UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DOCÊNCIA PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA ANDREZA PATRICIA BALBINO CEZÁRIO ATENDIMENTO EDUCADIONAL ESPECIALIZADO E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: ARTE E ESTÉTICAS INCLUSIVAS BAURU 2019 ANDREZA PATRICIA BALBINO CEZÁRIO ATENDIMENTO EDUCADIONAL ESPECIALIZADO E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: ARTE E ESTÉTICAS INCLUSIVAS Dissertação apresentada para obtenção do título de Mestre junto à Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- Faculdade de Ciências, Campus de Bauru – Programa de Pós-graduação em Docência para a Educação Básica, sob orientação do Profa. Dra. Eliana Marques Zanata. BAURU 2019 Aos educadores pelo compromisso em vencer os desafios e contribuir com o processo educativo. E em especial à professora Eliana Marques Zanata pelo apoio incondicional. Ao educando jovem, adulto e idoso que, não deixa de sonhar e valorizar a educação como um ato de concretização da vida cidadã, dedico esta dissertação, que representa a conquista de uma etapa importante na minha vida profissional e pessoal. AGRADECIMENTOS A Deus, em plena gratidão e confiança. O trilhar de um caminho nasceu das inquietações pedagógicas sobre o atendimento aos alunos com deficiência na Educação de Jovens e Adultos - EJA. A concretização foi possível pela busca às respostas, a retomada de caminhos incertos e a oportunidade de compartilhar este percurso com muitas pessoas. Aos alunos Público-Alvo da Educação Especial da EJA, às educadoras e à equipe de apoio do Polo Educacional II. Ao esposo João Alexsandro Cezário, que de forma muito especial esteve a meu lado. Sempre atencioso e paciente, concedeu-me força e incentivo. À minha querida filha Amanda Gabrielli, que me transformou com a sua chegada e seu imenso amor. Delicada e atenciosa, encorajou-me nos momentos mais difíceis. Aos meus pais, Jair Balbino e Isaltina Balbino, pelos conselhos e pela disposição em cooperar nessa longa caminhada. Exemplos de vida, de pais e de amor incondicional. Ao meu irmão Alexandre Marcos Balbino, meus sobrinhos Mariana Cezário e Alexandre Filho e demais familiares, pelo carinho, atenção e cuidado para que tudo pudesse ser concluído com êxito. À minha querida orientadora, Profa. Dra. Eliana Marques Zanata, que me concedeu a oportunidade de partilhar momentos de sua companhia, na compreensão da pesquisa, no aprimorar da minha prática profissional e crescimento pessoal, a quem estimo e externo minha gratidão. À minha amiga Andréia Alexandre da Silva Duarte, que desde o primeiro encontro abriu as portas de sua amizade e partilhamos juntas longos caminhos em busca de novos conhecimentos. Ao Prof. Dr. Antônio Francisco Marques e à Profa. Dra. Juliane Aparecida de Paula Peres Campos, por fazerem parte da banca de Qualificação e pelas orientações que foram relevantes para a melhoria dos estudos. À Profa. Dra. Lilian Aparecida Ferreira e Profa. Dra. Denise Fernandes de Mello, que se dispuseram a compartilhar seus saberes, pela paciência e ricas reflexões que me proporcionaram novos horizontes e novas perspectivas. Às amigas e apoiadoras Maria Laura Della Costa, Josilaine Malmonge, Thais Adrianne Silva Cunha, Aletéia Bergamin, Ana Silva Frezzato, pois estiveram presentes e contribuíram em momentos quando na ausência de caminhos ajudaram- me a enfrentar os desafios. À querida amiga Elizabeth Zacarias de Oliveira, que me ofereceu seu companheirismo e suas lindas mensagens de apoio, sempre atenta às minhas incertezas, ouvindo-me e dando forças. Ao musicista Natã Silva Frezzato, que se dispôs a realizar os encontros musicais. À Secretaria Municipal de Educação, em especial a direção e coordenação da escola de EJA, Andréa Cristina Soares Juarez, Maria Aparecida Couto, Mara Lúcia Brasil Reis, Shirley Alves Cossy, e as educadoras Cristiane Aparecida Maciel, Marlene Rodrigues e Andréa Angelina Ceramitaro, pelas contribuições sobre o trilhar educativo da EJA. À querida diretora, profa. Dra. Poliana da Silva Almeida Santos Camargo, sempre atenciosa, pela compreensão às minhas ausências e pelo encorajamento. Ao Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Popular - GEPEP, pela riqueza dos encontros formativos direcionados à fundamentação e prática de ensino libertadora da EJA. À amiga e professora Ana Luiza Pessin, que esteve com meus alunos nos dias da minha dispensa e realizações das atividades acadêmicas, pela estimada colaboração. À Karina Nomidone de Senna e a toda equipe do LADEPPE, pela primorosa contribuição na finalização e arte do produto educacional. Aos amigos do mestrado, que estiveram me incentivando para que os momentos de angústia fossem vencidos pelo encorajamento. A todos os profissionais da Pós-Graduação Docência para Educação Básica pela dedicação e pontuais esclarecimentos. Ao Museu Lasar Segall, ao Projeto Cândido Portinari, à Dra. Luciana Freire Rangel representante da Tarsila do Amaral, pela atenção à minha solicitação e à resposta positiva sobre o direito de uso de imagem das obras de arte, colaborando para o incentivo e valorização da Arte, Educação e Cultura. Enfim, aos professores que, assim como eu, defendem a importância do compromisso com uma educação emancipatória, de transformação social e a todas as pessoas que de forma direta ou indireta estiveram me auxiliando, apresento os meus sinceros agradecimentos pela construtiva cooperação. “Separada da prática, a teoria é puro verbalismo inoperante; desvinculada da teoria, a prática é ativismo cego. Por isto mesmo é que não há práxis autêntica fora da unidade dialética ação-reflexão, prática-teoria. Da mesma forma, não há contexto teórico verdadeiro a não ser em unidade dialética com o contexto concreto” (PAULO FREIRE, 2001, p.158). RESUMO A Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta avanços legais considerando a população que não possui instrução escolar ou não conseguiu concluí-la e o aluno com deficiência. Porém a EJA demanda, ainda, de diretrizes específicas devido à ausência na articulação dos documentos para o Atendimento Educacional Especializado (AEE). A EJA requer uma formação escolar para efetivar a participação, a interação na prática da vida social e o ensino de Arte possibilita a aproximação com a cultura, com os saberes e manifestações artísticas. Como referencial, os estudos históricos, teórico-metodológicos de Paulo Freire com base nos fundamentos da educação emancipatória que defende a ação dialógica que favorece o desenvolvimento da consciência crítica. E sobre o ensino de Arte as propostas de Territórios da Arte e Cultura e as concepções da Arte como área de conhecimento. Nesse sentido, o objetivo desse estudo é compreender as vivências dos alunos com deficiência na EJA, especificamente no AEE considerando o ensino de Arte e aplicar oficinas que se relacionam aos aspectos cognitivos e psicomotores no trabalho com as diferentes linguagens artísticas e processos de reflexão. E como objetivos específicos: a) analisar as demandas de EJA e Educação Especial voltadas para o ensino de Arte e como se entrelaçam; b) analisar como o professor especialista do AEE na EJA compreende o ensino de Arte; c) propor a elaboração de um álbum seriado com adaptações curriculares. A metodologia de abordagem qualitativa, pesquisa intervenção, foi realizada em um Polo Educacional para EJA, que faz parte de uma escola de Educação de Jovens e Adultos em um município do interior do estado de São Paulo. Participaram 15 (quinze) alunos com deficiência, cuja idade variou entre 17 (dezessete) e 75 (setenta e cinco) anos e uma professora da educação especial. Foram realizadas quatro oficinas de Arte, com adaptações curriculares, na sala de Recursos Multifuncionais, espaço destinado ao AEE, no período de quatro meses. Os dados foram coletados e organizados nas seguintes categorias: observações das vivências do AEE, questionário para a professora especialista, registros descritivos e fotográficos. Após leitura minuciosa os dados foram organizados em quadros para análise descritiva, os quais ofereceram subsídios para as intervenções propostas nas oficinas de Arte realizadas no espaço do AEE. A análise foi centrada nas práticas pedagógicas dos conteúdos da Arte realizadas no AEE e os resultados da pesquisa apontaram para a necessidade de ampliar as discussões sobre as particularidades do AEE na EJA, e também, que as práticas do ensino de Arte realizadas apresentavam lacunas. Observamos a predominância da confecção artística. É essencial ressignificar às práticas pedagógicas para os conhecimentos sobre a Arte e cultura. Com relação as pesquisas sobre esse viés demonstraram reduzido número de publicações, reforça- se o olhar e as reflexões sobre a efetivação dos direitos educacionais dos alunos jovens e adultos com deficiência. Esse trabalho defende a articulação entre os professores da sala regular e ensino especial como mobilizadora da ação educativa inclusiva na EJA. O produto educacional em forma de um álbum seriado, está disponibilizado on-line com oficinas inclusivas de Arte e jogos pedagógicos. Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Educação Especial. Atendimento Educacional Especializado. Educação Inclusiva. Arte. ABSTRACT Youth and Adult Education (EJA) presents legal advances considering the population that does not have school education or could not complete it and the student with a disability. However, the EJA also demands specific guidelines due to the lack of articulation of documents for the Specialized Educational Assistance (AEE). The EJA requires a school education to effect participation, interaction in the practice of social life and the teaching of art makes possible the approximation with culture, with the knowledge and artistic manifestations. As a reference, Paulo Freire's historical, theoretical-methodological studies based on the foundations of emancipatory education that defend the dialogic action that favors the development of critical consciousness. And on the teaching of Art the proposals of Territories of Art and Culture and the conceptions of Art as an area of knowledge. In this sense, the objective of this study is to understand the experiences of students with disabilities in the EJA, specifically in the ESA considering the teaching of Art and to propose curricular adaptations when necessary. Its specific objectives were: a) to discuss ESA proposals and how students with disabilities were served in their educational needs; b) explain the articulation of ESA and common teaching; c) propose art workshops; d) elaboration of a serial album with curricular adaptations for the workshops. The methodology of qualitative approach, intervention research, was carried out in an Educational Pole for EJA, which is part of a School of Youth and Adult Education in a municipality in the interior of the state of São Paulo. Fifteen (15) students with disabilities ranged in age from 17 (seventeen) to 75 (seventy-five) years and a special education teacher. There were four Art workshops, with curricular adaptations, in the Multifunctional Resources room, space for the EEA, in the period of four months. The data were collected and organized into the following categories: observations of the ESA experiences, questionnaire for the specialist teacher, descriptive and photographic records. After a thorough reading, the data were organized into descriptive tables, which provided subsidies for the interventions proposed in the Art workshops held in the ESA space. The analysis focused on the pedagogical practices of the contents of Art carried out in the ESA and the results of the research pointed to the need to broaden the discussions about the particularities of the ESA in the EJA and also that the art teaching practices carried out presented gaps. We observe the predominance of artistic confection. It is essential to re-assign pedagogical practices to knowledge about art and culture. With regard to the research on this bias, they have shown a reduced number of publications, reinforcing the look and reflections on the effectiveness of the educational rights of young students and adults with disabilities. This work defends the articulation between the teachers of the regular classroom and special education as a mobilizer of the inclusive educational action in the EJA. The educational product in the form of a serial album, is available online with comprehensive Art workshops and educational games. Keywords: Youth and Adult Education. Special education. Specialized Educational Assistance. Inclusive education. Art. LISTA DE QUADROS E FIGURAS QUADRO 1 – Marcos Históricos e Legais na EJA – após 1960 QUADRO 2 – Artigos que abordam o ensino de Arte na EJA QUADRO 3 – Artigos encontrados que abordam a educação inclusiva na EJA QUADRO 4 – Constituição dos Sujeitos QUADRO 5 - Estrutura da Escola de EJA - 2018 QUADRO 6 - Questionário indicativo QUADRO 7 - Roteiro de observações QUADRO 8 – Oficinas QUADRO 9 – Jogos Pedagógicos QUADRO 10 - Estrutura do AEE QUADRO 11 – Documentação do AEE QUADRO 12 – Adaptações Curriculares FIGURA 1 – GRÁFICO – Modalidade da EJA FIGURA 2 - GRÁFICO – Educação Especial FIGURA 3 – Polo Educacional de Adultos FIGURA 4 – Sala de Recursos Multifuncionais FIGURA 5 – Álbum Seriado no AEE FIGURA 6 - Adaptações Curriculares na SEM FIGURA 7 - Organização do Álbum Seriado LISTA DE ABREVIAÇÕES E SIGLAS AEE Atendimento Educacional Especializado ATPC Atividade de Trabalho Pedagógico Coletivo BNCC Base Nacional Comum Curricular CEAA Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos CEB Câmera de Educação Básica CEFAM Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério CEP Comitê de Ética em Pesquisa CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CNE Conselho Nacional de Educação CONEP Conselho Nacional de Ética em Pesquisa CNER Campanha Nacional de Educação Rural CONFINTEA Conferências Internacionais de Educação de Adultos DA Deficiência Auditiva DF Deficiência Física DI Deficiência Intelectual DV Deficiência Visual EAD Educação a Distância EJA Educação de Jovens e Adultos EMEI Escola Municipal de Educação Infantil EMEII Escola Municipal de Educação Infantil Integral EMEF Escola Municipal de Ensino Fundamental FNEP Fundo Nacional de Ensino Primário FUNDEB Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos/das Profissionais da Educação INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MCP Movimento de Cultura Popular MEB Movimento de Educação de Base MEC Ministério da Educação MNEA Mobilização Nacional de Erradicação do Analfabetismo MOBRAL Movimento Brasileiro de Alfabetização PAEE Público-Alvo da Educação Especial PCN Parâmetro Curricular Nacional PNE Plano Nacional de Educação PPP Projeto Político Pedagógico PRODESP Companhia de processamento de dados do Estado de São Paulo SEBES Secretaria do Bem-Estar Social SECADI Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão SEESP Secretaria de Educação Especial SIRENA Sistema Rádio Educativo Nacional SRM Sala de Recursos Multifuncionais TALE Termo de Assentimento de Livre e Esclarecido TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TGD Transtornos Globais do Desenvolvimento UE Unidade de Ensino UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura UNESP Universidade Estadual Paulista SUMÁRIO PRIMEIRAS PALAVRAS INTRODUÇÃO....................................................................................................... 17 1. EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E EDUCAÇÃO ESPECIAL............... 23 1.1 Breve Histórico da EJA ................................................................................... 23 1.2. EJA e a inclusão escolar da pessoa com deficiência .................................... 33 2. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO NA EJA ……………….. 39 2.1. (Re)flexão sobre o Atendimento Educacional Especializado na EJA ............ 39 2.2. A atuação docente e práticas inclusivas ……………………………………….. 44 2.3. A perspectiva das Adaptações Curriculares................................................... 47 3. ARTE NA EJA, PRÁTICAS INCLUSIVAS ………………………………………. 57 3.1. Fundamentos do ensino de Arte ..................................................................... 57 3.2. Superar a prática da Infantilização na EJA e nas aulas de Arte..................... 60 3.3. Mediação e proposições do ensino de Arte ................................................... 69 4. MÉTODO............................................................................................................ 73 4.1. A abordagem da pesquisa.............................................................................. 73 4.2. Procedimentos éticos ..................................................................................... 73 4.3. Seleção e caracterização dos participantes................................................... 74 4.4. O contexto da pesquisa.................................................................................. 76 4.5. Procedimentos de coleta de dados................................................................ 84 4.6. Procedimentos de análise ............................................................................. 85 5. DESENHO DO PRODUTO .............................................................................. 88 5.1. Introdução ..................................................................................................... 88 5.2. Local .............................................................................................................. 89 5.3. Participantes .................................................................................................. 89 5.4. Objetivos do produto ...................................................................................... 90 5.5. Metodologia .................................................................................................... 90 5.6. Delineamento .................................................................................................. 91 5.7. Expectativas de aprendizagem ....................................................................... 93 5.8. Oficinas de Arte ............................................................................................... 94 6. RESULTADOS E DISCUSSÃO ......................................................................... 99 6.1. Etapa 1. O olhar do educador para o ensino de Arte....................................... 99 6.2. Etapa 2. Como configura-se o espaço do AEE na EJA ................................102 6.3. Etapa 3. Arte, cultura e inclusão na EJA ...................................................... 110 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 117 REFERÊNCIAS ANEXOS APÊNDICES PRIMEIRAS PALAVRAS Ao concluir o ensino fundamental anos finais, iniciei os estudos no Ensino Médio com formação docente, cursando o Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério – CEFAM. Logo nos primeiros dias, já tinha a convicção de que estava realizando o curso dos meus sonhos. O propósito de contribuir com a educação escolar dos alunos, os preceitos da educação como alicerce de formação, juntamente com os valores éticos e de respeito com todos, encantavam-me. Cresci num lar simples. Meus pais sempre primaram pela valorização e respeito no ambiente onde estivéssemos e a importância da educação escolar em nossas vidas para que contribuíssemos com a melhoria do nosso entorno. Posterior à conclusão do Ensino Médio no CEFAM, no ano seguinte, iniciei a graduação no curso de Educação Artística habilitação em Artes Plásticas, pela UNESP de Bauru. Neste mesmo ano, assumia o concurso público municipal na SEBES – Secretaria Municipal do Bem-Estar Social - em 1996. A experiência profissional do trabalho com a educação infantil, no setor de creches vem daí. Esse período compreende 5 anos de atuação, conhecimento e aprendizagem no início de minha carreira profissional. Após esse período, comecei a lecionar na EJA, ao assumir o concurso público de uma escola de EJA em 2001. Tratava-se de uma atividade educativa totalmente desconhecida, pois na minha formação acadêmica havia predominância dos conhecimentos voltados para a pré-escola e do ensino fundamental anos iniciais para crianças em idade regular. Nesse sentido, as práticas pedagógicas apresentaram-se como um desafio, pois havia ausência de materiais adequados para a clientela. Assim, buscava, com a parceria de outras professoras, a elaboração de atividades para trabalhar em sala de aula. Mesmo diante de todas essas inquietações, estava diante de uma realidade com a qual identificava, tinha empatia e o compromisso de propor uma educação que pudesse contribuir de forma significativa com os alunos, protagonistas da sua própria aprendizagem. Em 2004, época do nascimento de minha filha, um presente essencial na minha vida, acabei por aprimorar ainda mais a carreira de docente. Neste mesmo ano assumi como PEB- II de Arte na Educação do Estado de São Paulo. Tiveram início, então, minhas práticas de ensino de Arte fundamentadas na Proposta Curricular e, assim como no CEJA, busquei aprimorar práticas pedagógicas que pudessem efetivar a aprendizagem da diversidade de alunos na sala de aula. Os mais de dezessete anos na EJA, nos últimos anos com aumento significativo de alunos com deficiência, principalmente de adultos e idosos, exigiram um repensar de minha atuação, pois é legítimo o direito de todos à educação. Os desafios foram e são os mais diversos possíveis, principalmente quanto as questões relacionadas com o pedagógico. Daí abraçar a oportunidade de formação acadêmica no Mestrado Docência para Educação Básica como aprofundamento nos estudos e na pesquisa, devido ao compromisso com a atuação de pesquisadora/professora, sendo fundamental para redirecionar o ato educativo, assim como o crescimento profissional e pessoal. 19 INTRODUÇÃO Na atualidade, a modalidade de ensino da Educação de Jovens e Adultos (EJA), deve ser repensada levando-se em consideração as metodologias específicas de ensino de acordo com as áreas de conhecimento. A presente pesquisa está fundamentada no viés do ensino de Arte e nas ações educativas direcionadas aos alunos com deficiência na EJA, pretende democratizar o acesso aos bens artísticos/culturais. Visto que, as aulas de Arte contribuem para a aprendizagem de interpretação da cultura, favorecendo o desenvolvimento das habilidades cognitivas, da autonomia para gerir sua própria vida, participação social e trabalho. Nos deparamos com abordagens pedagógicas, nas quais as propostas de Arte, na EJA, permanecem vinculadas aos aspectos decorativos, datas comemorativas e ausência de trabalho pedagógico sistematizado e que possa contribuir para os processos de aquisição da leitura, da escrita e formação cultural e assim, produzir conhecimentos para melhoria das relações do indivíduo e o meio social. Na concepção de Ferrari (2012), nas aulas de Arte, o professor deve assumir- se como conhecedor/propositor dos encontros culturais, visando à formação da identidade cultural, contribuindo para desenvolver a percepção estética, imaginadora e crítica. Nesse sentido, seria a abordagem metodológica aplicada na EJA, a compreensão das práticas de ensino para o Público-Alvo da Educação Especial (PAEE) na EJA, considerando o ensino de Arte. O aporte teórico para os estudos dos conteúdos curriculares de ensino da Arte constitui um processo educativo que se desenvolve no encontro com os conhecimentos artísticos, a percepção estética, as produções e vivências culturais (BARBOSA, 1991; HERNÁNDEZ, 2000; MARTINS e PICOSQUE, 2008; FERRARI, 2012). Para Fusari (1993), a Arte no contexto da educação escolar implica assumir posicionamento metodológico, pois a Arte contribui de maneira efetiva para o desenvolvimento estético e crítico do aluno, articulando as dimensões: conhecimento histórico, processos expressivos e suas representações visuais, sonoras, arquitetônicas, cênicas, audiovisuais, verbais, a interpretação da realidade, na correlação entre o indivíduo e o espaço social. Em se tratando especificamente da cultura como instrumento de formação, o Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus (ICOM) afirma que é por meio 20 da “mediação cultural que o indivíduo percebe, compreende o mundo e sua própria identidade” (DESVALLÉES, 2013, p. 52). Este olhar para as vivências dos alunos da EJA no AEE, tendo como enfoque o ensino de Arte, permitiram compreender como ocorrem as estratégias metodológicas e as adaptações curriculares, as questões sobre a atuação docente, visando favorecer a operacionalização das ações inclusivas. A escola busca adequar- se às recomendações da sociedade inclusiva em defesa das garantias de igualdade de direitos educacionais a todos, estabelecidos na Constituição Federal (BRASIL, 1988) e consolidado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9.394 (BRASIL,1996). De acordo com Mendes (2006), a perspectiva da educação inclusiva se fundamenta no movimento de ordem mundial, visando o cumprimento das ações política, cultural, social e pedagógicas em defesa dos direitos de todos. De modo que a escola, como um espaço acolhedor deve promover mecanismos para favorecer a aprendizagem e a participação de todos. Para Carvalho (2000), a educação escolar desempenha importante função social ao propor práticas inclusivas para transpor barreiras em favor de uma educação escolar para todos, ao assumir as relações de interações sociais estabelecidas pelo diálogo e ações de vivências democráticas. O sentido inclusivo escolar requer conhecer para planejar as intervenções e apoiar o aprendizado diante das análises das dificuldades apresentadas pelo aluno (CARVALHO, 2007, p.15). Segundo Denari (2011), o processo de inclusão escolar se fundamenta na verdadeira identidade construída por meio da convivência com todos a partir das experiências coletivas. No mesmo sentido, Carvalho (1999) defende a escola inclusiva pelos seus pressupostos: os direitos respeitados e protegidos. E considera, ainda, que “as modificações necessárias devem abranger atitudes, perspectivas, organização e ações de operacionalização do trabalho educacional”. Assim, a escola inclusiva trabalha na formação do aluno autônomo e que possa interagir nos diferentes espaços sociais e culturais. Nesse sentido, o educador deve propor práticas de ensino com o objetivo de tornar possível e acessível o contato com a cultura. Para tanto, a escola deve garantir aos alunos com deficiência condições de inclusão educacional, com serviços de apoio para atender o público-alvo da Educação 21 Especial, alunos com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação (BRASIL, 2007). As Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica (2013), de acordo com a Resolução CNE/CEB 4/2009, dispõe sobre a Educação Especial, determinando que o sistema educacional seja inclusivo em todos os níveis, que o aprendizado seja ao longo de toda a vida e estabelece as garantias dos serviços de apoio especializado sobre o Atendimento Educacional Especializado (AEE) como o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógica organizados institucionalmente e continuamente, de forma a complementar ou suplementar a formação dos alunos com deficiência, transtornos globais e com altas habilidades/ superdotação. E ainda considera que o AEE deve integrar a proposta pedagógica escolar, para garantir o acesso e participação de todos, em atendimento às necessidades específicas do PAEE (BRASIL, 2013). Diante de tal realidade, nos últimos anos, destaca-se o aumento significativo de estudantes com deficiência nas escolas de ensino regular. Os dados do Censo Escolar, conforme divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP/MEC), no período de 2015 a 2018, apresentaram o crescimento do número de matrículas iniciais de alunos com deficiência na EJA, no Ensino Fundamental. Em 2015, os dados do Censo Escolar apresentaram 53.399 matrículas de alunos com deficiência na EJA, comparando com os resultados dos dados de 2018, que apresentaram 62.789 matrículas. Um amento significativo de 17,5% de alunos com deficiência na EJA, nas redes estaduais, municipais, urbanas e rurais. Partindo dessas constatações, ampliou-se as discussões sobre a inclusão educacional dos alunos com deficiência, jovens, adultos e idosos, bem como o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e as práticas pedagógicas desenvolvidas para o ensino de Arte. Os estudos demostram que a compreensão das práticas educativas, de aplicação do AEE na EJA são recentes. As inquietações sobre o Atendimento Educacional na Especializado (AEE) na EJA que orientam a presente análise são compartilhadas por (CAMPOS E DUARTE, 2011; HASS, 2015) e os estudos sobre a legislação da Educação Especial (MENDES, 2003; VILARONGA, 2014). As pesquisas indicam que na literatura essas abordagens educacionais são atuais, como evidenciaram Campos e Duarte (2011), tendo em vista 22 a necessidade de pesquisas para efetivar as ações práticas e as parcerias entre a EJA e a Educação Especial. Oliveira (2007) considera que as especificidades da Educação de Jovens e Adultos demanda o desenvolvimento de pesquisas, considerando que os estudos ainda representam um campo recente de estudos para a compreensão de como estão os processos educacionais da inclusão de jovens e adultos com deficiência na EJA. A presente pesquisa tem como o objetivo compreender as vivências dos alunos com deficiência na EJA, especificamente no AEE considerando o ensino de Arte e aplicar oficinas que se relacionam aos aspectos cognitivos e psicomotores no trabalho com as diferentes linguagens artísticas e processos de reflexão. E como objetivos específicos: a) analisar as demandas de EJA e Educação Especial voltadas para o ensino de Arte e como se entrelaçam; b) analisar como o professor especialista do AEE na EJA compreende o ensino de Arte; c) propor a elaboração de um álbum seriado com adaptações curriculares. Nesse sentido, almeja-se contribuir com os professores nas orientações sobre o ensino de Arte na EJA, na perspectiva da educação inclusiva. O professor da Educação Especial na EJA para aprimorar o seu trabalho pedagógico e ajudar o aluno PAEE nas suas dificuldades de aprendizagem precisa compreender os fundamentos teóricos específicos na área de Arte e dispor de materiais pedagógicos apropriados para essa clientela. A proposta das oficinas de Arte no espaço do AEE na EJA, como estratégias pedagógicas inclusivas e a abordagem dos temas sociais das obras de arte, proporciona a interação entre os alunos e as professoras. A fundamentação dos estudos nos Territórios da Arte e da Cultura permite que os professores e os alunos PAEE possam conhecer a história da Arte e realizem experiências artísticas. E ainda, esses estudos se fundamentam na perspectiva educativa freiriana, segundo a qual a ação educativa se dá de modo dialógico, como prática social e formação de consciência crítica. O trabalho teve como local de pesquisa o Polo Educacional, e foi desenvolvido na Sala de Recurso Multifuncionais, que faz parte de uma escola de EJA, com uma história de mais de 30 (trinta) anos na EJA, num município do interior paulista. Num período de 4 meses, participaram da investigação 15 (quinze) alunos PAEE, em sua maioria com deficiência intelectual (DI) e deficiência física (DF), com idades que variavam entre 19 (dezenove) e 75 (setenta e cinco) anos e a professora especialista. 23 A seleção dos participantes visto que o AEE nesta escola de EJA ocorre somente com os alunos PAEE matriculados no período diurno, não estendendo a demanda desse grupo de alunos ao período noturno. Na coleta de dados, buscou-se a caracterização dos sujeitos da pesquisa e da estrutura física do Polo Educacional. O trabalho de campo consistiu em observações, nos registros descritivos e fotográficos das vivências, na entrevista com a professora especialista e nas conversas informais com: os alunos, os professores, a equipe de apoio educacional. Todos esses registros contribuíram para análise dos dados, a realização das oficinas de Arte, as estratégias e as adaptações curriculares de apoio à aprendizagem e acesso aos conteúdos, do ensino de Arte, que fundamentaram a elaboração do álbum seriado. A invisibilidade dos sujeitos e as necessidades reais que constituem a EJA são questionamentos da atualidade, principalmente em relação à inclusão escolar do adulto. Nesse sentido, buscamos contextualizar uma escola de EJA no interior paulista, para fins desta pesquisa, considerando a trajetória histórica no atendimento de jovens e adultos. Criada em 1984 buscava superar os altos índices de analfabetismo no município em conformidade com os crescentes movimentos da época que reivindicavam à perspectiva de uma sociedade democrática. Um dos grandes desafios das políticas públicas no âmbito pedagógico direcionados à EJA, reside em atender a população que não conseguiu ter acesso à escola, e para aqueles que já tiveram a oportunidade de estudo, porém não consolidaram as aprendizagens. Assim “os níveis de aprendizagem alcançados situam-se abaixo dos mínimos socialmente necessários para que as pessoas mantenham e desenvolvam as competências em continuidade aos estudos” (HADDAD & DI PIERRO, 2000, p.39). Freire (2001) aborda a realidade teórica e prática da educação de jovens e adultos sob o viés de compreensão crítica, e amplia a discussão sobre o papel do professor no campo pedagógico e metodológico, sendo relevante que o professor esteja convencido da reflexão crítica sobre a ação. A prática educativa na EJA perpassa por reconhecer o contexto do aluno, que é único, e que a escola promova a formação para alcançar a participação efetiva no contexto cultural, ao realizar a interação social dialógica, fazendo com que o estudante desenvolva a consciência crítica, que o leva a torna-se agente social de mudanças. 24 Nesse sentido, a EJA deve propor estratégias metodológicas visando superar as dificuldades de aprendizagem, considerar os saberes e bagagem cultural de seus alunos, com base na experiência de vida e de trabalho. Assim, o papel do professor é manter olhar atento para esta realidade e atuar de forma que o aluno tenha condições de avançar em relação às aprendizagens iniciais e acessar o conhecimento. Arroyo (1999) argumenta sobre a função pedagógica, social e cultural do professor, que consiste em não desprezar suas experiências profissionais antigas, mas renovar “o ofício de educar, de humanizar, de formar, os valores, os hábitos, as identidades, de produzir e aprender o conhecimento”. O contexto da EJA constitui-se do entrelaçamento entre as aprendizagens, o espaço de atuação, realidades e sujeitos com necessidades específicas de aprendizagem, que buscam a “apropriação de novos saberes e trocas de experiências, possibilitando aprendizagens contínuas” (SOUZA, 2016, p.59). Assim, essas constatações são relevantes para a compreensão de que o trabalho educativo na EJA consiste num processo “dinâmico em que ambas, prática e teoria, se fazem e se refazem” (FREIRE, 2001, p.20). Para tanto, a presente pesquisa foi organizada em 6 capítulos. No Capítulo 1: o histórico de representação da alfabetização e a institucionalização da EJA. No Capítulo 2, há a abordagem dos encaminhamentos que levaram à construção dos regulamentos legais que fundamentam a educação a discussão do viés dos direitos dos alunos jovens, adultos e idosos com deficiência e ainda a carência de estruturas específicas para o AEE na EJA que culmine com a formação para integração do adulto com deficiência em sociedade. No Capítulo 3, são apresentadas as referências teóricas do ensino de Arte, bem como alguns entraves na educação de adultos que precisam ser desvelados na reorganização das proposições da Arte na EJA. No Capítulo 4 é apresentada a metodologia da pesquisa, os procedimentos de coleta de dados e análise. E o desenho do produto no Capítulo 5. No Capítulo 6, as considerações finais, apresentação dos resultados de acordo com as vivências do AEE, o planejamento e desenvolvimento das oficinas pedagógicas de Arte e a elaboração do material de apoio, álbum seriado. 25 1. EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E EDUCAÇÃO ESPECIAL 1.1. Breve Histórico da EJA A trajetória histórica da educação de jovens e adultos na sociedade brasileira integra práticas educativas formais e informais, na aquisição ou na continuidade da escolaridade básica (HADDAD & DI PIERRO, 2000, p.108). Para Soares (2005), a análise acerca do processo da alfabetização de adultos é marcada por histórias narradas, reconstruídas e repetidas. A apreensão desta realidade, perpassa pelos aspectos significativos dos discursos propagados ao longo da história. Os argumentos que compõem os conceitos sobre as experiências de alfabetização destinadas aos jovens e adultos possibilitam identificar os mecanismos políticos, os discursos das instituições públicas e suas intencionalidades. Dessa forma, há os mais variados conceitos ligados à alfabetização, como: práticas educativas formais e oficiais, as experiências informais realizadas por grupos sociais ou inciativas individuais e a abordagem que se refere aos métodos de decodificação do sistema alfabético e os que consideram o contexto de uso social da leitura e escrita. Demonstram a diversidade de experiências em alfabetização pela vasta área territorial do país, porém os registros como objeto histórico da alfabetização de jovens e adultos “são poucos e ainda incipientes” (SOARES, 2005, p.258). Com a vinda dos portugueses ao Brasil para o processo de colonização, a partir de 1549, a ação dos jesuítas como agentes educativos, deu-se início o ensino de ler e escrever para os adultos indígenas e, sobretudo, a imposição educacional e cultural, visando a consolidação da fé cristã e o controle social. Em 1759, as novas diretrizes políticas portuguesas encerram estas atividades. Em continuidade, os jesuítas e outras ordens religiosas desempenharam ações buscando catequisar e as instruções voltadas para os negros escravizados. Porém, um fator a considerar são os poucos registros sobre essas práticas de alfabetização, principalmente para as mulheres adultas, negras escravizadas (SOARES, 2005, p. 259). A falta de registros sobre o processo de ensino de ler e escrever aos adultos negros escravizados neste período de colonização, reafirma que estes não recebiam nenhum tipo de instrução que pudesse proporcionar a sua liberdade. Foi um período 26 histórico, marcado pelo massacre da cultura africana no Brasil, pelos propósitos de uma classe social que para permanecer como detentora do poder, subjugou os negros, escravizando-os. No início do século XIX, não se tem conhecimento de experiências educativas para adultos, pois o período passa a ser de controle social pelo Estado, com as medidas administrativas pombalinas, e a expulsão dos jesuítas. No período imperial, com o Ato Adicional de 1834, instituem-se políticas educacionais para jovens e adultos, destinadas aos alunos maiores de 15 anos e aulas para público adulto em diversas províncias. Em 1876, chamada de instrução popular, há o ensino noturno para adultos. Os estudos históricos sobre esse período apresentam a representatividade das ações não formais, como as experiências domésticas, que superavam as realizadas pelo sistema formal. Parece se inserir, assim, em uma ampla rede de filantropia que se teceu no século XIX brasileiro, como forma das elites contribuírem para “regeneração” do povo. O ensino para adultos tinha como uma das suas finalidades a “civilização” das camadas populares consideradas, principalmente as urbanas, no século XIX, como perigosas e degeneradas. Através da educação, considerada a luz que levaria ao progresso. (SOARES, 2005, p. 260). Nas primeiras duas décadas do século XX, houve um aumento significativo da população urbana e rural não alfabetizada. Por isso, as elites dominantes começaram a temer este aumento expressivo. Dessa maneira, intensificaram as campanhas de alfabetização de adultos. Nos anos 20, ocorreram as campanhas “Ligas contra o analfabetismo”, propostas por alguns grupos sociais e principalmente pelos intelectuais. Contudo, para que a instrução não se transformasse num instrumento de mudança social, pregavam, em conjunto com a alfabetização, o patriotismo, o moralismo e o civismo. Na década de 1930, com uma perspectiva de política pública nacionalista, com o processo de urbanização e industrialização que o país passava, intensificaram-se várias ações nas áreas da educação e saúde. O Manifesto dos Pioneiros pela Educação (1932), com o texto intitulado “A Reconstrução Educacional no Brasil, ao Povo e ao Governo”, reivindicava do Estado uma resposta com a finalidade de estabelecer as diretrizes de uma política pública 27 educacional, o direito de todos à educação, um ensino de qualidade e a elaboração de um plano didático-pedagógico. Em 1934, a Constituição Federal efetiva o primeiro documento oficial, como dever do Estado, a concepção de educação como direito de todos, com as diretrizes para o ensino primário obrigatório, gratuito, incluindo a exigência da frequência regular, que regulamentava a educação de adultos. Di Pierro (2005), considera que as primeiras políticas públicas de escolarização para adultos, foram implementadas ao final dos anos de 1940, com a expansão por todo o país e que se intensificaram com as Campanhas de Alfabetização. O Plano de Educação em 1942 e a criação do Fundo Nacional de Ensino Primário (FNEP), buscaram efetivar a educação primária e o ensino supletivo para adolescentes e adultos. Em 1947, a Campanha de Educação de Adultos reafirmava o ensino supletivo aos adultos e adolescentes, com a criação do Serviço de Educação de Adultos (SEA), com setores de Administração, de Planejamento, de Controle e Orientação Pedagógica. Do mesmo modo, foi criada a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), a Campanha Nacional de Educação Rural (CNER), a Mobilização Nacional de Erradicação do Analfabetismo (MNEA) e o Sistema Rádio Educativo Nacional (SIRENA). Essas campanhas deveriam dar conta de um país que precisava superar o analfabetismo, visto como uma enfermidade que atacava a sociedade (GONZALEZ, 2011, p.44). A implantação de uma proposta curricular para promover e orientar os trabalhos do ensino supletivo, com direcionamento dos conteúdos e material didático unificados para crianças, adolescentes e adultos, garantia a padronização e a distribuição de um currículo especial de ensino visual, cartilhas, jornais, folhetos e textos. O país passava por mudanças e transformações com a industrialização e a urbanização, que afetavam tanto a população urbana como a rural, de tal maneira que os processos educativos para as massas populares ocorriam com o domínio dos conteúdos básicos de escolarização, na implementação de uma sociedade moderna. O primeiro Congresso Nacional de Educação de Adultos em 1947 possibilitou a avaliação dos planos teóricos e estudos das medidas necessárias para efetivar a Campanha de Educação de Adultos. 28 As primeiras propostas curriculares de 1947 e 1950 demonstraram a inexistência de uma identidade pedagógica voltada para atendimento da clientela jovem e adulta. A propósito, é uma compreensão errônea de que adulto e criança devem ter a mesma prática do ensino dos conteúdos. Para Gadotti e Antunes (2014), essa visão de educação tem como base a percepção reducionista da educação de adultos, a perspectiva restrita de uma simples e apressada alfabetização de rudimentos do ler e escrever. Ainda entre 1947 e 1950, encontra-se a primeira proposta curricular impressa, um modelo de cartilha oficial da Campanha de Educação de Adultos, o primeiro Guia de Leitura, sistema Laubach1 para educação de base. Os conteúdos curriculares na Campanha de Educação de Jovens e Adultos representavam a forte influência da ação internacional. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (UNESCO) contribuiu para estimular a realização dos programas nacionais de educação de adultos. Nesta perspectiva, a UNESCO estabeleceu os conteúdos do processo educativo, visando à formação da base educacional elementar, promovendo o conhecimento e atitudes favoráveis às melhorias da qualidade de vida das camadas sociais desfavorecidas. Um período de avanço teórico-metodológico compreende os anos de 1950 a 1960, marcado pelos estudos teóricos e metodológicos de Paulo Freire, na construção de um novo paradigma referencial pedagógico, representado pela organização das estruturas e de mobilização social da educação de jovens e adultos no Brasil, cujos objetivos eram a construção de um processo de educação popular e de conteúdos curriculares que pudessem proporcionar um diálogo ativo e ações entre educandos com os mesmos interesses sociais e carências, uma educação emancipatória, ou seja, superação das imposições da concepção simplista do aprender a assimilar a ler e escrever, para a conquista da autonomia e consciência crítica e social. Tem-se assim um legado de possibilidades de construção de uma proposta curricular que representava a identidade da educação de jovens e adultos. Saviani (2007), por sua vez, aborda que nos primeiros anos de 1960, a educação brasileira assume-se enquanto responsabilidade social, pois suscita a participação política das camadas populares, tendo com enfoque a educação 1 O método Laubach é empregado para ensinar leitura aos adultos, com três séries de conteúdos. Cada conteúdo apresentava as famílias silábicas, sistema fonético, contidas na palavra-chave e, em seguida, propunha a formação de novas palavras, mediante a concordância das sílabas. 29 desprendendo-se das elites dominantes. E assim, a educação passa a ser vista como instrumento de conscientização. Di Pierro (2005), aponta que nos anos de 1960 os movimentos conhecidos no país como de Educação e Cultura Popular, ocorreram as experiências de alfabetização de adultos, os princípios de ordem social e seus fundamentos a conscientização, em favor dos direitos, análise crítica da realidade e ação para superar as injustiças sociais. Esses movimentos representavam as orientações das organizações sociais, governo e a Igreja católica. Partindo deste contexto, em 1961, o Governo Federal e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articularam o Movimento de Educação de Base (MEB). Essa ligação entre o MEC e a Igreja católica permitiu que o movimento continuasse com suas atividades de alfabetização básica. O MEB foi criado pela CNBB em 1961, como um amplo programa de alfabetização e educação de base, através de escolas radiofônicas, nos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. Tem nos princípios filosóficos do educador Paulo Freire as características da ação pedagógica popular e cidadã para promover a alfabetização de jovens e adultos, produção de material específico, acompanhamento, avaliação e verificação de resultados. E delimita alguns princípios metodológicos, como a leitura pedagógica do “ver, julgar e agir” (MEB, 2017). O objetivo do MEB, neste período, era de oferecer o mínimo básico de conhecimentos para os adultos, com método simples, para o desenvolvimento individual e que pudesse contribuir para mudanças coletivas. Posteriormente, numa segunda fase, o MEB (1962) reformulou seus objetivos: Considerando as dimensões totais do homem e utilizando todos os processos autênticos de conscientização, contribuir de modo decisivo para o desenvolvimento do povo brasileiro, numa perspectiva de autopromoção que leve a uma transformação de mentalidades e estruturas. (FÁVERO, 2004, p.14). Paulo Freire participou do Movimento de Cultura Popular (MCP), com atividades de alfabetização em Recife; e da Comissão Nacional de Cultura Popular em 1963. Para Freire, em um país em desenvolvimento é fundamental a educação 30 como prática de liberdade2, que venha responder às necessidades sociais, permitindo ao indivíduo apropriar-se da cultura, ao mesmo tempo que se humaniza. Construindo coletivamente uma história autêntica e consciente, com uma participação ativa, que conduz as transformações sociais. Afirma que é preciso mudar as relações de dominação (GONZALEZ, 2011, apud, PAIVA, 2000, p. 117). Di Pierro (2015) afirma que a educação de jovens e adultos deve ser compreendida no seu sentido mais amplo, não se restringindo ao processo de escolarização, mas propiciando a reflexão e a construção de uma prática educativa como essencial à vida dos educandos. Em 1964, seguindo as orientações de Paulo Freire, o Ministério da Educação (MEC) criou o Programa Nacional de Alfabetização de Adultos. Em 1966, ocorre o encerramento parcial das atividades do MEB, devido aos conflitos surgidos entre o encaminhamento dos programas com as políticas implantadas pelo golpe militar de 1964. Como o MEB já tinha enfrentado resistências internas de grupos conservadores da igreja católica, com o golpe, as pressões aumentaram. As imposições políticas, desde 1963, contra o manual Viver e Lutar proposto pelo MEB, com o golpe resultou na apreensão do material e a sua suspensão. Contra a perspectiva política do MEB, a opressão do governo leva o controle ideológico das hierarquias católicas sobre o movimento de base (FÁVERO, 2004, p.14). Com o golpe militar houve à repressão aos movimentos sociais. Então, em 1967 ocorreu a criação do Movimento Brasileiro de Alfabetização, conhecido como MOBRAL e o desenvolvimento do sentido da educação compensatória. Era proposto um ensino como oferta para corrigir a falta da educação para aqueles que não puderam estudar na idade certa e acabar com o analfabetismo, como fundamental para a modernização do país. Elsas (2012) a construção da concepção de educação compensatória para os adultos nesse período estava ligada ao fato dos trabalhadores que não tiveram uma escolarização na idade regular deveriam recuperar aprendizagens necessárias ao momento histórico. Do mesmo modo, o fortalecimento das bases de trabalho industrial 2 Kleiman (2012) discorre sobre os estudos de Paulo Freire, em 1967, com a publicação da obra “Educação como a prática da liberdade”, e confere uma nova visão ao processo de alfabetização, destacando “a necessidade de desenvolver programas de alfabetização para adultos que tivessem por base o mundo social e cultural do educando” (KLEIMAN, 2012, p.24). 31 e de mercado consumidor de um novo modelo de vida social. Diferentemente do princípio do direito a educação formal. As implicações do campo político e pedagógico deste período constituiu-se na análise de Di Pierro (2005) afirmando que a partir dos anos de 1970 a educação conduzida pelo regime militar teve que se enquadrar no modelo de concentração de riqueza e a institucionalização do ensino com a aprovação da Lei 5.692 de 1971. Assim, os pressupostos do ensino tecnicista e a individualização das aprendizagens. Estabeleceu-se o ensino supletivo e telecurso, a instrução programada e o processo que pudesse levar o indivíduo à certificação para entrada no mercado de trabalho. E ainda, a consolidação da reposição ou compensação da educação para aqueles que não realizaram na infância e adolescência. Em meados dos anos de 1980, com o declínio do regime militar e a organização da sociedade brasileira, principalmente pela forte influência na política dos movimentos nacionais de reinvindicação pela redemocratização. Assim, com as eleições diretas, a retomada da política e a cultura contribuindo para a educação de adultos. Em 1985, o MOBRAL foi substituído com a criação da Fundação Nacional para Educação Jovens e Adultos (EDUCAR), que continuava com o ensino supletivo, mas deveria divergir do antigo MOBRAL, e preparar os educadores, produção de materiais e supervisão. E logo, foi extinto em 1990, com a descentralização da escolarização básica de jovens e adultos. Apesar de que esta ser uma das posições do governo na época, ocorria o crescimento contínuo nas séries iniciais do ensino fundamental básica de jovens e adultos (HADDAD & DI PIERRO, 2000, p.120). Para Haddad e Di Pierro (2005) os anos 90 representaram para a EJA um período de redefinição da identidade de ensino de jovens e adultos, com o reconhecimento da diversidade sociocultural dos alunos e ao mesmo tempo a necessidade de romper com a organização de educação compensatória e das políticas públicas Nesse direcionamento Di Pierro (2005) considera ainda que, embora a concepção de educação compensatória estivesse impregnada na educação de adultos os movimentos de renovação pedagógica e as iniciativas deste período, sobretudo com a Constituição Federal de1988 ofereceu forças a implementação do 32 ensino público de jovens e adultos, a recuperação dos movimentos de Cultura e Educação Popular. A LDB 9.9394 de 1996 como resultado foi que reafirmou o direito dos jovens e adultos ao ensino básico, sua gratuidade na forma de cursos e um avanço significativo a integração ao ensino básico comum. Em 1997 o MEC realizou o Projeto de Plano Nacional de Educação (PNE) em decorrência das disposições da Declaração Mundial de Educação para Todos (Conferência de Jomtien 1990) que estabeleceu ações com o intuito de satisfazer às necessidades básicas de aprendizagem e no fortalecimento da educação como um direito fundamental a todos. A partir do PNE o país adere ao paradigma de educação continuada ao longo da vida3 e define às orientações da educação de adultos “resgatar a dívida social representada pelo analfabetismo, erradicar, treinar o imenso contingente de jovens e adultos para inserção no mercado de trabalho e criar oportunidades da educação permanente” (HADDAD, 2002, p. 122). A partir dos anos 2000 a EJA como modalidade da educação básica ocorreu a implementação dos direitos legais, culminando com o aumento significativo dos alunos jovens e adultos com deficiência nas salas da EJA. Segundo Haddad e Di Pierro (2005) ocorreu o “alargamento do campo dos direitos sociais” em decorrência dos movimentos históricos iniciados principalmente com o processo de redemocratização da sociedade após 1985. E também, os direcionamentos internacionais, os dispositivos internos de preservação dos direitos estabelecidos na lei que culminaram com ações que pudessem favorecer direitos educativos dos jovens e adultas. No Quadro 1 estão marcos históricos e legais da EJA4, principalmente a partir dos anos de 60 e a institucionalização da educação de adultos. Elsas (2012), aborda que pensar a EJA requer considerar as concepções que premeiam as políticas públicas, se de um lado ao longo da trajetória histórica da educação de adultos as orientações apontam para o controle social, vinculando ao 3 Haddad (2000), discute o sentido da educação continuada, os direcionamentos de formação geral, profissional e ao longo da vida, que está diretamente relacionada a difusão do desenvolvimento da sociedade do conhecimento e da informação, e a função da escola, frente a essa nova ordem social, a globalização e os desafios da competitividade. Desta forma, envolve diferentes setores sociais e a escola como uma instituição responsável pela formação permanente dos indivíduos. (HADDAD, 2000, p. 128). 4 Consideramos o referido quadro para fins desta pesquisa, a progressão histórica e a institucionalização da Educação de Jovens e Adultos. 33 mercado econômico, por outro lado a prática educativa potencializadora dos processos democráticos, como propostos por Paulo Freire, a ação educativa na EJA se dá pela conquista do conhecimento, o diálogo, a conscientização social e cultural e a reinvindicação da participação social. A autora, considera ainda que, a “EJA não se restringe à escolarização, mas engloba aprendizagens constituídas em diversos âmbitos da vida familiar e societária”. Quadro 1 – Marcos Históricos e Legais na EJA – após 1960 ANO MARCO LEGAL ORIENTAÇÕES 1961 Lei de Diretrizes e Bases da Educação, (LDB, Lei n. 4024/61) Ampliação do acesso à escola a todos os cidadãos Forte influência do método Paulo Freire. Propunha uma renovação dos métodos e processos educativos, abandonando os processos estritamente auditivos em que o discurso seria substituído pela discussão e participação do grupo (PAIVA, 1973). 1967 Criação do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL, Lei 5.379/67) Classes de Ensino Supletivo Centralização das ações e orientações, supervisão pedagógica e produção de materiais didáticos (DI PIERRO; JOIA; RIBEIRO, 2001). Controle dos livros, músicas, rádio, cinema, televisão, teatro e publicações periódicas. 1971 Lei de Diretrizes e Bases da Educação, (LDB, 5.692/71) Estabelece o Supletivo e formação para o trabalho. Ensinar a ler, escrever e contar. Destaque para formação profissional. Educação técnica. Os cursos supletivos eram ministrados em classes ou mediante a utilização de rádio e televisão. 1986 Criação da Fundação Nacional para Educação de Jovens o Adultos – EDUCAR. Decreto nº 92.374. Programas de alfabetização e de educação básica não-formais, destinados aos que não tiveram acesso à escola ou que dela foram excluídos prematuramente. Forte influência do Mobral, porém com a redemocratização, maior autonomia político- pedagógica com ideário da educação popular (HADAD, DI PIERRO e SANTOS 2009). 1988 Constituição Federal do Brasil Educação como Direito de Todos Proposta Educacional do Fundamental e Médio, marcada pelas campanhas, turmas do Mobral e classes de suplência. 1989 Criação do MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos) A ação pedagógica se desenvolve com base na Leitura do Mundo do(a) educando(a), que busca mapear as situações significativas do contexto em que estão inseridos. E surgem os Temas Geradores que orientam a escolha dos conteúdos. (Instituto Paulo Freire). 34 1996 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – (LDBEN, 9.394/96) Art. 38. Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo. 1997 V CONFINTEA -Conferência Internacional de Educação de Adultos. Hamburgo (1997) Políticas Contemporâneas para educação de jovens e adultos. A influência de organismos internacionais, em especial a Unesco. Rumos para a política educacional dos países-membros. (MACHADO, 2016) 2000 PARECER CNE/CEB 11/2000 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos 2003 / 2004 Programa Brasil Alfabetizado Lei no 10.880, de 9 de junho de 2004. Valorizar as diferentes formas de educação, formal e não-formal. Alfabetização dialógica, em língua portuguesa, matemática, relações das práticas cotidianas, diversidade cultural e o mundo do trabalho. 2005 / 2006 PROJOVEM – PROEJA Programa Nacional de Inclusão de Jovens e Adultos Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos 2007 FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos/das Profissionais da Educação Lei nº11.494/2007 Integração da modalidade de Educação de Jovens e Adultos. 2007 Resolução nº18/2007 Programa Nacional do Livro Didático Para a Alfabetização de Jovens e Adultos – PNLA 2009 VI CONFINTEA - Conferência Internacional de Educação de Adultos. Brasil (2009). As práticas de ensino fundamentadas na Agenda para Futuro da Educação de Adultos 2010 Parecer nº 06/ 2010 e Resolução nº 03/2010 Diretrizes Operacionais de EJA 2014 Plano Nacional de Educação (PNE) Lei nº 13.005/2014 Diretrizes, metas e estratégias para a política educacional dos próximos dez anos. Período de vigência: 2014 a 2024. Dez metas direcionadas à EJA Fonte: Elaboração Própria com base em documentos legais Desse modo faz-se necessário promover a EJA e a compreensão da realidade atual do processo de inclusão do aluno com deficiência. E também, repensar às 35 práticas pedagógicas da Arte, o potencial conhecedor e de formação da identidade cultural, considerando as peculiaridades e singularidades do aluno adulto. 1.2. EJA e a inclusão da pessoa com deficiência A educação desempenha importante função social, visa desenvolver plenamente o aluno e a integração da diversidade humana. Para Mendes (2006), a inclusão escolar tem como princípio o direito social, o processo de democratização da escola, a consolidação de um movimento mundial nomeado de inclusão social. Nesse sentido, deve ser vista como um dos pilares de sustentação, para promover a dignidade humana e a cultura do respeito para com todos, de acordo com o estabelecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos, no Art. 26º, (ONU, 1948, p.15). A inclusão escolar, defendida como a construção de um novo paradigma da valorização da diversidade no contexto escolar, é, num primeiro momento, marcada pela carência de recursos pedagógicos e metodológicos. Arroyo (2013) chama a atenção para a “chegada do outro na escola”, e como a escola deverá dar conta de todas as dimensões educacionais, tempo, espaço, avaliações, mudar as estruturas metodológicas. Depara-se então, com um segundo momento, o de repensar a inclusão além da matrícula escolar, com as pesquisas científicas e estudos sobre atendimento educacional da pessoa com deficiência nas escolas e a construção de uma rede de apoio educacional, integrando as estruturas físicas, sociais, psicológicas e metodológicas (MENDES, 2014; CAPELLINI, 2014; CAMPOS, 2013). Mendes e Matos (2014) apresentam estudos sobre as políticas públicas em inclusão escolar e reafirmam que a educação emerge de uma atuação que acolhe a convivência dos diferentes no contexto escolar. O espaço escolar e sua dimensão socializadora, de integralização como princípios da inclusão social, contribuem para o desenvolvimento das vivências sociais, psicológicas, afetivas, emocionais, culturais, por ser um espaço de trocas e interações sociais. A conquista dos direitos educacionais da pessoa com deficiência na EJA, estabelecidos nos termos da lei, data de um período recente na história da educação do país. 36 A propósito, os esforços de políticas públicas e reformulações pedagógicas são para que os alunos com deficiência deveriam frequentar as classes regulares nas décadas de 1960 a 2000. Nesse período, grande parte dos alunos estavam matriculados nas escolas especiais e uma minoria nas escolas regulares com atendimento nas antigas classes especiais. A Lei de Diretrizes e Base da Educação 4.024/61, no artigo 2, confere a educação como direito de todos, bem com os princípios de liberdade e os ideais de solidariedade, preservação dos direitos e deveres individuais e coletivos. Em 1981, a Organização das Nações Unidas (ONU) declara o Ano Internacional da Pessoa com Deficiência, definindo a escola como integradora de todos, em defesa da abordagem da integração como processo psicossocial. Para Carvalho (2000) o referido movimento social de integração buscava estimular e difundir as interações sociais, superando a visão de caridade para a real participação da pessoa com deficiência na sociedade. Na Constituição Federal de 1988, é consolidada a igualdade dos direitos no artigo 5, sobre os direitos e garantias fundamentais. e no artigo 205, a educação como direito de todos e especificamente no artigo 208, das obrigações dos Estados no atendimento educacional da pessoa com deficiência. A Conferência Mundial de Educação para Todos, sob a liderança da Unesco, consolida garantias do acesso à educação a todos os cidadãos. Igualmente, a Declaração de Salamanca (1994) apoia a mobilização em defesa do direito de todos à escolarização e o conceito de educação inclusiva. Assim como os princípios norteadores para o reconhecimento e atenção às especificidades educativas da pessoa com deficiência. No Brasil, a partir de 1990, a implementação do Programa de Educação para Todos defende o direito de todos ao saber culturalmente construído, para que possam utilizar na sua prática cidadã. Entre os objetivos fixados, o de assegurar que sejam atendidas às necessidades de aprendizado de todos os jovens e adultos por meio de acesso equitativo a programas apropriados de aprendizagem. E além disso, reafirmam o termo de “treinamento” para a vida, ou seja, não como fins da educação para aprimoramento pessoal, mas de formação para atender o mercado de trabalho. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional 9.394, estabelece a EJA como modalidade de ensino da Educação Básica, assegura a Educação 37 Especial para o atendimento e a oferta das condições adequadas para o desenvolvimento da pessoa com deficiência no âmbito escolar e de convívio social. No contexto dos fundamentos legais da educação brasileira está a convergência com as recomendações sobre a inclusão socio-educacional em nível internacional. A UNESCO promove as Conferências Internacionais de Educação de Adultos (CONFINTEA). Em seus fóruns, os mais influentes no campo internacional da educação de adultos, estabelecem diretrizes e políticas globais em educação para adultos. Os fundamentos, de acordo com a Declaração Universal de Direitos Humanos concebe o direito de todos à educação, independente da idade, religião, classe social, etnia. Reafirma o princípio do direito à educação como pedra fundamental da UNESCO, na forma do Programa Educação para Todos, foi lançado em Jomtien, em 1990 (UNESCO, MEC, 2012). Na VI CONFINTEA, a primeira realizada no hemisfério Sul e no Brasil, na cidade de Belém do Pará, em 2009, as recomendações foram sobre os conteúdos da educação de adultos na perspectiva das agendas da atualidade. Assim garantia-se a igualdade de direitos, compreensão crítica dos problemas da sociedade contemporânea e a aprendizagem ao longo da vida (UNESCO, MEC, 2012). Um grande avanço nos direitos dos alunos com deficiência na EJA foi estabelecido na CONFINTEA, com a elaboração das providências para os grupos sociais em desvantagens, entre eles, as pessoas com deficiência, para que pudessem dispor das mesmas oportunidades que os demais alunos na escola. Em 2001, a lei 10.172 aprova o Plano Nacional de Educação (PNE), integra as ações da Educação Especial, o fortalecimento das mudanças dos sistemas de ensino em relação às necessidades educativas dos alunos com deficiência, abrangendo a EJA, com o desenvolvimento de programas educacionais em todos os municípios e suas parcerias com a saúde e a assistência social. Ainda em 2001, a Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE/CEB nº 2) institui as Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica, que aborda dois grandes temas. O primeiro, refere-se à organização dos Sistemas de Ensino para estabelecerem os serviços de apoio como o Atendimento Educacional Especializado (AEE), de modo a desenvolver as potencialidades dos alunos. E o segundo diz respeito à formação docente. Essas normativas garantem, ainda, que deve ser assegurada a organização para que os alunos com deficiência estejam nas 38 classes comuns. Nesse sentido, as ações devem representar um esforço entre todas as instâncias: A política inclusiva exige intensificação quantitativa e qualitativa na formação de recursos humanos e garantia de recursos financeiros e serviços de apoio pedagógico públicos e privados especializados para assegurar o desenvolvimento educacional dos alunos (BRASIL, 2001, p. 29-30). Cumpre observar um direcionamento das políticas públicas de inclusão para buscar a distribuição das responsabilidades entre todas as esferas do governo. Vilaronga (2014) tece suas considerações sobre ações políticas de inclusão neste período: O fato de os sistemas de ensino terem que reunir recursos da comunidade para garantir o atendimento das necessidades educacionais dos alunos está diretamente relacionado com a reforma do Estado brasileiro, que propõe a divisão de responsabilidades entre o setor público e o setor privado (público não estatal) (VILARONGA, 2014, p. 85). Do mesmo modo, a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) expressa as diretrizes na modalidade de Educação de Jovens e Adultos e as ações da Educação Especial que possibilitam ampliação de oportunidades de escolarização, formação para a inserção no mundo do trabalho e efetiva participação social. A Resolução nº4 CNE/CEB de 2009, institui Diretrizes Operacionais para Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica na modalidade da Educação Especial e orienta sobre o Atendimento Educacional Especializado (AEE) que deverá acontecer no contraturno, preferencialmente na Sala de Recursos Multifuncionais (SRM). O Decreto nº 7.480 de 2011 criou a Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), com a extinção da Secretaria de Educação Especial (SEESP). Para Bezerra (2014), essa reestruturação ministerial, culminando com a criação do SECADI, demonstra os arranjos políticos que buscam subordinar a Educação Especial e processo de inclusão educacional ao que chamou de “igualitarismo 39 formal5”, considerando, ainda, que as ações políticas e as práticas precisam representar os verdadeiros “anseios e reinvindicações dos sujeitos”, e atentando para a necessidade da escola recuperar ações significativas de acordo com as necessidades dos alunos para a construção de uma verdadeira democratização do ensino. Em 2012, a lei 12.764, Lei Berenice Piana, instituiu a Política Nacional de proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e estabelece o direito ao acompanhamento especializado. As diversas medidas oficiais em defesa dos direitos educacionais da pessoa com deficiência na EJA são fundamentais para que se cumpra o estabelecido na lei, porém cabe ressaltar que encontramos em alguns períodos ações eventuais que, muitas vezes, na sequência, são substituídas, ocasionando a descontinuidade. Bezerra (2014) chama a atenção para políticas públicas de inclusão educacional em contradição com as realidades objetivas. O autor, em seus estudos, discute as questões administrativas e as dificuldades para avançar nos processos de inclusão escolar pelas mudanças repentinas e interrupções. Mesmo diante de diferentes momentos e diversas normativas, por um lado ocorre a efetivação da Educação Especial na EJA, mas por outro a ausência de diretrizes específicas do AEE na EJA. Lima (2015) considera as reflexões de Ferreira (2009) sobre a Resolução CNE/CEB n. 04/2009 que “não há artigo algum ou parágrafo que trate do Atendimento Educacional Especializado para alunos com deficiência matriculados em turmas da EJA” (LIMA, 2015, p. 41). De fato, as mudanças devem ocorrer para que os alunos PAEE na EJA tenham seus direitos preservados e as conquistas das aprendizagens. Assim, é preciso readequar as ações práticas no processo de inclusão para efetivar à participação e a 5 Os estudos de Cohen demonstram o aprofundamento do conceito de igualitarismo. Denominam um conjunto de concepções de justiça que objetivam garantir tanto liberdade, quanto igualdade, que compreende liberdades civis e políticas e três tipos de princípios de igualdade: primeiro, um requerimento de igualdade política substantiva, garantindo que os cidadãos independente de suas posições políticas, tenham oportunidades iguais de influenciar as decisões coletivas; segundo, um requerimento de igualdade de oportunidades reais, condenando desigualdades de oportunidade ligadas a diferenças de origem e trajetória social; e terceiro, uma concepção de bem-estar geral que dê prioridade aos indivíduos em piores condições sociais. (COHEN, 2000, p.162). 40 igualdade de oportunidades educativas. Desse modo, no capítulo seguinte, aprofundamos as discussões sobre o AEE na EJA. 41 2. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO NA EJA 2.1. (Re)flexão sobre o Atendimento Educacional Especializado na EJA Para colaborar com a compreensão sobre como ocorre o atendimento aos adultos com deficiência na EJA, é fundamental reconhecer quem são os sujeitos que chegam nas salas da EJA. Nos últimos anos, encontramos um movimento social em favor das camadas populares, sobretudo aqueles em condições de vulnerabilidade econômica, social e cultural. Di Pierro (2005) aborda “a emergência de movimentos que reivindicam o reconhecimento político e cultural de identidades sociais singulares, entre estes as mulheres, negros, jovens, indígenas, sem-terra” (DI PIERRO, 2005, p.1121). Para Di Pierro (2005) os sujeitos adultos que entram na escola pela primeira vez são aqueles que ao longo da história, tiveram os direitos negados e limitado acesso à educação escolar. Os aprendentes da EJA chegam a escola para sistematizar suas aprendizagens anteriores e na conquista de novos. Segundo Vargas (2013) concordando com os estudos de Vygostski (2008) a aprendizagem e o desenvolvimento estão inter-relacionados desde o início da vida. Assim para Vargas (2013) os alunos adultos pouco ou não escolarizados são sujeitos de experiências e considera ainda, que o aprendizado possui natureza social e histórica: O aprendizado desses sujeitos inicia-se muito antes de frequentarem a escola, uma vez que eles aprendem a lidar com as situações, as necessidades e as exigências cotidianas da sociedade contemporânea. Portanto, quando começam a estudar, já tiveram experiência com medidas, cálculos matemáticos, materiais impressos, língua materna falada, ferramentas de trabalho e equipamentos elétricos e/ou eletrônicos. (VARGAS, 2013, p.453). De acordo com tal perspectiva a Educação de Jovens e Adultos em tempos recentes está se reorganizando para ampliar e receber a população de jovens e adultos e os alunos com deficiência. Um histórico educativo vem delineando-se formalizado nos documentos legais e orientações que fazem referências às ações que contemplam a educação inclusiva. Moura (2015) aponta que a nova proposta educacional para avançar no atendimento 42 e na construção de escola inclusiva deve ter um entrelaçamento entre os profissionais da educação, as políticas educacionais públicas, redes de apoio e familiares. Uma nova proposta educacional, fundamentada em recentes teorias educacionais, vem exigindo mudanças nas concepções pedagógicas dos profissionais de educação atuantes nas escolas e interferindo na vida dos sujeitos com deficiência e seus familiares, como na forma de gestão de políticas educacionais, especialmente escolar. A efetivação de ações que saiam do plano do discurso e avancem em direção as ações concretas para atender às demandas de inclusão; garantia de continuidade de estudos às (aos) educandas (os) [...] (MOURA, 2015, p. 55). As Diretrizes Nacionais para Educação Especial na Educação Básica, Parecer CNE/CEB n. 17/2001, prevê a garantia do Atendimento Educacional Especializado, assegurado pelo conjunto de recursos e serviços organizado para atender as necessidades educacionais do aluno com deficiência. Este documenta adota os termos apoiar6, complementar, suplementar e, em alguns casos, substituir. Vilaronga (2014), em seus estudos sobre a legislação, ressalta que com estas diretrizes (2001), as ações da Educação Especial passam a abordar não somente os alunos com dificuldades acentuadas de aprendizagem relacionadas às disfunções e deficiências, mas amplia para aqueles alunos que muitas vezes estão na sala de aula totalmente na invisibilidade e que apresentam dificuldades cognitivas, psicomotoras e de comportamento. A Portaria Ministerial nº 13/2007 dispõe sobre a criação do Programa de implantação de Salas de Recursos Multifuncionais, como um espaço do Atendimento Educacional Especializado (AEE), organizado com equipamentos de informática, ajudas técnicas, materiais pedagógicos e mobiliário adaptado para mobilizar as aprendizagens e a universalização das ofertas de atendimento. Nesta continuidade, as Diretrizes Operacionais para o AEE na Educação Básica na modalidade Educação Especial (2009) institui a implementação de ações desenvolvidas pelos sistemas de ensino aos alunos PAEE, em que estes devem ter suas matrículas nas classes comuns do ensino regular e no AEE, ofertado Termos de acordo com Parecer CNE/CEB nº 17/2001 (BRASIL, 2001, p.12): 6 a) Apoiar: “prestar auxílio ao professor e ao aluno no processo de ensino e aprendizagem, tanto nas classes comuns quanto em salas de recursos”; complementar: “completar o currículo para viabilizar o acesso à base nacional comum” b) Substituir: “colocar em lugar de”. Compreende o atendimento educacional especializado realizado em classes especiais, escolas especiais, classes hospitalares e atendimento domiciliar. 43 prioritariamente em Salas de Recursos Multifuncionais, visando a integração do PAEE no processo educacional: Art. 2º O AEE tem como função complementar ou suplementar a formação do aluno por meio da disponibilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias que eliminem as barreiras para sua plena participação na sociedade e desenvolvimento de sua aprendizagem. Art. 4º Considera-se público-alvo do AEE: 1. Alunos com deficiência: aqueles que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou sensorial. 2. Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na comunicação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos sem outra especificação. 3. Alunos com altas habilidades/superdotação: aqueles que apresentam um potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade (BRASIL, 2009, p.17). Todas essas orientações dos documentos enfatizam o uso de recursos de acessibilidade na escolarização, as ações que assegurem condições de acesso ao currículo dos alunos com deficiência ou mobilidade reduzida, utilização de materiais didáticos, de espaço, mobiliário e equipamentos, promoção de sistemas de comunicação e informação e outros serviços facilitadores da aprendizagem. Os indicativos oficiais nacionais apontam para o aumento significativo nas matrículas de alunos na EJA e na Educação Especial, representados nas Figuras 1 e 2. Expressam os posicionamentos do MEC, sobre a inclusão escolar como oferta de vaga. Porém, faz-se necessário considerar a adoção das ações do ponto de vista pedagógico, as condições de desenvolvimento e apropriação de conhecimentos por parte destes alunos. As discussões sobre o AEE e o espaço de aplicação na Sala de Recursos Multifuncionais no Decreto n. 6.571/2008, ênfase dada à Sala de Recursos Multifuncionais. Sendo assim, levanta-se um questionamento sobre a matrícula dupla do aluno com deficiência no ensino regular e no AEE para o recebimento dos recursos do FUNDEB a partir de 2010, tornando oportuno atentar para os recursos aplicados e sua destinação e ainda conforme Mendes (2003), já se vinha observando o desviar da atenção daquilo que é realmente necessário em relação à inclusão, como a adoção da medida da transferência de local onde os alunos eram atendidos nas instituições 44 de ensino especial e as resoluções dadas prioritariamente ao ensino comum, ou seja, a que se chamou de “ integração escolar, quando apenas tiramos os alunos de classes especiais e colocamos nas classe comum” ou mesmo criando as “classes de recursos” (MENDES, 2003, p. 36). Figura 1 - Gráfico - Modalidade da EJA Fonte: INEP – Censo Escolar 2016 Notas Estatísticas (2017) Figura 2 - Gráfico - Educação Especial Fonte: INEP – Censo Escolar 2016 Notas Estatísticas (2017) 45 Por certo, outro desafio que o AEE apresenta está diretamente relacionado à dimensão pedagógica na EJA, de cumprir com seus objetivos em relação às situações de aprendizagem, de modo a efetivar as reais necessidades educativas dos alunos PAEE em idade adulta. Além disso, os alunos com deficiência jovens, adultos e idosos têm uma bagagem sociocultural, das experiências pessoais e vivências coletivas, do mundo do trabalho. Portanto, o conteúdo curricular, as práticas pedagógicas, a avaliação e o contexto da sala de aula devem representar a apreensão dos conhecimentos e sua função social. Os documentos e orientações na esfera das políticas públicas reforçam as bases legais da educação inclusiva, mas muitos professores ainda esbarram no distanciamento ao realizar a transposição para a prática pedagógica. No planejamento das atividades, os conteúdos em sua maioria estão propostos em livros didáticos e materiais pedagógicos com uma configuração infantil. Quando o professor encontra um material didático apropriado à EJA, muitas vezes, este não se apresenta pertinente ao grupo escolar que atua. O compromisso do professor deve ser de realizar a flexibilização curricular e de propor instrumentos condizentes com a realidade e a necessidade do aluno com deficiência, para que este possa atribuir significado aos conteúdos, participar de forma ativa para avançar na aprendizagem. Poker (2013) aponta que no contexto do AEE, os objetivos, os conteúdos, a metodologia utilizada, os procedimentos de ensino e mesmo os instrumentos de avaliação precisam estar associados aos interesses e às necessidades educacionais do aluno. Os sistemas de ensino precisam estar organizados para o AEE, em consonância com o Projeto Político Pedagógico e segundo Poker (2013), em conformidade com Galve e Sebastian (2002), o professor especialista em conjunto com o professor da sala regular, têm condições de identificar e conhecer as habilidades e competências, os recursos/estratégias de ensino que proporcionam a aprendizagem, de forma a superar ou compensar os comprometimentos e ou dificuldades existentes (POKER, 2013, p.18). Outro questionamento a se destacar sobre a Educação Especial na EJA é o texto da lei que prevê no artigo 5, da Resolução nº4 da CNE/CEB de 2009, a realização do AEE no turno inverso da escolarização. Ao mesmo tempo em que as 46 políticas públicas reafirmam os direitos educacionais, por outro lado, não oferecem condições, como o caso do contraturno do AEE na EJA. Como propor para público adulto a permanência dupla na escola? Muitas vezes, torna-se uma dificuldade para alunos jovens, adultos e idosos com deficiência frequentar as aulas e retornarem para a escola para efetivar o atendimento especializado. Estudos recentes de Campos e Duarte (2011); Hass (2015) corroboram para as reflexões acerca de uma legislação específica para o Atendimento Educacional na EJA, que estabeleça a oferta do AEE para o turno noturno, considerando que os alunos adultos em sua maioria estão no mercado de trabalho durante o dia. Corrêa (2012) destaca que, nos últimos anos, após meados dos anos 2000, ocorre uma ampla concretização das Salas de Recursos Multifuncionais e a implementação do formato “multifuncional”, no entanto não necessariamente precisa ser somente este espaço como “modelo único” para formalizar as práticas pedagógicas inclusivas em atendimento ao aluno com deficiência. A escola é composta pela diversidade de alunos e tanto o ensino da classe comum como o proposto pela Educação Especial perpassam pelo respeito às particularidades individuais. O AEE tem por finalidade colaborar para que o aluno com deficiência seja atendido nas suas especificidades educativas, articulando com a proposta curricular, de maneira que garanta a sua participação no ensino regular. Buscamos com estas breves constatações, o reconhecimento legal dos alunos jovens e adultos PAEE a escolarização, contudo não suficiente para garantir à permanência, e a continuidade destes estudantes. É preciso, que as políticas públicas estejam imbuídas de ampliar o acesso e qualidade, no sentido de efetivar práticas educativas na perspectiva da educação inclusiva. Neste sentido, concordamos com Carvalho (2004) de uma educação escolar “consistente e justa para todos”. O foco desta pesquisa é o AEE para alunos adultos, para tanto no capítulo seguinte buscamos reconhecer as intervenções didáticas. 2.2. A atuação docente e práticas inclusivas O professor desempenha importante compromisso em defesa do movimento de inclusão, de reconhecer o potencial da sala de aula como um espaço social que 47 contribui para o fortalecimento dos valores éticos, do respeito às diferenças sociais, econômicas, religiosas e culturais. Tal compromisso na proposição pedagógica requer uma postura em atenção às necessidades educacionais, propondo formas de comunicação e práticas diferenciadas e criativas. Meira (2012), em relação ao trabalho pedagógico no cotidiano escolar da EJA, reforça que o processo de aquisição da leitura e escrita não pode romper com o que os alunos já sabem. Requer uma postura consciente do professor, que deve considerar o legado cultural dos alunos e o entrelaçamento com as proposições pedagógicas na construção de um novo saber. A autora ainda ressalta a importância do compromisso educativo em atenção às dificuldades apresentadas pelos alunos. A literatura sobre EJA apresenta aprofundadas reflexões sobre as dificuldades de aprendizagem do aluno adulto que se vê aprisionado pela não escolarização e considera o processo de aprendizagem distante de uma possibilidade real, o que resulta em evasão. O professor, enquanto mediador, deve cumprir seu papel de fazer com que o aluno possa participar e saber externar seu potencial, que embora seja diferente dos demais, faz parte de uma coletividade. E que também deve ter seu direito garantido de acessar as diferentes dimensões do conhecimento social, econômico, político, ambiental, científico e artístico. Ainda sobre o compromisso educativo em favor da introdução do novo conhecimento, partindo do contexto social, as vivências e todo o processo histórico e cultural do aluno, Meira (2012) considera ser um imperativo na EJA deixar de lado a repetição dos modelos acadêmicos de lousa e atividades de excessivas cópias de palavras e textos. Essas práticas devem ser abolidas, pois são processos de mecanização e acabam por não produzirem resultados, ou até mesmo a evasão na educação de adultos. As intervenções pedagógicas fazem parte do ato educativo na medida em que o professor se compromete com a prática pedagógica, a reflexão sobre avanços ou dificuldades encontradas. Num processo de rever, ressignificar, de abertura para compartilhar com seus pares as possibilidades em atenção às reais dificuldades educativas. Em se tratando do professor da Educação Especial a Resolução n. 04/2009 regulamenta as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, o artigo 13, estabelece o conjunto de 48 atribuições do professor do especialista, visando identificar, organizar e aplicar o AEE, em conjunto com o professor do ensino regular, ações pedagógicas e recursos de acessibilidade que venham indicar caminhos possíveis para chegar ao currículo (BRASIL, 2009). Lima (2011) discute o trabalho pedagógico do professor do AEE e aponta para a importância da atuação nos processos de investigação e avaliação do aluno, os encaminhamentos de organização, levando em conta os aspectos cognitivos, motores e socio afetivo dos alunos. Vilaronga (2014), em consonância com os estudos de Mendes, defende o ensino colaborativo. E de acordo com Corderman; Bresnahan; Pedersen (2009), considera que a escola precisa dispor de um “tempo de planejamento em comum”, objetivando práticas pedagógicas entre os professores, da educação especial e da sala regular, conteúdos e adaptações curriculares, organização e avaliação, acompanhamento da aprendizagem e as metas para o Plano Educacional Individualizado dos alunos com deficiência. A proposta do ensino colaborativo configura-se como uma possibilidade para o AEE, cabendo ressaltar que o trabalho colaborativo entre os educadores da sala regular e o da educação especial contribui, na medida em que os professores em conjunto possam somar suas experiências educativas, tendo em vista auxiliar nas dificuldades de aprendizagem apresentadas pelo PAEE (ZANATA; CAPELLINI; PEREIRA; 2012). A parceria entre os professores é fundamental para que o aluno tenha condições de aprender e realizar as atividades propostas, respeitando as habilidades do PAEE. Mas aqui cabendo compreender que o professor do AEE deve ter formação que o habilite para a Educação Especial. Neste sentido, sua atuação no AEE na EJA, precisa estar vinculada a participação de cursos de formação continuada e também devendo contar com a interação com o professor regular da EJA, para saber atender os alunos jovens, adultos e os idosos com deficiência. Para Mendes (2014) o trabalho colaborativo entre os professores implica em promover o desenvolvimento profissional e pessoal dos professores, novas habilidades interpessoais e de sentido de equipe. Na EJA as parcerias colaborativas entre os professores permitem que os alunos do AEE avancem na conquista do aprendizado e nas interações sociais, na 49 vida familiar e contribuindo para adentrar ou cooperar com habilidades para mercado de trabalho, participação sociocultural e alcançando os direitos como as demais pessoas. Somado a essas parcerias as ações de cooperação entre os professores, coordenação e gestão escolar e, buscando ferramentas educativas diversificadas para a melhoria no atendimento contribuindo de maneira mais efetiva para a inclusão e desenvolvimento educacional. Entende-se, assim, ser essencial a parceria entre os professores envolvidos na inclusão escolar, com trocas significativas e potencializadores. Visto que, as práticas pedagógicas inclusivas desenvolvidas por esses profissionais colaboram para êxito na vida em sociedade. Somado a essa perspectiva, avançar nos estudos e pesquisas sobre o referencial teórico e metodológico da EJA e as representações do PAEE. Mendes (2006) afirma também ser “necessário que se faça uma pesquisa mais engajada nos problemas da realidade e que tenham implicações práticas e políticas mais claras” (MENDES, 2006, p.402). 2.3. A perspectiva das Adaptações Curriculares A educação inclusiva compreende uma visão de que todos os alunos devem ser matriculados no ensino regular. Para tanto, adequar as dimensões administrativas e pedagógicas a fim de que o PAEE possa ser atendido de acordo com suas necessidades educativas. O currículo, por exemplo, adequado em sua dimensão pedagógica, de forma a contribuir para processo educativo desta diversidade de alunos, buscando uma escola estruturada para todos. A Constituição Federal de1988 faz referência à abordagem curricular em seu Art. 210, segundo o qual “serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988). O Conselho Nacional de Educação instituiu na Resolução CNE/CEB n. 2, de 11/9/2001, que os Sistemas de Ensino com base nos princípios da educação inclusiva ao PAEE, deve assegurar condições necessárias ao acesso ao currículo. Assim, o artigo 8, no parágrafo III, define que: 50 [...] flexibilizações e adaptações curriculares que considerem o significado prático e instrumental dos conteúdos básicos, metodologias de ensino e recursos didáticos diferenciados e processos de avaliação adequados ao desenvolvimento dos alunos que apresentam necessidades educacionais especiais, em consonância com o projeto pedagógico da escola (BRASIL, 2001, p. 2). A Secretaria da Educação Especial – MEC (2003) elaborou o estudo “Saberes e Práticas da Inclusão”, que traz o conceito para as adaptações curriculares como estratégias e critérios que os professores realizam para oportunizar e adequar as aprendizagens. O documento apresenta dois focos das adaptações curriculares. O primeiro relacionado ao diagnóstico da necessidade educativa e o segundo, os tipos de adequações. As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica (2013), regulamenta o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a flexibilização curricular como mecanismos que viabilizarão a melhoria da qualidade do processo educacional do PAEE (BRASIL, 2013). Essas Diretrizes Operacionais baseiam-se, então, na concepção do atendimento educacional especializado e não devem ser entendidas como substitutivo à escolarização realizada em classe comum das diferentes etapas da educação regular, mas sim como mecanismo que viabilizará a melhoria da qualidade do processo educacional dos alunos com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação matriculados nas classes comuns do ensino regular, ao mesmo tempo em que orienta a organização da escola e as demandas dos sistemas de ensino (BRASIL, 2013, p. 281). Mendes e Matos (2014) afirmam que os estudos sobre o processo educativo com base na flexibilização curricular ao PAEE, apontam para o respeito às diferentes formas de aprendizagens, atentam para as singularidades de assimilação dos saberes e acabam por contribuir para o enfrentamento das dificuldades apresentadas por estes alunos. Heredero (2010) faz referência às adaptações curriculares de acordo com GALVE (2002) que trata das modificações individualizadas e dos conteúdos básicos ou nucleares, realizados nos objetivos, conteúdos, avaliação em resposta às dificuldades apresentadas por cada aluno. Fonseca (2015) apresenta as adequações curriculares como sendo os ajustes curriculares, entendidos como estratégias para atender aos “diferentes”, e considera, que a aprendizagem se dá quando ocorrem “colaboração e interação positiva entre 51 alunos e professor”. Os ajustes curriculares devem ser propostos com as revisões e modificações realizadas pelo professor com base nas dificuldades de aprendizagem dos alunos. A autora destaca que, não se tratando de um novo currículo, mas os ajustes no próprio currículo, e se necessário “um currículo que a base reguladora seja o currículo comum, um currículo dinâmico, alterável, passível de ampliação, para que atenda realmente a todos” (FONSECA, 2015, p. 27). Para Fonseca (2015) os conceitos de flexibilização, adequação e adaptação curriculares, passaram por mudanças na nomenclatura, mas o que realmente se faz necessário é que as mudanças no currículo devem ocorrer em favor da aprendizagem dos alunos PAEE. As modificações pedagógicas inclusivas devem estar de acordo com os princípios e com as diretrizes do Projeto Político Pedagógico. Portanto, os autores e estudos (MAJÓN, 1997; BRASIL, 1999; ZANATA, 2004; LEITE e MARTINS, 2010) concordam com Fonseca (2015) na separação clara e conceitual de modalidades: Flexibilização - programação das atividades elaboradas para sala de aula, diz respeito a mudanças de estratégias em âmbito das práticas pedagógicas que não consideram mudanças no planejamento curricular de ensino. Adequação - atividades individualizadas que permitam o acesso ao currículo que focalizam a atuação do professor na avaliação e no atendimento às necessidades acadêmicas de cada aluno, dizem respeito a adequações ao planejamento curricular de ensino, considerando a necessidade de determinados alunos, prevendo mudanças em objetivos, conteúdos, recursos e práticas pedagógicas. Adaptação - focaliza, sobretudo, a organização escolar e os serviços de apoio, propiciando condições estruturais que possam ocorrer no planejamento curricular da sala de aula atendendo às diferenças individuais, diz respeito à mudança do próprio planejamento curricular, propondo um currículo alterado para determinado aluno, que poderá se beneficiar de um modelo de planejamento diferente do trabalhado com os demais alunos (FONSECA, 2015, p. 36). Vale ressaltar que para fins desta pesquisa optamos pela utilização da modalidade adaptações curriculares. As revisões e reformulações das terminologias ocorrem principalmente devido as mudanças sociais. Assim, os estudos, pesquisas e de acordo com as instruções e dire