% %% � � � , , ,, � �� �� e ee @ @@ l l l Q QQ HHPPPXXX hhhh (((( ��� IFT Instituto de F́ısica Teórica Universidade Estadual Paulista DISSERTAÇÃO DE MESTRADO IFT–D.004/13 O mecanismo atrator e a função entropia de Sen para buracos negros Prieslei Estefânio Dominik Goulart Santos Orientador Horatiu Nastase Fevereiro de 2013 Agradecimentos Primeiramente agradeço à minha famı́lia por toda a paciência e pelo apoio incondi- cional neste momento tão intenso de minha vida. Agradeço a todos os professores e funcionários do IFT por fazerem do nosso ambiente de estudo a nossa casa. Agradeço a todos os amigos do IFT pelos bons momentos e pelas experiências que adquiri du- rante o mestrado. Em especial agradeço a David e José Cupertino pela amizade e apoio. Agradeço ao meu orientador Horatiu Nastase por todo incentivo e atenção prestados ao longo destes dois anos de mestrado. Agradeço ao CNPQ pelo apoio financeiro. i Resumo Nesta dissertação estudamos o mecanismo atrator e a função entropia para bu- racos negros. Depois de revisarmos alguns aspectos de Relatividade Geral e buracos negros do tipo Schwarzschild, Reissner-Nordstrom e Kerr-Neumann demonstraremos detalhadamente como são deduzidas a lei zero e a primeira lei das chamadas Leis da Termodinâmica de Buracos Negros. Apresentaremos também a segunda e a terceira destas leis e discutiremos a relação entre as Leis da Termodinâmica e as Leis da Termodinâmica de Buracos Negros. Após isso, apresentaremos um exemplo para demonstrar como ocorre o chamado fenômeno atrator, que faz com que todos os campos escalares admitam o mesmo valor sobre o horizonte de eventos do buraco negro, fazendo-os então perder toda a memória de suas condições iniciais no in- finito. Finalmente, apresentaremos a dedução da chamada função entropia de Sen, e demonstraremos sua importância no que se refere ao estudo dos campos escalares de um buraco negro para a geometria próxima ao horizonte de eventos, ou seja, para o mecanismo atrator. Demonstraremos a validade deste formalismo através da solução de Reissner-Nordstrom usual em 4 dimensões e de uma teoria correspon- dendo à parte bosônica de uma ação da supergravidade à baixas energias. Palavras Chaves: termodinâmica de buracos negros; mecanismo atrator; função entropia de Sen. Áreas do conhecimento: Relatividade Geral; Teoria de Campos. ii Abstract In this Master Thesis we study the attractor mechanism and the entropy function for black holes. After reviewing some aspects of General Relativity and black holes solutions of the Schwarzschild, Reissner-Nordstrom and Kerr-Newmann type, we give a detailed derivation of the zeroth and first of the so-called Laws of Black Hole Thermodynamics. We will also present the second and third laws and discuss the relation between The Laws of Thermodynamics and The Laws of Black Hole Thermodynamics. Then we will present an example of how the so-called attractor phenomena occurs, which makes all the scalar fields assume the same value on the black hole event horizon, forcing them to lose all the memory of their initial conditions at the infinity. Finally, we will present the derivation of the so-called Sen’s entropy function, and we will show its importance concerning the study of scalar fields of a black hole for the near horizon geometry, or in other words, for the attractor mechanism. We will show the validity of this formalism through the usual Reissner-Nordstrom solution in 4 dimensions and a theory corresponding to the bosonic part of a low energy supergravity action. iii Índice 1 Introdução 1 2 Leis da Termodinâmica e função entropia 4 2.1 As leis da termodinâmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 2.2 Espaço de fase e número de microestados . . . . . . . . . . . . . . . . 5 2.3 Definição estat́ıstica de entropia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 2.4 Contagem pseudo-quântica de Ω . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 2.5 Distribuição Microcanônica e limite termodinâmico . . . . . . . . . . 10 2.5.1 Densidade de espaço de fase e hipótese ergódica . . . . . . . . 10 2.5.2 Número de microestados de N part́ıculas não -interagentes . . 12 2.5.3 Diferentes definições de entropia . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 3 Resultados de Relatividade Geral 15 3.1 Noções básicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 3.1.1 Transporte paralelo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 3.1.2 Geodésicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 3.1.3 Isometrias e conservação do quadrimomento . . . . . . . . . . 17 3.1.4 Desvio geodésico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 3.1.5 Vetores de Killing e equação de Killing . . . . . . . . . . . . . 20 3.1.6 Derivada de Lie . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 3.1.7 Condições de Energia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 3.1.8 Congruências geodésicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 3.2 Buracos negros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 3.2.1 Solução de Schwarzschild . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 3.2.2 Solução de Reissner-Nordstrom . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 3.2.3 Solução de Kerr-Neumann . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 3.2.4 Superf́ıcies nulas e horizontes de Killing . . . . . . . . . . . . . 44 3.2.5 Massa, carga e momento angular . . . . . . . . . . . . . . . . 47 iv 4 As leis da termodinâmica de buracos negros 54 4.1 Gravidade superficial e lei zero da termodinâmica de buracos negros . 55 4.2 A fórmula integral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59 4.3 A fórmula diferencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 4.4 Leis da termodinâmica de buracos negros . . . . . . . . . . . . . . . . 72 4.5 Buracos negros e termodinâmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 5 O mecanismo atrator 75 5.1 Dualidade eletromagnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 5.2 Revisão de buracos negros dilatônicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 5.3 O mecanismo atrator . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 6 Função entropia de Sen 88 6.1 Definição de buracos negros extremos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 6.2 Função Entropia para buracos negros esfericamente simétricos em D=4 91 6.3 AdS2 × S3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97 6.4 Generalização do cálculo da função entropia de Sen para AdS2 × SD−2 103 7 Conclusões 107 A Propriedades do determinante da métrica 108 B Teorema de Gauss-Stokes 110 Referências 113 v Caṕıtulo 1 Introdução Em 1915 Einstein apresentou ao mundo a Teoria da Relatividade Geral. Utilizando- se de certos limites de campo gravitacional fraco e de experimentos pensados por ele, Einstein deduziu uma equação tensorial que relaciona a geometria do espaçotempo, cuja informação está contida no tensor de curvatura, com a matéria que faz com que a geometria do espaçotempo tome essa forma, cujo conteúdo é dado pelo tensor energia-momento. Em sua teoria Einstein pôde explicar por exemplo o problema da precessão do periélio de Mercúrio, cuja mecânica Newtoniana não bastava para dar uma explicação concreta. Porém, um dos maiores triunfos da Relatividade Geral é sem dúvida a chamada solução de Schwarzschild, que é uma solução das equações de Einstein para um espaçotempo estacionário e esfericamente simétrico. Uma das previsões que podia ser feita desta solução era que a luz poderia mudar sua trajetória ao passar próxima a corpos massivos como planetas e estrelas. De fato, esta previsão foi confirmada alguns anos após Einstein ter apresentado ao mundo a sua teoria, o que confirmou ainda mais a validade da Relatividade Geral. Vários experimentos são feitos ainda hoje com a intenção de servirem de testes para a teoria e verificar seus limites, como por exemplo a medida do deslocamento para o vermelho de um raio de luz enviado para a lua e refletido de volta para a Terra, sendo este efeito causado pela ação do campo gravitacional sobre os ftons do raio de luz. A solução de Schwarzschild apresenta algumas peculiaridades como a presença de uma singularidade em r = 0 e um horizonte de eventos, que é uma superf́ıcie da qual nada que esteja em seu interior escapa. Isso levou à introdução do termo buraco negro para designar tais soluções , e é este o principal objeto de estudo desta dissertação . A solução de Schwarzschild é válida quando o tensor energia-momento, que carrega informação sobre os campos do corpo que colapsou em um buraco negro, é nulo. Podemos admitir que um buraco negro possa ter também cargas elétricas e magnéticas, o que faria que o tensor energia-momento fosse diferente de zero, e assim somos levados à chamada solução de Reissner-Nordstrom, que é uma solução 1 das equações de Eintein que representa um buraco negro carregado. Uma diferença com relação à solução de Schwarzschild é a de que a solução de Reissner-Nordstrom possui dois horizontes de eventos quandos certos limites sobre a massa e a carga são tomados, como demonstraremos nos próximos caṕıtulos. Além do mais, depois de um trabalho muito mais árduo, podemos ainda demonstrar que é posśıvel se obter uma solução que representa um buraco negro em rotação , ou seja, possui momento angular. Esta é a chamada solução de Kerr-Newmann. Desde de sua descoberta buracos negros têm sido alvo de muito estudo e espec- ulação . Várias foram as descobertas teóricas que impulsionaram os f́ısicos Bardeen, Carter e Hawking a formular em 1973 as chamadas Leis da Termodinâmica de Bu- racos Negros. Em seu artigo, eles descobriram que existe uma forte analogia entre as leis da Termodinâmica usuais e as Leis da Termodinâmica de Buracos Negros. Mais tarde Hawking demonstrou que é posśıvel associar ao buraco negro uma tem- peratura, que passou a ser chamada de Temperatura Hawking, que deixou claro que a área do buraco negro está diretamente relacionada com a entropia. Após essa descoberta Hawking fez a incŕıvel descoberta de que processos quânticos fazem com que buracos negros emitam radiação, sendo que esta passou a ser chamada de Radiação Hawking. Estas descobertas demonstraram que de fato buracos negros se comportam como sistemas termodinâmicos e que por suas caracteŕısticas serviriam como um laboratório ideal para se testar teorias de gravitação quântica. Muito avanço foi feito mas o que se tem certeza atualmente é de que sabemos muito pouco sobre a termodinâmica de buracos negros. Apesar de sabermos definir a entropia para um buraco negro não sabemos ainda contar seus microestados, pelo menos sem o uso de ferramentas mais avançadas como a teoria de cordas. O conteúdo microscópico de um buraco negro é ainda um mistério e vários esforços são feito para se entender melhor como definir esses microestados. Caso soubéssemos disso, seria posśıvel obter informações sobre o conteúdo microscópico de um buraco negro através de suas grandezas macroscópicas que podemos medir, reforçando a idéia de que eles são o laboratório ideal para se estudar teorias de gravitação quântica. O horizonte do buraco negro tem algumas propriedades interessantes. O que é entendido é que independentemente dos valores assintóticos para os campos, no horizonte eles tomam valores espećıficos, um fenômeno conhecido como mecanismo atrator. Uma maneira de se encontrar este fenômeno é definir uma função entropia como a proposta por Sen [1] e outros, cujo extremo nos dá o atrator, e a função entropia tomada no extremo nos dá a entropia do buraco negro. Nesta dissertação estudamos o mecanismo atrator e a função entropia, e os apli- camos para o caso de quando o horizonte é do tipo AdS2×S2, e em geral AdS2×SD−2. 2 A organização da dissertação é dada como se segue. Escreveremos as leis da termodinâmica e mostraremos como se pode definir a entropia de Boltzmann, bem como suas diferentes definições para a distribuição microcanônica. Mostraremos em seguida como estas diferentes definições convergem para o mesmo valor. Discutire- mos as ferramentas necessárias para se estudar buracos negros como congruências geodésicas, condições de energia, horizontes de Killing e definições de massa e mo- mento angular para buracos negros. Apresentaremos a dedução da lei zero e da primeira lei da Termodinâmica de buracos negros, e também apresentaremos a se- gunda e a terceira lei e discutiremos a relação entre essas leis e as leis da ter- modinâmica apresentadas no caṕıtulo 2. Estudaremos teorias invariantes por trans- formação de dualidade cujo fundo corresponde à uma solução do tipo buraco negro extremo. Demonstraremos como se dá o fenômeno atrator para uma teoria de gravi- dade acoplada à campos de gauge e ao campo escalar do d́ılaton. Deduziremos o formalismo da função entropia de Sen e como ele é usado para o estudo do fenômeno atrator e para uma dedução da entropia do buraco negro. Aplicaremos esse formal- ismo para a solução de Reissner-Nordstrom usual em 4 dimensões e também para o exemplo de uma teoria em 5 dimensões . Por fim, demonstraremos como se escrever a função entropia de Sen para uma teoria em D dimensões . 3 Caṕıtulo 2 Leis da Termodinâmica e função entropia Neste caṕitulo apresentaremos alguns resultados referentes à termodinâmica usual. Primeiro vamos enumerar as Leis da Termodinâmica, que estão relacionadas com- pletamente com o conteúdo macroscópico de um sistema. Após isso, apresentaremos a definição estat́ıstica da entropia, através da fórmula de Boltzmann S = kB ln Ω. A entropia escrita nessa forma relaciona as quantidades macroscópicas de um sis- tema com seu estado microscópico, que é descrito pelo número total de microestados Ω. Vamos demonstrar a relação entre o espaço de fase clássico e o número total de microestados Ω. Então aplicaremos nossas idéias para o cálculo de Ω para uma part́ıcula quântica numa caixa cúbica. Apresentaremos uma breve discussão sobre a hipótese ergódica que diz respeito às grandezas médias calculadas classicamente e no contexto da f́ısica estat́ıstica. Estenderemos o cálculo do número total de mi- croestados para um sistema de N part́ıculas quânticas numa caixa cúbica, e também calcularemos a densidade de microestados. Finalmente, apresentaremos as posśıveis definições estat́ısticas da entropia para este caso e demonstraremos que no limite termodinâmico, isto é, N →∞, todas definições convergem para o mesmo valor. 2.1 As leis da termodinâmica Nesta seção vamos apresentar as leis da termodinâmica. Basicamente existem 4 leis, e, algumas vezes, diferentes formas de apresentá-las. Seguiremos as referências [2], [3] e [4]. 0. Lei zero da termodinâmica: Todos os sistemas que estão em equiĺıbrio térmico com um dado sistema também estão em aquiĺıbrio térmico entre si. 1. Primeira lei da termodinâmica: A mudança de energia interna para uma mudança de estado (reverśıvel ou irre- 4 verśıvel) é dada pela soma do trabalho δW e do calor δQ trocados com os arredores do sistema dU = δW + δQ. (2.1) A primeira lei é simplesmente uma expressão para a conservação da energia de um sistema termodinâmico, e a escrevemos usando os diferenciais δ para representar o fato de que o trabalho e o calor trocados com os arredores podem depender do processo termodinâmico envolvido. 2. Segunda lei da termodinâmica: Um macroestado de equiĺıbrio de um sistema pode ser caracterizado por uma quan- tidade S chamada de entropia, a qual tem as seguintes propriedades: a. em qualquer processo no qual um sistema isolado termicamente vai de um macroestado para outro a entropia tende a crescer, isto é ∆S ≥ 0; (2.2) b. se um sistema não é isolado e passa por um processo infinitesimal quasi-estático no qual ele absorve calor δQ, então dS = δQ T , (2.3) onde T é a temperatura absoluta do sistema. Para sistemas isolados, δQ = 0, o que implica que dS = 0, indicando que nesta situação de equiĺıbrio a entropia tem um extremo. Todo experimento confirma que este extremo é um máximo. 3. Terceira lei da termodinâmica: A entropia S de um sistema tem a propriedade limitante de que, conforme T → 0+, S → S0, (2.4) onde S0 é uma propriedade independente de todos os parâmetros do sistema partic- ular. 2.2 Espaço de fase e número de microestados Para fixar o estado de movimento de um sistema clássico basta conhecer todas as coordenadas generalizadas qν(t) e pν(t) para todo t, onde ν = 1, ..., 3N quando não há v́ınculos para as coordenadas e momentos. O conjunto (qν , pν) do espaço de fase 6N -dimensional é interpretado como o microestado deste sistema. Um ponto definido no espaço de fase corresponde a um estado microscópico do movi- mento do sistema inteiro. A evolução temporal do sistema corresponde à uma curva 5 (qν(t), pν(t)) do espaço de fase, também chamada de trajetória no espaço de fase, que é determinada pelas equações de movimento de Hamilton q̇ν = ∂H ∂pν , ṗν = −∂H ∂qν , (2.5) onde H(qν(t), pν(t)) é a hamiltoniana do sistema. Em um sistema fechado no qual a hamiltoniana não depende do tempo, a energia total E = H(qν , pν) (2.6) é uma quantidade conservada, e, ao longo de uma trajetória do espaço de fase, ela sempre assume o mesmo valor E independente do tempo. Chamamos de célula do espaço de fase ao elemento de espaço de fase d3Nqd3Np. Ela relaciona o volume de certas regiões do espaço de fase, isto é, a região entre as elipses E e E + ∆E. A célula também é chamada de elemento de volume no espaço de fase, que abreviaremos para dω. O volume correspondendo à região entre E e E + ∆E, é dado por ∆ω = ∫ E≤H(qν ,pν)≤E+∆E dω = ∫ E≤H(qν ,pν)≤E+∆E d3Nqd3Np. (2.7) Da mesma forma, podemos definir a área por σ(E) = ∫ E=H(qν ,pν) dσ (2.8) e relacioná-la à hipersuperf́ıcie de energia, onde dσ representa o elemento de su- perf́ıcie. Considere um sistema termodinâmico caracterizado pelas variáveis natu- rais E, V e N . O volume do reservatório restringe as posśıveis coordenadas das part́ıculas, e o fato da energia ser dada faz com que somente pontos no espaço de fase sejam permitidos. Como temos a área da hipersuperf́ıcie de energia à nossa disposição, assumiremos que o número de microestados é proporcional à essa área. Então , para um dado macroestado existe um número grande de diferentes microes- tados, dado por Ω(E, V,N) = σ(E, V,N) σ0 , (2.9) com σ(E, V,N) = ∫ E=H(qν ,pν) dσ (2.10) e σ0 sendo uma constante de proporcionalidade que não influenciará na dinâmica do sistema, já que veremos futuramente que estaremos interessados nas razões entre diferentes estados microscópicos. Para um estado macroscópico o volume total do espaço de fase é dado por ω(E, V,N) = ∫ H(qν ,pν)≤E d3Nqd3Np, (2.11) 6 onde a fronteira é a hipersuperf́ıcie de energia E = H(qν , pν). Para ∆E pequeno o volume entre E e E + ∆E é dado por ∆ω = ω(E + ∆E)− ω(E) = ∂ω ∂E ∣∣∣∣∣ V,N ∆E. (2.12) O volume entre duas superf́ıcies vizinhas (veja [3]), com área σ(E) e distância ∆E é dado por ∆ω = σ(E)∆E. (2.13) Comparando as expressões 2.12 e 2.13 verificamos que σ(E) = ∂ω ∂E , (2.14) o que nos fornece para a equação 2.9 Ω(E, V,N) = 1 σ0 ∂ω ∂E , (2.15) onde ω é dado por 2.11. 2.3 Definição estat́ıstica de entropia Considere um sistema fechado que consiste de um subsistema 1 e um subsistema 2, cujas variáveis de estado são E, V e N , de forma que E = E1 + E2 = const dE1 = −dE2 V = V1 + V2 = const dV1 = −dV2 N = N1 +N2 = const dN1 = −dN2. (2.16) Isto equivale a dizer que os sistemas podem trocar energia ou part́ıculas, ou podem alterar seus volumes. Porém, em equiĺıbrio, Ei, Vi e Ni, com i = 1, 2, se adaptarão à certos valores médios. O número total de microestados deste sistema Ω(E, V,N) será o produto do número de estados de cada subsistema, isto é, Ω(E, V,N) = Ω(E1, V1, N1)Ω(E2, V2, N2). (2.17) O estado de equiĺıbrio corresponde ao estado com maior número de microestados, isto é, Ω = Ωmax e dΩ = 0. Usando 2.17 podemos formar os diferenciais dΩ = Ω2dΩ1 + Ω1dΩ2, (2.18) ou, se dividirmos essa equação por 2.17, teremos d ln Ω = d ln Ω1 + d ln Ω2. (2.19) 7 A condição de equiĺıbrio é escrita como d ln Ω = 0, ln Ω = ln Ωmax. (2.20) Quando a energia interna U de um sistema fechado é identificada com a energia total E podemos considerar este sistema do ponto de vista termodinâmico, para o qual a entropia total será a soma das entropias dos dois subsistemas S(E, V,N) = S(E1, V1, N1) + S(E2, V2, N2). (2.21) O diferencial dessa expressão é escrito como dS = dS1 + dS2. (2.22) De acordo com a segunda lei da termodinâmica estamos em equiĺıbrio termodinâmico se a entropia é máxima dS = 0, S = Smax. (2.23) Podemos comparar as equações 2.20 e 2.23 e verificar que existe de fato uma analogia entre a entropia e ln Ω. De fato, as duas quantidades devem ser proporcionais uma à outra, ou seja, podemos definir a entropia do sistema como S(E, V,N) = kB ln Ω(E, V,N), (2.24) onde kB é identificada como sendo a constante de Boltzmann. Vale ressaltar que podeŕıamos ter definido a entropia da forma acima mais uma constante, porém, a constante poderia ser absorvida por S. A função 2.24 possui extrema importância no sentido em que podemos calcu- lar propriedades termodinâmicas de um dado sistema de muitos corpos usando a hamiltoniana H(qν , pν). Apesar ds simplicidade da equação 2.15 o cálculo de Ω não é trivial. Usamos em geral a teoria do ensemble para nos dar um método prático para o cálculo de Ω para sistemas mais complicados. 2.4 Contagem pseudo-quântica de Ω Consideraremos agora o caso do gás ideal e contaremos o número de estados quânticos para uma determinação direta de Ω. Do problema da part́ıcula quântica em uma caixa cúbica de comprimento L temos que sua função de onda é dada por Ψnx,ny ,nz = A sin nxπx L sin nyπy L sin nzπz L , (2.25) 8 onde nx, ny, nz = 1, 2, ... e sua energia é dada por E = h2 8mL2 (n2 x + n2 y + n2 z). (2.26) No caso clássico o microestado da part́ıcula era fixado pela variáveis canônicas ~q e ~p. Agora para o caso quântico cada estado de uma única part́ıcula é fixado pelos números quânticos (nx, ny, nz). A energia total para o problema de N -part́ıculas é determinada pelos 3N números quânticos dos estados ocupados, E = h2 8mL2 3N∑ i=1 n2 i . (2.27) Estamos agora lidando com um espaço 3N -dimensional que contém uma esfera de energia (3N − 1) dimensional. O estado de menor energia corresponde ao estado para o qual todos números quânticos são iguais a 1. O próximo estado é aquele em que somente um dos números quânticos assume valor igual a 2 e os demais iguais a 1. Se o sistema contivesse 3 part́ıculas por exemplo, haveria Ω = 9 estados posśıveis para esta configuração de energia. Isto na realidade não corresponde à um cálculo quântico, já que as part́ıculas são idênticas e não podemos distinguir exatamente qual delas assumiu o valor de ni = 2. Tudo que fizemos foi usar o cálculo estat́ıstico clássico para contar estados. Em um cálculo quântico deve-se levar em conta no ińıcio do problema a indistinguibilidade das part́ıculas. Nos sistemas termodinâmicos em geral há sempre troca de energia com o am- biente, por isso é interessante definir o número de microestados médio Ω sobre um intervalo de energia ∆E. Para isso considere o número de todos microestados no interior da esfera de energia, Σ(E, V,N) = ∑ E′≤E Ω(E ′, V,N). (2.28) Podemos aproximar Σ para uma função média Σ cont́ınua, que diferenciada com relação à energia nos fornece a densidade média de estados, que corresponde ao número médio de estados por intervalo de energia g(E, V,N) = ∂ ∂E Σ(E, V,N), (2.29) em analogia com o cálculo clássico da superf́ıcie de energia σ(E) por meio de σ(E) = ∂ω/∂E. No limite para o qual N →∞ temos Σ ≈ Σ, que corresponde à um cálculo clássico. O fator de correção de Gibbs N ! é introduzido com o intuito de descontar a contagem dos estados extras que são provenientes do fato das part́ıculas serem 9 indistingúıveis. Então, introduzindo o fator de correção de Gibbs para Σ(E), a entropia absoluta é dada por S(E, V,N) = k ln Ω(E, V,N), (2.30) com as seguintes definições Ω(E, V,N) = g(E, V,N)E, (2.31) g(E) = ∂Σ(E) ∂E , (2.32) Σ(E) = 1 N !h3N ∫ H(qν ,pν)≤E d3Nqd3Np, (2.33) onde o fator h3N é a unidade de volume do espaço de fase. 2.5 Distribuição Microcanônica e limite termodinâmico Os parâmetros termodinâmicos que especificam o número de microestados de um sistema isolado são a energia E, o volume V e o número de part́ıculas N . O postu- lado básico da mecânica estat́ıstica nos diz que todos os microestados da superf́ıcie de energia de um sistema fechado podem ser assumidos como sendo igualmente prováveis. A coleção dos sistemas em diferentes microestados e valores especificados de E, V e N é chamado de ensemble microcanônico. Para um sistema quântico a energia E deve ser sempre especificada em alguma faixa de energia, pois se ela fosse especificada exatamente, o sistema teria que estar em um de seus posśıveis autoestados, e permaneceria neste autoestado indefinidamente. Se isso acontecesse um tratamento estat́ıstico não faria sentido. Além do mais, a energia em geral é considerada como sendo uma variável cont́ınua. Conhecendo-se a função entropia é posśıvel fazer a conexão com a termodinâmica através das definições gerais de temperatura T , pressão p e potencial qúımico µ, que são dadas por 1 T = ∂S ∂E , p T = ∂S ∂V , −µ T = ∂S ∂N . (2.34) O que precisamos agora é especificar como podemos definir a entropia para um sistema cuja energia é uma variável cont́ınua. 2.5.1 Densidade de espaço de fase e hipótese ergódica Para sistemas não-fechados o postulado básico da mecânica estat́ıstica deixa de ser válido. Para este caso o microestado deve ser multiplicado por uma função peso ρ(qν , pν) que depende da energia do estado. Portanto teremos uma função peso para 10 cada ponto do espaço de fase (qν , pν), que pode ser interpretada como a densidade de probabilidade para o microssistema alcançar este ponto do espaço de fase. Então, para um sistema fechado ρ seria nulo dentro e fora da superf́ıcie de energia, e seria constante sobre a superf́ıcie de energia. A densidade de probabilidade ρ é chamada de densidade de espaço de fase e é normalizada a 1,∫ d3Nqd3Npρ(qν , pν) = 1. (2.35) Sendo f(qν , pν) qualquer observável do sistema, então, em geral, pode-se observar um valor médio < f > desta quantidade em um dado macroestado, no qual o microestado contribui com seu peso correspondente ρ(qν , pν): < f >= ∫ d3Nqd3Npf(qν , pν)ρ(qν , pν). (2.36) Como o ponto do espaço de fase (qν , pν) pode ser identificado com uma cópia do sistema macroscópico real em um certo microestado, a equação acima é simplesmente uma média sobre o conjunto de tais cópias idênticas à tempo fixo. A quantidade < f > é chamada de média de ensemble da quantidade f e a densidade de espaço de fase ρ é a função de peso do ensemble. A densidade de espaço de fase de um sitema fechado corresponde a um certo ensemble de posśıveis microestados e o chamaremos simplesmente de um ensemble microcanônico, que denotaremos pelo ı́ndice mc. Então, para um sistema fechado, o ensemble microcanônico é dado por ρmc =  const, E ≤ H(qν , pν) ≤ E + ∆E 0, outro caso. (2.37) A constante em 2.37 é determinada pela normalização 2.35, const = 1 Ω(E, V,N)h3N , (2.38) onde incluiremos o fator de correção de Gibbs, N !, somente se formos corrigir o fato das part́ıculas serem distingúıveis. Por comodidade incluiremos o fator h3N no elemento de volume para que a definição da densidade de espaço de fase seja adimensional. Então nossas definições passam a ser 1 h3N ∫ d3Nqd3Npρ(qν , pν) = 1, (2.39) < f >= 1 h3N ∫ d3Nqd3Npf(qν , pν)ρ(qν , pν). (2.40) A densidade de espaço de fase normalizada do ensemble microcanônico será ρmc =  1 Ω , E ≤ H(qν , pν) ≤ E + ∆E 0, outro caso. (2.41) 11 Para calcular a média temporal de uma certa quantidade f no laboratório geralmente tomamos a média de vários valores de amostra de f em um intervalo de tempo razoavelmente grande, T . Matematicamente isso corresponde a calcular f = lim T→∞ 1 T ∫ T 0 dtf(t). (2.42) A hipótese ergódica consiste basicamente em assumir que, no equiĺıbrio, esse mesmo valor pode ser obtido de uma média no espaço de fase, < f >= ∫ f(qν , pν)ρ(qν , pν)d 3Nqd3Np∫ ρ(qν , pν)d3Nqd3Np , (2.43) onde o ensemble é tomado sobre todos os microestados acesśıveis ao sistema. Para que haja a igualdade entre as duas grandezas é necessário assumir que, para um sistema fechado a uma dada energia, durante sua evolução temporal, a trajetória do espaço de fase passa através de cada ponto da superf́ıcie de energia um número igual de vezes. De fato, para sistemas com muitas dimensões pode-se demonstrar matematicamente que a trajetória do espaço de fase, a prinćıpio, nunca pode passar por todos pontos da superf́ıcie de energia. Para estes casos então é necessário invocar a hipótese quasi-ergódica, que diz que a condição necessária para que haja a igualdade entre as médias temporais e as médias de ensemble é que a trajeória do espaço de fase passe arbitrariamente perto dos pontos da superf́ıcie de energia. 2.5.2 Número de microestados de N part́ıculas não -interagentes Vamos agora calcular o número de microestados de um sistema de N part́ıculas distingúıveis e dividir por N ! para corrigir a contagem dos estados extras. Para o caso de uma part́ıcula em uma caixa tridimensional o número de microestados com energia menor ou igual a E é igual ao volume do octante positivo da esfera de energia. O que faremos agora é generalizar esse caso para um sistema de N part́ıculas. O volume de uma hiperesfera n-dimensional é dado por Vn = ∫ r21+r22+...+r2n≤R2 dr1dr2...drn. (2.44) Para valores inteiros de n pode ser mostrado que este volume é dado por Vn = 2πn/2 nΓ(n/2) Rn, (2.45) onde, por 2.26, R2 ≡ n2 x + n2 y + n2 z = ( 2L h )2 2mE. (2.46) 12 Como estamos interessados em calcular o volume somente para o caso em que os valores de n sejam todos positivos, temos que acrescentar um fator de correção ao volume. Então, o volume da parte correspondente ao ”octante” positivo de uma hiperesfera n-dimensional é dado por Σ(R) = ( 1 2 )n Vn(R). (2.47) Usando as propriedades da função gama, Γ(n) = (n− 1)!, Γ(n+ 1) = nΓ(n), e que Γ(1/2) = √ π/2, podemos facilmente demonstrar que para o caso em que n = 3N este volume é dado por Σ(E, V,N) = ( V h3 )N (2πmE)3N/2 (3N/2)! . (2.48) Incluindo o fator de correção de Boltzmann temos Σ(E, V,N) = 1 N ! ( V h3 )N (2πmE)3N/2 (3N/2)! . (2.49) Este volume do ”octante” positivo da hiperesfera de energia corresponde ao número de microestados de um sistema de part́ıculas não -interagentes com energia menor ou igual a E. Para o caso em que o número de part́ıculas é muito grande, temos que N � 1, o que nos permite usar a aproximação de Stirling, lnN ! = N lnN −N , e o logaritmo da expressão 2.5.2 se torna ln Σ(E, V,N) = N ln V N + 3 2 N ln mE 3Nπh̄2 + 5 2 N, (2.50) onde 2πh̄ = h. Podemos também calcular a densidade de estados 2.32, que é escrita como g(E) = 1 N ! ( V h3 )N (2πm)3N/2 [(3N/2)− 1]! E(3N/2)−1. (2.51) Tomando o logaritmo desta expressão temos ln g(E) = − lnN !+N lnV −3N lnh+ 3N 2 ln(2πm)−ln ( 3N 2 − 1 ) !+ ( 3N 2 − 1 ) lnE. (2.52) Quando o valor de N é grande podemos usar a aproximação de Stirling novamente e escrever ln g(E) = −N lnN +N +N lnV − 3N lnh+ 3N 2 ln(2πm) − ( 3N 2 − 1 ) ln ( 3N 2 − 1 ) + ( 3N 2 − 1 ) + ( 3N 2 − 1 ) lnE. (2.53) 13 Como podemos notar Σ(E, V,N) e g(E) são funções de E, V e N que crescem muito rapidamente. Uma vez que conhecemos o número de microestados podemos escrever a en- tropia 2.30 deste sistema. Após isso podemos calcular as grandezas macroscópicas, que são a temperatura, a pressão e o potencial qúımico através das expressões ap- resentadas na introdução da seção, 2.34, responsáveis por fazer essa conexão com a termodinâmica. 2.5.3 Diferentes definições de entropia Após todas essas definições podemos nos perguntar como devemos definir a en- tropia para um sistema no qual a energia é uma variável cont́ınua. Note que temos 3 possibilidades: S = kB ln g(E)E, (2.54) S = kB ln Σ(E, V,N), (2.55) S = kB ln g(E). (2.56) Como estamos no limite para o qual o valor de N é muito grande, 3N/2 � 1, e deste modo o logaritmo da densidade de estados 2.53 é escrito como ln g(E) = N ln V N + 3 2 N ln mE 3Nπh̄2 + 5 2 N. (2.57) Esta definição é idêntica à 2.50. Além do mais, como vimos por 2.31, no limite para o qual N →∞ a definição do número de microestados pode ser escrita como Ω(E, V,N) = g(E, V,N)E. (2.58) Calculado o logaritmo desta expressão e usando a aproximação de Stirling, podemos novamente demonstrar que o resultado será uma expressão idêntica a 2.50. O que demonstramos foi que, no limite termodinâmico, as definições de entropia dadas pelas equações 2.54, 2.55 e 2.56 são as mesmas. Em outras palavras dizemos que as diferentes definições de entropia convergem para o mesmo valor para N grande. É importante lembrar disso no caso gravitacional que será discutido mais tarde. Uma definição de entropia mais clara e não-amb́ıgua para este caso somente é posśıvel para valores grandes de entropia. 14 Caṕıtulo 3 Resultados de Relatividade Geral Neste caṕıtulo apresentaremos alguns resultados conhecidos da relatividade geral com o intuito de fixar a notação e preparar o campo para o estudo de buracos negros e sua termodinâmica. Primeiro descreveremos brevemente o transporte paralelo. De- pois descreveremos geodésicas que são parametrizadas afim e também as que não são parametrizadas afim, pois estas últimas são importantes para a definição de uma grandeza chamada gravidade superficial que aparecerá nos próximos caṕıtulos. Estudaremos as isometrias, os vetores de Killing e o desvio geodésico que servirão de base para se definir a derivada de Lie e demonstrar a relação entre a derivada de Lie e a equação de Killing. Após isso falaremos sobre as condições impostas ao tensor energia momento de uma teoria, que são chamadas de condições de en- ergia. Como demonstraremos ao longo de toda a dissertação, a derivada de Lie é de extrema importância nas várias deduções feitas para a obtenção das Leis da Termodinâmica de Buracos Negros bem como as condições de energia. O estudo feito sobre congruências geodésicas tem como intenção deduzir a chamada equação de Raychaudhuri, que juntamente com certas condições de energia é usada para demonstrar o chamado teorema da focalização, que nos dá uma prova de que a gravitação é uma força atrativa. Por fim, deduziremos a solução de Schwarzschild que corresponde a um buraco negro sem carga e sem momento angular, e a solução de Reissner-Nordstrom, que corresponde a um buraco negro com carga e sem mo- mento angular. Apresentaremos a solução de Kerr-Newmann, que corresponde a um buraco negro carregado e com momento angular. Discutiremos a maneira de se definir o chamado horizonte de eventos, as superf́ıcies nulas e a relação que ambas possuem com os chamados horizontes de Killing. Ao longo de nossas discussões falaremos sobre o teorema “no hair”, que diz que o buraco negro é descrito por um conjunto muito pequeno de parâmetros. Devido a esse teorema vamos mostrar como se escreve as expressões para a massa, a carga e o momento angular do buraco negro, todos vistos por um observador no infinito. 15 3.1 Noções básicas 3.1.1 Transporte paralelo Cosidere um caminho x(λ), onde λ é o parâmetro ao longo deste caminho. Um tensor T é transportado paralelamente ao longo de x(λ) se sua derivada covariante ao longo do caminho é nula:( D dλ T )µ1µ2...µk ν1ν2...νl = dxσ dλ ∇σT µ1µ2...µk ν1ν2...νl = 0. (3.1) Para um vetor V µ essa exigência nos leva a( D dλ V )µ = dxσ dλ ∇σV µ = dxσ dλ ∂σV µ + Γµσρ dxσ dλ V ρ = 0 d dλ V µ + Γµσρ dxσ dλ V ρ = 0. (3.2) Se a conexão é compat́ıvel com a métrica, a métrica é sempre transportada parale- lamente D dλ gµν = dxσ dλ ∇σgµν = 0. (3.3) Dessa forma o produto interno de dois vetores transportados paralelamente é preser- vado: D dλ gµνV µW ν = ( D dλ gµν ) V µW ν + gµν ( D dλ V µ ) W ν + gµνV µ ( D dλ W µ ) D dλ (gµνV µW ν) = 0. (3.4) O transporte paralelo com respeito a uma conexão compat́ıvel com a métrica preserva a norma e a ortogonalidade de vetores. 3.1.2 Geodésicas O vetor tangente a uma curva parametrizada xµ(λ) é dado por dxµ dλ . Uma geodésica é uma curva na qual o vetor tangente é transportado paralelamente ao longo de xµ(λ), i.e. D dλ dxµ dλ = 0. (3.5) Escrevendo explicitamente d2xµ dλ2 + Γµσρ dxσ dλ dxρ dλ = 0. (3.6) Esta é a chamada equação da geodésica. Essa é uma escolha de parametrização es- pećıfica na qual a curva xµ(λ) foi parametrizada com o que chamamos de parâmetro 16 afim. Qualquer parâmetro λ que se relaciona com o tempo próprio através da relação linear λ = aτ + b (3.7) é chamado de parâmetro afim. A equação da geodésica mais geral é escrita como d2xµ dα2 + Γµσρ dxσ dα dxρ dα = f(α) dxµ dα (3.8) para algum parâmetro α(λ). A equação da geodésica com parâmetro afim pode ser escrita em termos da quadrivelocidade Uµ = dxµ dτ da seguinte forma Uλ∇λU µ = 0, (3.9) ou em termos do quadrimomento pµ = mUµ, pλ∇λp µ = 0. (3.10) Esta equação é válida para trajetórias do tipo tempo. Para trajetórias nulas o tempo próprio τ é nulo, o que quer dizer que ele não é um parâmetro afim apropriado. Se uma trajetória nula é uma geodésica para um parâmetro λ ela também será uma geodésica para um parâmetro da forma aλ + b. Uma normalização conveniente do parâmetro afim é escolher λ de forma que o quadrimomento seja dado por pµ = dxµ dλ . (3.11) Uma part́ıcula com quadrimomento pµ medido por um observador com quadrive- locidade Uµ terá sua energia medida por esse mesmo observador dada por E = −pµUµ (3.12) independentemente se pµ é nulo ou do tipo tempo. Como vimos o caráter da tra- jetória é determinado pelo produto interno do vetor tangente com ele mesmo. Uma propriedade importante das geodésicas em um espaçotempo com métrica de Lorentz é que o caráter da geodésica, relativa a uma conexão compat́ıvel com a métrica, nunca muda. 3.1.3 Isometrias e conservação do quadrimomento Considere a métrica no espaço de Minkowski em quatro dimensões ds2 = ηµνdx µdxν = −dt2 + dx2 + dy2 + dz2. (3.13) 17 Facilmente notamos que essa métrica é invariante sob translações, isto é xµ → xµ + aµ, (3.14) e da mesma forma por transformações de Lorentz xµ → Λµ νx µ, (3.15) pois ds2 = ηµνdx µdxν → ηµνΛ µ ρΛ ν σdx ρdxσ = ηρσdx ρdxσ. Uma variedade M possui uma simetria se a geometria é invariante sob certas transformações que mapeiam M para si mesma. Em outras palavras M possui uma simetria se a métrica não muda de um ponto a outro. Simetrias da métrica são chamadas de isometrias. Sempre que os coeficientes da métrica forem indepen- dentes de uma coordenada individual xσ∗, ou melhor, ∂σ∗gµν = 0 para um σ∗ fixo, haverá uma simetria sob translação ao longo de σ∗, isto é ∂σ∗gµν = 0⇒ xσ∗ → xσ∗ + aσ∗ (3.16) é uma simetria. Utilizando a equação da geodésica para trajetórias do tipo tempo temos pλ∇λpµ = pλ∂λpµ + Γσλµp λpσ = 0 ⇒ m dxλ dτ ∂λpµ = −1 2 gσν (∂λgµν + ∂µgνλ − ∂νgλµ) pλpσ ⇒ m dpµ dτ = −1 2 (∂λgµν + ∂µgνλ − ∂νgλµ) pλpν = −1 2 (∂µgνλ) p λpν (3.17) Se para uma direção espećıfica xσ∗, ∂σ∗gµν = 0, a equação da geodésica implica na conservação do componente do momento pσ∗: dpσ∗ dτ = 0. (3.18) Em 4 dimensões há quatro tipos de translações e seis tipos de transformações de Lorentz, o que corresponde a um total de 10 isometrias. 3.1.4 Desvio geodésico Agora consideraremos curvas geodésicas que se encontram inicialmente paralelas e mostraremos como elas se comportam conforme caminhamos sobre os diferentes pontos de cada geodésica. Considere uma famı́lia de geodésicas dependentes de um parâmetro afim t, γs(t), onde o subscrito s é um número real, e, para cada 18 s temos somente uma única geodésica associada. A coleção de todas essas curvas forma uma superf́ıcie suave bidimensionalM. As coordenadas sobre essa superf́ıcie podem ser escolhidas de forma que sejam s e t, desde que tenhamos uma famı́lia de geodésicas que não se cruzam. A superf́ıcie inteira é formada pelo conjunto de pontos xµ(s, t) ∈M. Os dois campos vetoriais são o vetor tangente à superf́ıcie T µ = ∂xµ ∂t (3.19) e o vetor de desvio, que mede o desvio entre duas geodésicas próximas, dado por Sµ = ∂xµ ∂s . (3.20) Figura 3.1: Representação dos vetores tangente e de desvio. A velocidade relativa e a aceleração entre geodésicas são definidas respectiva- mente por V µ = (∇TS)µ = T ρ∇ρS µ, (3.21) Aµ = (∇TV )µ = T ρ∇ρV µ. (3.22) Usando o fato de que [S, T ] = 0 temos [S, T ]µ = Sλ∂λT µ − T λ∂λSµ = Sλ∇λT µ − T λ∇λS µ = 0. (3.23) Logo Sλ∇λT µ = T λ∇λS µ, (3.24) Assim podemos calcular a aceleração Aµ = T ρ∇ρV ρ = T ρ∇ρ(T σ∇σS µ) = T ρ∇ρ(S σ∇σT µ) = (T ρ∇ρS σ)(∇σT µ) + T ρSσ(∇ρ∇σT µ) 19 = (T ρ∇ρS σ)(∇σT µ) + T ρSσ[∇σ∇ρT µ +Rµ νρσT ν ] = (T ρ∇ρS σ)(∇σT µ) + Sσ∇σ(T ρ∇ρT µ)− (Sσ∇σT ρ)∇ρT µ +Rµ νρσT νT νSσ Usando o fato de que T µ é o vetor tangente, isto é T ρ∇ρT µ = 0, a aceleração entre as geodésicas é dada por Aµ = Rµ νρσT νT ρSσ. (3.25) Esta aceleração é uma manifestação das forças de marés gravitacionais. Esta é a chamada equação do desvio geodésico e, usando a notação de derivada ao longo da curva x(t), ela é escrita como Aµ = D2 dt2 Sµ = Rµ νρσT νT ρSσ. (3.26) Pelo resultado vemos que a aceleração entre duas geodésicas é proporcional à cur- vatura. 3.1.5 Vetores de Killing e equação de Killing Seja gµν a métrica independente da coordenada xσ∗, e seja o vetor unitário asso- ciado à essa direção dado por K ≡ ∂σ∗, tal que Kµ = (∂σ∗) = δµσ∗. (3.27) Kµ é o vetor que gera a isometria do espaçotempo. O componente do momento associado à essa direção pode ser escrito como pσ∗ = Kνpν . (3.28) Como vimos anteriormente essa é uma quantidade conservada. Essa lei de con- servação é o equivalente a afirmar que a derivada direcional ao longo da geodésica é nula, isto é dpσ∗ dτ ⇔ pµ∇µ(pσ∗) = pµ∇µ(Kνpν) = 0. (3.29) De fato, pµ∇µ(Kνp ν) = pνpµ(∇µKν) +Kνp µ(∇µp ν) = 0. O segundo termo é nulo pela definição da geodésica 3.10. No primeiro termo os componentes do momento são simétricos pela troca dos ı́ndices µ e ν, logo podemos simetrizar o termo que multiplica esses componentes de forma a obter pµ∇µ(Kνp ν) = pµpν∇(µKν) = 0. (3.30) 20 Como os componentes do momento são arbitrários a equação que resulta dessa condição é dada por ∇µKν +∇νKµ = 0. (3.31) Esta é a chamada equação de Killing e qualquer vetor Kµ que satisfaça essa equação implica que Kνp ν seja uma quantidade conservada ao longo da geodésica. Os vetores que satisfazem a equação de Killing são chamados de vetores de Killing. 3.1.6 Derivada de Lie Para introduzir o conceito de derivada de Lie considere a lei de transformação da métrica sob transformações de coordenadas g′µν(x ′) = ∂x′ρ ∂xµ ∂x′σ ∂xν gρσ(x). (3.32) Podemos escrever a transformação como x′µ = xµ + εξµ, (3.33) onde ε é o parâmetro infinitesimal e ξ é o gerador da transformação . Note que ∂x′ρ ∂xµ = δρµ + ε∂µξ ρ(x), e a expansão da métrica até primeira ordem em ε é escrita como gρσ(x) = gρσ(x′)− εξµ∂µgρσ(x). Substituindo estes resultados em 3.32 temos g′µν(x ′) = gρσ(x′)− ε(ξρ∂ρgµν + gρν∂µξ ρ + gρµ∂νξ ρ) +O(ε2). (3.34) Se a transformação de coordenadas corresponde à uma isometria então devemos ter g′µν(x ′)− gρσ(x′) = 0, (3.35) e, devido à arbitrariedade do parâmetro ε, consequentemente teremos Lξgµν ≡ ξρ∂ρgµν + gρν∂µξ ρ + gρµ∂νξ ρ = 0, (3.36) que é a chamada derivada de Lie da métrica. Se a conexão é compat́ıvel com a métrica temos ∂ρgµν = Γσρµgσν + Γσρνgσµ. Substituindo na expressão 3.36 teremos ∇µξν +∇νξµ = 0, (3.37) 21 que é a equação de Killing 3.31, o que demonstra que o vetor que gera a trans- formação 3.33 é um vetor de Killing. A derivada de Lie é um conceito definido para tensores de quaisquer tipos, como veremos. Considere agora uma curva γ cujo vetor tangente é ξα = dxα/dλ. Podemos escrever a transformação de coordenadas com parâmetro infinitesimal dλ como x′α = xα + ξαdλ. (3.38) Sob essa transformação um vetor contravariante Aα se torna A′α(x′) = ∂x′α ∂xβ Aβ(x) = (δαβ + ∂βξ αdλ)Aβ(x) = Aα(x) + ∂βξ α(x)dλ. (3.39) Por outro lado, o valor desse mesmo vetor no ponto x′ é escrito como Aα(x′) = Aα(xα + ξαdλ) = Aα(x) + ξβ∂βA α(x)dλ. (3.40) Em geral, A′α(x′) e Aα(x′) não serão iguais. A diferença entre eles define a derivada de Lie de um vetor Aα ao longo da curva γ: LξAα ≡ Aα(x′)− A′α(x′) dλ . (3.41) Combinando as duas equações anteriores à essa temos LξAα = ξβ∂βA α − Aβ∂βξα, (3.42) ou seja, a derivada de Lie de um vetor contravariante Aα por ξα é igual ao comutador entre ξα e Aα. Partindo dos mesmos prinćıpios podemos estender a idéia de derivada de Lie para escalares, que é escrita como Lξf = ξα∂αf, (3.43) e para um vetor covariante Aα, a derivada de Lie é escrita como LξAα = ξβ∂βAα + Aβ∂βξα. (3.44) Por indução podemos verificar que a derivada de Lie de um tensor de ordem m em seu ı́ndice contravariante, e de ordem n em seu ı́ndice covariante é escrita como LξTα1...αm β1...βn = ξγ∇γT α1...αm β1...βn − T γ...αmβ1...βn∇γξ α1 − ... −Tα1...γ β1...βn∇γξ αm + Tα1...αm γ...βn∇β1ξ γ + ...+ Tα1...αm β1...γ∇βnξ γ. (3.45) 22 3.1.7 Condições de Energia As equações de Einstein relacionam as propriedades geométricas do espaçotempo, embutidas no tensor de Einstein Gµν , com o conteúdo de energia da matéria, embu- tido no tensor energia-momento. De fato, para certos tipos de matéria há uma certa arbitrariedade na escolha de fontes de energia momento. Chamamos de condições de energia às condições impostas sobre o tensor energia-momento de forma a limitar essa arbitrariedade. Acredita-se por exemplo, que todos os sistemas f́ısicos satis- fazem a condição de energia fraca, enquanto que para outras condições isso já não é muito claro. Porém, os tipos de matéria usuais, como poeira e radiação por exemplo, satisfazem todas as condições de energia que apresentaremos. Seja tµ um quadrive- tor do tipo tempo e lµ um quadrivetor do tipo nulo. As condições de energia mais comumente encontradas na literatura são : 1. condição de energia fraca Tµνt µtν ≥ 0 (3.46) para todo vetor do tipo tempo tµ; 2. condição de energia nula Tµνl µlν ≥ 0 (3.47) para todo vetor nulo lµ; 3. condição de energia dominante Tµνt µtν ≥ 0, TµνT ν λt µtλ ≤ 0, (3.48) que equivale a dizer que exigimos a condição de energia fraca e que Tµνt µ seja um vetor do tipo nulo ou do tipo tempo; 4. condição de energia dominante nula Tµνl µlν ≥ 0, TµνT ν λl µlλ ≤ 0, (3.49) que equivale a dizer que exigimos a condição de energia dominante para vetores nulos somente; 5. condição de energia forte Tµνt µtν ≥ 1 D − 2 T λλtµt µ (3.50) para todos vetores do tipo tempo tµ. Como exemplo de aplicação das condições de energia vamos tratar do caso de um fluido perfeito, descrito pelo tensor energia-momento Tµν = (ρ+ p)UµUν + pgµν , (3.51) 23 onde Uµ é a quadrivelocidade do fluido, tal que UµU µ = −1, e o espaço é isotrópico, de forma que a pressão tem o mesmo valor nas direções espaciais. Como Uµ é um vetor do tipo tempo temos TµνU µUν = (ρ+ p)UµU µUνU ν + pgµνU µUν = (ρ+ p)− p = ρ⇒ TµνU µUν = ρ, (3.52) Tµνl µlν = (ρ+ p)Uµl µUνl ν + pgµνl µlν = (ρ+ p)(Uµl µ)2 ⇒ Tµνl µlν = (ρ+ p)(Uµl µ)2, (3.53) TµνT ν λU µUλ = (ρ+ p)2UµU µUνU νUλU λ +(ρ+ p)pUµU µUνU ν + p(ρ+ p)UµU µUλU λ + p2gµνU µUν = −(ρ+ p)2 + 2p(ρ+ p)− p2 = −ρ2 ⇒ TµνT ν λU µUλ = −ρ2. (3.54) T λλ = (D − 1)p− ρ. (3.55) Como tµ é um vetor qualquer do tipo tempo, isto é, tµt µ < 0, podemos escolher a decomposição tµ = Uµ + αlµ, sendo α uma constante. Porém tµt µ < 0 implica em αUµl µ < 1 2 . (3.56) A condição de energia fraca estabelece que ρ− 2αρ(Uµl µ) + α2(ρ+ p)(Uµl µ)2 ≥ 0. (3.57) Escolhendo α = 0 implica em ρ ≥ 0, e escolhendo α = 1 podemos escolher Uµl µ = −1/2 de forma que 3.56 seja satisfeita e isso implica em ρ + p ≥ 0. A condição de energia fraca estabelece então que ρ ≥ 0 e que ρ + p ≥ 0, ou seja, que a densidade de energia seja positiva e que a pressão não seja grande demais se comparada com a densidade de energia. Por 3.53 vemos que a condição de energia nula estabelece somente que ρ+ p ≥ 0, ou seja, que agora a densidade de energia pode ser negativa sendo compensada com uma pressão positiva. A condição de energia dominante estabelece que −ρ2 + 2αρ2(Uµl µ) + α2(−ρ2 + p2)(Uµl µ)2 ≤ 0. (3.58) Já sabemos que ρ > 0, então podemos escolher Uµl µ = −1 e α > 1/2, o que nos fornecerá a condição p2 − ρ2 ≤ 0, ou seja, que ρ ≥ |p|. Então a condição de energia 24 dominante estabelece que ρ ≥ |p|, ou seja, que a densidade de energia seja maior que a pressão em módulo permitindo a pressão assumir valores negativos. A condição de energia forte estabelece que (D−3)ρ−2αρ(D−3)(Uµl µ)−2α2p(D−1)(Uµl µ)+(D−1)p+α2(ρ+p)(D−2)(Uµl µ)2 ≥ 0. (3.59) Para α = 0 temos (D − 3)ρ+ (D − 1)p ≥ 0. Para α = 1 e Uµl µ = −1 temos −ρ(D − 3) + 3(D − 1)p+ (D − 2)(ρ+ p) ≥ 0. Pela condição (D − 3)ρ + (D − 1)p ≥ 0 os dois primeiros termos dessa expressão são claramente maior ou igual a zero, o que resulta em (D− 2)(ρ+ p) ≥ 0. Logo, a condição de energia forte esbelece que (D − 3)ρ + (D − 1)p ≥ 0 e que (ρ + p) ≥ 0. A condição de energia forte implica que a gravitação é atrativa, como veremos na seção a seguir que trata de congruências geodésicas. 3.1.8 Congruências geodésicas Uma congruência geodésica é um conjunto de curvas em uma região aberta do espaçotempo tal que cada ponto desta região se encontra precisamente sobre uma única curva, o que equivale a dizer que as curvas não se cruzam. Para o estudo da evolução de uma congruência geodésica é necessário introduzir tensores que nos dão ideia de alguns conceitos referentes à cinemática de um meio deformável, o que nos dará uma visão geométrica, porém mais f́ısica, a respeito do comportamento da congruência em questão . Considere o movimento interno de um meio deformável bidimensional, o qual analisaremos de um ponto de vista puramente cinemático. Para um deslocamento suficientemente pequeno ξα sobre um ponto de referência O podemos escrever dξα dt = Bα β(t)ξβ +O(ξ2) (3.60) para algum tensor Bα β(t). É a dinâmica do meio que determina a dependência temporal deste tensor. Para pequenos intervalos de tempo a relação abaixo é válida ξα(t1) = ξα(t0) + ∆ξα(t0), (3.61) onde ∆ξα(t0) = Bα β(t0)ξβ(t0) +O(∆t2), (3.62) e ∆t = t1 − t0. A ação de Bα β pode ser visualizada geometricamente através de um exemplo simples, um ćırculo, descrito por ξα(t0) = (r0 cosφ, r0 sinφ). Separada- mente considere o caso em que Bα β é proporcional a matriz identidade na seguinte 25 forma: Bα β =  1 2 θ 0 0 1 2 θ  , (3.63) com θ ≡ Bα α. Então temos a variação ∆ξα = 1 2 θr0∆t(cosφ, sinφ), (3.64) o que, por 3.61, corresponderá a uma variação no raio do ćırculo r1 = r0 + 1 2 θr0∆t, (3.65) o que demonstra que o ćırculo estará se expandindo, para ∆t > 0, ou se contraindo, para ∆t < 0. Essa mudança no raio corresponderá à uma mudança na área, ∆A ≡ A1 − A0 = πr2 0θ∆t. De fato, essa mudança na área nos dá uma interpretação para θ, que pode ser escrito como θ = 1 A0 ∆A ∆t . (3.66) Apesar de ser uma função do tempo a quantidade θ é chamada de parâmetro de expansão, ou simplesmente expansão, e por 3.66 corresponde à mudança fracional de área por unidade de tempo. Suponha agora que Bα β seja simétrico e com traço nulo, escrito na seguinte forma: Bα β =  σ+ σ× σ× −σ+  . (3.67) Então, sendo α, β = 1, 2, temos ∆ξ1 = B1 1ξ 1∆t+B1 2ξ 2∆t = r0∆t(σ+ sinφ+ σ× cosφ) ∆ξ2 = B2 1ξ 1∆t+B2 2ξ 2∆t = r0∆t(σ× cosφ− σ+ sinφ), que de forma reduzida é escrita como ∆ξα = r0∆t(σ+ sinφ+ σ× cosφ, σ× cosφ− σ+ sinφ) (3.68) Então 3.61 nos fornece r1(cosφ, sinφ) = r0(cosφ, sinφ) + r0∆t(σ+ cosφ+ σ× sinφ,−σ+ sinφ+ σ× cosφ). (3.69) Multiplicando o primeiro componente por cos θ, o segundo componente por sin θ e depois somando os resultados chegamos à equação paramétrica que descreve a nova figura r1 = r0(1 + σ+∆t cos 2φ+ σ×∆t sin 2φ). (3.70) 26 Considerando o caso em que ∆t > 0 e σ+ > σ×, esta figura representa uma elipse com semieixo maior dado por r0(1+σ+∆t) e semieixo menor dado por r0(1−σ+∆t). A área da figura, que antes era πr2 0, não muda até a primeira ordem em ∆t. O tensor Bα β representa nesse caso a distorção da figura (o termo em inglês usado nesse caso é ”shear”) e os parâmetros σ+ e σ× são chamados de parâmetros de distorção . Uma caracteŕıstica interessante desta transformação da figura é que a área da figura é a mesma antes e depois, até a primeira ordem em ∆t. Como último caso, suponhamos agora que Bα β seja antissimétrico, de forma que Bα β =  0 ω −ω 0  . (3.71) Da mesma forma que antes obtemos ∆ξα = r0ω∆t(sinφ,− cosφ). (3.72) Como ∆t é pequeno podemos escrever ξα(t1) = r0(cos(φ− ω∆t), sin(φ− ω∆t)). (3.73) De fato, isto representa uma rotação global da figura original e essa rotação não altera a área da figura. Por este motivo chamamos ω de parâmetro de rotação . O caso geral corresponde a Bα β sendo igual a soma dos três casos anteriores, isto é Bα β =  1 2 θ 0 0 1 2 θ +  σ+ σ× σ× −σ+ +  0 ω −ω 0  , (3.74) que pode ser escrito em termos de componentes como Bαβ = 1 2 θδαβ + σαβ + ωαβ. (3.75) Nesta expressão θ = Bα α corresponde ao traço de Bαβ e é chamada de expansão, σαβ = B(αβ) − 1 2 θδαβ corresponde à parte simétrica e de traço nulo de Bαβ, que é chamada de distorção, e finalmente ωαβ = B[αβ] corresponde à parte antissimétrica de Bαβ e é chamada de rotação. A ação deste tensor mais geral corresponde a uma combinação linear da expansão, distorção e rotação. Podemos facilmente generalizar a equação 3.75 para o caso tridimensional, que será expressa como Bαβ = 1 3 θδαβ + σαβ + ωαβ, (3.76) onde agora teremos θ = Bα α, σαβ = B(αβ) − 1 3 θδαβ e ωαβ = B[αβ]. Para o caso tridimensional, θ é a mudança fracional do volume por unidade de tempo θ = 1 V0 ∆V ∆t . (3.77) 27 Podemos verificar essa expressão ao considerar a relação ξα(t1) = (δαβ +Bα β∆t)ξβ(t0) (3.78) como uma transformação de coordenadas de ξβ(t0) para ξβ(t1). O jacobiano da transformação será J = det[δαβ +Bα β∆t] = 1 + Tr[Bα β∆t] = 1 + θ∆t, o que implica que o volume em t0 e t1 são relacionados por V1 = (1 + θ∆t)V0 que implica a equação 3.77. Este resultado também mostra que o volume não é afetado pelos tensores de distorção e de rotação. Estes são, a prinćıpio, os ingredientes essenciais para se estudar congruências geodésicas. Estudaremos primeiro a congruêcia de geodésicas do tipo tempo, que facilmente pode ser estendido para geodésicas do tipo espaço. O caso nulo será tratado separadamente. Queremos determinar como uma dada congruência se com- porta com o tempo, ou, mais precisamente, queremos estudar o comportamento do vetor de desvio ξα entre duas geodésicas vizinhas em uma congruência como uma função do tempo próprio. Sendo uα = dxα/dτ o vetor tangente às geodésicas do tipo tempo (o mesmo que o vetor T µ em 3.19) e o vetor de desvio ξα transversal ao fluxo da congruência (o mesmo que o vetor de desvio Sµ em 3.20) as relações abaixo são válidas uαuα = −1, uβ∇βu α = 0, uαξα = 0, ξβ∇βu α = uβ∇βξ α. (3.79) A métrica gαβ é decomposta em uma parte longitudinal, −uαuβ, e uma parte tran- versal, hαβ, gαβ = hαβ − uαuβ. (3.80) A métrica transversal é puramente espacial, no sentido em que ela é ortogonal a uα, isto é uαhαβ = hαβu β = 0. (3.81) Ela é puramente tridimensional. Para um referencial de Lorentz em um ponto P da congruência, uα = (1, 0, 0, 0), gαβ = diag(−1, 1, 1, 1), logo hαβ = diag(0, 1, 1, 1). Introduzimos nesse ponto o campo tensorial Bαβ = ∇βuα, (3.82) 28 que também é puramente transversal, pois uαBαβ = uα∇βuα = 1 2 ∇β(uαuα) = 0, Bαβu β = uβ∇βuα = 0. De uβ∇βξ α = ξβ∇βu α temos uβ∇βξ α = Bα βξ β. (3.83) Por 3.8 dizemos que Bα β é um tensor que mede a ”falha” de ξα em ser transportado paralelamente ao longo da congruência. Essa equação é análoga a 3.60 e o tensor Bα β é dado por 3.76, já que estamos considerando caso de uma congruência de geodésicas do tipo tempo, e a interpretação da expansão, distorção e rotação é a mesma que a anterior. Se θ > 0 a congruência estará divergindo e se θ < 0 a congruência estará convergindo. Todo esse formalismo foi apresentado para que pudssemos deduzir uma equação para a evolução de θ com respeito ao tempo próprio. Como Bβα = ∇βuα temos uµ∇µBαβ = uµ∇µ∇βuα = uµ∇β∇µuα −Rανβµu νuµ = ∇β(uµ∇µuα)−∇µuα∇βu µ −Rαµβνu µuν = −BαµB µ β −Rαµβνu µuν . Tomando o traço desta expressão temos dθ dτ = −BαβBβα −Rαβu αuβ. (3.84) Separadamente temos BαβBβα = ( 1 3 θδαβ + σαβ + ωαβ )( 1 3 θδβα + σβα + ωβα ) BαβBβα = 1 3 θ2 + σαβσαβ − ωαβωβα, onde usamos o fato de que o delta de Kronecker multiplicado pelo tensor de rotação é nulo por ser um produto de um tensor simétrico com um antissimétrico e que o tensor de distorção tem traço nulo. Substituindo esse resultado em 3.84 temos finalmente dθ dτ = −1 3 θ2 − σαβσαβ + ωαβωβα −Rαβu αuβ. (3.85) Esta é a chamada equação de Raychaudhuri para uma congruência de geodésicas do tipo tempo. A importância desta equação para a relatividade geral é revelada pelo seguinte teorema: Seja uma congruência geodésica ortogonal à hipersuperf́ıcie, de 29 forma que ωαβ = 0 e que seja válida a condição de energia forte 3.50, i.e. Rαβu αuβ ≥ 0. Então, a equação de Raychaudhuri 3.85 implica que dθ dτ = −1 3 θ2 − σαβσαβ −Rαβu αuβ ≤ 0. (3.86) A expansão deve portante decrescer durante a evolução da congruência. Então uma congruência que inicialmente está divergindo, isto é, θ > 0, divergirá menos rapidamente no futuro, enquanto que uma congruência que está convergindo, isto é, θ < 0, convergirá mais rapidamente no futuro. Este é o chamado teorema de focalização (focusing theorem). A interpretação f́ısica deste teorema é que quando a condição de energia forte é válida a gravitação é uma força atrativa, e que as geodésicas se focalizam como resultado desta atração. Também da equação de Raychaudhuri sob as condições do teorema de focalização vale a relação dθ dτ ≤ −1 3 θ2, (3.87) que pode ser facilmente integrada, fornecendo 1 θ(τ) ≥ 1 θ0 + τ 3 , (3.88) sendo θ0 ≡ θ(t0) a constante de integração. Isto mostra que para uma congruência que está inicialmente convergindo (θ0 < 0), então θ(τ) → −∞ quando o intervalo de tempo próprio for τ ≤ 3/|θ0|. Isso quer dizer que as geodésicas se encontrarão em um ponto, chamado de cáustica. A cáustica é uma singularidade da congruência e a equação de Raychaudhuri perde o significado em tais pontos. Partiremos agora para o caso de uma congruência de geodésicas nulas. O ve- tor tangente às geodésicas será kα, e será um vetor nulo. As geodésicas serão parametrizadas por um parâmetro afim λ. O vetor de desvio novamente será ξα, e também será ortogonal às geodésicas e Lie transportado ao longo delas. Logo, é válido o conjunto de equações kαkα = 0, kβ∇βk α = 0, kβ∇βξ α = ξβ∇βk α = 0, kαξα = 0. (3.89) Se a métrica transversal fosse dada por uma fórmula similar a 3.80, usando kα em vez de uα, claramente ela não seria ortogonal ao vetor kα, já que hαβk β = kα. Para resolver esse problema introduzimos as coordenadas nulas u = t− x, v = t+ x. (3.90) O elemento de linha num referencial de Lorentz será ds2 = −dudv + dy2 + dz2. (3.91) 30 Como kα é um vetor nulo podeŕıamos escolhê-lo de forma que ele fosse tangente às curvas u = const, e 3.91 seria então dado por ds̃2 = dy2 + dz2, o que represen- taria uma métrica transversal bidimensional. Este será o nosso caso, pois ds2 = 0 para deslocamentos ao longo da direção v. Para poder isolar a parte transversal da métrica introduzimos outro vetor nulo Nα, que será o vetor auxiliar com a normal- ização Nαk α = −1. Podeŕıamos por exemplo escolher kα = −∂u e Nα = −1 2 ∂αv em um referencial de Lorentz que essa normalização será satisfeita. Por construção, a métrica transversal pode ser escrita como hαβ = gαβ + kαNβ +Nαkβ, (3.92) satisfazendo hαβk β = hαβN β = 0, hαα = 2, hαµh µ β = hαβ. (3.93) Essa métrica é ortogonal a kα e Nα, e efetivamente bidimensional. Para descrever a evolução da congruência de geodésicas nulas introduzimos novamente o tensor Bαβ = ∇βkα como sendo uma medida da falha de kα ser transportado paralelamente ao longo da congruência, através da relação kβ∇βξ α = Bα βξ β. (3.94) Bα β é ortogonal a ao vetor tangente, isto é, kαBαβ = 0, mas não é ortogonal a Nα, o que nos diz que a equação acima tem um componente tranversal que deve ser removido. Para isso, projetamos o vetor de desvio ξα usando a métrica transversal 3.92, o que nos dará sua parte puramente transversal ξ̃α: ξ̃α ≡ hαµξ µ = ξα + kα(ξµNµ) +Nα(ξµkµ) ξ̃α = ξα + kα(ξµNµ). (3.95) A velocidade relativa entre duas geodésicas é dada pela derivada covariante do vetor de desvio transversal na direção kα kβ∇β ξ̃ µ = kβ∇βh µ ν · ξν + hµν · kβ∇βξ ν = kβ∇βh µ ν · ξν + hµν · ξβ∇βk ν = kβ∇βh µ ν · ξν + hµν ·Bν βξ β. Fazendo o mesmo cálculo para o lado direito de 3.95 temos kβ∇β ξ̃ µ = kβ∇βξ µ + kβ∇βNν · ξνkµ +Nνk µ · kβ∇βξ ν +Nνξ ν · kβ∇βk µ = kβ∇βξ µ + kβ∇βNν · ξνkµ, 31 de onde notamos que kβ∇β ξ̃ µ tem um componente ao longo de kµ. Para removê-lo temos que projetá-lo usando hαµ, o que nos dará hαµk β∇β ξ̃ µ = hαµh µ ν ·Bν βξ β = hαµB µ νξ ν = hαµB µ ν(ξ̃ ν − (Nβξ β)kν) = hαµB µ ν ξ̃ ν = hαµh ν βB µ ν ξ̃ β para os componentes transversais da velocidade relativa. Podemos escrever o resul- tado como hαµk β∇β ξ̃ µ = B̃α β ξ̃ β, (3.96) onde definimos a parte puramente tranversal de Bµν como B̃αβ = hµαh ν βBµν . (3.97) A equação 3.96 é a equação que governa o comportamento tranversal de uma con- gruência de geodésicas nulas, e B̃α β ξ̃ β pode ser interpretado como a velocidade rel- ativa transversal entre duas geodésicas vizinhas. Usando 3.97 e as relações 3.92 e 3.94 podemos facilmente expressar B̃αβ como B̃αβ = Bαβ + kαN µBµβ + kβBαµN µ + kαkβBµνN µNν . (3.98) A decomposição do tensor B̃αβ em suas partes irredut́ıveis é similar a 3.75: B̃αβ = 1 2 θhαβ + σαβ + ωαβ, (3.99) onde θ, σαβ e ωαβ possuem interpretações similares ao caso anterior. Explicitamente, a expansão escalar é escrita como θ = gαβB̃αβ = gαβBαβ = ∇αkα. (3.100) Este resultado nos diz que, apesar da arbitrariedade da escolha de um vetor nulo Nα, a expansão não depende dessa escolha, o que demonstra que ela é única. De forma similar à 3.66, a interpretação de θ é a de que ele representa uma taxa de variação fracional por unidade de parâmetro afim da área da seção transversal da congruência. Seguindo os mesmos passos apresentados para o caso de congruências de geodésicas do tipo tempo podemos deduzir a versão nula da equação de Raychaudhuri. De fato, dθ dτ = −BαβBβα −Rαβu αuβ, (3.101) 32 e como BαβBβα = B̃αβB̃βα = 1 2 θ2 + σαβσαβ − ωαβωβα, teremos dθ dτ = −1 2 θ2 − σαβσαβ + ωαβωβα −Rαβu αuβ. (3.102) Esta é a equação de Raychaudhuri para uma congruência de geodésicas nulas. Pelo fato dos tensores de rotação e distorção serem puramente transversais, σαβσαβ ≥ 0 e ωαβωβα ≥ 0, com a igualdade valendo somente se os tensores são nulos. O teorema da focalização também possui uma versão nula. Considere uma congruência de geodésicas nulas ortogonais a hipersuperf́ıcie, de forma que ωαβ = 0, e que seja a válida a condição de energia nula, i.e. Rαβk αkβ ≥ 0. A equação de Raychaudhuri implica que dθ dτ = −1 2 θ2 − σαβσαβ −Rαβu αuβ ≤ 0, (3.103) que significa que as geodésicas se focalizam durante a evolução das congruências. Integrando dθ dτ ≤ −1 2 θ2, temos 1 θ(λ) ≥ 1 θ0 + λ 2 , (3.104) onde θ0 = θ(0). Este resultado mostra que, para uma congruência que esta inicial- mente convergindo (θ0 < 0), θ → −∞, dentro de um intevalo de parâmetro afim λ < 2/θ0, o que também sinaliza a ocorrência de uma cáustica. 3.2 Buracos negros Nesta seção apresentaremos as soluções do tipo buraco negro para as equações de Einstein. A primeira e mais simples de todas essas soluções, chamada de solução de Schwarzschild em homenagem à Karl Schwarzschild que a descobriu em 1916, corresponde a uma solução esfericamente simétrica das equações de Einstein com conteúdo de matéria nulo, isto é, Tµν = 0. A solução de Reissner-Nordstrom corre- sponde à solução de um buraco negro carregado e sem momento angular. A solução de Kerr-Neumann é a mais geral de todas essas soluções pois descreve um buraco negro carregado e com momento angular. Basicamente seguiremos as referências [5], [7] e [9]. Somente por completeza es- creveremos algumas soluções em diferentes sistemas de coordenadas. Uma discussão sobre o comportamento dos cones de luz nas regiões de dentro e fora do horizonte de eventos bem como alguns fenômenos f́ısicos que ocorrem devido à cada geometria como o desvio da luz e o atraso no tempo também são encontradas nas referências citadas acima. 33 Uma discussão sobre superf́ıcies nulas, horizontes de Killing e a maneira como se define massa, carga e momento angular na região assintótica também são apre- sentadas nesta seção. 3.2.1 Solução de Schwarzschild Um campo gravitacional apresentará simetria esférica quando a distribuição de matéria é esfericamente simétrica e quando o movimento da matéria ocorre somente na direção radial. A simetria esférica implica que a métrica é a mesma para todos pontos que se localizam à mesma distância do centro. A expressão para o elemento de linha com simetria esférica mais geral em coordenadas esféricas é escrita como ds2 = l(r, t)dt2 + a(r, t)drdt+ h(r, t)dr2 + k(r, t)(dθ2 + sin2 θdφ2), (3.105) onde a, h, k e l são funções arbitrárias de r e t. Devido à arbitrariedade da escolha de sistemas de coordenadas na relatividade geral podemos escolher um sistema de co- ordenadas que não estrague a simetria esférica do problema. Usando transformações do tipo t→ f1(r′, t′), r → f2(r′, t′) (3.106) podemos escolher um sistema de coordenadas em que a(r, t) = 0 e k(r, t) = r2. Essa escolha implica que a coordenada r é definida de forma que a circunferência do ćırculo com centro na origem seja 2πr. Por conveniência escrevemos l(r, t) = −eν , h(r, t) = eλ, (3.107) onde λ e ν são funções de r e t, e tomamos c = 1. Então o elemento de linha toma a forma ds2 = −eνdt2 + eλdr2 + r2(dθ2 + sin2 θdφ2). (3.108) Definindo as coordenadas x0 = t, x1 = r, x2 = θ e x3 = φ, os elementos da métrica e da métrica inversa serão respectivamente g00 = −eν , g11 = eλ, g22 = r2, g33 = r2 sin2 θ, g00 = −e−ν , g11 = e−λ, g22 = 1 r2 , g33 = 1 r2 sin2 θ . (3.109) Definindo as derivadas temporais com pontos e derivadas com respeito à coordenada radial com prima, os śımbolos de Cristoffel não nulos são Γ0 00 = ν̇ 2 , Γ0 10 = Γ0 01 = ν ′ 2 , Γ0 11 = λ̇ 2 e−(ν−λ), 2, Γ1 00 = ν ′ 2 eν−λ, Γ1 10 = Γ1 01 = λ̇ 2 , Γ1 11 = λ′ 2 , Γ1 22 = −re−λ, Γ1 33 = −re−λ sin2 θ, Γ2 33 = − sin θ cos θ, Γ2 12 = Γ2 21 = Γ3 13 = Γ3 31 = 1 r , Γ3 23 = Γ3 32 = cot θ. (3.110) 34 Os tensores de Ricci são dados por R00 = − ν̇λ̇ 2 + λ̈ 2 + λ̇2 4 + ( ν ′′ 2 + ν ′ 2 − ν ′λ′ 4 + ν ′ r ) eν−λ, R01 = λ̇ r , R11 = ( λ̈ 2 + λ̇2 4 − ν̇λ̇ 4 ) e−(ν−λ) − ν ′′ 2 + ν ′λ′ 4 + λ′ r − ν ′2 4 , R22 = ( rλ′ 2 − rν ′ 2 − 1 ) e−λ+1, R33 = ( rλ′ 2 − rν ′ 2 − 1 ) e−λ sin2 θ+sin2 θ. (3.111) As equações de Einstein que não são identicamente nulas são 8πGT 1 1 = −e−λ ( ν ′ r + 1 r2 ) + 1 r2 , (3.112) 8πGT 2 2 = 8πGT 3 3 = −1 2 e−λ ( ν ′′ + ν ′ 2 + ν ′ − λ′ r − ν ′λ′ 2 ) + 1 2 e−ν ( λ̈+ λ̇2 2 − ν̇λ̇ 2 ) , (3.113) 8πGT 0 0 = −e−λ ( 1 r2 − λ′ r ) + 1 r2 , (3.114) 8πGT 1 0 = −eλ λ̇ r . (3.115) Essas equações têm soluções exatas no caso de um campo gravitacional com simetria esférica no vácuo, isto é, quando T µν = 0. Isso equivale a dizer que não há matéria fora das massas que produzem o campo gravitacional. Nesse caso a equação 3.115 implica que −eλ λ̇ r = 0, ou seja, λ̇ = 0. Logo λ é independente do tempo. De fato, após a escolha de tensor energia-momento nulo, as equações de Einstein se reduzem a λ̇ = 0, (3.116) e−λ ( ν ′ r + 1 r2 ) − 1 r2 = 0, (3.117) e−λ ( λ′ r − 1 r2 ) + 1 r2 = 0. (3.118) Somando 3.117 e 3.118 chegamos a equação λ′ + ν ′ = 0, (3.119) que quando integrada com relação à coordenada radial fornece λ+ ν = f(t). (3.120) 35 Devido a invariância da métrica podemos efetuar uma transformação na coordenada temporal de forma que ν → ν + f(t), o que nos fornece λ+ ν = 0. (3.121) Este resultado demonstra que o campo gravitacional esfericamente simétrico é au- tomaticamente estático. Usando o resultado anterior podemos resolver a equação resultante para λ, e−λ ( λ′ r − 1 r2 ) + 1 r2 = 0. (3.122) Essa equação pode ser facilmente integrada se for escrita como − 1 r2 d dr (re−λ) + 1 r2 = 0. Integrando essa equação temos e−λ = 1 + cte r . (3.123) Lembrando que ν + λ = 0, note que, no limite de r → ∞, a métrica descreve um espaço plano com métrica de Minkowski, isto é ds2 = −dt2 + dr2 + r2(dθ2 + sin2 θdφ2). (3.124) Para determinar o valor da constante cte devemos tomar o limite para grandes distâncias, onde o campo gravitacional é fraco e a lei de Newton deve valer, isto é, a métrica deve ser escrita da forma ds2 = −(1 + 2U)dt2 + (1− 2U)[dr2 + r2(dθ2 + sin2 θdφ2)], (3.125) onde U = GNM r é o potencial gravitacional de Newton (veja por exemplo [9]). Em outras palavras, devemos ter g00 = 1− 2GNM r , (3.126) onde M é a massa do corpo que produz o campo gravitacional. Comparando g00 de ambas soluções temos o valor da constante de integração cte = −2GNM. (3.127) Finalmente podemos escrever o elemento de linha que representa a solução esferica- mente simétrica, ds2 = − ( 1− 2GNM r ) dt2 + ( 1− 2GNM r )−1 dr2 + r2dΩ2, (3.128) 36 onde dΩ2 = dθ2 + sin2 θdφ2. Essa é a chamada solução de Schwarzschild e o valor da constante de integração recebe o nome de raio de Schwarzschild, que denominaremos por rS. A superf́ıcie completa é chamada de horizonte de eventos. Aparentemente a solução se torna singular em dois pontos: r = 0 e rS = 2GNM . De fato, a fonte do campo gravitacional se encontra exatamente em r = 0, como pode ser determinado pelo limite newtoniano. Isso representa uma singularidade natural da métrica. Um critério para a determinação das singularidades verdadeiras da métrica é que, se qualquer escalar (porém não todos eles) constrúıdo a partir do tensor de curvatura se torna singular em um ponto, esse ponto representa uma singularidade da métrica. Os valores desses escalares para r = rS são finitos, o que não caracteriza rS como sendo uma singularidade pelo nosso critério, que cor- responde a resolver a equação grr = 0. Esse critério é valido para a solução de Scwarzschild, para a qual assumimos que não há matéria fora do horizonte de even- tos, e não funcionaria para estrelas como o Sol por exemplo, já que o horizonte de eventos se encontra dentro delas. A solução de Schwarzschild é válida mesmo para objetos como o Sol, porém ela deve ser tomada na região externa à região con- tendo matéria. Uma região que contém toda sua matéria dentro de seu horizonte de eventos é chamada de buraco negro. Apesar de termos iniciado o problema com elementos da métrica dependentes do tempo, naturalmente provamos que a métrica é estacionária, isto é ∂tgµν = 0. Porém, como já foi dito anteriormente, podemos efetuar uma transformação na coordenada temporal de forma a obter coeficientes da métrica dependentes do tempo, resultando em uma métrica não -estacionária que contém elementos provenientes de termos cruzados no elemento de linha, do tipo g01(dtdr − drdt). Uma propriedade mais restritiva da métrica é impor que ela seja estática, isto é, que ela possua um vetor de Killing do tipo tempo ortogonal à famı́lia de hipersuperf́ıcies definidas pela condição t = constante. Se adaptarmos as coordenadas de forma que a métrica seja estacionária e que possua um vetor de Killing do tipo tempo ortogonal à famı́lia de superf́ıcies definidas por t = constante, os elementos da métrica não conterão termos cruzados envolvendo as coordenadas de espaço e tempo, isto é, g0i será nulo. Portanto, a solução de Schwarzschild é uma solução das equações de Einstein para um espaçotempo estático e esfericamente simétrico. De fato, o teorema de Birkhoff estabelece que a métrica de Schwarzschild é a única solução para as equações de campo de Einstein que descreve o espaçotempo de vácuo fora de um corpo de massa M esfericamente simétrica. O teorema é válido mesmo quando a distribuição de massa possui uma dependência temporal, desde que o espaçotempo externo seja necessariamente estático e a métrica seja dada por 3.128. As coordenadas de 3.128 cobrem a geometria do espaçotempo somente fora do 37 horizonte de eventos. O conjunto de coordenadas que cobrem toda a geometria foi descoberto por Kruskal e Szekeres e o apresentaremos aqui. Primeiro se introduz as coordenadas r∗ (tortoise coordinates) ao se impor dr 1− 2GNM r = dr∗ → r∗ = r + 2GNM ln( r 2GNM − 1), (3.129) que nos fornece a métrica ds2 = ( 1− 2GNM r ) (−dt2 + dr2 ∗) + r2(r∗)dΩ2 2. (3.130) Após isso introduzimos as coordenadas nulas u = t− r∗, v = t+ r∗, (3.131) de forma que a luz (ds2) viaja com velocidade u = constante ou v = constante. Finalmente introduzimos as coordenadas de Kruskal, u = −4GNMe − u GNM , v = 4GNMe v GNM . (3.132) A métrica neste sistema de coordenadas se torna ds2 = −2GNM r e − r 4GNM dudv + r2dΩ2 2, (3.133) onde r = r(u, v). Essa é a solução de Schwarzschild em coordenadas de Kruskal. 3.2.2 Solução de Reissner-Nordstrom Apresentaremos agora outra solução estática, esfericamente simétrica cujo conteúdo de energia é dado pelo tensor energia-momento do campo de Maxwell. Assumindo a existência de monopólos magnéticos, essa solução representa um buraco negro car- regado com cargas elétricas e magnéticas. As equações de Eintein para esse caso serão : Rµν − 1 2 gµνR = 8πGNTµν , (3.134) onde Tµν = 1 4π ( FµγFν γ − 1 4 gµνFαβF αβ ) . (3.135) As equações de Maxwell correspondem às equações de Euler-Lagrange mais as iden- tidades de Bianchi ∇µF µν = 0, (3.136) ∇[µFν ρ] = 0. (3.137) Como exigimos que a métrica seja estática e esfericamente simétrica os únicos com- ponentes dos campos elétricos e magnéticos são os componentes radiais, que por 38 sua vez devem ser independentes das coordenadas θ e φ. Porém, admitiremos a prinćıpio que os componentes de do campo eletromagnético possam ter dependência temporal, isto é, Fµν = Fµν(r, t). Os componentes dos campos elétrico e magnético vistos por um observador com quadrivelocidade vµ são dados respectivamente por Eµ = Fµνv ν , Bα = 1 2 εαβ γδvβFγδ, (3.138) onde definimos o tensor de Levi-Civita por εαβγδ = 1√ −g ε̃αβγδ, (3.139) e o śımbolo de Levi-Civita por ε̃αβγδ = +1 se αβγδ é permutação par de 0123, ε̃αβγδ = −1 se αβγδ é permutação ı́mpar de 0123, e ε̃αβγδ = 0, para os outros casos. Para manter a simetria esférica exigimos que os observadores de Killing com v ∝ ∂t atribuam projeções nulas dos componentes dos campos elétrico e magnético na esfera S2, isto é (∂θ)µE µ = Eθ = Fθνv ν = Fθtv t = Fθt = 0, (∂φ)µE µ = Eφ = Fφνv ν = Fφtv t = Fφt = 0, (∂θ)µB µ = Bθ = 1 2 εθβ γδvβFγδ = εθt rφFrφ = 0, (∂φ)µB µ = Bφ = 1 2 εφβ γδvβFγδ = εφt rθFrθ = 0. Após essas exigências os únicos componentes que não são nulos serão Frt(r, t) e Fθφ(r, t). Denominaremos o campo elétrico por Er = Ftr(r, t) = −Frt(r, t) = f(r, t). (3.140) Para definir o campo magnético precisamos usar a definição do tensor de Levi-Civita 3.139, Br = 1 2 εrβ γδvβFγδ = 1 2 √ −g ε̃rβ γδvβFγδ = 1√ −gFθφ. (3.141) Então, para que o campo magnético não tenha dependência angular precisamos que o componente Fθφ do campo eletromagnético tenha a forma Fθφ = −Fφθ = g(r, t)r2 sin θ, (3.142) 39 para alguma função g(r, t), já que √ −g ∝ r2 sin θ. Usando a identidade encontrada no apêndice Γµµλ = 1√ −g ∂λ √ −g, a equação de Maxwell 3.136 é então escrita como ∇µF µν = ∂µF µν + ΓµµαF αµ + ΓνµαF µα = ∂µF µν + 1√ −g∂α √ −gFαµ + ΓνµαF µα = 1√ −g∂α( √ −gFαν) + ΓνµαF µα. Como os coeficiente de conexão são simétricos nos ı́ndices µ e α e F µα é antis- simétrico, o segundo termo é nulo e podemos reescrever 3.136 como ∇µF µν = 1√ −g ∂α( √ −gFαν) = 0. (3.143) A métrica tem a mesma forma que a métrica da seção anterior, portanto essa equação nos permite escrever o componente do campo elétrico como ∂r(e 1 2 (ν+λ)r2 sin2 θgttgrrFtr) = 0 = ∂r(e − 1 2 (ν+λ)r2Ftr) = 0⇒ Ftr = K1 r2 e 1 2 (ν+λ), (3.144) onde K1 é uma constante de integração. Seguindo os mesmos procedimentos pode- mos determinar, para K2 também sendo uma constante de integração Fθφ = K2e 1 2 (ν+λ)r2 sin θ, (3.145) que é consistente com 3.142. Podemos agora encontrar os componentes do tensor energia-momento por 3.135 Ttt = f 2 8π e−ν + g2 8π eλ, Trr = − f 2 8π e−λ − g2 8π eν , Tθθ = r2g2 8πr2 + r2f 2 8πr2 , Tφφ = Tθθ sin2 θ, Trt = 0. (3.146) Facilmente podemos demonstrar que o traço do tensor energia-momento é nulo, o que implica que o escalar de Ricci também é nulo pelas equações de Einstein. As equações de Einstein se reduzem ao mesmo conjunto de equações da solução de Schwarzschild, de 3.112 a 3.115. Novamente, como Trt = 0, isso implica que λ̇ = 0, e as equações de Einstein se reduzem ao conjunto λ̇ = 0, (3.147) 40 8πGNg ttTtt = −e−λ ( −λ ′ r + 1 r2 ) + 1 r2 , (3.148) 8πGNg rrTrr = −e−λ ( ν ′ r + 1 r2 ) + 1 r2 . (3.149) Como gttTtt = grrTrr podemos subtrair as equações 3.148 e 3.149, o que novamente fornece λ′ + ν ′ = 0. Integrando com respeito à variável r temos λ+ ν = f(t). (3.150) Seguiremos o procedimento idêntico ao da seção anterior e faremos uma trans- formação no parâmetro ν de forma que ν → ν + f(t), e dessa forma obter λ+ ν = 0. (3.151) Devido à essa escolha, todos elementos da métrica serão independentes do tempo, e como g01 é igual á zero, novamente teremos uma solução estática das equações de Einstein. Com essa escolha podemos resolver as equações de Maxwell e obter a forma do tensor Fµν . O componente t de 3.136 nos dá ∂tFtr − ΓσttFσr − ΓσtrFtσ = 0. Como a métrica é independente do tempo Γttt = 0 e Γrtr = ν̇/2 = 0 temos ∂tFtr = 0, que integrando nos dá Ftr = f(r). (3.152) Para determinar a forma de f usamos 3.143, ou seja ∇µF µν = 1 r2 sin θ ∂µ(r2 sin θF µν) = 0. Essa equação implica que ∂r(r 2F rt) = ∂r(r 2grrgttFrt) = −∂r(r2Frt)0, que integrada nos dá f(r) = K1 r2 . (3.153) Como F01 = Er o valor da constante K1 = Q é interpretada como sendo a carga elétrica do buraco negro, que denominaremos por Q. Agora, usando 3.149 temos ∂µFνρ + ∂νFρµ + ∂ρFµν = 0. Para µ = t, ν = θ, ρ = φ temos ∂tFθφ = 0, o que demonstra que Fθφ é independente do tempo. Usando 3.138, temos ∂r(r 2g) = 0, 41 que integrando nos dá g(r) = K2 r2 . (3.154) Da mesma forma podemos interpretar a constante de integração K2 como sendo a carga magnética do buraco negro, que denominaremos por P . Logo, os componentes não-nulos do tensor de campo eletromagnético serão Ftr = Q r2 , Fθφ = P sin θ. (3.155) Estamos agora equipados para resolver a equação 3.148 (ou 3.149), já que conhece- mos a forma das funções f e g. Usando 3.146, podemos escrever esta equação como 1 r2 d dr (re−λ) = 1 r2 −GNf 2 −GNg 2, d dr (re−λ) = 1− GNQ 2 r2 − GNP 2 r2 . Integrando com respeito à variável r temos finalmente e−λ = 1 + cte r + GN(Q2 + P 2) r2 . (3.156) Novamente no limite newtoniano, cte = −2GNr. Logo a solução da equação será e−λ = 1− 2GNM r + GN(Q2 + P 2) r2 , (3.157) onde Q é a carga elétrica e P é a carga magnética do buraco negro. O elemento de linha será ds2 = − ( 1− 2GNM r + GN(Q2 + P 2) r2 ) dt2+ ( 1− 2GNM r + GN(Q2 + P 2) r2 )−1 dr2+r2dΩ2, (3.158) onde dΩ2 = dθ2 + sin2 θdφ2. Essa é a chamada solução de Reissner-Nordstrom. Para determinar a posição do horizonte de eventos resolvemos para r a equação grr = 0. Para unidades em que GN = 1 a solução será r± = M ± √ M2 − (Q2 + P 2), (3.159) ou seja, existem três casos a serem analisados: Caso 1: M2 < (Q2 + P 2). Há uma singularidade em r = 0 e não há horizonte de eventos, ou seja, o que temos é uma ”singularidade nua”. Esse caso é exclúıdo por motivos f́ısicos: existem alguns teoremas dizendo que uma singularidade nua não deveria ocorrer sob certos pressupostos razoáveis, sendo um deles que a contribuição do campo gravitacional para a energia é menor que a contribuição somada dos campos elétrico e magnéticos. 42 Caso 2: M2 > (Q2 + P 2). Neste caso há dois horizonte de eventos, r+ e r−, que por sua vez são superf́ıcies nulas, como será discutido nas próximas seções . Neste caso a contribuição do campo gravitacional para a energia é maior que a contribuição dos campos elétrico e magnético, o que torna essa solução mais f́ısica. Caso 3: M2 = (Q2 + P 2). Neste caso, os dois horizontes de eventos coincidem exatamente sobre a mesma superf́ıcie. A solução apresenta a singularidade em r = 0 e horizonte de eventos em r = GNM , onde restauramos a constante de Newton por análise dimensional. A condição de extremalidade implica que a métrica possui a forma ds2 = − ( 1− GNM r + )2 dt2 + ( 1− GNM r )−2 dr2 + r2dΩ2. (3.160) Definindo a coordenada radial como ρ = r−GNM a métrica passa a ser escrita em coordenadas isotrópicas, isto é, ds2 = −H2(ρ)dt2 +H−2(ρ)[dρ2 + ρ2dΩ2 2], (3.161) onde H(ρ) = 1 + GNM ρ . (3.162) Como dρ2 + ρ2dΩ2 2 é a métrica plana no espaço tridimensional, podemos igualmente escrever ds2 = −H2(~x)dt2 +H−2(~x)[dx2 + dy2 + dz2], (3.163) onde agora a função H é dada por H(~x) = 1 + GNM |~x| . (3.164) Neste ponto é interessante salientar que o fato da massa ser igual à carga, também conhecido como condição BPS, de Bogomol’nyi-Prasad-Somerfield, implicar que a posição dos dois horizontes de eventos coincidam, conhecido como condição de ex- tremalidade, é um fato inerente ao espaçotempo quadridimensional. Em teorias envolvendo buracos negros em dimensões mais altas essa coincidência pode não ocorrer, forçando-nos a diferenciar o caso extremo do caso BPS. 3.2.3 Solução de Kerr-Neumann A solução mais geral do tipo buraco-negro é a chamada solução de Kerr-Neumann. Ela representa a solução de um buraco negro carregado e que contém momento angu- lar J . Pelas discussões das seções anteriores notamos que essa solução não descreve 43 um espaçotempo estático. Sua dedução foge do escopo dessa dissertação e apenas a escreveremos por completeza. Ela é dada por ds2 = −(∆− a2 sin2 θ) Σ dt2 − 2a sinθ r2 + a2 −∆ Σ dtdφ + ( (r2 + a2)−∆a2 sin2 θ Σ ) sin2 θdφ2 + Σ ∆ dr2 + Σdθ2, (3.165) onde ∆(r) = r2 − 2GNMr + a2 + e2 Σ(r) = r2 + a2 cos2 θ. Os três parâmetros da solução são a massa do corpo, M , o parâmetro a, que é o momento angular por unidade de massa, a = J M , e a carga do corpo, e, dada por e = √ Q2 + P 2. Uma discussão muito bem detalhada sobre esta solução é encontrada em [12]. 3.2.4 Superf́ıcies nulas e horizontes de Killing Seja S(x) uma função suave das coordenadas do espaçotempo xµ. Considere uma famı́lia de hipersuperf́ıcies para as quais S = constante. Os vetores normais à hipersuperf́ıcie são l = f̃(x)(gµν∂νS) ∂ ∂xµ , (3.166) onde f̃(x) é uma função arbitrária diferente de zero. Se l é um vetor nulo, isto é, lµl µ = 0, para uma dada superf́ıcie N , então dizemos que N é uma superf́ıcie nula. Como exemplo de aplicação da equação 3.166, considere o caso da solução de Schwarzschild nas coordenadas de Eddington-Finkelstein ”ingoing”, (r, v, θ, φ), ds2 = − ( 1− 2GNM r ) dv2 + 2drdv + r2dΩ2 2, (3.167) e S = r − 2M . Usando 3.166 temos l = ˜f(x) [ (grr∂rS + grv∂vS) ∂ ∂r + (gvr∂rS + gvv∂vS) ∂ ∂v ] . Separadamente, os elementos do tensor métrico são gvv = − ( 1− 2GNM r ) , grv = 1, gvr = 1. (3.168) 44 Usando gµνg νσ = δσµ , temos para µ = ν = r, grrg rr + grvg vr = 1⇒ gvr = 1. Para µ = v, σ = r temos gvrg rr + gvvg vr = 0⇒ grr = −gvv. Usando esses coeficientes métricos e o fato de que S é independente de v podemos escrever o vetor nulo como l = f̃(x) [( 1− 2GNM r ) ∂ ∂r + ∂ ∂v ] . (3.169) Como lµl µ = 0, temos lµl µ = f̃ 2gµν∂µS∂µS = 0 f̃ 2 ( 1− 2GNM r ) = 0. (3.170) Como a função f̃ é arbitrária, o valor de r que resolve esta equação é portanto r = 2GNM . Logo a superf́ıcie nula N , que se encontra em r = 2GNM , possui vetor normal l|r=2GNM = f̃ ∂ ∂v . (3.171) Um vetor tangente t à superf́ıcie nula N , e com vetor normal l dado por 3.166, satisfaz t · l = 0. Pelo fato de l ser um vetor nulo, ele é portanto normal e tangente à superf́ıcie ao mesmo tempo. Logo podemos escrever o vetor tangente como lµ = dxµ dλ , (3.172) para alguma curva nula x(λ). Vamos considerar o caso geral para o qual S = const é uma famı́lia de hipersuperf́ıcies (não necessariamente nulas). Usando a definição de vetor normal, note que lρ∇ρl µ = lρ∇ρ(f̃ g µν∂νS) = lρ∂ρf̃ · gµν∂νS + f̃ lρgµν∇ρ∂νS = lρ∂ρ(ln f̃)lµ + f̃ lρgµν∇ρ∂νS. Separadamente temos lρgµν∇ρ∂νS = lρgµν∂ρ∂ν + lρgµνΓσρν∂σS = lρgµν∇ν∂ρS = lρ∇µ(f̃−1lρ). Este resultado nos permite escrever lρ∇ρl µ = lρ∂ρ(ln f̃)lµ + f̃ lρ∇µ(f̃−1lρ) = ( d dλ ln f̃ ) lµ + lρ∇µlρ − lρlρ∂µ ln f̃ = ( d dλ ln f̃ ) lµ + 1 2 ∂µl2 − (∂µ ln f̃)l2. (3.173) 45 SendoN um membro dessa famı́lia para o qual S = 0. Sabemos que l2|N = 0, porém isso não implica que ∂µ(l2) = 0 a menos que a famı́lia toda de hipersuperf́ıcies S = constante seja nula. Pelo fato de l2 ser constante em N podemos escrever tµ∂µl 2 = 0 para qualquer vetor tangente t à hipersuperf́ıcie. Como tµlµ = 0, isso implica que ∂µl 2 ∣∣∣ N ∝ lµ. (3.174) Definindo a constante de proporcionalidade como cte, a equação 3.173 será lρ∇ρl µ|N = ( d dλ ln f̃ + cte 2 )∣∣∣ N lµ − (∂µ ln f̃)l2 ∣∣∣ N ≡ K|N lµ + V µ|N , (3.175) onde K|N é uma constante e V µ|N é um vetor, sobre N . O que demonstramos de fato foi que lρ∇ρl µ|N ∝ lµ, (3.176) ou seja, que xµ(λ) é uma geodésica, com vetor tangente l por 3.8. Podemos escolher a função f̃ de forma que lρ∇ρl µ|N = 0, (3.177) isto é, de forma que λ seja um parâmetro afim. Uma hipersuperf́ıcie nula N é um horizonte de Killing de um campo vetorial de Killing ξ se, em N , ξ é normal a N . Seja l o vetor normal à N de forma que l·∇lµ = 0 (parametrização afim). Então, sobreN , o vetor de Killing ξ é proporcional ao vetor nulo l da seguinte forma ξµ = f(x)lµ, (3.178) para alguma função f das coordenadas xν . A equação l · ∇lµ = 0 resulta em lρ∇ρl µ = f−1ξρ∇ρ(f −1ξµ) = f−1ξρ∂ρ(f −1ξµ) + f−2ξρΓµρνξ ν = f−3ξρ(∂ρf −1)ξµ + f−2ξρ∂ρξ µ + f−2ξρΓµρνξ ν . (3.179) Como esta expressão é igual a zero, isso resulta em ξρ∂ρξ µ + ξρΓµρνξ ν = ξρ(∂ρ ln f)ξµ ξρ∇ρξ µ = κξµ, (3.180) onde a constante κ = ξρ(∂ρ ln f) é chamada de gravidade superficial. Pela equação 3.8 vemos que a gravidade superficial é uma medida da ”falha” do ”parâmetro temporal de Killing” coincidir com o parâmetro afim. Isso demonstra que podemos associar a cada horizonte de Killing essa quantidade chamada gravidade superficial. 46 A noção de horizonte de Killing é puramente geométrica, e, a prinćıpio, é inde- pendente da noção de horizonte de eventos, mas para um espaçotempo com simetria translacional elas estão relacionadas. Seguindo a classificação apresentada em [7] temos: - todo horizonte de eventos em um espaçotempo estacionário, assintoticamente plano é um horizonte de Killing para um campo de Killing lµ; - se o espaçotempo é estático, lµ = (∂t) µ representa translações temporais na região assintótica; - se o espaçotempo é estacionário mas não estático, ele será axisimétrico com um campo de Killing rotacional ψµ, e lµ = ξµ + ΩHψ µ, (3.181) para alguma constante ΩH . Os argumentos para a validade dessa classificação segue dessa mesma referência, e das referências lá citadas. 3.2.5 Massa, carga e momento angular Na relatividade geral existe um teorema, chamado de no-hair theorem, que diz que soluções estacionárias do tipo buraco negro, assintoticamente planas, acopladas ao eletromagnetismo e não-singular fora do horizonte de eventos são completamente caracterizadas pela massa, cargas elétrica e magnética e momento angular. Em out- ras palavras, o teorema nos diz que qualquer outro parâmetro do buraco negro deve ser escrito em termos desses três parâmetros. Por este motivo apresentaremos nesta seção as expressões para a massa, carga e momento angular de um buraco negro na região assintótica. Apresentaremos a maneira mais simples de deduzir essas quan- tidades, já que a mais formal exigiria um estudo sobre o formalismo hamiltoniano da Relatividade Geral. Porém, as discussões apresentadas aqui servirão ao nosso propósito. O quadrivetor corrente elétrica Jµe é definido a partir da equação de Maxwell ∇νF µν = Jµe . (3.182) A carga passando através de uma hipersuperf́ıcie Σ do tipo espaço é dada pela integral sobre as coordenadas xi em Σ Q = − ∫ Σ Jµnµ √ hd3x = − ∫ Σ ∇νF µνnµ √ hd3x, (3.183) onde hij é a métrica induzida sobre Σ com determinante h e nµ é o vetor normal unitário. Usando o teorema de Stokes B.8 temos Q = − ∫ ∂Σ F µνnµkνd 2x √ σ, (3.184) 47 onde agora σij é a métrica em duas dimensões induzida sob a superf́ıcie de fronteira ∂Σ, com determinante σ, e kµ é o vetor normal a ∂Σ. Para verificar que esta integral de fato representa a carga considere o espaço de Minkowski, cujo elemento de linha é dado por ds2 = −dt2 + dr2 + r2dθ2 + r2 sin2 θdφ2, (3.185) e considere que o campo elétrico é escrito como F tr = Er = q 4πr2 . (3.186) Os vetores normais unitários são escritos como nµ = (1, 0, 0, 0), σµ = (0, 1, 0, 0). (3.187) Separadamente, temos nµσνF µν = ntσrF tr = gttgrrF tr = −Er √ σ = r2 sin θ. Substituindo na expressão 3.184 temos Q = −limr→∞ ∫ ∂Σ ( − q 4πr2 ) r2 sin θdθdφ = q. (3.188) Dessa forma demonstramos que nossa definição de carga está correta. Para um espaçotempo assintoticamente plano, uma definição de corrente conser- vada será JµT = ξνT µν , (3.189) onde ξµ é um campo vetorial de Killing do tipo tempo. A conservação pode ser facilmente checada, pois ∇µJ µ T = ∇µξν · T µν + ξν∇µT µν = 0, onde o primeiro termo é nulo por ser a multiplicação de um tensor antissimétrico por um tensor simétrico, e o segundo pela conservação do tensor energia-momento. Sendo Σ uma hipersuperf́ıcie do tipo espaço, a definição de energia portanto será ET = ∫ Σ JµT √ hnµd 3x. (3.190) Para a geometria de Schwarzschild o tensor energia-momento é nulo em todo espaço, porém a energia não é nula, já que um buraco negro possui massa. Precisamos de uma definição alternativa de energia. Note que a corrente, definida por JµR = ξνR µν , (3.191) 48 é conservada, pois ∇µJ µ R = ∇µξν ·Rµν + ξν · ∇µR µν = 0, pois o primeiro termo do lado direito é nulo por ser uma multiplicação de um tensor simétrico por um antissimétrico, e o segundo é nulo porque a derivada direcional do tensor de Ricci é nula ao longo de um vetor de Killing. A energia conservada associada com esta corrente será ER = 1 4πGN ∫ Σ Rµνnµξν √ hd3x. (3.192) A energia é independente da escolha da hypersuperf́ıcie Σ, já que ela é uma quan- tidade conservada. Pelo fato de ξµ ser um vetor de Killing podemos escrever a expressão ∇µ∇νξ µ = ∇µ(∇νξ µ) = ξµRµν , (3.193) ou seja, a corrente é escrita em termos de uma derivada total. A expressão para a energia será portanto ER = 1 4πGN ∫ Σ nµ(∇µξν)∇ν √ hd3x. Usando o teorema de Stokes novamente temos ER = 1 4πGN ∫ ∂Σ ∇µξνnµkν √ σd2x. (3.194) Definindo o elemento de superf́ıcie bidimensional como −2k[µnν] √ σd2x ≡ dΣµν escrevemos a energia da seguinte forma ER = 1 8πGN ∫ ∂Σ ∇µξνdΣµν . (3.195) Esta expressão é conhecida como integral de Komar para a energia. Como exemplo de aplicação dessa fórmula considere o caso de Schwarzschild, cujo elemento de linha é dado por 3.128. O único componente não-nulo do vetor unitário normal, cuja normalização é dada por nµn µ = −1, é encontrado por nµn µ = n0n 0 = g00n 0n0 = − ( 1− 2GNM r ) n0n0 = −1 n0 = ( 1− 2GNM r )− 1 2 , n0 = − ( 1− 2GNM r ) 1 2 . (3.196) Da mesma forma, o único componente não-nulo do vetor unitário normal kµ, com normalização kµk µ = 1, será k1 = ( 1− 2GNM r ) 1 2 , k1 = ( 1− 2GNM r )− 1 2 . (3.197) 49 Sendo o vetor de Killing do tipo tempo ξµ = (1, 0, 0, 0), separadamente ∇0ξ1 = g00∇0ξ 1 = g00(∂0ξ 1 + Γ1 0λξ λ) = g00Γ1 00ξ 0 = − ( 1− 2GNM r )−1 GNM r2 ( 1− 2GNM r ) = −GNM r2 . O determinante da métrica bidimensional é dado por √ σ = r2 sin θ, e, substituindo essas expressões na integral de Komar temos ER = 1 4πGN ∫ ∂Σ dθdφr 2 sin2 θ(−1) ( −GNM r2 ) = M 4π ∫ ∂Σ dθdφ sin θ = M, o que demonstra que a escolha do fator de normalização da integral de Komar é conveniente. Em unidades de c = 1 as definições de massa e energia em relatividade geral são equivalentes, como deduzimos do resultado acima. A definição de momento angular segue da corrente de Killing Jµφ = ψνR µν , (3.198) que também é conservada ∇µJ µ φ = ∇µψν ·Rµν + ψν∇µR µν = 1 2 ψν∇νR = 0, onde o primeiro termo é nulo por ser uma multiplicação de um tensor antissimétrico por um tensor simétrico. Para demonstrar que o segundo termo é nulo, utilizaremos o chamado lema de Killing 4.14, demonstrado no próximo caṕıtulo, que contráıdo é escrito como ∇µ∇σψ µ = Rσνψ ν . (3.199) Contraindo a identidade de Bianchi, ∇[µRαβ]γδ = 0, com gαγ temos ∇µRβδ −∇βRµδ +∇αRβµαδ = 0. Contraindo com ψµ e em seguida contraindo gβδ temos ψµ∇µR− 2ψµ∇δRµδ = 0. Usando a regra da cadeia e usando o lema de Killing temos ψµ∇µR = 2∇δ(∇µ∇µψδ), 50 e usando o fato de que ψµ é um vetor de Killing temos ψµ∇µR = 0, (3.200) o que demonstra finalmente que Jµφ é uma corrente conservada. O momento angular é então definido pela integral dessa corrente J = − 1 8πGN ∫ ∂Σ ∇µψνnµkν √ σd2x. (3.201) Usando a definição de elemento de superf́ıcie bidimensional dΣµν = −2 √ σn[µkν]d 2x, podemos escrever essa expressão de uma forma mais elegante, isto é J = 1 16πGN ∫ ∂Σ ∇µψνdΣµν , (3.202) que é a integral de Komar para o momento angular. Para verificar que esta expressão de fato representa o momento angular usamos o teorema de Gauss B.1, J = 1 16πGN ∫ Σ ψνRµ νdΣµ. (3.203) Note que, usando as equações de Einstein Jµ = ψνRµ ν = ψν ( 8πGNT µ ν − 1 2 Tδµν ) = 8πGNT µ νψ ν − 1 2 Tψµ. Como escolhemos Σ como sendo a hipersuperf́ıcie para t = const e ψµ = (∂φ)µ, ψµdΣµ = 0, e o momento angular será J = ∫ Σ T 0 νψ νdΣ. (3.204) Em coordenadas cartesianas ∂φ = x∂y − y∂x = ψ1∂x + ψ2∂y, logo J = ∫ Σ ( T 0 1ψ 1 − T 0 2ψ 2 ) dΣ. No espaço assintótico gµν ≈ ηµν , o terceiro componente do momento angular de um campo no espaçotempo de Minkowski com tensor energia-momento Tµν é dado por J ≈ ε3jk ∫ Σ xjT k0dΣ. (3.205) Assim demonstramos que a integral 3.202 representa o momento angular. 51 Finalmente apresentaremos a chamada energia ADM, que em certos limites se reduz às integrais de Komar. Para deduzir uma expressão para a energia consider- amos que na região assintótica a métrica pode ser escrita como uma perturbação da forma gµν ≈ ηµν − εhµν , (3.206) onde ε é um parâmetro infinitesimal, e hµν é de O ( 1 r ) . Observamos que nesse caso hµν não é a métrica induzida, como nos casos anteriores. Comumente se usa a letra h para expressar a perturbação da métrica. Vamos usar as equações de Einstein escritas na forma Rµν = 8πGN ( Tµν − 1 2 gµν ) . (3.207) Usando a aproximação 3.206 o tensor de Ricci é escrito como Rµν ≈ 1 2 ε[ηρσ∂ρ∂σhµν + ∂µ∂νη µνhµν − ∂µ∂ρhνρ − ∂ν∂ρhµρ]. (3.208) Também devido à essa aproximação o tensor energia momento será Tµν ≈ 0 + ετµν . (3.209) Facilmente as equações de Einstein são escritas como [ηρσ∂ρ∂σhµν + ∂µ∂νη µνhµν − ∂µ∂ρhνρ − ∂ν∂ρhµρ] ≈ 16πGN(τµν − 1 2 ηµντ). (3.210) Para fontes estacionárias a métrica é independente do tempo, logo para µν = 0, essa equação resulta em ηρσ∂ρ∂σh00 = 16πGN [τ00 − 1 2 η00(η00τ00 + ηiiτii)]. Como estamos na região assintótica o valor dos componentes temporais do tensor energia-momento são muito maiores que o valor dos espaciais, e isso nos permite escrever ηρσ∂ρ∂σh00 = −8πGNτ00. (3.211) Tomando o traço da equação 3.210, temos ηρσ∂ρ∂σh− ηρσ∂µ∂ρhσµ = −8πGNτ. (3.212) Expandindo os ind́ıces e fazendo a mesma consideração sobre os componentes tem- porais de τ temos ηρσ∂ρ∂σh00 + ηρσ∂ρ∂σhii − ∂i∂jhij = −8πGNτ00. (3.213) 52 Somando as equações 3.211 e 3.213 temos τ00 = − 1 16πGN ∂i(∂ihjj − ∂jhij). (3.214) A energia é escrita como a integral de τ00 sobre todo o espa