UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - RIO CLARO CLERI APARECIDA BRANDT REGIME NAZISTA: AS TEORIAS IDEOLÓGICAS E EDUCACIONAIS MOLDANDO A FORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NAZI Rio Claro 2011 LICENCIATURA PLENA EM PEDAGOGIA CLERI APARECIDA BRANDT REGIME NAZISTA: AS TEORIAS IDEOLÓGICAS E EDUCACIONAIS MOLDANDO A FORMAÇÃO DO INDIVÍDUO NAZI Orientador: Prof. Dr. Jorge Luís Mialhe Co-orientador: Prof. Dr. Wagner Montanhini Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Câmpus de Rio Claro, para obtenção do grau de Licenciado em Pedagogia. Rio Claro 2011 Brandt, Cleri Aparecida Regime nazista: as teorias ideológicas e educacionais moldando a formação do indivíduo nazi / Cleri Aparecida Brandt. - Rio Claro : [s.n.], 2011 206 f. : il., figs. Trabalho de conclusão de curso (licenciatura - Licenciatura Plena em Pedagogia) - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro Orientador: Jorge Luís Mialhe Co-Orientador: Wagner Montanhini 1. Educação e Estado. 2. Educação pública. 3. Nazismo. 4. Ideologia. I. Título. 379.2 B821r Ficha Catalográfica elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP Campus de Rio Claro/SP Dedico este trabalho ao meu amado pai – in memorian – que não teve tempo para ver a conclusão desta caminhada. – Pai, este trabalho é para você e por você. O seu caráter e o seu senso de humanidade foram e sempre serão o exemplo norteador dos meus passos. Muito obrigada! AGRADECIMENTOS Este trabalho não estaria completo se nele não expressasse a minha mais terna gratidão a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que a jornada fosse concluída de maneira significativa. Durante os quatro anos de curso foram muitos os encontros e desencontros, alguns amigos se foram em meio à caminhada enquanto outros amigos chegaram, porém todos deixaram suas marcas, as quais me acompanharão por toda a vida sendo, por este motivo, merecedores de minha gratidão e muito embora não encontrem seus nomes grafados nesta página, estejam certos de sua presença. Os agradecimentos a se fazer são muitos, contudo, acredito que o primeiro deve ser para aquele que permitiu a realização desta caminhada até sua reta final: Deus. Os amigos abnegados do Plano Maior também não podem ser esquecidos, afinal estiveram presentes em todos os momentos, me enviando inspiração e força necessárias. Agradeço com um grande sorriso no coração ao meu mestre inspirador e, talvez, meu maior incentivador: meu pai, que infelizmente não conseguiu chegar comigo nesta etapa final. Contudo, sei que a sua ausência é apenas física, pois a sua presença é parte integrante do meu coração e sei também, que, onde estiver ele continua acompanhando e incentivando meus passos. Com este mesmo sorriso, agradeço a minha mãe que, no auge de sua impaciência, se encheu de paciência para suportar meus estresses e que, sempre esteve ao meu lado, confiando e valorizando minha capacidade, me dando um alento nos momentos de crise e me fortalecendo com suas preces. Agradecimentos mais que especiais às minhas filhotas, sem as quais, provavelmente esta caminhada sequer teria começado. Estejam certas de que o incentivo, o companheirismo e a confiança de vocês fizeram toda a diferença. Não poderia deixar de agradecer ao Prof. Dr. Jorge Luís Mialhe, meu orientador na tarefa de construção deste trabalho, pela disponibilidade, paciência e atenção que sempre me dispensou e, principalmente, pelo incentivo para a realização desta complexa pesquisa e pela confiança que sempre depositou em minha capacidade. Agradecimentos também, ao meu co- orientador Prof. Dr. Wagner Montanhini pelo suporte durante a realização deste trabalho. Por fim, agradeço a todos os funcionários do Departamento de Educação, da Seção Técnica de Graduação e da Biblioteca deste campus universitário pela colaboração nesta empreitada e, em especial aos professores e professoras que contribuíram para o meu crescimento intelectual e humano. [...] Quem são aqueles que, alguns anos antes, foram recém-nascidos inocentes e frágeis como todos os recém-nascidos, e depois bebês sorridentes e palradores como todos os bebês do mundo, e depois meninos de escola em alegres disputas como todos os meninos de escola do mundo, e depois adolescentes cujo coração deve ter batido com o primeiro “amo-te” como todos os adolescentes do mundo? Que turbilhão, que cataclismo fez destes ex-recém-nascidos, ex-bebês, ex-meninos de escola e ex-adolescentes monstros disparadores de balas e cravadores de farpas? (HANNOUN, 1997, P. 10). Caro professor, Sou Sobrevivente de um campo de concentração. Os meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver: Câmaras de gás construídas por engenheiros experimentados; Crianças envenenadas por médicos educados; Bebês mortos por enfermeiras treinadas; Mulheres e bebês executados e queimados por diplomados de colégios e universidades. Por tudo isto, desconfio da educação. O meu pedido é o seguinte: ajudem os vossos alunos a tornarem-se seres humanos. Os vossos esforços não deverão, nunca, produzir monstros educados, psicopatas qualificados, Eichman experimentados. A leitura, a escrita, a aritmética só são importantes se servirem para tornar as nossas crianças mais humanas. (Carta de um diretor de um liceu americano, sobrevivente os campos de concentração nazistas, enviada à seus professores no início de cada ano letivo) (HANNOUN, 1997, p. 233). RESUMO O período correspondente ao Terceiro Reich alemão (1933-1945), quando a Alemanha esteve sob o domínio do Regime Nazista, foi caracterizado pelo alto grau de violência, de dominação e de exterminação em massa, e, também, pelo envolvimento “voluntário” de crianças e jovens na luta por um ideal que não lhes pertencia, as quais foram, desde a mais tenra idade, doutrinadas para matar e morrer em nome desse ideal. Para atingir esse fim, teorias, supostamente comprovadas, foram concebidas e incorporadas a educação de modo a fazer dela o grande veículo condutor da dominação que se pretendia. Por este motivo, o seu estudo se torna de grande importância para se pensar na educação – do presente e do futuro -, no sentido de sua utilização para atingir fins que não possuem como premissa a formação do sujeito livre e emancipado, capaz de agir de forma reflexiva e autônoma no mundo em que vive. No presente trabalho, pretende-se apresentar o resultado de uma pesquisa desenvolvida a partir da revisão bibliográfica, sobre o contexto histórico, social, econômico e educativo da Alemanha nazista com a finalidade de proceder ao levantamento e a análise de dados e informações em torno dos principais fatores que contribuíram para a ascensão do Partido Nazista, na figura de seu líder, Adolf Hitler. O objetivo maior deste trabalho foi buscar argumentos que possibilitassem a compreensão em torno dos motivos que levaram os jovens e as crianças a seguirem Hitler e o seu ideal até as últimas consequências. Como metodologia utilizou-se a pesquisa bibliográfica, com base qualitativa e em caráter historiográfico e exploratório. O material bibliográfico analisado trouxe diversas possibilidades que, apesar de não conclusivas, permitiram a compreensão em torno da eficácia dos mecanismos educativos utilizados pelos nazistas para atingir o fim pretendido, efetivando o processo de doutrinação do inconsciente das crianças e dos jovens alemães que viviam à época sob a égide do nazismo. Palavras-chaves: Nazismo. Ideologia. Educação SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 7 2. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA: A história de um povo. ....................................... 13 2.1. Constituição da Nação-Estado e do habitus alemão .......................................................... 16 2.2. Contexto histórico político alemão .................................................................................... 19 2.2.1. Primeiro e Segundo Reich .............................................................................................. 19 2.2.2. O império alemão no pós Primeira Guerra ..................................................................... 21 2.2.3. A República de Weimar e o advento do nazismo ........................................................... 27 2.2.4. A Alemanha no Terceiro Reich (1933-1945) ................................................................. 43 3. NAZISMO: UMA DOUTRINA PARA ALÉM DA POLÍTICA ......................................... 47 3.1. Adolf Hitler: o Führer do nazismo. ................................................................................... 49 3.1.1. Origem e formação ......................................................................................................... 50 3.1.2. A leitura como formação ................................................................................................ 54 3.2. Nazismo: fundamentos de uma doutrina ........................................................................... 60 3.2.1. Teorias nazistas............................................................................................................... 63 3.2.2. Linguagens nazistas como forma de aliciamento e dominação ...................................... 76 4. JUVENTUDE HITLERISTA: OS JOVENS À SERVIÇO DO TERCEIRO REICH ......... 84 4.1. Movimentos juvenis alemães ............................................................................................ 87 4.2. Movimentos juvenis nazistas: o nascimento da Juventude Hitlerista ............................... 92 4.2.1. Juventude Hitlerista: o grande movimento juvenil alemão ............................................ 96 4.2.2. A seleção e preparação do jovem hitlerista .................................................................. 112 4.2.3. Sessões especializadas da JH ........................................................................................ 124 4.3. A juventude dissidente..................................................................................................... 127 5. A EDUCAÇÃO NO TERCEIRO REICH .......................................................................... 132 5.1. Educação geral: concepções, conceitos e diretrizes ........................................................ 132 5.2. Corpo docente: Treinamento especializado ..................................................................... 142 5.3. Programa didático ............................................................................................................ 153 5.4. Educação corporal: o primado do corpo. ......................................................................... 166 5.5. Educação da elite ............................................................................................................. 171 5.6. Educação feminina .......................................................................................................... 182 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS: um complexo diálogo ........................................................ 192 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 203 7 1. INTRODUÇÃO A história da humanidade desde os primórdios encontra-se permeada de fatos e acontecimentos sob os mais distintos enfoques, vinculados aos mais diversos modelos de sistemas políticos e governamentais e de consequentes teorias, tanto ideológicas quanto educacionais, que se apresentam como uma ferramenta de extrema utilidade para àqueles que pretendem dedicar-se a arte de educar, visto que, o conhecimento possibilitado por um estudo analítico e crítico em torno suas articulações traz inúmeras possibilidades de reflexões, as quais podem contribuir favoravelmente para a melhoria da educação, com vistas à formação do indivíduo enquanto sujeito desta educação, tanto no presente como no futuro. O período correspondente ao Terceiro Reich alemão (1933-1945), quando a Alemanha esteve sob o domínio de um dos mais tirânicos governos totalitários de todos os tempos – o Regime Nazista – que foi marcado pelo alto grau de violência, de dominação e de exterminação em massa, representa um desses momentos históricos que, devido às atrocidades cometidas, marcou profundamente as páginas da história mundial na contemporaneidade e isso, não somente pelo extermínio de cerca de seis milhões de judeus e demais minorias – fato este incontestável e aterrador –, mas também, pelo envolvimento “voluntário” de milhões de crianças e jovens na luta em favor de uma causa que não lhes pertencia, as quais foram “doutrinadas” desde a mais tenra idade, para matar e morrer – se preciso fosse – em nome de um líder, de um ideal e de uma pátria: a Alemanha. Partindo desta premissa e tendo em vista que a educação – formal e informal – foi o grande veículo condutor desta doutrinação, buscou-se, por meio da revisão bibliográfica, contextualizar sob os enfoques, histórico, político, econômico, social e cultural o período em questão, no sentido de buscar conhecer e compreender quais os fatores que contribuíram para a ascensão do nazismo e, principalmente, quais os elementos utilizados e de que forma estes foram incorporados à educação para que esta redundasse em uma formação cuja grande marca evidenciava-se na anulação da identidade individual em favor da coletiva – o völk –, em favor de um líder e de uma pátria e na adesão cega de milhões de crianças e jovens ao ideal nazista, fazendo com estes – conscientemente ou não – abrissem mão da inocência e de todos os sonhos infantis e juvenis, dos valores éticos, morais e familiares – primordiais para o bom desenvolvimento da personalidade e do caráter de um indivíduo – em nome desse ideal. O principal objetivo deste trabalho constituiu-se em procurar argumentos capazes de responder 8 “por que os jovens alemães seguiram Hitler e os ideais do Partido Nazista sem questionamentos, até o final?”. Contudo, para chegar a este entendimento, fazia-se primordial adquirir compreensão para outros questionamentos de grande significância relacionados aos pressupostos ideológicos nazistas e sua incorporação pelas crianças e pelos jovens por meio da educação. Desta forma, o trabalho foi norteado pelos seguintes questionamentos: “Quais os pressupostos ideológicos adjacentes à educação e de que forma estes foram articulados e propagados a fim de promover a adesão, a “obediência” inquestionável e a fidelidade das crianças e jovens alemães aos ideais nazistas, fazendo com que estes, em detrimento da família e de suas aptidões naturais, se tornassem verdadeiros soldados, dispostos a matar e a morrer pelo líder supremo e pela pátria? As idéias de superioridade racial foram incorporadas à mentalidade do povo e, especialmente dos jovens alemães pelo Regime Nazista ou estas já se encontravam embrenhadas no cerne deste povo? Os questionamentos elencados acima, que foram responsáveis por impulsionar a realização deste trabalho tomaram corpo no ano de 2008, durante a realização de pesquisas para a organização de um seminário sobre a Juventude Hitlerista apresentado na aula da disciplina História da Educação Moderna e Contemporânea. As pesquisas realizadas à época possibilitaram o contato com a história acerca da realidade dos jovens alemães que aderiram – praticamente em massa – ao ideal nazista, se tornando verdadeiros soldados a serviço do Regime Nazista: os soldados de uma idéia, conforme explicita Michaud (1996). Este contato provocou inúmeras inquietações, fato que despertou o interesse pela continuidade da pesquisa de maneira mais aprofundada, focando, principalmente, os fatores relativos à educação ministrada à esses jovens durante o período em questão, objetivando buscar a compreensão em torno das questões relativas ao seu desdobramento e a sua comprovada eficácia. Entende-se que a importância deste estudo reside no fato de que o tema, apesar de amplamente debatido por diversos pensadores, ainda reclama por maiores elucidações que consigam trazer luz a inúmeros questionamentos, especialmente em relação à cultura e à educação do povo alemão. Outro fator de primordial importância parte da premissa de que a educação, em qualquer época e local, exerce um poder sem precedentes na formação de crianças e adolescentes, atuando de forma significativa e até mesmo definitiva no direcionamento de suas idéias e pensamentos, contribuindo decisivamente para a formação da sua personalidade e de seu caráter, bem como pela inculcação – explicita ou implícita – das ideologias utilizadas pela classe dominante para a perpetuação de seu poder sobre as massas. No caso especifico da educação para a formação do indivíduo nazista, por estar vinculada a 9 tantas atrocidades e ter se apresentado como responsável pela “domesticação” de milhões de jovens, pela anulação das potencialidades naturais intrínsecas em cada indivíduo com o objetivo de transformá-los em verdadeiras “máquinas” à serviço dos ideais de um partido, prontos para matar ou morrer em seu nome, merece certo destaque, visto ser necessário conhecer histórica e ideologicamente seus pressupostos de maneira imparcial, sem pré- julgamentos ou discursos generalizados, os quais normalmente acompanham as discussões que envolvem temas polêmicos e controversos, para assim poder refletir e interpretar os fatos de maneira ética e favorável, buscando “motivos e explicações plausíveis, e não a colocação de um evento como um erro ou desvio histórico” (SILVA, 2003, p. 55). Considera-se que, refletir sobre a educação do passado na atualidade é essencial para se pensar a educação do presente e do futuro no sentido de que, de posse do conhecimento de suas concepções, de seus mecanismos e principalmente de suas conseqüências, pode-se envidar esforços no sentido de se evitar a sua reprodução. Outro aspecto considerado relevante reside na constatação, quando dos primeiros ensaios da pesquisa, da dificuldade em se encontrar materiais disponíveis nas bibliotecas locais, especialmente na língua vernácula, que versam sobre a educação nazista, assim, este trabalho pretende oferecer uma pequena contribuição para eventuais e futuros pesquisadores do assunto. A partir dos objetivos inicialmente estabelecidos, estruturou-se a pesquisa com base qualitativa e em caráter historiográfico e exploratório, tendo como metodologia a pesquisa bibliográfica, que se configura pela realização de estudos “a partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses, etc.” (SEVERINO, 2007, P. 122), a qual acompanhou todo o trabalho, revestindo-se de caráter analítico e interpretativo. Por se tratar de uma pesquisa envolvendo a historicidade, as considerações de Severino (2007), esclarecendo que “o instante não se entende separadamente da totalidade temporal do movimento, ou seja, cada momento é articulação de um processo histórico mais abrangente” (SEVERINO, 2007, p. 116), bem como a explanação de Burke (2008) sobre a significação da disciplina denominada de história cultural e, principalmente, sobre o trabalho dos historiadores culturais, foram fundamentais para o norteamento do trabalho de pesquisa. Outra contribuição importante que merece ser destacada refere-se ao conceito de cultura – essencialmente semiótico – fundamentado e apresentado por Geertz (2008). Este autor acredita que “o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu” (GEERTZ, 2008, p. 4) e, por este motivo, vê “a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas 10 como uma ciência interpretativa, à procura do significado”. (GEERTZ, 2008, p. 4). Ainda segundo este autor, toda cultura encontra-se embasada em uma ideologia e isto a permite atuar no papel controlador do comportamento de uma sociedade. Estes conceitos foram importantes para a construção de um olhar que transcendesse o entendimento usual, buscando enxergar em meio às teias historicamente construídas, os complexos significados dentro do universo nazista. Importante esclarecer que o foco deste trabalho não se encontra na contextualização pormenorizada do nazismo ou de suas ações e atividades durante o Terceiro Reich, nem mesmo na história do povo alemão ou do antissemitismo. Estes pontos serão enfocados, pois são importantes para propiciar a compreensão em torno dos principais acontecimentos e principalmente, para auxiliar no entendimento das complexas questões que envolveram a formação do indivíduo nazista por meio da educação, objeto maior desta pesquisa. Considera-se importante também, salientar que a história de um povo não pode ser reduzida a um momento histórico especifico, mas sim, sob a ótica de seu contexto geral, pois, conforme esclarece Elias (1997), todos os acontecimentos e fatores que se desdobraram no passado de uma nação exercem uma influência significativa e decisiva na constituição de seu momento presente. Não há duvida de que o período correspondente ao denominado Terceiro Reich (1933-1945), por seu contexto de violência, discriminação, censura, privação de liberdade e, sobretudo, pelas maiores atrocidades envolvendo seres humanos de que se tem conhecimento, é um assunto que faz liberar em todos os indivíduos, em maior ou menor grau, emoções e sentimentos inexplicáveis, os quais são capazes de levar a limitação da história da nação alemã e de seu povo, reduzindo-a a um único e trágico momento. Porém, é preciso considerar que a construção dessa história – que foi responsável pela formação e sedimentação de ideias, concepções e comportamentos na sociedade alemã como um todo – não se iniciou com o advento do nazismo, ela é fruto de um emaranhado de teias que foram se construindo ao longo do extenso caminho percorrido pela nação alemã e por seu povo durantes séculos. Desta forma, entende-se que a reflexão ou a compreensão em torno do contexto nazista só se torna possível mediante o conhecimento do desenvolvimento da história do Estado alemão, buscando conhecer os seus contornos desde o início de sua formação. Com base neste entendimento, estruturou-se o primeiro capítulo – Contextualização histórica: a complexa história de um povo –, onde, inicialmente apresentar-se-á uma síntese do processo de formação do Estado alemão, responsável pela consolidação de sentimentos como o 11 nacionalismo e o antissemitismo, seguido da contextualização do período imediatamente precedente ao nazismo, – o pós-guerra, a República de Weimar e a chegada ao Terceiro Reich –, visto oferecerem um panorama dos aspectos econômicos, políticos e sociais, que, em grande medida facilitaram a ascensão do nazismo. Os aspectos relativos aos pressupostos ideológicos, bem como da origem e formação do líder nazista, se mostram de extrema importância para a compreensão acerca dos motivos que levaram ao direcionamento da educação nazista rumo ao anti-intelectualismo. As teorias concebidas e propagadas pelos nazistas como verdades inquestionáveis, foram decisivas para a reformulação das diretrizes norteadoras de todo o sistema educacional alemão durante o Terceiro Reich. Por este motivo, o segundo capítulo – Nazismo: uma doutrina para além da política – apresentará inicialmente, uma síntese da origem e formação de Adolf Hitler contextualizando na sequência, as principais teorias e concepções norteadoras do pensamento e da pedagogia nazista, focando os pontos considerados de maior relevância para a compreensão em torno da fundamentação das diretrizes educacionais do Terceiro Reich. Durante o Terceiro Reich (1933-1945), os jovens alemães “comprovadamente” de raça pura – os denominados Arianos – eram considerados as pupilas dos olhos de Adolf Hitler, que, visando “conquistá-los”, atraindo-os para o seu movimento, não hesitou em utilizar todos os mecanismos possíveis para alimentar o ego desses jovens com ideias de superioridade racial e supremacia. Era pelos jovens que Hitler almejava construir o seu império e, a educação, o melhor mecanismo, a melhor arma para atingir a mente desses jovens e doutriná-los. Diante das constatações sobre a importância do papel atribuído a juventude durante o Terceiro Reich – sobre quem estaria a responsabilidade da construção do novo mundo idealizado por Hitler – o estudo em torno dos movimentos juvenis, em especial a JH (Juventude Hitlerista), foi imprescindível para o entendimento de seu poder educativo e doutrinário junto à juventude. A JH, conforme afirmava e desejava o líder nazista, se constituía na grande e verdadeira escola da nação, por meio da qual os jovens se tornariam, na concepção nazista, verdadeiros alemães. Diante da importância dessa organização na formação da juventude à época, delineou-se o terceiro capítulo, Juventude Hitlerista: os jovens a serviço do Terceiro Reich, objetivando oferecer um panorama geral sobre a organização juvenil nazista e seu real alcance educativo e doutrinário. Conforme exposto acima, a educação se constituiu no melhor veículo para a transmissão e inculcação das teorias nazistas às crianças e aos jovens que viviam sob a ditadura imposta durante Terceiro Reich. A contextualização acerca do sistema e do processo 12 educativo nazista, cujo fim maior – seguindo a concepção de mundo e de sujeito idealizada pelos nazistas – se constituía basicamente em converter os educandos em “bons nazistas”, encontra-se detalhada no quarto capítulo – A educação no Terceiro Reich – objetivando proporcionar uma visão em torno de todos os aspectos relativos à educação escolar, no sentido de permitir a compreensão da sua utilização como aparelho de manipulação e dominação do inconsciente infantil e juvenil a serviço do poder. 13 2. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA: A história de um povo. A contextualização e análise de um tema como este que, em meio a uma trama das mais complexas, revela monstruosidades inexplicáveis e por que não, assustadoras, e que por isto, conforme exposto na introdução, é capaz de despertar nos indivíduos os mais distintos sentimentos e emoções, não se configura empreitada das mais fáceis, ao contrario, a tarefa mostra-se extremamente complicada, pois o contexto de seus acontecimentos se torna muitas vezes de difícil e praticamente impossível digestão. Porém, o estudo é necessário para que se possa conhecer e, de certa forma, digerir os fatos; é preciso olhar para todos os fatos sem parcialidade ou pré-julgamentos que em nada contribuem para a sua elucidação. É necessário conhecê-los para tentar compreendê-los, o que não significa aceitá-los ou compactuar com eles. Esta compreensão responsável por tornar o estudo significativo para ser válida deve encontrar-se pautada na concepção apresentada de maneira precisa e profunda por Arendt (1989). Segundo expõe a autora, [...] compreender não significa negar o ultrajante, subtrair o inaudito do que tem precedente, ou explicar fenômenos por meio de analogias e generalidades tais que se deixa sentir o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa antes examinar e suportar conscientemente o fardo que os acontecimentos colocaram sobre nós - sem negar sua existência nem vergar humildemente a seu peso, como se tudo o que de fato aconteceu não pudesse ter acontecido de outra forma. Compreender significa, em suma, encarar a realidade, espontânea e atentamente, e resistir a ela – qualquer que seja, venha a ser ou possa ter sido. (ARENDT, 1989, p. 21). Diante do exposto pela autora, entende-se que para tornar possível a compreensão em torno do contexto e dos eventos que sucederam na Alemanha durante o Regime Nazista, é preciso que se busque olhar os fatos e acontecimentos, não como algo que, por despertar sentimentos de dor, revolta, asco ou vergonha deva ser esquecido, enterrado no passado ou rememorado apenas como meio de manutenção da revolta contra a nação ou o povo germânico, nem proceder ao julgamento deste povo e de toda a sua história tomando como base apenas um determinado período, no caso em questão, o nazista, mas sim como um ensinamento útil para a construção de um mundo mais digno e humanitário, que sirva de suporte e embasamento para que se possa detectar e deter movimentos que porventura possam tomar o mesmo direcionamento. Fato que, embora se tente negar ou mesmo considerar como 14 impossível de ser reproduzido é passível de ocorrer. Infelizmente, a civilização contemporânea e os indivíduos que a integram, especialmente aqueles que são responsáveis pela sua manutenção, ainda não se encontram em um estágio evolutivo que os coloquem acima do bem e do mal; ainda há muita ambição por poder; ainda há inúmeros indivíduos que não hesitam em subjugar e utilizar o outro em beneficio próprio, ou mesmo em beneficio de uma causa que, embora alardeiem em alto e bom som ser coletiva, na realidade visa tão somente uma pequena minoria, que, muitas vezes, aproveitam-se da boa fé humana ou mesmos de anseios recônditos que aguardam a maneira de uma bomba, alguém que ascenda o estopim e os faça explodir. O filme “A onda1” produzido na década de 1980 nos Estados Unidos da América, demonstra claramente que esta possibilidade se encontra mais próxima do que se pode imaginar, e que, mesmo na atualidade, o ser humano ainda se apresenta suscetível a doutrinação e mais ainda ao desejo de poder. Neste sentido, a fala do professor aos alunos em uma das últimas cenas do filme é bastante sugestiva. Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntaram: como o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos? O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda”. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos? Vocês devem se interrogar o que fazer em vez de seguir cegamente um líder. E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho. (A ONDA, 1981) O período nazista vivenciado na Alemanha entre os anos de 1933 a 1945 foi sem a menor sombra de duvida, inconcebível, porém, é preciso compreender que este não foi o único período da história germânica. A nação alemã não teve seu inicio no momento em que o nazismo assumiu o poder, tampouco se acabou quando este foi à derrocada. Assim, faz-se necessário conhecer o contexto dos acontecimentos que antecederam ao Terceiro Reich, 1 Baseado em uma história real o filme "A Onda" mostra como é possível a criação de doutrinas ideológicas em sala de aula, não só no passado, mas atualmente. O filme que foi adaptado do ensaio The Third Wave (A Terceira Onda), do professor de História Ron Jones, no qual relata sua experiência numa escola da Califórnia (EUA), em 1967, na tentativa de explicar na prática como Hitler e o Partido Nazista chegaram ao poder na Alemanha. Tudo acontece em uma semana de aula onde o professor e seus alunos criam o movimento A Onda, tudo a partir de normas de conduta, espírito coletivo, disciplina e a busca de um bem maior. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2011. 15 fazendo um retorno ao passado na tentativa de tecer uma breve reconstituição da trajetória do povo e da nação alemã em sua formação e constituição que, segundo Elias (1997), se delineou de forma bastante distinta das demais nações européias. Elias (1997) ressalta que “[...] assim como no desenvolvimento de uma pessoa individual, as experiências de períodos anteriores de sua vida continuam tendo um efeito no presente, também as experiências passadas influem no desenvolvimento de uma nação” (ELIAS, 1997, p. 8). Esta assertiva vem confirmar a necessidade e a importância de conhecer e contextualizar a história do povo e da nação alemã para que se possa entender – não como forma de justificar as ocorrências do nazismo – se e de que maneira a constituição deste povo e de sua história pode ter contribuído e mesmo facilitado a ascensão e a consolidação do regime ditatorial nazista em seu território. Para este autor, não se pode negar o passado, pois isto seria o mesmo que negar todo o processo civilizador da formação de uma sociedade. Considerando que, conforme exposto por Elias (1997), o passado exerce uma grande influência na constituição do presente de uma nação, para se obter uma compreensão mais precisa e completa sobre os fatores que possibilitaram a ascensão e a consolidação do Regime Nazista na Alemanha seria necessário que se procedesse a uma análise que remontasse aos primórdios de sua formação. Uma leitura atenta da brilhante análise feita por este autor sobre a formação da nação e do povo alemão descortina inúmeras revelações que por si só responderiam a questão. Detalhes como as constantes lutas do povo alemão para se firmar com Estado e como potência européia, bem como, as suas derrotas nos diversos combates travados com outros povos foram de grande influência para a formação de sentimentos diversos, entre eles, o sentimento de inferioridade que se contrapõe a ansiada superioridade; o sentimento de pertença que os fazia alimentar a valorização exacerbada daquilo que consideravam como “seu” e que foi responsável pela interiorização de outros sentimentos como o nacionalismo e mesmo o anti-semitismo. No caso do nacionalismo ou, segundo definição oferecida por Goldhagen (1997), “as crenças e emoções associadas à defesa da nação enquanto categoria política e objeto de lealdade” (GOLDHAGEN, 1997, p. 56), não se materializam e desaparecem de um momento para outro, elas já existem e se mantêm adormecidas aguardando o momento em que situações sociais, políticas ou econômicas provoquem o seu retorno, ou seja, o nacionalismo alemão sempre esteve presente no cerne de todos os indivíduos alemães, embora escondidos ou disfarçados, sempre existiram e foram aflorados e porque não dizer, explorados no momento oportuno. Da mesma forma, o anti- semitismo sempre fez parte da vida dos alemães, como o fazia dos demais povos europeus. 16 Historicamente, segundo afirma este autor, “a expressão do nacionalismo [...] caminhava de mãos dadas com a expressão do anti-semitismo [e isso] porque a nação era definida, em parte, em oposição aos judeus.” (GOLDHAGEN, 1997, p. 56). Pensando nessas questões, pode-se compreender que as inúmeras lutas e consequentes derrotas do povo alemão frente a outros povos, sedimentaram o sentimento de pertença e de defesa de tudo que se referisse ou fosse considerado de propriedade alemã, seja de território, cultura, costumes, etc.; diante desse quadro de constante ameaça, o judeu passou a representar o “invasor”, o “usurpador” e o “aproveitador” daquilo que não lhes pertencia, daquilo que por direito de nascimento era tão somente dos donos naturais: os alemães. Assim, era preciso combatê-los. Esse combate estava presente na vida da nação desde muito antes da chegada do nazismo, porém, era um combate que se apresentava de forma velada. Convivia-se com o judeu, mas sem considerá-lo como igual; não havia o confronto direto, apenas, cada um vivia a sua maneira e no seu devido lugar. Todas estas questões parecem de grande importância e capazes de explicar as adesões e aceitações ao regime nazista, porém, para elucidá-los com clareza seria necessário um estudo com maior profundidade, o que por certo, acabaria desviando o foco do tema principal que é a educação e a formação do individuo nazista, assim, procurar-se-á fazer apenas um levantamento sintético, apontando os aspectos de maior relevância, primordiais para a compreensão do referido tema. Neste sentido, no presente capítulo, será apresentada uma síntese dos aspectos relativos à formação do habitus alemão e da história política e econômica da nação, focando principalmente o período correspondente aos anos de 1918 a 1933: o pós-guerra, a República de Weimar e o início do Terceiro Reich. 2.1. Constituição da Nação-Estado e do habitus alemão Conforme exposto na introdução deste capítulo, o passado de uma nação ou mesmo de um povo, os acontecimentos, sentimentos e concepções criadas e interiorizadas durante séculos, os quais são transmitidos de geração a geração, exercem profunda influência em sua constituição e em seu desenvolvimento no presente. Esta tese é mais uma vez enfatizada por Elias (1997). Segundo o autor, 17 [...] o passado nunca é simplesmente o passado. Ele age – com maior ou menor força, de acordo com as circunstâncias – como uma influencia sobre o presente. Não apenas por causa da inércia das tradições que deslizam cegamente de era em era, mas também porque uma imagem de fases pretéritas da nossa sociedade, por distorcida ou deformada que possa ser, continua vivendo na consciência de gerações subseqüentes, servindo involuntariamente como um espelho onde cada um pode ver- se a si mesmo. (ELIAS, 1997, p. 60). Diante desta afirmação, o primeiro aspecto a ser considerado deve estar relacionado ao processo histórico da formação da Nação-Estado. No caso da Alemanha, como bem esclarece Elias (1997), o processo de sua formação como Estado, como também de sua sociedade, se comparado com outras grandes nações européias como Inglaterra e França, se apresentou de forma mais fragmentada e isso foi decisivo na constituição do habitus dos indivíduos alemães. Para proporcionar o entendimento em torno desse habitus alemão que Elias (1997) define como “‘segunda natureza’ ou ‘saber incorporado’” (ELIAS, 1997, p. 9), o autor apresenta alguns aspectos considerados de decisiva significância. O primeiro aspecto destacado pelo autor encontra-se relacionado “à localização e as mudanças estruturais no povo que falou línguas germânicas (mais tarde o alemão), em relação às sociedades vizinhas que falam outras línguas.” (ELIAS, 1997, p. 17,18). Neste sentido, o autor enfatiza ainda, as constantes lutas2 pela defesa e expansão das fronteiras entre os três povos de línguas diversas que dividiam um mesmo “bloco”: as tribos de fala germânica, as tribos cuja língua derivava do latim e as tribos de línguas eslavas, onde a primeira tribo, a germânica, ocupava uma posição intermediária, fato que dificultava a sua expansão e que foi responsável por influir decisivamente no processo de formação do Estado entre os alemães. Outra peculiaridade de grande significação destacada por Elias (1997) refere-se às lutas de eliminação entre grupos, as quais, segundo o autor, sempre ocuparam um papel central tanto em relação ao desenvolvimento da Europa quanto da própria humanidade. De acordo com o autor, essas lutas que se davam, normalmente, por meio de violentos confrontos que culminavam na derrota das chamadas unidades sociais – estatais ou tribais – que a partir de então, se viam obrigadas a viver com a certeza de que jamais voltariam “a ser Estados ou tribos de suprema categoria” (ELIAS, 1997, p. 17). As unidades derrotadas passavam assim a viver “à sombra de seu passado glorioso” (ELIAS, 1997, p. 17). O autor afirma que o primeiro comportamento assumido por essas sociedades era negar a própria realidade, agindo como se ainda ocupasse a posição de antes da queda, e, posteriormente, quando essa negação 2 Essas lutas, segundo Elias (1997, p. 16), perduraram por um período superior a mil anos. 18 não mais era possível, passavam a apresentar sintomas de depressão e que isso foi parte constante na vida dos alemães. [...] Para os alemães, uma existência à sombra de um passado mais grandioso nada tem de novidade. O império alemão medieval e, em particular, alguns dos mais notáveis imperadores medievais serviram por muito tempo, como símbolos de uma Grande Alemanha que se perdera – e, por isso mesmo, também como símbolos de uma secreta aspiração à supremacia na Europa. Entretanto, foi a fase medieval do processo de formação do Estado alemão, em particular, que contribuiu significativamente para o fato de que na Alemanha esse processo não acompanhou o ritmo dos processos de formação do Estado em outras sociedades européias. (ELIAS, 1997, p. 18) Em relação ao comportamento e ao caráter do povo alemão, Klemperer (2009), citando Wilhelm Scherer3, autor de História da literatura Alemã, expõe que “na Alemanha, a ascensão e a queda do espírito são igualmente profundas: podem-se atingir os pontos mais altos e os abismos mais fundos. ‘A maldição de nossa [dos alemães] evolução espiritual repousa nos excessos’.” (KLEMPERER, 2008, p. 215). O que se pode compreender das análises apresentadas por estes autores é que o alemão se constituiu como um povo habituado a sofrer com as constantes derrotas e subjugações, porém, apesar de habituado, não aceitava essas derrotas com facilidade, nem sucumbia a elas. Ao contrário, mesmo derrotado e humilhado estava sempre se preparando para a disputa seguinte. Conforme aponta Klemperer (2009) quando se refere aos excessos, “Somos [o povo alemão] como aquele germano que, depois de perder todos os bens em um jogo de dados, ainda tenta a última rodada, dessa vez apostando a própria vida”. (KLEMPERER, 2009, p. 215). Conforme afirma Elias (1997), esse povo no decorrer de sua história ao longo dos séculos – especialmente nos séculos XVII e XVIII – vivenciou uma posição secundária perante as demais nações européias, e isso foi responsável por causar, muitas vezes, a perda de sua identidade, a baixa da auto-estima e, juntamente, o sentimento de humilhação. Esse contexto produziu no povo alemão características peculiares que foram transmitidas de geração em geração. O sentimento nacionalista, o desejo de unidade e a necessidade de um líder forte no comando da nação, capaz de mudar o seu destino e, por conseguinte, de todo o povo e de cada um em particular se tornaram comum a todos os indivíduos alemães. Elias (1997) constantemente faz referência a fragilidade da estrutura do Estado alemão e que esta, por ser facilmente reconhecida pelos países vizinhos, constituía-se em verdadeiro 3 Wilhelm Scherer (1841 – 1886), germanista alemão que introduziu o método positivista no estudo da literatura. (KLEMPERER, 2009, p. 213) 19 chamariz para a invasão de seu território. De acordo com o autor, essa fragilidade e as conseqüentes invasões foram responsáveis pela produção entre os alemães de uma reação que os conduzia a conduta militar e as ações bélicas com tal afinco que fazia com que estas se tornassem altamente respeitadas e, com freqüência, idealizadas Percorrendo o contexto histórico do processo de construção e constituição da nação alemã, Elias (1997) apresenta inúmeras outras considerações importantes para se traçar um perfil da nação e da sociedade alemã que possivelmente podem ter contribuído de maneira significativa para a ascensão do nazismo e que serviram de base para as ideias de Adolf Hitler sobre a recriação de um passado por ele entendido como glorioso, especialmente em relação ao Segundo Reich, com seus Kaisers poderosos e suas grandes festividades comemorativas. Percebe-se na exposição de Elias (1997) que a grande marca desse Império configurou-se no culto à aparência e na centralização do poder na monarquia. Porém, conforme já explicitado, o detalhamento de toda a análise brilhantemente exposta por este autor poderia alterar ou mesmo confundir o foco principal do trabalho e, embora importantes, o sobrecarregariam de informações. Esta primeira explanação teve como objetivo apresentar de forma sucinta uma visão geral da constituição do povo alemão e de seus habitus, que serão úteis para a compreensão do tema proposto. 2.2. Contexto histórico político alemão 2.2.1. Primeiro e Segundo Reich Fazendo um breve retorno a história do contexto político da nação alemã, pode-se perceber que, análogo a trajetória de sua constituição como Estado, este se apresentou bastante peculiar, podendo ser basicamente dividido em quatro importantes e distintos períodos: o Primeiro Reich, o Segundo Reich, a República de Weimar e finalmente, o Terceiro Reich. Inicialmente tem-se o Primeiro Reich, o Sacro Império Romano Germânico4 que permaneceu em vigor por oitocentos e quarenta e quatro anos e segundo Elias (1997) “legitimou-se como uma reencarnação do Império Romano Ocidental” (ELIAS, 1997, p. 18). 4 Dá-se o nome de Sacro Império à união de alguns territórios da Europa Central durante o final da Idade Média e o início da Idade Moderna. No ano de 476 d.C. o Império Romano passou por diversos embates que, consequentemente, ocasionaram a sua derrubada final. Além do declínio econômico motivado pela grande 20 No ano de 1871 tem início o Segundo Reich ou Kaiserreich - Segundo Império Alemão. Estabelecido por Otto Von Bismarck5, o Kaiserreich teve uma vida mais curta (47 anos), porém, talvez de maior significância para a sedimentação das ideias de pertença, de nacionalismo e de conquista de supremacia para a nação alemã e seu povo. Acontecimentos importantes para a constituição e fortalecimento do Estado ocorreram precisamente a partir do ano de seu inicio; como por exemplo, “a unificação política dos Estados alemães, a elevação do rei da Prússia a Imperador (Kaiser) da Alemanha e a promoção de Berlim, a capital da Prússia, à capital do Kaiserreich” (ELIAS, 1997, p. 60). De acordo com Elias (1997) esses acontecimentos foram responsáveis por criar “uma estrutura institucional para a integração das muitas ‘boas sociedades’ locais e regionais e a padronização de seu código de comportamento e sentimento [impulsionando] a formação de uma classe social alta alemã mais uniforme” (ELIAS, 1997, p. 60). Este autor afirma ainda que, a partir da unificação, a Alemanha se viu “envolvida num rápido processo de recuperação do tempo perdido e na tentativa de ultrapassar as grandes potências européias mais antigas” (ELIAS, 1997, p. 61). O Kaiserreich foi um período, de acordo com as considerações deste autor, de elevação da auto- estima dos alemães, onde “o antigo e intenso sentimento de fraqueza e vulnerabilidades da Alemanha [foi convertido em um] talvez ainda mais forte sentimento de força invulnerável”. (ELIAS, 1997, p. 61). inflação promovida pelos imperadores durante a crise do terceiro século e o declínio cultural gerado após a naturalização dos bárbaros, Roma ainda foi invadida pelos hérulos, povos germânicos originários do sul da Escandinávia. O Estado resolveu intervir criando o cesaropapismo, sistema de relações em que lhe cabia a competência de regular a doutrina, a disciplina e a organização da sociedade cristã. O fim do Império Romano pôs fim no controle da igreja pelo Estado, no Ocidente, que havia se fortalecido com o tempo. Em 919 d.C. a Germânia foi invadida pelos bárbaros húngaros. Os germânicos pediram ajuda aos carolíngios, mas não obtiveram êxito. Em 936 d. C. Oton I foi nomeado imperador. Junto com os grandes proprietários de terra conseguiu expulsar os invasores. Sua vitória sobre os húngaros trouxe-lhe enorme prestígio e, em 962, o papa João XII deu-lhe a sagração imperial. Com o intuito de evitar novas invasões, os germânicos do sul se uniram com os italianos do norte. Os germânicos do norte invadiram o sul da Germânia e o norte da Itália, formando o Sacro Império Romano-Germânico. Apesar do nome, a cidade de Roma não foi incluída nas cidades dominadas durante o Império. Disponível em:. Acesso em: 28 abr. 2011. 5 Otto Eduard Leopold von Bismarck (1815-1898), foi um nobre, diplomata e político prussiano e uma personalidade internacional de destaque do século XIX. Bismarck foi o estadista mais importante da Alemanha do século XIX. Coube a ele lançar as bases do II Reich (1871-1918), que fizeram com que o país, superando a existência de mais de 300 entidades políticas diferentes, conhecesse pela primeira vez na sua longa história a existência de um Estado-nacional único. Para tanto, para formar a unidade alemã, Bismarck desprezou os recursos do liberalismo político - baseado no consenso ou no voto das maiorias extraído das práticas parlamentares -, apostando sempre numa política de força (dita de sangue e ferro), moldando assim o novo Estado alemão dentro da blindagem do antigo sistema autoritário prussiano. Tornou-se conhecido como o "Chanceler de Ferro" (Eiserner Kanzler). Disponível em: . Acesso em: 04 abr. 2011. 21 A Primeira Guerra Mundial eclodiu exatamente nesse período, mais precisamente no ano de 1914. Com os ânimos fortalecidos, os alemães partiram para o confronto com a certeza da vitória, porém, a derrota consumada no ano de 1918 veio alterar drasticamente esse comportamento, trazendo novamente o sentimento de inferioridade e de grande humilhação, além de deixar um lastro de conseqüências danosas em todos os aspectos, especialmente nos político e econômico. Segundo Elias (1997), Para muitos alemães, a derrota de 1918 foi uma experiência inesperada e altamente traumática. Atingiu um ponto sensível no habitus nacional e foi sentida como um regresso ao tempo da fraqueza alemã, dos exércitos estrangeiros no país, de uma vida na sombra de um passado mais grandioso. Estava em risco todo o processo de recuperação da Alemanha. Muitos membros das classes médias e superior alemãs – talvez a grande maioria – sentiram que não poderiam viver com tamanha humilhação. Concluíram que deviam preparar-se para a guerra seguinte, com melhores chances de uma vitória alemã, mesmo que, no começo, não estivesse claro como isso poderia ser feito. (ELIAS, 1997, p. 20). A referida derrota alemã se fez acompanhar pelo que Hobsbawn (1995) classifica de “paz punitiva”, pois de acordo com este autor, com base na “cláusula da ‘culpa de guerra6’” (HOBSBAWN, 1995, p. 41) e justificado pela argumentação de que o Estado alemão era o grande e único responsável pela deflagração da guerra, as potências aliadas, vencedoras do conflito, impuseram à Alemanha a assinatura de um armistício7, onde expunham as condições exigidas para o fim da guerra. De acordo com essas condições, o Estado alemão estava obrigado, além da concordância com sua rendição, a assumir total responsabilidade pela reparação de todos os danos causados pela guerra às nações envolvidas. Assinado em onze de novembro de 1918, o armistício, segundo Shirer (2008), foi responsável, dentre outras coisas, pelo fim da monarquia e pela extinção definitiva de todas as dinastias até então existentes na Alemanha, o que obrigou ao então Kaiser, Guilherme II, a abdicar ao trono8 e buscar exílio na Holanda. 2.2.2. O império alemão no pós Primeira Guerra 6 “Os Governos Aliados e Associados declaram e a Alemanha reconhece sua própria responsabilidade e de seus aliados por terem causado todas as perdas e danos sofridos pelos Governos Aliados e Associados e os povos respectivos, em conseqüência de uma guerra a eles imposta pela agressão da Alemanha e de seus aliados”. Artigo 231 do Tratado de Versalhes. (HENIG, 1991, p. 35). 7 Termo de rendição alemã. (HOBSBAWN, 1995, p. 41). 8 A abdicação ao trono estava entre as condições impostas pelo armistício. 22 A perda inesperada da guerra que para os alemães tinha vitória certa, o pesado armistício e a fuga do Kaiser foram responsáveis pela desestruturação da nação alemã em todos os aspectos. O clima era de verdadeiro caos generalizado. Além de se ver as voltas com uma greve geral que provocava a paralisação de todo o país, a nação ainda se encontrava a mercê dos diversos movimentos revolucionários de oposição que se mobilizavam com o objetivo de tomar o poder e assim, modificar a sua estrutura política. Diante desse quadro caótico, a Maioria Socialdemocrata se reuniu no Reichstag, o Parlamento alemão com sede na cidade de Berlim, com o objetivo de discutir os rumos do futuro político da nação. Os problemas se apresentavam de grande dimensão e demandavam ações urgentes. Além da greve geral já mencionada, havia ainda a necessidade de se encontrar um sucessor para o Kaiser Guilherme II e ao mesmo tempo tomar as medidas necessárias para conter a ação dos revolucionários espartaquistas, que, liderados por Rosa Luxemburgo9 e Karl Liebknech10, se encontravam naquele mesmo momento no Palácio do Kaiser, de onde planejavam proclamar uma república soviética no país. Shirer (2008) relata que o momento era de grande tensão e que, tomando uma atitude que pode ser classificada como de total desespero, o socialdemocrata Phillip Scheidemann, sem a conivência de seus correligionários, proclamou, da sacada do Parlamento, a República Alemã. Com essa atitude, Scheidemann frustrava o plano espartaquista e ao mesmo tempo, promovia uma drástica modificação no quadro 9 Revolucionária e teórica marxista alemã de origem polonesa (1871-1919). Fundadora dos Partidos Comunistas da Polônia e da Alemanha. Nasceu em Zamosc, numa região da Polônia então pertencente à Rússia. Começa sua militância política socialista ainda adolescente e por isso é perseguida. Emigra em 1889 para a Suíça, onde se doutora em direito e ciências políticas. Em 1892 participa da fundação do Partido Socialista Polonês. Adquire cidadania alemã ao se casar com Gustav Lübeck e em 1898 fixa-se em Berlim. Em sua primeira obra, Reforma Social ou Revolução? (1889), critica os que esperam alcançar o socialismo por meio de reformas. Por sua oposição à guerra, é presa em 1915 e 1916, sendo libertada em 1918. Um ano mais tarde, depois da fracassada tentativa de revolução socialista em Berlim (1919), é assassinada por militantes de extrema direita, aos 48 anos. Disponível em:< http://www.algosobre.com.br/biografias/rosa-luxemburgo.html>. Acesso em: 04 abr. 2011. 10 Fundador do SPD (Partido Social-Democrata). Em 1908, tornou-se membro da Câmara de Representantes da Prússia e do Parlamento alemão, em 1912, dirigindo, com Rosa Luxemburgo, a esquerda do SPD. Antimilitarista radical defendeu a relação direta entre militarismo e capitalismo, em favor da greve geral como arma de combate político. Apesar disso, obedeceu à disciplina do partido, votando a favor da autorização para despesas na Primeira Guerra Mundial, embora fosse o único deputado a declarar-se contra a guerra, em dezembro de 1914. Em 1915, fundou o Grupo Internacionalista, que deu lugar ao movimento espartaquista. Excluído, em 1916, do grupo parlamentar do SPD, organizou uma manifestação antimilitarista e foi condenado a quatro anos de prisão. Foi anistiado em 1918 e, em 9 de novembro desse ano, proclamou a República Livre Socialista da Alemanha da varanda do castelo de Berlim (Revolução de Novembro), inspirando-se no modelo soviético. Ao mesmo tempo, o social-democrata Philipp Scheidemann proclamou da varanda do Parlamento a República Alemã, impedindo a entrada de Liebknecht no Conselho de Deputados do Povo. Em 1918 fundou, com Rosa Luxemburgo, o Partido Comunista da Alemanha (KPD), ambos presidentes do partido. Após o fracasso do levante espartaquista de Berlim contra o governo provisório de Friedrich Ebert, em janeiro de 1919, foi juntamente com Rosa Luxemburgo, assassinado por oficiais do Exército. Disponível em: . Acesso em: 04 abr. 2011. 23 político da nação. Após a proclamação da república – logo no dia seguinte – estabeleceu-se um governo provisório com a liderança do Partido Social Democrata, formando assim “o ‘Governo dos Seis Comissários do Povo’, composto por Ebert, Scheidemann e Landsberg pelo SPD11 e Haase, Dittmann e Barth pelo USPD12” (ALMEIDA, 1999, p. 27). Na visão de Shirer (2008) a proclamação da República Democrática Alemã aconteceu por “acidente”. De acordo com o autor, não houve qualquer planejamento prévio para a sua instituição e, por este motivo, as bases que a sustentavam não se mostravam sólidas o suficiente para garantir sua consolidação e que essa falta de respaldo, provavelmente, foi o principal responsável por sua vulnerabilidade e conseqüente fracasso. Além da falta de suporte, a república, conforme salienta este autor, contava com outro agravante: a humilhante missão de assumir e assinar o armistício de guerra aceito em 1918 e também, futuramente, o temido tratado de paz. Àquela época, Berlim encontrava-se imersa em completa instabilidade sob todos os aspectos, e, por esse motivo, os membros do governo decidiram que a capital da nova República deveria ser estabelecida fora de seus limites. De acordo Fiorini (1963), a melhor opção encontrada foi uma pequena e tranquilha cidade de nome Weimar, distante da antiga capital, razão pela qual, a partir de então, a república passou a ser conhecida como República de Weimar. Enquanto os socialdemocratas se empenhavam para solucionar os problemas imediatos que assolavam a nação, Berlim era palco de novas investidas dos revolucionários espartaquistas, cujo poder armado, segundo Shirer (2008), aumentava consideravelmente, e que permaneciam em sua luta para instituir uma república soviética no país. Os espartaquistas empreenderam diversos levantes para derrubar o atual governo, os quais eram rapidamente contidos. No entanto, era preciso por um fim definitivo no movimento, fato que só foi consumado em janeiro de 1919, com a prisão e o assassinato de seus líderes Rosa Luxemburgo e Karl Liebknech. De acordo com este autor, na semana de dez a dezessete de janeiro do referido ano, “a ‘Semana Sangrenta’, como foi chamada, na ocasião, em Berlim [...] tropas regulares e unidades livres sob a direção de Noske13 e o comando do general von 11 SDP: Sozialdemokratische Partei Deutschlands (Partido Social-democrata da Alemanha). 12 USPD: Unabhãngige Sozialdemokratische Partei Deutschlands (Partido Social-democrata Independente da Alemanha). 13 Noske era por ofício um açougueiro que abrira caminho no movimento sindicalista e no Partido Social Democrático, tornando-se, em 1906, membro do Reichstag, onde era considerado um técnico do partido em assuntos militares. (SHIRER, 2008, p. 87). 24 Lüttwitz14” (SHIRER, 2008, P. 88) por meio de um golpe violentamente esmagador, puseram fim a revolução espartaquista, dissolvendo assim, os denominados “Conselhos do Povo” (LENHARO, 1986, p. 18). Após o conflito, o governo provisório promoveu eleições para a escolha dos membros que fariam parte da Assembléia Nacional e que seriam os responsáveis pela elaboração da Constituição da nova República. Aprovada em 31 de julho de 1919, a Carta Magna da República de Weimar se apresentaria, conforme análise de Shirer (2008), como “o documento mais democrático e liberal que, em seu gênero, o século XX já vira – mecanicamente quase perfeita, cheia de dispositivos admiráveis e engenhosos, que pareciam garantir o funcionamento de uma democracia quase impecável” (SHIRER, 2008, p. 89). Contudo, antes mesmo que os ilustres teóricos conseguissem concluir a sua redação, o velho fantasma da guerra retornava para assombrar a nação. A convocação por parte dos Aliados para a assinatura do tratado de paz com os termos da reparação da guerra, que, segundo afirma Shirer (2008), foram estabelecidos sem qualquer participação ou negociação com a Alemanha, caiu sobre a nação como um verdadeiro golpe devastador. Todos os alemães civis, políticos e militares partilhavam de uma mesma opinião; todos classificavam os termos desse tratado como “irrealizáveis e insuportáveis” (SHIRER, 2008, p. 91). As condições impostas pelo tratado de paz que, após inúmeros protestos e postergações, foi assinado a 28 de junho de 1919, no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes, na França, de fato se configuravam como impraticáveis e, segundo Hobsbawn (1995), cumpriam com o objetivo de manter o Estado alemão enfraquecido de forma permanente. De acordo com os termos do tratado, que ficou conhecido como Tratado de Versalhes, a Alemanha deveria inicialmente, assumir formalmente a responsabilidade pela deflagração da guerra e por todos os prejuízos por ela causados, como também, entregar aos Aliados, o Kaiser Guilherme II juntamente com cerca de oitocentos criminosos de guerra. Conforme sugere Shirer (2008), os termos restantes não se apresentavam mais amenos. Segundo este autor, uma de suas cláusulas prejudicava de forma significativa a extensão territorial alemã, pois obrigava a devolução de todos os territórios conquistados durante a Primeira Grande Guerra e em combates anteriores. De acordo com a referida cláusula, a Alemanha deveria restituir à França a Alsácia-Lorena, uma parcela do território a Bélgica, outra semelhante à Dinamarca, como também, deveria devolver a Polônia as terras com que 14 General Freiherr Von Lüttwiz, oficial reacionário da velha escola. 25 os alemães ficaram após a sua divisão, o chamado “’Corredor Polonês’, que separava a Prússia oriental do resto da Alemanha” (HOBSBAWN, 1995, p. 41), sendo que esta última foi a imposição considerada mais pesarosa para os alemães e responsável por despertar a sua fúria como nenhuma outra e isto ocorria “não somente porque se indignavam com a separação da Prússia Oriental da Mãe-Pátria por meio de um corredor que dava à Polônia acesso ao mar, mas porque desprezavam os poloneses, os quais consideravam como raça inferior” (SHIRER, 2008, p. 91). Além dessas perdas, o Estado alemão também se viu privado de “suas antigas colônias no ultramar [que] foram redistribuídas entre os britânicos e seus domínios, os franceses e os japoneses” (HOBSBAWN, 1995, p. 41). Com essa distribuição territorial, a Alemanha, segundo afirma Henig (1991), perdeu 1/8 de seu território e 1/10 de sua população. Outra condição imposta pelo tratado que afetava sobremaneira a Alemanha e seu povo, referia-se ao pagamento das reparações, cujo valor total, conforme afirmação de Shirer (2008), seria fixado posteriormente, “mas o primeiro pagamento de 5 bilhões de dólares em marcos-ouro, precisaria ser feito de 1919 a 1921, sendo que certas entregas em espécie – carvão, navios, madeira, gado, etc. – deveriam ser feitos em lugar de reparações em dinheiro”. (SHIRER, 2008, p. 91). Além das perdas territoriais e da obrigação de pagar uma divida de guerra exorbitante, o tratado cuidava também de praticamente desarmar a Alemanha com a imposição da redução de seu exército a uma quantia que não deveria exceder os cem mil homens – a maioria, de oficiais em fim de carreira – além da proibição do desenvolvimento de indústrias bélicas e da extinção do treinamento militar15. Essas medidas aliadas, a privação “de uma marinha e força aérea efetivas [e a] ocupação militar de parte da Alemanha Ocidental” (HOBSBAWN, 1995, p. 41) foram as formas encontradas pelos Aliados para assegurar que a paz punitiva fosse de fato cumprida. Os Aliados acreditavam que uma Alemanha desarmada e fragilizada não ofereceria resistência ao cumprimento do acordo, nem se colocaria em posição de confronto, afinal, estaria sem o potencial necessário para viabilizar qualquer esforço. De acordo com análise apresentada por Fiorini (1963), a impossibilidade de se manter as condições impostas em Versalhes era evidente desde o seu início, pois, segundo este autor, para que isso fosse possível seria necessário “a condição impossível de uma Alemanha politicamente fraca para sujeitar-se a situação, e economicamente forte, para poder pagar as 15 Serviço militar obrigatório. 26 reparações” (FIORINI, 1963, p. 99). As dificuldades eram evidentes e as grandes potências européias possuíam plena ciência da situação, pois a Alemanha, conforme afirma Henig (1985), apesar de enfraquecida economicamente e humilhada pela derrota, encontrava-se unida, bastando apenas que se conseguissem algumas modificações no tratado para “ressurgir tão forte, ou quase tão forte, quanto havia sido em 1914” (HENIG, 1985, p. 16). Adolf Hitler – conforme será exposto adiante – possuía plena consciência desse fato e o exploraria enfaticamente no momento oportuno. Henig (1985), citando Taylor, relata que a elaboração do acordo foi embasada no “pressuposto de que uma Alemanha democrática e republicana iria cooperar para pô-lo em execução” (HENIG, 1985, p. 16), visto que, para o cumprimento de determinadas condições, como o desarmamento e o pagamento das reparações, o assentimento alemão era imprescindível, isto é, essas condições só seriam efetivamente cumpridas se a Alemanha se dispusesse a fazê-lo, e isso, conforme sugerem Henig (1985) e Shirer (2008), era algo a que os alemães não se encontravam dispostos sem oferecer resistência. Henig (1985) afirma que o governo alemão concordou com a assinatura do tratado, porém, já articulava nos bastidores maneiras de driblá-lo ou de, num futuro próximo, conseguir uma negociação em torno de algumas das condições impostas, no sentido de tentar amenizá-las ou mesmo neutralizá-las. Houve momentos, inclusive, em que se postergou o pagamento das reparações. O valor final das reparações que a Alemanha se via obrigada a pagar aos Aliados foi apresentado em abril de 1921 e “atingia a gigantesca soma de 132 bilhões de marcos-ouro – 33 bilhões de dólares” (SHIRER, 2008, p. 83), um valor que, diante de uma economia dilacerada pela repentina e drástica queda do marco alemão em relação ao dólar, se apresentava como praticamente impossível de ser resgatado. De acordo com o exposto por Shirer (2008), entre os anos 1921 e 1922 (intervalo de um ano) a cotação da moeda alemã no câmbio passou de quatro para quatrocentos por dólar e a sete mil, no início do ano seguinte – 1923. A hostilidade para com o Tratado de Versalhes por parte dos alemães era visível, especialmente entre os nacionalistas que se referiam a ele como “‘a vergonha de Versalhes’, a ‘mentira da culpa pela guerra’ e ‘os criminosos de novembro’” (HENIG, 1985, p. 17). Foi dessa indignação dos alemães revoltosos e humilhados que surgiu o “mito da punhalada pelas costas16” (SHIRER, 2008, p. 57), segundo o qual, a Alemanha fora vítima da traição interna. No entanto, e, apesar da aversão ao tratado, o então “ministro das Relações Exteriores alemão, 16 Para a maioria dos alemães (fato que Hitler iria explorar mais tarde) “O exército alemão não fora vencido no campo de batalha. Fora apunhalado pelas costas, na própria Alemanha, pelos traidores.” (SHIRER, 2008, p. 57). 27 desenvolveu uma política de ‘cumprimento’ dos termos do tratado” (HENIG, 1985, 17), porém, apenas como medida de garantir, futuramente, a revisão das cláusulas que mais incomodavam o Estado e o povo alemão: o pagamento das reparações, a desocupação militar da Renânia e os ajustes territoriais. Manifestações de protesto contra o tratado e, consequentemente, contra o governo que o aceitou, eram constantes nas ruas de Berlim. Figura 1 - Manifestações contra o Tratado de Versalhes na cidade de Berlim. Fonte: Linha do tempo (1919). 2.2.3. A República de Weimar e o advento do nazismo A República Democrática Alemã ou República de Weimar vigorou no país por um período de quatorze anos (1919-1933). Com a sua instituição, estabeleceu-se na Alemanha um sistema de governo parlamentarista democrático, onde o Presidente da República, com amplos poderes, nomeava um chanceler que seria o responsável pelo poder executivo; o poder legislativo era constituído por um parlamento, o Reichstag. A sua relativamente breve existência foi marcada pela oscilação entre os períodos de crises intensas e os períodos de recuperação e estabilidade. Seu início, conforme já relatado, sobreveio em um momento de grandes dificuldades advindas com a perda da guerra. O país encontrava-se à época, política e economicamente desestabilizado. De 1921 a 1924 o contexto econômico alemão era de crise em todos os setores. Henig (1985) relata que as dívidas oriundas dos custos da guerra somadas aos pagamentos das reparações exigidas pelos Aliados, provocaram uma crise sem precedentes na história da economia alemã que só se estabilizou a partir do ano de 1924, graças à intervenção e aos substanciais empréstimos concedidos pelos norte-americanos que possibilitaram o reequipamento e ampliação de fábricas e empresas alemãs, bem como, o pagamento de algumas parcelas das reparações. 28 A crise econômica que já se fazia sentir desde o início da República, a partir de 1921 entrou em verdadeiro colapso. Com a queda da moeda a níveis alarmantes, o governo se viu obrigado a buscar um acordo com os aliados, solicitando a “concessão de uma moratória no pagamento das reparações de guerra” (SHIRER, 2008, p. 95). Diante da recusa do governo francês, o mais intransigente de todos os Aliados, a República Alemã suspendeu a entrega das remessas de madeira; como represália, o Presidente da França ordenou a ocupação do Ruhr, o “coração industrial alemão” (SHIRER, 2008, p. 96), responsável pelo fornecimento da maior parte de seu carvão e da sua produção de aço. De acordo com Shirer (2008), esse golpe teve um efeito devastador sobre a economia alemã, a ponto de provocar a sua total paralisação e, em contrapartida, promover a união momentânea do povo, fato que não ocorria desde 1914. Ainda de acordo com este autor, Os operários do Ruhr declararam greve geral e receberam apoio financeiro do governo de Berlim, que iniciou uma campanha de resistência passiva. Com ajuda do exército, foram organizadas guerrilhas e sabotagens. Os franceses replicaram com prisões, deportações e até mesmo sentenças de morte. Mas nenhum mecanismo funcionou no Ruhr. (SHIRER, 2008, p. 96). Com esse evento, a economia da República de Weimar ficou totalmente debilitada, com o valor de sua moeda despencando a níveis nunca dantes observados. [...] em janeiro de 1923, o marco caiu a 18 mil por dólar; a 1º de julho, descera a 160 mil; a 1º de agosto, a um milhão. Em novembro [...] eram necessários quatro bilhões de marcos para comprar um dólar e a partir de então, as cifras se convertiam em trilhões. A moeda alemã perdeu totalmente seu valor. O poder aquisitivo dos salários e ordenados foi reduzido a zero. As economias das classes médias e operárias desapareceram. (SHIRER, 2008, p. 96) Figura 2 - Moeda alemã do ano de 1923. Fonte: Linha do tempo (1923) 29 Um claro exemplo da desvalorização da moeda alemã e da dificuldade de sobrevivência do povo alemão é apresentado por Silva (2003). A autora relata que, de acordo com suas pesquisas, para se comprar uma fatia de pão na cidade de Berlim no ano de 1918, eram necessários apenas 0,63 marcos. No início de 1923, essa mesma fatia passou a custar 250 marcos, subindo para 3.465 em julho, para 1.512.000 em setembro e em novembro, para 201.000.000.000 de marcos. Lenharo (1986) afirma que devido a essa super inflação, os salários dos trabalhadores passaram a ser reajustados diariamente, porém, isso não era suficiente para a reposição de seu poder aquisitivo. Dessa forma, esses trabalhadores, “junto a aposentados e camadas médias proletarizadas do país, chegaram a beira da miséria” (LENHARO, 1986, p. 21). Nessa época, pessoas a caminho do supermercado empurrando carrinhos de mão cheios de dinheiro para comprar pão ou carvão eram imagens corriqueiras nas ruas da Alemanha. Conforme relata Wepman (1990), para acender os fogões, muitas donas de casa optavam por substituir o carvão pelo próprio papel moeda, pois isso acabava acarretando um custo muito menor ao já sofrido orçamento doméstico. Essa inflação galopante afetou não apenas o cidadão comum, mas também os empresários do setor privado. Silva (2003) afirma que a média de falências entre os anos de 1919 e 1932 girava em tono de dez mil por ano. Figura 3 - Dona de casa alemã utilizando papel moeda para acender o fogo. Fonte: Wepan (1990, p. 31) A hiperinflação que, conforme análise de Shirer (2008), poderia perfeitamente ser evitada se o governo da República de Weimar houvesse buscado equilibrar o orçamento por meio de uma taxação adequada na cobrança dos impostos e da suspensão de emissão do papel 30 moeda, levou o povo a perder a fé – que já não era grande – na estrutura econômica da atual sociedade alemã e a passar a considerar a República como sendo a única culpada pela bancarrota do país. O autor afirma ainda que, enquanto a grande massa proletária sofria com as seqüelas da desvalorização da moeda alemã no bolso e, consequentemente, no estomago, o Estado, o Exército e os grandes empresários colhiam os benefícios advindos dela: o Estado, por compreender que com a destruição do marco, as dívidas de guerra seriam anuladas, ou seja, ficariam livres da obrigação de cumprir com uma das mais odiosas cláusulas do Tratado de Versalhes; os empresários industriais, por poderem “extinguir seus débitos, pagando suas obrigações com uma moeda, o marco, que já não possuía valor algum” (SHIRER, 2008, p. 96). Além disso, conforme afirma Almeida (1999), as mercadorias produzidas a preços abaixo do mercado mundial facilitavam as exportações, trazendo mais benefícios aos industriais. Esta autora afirma ainda que A expropriação dos bens acumulados pela pequena burguesia chegou ao seu ponto extremo, proletarizando-a no sentido estrito da palavra. Jamais um país tão industrializado havia conhecido tal miséria, de forma que o contexto sócio-político subverteu-se em todos os seus ângulos. (ALMEIDA, 1999, p. 40). Em meio a esse caos econômico que assolava a nação, onde o desemprego e a fome passavam a fazer parte do cotidiano de grande parte das famílias alemãs, o povo passou a ansiar por uma esperança, por um “messias” que surgisse como uma luz divina e os salvasse da destruição final, restituindo-lhes tudo aquilo que haviam perdido, inclusive, a auto-estima. Mais uma vez, o comportamento dos membros da sociedade alemã assumia os contornos de perda de identidade e depressão relatadas por Elias (1997), fazendo renascer os anseios por um líder forte, capaz de comandá-los e conduzi-los de volta ao supremo poder. De acordo com Almeida (1999), “a miséria e o clima explosivo levaram novamente as massas à disposição de derrubar o governo” (ALMEIDA, 1999, p. 40). No campo político, a fragmentação era latente e isso abria caminho para que diversos grupos revolucionários se organizassem em partidos e buscassem, por meio de promessas miraculosas, convencerem as massas, conquistando assim, o seu apoio para empreender a derrubada do governo. O exército alemão – ou o que restava dele – ficou incumbido da tarefa de “manter a paz e desmobilizar esses grupos” (SILVA, 2003, p. 14). Para esse fim, destacava oficiais militares que se infiltravam em trajes civis nas reuniões dos grupos e partidos considerados suspeitos com o objetivo de coletar qualquer informação que pudesse ser 31 utilizada contra eles. O DAP (Deutsche Arbeiterpartei - Partido dos Trabalhadores Alemães) era um desses grupos. Fundado em janeiro de 1919 pelo ferreiro Anton Drexler e pelo jornalista Karl Harrer, o DAP constituía-se à época, em um partido de caráter nacionalista ainda iniciante e inexpressivo, “de estilo cervejaria” (LENHARO, 1986, p.18), que reunia inconformados com as derrotas alemãs e descrentes da política do governo republicano. Contando com apenas seis membros, o até então insignificante partido, realizava suas reuniões em uma pequena sala localizada nos fundos da cervejaria Sterneckerbräu, na cidade de Munique. Para proceder a investigação do DAP o exército destacou um antigo cabo, de nome Adolf Hitler, que, a exemplo de inúmeros outros soldados alemães, havia lutado bravamente na Grande Guerra. Como missão, Hitler recebeu a incumbência de infiltrar-se no partido, participando de suas reuniões para colher informações sobre suas atividades, que posteriormente, deveriam ser repassadas ao exército que se encarregaria de tomar as providências necessárias para efetuar a sua desmobilização. Figura 4 - A primitiva sede do Partido: uma sala contígua à Sterneckerbräu, em Munique. Fonte: Contexto histórico (192?) Cumprindo com o dever que lhe fora atribuído, Hitler começou a frequentar as reuniões do DAP e aos poucos foi se identificando com suas propostas e ideais, especialmente aqueles vinculados ao nacionalismo e ao anti-semitismo, visto serem os mesmo alimentados por ele desde a juventude. Convidado a filiar-se ao partido, desertou da missão que lhe fora confiada e tornou-se o seu membro de número sete. Kershaw (2010), com base no documento oficial de filiação ao DAP – ficha de inscrição – contesta a afirmação de Hitler sobre esse número. Segundo consta na ficha, Hitler seria o membro de número quinhentos e cinquenta e cinco. 32 Figura 5 - Ficha de inscrição de Hitler no DAP. . Fonte: Kershaw (2010) Em virtude da sua oratória eloqüente e carismática, Hitler rapidamente conquistou aos membros do partido, bem como aos simpatizantes da causa por ele defendida. Em pouco tempo, tornava-se responsável pela direção da propaganda do partido e, posteriormente, assumia o posto de orador oficial. De acordo com Silva (2003) os discursos de Hitler “tornaram-se o maior atrativo das reuniões, garantindo audiência e, consequentemente, doações” (SILVA, 2003, p. 14). Durante uma reunião do partido realizada em 24 de fevereiro de 1920 na cervejaria Holfbräuhaus, quando compareceram cerca de duas mil pessoas, Hitler fez o seu primeiro discurso como orador oficial, quando então teve a oportunidade de expor de maneira inflamada suas ideias sobre os grandes problemas que, em sua concepção, afetavam a primazia do Estado alemão. Ao final da reunião, procedeu a leitura da carta do partido que formalizava os pontos chaves do programa do partido: “Em vinte e cinco pontos, ela exige uma Grande Alemanha, acesso à cidadania reservado exclusivamente aos alemães à exclusão de judeus, revogação dos tratados de armistício e medidas anticapitalistas.”. (VITKINE, 2010, p. 9). Foi também nessa reunião que os líderes do DAP, seguindo sugestão de Hitler, formalizaram a alteração no nome do partido para NSDAP (National-Sozialistische Deutsche Arbeiterpartei – Partido Operário Nacional-Socialista Alemão), abreviado para Partido Nazista ou Partido Nazi. No ano de 1921, Hitler deixou definitivamente o Exército e, suplantando elementos de maior prestigio e graduação, assumiu a liderança do partido, sendo designado chefe do partido, o Führer, o Guia. Com Hitler na liderança, o partido ganhou destaque, se “transformando em uma grande força política” (SILVA, 2003, p. 14). De acordo com Shirer (2008), em julho desse mesmo ano, estabeleceu-se “o ‘princípio de liderança’, que deveria constituir a primeira lei do Partido Nazista e, mais tarde, do Terceiro Reich. O Führer chegara ao cenário alemão” (SHIRER, 2008, p. 76). 33 À frente da liderança do NSDAP, Hitler, profundo conhecedor dos sentimentos e anseios do povo alemão, reestruturou o partido tendo como premissa conquistar o apoio desse povo. Para esse fim, incorporou elementos que em sua opinião eram vitais para a manutenção de seu orgulho e auto-estima. Aquilo de que as massas necessitavam, pensou ele [Hitler], não eram apenas idéias – algumas idéias simples com que ele pudesse martelar-lhe a cabeça – mas símbolos que conquistassem a sua fé, pompa e colorido que as despertassem, e atos de violência e terror que, se bem-sucedidos, atrairiam adeptos (acaso a maioria dos alemães não se sentia atraída para os fortes?) e lhes dariam uma sensação de poder sobre os fracos. (SHIRER, 2008, p. 71). Hitler desejava para a Alemanha o retorno ao que considerava ser um passado glorioso, defendia a volta da monarquia e a unificação da Alemanha que deveria englobar todas as nações que possuíssem como língua materna o alemão, formando assim um único, grande e supremo Estado, o qual, por seu passado de lutas e glórias, deveria ter por direito, supremacia sobre os demais. Para o ditador, a democracia instituída por meio da República de Weimar era degradante e a maior responsável pelo declínio da Alemanha como potência e, consequentemente, de seu povo. Imbuído dessas idéias e objetivos, assim como de seu grande desejo de se tornar um líder absoluto, deu inicio a organização de seu movimento atraindo para essa empreitada todos aqueles que compactuavam da ideia de que a solução para todos os problemas que enfrentavam após o fim da Primeira Guerra seria um governo centralizado e poderoso, responsável por determinar e controlar a política e a vida de toda a nação. Além de cuidar da articulação adequada da propaganda do NSDAP, Hitler, antes mesmo de assumir a sua liderança “organizou um bando de veteranos de guerra, valentões, transformando-os em ‘esquadras de choque’” (SHIRER, 2008, p. 72), a Ordnertruppe que, posteriormente, receberia a denominação de S.A. (Sturmabteilung – Tropas de Assalto). As S.A. eram uma espécie de milícia particular uniformizada, composta por desempregados, ex- militares e desajustados de toda espécie, cuja missão principal consistia em manter a ordem nas reuniões do partido nazista, mas, que, extrapolando seus limites, acabavam agindo de maneira violenta contra os demais partidos, perturbando a ordem e espalhando o terror. Aproveitando-se da situação de caos vivenciada pela nação no ano de 1923 e, especialmente de seu povo, cujo sentimento de humilhação pela derrota na guerra era visível, o NSDAP abriu terreno para semear sua doutrina e com ela, alimentar e fortalecer o sentimento de revolta que se encontrava presente em cada um dos indivíduos. De acordo com 34 Fiorini (1963), o sentimento de humilhação e, consequentemente, de inferioridade que acometia a todos os alemães, aliado a inflação, as restrições comerciais e aos altos impostos fizeram da Alemanha um terreno fértil para o plantio das ideias nazistas. Ainda de acordo com este autor, diante do país derrotado, os nazistas, guiados por Hitler, utilizaram-se “dos ressentimentos, das frustrações, e do revanchismo da pequena burguesia, levando-os até a exasperação” (FIORNI, 1963 p. 100). A propaganda e os discursos nazistas se encarregavam de apresentar ao povo alemão uma nova face da derrota, de modo a manter acesa a chama da revolta e da indignação do povo. Ainda segundo este autor, no discurso nazista a derrota não se configurava em um acontecimento militar, mas sim “como obra da traição interna.” (FIORINI, 1963, p. 100). Uma traição que, conforme afirma Kershaw (2010), na realidade nunca acontecerá. “[...] não houve traição, nenhuma faca cravada nas costas. Isso foi pura invenção da direita, uma lenda que os nazistas utilizaram como elemento central de seu arsenal de propaganda. A agitação na Alemanha foi uma consequência e não uma causa do fracasso militar.” (KERSHAW, 2010, p. 94). Quando a crise atingia seu clímax no ano de 1923, os nazistas vislumbraram a primeira grande oportunidade de colocar em prática o seu plano para a tomada do poder. A ocasião propícia aos planos de Hitler se apresentara no dia oito de novembro do mesmo ano, em uma reunião pública realizada pelos principais dirigentes bávaros na cervejaria Bürgerbräunkeller, que contava com a participação de cerca de “três mil pessoas, principalmente burgueses, preocupados com a situação.”. (VITKINE, 2010, p. 10). Com o apoio de militantes nazistas e da tropa de choque, a S.A., Hitler e seus comparsas invadiram a cervejaria, exigindo sob a ameaça de um revolver e de meias verdades, a entrega do poder, porém, nem tudo ocorreu conforme planejado. O golpe de Estado, que ficou conhecido como o Putsch da cervejaria, foi um fracasso. Um confronto armado pôs fim ao sonho de Hitler, deixando um rastro de violência, com dezenove mortos (dezesseis nazistas e três policiais) e muitos feridos. De acordo com Shirer (2008), Hitler a princípio conseguiu escapar à prisão, refugiando-se em uma casa de campo nos arredores de Uffing de propriedade dos Hanfstängl, onde, dois dias após o trágico fim do putsch, foi localizado e enviado ao cárcere. O fracasso do golpe e a prisão do líder nazista colocaram, temporariamente, fim ao movimento nacional-socialista. Em seu julgamento, Hitler obteve permissão do juiz para falar em sua defesa e assim, conseguiu transformar sua “derrota em triunfo” (SHIRER, 2008, p. 114). Ao final do julgamento, o líder nazista – juntamente com os demais acusados que participaram do golpe – foi considerado culpado e condenado “a cinco anos de prisão na 35 antiga fortaleza de Landsberg” (SHIRER, 2008, p. 118), onde permaneceu por um período de nove meses. Uma pena extremamente leve dada a gravidade do crime cometido. De acordo com Shirer (2008), o Código Penal Alemão determinava em seu artigo oitenta e um que “todo aquele que tentar alterar pela força a Constituição do Reich alemão, ou de qualquer Estado da Alemanha, será punido com a prisão perpétua” (SHIRER, 2008, p. 118). Hitler e seus comparsas foram beneficiados pelo juiz, que segundo este autor, atendendo ao pedido de complacência feito pelo “ministro da Justiça da Baviera, Franz Gürtner, velho amigo e protetor do líder nazista” (SHIRER, 2008, p. 114), permitiu que Hitler explanasse em seu favor. O julgamento em vez de colocar o líder nazista na posição de criminoso e, por conseguinte, por fim a sua a carreira política e a de seu partido, o colocou em evidência, “tornando seu nome conhecido muito além dos limites da Baviera e da própria Alemanha” (SHIRER, 2008, p. 113). Goldhagen (1997) afirma que até a ocorrência do episódio do Putsch e da prisão de Hitler, o NSDAP constituía-se em uma organização política de pequeno alcance, porém, o seu julgamento “serviu para uma posterior divulgação de dimensões nacionais” (GOLDHAGEN, 1997, p. 98). Durante o breve e de certa forma confortável17, período de reclusão, Hitler aproveitou para organizar suas idéias e refletir sobre as causas que levaram o golpe ao fracasso. De acordo com Goldhagen (1997), os nove meses que Hitler passou na prisão “foram suficientes para a confecção de suas ‘memórias’ que ‘sistematizaram melhor suas visões sobre a política, a Alemanha e os judeus [...]” (GOLDHAGEN, 1997, p. 98). Foi nesse período que Hitler, auxiliado pelo companheiro de partido, Rudolf Hess18, escreveu Mein Kampf, o livro que futuramente se tornaria o evangelho do NSDAP. Em relação ao livro, Vitkine (2010) relata a existência de uma lenda sobre a real colaboração de Hess, segundo a qual, esta teria ido muito além de simplesmente escrever o que Hitler ditava, colocando-o assim, como co-autor do 17 Segundo Vitkine (2010), Hitler dispunha de uma cela individual, limpa e com uma bela vista para o campo, além de ter permissão para receber visitantes a qualquer hora, tendo inclusive, um refeitório a sua disposição para receber suas visitas. O autor afirma que, de acordo com os registros da instituição, Hitler, no tempo em que esteve detido, recebeu um total de 489 visitantes, uma média de dois por dia. Shirer (2008) destaca que Hitler “foi tratado como hóspede de honra, com quarto privativo diante de esplêndida paisagem”. (SHIRER, 2008, p. 119). 18 Walter Richard Rudolf Hess (1894-1987): Líder nazista alemão, tendo nascido em Alexandria (Egito). Esteve preso juntamente com Hitler (1924-1925) e tornou-se o seu secretário privado, auxiliando na escrita do livro Mein Kampf. Em 1933 foi nomeado Führer assistente de Hitler, cargo em que se manteve até ser substituído por Goering, em Setembro de 1939. Nesta altura, Rudolf Hess era, realmente, o responsável pela organização do partido nazi. A 10 de Maio de 1941 aterrou no Reino Unido trazendo consigo uma proposta pessoal de compromisso de paz, momento a partir do qual foi mantido como prisioneiro de guerra até 1945. Julgado em Nuremberga como criminoso de guerra, foi condenado a prisão perpétua. Morreu na prisão de Spandau, em Berlim, onde, nos últimos anos, era o único prisioneiro (após a sua morte a prisão de Spandau foi destruída). Disponível em: . Acesso em: 09 set. 2011. 36 livro. “Como todas as lendas que minimizam o papel de Hitler, dele fazendo um mero peão, ela parece definitivamente falsa: ele [Hitler] fala, e o seu auxiliar [Hess] escreve. Existe apenas um Führer.”. (VITKINE, 2010, p. 14). A notícia sobre o livro de Hitler se espalhou dentro e fora da fortaleza, fazendo com que este começasse a ser presenteados pelos mais diversos tipos de livros com o intuito de auxiliá-lo em sua escrita. “Chamberlain, Nietzsche, Marx ou as memórias de Bismarck. Um amigo presenteia-lhe Fundamentos da higiene racial de Eugen Fischer, autor célebre na época.”. (VITKINE, 2010, P. 14). Ryback (2009) inclui nessa lista o filósofo Arthur Schopenhauer, o historiador, Heinrich von Treitschke e o líder político Otto von Bismarck. Em relação ao período que Hitler passou na penitenciária, faz-se importante apresentar a sua visão sobre o cárcere apresentada por Ryback (2009), onde o líder nazista a classifica como “formação superior às custas do Estado” (RYBACK, 2009, p. 95). Kershaw (2010) confirma o exposto por Ryback (2209), afirmando que o líder nazista relatara posteriormente que em Landsberg, “sua ‘universidade paga pelo Estado’” (KERSHAW, 2010, p. 178) lera tudo o que pudera. Essa afirmação de Hitler, segundo afirma Ryback (2009), expõe duas questões de grande importância: o seu “desdém pelo sistema penal bávaro [...] sua escassa compreensão do que significa uma formação sólida” (RYBACK, 2009, p. 101). A prisão não demoveu Hitler de seus planos de tomar o poder do Estado alemão. De acordo com Shirer (2008), “sua autoconfiança e a fé na convocação de que se sentia objeto para ‘governar um povo’ não diminuíram” (SHIRER, 2008, p. 116), no entanto, suas reflexões no cárcere o levaram a concluir que a única forma de alcançar a ascensão desejada seria por meios legais, ou seja, pela eleição, com o povo e o Estado alemão ao seu lado. Ao sair da prisão em liberdade condicional por bom comportamento, Hitler se deparou com uma nova Alemanha. A crise enfrentada quando de sua prisão já se encontrava praticamente debelada e a economia se reestruturara graças aos investimentos norte- americanos e ingleses que, segundo Lenharo (1986), injetaram a vultosa quantia de vinte bilhões de dólares. De acordo com Almeida (1999), no ano de 1924, os Estados Unidos da América, diante da visão de uma Alemanha falida – sem qualquer capital para investimento – e ciente do seu potencial produtivo, apresentaram uma proposta que não somente a colocaria em condições de cumprir com os pagamentos das reparações, como também, permitiria a 37 reabilitação de sua economia. Denominada de Plano Dawes19, a proposta oferecia à nação alemã a concessão de empréstimos massivos para serem utilizados em sua reestruturação. Ainda segundo a autora, a injeção de capital americano na Alemanha fez com que a sua economia florescesse de maneira prodigiosa chegando a suplantar os índices alcançados no período anterior a guerra. “O novo crescimento foi caracterizado pela modernização, racionalização e concentração. A taxa de desemprego chegou a níveis mínimos, devidos, sobretudo à racionalização e à mecanização das indústrias, e os salários subiram. (ALMEIDA, 1999, p. 47). Contudo, se por um lado os empréstimos e investimentos norte-americanos foram imprescindíveis para a reestruturação econômica alemã, por outro, deixou o país completamente dependente da Bolsa de Nova Iorque, e, portanto, fazia dele um dos maiores devedores dos Estados Unidos da América, fato que, futuramente, seria responsável por desencadear um novo e mais devastador caos econômico em toda a nação. Pode-se dizer que de 1924 a 1929, o Estado alemão e seu povo experimentaram um período de relativa estabilidade econômica. De acordo com Fiorini (1963), “a Alemanha já estava praticamente de pé, apesar de que, no seu interior, as forças nacionalistas exacerbassem a idéia de uma Alemanha escravizada, explorando-a em direção subversivo-revanchista” (FIORINI, 1963, p. 100), o que significa que, embora a economia tenha se reestruturado, o mesmo não aconteceu em relação à política, que se encontrava complemente fragmentada e esta situação era explorada pelos antidemocratas. O desemprego e a miséria foram finalmente contidos e com isso o poder aquisitivo retornara aos lares alemães. De acordo com o relato de Shirer (2008), a transformação que se operara na Alemanha a partir de 1925 era impressionante. Uma transformação que se refletia em todos os aspectos e que provocava a admiração de todo e qualquer observador. Uma excitação maravilhosa se operava na Alemanha; a vida parecia mais livre, mais moderna e mais emocionante que em qualquer outro lugar que jamais conheci. A arte e a vida intelectual em nenhuma parte pareciam tão vivas. Na literatura, na pintura, na arquitetura, na música e no drama contemporâneos havia novas correntes e superiores talentos. E em tudo havia a marca da juventude. Sentava-se com os moços nos cafés, ao ar livre, à noite, ou nos bares de luxo, nos acampamentos de verão, num vapor da Renânia ou num estúdio esfumaçado de artista, e conversava-se interminavelmente sobre a vida. Eram saudáveis, despreocupados, amantes do Sol, tomados de imensa satisfação pela vida intensa e completamente livre. O velho e opressivo espírito prussiano parecia estar morto e sepultado. Quase todos os alemães 19 O Plano Dawes foi “batizado com o nome do banqueiro americano Charles G. Dawes, chefe do comitê que estabeleceu em 1924 uma estrutura provisória para o pagamento parcelado das reparações, começando num nível baixo e ligado a empréstimos externos para a Alemanha” (KERSHAW, 2010, p. 165). 38 com quem se falava [...] pareciam ser democratas, liberais e mesmo pacifistas. (SHIRER, 2008, p. 168). (Grifo nosso). Hitler teve perspicácia suficiente para perceber essa transformação, como também, para compreender o entrave que ela representava para os seus planos megalomaníacos. O líder nazista reconheceu que, para atingir seu objetivo, seria necessário reestruturar o seu partido, bem como as suas estratégicas. Um país economicamente equilibrado, um povo satisfeito e feliz com a vida que se apresentava, não oferecia muitas oportunidades para as investidas do revolucionário nacionalista. Nessa época, Hitler ainda enfrentava outro problema que tornava mais difícil a sua campanha para a conquista do povo: a proibição de falar em público, o que o privava de utilizar o seu meio de sedução mais eficiente, a oratória. O resultado da eleição de 1928 comprovou a queda no prestígio do NSDAP e a, finalmente, consolidação da república. As ideias e propostas do NSDAP, articuladas por meio de propagandas e discursos, apesar de estrategicamente planejadas, ainda se mostravam insuficientes para convencer e conquistar o povo alemão. No período de 1924 a 1929, Hitler empreendeu a reestruturação do partido tendo como eixo norteador dois objetivos básicos que, segundo Shirer (2008), se constituíam em sua meta fundamental: a concentração de todo o poder em suas mãos e o restabelecimento do “Partido Nazista como organização política, que procuraria alcançar o poder unicamente por meios constitucionais” (SHIRER, 2008, p. 169). Centrado nesses objetivos, Hitler deu início a reconstrução do NSDAP, seguindo o modelo estrutural do exército. A organização do partido, de acordo com Shirer (2008) se dividia basicamente em dois grupos denominados de PO I e PO II. Segundo o autor, o PO I tinha como função primordial “atacar e minar o governo” (SHIRER, 2008, p. 171) e o PO II, que contava com diversos departamentos, deveria se reservar a cumprir com a missão de “constituir um Estado dentro do Estado” (SHIRER, 2008, p. 171). Além desses grupos havia também uma divisão especialmente importante para o partido, a Divisão de Propaganda. Objetivando conseguir novos adeptos para o movimento – outra meta estabelecida como primordial para a ascensão do partido – o líder nazista instituiu dentro do partido, “diversas organizações divididas por sexo, faixa etária e categorias socioprofissionais” (LENHARO, 1986, p. 23). Para os adolescentes de 15 a 18 anos criou-se a HitlerJungend; para as crianças de 1