JOHN DAVID PELICERI DA SILVA A VOZ DE MANUELA SOB DISCURSOS AUTORITÁRIOS: uma abordagem de “A casa das sete mulheres”, de Leticia Wierzchowski. ASSIS 2017 JOHN DAVID PELICERI DA SILVA A VOZ DE MANUELA SOB DISCURSOS AUTORITÁRIOS: uma abordagem de “A casa das sete mulheres” Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para obtenção do título de Mestre em Letras (Área de Conhecimento: Literatura e Vida Social) Orientador: Dr. Benedito Antunes Bolsista: CAPES ASSIS 2017 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da F.C.L. – Assis – Unesp S586v Silva, John David Peliceri da Silva A voz de Manuela sob discursos autoritários: uma aborda- gem de “A casa das sete mulheres”, de Leticia Wierzchowski / John David Peliceri da Silva. Assis, 2017. 142 p. : il. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista. Orientador: Dr. Benedito Antunes 1. Wierzchowski, Letícia, 1972- 2. Ficção histórica. 3. Literatura e sociedade. 4. Mulheres na literatura. I. Título. CDD 869.89287 AGRADECIMENTOS Em princípio, a DEUS pela força, em todos os momentos pelos quais passei, desde a graduação até o ingresso na pós-graduação. Ao meu orientador, Prof. Dr. Benedito Antunes, por ter me aceitado como orientando. Minha eterna gratidão! Também, à CAPES, pela bolsa que proporcionou o tempo necessário para a consecução dos exemplares, bem como toda os requisitos necessários para a pesquisa. Às Professoras Dra Sylvia Jorge de Almeida Martins (Imes Catanduva) e Dra Vera Lúcia Massoni Xavier da Silva (Imes Catanduva), pois ambas, durante a minha graduação em Letras, me incentivaram a produzir projeto de pesquisa na área do “discurso”, em 2008. Ao Prof. José Luiz Eleno, na EE Vitorino Pereira em Catanduva-SP, pelos anos do Ensino Médio (2003 a 2005). À Profª Maria de Lourdes Teles, também, na EE Vitorino Pereira em Catanduva-SP, pelos anos do Ensino Fundamental, em especial, a 7ª série (2001). Foi por meio de suas aulas de Língua Portuguesa que me surgiu o interesse pelo magistério. Grato por tudo! Aos meus pais, Pastor Dr. Antonio Souza da Silva e Pastora Dra Vera Lúcia Peliceri da Silva, pois me deram muito incentivo aos estudos. O incentivo foi tão grande que não me deixaram trabalhar: tirei minha Carteira de Trabalho, aos 21 anos (24/08/2009), tendo meu primeiro registro como professor do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, em 06/08/2012. Sou eternamente grato a DEUS pela vida dos meus pais! Aos meus irmãos pastor Dr. Jean Paul Peliceri da Silva e pastor Dr. Antonio Souza da Silva Junior, que torceram pela minha luta na UNESP, para adquirir esse título na academia literária. À Léia Helena Peliceri da Silva, por estar sempre ao meu lado, enquanto redigia essa dissertação, e por dar uma atenção especial, em meio aos momentos delicados da vida. Portanto, essas folhas seriam poucas para expressar toda a minha gratidão. Cada momento vivido e compartilhado jamais se expressaria dentro do sentido verbal. Os ideais de fraternidade possibilitam o vislumbrar e a intensidade de cada circunstância da vida de um ser humano. Por isso, confesso que sem a participação das pessoas aqui mencionadas e, também, das circunstâncias proporcionadas, essa dissertação não teria sido efetuada. Grato a todos e a tudo! SILVA, J. D. P. A voz de Manuela sob discursos autoritários. 2017 f. 142 Dissertação (Mestre em Letras). – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Assis, 2017. RESUMO O objetivo deste trabalho é analisar a voz da personagem Manuela de Paula Ferrreira do romance histórico contemporâneo A casa das sete mulheres (2002), de Leticia Wierzchowski (1972). A análise consiste numa reflexão sobre o posicionamento transgressor da personagem, que apresenta uma voz abafada e dissonante no contexto do romance, podendo significar uma resistência ao sistema patriarcal brasileiro do século XIX. Baseia-se nos estudos discursivos de Bakhtin (1988) para abordar o estado de prisão, os costumes e as regras, a política e a guerra, tendo como objetivo temático o amor por Giuseppe Garibaldi. Procura-se, assim, realizar um estudo detalhado do diário íntimo e crítico em que a personagem anotava suas confidências, a fim de se compreender a sua voz e seu comportamento social. Para a análise desse diário, recorre-se aos conceitos de narração (GENETTE, 1979) e de memória (SPERBER, 2009), que permitem abranger toda a matéria transgressora nele implicada, no plano da civilidade, da exclusão e da submissão social, que acentua possíveis identidades (DELEUZE, 1995) como resposta a discursos autoritários. Por fim, o trabalho pretende discutir a tradição popular “Noiva de Garibaldi”, que tomou corpo depois que Giusepe Garibaldi dedicou a Manuela algumas linhas de suas memórias. Espera-se com isso contribuir para a compreensão dessa figura histórica e de seu papel na Guerra dos Farrapos. Palavras-Chave: Leticia Wierzchowski, A casa das sete mulheres, resistência feminina, romance histórico contemporâneo. SILVA, J. D. P. Manuela's voice under authoritarian speeches. 2017 p. 142 Dissertação (Mestre em Letras). – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Assis, 2017. ABSTRACT This research intention specifically examines the voice of the character Manuela Paula Ferreira in The House of the Seven Women (2002), a contemporary historical novel creation by the brazilian Leticia Wierzchowski (1972). This analysis in the related novel is a way to meditate the transgressor´s position of the focus character, who in the context presents a muted and dissonante voice, that could mean the patriarcal system resistance in the XIX TH Century. Bakhtin´s (1988) discursive studies is the generic basis of this research, so essential theory for the survey to reveal Manoela´s state of prison feelings also in her perspectives from the social reflections, the rules , the politics until in the War and her thematic objective reminiscences in love with Giuseppe Garibaldi character. So the research seeks to carry out a detailed study toward the inward and critical diary in which the character Manoela wrote her confidences in order to understand herself own voice and her social behavior. For the analysis of this diary, this search also supports in the concepts of narration (GENETTE, 1979) and the memory (SPERBER, 2009), which allow to cover all the transgressive matter implied in it; in terms of civility, of the exclusion and social possible identities emphasizes (DELEUZE, 1995) like an answer of the authoritarian discourses. Finally, this cooperation intends to discuss the popular tradition "Bride of Garibaldi", which took shape after Giusepe Garibaldi dedicated to Manuela some lines of his memories. Then this research expectancy is also to contribute with the understanding of this historical figure and her role in the War of the Clutches/ Guerra dos Farrapos. Key Words: Leticia Wierzchowski, the house of the seven women, female resistance, contemporary historical novel. SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................................. 09 CAPÍTULO 1 – Fortuna literária da autora Leticia Wierzchowski..............14 1.1 Percurso literário da escritora Leticia Wierzchowski.................................14 1.2 Leticia Wierzchowski e a literatura contemporânea..................................15 1.3 O método literário no romance histórico A casa das sete mulheres.........17 1.4 O momento da revelação e a libertação social..........................................22 CAPÍTULO 2 – A casa das sete mulheres como romance histórico.........25 2.1 Romance histórico contemporâneo: ficção e história................................25 2.2 A escrita literária: o espaço íntimo na experiência humana......................28 2.3 O enredo e os personagens no contexto da Guerra dos Farrapos...........31 2.4 O machismo na sociedade conservadora do século XIX..........................38 2.5 As vozes narrativas do romance e suas implicações................................44 2.6 Os espaços, a memória e as identidades no romance..............................55 CAPÍTULO 3 – A voz de Manuela sob discursos autoritários do século XIX...................................................................................................................61 3.1 Enclausuramento na Estância da Barra: estado de prisão e marginalização social......................................................................................62 3.2 Costumes e regras na convivência familiar...............................................74 3.3 A política e a Guerra dos Farrapos............................................................97 3.4 O amor por Giuseppe Garibaldi e suas consequências..........................117 CONCLUSÃO ..............................................................................................135 REFERÊNCIAS ............................................................................................138 9 INTRODUÇÃO A literatura pós-moderna tem-se servido do romance histórico, por meio da recriação de episódios históricos, para trazer as ideologias de personagens reais, dentro de uma nova estrutura discursiva, visando à compreensão do mundo social em que viveram. Sendo assim, nossa pesquisa pretende analisar a voz da personagem Manuela de Paula Ferreira, do romance histórico “A casa das sete mulheres” (2002), da escritora gaúcha Leticia Wierzchowski, sob os discursos autoritários no século XIX, que a fez ser consagrada pela tradição popular como “A noiva de Garibaldi”. O romance constitui uma nova leitura histórica, com base em uma manifestação crítica, da vida social no Rio Grande do Sul, no século XIX, em plena Guerra dos Farrapos (1835 a 1845). O romance de Leticia Wierzchowski recria circunstâncias da Guerra dos Farrapos no Período Regencial Brasileiro (1831 a 1840), em que se destaca a figura do general Bento Gonçalves da Silva, líder farroupilha, e, temporariamente, presidente da república do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves começou a contestar a política econômica do Regente Feijó em 1835. Entretanto, não teve êxito com o Regente e acabou por encabeçar uma guerra tão longa e trágica que durou dez anos. Neste sentido, colocam-se em discussão questões de superioridade e submissão nos grupos sociais. Logo, o grupo submisso será o das mulheres, o qual a escritora Leticia Wierzchowski ressalta, de acordo com os pontos de vista de sua protagonista, Manuela de Paula Ferreira, sobrinha do general Bento Gonçalves, a mais moça entre as mulheres da família. A personagem ficcional em A casa das sete mulheres (2002) possui uma voz abafada entre os demais personagens e dissonante na sociedade machista do século XIX. Entretanto, sua imagem foi considerada pelos gaúchos e, mais tarde, pelos brasileiros como a “Penélope gaúcha”. Esse romance destaca a voz da personagem Manuela, durante os dez anos de guerra contra o Império do Brasil, quando as mulheres da família de Bento Gonçalves foram encerradas na Estância da Barra do Brejo, na ribeira do Arroio Grande, às margens do rio Camaquã, e ficaram à espera de seus homens, até o final da guerra. A personagem Manuela escreve um diário íntimo, para revelar as 10 possíveis circunstâncias das mulheres, dos homens, da guerra, da política e do amor. O romance se organiza na relação indireta das mulheres com seus homens que se encontram nos campos de batalha e enviam a elas as cartas que trazem à tona uma cadeia de discursos que alimentarão os “Cadernos de Manuela”. O romance histórico atua com eficiência sobre a imaginação e a interpretação dos leitores. Desse modo, pode ser interpretado pelos discursos que sustentam toda a narrativa, baseados nos acontecimentos sociais que envolvem o convívio de homens e mulheres. Temos uma protagonista que escreve um diário íntimo e apresenta sua voz crítica em meio aos percalços sociais no contexto histórico da Guerra dos Farrapos em uma sociedade patriarcal, cabendo ao leitor desvendar seus mistérios. A casa das sete mulheres é uma releitura do acontecimento histórico da Guerra dos Farrapos e da personagem histórica de Manuela de Paula Ferreira, sobre os quais Leticia Wierzchowski se debruça na contemporaneidade e produz novos questionamentos sobre a voz social feminina. Destarte, a fala da personagem Manuela revelará possíveis identidades que serão verificadas dentro do espaço da memória. Esse romance, abordando a tradição popular da eterna “Noiva de Garibaldi”, que ultrapassa os estudos literários, permite, por meio da intertextualidade, abrir uma vasta memória cultural. O romance dá voz aos excluídos do sistema patriarcal brasileiro, cujos eventos envolvem a relação de dois grupos sociais e em lugares distintos, a saber: o grupo das mulheres, no espaço social da Estância da Barra do Brejo (lugar privado e longe da guerra); e o grupo dos homens, na vastidão dos Pampas (lugar público em situação de guerra contra o Império do Brasil). Portanto, os homens são destaques na história hegemônica, porque foram à guerra; ao passo que as mulheres permaneceram agrupadas, excluídas e sem voz diante de todos os acontecimentos sociais. Pensando nessa relação, instaura-se o conflito por meio do choque entre o grupo social masculino (com ideologia puramente capitalista e estancieira) e o grupo social feminino, dividido pelas senhoras (grupo dominante) e donzelas (grupo dominado), que ostenta um conjunto de vozes, oprimidas, que se rebelam contra a situação da guerra, da prisão e da política emergente. Nesse contexto, Manuela é escolhida para se casar com o filho de Bento Gonçalves, Joaquim. Porém, durante a guerra, aparece na Estância da Barra o italiano Giuseppe Garibaldi, por quem 11 Manuela se apaixona e sofre as consequências do meio social, em nome desse grande amor. Assim sendo, a personagem Manuela relata os sofrimentos vividos na estância no diário íntimo, expondo os acontecimentos que a fizeram seguir a mesma sina da Penélope mitológica. Partindo da personagem literária, Manuela vem a público, mediante outras narrativas ficcionais, como também em outras obras literárias: Garibaldi e Manoela (1986), de Josué Guimarães; Memórias de Garibaldi (2006), de Alexandre Dumas; e Os Varões assinalados (1985), de Tabajaras Ruas. Nessas obras literárias, há referências históricas sobre a figura da personagem de Manuela, sob diferentes prismas socioideológicos. Partindo do imbricamento de realidade e ficção, a tradição popular “Noiva de Garibaldi” sugere a escuta da voz de Manuela. Dessa forma, contemplar essa tradição é aprofundar a compreensão de Manuela nos diferentes discursos, uma vez que a voz de Manuela recorre à ficção, na qual ecoa uma voz abafada e oprimida, voz expressiva, dotada de crítica, sentimentos e ideologias, frente aos discursos autoritários. À medida que os discursos da prisão, da guerra e do amor abarcam o sentido do romance, a voz da personagem-protagonista ganha força como eco transgressor. Nossa dissertação dará primazia a essa voz social, oculta no diário íntimo, uma estratégia da autora, para tornar públicas, através da narrativa ficcional, as cartas masculinas que foram enviadas às mulheres, reunidas até o final da guerra na Estância da Barra do Brejo, e destacam inexoráveis situações que ofuscaram o convívio e o cotidiano das mulheres. O ponto de partida da obra é sua condição de romance histórico, porquanto trata da relação social entre homens e mulheres, diante da Guerra dos Farrapos. Essa produção literária recria as justificativas e posturas sociais por meio das confissões da protagonista Manuela, valendo-se de elementos discursivos como o depoimento, o pensamento e a reportagem, a fim de discutir a prisão, a guerra e o amor, e estes sempre virão à tona quando chegam as cartas dos homens que estão na guerra contra o Império do Brasil. Em relação aos elementos discursivos, o romance utiliza a voz da protagonista Manuela para retomar os motivos pelos quais se solidificou a tradição popular “Noiva de Garibaldi”, visto que a ideologia se apresenta entre os discursos autoritários do machismo brasileiro do século XIX. No que diz respeito à nossa 12 pesquisa, a voz de Manuela será vista como uma crítica social em um conjunto de comentários, estruturado em modelos de transgressão, marginalização e rebeldia, o que faz o desenrolar da narrativa. No primeiro capítulo – “Fortuna literária da autora Leticia Wierzchowski” –, exporemos os temas e as formas de subjetivismo com que a autora trabalha em suas narrativas ficcionais com seus personagens. Leticia Wierzchowski manifesta em suas obras literárias os sofrimentos e percalços pelos quais um sujeito é capaz de passar em uma determinada circunstância e/ou sociedade e, assim, vêm à tona confidências e segredos abafados e oprimidos por circunstâncias inexoráveis. O subjetivismo é marcado por tensões de um possível mundo “exterior” ao indivíduo, o que acarreta a liberação do “mundo interior” e traz a público as possíveis discussões sobre o mundo de relacionamentos de um sujeito em conflito. Nesta esteira, exporemos o fazer literário de Leticia Wierzchowski na contemporaneidade e seus procedimentos técnicos, dando ênfase ao romance histórico A casa das sete mulheres (2002), que a tornou conhecida no Brasil e no Exterior. No segundo capítulo, denominado “A casa das sete mulheres como romance histórico”, abordaremos o contexto histórico e social e sua influência no espaço e na memória da personagem, já que a narrativa abarca o espaço público e o privado, enquanto a carga memorialística se desenvolve na voz crítica da protagonista Manuela, em tempos cronológicos distintos, porém relatando episódios narrativos, denunciando superioridade masculina e inferioridade feminina. Os episódios são apresentados por uma fala heterodiegética, permeada por primeira e terceira pessoa: em primeira pessoa é pessoal, puramente íntimo e tendente à rebeldia, à transgressão e à marginalização sociais; ao passo que em terceira pessoa é impessoal, de forma clara e objetiva. Por fim, no terceiro capítulo “A voz de Manuela sob discursos autoritários do século XIX”, apresentaremos os discursos sobre a prisão na Estância da Barra, os costumes e regras sociais, a política e guerra, e o cenário de amor. A instauração dos discursos na narrativa ficcional se processa por meio dos diálogos com os personagens secundários, descrição do comportamento dos mesmos e/ou por meio de cartas, enviadas pelos homens. Assim, o posicionamento crítico da voz de Manuela fará o jogo de si e da alteridade social. Demonstraremos que a personagem Manuela é um ser que se rebela contra o discurso da sociedade 13 machista e, assim, produz identidades diante dos conflitos instaurados nos discursos. 14 CAPÍTULO 1 – Fortuna literária da autora Leticia Wierzchowski 1.1 Percurso literário da escritora Leticia Wierzchowski1 Leticia Wierzchowski nasceu no dia 4 de junho de 1972, em Porto Alegre, filha de Cecilio Gomes e Irena Wierzchowski Gomes. Concluiu seus estudos de Educação Básica no colégio Batista, em Porto Alegre, e, com 24 anos, deixou a faculdade de Arquitetura, no Instituto Maria Auxiliadora. Foi responsável pela administração de uma loja de roupas e ajudou o pai no escritório de construção civil. Neste último emprego, iniciou a carreira de escritora. Aos 25 anos, lançou seu primeiro romance, O anjo e o resto de nós em 1998, pela editora Record. Logo a autora passou a publicar outros romances, os quais citaremos, a seguir: Em 1999, publicou o romance Prata do tempo, pela editora Record. No mesmo ano, Leticia Wierzchowski, lançou o romance Eu@teamo.com.br, pela editora LP&M. Já no ano de 2002, lançou o romance histórico A casa das sete mulheres, pela editora Record. Esse romance trata da história de amor entre Manuela e o italiano Garibaldi, em meio ao contexto da Guerra dos Farrapos, apresentando os “Cadernos de Manuela”, como uma forma discursiva, para que viessem à tona as circunstâncias da guerra e da família de Bento Gonçalves.2 Em 2003, publicou o romance O pintor que escrevia, pela editora Record; no mesmo ano, a escritora lançou o romance Cristal polonês, também pela editora Record. No ano seguinte, 2004, pela editora Record, lançou o romance Um farol no Pampa, que ficou conhecido como A Casa das Sete Mulheres 2. Já em 2005, publicou Uma ponte para Terebin, pela editora Record. Em 2007, lançou o romance De um grande amor e de uma perdição maior ainda, pela editora Record. 1 Os dados biográficos da escritora Leticia Wierzchowski foram extraídos dos sites da Agência Riff (http://www.agenciariff.com.br/site/AutorCliente/Autor/25), da Editora Intrínseca (http://www.intrinseca.com.br/blog/2013/05/perfil-leticia-wierzchowski/) e da Saraiva Conteúdo (http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10474). 2 Leticia Wierzchowski, além de obter consagração na literatura nacional, também ficou conhecida internacionalmente por meio da mídia, quando houve a adaptação do romance A casa das sete mulheres (2002) para a TV, que foi ao ar como minissérie, pela Rede Globo de televisão, do dia 7 de A minissérie, segundo o site “Memória Globo”, teve por direção “Teresa Lampreia”, com direção geral de “Jayme Monjardim e Marcos Schechtman”, num total de 53 capítulos. Disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/minisseries/a-casa-das- sete-mulheres.htm. Acesso em: 7 nov. 2016. http://www.agenciariff.com.br/site/AutorCliente/Autor/25 http://www.intrinseca.com.br/blog/2013/05/perfil-leticia-wierzchowski/ http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10474 15 Dois anos mais tarde, em 2009, publicou o romance Os aparados, pela editora Record. No ano seguinte, 2010, lançou o romance Os Getka, pela editora Record. Em 2012 publicou o romance Neptuno, pela editora Record. Em 2013, lançou o romance Sal, pela editora Intrínseca, e, em 2015, publicou Navegue a lágrima, pela editora Intrínseca. Leticia Wierzchowski escreveu, também, livros infantis. No ano de 2005, lançou, pela editora Record, o livro O dragão Wawel e outras lendas polonesas. Em 2006, apresentou, pela editora Record, a obra Todas as coisas querem ser outras coisas. Já no ano de 2007, publicou, pela editora Record, O menino paciente. Ainda em 2007, apresentou, pela editora Galerinha Record, Era uma vez um gato xadrez. Em uma entrevista à revista Mulher 7x7 (2010), a autora falou da obra literária O menino paciente (2007): A literatura infantil entrou na sua vida junto com a maternidade? Com certeza. Meu marido já tinha um livro publicado para crianças, Liga e Desliga. Ele já escrevia para crianças. Quando a gente começa a criar um filho recupera a nossa infância, o olhar infantil. De tanto contar história para o João, comecei a escrever sobre isso. O Menino Paciente é fruto de uma experiência que a gente teve. João tinha contraído rotavírus, e no hospital, tomando soro, pegou staphylococcus. Foi para na UTI. Um susto. Por isso escrevemos um livro sobre hospital, para desmistificar o ambiente, torná-lo mais lúdico 3 . (MULHER 7x7, 2010) Leticia Wierzchowski recebeu diversos prêmios pela sua produção Infantojuvenil, entre os quais se pode mencionar o da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, FNLIJ, em 2006, pela obra O Dragão de Wawel e outras lendas polonesas (2005). Da mesma fundação recebeu também o selo de Altamente recomendável, em 2007 pela obra Todas as coisas querem ser outras coisas (2006). Recebeu ainda o Prêmio Jabuti, em 2009, Categoria Infantil pela obra Era outra vez um gato xadrez (2007). 1.2 Leticia Wierzchowski e a Literatura Contemporânea As obras literárias de Leticia Wierzchowski são interligadas nos sentidos dos discursos que interpenetram cada protagonista e, sendo assim, os conceitos de 3 Entrevista à Mulher 7x7, por Isabel Clemente, em 2010. Disponível em: http://colunas.revistaepoca.globo.com/mulher7por7/2010/11/02/alem-da-casa-das-sete-mulheres/. Acesso em: 7 nov. 2016. 16 narrador, espaço, memória, intimidade, silêncio e apagamentos ao longo dos discursos explicitados são muito relevantes para uma possível compreensão do enredo. Desta forma, discutir a vida de um sujeito, sempre em conflito, que revela a intimidade e os posicionamentos circunstanciais, permite ao leitor familiarizar-se com os personagens, a partir de uma análise crítica sobre o sujeito na vida humana e na sociedade. Letícia Wierzchowski escreve seus romances pela percepção dos infortúnios e por um mistério que é desvendado pela luz dos discursos apresentados na voz e na intimidade de cada protagonista. Quero dizer com isso que a autora, em suas obras literárias, coloca sempre em marcha um personagem e seu conflito interior. Adentramos num abismo de introversão, solidão e confissões. Um universo social cujos personagens surgem fazendo uso do método de revelação. Sendo assim, é comum lermos a história de vida dos personagens, por meio de confissões e em diários, com vistas a exibir circunstâncias que são capazes de justificar o caráter de qualquer ser humano. A autora constrói seus personagens, a partir da relação entre a vida e o tempo que ditam o mistério das circunstâncias, para que o resultado venha como consequências coercitivas na vivência do sujeito dentro de qualquer eventualidade. Desse modo, são personagens que emitem uma voz em confissão e, portanto, reveladora de espaços interiores. De modo consequente, não basta apenas revisitar uma possível circunstância do pretérito, na qual o sujeito foi inserido e determinado; mas deve haver a escuta das aflições, conflitos e sentimentos pelos quais esse sujeito passou, ao longo da vida. Vêm à baila importantes confissões, para que haja uma crítica e, em seguida, ocorra a consagração de possíveis identidades. No entanto, o leitor é tomado por uma possível reflexão sobre a função crítica da voz dos personagens, uma vez que são vozes confidenciais e até escritas em diários íntimos, visto que a escritora organiza os seus personagens para confidenciar as mazelas da vida, como aconteceu na obra A casa das sete mulheres. O escritor Luís Fernando Veríssimo fez um comentário sobre A casa das sete mulheres, para o site da Agência Riff: “A casa das sete mulheres é um romance histórico daqueles em que o fascínio da história – nossa sempre reavaliável revolução de estimação – é complementado pela arte, também irresistível do 17 romance bem construído”. É por meio desta arte, um rito complexo que suscita a palavra e a voz que a autora dá voz ao sujeito, por meio de confidências e diálogos com o leitor. A escritora desvenda que “a relação com a palavra escrita, com a ficção, vem desde muito pequena...” (Saraiva Conteúdo, 2010). Entretanto, para a Literatura, essa relação nasceu como contribuição para as manifestações de sujeitos cujas vozes se encontram sensibilizadas, a ponto de se transformarem em narradores altissonantes e com dissonância a discursos preponderantes. Os estudos realizados acerca do fazer literário da autora consagram sempre um sujeito/protagonista, como aquele que se manifesta com uma pluriformidade de identidades. 1.3 O método literário no romance histórico A casa das sete mulheres A escritora Leticia Wierzchowski explora os anseios e questionamentos que são apresentados pela protagonista Manuela, presa em seus sentimentos e, ao mesmo tempo, descontente com os efeitos e consequências, impostos dentro de situações da vida. A protagonista muda de identidades, uma vez que são os discursos sociais a bússola para, em ficção, apresentar o contexto e enredo da obra. A inspiração da autora foi da leitura da obra Os varões assinalados (1985), de Tabajara Ruas, cujo enredo narra a trajetória de Bento Gonçalves da Silva e seus homens na Guerra dos Farrapos. A partir da leitura deste, contemplou o universo masculino e, sendo assim, questionou como seria o universo do subjetivismo feminino no contexto da Guerra dos Farrapos, uma vez que seria uma forma propícia para ressaltar a liberdade e confissões, reveladoras de espaços interiores: como viveriam e pensariam as mulheres da família do general Bento Gonçalves da Silva que não foram à guerra pelos Pampas? Destarte, percebemos pelo seguinte trecho da entrevista concedida à Saraiva Conteúdo (2010): [...] A história de “A casa das sete mulheres” surgiu da leitura de “Os varões assinalados”, que primeiro foi publicado como um folhetim em um jornal. Quando saímos para lua de mel, eu e Marcelo compramos livros... [risos] Minhas irmãs: “Não é possível! Vocês levando livros para a lua de mel...” [risos] E Marcelo leu antes “Os varões assinalados”, um livrão de 600 páginas, e disse: “Eu não vou falar nada pra ti, mas tem uma história nesse livro que acho que tu poderias contar”. Eu li o livro e fiquei impressionada, é 18 avassalador. É um romance que conta a Revolução Farroupilha através dos homens, os varões que fizeram a guerra. Só que tem um paragrafinho que o Bento Gonçalves levava o Giuseppe Garibaldi para uma estância, para um jantar, apresentar a família, e falava: “Agora você vai conhecer a casa das sete mulheres”. E, rapidamente, mostrava que Garibaldi trocava uns olhares com a Manoela [de Paula Ferreira]. E citava uns nomes, que davam sete. Nunca tinha parado para pensar na Revolução Farroupilha e muito menos no ponto de vista de uma mulher. (WIERZCHOWSKI, 2010)4 A escritora ressalta, ainda, a influência de seu esposo, Marcelo Pires, um publicitário, que ofereceu formas de metodologia para um redescobrimento de um universo feminino que fora omitido ao longo dos séculos por uma sociedade machista. Desenvolve-se, então, uma tentativa de oferecer uma voz às mulheres que não poderiam emitir voz e exercer papel. Daí, o contexto histórico e social foi o episódio da Guerra dos Farrapos, uma rebelião dos grupos de estancieiros, no Rio Grande do Sul, contra o Império do Brasil, durante o a Regência do Padre Diogo Antônio Feijó (1834 a 1837). A autora utilizou, ainda, os padrões discursivos da obra O tempo e o vento (1949), de Érico Veríssimo, para escrever A casa das sete mulheres. Dessa forma, a escritora absorveu a metodologia da fragmentação discursiva, como a presença de cartas na narrativa ficcional, o sofrimento das mulheres, o destaque aos homens e as datas históricas. Tomando o modelo literário de Veríssimo, autora apresentou a fragilidade da figura feminina, longe da guerra. Os homens são os heróis que lutam em prol de melhores condições sociais, ao passo que as mulheres precisam estar longe da guerra e aguardam o retorno de seus maridos. Em seguida, a escritora recorreu às Memórias de Garibaldi (2006), de Alexandre Dumas, para trabalhar a temática do amor, visto que, nas Memórias, houve menção do sentimento do italiano Garibaldi pela Manuela, conforme veremos, a seguir: Três jovens, cada uma mais deslumbrante que a outra, adorávamos aquele local de delícias. Uma delas, Manoela, era a soberana absoluta de minh‟alma e, embora não nutrisse a esperança de um dia possuí-la – pois que estava prometida a um filho de Bento Gonçalves –, eu não podia impedir-me de amá-la. Ainda assim, certa vez, tendo-me envolvido numa situação de perigo, pude perceber que à nobre dama do meu coração eu 4 A entrevista de Leticia Wierzchowski concedida à editora Saraiva Conteúdo se encontra no site. Disponível em: http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10474. Acesso em: 7 nov. 2016. 19 não era indiferente, e saber-me credor da sua simpatia bastou para consolar-me de nossa inevitável distância. (DUMAS, 2006, p.73) Assim, acontece, também, na obra Os varões assinalados (1985), de Tabajara Ruas, que fez referência ao amor entre a personagem Manuela e o italiano Garibaldi, o herói da Guerra dos Farrapos. A autora realizou um diálogo intertextual com Os varões assinalados, conforme veremos, a seguir: [...] Os olhos azuis como os dos arcanjos do oratório incendiaram-se de paixão quando sua mão queimada de Sol roçou sobre o linho branco da toalha a suave mão pálida de Manuela. Manuela tinha quinze anos. Manuela enrubesceu. E Manuela foi tomada de amor. Os olhos doces, do negror do veludo, turvaram-se. Manuela deixou a mesa num passo já adulto, já sem a pressa da adolescência, com a vida já mudada e já com a intuição da espera, da impossibilidade, da violência. (RUAS, 1985, p. 243) Nessa perspectiva histórica, a personagem Manuela já apareceu com suas limitações, enquanto ser marginalizado perante a sociedade conservadora do século XIX. O mesmo se sucedeu com a obra Garibaldi & Manuela, de Josué Guimarães (2009): As irmãs gostavam muito de ouvir Garibaldi contar aquelas histórias (...) Eram histórias de batalhas sangrentas e ataques de barcos piratas. Manoela, jovem filha de Dona Maria Manoela e sobrinha de Bento, estava escondida atrás da mãe e das tias. Ela era quem mais gostava de ouvir. A voz do forte marinheiro parecia ter sido feita para gritar ordens nos navios em meio aos grandes temporais. (GUIMARÃES, 2009, p. 8) Partindo dessas obras literárias, a escritora retomou a figura de Manuela que (re)apareceu, escrevendo diários e cartas, além de confidenciar sua paixão pelo italiano Garibaldi. Na verdade, o episódio histórico da Guerra dos Farrapos foi apenas um pretexto para apresentar a versão de Manuela como a oprimida e ser limitado nos espaços sociais. A narrativa revelou o lado íntimo e secreto do sentimento de uma mulher que desejou autonomia e manifestação de voz social. Nesse prisma, diremos que a autora de A casa das sete mulheres se baseou em recursos literários já explorados em obras literárias aqui mencionadas, visto que retoma ferramentas discursivas, tais como o heroísmo dos homens, a mulher, com suas confissões, e a guerra. A autora ressaltou os sofrimentos da personagem Manuela, durante e depois do percurso da Guerra dos Farrapos. 20 A autora, disse, ainda, na entrevista à Saraiva Conteúdo (2010): [...] O Josué Guimarães já escreveu uma novela curta que chama “Amor de perdição”, um breve encontro de Manoela: uma mulher bonita, de uma família rica e importante do Rio Grande do Sul, que se apaixona por um aventureiro. Garibaldi quando chegou aqui (Porto Alegre) não tinha ido para Itália fazer toda campanha italiana, ele era um cara a cabeça a prêmio na Europa. Por causa dessa paixão, Manoela morre virgem e louca, vestida de noiva, num sobrado, chamando por ele. Isso me impressionou; daí comecei a escrever o romance. Nesse meio tempo, me mudei a São Paulo, e me deparei com uma questão: eu tinha quatro livros publicados, mas todos por editoras gaúchas. Eu chegava em São Paulo e não encontrava um livro meu para vender. O próprio Tabajara me indicou para a Record, a Luciana Villas-Boas gostou do meu trabalho e publicou de cara uma reedição de “O anjo e o resto de nós”. Eu falei: “Talvez você tome um susto, se você não quiser essa história não tem problema nenhum. Estou escrevendo uma revolução do século XIX contada pelo ponto de vista feminino. Não sei se vai ter alguém que queira ler”. Ela riu e falou: “Me dá esse livro para ler”. Ela leu e logo depois me falou: “Acho que esse livro vai fazer muito sucesso. Inclusive, acho que esse livro vai para a TV. Vou publicar.” Ela foi muito visionária. (WIERZCHOWSKI, 2010)5 Seguindo o episódio histórico da guerra, em outro aspecto, é importante recordar os pressupostos teóricos de Walter Benjamin (1984) alegando que os episódios da História hegemônica não são transparentes: A história em tudo o que nela desde o início é prematuro, sofrido e malogrado, se exprime num rosto – não, numa caveira, [...] Essa figura, de todas a mais sujeita à natureza, exprime não somente a existência humana em geral, mas, de modo altamente expressivo, e sob a forma de um enigma, a história biográfica de um indivíduo. (BENJAMIN, 1984, p.188) No excerto acima, contempla-se toda a metodologia do vislumbrar a história. Cabe ao escritor transcender a história hegemônica para legitimar o sentido, uma nova projeção de uma história configurada por nossos antepassados. A autora contemplou o passado através de uma reflexão sobre um determinado sujeito feminino na esfera social, com vistas a projetar alternativas para a realidade que não foram expostas pela sociedade atual. A escritora instigou a sociedade atual a (re)pensar o papel que tem exercido sobre os sujeitos, porquanto induz o leitor a posicionar-se diante dos discursos, seguindo uma antiga sociedade patriarcal brasileira, capitalista. Além disso, pautou 5 A entrevista de Leticia Wierzchowski concedida à editora Saraiva Conteúdo se encontra no site da editora. Disponível em: http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10474. Acesso em: 7 nov. 2016. 21 experiências e circunstâncias cotidianas do mundo feminino, por meio de questionamentos que deram margem a possíveis julgamentos críticos e sociais, na leitura do romance. Outro aspecto importante da leitura é dar margem aos estudos sobre a crítica feminista, mas não se ater a ela, pois o interesse é o modo pelo qual o leitor se presentifica em “ser” mulher, no contexto da Guerra dos Farrapos, porque remonta o papel da mulher no espaço social emergente e analisa a função dos discursos autoritários, utilizados no decorrer de todo o romance. A autora destacou, em seu romance, os discursos hegemônicos que abafaram e omitiram o sofrimento das mulheres na Guerra dos Farrapos. Logo, trabalhou os panoramas: feminino versus masculino, realidade versus fantasia, espaço público versus espaço privado, natural versus sobrenatural, prisão versus liberdade e interior versus exterior. Vale ressaltar que esses panoramas são inseparáveis, pois a autora utilizou o contexto da sociedade machista do século XIX, para revelar a voz social e subjetiva da personagem de Manuela e demonstrar que a realidade das mulheres (grupo submisso) é um modo verossímil para um grupo social feminino, conforme diz Tabajara Ruas, nas orelhas do romance A casa das sete mulheres (2002): Para contar essa história, Leticia transpõe todas as fronteiras. História e ficção, realidade e fantasia, o natural e o sobrenatural se interpenetram no cotidiano das mulheres, cada dia mais violento, sufocante e imutável. Para contar essa história, Leticia assume a grandeza dos acontecimentos e os transforma em literatura fundadora, edificando um livro sem igual no panorama da literatura brasileira. O leitor sairá dessa experiência transfigurado, tocado pela dor e pela verdade que gemem nestas páginas e pela sutil beleza que a cada momento nos desconcerta. (RUAS, 2002) Mediante a citação de Tabajara Ruas, intenta-se projetar uma escritora que expõe a personagem Manuela, contra as formas de poder, para que o leitor sinta a função da opressão feminina, moldada por discursos sociais. Logo a leitura do romance propõe questionamentos sobre um episódio histórico, dotado de sujeitos representativos, para que os leitores possam discutir as formas de sociabilidade em diversos contextos. A autora deu primazia às posturas de personagens que não estão localizadas nos livros da História hegemônica. A obra A casa das sete mulheres foi um modo de descrição sobre a violência da guerra – de qualquer guerra – e sua influência maléfica sobre o destino de um oprimido que poderia ser tanto homem 22 quanto mulher. Assim, as mulheres foram selecionadas pela autora como grupo submisso à autoridade dos homens gaúchos e, por isso, elas desempenharam atitudes “diferentes”, com vozes e questionamentos que apontaram identidades jamais reveladas no episódio da Guerra dos Farrapos. Para concluir essa etapa, recordamos a ideia de Marcel Proust, em Barthes (2004), quando diz que o escritor não é o que viu ou sentiu ou, mesmo, escreveu, mas o que vai escrever. Reflexão esta que permite analisar o fazer literário da escritora, pois permite que um sujeito, no caso o oprimido/submisso, denuncie as formas de marginalização e/ou exclusão social. 1.4 Momento da revelação e a libertação social Ao contemplarmos o contexto histórico e social, utilizado pela autora, percebemos que A casa das sete mulheres destacou a voz social da personagem histórica de Manuela de Paula Ferreira, a sobrinha do general Bento Gonçalves da Silva, que se manteve em silêncio, frente aos discursos autoritários mais densos e petrificados. Este fato contribui para a investigação desse episódio. O romance, deste modo, soa como um ponto crucial de libertação da voz crítica, abafada e dissonante da personagem Manuela. Nesse sentido, o escritor Moacyr Scliar afirma, nas orelhas do romance Um farol no Pampa (2004): Num passado não muito remoto, escritora ou poetisa (sim, tinha de usar esse termo) era aquela senhora virtuosa que, depois de cumprir suas obrigações domésticas, depois de cuidar do marido e dos filhos, refugiava- se num canto qualquer da casa onde, de preferência à luz de uma vela, dava vazão a seus sentimentos escrevendo líricos e xaroposos textos. Leticia Wierzchowski rompe com esse estereótipo e muitos outros. Faz parte de uma nova geração de escritoras brasileiras que dá seu recado com competência, com coragem e com emoção. No caso da Leticia há um detalhe importante: ela é gaúcha. Nasceu em um Estado cuja história foi marcada pela tradição guerreira e, consequentemente, pelo machismo. Historicamente, a presença das mulheres na arte, na ciência, e na cultura, no Rio Grande do Sul, nunca foi muito notável. Mas isso mudou, e Leticia vem dando uma contribuição importante para essa mudança. Ela não hesita em enfrentar o formidável desafio que, do ponto de vista literário, é representado pela história rio-grandense. Uma história fértil em lutas, em conflitos armados, como foi o caso da Revolução Farroupilha (1835-1845). Na literatura gaúcha, esse episódio inspirou numerosas obras, mas na maioria predominavam os personagens masculinos – o que era esperado, o papel de uma Anita Garibaldi constituindo-se praticamente em exceção. Em A casa das sete mulheres, Leticia adota um ponto de vista diferente e 23 original: a Revolução Farroupilha é vista através do olhar feminino. Não é de admirar o sucesso da série na Globo. De acordo com palavras do escritor Moacyr Scliar, a escritora adentrou no episódio da Guerra dos Farrapos para que pudesse apresentar a voz de Manuela, a noiva de Garibaldi – a Penélope gaúcha. Sem dúvidas, é importante destacar que o adjetivo “brasileira” recorre ao conceito de Bakhtin (1988) que afirma que tudo é retomado e produtor de novos sentidos. Por isso, a autora trouxe, novamente, o pretérito para ser (re)analisado e desprender uma voz que nasceu na intimidade de uma personagem que pouco apareceu nas criações literárias. Contemporaneamente, as criações literárias têm dado liberdade a episódios sobre determinado passado histórico, visto que analisar um personagem é alcançar uma possível revelação do papel do sujeito, em meio aos espaços na sociedade. A autora desperta uma vasta visão do universo da personagem de Manuela, apresentando a hegemonia do conservadorismo gaúcho e focalizando os discursos sociais para o mundo íntimo que conjuga a voz da personagem, pois os discursos produzirão inúmeros sentidos. De modo primordial, a romancista expõe ao leitor dois prismas: o primeiro é a “relação com o machismo brasileiro” cuja função é coercitiva, porquanto oferece a prática social para a consagração de identidades na relação indivíduo/grupo. Em seguida, teremos a “ordem burguesa: dissonância” num contexto que oscila entre aceitação e transgressão em determinados discursos sociais, nos quais o sujeito esteja sempre oscilando. Mediante essa concepção, vemos a ruptura de ideias sociais hegemônicas, resultando no impacto da libertação social indireta, ou seja, é significativo para Manuela funcionar como um sujeito que descreva todas as circunstâncias num diário íntimo cuja voz critica as ideologias preponderantes. O foco narrativo permitirá a personagem o comentário sobre os discursos e é deste modo que a autora buscará, sempre, destacar seus personagens, em meio a silenciamentos, para o leitor manter os olhos atentos às revelações proporcionadas pela narração, seja em primeira ou em terceira pessoa. A autora aplica outro método para o entendimento da libertação social: traz uma denúncia que opera na saudade e na impossibilidade de retorno ao tempo, porque o sujeito sempre necessita expor e/ou elucubrar sobre suas experiências, em sintonia com o passado longínquo para o qual não pode mais voltar. Assim, o 24 passado histórico serve para suscitar a possibilidade da escuta de uma voz social, apagada por diversos fatores, que consagra identidades culturais em qualquer circunstância e desenvolve qualquer enredo de uma dada obra literária. Nesse sentido, a necessidade da libertação social é, de acordo com Hall (2005), realizar possíveis posicionamentos, sob discursos sociais. O que se coloca em pauta é a influência da ideologia preponderante de uma sociedade e a reação do sujeito em determinados grupos, ou seja, o passado se torna presente como função significativa e como mediação do presente. Logo, em termos de narração ficcional, a escritora liberta a voz de um sujeito sempre em silêncio, já que as circunstâncias têm exercido fortes influências no comportamento e na conduta humana de um sujeito sempre em constantes conflitos na sociedade. Admitir que a literatura contemporânea recria a inscrição de uma voz social de um sujeito/personagem cuja(s) identidade(s) se dará(o) em contextos amplos, é perceber que há a necessidade de que possa existir uma libertação. Dessa forma, ocorre o apagamento da dicotomia dominador/dominado que perdura há séculos na esfera social, porquanto as figuras de dominador/dominado aparecerão no mesmo nível. É importante uma vertente que modifique a hegemonia social e crie novos modos de dar voz aos excluídos e marginalizados em diversos contextos. Essa característica de dar voz ao sujeito calado, oprimido ou introvertido consagra a libertação social ou circunstancial no decorrer de toda a narrativa ficcional, pois avalia os modos de significação dos discursos, suscitados na narrativa. Outro aspecto interessante é o “mistério/revelação” da confissão que se desenrola sobre as formas de ruptura de estereótipos consagrados, pois remontam e revelam todo o caráter do personagem e destacam-no entre os demais no enredo. Esse aspecto a autora tem desenvolvido, visto que, no momento da revelação da confissão de Manuela, adota-se o modelo de crítica social e resulta na eclosão de identidades. A romancista dá ênfase ao subjetivismo de cada um de seus personagens, em torno de uma perspectiva avaliativa contemporânea, embora sempre respeitando o contexto histórico e social. Entretanto, a escritora investe no “silêncio” e na “intimidade” do sujeito, uma vez que o mistério da libertação na narração acontece a partir dos segredos e sofrimentos ditos e não-ditos na tessitura do romance. 25 CAPÍTULO 2 – A casa das sete mulheres como romance histórico 2.1 Romance histórico contemporâneo: ficção e história A autora se utilizou dos pressupostos sobre a teoria do romance histórico para produzir ficção em A casa das sete mulheres, já que esta traz, como contexto histórico e social brasileiro, o episódio da Guerra dos Farrapos, sob a sociedade patriarcal brasileira do século XIX, no Rio Grande do Sul, e durante o Período Regencial. No entanto, entrelaça a história e a ficção, com o objetivo de proporcionar possíveis (re)leituras de um passado histórico que contemple profundas visões sobre a voz de alguns personagens lendários. Ela deixa clara a ideia de que não há apenas uma dimensão interpretativa, mas uma multiplicidade de sentidos no âmbito da (re)leitura desse episódio histórico em matéria de realidade e ficção. Para Lukács (1971, p. 398, tradução nossa) “a grande missão do romance histórico consiste justamente na invenção poética de figuras do povo que personalizem com vitalidade sua vida íntima, as principais correntes que nela fluem”. Georg Lukács ressalta que o romance histórico recorre à ficção, com vistas a aprofundar a intimidade de um povo, a fim de investigar os sentidos num dado contexto específico, visto que a ficção é propícia para a visibilidade da voz de personagens históricos. Os retratos contextuais projetam personagens fictícios e reais e dão sentido à narrativa. O papel importante, sem dúvidas, será do narrador que dará ênfase aos discursos históricos. Os discursos históricos são apresentados nas entrelinhas pelo método da metaficção que, para Linda Hutcheon (1991), não faz elo com o romance histórico, uma vez que este pretende elucidar questionamentos sobre um dado acontecimento histórico. Para ela, a ficção não é fiel à realidade, mas apenas uma imagem e/ou uma possível (re)leitura, oriunda de discursos que são semeados pela própria realidade histórica, a fim de que determinados grupos sociais possam produzir sentidos. Desse modo, há uma (re)elaboração histórica que poderá recuperar e, ao mesmo tempo, criticar o que a história hegemônica considera como realidade. A metaficção historiográfica refuta os métodos naturais, ou de senso comum, para distinguir entre o fato histórico e a ficção. Ela recusa a visão de que apenas a história tem uma pretensão à verdade, por meio do 26 questionamento da base dessa pretensão na historiografia e por meio da afirmação de que tanto a história como a ficção são discursos, construtos humanos, sistemas de significação, e é a partir dessa identidade que as duas obtêm sua principal pretensão à verdade. (HUTCHEON, 1991, p. 127) Essa ressignificação nos remete à representação que, conforme Esteves (2010, p. 38), acontece, pois “é praticamente impossível captar a verdade histórica ou a realidade”. Assim, incumbe “(...) ao leitor, dentro do pacto de leitura imposto pela obra, construir suas verdades particulares e desconstruir as verdades alheias que não lhe convencem. Ou que não lhe convêm” (ESTEVES, 2010, p. 69). Vale lembrar que realidade e ficção se fundem, mas não se confundem. Neste sentido, afirma Pesavento (1998) que realidade e ficção estão fundidas no discurso literário. O discurso literário tem o poder de construir realidades, criar personagens, fatos e situações que poderiam ter acontecido, porém sem o compromisso de retratar o real. Isso não quer dizer que não haja um ponto de contato com o real. Apenas que não há a obrigatoriedade de comprovação. Tal discurso pode ser considerado, então, uma forma de representar a realidade, guardando efeitos de verossimilhança, mas com espaços abertos para a imaginação. “A narrativa literária não exige a „pesquisa documental‟ [...] mas não dispensa o conhecimento/leitura daquele conjunto de informações que lhe dará o suporte para a contextualização da narrativa.” (PESAVENTO, 1998, p.11) A representação da realidade funciona como um pressuposto ao leitor para que este realize suas possíveis interpretações discursivas. A narrativa literária assume, assim, uma visão significativa e explicativa cujo método contribuirá para questionamentos sociais. Portanto, o contexto da narrativa oferece diferentes visões da história hegemônica e constrói a técnica de interpretar um determinado contexto, frente aos discursos dos fatos históricos. Os estudos em torno da dicotomia “ficção e realidade” geraram muitos questionamentos na consecução dos discursos literários na obra literária em questão. A investigação tem sido na concepção do contexto histórico e do espaço social, pois estes são o lugar privilegiado para a análise literária que cada leitor fará dos fatos históricos. Sendo assim, podemos intuir que o imaginário também é produzido pela realidade, pois é “[...] sistema de ideias e imagens de representações coletivas que os homens constroem através da história para dar significado às coisas”. (PESAVENTO, 2006, p. 50). Portanto, o que se constata em matéria de ficção é a 27 figura da conduta humana diante de um fato histórico narrado. Muitas vezes, o que se consagrou “realidade” não aniquila o pacto idealístico de uma vertente do contexto histórico e social; pelo contrário, traz à baila novas condições de produção para um respectivo sujeito/personagem para o desenvolvimento de novas identidades culturais. A realidade e a ficção não passam de construtos humanos e, desta forma, recorrem a outros discursos e projetam novos sentidos possíveis de (re)leitura, visto que o método de produzir histórias é o cerne da literatura e da vida humana, o que enaltece o método utilizado no romance histórico pelos escritores. Esse método ganhou primazia na literatura contemporânea, pois uma única versão da história hegemônica deixou de ser apregoada pelos estudos históricos, já que não é o suficiente para elucidar diversas leituras e questionamentos, na compreensão dos discursos históricos e sociais. É importante salientar que os discursos, na história hegemônica, se apartam da ficção, contudo admitem possíveis enfoques relevantes por intermédio da ficção. Novamente, o romance histórico contemporâneo segue o protótipo de (re)produção, na duplicidade: interpretação realizada e mais uma possível interpretação para tal contexto histórico. Nas palavras do crítico Paul Veyne (1998, pg. 24), “a história não comporta o limite de conhecimento nem o mínimo de inteligibilidade e nada do que foi, desde que o foi, é inadmissível. A história não é, portanto, uma ciência; ela não tem por isso menos rigor, mas esse rigor coloca-se ao nível da crítica”. Dito isso, podemos chegar à conclusão de que o sentido para a interpretação de um dado contexto histórico não se restringe, apenas, ao da história hegemônica, tendo-a como intangível. Surge, então, a noção de “subjetivismo”. Deste modo, cumpre ao escritor utilizar o método do romance histórico, para fins de questionamentos e, até mesmo, configurar rupturas na vitalidade da história hegemônica que fora erigida por um determinado grupo social. O método passa a propor ao leitor leituras que produzam novos sentidos de um período histórico. Nessas percepções, a partir dos elementos sociais e históricos, o cume é a verossimilhança e, diante da história hegemônica, é possível imaginar o que pôde ter ocorrido ou não. 28 [...] é evidente que não compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade. O historiador e o poeta não se distinguem um do outro, pelo fato de o que primeiro escreveu em prosa e o segundo em verso [...]. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido. (ARISTÓTELES, 1964, p.278) As indagações sobre a realidade e a ficção no romance histórico resultam em complexas decifrações que somente serão contempladas à luz dos discursos sociais. Então, um determinado fato histórico é narrado mediante a ideologia e posicionamentos do próprio narrador. Desta maneira, a produção da ficção apenas abre alas para uma série de ideologias que determinarão novas criações literárias e apresentarão determinados grupos sociais. A autora escreveu o romance A casa das sete mulheres (2002), calcada no contexto histórico e social da Guerra dos Farrapos e, para o desenvolvimento de sua narração, deu voz à personagem histórica de Manuela e intentou uma (re)criação, uma (re)apresentação na/pela ficção. O romance, ligado ao espaço (fechado) da prisão das mulheres e idealizado, sugere uma (re)leitura da voz feminina, no ângulo histórico. Este ângulo contribui para uma narrativa expositiva de um determinado grupo social que, neste caso, são mulheres, produzindo vozes em diários e desabafos, na relação com os acontecimentos em meio à Guerra dos Farrapos. Assim, dar voz a um grupo oprimido e marginalizado desvenda o lado da intimidade deste que permaneceu oculto, durante muito tempo. 2.2 A escrita literária: o espaço íntimo na experiência humana A romancista oferece uma ótica à literatura de autoria feminina brasileira pelo romance A casa das sete mulheres, obra de diversos prismas literários, uma vez que resgata uma das mais famosas guerras do Rio Grande do Sul cuja tradição cultural tem sido a autoridade, uma característica social do passado gaúcho, com o objetivo de discutir o porquê de uma sociedade patriarcal brasileira, capitalista e estancieira no século XIX. Sob este aspecto, a autora delimita uma nova versão da intimidade feminina por meio da memória e do espaço da personagem, pela da narração ficcional. A 29 importância é dada à versão das mulheres que não possuíram voz nos discursos da época. Faz-se necessário que a escrita literária sirva como fonte reveladora de espaços da intimidade humana, com intenção de explicitar as circunstâncias desconhecidas. Aprendia-se que as mulheres do pampa tinham essa sina, de sofrer e temer, mas sempre com coragem, tomando chá à beira do fogo, enquanto soldados inimigos rondavam a casa. Nunca altear a voz, nunca pôr em palavras um medo ou angústia. (WIERZCHOWSKI, 2002, pg. 451) Risadas chegam da sala. E eu estou aqui, quieta, escrevendo estas linhas. Para quem? Para que eu as leia, anos mais tarde, e lembre deste tempo aqui na Barra, destes dias silenciosos que gastamos à beira do Camaquã. Não sei por que escrevo, mas algo me impele. (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 71-72) A narrativa ficcional de A casa das sete mulheres nos remete à mitologia de Penélope, segundo a tradição grega, expondo a saga de uma mulher que aguarda a volta de seu amado no percurso da Guerra de Troia. Assim, a autora apresenta, por meio do narrador em terceira pessoa, este mito como espelho para que a sua personagem seja consagrada, conforme veremos, a seguir: O amor podia ser um vendaval na alma de uma mulher; talvez um punhado de palavras despejadas numa folha de papel não fosse suficiente para dissuadir a férrea Manuela de esperar o italiano, de esperá-lo para sempre, como uma Penélope que aguarda o seu Ulisses. (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 338) Nessa passagem, ocorre o “palimpsesto” que, para Gérad Genette (2006), é a extração do original apenas como justificativa para projetar uma outra versão, a transparência; e, no interior de uma ótica, a dessemelhança. Constata-se que o foco se encontra na construção da de Manuela que adquire corpo pela imagem da Penélope, a mulher cortejada e enclausurada. Tem- se a visualização de uma interioridade que foi posta, à tona, para que o público possa desvendar o mistério de uma voz abafada na intimidade. A intimidade e o espaço privado são revelados, pois levam o leitor a conhecer e coadjuvar frequentemente na história. Entretanto, o prisma apresentado pela autora é a subversão: a mulher oprimida, silenciosa na ordem social e descontente. Nesta esteira, a romancista deixa ao leitor o papel de julgamento sobre a voz e posicionamentos das mulheres, enquanto sujeitos excluídos, em contexto de 30 guerra, e destaca a condição social da personagem Manuela, no diário íntimo: “Giuseppe sempre lutou por seu sonho. E eu sempre sonhei com ele. Mas luto pouco, porque não tenho armas” (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 267). Nessa perspectiva, a romancista confirma que o estado de impossibilidade das mulheres na história da Guerra dos Farrapos. A partir desse posicionamento, aponta-se ao conservadorismo gaúcho; porém o episódio da prisão das mulheres, no contexto da guerra, ainda não tinha sido explorado. Assim, é por meio da narrativa que a saga das sete mulheres ganhou versão dos fatos narrados e/ou (re)contados. É nesta perspectiva de impossibilidade que a escritora produz a voz da mulher gaúcha, pois permite ao leitor ouvir e contestar a vida das mulheres submissas, a fim de que esse possa obter novas óticas, ampliando outras leituras para o episódio Farroupilha. Acredita-se que seja uma forma de explicitar as marcas da desigualdade que somente cabe à narrativa no jogo entre o contexto histórico e social, o autor e o leitor comprometidos na análise: “Tudo de bom e tudo de ruim ficava para trás. As vozes, os cheiros, as lembranças, tudo ia se perdendo (...). Havíamos vivido a História, e seu gosto era amargo, no final” (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 499). Ademais, o que se tenta implantar é um método de revelar o espaço íntimo e mais obscuro de uma personagem pela escrita literária, pois a imaginação, como evocadora de ficção, encanta o leitor que será sempre conduzido a possíveis interpretações e julgamentos. Nessa mesma linha, a autora se faz consciente de que a escrita literária, nos discursos orais e escritos, insere a personagem como componente da própria história e o leitor se aproxima do autor como coadjuvante na análise interpretativa. Eco (2005) sugere que cabe ao leitor de qualquer romance completar os espaços em branco, deixados pela escrita literária, e consagrar sua própria interpretação, fazendo uso de seu conhecimento empírico para apresentar possíveis leituras e abrir mais horizontes pelo sentido da obra literária. Para Leticia Wierzchowski, pode-se dizer que o método literário é uma “escuta” das confissões de um dado protagonista, por meio de vozes discursivas, relacionadas com inúmeras significações, já que dão margem à viagem pelo mundo dos discursos, relação com outros personagens, pelos espaços íntimos e reveladores de mistérios. 31 A revelação dos mistérios aparece na intimidade do personagem, inserido em um contexto específico. Nota-se que esse sujeito possui uma voz “escondida”: “Comemoramos a boa nova com uma ceia quase alegre – tínhamos discretas alegrias naquele tempo” (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 287). Portanto, a interpretação da escrita literária permite possíveis leituras potencializadoras, diante de reações humanas, porquanto a vida exige ficção. O romance, como um todo, fornece uma contribuição à crítica feminista, por remontar e expor o pensamento e a voz crítica de uma personagem feminina dentro de um panorama histórico da sociedade patriarcal brasileira do século XIX. 2.3 O enredo e os personagens no contexto histórico da Guerra dos Farrapos A casa das sete mulheres (2002) compõe uma narrativa que aborda o estado subjetivo da protagonista Manuela, diante de discursos autoritários. Sendo assim, teceremos considerações sobre o episódio da Guerra dos Farrapos, pois a obra traz uma releitura desses acontecimentos políticos e sociais: No dia 19 de setembro de 1835 eclode a Revolução Farroupilha no Continente de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os revolucionários exigem a deposição imediata do presidente da província, Fernandes Braga, e uma nova política para o charque nacional, que vinha sendo taxado pelo governo, ao mesmo tempo em que era reduzida a tarifa da importação do produto. (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 9) A remontagem histórica permite ao universo ficcional apontar para os acontecimentos políticos que desencadearam a guerra. Devido a esses acontecimentos, o general Bento Gonçalves da Silva, antes de ir para a guerra, decide resguardar as mulheres das mazelas, ocasionadas nos anos da guerra contra o Império do Brasil. Ressalta a narrativa ficcional de Wierzchowski (2002): A longa guerra começa no pampa. Antes de partir à frente de seus exércitos, Bento Gonçalves manda reunir as mulheres da família numa estância à beira do Rio Camaquã, a Estância da Barra. Um lugar protegido, de difícil acesso. É lá que as sete parentas e os quatro filhos pequenos de Bento Gonçalves devem esperar o desfecho da Grande Revolução. (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 9) 32 Nesta esteira, a narrativa ficcional é dividida em tempo cronológico e espaços narrativos, nos quais passam o romance. O tempo cronológico apresenta os acontecimentos ficcionais que interferem na vida dos personagens, especificando o ano (1835 a 1845); ao passo que os espaços narrativos delimitam o lugar onde vivem os personagens: os homens (no espaço da guerra) e as mulheres (na Estância da Barra e na Estância do Brejo). A estrutura do romance A casa das sete mulheres se estabelece do seguinte modo, em relação ao tempo cronológico: 11 capítulos, definindo as circunstâncias de cada ano da Guerra dos Farrapos (1835 a 1845): 1835 (p. 15-72), 1836 (p. 73-139), 1837 (p. 141-189), 1838 (p. 191-237), 1839 (p. 239-310), 1840 (p. 311-368), 1841 (p. 369-414), 1842 (p. 415-446), 1843 (p. 447-481), 1844 (p. 483-499) e 1845 (p. 501- 511). Sendo assim, cada um dos 11 capítulos do romance é realizado de forma linear, com vistas a relatar o percurso da guerra em cada ano, oscilando sempre entre o espaço público (homens) e o privado (mulheres), pois os acontecimentos anuais interferem na vida de cada um dos personagens. Em meio aos 11 capítulos do romance, temos, também, os “Cadernos de Manuela” – um diário íntimo ficcional que a autora produziu para dar uma perspectiva subjetiva da personagem na obra literária, ou seja, destacar a percepção de Manuela. O romance é narrado em terceira pessoa, para reforçar a visão subjetiva dos cadernos que são narrados em primeira pessoa, porém a principal tarefa é gerar uma escuta da voz de Manuela que os anos patriarcais brasileiros enterraram. Assim, os “Cadernos de Manuela” são fragmentados em 21 partes, que aparecem com as respectivas datas: Pelotas, 31 de dezembro de 1834 (p.11-14); Estância da Barra, 21 de setembro de 1835 (p. 35-37); Estância da Barra, 2 de dezembro de 1835 (p. 55-58); Estância da Barra, 5 de dezembro de 1835 (p. 70-72); Estância da Barra, 23 de abril de 1836 (p. 90-93); Estância da Barra, 26 de agosto de 1836 (p. 105-109); Estância da Barra, 7 de novembro de 1836 (p.129-132); Estância da Barra, 30 de junho de 1867 (p. 153-158); Pelotas, 11 de março de 1903 (p. 164-166); Pelotas, 14 de agosto de 1883 (p. 184-189); Pelotas, 9 de setembro de 1883 (p. 203-207); Pelotas, 4 de setembro de 1880 (p. 229-233); Estância da Barra, 30 de junho de 1839 (p. 265-271); Pelotas, 20 de dezembro de 1880 (p. 285-288); Pelotas, 4 de junho de 1900 (p. 327-330); Pelotas, 14 de abril de 1900 (p. 350-357); Pelotas, 14 de maio de 1848 (p. 394-396); Estância da Barra, 15 de março de 1842 33 (p. 423-425); Pelotas, 12 de janeiro de 1860 (p. 449-452); Pelotas, 25 de junho de 1890 (p.475-478); e Pelotas, 30 de agosto de 1890 (p. 498-499). Convém salientar que, em cada parte dos “Cadernos de Manuela”, há posicionamentos ideológicos, de acordo com os discursos instaurados nos espaços público e privado. No entanto, cabe assinalar que os “Cadernos de Manuela” não estão em ordem cronológica e são escritos em duas fases, em lugares distintos: no calor dos acontecimentos – durante a guerra – na Estância da Barra e posteriormente aos acontecimentos – após a guerra – na cidade de Pelotas. A finalidade do diário íntimo é conhecer a subjetividade de Manuela, a cada circunstância, e destacar uma narrativa intimista. Desta forma, teremos personagens fictícios homens – na guerra, lutando contra o Império – e mulheres – na Estância da Barra –, sobre os quais teceremos considerações em conformidade com as descrições do romance. São personagens históricos ficcionalizados masculinos: Bento Gonçalves da Silva, maçom, casado com Caetana Joana Francisca Garcia Gonçalves da Silva e pai de Joaquim Gonçalves da Silva, Perpétua Garcia Gonçalves da Silva, Bento Filho, Caetano, Leão, Marco Antônio e Maria Angélica. Bento Gonçalves é general e líder dos farroupilhas. Aparece como um herói, pois luta constantemente pelos direitos gaúchos e decide travar uma guerra contra o Império do Brasil. Entretanto, após dez anos de luta, acaba frágil e decide que a paz é imprescindível para o Rio Grande do Sul, pelo qual lutou incansavelmente. A figura 1 apresenta a família do estancieiro e general Bento Gonçalves: 34 Joaquim Gonçalves da Silva é médico e foi o homem escolhido para se casar com sua prima Manuela de Paula Ferreira e, deste modo, cortejava-a, mesmo antes de começar a guerra. Entretanto, as circunstâncias da guerra não permitiram o casamento, visto que, com a chegada do italiano Giuseppe Garibaldi à Estância da Barra, Manuela se apaixona por este, a quem decide ser fiel por toda uma vida. Logo, após o fim da guerra, cansado de esperar pelo amor de Manuela, Joaquim se casa em 1857 e morre com mais de noventa anos. Giuseppe Garibaldi é um italiano, solteiro (no início da guerra), corsário e aventureiro. Veio à Estância da Barra, a pedido do general Bento Gonçalves, a fim de preparar barcos para o combate marítimo contra o Império do Brasil. Assim sendo, conhece as mulheres da estância e corteja Manuela de Paula Ferreira, com troca de olhares, encontros e cartas. Antônia, a tia de Manuela, escreve uma carta para o general Bento Gonçalves, para que o italiano Garibaldi pudesse sair da estância e ir para a guerra, uma vez que Manuela já estava prometida como “esposa” de Joaquim. Logo Giuseppe Garibaldi sai da estância e, em Laguna, Santa Catarina, conhece Anita, com quem se casa e, anos mais tarde, retorna à Itália, onde morre. Anselmo da Silva Ferreira é um estancieiro que entrou para a família do general Bento Gonçalves, uma vez que se casou com Maria Manuela da Silva Ferreira (a irmã de Bento). Anselmo teve quatro filhos: Antônio de Paula Ferreira, Rosário de Paula Ferreira, Mariana de Paula Ferreira e Manuela de Paula Ferreira. Anselmo escolheu, antes do início da guerra, seus futuros genros: Joaquim (para marido de Manuela) e Corte Real (para marido de Rosário). Diante dos acontecimentos da guerra, as filhas não conseguem concretizar o desejo do pai e, além disso, Anselmo morre na guerra, num combate contra os soldados imperiais. Mencionaremos, também, a família do estancieiro Paulo de Silva Santos, casado com Ana Joaquina da Silva Santos, a outra irmã do general Bento Gonçalves da Silva. O estancieiro Paulo era pai de José e Pedro. Além destas famílias que são descritas no romance, compõem, também, o núcleo dos homens farroupilhas Antônio de Souza Netto, João Manuel de Lima e Silva, Onofre Pires da Silveira Canto, Joaquim Pedro, Lucas de Oliveira, José Afonso Corte Real e Vasconcellos Jardim. São capitães do exército farroupilha, pois cada um destes homens possuía uma tropa de soldados que lutavam contra o 35 Império do Brasil. Todavia, são raras as circunstâncias, nas quais as personagens femininas se relacionam com esses homens. As personagens femininas formam dois grupos, um primeiro grupo: dominante (autoritário) com quatro mulheres, Antonia, Ana Joaquina, Maria Manuela, irmãs do general Bento Gonçalves da Silva e, por último, Caetana, esposa fiel do general Bento Gonçalves da Silva. Em contrapartida, há o grupo dominado (submisso): as donzelas ou moças que são quatro: Perpétua, filha do general; Rosário, Mariana e Manuela, sobrinhas do general. Dito isto, passaremos a expor o perfil de cada mulher. No grupo dominante e autoritário, destacam-se as senhoras: Dona Antônia era irmã do general Bento Gonçalves. Viúva do advogado Joaquim Ferreira, vivia, desde a morte do marido, na Estância do Brejo, a doze léguas da Estância da Barra. Dona Antônia tinha quarenta e nove anos e nunca tivera filhos. Assim, ela se tornou uma das senhoras capacitadas para representar a figura do general Bento Gonçalves, pois administrava as responsabilidades e os negócios no cotidiano, bem como auxiliava na educação das senhoritas. A personagem Antônia sempre visitava a Barra, pois exercia uma função autoritária, mediante o frequente diálogo com Bento Gonçalves: “Que Deus e a Liberdade lhe acompanhem, meu irmão. Pode deixar Caetana e as outras sob os meus cuidados e os de Ana. A Estância do Brejo e os meus peões são seus quando precisar. Sua Antônia” (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 19). Dona Ana Joaquina da Silva Santos, casada com o estancieiro Paulo de Silva Santos, e mãe dos jovens José e Pedro, era, também, irmã do general. Ela era dona da estância: “A Estância da Barra era de propriedade de D. Ana Joaquina da Silva Santos e do seu esposo, o senhor Paulo” (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 17). Era D. Ana quem organizava as tarefas cotidianas: cozer e coser. “O almoço teve ares festivos: a carne assada, a galinha com molho, o feijão, o arroz, o purê e o aipim cozido na manteiga”. (WIERZCHOWSKI, 2002, p. 29). Dona Ana se preocupava com a os afazeres domésticos na estância e não permitia que as mulheres ficassem ociosas, mas que contribuíssem com as funções do lar no cotidiano. Maria Manuela da Silva Ferreira, casada com Anselmo da Silva Ferreira, era mãe de Antônio, filho mais velho, Rosário, Mariana e Manuela. Maria Manuela foi orientada por princípios morais e éticos da sociedade patriarcal do século XIX. Deste modo, educava e escolhia para as filhas os seus futuros pretendentes, a saber: José 36 Afonso Corte Real para a Rosário e Joaquim Gonçalves da Silva para Manuela. Neste modo de direcionamento conservador, Maria policiava suas filhas, a fim de garantir-lhes a honra social e direcioná-las para os caminhos da submissão. Caetana é a esposa do general. Era uruguaia e mãe de Joaquim, Perpétua, Bento Filho, Caetano, Leão, Marco Antônio e Maria Angélica. A personagem Caetana se tornara solitária e muito silenciosa, porquanto desenvolvera seus medos e angústias nos anos daquela guerra. Além disso, passara todos aqueles anos recebendo notícias de vitórias e derrotas, por meio de cartas, enviadas por Bento Gonçalves e por Joaquim Gonçalves da Silva, seu filho e médico que desenvolveu as tarefas medicinais para os soldados farroupilhas, durante os anos da guerra. De outro lado, no grupo dominado (submisso) destacam-se as donzelas: Perpétua é a filha do general com Dona Caetana. Moça cheia de sonhos, vive desejando participar dos bailes na Corte, como regia a vida, antes da guerra, e apaixona-se por Inácio José de Oliveira Guimarães, antes casado com Dona Teresa – mulher adoentada com problemas respiratórios. Logo casa-se com o senhor Inácio, após a morte de Teresa, no auge da guerra. Rosário, filha do estancieiro Anselmo da Silva Ferreira e de Maria Manuela da Silva Ferreira, era uma moça apaixonada por aventuras. Desde cedo, estava prometida a um dos grandes soldados farroupilhas, José Afonso Corte Real. Rosário, para escapar do tédio e da rotina, tranca-se na biblioteca da estância e passa a ler um romance francês. Diante da leitura, vê o fantasma de um homem castelhano por nome Steban que se revela, contando toda a sua vida. Antes de se tornar o astuto fantasma, Steban foi um modesto oficial de um exército castelhano, morto numa guerra na Cisplatina pelas mãos do general Bento Gonçalves da Silva, tio de Rosário. Rosário fica cativa diante das aparições do fantasma Steban, à custa de muitas privações e segredos, o que fez progredir o romance platônico entre os dois. Rosário não se deu conta de que Steban era um homem morto, pois, em situação de guerra, era comum chegarem à estância soldados desertores e por ali ficarem “escondidos”. Rosário pensava que, com a chegada dos farroupilhas à estância, Steban poderia ser morto por Bento Gonçalves. O grupo dominante das senhoras começa a notar o estranho comportamento de Rosário, porquanto o fantasma de Steban a avisava, de antemão, dos acontecimentos vindouros. Tal situação motivou a censura para as 37 formas de convívio e a decisão de internar Rosário num convento, alegando que esta foi acometida por surtos de loucura e que poderia afetar o convívio e as demais mulheres na estância. Por fim, Rosário vai para o convento, longe das estâncias e da guerra, e lá continua em contato com o fantasma de Steban, por quem se apaixona fielmente, a ponto de renunciar a sua vida e seu futuro com José Afonso Corte Real. Sendo assim, Rosário descobre que Steban era, de fato, um fantasma e resolve encontrar- se com ele na eternidade, suicidando-se no próprio convento, durante os anos da guerra. Já a personagem Mariana é irmã de Rosário, também filha do estancieiro Anselmo da Silva Ferreira e de Maria Manuela da Silva Ferreira. Mariana é uma jovem que, em meio à prisão e ao percurso da guerra, deseja, incansavelmente, casar-se com um dos soldados farroupilhas e valentes naquela guerra. Muito extrovertida, Mariana revelava seu encanto por vários soldados (José Afonso Corte Real, tenente André e o espanhol Ignácio Bilbao) e, em meio aos percalços da guerra, apaixona-se por um peão da estância, João Gutierrez, de quem fica grávida. Logo o grupo dominante, na figura de Maria Manuela (a mãe de Mariana), agride fisicamente a filha, encerrando-a num quarto, com direito apenas à alimentação. A decisão de Maria é tão cruel, em relação à Mariana, que esta intenciona abortar o bebê. Entretanto, a figura de Antônia entra em cena e tira Mariana daquele quarto e permite a existência do bebê, cujo nome foi Matias. Mariana termina feliz e concretiza seu amor com o peão João Gutierrez. A protagonista Manuela é irmã de Rosário e Mariana. Manuela era a mais moça de todas as donzelas e muito calada (introvertida e reservada), porém era a que mais refletia sobre os acontecimentos da política, da guerra, dos homens e das mulheres, visto que possuía um poder imagístico sobre a vida e o futuro dos personagens. Deste modo, Manuela redige um diário íntimo que é o fio condutor da narrativa, visto que há a manifestação de uma voz puramente confidencial e demarcada por silenciamentos e discordâncias às opressões do regime machista. Sem dúvidas, a voz de Manuela é crítica e reveladora de espaços interiores, sendo explícita apenas pelo diário, que vislumbra uma ótica dos espaços públicos e privados e, além disso, dá tom ao romance e direciona-o, justificando as condutas e opiniões de si e das demais moças na estância. O diário traz à baila as revelações de Manuela, ao ser escolhida para ser esposa de seu próprio primo Joaquim, 38 médico e filho do general Bento Gonçalves. Entretanto, as circunstâncias da guerra trouxeram o italiano Giuseppe Garibaldi para a estância e o interesse de Manuela pelo italiano foi imediato. Assim, o grupo dominante de senhoras, nas figuras de Antônia e Maria Manuela, pede ao general Bento Gonçalves que distanciem o italiano do convívio com as mulheres da casa. Por fim, Manuela não se casou com o primo Joaquim, ficou solteira e morreu, idosa, em Pelotas. 2.4 O machismo na sociedade conservadora do século XIX A casa das sete mulheres traz em seu bojo a voz feminina, crítica e social, reveladora de espaços interiores e a autora permitiu a escuta dessa voz, em meio aos padrões e costumes da sociedade machista, no contexto da Guerra dos Farrapos. Há a possibilidade, então, de contemplar dentro de um diário íntimo uma voz que se atreveu a criticar e ter espaço social, rompendo com os discursos e transgredindo regras e hábitos sociais para superar terríveis conflitos. Ante o grau de superioridade dos homens, a mulher se vê num âmbito de subordinação e submissão e, logo, usará a forma escrita, o diário íntimo, como método e tentativa de expressão e confissão. Por uma análise histórica, a voz de uma mulher era totalmente terceirizada, em meio a desigualdades sociais entre homens e mulheres, o que resultou no silêncio feminino, no sentido de manifestação ideológica, cultural e política que, mais tarde, demarcaria o espaço social e literário, revisitando os discursos de opressões e dando voz ao mundo complexo feminino em obras literárias. O discurso é uma espécie pertencente ao gênero ideológico. Em outros termos, a formação ideológica, tem necessariamente como um de seus componentes uma ou várias formações discursivas interligadas. Isso significa que os discursos são governados por formações ideológicas. São as formações discursivas, que em uma formação ideológica específica e levando em conta, uma relação de classes, determinam „o que pode e deve ser dito‟ a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada. (BRANDÃO, 2004, p. 47-48) A postura ideológica nos faz remeter ao pensamento majoritário e, nesse aspecto, Brandão (2004, p. 56) diz que a mulher poderá “ou refletir a imagem 39 masculina, metonímia e metáfora de uma ideologia opressora, ou perder-se no vazio da loucura e da marginalização”. Notam-se situações de silêncio, uma vez que a mulher não goza de autonomia e voz social. A produção dessa voz desenha um sujeito que procura vencer as dificuldades, posicionando-se ideologicamente, a todo instante, nas circunstâncias de conflito. Os conflitos pelos quais um determinado sujeito “excluído” de uma sociedade passa são projeções de uma possível escuta da voz social. Nessas obras literárias, a voz das mulheres é acometida pelo poder do masculino e, também, pelo julgamento social. Podemos ver que o machismo se destacou de forma geral nas sociedades e culminou em uma profunda opressão às mulheres, de sorte que estas passaram a ser subordinadas a ditames e regras patriarcais. Conforme afirma Rorty (1996): O machismo é um monstro muito maior e mais feroz que qualquer dos monstrinhos provincianos com que lutam os pragmáticos e os desconstrutivistas. Pois o machismo é a defesa das pessoas que têm estado por cima, desde os primórdios da história, contra as tentativas de derrubá-las, esse tipo de monstro é muito adaptável, e desconfio que seja capaz de sobreviver quase tão bem num meio filosófico antilogocêntrico quanto num meio logocêntrico. (RORTY, 1996, p. 232) Rorty (1996) aponta o poder coercitivo do machismo e, desta forma, o domínio do homem, em relação à mulher, que funciona como um modo de estabelecer a subjugação, de vários modos: físicos, sociais e etc. Assim, muitas mulheres refugiaram-se em diários íntimos para conversar “consigo” sobre as defesas em meio aos discursos sobre a possibilidade de igualdade de gênero. Assim, teremos formas de resistências aos discursos hegemônicos machistas, principalmente aqueles que se elencam dentro do sistema do patriarcado que para Castells (1999): O patriarcalismo é uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades, contemporâneas. Caracteriza-se pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre a mulher e filhos no âmbito familiar. Para que essa autoridade possa ser exercida, é necessário que o patriarcalismo permeie toda a organização da sociedade, da produção e do consumo à política, à legislação e à cultura. (CASTELLS, 1999. p. 169) O machismo, como sistema social, impôs às mulheres regras e limites no espaço social. Na verdade, esse regime social limitava as mulheres apenas a 40 determinadas funções domésticas. Logo, é comum perceber, nas leituras de cartas e diários, uma voz abafada, descontente e ouvida, no sentido de ser crítica, ao se referir aos questionamentos sociais, pelo jogo de si e da alteridade social. Diante disso, relacionamentos amorosos, política, trabalho e reprodução são discursos que explicitam ideologias e denunciam circunstâncias inerentes ao machismo. Podemos afirmar que a sociedade é conservadora, reprime e direciona as mulheres para determinados espaços sociais e, além disso, determinar, discursivamente, o que seria apropriado para a mulher. Nesse caminho, acentuamos que a escritora traz em sua obra literária, a restrição da presença da mulher na sociedade, na presença dos homens e longe da guerra e essas restrições interferem nos espaços íntimos que, certamente, revelarão identidades no cerne da própria sociedade. Uma das posições diremos que acontece com a personagem Manuela é o seu comportamento: ora permanece calada, ora apresenta uma voz dissonante. Isso se deve ao fato da subjetividade de uma mulher que se determina silenciosa sob a supremacia de uma sociedade opressiva. Nesse sentido, a leitura da voz de uma personagem, em circunstâncias de exclusão em uma sociedade opressiva, conduz à visão da subjetividade (o lado íntimo) e desconstroem discursos machistas, porquanto as mulheres solidificam seus mundos, através do empirismo e, principalmente, da subjetividade, tornando-se sujeitos contestadores de uma determinada sociedade. Pode-se dizer que as moças são sujeitos sofredores na esfera machista, isto é, elas aparecem com suas vozes dissonantes, resultando em pluriformidade identitária, pois são sujeitos que se vêem sempre subordinados a regras, normas e valores veiculados de um patriarcalismo hegemônico. Além do mais, as mulheres são conscientes de suas privações e consequências, e exibir uma voz contestadora daria origem ao castigo e ao abandono social, dentre outras situações. A voz de Manuela, explorada pela romancista, traz como foco o sofrimento no regime patriarcal brasileiro no século XIX, diante da Guerra dos Farrapos, na qual a individualidade feminina penetra nos discursos sociais que exprimam emoção e concepção sobre a relação humana. Sendo assim, essa voz se torna gráfica no diário íntimo e recorre aos contextos social, político e cultural. Por isso, incorre numa forma de libertação social, ou melhor, realiza uma escrita cuja tradução, em suas letras, descreve a crítica da 41 mulher, enquanto “vítima” de uma sociedade restrita a determinados sujeitos, no caso, os homens. No que diz respeito à escrita literária feminina, no caso de um diário íntimo, Zolin (2003) argumenta: A escrita se torna, então, um espaço alternativo através do qual se possa [...] retomar como uma área de questionamento o espaço do outro, as brechas, os silêncios e ausências do discurso e da representação aos quais o discurso feminino tem sido relegado. A escrita se transforma numa possibilidade, num espaço que serve de impulso subversivo para a expressão de uma voz feminina que encontra em sua própria alteridade os meios de evasão. Portanto, para essas escritoras, uma escrita através, sobre e proveniente destes “espaços de alteridade” se desenvolve como uma estratégia altamente transgressiva. (ZOLIN, 2003, p. 195-196) Considerando a escrita no diário, a autora dá um espaço alternativo à personagem Manuela, cuja voz se liberta ao longo dos discursos, assinalados com autonomia para ser “dissonante” e não concordar com a sociedade machista. Fica evidente que, no conteúdo do diário íntimo e secreto de Manuela, há a recuperação das identidades em cada discurso. Mesmo que a imagem exterior de Manuela seja a de uma mulher submissa e insegura, temos, também, a imagem interior cujos sentimentos revelam posicionamentos dissonantes ao machismo, pois Manuela se figurou no papel de submissa e, por conseguinte, deu vida a uma “mulher-instrumento”, manipulada e induzida pelos modelos patriarcais. Assim sendo, Manuela enfrenta a prisão em diferentes discursos: o sistema machista, a guerra, a política gaúcha e a impossibilidade de decidir seu matrimônio. Estes discursos sugerem paredes que são constantes na voz abafada e oprimida da personagem Manuela, uma vez que são elementos patriarcais predominantes, redundando em uma voz transgressora, enquanto ser que discorda. Temos ciência de que o machismo é muito presente na narrativa do romance, o que permitirá a preocupação com os acontecimentos no espaço público, pois é através deste que o privado se estabelecerá e, com eles, o descontentamento social. Também, afirmamos que Manuela escreve em seu diário o que a sociedade patriarcal permite, porquanto sua voz é sempre formada por lentes tomadas de empréstimos: os homens enviam cartas, selecionando apenas os assuntos dos 42 quais as mulheres deverão saber; e as notícias, oralmente, chegam, também, por meio dos homens que visitam, raramente, a estância. Seguindo esta direção, encontramos uma voz plurifome que, conforme Paz (1982), é sempre formada por outros discursos que interpenetram a subjetividade do sujeito. Deste modo, para Manuela, a solução para o desabafo é escrever o diário íntimo, é o meio que recebe para delatar o machismo imperante nos discursos de todo o contexto. O diário é a forma de procedimento dessa voz calada, todavia Manuela pratica a arte de criticar, uma vez que a personagem apresenta as mazelas da sociedade conservadora. É de suma importância acentuar que o romance coloca lado a lado o diário íntimo de Manuela e os discursos patriarcais. Dessa forma, ocorre o desnudamento narrativo nos personagens (homens e mulheres), visto que Manuela os apresenta de forma totalmente avessa às posições históricas hegemônicas dos livros de História Geral. Ao invés de imperar a voz de uma mulher submissa e satisfeita, Manuela manifesta a polêmica e discussões sobre a vida social, provida de emoções, sofrimentos e sentimentos, dentro de um amplo e profundo empirismo, em diversos discursos em que confessa o desejo de uma vida mais confortável e longe de toda impossibilidade, fecundando, assim, a luta, no tocante aos padrões patriarcais, ao expor as impossibilidades e discordâncias nos fatos da vida cotidiana. Em relação aos discursos machistas, Manuela compõe o diário íntimo, a partir dos sentidos da visão, comentando cada discurso, ideologicamente, e da audição, apreendendo toda a matéria discursiva. De fato, a voz de Manuela se relaciona a todo o discurso que vier à narrativa, como: vida feminina, solidão, machismo, regras sociais, guerra, amor, política e etc. Estes discursos colaboram para a inserção da voz de Manuela no diário íntimo, quer dizer, juntos eles interpretam o elo da mulher e a sociedade machista, manifestando uma forma de leitura de um passado histórico que interferiu na vida de sujeitos excluídos de um sistema social. É sob esses prismas que a protagonista Manuela se manifesta na narrativa, ao solidificar a contínua atenção com o poder coercitivo do sistema machista e, com tal, tenta inserir-se como mulher, porém essa inserção se dá às escuras, porque só se impõe, por meio de suas confissões, em seu diário íntimo. Por isto, a 43 oportunidade que a ela é permitida se dá pelo engenho da escrita nos discursos, visto que em geral o domínio da palavra é considerado do mundo masculino. Aliás, a sociedade conservadora é liquidada na leitura do diário pelas palavras nos discursos de Manuela e, como resultado, é dada primazia à voz e ao mundo das mulheres (excluídas), sufocando o sofrimento e as impossibilidades na esfera social. Então, Manuela renuncia ao jugo machista no seu diário, estando liberta das imposições e delimitações opressoras, para, em seguida, sonhar com a liberdade e decidir seu futuro. A liberdade para Manuela será voltar a Pelotas e poder frequentar bailes, como pensam, também, as outras mulheres de sua família. Só após a guerra poderão sair daquele estado de prisão na Estância da Barra e desfrutar de outras relações sociais e afetivas em um desfecho jubiloso. Entretanto, jamais poderão ficar livres dos padrões sociais. Sendo assim, o desfecho da guerra sublinhou uma impressão pessimista não somente para Manuela, mas também para os demais personagens: a maioria dos homens morre e as mulheres sofrem as consequências de uma guerra que afetou o destino de todos. O trecho, a seguir, demonstra a situação pós-guerra: Manuela estava sentada ao seu lado, silenciosa e ereta. Observava a cidade com olhos desinteressados. Maria Manuela tocou sua mão e sorriu. Um riso meio triste, que era para ser comemorativo. Havia rugas finas ao redor de seus lábios. Voltavam para a casa, enfim. Sabia que Antônio esperava por elas. Antônio, seu filho predileto. Sim, somente agora podia assumir isso, agora que tinha sofrido tanto. Sempre amara mais a Antônio, sempre, desde pequetito. Era por ele que seu peito fremia. Depois da morte de Anselmo, passara a adorar Antônio ainda mais. Das três filhas, restara- lhe apenas uma. Rosário tinha morrido, morte cruel, vergonhosa, indecente até. Mariana ficara na estância com Antônia, o filho e o vaqueano. Nunca mais tinham se falado. Duvidava que se veriam novamente. Pensava no menino, às vezes. Quem sabe um dia... (WIERZCHOWSKI, 2002. p. 510) No entanto, Manuela, sua mãe e seu irmão experimentaram essa nova realidade. Eles insistiram num futuro sem projeção, já que a guerra determinou inexoráveis desfechos e Manuela perseverava-se “rebelde” às regras machistas, pois não se casou com o primo e permaneceu solteira, mesmo com o término da guerra. Os tempos mudaram, porém as mulheres não gozavam de certos direitos e permaneceram dentro do sistema machista, num círculo vicioso. Finalmente, atestamos que A casa das sete mulheres está localizada no plano da voz abafada e excluída da personagem-protagonista “Manuela”, pois é 44 vetada a escuta social da voz de uma mulher. Sendo assim, conforme os estudos de Elaine Showalter (1994), as mulheres são sujeitos em conflito consigo mesmas num espaço dentro do quadro patriarcal, oposto ao machismo e revelando identidades que foram omitidas em: desejo, vontades, liberdade e espaço de ser e querer possuir autonomia. Igualmente, o papel do contexto machista e/ou opressor no romance permite estabelecer a diferença da voz feminina, favorecendo o nascimento de identidades culturais à medida que o contexto vem determinar os discursos. 2.5 As vozes narrativas do romance e suas implicações A casa das sete mulheres dá importância à narração da protagonista Manuela de Paula Ferreira que, por meio de seus cadernos, em forma de diário íntimo, apresenta uma narrativa ficcional que será primordial para a análise da obra literária e da protagonista em cena. Os estudos sobre a narração são relevantes para compreendermos a voz de Manuela, dentro dos discursos autoritários na sociedade patriarcal brasileira do século XIX, pois contribuem para uma possível visão da construção da personagem e permitem a compreensão da obra como um todo. O crítico Bóris Uspensy, em sua obra A poética da composição (1981), ressalta que o narrador assume um caráter de composição de uma dada obra literária, visto que essa voz compõe todos os acontecimentos da narrativa. Esse narrador apresenta a voz narrativa, o espaço e o tempo que remetem a perspectivas distintas em nível ideológico. Sendo assim, o nível ideológico permite que o leitor adentre pelos discursos que serão suscitados no decorrer de toda a voz do narrador. O papel do narrador é aquele que apresenta formas de compreensão, ou seja, o narrador aparece como uma entidade que produz questionamentos. Cabe a ele atender às réplicas com as quais ele poderá se deparar. Assim, o narrador procura apresentar os discursos que abarcarão o desenvolvimento da história de uma dada obra literária. A casa das sete mulheres é um romance histórico polifônico, na medida em que, conforme Bakhtin (1988), há várias vozes que vão intercalando-se no decorrer de toda a narrativa. Dentre elas, ressaltamos a do narrador em terceira pessoa, onisciente e onipresente, que prevalece na maior parte da narrativa, utiliza o 45 discurso indireto livre, descreve em ordem cronológica os anos e os eventos que acontecem em cada passagem do tempo. O narrador permitirá a instauração dos discursos diretos dos personagens que são narrados em primeira pessoa, como acontece, também, nas cartas e outros documentos que compõem o romance. Em seguida, o narrador em terceira pessoa dá a palavra aos “Cadernos de Manuela”, um diário íntimo, cujo narrador em primeira pessoa é Manuela de Paula Ferreira. Na verdade, esses cadernos oferecem um prisma crítico e, por isso, há várias perspectivas narrativas. Ademais, ocorre um narrador autodiegético quando, para Genette (1979, p. 244), um determinado personagem faz jus à posição de narrador, narrando os acontecimentos de sua vida. No caso dos “Cadernos de Manuela”, há um certo distanciamento cronológico entre o tempo da narrativa e o tempo dos acontecimentos narrados e há a produção de vozes ficcionais, a partir de personagens históricos existentes. Pode-se dizer que esse narrador autodiegético é relevante e muito crítico em relação aos demais personagens, enredo, pensamentos, sofrimentos e emoções. Na verdade, assume uma forma de revelação do espaço íntimo. Em síntese, revelam-se os posicionamentos visíveis e invisíveis que aparecem na escrita no diário íntimo. A autora constituiu um discurso autodiegético para sua Manuela-narradora cuja voz foi presa por segredos e opiniões guardados ao longo dos anos e, com a apresentação dos diários ao leitor, liberta-se e revela as reais circunstâncias e fatos vivenciados em sociedade machista. No que diz respeito à esfera intradiegética, a personagem Manuela toma posse da função de narradora e protagonista, dentro do diário íntimo apresentado somente ao leitor do romance