecossistema de comunicadores marxistas brasileiros que atuam nas redes sociais digitais, a partir do questionamento sobre como se dá esse trabalho de comunicação política. Como base teórica, recorre-se às definições de contra-hegemonia e mídia radical na disputa pela comunicação; ao lugar das identidades midiatizadas no trabalho de comunicação marxista; às possibilidades na articulação política em rede; e à categorização da ação empreendida pelos comunicadores. Como objetivo geral, este trabalho busca investigar, em perspectiva dialética, a expansão de comunicadores marxistas no Brasil no contexto sócio-histórico recente, como parte de um processo mais amplo de organização política radicalizada, a fim de contribuir com os estudos sobre comunicação contra-hegemônica. A metodologia empreendida recorre à hermenêutica de profundidade de John. B. Thompson (2011), aliada à técnica de entrevistas em profundidade realizadas com quatro comunicadores marxistas selecionados: Danilo Lima Carreiro, Gustavo Nassar Gaiofato, João Rafael Chió Serra Carvalho e Jones Manoel da Silva. A partir das entrevistas realizadas, apresentam-se como resultados de pesquisa apontamentos que passam pela problemática do financiamento do trabalho de comunicação marxista nas redes e suas limitações em termos de autonomia financeira. Também é apresentada na seção o tópico da periodicidade e frequência do trabalho comunicativo, em que a necessidade de adaptação constante às exigências das plataformas impacta no objetivo de se fazer presente em diversos espaços digitais, demandando uma maior otimização do trabalho desempenhado. Os resultados ainda trazem os aspectos de uma diversidade temática almejada pelos comunicadores, como forma de dinamizar o conteúdo político pautado, e a relação entre esses atores e suas audiências, partindo de diferentes modos de identificação de públicos a depender dos objetivos do comunicador e da plataforma utilizada. As considerações finais exploram a recorrência dos conflitos e rupturas entre comunicadores marxistas, bem como a transformação do perfil do ecossistema de comunicadores ao longo do tempo por meio de novas linguagens, domínios técnicos e capacidades organizativas do trabalho de comunicação nas redes sociais digitais. Palavras-chave: comunicadores marxistas; contra-hegemonia; comunicação política; redes sociais. AMÂNCIO, Michel Francisco. Counter-hegemonic network action: Marxist communicators in Brazil. 2022. 126p. Dissertation (Masters in Communication). Postgraduate Program in Communication, Faculty of Architecture, Arts, Communication and Design, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2022. ABSTRACT This qualitative research proposes an exploratory analysis of the ecosystem of Brazilian Marxist communicators who work in digital social networks, based on the questioning of how this work of political communication takes place. As a theoretical basis, we resort to the definitions of counter-hegemony and radical media in the dispute for communication; the place of mediatized identities in Marxist communication work; to the possibilities of political articulation in network; and to the categorization of the action undertaken by communicators. As a general objective, this work seeks to investigate, in a dialectical perspective, the expansion of Marxist communicators in Brazil in the recent socio-historical context, as part of a broader process of radicalized political organization, in order to contribute to studies on counter-communication. The methodology undertaken is the depth hermeneutics by John B. Thompson (2011), combined with the technique of in-depth interviews carried out with four selected Marxist communicators: Danilo Lima Carreiro, Gustavo Nassar Gaiofato, João Rafael Chió Serra Carvalho and Jones Manoel da Silva. Based on the interviews carried out, the research results presented notes that go through the problem of financing of the work of Marxist communication in the networks and its limitations in terms of financial autonomy. The topic of periodicity and frequency of communicative work is also presented in the section, in which the need to constantly adapt to the demands of the platforms impacts the objective of being present in various digital spaces, requiring greater optimization of the work performed. The results also bring aspects of thematic diversity sought by communicators, as a way of dynamizing the political content, and the relationship between these actors and their audiences, starting from different ways of identifying audiences depending on the communicator's objectives and the platform used. The final considerations explore the recurrence of conflicts and ruptures between Marxist communicators, as well as the transformation of the profile of the ecosystem of communicators over time through new languages, technical domains and organizational capacities of communication work in digital social networks. Keywords: Marxist communicators; counter-hegemony; political communication; social media. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 11 2 PERCURSO METODOLÓGICO ......................................................................................... 17 3 HEGEMONIA E CONTRA-HEGEMONIA NA DISPUTA PELA COMUNICAÇÃO ...... 24 3.1 Diferentes formas de comunicação contra-hegemônica .................................................. 30 3.2 Midiativismo enquanto ação contra-hegemônica ............................................................ 35 3.3 Comunicadores como produtores .................................................................................... 38 4 PARÂMETROS HISTÓRICOS DA INTELECTUALIDADE MARXISTA ...................... 45 4.1 Marx e a imprensa ........................................................................................................... 50 4.2 A comunicação leninista .................................................................................................. 51 4.3 Gramsci e a imprensa ....................................................................................................... 54 4.4 Intelectuais na história da comunicação marxista brasileira ............................................ 56 5 COLETIVO EM REDE DE COMUNICADORES MARXISTAS NO BRASIL: SÍNTESES ENTRE AUTONOMISMO E CENTRALISMO ..................................................................... 63 5.1 Comunicadores marxistas como coletivo em rede .......................................................... 64 5.2 Disputas em torno dos sentidos de ativismo e militância na sociabilidade neoliberal .... 67 5.3 Subjetivações militante e ativista e continuidade histórica entre horizontalismos .......... 70 5.4 Sínteses entre autonomismo neo-anarquista e centralismo marxista ............................... 73 5.5 Coletivo em rede de comunicadores marxistas e comunicação popular ......................... 75 6 COMUNICAÇÃO MARXISTA EM MIDIATIZAÇÃO: O LUGAR DAS REPRESENTAÇÕES IDENTITÁRIAS .................................................................................. 79 6.1 Centralidade da cultura e as identidades como formação cultural .................................. 79 6.2 Questões identitárias no coletivo em rede de comunicadores marxistas ......................... 82 6.3 Camaradagem como identidade coletiva marxista .......................................................... 87 6.4 Perspectiva crítica para a midiatização ............................................................................ 90 7 DISCUSSÃO DE RESULTADOS ........................................................................................ 98 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 115 9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................ 120 11 1 INTRODUÇÃO Ainda que os movimentos anticapitalistas não tenham desaparecido após a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o consequente descrédito da ideologia socialista, entende-se neste trabalho que as consequências do período pós Guerra Fria afetaram a mobilização de grande parte da militância de esquerda radical – e em especial a marxista. Não por acaso, surgem nos anos 90 as teses sobre o suposto “fim da história”, bem representadas no pensamento de Francis Fukuyama, que apontavam a democracia liberal como o único modelo possível para as sociedades num momento de apaziguamento da disputa ideológica: “Durante mais de vinte anos, ficou na moda falar de pensamento único como complemento da ideia do ‘Fim da História’, do estadunidense Francis Fukuyama” (GIANNOTTI, 2014, p. 114). Considerando as três décadas que separam o fim da Guerra Fria da atual conjuntura e a mudança geracional – a exemplo de jovens que não presenciaram a derrocada do socialismo real –, é evidente o processo de reorganização e renovação de quadros da esquerda revolucionária, incluindo a marxista radical, no Brasil. Ainda que esse desenvolvimento seja incipiente, não-linear e composto por atores e organizações coletivas de diversos matizes ideológicos marxistas, não se pode negar sua existência e suas distinções em relação à esquerda radical de décadas atrás. É no atual contexto de radicalização e instabilidade política, social e econômica que se abrem espaços para a crítica radical da sociabilidade e do modo de produção capitalista. O objeto deste trabalho, que denominamos coletivo em rede de comunicadores marxistas, representa uma parcela bastante pequena dessa resposta à crise sistêmica do capital no Brasil. No entanto, mesmo que em escala reduzida, esse coletivo em rede de comunicadores marxistas – ou agitadores e propagandistas, em termos leninistas – na internet cresce consideravelmente nos últimos cinco anos, em aspectos quantitativos e qualitativos, e em ritmo e quantidade suficientes para a execução de estudos sobre os atores que a constituem. A proposta deste estudo, que também representa a elaboração do problema de pesquisa, foi compreender como se dá o trabalho de comunicação política de comunicadores marxistas brasileiros em redes sociais digitais. O objetivo geral envolveu investigar em perspectiva dialética a expansão de comunicadores marxistas no Brasil no contexto sócio-histórico recente, como parte de um processo mais amplo de organização política radicalizada, a fim de contribuir com os estudos sobre comunicação contra-hegemônica. Os objetivos específicos pretendidos nesta pesquisa foram: a) compreender o lugar das formações identitárias a comunicadores marxistas, considerando suas práticas culturais nas 12 redes; b) discutir o caráter organizativo do trabalho de comunicação marxista nas redes; c) interpretar e categorizar as falas dos comunicadores marxistas entrevistados de acordo com o trabalho de comunicação contra-hegemônica que desempenham; e d) avaliar as potencialidades e debilidades da articulação comunicativa marxista em rede, bem como os possíveis usos e apropriações criativas e tecnológicas, segundo os atores sociais envolvidos e fundamentação teórica. A parcela do coletivo em rede de comunicadores marxistas brasileiros investigada nesta pesquisa é composta por indivíduos que produzem conteúdo político em redes sociais digitais e que têm em comum o trabalho de popularização da teoria marxista e a militância organizada coletivamente. Essas pessoas representam personalidades digitais atravessadas por diferentes identidades políticas marxistas, diferenças étnicas e de orientações sexuais. Vale destacar que iniciativas radicalmente à esquerda que se apropriam de tecnologias da informação também surgiram recentemente em outras partes do mundo, e ocasionalmente dialogam com os comunicadores marxistas brasileiros. Alguns exemplos são a comunicadora vietnamita e marxista, Luna Oi; a comunicadora radical de esquerda estadunidense Natalie Wynn; o comunicador anarco-comunista Emerican Johnson; além de iniciativas coletivas de comunicação radical como a plataforma estadunidense de streaming Means TV1, o coletivo de mídia anti-imperialista Anticonquista2 e a plataforma de mídia contra-hegemônica Redfish3. Outro fator de relevância desta pesquisa se deve ao fato desses comunicadores representarem diferentes vertentes do marxismo – tais como leninismo, ecossocialismo, trotskismo, maoísmo – articulando diferentes formas de combate a opressões e à exploração capitalista. Apesar das divergências, os atores possuem relativa unidade teórica em torno do 1 De acordo com a apresentação institucional da plataforma, e com tradução nossa: “Means TV é o primeiro serviço de streaming pós-capitalista de propriedade dos trabalhadores do mundo. Means TV tem uma biblioteca de filmes, documentários e programas com nova programação adicionada o tempo todo. Também temos programas semanais ao vivo cobrindo notícias, a classe trabalhadora, jogos e esportes”. 2 Sob tradução nossa, a plataforma é apresentada institucionalmente da seguinte forma: “ANTICONQUISTA é um coletivo de mídia anti-imperialista. Nosso conteúdo é produzido pela e para a diáspora latino-americana e caribenha. Estamos dedicados a expor e combater o sistema capitalista-imperialista, a causa raiz de nosso deslocamento. Fornecemos análises dos eventos atuais e da história da região a partir de uma perspectiva comunista, anti-imperialista, terceiro-mundista, pró-indígenas, pró-negros, pró-LGBTQ+, feminista proletária e pan-latino-americana e caribenha. Produzimos artigos, livros, podcasts, vídeos e memes nas redes sociais. Em nossa pátria, damos apoio financeiro a movimentos revolucionários que resistem à opressão capitalista- imperialista”. 3 Tradução nossa da apresentação institucional do serviço: “Redfish é uma plataforma de criação de conteúdo digital multi-premiada especializada na produção de documentários curtos e aprofundados em colaboração com pessoas envolvidas em lutas populares em todo o mundo para construir uma alternativa ao sistema capitalista dominante. Nossos parceiros em campo co-criam suas histórias, em suas próprias palavras, com o apoio de nossa equipe principal de jornalistas profissionais, produtores, cinegrafistas, diretores, editores e designers gráficos”. 13 marxismo e costumam apoiar uns aos outros em atividades de divulgação. Considera-se aqui que a multiplicidade de vertentes marxistas é, em nosso trabalho, um terreno fértil para investigação no campo da comunicação radical. Além dos motivos já citados, também se considera um fator de relevância a presença cada vez mais constante dos comunicadores marxistas em veículos da mídia hegemônica. A partir de buscas nas ferramentas on-line disponibilizadas pelos meios de comunicação e no buscador de notícias do Google, encontram-se referências a alguns dos comunicadores marxistas, como Sabrina Fernandes e Jones Manoel, em textos jornalísticos de diferentes gêneros e formatos nos portais da Folha de São Paulo, Revista Exame, Revista Veja, Revista Época, O Globo, Revista Piauí, UOL, Zero Hora e El País. Em levantamento previamente realizado foram contabilizados não apenas os textos onde se entrevistou algum comunicador marxista, mas também aqueles onde eles foram referenciados de alguma forma. Essa listagem foi realizada durante o mês de outubro de 2020 e não se estabeleceu recorte de período para as publicações – a primeira referência em veículo de mídia hegemônica data de fevereiro de 2019, na Revista Época, em reportagem sobre a comunicadora marxista e ecossocialista Sabrina Fernandes. Aliás, importante destacar que, durante o levantamento percebeu-se uma relação direta entre a audiência dos canais (em número de inscritos e total de visualizações) e a frequência com que seus donos aparecem nos meios de comunicação hegemônicos4. O que se notou antes de análises mais detalhadas e ainda fez justificar este trabalho é o crescente enraizamento desses influenciadores no campo midiático brasileiro mais amplo. Na medida em que ganham espaço, os comunicadores marxistas interagem com comunicadores e personalidades da cultura, política ou entretenimento nas redes sociais digitais, em um trabalho, planejado ou não, de inserção orgânica e estímulo à capilaridade do marxismo brasileiro no âmbito midiático. Além da presença na mídia hegemônica, são diversos exemplos de diálogos – conflitivos ou não – entre os comunicadores marxistas e referências dos meios progressista e liberal em redes sociais digitais, o que significa uma presença constante em debates, ainda que muitas vezes limitados à virtualidade. Diante desse cenário, a articulação teórica entre comunicação e a ideia de ação contra- hegemônica se fez inevitável e estrutura este trabalho do início ao fim. A partir dessa 4 Sabrina Fernandes, Jones Manoel, Rita Von Hunty e Thiago Torres, por exemplo, são comunicadores que apareceram mais vezes em meios hegemônicos, enquanto seus canais representam mais de 80% das visualizações de todos os canais mapeados como parte de um coletivo em rede de comunicadores. Dados referentes a outubro de 2020, sujeitos à alteração. 14 consciência da centralidade da comunicação contra-hegemônica, pudemos elaborar a dissertação com desmembramentos importantes para os outros capítulos e que não foram escolhidos por acaso, estando em consonância com a proposta metodológica da hermenêutica de profundidade de Thompson (2011). Na seção seguinte a esta introdução, explicamos detalhadamente a metodologia adotada e a forma com que avançamos à discussão dos resultados e considerações finais de nossa pesquisa. Como realização metodológica inicial, citamos o estágio preliminar da hermenêutica de profundidade, a interpretação da doxa, cuja definição é ser “uma interpretação das opiniões, crenças e compreensões que são sustentadas pelas pessoas que constituem o mundo social” (THOMPSON, 2011, p. 364). Esta etapa foi executada a partir do acompanhamento da produção de conteúdo realizada pelos atores que compõem o coletivo em rede de comunicadores marxistas. Essa produção se dá em distintas plataformas, e nossa observação se limitou especialmente à produção de conteúdo audiovisual no YouTube. Em dois capítulos teóricos – “Coletivo em rede de comunicadores marxistas no Brasil: sínteses entre autonomismo e centralismo” e “Comunicação marxista em midiatização: o lugar das representações identitárias” –, há apontamentos e discussões que só foram possíveis a partir da interpretação da forma simbólica, que favoreceu a apreensão sobre o cotidiano da forma simbólica que constitui o objeto de estudo, promovendo a desconstrução de seus valores, crenças e associações ideológicas. Já como parte principal da execução metodológica, e compreendendo a análise formal do procedimento investigativo da hermenêutica de profundidade, tem-se as entrevistas em profundidade realizadas, cujo roteiro com eixos temáticos será apresentado na próxima sessão. Os comunicadores selecionados foram Danilo Lima Carreiro, Jones Manoel da Silva, Gustavo Nassar Gaiofato e João Rafael Chió Serra Carvalho, todos produtores de conteúdo marxista na internet em diferentes plataformas de redes sociais. Danilo Carreiro é professor, formado em administração, e mestre e doutor em ciências da saúde. Começou seu trabalho de comunicação em 2016, com o podcast Hora Queer, e é militante no coletivo ecossocialista Subverta, corrente do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Em 2018, deu início ao seu canal de vídeos no YouTube Doutora Drag, em que aborda diversas temáticas de luta social – e principalmente aquelas que compõem as pautas da comunidade LGBTQ – articuladas à teoria marxista. Em seus vídeos, Danilo performa a drag queen Dimitra Vulcana, e seu canal conta com 37,1 mil inscritos e cerca de 557 mil visualizações. 15 Gustavo Gaiofato também é professor, graduado em história e dono de um canal no YouTube denominado História Cabeluda, com 63,2 mil inscritos e pouco mais de 5 milhões de visualizações. Gustavo é marxista-leninista, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e tem um perfil de comunicação nas redes digitais bastante ligado à realização de lives e streamings através de plataformas como a Twitch TV. Seu trabalho de comunicação, inicialmente mais ligado a questões de sua formação acadêmica, passou a tratar de temáticas cada vez mais atuais ligadas à política brasileira. João Carvalho é historiador, marxista-leninista-maoísta, e um dos fundadores do Revolushow, maior podcast de esquerda revolucionária do Brasil. Seu canal de nome João Carvalho no YouTube tem 66,5 mil inscritos e quase 3 milhões de visualizações. Como militante político, João compõe a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), e seu trabalho de comunicação é marcado pela influência do teórico Frantz Fanon. Por fim, Jones Manoel é historiador, mestre em serviço social, membro do podcast Revolushow e marxista-leninista organizado politicamente no PCB. É a figura pública de maior expressão do partido atualmente, e seu canal no YouTube conta com 209 mil inscritos e por volta de 8,5 milhões de visualizações. Além disso, Jones atualmente é candidato a governador de Pernambuco, estado onde nasceu. O trabalho de pesquisa apresenta uma divisão em oito seções para além das referências, sendo a primeira delas a introdução. Em seguida, apresentamos o percurso metodológico traçado ao longo deste trabalho. A terceira seção é a primeira fundamentação teórica tratada por nós, partindo do ponto central do trabalho composto pelas categorias de hegemonia e contra- hegemonia para a discussão sobre comunicação contra-hegemônica e conceitos próximos, chegando à elaboração sobre a comunicação contra-hegemônica como meio de produção. No quarto capítulo, buscamos traçar um panorama histórico da comunicação marxista em períodos de acirramento político a partir da ideia de intelectualidade orgânica de determinados grupos sociais. O quinto capítulo apresenta a investigação sobre a caracterização do objeto de estudo, entendendo esses atores como coletivo em rede de comunicadores marxistas. Busca-se ainda, de maneira central na referida seção, discutir o aspecto organizativo desse agrupamento, articulando as diferentes subjetivações ativista e militante e procurando por possíveis sínteses entre autonomismo neo-anarquista e centralismo político. O sexto capítulo teórico versa sobre a dimensão cultural e identitária do objeto de estudo e o lugar da midiatização no processo de produção simbólica marxista na ambiência digital. Buscou-se então compreender o trabalho de comunicação marxista nas redes digitais no âmbito 16 da cultura e analisar de que maneira esses atores pautam e são pautados por problemáticas identitárias de grupos oprimidos. Ao final do capítulo, buscamos trazer breves apontamentos críticos ao conceito de midiatização e considerá-lo na conjuntura de sociabilidade neoliberal. Em seguida, o sétimo e o oitavo capítulos apresentam a discussão de resultados e as considerações finais, de acordo com a proposta de investigação da hermenêutica de profundidade. A partir das entrevistas realizadas, apresentam-se como resultados de pesquisa considerações sobre o ecossistema de comunicadores marxistas que compreendem os seguintes aspectos: financiamento da comunicação produzida, ritmo de produção de conteúdo e otimização do trabalho comunicativo, diversidade temática e relação dos comunicadores com suas audiências. As considerações finais trazem apontamentos relacionados à recorrência de conflitos e rupturas entre comunicadores marxistas, bem como a algumas tendências de uma comunicação política, contra-hegemônica e radical de nicho marxista. Além disso, é discutido o processo de transformação do perfil do ecossistema de comunicadores marxistas ao longo tempo, a partir de novos domínios ferramentais, linguagens e capacidades organizativas do trabalho de comunicação nas redes sociais digitais. Na seção seguinte, sobre o percurso metodológico, são descritas as etapas da metodologia adotada neste trabalho e é apresentado o roteiro com os eixos temáticos utilizados nas entrevistas com comunicadores marxistas. 17 2 PERCURSO METODOLÓGICO A proposta desta pesquisa é baseada na realização de entrevistas em profundidade com comunicadores marxistas – indivíduos que são parte de uma rede marcadamente virtual e descentralizada de produção de conteúdo político radical, presentes em diferentes sites de redes sociais digitais. Para a construção do corpus e escolha dos comunicadores entrevistados, selecionamos exclusivamente aqueles que produzem conteúdo político audiovisual para a plataforma de vídeos do YouTube através de canais próprios; e que já realizaram trabalho de colaboração com algum outro comunicador marxista. Ademais, estamos cientes de que há outros comunicadores marxistas (entre outras vertentes de esquerda radical) produzindo conteúdos diversos na internet em diferentes plataformas e sites de redes sociais (principalmente em Facebook, Twitter, Instagram, TikTok e agregadores de podcasts) e que não foram entrevistados, a fim de garantir os critérios de homogeneidade substancial segundo Roland Barthes (2006, p. 105), evitando a mistura entre diferentes materiais de análise e limitando o corpus a um foco temático específico. Uma vez que o surgimento de novos comunicadores marxistas tem sido recorrente, decidimos por entrevistar aqueles que realizaram vídeos colaborativos com outro canal marxista pelo menos em algum momento desde a criação de seu próprio canal. A adoção do critério de colaboração nos fez identificar mais de uma dezena de atores que compõem, até o momento, o que denominamos rede de comunicadores marxistas produtores de conteúdo audiovisual. Destes, selecionamos quatro que pudessem nos conceder entrevista. Já no primeiro ano da pesquisa foi estabelecido diálogo preliminar com diversos comunicadores marxistas, a fim de explicar a proposta investigativa e conferir a possibilidade de concessão de entrevista em período previsto em nosso cronograma. De início, no período entre julho e outubro de 2020, oito comunicadores responderam ao nosso contato e se dispuseram a ceder entrevistas a serem realizadas futuramente. Quando da realização das entrevistas, a partir do início de 2022, para além do contato por e-mail e via assessoria, buscamos outros meios, tal como o contato via caixa de mensagens de redes sociais digitais, com quatro dos oito dos comunicadores que já haviam respondido nosso contato. Dessa forma, seguindo o critério de comunicadores que já colaboraram uns com os outros, Danilo Lima, Gustavo Gaiofato, João Carvalho e Jones Manoel foram selecionados para as entrevistas. O critério de colaboração favoreceu a caracterização de um coletivo em rede ou circuito de comunicadores marxistas. Outro benefício do critério é que, além de alguns dos maiores 18 canais marxistas – em termos quantitativos de inscritos e visualizações – estarem presentes no corpus, há a presença também de representantes de canais menores, geralmente criados em período mais recente. A variedade entre os representantes dos canais selecionados apresenta, também, variedade de estratos sociais conhecidos: dentre os comunicadores a serem entrevistados, há negros, pessoas LGBTQs e marxistas de diferentes correntes teóricas. Por outro lado, não há mulheres marxistas entrevistadas neste trabalho pois, apesar de algumas tentativas de contato com algumas comunicadoras, não houve retorno. Vale ressaltar que, uma vez que este trabalho é de natureza qualitativa, o objetivo aqui não foi realizar uma amostragem representativa de acordo com os diferentes estratos. Buscamos, por outro lado, a máxima variedade de falas sobre dimensões desconhecidas – aquelas que envolvam opiniões, ideologias, práticas e questões correlatas dos atores selecionados – a partir da ampliação dos estratos conhecidos, como indicado por Bas Aarts e Martin W. Bauer (2008, p. 58). Tendo como proposta investigativa tais dimensões desconhecidas, a metodologia adotada se fundamentou na hermenêutica de profundidade proposta por J. B. Thompson, cujo enfoque se encontra na ideia de interpretação da ideologia e na cultura. A ferramenta foi articulada em três diferentes etapas, havendo, todavia, um estágio preliminar denominado por Thompson como interpretação da doxa, cuja definição é ser “uma interpretação das opiniões, crenças e compreensões que são sustentadas pelas pessoas que constituem o mundo social” (THOMPSON, 2011, p. 364). É o entendimento do cotidiano da forma simbólica que constitui o objeto de estudo, promovendo a desconstrução de seus valores e crenças. A etapa da doxa foi elaborada em dois capítulos: “Coletivo em rede de comunicadores marxistas no Brasil: sínteses entre autonomismo e centralismo” e “Comunicação marxista em midiatização: o lugar das representações identitárias”. Em ambos foi realizado monitoramento da produção simbólica eu seu cotidiano, especificamente os conteúdos veiculados em redes sociais digitais de comunicadores marxistas, o que possibilitou a interpretação sobre as significativas distinções existentes entre esses divulgadores marxistas. Ressaltamos que esse procedimento não representou uma análise de conteúdo ou análise do discurso sobre o material de comunicação; sendo essas ferramentas metodológicas possibilidades para futuros estudos. Após a interpretação da doxa, realizamos a análise sócio-histórica da forma simbólica, em que o pesquisador deve reconstruir as condições sociais e históricas de produção, circulação e recepção da comunicação que compõe seu objeto. Esta etapa foi realizada no capítulo intitulado “Parâmetros históricos da intelectualidade marxista”, sem qualquer pretensão de esgotamento teórico ou de abarcar a totalidade da comunicação marxista brasileira. O 19 referencial teórico mais importante nessa empreitada veio de Antonio Gramsci e seu aporte sobre os intelectuais orgânicos. Importante destacar que o procedimento realizado nessa seção não deve ser confundido com uma descrição historiográfica, sendo a análise sócio-histórica fundamentada sob as bases do materialismo histórico e dialético. A realização da análise envolveu um trabalho não-linear, e os caminhos apontados por J. B. Thompson e objetivados por nós foram a descrição da forma simbólica que compreende a comunicação marxista em seu espaço e tempo; a descrição de seus campos de interação; a análise das instituições sociais relacionadas; a identificação das assimetrias estruturais que envolvem esta forma simbólica; e, por fim, a distinção dos meios técnicos de transmissão e difusão da comunicação marxista em análise. O segundo passo é o que J. B. Thompson chama de análise formal ou discursiva, em que o pesquisador deve escolher, dentre várias formas de análise qualitativa, aquela que for a mais adequada de acordo com seu julgamento sobre a pesquisa. No caso deste trabalho, entendemos que o método da entrevista em profundidade ofereceu um rico e diversificado material para análise dentro do amplo processo de execução das diferentes etapas da hermenêutica de profundidade, especialmente em relação à terceira e última etapa que é a reinterpretação da forma simbólica analisada, executada na seção de discussões de resultados. Dentro da segunda etapa da hermenêutica de profundidade – referência ao procedimento da análise formal –, decidimos utilizar a ferramenta metodológica da entrevista individual em profundidade, realizada com os comunicadores marxistas a partir das bases construídas com a fundamentação teórica – que serviu como orientação na elaboração do roteiro temático de questões semiestruturadas. Há muitos benefícios na utilização deste método, entre os quais estão sua aderência a pesquisas exploratórias e “a flexibilidade de permitir ao informante definir os termos da resposta e ao entrevistador ajustar livremente as perguntas” (DUARTE, 2005, p. 62). Adotando essa ferramenta metodológica, foi possível obter dados objetivos e subjetivos, sendo a coleta dos dados subjetivos outro ponto positivo em relação ao método da entrevista (BONI; QUARESMA, 2005, p. 72). Outra característica fundamental para a escolha da entrevista em profundidade é seu caráter de pesquisa qualitativa, cuja “finalidade real [...] não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão” (GASKELL, 2008, p. 68). Tal abordagem qualitativa possibilitada pela entrevista em profundidade atende à perspectiva da hermenêutica de profundidade de interpretação da ideologia e permite, ademais, entender o processo de formação da rede de comunicadores marxistas a partir da diversidade 20 dos relatos de quem a constrói, uma vez que não é a intenção desta pesquisa realizar um levantamento estatístico sobre o objeto de estudo. Seguindo a proposta de tipologia apresentada por Jorge Duarte (2005, p. 65), a entrevista em profundidade pode ser realizada com questões não-estruturadas ou semiestruturadas, que determinam, respectivamente, se a entrevista é aberta ou semiaberta. Os dois tipos de entrevistas são caracterizados pelo dinamismo e na flexibilidade na abordagem ao entrevistado, e de acordo com Boni e Quaresma (2005, p. 75), o uso dessas técnicas permite maior aprofundamento na temática, além da interação entre entrevistador e entrevistado favorecer respostas mais espontâneas e uma maior troca afetiva entre os dois – o que pode facilitar a abordagem de temas sensíveis ou complexos. Neste trabalho, optou-se pela entrevista semiaberta ou semiestruturada, cujas características convenientes são a articulação de perguntas abertas e fechadas, a roteirização que antecede a entrevista (mas que não a torna menos dinâmica, permanecendo o caráter dialógico) e a possibilidade de o entrevistador sempre retomar ao tema de interesse nos casos de digressões do entrevistado ou desvios do assunto de ambas as partes. O roteiro foi composto por eixos temáticos que partem dos objetivos e pressupostos teóricos deste trabalho e que possibilitem o aprofundamento “a partir da resposta do entrevistado, como um funil, no qual questionamentos gerais vão dando origem a questionamentos específicos (DUARTE, 2005, p. 66). Vale destacar que a roteirização adotada aqui é baseada na definição de George Gaskell (2008, p. 66) do chamado tópico guia, fundamental na orientação ao longo do trabalho do entrevistador e que funciona de maneira flexível conforme os desdobramentos do estudo. As entrevistas em profundidade foram realizadas por videochamada com os quatro comunicadores marxistas, em grande parte devido às incertezas da pandemia de Covid-19 quanto ao contato social. Todas aconteceram entre os meses de maio e junho de 2022 e foram gravadas através da ferramenta do Google Meet. Partes selecionadas do material coletado com as entrevistas compõem não só a seção de discussão de resultados deste trabalho junto à reinterpretação da forma simbólica, bem como está presente ao longo de todos os capítulos de fundamentação teórica e nas considerações finais. Todas as gravações e as entrevistas transcritas integralmente estão na posse do autor deste trabalho, e podem ser disponibilizadas para reprodução ou divulgação total ou parcial, para fins de estudo ou pesquisa, desde que seja citada a fonte. O questionário semiestruturado aplicado aos entrevistados foi elaborado com base na fundamentação teórica e está dividido em seis eixos principais, apresentados a seguir, junto a um resumo sobre cada temática: 21 Eixo I: Hegemonia e ação contra-hegemônica Buscou-se neste eixo tratar sobre o entendimento dos comunicadores em relação à disputa por hegemonia por via do trabalho de comunicação. Como um eixo introdutório para a entrevista em profundidade, entendemos que a crítica sobre os meios de comunicação hegemônicos – tanto sobre os mais tradicionais quanto sobre os conglomerados de internet – é um bom ponto de partida para todas as temáticas restantes uma vez que as perpassa. Eixo II: Estratégias para a comunicação radical marxista No segundo eixo temático, discutimos estratégias para independência financeira na produção de conteúdo marxista nas redes digitais, bem como o patamar em que esses comunicadores se encontram atualmente neste quesito. Também buscamos tratar sobre as possibilidades para a organização política a partir dessas estratégias de comunicação. Naturalmente, todas essas questões se encaminharam ao tema sobre profissionalização do trabalho de comunicação marxista nas redes. Eixo III: Trabalho de comunicação marxista: pré-produção, produção e circulação Discutiu-se neste eixo como ocorre a divisão do trabalho de produção do conteúdo para as redes digitais em suas diversas etapas: pesquisa e uso de fontes e referências, adequação às plataformas, público pretendido. Em todas as entrevistas houve uma atenção especial sobre a questão da interatividade e do reconhecimento da audiência do conteúdo produzido nas redes, bem como sobre possíveis mecanismos de retorno sobre o próprio trabalho. Eixo IV: Comunicação marxista em rede e conjuntura brasileira das últimas décadas O quarto eixo temático foi reservado para discutir a presença do comunicador marxista e de seus pares nas redes sociais digitais nos últimos anos; também procurou refletir a respeito de como essa presença se relaciona a desdobramentos da conjuntura e de que forma o cenário político brasileiro gera consequências para o trabalho de comunicação política desses atores – atritos, aproximações, ou rupturas entre esses indivíduos. Eixo V: Trabalho militante nas redes sociais digitais A partir desta temática, buscamos tensionar o entendimento dos comunicadores sobre a natureza de um trabalho militante na internet. Consequentemente, levantou-se questões sobre 22 personalismos; relação com suas próprias organizações políticas; e organização coletiva para o trabalho de comunicação. Eixo VI: Identidade, conflitos e tecnologia Por fim, tratamos sobre as questões de identidade e conflitos existentes no coletivo em rede de comunicadores marxistas. Vários conflitos foram presenciados durante os monitoramentos realizados, e a partir dessas claras rupturas, buscamos tratar sobre a construção ou demolição completa de laços de solidariedade entre produtores de conteúdo marxista, tomando as diferentes formações identitárias como norte. Cabe destacar que, apesar da ordem numérica desses eixos, não houve uma ordem de apresentação durante as entrevistas. Em todos os diálogos, houve diversos momentos em que o entrevistado adiantava algum dos eixos que nós ainda iríamos tratar; assim como também aconteceu de o entrevistado ainda ter mais a dizer sobre determinada temática e termos que retomar algum eixo, tornando evidente o caráter de não-linearidade dessa investigação. Após a realização das entrevistas em profundidade, a pesquisa procedeu ao terceiro e último passo da proposta metodológica de J. B. Thompson que é a reinterpretação da forma simbólica, momento de “necessidade de uma construção criativa do significado, isto é, de uma explicação interpretativa do que está representado ou do que é dito” (THOMPSON, 2011, p. 375). É uma etapa que também pode ser entendida como interpretação da interpretação, e neste estudo, corresponde à interpretação sobre a interpretação dos comunicadores marxistas a respeito do trabalho que desempenham nas redes. Apesar de não representar a conclusão do trabalho, a reinterpretação na discussão dos resultados já apresenta indícios de nossas considerações finais. A sistematização dos dados obtidos nas entrevistas foi orientada pela análise, interpretação crítica e categorização, processo que, segundo Jorge Duarte, é facilitado pela entrevista semiaberta. Isso porque “nas entrevistas semiabertas, as categorias têm origem no marco teórico e são consolidadas no roteiro de perguntas semiestruturadas. Elas não podem, entretanto, ser entendidas como camisas-de-forças” (DUARTE, 2005, p. 79). Assim, ao invés de apresentar as entrevistas de cada um dos comunicadores marxistas separadamente e de forma blocada na única seção da discussão de resultados, busca-se apresentar as falas e discuti-las em articulação com a teoria ao longo dos capítulos, dinamizando o trabalho de interpretação e reinterpretação. 23 Tal como Jorge Duarte, consideramos que, a partir da técnica de entrevista em profundidade, é possível contribuir criticamente em relação ao tema de pesquisa, de tal forma que seja “uma oportunidade de não apenas descrever e refletir sobre os resultados obtidos, mas também propor avanços e soluções” (DUARTE, 2005, p. 81). Portanto, o conhecimento produzido na elaboração da dissertação deverá ser compartilhado com os entrevistados como uma forma de contribuição teórica para o fortalecimento da rede de comunicação contra- hegemônica da qual fazem parte. 24 3 HEGEMONIA E CONTRA-HEGEMONIA NA DISPUTA PELA COMUNICAÇÃO Sendo nosso objeto de estudo o que identificamos como coletivo em rede de comunicadores marxistas, é imprescindível a reflexão sobre os conceitos de hegemonia e contra-hegemonia, recorrendo à clássica elaboração de Antonio Gramsci, autor que representa um marco teórico nos estudos de cultura, poder e ideologia. Como aponta Virgínia Fontes (2008, p. 145): Refletir sobre as modalidades de hegemonia e de contra-hegemonia supõe analisar as formas de convencimento, de formação e de pedagogia, de comunicação e de difusão de visões de mundo, as diferentes modalidades de adestramento para o trabalho, as formas peculiares de sociabilidade dominantes em cada período, as maneiras de ser coletivas e as clivagens que as atravessam, averiguando sua adequação aos processos de dominação, assim como as contradições que essas modalidades suscitam. A concepção gramsciana de hegemonia pressupõe que a classe dominante exerce a direção da sociedade pelos âmbitos cultural e político-ideológico, via consenso, para além da força coercitiva estatal. Dessa forma, o bloco social que exerce tal direção pode ser considerado hegemônico, o que é consequência de processos historicamente determinados. Dênis de Moraes (2010, p. 55), recorrendo a Gramsci, reafirma que “uma direção ético-política eficiente não depende somente da força material que o poder confere”, mas também necessita de valores próprios que se apresentem consensualmente à sociedade. A disputa pela hegemonia ocorre em duas dimensões da superestrutura – no sentido marxista – de acordo com Gramsci: O que pode ser chamado de “sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da “sociedade política ou Estado”, planos que correspondem, respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico” (GRAMSCI, 2004, p. 20). A sociedade civil pode ser compreendida como o “conjunto de instituições responsáveis pela elaboração e propagação de ideologias enquanto concepções de mundo” (MORAES, 2010, p. 57). Enquadram-se nesse campo as escolas, os partidos políticos e sindicatos, os meios de comunicação, entre outras instituições. Todos esses exemplos compõem o que Gramsci denomina como aparelhos privados de hegemonia, que são responsáveis por dar “coerência ao pensamento e aos valores da classe dominante, a partir de seus interesses e do estímulo ao consumo e ao mercado capitalista, com o objetivo de torná-los os pensamentos e valores (a cultura) de toda a sociedade” (BASTOS; BÔAS; STEDILE, 2015, p. 32). 25 Já quando se fala em sociedade política, compreende-se o uso da coerção através do monopólio estatal da violência, pelo qual a classe dominante mantém os grupos subalternos sob seu domínio. De acordo com Gramsci (2004, p. 21), esse é o campo do “aparelho de coerção estatal que assegura ‘legalmente’ a disciplina dos grupos que não ‘consentem’, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção [...]”. Dadas as distinções gramscianas entre sociedade civil e sociedade política, vale destacar como o autor compreende a dinâmica entre esses elementos, com base em sua concepção sobre teoria e prática. A unidade entre esses momentos não é, para Gramsci (1978, p. 21), “um fato mecânico, mas um devenir [devir] histórico, que tem a sua fase elementar e primitiva no senso de ‘distinção’, de ‘separação’, de independência apenas instintiva”, para que haja a progressão a um entendimento unitário da realidade. Assim como na unidade entre teoria e prática, a separação funcional de sociedade civil e sociedade política não exclui a relação dialética entre as esferas, de tal forma que se contribui para a distinção entre as categorias de “domínio” e “direção” apresentadas pelo italiano e indissociáveis dos conceitos de consenso e coerção. Quando se fala em domínio por parte de um grupo social, refere-se à coerção, ao uso da força sobre grupos subalternos. Já a disputa de direção significa a luta pelo consenso político-ideológico e a busca pela reformulação cultural e moral sobre os grupos. A elaboração geral sobre hegemonia, no entanto, não se restringe ao poder exercido pela classe dominante. Como pontua Muniz Sodré (2008, p. 27), a hegemonia é “um processo de articulação de representações sociais com vistas a um consenso, não isento de resistências, de conflitos, de movimentações contra-hegemônicas”. Portanto, a hegemonia também admite disputa, com a organização da resistência política ao domínio pela tomada de posições e construção de uma contra-hegemonia socialista, que depende da formação do consenso político- ideológico e cultural. Para que isso aconteça, é imprescindível que as classes subalternas se convertam em força política efetiva (MORAES, 2010, p. 56). Ou, como coloca Vito Giannotti (2014, p. 19): “É necessário o convencimento e a fixação do avanço das mudanças culturais e morais em leis, em organismos, em instituições de consolidação da nova hegemonia”. Dado que hegemonia admite disputas para a construção contra-hegemônica, há também a ideia de certo grau de negociação dos sentidos na possibilidade de resistir às estratégias da classe dominante no campo da cultura e, de forma central neste trabalho, da comunicação. Como lembra Valério Cruz Brittos (2006, p. 6): “Hegemonia é um conceito que, no seu interior, 26 já prevê o receptor como ativo. Do contrário, não admitiria a possibilidade de resistência do receptor e, portanto, a necessidade de seduzi-lo”. No entanto, admitir essa possibilidade de disputa não significa negar a existência do dispositivo da força que frequentemente é requisitado pelos grupos dominantes contra a comunicação contra-hegemônica. John Downing afirma que seria uma ingenuidade crer que a mídia radical – que aqui entendemos como uma das formas de comunicação contra- hegemônicas, como explicaremos adiante – tem sua atuação regida simplesmente por uma disputa justa, livre e aberta de consciências: “A história da mídia radical, como o próprio Gramsci só a duras penas a descobriu em sua própria vida, é quase sempre uma história de sobrevivência e tensão perante a hostilidade veemente e às vezes mortal das autoridades” (DOWNING, 2004, p. 54). No campo da comunicação, a hegemonia de grupos dominantes se expressa por meio de verdadeiros conglomerados midiáticos, cujas ideias possuem amplo poder de alcance. Uma vez que o espaço de atuação dos comunicadores marxistas na internet compreende plataformas de redes sociais privadas – em sua maioria estadunidenses –, buscamos articular um referencial teórico que abarque as mudanças tecnológicas, sociais e culturais próprias da globalização ao longo deste trabalho. Por agora, importa-nos que no contexto do mundo globalizado, a agudização da desigualdade é a máxima da economia de mercado, levando à formação de monopólios e oligopólios. Estendendo o fenômeno à comunicação, não faltam exemplos de conglomerados midiáticos que, atualmente, são movidos pela lógica das fusões, incorporações e aquisições de fatias cada vez maiores de mercado. Diante desse cenário oligopolizado da economia da informação a nível mundial, o caminho intuitivo à crítica seria aquele em que se destacaria uma suposta passividade da massa frente ao poder midiático, baseado em uma indústria ainda mais expressiva do que aquela existente quando se pensou em indústria cultural pela primeira vez. No entanto, “seria miopia enxergar apenas manipulações no que a mídia difunde, ou supor que toda a audiência submerge na passividade crônica” (MORAES, s.p, 2016). Moraes apresenta que há uma variedade de recepções, interações e assimilações por parte da audiência, e isso por si só já implica certa agência. Mas o autor renega qualquer apologismo em que se coloque o consumidor como ente absoluto que escolhe ou descarta determinados produtos midiáticos. Para ele, devido à “concentração transnacional das indústrias culturais, a possibilidade de interferência do público (ou de frações dele) nas programações depende não somente da capacidade criativa e reativa dos indivíduos” (MORAES, s.p., 2016). Essa interferência dependeria de direitos coletivos e controle social sobre as etapas de produção 27 e distribuição dos produtos midiáticos – objetivos presentes nas defesas pela regulamentação midiática no Brasil, por exemplo. Como coloca Dênis de Moraes (2016), “a mundialização cultural se inscreve mais na órbita das exigências mercadológicas do que propriamente nas variedades qualitativas ou em usufrutos equânimes de conhecimentos e informações”. Ao estarmos de acordo com a avaliação de que há uma relação assimétrica entre possibilidades e limites das atuais tecnologias midiáticas para a emancipação humana, e quando nos referimos à concentração midiática, é preciso entender também que por se tratar de conglomerados relacionados com a produção e veiculação de bens simbólicos, uma outra lógica emerge dentro das empresas de comunicação que não é apenas quantitativa, mas também qualitativa. Esta nos parece muito mais complexa e de difícil constatação por envolver receptores, não apenas consumidores, que podem aceitar, ou não, os produtos emanados dos conglomerados da comunicação. (VICENTE, 2009, p. 154). Ainda que rejeitemos a concepção de um receptor absoluto, o entendimento de que “a supremacia do capital não implica, necessariamente, a hegemonia absoluta e única do modelo proposto pela ideologia neoliberal” (VICENTE, 2009, p. 155) oferece possibilidades contra- hegemônicas que acreditamos serem possíveis, por exemplo, através da “midiatização para setores não-midiáticos” (BRAGA, 2012, p. 36), o que inclui a crítica aos produtos e processos da mídia hegemônica. Trataremos mais especificamente sobre essa perspectiva crítica da midiatização no capítulo “Comunicação marxista em midiatização: o lugar das representações identitárias”. De diferentes formas, todos os comunicadores marxistas entrevistados neste trabalho compreendem certas possibilidades contra-hegemônicas e trabalham a partir delas. Para justificar seu trabalho, o comunicador João Carvalho defende a apropriação do ferramental tipicamente hegemônico com base em exemplos históricos de experiências e quadros revolucionários: O Althusser trabalha com a ideia de aparato ideológico. Ele fala que nós não controlamos estes aparatos ideológicos, mas que pra qualquer tentativa revolucionária – independentemente de como ela seja – dar certo, é preciso de se usar dos aparatos ideológicos do hegemon, que estão na mão daqueles que hegemonizam uma dada sociedade politicamente. O Fanon tem um livro muito interessante, que ainda não tem tradução pro português, que é “L'An V de la Révolution Algérienne”, ou “O ano cinco da Revolução Argelina”. [No livro] ele vai falar do exemplo da rádio Argélia: como que os revolucionários da frente de libertação 28 nacional argelina usaram este que é um aparato hegemônico, a transmissão por onda de rádio, exatamente pra subverter O uso desse aparato em um uso popular, em um uso revolucionário, um uso que pensa numa mudança de mundo. Quando a gente vai pra teoria marxista clássica, tanto na obra de Marx e de Engels quanto na obra leniniana, a gente vê o tempo todo essa ideia de usar aqueles aparatos que mais facilmente comunicar-se-iam com as massas trabalhadoras. O Engels, por exemplo, pega o Anti-Dühring, tira três capítulos e faz o “Do socialismo utópico ao socialismo científico” e publica aquilo em forma de panfleto. O jornal também vai ser algo muito importante pro POSDR5. Então existe uma longa tradição dentro do nosso campo de se aproveitar desses aparatos, sejam os aparatos midiáticos quais sejam, para veicular essa ideia de se expandir a ideologia. Expandir obviamente a consciência da nossa classe e lutar contra a ideologia dominante expandindo a ideologia marxista. Eu falo brincando muitas vezes que se o Lênin fosse vivo hoje ele seria Tik Toker. Eu falo isso no sentido de que cada geração tem a obrigação de se apropriar da melhor forma possível dos meios que estão a sua baila pra poder fazer as coisas que precisa fazer (João Carvalho, junho de 2022).6 A partir das entrevistas em profundidade com comunicadores marxistas, entendemos que a produção de conteúdo marxista nas redes sociais digitais exemplifica essa dicotomia entre os interesses de conglomerados midiáticos globais – tais como Facebook, Google, Twitter, Amazon, etc. – e as oportunidades para uma comunicação radical midiatizada, ainda que de forma marcadamente assimétrica, como aponta a seguir o entrevistado Danilo Lima Carreiro. Ao se referir à influência dos meios hegemônicos e aos limites que estes impõem ao seu trabalho de comunicação como a drag queen Dimitra Vulcana, Danilo expressa essa assimetria: Ter noção desses limites é importante porque eles também acabam norteando a forma como a gente enxerga essas redes. Por exemplo: o Brasil Paralelo tava com investimento maciço nos últimos meses. [...] Esse dinheiro foi pra colocar propaganda em todos os canais de esquerda, sobretudo os de esquerda radical. Colocou no [canal] do Jones, no do Humberto, no meu, no 5 Partido Operário Social-Democrata Russo fundado por Vladimir Lênin existente na conjuntura pré- revolucionária. 6 Os trechos das entrevistas realizadas que estão reproduzidos neste trabalho passaram por edições de forma para adequação da linguagem oral para o texto escrito, eliminando vícios de linguagem e outras características que pudessem prejudicar o entendimento do conteúdo. Os trechos reproduzidos em itálico são aqueles que ultrapassam as três linhas; enquanto os trechos de até três linhas foram mantidos com a mesma formatação do restante da pesquisa. As palavras ou frases inseridas entre colchetes indicam adições nossas para que o leitor compreenda o contexto do que foi dito e que, ocasionalmente, não esteve explícito na fala de algum comunicador marxista. 29 da Sabrina, em vários canais. A gente tava no radar dessa galera e eles sabem quem somos e o que estamos fazendo. Sabendo isso é uma forma da gente entender que o nosso trabalho é um processo de pesca, de tentar fazer com que as pessoas entendam que o que se faz na internet em temos políticos precisa ser para além disso. É necessário que isso passe pelas telas dos computadores e se transmute de fato para a vida das pessoas. [...] Essa é uma dificuldade que a gente tem ao pensar a produção de conteúdo e a militância. Eu acho que saber das limitações que a gente tem e conscientizar quem segue a gente sobre isso é entender que esse trabalho para uma esquerda radical é só mais uma tarefa dentre várias tarefas. (Danilo Carreiro, maio de 2022). Citada por Danilo, a Brasil Paralelo Entretenimento e Educação S/A é uma empresa de Porto Alegre fundada em 2016 que produz conteúdo político em formato audiovisual a partir de um viés de extrema-direita – característica que faz com que a sua prática de financiar anúncios em canais da esquerda radical seja algo insólito. Funcionando como uma plataforma própria em que conteúdos exclusivos são disponibilizados por meio de um serviço de assinaturas, a empresa também se faz presente em todas as principais plataformas de redes sociais digitais. Apesar de produzir um tipo de conteúdo marcadamente ideológico, a Brasil Paralelo se apresenta institucionalmente como uma empresa orientada “pela busca da verdade histórica, ancorada na realidade dos fatos, e sem qualquer tipo de ideologização na produção de conteúdo”. No YouTube, o canal Brasil Paralelo possui números significativos: são 2,94 milhões de inscritos e mais de 275 milhões de visualizações. A efeito de comparação, o Tempero Drag, maior canal em termos quantitativos da esquerda radical no YouTube, comandado por Guilherme Terreri Lima Pereira e que interpreta a drag queen Rita Von Hunty, possui 1,04 milhões de inscritos e pouco mais de 48 milhões de visualizações. Todos os dados de ambos os canais são referentes a julho de 2022. Por mais que não seja o objetivo deste trabalho se debruçar sobre uma comunicação hegemônica que reforça visões de mundo reacionárias – a Brasil Paralelo, por exemplo, esteve envolvida em episódios de falsificação histórica sobre temas como a escravidão negra e ditadura militar brasileira –, a referência à iniciativa parece inevitável, uma vez que os próprios comunicadores entrevistados a citaram como exemplo de uma comunicação radical de direita – e consequentemente antimarxista. O comunicador João Carvalho faz questão de demarcar as dificuldades de financiamento do trabalho de comunicação marxista ao dizer que “nós [comunicadores marxistas] não somos Brasil Paralelo, a gente não tem empresariado por trás 30 investindo vultosas quantias em campanhas de divulgação; a gente tem o boca a boca” (João Carvalho, junho de 2022). Além de Danilo e João, Jones Manoel e Gustavo Gaiofato também citaram a Brasil Paralelo em contextos específicos de diálogos. Em comum a todos os entrevistados há a convicção de que a produtora de extrema-direita tem como prática o disparo de anúncios direcionados, inclusive, a públicos que consomem conteúdo de esquerda radical na internet. Durante o período desta pesquisa, ao acompanhar canais de diversos comunicadores marxistas no YouTube – e não apenas os entrevistados aqui –, esse relato se confirmou, com anúncios e recomendações de conteúdos da Brasil Paralelo aparecendo mesmo para um perfil de consumo audiovisual criado estritamente para o acompanhamento de canais marxistas. Uma vez que a publicação de anúncios e o direcionamento de recomendações são resultados de escolhas da empresa que oferta determinado conteúdo, pode-se afirmar que a produtora se apropria ativamente de técnicas de marketing digital, segmentação de conteúdo e Search Engine Optimization (SEO). Os motivos podem ser variados: disputar o mesmo público da extrema-esquerda; demarcar parcela do território digital; entre outras razões que poderiam ser melhor compreendidas a partir de estudos específicos. 3.1 Diferentes formas de comunicação contra-hegemônica Para a investigação da comunicação marxista nas redes, é importante demarcar as diferentes referências possíveis para um mesmo tipo de trabalho comunicativo. Ainda que pareça evidente o fato de que a comunicação desempenhada pelos atores entrevistados se enquadre como ação contra-hegemônica, especialmente devido ao teor do conteúdo produzido, há uma quantidade notável de denominações para a comunicação contra-hegemônica que carrega especificidades, convergências e divergências. Cicilia Peruzzo (2008) destaca que desde o fim do regime militar no Brasil, as designações comunicação alternativa, comunicação comunitária e comunicação popular passaram por transformações no cenário nacional. Tais transformações englobariam diversos aspectos dessas três expressões. Uma das mudanças apontadas por Peruzzo estaria no caráter combativo da comunicação popular, que com o passar do tempo teria cedido espaço “a discursos e experiências mais realistas e plurais (quanto a tratamento da informação, abertura à negociação) e incorporando o lúdico, a cultura e o divertimento com mais desenvoltura, o que não significa dizer que a combatividade tenha desaparecido” (2008, p. 373). 31 Apesar de apontar as transformações das últimas décadas em cada uma das três expressões, a autora as enxerga como sinônimos “quando se referem às lutas de segmentos subalternos por sua emancipação, mesmo havendo algumas características próprias em cada um dos processos” (PERUZZO, 2008, p. 378). Henrique Mazetti, ao abordar os conceitos de mídia alternativa, comunicação popular, comunicação comunitária e midiativismo, pondera que “ainda que esses termos possam ser tomados apressadamente como sinônimos, eles surgiram em contextos específicos” (2018, p. 79) historicamente localizados e sob premissas, muitas vezes, distintas umas das outras. Consideramos fundamental a problematização sobre a frequente operação de se igualar conceitos que envolvam a ideia (ou ideias) que se tem sobre comunicação popular, radical, midiativista, alternativa, e quaisquer outras nomenclaturas utilizadas como equivalentes. Apesar de não discordarmos exatamente das aproximações realizadas por Peruzzo em relação a diversos desses conceitos, Rozinaldo Antonio Miani oferece uma rica problematização ao criticar os procedimentos da autora que compreendem comunicação popular e comunicação comunitária como sinônimos: Essa “operação ideológica” de substituir a expressão “comunicação popular” por “comunicação comunitária” se revela uma prática simplificadora que tem levado a uma despolitização da comunicação popular e a uma desconfiguração das reais contribuições que as práticas de comunicação comunitária podem oferecer no contexto das lutas sociopolíticas e da disputa pela hegemonia no campo da comunicação (MIANI, 2011, p. 223). Miani trabalha o conceito de comunicação comunitária a partir da fundamentação teórica sobre comunidade, que “deve ser entendida como uma possibilidade que se realiza como decorrência da dinâmica social estabelecida por um conjunto de indivíduos que se reconhecem como construtores de um sentimento coletivo de pertencimento no interior de um grupo social” (2011, p. 226). Miani argumenta que uma comunidade – o que inclui a prática da comunicação comunitária – não possui, necessariamente, uma atuação político-ideológica pautada pela consciência de classe e que, na ausência desse direcionamento, serviria à despolitização do conceito de comunicação popular. As reflexões do autor não descartam uma articulação entre comunicação popular e comunicação comunitária que seja dialeticamente construída em prol de um campo mais amplo que Miani chama de Comunicação Popular e Comunitária. De acordo com o teórico, as duas formas de comunicação, separadamente ou combinadas, participam decisivamente da disputa pela hegemonia no campo da comunicação (MIANI, 2011, p. 231). Seu entendimento, portanto, 32 é de que esses dois conceitos são distintos e que suas diferenças não são meros detalhes, mas que ambos contribuem à comunicação contra-hegemônica – um terceiro conceito ou prática mais amplos, que englobaria as formas de comunicação problematizadas e que eleva a complexidade do tema. Tomamos o exemplo de Miani para argumentar no sentido de que, de fato, há termos muito próximos que designam atividades comunicativas semelhantes. Todavia, o esforço em se reservar alguns parágrafos a fim de delimitar certos conceitos, assumindo o objeto desta pesquisa, tende a enriquecer um tipo de análise que seja capaz de acompanhar o movimento da atividade comunicativa marxista no Brasil e, em última instância, de parte da comunicação contra-hegemônica nacional. De acordo com Leonardo Feltrin Foletto, é a partir da concepção de uma “mídia contra-hegemônica que se consolida o conceito de mídia alternativa, sobretudo a partir dos anos 1970” (2018, p. 100), com mídias operárias, camponesas, anarquistas, feitas por grupos marginalizados, que se apresentaram como jornais e rádios de resistência aos regimes militares na América Latina. A partir desse referencial, é nossa intenção discutir brevemente três conceitos em particular: comunicação alternativa, mídia radical e midiativismo. Peruzzo (2008) reforça que o conceito de comunicação alternativa – no contexto brasileiro e latino-americano – é típico do período entre os anos 60 e 80, em que regimes militares perduraram no Brasil e em outros países da região. É justamente por se contrapor aos regimes de exceção e por não se alinhar à abordagem da mídia hegemônica, que se omitiu diante dos crimes dos militares ou os apoiou, que a comunicação alternativa, representada expressivamente pela imprensa, recebeu a alcunha de alternativa – ou seja, que se contrapõe a algo. Essa imprensa alternativa, segundo a autora, era composta por setores médios da sociedade, trabalhadores e pequena e média burguesia que se opunham ao regime por defenderem interesses nacionais. Compreendendo o jornalismo alternativo como parte da comunicação alternativa, cabe ressaltar que há um debate antigo no Brasil, realizado pelo menos a partir dos anos 80, a respeito do caráter alternativo dessas mídias. Perseu Abramo (1988) argumenta que a chamada mídia alternativa brasileira de sua época não atingiu aquilo que a palavra “alternativa” em seu nome propunha, uma vez que não se apresentou como uma opção que as pessoas adotassem e deixassem, assim, de consumir a mídia hegemônica – que no caso do jornalismo, também pode ser entendida, segundo bibliografia brasileira, como imprensa referencial ou mídia de referência. Abramo aponta que a típica limitação financeira e estrutural da mídia alternativa é a principal razão para que ela não se concretize como real opção à comunicação hegemônica. E 33 devido a essa impossibilidade, o destino da mídia alternativa seria sempre ser dependente da existência da mídia de referência, apenas como contraponto e não como substituta, numa relação de “dependência contraditória, evidentemente, para não dizer dialética” (ABRAMO, 1988, p. 1). De acordo com Abramo, “era preciso que os grandes jornais e revistas dissessem alguma coisa para que os pequenos alternativos pudessem dizer o contrário (1988, p. 1). Em suma, tal “modelo de contra-informação é a base da maioria das manifestações de comunicação identificadas como alternativas” (ROCHA; BARBOSA, 2018, p. 65). Este modelo reativo de comunicação contra-hegemônica é reproduzido em maior ou menor medida pelos comunicadores marxistas. Gustavo Gaiofato, por exemplo, afirma que é importante trazer assuntos do cotidiano à sua produção, pois isso seria parte essencial do trabalho dos comunistas para a disputa de hegemonia. E isso deve ser realizado também, segundo o comunicador, a partir do que se é produzido na mídia de referência: “Não é só falar de marxismo, mas é como eu utilizar a ideologia marxista-leninista pra poder fazer análise de uma notícia, análise de uma conjuntura, pra que isso possa servir à aplicação da linha política” (Gustavo Gaiofato, junho de 2022). Nesse sentido, percebe-se que enquanto Abramo apresenta uma visão mais desfavorável sobre a ausência de uma comunicação contra-hegemônica que não dependa da mídia de referência, essa dependência dialética não é vista exatamente como um problema por parte de um produtor de conteúdo marxista nas redes digitais. Gustavo defende essa forma de trabalho pois não crê que as pessoas se informem por sites alternativos. De acordo com o comunicador, a mídia hegemônica é o espaço em que as pessoas tem acesso às últimas notícias: “É por isso que eu sempre entro no UOL; todo dia eu entro pelo menos umas sete, oito vezes” (Gustavo Gaiofato, junho de 2022). João Carvalho, por outro viés, também entende a disputa pela hegemonia por meio da mídia de referência como uma necessidade diante das impossibilidades estruturais da comunicação radical de esquerda: “Não nos seria possível, com os parcos recursos materiais que a gente tem, construir algo alternativo [à mídia hegemônica]. [...] Então a gente tem que operar dentro das redes da melhor forma possível” (João Carvalho, junho de 2022). Quando questionado se tem conhecimento sobre a experiência estadunidense da Means TV, serviço de streaming estadunidense que se reivindica pós-capitalista, João é taxativo ao dizer que esse não é um modelo aplicável ao Brasil: É uma outra formação social, com uma outra capacidade telemática, com outras ferramentas à disposição, inclusive outras ferramentas de financiamento à disposição. Uma capacidade de 34 capilaridade diferente da nossa [...]. Então são outras redes com outra sociabilidade. Eu não acho que o modelo é adaptável (João Carvalho, junho de 2022). Essa impossibilidade apontada por João se deve, segundo o comunicador, à diferença entre o acesso à internet no Brasil e nos Estados Unidos; e também devido à formação socioeconômica periférica e dependente própria de um país da América Latina. “Nos podcasts [brasileiros] com doze, quinze, vinte milhões de downloads, ninguém desses podcasts vive disso. Todo mundo tem um outro trabalho [...] Nos Estados Unidos, um podcast com um décimo desse tamanho se mantém” (João Carvalho, junho de 2022). Mais especificamente no contexto latino-americano das últimas duas décadas, observa- se uma expansão de modelos coletivos de veículos jornalísticos alternativos, segundo Samaria Andrade e Fábio Pereira (2020), baseados em pesquisas recentes. De acordo com os pesquisadores, um desses estudos é o relatório Ponto de Inflexão, de 2016, que “considera que os jornalistas estão sendo impelidos a produzir jornalismo independente em países polarizados do ponto de vista político e onde a propriedade de empresas de mídia é muito concentrada” (ANDRADE; PEREIRA, 2020, p. 11), fatores que caracterizam a atual conjuntura brasileira. Antônio Augusto Braighi e Marco Túlio Câmara entendem mídia alternativa como um termo guarda-chuva ou topo de árvore, que englobaria diversos conceitos distintos (BRAIGHI; CÂMARA, 2018, p. 29). Dentre eles, os autores chamam atenção para o conceito de midiativismo, que eles consideram não ser equivalente à mídia alternativa devido a certas especificidades do primeiro – que os autores também buscam distinguir de outros conceitos como mídia radical, compreendendo este como forma de ativismo midiático e não exatamente midiativismo. Assim, no sentido de ação contra-hegemônica, é imprescindível a reflexão sobre o que John Downing aponta como mídia radical antes que nos aprofundemos no conceito de midiativismo. Downing sustenta que “a mídia radical alternativa constitui a forma mais atuante da audiência ativa e expressa as tendências de oposição, abertas e veladas, nas culturas populares” (DOWNING, 2002, p. 33). Disso decorre que a mídia radical tem suas raízes na cultura popular, fenômeno contraditório que pode abarcar posições progressistas ou reacionárias. Leonardo Feltrin Foletto (2018) aponta que o conceito de mídia radical parte do mesmo pressuposto do conceito gramsciano de hegemonia, e que essa origem em comum faz com que mídia radical e mídia alternativa sejam comumente referidas como sinônimos. O próprio John Downing faz uso do termo “mídia radical alternativa” e justifica o acréscimo do termo “radical” 35 ao conceito pois, sem o complemento, não haveria necessariamente uma comunicação contra- hegemônica, segundo o autor. Este é um dos pontos definidores do que Downing entende por mídia radical alternativa e que, junto a outras nove características, a diferencia da mídia hegemônica (2004, p. 27). Em um desses pontos, o autor assinala que [...] o contexto e as consequências [da comunicação] devem ser nossos principais guias ao que pode ou não pode ser definido como mídia radical alternativa. As fronteiras são quase sempre indistintas. Toda tecnologia utilizada pelos ativistas da mídia radical é e sempre foi empregada principalmente para propósitos convencionais, não para os seus próprios (DOWNING, 2004, p. 28). Não buscamos aqui submeter nosso objeto de pesquisa a uma lista de checagem, pois tal procedimento foge à investigação proposta. Trata-se de, a partir de alguns dos dez pontos colocados pelo autor, entender o caráter mais amplo da mídia radical alternativa e, em certos casos, tensionar algumas das características oferecidas por Downing com outros conceitos de comunicação que não a de referência. 3.2 Midiativismo enquanto ação contra-hegemônica Realizada a breve radiografia sobre o conceito de mídia radical, que não é categorizada apenas pelo conteúdo midiático final, mas também pelo processo necessário para se chegar a ele, concordamos com Foletto (2018, p. 101) quando afirma que entre os conceitos de mídia alternativa, mídia livre, mídia tática, midiativismo e mídia radical, este último é o mais abrangente de todos. Isso se dá pois a mídia radical segundo Downing vai além do que tradicionalmente se entende como mídia e abarca as chamadas mídias práticas, como o teatro, o grafite, e diversas expressões artísticas e culturais. Dada a amplitude do conceito e a importância dos movimentos sociais para a mídia radical de Downing, Braighi e Câmara (2018) justificam a especificidade do midiativismo, ainda que admitam que todas essas terminologias apresentam barreiras muito frágeis entre si. Os autores apontam que uma característica que se aproxima do midiativismo – mesmo que não o contemple inteiramente – é o que Alice Mattoni (2013) chama de actvism through media, que “alude em como cada ativista usa as mídias de maneira diferente para atingir seus objetivos e servir aos seus movimentos (dos quais faz parte, efetivamente ou não), com ações que extrapolam as redes sociais e ganham as ruas” (BRAIGHI; CÂMARA, 2018, p. 31). 36 Midiativismo só se faz com midiativistas, sujeitos portadores de uma vontade solidária, que empreendem ações diretas transgressivas e intencionais, e veem as próprias capacidades de intervenção social, antes localizadas, sendo potencializadas. Isso, por meio de um registro midiático que visa necessariamente amplificar conhecimento, espraiar informação, marcar presença, empreender resistência e estabelecer estruturas de defesa (BRAIGHI; CÂMARA, 2018, p. 36). Segundo os autores, para entender midiativismo enquanto conceito, “o mais importante, afinal, é o comportamento do sujeito” (BRAIGHI; CÂMARA, 2018, p. 40) que seria o midiativista. E na mesma linha de raciocínio, de acordo com ambos, a postura midiativista está mais ligada ao indivíduo do que a instituições, coletivos e outros grupos dos quais ele faz ou não parte. Há aqui uma compreensão do midiativista a partir de um viés horizontalista ou autonomista bastante evidente, que pretendemos discutir em momento à parte neste trabalho no capítulo “Coletivo em rede de comunicadores marxistas no brasil: sínteses entre autonomismo e centralismo”. Interessa refletir sobre a atividade dos comunicadores marxistas brasileiros enquanto possíveis midiativistas, já que, em um primeiro momento, o lugar de sujeitos transgressores que ultrapassa a dinâmica coletiva se destaca a esses atores. As entrevistas em profundidade apontaram, de forma mais ou menos explícita, para práticas midiativistas engendradas por pelo menos uma parte dos comunicadores marxistas. E também reforça uma perspectiva crítica à denominação, já que a dicotomia entre militância e ativismo se faz presente em suas atividades. Braighi e Câmara (2018, p. 39) afirmam que midiativismo “é o que se faz dele, desde que não se perca de vista o propósito de mudança social, o efetivo envolvimento e que se mantenha a transgressão solidária como norte”. Estamos de acordo com tal definição e também com o trabalho realizado pelos pesquisadores para a diferenciação entre os conceitos e demarcação do midiativismo. Todavia, ao mesmo tempo em que importa a demarcação de conceitos, igualmente importante é o entendimento dos processos da comunicação contra- hegemônica ou outros nomes. Peruzzo (2018) é quem novamente traz essa perspectiva, ao tratar sobre o conceito de midiativismo. As configurações do midiativismo são complexas porque são multifacetadas e plenas de criações e interfaces. Mais do que etiquetar iniciativas com denominações rígidas e estabelecer fronteiras, por um lado, entre meios tradicionais de comunicação apropriados ou recriados no midiativismo (os impressos, sonoros, audiovisuais) e aqueles ancorados na Internet e, por outro lado, entre presencial e online, o importante é entender o fenômeno no seu conjunto, até porque atividades sociocomunicativas nesses “mundos” se confundem por suas intersecções na vida diária, nas práticas sociais e no âmbito das convergências tecnológicas (PERUZZO, 2018, p. 57). 37 De acordo com a pesquisadora, o midiativismo desenvolve-se, modifica-se e é ampliado com o advento de novas tecnologias da informação e comunicação, ainda que o processo não se resuma a esse aspecto. Peruzzo (2018, p. 54) ainda apresenta o midiativismo como um fenômeno que pode ser personalizado e baseado em iniciativas individuais, mas que também pode fazer parte de estratégias de movimentos sociais populares, interpretação que se distingue daquela trazida por Braighi e Câmara, da postura midiativista estar mais relacionada ao indivíduo. Entendemos que o midiativismo como conceito privilegia os aspectos subjetivos da mobilização, com papel central do sujeito midiativista. Não pretendemos rechaçar a ideia de Peruzzo sobre o termo, já que, em boa medida, midiativismo depende dos diferentes usos que se faz dele. Mas concordamos com Mazetti (2018), fundamentado no trabalho de Cardon e Granjon (2010), quando afirma que “as ações de midiativismo não estão baseadas em estruturas organizacionais facilmente identificáveis” (MAZETTI, 2018, p.88), como comunidades, partidos, sindicatos, entre outras organizações construídas coletivamente. De acordo com o autor, as ações de midiativismo desconfiam do papel político das instituições e “surgem em uma forma de atuação individualizada” (MAZETTI, 2018, p. 88). Cardon e Granjon (2010) identificam uma transformação da corrente expressivista no século XXI, em que o modelo participativo desenvolvido nas décadas de 1970 e 1980 dá lugar a um modelo individualista, afirmativo e radical de livre expressão, que, por sinal, conquista um papel central no Movimento de Ação Global dos Povos e manifestações posteriores, como o Ocuppy Wall Street. De acordo com os autores, é possível identificar uma “[...] valorização exacerbada dos diferentes estados do sujeito (o seu corpo, a sua subjetividade, a sua autonomia) patente no midiativismo” (CARDON; GRANJON, 2003, n. p.), o que demonstra uma incorporação mais profunda da tradição anarquista nas políticas culturais da extrema esquerda. O caráter autonomista da comunicação da esquerda radical citada pelos autores enquanto política cultural é um ponto de interesse neste trabalho, e é abordado no capítulo “Coletivo em rede de comunicadores marxistas brasileiros: sínteses entre autonomismo e centralismo”. A partir das premissas aqui trazidas a respeito da caracterização e generalização do midiativismo como ação calcada fortemente em bases anarquistas ou neo-anarquistas, pode- se esboçar sínteses entre a tendência horizontalista típica de movimentos de cultura e a centralização para unidade de ação militante. Consideramos que este simples esboço se faz necessário na atual conjuntura histórica e é de suma importância para a tentativa de compreensão da comunicação marxista brasileira em redes digitais. 38 3.3 Comunicadores como produtores A partir de reapropriações sobre a obra de Gramsci, especialmente por parte da corrente teórica dos Estudos Culturais, o conceito de hegemonia passa por transformações importantes. Muitas delas têm por objetivo o rompimento com certa interpretação mecanicista conduzida por um marxismo dogmático, que enxergava a cultura como mero artefato submetido à infraestrutura – as consequências desse rompimento para o entendimento sobre a cultura serão melhor abordadas no capítulo “Comunicação marxista em midiatização: o lugar das representações identitárias”. Como consequência, o movimento de compreensão de que o estudo da comunicação e cultura é mais amplo que a crítica da instrumentalização ideológica própria do dogmatismo mecanicista alça a comunicação à categoria de força produtiva. No entanto, antes de aprofundar as elaborações sobre a comunicação como meio de produção e sobre os comunicadores como produtores, gostaríamos de ressaltar que mesmo esse esforço de superação da instrumentalização, do dogmatismo e do mecanicismo não está imune a certos reducionismos, e pode se mostrar alheio às contradições entre capital e trabalho na atual conjuntura global. Para que fique mais claro, tomemos o exemplo de Matteo Pasquinelli quando trata dos meios de comunicação como meios de produção: O que está realmente em jogo é desmantelar uma das máquinas econômicas que sustentam o capital do pensamento único. Em termos marxistas, o objetivo é reapropriar-se dos meios como meios de produção, ao invés de meios de representação: como meios de produção econômica, produção da imagem do mundo, produção de necessidades e desejos. Por fim, é necessário abrir um debate sobre o trabalho da comunicação, seguindo o caminho do pós-operaísmo que introduziu o conceito de trabalho imaterial e cognitivo. O esnobismo dos intelectuais italianos em relação à máquina, aos meios, à tecnologia, talvez seja típico da esquerda "latina", centrada no trabalho das mãos dos trabalhadores, muito distante daquele Fragmento sobre as máquinas no qual Marx incorporou na tecnologia o potencial libertador do Intelecto Geral (PASQUINELLI, 2002, n.p., tradução nossa).7 Não há nada com que discordemos em relação à primeira metade do excerto de Pasquinelli pois, como argumentaremos mais à frente, o papel atual dos meios de comunicação 7 Lo que verdaderamente está en juego es lograr desarticular una de las máquinas económicas que sostienen el capital del pensamiento único. Marxianamente hablando, el objetivo es reapropiarse de los medios en cuanto medios de producción, antes que medios de representación: en cuanto medios de producción económica, producción de la imagen del mundo, producción de necesidades y deseos. Finalmente, es necesario abrir un debate sobre el trabajo de la comunicación, siguiendo el cauce del post-operaismo que ha introducido el concepto de trabajo inmaterial y cognitivo. El esnobismo de los intelectuales italianos respecto a la máquina, a los medios, a la tecnología, quizás es típico de la izquierda "latina", concentrada en el trabajo de las manos de los obreros, muy lejos de aquel Fragmento sobre las máquinas en el cual Marx encarnaba en la tecnología el potencial de liberación del General Intellect. 39 supera gradativamente a ideia de que a comunicação se trata de mera ferramenta submetida às forças econômicas de produção. Por outro lado, a defesa do autor do chamado pós-trabalho oculta as tensões de classe e ignora a dinâmica atual de proletarização do segmento intelectualizado. E se ainda nos propuséssemos a tensionar o perfil intelectual, poderíamos nos referir a este segmento como também todo aquele que somente executa mecanicamente tarefas vinculadas ao que se chama de trabalho imaterial, e não apenas os catedráticos e trabalhadores que dependem fortemente do ócio criativo para a produção. A referência a Marx proposta por Pasquinelli se baseia justamente no aspecto mais datado da obra marxiana, além de ignorar a conjuntura muito própria do período entre revoluções industriais em que o Fragmento sobre as máquinas foi escrito. O sugerido retorno a Marx apenas evidencia a interpretação reducionista em termos tecnológicos que o autor realiza sobre o conceito da comunicação como produção e, consequentemente, do comunicador como produtor – que se aproxima, em termos, do que entendemos por midiativista. Mazetti, ao discutir essa interpretação de Pasquinelli, afirma que “o midiativismo caracteriza-se, assim, pelo menos em seus primeiros momentos, por uma boa dose de tecnofilia, em que o mais importante está na própria mídia e não no seu conteúdo” (MAZETTI, 2018, p. 89). Este exemplo é bastante didático para o nosso argumento de que, mesmo que o comunicador como produtor – que entendemos como um ator muito próximo do midiativista – esteja fundamentado sob os preceitos da autogestão, do horizontalismo e da experimentação, não há nenhuma garantia de que sua práxis não será instrumentalizada a partir de facetas aparentemente libertárias. Entendemos que o reducionismo tecnológico dessa interpretação não é apenas um desvio de percurso, mas uma consequência muito comum decorrente da sobreposição do viés individualista do midiativista em relação ao entendimento coletivo do comunicador como produtor. Feita essa ressalva, pode-se qualificar o debate sobre os meios de comunicação como meios de produção a partir de referenciais críticos e diversos. Trabalhando esse pressuposto, Manoel Dourado Bastos e Felipe Canova Gonçalves (2015) recorrem à famosa definição de Raymond Williams em seu texto Meios de comunicação como meios de produção: Como uma questão de teoria geral, é útil reconhecermos que os meios de comunicação são, eles mesmos, meios de produção. É verdade que os meios de comunicação, das formas físicas mais simples da linguagem às formas mais avançadas da tecnologia da comunicação, são sempre social e materialmente produzidos e, obviamente, reproduzidos. Contudo, eles não são apenas formas, mas meios de produção, uma vez que a comunicação e os seus meios materiais são intrínsecos a todas as formas distintamente humanas de trabalho e de organização social, constituindo-se assim em 40 elementos indispensáveis tanto para as forças produtivas quanto para as relações sociais de produção (WILLIAMS, 2011, p. 69). O autor aponta três bloqueios ideológicos que obscureceriam a visão de que os meios de comunicação são também meios de produção. A primeira postura ideológica que, nas palavras de Williams, seria “profundamente burguesa”, é a de enxergar a comunicação apenas como dispositivo de transmissão de mensagens entre emissores e receptores, em que as pessoas são abstraídas do processo comunicativo (WILLIAMS, 2011, p. 70). A segunda postura burguesa, para Williams, é aquela que separa os meios de comunicação “naturais” dos “tecnológicos”; ou seja, a comunicação cotidiana e a comunicação de massas – termo criticado pelo autor, que supostamente esconderia as variações entre diferentes tipos de comunicação eletrônica. A terceira postura ideológica vista como obstáculo pelo autor é aquela comum ao marxismo e que lança mão do conceito de comunicação de massa. O obstáculo seria a separação abstrata que esse marxismo promoveria entre os meios de comunicação e os meios de produção; separação que seria promovida a partir de “formulações mecânicas da base e da superestrutura” (WILLIAMS, 2011, p. 73). Sob essas interpretações, a comunicação seria um processo secundário frente às determinações materiais de produção. Buscando compreender a comunicação do ponto de vista histórico universal, Williams afirma o novo papel e a nova importância dos meios de comunicação como meios de produção social no século XX, onde, na totalidade da produção econômica, a comunicação “alcançou um lugar qualitativamente diferente em relação à – mais estritamente, em proporção à – produção em geral” (WILLIAMS, 2011, p. 73). Williams, assim como grande parte dos marxistas ingleses de sua época, critica e rechaça as categorias de infraestrutura e superestrutura, elaborações marxianas adotadas por Gramsci. Neste trabalho escolhemos utilizar as categorias referidas, estando cientes das críticas sobre a possível instrumentalização advinda desse uso. Compreendemos que a nossa interpretação sobre a comunicação, registrada e defendida aqui como algo para além de mero artefato mercadológico, é suficiente ante a possíveis apontamentos sobre mecanicismo. Dessa forma, descartamos qualquer incoerência entre o uso das categorias e a abordagem da comunicação como meio de produção social, tal como colocada por Williams, com a qual concordamos. Ao sair em defesa da construção de uma história da produção comunicativa, Williams destaca as contradições históricas presentes em monopólios capitalistas de radiodifusão e os avanços técnicos, sempre contraditórios, que permitem o acesso a tecnologias antes inviáveis 41 financeiramente. O autor coloca que, partindo da perspectiva socialista, os meios de comunicação autônoma – e estendemos aqui para a comunicação contra-hegemônica – “podem ser vistos não apenas como alternativos para os sistemas centrais amplificadores e duráveis dominantes, [...] mas na perspectiva do uso comunitário democrático” (WILLIAMS, 2011, p. 78). A partir da premissa de que a comunicação também deve ser entendida como meio de produção – e, portanto, como produtora de desigualdades –, Bastos e Gonçalves reforçam que é justamente esse caráter da comunicação que abre a possibilidade da luta contra-hegemônica, que deve ir além da simples ocupação de espaços hegemônicos por atores contra-hegemônicos, buscando a criação de novas possibilidades comunicativas autônomas. Essas possibilidades de criação autônoma, em Williams, estão vinculadas à construção da contra-hegemonia socialista. Para o autor, o socialismo não representa apenas A recuperação geral das capacidades humanas especificamente alienadas, mas também, e de modo muito mais decisivo, a instituição necessária para capacidades e relações de comunicação novas e bastante complexas. Ele é, sobretudo, uma produção de novos meios (novas forças e novas relações) de produção em uma parte central do processo material social; e por esses novos meios de produção, é uma realização mais avançada e mais complexa das relações produtivas decisivas entre comunicação e comunidade (WILLIAMS, 2011, p. 86). As implicações desse entendimento da comunicação como meio de produção social se estendem ao papel dos comunicadores (e, em nosso trabalho, dos comunicadores marxistas): “Se os meios de comunicação devem mesmo ser compreendidos como meios de produção, então é o caso de entender o comunicador como produtor, para nos inspirarmos em Walter Benjamin” (BASTOS; GOLÇALVES, 2015, p. 15). Os autores se referem ao texto de Benjamin, O autor como produtor, que é resultado de conferência realizada pelo autor para estudos sobre o fascismo nos anos 30. Gostaríamos de nos deter sobre esse escrito e considerar muitas de suas implicações para uma interpretação de nosso objeto, tendo em vista o enorme deslocamento histórico de espaço e tempo. Walter Benjamin baseia sua argumentação a partir da dicotomia entre forma e conteúdo. O autor discute primeiramente a dicotomia entre tendência, que é o conteúdo político de uma produção simbólica, e qualidade, que diz respeito ao nível estético da mesma produção. O autor é crítico a essa discussão que, em sua visão, muitas vezes se mostra estéril. Para lidar dialeticamente com essa questão, o autor demarca a “interdependência funcional que existe sempre entre a tendência política correta e a técnica literária progressista” (1987, p. 123), e 42 destaca que toda boa tendência política engloba um alto nível estético de qualidade de um bem simbólico. Benjamin cita a técnica literária pois seu principal exemplo do intelectual como produtor é a partir da atividade de escrita na imprensa, caracterizada por ele como instância decisiva ao trabalho intelectual de sua época. O autor considera que é preciso cautela na análise do intelectual como produtor em sua realidade uma vez que, ao contrário da forma de organização da imprensa na União Soviética naquele momento, a imprensa da Europa Ocidental era um instrumento pertencente ao capital. O exemplo trazido por Benjamin abrange o grupo dos intelectuais alemães de esquerda, que sob a pressão das circunstâncias econômicas, experimentou, ao nível das opiniões, um desenvolvimento revolucionário sem, no entanto, poder pensar de um ponto de vista realmente revolucio