UNESP UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Faculdade de Ciências e Letras Campus de Araraquara - SP JOÃO VITOR BATISTUTE LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ Tolkien e o surgimento do roleplaying game ARARAQUARA – SP 2024 JOÃO VITOR BATISTUTE LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ Tolkien e o surgimento do roleplaying game Dissertação de mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr) como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Estudos Literários. Linha de pesquisa: Teorias e Críticas da Narrativa Orientador: Prof. Dr. Aparecido Donizete Rossi ARARAQUARA – S.P. 2024 JOÃO VITOR BATISTUTE LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ Tolkien e o surgimento do roleplaying game Dissertação de mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) – Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara (FCLAr) como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Estudos Literários. Linha de pesquisa: Teorias e Críticas da Narrativa Orientador: Prof. Dr. Aparecido Donizete Rossi Data da Defesa: 23/05/2024 MEMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA: Presidente e Orientador: Prof. Dr. Aparecido Donizete Rossi (UNESP-FCL-Ar) Membro Titular: Profa. Dra. Fernanda Aquino Sylvestre (UFU/ILEEL) Membro Titular: Prof. Dr. Stéfano Stainle (Pesquisador Independente) Local: Universidade Estadual Paulista Faculdade de Ciências e Letras UNESP – Campus de Araraquara O RPG se constitui, assim, uma resposta a um contexto social que nega cada vez mais os ritos de passagem, a fantasia e a participação. O jogo constitui, por isso mesmo, uma iniciação, com nova roupagem, à contação de histórias e ao faz-de-conta. Sônia Rodrigues (2004) RESUMO O presente trabalho se propõe a estudar a influência das obras literárias de John Ronald Reuel Tolkien na origem do roleplaying game (doravante, RPG), a partir do sistema de RPG pioneiro Dungeons & Dragons (D&D), dos autores Gary Gygax e Dave Arneson. Em D&D, há significativas referências e inferências do universo da Terra-Média, que se manifestam desde questões estéticas, até criaturas e características das personagens às localidades existentes nesse Mundo Secundário. Durante o percurso, é notada a estruturação de um gênero literário: a High Fantasy que é consolidado pela obra O Senhor dos Anéis e, posteriormente, pela obra póstuma O Silmarillion do autor J. R. R. Tolkien. Para sua análise, a pesquisa valer-se-á de teóricos como Tzvetan Todorov, Filipe Furtado, Tolkien e Umberto Eco para o entendimento das características do gênero relacionando diretamente a forma e conteúdo da imersão, da suspensão da descrença, da construção de verossimilhança e da jornada heroica do gênero da High Fantasy aos livros de RPG de Dungeons & Dragons. Para o entendimento do RPG enquanto jogo, fez-se uso do arcabouço teórico de Johan Huizinga, compreendendo os elementos primordiais de interpretação, do contar histórias coletivamente e interpretação de personagens do RPG, ligando-as à construção estética e narrativa de O Senhor dos Anéis. Culminar-se-á no ponto fulcral de conexão entre os elementos estéticos-narrativos da obra tolkieniana e de Dungeons & Dragons que estabelecerão um padrão de influência de referências e inferências em obras de fantasia posteriores, tanto de RPG quanto de literatura. Palavras-chave: Dungeons & Dragons; Fantasia; Gary Gygax; High-Fantasy; Hobbit; J. R. R. Tolkien; Ranger; Roleplaying games; Senhor dos Anéis. ABSTRACT The present work aims to study the influence of John Ronald Reuel Tolkien's literary works on the origin of the roleplaying game (RPG), based on the pioneering RPG system Dungeons & Dragons (D&D), by authors Gary Gygax and Dave Arneson. In D&D there are significant references and inferences from the Middle-Earth universe, which manifest themselves from aesthetic issues, to creatures, characteristics of the characters to the locations existing in this Secondary World. During the journey, the structuring of a literary genre is noted: High Fantasy, which is consolidated by the work The Lord of the Rings and, later, by the posthumous work The Silmarillion by author J. R. R. Tolkien, using theorists such as Tzvetan Todorov, Filipe Furtado , Tolkien and Umberto Eco to understand the characteristics of the genre and, subsequently, directly relate the form and content of immersion, suspension of disbelief, construction of verisimilitude and the heroic journey of the genre from High Fantasy to Dungeons & Dragons RPG books. To understand RPG as a game, Johan Huizinga's theoretical framework was used, comprising the primary elements of interpretation, collective storytelling and interpretation of RPG characters, linking them to the aesthetic and narrative construction of The Lord of the Rings It culminates in the central point of connection between the aesthetic- narrative elements of Tolkien's work and Dungeons & Dragons, which will establish a pattern of influence of references and inferences in later fantasy works, both RPG and literature. Keywords: Dungeons & Dragons; Fantasy; Gary Gygax; High-Fantasy; Hobbit; J. R. R. Tolkien; Ranger; Roleplaying games; Lord of the Rings. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Mapa da Terra-Média 45 Figura 2 – Capas da edição original 59 Figura 3 – Capas de AD&D Primeira Edição 59 Figura 4 – Capas de AD&D Segunda Edição 60 Figura 5 – Capas de D&D Terceira Edição 60 Figura 6 – Capas de D&D 3.5 61 Figura 7 – Capas de D&D Quarta Edição 61 Figura 8 – Capas de D&D Quinta Edição 61 Figura 9 – Ficha de Personagem: informações gerais 76 Figura 10 – Livro do Jogador: raças 77 Figura 11 – Ficha de personagem: habilidades 82 Figura 12 – Livro do Jogador: Tabela 3-11 da classe Guerreiro 84 Figura 13 – Ficha do Jogador: lista de perícias Figura 14 – Dados de RPG – Dungeons & Dragons Figura 15 – Livro dos Monstros: sumário Figura 16 – Mapa da Terra-Média 85 86 89 107 Figura 17 – Mapa de Forgotten Realms 107 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 8 2. LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ ...................................................................................... 13 2.1 Uma Breve Jornada pela Terra-Média ............................................................................ 14 2.2 A Guerra do Anel ............................................................................................................ 35 2.3 High Fantasy: Tolkien e a Alta Fantasia ......................................................................... 43 3. CAVERNAS E DRAGÕES: NASCIMENTO DO ROLEPLAYING GAME ................. 54 3.1 O que é Roleplaying Game? ........................................................................................... 63 3.2 Os Livros de Dungeons & Dragons ................................................................................ 74 3.3 Os diferentes dados, suas especificidades e valores ....................................................... 90 4. DA TERRA-MÉDIA PARA OS VINTE LADOS DE UM DADO ................................ 98 4.1 O Narrador e o Mestre .................................................................................................... 98 4.2 Construindo Mundos ..................................................................................................... 105 4.3 Monstros e Criaturas ..................................................................................................... 116 4.4 Povos e Raças ............................................................................................................... 121 4.5 Ocupações e Classes ..................................................................................................... 130 4.6 Da Terra-média para Dungeons & Dragons ................................................................. 137 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 142 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 145 8 1. INTRODUÇÃO Este trabalho pretende investigar as influências das obras do autor John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973) na origem do jogo de mesa denominado roleplaying game (RPG) por meio da primeira publicação do primeiro jogo dessa modalidade intitulado Dungeons & Dragons (1974), popularmente denominado por suas siglas D&D, adentrando nas diversas conexões e paralelos entre o universo ficcional da Terra-média, seus cenários e habitantes e os conteúdos presentes nos livros das diversas publicações ao longo dos anos de D&D. O ponto de formulação da ideia temática da presente pesquisa advém de longos anos, com os primeiros rastreios de memória através de perguntas feitas de um sobrinho quando teve seu primeiro contato com o RPG no apogeu de sua infância para o seu tio que era entusiasta e jogador desse tipo de jogos. Eram tardes mágicas na antiga residência de sua avó observando um grupo de adultos em torno de uma mesa, munidos de canetas, papéis, dados e livros, contando histórias fabulosas em outras realidades, enfrentando dragões, encontrando magos lendários e salvando reinos de sua provável derrocada. A pergunta que lhe marcou era sobre a origem do RPG, como e por que aquele jogo havia sido criado, e a resposta o perseguiria por um bom trajeto de sua vida: os autores de Dungeons & Dragons possuíam tanta vontade de viver as aventuras da Comitiva do Anel em O Senhor dos Anéis (The Fellowship of the Ring, 1954) que desenvolveram esse tipo de jogo para conseguir de alguma forma viver aventuras tão épicas quanto aquela de Frodo em busca da destruição do Um Anel. Foram longos os anos que essa afirmação retornava em seus pensamentos até culminar ao ponto de encontro entre um futuro pesquisador e um orientador. Após longas discussões de prováveis projetos de pesquisa, essa afirmação foi retomada, mas desta vez se tornava uma pergunta: O Senhor dos Anéis realmente influenciou na criação de Dungeons & Dragons, publicação pioneira do RPG? E, então, formulou-se o projeto que veio a se tornar uma dissertação de mestrado. Todo e qualquer indivíduo que venha a ter contato com a obra de J. R. R. Tolkien e fizer o movimento da busca por outras obras parecidas e próximas, encontrar-se-á diante de um eterno ciclo de resgate ao imaginário estético fantástico tolkieniano, assim Sempre que se pensa em fantasia, RPG (Role-Playing Game — jogo de interpretação de papéis ou jogo de representação), maravilhoso, viajem no tempo, quest fantasy, comitivas de aventura, etc., a pessoa que vem à mente é sempre J. R. R. Tolkien e sua obra; ele contribuiu para a abertura das portas 9 do imaginário no século XX, as crianças herdaram uma grande quantidade dos aspectos de sua obra através de jogos de tabuleiro e desenhos animados, bandas baseadas em suas temáticas, jogos de computador, vídeo games, card games e uma literatura de fantasia renovada (Stainle, 2016, p. 13). O primeiro passo a ser dado foi a busca de possíveis pesquisas prévias publicadas – artigos, dissertações, teses ou livros nacionais e internacionais – que tenham se preocupado com a mesma pergunta, chegando-se à conclusão de que várias publicações tocaram nessa questão sem se aprofundar nessas influências detalhadamente. À vista disso, tratando-se tal qual o pioneirismo de Dungeons & Dragons a presente pesquisa é a primeira que trabalha extensivamente sobre essas questões, abrindo portas para outros futuros trabalhos diferentes ou similares ao mesmo eixo temático tendo o RPG como objeto artístico midiático principal, denotando seu infinito potencial de questões para possíveis pesquisas. Após o primeiro procedimento, ao longo das leituras e busca de uma consolidação de aporte teórico acadêmico para uma resposta concreta, chegou-se à composição de três capítulos principais. O primeiro capítulo, intitulado “Lá e de volta outra vez”, discorre por um longo e detalhado resumo da narrativa de O Silmarillion (The Silmarillion, 1977), O Hobbit (The Hobbit, 1937) e O Senhor dos Anéis para uma ampla exposição dos conteúdos presentes das obras e, assim, nos posteriores capítulos resultando em uma melhor contextualização das relações referenciais entre as respectivas obras e os conteúdos presentes nos livros de Dungeons & Dragons. Por fim, há uma possível definição conceitual do subgênero High Fantasy, termo alcunhado pelo autor de ficção Lloyd Alexander (1924-2007), sendo o elo principal de conexão teórico dos procedimentos formais conteudísticos de ambos os objetos pesquisados na presente pesquisa, sendo que, para o entendimento do conceito da High Fantasy, partiu-se dos escritos de Tzvetan Todorov (1939-2017) sobre a definição do conceito chamado maravilhoso até se chegar ao subgênero da fantasia denominado High Fantasy que expressa especificidades: construção de verossimilhança; imersão em ficcional mundo secundário a parte da realidade empírica sensível; jornada clássica do herói; luta pela restauração do equilíbrio; o rastro histórico remetente ao épico; vasta presença do sobrenatural e a ambientação que utiliza dos referenciais imaginários que remetem à estética do Medievalismo Romântico. Vale ressaltar que, na obra tolkieniana, “o equilíbrio de tensões e o hibridismo narrativo do autor serviram como base para a criação de um gênero de difícil delimitação, algo flutuante que tangencia o romance, a novela, a epopeia, o mito, e cria um novo tipo de narrativa” (Stainle, 2016, p. 13-14). 10 Os escritos de J. R. R. Tolkien em Sobre Histórias de Fadas (1964), livro transcrito das conferências de Umberto Eco em Harvard, Seis Passeios pelos Bosques da Ficção (1994) são pilares centrais teóricos para a auxílio na definição desse conceito de fantasia, permitindo um melhor entendimento das funcionalidades desse tipo específico de ficção não somente nas obras literárias textuais, mas do gênero enquanto manifestação em diversos tipos artísticos que se utilizarão de outras ferramentas midiáticas que vão para além do texto em si, tornando-se suportes teóricos para as análises da pesquisa ao longo de todo seu corpo textual. No segundo capítulo, intitulado “Cavernas e Dragões: nascimento do roleplaying game”, foi-se utilizada uma estratégia similar ao primeiro capítulo, tomando pela opção primeiramente de uma exposição detalhada da trajetória histórica de Dungeons & Dragons desde os primeiros protótipos de jogo do que viria a ser o RPG que levariam à publicação pioneira original da obra e suas posteriores atualizações, possuindo na atualidade cinco edições com diversificados livros temáticos para cada respectiva edição dos três livros básicos presentes desde a primeira edição – Livro do Jogador, Livro do Mestre e Livro dos Monstros. Seguidamente, é exposta uma explicação conceitual do que é um roleplaying game, utilizando- se dos aportes teóricos essenciais do livro Homo Ludens, de Johan Huizinga (1872-1945), auxiliando na formação conceitual da ideia de funcionalidade do jogo de RPG enquanto participante da tradição do ato de jogar, adentrando características que permitiram compreender as motivações, funções, manifestações dos indivíduos e da própria ritualística do ato de jogar em si no RPG. O livro da pesquisadora Sônia Rodrigues, Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil (2004) é o trabalho de pesquisa pioneiro sobre RPG no Brasil, originalmente tese de doutorado em literatura defendida em 1997 na PUC-Rio, também é de essencial suporte analítico para a compreensão detalhada sobre o que é RPG, os primeiros livros de RPG publicados e amplamente populares no Brasil – Dungeons & Dragons, GURPS (1986); Vampiro: A Máscara (1991) –, seus respectivos conteúdos, da questão coletiva de contar histórias oralmente, promovendo a reflexão do RPG resgatando a tradição da oralidade, e, por fim, deixando pistas ao longo de seu texto que agregaram no estabelecimento da conexão referencial das obras de Tolkien com D&D. Após da formulação do conceito do RPG enquanto jogo, explorou-se amplamente os conteúdos dos três livros básicos da terceira edição revisada (D&D 3.5) pela familiaridade com o conteúdo e sua popularidade entre as edições de D&D, seguindo a respectiva ordem: Livro do Jogador – em que seu conteúdo foi escolhido para ser exposto primeiro por conter todos os conteúdos básicos introdutórios e detalhados da funcionalidade de D&D e as especificidades de suas regras, explicitando mecânicas – interpretação, atributos, níveis, classes, raças, 11 combate, magias, conteúdos básicos do universo ficcional autoral de D&D - de jogo, terminologias próprias ao seu sistema, tanto quanto as opções conteudísticas disponíveis para à escolha dos jogadores ao criarem suas personagens. Essas exposições e explicações se intercalam, também, com a descrição detalhada dos elementos formais-conteudísticos presentes na Ficha do Jogador, papel (digital ou virtual) que contém as informações qualitativas e quantitativas das personagens e suas funções no decorrer de um jogo de D&D. Livro do Mestre – e todo o conteúdo a respeito do papel exercido pelo mestre no jogo, as dicas para a criação de uma história, o procedimento inicial, intermediário e avançado de dicas para estabelecer uma narrativa e as ferramentas para a elaboração, manutenção e seguimento de uma campanha, tanto quanto as diferentes funções exercidas pelo mestre que não são exclusivamente narrar a partida de RPG. Livro dos Monstros – explicações sobre a sua funcionalidade para o jogo de RPG e como as criaturas das mais diversas naturezas e origens são classificadas e organizadas. Adicionalmente aos livros básicos, também se exigiu uma explicação sobre os outros livros de D&D – livros-cenário, livros de expansão sobre as classes, livros de campanha pronta, livros sobre os dragões, grimórios de magias etc. – e até mesmo sobre os livros de literatura publicados que anteriormente eram campanhas de RPG. Os dados que são jogados ao longo do jogo e suas diferentes formas e bases unitárias quantitativas também necessitaram de explicação para melhor compreensão da sua utilidade, especificidade e em quais questões situacionais os jogadores irão jogá-los. Por fim, o terceiro capítulo, intitulado “Da Terra-média para os vinte lados de um dado” é traçada uma análise crítica entre os paralelos e conexões referenciais formais-conteudísticas entre a obra ficcional tolkieniana e D&D, comparando: protocolos ficcionais aplicados tanto pelo narrador tolkieniano e o mestre de RPG; a construção e detalhamentos presentes do cenário em sua estrutura geográfica (física e humana), social, política e cultural da Terra-média e as estratégias da construção de verossimilhança indicadas nos livros de D&D para composição de um Mundo Secundário; estéticas conteudísticas entre a Terra-média e o livro cenário Forgotten Realms de D&D realçando os protocolos do subgênero da High Fantasy partilhadas por ambas as obras; as criaturas da Terra-média e de D&D, realçando as referências tolkienianas presentes no bestiário do Livro dos Monstros desde a sua primeira edição; os povos da Terra-média e as raças do Livro do Jogador e, por fim, as ocupações (funções) das personagens de O Senhor dos Anéis e as classes básicas disponíveis no Livro do Jogador. Toda a base conceitual teórica e crítica necessária para a formulação breve de determinadas características da ficção tolkieniana que viria a permitir essas comparações se devem ao corpo de diversos pesquisadores anteriores que se debruçaram exclusivamente sobre 12 as obras de J. R. R. Tolkien. Assim, a dissertação de mestrado Gandalf: a linha na agulha de Tolkien (2016), a tese de doutorado Um hobbit a menos, um hobbit a mais, será que tanto faz? (2021) do pesquisador Stéfano Stainle, a dissertação de mestrado O Vicejar dos Astros: a individuação da personagem Frodo em O Senhor dos Anéis (2017) e a tese de doutorado Lógos e Eä: a individuação junguiana na obra de J.R.R. Tolkien (2022) do pesquisador Sérgio Ricardo Perassoli Junior exerceram papel principal de auxílio das muitas afirmações e conclusões ao longo do corpo textual da presente pesquisa. A busca, então, pela resposta da pergunta que levou a formação, estruturação e execução da presente pesquisa está organizada, visando possivelmente entender inicialmente um âmbito geral, posteriormente específico e detalhado a relação da obra ficcional tolkieniana e D&D para uma compreensão da origem do RPG em si, motivada por muitos dos presentes protocolos ficcionais executados por J. R. R. Tolkien. Com esse objetivo, se define em conjunto uma possibilidade a ser explorada do que viria a ser o subgênero da High Fantasy enquanto novo modelo contemporâneo de manifestação da fantasia, abrindo portas para uma compreensão da vasta possibilidade de novos possíveis tópicos temáticos, analíticos e críticos do RPG enquanto tradição contemporânea literária, teatral e, principalmente, da narrativa oral. 13 2. LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ É quase inacreditável o poder que vive dentre as palavras de John Ronald Reuel Tolkien [1892-1973] ao dar forma e conteúdo para seu corpo de lendas denominado como Legendarium, ou mais especificadamente ao seu Mundo Secundário entitulado pelo nome de Terra-Média. A riqueza de detalhes que continua conquistando entusiastas pelo mundo inteiro, fazendo de nós, leitores, amantes quem se dedicam a explorar cada novo recanto descoberto nas eternas releituras que ocorrem pela vida. Tolkien não só revive o amor pela fantasia, como consolida um gênero-modo, a High Fantasy, influenciando no surgimento de novos autores e em novos modos do fazer ficcional. Pode-se dizer que há um mundo antes de Tolkien e outro pós-Tolkien, já que suas raízes se estenderam desde a publicação do seu primeiro livro O Hobbit (The Hobbit, 1937), gerando sementes que somente o futuro pode nos dizer até onde chegarão, contando que a jornada nunca verdadeiramente acabará. Entender as pilastras que permeiam a maneira de J. R. R. Tolkien fazer ficção, o que é o gênero que ele consolida, se torna um ponto essencial para investigar sua influência direta para o surgimento de outro modo de fazer ficcional que se torna cada vez mais popular, promovendo outras portas para entrada de novos entusiastas do gênero High Fantasy, Fantasia e seus variados subgêneros (Dark Fantasy, Low Fantasy etc.). O roleplaying game, popularmente chamado de RPG, é uma das ferramentas que propicia uma experiência – no mínimo curiosa – para aqueles que buscam a vontade de participar, de se aproximar ao máximo de estar em uma realidade paralela, ficcional, onde possam vivenciar suas aventuras, conflitos, tensões e vitórias. Dungeons & Dragons (1974), ou melhor, D&D, é pioneiro na invenção dessa ferramenta jogo-narrativa interativa de grupo, sendo um sistema marcante que influencia inúmeras mídias, principalmente na indústria dos jogos de videogame. Há um mundo antes do RPG e outro pós RPG, de vastas possibilidades e infinito potencial de criação, tornando-se um novo modo de fazer a própria literatura. É um “jogo que amplia a imaginação e acrescenta a interpretação de personagens e a interação com outros jogadores ao cenário de cavernas, [dragões] e aventuras” (Rodrigues, 2004, p. 69). A essência de D&D advém de muitas das formas e conteúdos que J. R. R. Tolkien estabelece em seu universo ficcional, chegando-se a um ponto na contemporaneidade em que é impossível dissociar um do outro, tendo em vista as intertextualidades em Dungeons & Dragons desde a sua criação. Para entender mais precisamente os intercâmbios, empréstimos e influências que a composição desse novo modo de fazer ficcional possui tanto com o Legendarium, quanto com 14 o guarda-chuva que cobre ambas as obras que é a High Fantasy, é de suma importância seguir primeiro por: 2.1 Uma Breve Jornada pela Terra-Média Antes de tudo, “havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar” (Tolkien, 2011, p. 3) responsável pela criação dos primeiros deuses, também nomeados como “os Ainur, os Sagrados” (Tolkien, 2011, p. 3). Ilúvatar os gerou pelo pensamento, e quando lhes dirigiu a palavra, propôs temas musicais. Logo, “aconteceu de Ilúvatar reunir todos os Ainur e lhes indicar um tema poderoso” (Tolkien, 2011, p. 3), que gerou imagens gloriosas e esplêndidas, tocando com tamanha força os Ainur que ficaram emudecidos com o começo, meio e fim da música. Então, expôs seu desejo: “agora que criem juntos, em harmonia, uma Música Magnífica” (Tolkien, 2011, p. 3), permitindo aos Ainur ornamentar esse tema por meio de seus poderes, com seus pensamentos e recursos. Formou-se uma orquestra, na qual as vozes desses deuses tomaram formas “semelhantes a harpas e alaúdes, a flautas e trombetas, e violas e órgãos, e inúmeros coros cantando com palavras, começaram a dar forma ao tema de Ilúvatar” (Tolkien, 2011, p. 4). Porém, dentre esses filhos, durante a harmoniosa melodia que se seguia, Melkor desenvolvia seu próprio tema, seguindo “o impulso de entremear motivos de sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar”, pois visava poder e glória para si. Para Melkor, “haviam sido concedidos os maiores dons de poder e conhecimento, e ele ainda tinha um quinhão de todos os dons de seus irmãos” (Tolkien, 2011, p. 4). Assim, Melkor possuía o desejo de dar Existência às coisas por conta própria, afinal, Ilúvatar não dava a atenção suficiente para o Vazio. Explorou o Vazio em busca do Fogo Imperecível, um dos muitos mistérios do Legendarium, porém “este está com Ilúvatar” (Tolkien, 2011, p. 4). A partir desses pensamentos, entrelaçara a música, causando dissonância ao seu redor. Alguns que cantavam perderam o ânimo, pois o pensamento fora perturbado e, assim, hesitaram. Outros afinavam seus tons aos de Melkor, afastando-se da fidelidade de seus pensamentos iniciais. Notara-se, então, que “[se] espalhou [...] cada vez mais a dissonância de Melkor, e as melodias que haviam sido ouvidas antes soçobraram num mar de sons turbulentos” (Tolkien, 2011, p. 5). Seguiram-se disputas pela ordem do tema, e Melkor acabou crescendo em “tumulto e enfrentou” (Tolkien, 2011, p. 5) o novo tema estabelecido por Ilúvatar. Foram três temas, variando entre sons suaves e melodias delicadas, porém ao mesmo tempo as melodias se tornavam cada vez mais complexas e díspares. O sorriso de Ilúvatar ao primeiro confronto 15 tornou-se uma expressão “terrível de ver” (Tolkien, 2011, p. 5). Levantou suas duas mãos, e num “acorde, mais profundo que o Abismo, mais alto que o Firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a Música cessou” (Tolkien, 2011, p. 6). Ilúvatar se dirigiu aos Ainur, proferindo que Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram. E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou (Tolkien, 2011, p. 6). Melkor ficara envergonhado pelo evento, gerando uma raiva secreta em seu coração. Ilúvatar fez os deuses contemplarem a Música que cantaram. Tiveram uma visão, uma imagem que antes só existia em som e meio ao Vazio, formara-se um globo, um novo Mundo, onde viram “o desenrolar [de] sua história, e a eles parecia que o Mundo tinha vida e crescia” (Tolkien, 2011, p. 6). Os deuses, “em virtude da lembrança de suas palavras e do conhecimento que cada um tinha da música que ele próprio criara” (Tolkien, 2011, p. 6) sabem muito do que já foi, daquilo que é e ainda do que virá a ser e ainda deixam de ver algumas poucas coisas. Observaram, então, o decorrer das diferentes Eras desse novo Mundo. Coisas que somente Ilúvatar havia imaginado: surgiram novidades, elementos que não haviam sido previstos, pois não se relacionavam ao passado. Acompanharam a chegada dos Filhos de Ilúvatar, tanto os Elfos quanto os homens, respectivamente os Primogênitos e os Sucessores. Ao contemplar essa visão, Melkor “desejava submeter à sua vontade tanto elfos quanto homens, por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor” (Tolkien, 2011, p. 8). Em meio a toda magnitude gloriosa da visão, da indescritível beleza e fascínio por aquela criação, os deuses não perceberam o surgimento das trevas, que eram conhecidas somente em pensamento. Assim, os deuses não viam o Domínio dos Homens e do desaparecimento dos Primogênitos, não acessaram as Eras Posteriores ou, o próprio final do Mundo. Ilúvatar, enfim, cessou a visão antes dos seus desfechos finais: 16 Conheço o desejo em suas mentes de que aquilo que viram venha na verdade a ser, não apenas no pensamento, mas como vocês são e, no entanto, diferente. Logo, eu digo: Eä! Que essas coisas Existam! E mandarei para o meio do Vazio a Chama Imperecível; e ela estará no coração do Mundo, e o Mundo Existirá; e aqueles de vocês que quiserem, poderão descer e entrar nele [...] os Ainur viram ao longe uma luz, como se fosse uma nuvem com um coração vivo de chamas, e souberam que não era apenas uma visão, mas que Ilúvatar havia criado algo novo: Eä, o Mundo que É (Tolkien, 2011, p. 9). Aos Ainur que adentraram o novo Mundo, deveriam permanecer nele para sempre, até que seu ciclo se completasse, para “que eles fossem a vida do mundo; e o mundo, a deles. E por esse motivo foram chamados “Valar, os Poderes do Mundo” (Tolkien, 2011, p. 10). Esse trecho resumido é o Ainulindalë, conto de abertura da obra póstuma de Tolkien, intitulada O Silmarillion (The Silmarillion, 1977) na qual narra como se deu a criação dos deuses, da Terra-Média e a chegada dos Ainur, que se tornam os Valar, para assim iniciar e dar forma à visão que lhes foi mostrada após comporem a melodia junto às dissonâncias de Melkor. Os Valar assumiram formas masculinas e femininas, adotadas ao estilo da Visão de Ilúvatar, atraindo companheiros, entidades menores, semideuses, que foram conhecidos como os Maiar. Outros Ainur ficaram junto da morada de Ilúvatar, enquanto Melkor adentrou o novo Mundo para buscar meios de consolidar os anseios de seus pensamentos. A partir desse ponto, inicia-se a Primeira Era, narrada no Valaquenta, na qual a Terra- Média passará pelas mais diversas transformações, acontecimentos, catástrofes e mudanças. É estabelecido o panteão divino, os mitos formadores da história deste universo, narrando a ascensão e a queda do Senhor das Sombras, Melkor, que será chamado pelos povos livres da Terra-Média de Morgoth. Ele criará as trevas e suas vis criaturas, corrompidas por anos de aprisionamento nas profundezas do mundo, acompanhando dos Maiar que se alinharam à sua melodia. Surgirão em suas hostes infernais orcs1, dragões e balrogs2, e seu lugar-tenente, Sauron, herdará toda a sua malignidade e vontade de sobrepujar a criação de Ilúvatar e se tornará, depois da queda de Morgoth, o segundo Senhor do Escuro que ameaçará todos os 1 Os orcs são elfos que caíram na armadilha de Melkor quando houve o despertar dos Primogênitos. Aprisionou esses capturados nas profundezas de sua fortaleza, e “por lentas artes da crueldade, [foram] corrompidos e escravizados; e assim Melkor gerou a horrenda raça dos orcs, por inveja dos elfos e em imitação a eles, de quem mais tarde e tornaram os piores inimigos (Tolkien, 2011, p. 49). Sofrem tamanha alteração visual, que a única coisa que eles mantém em sua aparência que relembra os elfos, são suas orelhas pontiagudas. 2 Entre os Maiar houve aqueles que seguiram pelo caminho das trevas juntos de seu líder, esses espíritos “eram os valaraukar, os flagelos de fogo que na Terra-Média eram chamados balrogs, demônios do terror (Tolkien, 2010, p. 23). 17 habitantes desse novo Mundo. Mas, a Terra-Média não é um mundo feito somente de elementos trágicos, os Primogênitos, os elfos, acordarão com toda a sua beleza transcendental, dotados de várias habilidades de invenção e conhecimento, e haverá os anões, que: Foram feitos por Aulë na escuridão da Terra-Média. Pois, tão grande era o desejo de Aulë pela vinda dos Filhos, para ter aprendizes a quem ensinar suas habilidades e seus conhecimentos, que não se dispôs a aguardar a realização dos desígnios de Ilúvatar (Tolkien, 2011, p. 39). Surgirão os filhos de Yavanna, deusa dos bosques e florestas, nomeados como ents, árvores conscientes, pastores da natureza, e, por fim, os Sucessores, os homens, com a sua mortalidade incompreendida por si mesmos e pelos Primogênitos, junto de todas as outras manifestações compostas na grande melodia por cada Valar que veio ao mundo ornamentar e completar a criação do deus dos deuses. A terra onde os deuses estabelecerão sua morada que será chamada Valinor, cuja capital será chamada de Valmar, e lá Enquanto [os deuses] olhavam, sobre a colina surgiram dois brotos esguios; e o silêncio envolveu todo o mundo naquela hora, nem havia nenhum outro som que não o canto de Yavanna. Em obediência a seu canto, as árvores jovens cresceram e ganharam beleza e altura; e vieram a florir; e assim, surgiram no mundo as Duas Árvores de Validor [Telperion e Laurelin]. De tudo o que Yavanna criou, são as mais célebres, e em torno de seu destino são tecidas todas as histórias dos Dias Antigos (Tolkien, 2011, p. 31). Telperion e Laurelin iluminavam o mundo com uma luz prateada e com um amarelo flamejante dourado. Possuíam um papel equivalente à Lua e ao Sol, criações posteriores dos Valar para substituir o trágico destino das árvores diante das forças de Melkor e Ungoliant, a Mãe de Todas as Aranhas, o que será contado aqui, dado ao seu papel essencial no destino dos povos livres da Terra-Média. Ao norte do mundo, na fortaleza subterrânea chamada Utumno, “Melkor aumentava suas forças e não dormia, mas vigiava e trabalhava. Os seres nefastos que ele havia pervertido andavam à solta, e os bosques escuros e sonolentos eram assombrados por monstros e formas pavorosas” (Tolkien, 2011, p. 45) e mais ao sul acontecia o despertar dos elfos, os “Primogênitos de Ilúvatar eram mais fortes e imponentes do que se tornaram desde então” (Tolkien, 2011, p. 48). Os Valar, para proteger os primeiros filhos de Ilúvatar da influência 18 maligna de Melkor, em cólera investiram contra a fortaleza do primeiro Senhor do Escuro, e, assim, “Melkor [derrotado] foi acorrentado com Angainor, a corrente que Aulë havia feito e levado prisioneiro; e o mundo teve paz por uma longa era” (Tolkien, 2011, p. 51). Os Valar se reuniram em conselho para debater sobre os Primogênitos, na qual “ao final, [...] convocaram os [elfos] a vir a Valinor, para ali se reunirem aos pés dos Poderes à luz das Árvores, para sempre: e Mandos rompeu seu silêncio [Deus do Destino], dizendo: - E assim está determinado – dessa convocação, decorreram muitas desgraças” (Tolkien, 2011, p. 52). Há um cisma entre o povo élfico, entre os que seguem a marcha para o Oeste que foi “longa e vagarosa [...] pois as léguas da Terra-Média eram incontáveis” (Tolkien, 2011, p. 53), e os que decidiram se manter nas terras originárias, sem contar os que se perderam ou mudaram de caminho durante esse período. Dentre os variados clãs élficos que se formaram nessa época e que chegaram às terras iluminadas de Valinor, os Noldor são os protagonistas dos eventos que decidiriam o futuro de Eä. Possuíam “um nome de sabedoria, o povo de Finwë. São os elfos-profundos, amigos de Aulë” (Tolkien, 2011, p. 53). Dentre os filhos de Finwë, seu primogênito se destacou: “Curunfinwë era seu nome, mas por sua mãe ele foi chamado de Fëanor, Espírito de Fogo; e assim é lembrado em todas as histórias dos noldor” (Tolkien, 2011, p. 67). Feänor crescia rapidamente, como se houvesse dentro dele um fogo secreto aceso. Era alto, belo de rosto e dominador; seus olhos tinham um brilho penetrante, e seus cabelos eram negros e lustrosos. Para atingir seus objetivos, era ávido e obstinado. Poucos chegaram a conseguir mudar sua atitude por meio de conselhos, ninguém pela força. De todos os noldor, daquela época ou de épocas posteriores, tornou-se ele o de raciocínio mais sutil e de mãos mais habilidosas [...]. Foi ele o primeiro dos noldor a descobrir como fazer, com técnica, pedras preciosas maiores e mais brilhantes do que as da Terra (Tolkien, 2011, p. 68-69). Melkor conseguiu o perdão dos Valar, pois “humilhou-se aos pés de Manwë [líder do panteão] e suplicou seu perdão, jurando que, se pudesse ser equiparado mesmo ao mais ínfimo dos seres livres de Valinor, ajudaria os Valar em todas as suas obras” (Tolkien, 2011, p. 70). No entanto, em seu coração, Melkor Odiava acima de tudo os eldar, tanto por serem belos e alegres quanto por ver neles a razão para o ataque dos Valar e sua própria derrocada. Por esse motivo, 19 mais ainda simulava amor por eles, procurando sua amizade e lhes oferecendo seu conhecimento e seus serviços em qualquer grande obra que quisessem empreender [...]. Os noldor se encantavam com o conhecimento oculto que lhes poderia revelar. E alguns deram ouvidos a palavras que teria sido melhor nunca terem escutado. Melkor de fato declarou mais tarde que Feänor havia aprendido grandes artes com ele em segredo, e que havia sido instruído por ele em suas maiores obras; mas Melkor mentia, em sua cobiça e inveja, pois nenhum dos [elfos] jamais odiou Melkor mais do que Feänor, filho de Finwë, que primeiro lhe deu o nome de Morgoth (Tolkien, 2011, p. 71). Feänor em sua busca incessante por conhecimento, movido pela chama interior, atingia o máximo de seu poder, por meio de uma pergunta: “como a luz das Árvores, a glória do Reino Abençoado, poderia manter-se imperecível [?]” (Tolkien, 2011, p. 73) – seria movido a realizar “um trabalho longo e secreto, para o qual recorreu a todo o seu conhecimento, seu poder [...]” “[...] e sua habilidade sutil [criou] ao final de tudo, as Silmarils” (Tolkien, 2011, p. 73). As criações mais belas feita pelas mãos de um elfo, de tamanha magnitude que eram feitas “aparentemente do cristal dos diamantes e, no entanto, mais duras do que ele, de tal modo que nenhuma violência pudesse danificá-las ou quebrá-las” (Tolkien, 2011, p. 73), foram as Silmarils. Sobre sua luz, é dito que Esse cristal estava para as Silmarils como o corpo para os Filhos de Ilúvatar: a morada do fogo interior, que se encontra dentro dele e, ainda assim, em todas as suas partes; e que é sua vida. E o fogo interior das Silmarils, Feänor criou a partir da fusão da luz das Árvores de Valinor [...]. Portando, mesmo na escuridão do cofre mais profundo, as Silmarils brilhavam com luz própria, como as estrelas de Varda; e, no entanto, como se de fato fossem seres vivos, elas se deleitavam na luz e a recebiam e refletiam em matizes mais maravilhosas do que antes (Tolkien, 2011, p. 73-74). Todos ficaram maravilhados com a beleza das pedras, e, em sua consagração, foi declarado que “nenhuma carne mortal, nem mãos impuras, nada de mau, pudesse tocá-las, que não se queimasse e murchasse” (Tolkien, 2011, p. 74). Melkor as cobiçou acima de tudo e nelas viu um meio de provocar uma ruptura entre os deuses e os elfos. Por meio de mentiras, o Vala “sempre encontrava ouvidos que lhe dessem atenção, e algumas línguas que aumentassem o que haviam escutado; e suas mentiras passaram de amigo a amigo, como segredos” (Tolkien, 20 2011, p. 74). Os deuses não perceberiam que um veneno corroía a paz de seu reino, adentrando e penetrando em resmungos e reclamações que envolviam a vinda dos Sucessores, que os “homens pudessem chegar e suplantá-los nos territórios da Terra-Média, pois os Valar consideravam que poderiam influenciar com maior facilidade essa raça mais fraca e de vida curta, privando os elfos da herança de Ilúvatar” (Tolkien, 2011, p. 75). Feänor, ardendo em seu anseio por liberdade, por novas fronteiras a explorar, ficara impaciente e “começara a amar as Silmarils com um amor ganancioso, ressentindo-se de que qualquer um as visse, à exceção do pai e seus sete filhos. Agora raramente se lembrava de que a luz das pedras não era propriedade sua” (Tolkien, 2011, p. 75). Feänor, crente nas mentiras que chegam aos seus ouvidos, desrespeitou os Valar e suas leis, puxando a espada em desafio ao seu meio-irmão Fingolfin, momento em que também é desnudada a trama de Melkor que, “sabendo que seus expedientes haviam sido revelados, escondeu-se, passando de um lugar a outro como uma nuvem nas colinas” (Tolkien, 2011, p. 79). Feänor foi exilado por doze anos, junto de seus herdeiros, para refletir sobre os atos e sua própria existência naquele mundo. Melkor foi até as portas do palácio de Feänor, buscando ali implantar mais mentiras e semear uma falsa amizade. Seu objetivo, entretanto, não é alcançado, tendo antes despertado o ódio no coração do elfo, que percebera o desejo do falso amigo pelas pedras, na qual o amaldiçoa. Dessa maneira, “Melkor partiu de Valinor e, durante algum tempo, as Duas Árvores voltaram a brilhar sem sombras; e a terra esteve cheia de luz” (Tolkien, 2011, p. 80). Melkor, em sua trajetória, enganou os deuses, não retornando às terras de sua fortaleza original, mas sim encontrando uma aliada vinda das sombras antes da criação, Ungoliant, a Senhora das Aranhas, que caiu nas mentiras de Melkor e aceitou as ordens do mentiroso. Tecendo um manto de trevas, ambos penetraram nos reinos dos Valar, onde todos os clãs élficos e os deuses se reuniam em comemoração à criação da Terra-Média, quando Feänor e Fingolfin reatavam os laços, na qual Fingolfin nomeou Feänor como líder dos noldor, abandonando os ressentimentos. Nesse instante, “quando as duas Árvores brilharam, e a cidade silenciosa de Valmar se encheu de um brilho de ouro e prata [...] Melkor com sua lança negra, atingiu cada árvore até o cerne, ferindo todas profundamente” (Tolkien, 2011, p. 85). A seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão. Contudo, Ungoliant tudo sugou; e, indo de uma Árvore a outra, grudou seu bico negro nos ferimentos até que se esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha. E elas 21 morreram. E, ainda assim, Ungoliant sentiu sede. Foi até os Poços de Varda, e também os secou; mas Ungoliant arrotava vapores negros enquanto bebia; e inchou tanto, e de forma tão horrenda, que Melkor sentiu medo (Tolkien, 2011, p. 85). Melkor havia fugido junto de Ungoliant, sem nenhum dos Valar conseguir alcançá-los. Levou junto de si as Silmarils, roubando-as da fortaleza de Feänor, estabelecendo para sempre o destino trágico do clã élfico. Quando Feänor ouviu sobre tais ocorridos, “erguendo a mão diante de Manwë, amaldiçoou Melkor, chamando-o de Morgoth, o Sinistro Inimigo do Mundo; e somente por esse nome passou ele a ser conhecido entre os eldar para sempre” (Tolkien, 2011, p. 89). Irado Feänor, culpando também os demais Valar pelo ocorrido, e tendo seu pai sido morto por Morgoth no momento do roubo, convocou os noldor em sua fortaleza: - Ó povo dos noldor, por que deveríamos continuar a servir os invejosos dos Valar, que não conseguem proteger nem a nós nem a seu próprio reino, do Inimigo? E, embora ele agora seja seu adversário, não é verdade que Morgoth e eles são da mesma linhagem? A vingança exige que eu parta; mas, mesmo que não fosse assim, eu não moraria mais na mesma terra que a família do assassino de meu pai e ladrão de meu tesouro. Não sou, porém, o único valente neste povo destemido. E vocês todos não perderam seu Rei? E o que mais vocês não perderam, encurralados aqui numa terra estreita, entre as montanhas e o mar? - Aqui, outrora, houve luz, que os Valar não concediam à Terra-Média, mas agora as trevas deixam todos em condições iguais. Vamos nos lamentar aqui, passivos, para todo o sempre; um povo-fantasma, que corre atrás de névoas, derramando lágrimas vãs sobre os mares ingratos? Ou vamos voltar para a terra natal? (Tolkien, 2011, p. 93). Feänor, em busca de vingança, pôs seu povo em marcha junto de si, como rei dos noldor, liderando-os para longe de Valinor e os deuses, buscando, por meio do sofrimento, encontrar alegrias, ou pelo menos a liberdade. Dentre os membros do clã dos noldor, não só Feänor liderou os elfos, mas “Fingolfin e seus filhos, e por Finrod e Galadriel” (Tolkien, 2011, p. 103, grifo nosso). Galadriel, que se tornará a Senhora de Lothlorién, é aqui pela primeira vez mencionada e acompanhará toda a trajetória da Terra-Média em suas diferentes eras. Ressalta-se que essa 22 não foi uma marcha sem o derramamento de sangue ou a perda de próximos, e, com ela, surge o início da chamada Profecia do Norte, e a Condenação dos Noldor - Vocês verterão lágrimas sem conta; e os Valar cercarão Valinor para impedi- los de entrar. Ficarão de tal modo isolados, que nem mesmo o eco de suas lamentações atravessará as montanhas. Sobre a Casa de Feänor, a ira dos Valar se abate, desde o oeste até o extremo leste, e sobre todos aqueles que dispuserem a acompanhá-los. O Juramento que fizeram os motivará, e ao mesmo tempo os trairá, arrancando de suas mãos os próprios tesouros que juraram procurar. Um final funesto terão todas as coisas que eles iniciarem com êxito; e isso se dará pela traição de irmão por irmão, e pelo medo da traição. Para sempre serão eles Os Espoliados (Tolkien, 2011, p. 100). Deste ponto em diante, acompanha-se a criação do Sol e da Lua, a formação dos diversos reinos dos noldor, por Beleriand, as terras mais ao norte da Terra-Média, onde consolidaram- se os altos elfos, junto da vinda dos Sucessores – os homens – havendo também o despertar dos anões, e a formação dos reinos dos Sindar, os elfos que nunca foram para Valinor. É aqui que grande parte da narrativa de O Silmarillion se passa, a qual compõe os eventos denominados como a Primeira Era, na qual residem as histórias icônicas não só para os leitores, quanto para a própria trajetória dos povos livres da Terra-Média. Acompanharemos a jornada de Eärendil Meio-Elfo, que nasceu “quinhentos e três anos depois da chegada dos noldor à Terra-Média” (Tolkien, 2011, p. 307), pois, além de ser pai de outra figura icônica do Legendarium, é responsável pelo desencadeamento dos eventos finais da Primeira Era que serão contados a seguir. Eärendil tomou o rumo dos mares à procura de Valinor, junto de sua esposa Elwing e em posse da última Silmaril não desaparecida, atada em sua testa, buscando o perdão e compaixão pelos que estavam na Terra-Média. As Fozes do Sirion onde liderava seu povo eram o último bastião de Beleriand ainda não tomado pelas forças sombrias de Morgoth. Os descendentes de Feänor estavam destruídos e a esperança minguava conforme a sombra crescia. Dizem os sábios que foi graças ao poder dessa pedra sagrada que, com o tempo, eles chegaram às águas que nenhuma embarcação [da Terra-Média] havia conhecido. Chegaram às Ilhas Encantadas, e escaparam de seu encantamento; entraram pelos Mares Sombrios e superaram suas sombras; e avistaram Tol Eressëa, a Ilha Solitária, mas ali não se detiveram. E afinal 23 lançaram âncora na Baía de Eldamar. Então Eärendil, como primeiro entre os homens vivos, desembarcou nas praias imortais - Salve, Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega sem ser percebido, o desejado que chega depois da última esperança! Salve, Eärendil, portador da luz anterior ao Sol e à Lua! Esplendor dos Filhos da Terra, estrela nas trevas, joia no pôr do sol, radiante na manhã! Essa era a voz de Eönwe, arauto de Manwë [Líder do Panteão]. E ele vinha de Valimar e convocara Eärendil a se apresentar diante dos Poderes de Arda. E Eärendil entrou em Valinor, foi aos palácios de Valimar e nunca mais pôs os pés nas terras dos homens. Então os Valar se reuniram em conselho e convocaram Ulmo, das profundezas do mar. E Eärendil se apresentou diante deles e cumpriu sua missão em nome das Duas Famílias. Perdão pediu ele para os noldor e compaixão por seu enorme sofrimento; pediu também piedade para homens e elfos, e auxílio em sua necessidade. E sua súplica foi concedida (Tolkien, 2011, p. 315-317). Manwë concede a Eärendil a decisão de que nunca mais retornariam às Terras de Fora. Já sobre seus filhos “terão a permissão cada um de escolher livremente a que família seus destinos serão vinculados, e de acordo com que família serão julgados” (Tolkien, 2011, p. 317). Os Valar, então, seguem mais uma vez para a Terra-Média em busca do Inimigo do Mundo, Morgoth. O confronto dos exércitos do oeste e do norte é chamado de Grande Batalha e de Guerra da Ira. Para ela, reuniu-se todo o poder do Trono de Morgoth, e ele assumiu dimensões tão extraordinárias, que não houve espaço em Anfauglith para contê-lo; e todo o norte se inflamou com a guerra. De nada lhe adiantou, porém. Os balrogs foram destruídos, a não ser por uns poucos que fugiram e se esconderam em cavernas inacessíveis, enraizadas na terra; e as inúmeras legiões de orcs pereceram como palha num grande incêndio ou foram varridas como folhas murchas diante de um vento causticante. Poucos sobraram para perturbar o mundo por muitos anos. E aqueles poucos que restaram das três Casas de amigos dos elfos, Ancestrais dos homens, lutaram do lado dos Valar. E nesses dias vingaram Baragund e Barahir, Galdor e Gundor, Huor e Húrin e muitos outros de seus senhores. Morgoth [...] fugiu para as mais profundas de suas minas e implorou paz e perdão; mas seus pés foram decepados e ele foi jogado de bruços no chão. Foi então amarrado com a corrente de Angainor que usara no passado; e sua coroa 24 de ferro foi batida para servir-lhe de coleira; e dobraram sua cabeça sobre os joelhos. E as duas Silmarils que restavam a Morgoth foram retiradas de sua coroa; e brilharam imaculadas a céu aberto. Assim teve fim o poder de Angbang no norte, e o reino do mal foi aniquilado. E das prisões profundas uma multidão de escravos, já sem nenhuma esperança, saiu para a luz do dia; e encontrou um mundo que estava mudado. Pois tamanha foi a fúria daqueles adversários, que as regiões setentrionais do mundo ocidental se partiram, e o mar invadiu com estrondos muitos abismos, e houve confusão e enorme barulho. E rios pereceram ou descobriram novos leitos, e os vales foram elevados, e as colinas, arrasadas; e o Sirion deixou de existir (Tolkien, 2011, p. 320-321). Assim, com o perdão dado por Manwë, os elfos de Beleriand, com seus barcos, receberam a permissão de retornar para as terras de Valinor. A maldição jogada sobre os exilados é retirada, e o destino de Morgoth acabou sendo “pela Porta da Noite, para além das Muralhas do Mundo, para o Eterno Vazio. E uma guarda está instalada para sempre nessas muralhas” (Tolkien, 2011, p. 324). Não são todos os que viajaram para as terras do oeste, mesmo com todos os sofrimentos e tempo vivido pelos Primogênitos. Entre os que permaneceram, estão “Círdan, o Armador, e Celeborn de Doriath, com Galadriel, sua esposa, a única remanescente daqueles que conduziram os noldor para o exílio em Beleriand” (Tolkien, 2011, p. 324). Dos filhos de Eärendil, “Elrond, Meio-elfo, escolheu, como lhes foi permitido, ser incluído entre os eldar” (Tolkien, 2011, 324) mantendo-se nas terras de cá. Já Elros, seu irmão, preferiu ficar com os homens. E somente por meio desses irmãos passou para os homens o sangue dos Primogênitos e um traço dos espíritos divinos que existiam antes de Arda; pois eles eram os filhos de Elwing, filha de Dior, filho de Lúthien, filha de Thingol e Melian; e Eärendil, seu pai, era filho de Idril Celebrindal, filha de Turgon de Gondolin (Tolkien, 2011, p. 324). Assim, encerra-se a Primeira Era da Terra-Média: com a vitória sobre Melkor, que cobiçou conquistar a criação de Ilúvatar. Todavia, “o Poder do Terror e do Ódio, nos corações de elfos e homens, são uma semente que não morre e não pode ser destruída” (Tolkien, 2011, p. 324-325). Seguindo a linha do tempo, inicia-se a Segunda Era, narrada no Akallabêth, na qual nos é contada a Queda de Númenor, reino de Elros filho de Eärendil e irmão de Elrond. É o período 25 histórico da Terra-Média sobre a qual se tem a menor quantidade de registros, pois suas histórias são bastante sintetizadas tanto em O Silmarillion, quanto nos apêndices do terceiro livro de O Senhor dos Anéis. O Reino de Númenor é a versão tolkieniana do mito da Atlântida, e é composto por uma ilha mística localizada entre as terras de Valinor e a Terra-Média, onde vivem os homens de vida longa, uma raça que descende daquele que escolheram seguir o caminho dos mortais, diferente do irmão Elrond, “aos ancestrais dos Homens, das três Casas fiéis, também foi dada uma rica recompensa [dos Valar]. Eönwe [Maia de Manwë] viveu entre eles e transmitiu conhecimentos. E a eles foram concedidos sabedoria, poder e vida mais longa do que quaisquer outros de raça mortal” (Tolkien, 2011, p. 331). Os Valar criaram essa ilha para esses homens de vida longeva, que “partiram a navegar nas águas profundas, seguindo a Estrela. E os Valar deixaram o mar em calma por muitos dias, mandaram Sol e um vento propício” (Tolkien, 2011, p. 331). Tal ilha seria nomeada de Andor, a Terra da Dádiva, onde os homens “chamaram essa terra de Elenna, que significa Na Direção da Estrela, mas também de Andûnê, que significa Ponente, Númenorë no idioma alto-eldarin” (Tolkien, 2011, p. 331). Há um longo período de paz e prosperidade na ilha de Númenor, que os homens respeitam os ritos e regras impostas pelos deuses, agraciados pela dádiva da vida longa. Enquanto isso, na Terra-Média havia o grande reino élfico de Gil-Galad, o último do alto rei dos noldor e, também, a expansão do reino de Eregion, reinado élfico de Celebrimbor, que teve relações próximas com o reino anão de Khazad-dûm. Sauron vivia distante, consumido pelo seu ódio vingativo, porém esquecido, deixado de lado, não visto como uma ameaça efetiva contra o magnífico poder numenoriano e élfico ainda presentes em Númenor e na Terra-Média. Contudo, Sauron “era astucioso, bem treinado para conquistar o que quisesse pela sutileza quando a força pudesse não lhe ser útil” (Tolkien, 2011, p. 344-345). Aproximou-se dos dúnedain, visitando o reino de Númenor, e lá “humilhou-se, portanto, diante de Ar-Pharazôn [rei de númenor na época] e controlou sua língua ferina. E os homens ficaram admirados, pois tudo o que ele disse parecia justo e prudente” (Tolkien, 2011, p. 345). E na terra de Númenor, “contemplou a terra [...] e a cidade [...] nos seus dias de glória, e ficou estarrecido. Mas no fundo de seu coração, encheu-se ainda mais de inveja e ódio” (Tolkien, 2011, p. 345). De pouco em pouco, usou das suas melhores ferramentas, tal era sua astúcia em raciocínio e palavras, e tal a força de sua determinação oculta, que, antes que se passassem três anos, ele já se tornara íntimo dos pensamentos do Rei. Pois elogios doces como o mel estavam sempre na ponta de sua língua, e Sauron conhecia muitos fatos ainda não revelados aos homens. 26 E, ao ver o privilégio de que ele gozava junto a seu senhor, todos os conselheiros começaram a adulá-lo [...] então, lentamente, operou-se na terra uma transformação, e os corações dos amigos-dos-elfos se perturbaram profundamente, e muitos se afastaram cheios de medo (Tolkien, 2011, p. 345). Assim, Sauron “tendo acesso aos ouvidos dos homens [...] com muitos argumentos negava tudo o que os Valar haviam ensinado. E disse aos homens que pensassem que no mundo, no leste e mesmo no oeste, havia muitos mares e muitas terras a serem conquistadas” (Tolkien, p. 345). Não eram todos os homens dúnedain que concordavam com as ideias nefastas de Sauron. Havia os que se mantiveram fiéis aos ensinamentos dos Valar, com seus principais representante – agora chamados de rebeldes por aqueles que caíram na corrupção astuciosa do mais fiel seguidor de Morgoth – sendo Armandil, pai de Elendil que é pai de Isildur, esse sendo outra figura icônica no Legendarium. Durante esse processo de corrupção desenvolvido por Sauron, parecia “aos numenorianos que eles prosperavam; e, se sua felicidade não era maior, eles ainda assim estavam mais fortes; e seus rico, cada vez mais ricos” (Tolkien, 2011, p. 349). Assim, o rei numenoriano Ar-Pharazôn, atingiu o ápice de seu poder, sendo considerado o tirano mais poderoso que já havia existido no mundo desde o reino de Morgoth, embora de fato Sauron tudo governasse por trás do trono. Passaram, porém, os anos, e o Rei sentiu a aproximação da sombra da morte, à medida que sua idade avançava. Foi dominado então pelo medo e pela cólera. Era agora chegada a hora que Sauron prepara e pela qual vinha esperando havia muito tempo. E Sauron falou com o rei, dizendo que sua força agora era tamanha, que ele poderia pensar em fazer valer sua vontade em todos os aspectos sem se sujeitar a nenhuma ordem ou interdição (Tolkien, 2011, p. 349). Os rebeldes, consternados pela vontade do rei numenoriano de guerrear contra os Valar, se prepararam para trair seu reinado, sabendo de que não haveria vitória caso sua decisão fosse declarar guerra ao Valar. Amandil, então, planejou uma viagem secreta à Terra-Média, onde seus filhos e netos escapariam, restando-lhes o dever de observar o possível futuro catastrófico de um reinado que já havia sido glorioso. Na marcha marítima contra os Valar, a “frota dos numenorianos escurecia o mar a oeste da Terra e se assemelhava a um arquipélago de mil ilhas” (Tolkien, 2011, p. 353). Assim se 27 mobilizou contra a ameaça do oeste. E havia pouco vento, mas eles dispunham de muitos remos e de muitos escravos fortes para remar debaixo dos açoites. O sol se pôs, e sobreveio um enorme silêncio. Caiu a escuridão sobre a Terra, e o mar estava calmo, enquanto o mundo esperava o que iria acontecer. Lentamente, as esquadras desapareceram da vista dos que olhavam nos portos, suas luzes foram se apagando, e a noite apoderou-se delas. E pela manhã, já não estavam mais lá. Pois surgia um vento leste que as soprou para longe. E elas desrespeitara a Interdição dos Valar, e entraram em águas proibidas, para guerrear contra os Imortais, a fim de roubar deles a via eterna dentro dos Círculos do Mundo (Tolkien, 2011, p. 354). E assim se deu o desfecho de tal ataque dos homens aos deuses: Manwë sobre a Montanha invocou Ilúvatar; e naquela época os Valar renunciaram a sua autoridade sobre Arda. Ilúvatar, porém, acionou o seu poder e mudou a aparência do mundo. Abriu-se então o mar um imenso precipício entre Númenor e as Terras Imortais; e as águas jorraram para dentro dele. E o estrondo e a espuma das cataratas subiram aos céus; e o mundo foi abalado. E toda a esquadra dos numenorianos foi arrastada para esse abismo, afundando e sendo engolida para sempre. Já Ar-Pharazôn, o Rei, e os guerreiros mortais que haviam posto os pés na terra de Aman foram soterrados por colinas que desmoronaram. Conta-se que ali eles jazem, presos, nas Grutas dos Esquecidos, até a Última Batalha e o Juízo Final. Mas a terra de Aman e Eressëa dos eldar foram levadas, retiradas para sempre para fora do alcance dos homens. E Andor, a Terra da Dádiva, Númenor dos Reis, Elenna da Estrela de Eärendil, foi totalmente destruída. Pois estava perto do lado oriental da enorme fenda; e seus alicerces foram revirados, fazendo-a tomar e cair na escuridão; e ela não existe mais. E agora não resta sobre a Terra lugar algum em que esteja preservada a lembrança de um tempo sem maldade. Pois Ilúvatar fez recuarem os Grandes Mares a oeste da Terra-Média e também as Terras Vazias a leste; e nova terras e novos mares foram criados. E o mundo foi reduzido, já que Valinor e Eressëa foram transferidas para o reino das coisas ocultas (Tolkien, 2011, p. 355). Os filhos de Amandil sobreviveram, protegidos pela benção dos Valar graças às súplicas dele para que chegassem à Terra-Média, então, “Elendil e seus filhos depois fundaram reinos 28 na Terra-Média; e, embora suas tradições e ofícios não passassem de uma sombra do que haviam sido antes que Sauron chegasse a Númenor” (Tolkien, 2011, p. 357). Aquele que seria o segundo Senhor do Escuro, não padece no grande desastre. Contudo, afunda junto do abismo que engole a ilha de Númenor, ali perdendo sua forma carnal, destituído dessa forma na qual havia cometido tamanho mal, para nunca mais voltar a parecer simpático aos olhos dos homens, mesmo assim seu espírito se elevou das profundezas e passou como uma sombra e um vento escuro por cima do mar, voltando a Terra-Média e a Mordor, que era seu lar (Tolkien, 2011, p. 357). Assumiria mais tarde uma nova forma física, uma “imagem de perversidade e ódio tornados visíveis; e poucos conseguiam encarar o Olho de Sauron, o Terrível” (Tolkien, 2011, p. 357). Adentramos, assim, na história dos famosos anéis de poder. Sauron “vendo a desolação do mundo, conclui em seu íntimo que os Valar, tendo destronado Morgoth, tinham mais uma vez se esquecido da Terra-Média” (Tolkien, 2011, p. 365). Por meio do ódio às criações de Ilúvatar, propôs-se a corromper os homens, pois “eram os mais fáceis de influenciar dentre todos os povos a Terra; mas por muito tempo procurou a convencer os elfos a lhe prestarem serviço, pois sabia que os Primogênitos tinham maior poder” (Tolkien, 2011, p. 365). Nessa época, Sauron ainda aparentava ser alguém belo, locomovendo- se livremente dentre os povos, com única exceção de Lindon, onde reinava Gil-galad, e tanto ele quanto Elrond duvidavam de sua aparência e palavras maliciosas. Mas houve um local onde suas tramas foram acolhidas, em “Eregion [...], pois naquela terra os noldor sempre desejaram aumentar a perícia e a sutileza de suas obras. Além do mais, eles não estavam em paz em seu íntimo, já que se haviam recusado de voltar para o oeste” (Tolkien, 2011, p. 366). Ali “fizeram Anéis de Poder. Contudo, Sauron guiava seus esforços e estava a par de tudo o que faziam; pois seu desejo era impor uma obrigação aos elfos e mantê-los sob vigilância” (Tolkien, 2011, p. 366). Nos deparamos, então, com a origem do objeto mais marcante, a origem do “Senhor dos Anéis”, quando em segredo, porém, Sauron fez Um Anel para governar todos os outros; e o poder dos outros estava vinculado ao dele, de modo a submeter-se totalmente a ele e a durar somente enquanto ele durasse. E grande parte da força e da vontade de Sauron foi transmitida àquele Um Anel. Pois o poder dos anéis élficos era enorme, e aquele que deveria governá-los deveria ser um objeto de 29 potência extraordinária. E Sauron o forjou na Montanha de Fogo na Terra da Sombra. E, enquanto usava o Um Anel, ele conseguia perceber tudo o que era feito pelos anéis subalternos, e ler e controlar até mesmo os pensamentos daqueles que os usavam (Tolkien, 2011, p. 366-367). Entretanto, os elfos não eram facilmente corruptíveis, e assim que utilizaram os anéis forjados e manipulados por Sauron perceberam suas intenções de submissão, conquista e destruição. Não conseguiu enganá-los, e os elfos fugiram, com a guerra sendo declarada a partir deste momento. Os Primogênitos salvaram três anéis mágicos, pois “haviam sido feitos por último e que possuíam poderes maiores. Narya, Nenya e Vilya eram chamados: os Anéis do Fogo, da Água e do Ar, engastados com rubi, diamante e safira” (Tolkien, 2011, p. 367). Sauron nunca os tocou, e eles se tornara os objetos de maior desejo do segundo Senhor do Escuro em razão da quantidade de poder que possuíam. Seguiram “imaculados, pois foram forjados somente por Celebrimbor, e a mão de Sauron nunca o tocou. Contudo, eles também estavam sujeitos ao Um” (Tolkien, 2011, p. 367). E mais tragédias ocorreram após estes eventos: a guerra nunca mais cessou entre Sauron e os elfos. E Eregion foi devastada; Celebrimbor, assassinado; e as portas de Moria [Khazad-dûm] fechadas. Nesse período, a fortaleza e o refúgio de Imladris, que os homens chamam de Valfenda, foi fundada por Elrond meio-elfo. E resistiu por muito tempo. Sauron, entretanto, acumulou nas mãos todos os Anéis de Poder que restavam. E os distribuiu a outros povos da Terra-Média, esperando assim atrair para sua influência todos os que desejassem um poder secreto maior do que o atribuído à sua espécie. Sete anéis deu ele aos anões; mas aos homens deu nove, pois os homens se revelaram, nesse aspecto como e outros, os mais propensos a se submeter à sua vontade. E todos esses anéis que ele controlava, ele perverteu, ainda com maior facilidade por ter participado de sua confecção; e eles eram amaldiçoados e acabavam por trair todos os que os usavam. Os anões de fato se provaram resistentes e duros de domar. É que eles não suportam o domínio de outros; e é difícil de descobrir o que passa em seus corações [...] revelou- se mais fácil atrair os homens para a armadilha. Os que usaram os Nove Anéis tornaram-se poderosos no seu tempo, reis, feiticeiros e guerreiros do passado remoto. Conquistaram glória e enorme fortuna, mas elas acabaram sendo sua desgraça. Ao que parecia eles tinham vida eterna, mas a vida se tornou insuportável para eles. Podiam caminhar, se quisessem, sem serem vistos por nenhum olhar neste mundo sob o sol; e podiam enxergar coisas em mundos 30 invisíveis para os mortais. Mas com enorme frequência viam apenas os espectros e as ilusões de Sauron. E um a um, mais cedo ou mais tarde, de acordo com sua força inata e a bondade ou a maldade de suas vontades no início, eles caíam sob a escravidão do anel que portavam e sob domínio o Um, que era o de Sauron. E se tornavam invisíveis para sempre, menos para ele, que usava o Anel Governante, e passavam para o reino das sombras. Os nazgûl eram eles, os Espectros do Anel, os mais terríveis servos do Inimigo (Tolkien, 2011, p. 368). Nessa época, dois grandes reinos dos homens foram fundados pelos numenorianos sobreviventes da catástrofe ocorrida na Segunda Era. Os filhos de Elendil, “Isildur e Anárion estabeleceram um reino [...] que passa a [...] chamar Gondor, enquanto o Reino Setentrional foi chamado de Arnor” (Tolkien, 2011, p. 370-371). O inimigo preparava sua investida contra os edain e os homens do Ponente, visando acabar com os povos livres da Terra-Média. Na Terra de Mordor, “os fogos da Montanha foram mais uma vez atiçados. Motivo pelo qual, ao ver a fumaça de Orodruin ao longe e perceber que Sauron retornara, os numenorianos renomearam aquela montanha como Amon Amarth, o que significa Montanha da Perdição” (Tolkien, 2011, p. 373). Ocorre, então, o embate travado entre a Última Aliança entre elfos e homens e Sauron, agora o Senhor do Escuro. Ora, Elendil e Gil-galad examinaram juntos a questão, pois percebera que Sauron se fortaleceria demais e derrotaria todos os inimigos, um a um, se eles não se unissem para enfrentá-lo. Criaram, portanto, aquela liga que é chamada de Última Aliança, e marcharam para o leste, para o interior da Terra-Média, reunindo um imenso exército de elfos e homens. E pararam algum tempo em Imladris. Diz-se que as hostes ali reunidas eram mais belas e esplêndidas em armas do que qualquer outra que tenha sido vista desde então na Terra-Média; e nenhum contingente mais numeroso foi formado desde que o exército dos Valar atacou as Thangorodrim. De Imladris, eles atravessaram as Montanhas Nevoenta por muitos desfiladeiros e marcharam ao longo do Rio Anduin, chegando, afinal, a deparar com o exército de Sauron em Dagorlad, a Planície da Batalha, que se estende diante dos portões da Terra Negra. Naquele dia, todos os seres vivos estavam divididos; e alguns de cada espécie, mesmo entre os animais selvagens e as aves, eram encontrados dos dois lados, à única exceção dos elfos. Somente eles não se dividiram e seguiram a liderança de Gil-galad. Dos 31 anões, poucos lutaram, fosse de um lado, fosse do outro. Mas a linhagem de Durin de Moria combateu Sauron. O exército de Gil-galad e de Elendil obteve a vitória, pois o poder dos elfos ainda era tremendo naquele tempo, e os numenorianos eram altos e fortes, e terríveis em sua fúria. A Aeglos, a lança de Gil-galad, ninguém conseguia resistir; e a espada de Elendil enchia os orcs e os homens de medo, pois ela refulgia com a luz do Sol e da Lua, e se chamava Narsil. Então Gil-galad e Elendil entraram em Mordor e cercaram o reduto de Sauron. Sitiaram a fortaleza por sete anos e sofreram graves perdas pelo fogo, por lanças e setas do Inimigo, e Sauron fez muitas investidas contra eles. Ali, no vale de Gorgoroth, Anárion, filho de Elendil, foi morto, além de muitos outros. No final, porém o cerco era tão rigoroso, que o próprio Sauron se apresentou; e lutou com Gil-galad e Elendil, matando os dois; e a espada de Elendil quebrou quando ele tombou. Mas Sauron também foi derrubado; e, com o toco de Narsil, Isildur arrancou o Anel Governante da mão de Sauron e ficou com ele para si. Então Sauron foi derrotado por algum tempo e abandonou seu corpo. Seu espírito fugiu para longe e se ocultou em local ermo. E por muitos anos ele não voltou a assumir forma visível (Tolkien, 2011, p. 374-375). Encerram-se assim os eventos históricos da Segunda Era e tem-se, a seguir, o início da “Terceira Era do Mundo, depois dos Dias Antigos e dos Anos Escuros. E naquela época ainda havia esperança e lembrança da alegria” (Tolkien, 2011, p. 375). Logo após a grande batalha contra Sauron e suas hostes, a “Torre Escura caiu ao chão, arrasada, mas seus alicerces permaneceram, e ela não foi esquecida. Os numenorianos montaram guarda sobre a terra de Mordor, mas ninguém ousava morar lá, pelo terror da lembrança de Sauron e pela Montanha e Fogo, que ficava ali, ao lado de Bara-dûr” (Tolkien, 2011, p. 375). E o Anel Governante? “Desapareceu até mesmo do conhecimento dos Sábios, nessa época. No entanto, não foi desmanchado” (Tolkien, 2011, p. 375). Elrond e Círdan aconselharam Isildur a destruí-lo na Montanha da Perdição, onde havia sido forjado, que obliteraria eternamente o poder de Sauron, o qual continuaria pela eternidade como um espectro, como uma sombra vagante no mundo. Isildur não seguiu tais conselhos, seduzido pelo poder do Anel, que carregava as vontades de seu único e verdadeiro Senhor, pois “parecia ter aparência belíssima; e ele não quis permitir que fosse destruído” (Tolkien, 2011, p. 376). Isildur se encarregou de assumir o trono de seu pai Elendil, o trono do reino de Arnor, deixando o trono de Gondor para o filho de seu irmão Meneldil. Assim, “renunciava ao Reino do Sul [partindo 32 para viver] longe da sombra da Terra Negra” (Tolkien, 2011, p. 376). Durante uma viagem, Isildur com sua comitiva foi atacado por orcs, sofrendo uma emboscada na região das Montanhas Nevoentas, mas escapou graças ao Anel; pois, quando o usava, tornava-se invisível a todos os olhos. Os orcs, porém, o perseguiam pelo faro e pelas pegadas, até ele chegar ao Rio e nele mergulhar. Ali o Anel o traiu e vingou a morte de seu criador, pois escorregou de seu dedo quando ele nadava e se perdeu nas águas. Os orcs então o viram nadando na correnteza, atiraram muitas flechas e esse foi o seu fim (Tolkien, 2011, p. 376). Assim, neste ataque, a linhagem de Isildur pereceu, com exceção de um único filho, Valandil, que deixara vivendo em Valfenda antes de partir para a grande batalha contra Sauron. Este assumiria o trono do reino de Arnor, na região de Eriador, mas os numenorianos haviam diminuído, enfraquecido em seu poder, e quando veio a falecer o sétimo rei que sucederia a Valandil, o reino se dividiu em reinos e feudos, e “seus inimigos devoraram um a um” (Tolkien, 2011, p. 377). O que restaria dos dúnedain? “Deles nada restou a não ser um povo estranho a perambular em segredo no mato, e outros homens não conheciam seus lares nem o objetivo e suas viagens”. (Tolkien, 2011, p. 377). O reino de Gondor continuaria resistindo pelos próximos anos, reconquistando seu esplendor dos dias gloriosos dos numenorianos, inclusive com a muda da Árvore Branca crescendo, muda que foi trazida por Isildur da ilha que afundara, que “antes dela tinha vindo de Avallónë; e, antes dessa, de Valinor, no Dia antes dos dias, quando mundo era jovem” (Tolkien, 2011, p. 377). Mas, pouco a pouco, a decadência também viria a atingir o reino dos homens do Sul, pois “o sangue dos numenorianos se tornou muito misturado com o de outros homens; seu poder e sua sabedoria foram reduzidos, seus anos de vida, encurtados, e a vigilância sobre Mordor, negligenciada” (Tolkien, 2011, p. 377-378). Seguiram-se os dias, com os Espectros do Anel finalmente se revelando, abrindo caminho para seu Senhor ressurgir novamente. Findaram-se as forças dos homens até a morte de seu último rei, Eärnur, que desafiou o líder dos nazgûl nos portões de Mordor, onde foi traído pelas suas promessas vãs, capturado e nunca mais visto sob os olhos dos povos livres da Terra-Média. Não havia herdeiros ao trono de Gondor, e assim a linhagem real foi interrompida, sendo substituída pelos Regentes da Casa. Havia, no entanto, um ponto seguro na Terra-Média, onde era preservado a “memória de tudo o que havia sido belo” (Tolkien, 2011, p. 379), Valfenda, morada de Elrond meio-elfo. 33 Desse ponto em diante, para além de O Silmarillion, finalmente entrando em contato com a primeira obra publicada de J. R. R. Tolkien, O Hobbit, na qual acompanha-se os eventos em torno do protagonista que pertence à raça de pequenas pessoas de pés peludos que dá o título à referida obra, Bilbo Bolseiro em sua aventura com a comitiva de treze anões – Thorin, Balin, Dwalin, Fili, Kili, Dori, Nori, Ori, Óin, Glóin, Bifur, Bofur e Bombur - e o velho mago Gandalf, o Cinzento, para reconquistar a fortaleza do reino perdido de Thorin na Montanha Solitária, contra o dragão Smaug que transformou o local em seu covil. Há, dessa maneira, dois pontos importantes de toda a narrativa de O Hobbit, e o primeiro ocorre sob o ponto de vista de Bilbo. Durante a aventura do pequeno hobbit, em uma luta dentro das Montanhas Nevoentas, este se perde da comitiva de anões e se depara, sozinho, com as profundezas do mundo. Lá, encontra uma das personagens mais famosas de todo o universo narrativo de Tolkien: “ali no fundo, na beira da água escura, vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Não sei de onde veio, nem quem ou o que ele era. Era um Gollum – escuro como a escuridão, exceto por dois grandes olhos redondos e pálidos no rosto magro” (Tolkien, 1998, p. 72). Gollum vivia solitário, alimentando-se de presas fáceis, tendo como companhia um objeto mágico, que amava chamar de “meu preciossso!” (Tolkien, 1998, p. 73). Bilbo sobrevive à presença da criatura graças à sua espada élfica, de nome “Ferroada” e ter vencido um jogo de adivinhas no escuro. Que objeto é esse pelo qual a criatura possui tanto afeto? Era o próprio Anel Governante, o Um Anel. Bilbo, acidentalmente, pegou o artefato da criatura e, para sua “esperança e surpresa. Pelo jeito, o anel que tinha era mágico: tornava a pessoa invisível! Bilbo já ouvira falar sobre tais coisas, é claro, em histórias muito antigas; mas era difícil acreditar que tivesse realmente achado um por acidente” (Tolkien, 1998, p. 85). Vale ressaltar não há pistas na narrativa de O Hobbit que apontem que esse é o anel de Sauron. Tal informação nos é revelada muito à frente nessa jornada. A jornada de Bilbo segue, porém focaremos em outro evento, que acontece por trás da trama, nas ausências específicas de uma personagem que acompanha o hobbit e a comitiva de anões. Gandalf, o Cinzento, em determinados momentos da narrativa, segue outros caminhos, surgindo em outros momentos, e suas ausências parecem demasiadamente convencionais para não suspeitarmos. Um momento de suma importância se dá quando Gandalf se despede no instante em que os anões e Bilbo estão para adentrar a Floresta das Trevas. Tenho, como já lhes disse, alguns negócios urgentes no sul, e já estou atrasado de tanto me ocupar com vocês. Podemos nos encontrar de novo antes que tudo esteja terminado, e também podemos não nos encontrar. Isso depende de sua 34 sorte, coragem e bom senso, e estou mandando o Sr. Bolseiro com vocês (Tolkien, 1998, p. 134). Mas, o que Gandalf irá fazer ao sul do mundo? Qual é essa urgência? A resposta está em uma de suas falas a Bilbo: Antes que pudessem contorná-la ao sul, entraria nas terras do Necromante, e nem você, Bilbo, vai precisar que lhe conte histórias daquele feiticeiro negro. Não os aconselho a se aproximarem de nenhum lugar que seja vigiado por sua torre escura! (Tolkien, 1998, p. 136). Quem é esse Necromante de quem ele fala? Torre Escura? São denominações que parecem familiar. E o que se desenrola por trás da narrativa? Mithrandir (nome élfico de Gandalf3) estava cada vez mais alerta [...], questionou a escuridão na Floresta das Trevas; pois, embora muitos considerassem que ela era criada pelos Espectros do Anel, ele temia que de fato ela fosse a primeira sombra do retorno de Sauron. Foi então até Dol Guldur, e o Feiticeiro fugiu dele; e por muito tempo houve uma paz vigilante. Mas, por fim, a Sombra voltou, e com o poder aumentado (Tolkien, 2011, p. 382). Formou-se o Conselho Branco nesta época, dele participando Elrond, Galadriel, além de outros senhores dos eldar, e lá também estavam Gandalf e Saruman, o Branco (Curunír em élfico4). O poder da Sombra se expandia, anuviando os corações daqueles que vigiavam pela paz e liberdade dos povos da Terra-Média. Assim, Mithrandir, correndo enorme perigo, voltou a Dol Guldur e às minas o Feiticeiro, descobriu a veracidade de seus temores e escapou. - Infelizmente, nossa suposição é verdadeira – disse ele, ao voltar a Elrond – Não se trata de um dos úlairi (Nazgûl), como muitos há muito imaginam. É o próprio Sauron que voltou a assumir uma forma e agora cresce rapidamente. 3 Mithrandir, mais especificamente é derivado do sindarin que é uma das manifestações variantes da língua geral denominada como élfico. Significa, em uma possível tradução: “Peregrino Cinzento”. 4 Na mesma lógica que Mithrandir, Curunír é o nome original de Saruman derivando do sindarin que é uma das manifestações variantes da língua geral denominada como élfico. Significa, em uma possível tradução “Homem de Habilidade”. 35 E ele está recolhendo de novo todo os Anéis em suas mãos. E está sempre à procura de notícias do Um, e dos herdeiros de Isildur, se ainda sobrevivem na terra (Tolkien, 2011, p. 383). Sauron viria ser expulso de Dol Guldur, refugiando-se em sua velha fortaleza de Barad- dûr, na terra de Mordor. Sabe-se que ele busca encontrar o Anel, na qual reside grande parte de sua força. Muitos davam o objeto como eternamente perdido, jogado nas profundezas dos oceanos para que nunca mais fosse encontrado. Elrond, no entanto, pressentia que não, que o Anel seria encontrado e que a próxima guerra seria para encerrar os tempos da Terceira Era. Bilbo completou sua aventura, auxiliou os anões na recuperação de seu reinado, e partiu de volta para o seu lar, o Condado, com riquezas e histórias que seu povo nunca viria a acreditar por completo. E claro com seu anel mágico. Essa trama narrativa de Gandalf e a investigação pela verdadeira identidade do necromante de Dol Guldur é contada em O Silmarillion, que repassa os eventos que não temos acesso em O Hobbit, por conta da narrativa ser fechada em torno do ponto de vista de Bilbo Bolseiro, e é daqui, destes dois pontos em comum, encerrando tanto o primeiro quanto o segundo livros respectivamente citados, que a trama se articulada no Legendarium partirá para os eventos épicos da trilogia de livros O Senhor dos Anéis: a Sociedade do Anel [Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, 1954], As Duas Torres [The Two Towers, 1954] e O Retorno do Rei [The Return of the King, 1955]. 2.2 A Guerra do Anel Nada sintetiza melhor a força de vontade corruptora, maligna e vil que habita o Anel Governante, o Um Anel, do que o verso presente na abertura antes do índice de capítulos de O Senhor dos Anéis. Três Anéis para os Reis-Élfos sob este céu. Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores, Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono. Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono. Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam. Um Anel para todos governar. Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los Na Terra de Mordor onde as sombras se deitam (Tolkien, 2000, p. vii). 36 Terra-Média. Terceira Era. Condado. Terra dos vales, florestas e lares da maior parte dos hobbits. É de suma importância lembrar que “em grande parte, este livro trata de hobbits, e através de suas páginas o leitor pode descobrir muito da personalidade e um pouco de suas histórias” (Tolkien, 2000, p. 1). O destino do mundo, dos povos livres da Terra-Média estará nas mãos desta raça. E Os hobbits são um povo discreto mas muito antigo, mais numeroso outrora do que é hoje em dia. Amam a paz e a tranquilidade e uma boa terra lavrada: uma região campestre bem organizada e bem cultivada era seu refúgio favorito. Hoje, como no passado, não conseguem entender ou gostar de máquinas mais complicadas que um fole de forja, um moinho de água ou um tear manual, embora sejam habilidosos com ferramentas [...]. Quanto aos hobbits do Condado, enfocados nesses contos, nos tempos de paz e prosperidade era um povo alegre. Vestiam-se com cores vivas, gostando notadamente de verde e amarelo, mas raramente usavam sapatos, uma vez que seus pés tinham solas grossas como couro e eram cobertos por pelos grossos e encaracolados, muito parecidos com os que tinha na cabeça, que eram geralmente castanhos. Dessa forma, o único ofício pouco praticado entre eles era a manufatura de sapatos, mas tinham dedos longos e habilidosos e podiam fazer muitas outras coisas úteis e graciosas (Tolkien, 2000, p. 1-2). Aqui, nesta localidade, somos apresentados à personagem de Frodo, hobbit adotado por Bilbo e herdeiro de Bolsão (propriedade de Bilbo) que, igual a Bilbo em O Hobbit [...] não tem nenhuma pretensão de participar de nada que esteja fora dos limites do Condado. Gandalf é quem aparece nos dois casos com propostas que fazem os dois hobbits abandonarem o conforto de suas casas e partirem em busca do inexplorado. De forma um pouco mais particular, no caso de Frodo, Gandalf conta-lhe sobre o enorme poder de destruição do Um anel e consegue convencê-lo de que ele mesmo, enquanto herdeiro de Bilbo e dono do anel, é quem deve levá-lo para fora do Condado (Stainle, 2016, p. 31-32). Frodo herdou o anel de Bilbo, tanto quanto herdara o peso das ações de Bilbo, que lhe deixou o objeto mágico após desaparecer do Condado na data de seu centésimo décimo primeiro aniversário, e, com as investigações de Gandalf, também herdara o peso de carregar o Um Anel, 37 com consciência, diferente de Bilbo, do poder que estaria levando consigo. Não será uma viagem fácil, porém, não será solitária tanto quanto se poderia imaginar. Assim, ao cruzar o limiar, Frodo tomou o rumo para a vastidão misteriosa da Terra-Média, afastando-se das terras confortáveis do Condado, após seu chamado para a aventura. Frodo, olhando-se pela perspectiva do Herói de Mil Faces, a partir do ponto em que põe os pés na estrada, torna-se o Herói [que] caminha por uma paisagem onírica povoada por formas curiosamente fluidas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de provas [onde] é auxiliado, de forma encoberta [ou bem aberta], pelo conselho, pelos amuletos e pelos agentes secretos do auxiliar sobrenatural que havia encontrado [ou não] antes de penetrar nessa região. Ou, talvez, ele aqui descubra, pela primeira vez, que existe um poder benigno, em toda parte, que o sustenta em sua passagem sobre-humana (Campbell, 2013, p. 102). Frodo, inicialmente, em sua jornada, tem o objetivo de chegar até a estalagem do Pônei Saltitante, no vilarejo de Bri. Lá deverá encontrar Gandalf, que não o acompanhara no momento por ter ido notificar a Saruman que o Um Anel foi encontrado e receber conselhos do líder da ordem dos magos. Formou-se, aqui, a primeira parte do grupo de aventureiros que ousariam enfrentar os perigos da Terra-Média. Três outros hobbits seguirão junto de Frodo. Samwise Gamgi, Meriadoc Brandebuque e Peregrin Tûk, ou apenas: Sam, Merry e Pippin. De pronto, o pequeno grupo já começa a enfrentar perigos: além de estarem sendo perseguidos pelos nazgûl disfarçados de cavaleiros negros, cruzam a Floresta Velha e seus mistérios, onde são auxiliados por Tom Bombadil, outro dos muitos mistérios do Legendarium, a se livrarem dos perigos desse local, cruzaram a Colina dos Túmulos, onde mais uma vez os quatro hobbits foram auxiliados por Tom Bombadil para escaparem com vida das criaturas mortas-vivas que ali habitavam. Chegam a Bri, vão até a estalagem, mas não encontram Gandalf. Resolveram esperar, aguardar e ver se ele chegava. Nesse local, uma outra personagem se reunirá ao grupo de hobbits, mas desta vez será alguém das pessoas grandes. Dentre as várias raças que frequentam o Pônei Saltitante, Frodo percebeu que um homem de aparência estranha e marcada pelos anos, sentado num canto escuro, também estava escutando a conversa dos hobbits com muita atenção. Tinha uma caneca alta à sua frente, e fumava um cachimbo de haste longa, talhado de forma curiosa. As pernas estavam esticadas, mostrando botas altas de couro macio que lhe serviam bem, mas já bastante 38 surradas e agora cobertas de lama. Uma capa cheia de marcas de viagem, feita de tecido verde-escuro, o cobria quase por completo, e apesar do calor da sala, ele usava um capuz que lhe ocultava o rosto em sombras; mas podia-se ver o brilho em seus olhos enquanto observava os hobbits (Tolkien, 2000, p. 164). O homem é identificado pelos locais como Passolargo, e chamou Frodo para conversar, informando dos perigos ali presentes, do descuido tomado no lugar em relação à discrição dos pequeninos, e também expressando a vontade de auxiliá-los em sua missão. Frodo, assim, recebera uma carta escrita por Gandalf e entregue pelo dono da estalagem informando sobre o surgimento de imprevistos que necessitavam de sua presença, na qual as mesmas palavras do velho mago confirmavam a confiança em Passolargo, e que seu verdadeiro nome é Aragorn. Este homem é descendente dos dúnedain, uma raça de homens de sangue antigo, que hoje viajavam nas terras ermas, denominavam-se como guardiões, com talentos para caça, rastreamento e, muito provavelmente, habilidades não só com arcos e flechas, mas também com as espadas. Ainda sobre o conteúdo da carta, Gandalf indicava o próximo passo da viagem: eles deveriam ir à Valfenda, lar dos elfos e de Elrond. Aragorn sugere uma rota para os Hobbits, para caso Gandalf, que estava atrasado, tentasse alcançá-los nas trilhas ermas. Seria aquele caminho que o velho mago viria a utilizar para chegar ao lar dos elfos. Nessa viagem, haverá um embate entre os quatro hobbits, Aragorn e os nazgûl no Topo do Vento, ruína de um antigo posto de vigia do reino élfico de Gil-Galad. Durante o encontro, Frodo “sentiu uma dor, como se um dardo envenenado tivesse penetrado seu ombro esquerdo” (Tolkien, 2000, p. 208). Uma fuga para Valfenda se inicia, fugindo dos nazgûl espantados por Aragorn. O ferimento de Frodo fora provocado por uma lâmina de Morgul, que viria a transformá-lo em um Espectro do Anel se não fosse encontrado alguém com um “poder de cura capaz de fazer frente a armas tão malignas” (Tolkien, 2000, p. 210). Forma-se, então, uma corrida contra o tempo, exaustiva e perigosa. Glorfindel, um dos senhores élficos residentes em Valfenda surgirá em auxílio da pequena comitiva, salvando Frodo em seus últimos momentos antes de ser tomado por completo pela escuridão. Os hobbits chegarão à Valfenda e lá reencontrarão muitos conhecidos e conhecerão muitos outros desconhecidos. Gandalf enfim apareceu, e aqui é descoberto sobre seu embate com Saruman, o Branco, que traíra a sua ordem em prol de sua própria ascensão, cobiçoso por poder e conhecimento, aliando-se à Sauron e suas hostes. Bilbo também estava por aqui, seu último destino da viagem que empreendeu desde que saíra do Condado no dia de seu aniversário. Elrond estava aqui, figura histórica, testemunha ocular dos Dias Antigos, com toda 39 sua sabedoria. Dentre tantos encontros, sorrisos e jantares, descobre-se que, no outro dia, “haverá um Conselho” (Tolkien, 2000, p. 251). É chegada a hora de debater, de entender, de tomar decisões sobre o futuro da própria Terra-Média. No conselho, após notícias do mundo, com anões, elfos e homens presentes, Elrond “falava de Sauron e dos Anéis de Poder, e de sua forjadura na Segunda Era do mundo, há muito tempo” (Tolkien, 2000, p. 256). Retomou feitos e histórias até onde sua memória permitia, revelando a muitos sua longa jornada na Terra-Média, rememorando eventos que datavam dos Dias Antigos, da Última Aliança e do desfecho do próprio Isildur após a vitória contra o Senhor do Escuro. É revelado também por Elrond que Passolargo é “Aragorn, filho de Arathorn [...], e descende, através de muitas gerações, de Isildur, filho de Elendil, de Minas Ithil. É o chefe dos dúnedain no Norte; e poucos restam agora desse povo” (Tolkien, 2000, p. 261). Aragorn é o herdeiro do trono vazio de Gondor, que nos dias do Conselho é governado pela Casa dos Regentes. Dentre tantos debates, histórias, reflexões e tensões envolvendo qual seria a melhor decisão, Frodo toma uma iniciativa O sino do meio-dia tocou. Mesmo assim, ninguém falava nada. Frodo olhou para todos os rostos, mas eles não estavam voltados para ele. Todo o Conselho se sentava com os olhos para baixo, pensando profundamente. Um grande pavor o dominou, como se estivesse aguardando o pronunciamento de alguma sentença que ele tinha previsto havia muito tempo, e esperando em vão que afinal de contas nunca fosse pronunciada. Um desejo incontrolável de descansar e permanecer em paz ao lado de Bilbo em Valfenda encheu-lhe o coração. Finalmente, com um esforço, falou, e ficou surpreso ao ouvir as próprias palavras, como se alguma outra vontade estivesse usando sua pequena voz. - Levarei o Anel – disse ele. – Embora não conheça o caminho (Tolkien, 2000, p. 286). Elrond confirmou o pronunciamento de Frodo, apontando então como o Portador do Anel, cujo objetivo de era levar o objeto até a terra de Mordor, para dentro da Montanha da Perdição, destruí-lo e acabar de uma vez com o poder de Sauron. Será um caminho que Frodo irá se “deparar com muitos inimigos, alguns declarados, alguns disfarçados; e poderá encontrar amigos em seu caminho, quando menos esperar” (Tolkien, 2000, p. 292). Será formado, enfim, a Sociedade do Anel, um grupo que se proporá livremente a acompanhar, proteger, auxiliar e 40 aconselhar Frodo em sua jornada. Serão nove membros, que representavam os povos livres do Mundo: Com você e seu fiel servidor (Samwise Gamgi), Gandalf deve partir, pois está será sua maior tarefa, e talvez o fim de seus trabalhos. [...] [...] Legolas irá representando os elfos, e Gimli, filho de Glóin, representará os anões. Estão dispostos a ir no mínimo até as passagens das Montanhas, e talvez mais além. Representando os homens, você terá Aragorn, filho de Arathorn, pois o Anel de Isildur é de grande interesse para ele. - Passolargo! – disse Frodo. - Sim – disse ele com um sorriso – Peço novamente permissão para ser seu companheiro, Frodo. - Eu teria implorado que viesse comigo – disse Frodo -, mas pensei que você iria para Mina Ithil com Boromir. - E irei – disse Aragorn – e a Espada-que-foi-Quebrada deverá ser reforjada antes que eu parta para a guerra. Mas sua estrada e a nossa serão a mesma por muitas centenas de milhas. Portanto, Boromir também estará na Comitiva. É um homem valoroso. - Restam mais dois – disse Elrond – Nesses ainda vou pensar. Em minha própria casa poderei encontrar alguém que me agrade. - Mas assim não restará lugar para nós – gritou Pippin desanimado. – Não queremos ficar para trás. Queremos ir com Frodo. -Isso porque vocês não entendem e não imagina o que os espera pela frente – Disse Elrond - Nem Frodo – Disse Gandalf, inesperadamente apoiando Pippin – Nem qualquer um de nós pode enxergar claramente. É verdade que se esses hobbits entendessem o perigo não ousariam ir. Mas ainda assim desejariam ir, ou desejariam ousar, ficando envergonhados e infelizes. Eu acho, Elrond, que nessa questão seria bom confiar mais na grande amizade deles do que na grande sabedoria. Mesmo que escolha para nós um senhor élfico, como Glorfindel, ele não poderia abalar a Torre Escura, nem abrir a estrada que conduz ao Fogo, por meio dos poderes que tem. - Você fala sério – disse Elrond – mas estou em dúvida. O Condado, pelo que pressinto, não está livre de perigo; e pensei em mandar estes dois de volta como mensageiros, para fazer o que pudessem, de acordo com as maneiras de sua terra, para advertir as pessoas sobre o perigo que correm. De qualquer modo, julgo que o mais jovem dos dois, Peregrin Tûk, deve permanecer. Meu coração é contra sua partida. 41 - Então, Mestre Elrond, o senhor terá de me acorrentar numa prisão, ou me mandar para casa amarrado num saco – disse Pippin. – Pois, de outro modo, seguirei a Comitiva. - Então, que seja assim. Você irá – disse Elrond, e suspirou – Agora a conta dos Nove está completa. Em sete dia, a Comitiva deve partir (Tolkien, 2000, p. 293-294). Então, a jornada da Sociedade do Anel e seus nove membros se inicia. A comitiva e sua viagem, com seus imensos desafios, superações, perdas, vitórias, regozijos, tristezas, tensões, desesperos e, claro, sem nunca desaparecer completamente do horizonte: esperança. Outros inúmeros personagens aparecerão ao longo dos próximos arcos narrativos, inúmeras paisagens que adentram em nosso imaginário sem nunca abandonar toda a história cosmogônica anteriormente narrada. A cada novo passo dado, mais “suspendemos nossa descrença em relação a algumas coisas” (ECO, 2019, p. 83), imersos no arco de cada personagem que fora citada, a qual possui seu próprio ciclo, seu próprio momento de desafio, aceitação, superação e conquista. Cada um, à sua maneira passará por “alguns lugares, aonde [os] Mentores não podem ir e onde [se está] por [conta própria] (VOGLER, 2015, p. 213), enfrentando sozinhos cada sombra que o persegue tanto em caráter intrapessoal, quanto extrapessoal. Vale ressaltar que, além das personagens diretamente citadas, a maioria das personagens que surgem no decorrer da trama, além da própria Terra-Média, possuem uma relação conectiva, de ápices e quedas, seja sendo um herói, seja um vilão, com a jornada tradicional do herói (Campbell, 2013). Ela manifesta-se até nas personagens que vivem uma ambiguidade, na linha indefinida de moralidade, por exemplo: Gollum que retornará para auxiliar Frodo, exercendo um papel essencial para a protagonista, que nunca chegaria ou completaria sua missão sem o auxílio da criatura. Gollum, também, é o próprio reflexo da protagonista Frodo, um duplo, que terá a própria jornada também, tanto de ascensão quanto da sua queda final. Como diz sabiamente Gandalf após contar a história da criatura Gollum para Frodo: - Mas isso é terrível – gritou Frodo. – Muito pior do que o pior que eu havia imaginado a partir de suas insinuações e advertências. Ó Gandalf, meu melhor amigo, que devo fazer? Pois agora estou realmente com medo, que devo fazer? É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance! - Pena? Foi justamente Pena que ele teve. Pena e Misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão 42 pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir o Anel desse modo. Com Pena. - Sinto muito – disse Frodo – Mas estou com medo; e não sinto nenhuma pena de Gollum. - Você não o viu – Gandalf interrompeu. - Não vi e não quero ver – Disse Frodo. – Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas as coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte. - Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados. Não tenho muita esperança de que Go