GUSTAVO HENRIQUE PEREIRA DA SILVA TENDÊNCIAS E OCORRÊNCIAS DE EPISÓDIOS EXTREMOS CLIMÁTICOS EM PRESIDENTE PRUDENTE (SP) PRESIDENTE PRUDENTE 2024 GUSTAVO HENRIQUE PEREIRA DA SILVA TENDÊNCIAS E OCORRÊNCIAS DE EPISÓDIOS EXTREMOS CLIMÁTICOS EM PRESIDENTE PRUDENTE (SP) Tese apresentada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente, para obtenção do título de Doutor em Geografia. Área de concentração: Produção do espaço geográfico. Linha de pesquisa: Dinâmicas da Natureza Orientadora: Profa. Dra. Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim PRESIDENTE PRUDENTE 2024 S586t Silva, Gustavo Henrique Pereira da Tendências e ocorrências de episódios extremos climáticos em Presidente Prudente (SP) / Gustavo Henrique Pereira da Silva. -- Presidente Prudente, 2024 281 p. : il., tabs., fotos, mapas Tese (doutorado) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente Orientadora: Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim 1. Clima urbano. 2. Eventos climáticos extremos. 3. Índices climáticos. 4. Mudanças climáticas. 5. Jornalismo ambiental. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Tecnologia, Presidente Prudente. Dados fornecidos pelo autor(a). Essa ficha não pode ser modificada. AGRADECIMENTOS Meu percurso no doutorado, iniciado em 2020, foi marcado por diversas etapas, durante as quais muitas pessoas que contribuíram não apenas para a realização desta pesquisa, mas também para a minha formação pessoal. Embora muitas vezes se pense que o conhecimento é um esforço solitário – e, em muitos momentos, ele realmente é -, percebe-se o quanto ele também é uma partilha coletiva. Gostaria de agradecer primeiramente à minha família por todo o apoio e amor. Em especial, agradeço à minha mãe Gê, à minha tia Creusa, ao meu irmão Bruno, ao meu pai Ademar, e a todos os demais familiares que estiveram ao meu lado em vários momentos. À Margarete Amorim, pela parceria, orientação e conselhos. Sempre lembrarei com orgulho a honra que foi desenvolver este trabalho sob a orientação de uma profissional generosa, atenciosa e presente. Um agradecimento especial a Angela e Eusébio, amigos que foram meu suporte durante grande parte da pandemia da Covid-19. Às amigas e amigos de sempre pelo companheirismo (em ordem alfabética): Arnaldo, Augusto, Bruno Lucas, Evelyn, Fernando Henrique, Glenda, Guilherme Sousa, Húrbio, Isabeli, João, Lucas, Manu, Mateus, Monique, Rafaela, Raisa e Will. Agradeço também aos companheiros de Unesp e de Presidente Prudente que tornaram esse período mais leve: Aline Lima, Ana, Danielle, Eduardo, Giovan, Giovanna, Guilherme Santana, Jana, Jandira, Laís, Luis Flavio, Luiz Fernando, Lidiana, Magno, Nayara, Paulo, Rizia e Victoria. A Maxime, Catherine, Marion, Laura, Erika, Kevin e Betty, por serem minha família na França e por me apresentarem as belezas da Bretanha. Agradeço também aos brasileiros que conheci durante minha estadia na França. Ao Professor Vincent Dubreuil, pelo acolhimento na Université Rennes 2 e no laboratório LETG. A todos os membros do laboratório pelas trocas e acolhimento, especialmente a Charlotte Brabant, Daria, Larissa Zezzo, Gabriela Goudard, Alexandra Chelu, Yingli, Ramiro e Roza. Ao grupo de pesquisa GAIA, pelas trocas, amadurecimento e reflexões compartilhadas. Deixo um abraço a todos os membros. Aos professores Tadeu Tommaselli e Edilson Flores, por terem participado da banca de qualificação e por todas as contribuições e apontamentos. Aos professores da FCT/UNESP, que contribuíram para minha formação acadêmica. Aos servidores e técnicos administrativos da Unesp, que facilitaram a realização desta pesquisa de diversas formas, com agradecimento especial à Tamae, Adriano e à equipe da Seção Técnica de Pós-Graduação. Gostaria também de destacar os antigos funcionários e estagiários da estação meteorológica da Unesp, cuja trabalho permitiu que a estação convencional permanecesse ativa por décadas, coletando e registrando dados que são fundamentais para nossas pesquisas. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio financeiro concedido por meio do Processo nº 2020/14778-7. À CAPES, pela concessão de bolsa de pesquisa (88887.650631/2021-00), o que me permitiu realizar o estágio sanduíche no exterior. O que define a cidade senão sua própria irregularidade? Como almejar uma cidade saudável quando as desigualdades entre nós só aumentam? A estética é supervalorizada em um planejamento que existe e defende uma lógica para poucos. A cidade espelha nossas próprias vidas: o que dizer de um espaço que encara a natureza como adversária, que vê o pobre a sua margem e valoriza o belo mais pela aparência do que pela sua funcionalidade? As construções urbanas não são nada além de manifestações de diferenciação social, um emaranhado de concreto que esconde por trás de suas fachadas as neuroses, desconfortos e sorrisos de seus habitantes. Os rios, escondidos sob camadas de urbanização, emergem em tempos extremos para nos lembrar que, apesar de os darmos as costas, eles ainda existem. (Gustavo Silva, elaboração própria, 2024) RESUMO Os extremos climáticos de temperatura e precipitação têm sido objeto de estudo por inúmeros pesquisadores em todo o mundo. Essas análises frequentemente utilizam técnicas estatísticas e integram aspectos socioambientais para oferecer projeções, avaliações e relações com os impactos que podem afetar diferentes setores da sociedade. O IPCC prevê em seu 6º relatório um aumento significativo na ocorrência de extremos de temperatura e de precipitação, projetando quatro vezes mais extremos climáticos até 2100. Essas questões são particularmente relevantes para as áreas urbanas, que não só concentram a maior parcela da população, mas também apresentam fatores geoambientais e urbanos que exacerbam os extremos e potencializam os efeitos do clima urbano, inserindo então esses espaços no centro das preocupações ambientais e na agenda climática. Com base nisso, o presente trabalho apresentou a hipótese de que há tendência de aumento na ocorrência de extremos climáticos de temperatura do ar e precipitação em Presidente Prudente (SP), e que na escala urbana, isso poderia estar associado às alterações no uso e ocupação da terra, bem como às alterações nas escalas superiores do clima. O objetivo geral foi avaliar a ocorrência de extremos climáticos, de modo a identificar os episódios mais intensos e suas possíveis repercussões na superfície em Presidente Prudente. A abordagem teórica e metodológica adotada foi o Sistema Clima Urbano, tendo em vista a produção do espaço e a interpretação de eventos/episódios extremos sob uma perspectiva geográfica do clima. Foram adquiridos 50 anos de dados meteorológicos de temperaturas máxima (TX) e mínima (TN) da estação meteorológica do INMET, abrangendo o período de 1971 a 2020, para a construção da série histórica. Os dados foram processados usando o aplicativo RHtests para verificar rupturas, e foram gerados 19 índices climáticos por meio do aplicativo ClimPACT, os quais foram submetidos aos testes de Mann-Kendall e Sen Slope. A análise dos índices indicou aumento na frequência de temperaturas máximas e mínimas elevadas ao longo do período de referência. Em relação à precipitação, embora os índices não tenham atingido significância estatística, apontaram para tendências de aumento na maioria das variáveis, o que corrobora a hipótese norteadora da pesquisa. Observou-se um aumento na veiculação de notícias sobre impactos climáticos a partir da década de 1990. No que diz respeito aos impactos pluviais, durante o recorte temporal de 2011 a 2020 e com base nos gráficos de análise rítmica, identificaram-se as frentes frias como o principal sistema atmosférico responsável pelos acumulados pluviométricos observados em extremos de chuva. Houve uma concentração de impactos na extensão do Parque do Povo e no setor norte da cidade, caracterizado por bairros populares e população com maiores índices de exclusão social. Destacou-se a importância das formas de comunicação empregadas pelos veículos de mídia, uma vez que a percepção e compreensão da natureza dos riscos, especialmente pelas populações mais afetadas, dependem da forma de apresentação e abordagem dessas informações. Espera- se que os resultados desta pesquisa contribuam para a proposição de medidas de adaptação ao ambiente urbano e para o avanço teórico e metodológico dos estudos de climatologia em cidades de médio porte em ambientes tropicais continentais. Palavras-chave: Clima urbano; Eventos climáticos extremos; Índices climáticos; Mudanças climáticas; Jornalismo ambiental. ABSTRACT Climate extremes of temperature and precipitation have been the subject of study by numerous researchers worldwide. These analyses often employ statistical techniques and integrate socio- environmental aspects to offer projections, assessments, and relationships with impacts that may affect various sectors of society. In its 6th report, the Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) forecasts a significant increase in the occurrence of temperature and precipitation extremes, projecting four times more climate extremes by 2100. These issues are particularly relevant for urban areas, which not only concentrate the majority of the population, but also exhibit geo-environmental and urban factors that exacerbate extremes and amplify the effects of the urban climate, placing these spaces at the forefront of environmental concerns and the climate agenda. Based on this, the present study hypothesized an increasing trend in the occurrence of air temperature and precipitation extremes in Presidente Prudente/São Paulo (SP). At the urban scale, this could be associated with changes in land use and occupation, as well as alterations in larger-scale climate patterns. The general objective was to evaluate the occurrence of climate extremes to identify the most intense episodes and their possible repercussions on the surface in Presidente Prudente. The theoretical and methodological approach adopted was the Urban Climate System, considering the production of space and the interpretation of extreme events/episodes from a geographical climate perspective. Fifty years of meteorological data on maximum (TX) and minimum (TN) temperatures from the INMET weather station, covering the period from 1971 to 2020, were acquired to construct the historical series. The data were processed using the RHtests application to verify breaks, and 19 climate indices were generated using the ClimPACT application. These indices were subjected to Mann-Kendall and Sen Slope tests. The analysis of the indices indicated an increase in the frequency of high maximum and minimum temperatures over the reference period. Regarding precipitation, although the indices did not reach statistical significance, they showed increasing trends in most variables, supporting the guiding hypothesis of the research. An increase in news coverage about climate impacts was observed from the 1990s onward. Concerning rainfall impacts, during the 2011-2020 period and based on rhythmic analysis graphs, cold fronts were identified as the primary atmospheric system responsible for the observed rainfall extremes. There was a concentration of impacts in the Parque do Povo area and the northern sector of the city, characterized by popular neighborhoods and higher levels of social exclusion. The importance of communication methods employed by media outlets was highlighted, as the perception and understanding of risk nature, especially by the most affected populations, depend on how this information is presented and addressed. It is hoped that the results of this research will contribute to the proposal of adaptation measures to the urban environment and the theoretical and methodological advancement of climatology studies in medium-sized cities in tropical continental environments. Keywords: Urban climate; Extreme weather; Climate indices; Climate Change; Environmental journalism. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - População urbana e rural do mundo (1950-2030) ............................................. 19 Figura 2 - Escalas Geográficas do clima (tempo longo e tempo curto) .............................. 22 Figura 3 - Distribuições de probabilidade de temperatura diária e precipitação .................. 39 Figura 4 - Localização de Presidente Prudente no Estado de São Paulo ............................. 48 Figura 5 - Grau de urbanização do município de Presidente Prudente (SP) (1991 – 2025) ... 49 Figura 6 – Trajetos preferenciais das massas de ar que atingem o Oeste do Estado de São Paulo .................................................................................................................................. 50 Figura 7 – Anos de registro de El Niño, La Niña de 1971 – 2023 ..................................... 54 Figura 8 – Síntese dos tipos de climas no Brasil a partir das frequências dos TCA ............. 55 Figura 9 – Climograma de Presidente Prudente (SP) (1971 – 2020) .................................. 56 Figura 10 – Mapa de Hipsometria da área urbana de Presidente Prudente (SP) .................. 57 Figura 11 – Mapa de declividade da área urbana de Presidente Prudente (SP) .................... 59 Figura 12 – Mapa de exposição das vertentes da área urbana de Presidente Prudente (SP) .. 60 Figura 13 – Localização da estação meteorológica do INMET/A707 e a evolução do tecido urbano da cidade de Presidente Prudente (SP) ................................................................. 64 Figura 14 – Potenciais zonas climáticas locais (LCZ) em Presidente Prudente ................... 67 Figura 15 – Execução do Teste de Mann-Kendall no programa “R”.................................. 78 Figura 16 – Visualização de imagem de satélite GOES 16 e carta sinótica de superfície ..... 85 Figura 17 – Evolução das temperaturas mínimas e máximas absolutas por estação do ano (1971 – 2020) ....................................................................................................................... 89 Figura 18 - Contagem anual de dias em que TN > 20° (TR20) e TX ≥ 30°C (TXge30) em Presidente Prudente (SP) (noites tropicais e dias quentes) ................................................. 90 Figura 19 - Contagem sazonal de dias em que TN > 20 °C (TR) e TX ≥ 30 °C (TXge30) em Presidente Prudente (SP) (noites tropicais e dias quentes) ................................................. 93 Figura 20 - Número de dias anuais com temperaturas máximas iguais ou superiores a 35°C em Presidente Prudente (SP) (dias de verão) ........................................................................ 94 Figura 21 - Número de dias sazonais com temperaturas máximas iguais ou superiores a 35°C em Presidente Prudente (SP) (dias de verão) ................................................................... 95 Figura 22 - Normal climatológica do Brasil de 1991 a 2020. Umidade relativa do ar compensada e nebulosidade mensal para os meses de setembro e janeiro ........................... 96 Figura 23 – Porcentagem anual de dias quando TX > 90p e TN > 90p em Presidente Prudente (SP) (1971 – 2020) ....................................................................................................... 98 Figura 24 – Porcentagem anual de dias quando TX < 10p e TN < 10p em Presidente Prudente (SP) (1971 – 2020) ....................................................................................................... 99 Figura 25 - Índices de CSDI (OdF) e WSDI (OdC) para Presidente Prudente (SP) ........... 102 Figura 26 – Precipitações anuais em Presidente Prudente e classificação em anos padrão (1971 a 2020), através da técnica dos quantis ......................................................................... 106 Figura 27 – Gráfico de BoxPlot contendo a variação dos valores mensais de precipitação em Presidente Prudente (SP), no período de 1971 – 2020 .................................................... 107 Figura 28 - Gráfico de BoxPlot contendo a variação dos valores sazonais de precipitação em Presidente Prudente (SP), no período de 1971 – 2020 .................................................... 109 Figura 29 - Intensidade diária das chuvas anuais (SDII) em Presidente Prudente (SP) ....... 110 Figura 30 – Dias secos consecutivos úmidos (Cwd) e secos (Cdd) em Presidente Prudente (SP) (1970 – 2020) ............................................................................................................ 111 Figura 31 – Máximo de chuva registrado em 24h (Rx1day) e em 5 dias consecutivos (Rx5day) entre 1971 e 2020....................................................................................................... 114 Figura 32 – Número máximo de dias com precipitação ≥ 20mm em Presidente Prudente (SP) (1971 – 2020) ............................................................................................................ 115 Figura 33 – Número máximo de dias com precipitação ≥ 30mm em Presidente Prudente (SP) (1971 – 2020) ............................................................................................................ 116 Figura 34 – Percentis para eventos extremos de chuva em Presidente Prudente (SP)......... 116 Figura 35 – Chuvas intensas (R95p) em Presidente Prudente (SP) .................................. 118 Figura 36 – Chuvas extremas (R99p) em Presidente Prudente (SP) ................................. 119 Figura 37 – Localização do Parque do Povo em Presidente Prudente (SP) ...................... 122 Figura 38 - Número de eventos extremos de chuva (R95p; R99p) e quantidade de notícias e impactos identificados nos jornais ............................................................................... 123 Figura 39 - Número de eventos extremos de chuva por década em Presidente Prudente (SP) ................................................................................................................................ 124 Figura 40 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 28 de fevereiro de 2011 ........ 128 Figura 41 – Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 14 de janeiro de 2012 ........... 130 Figura 42 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 17 de dezembro de 2012 ....... 132 Figura 43 - Editorial publicado em 18 de dezembro de 2012 .......................................... 133 Figura 44 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 21 de abril de 2012 ............... 135 Figura 45 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 12 de maio de 2012 .............. 135 Figura 46 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 21 de setembro de 2012 ........ 137 Figura 47 - Notícias relacionadas aos episódios extremos de 02 e 05 de abril de 2013 ...... 139 Figura 48 - Notícias relacionadas ao episódio extremo de 04 novembro de 2014 .............. 140 Figura 49 - Notícia relacionada ao episódio extremo de 04 dezembro de 2014 ................. 142 Figura 50 – Impactos reportados sobre o episódio extremo de 04 dezembro de 2014 ........ 143 Figura 51 – Notícias relacionadas aos episódios extremos dos dias 17 e 19 de fevereiro de 2015 ................................................................................................................................ 145 Figura 52 - Notícias relacionadas ao episódio extremo do dia 09 de outubro de 2015 ....... 145 Figura 53 - Notícias relacionadas ao episódio extremo do dia 31 de maio de 2015 ........... 147 Figura 54 - Notícias relacionadas ao episódio extremo do dia 31 de maio de 2015 ........... 149 Figura 55 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 26 de abril de 2016 ............... 151 Figura 56 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 31 de janeiro de 2017 ........... 153 Figura 57 –Impactos reportados sobre o episódio extremo do dia 31 de janeiro de 2017 ... 154 Figura 58 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 30 de outubro de 2017 .......... 155 Figura 59 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 28 de novembro de 2017 ....... 155 Figura 60 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 21 de maio de 2017 .............. 157 Figura 61 – Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 19 de fevereiro de 2018 ........ 159 Figura 62 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 20 de setembro de 2018 ........ 160 Figura 63 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 05 de janeiro de 2019 ........... 162 Figura 64 - Notícia relacionada ao episódio extremo de 13 de janeiro de 2020 ................. 165 Figura 65 - Impactos reportados sobre o episódio extremo do dia 13 de janeiro de 2020 ... 166 Figura 66 - Carta sinótica e imagem de satélite GOES 16 das 0h do dia 23 de janeiro de 2020 ................................................................................................................................ 167 Figura 67 - Notícia relacionada ao episódio extremo de 22 de fevereiro de 2020 .............. 168 Figura 68 - Carta sinótica e imagem do satélite GOES 16 das 12h do dia 27 de dezembro de 2020 ......................................................................................................................... 169 Figura 69 - Impactos reportados sobre o episódio extremo do dia 27 de dezembro de 2020 ................................................................................................................................ 169 Figura 70 - Notícia relacionada ao episódio extremo do dia 27 de dezembro de 2020 ....... 170 Figura 71 - Impactos reportados sobre o episódio extremo do dia 27 de junho de 2020 ..... 172 Figura 72 - Impactos reportados sobre o episódio extremo do dia 27 de junho de 2020 ..... 173 Figura 73 – Carta de ameaças (impactos) deflagradas por episódios extremos de chuva em Presidente Prudente (SP) entre 2011 e 2020 .................................................................. 178 Figura 74 - Carta do SoVI® da área urbana de Presidente Prudente (SP) ......................... 180 Figura 75 - Placa de sinalização de alagamentos em Presidente Prudente (SP) ................. 193 Figura 76 - Exemplo de alerta emitido pela Defesa Civil por SMS ................................. 194 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - População residente segundo faixas de população municipal em 2022 ............... 20 Tabela 2 – Exemplo de disposição dos dados climáticos para uso no ClimPACT ............... 73 Tabela 3 – Distribuição de frequências para Pr, utilizando quantis e percentis P15, P35, P65 e P85 para o cálculo de anos padrão ................................................................................. 79 Tabela 4 - Tendências anuais nos índices climáticos de temperatura do ar: teste de Mann– Kendall e inclinação de Sen (p-value ≤ 0,05 em negrito) .................................................. 88 Tabela 5 - Tendências de índices climáticos de precipitação em escala anual com o teste de tendências de Mann–Kendall e Inclinação de Sen. ......................................................... 104 Tabela 6 – Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2011 .................................................................................................................... 127 Tabela 7 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2012 ......................................................................................................................... 129 Tabela 8 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2012 ......................................................................................................................... 134 Tabela 9 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2013 ......................................................................................................................... 137 Tabela 10 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2013 ......................................................................................................................... 138 Tabela 11 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2014 .................................................................................................................... 140 Tabela 12 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2015 .................................................................................................................... 144 Tabela 13 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2015 ......................................................................................................................... 146 Tabela 14 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2016 .................................................................................................................... 148 Tabela 15 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2016 ......................................................................................................................... 150 Tabela 16 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2017 .................................................................................................................... 152 Tabela 17 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2017 ......................................................................................................................... 156 Tabela 18 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2018 .................................................................................................................... 158 Tabela 19 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2018 ......................................................................................................................... 160 Tabela 20 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2019 .................................................................................................................... 161 Tabela 21 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2019 ......................................................................................................................... 163 Tabela 22 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período chuvoso em 2020 .................................................................................................................... 163 Tabela 23 - Sistemas atmosféricos atuantes em extremos de precipitação no período seco em 2020 ......................................................................................................................... 171 Tabela 24 - Síntese dos sistemas instáveis em eventos extremos de chuva (2011-2020) .... 174 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Sistema Clima Urbano (SCU). Articulação dos subsistemas, segundo os canais de percepção .................................................................................................................... 33 Quadro 2 - Definição dos índices calculados sobre a temperatura do ar e precipitação para Presidente Prudente (SP) .............................................................................................. 74 Quadro 3 – Referência para a coleta de notícias em jornais .............................................. 82 Quadro 4 – Tipologia dos impactos associados aos episódios extremos de precipitação e temperatura do ar em Presidente Prudente (SP) ............................................................... 83 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AR6 – IPCC Sixth Assessment Report ASAS – Anticiclone semifixo do Atlântico Sul CCM – Complexo Convectivo de Mesoescala CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo CPTEC – Centro de Previsão do Tempo e Estudos climáticos Ec – Massa Equatorial Continental EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária ENOS – El Niño Oscilação Sul ETCCDI - Equipe de Especialistas em Detecção e Índices de Mudanças Climáticas ET-SCI – Equipe de Especialistas em Índices Climáticos FPA – Frente polar atlântica FE – Frente quente IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística GEE – Gases do Efeito Estufa ICU – Ilha de Calor Urbana INMET – Instituto Nacional de Meteorologia INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change; Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas IT – Instabilidade Tropical JBN – Jatos de Baixos Níveis LCZ – Zonas Climáticas Locais MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações MMA – Ministério do Meio Ambiente ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável OMM – Organização Meteorológica Mundial ONU – Organização das Nações Unidas Pa – Massa Polar Atlântica PBMC – Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Pt – Massa Polar Tropicalizada REP – Repercussão de frente SCU – Sistema Clima Urbano Ta – Massa Tropical Atlântica Tc – Massa Tropical Continentalizada TCA – Tipo Climático Anual UNFCCC – United Nations Framework Convention on Climate Change; Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima UN-HABITAT – Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” VCAN – Vórtice Ciclônico de Altos Níveis WCRP – Programa Mundial de Pesquisa do Clima ZCAS – Zona de Convergência do Atlântico Sul SÚMARIO 1 INTRODUÇÃO 19 1.2 Hipótese 24 1.3 Objetivos 24 1.3.1 Objetivo geral 24 1.3.2 Objetivos específicos 25 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 26 2.1 A cidade contemporânea: entre a sociedade, a natureza e o espaço urbano 26 2.2 Clima urbano enquanto perspectiva 29 2.3 Eventos e episódios climáticos extremos 37 2.4 O risco e a vulnerabilidade 43 3 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO 48 3.1 O clima de Presidente Prudente 49 3.2 Aspectos históricos e a produção do espaço urbano de Presidente Prudente 61 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 69 4.1 Aquisição de dados climáticos e construção da série histórica 70 4.2 Definição e geração dos índices climáticos 72 4.3 Definição dos percentis dos índices de temperatura do ar 76 4.4 Testes de Mann-Kendall e Sen's Slope como ferramentas para avaliar tendências em séries temporais 77 4.5 Classificação dos anos padrão 79 4.6 Impactos de episódios extremos pluviais e de temperatura do ar 80 4.7 Análise rítmica 84 5 ÍNDICES CLIMÁTICOS E EVENTOS EXTREMOS DE TEMPERATURA DO AR E PRECIPITAÇÃO EM PRESIDENTE PRUDENTE (SP) 87 5.1 Análise dos índices climáticos de temperatura do ar (TX e TN) 87 5.2 Índices climáticos de precipitação e valores extremos 103 5.2.1 Padrões de precipitação ao longo da série histórica (PRCPTOT; SDII; CDD; CDW; Rx1day; Rx5days) 104 5.2.2 Limites e percentis das chuvas em Presidente Prudente (R20mm; R30mm; R95p; R99p) 115 6 ANÁLISE DOS EPISÓDIOS EXTREMOS CLIMÁTICOS 120 6.1 Análise do ano de 2011 126 6.1.1 Período chuvoso – 2011 126 6.2 Análise do ano de 2012 128 6.2.1 Período chuvoso de 2012 129 6.2.2 Período seco de 2012 133 6.3 Análise do ano de 2013 137 6.3.1 Período chuvoso de 2013 137 6.3.2 Período seco de 2013 138 6.4 Análise do ano de 2014 139 6.4.1 Período chuvoso de 2014 139 6.5 Análise do ano de 2015 143 6.5.1 Período chuvoso de 2015 143 6.5.2 Período seco de 2015 146 6.6 Análise do ano de 2016 147 6.6.1 Período chuvoso de 2016 148 6.6.2 Período seco de 2016 149 6.7 Análise do ano de 2017 151 6.7.1 Período chuvoso de 2017 151 6.7.2 Período seco de 2017 156 6.8 Análise do ano de 2018 157 6.8.1 Período chuvoso de 2018 157 6.8.2 Período seco de 2018 159 6.9 Análise do ano de 2019 161 6.9.1 Período chuvoso de 2019 161 6.8.2 Período seco de 2019 162 6.10 Análise do ano de 2020 163 6.10.1 Período chuvoso de 2020 163 6.10.2 Período seco de 2020 170 6.11 Síntese dos episódios extremos climáticos 173 7 POLÍTICAS PÚBLICAS E ADAPTAÇÃO PARA AS CIDADES DE PORTE MÉDIO EM AMBIENTE TROPICAL 183 CONSIDERAÇÕES FINAIS 196 REFERÊNCIAS 201 APÊNDICE A – GRÁFICOS DE ANÁLISE RÍTMICA DE PRESIDENTE PRUDENTE PARA OS EVENTOS EXTREMOS DE PRECIPITAÇÃO DE 2011 A 2020 220 ANEXO A – NOTÍCIAS RELACIONADAS AOS EPISÓDIOS EXTREMOS DE CHUVA IDENTIFICADOS DE 2011 A 2020 268 As opiniões, hipóteses, conclusões e/ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a visão das agências de fomento mencionadas. 19 1 INTRODUÇÃO A crescente preocupação com as questões ambientais e sua inserção no âmbito político tem raízes em décadas passadas, coincidindo com o período de globalização neoliberal e o uso intensivo dos recursos naturais, durante o qual se "[...] denunciavam os riscos que a humanidade e o planeta passaram a correr em função de um modelo de desenvolvimento [...]" (Porto- Goncalves, 2006, p. 67) que não via limites para a intervenção humana. Deste modo, Leff (2011) argumenta que a poluição, a deterioração do ambiente e a crise dos recursos naturais emergiram nas últimas décadas do século XX como uma verdadeira crise de civilização, questionando as lógicas hegemônicas econômicas e tecnológicas. As cidades têm sido um dos principais focos para o engajamento nas preocupações ambientais e na agenda climática, especialmente no que diz respeito à reflexão sobre a qualidade ambiental, a ocorrência de extremos de temperatura e precipitação e sua manifestação por meio de impactos nas áreas urbanas (Di Giulio et al., 2019). Essas preocupações se materializam nas cidades, notadamente porque esses espaços concentram grandes parcelas da população humana. O Relatório Mundial das Cidades (UN- Habitat, 2022) revela que, do ponto de vista demográfico, o mundo continuará a se urbanizar, passando de uma população urbana que era de 56% em 2021 para cerca de 68% até o ano de 2050. Esse panorama demonstra uma tendência inegavelmente urbana para a humanidade, incluindo o Brasil e os demais países latino-americanos nessas condições (Figura 1). Figura 1 - População urbana e rural do mundo (1950-2030) Fonte: UN-Habitat (2022) 20 No Brasil, verifica-se uma concentração populacional na região Sudeste, que abriga 41,8% do total (IBGE, 2023), com a população urbana atingindo aproximadamente 93% (PNAD, 2016). Esse cenário é ainda mais expressivo no Estado de São Paulo, onde mais de 96% de população reside em áreas urbanas (SEADE, 2023). Estas áreas estão vulneráveis aos possíveis impactos de eventos climáticos extremos, decorrentes de uma série de alterações no ambiente natural. Entre elas, destacam-se a implantação de estruturas de concreto, impermeabilização da terra, planejamento ineficaz, expansão territorial desordenada, entre outros (Ribeiro; Santos, 2016; Di Giulio et al., 2019). Os dados mais recentes do censo demográfico brasileiro, realizado em 2022 (IBGE, 2023), indicam uma clara tendência de expansão nas cidades de médio porte, entre 100 mil e 500 mil habitantes (Tabela 1). Nos últimos 12 anos, essas localidades apresentaram um crescimento relativo superior em comparação com as cidades grandes e pequenas, considerando os dados anteriores do censo de 2010 (IBGE, 2010). Esses dados revelam que as cidades grandes continuam perdendo população relativa para as cidades de porte médio. Ao considerar as faixas de população municipal de cidades de pequeno e médio porte, estas representam aproximadamente 71% da população brasileira. Esse cenário evidencia um aumento na complexidade desses espaços, especialmente nas cidades médias, as quais desempenham um papel importante na economia nacional. Isso impõe desafios significativos em termos de planejamento urbano, papel na rede urbana, questões ambientais e políticas públicas. Tabela 1 - População residente segundo faixas de população municipal em 2022 Tamanho do município Número absoluto da população total em 2022 % na população total em 2022 Maior que 500 mil habitantes 58.876.980 29 Entre 100 mil e 500 mil habitantes 56.768.154 28 Menor que 100 mil habitantes 87.417.378 43 Total 203.062.512 100 Fonte: Censo demográfico 2022: População e domicílios (IBGE, 2023). Atualmente, a questão ambiental está intrinsicamente relacionada ao debate sobre as mudanças climáticas globais, sendo amplamente discutida em diversas esferas científicas e políticas. O 6º relatório (AR6), divulgado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças 21 Climáticas (IPCC), aborda o aquecimento global e sua inequívoca influência antrópica, resultante da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE). O relatório aponta a ocorrência de extremos de temperatura, com aumento do número de dias e noites quentes em grande parte das regiões terrestres. Além disso, projeta um aumento nos riscos de chuvas intensas e secas, prevendo quatro vezes mais extremos climáticos até 2100 (IPCC, 2021). Esse quadro coloca desafios significativos para a humanidade e requer estratégias eficazes de adaptação. Conforme o AR6, a emissão de GEE de origem antropogênica emerge como o principal motor das alterações observadas nos extremos de calor e frio na escala global (praticamente certo) e na maioria dos continentes (muito provável). Nas escalas inferiores, especialmente a local, tais alterações nos extremos são moderadas e/ou amplificadas por fatores regionais e locais. Isso inclui, entre outros aspectos, o processo de urbanização, que potencializa os extremos de temperatura mediante a introdução de equipamentos e materiais inadequados à realidade climática. Adicionalmente, as mudanças no uso e cobertura da terra, concentração de aerossóis, variabilidade natural decadal e multidecadal, bem como as condições de umidade do solo, podem desempenhar papéis importantes nesse contexto (Sant’Anna Neto, 2013; Seneviratne et al., 2021). Os eventos climáticos extremos estão recebendo cada vez mais atenção devido aos impactos e repercussões que podem gerar na sociedade, especialmente em áreas urbanas. Essa atenção reflete-se diretamente na qualidade ambiental das cidades e na exposição das populações aos riscos associados. Do ponto de vista meteorológico ou climatológico, tais eventos se caracterizam por grandes desvios de um estado climático moderado, podendo manifestar-se em diferentes escalas temporais e geográficas (Sant’Anna Neto, 2013). As escalas de curto e médio prazo destacam-se, em particular, pela relevância para a atividade humana, dada a possibilidade de ocorrência de impactos socioambientais significativos (Marengo, 2009). Nascimento Jr. (2013) argumenta que esses eventos estão associados a várias formas de repercussões geográficas de natureza climática e meteorológica, entre as quais se destacam episódios como: enchentes, inundações, ondas de calor e de frio, tempestades, secas, ventanias, movimentos de massa e mortes. A análise desses eventos extremos ou excepcionais demonstra grande relevância, “[...] uma vez que estes episódios são os que em realidade, repercutem no espaço/território, provocando desarranjos em seu interior” (Sant’Anna Neto, 2008, p. 63). Para a análise de eventos extremos, é preponderante considerar a dimensão temporal, fazendo uso de séries históricas de dados climáticos, bem como a necessidade de interpretação 22 da variabilidade climática, a qual pode ser definida como componente próprio do sistema climático terrestre, responsável por oscilações naturais nos padrões climáticos, manifestando- se em escalas locais, regionais e globais (IPCC, 2021; Confalonieri, 2003). Nessa discussão, as escalas geográficas do clima, que assumem um caráter espaço- temporal, são ferramentas essenciais para as análises entre o clima e a superfície. Nesse sentido, “[...] os processos atuantes podem ser globais, ou seja, atuando na escala das mudanças das características dos climas de todo, ou da maior parte do planeta, no tempo geológico, e na escala da variabilidade (variações cíclicas) no tempo histórico” (Sant’Anna Neto, 2013, p.77). Sant’Anna Neto (2013) argumenta que, na escala global, são possíveis apenas generalizações dos elementos e processos climáticos. A compreensão das formas de organização desses elementos e processos cabe à escala regional, enquanto as escalas locais permitem uma análise mais complexa e detalhada. A Figura 2 apresenta os três conceitos-chave para a compreensão dos processos climáticos e sua determinação espacial: mudança, variabilidade e ritmo. Figura 2 - Escalas Geográficas do clima (tempo longo e tempo curto) Fonte: Adaptado de Sant’Anna Neto (2013). 23 Nas escalas inferiores, com ênfase na dimensão local (também denominada de escala fina), do ritmo, esse detalhamento e complexidade estão associados às interferências dos atributos socioambientais. Através da análise rítmica, os elementos climáticos, ao serem decompostos, possibilitam a identificação, por meio da dimensão temporal diária e horária, da atuação dos sistemas atmosféricos geradores de impactos na superfície, especialmente nos espaços urbanos (Monteiro, 1971). Nesse sentido, geógrafos, meteorologistas e outros pesquisadores têm procurado interpretar a complexidade da atmosfera nas cidades, estabelecendo relações entre as diferentes escalas geográficas, desde a zonal até a local, com o intuito de compreender seu comportamento, movimento e suas características particulares. A estrutura interna do clima urbano é, então, definida pela conexão de suas partes (Monteiro, 1976, 2003). Adotando uma perspectiva sistêmica para o estudo do clima urbano, a cidade, enquanto espaço urbanizado, é identificada como o núcleo do sistema e mantém relações íntimas com o ambiente regional em que está inserida. Essa abordagem considera a inter-relação entre os componentes físicos e humanos, destacando a importância de compreender não apenas os processos atmosféricos, mas também como a cidade interage com eles. Na perspectiva sistêmica, Monteiro (1976) ofereceu um importante arcabouço conceitual para os estudos do clima das cidades por meio da proposição teórica e metodológica do Sistema Clima Urbano (SCU). Essa abordagem considera a complexidade das interações entre clima e cidade e a multiescalaridade, sendo uma referência não apenas para geógrafos, mas também para pesquisadores de outros campos científicos. A partir desses pressupostos, e considerando que cada cidade apresenta um clima que lhe é único, reforça-se que estudos na escala local permitem uma associação dos elementos climáticos com o cotidiano da sociedade. Assim, este trabalho propôs-se a investigar a ocorrência de eventos climáticos extremos em uma cidade de médio porte em ambiente tropical/continental, analisando os possíveis impactos sobre a sociedade decorrentes da configuração de episódios extremos. Justifica-se essa proposta, pois, em ambientes tropicais, elementos climáticos como a precipitação se caracterizam por uma grande heterogeneidade temporal, evidenciada na sazonalidade das chuvas. A temperatura, embora apresente menor variação anual em comparação com outros tipos climáticos, também apresenta períodos mais quentes ou mais amenos. Esses fatores, aliados aos efeitos do clima urbano, às alterações no uso e ocupação da terra urbana e aos diferentes graus de vulnerabilidade socioambiental, demandam investigações 24 com vistas ao planejamento, a fim de proporcionar uma melhor qualidade de vida para as pessoas. Portanto, é importante estabelecer relações entre a produção do espaço e aspectos do clima urbano, a partir do entendimento de seus subsistemas e efeitos, para a identificação de tendências quanto à ocorrência de eventos extremos bem como de episódios extremos, que são aqueles que necessariamente causam impactos no espaço geográfico (Armond, 2014). A área de estudo deste trabalho foi a cidade de Presidente Prudente, localizada no Oeste do Estado de São Paulo. Essa escolha se justifica pelo fato de ser uma cidade de porte médio com papel importante na rede urbana em que está inserida (IBGE, 2020), além de dispor de um extenso banco de dados climatológicos consolidados provenientes da estação meteorológica instalada e gerida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). A importância de realizar estudos desse tipo em cidades de médio porte, indo além das áreas metropolitanas, ressalta-se ao considerar essas localidades como produtoras de características climáticas específicas, influenciando diretamente na qualidade de vida humana (Amorim, 2020). 1.2 Hipótese A partir dessas considerações, assume-se como hipótese norteadora da pesquisa: Há tendência de aumento na ocorrência de extremos climáticos de temperatura do ar e precipitação? Na escala local, isso pode estar associado às alterações no uso e ocupação da terra urbana, bem como às alterações nas escalas superiores do clima. Relaciona-se a isso a ocorrência de excepcionalidades que afetam diretamente a superfície e a população, manifestadas na interação entre esses extremos e os diferente níveis de vulnerabilidade, deflagrando diferentes impactos. 1.3 Objetivos 1.3.1 Objetivo geral Avaliar a ocorrência de eventos climáticos extremos, de modo a identificar os episódios mais intensos e suas possíveis repercussões na superfície em Presidente Prudente (SP). 25 1.3.2 Objetivos específicos São objetivos específicos desta pesquisa: a) Analisar as variações temporais da precipitação, temperatura e a ocorrência de extremos climáticos; b) Avaliar a existência de rupturas ou pontos de mudança na série histórica dos dados; c) Compreender os processos de produção do espaço urbano, as especificidades do sítio e morfologia de Presidente Prudente, no que tange à ocorrência de episódios extremos; d) Identificar a gênese climática dos episódios extremos estudados e os sistemas atmosféricos atuantes; e) Caracterizar os episódios climáticos extremos estudados, no que tange à localização, data do evento, hora etc.; f) Analisar as formas de comunicação utilizadas e empregadas pelos veículos de imprensa e poder público; g) Analisar as estratégias de adaptação às questões climáticas adotadas pelas cidades brasileiras, com ênfase em Presidente Prudente. 26 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 A cidade contemporânea: entre a sociedade, a natureza e o espaço urbano Ao refletir sobre o termo “cidades”, as pessoas geralmente são remetidas à ideia de automóveis, construções e outros materiais facilmente percebidos na paisagem urbana. Contudo, as cidades são, antes de tudo, compostas essencialmente por pessoas. O funcionamento urbano reside nas interações humanas, e é para elas que esses espaços devem ser pensados e repensados. A abordagem da cidade contemporânea – sob uma perspectiva ambiental – é sempre desafiadora, pois requer, em primeiro lugar, uma discussão sobre a ideia de natureza. Essa noção apresenta diferentes interpretações de acordo com a cultura e a sociedade, não podendo ser considerada estática, tampouco exclusivamente natural (Porto-Gonçalves, 2018). Na Geografia, a natureza é uma categoria fundamental que auxilia na compreensão das relações entre os seres humanos e suas interações com o meio (ibid., 2018). Nesta perspectiva, o clima se configura como uma possibilidade de análise geográfica da natureza. Ao longo do século XX, diferentes teorias sustentaram a ideia de natureza como algo “associal”, isto é, predeterminada e desvinculada da sociedade (Beck, 2011). Essa dicotomia entre o ser humano e a natureza se refletiu na estruturação da organização social e também encontrou expressão na academia, inclusive na Geografia. Apesar de a ciência geográfica ter como objeto de estudo a relação sociedade e natureza, essa oposição se manifestou, por exemplo, na separação entre a Geografia Física e Humana. Contudo, a natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade, assim como a sociedade não mais pode ser considerada dissociada da natureza. Isso implica afirmar: [...] destruições da natureza, integradas à circulação universal da produção industrial, deixam de ser 'meras' destruições da natureza e passam a ser elemento constitutivo da dinâmica social, econômica e política. O imprevisto efeito colateral da socialização da natureza é a socialização das destruições e ameaças incidentes sobre a natureza, sua transformação em contradições e conflitos econômicos, sociais e políticos: danos às condições naturais da vida convertem-se em ameaças globais para as pessoas, em termos medicinais, sociais e econômicos – com desafios inteiramente novos para as instituições sociais e políticas da altamente industrializada sociedade global (Beck, 2011, p. 98-99). 27 Beck (2011) denomina a sociedade atual como a “sociedade do risco”, na qual o ser humano, por meio das suas próprias intervenções na natureza, é capaz de criar condições que colocam em risco a sua própria existência. Para Santos (2008), os termos “natureza” e “sociedade” requerem uma explicação conjunta, não mais teorizando o objeto de um lado e o sujeito-sociedade do outro. Segundo o autor (ibid., 2008, p. 101), “a realização concreta da história não separa o natural e o artificial, o natural e o político, devemos propor um outro modo de ver a realidade, oposto a esse trabalho secular de purificação, fundado em dois polos distintos”. Nesse sentido, o espaço geográfico, como categoria de análise da Geografia, presume a abordagem da relação entre sociedade e natureza por meio de artifícios teóricos e metodológicos que desvendam tal modelo, tido como dicotômico, e manifestado também na relação rural-urbano (ibid., 2008). Para a compreensão da cidade, é obrigatório, então, abordar e discutir a ideia de natureza. Nas cidades, não existe nada que seja puramente social ou natural, tampouco antissocial ou antinatural. Ambas as dimensões estão intrinsicamente ligadas em um híbrido. Esse espaço representa a materialização da relação dialética entre sociedade e natureza, constituindo-se como um espaço produzido e transformável. Para a compreensão de processos, é essencial analisar a cidade em sua totalidade (Swyngedow, 2001), em prol de uma abordagem holística que considere que as lógicas da produção do espaço ocorrem em justaposição à sua dimensão natural. Nesse sentido, Swyngedouw (2001, p. 84) afirma que a cidade, a sociedade e a natureza são partes “inseparáveis, mutuamente integradas, infinitamente ligadas e simultâneas, responsáveis pelas contradições, tensões e conflitos”. Embora seja considerada um híbrido socio-natural, na cidade, a relação das pessoas com os elementos da natureza não ocorre de forma igualitária. Diferentes sujeitos, por exemplo, apresentam distintas percepções em relação aos elementos do clima, como a precipitação, temperatura, entre outros. Certos indivíduos são capazes de amplificar ou atenuar possíveis efeitos associados a esses elementos. A cidade é, portanto, um resultado complexo da intervenção humana na paisagem, um espaço repleto de símbolos e significados que expressa a contradição do modelo econômico vigente (Leff, 2001). Essa contradição emerge na cidade como produto de um processo histórico de expansão capitalista, concretizado na poluição, na superexploração da natureza, na degradação do meio e dos recursos naturais, em uma crise definida por Leff (2001) como uma 28 crise de civilização, na qual a racionalidade econômica, política e tecnológica dominante desde a Revolução Industrial é posta em questão. Deste modo, a cidade [...] não é somente uma construção humana; ela é esta construção somada a todo um suporte que a precedeu – Natureza – mais as atividades humanas. Da interação entre estas dimensões da realidade produzem-se ambientes aprazíveis e com ótimas condições para o desenvolvimento da vida do homem, porém, em grande parte, ambientes desagradáveis, degradados e altamente problemáticos são também produzidos. Uma quantidade de seres humanos vive nestes últimos e é preciso buscar formas de melhorá-los (Mendonça, 2004, p. 186). No processo de intervenção humana na paisagem, novos materiais e equipamentos foram introduzidos no ambiente, contribuindo não apenas para a degradação ambiental, mas também para a formação de um clima particular na cidade, denominado de clima urbano (Mendonça, 1995). Essas alterações na paisagem, resultantes do surgimento e expansão da cidade, alteram significativamente o balanço de energia e hídrico urbano. As modificações são impulsionadas [...] pela retirada da vegetação original, pelo aumento da circulação de veículos e pessoas, impermeabilização generalizada do solo, mudanças no relevo, concentração de edificações, canalização de córregos, além do lançamento de partículas e gases poluentes na atmosfera (Amorim, 2000, p.18). Nas cidades, ocorre uma exacerbação dos efeitos dos elementos climáticos, os quais se associam à forma e estrutura urbana, uso e ocupação da terra, atividades econômicas, entre outros (Sant’Anna Neto, 2012a). No âmbito científico, Nascimento Jr. (2019) destaca que a análise desse problema tem sido conduzida notadamente por geógrafos e meteorologistas, visando compreender a complexidade da atmosfera das – e nas – cidades, em sua configuração própria (Monteiro, 1976, 2003). Essa preocupação não se restringe ao âmbito acadêmico, permeando também as esferas políticas e econômicas em nível global, no contexto das discussões sobre a emergência e mudanças climáticas. Ao refletir sobre os espaços urbanos, a discussão de tornar as cidades ambientes mais sustentáveis e voltadas à qualidade de vida da população envolve inúmeros agentes sociais e se encontra prevista nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), na agenda para implementação até 2030. O Objetivo 11, “Cidades e Comunidades Sustentáveis”, tem como meta tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. 29 Os ODS orientam as políticas públicas nacionais em várias esferas de atuação, a fim de atender as metas estabelecidas. Esses objetivos também pautam a concepção de assentamentos urbanos mais resilientes e estimulam uma reflexão sobre a maneira pela qual esses espaços estão sendo produzidos e planejados (UN, 2021; UN-HABITAT, 2022). Nesse sentido, a reflexão sobre o clima das cidades, em um contexto de mudanças climáticas, se mostra um desafio para a ciência, haja vista que tais mudanças refletem o distanciamento da humanidade com a natureza, com uma intervenção contínua e desmedida, relegando os limites do planeta (Loose, 2021). Lidar com esse tema é compreender a urgência e a necessidade de aplicar medidas de curto e médio prazo. Portanto, além de identificar o problema e apontar os pressupostos que levaram ao quadro atual, é fundamental também apresentar perspectivas para a minimização dos impactos, a fim de evitar cenários ainda mais desafiadores para esses espaços. 2.2 Clima urbano enquanto perspectiva As pesquisas clássicas sobre clima urbano estabeleceram as bases para as investigações posteriores e continuam a influenciar as diferentes abordagens que têm como objetivo compreender como as cidades afetam e são afetadas pelo clima. Os estudos de clima urbano ganharam destaque a partir do século XIX, em um cenário de deterioração das condições ambientais nas cidades industriais, principalmente europeias e americanas, situadas em latitudes médias. As primeiras inquietações remontam a um período anterior, sendo atribuídas a John Evelyn em 1661, que analisou a poluição do ar em Londres decorrente do intenso uso do carvão como fonte de energia (Chandler, 1965). Esse trabalho é considerado um dos primeiros esforços documentados de preocupação com questões ambientais em contexto urbano. No século XIX, destacou-se o trabalho de Howard (1833), intitulado “The Climate of London”, no qual o autor mediu pela primeira vez as diferenças de temperatura entre o centro da cidade de Londres e suas áreas circunvizinhas, abrindo caminhos para os futuros estudos de ilhas de calor urbanas. O autor também considerou em sua pesquisa as variações de temperatura, umidade e vento, além dos possíveis impactos da urbanização no clima da cidade. O pós-guerra vislumbrou um aumento no número de estudos realizados, impulsionado pela expansão das cidades devido ao intenso processo de urbanização e aumento demográfico, com destaque para as metrópoles. Ainda no contexto da cidade de Londres, destacou-se o estudo 30 de Chandler (1965), que apresentou uma análise detalhada do clima da cidade, abrangendo aspectos históricos do clima local e as alterações nas temperaturas, chuvas, vento e umidade. Para o contexto norte-americano, destacam-se os estudos clássicos de Oke (1978) e Landsberg (1981). Em sua obra “The urban climate” Landsberg (1981), explorou diferentes formas de interação entre clima e cidade. O autor aportou contribuições para a compreensão do fenômeno das ilhas de calor urbanas, a qualidade do ar, variações de chuva, umidade e as condições de vento. Esse trabalho foi pioneiro não apenas por sintetizar estudos anteriores de climatologia urbana, mas também por empregar técnicas estatísticas, demonstrando sua aplicabilidade e contribuição para análises robustas de dados meteorológicos. O estudo de Oke (1978) é considerado um marco nas pesquisas sobre a produção do espaço urbano e sua interferência no clima das cidades. O autor estabeleceu uma conexão escalar entre a atmosfera local e os componentes urbanos para a análise de alterações climáticas. Concentrando-se na camada da atmosfera inferior, que é a camada mais próxima da superfície, o autor analisou como as características da superfície urbana, como feições, topografia, cobertura vegetal, uso da terra e metabolismo/dinâmica urbana interferem na atmosfera próxima ao nível médio dos telhados e como essa, por sua vez, afeta o clima da cidade. Oke (1978) ofereceu importante contribuição, notadamente para os estudos de ilhas de calor urbanas, ao identificar esse fenômeno como o principal exemplo de alteração climática nas cidades. O autor observou que o ar no dossel urbano tende a ser mais quente do que nas áreas circunvizinhas, traçando, assim, o perfil da ilha de calor ao descrever as variações na temperatura do ar ao longo da trajetória entre as áreas rurais e o centro da cidade. Nos países classificados como em desenvolvimento, frequentemente referidos na esfera política internacional como o Sul Global1, os primeiros estudos foram fundamentados tendo em vista o acelerado processo de urbanização, o crescimento das populações urbanas e os consequentes problemas ambientais associados, sobretudo, ao longo da segunda metade do século XX (Mendonça, 1995). No Brasil, o aumento da população urbana foi impulsionado pela intensa migração do campo para a cidade, em meio a profundas transformações culturais, sociais, econômicas e técnicas que ocorreram nos séculos XIX e XX. Essa alteração no perfil demográfico intensificou-se a partir da década de 1940, consolidando-se nos anos de 1960. 1 O conceito de “Sul Global” é controverso, suscitando questionamentos tanto em termos metodológicos quanto em relação à heterogeneidade dos países abrangidos. Em linhas gerais, refere-se a países em desenvolvimento ou não desenvolvidos que compartilham experiências históricas de periferia colonial e industrialização tardia em relação aos países do Norte (Visentini, 2015). 31 Maricato (2000) destaca diversos fatores que exemplificam a consolidação desse processo de urbanização, com raízes na sociedade colonial, mesmo em pleno século XX. Esse fenômeno foi impulsionado pela emergência do trabalhador livre, pós 1888, pela Proclamação da República e pela presença de uma indústria incipiente, que se desenvolvia no rastro das atividades associadas à cafeicultura e ao abastecimento do mercado interno. Conforme Santos (2005, 2008) argumenta, a urbanização brasileira, assim como em outros países latino-americanos, foi tardia, fruto do caráter eminentemente agrário que predominava no país. A configuração da rede urbana passou por alterações significativas, resultando no aumento do número de cidades e em transformações profundas tanto no território quanto na sociedade. A produção de cidades ocorreu em meio a aspectos urbanísticos e ambientais marcados por uma intensa agressão à natureza e pela predominância de interesses que a contrapunham. Do ponto de vista ambiental, esse processo resultou em problemas frequentemente vistos como inerentes às cidades, devido à naturalidade com que muitas vezes são abordados. Essas questões persistem mesmo no século XXI, manifestando-se em problemas como enchentes, inundações, poluição do ar, hídrica etc., que continuam a impactar a qualidade de vida nesses espaços. Nesse sentido, foi nesse contexto de transição demográfica e de degradação das condições ambientais urbanas que Monteiro (1976) apresentou a proposta que se tornou a principal referência utilizada para os estudos de clima urbano desenvolvidos no país, intitulada de Sistema Clima Urbano (SCU). A partir da abordagem da Teoria Geral dos Sistemas (Bertalanffy, 1950 apud Monteiro, 2003) e da abordagem geográfica, Monteiro (2003) definiu o clima urbano como um “sistema singular” que integra o clima local (fato natural) e a cidade (fato social). Do ponto de vista metodológico, Monteiro (1971) também trouxe uma importante contribuição ao preconizar o paradigma do ritmo, fundamentado nos preceitos de Sorre (1951). Nessa perspectiva, compreende-se o tempo atmosférico como dinâmico, não mais estático ou uma simples interpretação dos estados médios (Monteiro, 1976). A partir dessas proposições, tornou-se possível analisar como determinado evento interfere na sociedade e no cotidiano da vida das pessoas. Monteiro (1976) fundamenta a proposta teórico-metodológica do Sistema Clima Urbano, oferecendo uma leitura geográfica para a análise do clima das cidades. Seu estudo se mostra um avanço para a ciência geográfica, na busca pela superação da dicotomia tradicional entre sociedade e natureza. 32 Tal proposta está alicerçada em três subsistemas intrinsicamente vinculados aos canais de percepção humana, sendo: • Subsistema Termodinâmico: vinculado ao canal do conforto térmico, este subsistema engloba os componentes termodinâmicos que se manifestam por meio de elementos como calor, ventilação e umidade. Por afetar permanentemente todos os citadinos, constitui um filtro significativo e facilmente perceptível, exercendo influência tanto sobre os demais subsistemas quanto sendo reciprocamente influenciado por eles. • Subsistema Físico-químico: relacionado à qualidade do ar e aos subprodutos da sua degradação, especialmente a poluição atmosférica. Nas cidades, as atividades humanas podem acarretar uma deterioração significativa na qualidade do ar, além de provocar outras formas de poluição, como a contaminação da água e do solo. Essa deterioração, por sua vez, pode ter impactos diretos na incidência de doenças respiratórias, oftalmológicas, além de contribuir para problemas sanitários diversos. • Subsistema Hidrometeórico: agrega todas as formas meteóricas, hídricas, mecânicas e elétricas, sobretudo as chuvas e o vento, que se manifestam com intensidades variadas. Esses eventos podem ocasionalmente assumir manifestações de intensidade capazes de gerar impactos significativos e perturbações na dinâmica urbana, comprometendo a integridade na vida da cidade (Monteiro, 2003). O SCU possibilita uma análise sistêmica da materialização da relação sociedade/natureza no espaço urbano, considerando a articulação de diferentes elementos que o constituem. Com uma abordagem interdisciplinar focada no planejamento urbano, essa proposta tem sido amplamente aplicada em estudos de climatologia urbana no Brasil. Na presente pesquisa, o SCU foi uma das bases conceituais para analisar os eventos e episódios extremos em Presidente Prudente. Para essa análise, utilizou-se o canal da percepção do conforto (subsistema termodinâmico) e, para os episódios, adotou-se mais especificamente o canal de percepção do impacto meteórico (do subsistema hidrometeórico). A estrutura do SCU é resumida no Quadro 1, no qual se observa a articulação dos subsistemas de acordo com os canais de percepção. 33 Quadro 1 - Sistema Clima Urbano (SCU). Articulação dos subsistemas, segundo os canais de percepção Subsistemas I II III Canais Termodinâmico Físico-Químico Hidrometeórico Caracterização Conforto térmico Qualidade do ar Impacto meteórico Fonte Atmosfera; Radiação; Circulação horizontal. Atividade urbana; Veículos automotores; Indústrias; Obras-Limpas. Atmosfera estados especiais (desvios rítmicos) Trânsito no sistema Intercâmbio de operador e operando De operando ao operador Do operador ao operando Mecanismo de ação Transformação no sistema Difusão através do sistema Concentração no sistema Projeção Interação; Núcleo/ambiente. Do núcleo ao ambiente Do ambiente ao núcleo Desenvolvimento Contínuo (permanente) Cumulativo (renovável) Episódico (eventual) Observação Meteorológica especial; T. de campo. Sanitária e Meteorológica especial Meteorológica; Hidrológica (T. de campo). Correlações disciplinares e tecnológicas Bioclimatologia; Arquitetura; Urbanismo. Engenharia sanitária Engenharia sanitária e Infraestrutura urbana Produtos "Ilha de Calor"; Ventilação; Aumento da precipitação. Poluição do ar Ataques à Integridade Urbana Efeitos diretos Desconforto e redução do desempenho humano Problemas sanitários; Doenças respiratórias, oftalmológicas etc. Problemas de circulação e comunicação urbana Reciclagem adaptativa Controle do uso do solo; Tecnologia de conforto habitacional Vigilância e controle dos agentes de poluição Aperfeiçoamento da infraestrutura urbana e regularização fluvial; Uso do solo. Responsabilidade Natureza e Ser humano Ser humano Natureza Fonte: Adaptado de Monteiro (1976, p. 127). Por ser um sistema aberto, O S.C.U. importa energia através de seu ambiente, é sede de uma sucessão de eventos que articulam diferenças de estados, mudanças e transformações internas, a ponto de gerar produtos que se incorporam ao núcleo e/ou são exportados para o ambiente (Monteiro, 1976, p. 96). 34 Na climatologia urbana brasileira, o campo térmico tem sido o mais explorado, notadamente a partir dos estudos de ilhas de calor urbanas, desenvolvidos na década de 1980, nos quais se destacam os trabalhos de Tarifa (1977) e Danni (1987). Tais investigações já evidenciavam a preocupação em distinguir os diferentes usos da terra, fato que seria aprofundado à medida que novos estudos fossem realizados (Mendonça, 1995). Nesse período, vale destacar o uso pioneiro de técnicas de sensoriamento remoto aplicadas aos estudos brasileiros de clima urbano, sobretudo nos trabalhos de Lombardo (1985) na cidade de São Paulo (SP) e de Mendonça (1995) em Londrina (PR). Assim, possibilitou-se um avanço e maior detalhamento na análise espacial, como a identificação de ilhas de calor de superfície (Oke et al. 2017), abrindo caminho para novas pesquisas e aplicações em outras cidades. Gomes (2021, p. 37) conduziu um exercício importante ao quantificar diferentes trabalhos de doutorado realizados na perspectiva do subsistema termodinâmico no Brasil. Ao se concentrar nas cidades de pequeno e médio porte, evidencia-se um aumento significativo na produção científica nessas localidades. Essa tendência ressalta a relevância do conhecimento acerca dos distintos climas urbanos e a necessidade de compreender como as cidades respondem à circulação geral da atmosfera, considerando seus atributos urbanos e geoambientais. No ambiente tropical, merecem destaque os trabalhos de Pitton (1997), Polizel (2009), Ugeda Jr. (2011), Minaki (2014), Dorigon (2019), Teobaldo Neto (2019), Santos (2020) e Gomes (2021). Vale ressaltar os estudos de Amorim (2000, 2020), Porangaba (2015), Teixeira (2019) e Rampazzo (2019), os quais se dedicaram à análise do clima urbano em cidades pequenas e de médio porte na região Oeste do Estado de São Paulo. No que diz respeito ao subsistema hidrometeórico, um enfoque é dado aos eventos extremos de precipitação, que despertam grande interesse em países como o Brasil, onde prevalece o clima tropical. As cidades, em suas diferentes proporções e tamanhos, frequentemente veem sua integridade comprometida devido a esses eventos, resultando em impactos significativos, tais como enchentes, inundações e alagamentos, que ocorrem especialmente durante a estação do verão, conforme observado por Sant’Anna Neto (1998). Essas chuvas violentas não podem ser dissociadas da drenagem, do escoamento areolar e fluvial. Assim, em termos de S.C.U., o núcleo do sistema está inevitavelmente ligado ao ambiente em que se integra. Nesse ponto, a análise do sítio urbano é fundamental, não só em termos de relação dialética 35 homogeneidade-heterogeneidade, como em termos de centripetria e centrifugia de drenagem (Monteiro, 1976, p. 138). As cidades brasileiras permanecem vulneráveis aos impactos dos extremos climáticos, principalmente devido à ausência de estratégias urbanas eficazes que considerem um planejamento eficiente para todos e uma gestão adequada do uso da terra. Essa deficiência contrasta com o caráter vanguardista do Brasil no âmbito jurídico da questão climática. Desde a promulgação da Constituição de 1988, o Art. 225 assegura a todos o: [...] direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem como de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (Brasil, 1988, Art. 225). Apesar de menos explorado, em comparação aos componentes termodinâmicos, o subsistema em questão apresenta um conjunto de estudos relevantes no campo da Geografia, concentrando-se, em sua maioria, em áreas metropolitanas. Zanella (2006) investigou inundações e seus impactos em um bairro suscetível a riscos em Curitiba (PR). Goudard (2019), ao analisar cidades da Bacia do Alto Iguaçu (PR), incluindo Curitiba, utilizou limiares baseados em percentis para identificar extremos pluviométricos, analisando-os em relação às áreas, anos e meses de ocorrência. No contexto de cidades de médio porte, Lima (2012) realizou um estudo em São Carlos (SP), utilizando dados pluviométricos da estação meteorológica do INMET e notícias da imprensa local. O autor identificou um aumento significativo na ocorrência de inundações e alagamentos na cidade a partir da década de 1990, atribuindo isso ao processo de expansão urbana e à intensidade dos extremos de precipitação, especialmente em casos de chuvas intensas em um período de 24h. Armond (2014), corroborado por Armond e Sant’Anna Neto (2017), investigou a ocorrência de chuvas extremas na cidade do Rio de Janeiro (RJ), utilizando limiares estatísticos. A autora propôs uma diferenciação entre as concepções de eventos e episódios extremos. No que se refere aos eventos extremos, Armond (2014) os define como elevados totais de precipitação acima de um limiar definido como médio, sendo 20mm/24h para o estudo, mas sem ocorrência de impactos associados. Os episódios extremos, por sua vez, são compreendidos como dias nos quais o total de precipitação tenha excedido o limiar definido, porém, caracterizados pela presença de impactos. A autora destaca especialmente aqueles de natureza hidrológica, que afetam a integridade do espaço urbano em diversas localidades do município. 36 Além disso, esse estudo também destacou a importância da identificação da sucessão dos tipos de tempo para determinar a gênese atmosférica dos eventos, destacando o ritmo como um componente essencial nas análises climáticas. Nascimento Jr. (2018), partindo da abordagem do SCU e da Geografia do Clima, realizou uma comparação entre os climas urbanos de três cidades tropicais costeiras localizadas ao sul do Trópico de Capricórnio: Santos (Brasil), Maputo (Moçambique) e Brisbane (Austrália). O autor relatou que a particularização dos climas urbanos decorre da interação entre os perigos naturais e os processos socioespaciais, os quais têm a capacidade de moldar os impactos de diferentes formas, temporalidades e até mesmo mitigação de riscos. Duarte (2022), em um estudo sobre a cidade de pequeno porte de Barra dos Coqueiros (SE), detalhou a ocorrência de eventos pluviais extremos. Com o auxílio de metodologias qualitativas, o autor buscou acessar a percepção dos moradores em relação ao clima e aos impactos deflagrados pelos episódios. Estudos como o de Lima (2012), Armond (2014), Goudard (2019) e Duarte (2022) utilizaram notícias da mídia local e informações de órgãos oficiais, como a Defesa Civil, secretarias municipais e bombeiros. A mesma metodologia foi adotada por Mendonça (2011) e Avanzi Jr. (2022) para Presidente Prudente. Esses autores analisaram a ocorrência de chuvas intensas na cidade, abrangendo séries históricas de dados e adotando um limiar de 15 mm/24h. Ambos buscaram classificar os impactos a partir de tipologias e com base em notícias de jornais locais. Dessa forma, o destaque dado às pesquisas supracitadas evidencia a aplicação do SCU para a interpretação das chuvas na cidade, considerando elementos climáticos e geográficos que podem atenuar ou mesmo amplificar os impactos associados. No Brasil, onde aproximadamente 76% da população habita predominantemente em áreas urbanas, percentual que se eleva a 93% na região Sudeste do país (PNAD, 2016), é imprescindível que as cidades sejam o foco de atenção ao considerar a ocorrência de eventos extremos de precipitação e temperatura. Esses espaços abrigam as áreas mais suscetíveis aos impactos mais severos (Di Giulio et al., 2019), exacerbando os riscos já presentes nas cidades brasileiras e evidenciando as deficiências na capacidade dos governos locais em lidar com questões de infraestrutura e fornecimento de serviços públicos. 37 2.3 Eventos e episódios climáticos extremos Eventos extremos ou excepcionais, em termos meteorológicos (Marengo, 2009; IPCC, 2021), são considerados como grandes desvios de um estado climático moderado. Tais excepcionalidades desviam dos registros habituais, das médias e dos limiares de determinado elemento climático. Nesse sentido, o IPCC, a partir dos seus relatórios e grupos de trabalho (IPCC, 2021), atesta que essas excepcionalidades estão se tornando cada vez mais frequentes e intensas, impondo desafios frente à emergência climática em curso. Dentre os eventos naturais extremos, aqueles que mais repercutem no espaço urbano são os de ordem atmosférica (Zanella, 2006; Sant’Anna Neto, 2011), seja em quantidade ou em intensidade. Sant’Anna Neto (2011, p.48) afirma que: Enchentes, secas, nevoeiros, geadas, granizos, descargas elétricas, ondas de calor, ciclones tropicais e vendavais, desmoronamentos, deslizamentos de vertentes e ressacas, além dos impactos pluviais concentrados, diariamente afetam milhões e pessoas em todo o mundo. Quando estes eventos ocorrem em áreas de risco no interior da cidade, a população vulnerável sofre consequências que podem variar em grau de intensidade, em função de sua capacidade em enfrentar os desastres. No campo da climatologia, definir o que é um evento extremo apresenta certa dificuldade. A definição, como a de precipitação extrema, centra-se em limiares variados, que estão relacionados a diferentes concepções teórico-metodológicas e distintas características geoambientais, não havendo necessariamente um único valor que seria replicável para todas as áreas. Nesse contexto, a definição do que é habitual ou excepcional deve ser coerente com o tipo e caráter do clima local. Monteiro e Zanella (2023) ressaltam que o que é extremo em uma localidade não necessariamente o é para a outra, tendo em vista a sucessão de diferentes sistemas atmosféricos que atuam na definição de particularidades regionais, bem como a diversidade climática presente no país. Na literatura internacional, observa-se que o estudo e a identificação de eventos extremos são tradicionalmente realizados por meio de cálculos de índices climáticos. Esses índices são considerados como padrões para estudos de climatologia e possibilitam a identificação de diferentes aspectos dos elementos climáticos, como tendências em eventos 38 extremos de precipitação, de temperatura do ar e ondas de calor e de frio (Junk; Goergen; Krein, 2019; Sun et al., 2021; Felix et al., 2021). Desse modo, a utilização de índices é amplamente recomendada para a compreensão das alterações que podem estar ocorrendo nos padrões dos elementos climáticos. Por exemplo, alterações na variabilidade frequentemente não são devidamente captadas nas análises que considerarem apenas os valores médios, pois estes proporcionam apenas uma visão geral e mais descritiva. Nesse sentido, os índices são sempre um valor de referência, que permite comparar ordem de grandezas diferentes. Embora a proposição de índices climáticos não seja recente, observa-se um aumento significativo em sua utilização. Esse incremento está especialmente associado à lacuna decorrente da falta de dados globais, problemas em séries históricas e à ausência de uma definição unificada de indicadores e limiares em diversos países. No início do século XXI, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa Mundial de Pesquisa do Clima (WCRP) definiram, em conjunto com a Equipe de Especialistas em Detecção e Índices de Mudanças Climáticas (ETCCDI), um conjunto de 27 índices climáticos para avaliar e monitorar alterações nos extremos em níveis globais e regionais (Alexander et al., 2006; Donat et al., 2013; Sillmann et al., 2013a; 2013b). Posteriormente, foram propostos índices adicionais, abrangendo outros setores de aplicação. Atualmente, esses índices são geridos pela Equipe de Especialistas em Índices Climáticos (ET-SCI) (Peterson; Manton, 2008; Zhang et al., 2011; Zwiers et al., 2013). A Figura 3 apresenta uma representação estilizada de extremos climáticos. De modo geral, os valores que caracterizam as extremidades da distribuição tendem a englobar eventos climáticos mais relevantes para a sociedade do que aqueles índices que caracterizam os padrões habituais da localidade em estudo, isto é, eventos que ocorrem com maior frequência. Segundo Zhang et al. (2011), quanto mais alta a linha preta, mais frequente é o evento climático para aquela localidade. Os extremos são indicados pelas áreas sombreadas. about:blank 39 Figura 3 - Distribuições de probabilidade de temperatura diária e precipitação Fonte: Zhang et al. (2011) Durante o decorrer do século passado, até a década de 1990, a análise dos extremos climáticos era escassa e praticamente inexistente na literatura internacional (Dufek, 2008; Zhang et al., 2011). Zhang et al. (2011) apontam que o primeiro relatório do IPCC, publicado em 1990, por exemplo, não apresentou informações sobre eventos extremos na escala diária ou similar, considerando apenas escalas de tempo longas e zonais. Os primeiros apontamentos surgiram no segundo relatório de avaliação do IPCC (Houghton et al., 1996), publicado em 1995, mas ainda com um número limitado de estudos e análises regionais restritas. Zhang et al. (2011) ressaltam que, embora o uso de limiares relativos para as análises de extremos de temperatura média sazonal ou mensal tenha surgido na década de 1970, somente a partir da segunda metade da década de 1990, no contexto da agenda climática, que se iniciaram estudos utilizando limiares relativos para extremos diários. Dessa forma, foi no contexto da criação do IPCC em 1988, nas discussões realizadas na Rio-92, no Rio de Janeiro em 1992, e de outras Conferências das Partes (COP), que o emprego de índices climáticos para dados diários se difundiu. Em grande parte, isso envolveu o uso de séries históricas de dados observados, buscando verificar a presença de tendências 40 significativas de aumento ou diminuição dos extremos, além de relatar a dificuldade para a realização das análises. Diversos estudos e investigações pelo mundo propuseram análises sobre este tema sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas, procurando identificar quais elementos do clima podem ser responsáveis pelos impactos sociais e naturais. Além disso, procurou-se compreender de que maneira esses elementos ocasionam tais impactos, bem como qual a frequência e intensidades dessas ocorrências (Zandonadi et al., 2016). Nas últimas décadas, tem sido observado um aumento na frequência, duração e magnitude dos eventos extremos em diferentes regiões do planeta. Especialistas vinculados ao IPCC, em projeções recentes, indicam uma tendência de aumento desses eventos no futuro, corroborando essa recorrência em diversos estudos (IPCC, 2007, 2014, 2021). De modo geral, diversos pesquisadores têm se dedicado à compreensão das variações nos valores de dois principais elementos climáticos: temperatura e precipitação. Um exemplo é o estudo de Wang e Zhou (2005) sobre as tendências de eventos extremos de precipitação na China de 1961 a 2001, que indicou aumentos significativos na precipitação média anual no Leste, Noroeste e Sudoeste do país, enquanto as regiões centrais, Norte e Nordeste experimentaram diminuições. Zwiers et al. (2013) analisaram eventos extremos de temperatura e precipitação por meio de índices climáticos, destacando a importância dos resultados para o gerenciamento dos riscos associados a esses eventos. Os autores também abordaram desafios relacionados ao estudo desse tema, incluindo limitações em técnicas estatísticas, obtenção de dados históricos, compreensão conceitual dos processos e fenômenos envolvidos na produção de eventos extremos, bem como a interpretação e descrição da variabilidade natural por meio de modelos e outras ferramentas. Donat et al. (2016), em um estudo na escala global, analisaram a variabilidade interanual dos extremos de temperatura e precipitação em conjuntos de dados observados ao longo do século XX. Os resultados revelaram um aumento na frequência e intensidade dos extremos de temperaturas elevadas, enquanto os extremos de frio diminuíram na maioria das regiões do globo. Nessa perspectiva, Diffenbaugh et al. (2017), por meio de diferentes procedimentos estatísticos, buscaram quantificar a influência do aquecimento global em eventos climáticos extremos também em escala global. Estudos em escala local, como o de Chisanga et al. (2017) na Zâmbia, analisaram tendências de eventos extremos de precipitação e temperatura em um período de 50 anos (1963- 41 2012), demonstrando a aplicabilidade de índices climáticos em escala fina. Além disso, foi apontada possibilidade de aplicação de índices em diferentes setores, como na saúde, para a previsão de surtos de doenças tropicais sob cenários climáticos atuais e futuros. Para a América do Sul, o estudo de Skansi et al. (2013) destaca-se como a pesquisa mais abrangente atualmente disponível na literatura acadêmica sobre tendências observadas em extremos climáticos. Os autores obtiveram resultados semelhantes aos de Haylock et al. (2006), apontando fortes evidências de aquecimento e intensificação das chuvas na região, com um aumento nos extremos de temperatura máxima e respectiva diminuição dos extremos de frio no período de 1950 a 2010. Além disso, para as tendências locais, foi identificada maior coerência espacial nos dados de temperatura em comparação com a precipitação, que exibem sinais heterogêneos mesmo dentro de uma cidade. Outros estudos relevantes para a América do Sul incluem as pesquisas de Vincent et al. (2005), Alexander et al. (2006) e Dunn et al (2020), que se basearam na escala diária de dados para analisar os extremos climáticos. No Brasil, diversos estudos demonstraram, a partir de dados modelizados e observacionais, o aumento da frequência de eventos extremos em diferentes regiões do país (Marengo et al., 2013; 2020; Machado et al., 2021; Ferreira; Valverde, 2022). Nobre e Marengo (2017) identificaram uma série de impactos possivelmente associados às mudanças climáticas para o país, incluindo aumento das chuvas no Sul e Sudeste nos últimos 50 anos, alterações na variabilidade hidrológica na Amazônia, alterações nos padrões decadais das chuvas para as regiões Nordeste e Centro-Oeste, além de identificarem tendência de aumento na temperatura média anual, com maior aquecimento observado no inverno (até 1° C). Regoto et al. (2021), ao empregarem índices de precipitação, temperatura mínima e máxima no período de 1961 a 2018, apontaram aumento nos extremos quentes, notadamente durante a primavera e verão. Paralelamente, identificaram uma diminuição nos extremos frios, evidenciando um padrão consistente de aquecimento em todo o Brasil. Por outro lado, os extremos de precipitação mostraram-se mais heterogêneos para a maior parte do país. No Nordeste, evidenciou-se mudanças em direção a um clima mais seco, especialmente no verão e outono, e mais úmido no Sul, com redução de dias consecutivos secos, principalmente na primavera. Vale ressaltar que, para as demais regiões do país, não houve sinal claro de mudança, mas, sim, tendências extremas de precipitação positivas e negativas, sem significância estatística, com destaque para a região Sudeste. 42 No Sudeste, Teixeira e Satyamurty (2011), em um estudo abrangendo o período de 1960 a 2004, apontaram tendências crescentes na frequência anual de chuvas intensas e extremas, destacando a atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) nos totais de chuvas. Os autores ressaltaram que eventos de chuvas intensas podem ocorrer mesmo na estação seca, especialmente com a incursão de frentes frias. Considerando que chuvas extremas são pouco comuns nesse período, tais ocorrências podem deflagrar impactos significativos, comparáveis aos observados durante a estação chuvosa. Nobre e Marengo (2017) destacaram que, além da ocorrência de chuvas extremas, que aumentam o risco de enchentes, inundações e deslizamento de terras, a região Sudeste se mostra suscetível a eventos de seca, como, por exemplo, a crise hídrica, ocasionada pela falta de chuva em 2014-2015. Estudos mais específicos para a Região Metropolitana de São Paulo, como o de Marengo et al. (2020), indicaram, por meio de dados históricos de estações meteorológicas, que tempestades e secas podem se tornar uma tendência. As mudanças nos extremos podem ser atribuídas, em parte, à variabilidade climática natural, mas também podem estar relacionadas ao aquecimento global e/ou urbanização. Os índices de precipitação revelaram um aumento significativo nos totais de chuva intensa, bem como redução nos dias com chuvas fracas. Essas mudanças indicam alterações nos padrões pluviométricos, implicando no aumento de riscos e em desafios para a gestão ambiental e infraestrutura urbana. Para o recorte da macrometrópole paulista, Machado et al. (2021) observaram um aumento médio de 3 mm/ano na precipitação total anual no período 1950 a 2016. Os autores relacionaram as tendências de chuvas extremas com oscilações climáticas de larga escala e identificaram evidências de que áreas mais urbanizadas apresentam um aumento na frequência e magnitude de eventos extremos. Não foram encontrados na literatura acadêmica estudos que analisassem especificamente o Oeste do Estado de São Paulo. Geralmente, as análises que contemplam essa região estão inseridas em estudos de extremos de chuva em bacias hidrográficas, particularmente na bacia do Rio Paraná, como demonstrado nos trabalhos de Camilloni e Barros (2000); Abou Rafee et al. (2020) e Zandonadi et al. (2016). Embora esses estudos tenham considerado uma vasta quantidade de dados, não pormenorizando as características locais e individuais, foi demonstrado para a região um aumento na precipitação total e no Índice de Intensidade Diária Simples das Chuvas (SDII). 43 De modo geral, um desafio comum em estudos que utilizam índices climáticos é a precisão na determinação de como os eventos estão mudando ao longo do tempo e as razões por trás dessas mudanças. Isso se deve à dificuldade em considerar a natureza complexa e variável do clima, bem como a influência de fatores externos, como os componentes urbanos e as mudanças climáticas globais. Outro desafio significativo é a construção de séries temporais de dados diários consistentes e completos. Em muitos países em desenvolvimento, como o Brasil, a disponibilidade desses dados é limitada, com muitas estações instaladas apenas no começo do século XXI. A falta de estações de longa duração prejudica o conjunto de dados históricos (Marengo, 2009). Além disso, outro fator que pode interferir nas observações climáticas é a falta de normalidade dos dados, decorrente de interferências humanas, principalmente nas alterações incorridas na superfície onde as estações estão localizadas (evolução da malha urbana, adensamento urbano, aumento da vegetação etc.). Também podem ocorrer mudanças instrumentais ou na metodologia de coleta e tratamento dos dados, o que pode impactar as análises (Vincent et al., 2005; Peterson; Manton, 2008; Acquaotta; Fratianni, 2014). 2.4 O risco e a vulnerabilidade Dentre os inúmeros efeitos associados à variabilidade climática, uma grande preocupação é a possibilidade de aumento na frequência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta. Esses eventos podem provocar impactos diretos e significativos para a população humana, especialmente nas áreas urbanas (Zandonadi et al., 2016). Tais questões acionam a necessidade de discutir conceitos essenciais, como risco e vulnerabilidade. O conceito de risco é polissêmico e possui uma análise multidimensional, sendo empregado por diversos campos do conhecimento científico, tanto nas Ciências Sociais quanto nas Ciências Naturais (Zanella, 2009; Aleixo, 2012; Loose, 2016; 2021; Nascimento Jr. 2018; Rampazzo, 2019). O pesquisador deve, portanto, direcionar suas aplicações de acordo com o campo de estudo, objeto de investigação, metodologias e métodos empregados, sendo importante destacar que o presente trabalho não busca esgotar essa discussão. Segundo Marandola Jr., Hogan (2004), Nascimento Jr. (2018) e Rampazzo (2019), na análise geográfica, o enfoque reside na investigação dos impactos sobre um determinado 44 ambiente, a partir da interpretação das relações complexas entre sociedade e natureza, bem como das articulações entre diferentes escalas geográficas. Os primeiros estudos relacionados ao risco são atribuídos aos biólogos no campo das Ciências Naturais, sendo posteriormente apropriada pelos geógrafos, que têm se dedicado ao tema desde a década de 1920, principalmente no estudo dos natural hazards (Marandola Jr.; Hogan, 2004; Loose, 2016). Com a expansão dos estudos sobre riscos, notadamente a partir da década de 1980, observou-se o uso crescente de termos como “hazards”, e “perigo”, resultando em uma grande polissemia e particularização das abordagens (Marandola Jr.; Hogan, 2004). O termo “hazard” não possui uma tradução direta para o português, sendo interpretado como a ameaça ou mesmo como o próprio risco. Na língua inglesa, a noção de risco enquanto probabilidade de ocorrência de um evento e suas repercussões é designada como “risk”, enquanto hazard é associado ao perigo, ou seja, a um fato ou condição que potencialmente pode causar danos e perdas (Veyret, 2007; Loose, 2016). Veyret (2007) relaciona o risco com o perigo, considerando o risco como a percepção da ocorrência de uma catástrofe. Para a construção dessa ideia, a autora destaca a dimensão do contexto histórico e do espaço, bem como a forma como as relações entre os diferentes agentes sociais estão materializadas. As percepções de risco podem ser individuais ou coletivas, "[...] nas sociedades em que o perigo é considerado fatalidade ou punição divina, as populações permanecem passivas e têm muita dificuldade em admitir que podem gerir o perigo" (Veyret, 2007, p.48). Nas últimas décadas, com a elevação dos padrões de vida, notadamente nas sociedades ocidentais, a preocupação com a máxima segurança, apoiada no desenvolvimento tecnológico e científico, gerou uma aversão à incerteza e ao risco (Loose, 2016). [...] os riscos são construídos a partir de dadas realidades, em relação a um grupo de indivíduos que o apreende e com ele convive. Portanto, os riscos do passado não são necessariamente os riscos que se percebem hoje. Como construção social, o risco não depende somente de processos objetivos e, por isso, diferentes culturas percebem a mesma situação com variados ou nenhum grau de risco (Loose, 2016, p.79). A compreensão da relação entre a natureza do risco, a vulnerabilidade da sociedade e a capacidade de proteção diante dos impactos e da mitigação torna-se fundamental nas cidades, especialmente em áreas urbanas com latentes desigualdades socioespaciais e políticas públicas pouco eficazes. Tais circunstâncias tendem a acentuar os riscos e a insegurança. Nesse sentido, 45 compreender a natureza do risco é de grande importância para as diversas análises socioambientais realizadas em contextos urbanos (Nascimento Jr., 2018; Rampazzo, 2019). No âmbito das discussões sobre a crise climática, também conhecida como emergência climática, observa-se um crescente interesse na análise dos riscos associados ao processo de urbanização e ao aumento das populações urbanas. Essa análise envolve diversas dimensões, desde os riscos naturais e tecnológicos até os sociais, que são diferenciados por autores como Veyret (2007). A sua compreensão é conduzida a partir de uma abordagem sistêmica, considerando a interação entre elementos naturais, sociais e tecnológicos que interferem na ampliação e formação dos riscos. O risco envolve tanto questões passadas quanto futuras. O componente passado (histórico) está associado ao conhecimento e à organização da sociedade, moldando-se nas formas presentes no espaço. Por outro lado, o componente futuro, conforme apontado por Beck (2010), relaciona-se à ideia de antecipação, abrangendo situações que ainda não ocorreram, mas que são consideradas iminentes em termos de desastres. Sob essa perspectiva, o risco não se limita apenas à concretização da catástrofe, mas também inclui sua previsão. É nesse contexto que se destaca o papel da comunicação na disseminação do conhecimento sobre o risco, visando transformá-lo em uma pauta de interesse público e preocupação social. Beck (2010, p.362) afirma que "a construção social de uma antecipação real de catástrofes futuras no presente (como a mudança climática ou a crise financeira) pode se tornar uma força política que transforme o mundo (para melhor ou para pior)". Embora existam diferentes tipos de riscos (Veyret, 2007), nem todos são abordados pela Geografia. Segundo Almeida (2012, p. 26), “os riscos cuja percepção e gestão são acompanhadas de uma dimensão espacial, e por isso são abordados pela ciência geográfica, são classificados de acordo com os processos que os engendram”. Neste trabalho, parte-se então da noção de riscos ambientais, mais especificamente dos riscos climáticos, considerando a complexidade da relação sociedade e natureza. Concorda-se com Loose (2016) que os riscos ambientais são também sociais, uma vez que reforçam desigualdades sociais e espaciais, bem como podem servir como base ou combustível para a emergência de conflitos sociais. Conforme destaca Veyret (2007, p.63), os riscos ambientais “[...] resultam da associação entre os riscos naturais e os riscos decorrentes de processos naturais agravados pela atividade humana e pela ocupação do território”. Enquanto os primeiros estão ligados a processos físicos, os outros se destacam pela influência das atividades humanas e pela produção do espaço, 46 intensificando certos processos naturais e atrelando-se à noção de perigo, como inundações, poluição etc. Nesse contexto, Deschamps (2004, p.140) conclui: [...] que há uma estreita relação entre a localização espacial dos grupos que apresentam desvantagens sociais e aquelas áreas onde há o risco de ocorrer algum evento adverso, ou seja, populações socialmente vulneráveis se localizam em áreas ambientalmente vulneráveis. Os riscos socioambientais urbanos compõem um complexo emaranhado de elementos naturais e sociais (político, cultural, econômico) que afetam a organização das cidades e as condições de vida das populações.