O pOntO de vista em semiótica Maria Goreti Silva Prado Fundamentos teóricos e ensaio de aplicação em A horA dA estrelA O pOntO de vista em semiótica Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 1 01/02/2014 12:08:27 Conselho Editorial Acadêmico Responsável pela publicação desta obra Antonio Alberto Machado Elisabete Maniglia José Duarte Neto Juliana Frei Cunha Kelly Cristina Canela Paulo César Corrêa Borges Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 2 01/02/2014 12:08:27 Maria Goreti Silva Prado O pOntO de vista em semiótica Fundamentos teóricos e ensaio de aplicação em A horA dA estrelA Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 3 01/02/2014 12:08:28 © 2013 Editora Unesp Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br www.livrariaunesp.com.br feu@editora.unesp.br CIP – BRASIl. CATAlogAção NA PUBlICAção SINDICATo NACIoNAl DoS EDIToRES DE lIvRoS, RJ P918p Prado, Maria goreti Silva O ponto de vista em Semiótica: fundamentos teóricos e ensaio de aplicação em A hora da estrela / Maria goreti Silva Prado. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2013. Recurso digital Formato: ePDF Requisitos do sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web Inclui bibliografia ISBN 978-85-7983-456-1 (recurso eletrônico) 1. Semiótica e literatura. 2. Ponto de vista (literatura). 3. literatura brasileira. 3. livros eletrônicos. I. Título. 13-07319 CDD: 401.41 CDU: 81’42 Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Editora afiliada: Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 4 01/02/2014 12:08:28 Aos meus filhos, Diego e Bruno, por tudo que representam em minha vida. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 5 01/02/2014 12:08:28 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 6 01/02/2014 12:08:28 AgrAdecimentos À Fapesp, pela bolsa de mestrado concedida, que possibilitou minha dedicação exclusiva à pesquisa. ao professor Jean Cristtus Portela, cuja confiança em aceitar minha proposta de pesquisa foi de grande motivação, e pelo acom- panhamento criterioso durante todo o processo de orientação. a ele toda minha gratidão. ao professor arnaldo Cortina, sempre muito gentil e educado, por meio de quem aprendi a desvendar o complexo universo da Semiótica. ao professor arnaldo Cortina, da FClar/Unesp, e à professora loredana limoli, da Universidade estadual de londrina (Uel), pelas preciosas sugestões e correções no exame Geral de Qualifi- cação e na defesa. aos colegas do Grupo de estudos sobre leitura (Gele) (Unesp − araraquara), pelas contribuições enriquecedoras ao desenvolvi- mento desta pesquisa. aos companheiros da Semiótica da Unesp − araraquara, Sílvia Nasser, levi H. Merenciano, Fernanda Massi, Cintia a. da Silva, aline dos Santos, luiz C. torelli e Bruno S. Garrido, pelo apoio e incentivo. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 7 01/02/2014 12:08:28 À Fernanda Massi e à ana Paula Cavaguti, pela revisão cuida- dosa deste trabalho e pelas valiosas sugestões. aos funcionários da Seção de Pós-Graduação em linguística e língua Portuguesa da Unesp − araraquara, pelo auxílio com os pro- cedimentos burocráticos e pela presteza no atendimento aos alunos. aos meus pais e meus irmãos, pelo apoio, carinho e pelo incen- tivo, apesar da distância. aos meus filhos, diego e Bruno, os maiores “destinadores” de minha trajetória. À ana Paula Cavaguti, amiga com quem dividi os momentos eufóricos e os disfóricos durante todo o processo de realização da pesquisa. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 8 01/02/2014 12:08:28 O terreno está apenas aplanado e a investigação não faz senão começar. a. J. Greimas (1979, p.34) Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 9 01/02/2014 12:08:28 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 10 01/02/2014 12:08:28 sumário Prefácio 13 introdução 19 1 enunciação e ponto de vista 25 2 tensividade e ponto de vista 87 3 a construção do ponto de vista em A hora da estrela 119 Conclusão 159 referências bibliográficas 165 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 11 01/02/2014 12:08:28 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 12 01/02/2014 12:08:28 Prefácio lição contundente da modernidade, aprendemos que no sur- gimento e na maturidade de uma arte ou de uma técnica sempre temos que nos haver com a metalinguagem. No começo, falar o que se fala, fazer o que se faz, é condição de realização do ato. Nesse caso, a metalinguagem serve para ampliar a consciência do sujeito opera- dor da prática, atua como esteio da intencionalidade. No princípio, era o verbo – e o manual de instruções, ainda que em formação. a partir do momento em que passamos à ação e, mais adiante, em que controlamos estrategicamente o desdobramento prático, expres- samo-nos por meio de uma arte ou de um técnica “naturalmente”, como se respirássemos, como se sempre tivéssemos sido designados a esse hábito ancestral. Na maturidade das artes e das técnicas, nos momentos entrópicos de proliferação e concentração de regras, protocolos e dogmas, em que abundam as formas de fazer e avaliar o ato, eis que a metalingua- gem socorre-nos oportunamente, permitindo que nos distanciemos do objeto da prática e lancemos um olhar último e primeiro à nossa volta, olhar estratégico que revalida ou põe em xeque o percurso trilhado e os resultados obtidos. Na esquina da arte e da técnica, a semiótica do discurso, disci- plina metalinguística por excelência, começou muito cedo, desde Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 13 01/02/2014 12:08:28 14 MARIA goRETI SIlvA PRADo meados dos anos 1990, a sofrer os perturbadores e salutares efeitos da metalinguagem: efeitos perturbadores, na medida em que passa- mos a recontar nossos mitos de criação, a retocar a face e o número de nossos precursores; e efeitos renovadores, certamente, pois à perturbação, levada a cabo em nome da fidelidade, sucedeu o esta- belecimento de uma nova e ampla paisagem intelectual. Certamente, a semiótica não esperou sua suposta maturidade (alguns diriam, provocadores, seu ocaso) para mergulhar nas águas especulares da metalinguagem. as atividades de narração, defini- ção, reformulação e crítica da teoria são intrínsecas à elaboração da semiótica, pois intrínsecas ao fazer científico, especialmente nas ciências humanas. Basta observar aquilo que chamamos de “capítu- los teóricos” em nossos trabalhos de pesquisa e divulgação científica. Não é à toa que a semiótica é acusada muitas vezes de perder-se em definições e justificativas preliminares que tiram o fôlego dos trabalhos – e dos leitores – quando enfim chega o momento de passar ao ato da análise. Quem nunca ouviu que a semiótica usa os objetos como pretextos para suas elucubrações? e quem nunca leu ou mesmo fez uma análise desse tipo? ora, a pertença da semiótica às questões de (meta)linguagem é tamanha que o semioticista apa- rentemente deriva, descola-se dos seus objetos de análise concretos e passa a fazer odes à musa de predileção: a linguagem como esquema. Se a atividade metalinguística em semiótica não é propriamente uma novidade, tampouco pode-se dizer que essa atividade tenha sido exercida com regularidade e clareza por parte dos semioticistas, visando à construção de um programa forte de história das ideias semióticas, como se deu no campo da linguística, por exemplo. longe disso. os poucos estudos críticos dedicados à teoria, salvo raras exceções, têm geralmente como propósito explícito fazer avançar um determinado aspecto da teoria implicado na análise de um objeto particular, mais do que contribuir para a compreensão do funcionamento passado e futuro da semiótica. Há até mesmo uma certa pecha de “professor Pardal” que paira sobre o semioticista que como escorpião encalacrado (feliz epíteto de davi arrigucci Jr. para classificar J. Cortázar), voltado para sua própria cauda, toma Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 14 01/02/2014 12:08:28 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 15 a própria semiótica como objeto de reflexão, por seu viés histórico, historiográfico ou epistemológico. Mais recentemente, prova de que a semiótica conquistou a maturidade, os semioticistas têm reconhe- cido que a reforma e a permanência da semiótica no contexto das ciências humanas carecem de um olhar retrospectivo atento, que escrutine o que se fez sob o signo do porvir, com prudência, sem tédio e sem saudosismo, de modo a ampliar nossa consciência teó- rica sobre o progresso da teoria. esse progresso, talvez com aspas, só pode ser compreendido e conceituado à luz de um esforço de revisão e ressignificação dos gestos teóricos na diacronia das ideias semióticas. do contrário, nossa prática analítica torna-se presa de variações e de mudanças que tanto ignoramos como perpetuamos, ao sabor da última moda nacional ou estrangeira. É segundo essa perspectiva de revisão e de ressignificação a que chegou a semiótica em sua maturidade, que Maria Goreti Silva Prado concebeu O ponto de vista em semiótica, fruto de uma disser- tação de mestrado desenvolvida sob a minha orientação no Programa de Pós-graduação em linguística e língua Portuguesa da Faculdade de Ciências e letras (FCl) da Unesp, campus de araraquara (SP). defendendo a hipótese implícita de que o conceito de ponto de vista diluiu-se no seio da teoria e ressurgiu sob outra roupagem a partir das reflexões sobre a tensividade, a autora procurou estabele- cer as origens desse conceito e seguir seus traços de permanência na semiótica tensiva, não se furtando a verificar como a noção de ponto de vista substituída pela noção de campo de presença opera em uma narrativa concreta, A hora da estrela, de Clarice lispector. Para compreender o conceito de ponto de vista em semiótica em sua historicidade, Maria Goreti Silva Prado localizou-o nos primórdios da reflexão semiótica e em sua adjacências. Nesse caso, recorrer às adjacências significou beber na fonte: o ponto de vista é um conceito conhecido em teoria literária desde os anos 1940, pelo menos. esse percurso nos conduz da (des)importância da noção de ponto de vista nas reflexões inaugurais sobre a enunciação (Benveniste, Greimas) até o seu papel primordial na teoria literária, especialmente para G. Genette e seus antecessores. Curiosamente, Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 15 01/02/2014 12:08:28 16 MARIA goRETI SIlvA PRADo aprendemos que hoje, salvo por a. rabatel, o conceito de ponto de vista, evocado muitas vezes de modo metafórico, não mobiliza mais esforços analíticos importantes, embora esteja disseminado e incorporado tacitamente aos estudos discursivos. Na compreensão da passagem da semiótica dita padrão – que alguns revisores conscienciosos chamam “semiótica-padrão”, para terror dos que alimentam suspeitas em relação ao termo – à semió- tica tensiva, Maria Goreti Silva Prado adota uma linha de exposição produtiva. Para ela, podemos explicar a mudança da semiótica de “padrão” em “tensiva” por meio das sucessivas maneiras de repre- sentar os modos de existência semiótica. Segundo esse raciocínio, que localiza a virada tensiva em Semiótica das paixões (1991, trad. br. de 1993), de a. J. Greimas e J. Fontanille, é a coexistência de grandezas que caracteriza a existência semiótica em sua comple- xidade, coexistência que remonta, em camadas, às formas tensivas elementares, que dirigem, sob o signo do afeto, a manifestação. Se Semiótica das paixões iniciou esse processo de abertura na semiótica- -padrão, da parte de Claude Zilberberg, grão-mestre da tensividade, essa revelação deu-se original e precocemente, em escritos que remontam ao começo dos anos 1980. No entanto, é só a partir de Tensão e significação (1998, trad. br. de 2001), de J. Fontanille e C. Zilberberg, que a hipótese tensiva vai ganhar letras de nobreza institucionais no âmbito da semiótica, mudando sensivelmente a prática recente da teoria. É nesse percurso de flagrante mudança da teoria que Maria Goreti Silva Prado situa a mudança de estatuto do conceito de ponto de vista na semiótica, conceito que deixa de ser um subproduto da enunciação e passa a ser, implicitamente, um elemento relevante na imaginação teórica da nova semiótica (a percepção, a visada, a fonte, o campo de presença, o centro, etc.) e, explicitamente, um conceito- -chave para designar as várias relações que um sujeito estabelece com um dado objeto cognitivo (por exemplo, os pontos de vista eletivo, acumulativo, particularizante e englobante). Que árdua missão nossa autora se deu para o tempo de um mes- trado! eis a constatação que a própria pesquisadora, eu, enquanto Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 16 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 17 orientador e prefaciador, e o leitor colocamo-nos, cada um a seu tempo e a seu modo. Sabendo que é preciso ousar e que a imper- feição é mais um marco fundador do sentido do que propriamente um defeito, Maria Goreti correu o risco de tentar demonstrar que o ponto de vista na perspectiva tensiva é um conceito de grande rendimento operatório. a breve análise que nos propõe de A hora da estrela é testemunha disso. Há várias formas de se conferir historicidade a um conceito ou a uma episteme. e todas essas formas estão ligadas à diacronia, à ideia de que as entidades semióticas se sucedem e contraem entre si rela- ções das mais diversas naturezas, em que motivações de diferentes ordens atuam por distintos modos de pressão e acomodação. Quanto a isso, a grande questão, certamente, é qual é o nosso lugar enquanto observadores do teatro que a diacronia encena. Maria Goreti Silva Prado escolheu o seu modo e o seu lugar para interpelar o tempo. essa escolha, mera questão de ponto de vista, no sentido usual e no sentido semiótico do termo, não foi uma escolha fortuita. eis o maior elogio que se poder fazer a um semioticista, esse aficionado pelas causalidades perdidas. Jean Cristtus Portela Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 17 01/02/2014 12:08:29 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 18 01/02/2014 12:08:29 introdução Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. lispector (1977, p.15) este livro propõe-se a refletir sobre o desenvolvimento do con- ceito de ponto de vista em Semiótica, especialmente no que diz respeito aos desdobramentos mais recentes da Semiótica tensiva. Para tanto, escolhemos para análise a obra A hora da estrela (1977), de Clarice lispector, de modo a realizar um ensaio de aplicação que se sirva da reflexão sobre o conceito de ponto de vista aqui empreendida. Fundada na década de 1960 por um grupo liderado por algirdas Julien Greimas, a Semiótica, desde seu início, preocupou-se em desenvolver uma metodologia de análise voltada a entender como se dá a construção do sentido em qualquer tipo de texto. Constituída sob a forma de percurso gerativo composto por níveis – fundamen- tal, narrativo e discursivo –, a metodologia semiótica primou pela coerência de seus conceitos, buscando fazer ajustamentos em seu quadro epistemológico sempre que, em um desses níveis, surgissem instabilidades que comprometessem o todo teórico, consequência natural de uma teoria em construção. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 19 01/02/2014 12:08:29 20 MARIA goRETI SIlvA PRADo inicialmente seu foco direcionou-se ao desenvolvimento da sintaxe narrativa, sendo seu elemento principal o enunciado. após a consolidação de um profundo conhecimento da estrutura do enun- ciado, passou-se a investigar as modalidades que sobredeterminam o “ser” e o “fazer”. a partir dos estudos sobre as modalidades, tornou-se possível explicar os efeitos passionais nos discursos. Nos últimos anos, dando continuidade a esses estudos, as reflexões de vários semioticistas apresentam um alargamento no quadro teórico em relação à investigação dos elementos contínuos na construção do sentido, sendo esses desdobramentos conhecidos como estudos tensivos. enriquecida pela hipótese tensiva, a Semiótica volta sua atenção para o universo sensível. o propósito da teoria assenta-se na cons- trução de um modelo descritivo dos fenômenos contínuos associados à percepção sensorial. isso significa que a ferramenta tensiva permite uma análise da enunciação em gradientes de intensidade e de exten- sidade. o interesse da análise foca-se nas modulações resultantes da relação entre sujeito e objeto, ou seja, o modelo de estados e de trans- formações foi e continua sendo reanalisado, progressivamente, pela perspectiva dos fluxos ou de gradações. esse avanço metodológico aproximou a Semiótica da fenomenologia de Maurice Merleau- -Ponty ao apropriar-se da reformulação elaborada por ele a respeito da noção de campo de presença, conceito este que, considerado como uma noção mais sutil ou mais abstrata dos modos de junção, destaca a reciprocidade de atração entre sujeito e objeto, estabelecendo uma movimentação gradual na relação juntiva. o conceito de campo de presença define-se como um espaço tensivo em que ocorre toda a organização discursiva. o responsável por essa organização é o sujeito observador, um actante semiótico que estabelece um ponto de vista sobre determinada ação. tendo em vista esse pano de fundo teórico, o objetivo deste tra- balho consiste em evidenciar uma abordagem tensiva do conceito de ponto de vista. Para a Semiótica, adotar um ponto de vista é estabe- lecer uma relação entre sujeito perceptivo e objeto percebido. essa relação configura o ato perceptivo, resultante da correlação entre Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 20 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 21 visada e apreensão. Portanto, o estudo tensivo do ponto de vista baseia- -se na regulagem entre os gradientes de intensidade e de extensão, visando a diminuir a imperfeição do ato perceptivo. Para compor nosso objeto de análise selecionamos a obra A hora da estrela (1977), de Clarice lispector. essa escolha foi motivada porque o texto apresenta uma estrutura narrativa que, devido à sua complexidade, pode ser segmentada, ao menos, em duas histórias. Seguindo essa hipótese, consideramos que a primeira história con- templa as reflexões referentes aos questionamentos existenciais do narrador, rodrigo S. M., e suas considerações em relação à lingua- gem que pretende usar para compor sua personagem. a segunda refere-se ao relato da história de Macabéa. Baseando-se nessa estrutura narrativa, foi possível delimitar dois campos discursivos e submetê-los a uma análise que pretende demonstrar como o conceito de ponto de vista pode ser operatório, objetivo último deste trabalho. esse texto de lispector serviu também para ilustrar os conceitos teóricos apresentados ao longo do primeiro capítulo. No Capítulo 1, “enunciação e ponto de vista”, mostraremos como o conceito de enunciação desenvolveu-se no quadro teórico da Semiótica e como o conceito de ponto de vista surgiu no âmbito da teoria. veremos que, a princípio, priorizou-se o enunciado, e somente após um conhecimento aprofundado das estruturas do enunciado é que a teoria se interessou pela enunciação, sobretudo em sua forma enunciada. essa abordagem configurou-se em uma concepção subjetiva do ato de enunciação e baseou-se na crença de que a enunciação se encontrava no final do percurso gerativo. atualmente, a abordagem enunciativa é intersubjetiva, ou seja, considera o ato de enunciação como fundador dos sujeitos em causa e como ato que funda o discurso desde sua origem. a relação entre o sujeito da enunciação (enunciador/enunciatário) e o objeto semiótico é de natureza perceptiva, porém um objeto semiótico pode oferecer vários níveis de percepção. isso significa que sua apreensão depende das escolhas feitas pelo sujeito da enunciação, que elege um ângulo ou um determinado ponto de vista sob o qual se dará a construção do sentido de um texto. dessa forma, a singularidade da enunciação é Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 21 01/02/2014 12:08:29 22 MARIA goRETI SIlvA PRADo uma questão de ponto de vista, fato que justifica dedicarmos parte do primeiro capítulo deste livro a uma reflexão voltada ao conceito de enunciação em Semiótica. ainda no primeiro capítulo, apresentaremos uma reflexão sobre o conceito de ponto de vista. Uma vez que se trata de um termo de uso geral, iniciaremos nossas considerações baseando-nos em suas definições dicionarizadas. em seguida, apresentaremos o conceito como foi explorado originalmente em diferentes áreas do conhecimento, por meio de uma abordagem enunciativa, literária e semiótica. No Capítulo 2, “tensividade e ponto de vista”, apresenta- remos um histórico do desenvolvimento dos estudos tensivos. Primeiramente procuraremos demonstrar como o conceito de corpo passou a fazer parte do conjunto epistemológico da teoria. Para isso, tomaremos como ponto de partida os estudos sobre as paixões, apresentados por Fontanille e Greimas em Semiótica das paixões (1993),1 e as reflexões de Greimas sobre a estesia, publicadas sob o título de Da imperfeição (2002),2 pois entendemos que essas duas obras marcaram o início de uma nova fase no quadro teórico epis- temológico da Semiótica, a saber, o interesse pelo elemento sensível na construção do sentido. isso demonstra que, desde os anos 1990, uma atmosfera inquietante, resultante da necessidade de expansão do conjunto teórico, já pairava sobre a comunidade de semioticistas. essa abertura teórica permitiu, alguns anos mais tarde, a introdu- ção da problemática em relação ao conceito de presença. esse tema será discutido com base nos estudos desenvolvidos em Fontanille e Zilberberg (2001). Segundo esses autores, a presença semiótica baseia-se nas interações entre sujeito e sujeito e entre sujeito e objeto, que ocorrem em um domínio discursivo cuja fronteira é determinada pelo alcance espaçotemporal do ato perceptivo. Nessa definição, identificam-se as três categorias enunciativas (actancial, temporal e espacial) consideradas em um grau maior de abstração, em termos 1 essa obra foi publicada na França em 1991, sob o título Sémiotique des passions. 2 essa obra foi publicada na França em 1987, sob o título De l’imperfection. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 22 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 23 de percepções. o ato perceptivo resulta da modulação entre a visada e a apreensão. Quando a variação de modulação ocorre na interação entre sujeitos, tem-se a tipologia tensiva do sujeito; quando acontece na interação entre sujeito e objeto, têm-se os modos de presença semiótica. Fontanille dedica grande parte de seus estudos à proble- mática que envolve a noção de campo de presença, o que reafirma a direção tensiva da Semiótica. entretanto, o autor propõe a denomi- nação de campo posicional e define os actantes desse campo como: fonte, alvo e controle. a relação perceptiva estabelecida entre a fonte e o alvo resulta em uma tipologia tensiva do ponto de vista, que em um texto deve ser examinada em termos de dominância. No Capítulo 3, “a construção do ponto de vista em A hora da estrela”, empreenderemos um ensaio de aplicação em A hora da estrela, com o objetivo de ilustrar o rendimento teórico da abor- dagem tensiva do ponto de vista. ao principiar nossa análise, a complexa projeção enunciativa do texto levou-nos a segmentá-lo em duas partes. a primeira refere-se à debreagem enunciativa, que con- figura um sincretismo entre o actante da enunciação (enunciador), cujo fazer consiste em “dizer” o que ocorre nas cenas observadas, e o actante do enunciado (narrador). a segunda corresponde à debrea- gem enunciva, por meio da qual se relata a história de Macabéa. em seguida, englobaremos esses dois campos discursivos em um campo maior, que nos permitirá reconstruir o sentido geral da obra. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 23 01/02/2014 12:08:29 Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 24 01/02/2014 12:08:29 1 enunciAção e Ponto de vistA O que em geral caracteriza a enunciação é a acen- tuação da relação discursiva com o parceiro, seja este real ou imaginado, individual ou coletivo. Benveniste (2006, p.87) A noção de ponto de vista não poderia ser mais complexa, já que ela remete a domínios diver- sificados, indo da visão (“ter um belo ponto de vista”) à expressão de uma opinião mais ou menos sustentada, mas distinta das verdades científicas (“eu compartilho desse ponto de vista”) passando pela adoção de um centro de perspectiva narrativo (denominado “focalização” por Genette) [...] sem contar a operação linguística de focalização (ou constituição de um foco) sobre uma informação importante, especialmente por meio de uma ope- ração de destaque [...].1 rabatel (2008, p.20) 1 todas as traduções de obras em língua estrangeira são nossas. trecho no original: “La notion de point de vue est on ne peut plus complexe, tant elle emprunte à des domaines variés, allant de la vue (‘avoir un beau point de vue’) à l’expression d’une opinion plus ou moins étayée, mais distinct d’un centre de Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 25 01/02/2014 12:08:29 26 MARIA goRETI SIlvA PRADo A enunciação em Semiótica Quando um conceito surge em qualquer área da ciência, surgem igualmente vários tipos de questionamentos e debates. isso ocorreu quando, na década de 1970, o conceito de enunciação, que até então se apresentava de forma embrionária, incorporou-se às investigações da Semiótica. a princípio, os teóricos envolvidos no projeto semió- tico preocuparam-se com a organização do discurso enunciado, pois, naquele momento, o foco era o desenvolvimento da narratividade. Foi somente após a construção de um conhecimento aprofundado da estrutura do enunciado que a teoria se interessou pela enunciação. Pode-se dizer que a noção de enunciação desenvolvida pela Semiótica francesa é, apenas em parte, tributária dos estudos desenvolvidos por Émile Benveniste. isso se deve ao fato de que Benveniste, em suas reflexões sobre a enunciação, considerou o conteúdo extralinguístico, como comprova a seguinte declaração do autor: “a instalação da ‘subjetividade’ na linguagem cria na linguagem e, acreditamos, igualmente fora da linguagem, a categoria da pessoa” (destaque nosso) (Benveniste, 1976, p.290). a Semiótica primou e prima pelo princípio da imanência. atualmente, a fronteira entre essas duas abordagens da enunciação tornou-se difusa, visto que os semioticistas trabalham com objetos que estruturam áreas inteiras de uma cultura, e não só com o texto enunciado. a polêmica paira sobre a questão da delimitação da fronteira entre imanência e transcendência. as reflexões de Benveniste, principalmente as apresentadas nos textos “a natureza dos pronomes” (1956) e “da subjetividade na linguagem” (1958), publicados em Problemas de linguística geral I (1976), e os textos “a linguagem e a experiência humana” (1965) e “o aparelho formal da enunciação” (1970), contidos em Problemas de linguística geral II (2006), representam o desenvolvimento dos perspective narrative (autrement nommé ‘focalisation’ par Genette [...]), sans compter l’opération linguistique de focalisation (ou mise en focus) sur une infor- mation importante, notamment à travers une opération de mise em relief [...]”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 26 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 27 estudos sobre a enunciação na França nos anos de 1960 e 1970. Nos valiosos pensamentos que Benveniste legou, observa-se como as três instâncias enunciativas (pessoa, tempo e espaço) foram instauradas no discurso, e foi sobre essa base que se elaborou o conceito de enunciação na Semiótica. Segundo Courtés e Greimas (2008, p.166-8), a enunciação define-se de duas maneiras: (i) como estrutura não linguística em que a comunicação se dá, e (ii) como instância linguística pressu- posta pelo próprio enunciado. a primeira definição diz respeito aos estudos desenvolvidos por Benveniste, que, como já mencionamos, considera o conteúdo extralinguístico. Para ele, “a enunciação é este colocar em funcionamento a língua por um ato individual de utiliza- ção” (Benveniste, 2006, p.82). É o ato de produzir o enunciado por meio da apropriação individual do “aparelho formal da língua” pelo locutor, que, ao mesmo tempo, instaura seu alocutário. a segunda definição é a que importa à Semiótica, que a considera uma instância pressuposta pelo enunciado e instância de mediação entre as estru- turas semionarrativas e discursivas. É ela que permite a passagem da competência à performance linguística, portanto, é considerada a instância produtora do discurso. os autores do Dicionário de semiótica (2008) reconheciam, à época, que os debates sobre esse assunto estavam apenas começando e as posições adotadas pelos estudiosos eram variadas, situação que poderia causar certa confusão entre os teóricos. Para Courtés e Greimas (2008, p.167), se a enunciação é o lugar de exercício da competência semiótica, é ao mesmo tempo a instância da instauração do sujeito (da enunciação). o lugar que se pode denominar ego hic nunc é, antes da sua articula- ção, semioticamente vazio e semanticamente (enquanto depósito de sentido) demasiado cheio: é a projeção (através dos procedimentos aqui reunidos sob o nome de debreagem), para fora dessa instância, tanto dos actantes do enunciado quanto das coordenadas espaço- temporais, que constitui o sujeito da enunciação por tudo aquilo que ele não é; é a rejeição (através dos procedimentos denominados Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 27 01/02/2014 12:08:29 28 MARIA goRETI SIlvA PRADo embreagem) das mesmas categorias, destinada a recobrir o lugar imaginário da enunciação, que confere ao sujeito o estatuto ilusório do ser. o conjunto dos procedimentos capazes de instituir o dis- curso como um espaço e um tempo, povoado de sujeitos outros que não o enunciador, constitui assim para nós a competência discursiva no sentido estrito. Se se acrescenta a isso o depósito das figuras do mundo e das configurações discursivas que permite ao sujeito da enunciação exercer seu saber-fazer figurativo, os conteúdos da competência discursiva – no sentido lato desse termo – se encontram provisoriamente esboçados. No Brasil, essa questão também despertou grande interesse e muitas dúvidas. No ano de 1973, um grupo de estudiosos inte- ressados nos estudos semióticos fundou o Centro de estudos Semióticos, na Faculdade de Filosofia Ciências e letras Barão de Mauá, em ribeirão Preto, São Paulo. Para celebrar essa conquista, os participantes do grupo convidaram algirdas Julien Greimas para vir ao Brasil apresentar os trabalhos que vinha desenvolvendo. Greimas aceitou o convite e, em sua passagem pelo Brasil, minis- trou o curso “teoria semiolinguística do discurso”, cuja gravação de uma das aulas resultou no artigo “l’énonciation: une posture épistémologique”, publicado no primeiro volume da revista Signi- ficação (Greimas, 1974, p.9-25). esse artigo pautou-se em algumas questões formuladas pelos professores edward lopes e inácio assis Silva em relação ao assunto que “incomodava” naquele momento. resumidamente, os questionamentos dos professores lopes e Silva eram se o par “enunciação/enunciado” poderia ser comparado ao par “metalinguagem/linguagem-objeto” e sobre o tipo de relação que enunciação e enunciado estabeleciam um com o outro. ao formular sua resposta, Greimas define “enunciação” como um enunciado no qual apenas o actante-objeto é manifestado, enquanto o actante-sujeito está sempre pressuposto, pois o “eu da enunciação está sempre oculto, está sempre subentendido” (Grei- mas, 1974, p.4). a relação que se estabelece entre actante-sujeito e actante-objeto é denominada “função”. assim, conhecendo-se Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 28 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 29 um dos termos da função, no caso o actante-objeto (enunciado), e sabendo-se que a estrutura da enunciação é igual à do enunciado, por pressuposição depreendemos a instância de enunciação. daí ela ser considerada como instância pressuposta pelas marcas encontradas no enunciado. Um discurso pode comportar dois diferentes níveis enunciativos, pois, além do nível do enunciado enunciado, pode haver o nível da enunciação enunciada. esses níveis sempre pressupõem um nível implícito, o nível da enunciação. Greimas (ibidem, p.4) esclarece que: É preciso dizer que o discurso comporta o nível do enunciado e o nível de antigas enunciações que são enunciadas. Mas evidente- mente esses dois níveis pressupõem um terceiro, e ele está sempre implícito. isto é, o sujeito da enunciação não é jamais apreensível e todos os eu que vocês acham no discurso enunciado não são sujeitos, são simulacros. Nesse sentido, a relação entre enunciação e enunciado é da natu- reza do todo para a parte, ou seja, uma relação metonímica, e não metafórica. Greimas prefere denominá-la hipotática, visto que um nível se subordina a seu nível superior. Nas palavras de Fiorin (2002, p.45), “essas instâncias subordinam-se umas às outras: o eu que fala em discurso direto é dominado por um eu narrador que, por sua vez, depende de um eu pressuposto pelo enunciado” (destaques do autor). esse encadeamento de níveis discursivos permitiu considerar que, se a enunciação é analisável a partir do enunciado e da enuncia- ção enunciada, ela é metalinguística2 em relação a esses dois níveis, 2 edward lopes (1981, p.18-9) oferece uma definição clara de língua-objeto e de metalíngua em relação ao sistema linguístico. Para ele, “os sistemas semióticos, verdadeiros códigos culturais são transcodificáveis: eles se deixam traduzir, com maior ou menor grau de adequação, uns em outros. o sistema linguístico tradu- zido chama-se língua-objeto; a língua tradutora de uma língua-objeto chama-se metalíngua”. o estudioso exemplifica da seguinte maneira: “Se alguém realiza um filme baseado num romance, pratica uma operação de transcodificação na qual o romance é a língua-objeto traduzida, e o filme é a metalíngua tradutora. essa primeira transcodificação pode ser seguida por outras; se eu vi o filme do Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 29 01/02/2014 12:08:29 30 MARIA goRETI SIlvA PRADo mas também pressupõe um nível metalinguístico pelo fato de ela própria poder ser enunciada. Greimas alertou para o caminho peri- goso a ser trilhado caso o sujeito da enunciação fosse considerado um sujeito psicológico, ontológico ou transcendental e terminou seu texto enfatizando que não se deve ultrapassar o limite do texto, ou seja, reforçou a importância de respeitar-se o princípio de imanência (Greimas, 1974, p.30). Para Manar Hammad (1983, p.35-6), a noção de enunciação designa ao menos três fenômenos: 1. instância de enunciação do sujeito enunciador, definido pelo “eu-aqui-agora”, e instância do sujeito enunciatário, estabelecida pelo enunciador ou pressuposta pela operação de interpretação do texto; 2. operação de enunciação que assegura a conversão da língua em discurso, conforme os postulados de Benveniste; 3. enunciação enunciada. de acordo com Hammad, a enunciação enunciada serve como ponto de partida para investigar as questões que envolvem a enun- ciação. ele enfatiza que, a priori, a Semiótica se preocupou com a análise do enunciado e só mais tarde voltou sua atenção à enunciação enunciada, realizando essa abordagem de duas maneiras. Primeiro, de maneira local e dispersa, em que os elementos pertinentes à enunciação são localizados no enunciado e analisados em termos actanciais, que se articulam localmente. em uma segunda fase, global e organizada, consistindo na reunião das diversas passagens enunciativas submetidas à análise, que permite deduzir uma estru- tura imanente global dos elementos enunciativos e das operações enunciativas distribuídas ao longo do texto. exemplo acima, posso, digamos, contá-lo com minhas próprias palavras, a um amigo que não o tenha visto. Nesse caso, o filme, que era a metalíngua tradutora do romance, passa a ser língua-objeto para a nova metalíngua que é a minha narração do filme (segunda transcodificação)”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 30 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 31 Para Hammad (ibidem, p.39-40), na medida em que a enuncia- ção enunciada apresenta-se como o “lugar” das transformações das relações entre as instâncias actoriais enunciativas, ela é também o lugar da fidúcia. Por outro lado, as transformações que ocorrem no enunciado enunciado permitem que ele assuma o papel da perfor- mance em relação ao contrato fiduciário da enunciação enunciada. ainda segundo Hammad (ibidem, p.39-40), sua formulação inde- pende do plano da expressão da semiótica examinada, isto é, ela é aplicável a todo tipo de semiótica (verbal ou não verbal). diante dos procedimentos de análise utilizados pela Semiótica, que consistem em submeter um enunciado à análise conforme o percurso gerativo de sentido revelando seu caráter estrutural e sis- têmico ou em investigar os enunciados que apresentam as marcas da enunciação, a fim de identificar a relação entre o enunciado e o sujeito da enunciação, Hammad (ibidem, p.37-8) propõe que um discurso enunciado, isolado no texto-objeto, se submeta à mesma análise descritiva, porém como um processo proveniente de um sistema, ou ainda que um conjunto enunciativo, que reúne as marcas da enunciação como se apresentam no texto-objeto, seja considerado como uma totalidade estruturável. o autor considera o processo enunciativo como um microuni- verso semântico completo, dotado de sentido e suscetível de ser analisado nos três níveis do percurso gerativo de sentido. essas reflexões demonstram que o processo de enunciação enunciada é metalinguístico em relação ao processo de enunciado enunciado. desse modo, reconhece-se uma relação hierárquica entre as duas totalidades, considerando a enunciação enunciada como uma meta- linguagem operadora, que incide no enunciado enunciado. em Sémiotique: dictionnaire raisonné de la théorie du langage (Courtés; Greimas, 1986), em que seus autores “figuram apenas como organizadores e autores de poucos verbetes e em que os verbe- tes são redigidos em seu conjunto por vinte colaboradores” (Portela, 2012, p.7), denis Bertrand, um dos colaboradores, no verbete “enunciação”, considera que esse conceito ainda gera certa confusão. Para Bertrand, uma linguística da enunciação deve preocupar-se Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 31 01/02/2014 12:08:29 32 MARIA goRETI SIlvA PRADo com a construção de um sistema de representação metalinguístico que simule os atos dos sujeitos enunciadores. assim, para cons- truir seu enunciado, um sujeito enunciador estabelece uma relação predicativa a partir de um acontecimento, definindo também suas coordenadas espaçotemporais em relação à enunciação. o enunciado produzido conserva os traços desse mecanismo de modo que um segundo sujeito da enunciação, o enunciatário, possa reconstruí-los para interpretar o sentido do enunciado. diante do exposto, nota-se a existência de dois tipos de con- tratos que podem se estabelecer no discurso: os que dependem do enunciado e os que dependem da enunciação. Como estratégia de persuasão, o enunciador pode construir um discurso em que haja desacordo entre essas duas instâncias, porém o conflito estabelecido é entre o enunciado enunciado e a enunciação enunciada. a esse respeito, Fiorin (2002, p.39-40, destaques do autor) esclarece que: trata-se, com efeito, de um jogo que se estabelece entre o ser (dizer) e o parecer (dito). o enunciatário atribuirá aos discursos em que haja acordo entre o enunciado e a enunciação o estatuto de ver- dade (/ser/ e /parecer/) ou de falsidade (/não ser/ e /não parecer/) e àqueles em que se manifeste um conflito o estatuto de mentira (/não ser/ e /parecer/) ou de segredo (/ser/ e /não parecer/). esses dife- rentes mecanismos discursivos fazem parte de distintas estratégias de persuasão, que visam a revelar um fato (verdade ou falsidade) ou a dissimulá-lo, mas chamando atenção sobre ele (mentira ou segredo), a desvelar um significado ou a velá-lo. Com esses mecanismos, o enunciador consegue dois efeitos de sentido distintos: a franqueza ou a dissimulação. esta deve ser entendida como a reunião de dois modos de ver um fato, como maneira de mostrar a ambiguidade de alguma coisa e as múltiplas maneiras de interpretá-las. a enunciação é considerada o ato produtor do discurso e cons- titui o elemento sintáxico discursivo. a sintaxe discursiva trata das projeções da enunciação no enunciado e das relações entre enunciador e enunciatário. Para construir o discurso, ela projeta as Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 32 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 33 categorias de pessoa, tempo e espaço por meio de dois mecanismos denominados debreagem e embreagem. dessa forma, há debreagem e embreagem actancial, temporal e espacial. a debreagem pode ser enunciativa, quando instaura o eu-aqui-agora, produzindo um efeito de subjetividade e de aproximação, ou enunciva, instaurando o ele-alhures-então, produzindo um efeito de objetividade e de distan- ciamento, recurso que é, geralmente, usado no discurso científico, uma vez que “na prática científica procura-se eliminar ou atenuar os traços individuais da enunciação fônica recorrendo a sujeitos diferentes e multiplicando os registros” (Benveniste, 2006, p.82). a debreagem enunciativa pode construir dois tipos de proces- sos discursivos: a enunciação enunciada e a enunciação reportada, também denominada debreagem de segundo grau. a enunciação enunciada, entendida como o simulacro da enunciação, caracteriza o discurso em primeira pessoa, “é o conjunto de marcas, identificáveis no texto, que remetem à instância de enunciação” (Fiorin, 2002, p.36). a enunciação reportada possui duas instâncias enunciativas: o “eu” do narrador, que, por sua vez, dá voz ao “eu” do interlocutor. Conhecida como debreagem interna ou de segundo grau, é uma instância dentro da outra, e cada uma conserva suas próprias marcas de pessoa, tempo e espaço. em relação à debreagem interna, Fiorin (2002, p.45-6, destaques do autor) esclarece que ocorre o mecanismo de debreagem interna quando um actante já debreado, seja ele da enunciação ou do enunciado, se torna instância enunciativa, que opera, portanto, uma segunda debreagem, que pode ser enunciativa ou enunciva. É assim, por exemplo, que se constitui um diálogo: com debreagens internas, em que há mais de uma instância de tomada da palavra. essas instâncias subordinam-se umas às outras: o eu que fala em discurso direto é dominado por um eu narrador que, por sua vez, depende de um eu pressuposto pelo enunciado. em virtude dessa cadeia de subordi- nação diz-se que o discurso direto é uma debreagem de segundo grau. Seria de terceiro se o sujeito debreado em segundo grau fizesse outra debreagem. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 33 01/02/2014 12:08:29 34 MARIA goRETI SIlvA PRADo o enunciado enunciado resulta do mecanismo conhecido como debreagem enunciva, que caracteriza o discurso em terceira pes- soa. Fiorin (ibidem, p.36) afirma que o enunciado enunciado “é a sequência enunciada desprovida de marcas de enunciação”. a embreagem diz respeito à neutralização das categorias de pessoa, tempo e espaço no enunciado. É um retorno das formas já debreadas à enunciação, criando um efeito de identificação das cate- gorias de pessoa, tempo e espaço do enunciado com as da enunciação. Segundo Fiorin (ibidem, p.118-21), pode haver três diferentes tipos de ocorrências do mecanismo de embreagem actancial. o primeiro corresponde ao uso de “ele” significando “eu”, ou, ao contrário, “eu” com o significado de “ele”. o segundo, “tu” sendo usado com o sentido de “eu”. Por fim, o terceiro caso de embreagem, consi- derado em um sentido mais amplo, é o que Fiorin (ibidem, p.122) denominou de “macroembreagem”. Considerando os diferentes níveis enunciativos – narrador/narratário, enunciador/enunciatá- rio e interlocutor/interlocutário –, o processo de macroembreagem corresponde à passagem de um actante de um nível a outro. a seguir procuramos resumir em um diagrama o processo de enunciação em Semiótica. Figura 1 – Processo de enunciação em Semiótica eNUNCiaÇÃo • ato que produz o enunciado • sempre pressuposta • projeta as categorias de pessoa, tempo e de espaço no discurso por meio dos mecanismos de debreagem e embreagem eMBreaGeM (retorno das formas já debreadas à enunciação) deBreaGeM • enunciativa • enunciva enunciação enunciada (eu-aqui-agora) enunciação reportada – enunciado enunciado (ele-alhures-então) Fonte: elaboração própria. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 34 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 35 Para sistematizar os conceitos de debreagem e de embreagem selecionamos alguns trechos de A hora da estrela (1977), de Clarice lispector, nosso objeto de análise neste trabalho. Como ilustração da debreagem enunciativa, que configura a enunciação enunciada, destacamos dois fragmentos por meio dos quais se verificam as três categorias enunciativas – de pessoa (eu- -narrador), de espaço (“aqui” configurado na frase “neste cubículo onde me tranquei”) e de tempo (“agora”), conforme demonstram os enunciados a seguir: Para desenhar a moça tenho que me domar e para poder captar sua alma tenho que me alimentar frugalmente de frutas e beber vinho branco gelado pois faz calor neste cubículo onde me tranquei e de onde tenho a veleidade de querer ver o mundo. (lispector, 1977, p.28-9) agora (explosão) em rapidíssimos traços desenharei a vida pre- gressa da moça até o momento do espelho do banheiro. (ibidem, p.35) a debreagem enunciativa pode configurar também o processo conhecido como enunciação reportada. esse processo é considerado um simulacro da enunciação dentro do discurso. Para ilustrar esse procedimento, selecionamos o seguinte trecho: esqueci de dizer que no dia seguinte ao que ele lhe dera o fora ela teve uma ideia. Já que ninguém lhe dava festa, muito menos noi- vado, daria uma festa para si mesma. a festa consistiu em comprar sem necessidade um batom novo, não cor-de-rosa como o que usava, mas vermelho vivante. No banheiro da firma pintou a boca toda e até fora dos contornos. [...] Quando voltou para a sala de trabalho Glória riu-se dela: – você endoidou, criatura? Pintar-se como uma endemoniada? você até parece mulher de soldado e marinheiro. – Sou moça virgem! Não sou mulher de soldado e marinheiro. (ibidem, p.74-5) Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 35 01/02/2014 12:08:29 36 MARIA goRETI SIlvA PRADo Nesse enunciado, os actantes que falam (Glória e Macabéa) simulam os actantes da enunciação eu/tu, no tempo presente e no espaço “aqui”. Fiorin (2002, p.46) destaca que esse procedimento “cria um efeito de sentido de realidade, pois parece que a própria personagem é quem toma a palavra e, assim, o que ouvimos é exa- tamente o que ela disse [...]”. a debreagem enunciva gera o enunciado enunciado. ela pode ser exemplificada neste segmento: Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. Muito depois fora para Maceió com a tia beata [...]. (lispector, 1977, p.35) Nesse caso, temos debreagem temporal, espacial e actancial enunciva, visto que há a instalação de um “ele” como actante do enunciado (“lhe haviam morrido os pais”), um espaço distante em relação ao espaço de enunciação (“lá onde o diabo perdera as botas”) e uma ordenação temporal dos fatos que indica uma não concomi- tância em relação ao fato narrado e ao presente enunciativo (“Muito depois [que os pais de Macabéa morreram] fora para Maceió”). No texto de lispector encontramos procedimentos radicais de embreagens actanciais enunciativas, configurando o processo de redução do ato de comunicação à concomitância da enunciação. a seguir destacamos dois fragmentos que revelam de forma contun- dente essa estratégia de enunciação enunciada: Como que estou escrevendo na hora mesmo em que sou lido. (ibidem, p.16) escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. (ibidem, p.16) esse tipo de abordagem sobre a enunciação, que destaca as arti- culações internas do texto, caracterizou a pesquisa semiótica sobre a enunciação durante o período de 1970 a 1980. Na fase seguinte Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 36 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 37 dos estudos semióticos, centrada nas operações de discursivização, concebeu-se, entre outras coisas, a enunciação não apenas como uma instância pressuposta pelo enunciado, mas em termos de interação entre o sujeito da enunciação e o objeto semiótico. em um artigo publicado na revista Nouveaux Actes Sémiotiques intitulado “l’énonciation comme acte sémiotique”, Joseph Cour- tés (1998), prudente e atento à homogeneidade da teoria, concedeu à enunciação uma posição diferente em relação à dos anos 1970 e 1980, que a considerava tão somente uma instância pressuposta. Nesse estudo, Courtés postulou que, a partir da década de 1990, as reflexões sobre a enunciação consideraram a interação entre enunciador e enunciatário e seu objeto, configurando uma relação de reciprocidade. denis Bertrand (1993), em “l’impersonnel de l’énonciation”, declarou que uma concepção subjetiva e individual do ato de enunciação foi progressivamente substituída por uma abordagem intersubjetiva, dialógica e fiduciária do mesmo ato. desse modo, as reflexões de Bertrand fundamentam a hipótese de Courtés (1998). a preocupação dos estudos enunciativos não é mais com o objeto semiótico (o enunciado) articulável em forma da expressão e em forma do conteúdo, mas com o próprio ato de enunciação, cujo produto é o enunciado. de acordo com Courtés (ibidem, p.15-6), em relação aos modos de existência – virtualizado, atualizado, potencializado e realizado –, o ato de enunciação, ato que produz o objeto semiótico, é da ordem da atualização; uma vez que esse objeto tenha sido produzido e colocado em circulação, a enunciação passa a corresponder à fase da realização. a existência virtual, nível pressuposto pela enunciação, diz respeito à decomposição do objeto em plano do conteúdo e em plano da expressão. É nesse nível que se encontram os elementos culturalmente variáveis que permitem a construção de diferentes narrativas. Na interação entre enunciador e enunciatário, a problemá- tica que se coloca é em relação à produção e à interpretação. a questão é qual imagem o enunciador faz de seu enunciatário para Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 37 01/02/2014 12:08:29 38 MARIA goRETI SIlvA PRADo produzir o objeto, e como o enunciatário, a partir do objeto dado, pode “adivinhar” as estratégias adotadas pelo enunciador. o exame das competências sintáxicas, semânticas e modais dos actantes da enunciação e as questões de intratextualidade e de intertextuali- dade fornecem-nos os elementos para construir, sob influência da retórica, o que desde meados dos anos 2000, em Semiótica, costu- mou-se denominar o éthos do enunciador e o páthos do enunciatário (Fiorin, 2004a; 2004b). Segundo Courtés (1998), primeiramente o enunciador dispõe de uma competência semântica, por meio da qual o desenvolvimento virtual de uma determinada ação poderá ou não se realizar. a com- petência semântica, no entanto, não basta para que o enunciador realize sua ação. Para isso é preciso que ele seja dotado de uma competência modal. existe uma relação hierárquica entre as duas, isto é, a competência modal pressupõe a competência semântica. a competência modal, pressupondo a competência semântica, permite a passagem ao ato, mas não implica que ele realmente ocorra, pois um sujeito pode ter seus deveres e não os realizar. dessa forma, os modos de existência do percurso do enunciador podem estabelecer-se a partir do que foi proposto por Fontanille e Greimas (1993) em Semiótica das paixões, em que os autores introduzem um quarto modo, o potencializado, que consiste em um modo hipotético situado entre o atualizado e o realizado, e con- siderado a “porta de entrada” da noção de corpo na epistemologia semiótica, já que esse modo de existência poderia explicar por que nem toda competência se realiza ou por que não se configura na performance correspondente. Pode-se dizer que, talvez, isso não ocorra pela falta de um impulso passional necessário para se passar à ação. a partir dos estudos sobre as paixões estabeleceu-se a seguinte sequência: virtualização – atualização – potencialização – realização. Joseph Courtés (1998) propõe uma explicação para esse modelo apresentado por Fontanille e Greimas (1993). Para ele, o ato de enunciação permite ao enunciador passar da virtualização, instauração do sujeito, à atualização, qualificação do sujeito, e, pos- teriormente, da potencialização à realização, que produz o objeto Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 38 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 39 semiótico, ao mesmo tempo que permite a realização do sujeito. esse modelo tenta unir as modalidades do “ser” (potencializantes e realizantes) e do “fazer” (virtualizantes e atualizantes), que, à pri- meira vista, não podem ser isótopas, nem se pode afirmar que sejam absolutamente heterogêneas. Há, entre elas, complementaridade e, em alguns casos, sobredeterminação, procedimentos que, de certa maneira, as aproximam. a questão que Courtés (1998) formula é em relação à possibi- lidade de construir-se um quadrado semiótico das modalidades. Para ele, isso é possível não com as modalidades potencializantes, mas com as determinantes, que impulsionam a “passagem ao ato”, impedindo que o ator se oculte a seu destino, ou seja, que se afaste do percurso que o conduz à realização. as modalidades determinantes seriam mais da ordem do “precisar fazer”,3 e não do /não poder não fazer/. essa modalidade “determinante” (tida como uma fatalidade) é, por definição, de natureza impessoal, exterior ao sujeito que ela modaliza, mas, de alguma maneira, esse sujeito não pode dela se afastar. Courtés (ibidem, p.25) propõe o seguinte esquema para os modos de existência do sujeito, cujo percurso obedece às indicações das setas:4 Figura 2 – esquema dos modos de existência do sujeito, segundo Courtés Sujeito atualizado Sujeito virtualizado Sujeito atualizado Sujeito determinado Fonte: Courtés, 1998, p.25. 3 No original: “falloir faire” (Courtés, 1998, p. 25). 4 voltaremos a essa questão no Capítulo 2, “tensividade e ponto de vista”, ao tratar sobre “a reorganização dos modos de existência no quadrado semiótico”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 39 01/02/2014 12:08:29 40 MARIA goRETI SIlvA PRADo No processo enunciativo, o enunciatário também deve ser dotado de uma competência semântica comparável à do enunciador, e de uma competência modal apropriada para que ele compreenda o que lhe é proposto. as duas competências actanciais (do enunciador e do enunciatário) podem manter, entre elas, relações de conformi- dade ou não, tanto no plano sintáxico quanto no semântico, que podem facilitar, ou não, a comunicação. em relação à competência semântica, certo nível cultural deve ser comum entre os sujeitos da enunciação. entre o enunciador, o enunciatário e o objeto produzido existe uma relação tensiva, considerada a base de toda comunicação intersubjetiva. entre o enunciador e o objeto há uma orientação que vai do sujeito enunciante ao objeto, e vice-versa. Paralelamente, é possível imaginar uma orientação no sentido do objeto para o enunciatário, exercendo uma influência patêmica sobre seu admirador. É prati- camente impossível dissociar o sujeito da enunciação do objeto, que pode ser verbal, não verbal ou, ainda, um objeto sincrético. a apreensão de um objeto depende dos pontos de vista enun- ciativos. isso equivale a dizer que um objeto semiótico nunca é apreendido em sua totalidade. ele apresenta várias facetas, e cada enunciação é obrigada a fazer uma escolha, eleger um ponto de vista por meio do qual buscará a apreensão máxima. Courtés (ibidem, p.33-4) assume que o “objeto” semiótico, enquanto tal, é de natureza sempre “virtual”, inatingível enquanto totalidade, enquanto unidade delimitada. Certamente, uma enunciação particular pode ser empregada, mas sob um determinado ângulo, considerando-o em relação ao nível de pertinência escolhido, sendo então os outros elementos constitutivos do “objeto” totalmente virtualizados. [...] Uma determinada enun- ciação é uma atualização que virtualiza ao mesmo tempo todos os outros ângulos de vista disponíveis.5 5 No original: “l’‘objet’ sémiotique, en tant que tel, est de nature toujours ‘virtuelle’, hors d’atteinte en tant que totalité, en tant qu’unité délimitée donnée: certes, une Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 40 01/02/2014 12:08:29 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 41 Para o autor, a singularidade da enunciação é uma questão de ponto de vista em que os dois actantes da enunciação (enunciador e enunciatário) adotariam uma posição em comum, um ponto de vista determinado. Nesse sentido, o actante observador seria delegado pelo enunciador e pelo enunciatário. ainda no primeiro capítulo deste livro, em “abordagens na semiótica padrão”, apresentaremos as reflexões de Jacques Fontanille referentes ao conceito de actante observador. após ter procurado definir e pontuar o percurso de formulação teórica da enunciação em Semiótica, passaremos à exposição sobre o conceito ponto de vista, que, em nossa hipótese, é um conceito bastante operatório na análise da enunciação, já que induz o analista a discriminar e a organizar competências semióticas de tipo percep- tivo, cognitivo, pragmático e passional, que, não raramente, estão a cargo de sujeitos distintos. O conceito de ponto de vista A extensão da metalinguagem natural à meta- linguagem técnica atesta com propriedade a importância crucial dessa noção [o ponto de vista]: não há enunciado, qualquer que seja sua dimensão, que não esteja submetido à orientação de um ponto de vista. Bertrand (2003, p.113) de acordo com o Dicionário de semiótica (2008), define-se o conceito de ponto de vista como um conjunto de procedimentos utilizados intencionalmente pelo enunciador como estratégia que énonciation particulière peut le prendre en charge, mais alors sous un seul angle donné, ne le considerant que par rapport au niveau de pertinence choisi, les autres éléments constitutifs de l’‘objet’ étant alors totalement virtualisés. [...] Une énon- ciation donnée est une actualisation qui virtualise du même coup tous les autres angles de vue disponibles”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 41 01/02/2014 12:08:30 42 MARIA goRETI SIlvA PRADo visa a afetar seu enunciatário. Nesse sentido, pode-se dizer que o conceito de ponto de vista pertence a um processo mais geral, a enunciação. em narratologia, noções como visão, modo, centro de orientação, focalização, perspectiva, dentre outras, fazem referência a esse mesmo conceito. Na linguagem comum, o termo ponto de vista também é muito utilizado. diante disso, torna-se necessária uma reflexão, breve que seja, sobre seu uso cotidiano. Na entrada “ponto”, o Dicionário Houaiss (2001) traz, na acepção “ponto de vista”, as seguintes definições: 1. ponto eleito por um artista plástico para melhor observar o objeto que deseja reproduzir artisticamente, especialmente quanto a questões de perspectiva; 2. ângulo do qual algo ou alguém é observado, ou considerado; 3. perspectiva; 4. lugar alto de onde se avista uma vasta paisagem; 5. recurso literário que tem a finalidade de situar o narrador no âmbito da obra etc. No uso cotidiano, essa expressão também é usada no sentido de “opinião”. Nesse mesmo dicionário, no verbete “opinião”, uma das definições registra “posição precisa, ponto de vista que se adota em um domínio particular (social, religioso, político, intelectual etc.)”. Nota-se que o elemento sêmico comum que a expressão apresenta é: posição de onde alguém se coloca para melhor observar algo. a “posi- ção” pode ser interior (considerar) ou exterior (ver), mas sempre sob uma condição modal “para melhor observar”. Como se vê, o Dicio- nário Houaiss menciona “perspectiva” como uma das definições de ponto de vista. No verbete “perspectiva”, algumas das definições que o mesmo dicionário apresenta são: 1. técnica de representação tridimensional que possibilita a ilusão de espessura e profundidade das figuras; 2. vista ao longe até onde os olhos alcançam, prospectiva; Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 42 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 43 3. forma ou aparência sob a qual algo se apresenta; 4. sentimento de esperança, expectativa. o elemento sêmico comum que se depreende é relevo, destaque ou aparência sob a qual algo se apresenta. apesar de registrar “pers- pectiva” como uma das definições para o termo “ponto de vista”, o próprio Houaiss faz a distinção entre os dois termos. Notam-se, pelo menos, dois sentidos divergentes apresentados pelo dicionário. Primeiro, para se estabelecer um ponto de vista são necessários três elementos fundamentais – (a) um sujeito situado em (b) uma deter- minada posição e (c) um objeto para ser observado; já “perspectiva” diz respeito a um objeto produzido, por meio de uma técnica de representação, para ser observado. a perspectiva é considerada uma técnica de representação. o ponto de vista, por sua vez, não é um recurso técnico, é um efeito de sentido, ou “de visão”, construído por alguém em um tempo e em um espaço delimitado, sobre deter- minado objeto. Nota-se que no Dicionário de semiótica (2008), ao definirem as expressões “ponto de vista” e “perspectiva”, Courtés e Grei- mas enfatizaram essa distinção. assim, na definição de “ponto de vista”, os autores destacaram a presença “do sujeito cognitivo dito observador” (Courtés; Greimas, 2008, p.377); e, ao definirem “pers- pectiva”, eles declaram que esta não “necessita da mediação de um sujeito observador” (ibidem, p.376). Para esses autores, caracterizá- -la como um recurso técnico significa que a noção de “perspectiva” depende do programa narrativo colocado em relevo em uma nar- ração. isso pode ser considerado uma técnica usada para destacar determinado programa narrativo. diferentemente, “ponto de vista” diz respeito a um conjunto de procedimentos que o enunciador uti- liza para diversificar a leitura de determinado texto, portanto, não é considerado um recurso técnico, e sim um efeito de sentido. No segundo tomo do Sémiotique (1986), Jacques Fontanille reformula as definições desses dois conceitos, considerando a existência de um “ponto de vista perspectivo”, que apresentaremos ainda neste capítulo em “abordagens na semiótica padrão”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 43 01/02/2014 12:08:30 44 MARIA goRETI SIlvA PRADo alain rabatel, pesquisador francês, também destacou a confusão terminológica e, consequentemente, conceitual de “ponto de vista”, como se vê a seguir: as noções de focalização, de empatia, de evidencialidade, de alcance ou de universo discursivo são frequentemente evocadas para dar conta de fenômenos próximos, a ponto de os considerarmos como parassinônimos da noção de ponto de vista [...]. (rabatel, 2008, p.81)6 Por conta disso, a noção de ponto de vista merece uma análise mais detalhada. rabatel (ibidem) desenvolveu um profundo estudo sobre a abordagem enunciativa do conceito de ponto de vista. Seu objetivo foi mostrar que a análise minuciosa de um texto depende de uma teoria do ponto de vista que articule as abordagens linguística, esti- lística e literária, considerando as paixões, emoções e sensações, o que implica ultrapassar uma abordagem imanentista da narrativa e basear-se em uma análise interacional da narração. rabatel (ibidem, p.11-2) afirma que: a ruptura com as abordagens narrativas que fazem da superfí- cie do discurso a manifestação de estruturas imanentes profundas não implica o abandono das obras que representam o esquema actancial, os percursos semióticos inscritos no quadrado semiótico, os esquemas ternário ou quinário da narrativa, as isotopias etc. ela convida, ao contrário, a considerá-los, nos quadros teóricos que permitam apreender mais finamente o jogo interacional das personagens (teorias das interações) assim como os jogos da nar- ração (análises pragmáticas dos atos de discurso, do apagamento enunciativo, de argumentação direta ou indireta), unida a uma 6 No original: “Les notions de focalisation, d’empathie, d’évidentialité, de portée ou d’univers de discours sont souvent évoquées pour rendre compte de phénomènes approchants, au point qu’on les considère comme des parasynonymes de la notion de point de vue […]”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 44 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 45 abordagem renovada da enunciação que cruza suas problemáticas com as da narratologia, em proveito mútuo dos dois paradigmas [enunciação e narratologia] [...].7 Para esse estudioso francês, analisar o ponto de vista em um texto consiste em, de um lado, determinar o aspecto de seu con- teúdo proposicional e, de outro, investigar sua origem enunciativa a partir da determinação de seus referentes e das escolhas das frases que constituem o texto, inclusive quando o ponto de vista estiver implícito. de acordo com essa reflexão, a problemática desse con- ceito envolve questões de enunciação e de referenciação, tomadas de perspectivas opostas, uma vez que a enunciação parte das caracte- rísticas do sujeito enunciador até englobar as escolhas de construção dos referentes (construção dos objetos) e a referenciação fixa-se na construção dos objetos do discurso e, posteriormente, determina as escolhas que remetem a um ou a vários enunciadores. rabatel considera os elementos estruturantes da narrativa como traços do processo interacional e pragmático, que resultam das escolhas feitas pelo escritor em função da situação, do gênero, da imagem do leitor etc. essas escolhas, que afetam o leitor, são analisáveis enquanto indicadores do ponto de vista tanto sobre a história contada como sobre a narração. as escolhas dos elementos discursivos revelam como o escritor e o leitor, por meio da relação com o mundo e com a linguagem, constroem seu “ser” no mundo. 7 No original: “La rupture avec les approches du récit qui font de la surface du discours la manifestation de structures profondes immanentes n’implique pas l’abandon des outils que représentent le schéma actantiel, les parcours sémiotiques entés sur le carré sémiotique, les schémas ternaire ou quinaire du récit, les isoto- pies, etc. Elle invite au contraire à les reconsidérer, dans des cadres théoriques qui permettent d’appréhender plus finement le jeu interactionnel des personnages (théories des interactions) ainsi que les enjeux de la narration (analyses pragmati- ques des actes de discours, de l’effacement énonciatif, de l’argumentation directe ou indirecte), en lien avec une approche renouvelée de l’énonciation qui croise ses problématiques avec celles de la narratologie, pour le profit mutuel des deux paradigmes [...]”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 45 01/02/2014 12:08:30 46 MARIA goRETI SIlvA PRADo esse pensamento de rabatel remete-nos à definição de enunciação em Semiótica, apresentada em “a enunciação em semiótica”. o autor distingue três instâncias enunciativas do ponto de vista. a primeira corresponde ao “locutor/enunciador primeiro” (externo ao enunciado), considerado enunciador em sincretismo com o locu- tor, visto que o ponto de vista é expresso pelo locutor por meio de seu papel no processo de enunciação, como ser do mundo e como sujeito falante. a segunda instância narrativa é interna ao enunciado, sendo denominada “locutor/enunciador segundo”. No caso das nar- rativas, essa instância corresponde à personagem, reconhecida como centro de orientação, que reúne ao seu redor determinado número de conteúdos proposicionais. esses conteúdos indicam o ponto de vista do enunciador intradiscursivo (da personagem) referente a determinado fato. Portanto, nesse segundo tipo, o locutor relata as percepções da personagem. a terceira, também interna ao enun- ciado, designa-se “enunciador não locutor”. esse terceiro tipo difere do segundo pelo fato de que as percepções são expressas diretamente pelas falas da personagem, isto é, em discurso direto. dessa forma, rabatel postula três estados de pontos de vista: o representado, o narrado e o assertivo ou afirmativo. o ponto de vista “representado” recebe essa denominação por- que a percepção de determinado objeto apresenta-se representada no enunciado. ele é apreendido a partir das relações sintáxicas e semân- ticas entre um sujeito que percebe (focalizador ou enunciador), um processo de percepção e entre um objeto percebido (o focalizado). a presença desses três elementos, no entanto, não é obrigatória, nem suficiente para que se configure a existência do ponto de vista representado. Para isso é necessária também a presença de um con- junto de características relativas à referenciação do focalizado, isto é, a descrição do objeto. as percepções representadas pelo locutor/enunciador primeiro, normalmente o narrador, expressam o ponto de vista de um locutor/ enunciador segundo, considerado a principal fonte enunciativa, mesmo quando o enunciado não se apresenta em discurso direto. a discordância enunciativa entre enunciador primeiro e enunciador Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 46 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 47 segundo é evidente nos enunciados em terceira pessoa, isto é, nos enunciados em que o narrador está ausente. Gérard Genette (2007) denominou esse tipo de narrador de heterodiegético. Nesse caso, o ponto de vista apresenta-se como um fenômeno enunciativo “pró- ximo” do discurso indireto livre, pois expressa as percepções que não são as do narrador, ainda que sejam relatadas por ele. Nessas narrativas, conhecidas como heterodiegéticas,8 esse ponto de vista apresenta um paradoxo, pois, apesar de exprimir a subjetividade de certas percepções e de pensamentos, os enunciados são construídos em terceira pessoa e no tempo passado. Como ilustração desse pro- cesso, destacamos a seguir o fragmento do livro A hora da estrela: Macabéa entendeu uma coisa: Glória era um estardalhaço de existir. e tudo devia ser porque Glória era gorda. (lispector, 1977, p.74) o narrador do fragmento em destaque é considerado hetero- diegético, mas as percepções em relação à personagem Glória (“e tudo devia ser porque Glória era gorda.”) não são assumidas pelo narrador, e sim por Macabéa. isso indica o ponto de vista de uma personagem diferente do “sujeito falante”, isto é, diferente do narrador. o ponto de vista representado opera também em enunciado construído em primeira pessoa (narrador homodiegético), situa- ção em que o enunciador primeiro (eu narrante) se apresenta em sincretismo com o enunciador segundo (eu narrado). este trecho selecionado do texto de lispector ilustra bem esse tipo de ponto de vista: Pretendo, como já insinuei, escrever de modo cada vez mais simples. aliás o material de que disponho é parco e singelo demais, as informações sobre os personagens são poucas e não muito 8 ainda neste capítulo, em “antecedentes na teoria literária”, explicitaremos o conceito de heterodiegese. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 47 01/02/2014 12:08:30 48 MARIA goRETI SIlvA PRADo elucidativas, informações essas que penosamente me vêm de mim para mim mesmo, é trabalho de carpintaria. (ibidem, p.19) Nesse enunciado, narrador e personagem estão em sincretismo, portanto, as percepções do enunciador segundo são assumidas também pelo enunciador primeiro. Na construção enunciativa da obra A hora da estrela há o predomínio do ponto de vista represen- tado, com alternância da instância que assume as percepções. ora são as percepções do enunciador primeiro (rodrigo S. M.) que são representadas, ora são as do enunciador segundo (Macabéa), como comprovam os exemplos anteriormente apresentados. Para que haja um ponto de vista representado, é preciso que o focalizador descreva, em detalhes, os diferentes aspectos de sua percepção e teça alguns comentários sobre eles. Segundo rabatel (2008, p.100, destaques do autor), o ponto de vista MOSTRADO ou REPRESENTADO dá conta das narrativas escritas segundo a perspectiva de uma personagem que é também um focalizador visionário, a referenciação do focalizado remete diretamente às percepções, aos pensamentos, ao saber, aos julgamentos de valor do focalizador.9 o tipo de ponto de vista “narrado” constrói-se a partir do con- ceito de empatia, considerado, de uma forma simplificada, como um fenômeno que consiste em relatar as informações a partir de um dos atores do enunciado, ocorrendo uma identificação do locutor com tal ator, ou seja, de maneira que o locutor apreenda as infor- mações e apresente-as do modo como determinado ator apreende. assim, os mecanismos de categorização ou de descategorização do referente, a escolha dos pronomes, dos adjetivos possessivos, entre outros, desempenham papel importante na construção desse ponto 9 No original: “le point de vue MoNtrÉ ou rePrÉSeNtÉ rend compte de récits écrits d’après la perspective d’un personnage qui est aussi un focalisateur voyant, la référenciation du focalisé renvoyant directement aux perceptions, aux pensées, au savoir, aux jugements de valeur du focalisateur”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 48 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 49 de vista, visto que confirmam tratar das percepções representadas por uma personagem particular, e não de uma descrição do narrador. de acordo com rabatel (ibidem, p.100, destaque do autor), o ponto de vista narrado é “útil para a análise de textos escritos segundo a perspectiva de uma personagem, sem que essa personagem seja um autêntico focalizador, ou seja, sem que o texto recorra a uma debreagem enunciativa”.10 Como exemplificação desse tipo de ponto de vista, destacamos o seguinte fragmento do texto de lispector (1977, p.86): [...] como o dinheiro era emprestado, ela [Macabéa] raciocinou tortamente que não era dela e então podia gastá-lo. esse enunciado evidencia que as percepções de Macabéa não estão representadas no texto, mas relatadas pelo narrador. o ponto de vista “narrado” não se refere às falas das personagens nem aos propósitos do narrador. o desenvolvimento de uma ativi- dade narrativa propriamente dita, isto é, a presença de comentários explícitos do narrador ou das falas das personagens, muda a natureza do ponto de vista, que se torna assertivo (ou afirmativo). o ponto de vista “assertivo” assemelha-se à noção de opinião manifestada ou de tese. esse tipo de ponto de vista não aparece somente em textos argumentativos, monológicos ou dialógicos, mas também em textos narrativos, sendo representado pelas falas das personagens ou pelos julgamentos do narrador. Para ilustrá-lo, segue-se o diálogo entre Macabéa e olímpico: – desculpe mas não acho que sou muito gente. – Mas todo mundo é gente, meu deus! – É que não me habituei. – Não se habituou com quê? – ah, não sei explicar. (ibidem, p.59) 10 No original: “utile pour l’analyse de textes écrits d’après la perspective d’un per- sonnage, sans que ce personnage ne soit un authentique focalisateur, c’est-à-dire sans que le texte recoure à un débrayage énonciatif”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 49 01/02/2014 12:08:30 50 MARIA goRETI SIlvA PRADo Nesse enunciado, as percepções de Macabéa são expressas diretamente pela fala da personagem. esse é um tipo de construção discursiva que caracteriza o ponto de vista assertivo. de maneira resumida, apresentamos os três tipos de pontos de vista postulados por rabatel (2008). o ponto de vista representado garante às percepções pessoais um aspecto objetivo, pois o leitor depara-se com enunciados construídos sem a presença de falas. o ponto de vista narrado mascara as falas por trás de uma narração também objetiva. Por fim, o ponto de vista assertivo repercute explicitamente a origem enunciativa, pois se constrói a partir dos atos de falas e dos julgamentos. Segundo rabatel (ibidem), o fenômeno do ponto de vista é um tipo de agente duplo que, de um lado, contribui com a construção da personagem e do universo narrativo, colaborando com o mecanismo de interpretação do leitor, e, de outro, impõe as interpretações sob a máscara da liberalidade. É como se as percepções fossem objetivas, ao mesmo tempo que remetem a uma origem particular; que aconte- cessem de determinada maneira, ao mesmo tempo que se submetem à perspectiva de outros atores da ação; como se fossem exatamente como são, e não tributários de uma axiologia e de uma orientação argumentativa. acreditamos que as considerações de rabatel refletem uma ideia bastante atual e amadurecida sobre a noção de ponto de vista nas ciências da linguagem, em especial nos estudos do discurso. a complexidade que ela revela estava já codificada nas primeiras explorações sobre o conceito de ponto de vista no âmbito da teoria literária, como veremos a seguir, antes de nos aprofundarmos nas abordagens da Semiótica padrão sobre o ponto de vista. Antecedentes na teoria literária Com a finalidade de apresentar as diferentes abordagens do conceito de ponto de vista, faremos uma reflexão sobre algumas tipologias da teoria literária que versam sobre a problemática da Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 50 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 51 instância narrativa, já que essas tipologias, que remontam ao final dos anos 1940 e começo dos anos 1970, foram pioneiras na abor- dagem desses fenômenos de que a linguística e a Semiótica, à sua maneira, ocupar-se-iam anos depois. definir quem conta uma história ou de que maneira ela é contada é questão que sempre despertara grande interesse entre os teóricos da literatura. Segundo lígia C. Moraes leite (2001, p.6), se narrar é coisa muito antiga, refletir sobre o ato de narrar também o é. Pelo menos é possível recuar essa reflexão teórica sobre as formas de narrar a Platão e a aristóteles. São eles que iniciam, na tradição do ocidente, uma discussão que não vai mais se acabar, sobre qual a relação entre modo de narrar, a representação da realidade e os efeitos exercidos sobre os ouvintes e/ou leitores. Buscando traçar um panorama das reflexões literárias a respeito do assunto, apresentaremos, sumariamente, os estudos desenvolvi- dos por Jean Pouillon (1970), Norman Friedman (2002), tzvetan todorov (1971) e Gérard Genette (2007),11 que tratam, direta ou indiretamente, da construção do ponto de vista nas narrativas literárias. Jean Pouillon (1970, p.58-94) versa sobre a questão da instância narrativa ao definir os “modos de compreensão”. Para ele, o leitor compreende a personagem por meio do autor. isso significa que a personagem só existe porque, antes, foi compreendida pelo autor. esse desencadeamento de “compreensões” é similar ao ideal da compreensão psicológica real, uma vez que se busca ter das per- sonagens o mesmo entendimento que um psicólogo objetiva ter das pessoas reais. É nesse sentido que Pouillon postula que a com- preensão narrativa assemelha-se à compreensão psicológica. assim, 11 visando situar cronologicamente os estudos citados, relacionamos aqui o ano da primeira publicação de cada obra: Jean Pouillon, Temps et roman, 1946; Norman Friedman, Point of View in Fiction, 1955; tzvetan todorov, Les catégories du récit littéraire, 1966; Gérard Genette, “discours du récit”, in: Figures III, 1972. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 51 01/02/2014 12:08:30 52 MARIA goRETI SIlvA PRADo da mesma maneira que o psicólogo, ao examinar a existência das pessoas, determina suas “visões”, o autor, ao investigar as posições de existência das personagens, determina suas possíveis “visões”, que são psicologicamente análogas às das pessoas. Para Pouillon, os dois problemas que envolvem a compreensão da narrativa são: 1) a posição do autor em relação a suas personagens; 2) a natureza daquilo que é compreendido. essas duas questões não se separam, uma vez que a posição tomada por quem deseja compreender é influenciada pelo que se quer compreender. de acordo com Pouillon, questionar sobre a natureza daquilo que é compreendido implica aceitar a realidade psicológica, que se representa de duas maneiras: 1. segundo a psicologia clássica, como um pequeno mundo de sentimentos cujas variações podem ser analisadas sem a interferência do mundo exterior; 2. como algo que garante certa organização ao mundo e que, por conta disso, não se pode estudá-la e descrevê-la de uma maneira isolada. assim, de acordo com Pouillon (ibidem, p.60-1), na perspectiva da psicologia clássica, “a conduta [...] aparece como a transposição de uma vida psíquica que se poderia estudar em si mesma”;12 no segundo modo de representar a realidade psicológica, o autor con- sidera que “esta separação [sujeito-mundo] já não é possível [...]”.13 essas duas maneiras de representação da realidade permitiram ao autor a elaboração de uma tipologia de narração considerando um “dentro”, que corresponde à realidade psíquica, e um “fora”, que é sua manifestação objetiva. Pouillon esclarece que o uso dos termos “dentro” e “fora”, termos de uso da linguagem comum, foi a solução 12 No original: “la conducta [...] aparece como la transposición, de una vida psíquica que se podría estudiar primeramente en sí misma”. 13 No original: “esta separacíon ya no es posible [...]”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 52 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 53 encontrada para distinguir o psicológico propriamente dito da con- duta materialmente descrita. Para Pouillon, o papel da compreensão é captar o “dentro”, instalando-se nele. esse é um processo que ocorre de duas maneiras: quando o que se quer compreender coincide com a realidade psí- quica, temos a visão “com”; ou, quando se busca compreender essa realidade separando-a do autor, temos a visão “por trás”. o “fora”, descrito de um modo puramente objetivo, só importa na medida em que revela a realidade psíquica. o que será examinado nessa situação é a possibilidade de captar-se o “dentro” a partir da observação da conduta material, mecanismo que se denominou visão “de fora”. dessa forma, o autor postula três possibilidades na relação entre narrador e personagem: 1. visão “com” – nela o autor elege uma personagem a partir da qual os fatos serão narrados, ou seja, com ela “vemos” as outras personagens e “vivemos” os fatos relatados, o narrador sabe o que a personagem sabe; 2. visão “por trás” – o centro da visão não é mais a personagem, mas o narrador como se fosse um espectador que conhece de antemão o que vai acontecer, ele sabe mais que a personagem; 3. visão “de fora” – o narrador não mostra explicitamente a personagem, limita-se a descrever sua conduta, sabe menos que a personagem. essa tipologia das “visões” postulada por Pouillon (ibidem) influenciou a tipologia narrativa elaborada por todorov (1971), como veremos mais adiante. outra tipologia, ainda dentro da área da literatura, referente ao mesmo tema, o ponto de vista, porém mais sistemática que a de Pouillon, foi desenvolvida pelo pesquisador norte-americano Norman Friedman. a tipologia do narrador elaborada por Norman Friedman (2002) baseia-se na distinção entre o conceito de “cena” (o mostrar) e “sumário narrativo” (o contar). esses dois modos de apresentação Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 53 01/02/2014 12:08:30 54 MARIA goRETI SIlvA PRADo raramente ocorrem em suas formas puras. a “cena” constitui-se no momento em que surgem detalhes específicos dos elementos da narrativa, como tempo, lugar, ação, personagens e diálogos. É uma característica predominante nas narrativas modernas. o “sumário narrativo” é um relato generalizado de uma série de acontecimentos, em um determinado tempo e em vários lugares, característica que predomina nas narrativas tradicionais. leite (2001, p.14, destaques da autora) esclarece que: Na cena, os acontecimentos são mostrados ao leitor, direta- mente, sem a mediação de um Narrador que, ao contrário, no SUMÁrio, os conta e os resume; condensa-os, passando por cima dos detalhes e, às vezes, sumariando em poucas páginas um longo tempo da HiStÓria. além de se basear na distinção entre esses dois conceitos, Friedman procura responder a quatro questões: (i) Quem conta a história?; (ii) de que posição ou ângulo a história será contada?; (iii) Que canal de informação será usado?; (iv) Qual é a distância entre a história e o leitor? Sua tipologia organiza-se em torno de oito tipos de apreensão narrativa. ordenada do geral para o particular, ou do explícito ao implícito, nota-se que na passagem de um tipo para o outro ocorre certa objetivação do material da história com a eliminação do autor e de qualquer espécie de narrador. isso significa que, de um tipo a outro, vai aumentando a importância de se apresentar o narrado sem a mediação de uma voz exterior. Nesse sentido, a tipologia de Friedman parte da onisciência total (presença do narrador) até o apagamento do narrador. todavia, trata-se da predominância de um tipo ou de outro, e não de exclusividade. Seguem-se os oito tipos de narradores definidos por Friedman: 1. autor onisciente intruso: tem a liberdade de narrar à von- tade, tudo sabe, comenta e critica sem nenhuma neutralidade, pode adotar vários ângulos de visão, dá ênfase à narração. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 54 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 55 Sua principal característica é a intromissão. esse tipo foi muito comum no século Xviii e no começo do século XiX. desaparece quando surge o realismo, havendo tendência ao “sumário narrativo”, embora possa aparecer a “cena”; 2. narrador onisciente neutro: basicamente igual ao primeiro, mas não é intruso, não faz comentários sobre as personagens, embora sua presença entre a história e o leitor seja explícita. assim como o autor onisciente intruso, tende ao “sumário”, o uso da “cena” é mais frequente que o tipo intruso; 3. “eu” como testemunha: narra em primeira pessoa, mas sua participação na narrativa é como personagem secundária. Seu ângulo de visão é mais limitado em relação ao narrador onisciente. Há a predominância da “cena”; 4. narrador-protagonista: narra em primeira pessoa, sua atua- ção na narrativa é como personagem principal da história, limita-se a um centro fixo. Não tem acesso aos pensamentos e aos sentimentos das outras personagens. Há tanto o uso da “cena” como do “sumário narrativo”; 5. onisciência seletiva múltipla ou multisseletiva: o narrador apenas reproduz pensamentos e sentimentos que estão na mente das personagens. os canais de informações e o ângulo de visão podem ser vários. Há o predomínio da “cena”; 6. onisciência seletiva: semelhante à onisciência multisse- letiva, porém limita-se a um centro fixo, como no caso do narrador-protagonista. o ângulo de visão e os canais de informações limitam-se aos pensamentos e sentimentos da personagem principal. a diferença entre onisciência seletiva (os tipos 5 e 6) e onisciência normal (os tipos 1 e 2) reside no fato de que a onisciência seletiva transmite pensamentos e emoções por meio da mente das personagens à medida em que eles ocorrem, havendo o predomínio da cena. a onisciên- cia normal sumariza e explica esses pensamentos depois que eles ocorrem; 7. modo dramático: limita-se às informações que as perso- nagens transmitem por meio de suas ações e das falas, como Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 55 01/02/2014 12:08:30 56 MARIA goRETI SIlvA PRADo se fosse uma peça de teatro. o ângulo é frontal e fixo e a dis- tância entre a história e o leitor é pequena. Uso do discurso direto; 8. câmera: como se a história fosse contada por uma câmera, por meio de flashes, com vários ângulos de visão. além dessas oito tipologias de narradores, o autor distingue três recursos muito usados no romance de século XX, conhecidos como técnicas narrativas utilizadas para acessar a mente das personagens. São eles: análise mental, monólogo interior e fluxo de consciência. a análise mental é um recurso usado pelo narrador com onisciên- cia multisseletiva e seletiva. trata-se da exploração da mente de uma ou de várias personagens. Nessa técnica, ao mesmo tempo que o nar- rador expõe os pensamentos das personagens por meio da “cena”, também os analisa por meio do “sumário narrativo”, fazendo uso do discurso indireto livre. o monólogo interior é uma forma de apresentação dos pensamentos e das percepções das personagens. Fluxo de consciência constitui-se na expressão direta dos estados mentais das personagens, sem sequência lógica, como se fosse uma manifestação do inconsciente. a diferença entre monólogo interior e fluxo de consciência está no grau crescente de desarticulação da linguagem, buscando reproduzir com fidelidade a confusão mental da personagem. apesar de complexa, a tipologia do narrador elaborada por Friedman pode ser resumida em três grandes grupos: narrativa de narrador onisciente, narrativa de ponto de vista e narrativa objetiva. esse reagrupamento foi estabelecido por Gérard Genette (2007) ao estabelecer um consenso entre as diversas tipologias de narradores, estudo que será apresentado logo adiante. Na década de 1960, a problemática envolvendo a questão do conceito de ponto de vista novamente foi objeto de investiga- ção, dessa vez de tzvetan todorov, filósofo e linguista búlgaro. todorov (1971) trata “aspecto e modo” da narrativa como duas categorias que se relacionam com a imagem do narrador. reto- mando a formulação proposta por J. Pouillon (1970) em Los modos Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 56 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 57 de la comprensión,14 que correspondem aos diferentes tipos de percepções dos acontecimentos, isto é, à maneira pela qual os fatos são percebidos pelo narrador, todorov reconhece e classifica três principais tipos: 1. narrador > personagem – o narrador sabe mais que sua personagem, gênero muito utilizado nas narrativas clássicas; 2. narrador = personagem – o narrador sabe tanto quanto as personagens, tipo propagado, principalmente, na época moderna; 3. narrador < personagem – o narrador sabe menos que as personagens, as narrativas desse tipo são mais raras que as outras. os “modos da narrativa” são a maneira pela qual o narrador expõe os fatos aos leitores, isto é, enquanto um narrador “mostra”, o outro só faz “dizê-las”. o autor classifica esses dois modos em: representação, que se identifica com a fala das personagens, e narra- ção, que corresponde à fala do narrador. o autor destaca também a relação narrador/leitor utilizando as expressões “imagem do narra- dor” e “imagem do leitor”. Para todorov (1971, p.246-7), a imagem do narrador não é uma imagem solitária; desde que aparece, desde a primeira página, ela é acompanhada do que se pode chamar “a imagem do leitor”. [...] os dois encontram-se em dependência estreita um do outro, e desde que a imagem do narrador começa a sobressair mais nitidamente, o leitor imaginário encontra- -se também desenhado com mais precisão. [...] esta dependência confirma a lei semiológica geral segundo a qual “eu” e “tu”, o emis- sor e o receptor de um enunciado, aparecem sempre juntos. 14 Segundo capítulo da primeira parte do livro Tiempo y novela, de Jean Pouillon, 1970. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 57 01/02/2014 12:08:30 58 MARIA goRETI SIlvA PRADo essa afirmação do autor remete-nos aos estudos de Benveniste (1976) sobre a “subjetividade da linguagem”, no que diz respeito à capacidade de o locutor impor-se como sujeito de seu discurso, um sujeito que diz: “eu”, no momento em que designa um “tu” como seu interlocutário. Gérard Genette (2007), outro teórico da literatura, elaborou uma tipologia narrativa baseada em três categorias: tempo, modo e voz. Para ele, é importante que a formulação de uma tipologia das “situações narrativas” considere os aspectos de modo e de voz, o que não convém é englobá-los sob a categoria única de ponto de vista. de acordo com Mieke Bal (1977), a principal originalidade da teoria de Genette consiste na distinção entre “perspectiva” e “instância narrativa”, que o autor classifica em modo (quem vê?) e voz (quem fala?), respectivamente. Genette (2007) afirma que o conceito de “modo” diz respeito à regulação das informações narrativas, sendo as noções de perspec- tiva e distância suas modalidades. o interesse pela problemática da distância entre o narrador e o mundo narrado existe desde a época dos filósofos gregos, como mencionado por meio da citação de leite (2001, p.6). É nessa época que surgem os termos mimese (imitar), referente às falas diretas, semelhante ao drama; e diegese (narrar), que corresponde à narrativa pura, tida por mais distante. essa oposição reaparece no final do século XiX e no início do século XX, nos estados Unidos e na inglaterra, sob os termos da língua inglesa “showing” (mostrar) e “telling” (contar), distinção que se relaciona com as diferentes intervenções do narrador, isto é, quanto mais o narrador intervém, mais “conta” e menos “mostra”. Segundo Genette (2007), a noção de “showing” é ilusória, pois nenhuma narrativa pode “mostrar” ou “imitar” a história que conta, apenas narrar de maneira detalhada, dando a ilusão de mimese. Com base na oposição entre mimese e diegese, Genette15 distingue dois tipos de narrativas: narrativa de falas e narrativa de acontecimentos. 15 todorov (1971), em “Modos da narrativa”, também faz essa mesma distinção, classificando-a em representação e narração. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 58 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 59 Na narrativa de acontecimentos, a mimese define-se por um máximo de informação e por um mínimo de informador; a diegese, ao contrário, por um mínimo de informação e por um máximo de informador. essa definição remete-nos, por um lado, a uma questão temporal, pois uma narrativa com muitas informações desenvolve-se de uma maneira mais lenta que uma com menos informações; por outro, a um fato de voz, ou seja, aos diferentes graus de presença da instância narrativa. a narrativa de falas, apesar de ser considerada pura imitação, apresenta graus de mimese. de acordo com a fala da personagem, temos três estados de discurso: 1. discurso relatado ou reportado: a forma mais mimética e mais próxima do discurso, na qual o narrador finge ceder a palavra à personagem. o romance moderno teria levado ao extremo a mimese do discurso ao diluir as marcas da instância narrativa, e dar, logo no início da narrativa, a palavra à per- sonagem. essa técnica é conhecida como monólogo interior ou como discurso imediato. a diferença entre o discurso relatado e o discurso imediato (monólogo) está na introdução declarativa; a diferença entre o discurso imediato e o discurso indireto livre consiste no fato de que, no primeiro, a voz do narrador confunde-se com a da personagem, e, no segundo, o narrador assume o discurso da personagem. É a mesma diferença existente entre narrador onisciente e narrador com onisciência seletiva, de Friedman, tipologia já mencionada neste livro. Para que se caracterize o uso do monólogo não é necessário que ele se estenda por toda a obra, porém, quando isso ocorre, a narrativa apresenta-se no tempo presente e em primeira pessoa; 2. discurso narrativizado ou contado: é o estado mais distante e mais redutor do discurso, próximo ao puro acontecimento; 3. discurso transposto: entre os dois extremos, ou seja, entre mimese e diegese do discurso, encontra-se o discurso trans- posto, um pouco mais mimético que o discurso contado, e Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 59 01/02/2014 12:08:30 60 MARIA goRETI SIlvA PRADo nele o narrador integra as falas da personagem em seu próprio discurso. o segundo modo de regulação da informação é a perspectiva, que Genette, buscando evitar o sentido especificamente visual que “ponto de vista”, “campo restrito” “aspecto” e “visão”, termos adotados por outros teóricos da literatura, têm em comum, opta por chamar “focalização”. Genette (ibidem, p.190) explica que: o que chamamos, neste momento e metaforicamente, de perspectiva narrativa – isto é, o segundo modo de regulação da infor- mação que procede (ou não) de um “ponto de vista” restritivo – é a questão que foi, de todas as que consideram a técnica narrativa, a mais frequentemente estudada a partir do fim do século XiX [...].16 Partindo dos estudos desenvolvidos por vários estudiosos, alguns dos quais apresentados anteriormente, o autor estabelece um con- senso entre as tipologias, reunindo-as em três grupos: 1. o primeiro grupo reúne: narrativa de narrador onisciente (dois primeiros tipos elaborados por Friedman), visão por trás (Jean Pouillon), narrador > personagem (todorov); 2. o segundo corresponde à narrativa de ponto de vista, e reúne: “eu” testemunha, narrador-protagonista e narrativa com onisciência seletiva simples ou múltipla (Friedman), visão com (J. Pouillon), narrador = personagem (todorov); 3. o terceiro constitui-se de: narrativa objetiva, modo dramático e câmera (Friedman), visão de fora (J. Pouillon), narrador < personagem (todorov). 16 No original: “Ce que nous appelons pour l’instant et par métaphore la perspective narrative – c’est-à-dire ce second mode de régulation de l’information qui procède du choix (ou non) d’un ‘point de vue’ restrictif –, cette question a été, de toutes celles qui concernent la technique narrative, la plus fréquemment étudiée depuis la fin du XIX siècle [...]”. Ponto_de_vista_em_Semiotica___(MIOLO)_GRAF-v01.indd 60 01/02/2014 12:08:30 o PoNTo DE vISTA EM SEMIóTICA 61 a partir desses agrupamentos, Genette elabora sua tipologia da focalização, classificando-a em: 1. narrativa não focalizada