Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Instituto de Artes JOSÉ DA SILVA ROMERO Dança, Artes Visuais e Cibercultura: entrelugares do corpo SÃO PAULO 2019 JOSÉ DA SILVA ROMERO Dança, Artes Visuais e Cibercultura: entrelugares do corpo Tese apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Artes, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista - Unesp, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Artes. Área de concentração: Arte e Educação. Orientadora: Profa. Dra. Kathya Maria Ayres de Godoy SÃO PAULO 2019 Ficha catalográfica preparada pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Artes da UNESP R763d Romero, José da Silva, 1965- Dança, Artes Visuais e Cibercultura: entrelugares do corpo / José da Silva Romero. - São Paulo, 2019. 149 f. : il. Orientadora: Profª. Drª. Kathya Maria Ayres de Godoy. Tese (Doutorado em Artes) – Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Instituto de Artes. 1. Dança. 2. Cibercultura. 3. Arte e dança. 4. Arte e tecnologia. I. Godoy, Kathya Maria Ayres de. II. Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes. III. Título. CDD 793.3 (Mariana Borges Gasparino - CRB 8/7762) JOSÉ DA SILVA ROMERO DANÇA, ARTES VISUAIS e CIBERCULTURA: entrelugares do corpo Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Artes no Curso de Pós-Graduação em Artes, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – Unesp, com a Área de concentração em Arte e Educação, pela seguinte banca examinadora: ---------------------------------------------------------------------------------------- Profa. Dra. Kathya Maria Ayres de Godoy Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista/SP – Orientadora ----------------------------------------------------------------------------------------- Profa. Dra. Rosangela da Silva Leote Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista/SP ----------------------------------------------------------------------------------------- Prof. Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista/SP ----------------------------------------------------------------------------------------- Profa. Dra. Rita de Cássia Franco de Souza Antunes Comitê 7a CRE/FNDE / Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro ----------------------------------------------------------------------------------------- Prof. Dr. Carlos José Martins Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Campus Rio Claro São Paulo, 28 de fevereiro de 2019 À Laurinda e José Fernanda, Tomás e Joana Agradeço aos meus pedacinhos de céu na terra, Joana, Tomás e Fernanda, pela paciência com que vocês me aturaram nesses anos de doutoramento e peço perdão pela ausência em tantos momentos. Aos meus pais Laurinda e José, que estão sempre dispostos a ajudar e a dar uma palavra de incentivo e afeto. Como é gratificante ter vocês por perto! À minha família Seile, Sirlene, Joaquim, Felipe, Thais, Bruno, Luigi, Jesus, Flávia, Rodrigo, Tiago, Regina, Pierre, Ricardo, Juliana e Glória. Agradeço, agradeço, agradeço à minha orientadora e líder do grupo de pesquisa Dança Estética e Educação (GPDEE) Profa. Dra. Kathya Maria Ayres de Godoy pela orientação, dedicação e confiança nesses anos todos. Que alegria contar com você! A todos os colegas do GPDEE, em especial Ítalo Rodrigues, Carolina Romano, Renata Fernandes, Rosana Pimenta, Rita Antunes, Elizabeth Menezes, Fernanda Almeida Evanilde Muniz, Carla Hirano e Renata Fantinati, pelos momentos de alegria e troca. Aos eternos amigos “Lolós”, compartilhando a vida e a dança, Catarina, Pedro, Melissa, Luciano, Tito, Yara, Cris, Ciro, Luisa, Ramiro, George, Georgia, Joe, Tiago, Beatriz, Marina, Bruno, Maristela e Mariana. Sem vocês tudo seria mais difícil! Gratidão aos companheiros do Estúdio Nova Dança, que fizeram e fazem parte da minha trajetória na dança. Em especial a Valéria Cano Bravi, Lu Favoreto, Isabel Tica Lemos, Cristiane Paoli Quito, Ricardo Neves e à Prof.a Dr.a Yaskara Manzini pelas conversas e ensinamentos de dança. Aos companheiros do Poeticidade, Artur e Daniela Cole, Edson Baeça e Flávio Camargo. Aos professores da banca examinadora, Profa. Dra. Rosangela da Silva Leote, Prof. Dr. Pelópidas Cypriano de Oliveira, Prof. Dr. Carlos José Martins, Profa. Dra. Rita de Cássia Franco de Souza Antunes, Profa. Dra. Lilian Freitas Vilela, Profa. Dra. Marianna Francisca Martins Monteiro, Prof. Dr. Ivo Ribeiro de Sá e Prof. Dr. Flávio Soares Alves, pela generosidade e disponibilidade em participar dessa última etapa deste doutoramento. Aos professores da banca de qualificação, Profa. Dra. Raquel Valente de Gouvêa e Prof. Dr. José Paiani Spaniol, pelas contribuições valiosas. A Marcio Honório de Godoy, parceiro da dança e revisor dos meus texto desde o mestrado. Um agradecimento especial ao meu orientador de mestrado, Prof. Dr. Wilton Luiz de Azevedo (in memoriam). Por fim, agradeço à CAPES pelo financiamento para o desenvolvimento desta pesquisa. Resumo Esta tese reflete sobre a relação entre dança e cibercultura, e elege o corpo como campo fio condutor para esta discussão. Para tanto, este doutoramento está divido em partes. A primeira apresenta pensamentos acerca do corpo no entrelugar que envolve a experiência com a dança e as artes visuais e a noção de sensação proposta por Deleuze (2007, 1974) e Deleuze e Guattari (2010). A segunda discute a cibercultura e a sua influência na produção artística, dando especial atenção à dança nos meios tecnológicos. Recorro a autores identificados na revisão eletrônica do estado atual do conhecimento como Santana (2006a, 2003), Wosniak (2013, 2006), Virilio (1999, 1996), Lévy (2010, 2001) e Lemos (2015). Na terceira e última parte, filiado ao pensamento de Deleuze (1974) e Gil (2015, 2005), defendo que a dança na cibercultura apresenta o corpo com sentidos próprios do ato de criação, oscilando entre o físico e o digital, clamando por novas formas de abordagens, apresentando inominadas sensações, constituindo-se, então, em um paradoxo do corpo no entrelugar que se estabelece entre a dança, as artes visuais e a cibercultura. Palavras-chave: Dança. Artes Visuais. Cibercultura. Corpo. Entrelugar . Abstract This thesis proposes a reflection about the relationship between dance and cyberculture and elects the body as the main guiding theme and proper field for this discussion. In order to do so, this doctorate is divided into parts. The first one presents thoughts about the body in the interlace between experienced dance and visual arts and the notion of feeling proposed by Deleuze (2007, 1974) and Deleuze and Guattari (2010). The second discusses cyberculture and its influence on artistic production, with special attention to dance in technological media. I refer to authors identified in the electronic review of the current state of knowledge such as Santana (2006a, 2003), Wosniak (2013, 2006), Virilio (1999, 1996), Lévy (2010, 2001) and Lemos (2015). In third and final part, in association with the toughts by Deleuze (1974) and Gil (2015, 2005) I state that dance in cyberculture presents the body with senses of the creation act, oscillating between the physical and the digital, clamoring for new forms of approaches, presenting innominated sensations and constituting, thus, a body paradox at the interlace among dance, visual arts and cyberculture. Keywords: Dance. Visual Arts. Cyberculture. Body. Interlace Lista de ilustrações Figura 1 e 2 - O Perigoso. José Leonilson. (série de sete desenhos sobre mesa de madeira - detalhe) Nanquim e sangue sobre papel, 30,5x23 cm (cada), 1992……..................................14 Figura 3 - Crânio. Bastão oleoso sobre papel, 35x30 cm, 2004. (desenho).…………............15 Figura 4 - S/ título. Lápis e nanquim sobre papel, 60x48 cm, 2000. (desenho)……...............16 Figura 5 - Briga de Galo. Cia O Povo em Pé, 2005. (registro fotográfico de intervenção artística). ...................................................................................................................................17 Figura 6 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40x40cm, 1999. (desenho)................18 Figura 7 - Silenciosas. Cia. Silenciosas, 2004. (registro fotográfico de espetáculo de dança)........................................................................................................................................19 Figura 8 - Experimentação de videodança, 2007. (captura de tela)………………..................21 Figura 9 - Santo. Criação: Artur Cole e José Romero. 2008.(captura de tela).........................22 Figura 10 - At Land. Direção: Maya Deren. 1944. (filme de dança)………………................24 Figura 11 - Experimentação com videodança, 2007. (captura de tela)…………….................25 Figura 12 - Sobressaltos. Direção: Antônio Stickel e Karina Ka. 2002 (videodança).............26 Figura 13 - Star Fxxxd. Sabato Viscondi. (glitch art – glitch vide) ………………………….27 Figura 14 - Cidades. Criação: Artur Cole e José Romero. 2004. (videodança)........................28 Figura 15 - Ancestralidade no Corpo – Experimentações Cênicas. Cia Oito Nova Dança, 2011. (espetáculo de dança - captura de tela)……………………………...............................29 Figura 16 - Caderno de artista, 30x18cm, 2002. (desenho)………………………..................31 Figura 17 - S/ título. 2001. (fotografia)…………………………………………...................32 Figura 18 - Corpo inscrito. Materiais diversos, 1999. (instalação)………………..................33 Figura 19 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40x40cm, 1999.(desenho)...............34 Figura 20 - Caderno de desenho. 35x30 cm, 1999. (desenho)…………………......................35 Figura 21 - S/ título. Tinta óleo, cera de abelha, parafina e lápis sobre tela (pintura) .............36 Figura 22 - Briga de Galo. Cia O Povo em Pé. 2005. (registro fotográfico de espetáculo de dança) .......................................................................................................................................37 Figura 23 - Presente Feito da Gente. Cia Balangandança. 2018. (registro fotográfico de espetáculo de dança).................................................................................................................38 Figura 24 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40 x40cm, 1999. (desenho).............39 Figura 25 - S/ título. Bastão oleoso sobre papel, 35x30cm, 1998. (desenho)….......................40 Figura 26 - S/ título. Lápis sobre papel, 35x30cm,1999. (desenho)…………….....................41 Figura 27 - Águas de Março. Cia Nova Dança 4, 1999. (registro fotográfico de performance)………….............................................................................................................42 Figura 28 - Águas de Março. Cia Nova Dança 4, 1999. (registro fotográfico de performance)………................................................................................................................ 43 Figura 29 - Caderno de desenho. 35x30 cm, 1997. (desenho)…………………......................44 Figura 30 - Ancestralidade no Corpo - Experimentações Cênicas. Cia Oito Nova Dança, 2011. (espetáculo de dança – captura de tela)…………………………..................................45 Figura 31 - Imagens de dança contemporânea. (captura de tela - vídeo)………………………....................................................................................................46 Figura 32 - S/ título. Lápis e tinta acrílica sobre papel, 50x40cm, 2002. (desenho).................47 Figura 33 - Vermelho. 2001. (fotografia)……………………………………………..............48 Figura 34 - S/ título. 2009. (fotografia)…………………………………………….................49 Figura 35 - S/ título.1999. (fotografia)…………………………………………….................50 Figura 36 - Casa Vazia, Núcleo Arremesso, 2015. (espetáculo de dança – fotografia)...........51 Figura 37 - trapiche. Cia Oito Nova Dança, 2004. (espetáculo de dança – fotografia)............52 Figura 38 - Vídeo Experimental - grupo 54. Cia Oito Nova Dança, Raimo Benedetti, Gabriela Greeb e Kathy Hinde. 2010. (vídeo – captura de tela)................…………………..................53 Figura 39 - Registro fotográfico do processo de criação do espetáculo Devoração. Cia Oito Nova Dança. 2009……………………………………………….............................................54 Figura 40 - Pianíssimo. Cia Oito Nova Dança, 2010. (espetáculo de dança )..........................55 Figura 41 - Deriva. Concepção: Ciro Godoy, José Romero e Luciano Bussab. 2007. (videodança – captura de tela)………………………………………………….....................56 Figura 42 - “Body, Body, On The Wall”. Direção: Jan Fabre e Wim Vandekeybus. 1997. (videodança – captura de tela)……………………………………………..............................57 Figura 43 - Sunshine in my thoat. Rosa Menkman. s.d. (glitch art/glitch vídeo – captura de tela)…………………………………………………………………........................................58 Figura 44 - S/ título. Alex Efimoff, s.d. (glitch art/glitch photography)……………………..60 Figura 45 - S/ título Alex Efimoff. s.d. (glitch art/glitch photography)……………………….61 Figura 46 - beyond resolution Rosa Menkman, 2015. (glitch art/glitch vídeo )……………...62 Figura 47 - [My] Synthetic Autumn. Sabato Viscondi, s.d. (glitch art/glitch photography)……………………………………………………………………………………………64 Figura 48 - How Not to be Read (Project). Rosa Menkman. 2015. (glitch art/glitch vídeo – captura de tela)……………………………………………………………………………….66 Figura 49 - Glitch Serie. Heitor Magno, S.d. (glitch art/glitch photography)………………..68 Figura 50 - S/ título. Alex Efimoff, s.d. (glitch art)……………………………………………...69 Figura 51 - Imagem do encarte do DVD Kraftwerk and the Electronic Revolucion................70 Figura 52 - Li II . Hans Rüdi Giger, 1974. (detalhe)...…………………………......................71 Figura 53 - Dear Mister Compression. Rosa Menkman. (glitch art/glitch vídeo)...................72 Figura 54 - AR. Criação José Romero e Luciano Bussab. 2007. (videodança)........................74 Figura 55 - Performance de dança com robô. Fredrik “Benke” Rydman. 2018. (vídeo - captura de tela).......................................................................................................................................75 Figura 56 - HTML: O Corpo Hypertexto. Criação Daniela Dini, Luis Ferron e Teo Ponciano, 2013. (espetáculo de dança – captura de tela)……………………….......................................76 Figura 57 - Registro fotográfico do processo de criação do espetáculo Ancestralidade no Corpo - Experimentações Cênicas. Cia Oito Nova Dança, 2011…………….........................77 Figura 58 - Sobre expectativas e promessas. GRUPO CENA 11, 2013. (fotografia)..............78 Figura 59 - por um momento perdido. Direção: Alex Soares e Gleidson Vigne. 2009. (videodança – captura de tela)…………………………………………………......................80 Figura 60 - Devoração. Cia Oito Nova Dança, 2009. (registro fotográfico de espetáculo de dança).........................................................................................................................................81 Figura 61 - “VR_I”. Cie Gilles Jobin, 2017. (dança e realidade virtual – captura de tela)……………………………………………………………………………........................84 Figura 62 - WOMB. Cie Gilles Jobin, 2016. (filme de dança em 3D – captura de tela)…………………………………………………………………………………................86 Figura 63 - “VR_I”. Cie Gilles Jobin, 2017. (dança e realidade virtual – captura de tela)……………………………………………………………………………........................87 Figura 64 - Registro fotográfico do processo de criação do espetáculo Compêndio para Infância. Cia Oito Nova Dança. 2007…………………………………...................................89 Figura 65 - S/título. 2004. (fotografia)………………………………………..........................93 Sumário INTRODUÇÃO .................................................................................................13 Colocando a mochila de questionamentos nas costas ....................................13 1 - Dança - Artes Visuais - Corpo: sensação e entrelugares ..........................29 1.1 - Corpo zero ............................................................................................30 1.2 - Corpo um: vermelho sanguinolento .....................................................35 1.3 - Corpo dois: Limites? ............................................................................38 1.4 - Corpo três: desejos e afetos que dançam ..............................................41 1.5 - Corpo quarto: dança-deformação..........................................................44 1.6 - Corpo cinco: um duplo que habita a dança............................................47 1.7 - Dança um: trânsito entre a sensação e o digital.....................................51 1.8 - Dança dois: escavar o corpo no entrelugar da dança digital..................53 2 - MODULAÇÕES DA CIBERCULTURA...................................................58 2.1 -Pensando a Cibercultura: teóricos..........................................................61 2.2 - Arte na Cibercultura: trânsito de informações e conhecimento............67 2.3 – Dança na Cibercultura: entendimento ampliado de corpo....................71 3 - O OUTRO: trânsito da dança e corpo na cibercultura.............................82 3.1 - Imagens da dança na cibercultura..........................................................85 3.2 - Um outro paradoxo do corpo.................................................................88 TIRANDO A MOCHILA DAS COSTAS........................................................92 A alegria de contar a última História.............................................................92 Digitando um fim e deixando um rastro........................................................94 REFERÊNCIAS.................................................................................................................95 APÊNDICE - Estado Atual: um estudo da relação entre dança e cibercultura......................107 ANEXO 1 - Convite para exposição de desenhos...............................................................146 ANEXO 2 - Certificado de participação em salão de Artes Plásticas.................................147 ANEXO 3 - Certificado de participação em salão de Artes Plásticas.................................148 ANEXO 4 - Certificado de participação em salão de Artes Plásticas.................................149 13 INTRODUÇÃO Colocando a mochila de questionamentos nas costas As inquietações que trago acerca da relação entre dança, artes visuais, corpo e cibercultura1 vêm do meu envolvimento artístico com dança, performance e a imagem digital da fotografia e vídeo. Nessa trajetória iniciada nos anos 1990, alguns questionamentos, que têm o corpo como inspiração, são disparadores para o desenvolvimento deste doutoramento que elege o corpo para investigar a relação entre dança e cibercultura. Eis um deles: Como se constitui a dança na relação com a cibercultura? Narro as trilhas por onde passei a fim de que o leitor possa compartilhar comigo as mesmas paisagens de dança, corpo e cibercultura, e também para que possa compreender o olhar que trago aos questionamentos acima apontados. Primeira trilha: artes visuais Cursei a faculdade de Direito na PUC/SP2 onde diplomei-me como bacharel. Nas horas vagas, frequentava exposições de artes visuais e assistia a espetáculos de dança nos espaços culturais da cidade de São Paulo. Advoguei até 1993, quando iniciei os estudos em Artes Visuais em ateliês de artistas, museus e espaços culturais da cidade. 1 Optei por grafar o conceito “Cibercultura” sem o destaque em italic, acompanhando a forma como a palavra vem escrita nos livros e textos científicos que serviram de referência para esta tese. A cibercultura denota um acontecimento contemporâneo que reúne uma parte significativa da produção cultural de hoje em dia e está presente no imaginário humano que envolve o futuro, seja ele pessimista ou otimista. Impactando na produção de alimentos, nas relações de trabalho, no desenvolvimento social, econômico e cultural, indica um horizonte intrincado e multifacetado entre a plenitude e o aterrorizante. Neste estudo, o conceito de cibercultura serve de ferramenta para refletir as transformações promovidas no domínio da arte, em especial no que se refere a dança e corpo. 2 Diplomei-me como bacharel em direito (1991) e advoguei até 1993, quando iniciei os estudos em artes visuais em ateliers de artistas, museus e espaços culturais da Cidade de São Paulo. 14 Figura 1 e 2 –O Perigoso.3 José Leonilson. (série de sete desenhos sobre mesa de madeira - detalhe). Nanquim e sangue sobre papel, 30,5x23 cm (cada), 1992. Fonte: Revista Bravo – Obra de Leonilson.4 Ao circular pelos pavilhões da Bienal de Arte de São Paulo (1994) fui arrebatado por uma série de sete pequenos desenhos5. Como estes desenhos puderam me tocar tanto? Por que aquele título O Perigoso? O que significavam aquelas imagens, aquelas palavras escritas nos desenhos: “prímula”; “fadas”; “margarida”; “copo de leite” ? Nenhum outro nome, nenhum sobrenome, um artista que assinava apenas L.6. 3 A série O Perigoso reflete sobre a condição de portador de Aids na época em que a obra foi realizada. Compõem a série O Perigoso os desenhos: “O Perigoso”, “Margarida”, “Prímula”, “Lisiantros”, “Copos de Leite”, “Anjo da Guarda” e “As Fadas”. Sobre eles, o artista disse: “Eu sou uma pessoa perigosa no mundo. Ninguém pode me beijar. Eu não posso transar. Se eu me corto, ninguém pode cuidar dos meus cortes, eu tenho que ir numa clínica. Tem gente perigosa porque tem uma arma na mão. Eu tenho uma coisa dentro de mim que me torna perigoso. Não preciso de arma”. Disponível em http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa8742/leonilson Acesso em: 30/08/2018. 4 Disponível em https://medium.com/revista-bravo/obra-de-leonilson-digitalizada-e-divulgada-continua- pulsante-8b95322f9a67 Acesso em: 13/09/2018. 5 O Perigoso (1992), série de sete desenhos realizados durante uma das inúmeras internações do artista debilitado pelos prejuízos da AIDS. (LAGNADO, 1995). 6 José Leonilson Bezerra Dias, nasceu em Fortaleza, CE em 01 de março de 1957 e faleceu em São Paulo SP em 28 de maio de 1993. Radicado em São Paulo, Leonilson é um dos nomes mais importantes da chamada Geração 80 das artes plásticas. Morto precocemente, com apenas 36 anos, o artista tem tido a sua memória preservada desde então com trabalhos como o Projeto Leonilson. 15 Já envolto com os estudos de artes visuais, cada vez mais interessei-me por fotografia, pintura, performance e pela obra desse importante artista que, junto a outros, transformou o cenário das artes plásticas em São Paulo nos anos 1980-1990. Decorridos anos daquele acontecimento e consciente do caminho que percorria na arte, pude perceber que o ponto de intersecção entre aqueles desenhos com a minha vocação artística era que José Leonilson ofertava, com os seus trabalhos, uma poética voltada para o corpo, expondo desejos, sentimentos e afetos que perpassavam seu corpo7. Figura 3- Crânio. Bastão oleoso sobre papel, 35x30 cm, 2004. (desenho) 8. Fonte: acervo pessoal. Mesmo acreditando que meu fazer artístico ficaria restrito às artes visuais, frequentava salas de espetáculos para assistir a espetáculos de dança contemporânea. Ficava instigado com os espaços cênicos construídos com os poucos recursos tecnológicos disponíveis na época e com a expressividade, torções, situações de risco, desconforto, ironia e as narrativas corporais que os dançarinos conciliavam em seus corpos para tecer suas obras. Nesses momentos, meu pensamento divagava a respeito da dança. Qual o treinamento necessário para dançar? Quais 7 Como afirma Lagnado (1995) a respeito do artista “A transição para a linguagem do corpo irá operar um refinamento tanto do gesto do artista como da escala de seu campo de ação.” (p. 55) 8 Adotei como critério não fazer referência à autoria da obra retratada (desenho, pintura ou fotografia) quando esta for de minha própria autoria, evitando uma excessiva exposição e poluição textual. 16 os limites físicos do corpo? Quais sensações me provocam essas imagens e o corpo que dança? Confesso que, tocado por algumas apresentações, minha sensação era de um vazio preenchido. Experimentava um dançar sem dançar, “a superficie em que se faz o vazio e todo acontecimento com ele, (…). Assim pintar sem pintar, não-pensamento, tiro que se torna não- tiro, falar sem falar”. (DELEUZE, 1974, p. 140) Figura 4- S/ título. Lápis e nanquim sobre papel, 60x48 cm, 2000. (desenho) Fonte: acervo pessoal. Segunda trilha: dança Envolvido com os estudos das artes visuais e na rotina solitária do ateliê, quis praticar uma atividade artística coletiva e escolhi a dança. Após algumas tentativas, tudo se concretizou quando, no ano de 1997, vivenciei, no Estúdio Nova Dança9, aulas de dança contemporânea10. Em pouco tempo, de duas aulas semanais passei a frequentar o Estúdio todos os dias, e incluí aulas de contato improvisação11, balé clássico, dança-teatro12, aikido13 e 9 Localizado no bairro do Bexiga (SP), o Estúdio Nova Danca (1995-2005) acolheu uma geração de artístas interessados em dança e na interlocução do movimento dançado com as mais variadas vertentes artísticas. 10 Caracterizava pela ação investigativa do movimento e a percepção do corpo. Cursei aulas de dança contemporânea com Lu Favoreto e Adriana Grechi, contato improvisação com Isabel Tica Lemos e Lívia Seixas e dança-teatro com Cristiane Paoli Quito e Cia Nova Dança 4. 11 Contato improvisação é uma dança executada por duas ou mais pessoas por meio do vocabulário sensorial composto de toque, peso e pressão corporal. A técnica nasceu nos EUA, no início da década de 1970, com Steve 17 yoga entre outros treinamentos corporais e artísticos. Figura 5 – Briga de Galo.14 Cia O Povo em Pé, 2005. (Registro fotográfico de intervenção artística) Fonte: acervo pessoal. Fotografia de autor desconhecido. No Estúdio Nova Dança, pratiquei dança com referências da educação somática15. Estudei estrutura óssea, cadeias musculares, imagens do corpo e massagem. Todo esse contexto sensorial e imagético que se construía em torno do corpo era instigante para dançar e inspirador para desenhar, performar, propor instalações e fotografar16. Naquele momento, a dança entrava na minha vida para fomentar as artes visuais, e, não por acaso, foi um período Paxton, e é associada ao movimento de contra-cultura por ser uma dança igualitária e democrática. Disponível em: Acesso em: 20/10/2017. 12 O conceito de dança-teatro surgiu na Alemanha, no Folkwang Tanz-Studio, criado por Kurt Joos e Rudolf Von Laban, no final da década de 1920, e ganhou notoriedade a partir da década de 1970, tendo na figura da coreógrafa alemã Pina Baush seu principal expoente. Associa elementos cênico-dramáticos à estética da dança. Disponível em: . Acesso em: 20/10/2017. 13 Aikido ou aiquidô: arte marcial japonesa desenvolvida pelo mestre Morihei Ueshiba (1883-1969). É frequentemente traduzido como "o caminho da unificação e da energia da vida" ou "o caminho do espírito harmonioso". O treinamento do aikido é comum entre os dançarinos de contato e improvisação. 14 Virada Cultural da Cidade de São Paulo. Performers: José Romero, Ricardo Neves, Anderson Gouvea e Jorge Penna. Fotografia de autor desconhecido. 15 Educação somática é um campo interdisciplinar que se interessa pela consciência do corpo e seu movimento, e que se propõe à descoberta dos próprios movimentos e sensações. Disponível em: . Acesso em: 12/04/2016. 16 Nesse período, participei de alguns salões e exposições de arte contemporânea no interior do Estado de São Paulo, explorando o corpo como poética visual. 18 intenso de produção de desenhos e fotografias. Figura 6 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40x40cm, 1999. (desenho17) Fonte: acervo pessoal. O Estúdio Nova Dança deu vida a diferentes companhias artísticas caracterizadas pela investigação de linguagem corporal desenvolvida pelas diretoras do estúdio18. Em 2000, foi criada a Cia Oito Nova Dança, dirigida por Lu Favoreto19, com orientação dramatúrgica de Valéria Cano Bravi20, e fui convidado a participar dessa experiência para explorar a relação entre as artes visuais e a dança. 17 Série de desenhos selecionados pelo XXII SLAC – Salão Limeirense de Arte Contemporânea, 2000. (anexo 3 p.146 ). 18 Nesse contexto foram criadas a Cia Nova Dança (1996) e a Cia Nova Dança 2 (1999), ambas dirigida pela bailarina, professora de dança e diretora Adriana Grecchi, e a Cia Nova Dança 4 (1997), dirigida pela atriz, professora de teatro e diretora Cristiane Paoli Quito e pela dançarina e diretora Isabel Tica Lemos. 19 Bailarina, professora de dança, diretora do Estúdio Oito e da Cia Oito Nova Dança. 20 Antropóloga, professora e pesquisadora de dança. Atualmente ocupa o cargo de coordenadora do curso de dança da Faculdade Anhembi-Morumbi. 19 Figura 7 – Silenciosas. Cia. Silenciosas21, 2004. (registro fotográfico de espetáculo de dança) Fonte: acervo pessoal. Desde então, ocorreu em meu trabalho uma fusão definitiva no que diz respeito às duas linguagens, e a investigação artística de imagem e movimento foi se transformando do desenho para a cena de dança, da pintura para a ação corporal. Passei sistematicamente a fotografar e videografar ensaios, apresentações, aulas e espetáculos de dança. Busquei com essas ações outras formas de apresentar o corpo, enfatizando o movimento por meio da fotografia desfocada ou riscada, mudando a coloração da imagem para ressaltar contornos e usando a máquina videográfica em movimento, como extensão do corpo, com a intenção de aproximar o olhar do espectador da cena gravada, ou projetando imagens como iluminação cênica. Foi assim que com a fotografia e o vídeo digital iniciei a investigação entre a dança e a tecnologia22. 21 Apresentação de espetáculo de dança realizada no Estúdio Nova Dança. A Cia. Silenciosas dirigida por Diogo Granato, é um grupo de improviso cênico, no qual o intérprete utiliza seus conhecimentos corporais no intuito de construir uma dança única e particular. Disponível em: . Acesso em: 21/08/2017. 22 Nos processos criativos desenvolvidos na Cia Oito Nova Dança, utilizávamos os recursos digitais disponíveis na época mesclados à tecnologia analógica do retroprojetor, projeção de slide fotográfico, e outros, como estratégia para problematizar a imagem e o uso de tecnologia no ambiente cênico. 20 Essa procura se intensificou nos anos seguintes na criação de vários espetáculos de dança23, nos quais pude articular a execução da dança com o uso de videografias, fotografias e outros elementos nos mais diferentes contextos, estabelecendo a relação entre a dança e a tecnologia como um princípio construtor da obra. A imagem digital, que a partir dos anos 2000 se transformou em uma tecnologia acessível, tornou-se um dos elementos centrais no meu processo de criação artística. Terceira trilha: cibercultura A pesquisa acadêmica em dança passou a integrar esse contexto em 2006, ano em que ingressei no grupo de pesquisa Dança, Estética e Educação24 (GPDEE), liderado pela Profa. Dra. Kathya Maria Ayres de Godoy, no Instituto de Artes – UNESP. Nele passei a estudar criação, práticas de ensino e metodologias de pesquisa para dança, e estabeleci contato com artistas e pesquisadores que tinham interesses similares ao meu. Na intenção de alinhavar o conhecimento artístico e acadêmico, iniciei, em 2006, o curso de Mestrado25 no programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Em minha dissertação, avento que a videodança é uma ação artística interdisciplinar que promove o cruzamento de elementos da dança, videoarte, performance e tecnologia digital, configurando-se uma ação artística com pressupostos próprios de linguagem. Para tanto, analisei suas características estéticas e elementos construtivos, e criei videodanças. 23 Notadamente nos espetáculos da cia oito nova dança: modos de ver (2002), disponível em ; compêndio para infância, disponível em e pianíssimo (2010), disponível em . Acesso em: 15/11/2016. 24 O grupo de pesquisa Dança, Estética e Educação – GPDEE tem vínculo institucional com o PPG IA- Unesp/SP. Criado em janeiro de 2006, tem como objetivo reunir pesquisadores, alunos, mestres e doutores na área da Dança e afins para discutir projetos e ações. O pressuposto do grupo visa entender que toda relação estética dialoga com o ensino e aprendizado. A finalidade das pesquisas é problematizar tais relações, do mesmo modo que se faz necessário compreender como a estética e a educação convergem nos estudos da prática e da teoria da Dança. Disponível em . Acesso em: 05/10/18. 25 Obtive em 2008, sob a orientação do Prof. Dr. Wilton Luiz de Azevedo, o título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie com a dissertação: VIDEODANÇA: O Movimento no Corpo Plural. Disponível em Acesso em: 05/10/18. 21 Com a videodança constrói-se um “corpo de imagens” com características estéticas e formais próprias. São imagens instáveis, recortadas, sobrepostas e passíveis de inúmeras intervenções digitais, qualidades estas que atendem aos propósitos contemporâneos em arte e se enquadram nos discursos poéticos de coreógrafos e bailarinos que, em suas pesquisas, tematizam a fragilidade, dor, precariedade, limites e incertezas do corpo. (ROMERO, 2008, p. 63) Figura 8 – Experimentação de videodança,26 2007. (captura de tela) Fonte: acervo pessoal. Estruturei a dissertação de modo a apresentar aspectos gerais da videodança. Tratei dos contextos históricos da dança e do vídeo, da dança no ocidente, do surgimento do balé até os tempos atuais, marcados pela dança contemporânea, ambiente criativo em que a videodança se estabeleceu com mais vigor. Verso acerca das singularidades estéticas, abordo as primeiras experiências nos anos 1970 e o aumento significativo de sua produção a partir dos anos 1980, momento em que a videodança se firma como meio de pesquisa e criação artística com qualidade estética própria sendo amplamente utilizada por artistas contemporâneos da dança e vídeo. Ao final, trato da necessidade de enfrentar o desafio de pensar dança e corpo na tecnologia digital. 26 Videodança não finalizada. 22 Ao término do mestrado, a aspiração em pesquisar o corpo como um elemento de união entre as experiências como artista da dança (corpo) e das artes visuais (imagens digitais) se fortaleceu. Ficou claro que um caminho a ser percorrido como pesquisador seria continuar os estudos a respeito da dança, corpo e cibercultura. Atendendo a esse desejo, ingressei no programa de doutorado, no PPGArtes/UNESP, com a intenção de pesquisar dança e cibercultura e refletir acerca do corpo na dança que se utiliza das tecnologias digitais. Para tanto, elegi como assunto amplo da pesquisa a relação entre dança e cibercultura e, como tema central, o corpo dentro desse contexto. Figura 9 – Santo. Criação: Artur Cole e José Romero. 2008. (intervenção artística - captura de tela) Fonte: acervo pessoal. Nesse sentido, elenquei os seguintes questionamentos disparadores da pesquisa: quais os pensamentos abordam o corpo na relação entre dança e cibercultura? Essa relação revela 23 outras qualidades corporais27, outras maneiras de se ver o corpo na dança? Se sim, quais são? Como podemos identificá-las? Neste estudo, dança e corpo são abordados a partir dos questionamentos acima expostos e próximos dos valores28 da cibercultura, sendo que, a relevância do estudo ora apresentado, se funda na atualidade do tema face a penetração da cibercultura no cotidiano e na possibilidade de cooperar com as investigações acerca da dança no meio acadêmico.29 Com a intenção de investigar a relação entre dança e cibercultura da perspectiva do corpo, elejo a noção de sensação30 como inspiração, realizando uma leitura pessoal acerca desse conceito, amparado pela experiência como artista no entrelugar que envolve os domínios da dança e das artes visuais. Na primeira parte, “Dança - Artes Visuais - Corpo: sensação e entrelugares”, verso acerca da sensação no entrelugar31 que envolve as experiências de corpo com artes visuais e dança32. Para tanto recorro ao conceito de sensação presente na filosofia de Gilles Deleuze. Direciono minha atenção para a abordagem filosófica sobre o tema, presente, especialmente, nos livros: Francis Bacon - Lógica das sensações (DELEUZE, 2007) e O que é Filosofia?33 (DELEUZE; GUATTARI, 2010). “A sensação é aquilo que passa de uma “ordem” a outra, de um “nível” a outro, de um “domínio” a outro” (DELEUZE, 2007, p. 19). 27 Nesse aspecto, é possível pensar na videodança que preserva a imagem de um corpo pleno e vigoroso. “O que se vê não está preso às marcas da existência, não vive o envelhecimento, as instabilidades, desejos, vontades e angústia da morte.” (ROMERO, 2008, p.77). 28 Conforme Lévy (2010) podemos considerar a transitoriedade, a virtualização, a desmaterialização e a ubiquidade como alguns dos valores referentes à cibercultura. 29 Em apêndice apresento uma revisão bibliográfica eletrônica acerca do estado atual das pesquisas científicas publicadas sobre do tema entre os anos 1990 e 2017. 30 Neste estudo abordo a noção de sensação inspirado nos estudos do filósofo Gilles Deleuze (1925-1995). 31 A noção de entrelugar neste estudo remete ao fluxo de sensações no corpo nas experiências artísticas. “Pensar nos lugares do corpo e da arte na vida humana leva-nos, inescapavelmente, aos entrelugares, aos desvãos, aos esconderijos onde o inexplicável, poeticamente, também se faz presente... Coloca-nos numa posição onde não estamos nem lá nem cá, desafiando nosso desejo de encontrar um refúgio seguro.” (STRAZZACAPPA; ALBANO; AYOUB, 2010, p. 15). 32 O estilo de dança que serve de referência para as reflexões contidas neste trabalho é a chamada dança contemporânea, que é a minha principal experiência em dança, e que possibilita a coexistência em harmonia com outras linguagens artísticas. 33 Este escrito em parceria com o psicanalista e filósofo francês Félix Guattari (1930 -1992). 24 Figura 10 - At Land. Direção: Maya Deren,34 1944. (filme de dança) Fonte: BFI Film Forever.35 Realizo uma escritura que tem como essência o livre aproveitamento da noção de sensação proposto por estes filósofos36, a fim de refletir acerca do sentir o corpo no campo da arte e, em especial, na dança. Entregue à experiência, indico que o fluxo de sensação se alastra pelo corpo nas situações vividas em processo artísticos, instigando desenhos, fotografias, pintura e dança, cada qual à sua maneira e forma. Do arcabouço de experiências com as artes visuais recolho a força da imagem e a organização do espaço entre elementos. Da dança, o sentir o corpo e o prazer do movimento. “O artista traz do caos variedades, que não constituem mais uma reprodução do sensível no órgão, mas erigem um ser do sensível, um ser da sensação.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 260) 34 Maya Deren (Kiev 1917-NY 1961). Realizadora e teórica do cinema nos anos 1940 e 1950 nos Estados Unidos, era coreógrafa e dançarina e construiu importantes conjunto iconográfico na fusão entre a dança e o cinema. Disponível em . Acesso em: 08/09/2018. 35 Site BFI Film Forever: disponível em < https://www.bfi.org.uk/search/search-bfi/maya%20deren >- Acesso em: 20/09/2018. 36 “tem uma coisa que me reconforta: acho que há várias leituras de uma mesma coisa e acredito piamente que não é preciso ser filósofo para ler filosofia”. O Abecedário de Deleuze, disponível em . Acesso em: 31/01/2018. 25 Figura 11 – Experimentação com videodança,37 2007. (captura de tela) Fonte: acervo pessoal. As reflexões expostas são resultantes das vivências no entrelugar de linguagens que ocupo, no qual a sensação é um elemento catalisador que auxilia o livre pensar acerca das experiências com corpo e dança. Poeira nos olhos lacrimejando, antebraço e pulso medindo intensidades indomáveis. Explosão e ventania de possibilidades que vão se encaixando onde antes não se podia encaixar, voo rasante na encosta de pedras. Sensação de escrever dança. Na segunda parte, “Modulações da cibercultura”, reexamino autores que discutem a cibercultura com a intenção de compreender melhor o tema e encontrar subsídios teóricos para discutir corpo e dança no ambiente digital. Retomo questionamentos elencados38 no início desta introdução como disparadores para investigar a relação entre o corpo (em um mundo tecnológico e conectado) e a dança regida pelas tecnologias digitais. 37 Videodança não finalizada. 38 Quais os conceitos e teorias acerca do corpo que emergem da relação entre dança e cibercultura? Como o corpo se constitui na dança tecnológica? A dança tecnológica revela outras qualidades corporais? Outras maneiras de se ver o corpo na dança? Se sim, quais são? Como podemos identificá-las? 26 Figura 12 – Sobressaltos. Direção: Antônio Stickel e Karina Ka. 2002. (videodança– captura de tela) Fonte: acervo pessoal. Auxiliam esta investigação os pensadores Pierre Lévy (2001, 2003) e André Lemos (2011), que discutem a virtualização e o conhecimento em rede; Paul Virilio (1994, 1996, 1999) no que tange o poder econômico e a hegemonia cultural em um mundo hiper conectado. Por sua vez, as pesquisadoras de dança e tecnologia digital Ivani Santana (2006a, 2006b) e Cristiane Wosniak (2006, 2013, 2015) adensam minhas análises oferecendo estudos acerca da dança com mediação tecnológica e ciberdança. A eleição desses autores que ancoram seus estudos na cibercultura, internet39 e na teoria do conhecimento e informação, subsidia o entendimento de que a tecnologia é o resultado de um conjunto de saberes que se cruzam ampliando e modificando as relações humanas. Conceber a tecnologia ligada ao senso humano e inserida no conjunto social é um caminho para compreender os aspectos artísticos, culturais e estéticos ligados a dança e ao corpo na cibercultura. 39 Internet é um conjunto de computadores interligados em rede. No ano de 2010, 1,96 bilhões de pessoas espalhadas pelo mundo tinham acesso à rede mundial de computadores, montante que representa 28,7% da população mundial. No Brasil, pesquisas revelavam que, nesse ano, aproximadamente 76 milhões de brasileiros tinham acesso à rede. Dados do IBGE. Disponível em: Acesso em: 12/04/2014. 27 Figura 13 - Star Fxxxd. Sabato Viscondi40. (glitch art – glitch video). Fonte: site do artista. Desta constatação, alguns questionamentos emergem: Reconfiguramos as matrizes corporais em decorrência das tecnologias digitais? Será a cibercultura uma potência criadora que reorganiza os modos de comunicação e pensamento da dança? A dança na cibercultura pode ser um elo que conecta a matéria carnal à maquinaria tecnológica? Para facejar essas questões e amparar a reflexão acerca da relação entre dança e cibercultura, apresento, em apêndice, uma revisão bibliográfica eletrônica, denominada de estudo do estado atual da relação entre dança e cibercultura, no qual empenhei uma exploração nas bases de dados de Instituições de Ensino Superior (IES), bancos de dados digitais e Anais de Congressos de Dança com a intenção de reconhecer subsídios teóricos que amparam uma reflexão acerca de dança, corpo e cibercultura. Na terceira parte, “O OUTRO: trânsito da dança e corpo na cibercultura”, sugiro que a cibercultura coloca outra camada de problematizações para refletir o corpo na dança. Friso os sentidos opostos entre o corpo ordinário (orgânico) e o corpo digital, e desenvolvo a ideia de que nos territórios da cibercultura o corpo é um paradoxo do corpo paradoxal da dança proposto pelo filósofo José Gil (2005, 2015). Nessa direção, busco na literatura desse filósofo trilhas para pensar o corpo na dança com dados tecnológicos em oposição ao corpo ordinário, aquele com que acordamos diariamente, que fortalecemos nos treinamentos, que conduz a dança na pele e no movimento. Nesse paradoxo, jogo de captura e fuga, que ocupa a dança em perspectivas tão distintas, se aloja uma última questão: Quais sensações habitam a dança 40 Sabato Viscondi é um artista visual e fotógrafo brasileiro radicado nos USA. Disponível em: e Acesso em: 05/01/2019. 28 nos meios tecnológicos? Figura 14 – Cidades. Criação: Artur Cole e José Romero, 2004. (videodança– captura de tela) Fonte: acervo pessoal. Defendo como tese, que na relação entre dança e cibercultura o corpo é um paradoxo que oscila entre: o que é matéria e o que é digital, superfície e profundidade, espaço do corpo e espaço digital. Face a esse entendimento, a dança nos campos da cibercultura clama por abordagens singulares e interpretações múltiplas. 29 1 - Dança - Artes Visuais - Corpo: sensação e entrelugares A dança e o corpo são temas centrais deste capítulo. Para abordá-los, trago as memórias das vivências artísticas no entrelugar que envolve a dança e as artes visuais, e busco inspiração teórica na filosofia de Gilles Deleuze. Dentre os vários pensamentos e conceitos idealizados por esse filósofo41, destaco: a lógica da sensação colorante42, proposta por ele ao analisar a obra plástica de Francis Bacon no livro Francis Bacon - A lógica da sensação43. Nesse livro, Deleuze propõe a noção de lógica geral da sensação para pensar os elementos compositivos da obra do pintor Francis Bacon, verticaliza os estudos referentes à lógica não-racional da sensação, figura e imagem, discute pintura, figuração, representação e indica caminhos singulares para debater o corpo. Figura 15 - Ancestralidade no Corpo – Experimentações Cênicas. Cia Oito Nova Dança44, 2011. (espetáculo de dança – captura de tela) Fonte: Bruta Flor Filmes – Vimeo. 41 Como o pensamento da prática/construção de um Corpo sem Órgãos (CsO) e o conceito de Máquinas Desejantes propostos em parceria com o psicanalista Félix Guattari nos livros O Anti-Édipo, Capitalismo e Esquizofrenia (1972) e Mil-Platôs (1980). 42 “a sensação não é colorida, ela é colorante, como diz Cézanne. É por isso que quem só é pintor é também mais que pintor, porque ele "faz vir diante de nós, na frente da tela fixa", não a semelhança, mas a pura sensação” (DELEUZE, 2010, p. 217). 43 Livro lançado em 1981. 44 Apresentação realizada na Casa Livre de Teatro em 25/09/2011. Disponível em https://vimeo.com/30365824 - http://ciaoitonovadanca.com.br/ Acesso em: 15/07/2018. 30 Com esse repertório, que envolve a filosofia deleuzeana e a vivência artística, alinhavo um pensamento no qual o corpo, nesse entrelugar que se estabelece na relação entre dança e artes visuais, se constitui por fluxos de sensações que afloram potencializando as práticas artísticas. 1.1 - Corpo Zero Desde as vivências iniciais nos domínios do campo artístico, o corpo como forma, intensidade e sensação despertava em mim um interesse especial. As poéticas do corpo, relacionadas às imagens e ações corporais, se faziam presentes, ocupavam o eixo central das minhas afeições, entretanto, ainda não havia sido devorado por essa poética portentosa, fato que aconteceria anos mais tarde com a integração da dança no meu cotidiano. Caminhava em paralelos. Havia uma via poética ligada à cidade na qual, com um coletivo de artistas partia em andanças, sem orientações ou destino, para registrar o fluxo da cidade. Buscávamos na rua, com seu caldeirão de possibilidades, a inspiração para a criação artística. O ruído, a cor do asfalto, o papel lambe-lambe na parede e as construções incertas do espaço urbano nos alimentavam de estímulos. E assim, os percursos se faziam no acaso do instante. Formávamos um coletivo de artistas chamado Poeticidade. Compartilhando desenhos e fotografias, usufruíamos o espaço público como inspiração e criação, e realizávamos mostras em espaços culturais e alternativos45. 45 Destaco a exposição de desenhos realizada na Fundação Pró Memória de São Caetano do Sul – Pinacoteca Municipal-SCS, 2005, em parceria com os artistas plásticos Artur Cole, Edson Baeça e Flávio Camargo. (anexo 1, p.144). 31 Figura 16 - Caderno de artista, 30x18cm, 2002. (desenho46) Fonte: acervo pessoal. Outra via de criação plástica, esta sim fortemente atrelada às corporalidades que os treinamentos em dança suscitam, acontecia nos momentos solitários passados em ateliê. O corpo era uma tormenta, revoada de pensamentos acerca da intensidade de cada gesto que daria vida a um traço ou pincelada. Aceitava a vontade interna de investigar se o gesto do desenho ou da pintura seria realizado de forma brusca, contínua, rápida ou lenta, executado com alguma parte do corpo (dedos, palma das mãos, cotovelo) ou outra ponta (pincel, madeira, lápis). 46 Caderno de desenho selecionado pelo 28 salão de Artes Plásticas Contemporânea– Pinacoteca Municipal de Franca-SP, 2004. (anexo 2, p. 145). 32 Figura 17 - S/ título,47 2001. (fotografia) Fonte: acervo pessoal. Nesses instantes, para a efetivação do ato de criação48, era determinante colocar em evidência o corpo como expressão e sensação e, ao mesmo tempo, reunir os conhecimentos em dança e os elementos plásticos. Dessa forma, a criação pulsava no rompante de esfregar, raspar, colar e nas interrogações acerca da composição de cores, volumes e acasos que surgem no fazer artístico. A permanência solitária no ateliê era intensa, invadia a madrugada e levava à exaustão corporal e mental. Por convenção ou comparação a outras situações, um corpo submetido a um esforço físico até a exaustão pode sugerir um momento sofrido e de lembranças ruins. Não nesse caso, que foi um período de liberdade marcado por uma rica experimentação artística. Não havia o vocativo profissional, porque a obrigação de expor era inexistente. Também estava livre de cobranças por fazer algo determinado, pois não tinha prazo a cumprir e nem padrão estético a seguir. Tratava-se de um fazer, quase que diário, movido pelo desejo de colocar o corpo e o pensamento em movimento, frisando as afirmações de vontades ordenadas na liberdade do ato de criação, na experimentação das formas, texturas, materiais, cores e ações corporais. 47 Processo de criação envolvendo dança e artes visuais - Estúdio Nova Dança. 48 Nesse estudo a nocão de ato de criação é aquilo que se esta fazendo, se relacionado a experiências que trago como artísta e refere-se ao momento de criação (ação) e o espaço sensível que o corpo ocupa na relação entre dança e artes visuais. “Não se pode objetar que a criação se diz antes do sensível e das artes” (DELEUZE & GUATARRI, 2010, p. 13) 33 Figura 18 - Corpo inscrito. Materiais diversos, 1999. (instalação49) Fonte: acervo pessoal. Momento de livre experimentação esteado entorno dos desejos que o corpo revela, um desejo que se faz na origem, na vontade de expressão, de inventar outros mundos e que se institui contra a precariedade de impulsos menores. “Alguns casos eram mesmo de acoplamento de sensações, um abraço de sensações sem fazer nenhum apelo à memória: assim era o desejo, e muito mais ainda a arte…” (DELEUZE, 2007, p.35) 49 Instalação realizada na Oficina Cultural Oswald de Andrade em parceria com o artista Edson Baeça. 34 Figura 19 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40x40cm, 1999. (desenho50) Fonte: acervo pessoal. Afirmações diárias repletas de mundo, dedilhando, não os altares das certezas gerais, mas sim os acordes das delicadezas vibrantes que habitam as dúvidas do ato criador. A necessidade primeira era de colocar o corpo em movimento, interagir com os materiais e sobrepor, aglomerar e fazer camadas. Exposição ao acaso, sem um início preciso ou ordenamento a ser seguido. Os desejos que indicavam os caminhos a serem percorridos resultavam das derivações do campo das intensidades e não das determinações de uma sequência protocolar relacionada a uma ordem preestabelecida. Não havia a necessidade de executar primeiro isso e depois aquilo, os impulsos eram resultados do fluxo de sensações. Próprio da arte, o fluxo de sensações gravita na criação, é viagem sem origem ou destino entre os hemisférios do incerto, uma vez que é navegação sem rota e brinca na 50 Série de desenhos selecionados pelo XXII SLAC - Salão Limeirense de Arte Contemporânea, 2000. (anexo 3, p.146). 35 anomia51 e no caos. “Define-se o caos menos por sua desordem que pela velocidade infinita com a qual se dissipa toda forma que nele se esboça”. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.153) Com densidade própria e características singulares, surge do gesto do artista revelações ao recortar a matéria sensível e dar forma, seja pela fotografia, desenho, pintura, literatura, música ou dança. O resultado do comprometimento com as vontades que habitam o ser revela-se no entrelugar das linguagens, alimentando de potências o corpo. Na prática intensa que intercalava ateliê e rua, constituiu-se um pensamento artístico que teve início na vibração dos gestos, do espaço e da cor que afloraram, anos mais tarde, como inspirações para as práticas do dançarino. 1.2 - Corpo um: vermelho sanguinolento Figura 20 - Caderno de desenho. 35x30 cm, 1999. (desenho) Fonte: acervo pessoal. 51 Neste estudo a palavra anomia se refere a desordem da forma. 36 Para habitar a pintura, o desenho ou a fotografia com vestígios que pertencem ao corpo, elegi, como indispensável, os vermelhos sanguinolentos. Uma explosão, uma pura relação de cor que atrai e perdura na retina pela sensação que evoca. Na lógica geral da sensação, Deleuze (2007) revela aspectos da pintura e um fluxo no sentir. “De fato todos os aspectos coexistem. Eles convergem na cor, em uma “sensação colorante”, que é auge desta lógica.” (p.1) A escolha pelos vermelhos anunciava a intenção de sublinhar o corpo, escolha de cor que alforriava, ainda que provisoriamente, a necessidade de buscar na forma ou na ilustração52 lembranças daquilo que reconhecemos como corporal. Dessa forma, era possível outros aspectos compositivos como a intensidade de cada traço, volume e luz. Pela cor, marcava uma trilha que levasse ao corpo. Figura 21 - S/ título. Tinta óleo, cera de abelha, parafina e lápis sobre tela, 220x180cm, 2000. (pintura) Fonte: acervo pessoal. 52 “A figuração existe, é um fato, ela é mesmo anterior à pintura. Estamos cercados de fotos que são ilustrações, de diários que são narrativas, de imagens-cinema, imagens-tevê. Existem os clichês psíquicos assim como os físicos, percepções já feitas, lembranças, fantasmas. Existe aí uma experiência muito importante para o pintor: toda uma categoria de coisas que podemos chamar de “clichês” já ocupa a tela antes do começo.” (DELEUZE, 2007, p. 45) 37 Aliado à cor, incorporava a fluência e liberdade do gesto dançado. O convívio diário com os saberes da dança mostrava algumas trilhas no corpo. Constituindo–se como saberes em dança53, que são conhecimentos arquitetados no corpo pela (in)corporação da experiência (GODOY, 2013), a dança em fluxo de sensações é do corpo e a ele retorna com maior intensidade. Explode para além de giros, quedas, suspensões, porque é também (des)ordem da experiência mental, física e pensamento na forma de arte54. “Pensar é pensar por conceitos, ou então por funções, ou ainda por sensações.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 253) Assim como a filosofia se faz ao criar conceitos, a dança revela os conhecimentos sensíveis do corpo com as sensações que provoca. Figura 22 - Briga de Galo.55 Cia O Povo em Pé. 2005. (registro fotográfico de espetáculo de dança) Fonte: acervo pessoal. Foto Alex Ratton. 53 “Outro conceito desenvolvido por Godoy (2013) o conhecimento sensível, complementa esse pensamento (saberes em dança), já que para esta autora o conhecimento é construído a partir dos saberes estabelecido pelo sujeito, a partir do olhar para a sensibilidade e estesia e em conexão com o contexto que cada um está inserido.” (ANDRADE, 2016, p. 185) 54 As três grandes formas do pensamento: “a arte, a ciência e a filosofia, irão sempre enfrentar o caos, traçar um plano, esboçar um plano sobre o caos. A filosofia se lança ao infinito, dando-lhe consistência: ela traça um plano de imanência até o infinito, sob a ação de personagens conceituais. A ciência, ao contrário, renuncia ao infinito para ganhar a referência: ela traça um plano de coordenadas define os estados de coisas, funções ou proposições referenciais. A arte cria um finito que restitua o infinito: traça um plano de composição que carrega sensações compostas, sob a ação de figuras estéticas”. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 253) 55 Apresentação realizada no Centro Cultural São Paulo . Evento O Masculino na Dança. Criadores –intérpretes: Anderson Gouvea, José Romero, Jorge Peña e Ricardo Neves. Direção Mauricio Paoli. 38 Na ponte que uniu a (in)corporação56 da experiência da dança com a prática de ateliê, foi desperta uma percepção de corpo intimamente relacionada às imagens, ao gestos, sensações e ao ato de criação. A arte é a linguagem das sensações, que faz entrar nas palavras, nas cores, nos sons ou nas pedras. A arte não tem opinião. A arte desfaz a tríplice organização das percepções, afecções e opiniões, que substitui por um monumento composto de perceptos, de afectos e de blocos de sensações que fazem as vezes de linguagem. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.228) A imagem era de cor, o gesto orientado pelas sensações, o espaço poroso. Uma profusão de sentidos atravessando o corpo. Figura 23 - Presente Feito da Gente. Cia Balangandança.57 2018. (registro fotográfico de espetáculo de dança) Fonte: – acervo pessoal. 1.3 - Corpo dois: Limites? O que você entende por corpo ou o que é corpo para você? Como escrever aquilo que é tão marcante? Ter o corpo como objeto de observação? Como chegar a um distanciamento que possibilite dizer de um corpo plural? 56 Para GODOY (2012; 2013), o conceito de (in)corporação significa a apropriação dos elementos da dança e de seus saberes no e pelo corpo do dançarino ou do sujeito que experiência a dança. 57 Criada em 1997, a Balangandança Cia. é dirigida por Georgia Lengos, une arte e educação para discutir a linguagem corporal da criança. Disponível em Acesso em: 04/07/2018. 39 Encontrei aqui um limite! O corpo não é algo simples de ser definido. De configuração múltipla e em permanente mutação, avança provocando revoltas e desejos. O corpo é um alvoroço. No sentido restrito, ele existe quando a vida está presente, em sentido amplo, ele é matéria e pulsação de energia que institui o mundo. Nos humanos, quando atendidas as necessidades básicas para o seu desenvolvimento e preservação, se coloca em movimento na construção de uma existência singular. Na morte, ganha densidade no seu repouso e se transforma58, em um processo silencioso e contínuo, de dentro para fora e vice-versa. O corpo se arquiteta em suas estruturas, formas e pulsações para se manter vivo e enlouquece nos seus limites. Figura 24 - Corpos azuis. Lápis e nanquim sobre papel, 40 x40cm, 1999. (desenho59) Fonte: acervo pessoal. Os limites são móveis e se transfiguram, o vento é um limite, a pele é um limite, o outro é um limite. Os limites se permeiam e se fundem, não é mais estar dentro ou fora, é pulsação, e nesse sentido não são obstáculos, são pausas para tomar fôlego e promover 58 Campo de estudo da medicina legal ou medicina forense, a tanatologia é a parte que se ocupa da morte e dos problemas médico-legais com ela relacionados. A literatura forense descreve como processos transformativos destrutivos do corpo a autólise, putrefação e maceração, e como processos transformativos conservadores a mumificação e a saponificação. Disponível em . Acesso em: 21/03/2018. 59 Série de desenhos selecionados pelo XXII SLAC – Salão Limeirense de Arte Contemporânea, 2000. (anexo 3 p. 146). 40 escolhas porque o corpo é reunião, encontro e abertura para inúmeras possibilidades. No entrelugar, no pulso de aproximação e distanciamento da dança e artes visuais, as sensações são impulsos criativos, pulsam na intensidade dos materiais, nas cores, nas formas, nos gestos e em cada movimento. O pulso das sensações no corpo leva a algum limite e se reinicia em recolhimento. Não é dispersão, é passagem necessária para dar impulso a outra expansão de potência: “mas, sob o duplo aspecto da determinação recíproca e da determinação completa, o limite já coincide com a própria potência.” (Deleuze, 2000, p.54). Figura 25 - S/ título. Bastão oleoso sobre papel, 35x30cm, 1998. (desenho) Fonte: acervo pessoal. A sensação no entrelugar é perfume, vibração de cor, intensidade e peso. Por vocação não parte, se conserva, habita e se alastra em fluxos, deslizamentos, escaladas e transposições pelo corpo. Vivemos o entrelugar nos acontecimentos provocados pelas sensações e nos impulsos da dança. A sensação tem uma face voltada para o sujeito (o sistema nervoso, o movimento vital, o “instinto”, o “temperamento”, todo um vocabulário comum ao naturalista e a Cézanne), e a outra face voltada para o objeto (o “fato”, o lugar, o acontecimento). Ela pode também não ter face nenhuma, ser as duas coisas indissoluvelmente, ser o estar-no-mundo como dizem os fenomenologistas: por sua vez eu me torno na sensação e alguma coisa me acontece pela sensação, um pelo outro, um no outro. (DELEUZE, 2007, p.19). 41 1.4 - Corpo três: desejos e afetos que dançam É de toda a arte que seria preciso dizer: o artista é mostrador de afectos, inventor de afectos, criador de afectos, em relação com os perceptos ou as visões que nos dá. Não é somente em sua obra que ele os cria, ele os dá para nós e nos transformamos com eles, ele nos apanha no composto. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.227). Figura 26 - S/ título. Lápis sobre papel, 35x30cm,1999. (desenho) Fonte: acervo pessoal. Em sua organização determinada (orgânica) o corpo é contido. O encaixe dos ossos nas articulações, dos braços e mãos, da clavícula e escápula, das meias com os pés, da coluna cervical com a cadeira. São relações efetivas, mas dizem pouco sobre a multiplicidade do corpo. Pleno do estar no mundo, o corpo é mais que a somatória de partes e fragmentos. Não é um conjunto com meros encaixes. Deleuze e Guattari (2004), apontam uma máquina desejante60 a fazer ligações entre as partes existentes no mundo. Com outros corpos dividimos visões de mundo e colocamos a vida em fluxo. 60 Para esse autores não existe a máquina desejante sem a máquina social, e assim, desejar é produzir realidade “Isto respira, isto aquece, isto come, isto fode. Mas que asneira ter dito isto. O que há por todas as partes são é máquinas.” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 7) 42 A vida é explosão, não pertence a ninguém, é de todos, dela que tiramos nosso substrato de entendimento. Sentimos o corpo nos instantes da vida. Deparamos uma encruzilhada, encontro de silêncios e sensações, o oco de tudo que se preenche, atmosfera de corpo que ocupa o território e se agita nos desejos, promovendo os agenciamentos que nos removem dos lugares acomodados. Figura 27 - Águas de Março. Cia Nova Dança 4,61 1999. (registro fotográfico de performance) Fonte: acervo pessoal. Esse corpo, que se faz em trilhas de sensações, comporta outras dimensões e não pode ser entendido como um volume de carne, sangue e ossos. No movimento do pensamento, desejos e emoções, o corpo se coloca em fluxo para produção de um corpo pleno. “Se o desejo produz, produz real. Se o desejo é produtor, só o pode ser de realidade e da realidade. O desejo é esse conjunto de sínteses passivas que maquinam os objetos parciais, os fluxos e os corpos, e que funcionam como unidades de produção.” (DELEUZE; GUATTARI, 2004, p. 31) 61 Performance realizada no SESC Pompéia pela Cia Nova Dança 4 e convidados. Direção Cristiane Paoli Quito. Link para a performance disponível em Acesso em: 15/07/2018. 43 Vários aspectos pulsam no corpo em movimento para viver sensação e fluxo. As sensações, como estado do corpo, não confundem porque coexistem, são originais, seguem em fluxo revelando outras possibilidades. Viver as sensações plenamente e redescobrir no corpo uma potência estonteante. O dançarino ordena as sensações, a dança lhe pertence no momento em que se realiza e se perpetua, sensação é o rastro, é aquilo que fica - marca de água que sulca a terra seca -, pulsação presente, que adere ao corpo, que se conserva como perceptos e afectos. Não são as percepções e afetos que se remetem a algo, mas uma potência que se realiza no próprio corpo. Do corpo emana e ao corpo retoma com mais intensidade. “As sensações, como perceptos, não são percepções que remeteriam a um objeto (referência): se se assemelham a algo, é uma semelhança produzida por seus próprios meios.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 216) Não se trata de se colocar no lugar do outro corpo, é ser o outro corpo! Figura 28 - Águas de Março. Cia Nova Dança 4,62 1999. (registro fotográfico de performance) Fonte: acervo pessoal. 62 Performance realizada no SESC Pompéia pela Cia Nova Dança 4 e convidados. Direção Cristiane Paoli Quito. Link para a performance disponível em Acesso em: 15/07/2018. 44 1.5 - Corpo quarto: dança-deformação Quando não tem mais lugar, o corpo é o lugar para existir! O movimento esculpe as imagens no corpo do dançarino e estabelece um elo de equilíbrio (oscilante) entre os elementos compositivos presentes. Tudo é passagem, superfície e profundidade, a imagem se ancora no corpo, dando forma e encaminhando algum entendimento para aquele que vê, e no outro corner, a dança se investe de vontades e desejos. Fazer do corpo novas esculturas, realizar gestos inacabados, pulsar intensamente em disritmia, uma aparência fora dos limites. No campo em que jogam as artes visuais e o dançar, entre a imagem e o movimento, a sensação desvia e conduz a uma rota desafiadora para a apropriação dos estados corporais e sensações que habitam o entrelugar. Quais imagens de corpo serão essas? Figura 29 - Caderno de desenho. 35x30 cm, 1997. (desenho) Fonte: acervo pessoal. 45 A impertinência de encontrar um lugar para o corpo hediondo. Movimentar a matéria arrumada, buscar aquilo que afeta e toca pelo incômodo, que nos retorce pedindo: preciso ver isso novamente! O que atrai é a possibilidade de ser torto, linha a ser definida nas descontinuidades. Lugar último do corpo que roga para ser investigado, falsa falência, dado que o corpo é construção de liberdade. ...ainda que todos os coeficientes de deformação dos corpos, e notadamente o seu alongamento, façam parte da obra. Mas no alto, lá onde o conde é recebido por Cristo, há uma liberação louca, uma total liberdade: as Figuras se elevam e se alongam, se afinam desmedidamente, fora de todo limite. (DELEUZE, 2007, p.5) Alongar e esticar os desenhos, raspar a tela para desfigurar, proceder igualmente com o corpo, com a pele, ou ainda, alavancar novos episódios para alargar as sensações. Buscar o grotesco no corpo, para ser visto, revisto, tocado e inflado de vontades e afetos. Do corpo também interessa a inconstância, a ausência de fixação e os deslizes que o levam adiante, constituindo novas sensações. “Assim como o esforço do corpo é sobre si mesmo, a deformação é estática. Todo o corpo é percorrido por um movimento intenso. Movimento deformadamente disforme, que remete a cada instante a imagem real ao corpo.” (DELEUZE, 2007, p.9). Figura 30 - Ancestralidade no Corpo - Experimentações Cênicas. Cia Oito Nova Dança,63 2011. (espetáculo de dança – captura de tela) Fonte: Bruta Flor Filmes – Vimeo. 63 Apresentação realizada na Casa Livre de Teatro em 25/09/2011. Disponível em - Acesso em: 15/07/2018. 46 Do avesso, do fluxo circulatório invertido, indicar um corpo de sensações, vazio de suas funções, em enlevo, em construção de um corpo sem órgão (CsO)64, no qual “a pele atrai-os (afetos) e impregna-se deles. Atrai-os do interior, porque ela própria deixou de ser o mapa do organismo dissolvido. Ela própria está em mutação, muda de natureza, crispa-se, dilata-se: procura tornar-se um novo mapa do organismo dissolvido” (GIL, 2005, p. 63). Superfície e profundidade que se entrelaçam, porque no corpo em dança, não se sabe onde começa uma, nem onde termina a outra. Inscrição do sentir que se instaura no jogo entre os espaços internos e externos, em que o “espaço interior é coextensivo ao espaço exterior” (GIL, 2005, p. 50). Similarmente, o fluxo de sensações está ancorado no corpo, mas não se limitado a ele na produção de sentidos; o que foi interior se revela na pele e o que era superfície se propaga na luz, no ar, no cheiro, na produção de imagens e nas intensidades do corpo. Figura 31 - Imagens de dança contemporânea. (vídeo65 - captura de tela). Fonte: site DanseDanse66. 64 Deleuze & Guattari (2004) nos contemplam com o conceito (prática) de um Corpo sem Órgão (CsO). Ideia originalmente proposta pelo poeta e dramaturgo Antonin Artaud (1896-1948), como conceito, se firma em práticas que nos levam a colocar a vida em fluxo. Por essas práticas o corpo não se resume a mera funcionalidade de cada órgão, sendo regido por outras organizações e vontades (des)organizado pelas afectos e perceptos. 65 Disponível em Acesso em: 02/07/2018. 66 Disponível em < https://www.dansedanse.ca/fr/archives> Acesso em: 23/11/2108. 47 A deformação é uma busca, não é uma imagem que chega, é passagem do tempo (profundidade) e espaço de atuação (superfície) porque desloca, ainda que minimamente, o entendimento. Na dança-deformação o corpo disforme urra intensamente, massa vibrante que impulsiona o salto, o giro, o grito. Camadas que se alastram pelo corpo feito raízes aéreas que conhecem os caminhos escuros da terra e compartilham com as folhas o vento e a chuva. Essa é a liberdade! Deformar-se para ser livre de entendimentos, para estranhar-se com as esculturas de corpos e movimentos conhecidos. Figura 32 - S/ título. Lápis e tinta acrílica sobre papel, 50x40cm, 2002. (desenho). Fonte: acervo pessoal. 1.6 - Corpo cinco: um duplo que habita a dança Em pausas, giros, quedas ou saltos, reencontramos com vigília e atenção o corpo. Com o efêmero desenho que o movimento dançado inscreve no espaço, o dançarino rascunha sua lógica. Traz à tona a profundidade e faz submergir o que foi superfície para dançar no corpo outros corpos. O dançarino, ao (in)corporar na sua performance figuras estéticas 67 , inventa 67 Deleuze & Guattari (2010) indicam que na filosofia encontramos “personagens conceituais”, que desempenham essa função de um duplo do pensamento do filósofo: “O personagem conceitual não é o representante do filósofo, é mesmo o contrário: o filósofo é somente o invólucro de seu principal personagem conceitual e de todos os outros, que são os intercessores, os verdadeiros sujeitos de sua filosofia. Os personagens conceituais são os ‘heterônimos’ do filósofo, e o nome do filósofo, o simples pseudônimo de seus personagens.” 48 possibilidades de dança, se investe de múltiplos corpos, se revela em seus duplos dançantes68. “Um corpo que se abre e se fecha, que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos, um corpo que pode ser desertado, esvaziado, roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida.” (GIL, 2005, p. 56) Corpos desterritorializados, que se reconfiguram em poéticas e se reterritorializam em seus duplos e em figuras estéticas: que são elementos gerados no plano de composição da arte e se instauram como potência criativa. “A diferença entre os personagens conceituais e as figuras estéticas consiste de início no seguinte: uns são potências de conceitos, os outros, potências de afectos e de perceptos” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 87). Figura 33 - Vermelho. 2001. (fotografia) Fonte: acervo pessoal. Mas quem são esses infinitos duplos que dançam no corpo a provocar deformações? As figuras estéticas, que operam no plano da composição69, instigam o movimento? (p. 86); “… um ato de fala em terceira pessoa, em que é sempre um personagem conceitual que diz Eu: eu penso enquanto Idiota, eu quero enquanto Zaratustra, eu danço enquanto Dionísio” (p. 87). 68 Neste momento, dei o mesmo sentido para a noção de figuras estéticas e duplos dançantes, por entender ao tratar da dança, o plano de composição Deleuze &Guattari (2010) e o espaço corpo Gil (2005), acontecem a partir e diretamente no corpo. 69 “As grandes figuras estéticas do pensamento e do romance, mas também da pintura, da escultura e da música, produzem afectos que transbordam as afecções e percepções ordinárias.” Deleuze & Guattari, 2010, p. 88). É possível perceber que os autores não fazem referência à dança, cabendo, assim, criação traduzida por 49 Uma grávida? Um animal? Um doente? Uma folha caindo? Um andarilho? Um poeta? Um louco? Incontáveis loucos andarilham entre as camadas sensíveis de um corpo, poetas em movimento de dança. O louco 70 expõe sua dança-deformação 71 no devaneio dos líquidos que se movimentam na gravidade e pulsação do corpo. Rios, riachos e córregos serpenteando e oxigenando a matéria e afetos até se largar na atmosfera em vapores e suores corporais. Figura 34 - S/ título. 2009. (fotografia) Fonte: acervo pessoal. O andarilho percorre em segundos os quilômetros do pensamento-corpo72, dança as deformações nos pedregulhos empoeirados dos acostamentos, carregando em sacolas os ossos do crânio, em profundas meditações. O poeta que toca a matéria-ar73 com suavidade e gentileza. Uma revoada de leves gestos. Vozes suaves a conduzir, com controle distraído, o fluxo de sensações e partículas de deformações que na dança se aninham. aproximação. 70 As figuras estéticas elencadas se inspiram no personagem conceitual definido por Deleuze (2010) como o sujeito que se desloca do contexto dito normal para um outro plano não totalmente reconhecido. “Sim, uma escola de esquizofrenia não seria mal. Liberar os fluxos, ir cada vez mais longe no artifício: o esquizo é alguém descodificado, desterritorializado. Dito isto, não somos responsáveis pelos contra-sensos. (DELEUZE, 2008, p. 34). Escolhi escrever acerca da figuras estética do louco, do poeta e do andarilho, por serem imagens-dança que me inspiram. 71 A noção de dança-deformação está associada à ideia dos duplos que habitam o corpo do dançarino a partir da (in)corporação de esculturas corporais e estruturas de pensamento inspiradas nas figuras estéticas. 72 O termo pensamento-corpo traz a ideia de que o duplo ganha vida com a integração consciente do corpo e do pensamento no ato da dança. 73 Por matéria-ar compreende-se os pequenos espaços de contorno do corpo, como entre os dedos, ou a distância das orelhas com os ombros, preenchido de energia e volume no ato da dança. 50 Assim como o espaço do corpo74 Gil (2005), as figuras estéticas revelam seus duplos no corpo do dançarino. São os duplos que, deslizando, dançam e se deslocam nas sensações para se reterritorializar no plano onde o dançarino é um campo imanente dele mesmo e a dança flui em acordos sonoros, corporais , mentais e espaciais. A dança é fluxo de sensações, é trânsito, passagem e prolongamento, deformação e restauração. Como água de chuva, se infiltra pelas fissuras em vários mundos. Figura 35 - S/ título.1999. (fotografia75) Fonte: acervo pessoal. 1.7 – Dança um: trânsito entre a sensação e o digital Do encontro entre as linguagens visuais e a dança há um entrelugar que pulsa abastecido de sensações. No corpo as sensações perpassam, são fios avançando em direções diversas com origem e destino. Nesse emaranhado, no qual o corpo expande suas potências, a dança gera um impulso de entendimentos, é ela que mostra algumas trilhas e interrogações. Quando se dança, se dança no lugar de quem? 74 “O bailarino vê-se dançar “como num sonho”: opõe-se assim a imagem do seu corpo à realidade. O movimento dançado recolhe o corpo sobre si, por um lado; e, por outro, projeta as suas múltiplas imagens em pontos de contemplação narcísica, pontos necessariamente fora do corpo próprio, mas que se encontram no espaço. Em que espaço, uma vez que não pode ser o espaço objetivo, e tamb´m não o espaço interior? É o espaço do corpo que fornece os pontos exteriores-interiores de contemplação” (GIL, 2005, p. 51) 75 Fotografias selecionadas para o 31° Salão de Arte Contemporânea de Santo André 2003. (anexo 4 p. 147). 51 Figura 36 - Casa Vazia.76 Núcleo de Dança Arremesso, 2015. (registro fotográfico de espetáculo de dança) Fonte: acervo pessoal. O artista dançarino, envolvido em seus movimentos e gestos, é um partícipe do fluxo de sensações que o conduz, é construção de sentidos e pulsa nos olhos de quem vê77. Encontros de corpos que se dá pela sensação. Unem-se na dança as sensações avessas, sem endereço certo, porque são caminhos no corpo e a cada momento esbarra em lembranças, vontades e desejos, criando novos significados e imagens. A sensação que se tece de afectos e perceptos se mostra na potência da obra artística e, ainda que repentinamente, indica os caminhos e lugares de acolhimento onde a dança, as artes visuais e o corpo se abrigam. 76 Concepção e criação: Marina Caron e Anderson Gouvea. 77 “Acima de tudo, entretanto, a arte penetra profundamente na vida pessoal porque, ao dar forma ao mundo, ela articula a natureza humana: sensibilidade, energia, paixão e mortalidade. Mais do que qualquer outra coisa na experiência, as artes moldam nossa vida real de sentimento (LANGER, 2003, p. 416). 52 Figura 37 - trapiche. Cia Oito Nova Dança, 2004. (registro fotográfico de espetáculo de dança) Fonte: Acervo pessoal. Foto: Gil Grossi. Repleto de sensações, o corpo que se movimenta no fluxo do ato de criação em desejos, deságua nos rios desassossegados que irrigam a dança com texturas, formas e cores de um vermelho profundo e sanguinolento, investe contra os limites e não se estranha frente as incorreções e deformações que lhe acometem. Das vivências no entrelugar, no fluxo de sensações que se conjugam no corpo, a dança se faz plural de forças e sentidos na busca por outras possibilidades de criação e expressão. Na procura por outros olhares para o corpo, no encontro entre a dança e o envolvimento com a imagem digital, direciono um olhar para o ambiente da cibercultura. 53 1.8 - Dança dois: escavar o corpo no entrelugar da dança digital Figura 38 - Vídeo Experimental - grupo 54. Cia Oito Nova Dança, Raimo Benedetti, Gabriela Greeb e Kathy Hinde.78 2010. (vídeo – captura de tela) Fonte: site studiointro79. O corpo que dança próximo dos dados digitais se desloca dentro dos incertos contornos ásperos e serrilhados da imagem no dígito80. Campo revolto, espaço revoado e difuso, território das imagens digitais, que desterritorializam o corpo nas falhas, pixels81 estourados, na cor saturada, no desfoco e reterritorializam em novas imagens e sensações. Devir-corpo digital82? 78 Disponível em: < https://vimeo.com/33217333> Acesso em: 12/12/2018. 79 Disponível em: acesso em: 12/12/2018. 80 Cabe lembrar que outra maneira de aproximação entre dança e cibercultura acontece por meio dos costumes e teorias. 81 O pixel é a menor unidade de uma imagem digital. O termo vem da contração da expressão picture- element (“elemento da imagem”, em inglês). A cor de cada pixel é fruto da combinação de três cores básicas: vermelha, verde e azul. Cada uma dessas três cores possui 256 tonalidades, da mais clara à mais escura, que, combinadas, geram mais de 16 milhões de possibilidades de cores. Disponível em Acesso em: 03/01/2019. 82 Referência à noção de que o corpo humano encontra-se em um processo de fusão com as máquinas digitais, seja por próteses, extensões, drogas que aprimoram as capacidades sensoriais humanas ou pelo compartilhamento de saberes humanos com robôs de inteligência artificial. Inspiração para um corpo paradoxal que surge na relação com a tecnologias: “Um corpo humano porque pode devir animal, devir mineral, vegetal, devir atmosfera, buraco, oceano, devir puro movimento. Em suma um corpo paradoxal.” (GIL, 2005, p.56) 54 Qual sensação é essa que habita o corpo na dança digital? Consistirá em captura? Fuga? Deslocamento? Imerso nos processos criativos da Cia Oito Nova Dança, que apostava na fusão de linguagens para produzir trabalhos artísticos de dança contemporânea, me aproximei da imagem digital. Figura 39 - Registro fotográfico do processo de criação do espetáculo Devoração. Cia Oito Nova Dança, 2009. Fonte: acervo pessoal. No embate com a maquinaria que alavanca os referenciais tecnológicos, a dança é sensação perene no corpo e escorre no calor da pele pixel, na retina de luz, nos fios de cabelos serrilhados. No entroncamento de possibilidades poéticas e artísticas que surgem nos processos investigativos de dança, o corpo que um dia pesquei dentro de mim83 fisgou e me lançou para o ambiente digital com o despertar das possibilidades corporais que o treinamento e a troca com os outros bailarinos proporcionam. 83 Refiro-me ao corpo que é revelado na (in)corporação da dança. O corpo ágil, flexível e disponível para o movimento, mas também o conhecimento da mecânica do corpo, cadeias musculares, estruturas ósseas e fluídos corporais entre outras descobertas. 55 Figura 40 – Pianíssimo.84 Cia Oito Nova Dança, 2010. (espetáculo de dança – captura de tela) Fonte: site Cia Oito Nova Dança. Com a vontade de encontrar resultados imagéticos distintos para a dança e ampliar a visualidade do corpo, o uso da imagem digital se tornou constante. Projeções em tempo real, fotografia e a videografia digital passaram a ser capital nos meus atos de criação, transformando o ambiente artístico e o olhar para o movimento dançado, atiçando questionamentos acerca da relação entre a tecnologia digital e a dança. Entretanto, essa experiência de dança com os meios digitais gerou uma zona de incerteza, um vácuo. O que é sensação e corpo na dança no ambiente digital? A dança no corpo disforme, projetado, impreciso, desvanecendo no espaço digital anuncia um outro lote de sensações? Se sim, quais sensações serão essas? Paradoxo de escavar o corpo da dança nos contornos da cibercultura. Um entrelugar, espaço crítico, em construção, que aguça dilemas e enfrentamentos de várias ordens, em especial do corpo, em temas como: biogenética, sexo virtual, ciberbullying, robotização e outros acontecimentos que plasmam a vida nessa aurora de uma tecnologia digital. 84 Apresentação realizada no SESC/SP Pinheiros - Disponível em Acesso em: 23/07/2018. 56 Figura 41 - Deriva. Criação: Ciro Godoy, José Romero e Luciano Bussab. 2007. (videodança85 - captura de tela) Fonte: acervo pessoal. A transformação que acontece na dança na relação com a tecnologia digital pode ser abordada de vários ângulos86, entretanto, ao investigar a partir da noção de sensação, encontramos uma encruzilhada, posto que a dança é presentificação na potencia do gesto, na força do movimento, e para retê-la como matéria, memória e sentidos, usualmente, dançarino e público compartilham do mesmo espaço. A dança cênica é fruída e experienciada a partir do seu encontro com o espectador no espaço que lhe foi designado. Este espaço que pode ser o do encontro, do relacional, da contemplação participativa do olhar do espectador alocado nas cadeiras do teatro, das arquibancadas de uma arena, ou mesmo no telhado de um edifício. (FARIA, 2018, p.136) 85 Videodanca realizado por Ciro Godoy, José Romero e Luciano Bussab. Em uma videodança a modificação digital do gesto dançado gera outras sensações, outra ilusão da dança. “Gesto é a abstração básica pela qual a ilusão da dança é efetuada e organizada.” (LANGER, 2003, p.183). 86 É possível tocar esse assunto do ponto de vista da estética, da difusão, da criação, entre outras abordagens. 57 Na outra ponta, a tecnologia digital atraí a dança no corpo para um devir corpo-digital que se presentifica na captura da imagem em pixels, nos aplicativos para dança, extensões corporais, projeções, dados digitais e literatura científica. Nesse ambiente tecnológico, de um corpo paradoxal na dança, onde subsiste as sensações e o corpo? Figura 42 - Body, Body, On The Wall.87 Direção: Jan Fabre e Wim Vandekeybus. 1997. (videodança – captura de tela) Fonte: Rezonans Art –You Tube. Na continuação deste estudo, antes de aprofundar a reflexão acerca do paradoxo88 na relação entre dança e tecnologia digital, apresento um capítulo que contempla autores e linhas de pensamento acerca da cibercultura e destaco os estudos de dança na cultura digital com a intenção de recolher subsídios que ajudem a refletir acerca do paradoxo no corpo que dança nos limites da cibercultura. 87 Disponível em Acesso em: 20/01/2019. 88 Esse tema é explorado no capítulo três deste estudo.. 58 2 - MODULAÇÕES DA CIBERCULTURA Neste capítulo, apoiado no conteúdo teórico recolhido a partir de um estudo do estado atual89 realizado na internet, disserto acerca da cibercultura como um acontecimento em transformação e variável, com faculdade de produzir e distribuir conteúdos culturais em escala global a partir da interação entre usuários e dispositivos eletrônicos digitais inteligentes90. Ao final, arquiteto pontes entre a cibercultura e a dança com a intenção de pensar o corpo que se projeta neste liame. Como inspiração inicial deste capítulo elenco a questão: como o corpo se manifesta na relação entre dança e cibercultura? Figura 43 - Sunshine in my thoat. Rosa Menkman.91 s.d. (glitch art92/glitch vídeo – captura de tela) Fonte: site de Rosa Menkman.93 89 A integra deste estudo encontra-se em apêndice na p. 103. 90 Nos meios científicos e estudos de robótica a utilização robôs comandados por inteligência artificial e aptos a interagir com humanos e pelas redes digitais já é uma realidade. Disponível em: Acesso em: 05/01/2019. 91 Rose Menkman (Amsterdãn -1983) Teórica de arte, curadora e artista visual especializada em Ela investiga a compressão de vídeo, feedback e falhas, usando sua exploração para gerar obras de arte. Publicou em 2011 “Glitch Studies Manifesto”. Disponível em: Acesso em: 15/12/2018. 92 Glitch art : arte realizada a partir de falhas em dispositivos digitais. 59 A revolução microeletrônica e telecomunicacional, iniciada nos anos 1960 e 1970, que se intensificou após os anos 2000, promove mudanças em um ritmo frenético, instigando filósofos, sociólogos, cientistas e artistas a pensar acerca do momento atual. Se pelas redes digitais de comunicação e internet é possível organizar minorias, denunciar sistemas corruptos, incitar movimentos sociais, por outro lado, ideologias instigam práticas não democráticas e avolumam-se nichos mercadológicos que exploram de maneira voraz o potencial de consumo das plataformas digitais. Ponderar visões a propósito do futuro da internet; reconhecer um modelo de comunicação baseado na troca de imagens e textos94 curtos; debater as ideologias que a rede digital oculta; compreender a diversidade cultural de hoje, entre tantas outras questões, são alguns dos desafios atuais. As reflexões a respeito da cibercultura são plurais, indicam o despontar de uma sociedade evoluída, pautada no coletivismo, em que todos, de alguma maneira, colaboram para o seu aprimoramento, mas também anunciam um modelo social estratificado, baseado no controle e vigilância. Embora seja incerto dimensionar as mudanças em curso, no final do século XX, a literatura95 prenunciava transformações suscitadas pelas tecnologias de comunicação como efeito da interlocução homem-máquina e, em especial, da crescente utilização de computadores no cotidiano das pessoas. Nesse contexto, Virilio (1996) questiona: busca-se, com os avanços científicos, menos o aprimoramento humano e mais uma ciência de guerra? Baudrillard (2001) problematiza o que a instantaneidade – que domina o mundo virtual – altera na realidade? Em complemento, Lévy (2001) pergunta: quais serão as implicações culturais das novas tecnologias? Estas indagações ressoam e indicam que estamos trilhando para compreender as linhas de força da cibercultura. Certo é que, dentro desse cenário, a cibercultura, ao transformar os modos como 93 Disponível em Acesso em: 15/12/2018. 94 Esse tema é abordado por Norval Baitello Junior no livro A Era da Iconofagia (2014). 95 Pensadores, teóricos e estudiosos dos fenômenos da cibercultura que terão seus pontos de vista debatidos neste capítulo. 60 nos relacionamos e nos organizamos96 , com suas inovações e predicados, modifica a sociedade e também a forma como fazemos e pensamos a dança e o corpo. Figura 44 - S/ título.97 Alex Efimoff.98 s.d. (glitch art/glitch photography) Fonte: www.flickr.com.99 Razoável é reconhecer que estão em florescimento teorias que ajudarão a compreender a cibercultura e, quiçá, à partir da análise crítica desse material, antever as mudanças em curso, em especial no campo da arte e da cultura. Entendendo que ampliar os estudos acerca da cibercultura é central para refletir a produção cultural e artística, este estudo tem a intenção de alinhavar parte do pensamento que examina a relação entre dança, corpo e cibercultura, e trazer questionamentos a fim de suscitar olhares instigantes para o corpo que dança nos limites da cibercultura. Isso nos motiva a perguntar: como o corpo que dança se insere nesse cenário em transformação? Computadores, celulares e dispositivos digitais em geral, aliados ao desenvolvimento 96 Segundo Pierre Lévy (2001), o ciberespaço e a cibercultura são sistemas sem ordem anterior que se organizam em um modelo de caos. “É um universo indeterminado, não é neutro porque mexe na política, economia e nos moldes sociais, mas sem totalidade. Quanto mais universal (extenso, interconectado, interativo), menos totalizável.” (p. 113 e p. 122) 97 Disponível em: Acesso em: 18/11/2018. 98 Alex Efimoff (Sakhalin – 1978). Fotógrafo e escultor russo, radicado em Wellington (NZ). Disponível em: Acesso em: 06/01/2019. 99 Disponível em Acesso em:06/01/2019. 61 da internet, deixam mais complexo o fluxo de informações e conhecimento. Nesse espaço em transformação permanente, corpo e dança recebem múltiplas compreensões, conforme constatado no estudo do estado atual (em apêndice) no qual distintos posicionamentos teóricos se sobressaíram100. Com o mesmo estudo, foi possível reconhecer um conjunto de teóricos que passo a utilizar para a reflexão apresentada nesta pesquisa. 2.1 -Pensando a Cibercultura: teóricos O conjunto de teóricos recrutados indica que há aproximadamente três décadas uma nova ordem mundial começou a se configurar com a informatização, acarretando outras formas de comunicação e interação em amplitude global. Figura 45 - S/ título.101 Alex Efimoff. s.d. (glitch art/glitch photography) Fonte: Em seu discurso crítico ao modelo tecnológico digital, Paul Virilio (1994, 1996, 1999) aborda a arquitetura, espaços públicos e a influência das tecnologias da comunicação no momento atual. Projeta que caminhamos para uma relação de submissão às máquinas inteligentes que nos circundam, imprime uma reflexão corrosiva acerca dos interesses científicos e tecnológicos, denotando que as divisões geográficas e os espaços físicos serão suplantados pelas máquinas computacionais, posto que as fronteiras entre as nações com base 100 Constatei três posicionamentos principais: um trata do corpo-pós humano, que recorre a um estatuto corporal múltiplo e mutante, em fusão com proteses, extensões, acoplamentos e outras formas de hibridizações entre o corpo e a máquina. Outra abordagem é o corpo virtualizado, que aflora em manifestações de dança virtual como em uma videodança ou dança telemática. Por fim os estudos que abordam a relação entre dança e cibercultura como sistemas sígnicos, manifestos na tecnologia e informação digital. 101