UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS IGOR ALEXANDER WEBEL RAMOS REPRESENTAÇÕES DO FOLCLORE ARGENTINO E IDENTIDADE NACIONAL EM JUAN ALFONSO CARRIZO E RICARDO ROJAS (1917-1939) FRANCA 2022 IGOR ALEXANDER WEBEL RAMOS REPRESENTAÇÕES DO FOLCLORE ARGENTINO E IDENTIDADE NACIONAL EM JUAN ALFONSO CARRIZO E RICARDO ROJAS (1917-1939) Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História da Universidade Estadual Paulista (PPGH/UNESP), como requisito para a obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História e Cultura Social Orientadora: Prof.ª Dr.ª Tânia da Costa Garcia FRANCA 2022 R175r Ramos, Igor Alexander Webel Representações do folclore argentino e identidade nacional em Juan Alfonso Carrizo e Ricardo Rojas (1917-1939) / Igor Alexander Webel Ramos. -- Franca, 2022 132 p. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Franca Orientadora: Tânia da Costa Garcia 1. História da América Latina. 2. Argentina. 3. Folclore. 4. Cultura popular. 5. Identidade nacional. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Franca. Dados fornecidos pelo autor(a). Essa ficha não pode ser modificada. IGOR ALEXANDER WEBEL RAMOS REPRESENTAÇÕES DO FOLCLORE ARGENTINO E IDENTIDADE NACIONAL EM JUAN ALFONSO CARRIZO E RICARDO ROJAS (1917-1939) Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, campus de Franca, como requisito para a obtenção do título de Mestre em História. Área de concentração: História e Cultura Social BANCA EXAMINADORA Orientador: _______________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Tânia da Costa Garcia, UNESP Membro Titular:____________________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Gabriela Pellegrino Soares, USP Membro Titular:____________________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Alberto Sampaio Barbosa, UNESP Franca, ___ de________ de 2022 AGRADECIMENTOS Agradeço à minha orientadora, Prof.ª Dr.ª Tânia da Costa Garcia, responsável pelo meu primeiro contato com o tema, pela paciência, atenção e contribuições que fizeram esse trabalho possível. À Prof.ª Dr.ª Gabriela Pellegrino Soares e ao Prof. Dr. José Luis Bendicho Beired, cujas considerações apresentadas na banca de qualificação contribuíram sobremaneira para o andamento da dissertação. À UNESP e seus funcionários, principalmente Maísa e Adriana, por toda ajuda com os tramites burocráticos. Aos meus pais, Rita e Sebastião, pelo suporte emocional, pelo incentivo aos estudos e por todos os conselhos que me acompanharam durante minha trajetória. À minha irmã, Nathalia, pela amizade, pelas conversas e por ser um exemplo de dedicação. Aos meus padrinhos, por todos os mimos e apoio durante estes anos. Aos meus avós, em especial ao senhor Benedito, pela companhia e cuidado durante os primeiros anos do ensino fundamental. À minha namorada, Ana Paula, que me acompanha desde 2016 e esteve presente em todo o processo envolvido neste trabalho. Obrigado pela compreensão, carinho e companheirismo durante todos os momentos, sejam eles felizes ou não. Aos amigos de morada e agregados, especialmente Hiago, Gabriel, Leonardo, Frederico, Fernando e Alexandre, por todos os momentos de descontração, ideias estúpidas e risadas. Às amizades de Barretos que carrego desde a infância: Alex, Bruno, Gabriel, Renan, Rafael e Idalcino. Aos colegas de docência e alunos do Cursinho Popular Colégio Champagnat, a minha primeira experiência com a profissão não poderia ter sido melhor. Por fim, agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) (processo nº 2020/10468-3), que financiou esta pesquisa com uma bolsa regular de mestrado no país entre 01/09/2021 e 30/09/2022. O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — Brasil (CAPES) — Código de Financiamento 001, entre 01/10/2020 e 31/08/2021. RAMOS, Igor Alexander Webel. Representações do folclore argentino e identidade nacional em Juan Alfonso Carrizo e Ricardo Rojas (1917-1939). 2022. 131p. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Franca, 2022. RESUMO A aproximação do primeiro centenário da revolução de Maio de 1810, alinhado ao contexto conturbado do início do século XX, trouxe consigo a necessidade de repensar a identidade nacional argentina. Tendo como propósito manter ou retomar antigas hegemonias, grupos políticos da capital e do interior, com interesses conflitantes e atravessados pelo paradigma ‘civilização ou barbárie’, enxergaram no campo da folclorologia a possibilidade de propagar representações identitárias em busca de legitimação simbólica. Na década de 1920, em um momento no qual o avanço das políticas encabeçadas pela União Cívica Radical significa a perda de capital econômico e de posições no sistema político para os industriais açucareiros da província de Tucumán, Juan Alfonso Carrizo, um professor da província de Catamarca, publica o livro “Antiguos Cantos Populares Argentinos” (1926), no qual apresenta uma argentinidade unicamente hispânica e católica, alinhando-se ideologicamente à Alberto Rougès e Ernesto Padilla, antigos nomes da política tucumana que irão ajudá-lo em sua trajetória como estudioso do folclore. A partir das obras e cartas escritas por Ricardo Rojas e Alfonso Carrizo e do epistolário de Alberto Rougès e de Ernesto Padilla, nosso propósito é analisar os espelhamentos entre reconfigurações da identidade argentina e os embates ideológicos travados entre os grupos em disputa pelo poder, mapeando as redes de sociabilidade que proporcionaram a Carrizo a inserção em um campo intelectual em processo de consolidação. Palavras-chave: Folclore; Cultura popular; Identidade nacional; Juan Alfonso Carrizo; Ricardo Rojas. RAMOS, Igor Alexander Webel. Representations of Argentine folklore and national identity in Juan Alfonso Carrizo e Ricardo Rojas (1917-1939). 2022. 131p. Dissertation (Master in History) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2022. ABSTRACT The approach of the first centenary of 1810's May revolution, aligned with the troubled context of the early twentieth century, brought the need of rethinking the Argentine national identity. With a purpose of keeping or reassuring old hegemonies, between conflicting interests and intertwined by the civilization or barbarism paradigm, both countryside and capital political groups saw in a folkloric field the possibility of propagating identity representations in search of a symbolic legitimation. In the 1920s, at a time which the advance of policies led by The Radical Civic Union meant the loss of economic capital and positions in the political system for the Tucumán sugar industrialists, Juan Alfonso Carrizo, a professor from the province of Catamarca, published the book “Antiguos Cantos Populares Argentinos” (1926), in which he uniquely presented Hispanic and Catholic Argentinian traits, ideologically aligning himself with Alberto Rougès and Ernesto Padilla, former names of Tucuman politics that would help him in his trajectory as a folklore scholar. Based on works and letters written by Ricardo Rojas and Alfonso Carrizo, along with Alberto Rougès' and Ernesto Padilla's epistolary, our purpose is to analyze the mirroring between reconfigurations of Argentinian identity and the ideological clashes waged between power rivalry groups, charting sociability networks that provided Carrizo his insertion in an intellectual field amidst a consolidation process. Keywords: Folklore; Popular culture; National identity; Alfonso Carrizo; Ricardo Rojas. RAMOS, Igor Alexander Webel. Representaciones del folklore argentino y de la identidad nacional en Juan Alfonso Carrizo e Ricardo Rojas (1917-1939). 2022. 131p. Disertación (Maestría en Historia) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Franca, 2022. RESUMEN El acercamiento del primer centenario de la revolución de mayo de 1810, alineado con el contexto turbulento de principios del siglo XX, trajo consigo la necesidad de repensar la identidad nacional argentina. Teniendo como propósito mantener o retomar antiguas hegemonías, grupos políticos de la capital y del interior, con intereses conflictivos y atravesados por el paradigma de la civilización o barbarie, vieron en el campo del folklore la posibilidad de propagar representaciones identitarias en busca de legitimación simbólica. En la década de 1920, en un momento en que el avance de las políticas encabezadas por la Unión Cívica Radical significa la pérdida de capital económico y de posiciones en el sistema político para los industriales azucareros de la provincia de Tucumán, Juan Alfonso Carrizo, un profesor de la provincia de Catamarca, publica el libro “Antiguos Cantos Populares Argentinos”, presentando una identidad argentina únicamente hispana y católica, alineándose ideológicamente con Alberto Rougès y Ernesto Padilla, antiguos nombres de la política tucumana que le ayudarán en su trayectoria como estudioso del folklore. A partir de las obras y cartas escritas por Ricardo Rojas y Alfonso Carrizo y del epistolario de Alberto Rougès y de Ernesto Padilla, nuestro propósito es analizar los espejismos entre reconfiguraciones de la identidad argentina y los embates ideológicos trabados entre los grupos en disputa por el poder, mapeando las redes de sociabilidad que proporcionaron a Carrizo su inserción en un campo intelectual en proceso de consolidación. Palabras clave: Folklore; Cultura popular; Identidad Nacional; Alfonso Carrizo; Ricardo Rojas. SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 9 CAPÍTULO 1. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E A DESCRENÇA NO PROGRESSO: FORMULAÇÕES SOBRE UM NOVO NACIONAL. ............................. 22 1.1. Civilização versus barbárie: um novo olhar para um antigo problema. ............... 22 1.2. Alfonso Carrizo, Ernesto Padilla e a modernidade portenha. .................................. 37 1.3. A Encuesta de 1921 e a construção de um campo dedicado ao folclore. ................ 42 CAPÍTULO 2 – O FOLCLORE TUCUMANO: UMA RESPOSTA CONSERVADORA. .................................................................................................................................................. 51 2.1. Indústria açucareira e política local. ............................................................................... 51 2.2. O fim da Ordem Conservadora: política e cultura nos governos radicais ............ 63 2.3. O Cancionero de Catamarca: a reação provincial frente às políticas radicais. ... 70 CAPÍTULO 3 - A DÉCADA DE 1930 E A DISPUTA EM TORNO DO FOLCLORE . 84 3.1. União Cívica Radical e argentinidade: El radicalismo de mañana de Ricardo Rojas ............................................................................................................................................... 84 3.2. Alfonso Carrizo e os Cancioneros da década de 1930. .............................................. 102 3.3. Educación y Tradición: a cultura hispânica em Tucumán e a crise na educação. ........................................................................................................................................................ 113 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 123 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 126 Fontes ........................................................................................................................................... 126 Bibliografia ................................................................................................................................. 129 9 INTRODUÇÃO Na Argentina, os projetos acerca da construção do Estado Nacional são vastos, e a relação com o mundo rural e a cultura camponesa varia de acordo com o momento em que são mobilizados. A historiadora Maria Lígia Prado destaca a dualidade proposta por Domingo Faustino Sarmiento no livro Facundo ou Civilização e Barbárie, de 1845, no qual o autor busca atrelar a barbárie ao campo e o progresso à cidade1. Com a intenção de erradicar o atraso, as elites dirigentes do período enxergam no imigrante europeu fixado na urbe a possibilidade de iniciar um processo civilizatório, fortalecer o Estado e as instituições argentinas. O século XIX também marca o interesse dos homens de letras pela cultura popular. Após um longo período de repressão por parte da igreja, do Estado-Nação, e da busca pela racionalidade e universalidade iluminista, o encantamento pelo diferente e pelo desconhecido desperta novamente a atenção dos letrados. Um sintoma dessa retomada é o surgimento de um novo tipo de intelectual: o antiquário2. Renato Ortiz destaca a influência do pensamento de Johann Herder e do romantismo alemão nessa mudança, e mostra que, apesar do olhar diferenciado, o que chama a atenção desses estudiosos não são aspectos concretos da vida das classes populares, mas “sua idealização através da noção de povo3”. Essa distinção é vital para nosso estudo, pois, desde então, a idealização das práticas da população campesina é utilizada para designar o que seria o legítimo folclore4. Os primeiros estudos sobre esse tema na Argentina estão localizados nas últimas décadas século XIX, tendo como precursor Samuel Lafone Quevedo (1835-1920), autor de cartas públicas no jornal La Nación entre 1883 e 1885, nas quais trata de “costumes, contos e anedotas tradicionais da província de Catamarca, recolhidas diretamente da boca do povo5”. A esse primeiro olhar para a cultura popular, somam-se também as iniciativas de Adán Quiroga, Eric Boman (1867-1924) e Juan B. Ambrosetti (1865-1917), cujos trabalhos seguem pressupostos semelhantes ao de Quevedo, mas em províncias diferentes. 1 PRADO, Maria Ligia Coelho. América Latina do século XIX: tramas telas e textos. São Paulo: EDUSP, 2004, p.161. 2 ORTIZ, Renato. Românticos e Folcloristas: cultura popular. São Paulo: Ed. Olho d’água, 1993, p.12. 3 Idem, p.26. 4 Kaliman entende folclore como “uma apropriação de um certo conjunto de práticas populares por parte dos setores intelectuais das sociedades nacionais para acomodá-los e interpretá-los em função de suas próprias categorias e suas próprias necessidades históricas” [2004, p.27], tradução do autor. 5 BLACHE, Marta. Folklore y Nacionalismo en la Argentina: su vinculación de origen y su desvinculación actual. In: Runa: Archivo para las ciencias del hombre. v.20, nº.1, p.69-89, 1992, p.75, tradução do autor. 10 Adentrando o século XX, outras pesquisas sobre esse tema continuam a surgir, mas seus condutores já não contavam com a mesma capacitação de seus antecessores. O folclore passou a ser objeto de estudos de escritores, historiadores, advogados, militares e descendentes de famílias das elites provinciais que não contavam com os “instrumentos adequados para recolhê-lo e analisá-lo6”. Esses estudiosos, por sua vez, voltaram seu olhar para os habitantes do interior das províncias que não tinham contato com o cosmopolitismo de Buenos Aires e encontraram, nessa população campesina, “o reservatório da essência das comunidades nacionais7”. Nessa perspectiva, exclui-se a cultura indígena, vista como objeto de estudo da arqueologia, uma vez que aqueles que a compartilhavam eram considerados como vencidos pela colonização e, portanto, haviam deixado de existir. A contribuição desses povos para a formação da argentina era considerada apenas a partir da mestiçagem de suas manifestações culturais com as de origem hispânica8. Os estudiosos que se dedicavam a esse tema buscam repensar a dualidade apresentada por Sarmiento tendo em vista o contexto conturbado pelo qual passavam. A complexidade social trazida pela modernidade9 e a circulação de ideologias ligadas à esquerda política, resultado da política imigrantista, foram geradoras de grandes tensões devido às “demandas e requisitos diversos, geralmente expressos de forma violenta, proveniente dos distintos atores que iam se definindo na medida em que a sociedade se estabilizava e diversificava10”. Soma- se a isso os eventos desencadeados pela Primeira Guerra Mundial, que abrem espaço para o questionamento das ideias advindas da Europa, entre eles a noção de que a nação está fundamentada em critérios liberais e universalistas. Após esses acontecimentos, as questões políticas passam a ocupar papel secundário nos escritos dos intelectuais latino-americanos, e a cultura se torna peça central nas formulações sobre o que constitui o nacional11. É também na década de 1910 que a política argentina toma caminhos diferentes, em grande parte devido à lei Saénz Peña, de 1912, que estabelece o direito ao voto secreto e obrigatório aos homens argentinos. Nas eleições seguintes, graças às transformações sociais e a ampliação dos contemplados pelo direito ao sufrágio, chega ao fim o que a historiografia 6 BLACHE, Marta. Folklore y Nacionalismo en la Argentina: su vinculación de origen y su desvinculación actual. In: Runa: Archivo para las ciencias del hombre. v.20, nº.1, p.69-89, 1992, p. 77, tradução do autor. 7 GARCIA, Tânia da Costa. Do Folclore à Militância: a canção latino-americana no Século XX. São Paulo: Letra e Voz, 2021, p.50. 8 Ibidem, p. 53. 9 Koselleck define a modernidade como um “tempo de transição” [2006, p.303], em que o presente é visto como tempo de construção. 10 ROMERO, Luís Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001, p.31, tradução do autor. 11 FUNES, Patrícia. Salvar la Nación: intelectuales, cultura y politica en los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2006, p.71, tradução do autor. 11 conhece como Ordem Conservadora12. Em 1916, Hipolito Yrigoyen, candidato pelo partido União Civíca Radical, um ávido critico das oligarquias13, é eleito presidente. Segundo Vitor Néia, o “desejo de maior participação política contribuiu para aproximar a União Cívica Radical dos sindicatos, mesmo que a maioria dos trabalhadores orbitasse em torno do anarquismo, do Partido Socialista e, posteriormente, do Partido Comunista14”. De acordo com Gabriela Pellegrino, “os anos de governo radical (1916-1930) abriram espaço político para setores populares criollos e filhos de imigrantes que queriam integrar-se à vida política nacional15” Vendo sua hegemonia ameaçada, grupos interessados na manutenção de seu poder político e econômico necessitavam repensar as representações da identidade nacional de forma que essas atuassem a seu favor e legitimassem suas ações e posições privilegiadas dentro do Estado. Essa necessidade foi atendida a partir de alianças entre o poder público e intelectuais de interesses semelhantes16. Tal alinhamento era benéfico para ambos, tanto para a oligarquia, que se via ameaçada pelos desdobramentos do processo de urbanização e as novas demandas sociais e políticas, quanto para os escritores, que estavam em busca da profissionalização de sua atividade. Entretanto, anterior ao olhar desses setores para a cultura camponesa e suas práticas, os folhetins gauchescos, surgidos na segunda metade do século XIX, já abordavam muitos dos temas tratados pelos intelectuais do século XX, como a exaltação do campo e dos costumes rurais. O criollo17, muitas vezes foi representado nessa vertente literária pela figura do gaucho, um “antigo cavaleiro mestiço18”. Entre aqueles que se dedicaram ao estudo dessa literatura, Ricardo Rojas (1882-1957), escritor natural de Sán Miguel de Tucumán, foi um dos que obteve maior reconhecimento. Apesar de não considerar a contribuição indígena na formação da nação de forma isolada, mas 12 Período delimitado entre 1880 e 1916 caracterizado pela sucessiva eleição de presidentes do Partido Autonomista Nacional (PAN), cujos membros eram participantes da geração de 1880 ou influenciados por seu pensamento liberal. 13 Seleto grupo de pessoas cuja família detém terras desde o período colonial. 14 NEIA, Vitor Hugo. A Encuesta Nacional del Folklore de 1921: cultura popular e nacionalismo argentino. 2016. 235 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016, p.38. 15 PELLEGRINO, Gabriela Soares. Monteiro Lobato, Juan P. Ramos e o papel dos inquéritos folclóricos na formação cultural e política da nação. In: Varia Historia, Vol. 31, núm.56, pp. 423- 448, 2015, p. 429. Disponível em: htps://www.redalyc.org/articulo.oa?id=3844/384441899006. Acesso: 15 de Fevereiro de 2021. 16 CHEIN, Diego José. Escritores y estado em el centenario: apogeo y dispersion de la literatura nativista argentina. In: Revista Chilena de Literatura. Ñuñua, nº. 77, 2010, p.52, tradução do autor. 17 Segundo Santiago, o termo criollo não conta com uma precisão etimológica, entretanto, “na Argentina decimônica, o criollo peculiar era o rural” (2010, p.200). 18 SANTIAGO, Javier Sanchez. El aporte del “criollismo” a la forja de la identidad nacional argentina. In: Tinkuy, n.12, 2010, p.145, tradução do autor. 12 sim abordá-la a partir da concepção de mestiçagem, Rojas é um grande defensor da importância das culturas pré-colombianas para a construção da Argentina, repudiando qualquer ideia que aponte para a superioridade da Europa sobre a América19. A partir de contato com intelectuais indigenistas peruanos, o escritor argentino visa, através das províncias do Noroeste, estabelecer conexões entre o indígena de seu país e o Império Inca. Sua relação com esses intelectuais ia além da mera concordância nesta questão, pois o intercâmbio de livros e ideias entre o argentino e os peruanos Luis Eduardo Valcárvel Vizcarra e José Uriel García ocorreram com frequência nas décadas de 1920 e 193020. O objetivo do intelectual tucumano era fazer com que sua obra atingisse as camadas médias de seu país, estabelecendo as províncias do Noroeste como reservatórios da identidade nacional. A partir de seu lugar social – um homem natural de Tucumán que se mudou para a capital – considerava-se capaz de fazer a ponte da cultura interiorana com o cosmopolitismo de Buenos Aires. Contudo, no ímpeto de compreender e sistematizar a literatura nacional, Rojas e demais escritores envolvidos nessa empreitada acabam por privilegiar personagens livrescos21, que contemplam um gaucho tradicional, ao abordar a literatura gauchesca. Essa escolha deixa de lado os aspectos modernos dos personagens presentes nos folhetins de mesma temática. Ao privilegiar os aspectos tradicionais desses personagens, o tucumano “acaba oferecendo sentido à relação ‘nação’ e ‘modernidade’ segundo seus próprios ideais22”, sendo esses os temores frente à erosão de uma antiga ordem ameaçada pelos imigrantes, o conflito social e o cosmopolitismo23. Outro ponto de destaque na carreira do autor encontra-se em sua atuação na esfera educacional, onde trabalhou principalmente na inserção de símbolos da tradição nacional e da cultura gauchesca nas escolas. Atuou também, acompanhado de Juan Pedro Ramos, na primeira compilação do folclore argentino, através da Encuesta Nacional del Folklore de 1921. Consolidando o pensamento de que a verdadeira cultura argentina se encontrava 19 FERRÁS, Graciela. Ricardo Rojas: nacionalismo, imigración y democracia. Buenos Aires: UEDEBA, 2017, p.102, tradução do autor. 20 MAILHE, Alejandra. Ricardo Rojas: viaje al interior, la cultura popular y el inconsciente. In: Anclajes, v. 21, n° 1, janeiro-abril 2017, pp. 21-42, p.35, tradução do autor. 21 Um grande exemplo são as constantes menções ao poema El Gaucho Martin Fierro (1872) de José Hernandez (1834-1886). 22 MINELLI, Ivia. La Tradición se Apea: Revistas Criollas e Intelectualidade Criollista na Argentina (Final do século XIX – Início do XX). 2018. 208 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2018, p.33. 23 FUNES, Patricia. Leer versos com los ojos de la historia. Literatura y nacion en Ricardo Rojas y Jorge Luis Borges. História [online], vol.22, nº2, 2003, p. 109. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101- 90742003000200006&script=sci_abstract&tlng=es Acesso em: 10/09/2022. 13 distante das cidades, o projeto previa a coleta, realizada pelos professores das escolas provinciais, da cultura de tradição oral passada de geração em geração24. Assiste-se, assim, a um crescente interesse pela cultura popular camponesa que passa a ser considerada importante peça na construção do folclore nacional. Nos anos seguintes, as recompilações tornam-se frequentes e, de acordo com os escritos de Kaliman: se destaca a de Juan Alfonso Carrizo, quem, com o apoio dos membros proeminentes da oligarquia tucumana, deu à luz a uma série de monumentais cancioneiros de poesia popular recolhida nas províncias do Noroeste argentino (exceto Santiago del Estero, onde tal obra foi realizada por Orestes di Lullo)25. Apesar do tamanho de sua obra e da relevância de seu trabalho, Juan Alfonso Carrizo (1895-1957) não é tema de muitas pesquisas. Durante a análise da bibliografia, foi possível delimitar apenas dois pesquisadores que desenvolveram investigações sobre esse autor: Oscar Chamosa26, que o menciona em um livro sobre estudiosos do folclore argentino, e Diego Chein27, que em um capítulo de livro aborda aspectos mais tardios da carreira de Carrizo. Ambas publicações estão disponíveis apenas em espanhol, sendo assim, nossa dissertação é o primeiro estudo em português a investigar as redes de sociabilidade de um intelectual bastante relevante na construção de representações sobre o folclore e identidade argentina. As oligarquias e o poder público ocuparam papéis importantíssimos no financiamento da carreira de Rojas, e com Carrizo não foi diferente. Nascido na província de Catamarca, antes de ingressar em sua carreira como folclorista, Alfonso Carrizo atuava como professor, mas seu gosto pela pesquisa e o contato com Ernesto Padilla28e Alberto Rougès29, ambos tucumanos de perspectivas conservadoras, o levaram a ser conhecido por seu trabalho como um dos maiores compiladores de poesia oral da América Latina. Padilla e Rougès faziam parte de um grupo seleto de produtores de açúcar que conseguiram se estabelecer economicamente nos anos finais do século XIX. Tendo sua 24 NEIA, Vitor Hugo. A Encuesta Nacional del Folklore de 1921: cultura popular e nacionalismo argentino. 2016. 235 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016, p.126. 25 KALIMAN, Ricardo. Alhajita es tu canto: el capital simbólico de Atahualpa Yupanqui. Córdoba: Comunicarte Editorial, 2004, p.44-45, tradução do autor. 26 CHAMOSA, Oscar. Breve História del Folklore Argentino 1920-1970: identidade, política y nación. Buenos Aires: Edhasa, 2012. 27 CHEIN, Diego José. Provincianos y porteños: la trayectoria de Juan Alfonso Carrizo em el período de emergencia y consolidación del campo nacional de la folklorologia (1935-1955). In: ORQUERA, Fabiola (org). Ese ardiente jardín de la república. Formación y desarticulación de un “campo” cultural: Tucumán, 1880- 1975. Córdoba: Alción Editora, 2010. 28 Governador de Tucumán pelo Partido Autonomista Nacional entre 1913 e 1917, ocupou diversos cargos políticos após concluir sua formação em Direito pela Universidade de Buenos Aires. 29 Doutor em direito e grande expoente da filosofia no noroeste argentino. Era dono do engenho Santa Rosa, um dos maiores da região. 14 economia alavancada com a construção de ferrovias, a província de Tucumán passou por um processo de concentração de terras no início do século XX que fortaleceu a oligarquia local e fomentou um processo de industrialização que culminou na construção dos engenhos. Boa parte do sucesso econômico da produção açucareira da província esteve diretamente ligada às medidas protecionistas sancionadas pelo Estado liderado pelo Partido Autonomista Nacional, do qual Padilla e Rougès faziam parte. Essas medidas, por sua vez, foram implementadas por conta da capacidade desses industriais expressarem suas demandas politicamente. Contudo, a eleição de Yrigoyen determina um marco na postura do Estado, que passa a se atentar em atender às reivindicações dos setores populares frente aos interesses dos conservadores tucumanos que, além da perda dos benefícios fiscais, também precisavam lidar com leis trabalhistas. É nesse contexto de perda de posições dentro do sistema político que Padilla tem contato com a obra de Carrizo e posteriormente a apresenta a Alberto Rougès. Interessados em resgatar um passado diferente do propagado por aqueles designados como portenhos, os dois tucumanos colaboraram com a formação de Carrizo, esperando que ele desempenhasse papel semelhante ao de Rojas, mas com as adaptações que julgavam necessárias. As concepções de Padilla e Rouges, apesar de evocarem a mesma região, negavam a presença da cultura indígena na construção da argentina. Os elementos que constituiam o nacional popular, presentes nas províncias do Noroeste, eram provenientes da herança hispânica e católica, típica das famílias dos industriais açucareiros da província de Tucumán. Corroborando esse pensamento, a obra de Carrizo visa construir representações de um folclore marcado por esse legado. Oscar Chamosa30 destaca também a importância do voto dos trabalhadores das áreas rurais para as elites provinciais, visto que a maior parte dos votantes residentes em cidades se opunha aos seus ideais. Com o fim da Ordem Conservadora, em 1916, a elite de Tucumán ligada à indústria açucareira, da qual Padilla e Rouges fazem parte, passa a sofrer pressão de partidos políticos e também da mídia local, devido às más condições de trabalho oferecidas a seus empregados. Com a diminuição das fraudes eleitorais, era necessário cativar o eleitor de novas formas. É “onde [então] o folclore toma a frente. Imbuído nas tradições locais, políticos ligados à indústria açucareira se retratavam como pessoas que partilhavam da mesma cultura que seus empregados, tentando parecer líderes naturais daquela sociedade31”. Além disso, o centralismo de Buenos Aires, sobretudo político, é algo extremamente 30 CHAMOSA, Oscar. The Argentine Folkore Movement: sugar elites, workers, and the politics of cultural nationalism, 1900-1955. Tucson: The University of Arizona Press, 2010, p.70, tradução do autor. 31 Ibidem, p.92, tradução do autor. 15 incômodo para a elite provincial. Durante os anos do governo da União Cívica Radical, esse centralismo mostra-se ainda mais forte através das intervenções realizadas pelo presidente Hipólito Yrigoyen. Soma-se a todos esses agravantes que prejudicavam os interesses dos industriais açucareiros, a maior participação política da população que, majoritariamente, alinha-se aos ideais dos partidos de esquerda ou da UCR, ambos opositores dos conservadores de Tucumán. A ideia de que a identidade argentina estava representada principalmente pelo gaucho também era um problema a ser enfrentado. O trabalho de Carrizo é visto com importância pelos conservadores tucumanos em um momento em que essa personagem aparece nos escritos de intelectuais, literatos e nos folhetins que circulavam entre os setores populares como sinônimo de argentinidade. Sua origem, estabelecida na mestiçagem entre as culturas indígenas e espanhola, fazia frente ao passado puramente hispânico e católico que, na perspectiva conservadora, as províncias do Noroeste argentino partilhavam. Nesse sentido, os conservadores tucumanos encontram problemas em duas frentes que estão relacionadas: uma diz respeito aos estudos do folclore e das representações construídas em torno do nacional que, ao apresentarem o gaucho como símbolo da argentinidade, atribuíam valores positivos à mestiçagem, o que na perspectiva desses conservadores diminuía a importância da cultura hispânica na formação da Argentina; a outra no espectro político, tendo em vista os avanços radicais e o aumento da participação popular. A perda de posições nos poderes executivo e legislativo também gera consequências econômicas, uma vez que boa parte do sucesso da indústria açucareira tucumana estava relacionada aos incentivos fiscais e empréstimos fornecidas por um Estado que outrora esteve sob influência do Partido Autonomista Nacional. Considerando o exposto, entendemos que as discordâncias em torno das representações identitárias centradas no nacional conectam o ideal de consagração de um campo intelectual centrado no folclore às intricadas disputas políticas. Tendo em vista essa proposição, mapeamos e analisamos os principais projetos de identidade nacional a ganhar relevância na Argentina após a Primeira Guerra Mundial, estendendo-se até a década de 1930. Analisamos os espelhamentos entre reconfigurações do folclore, identidade argentina e os embates discursivos travados dentro do campo intelectual diante da necessidade de legitimação simbólica de agentes políticos diversos que buscavam perpetuar sua hegemonia, considerando as transformações impostas pela modernidade. Identificamos como foi construída a relação pessoal entre Alfonso Carrizo e Ricardo Rojas, as posições ocupadas por ambos dentro do campo de estudos do folclore, assim como suas discordâncias frente à definição do que constitui o nacional popular argentino. Por fim, 16 delimitamos suas filiações políticas e alinhamentos ideológicos, examinando a influência e interferência desses fatores em suas elaborações sobre a identidade nacional. Para tanto, utilizamos como fonte as cartas escritas por Alfonso Carrizo, Ricardo Rojas, Ernesto Padilla e Alberto Rougès. Para a análise deste material, são caras as considerações de Fabiana Fedrigo, que chama atenção para os procedimentos e os cuidados a serem adotados: escolher para quem escrever, como escrever, saber de onde se escreve, todas essas interrogações devem cativar de imediato o pesquisador. Dessas questões iniciais nascem as seguintes problemáticas: 1) quem é o sujeito que escreve a carta, como ele se coloca frente ao que escreve; 2) a escrita da carta e a apreensão fragmentária do indivíduo, 3) o tempo e a linguagem na carta32. Considerando a necessidade de examinar as representações sobre o nacional popular construídas pelos intelectuais mencionados, também fizeram parte do escopo de fontes selecionadas os livros Historia de la literatura argentina (1917) e El Radicalismo de Mañana (1931) de Ricardo Rojas; Antiguos cantos populares argentinos: Cancionero de Catamarca (1926); Cancionero Popular de Salta (1933); Cancionero Popular de Tucumán (1936) e Cantares tradicionales del Tucumán (1939), de Alfonso Carrizo. Rojas, já tendo notável relevância intelectual encabeçando projetos a partir da Universidade de Buenos Aires, busca a construção de uma identidade coesa, capaz de abarcar e homogeneizar as culturas diversas que conviviam na capital argentina durante o período. Para além dos compilados realizados através da Encuesta del Folklore de 1921, o intelectual utiliza de seu espaço para pensar os problemas que orbitam o nacional e uma maneira de resolvê-los. Os livros de Carrizo, por outro lado, utilizam metodologia diferente. Aproveitando de sua proximidade com as províncias do Noroeste argentino, o intelectual realiza sua pesquisa a partir do contato direto com as populações campesinas, compilando canções e poesias orais e anônimas, publicando sua perspectiva sobre a cultura popular nos prefácios de suas obras. Dado o apego dos autores estudados a essa categoria, as problematizações apresentadas por Stuart Hall em seu livro Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais nos são bastante úteis. Segundo o sociólogo, no início do século XX, as manifestações culturais comuns às classes populares estavam em constante disputa, uma vez que para determinados setores, a constituição de uma nova ordem social fomentada pela modernidade exigia processos de 32 FREDRIGO, Fabiana de Souza. História e Memória no Epistolário de Simón Bolivar (1799- 1830). 2005. 273 f. Tese (Doutorado) – Faculdade Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Franca, 2005, p.44. 17 “reeducação no sentido mais amplo33”, e as tradições constituíam um dos principais focos de resistência às tentativas de se modificar aspectos das vidas da população. Nesse sentido, Hall mostra como parte das manifestações populares passam por um processo ativo de marginalização, até que determinados aspectos que a constituem deixem de existir34. E como alerta Hall, ao lidar com este tema é necessário entender que estamos trabalhando com uma categoria construída e, portanto, mutável35. Corroborando o exposto, Chartier chama a atenção para o fato da cultura popular ser uma criação erudita, visto que as formulações que buscam descrevê-la e categorizá-la são feitas por intelectuais que buscam “circunscrever e descrever produções e condutas situadas fora da cultura erudita (...)36”. Segundo o historiador francês, é muito comum que os setores intelectuais tenham como pressuposto a possibilidade de desaparecimento das manifestações populares e a idealização de um passado onde essas práticas estabeleciam um sistema coeso e livre de repressões. No caso argentino, apesar dos elementos mobilizados por Rojas e Carrizo variarem de acordo com cada uma de suas respectivas abordagens, há um certo consenso em determinar como a política imigratória foi responsável pelo apagamento da cultura popular, que, segundo Chartier, tem como destino “ser sempre abafada, recalcada, arrasada, e, ao mesmo tempo, sempre renascer das cinzas37”. Uma temática que vem atrelada ao estudo do folclore são as questões relacionadas à tradição. Ambos passam por reorganizações, articulando-se em novas práticas que possuem mais ou menos relevância de acordo com o período analisado. No caso de nosso trabalho, esse processo é observável nas tradições gauchescas, inicialmente desprezadas ou pouco valorizadas tanto pelos intelectuais, quanto pelos projetos liberais de governo até o século XIX, mas retomadas posteriormente com significados positivos. Eric Hobsbawm chama atenção para o fato de que, “muitas vezes, ‘tradições’ que parecem ou são consideradas antigas, são bastantes recentes, quando não são inventadas38”. Neste caso, mesmo que a palavra “inventada” chame certa atenção, Hobsbawm esclarece que sua definição possui um sentido amplo, podendo referir-se tanto às tradições que realmente passaram pelo processo de invenção e institucionalização, “quanto às que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinação de tempo – às vezes 33 HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003, p.247. 34 Ibidem, p.248. 35 Idem. 36 CHARTIER, Roger. “Cultura Popular”: revisando um conceito historiográfico. In: Estudos Históricos, Rio de janeiro, v.8 nº16, 1995, p.179. 37 Ibidem p.181. 38 HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.9. 18 coisa de poucos anos apenas – e se estabeleceram com enorme rapidez39”. Em ambos os casos, é comum que se busque estabelecer continuidade com um “passado histórico apropriado40”. Esse passado não precisa necessariamente estar localizado em um tempo distante. Sua função é estabelecer uma conexão com determinadas tradições, mesmo que de forma artificial, dando sentido e razão a elas ao demarcar a percepção de continuidade. Diante disso, surge a necessidade de diferenciar a tradição do que é nomeado como costume, pois a primeira tem como principal característica a invariabilidade e a repetição. Já o segundo, desde que ainda possua aspectos que denotem continuidade, admite mudanças e inovações41. Assim, tradição difere-se também dos hábitos, que estão ligados à rotina sem possuir maiores significados ou função simbólica, apesar de existir a possibilidade de passarem por um processo de ressignificação, desenvolvendo tais aspectos. As tentativas de inventar tradições aparecem com maior regularidade nos momentos em que determinada sociedade passa por transformações capazes de alterar os padrões sociais com os quais anteriormente dialogava, e é justamente este o caso da Argentina das primeiras décadas do século XX. O avanço da modernidade, juntamente com a imigração e o crescimento das cidades, acaba por transformar os padrões sociais vivenciados até então, favorecendo a organização dos setores populares, a ampliação do sufrágio e a convivência entre diferentes culturas concentradas em uma mesma localidade. Esse contexto, somado à decadência da ordem liberal ocasionada pela Primeira Guerra Mundial, favoreceu a invenção de novas tradições, explicando também o fato de intelectuais argentinos já estarem debruçados sobre as questões que orbitam em torno do nacional desde a primeira década do século XX, momento em que todas essas transformações estavam em andamento. Ainda assim, é necessário reiterar que, no processo de invenção, podem ocorrer adaptações quando existir a necessidade de conservar costumes antigos ou utilizar “velhos modelos para novos fins42” Diante disso, “pode-se dizer que as tradições inventadas são sintomas importantes e, portanto, indicadores de problemas que, de outra forma, poderiam não ser detectados nem localizados no tempo. Elas são indício43”. E neste caso, é possível relacionar o processo de 39 HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence. A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.9. 40 Idem. 41 Ibidem, p.10. 42 Ibidem, p.13. 43 Ibidem, p.20. 19 modernização com a necessidade de formação de novas tradições que fizessem sentido em um país que concentrava culturas distintas e problemas sociais amplos em sua capital. Muito do trabalho envolvido na invenção de determinadas tradições esteve amparado em representações construídas pelos setores intelectuais da sociedade. A identificação de Ricardo Rojas e Alfonso Carrizo como pertencentes a esse meio leva em contra as formulações de Jean-François Sirinelli. Para o historiador francês, a definição de intelectual é mutável, podendo ter significados distintos de acordo com o período e a sociedade a ser analisada44. Por esse motivo, dentro da categoria em questão podem estar reunidos tanto os criadores, como os mediadores culturais. De acordo com Sirinelli, esse grupo faz parte de uma elite cultural ligada intimamente com a sociedade em que vive, especialmente na política e é isso que garante sua identidade. Contudo, devemos tomar cuidado para não os considerar apenas reféns do meio no qual estão inseridos, pois “tomam a cor dos debates cívicos, mas também contribuem para lhes dar os seus tons45”. Por essa razão, “o meio intelectual não é um simples camaleão que toma espontaneamente as cores ideológicas do seu tempo. Concorre, pelo contrário, para colorir o seu ambiente46”. E devido à influência que exerce, assim como a capacidade de ser um dos meios sociais que melhor impõe suas normas e hierarquias à sociedade, investigar a relação entre essas elites culturais e o poder público é essencial, visto que ambos possuem interesses em comum. Para compreender as disputas que compõem os variados espaços sociais, entre eles, os relacionados à intelectualidade, Pierre Bourdieu apresenta o conceito de “campo”, definindo-o como um espaço onde existem relações estabelecidas por agentes que buscam legitimar suas representações de temas diversos. Este “pode ser considerado tanto um 'campo de forças', pois constrange os agentes nele inseridos, quanto um 'campo de lutas', no qual os agentes atuam conforme suas posições, mantendo ou modificando sua estrutura47”. Há que se considerar que muitas das relações estabelecidas no campo intelectual estão relacionadas às redes de sociabilidade, tendo em vista que esse meio “constitui, ao menos para seu núcleo central, um 'pequeno mundo estreito', onde os laços se atam, por exemplo, em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora48”. 44 SIRINELLI, Jean-François. Os intelectuais in: RÉMOND, René. Por uma história política: Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Ed. FGV, 1996, p.242. 45 Ibidem, p.265. 46 Idem. 47 BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.50. 48 SIRINELLI, Jean-François. Op.Cit., 1996, p.248. 20 Não perdendo de vista o fato de Rojas e Carrizo estarem debruçados sobre a identidade nacional, entendemos nação “como uma população humana denominada que ocupa um território histórico e compartilha mitos e lembranças, uma coletividade, uma cultura pública, uma só economia e direitos jurídicos e obrigações comuns49”. Anthony Smith defende que esses valores podem ser imaginados, mas não deixam de ser sentidos ou vividos e, por esse motivo, estudar a identidade nacional só é possível a partir de seus efeitos sociais e políticos “como parte de um nexo de ideias, sentimentos e experiências ligados ao nacionalismo50”. Assim, estabelecidos os referenciais que balizam nossa análise, as problemáticas abordadas nos capítulos buscam suprir as demandas das fontes selecionadas. No primeiro capítulo, procuramos compreender o contexto argentino da década de 1910, contemplando os anos que sucedem o fim da Primeira Guerra Mundial, evento responsável pelo distanciamento da Argentina em relação aos ideiais europeus. Voltamos nossa atenção ao fato de Ricardo Rojas já estar inserido no campo intelectual, participando de políticas encabeçadas pelo Estado que buscam novas formulações sobre o nacional. Através do primeiro tomo do livro Historia de la literatura argentina, de 1916, objetivamos entender como esse escritor articulou aspectos da tradição em um momento em que a América Latina passava por um processo de modernização. Também investigamos o primeiro contato do autor com Alfonso Carrizo a partir de uma correspondência escrita por Rojas no ano de 1926. No segundo capítulo, abordamos o contexto político e econômico de Tucumán, dando atenção à atuação da elite industrial da província junto ao Estado com a intenção de garantir protecionismo fiscal ao açúcar tucumano, durante os anos da Ordem Conservadora. Entrando nos anos de governos radicais, evidenciamos a mudança de postura dos presidentes Hipólito Yrigoyen e Marcelo Alvear, que deixaram de atender às demandas dos industriais da província, favorecendo as reivindicações dos trabalhdores. Por meio da análise do livro Antiguos Cantos Populares: Cancionero de Catamarca (1926), mapeamos a concepção de Alfonso Carrizo sobre o nacional e o popular, e investigamos sua relação com Rojas a partir de correspondências escritas pelo catamarquenho em 1926. No terceiro capítulo, adentramos a década de 1930 a fim de entender o impacto que o golpe que retirou Hipólito Yrigoyen da presidência teve sobre os escritos de Rojas. Analisando o livro Radicalismo de la Mañana (1931), exploramos as formulações construídas pelo intelectual, tendo em vista o contexto político no qual resolve filiar-se à União Cívica 49 SMITH, Anthony. Comemorando a los muertos, inspirando a los vivos: mapas, recuerdos y moralejas em la recreación de las identidades. In: Revista Mexicana de Sociologia, vol. 60, n.1, pp. 61-80, 1998, tradução do autor. 50 Ibidem, p.76, tradução do autor. 21 Radical. Visando entender como os conservadores de Tucumán reagiram a esses eventos e ao alinhamento de Rojas com o radicalismo, analisamos de forma mais incisiva a obra de Carrizo, utilizando como fontes os Cancionero Popular de Salta (1933), Cancionero Popular de Tucumán (1937) e Cantares Tradicionales del Tucumán (1939), a partir dos quais comprovamos como o intelectual aproxima sua perspectiva à de Alberto Rougès e Ernesto Padilla à medida em que a relação de mecenato é estabelecida. Através do epistolário de Rougès e de correspondências de Padilla e Carrizo, evidenciamos a atuação dos membros dessa elite industrial e conservadora de Tucumán na construção e propagação do trabalho do catamarquenho durante a década em questão. Por fim, com o folheto Educación y Tradición (1937) de Rougès, demonstramos como esse autor se apropria de Ariel (1900), de José Enrique Rodó, para formular suas concepções e como essas ideias permeiam os escritos de Carrizo. 22 CAPÍTULO 1. A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E A DESCRENÇA NO PROGRESSO: FORMULAÇÕES SOBRE UM NOVO NACIONAL. 1.1. Civilização versus barbárie: um novo olhar para um antigo problema. O final da década de 1910 e a década de 1920 constituem um marco para a Argentina e demais países da América Latina e suas relações com a Europa. O projeto liberal, que animou os movimentos de independência e se estabeleceu com a constituição dos estados nacionais, atravessou o XIX e alcançou o início do século XX, enfrenta dois eventos sem precedentes que colocam em xeque o ideal de progresso protagonizado pelo velho continente: a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa. Enquanto o primeiro fornece aos intelectuais latino-americanos a justificativa para seu desencantamento com o projeto civilizatório, implantado institucionalmente por governantes interessados no fortalecimento do Estado liberal, o segundo “expande o horizonte de expectativas na direção de projetos futuros não só na Argentina, mas em boa parte do continente latino-americano e também na velha Europa51”. Como bem analisa Patricia Funes: As relações entre os intelectuais latino-americanos e as ideias europeias na década de 1920 foram ríspidas e cheias de tensão. Provavelmente nunca se havia posto de maneira tão evidente a ‘jovem’ América Latina até que a ‘velha’ Europa sentisse o esgotamento da Grande Guerra. O ‘antieuropeísmo’ foi uma identificação geracional forte entre pensadores, ensaístas, intelectuais e artistas latino-americanos.52 Uma vez que a noção de progresso e civilização que outrora haviam guiado tão firmemente as políticas de imigração não eram mais unanimidade, pensar o nacional tornou-se terreno fértil para os intelectuais da década de 1920, ocupando posição central em suas reflexões. A nação deixa de ser um mero recorte que vem atrelada ao Estado, tornando-se um “lugar de condensação das complexidades e contradições sociais no contexto de uma modernidade furtiva e eclética, mas perceptível53”. Nela estariam se desenvolvendo “as forças sociais, as econômicas, a produção cultural, as diversidades regionais, os conflitos sociais, étnicos e religiosos da modernidade. Ao mesmo tempo, são essas forças que construíram e recriaram nações em uma reciprocidade complexa e não linear54”, e por isto, para os 51 FUNES, Patricia. Salvar La nacion: intelectuais, cultura y política em los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2006, p.26, tradução do autor. 52 Idem. 53 Ibidem, p.69, tradução do autor. 54 Ibidem, p.70, tradução do autor. 23 intelectuais desta geração marcada pelo antieuropeísmo da década de 1920, a construção da nação encontra-se não mais centralizada no Estado, mas sim no campo da cultura55. Além do conturbado contexto europeu dos finais da década de 1910, a própria Argentina passava por problemas de ordem diversa durante este período. As elites dirigentes do início do século XX enfrentavam transformações urbanas com deslocamentos populacionais do interior do país para as grandes cidades que se modificavam aceleradamente com os avanços da modernidade. Esse longo e truncado processo, que perdurou por vários anos, teve que lidar com diversos impasses herdados da época colonial, como a dificuldade em estabelecer um poder central, a concentração de terras e a grande quantidade de imigrantes concentrados na capital. Ao abordar o processo de desenvolvimento das instituições da Argentina, Luis Alberto Romero observa como “desde 1862, o recente Estado nacional, pouco a pouco – e sem sorte no começo – foi dominado e subordinado a quem até então havia desafiado seu poder, e garantiu para o exército nacional o monopólio da força56”. O anseio pela consolidação do Estado nacional passava por diversos setores da sociedade, mas mesmo com a adoção de medidas de ordem liberal, por volta da década de 1880, as instituições argentinas ainda eram precárias. Buscando sanar este problema, as políticas imigrantistas empregadas no país durante o século XIX, e mantidas durante as décadas iniciais do século XX, têm suas origens com intelectuais de ideologia liberal, que além da influência exercida através de seus escritos, conseguiam atuar politicamente. Dentre os diversos sujeitos que percorreram este trajeto, Domingo Faustino Sarmiento é um notável exemplo não só por sua atuação na presidência entre os anos de 1868 a 1874, como também pelo prestígio alcançado como escritor em jornais argentinos e estrangeiros. No início da década de 1830, em decorrência de embates políticos motivados pela decisão do modelo57 de governo a ser estabelecido em seu país, Sarmiento buscou exílio no Chile, onde rapidamente se inseriu no meio intelectual com publicações no jornal de caráter conservador El Progresso. Assim como ele, outros defensores do unitarismo buscaram exílio majoritariamente no país vizinho, onde se concentraram em produzir escritos nos quais mantinham evidente sua oposição a Juan Manuel de Rosas. Segundo Maria Lígia Prado, enquanto governou Buenos 55 FUNES, Patricia. Salvar La nacion: intelectuais, cultura y política em los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2006, p.71. 56 ROMERO, Luís Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001, p.17, tradução do autor. 57 Sarmiento defendia um governo centralizado, fazendo parte dos unitaristas. Esse grupo opunha-se aos federalistas, que advogavam pela autonomia provincial. 24 Aires – de 1829 até 1852 –, Rosas “não admitia contestação ao seu governo. A lealdade a ele deveria ser pública, com o uso obrigatório de variados emblemas com a cor vermelha (...)58”. É neste contexto de exílio e de oposição a um poder local centrado na figura de Rosas, que na perspectiva liberal dificultava a consolidação das instituições do Estado argentino, que Sarmiento publica, em 1845, em formato de folhetim, Facundo: civilização e barbárie. Nesta obra, seu autor foi capaz de sintetizar a oposição ao governante de Buenos Aires ao culpá-lo pela morte de Facundo Quiroga, outro líder local. De acordo com Maria Lígia Prado, “ao propor a dualidade civilização e barbárie, Facundo ultrapassou os limites da Argentina para se estender pelo território latino-americano, animando controvérsias e contribuindo para a cristalização de certos estereótipos sobre o continente59”. Apesar de se apresentar como uma biografia de Facundo Quiroga, a análise de Sarmiento é de caráter muito mais amplo. Como observa José Luis Beired: Os quinze capítulos do livro podem ser divididos em três partes. A primeira dedicada à descrição dos aspectos físicos da Argentina, dos seus tipos populares e as formas de sociabilidade dos pampas, local habitado pelos gaúchos. Tendo tais elementos como pano de fundo, a biografia de Facundo é desenvolvida para mostrar a fatalidade da vida de alguém que crescera naquelas condições socioambientais, por meio de uma narrativa das mais impressionantes sobre a personalidade violenta, fria e sádica de Facundo, cuja vida se encerrara numa tragédia banhada em sangue. Em sua terceira parte, o livro conclui com uma apaixonada acusação do despotismo de Rosas e com a apresentação de um programa de tarefas a serem abraçadas pelo novo governo depois da sua deposição.60 Nesta perspectiva determinista, a partir da qual o ambiente aparece como capaz de moldar o humano, Sarmiento conecta sua tese a respeito da ligação entre homem e meio ambiente com o subtítulo Civilização e Barbárie, estabelecendo a oposição entre o campo, lugar da barbárie, território livre dos federalistas, e as cidades, lugar da civilização, protótipo da cultura, do progresso e da riqueza. As oposições eram, ao mesmo tempo, política – federalistas contra unitários – e culturais – mundo letrado contra tradição oral61. A barbárie era representada não somente pelo ambiente, o campo, mas pela população que ali habitava. Nesta perspectiva, a obra de Sarmiento utiliza dos mesmos “filtros ideológicos e culturais do ambiente intelectual da Europa62”, a partir dos quais qualquer grupo étnico diverso do europeu era rotulado como incivilizado, algo já observado em descrições 58 PRADO, Maria Ligia Coelho. América Latina do século XIX: tramas telas e textos. São Paulo: EDUSP, 2004, p.155. 59 Ibidem, p.152. 60 BEIRED, José Luis Bendicho. Toqueville, Sarmiento e Alberdi: três visões sobre a democracia nas Américas. In: História (São Paulo) 22 (2), 59-78. 2003, p.64-65. 61 PRADO, Maria Ligia Coelho. Op.Cit, p.161. 62 BEIRED, José Luís Bendicho. Op.Cit., p.67. 25 europeias sobre a Ásia e a África. Toda essa oposição frente aos indígenas, percebidos como inimigos do Estado Liberal, é frequente em toda a obra citada, e como destaca Maria Lígia Prado, se perpetua em escritos futuros do autor. No livro Conflicto y Armonia de las Razas de 1883, segundo a autora, Sarmiento reafirmava suas ideias, ao indicar que um dos males da colonização espanhola fora ter aceito os índios, essa ‘raça pré-histórica’, quer como parceiros, quer como servos; melhor teria sido fazer o mesmo que os norte- americanos que em sua passagem para o oeste exterminaram os índios63. Contudo, diferente do que esperava Domingo Faustino Sarmiento quando escreveu Facundo Civilização e Barbárie, os imigrantes europeus não estavam interessados em ocupar o interior da Argentina em um projeto civilizatório. Preocupavam-se muito mais em se estabelecer, ganhar dinheiro e, se possível, retornar a seu país de origem. Em grande parte, isso se deveu ao fato de as províncias interioranas não terem conseguido acompanhar o processo de industrialização do litoral. Como aponta Adolfo Prietro, sem acesso direto à terra, exceto nas experiências desenvolvidas em certa escala nas províncias de Santa Fé e Entre Rios, as sucessivas ondas de estrangeiros que respondiam ao convite e propaganda dos agentes argentinos na Europa terminaram se estabelecendo, em grande proporção, em Buenos Aires, a cidade que os recebia em seu porto, ou eu em algumas cidades e povoados do litoral64. Havia também certa hostilidade das elites para com os imigrantes, pois como bem observa Carina Silberstein65, boa parte deles vinha da Itália para a Argentina, superando muitas vezes o número de espanhóis que realizavam o mesmo processo. Essa diferença de nacionalidade teria levado os italianos recém-chegados a estabelecerem sociedades de socorro mútuo em âmbito nacional e regional, o que não significa que esses imigrantes de nacionalidades distintas não se integrassem com a população local. De acordo com Luis Alberto Romero, enquanto na nova sociedade os imigrantes se mesclavam sem relutâncias com os criollos e geravam formas de vida e culturas híbridas, as classes altas – capazes de acolher sem problemas os estrangeiros bem sucedidos – se sentiam tradicionais, afirmavam sua argentinidade e acreditavam serem donas do país onde os imigrantes haviam vindo trabalhar66. 63 PRADO, Maria Ligia Coelho. América Latina do século XIX: tramas telas e textos. São Paulo: EDUSP, 2004, p.176. 64 PRIETO, Adolfo. El Discurso Criollista en la Formación de la Argentina Moderna. Tucumán: Siglo Veintiuno Editores, 2006, p.16, tradução do autor. 65 SILBERSTEIN, Carina. A Imigração Espanhola na Argentina. In: FAUSTO, Boris. Fazer a América. São Paulo: Edusp, 1999, p.93. 66 ROMERO, Luís Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001, p.25, tradução do autor. 26 E diante disto, “moldar e organizar essa sociedade em formação segundo suas definidas convicções sobre o progresso e gerar nela o consenso necessário frente às vastas transformações que aconteciam, foi a preocupação principal da elite dirigente.67” Outros atores sociais também se interessavam por essa massa recém estabelecida, entre eles a Igreja, as associações coletivas estrangeiras, mas principalmente socialistas e anarquistas, “que já esboçavam para os setores populares um projeto de sociedade alternativo68”. Concentrando suas atuações nas formações de coletivos solidários onde se falava sobre problemas da população de forma geral, principalmente os socialistas conseguiam uma naturalização massiva de estrangeiros a partir de propostas de atuação política através do voto. A somatória destes fatores acabou por produzir um sentimento de crise que perpassou os escritos de diversos intelectuais latino-americanos. A construção da nação, problemática que assombra o continente desde o momento da ruptura colonial69, verificável no pensamento do próprio Sarmiento, que no livro citado anteriormente preocupa-se com a eclosão de poderes locais capazes de rivalizar com o recente Estado Nacional, fundamentou-se a partir da crença liberal na modernização e civilização, impondo “a ideia de um progresso quase fatal, que não seria discutido até a Primeira Guerra Mundial70”. Anterior a este evento, a própria conjuntura de Buenos Aires favorece o afloramento de ideais contestatários, que potencializados por uma reforma eleitoral ainda recente na qual o voto tornou-se secreto e obrigatório aos homens maiores de idade, leva o partido da União Cívica Radical à vitória nas eleições de 1916, elegendo como presidente Hipólito Yrigoyen (1852-1933). Segundo David Rock, “as origens do partido se encontram na depressão econômica e na oposição política a Juárez Celman no ano de 189071”. Neste primeiro momento, com o nome de União Cívica (UC), o partido exerceu grande influência na deposição do presidente Juárez, conservando sua unidade ao constituir-se como a principal força de oposição ao mesmo. No ano seguinte, graças às divergências sobre quais relações deveriam ser mantidas com o governo de Carlos Pellegrini – presidente que assume após a renúncia de Juárez Celman – a UC se dividiu, dando origem à União Cívica Radical (UCR), cujo líder era Leandro Nicéforo Alem (1842-1896)72. 67 ROMERO, Luís Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001, p.27, tradução do autor. 68 Idem. 69 FUNES, Patricia. Salvar La nacion: intelectuais, cultura y política em los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2006, p.72. 70 Ibidem, p.73, tradução do autor. 71 ROCK, David. El Radicalismo Argentino: 1890-1930. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1997, p.53, tradução do autor. 72 Ibidem, p.54. 27 Na medida em que a Argentina adentra os primeiros anos do século XX, a UCR, dirigida por Hipólito Yrigoyen, sucessor e sobrinho de Alem, passa por mudanças na base que compõem o partido. Como aponta David Rock, enquanto na década de 1890 os radicais eram estudantes pertencentes à “classe dirigente criolla; dez anos mais tarde, boa parte de seus membros vinham de famílias de imigrantes urbanos73”. Mantendo uma popularidade crescente, principalmente entre profissionais de classe média, como médicos e pequenos empresários, sob a liderança de Yrigoyen, o partido “se voltou aos argentinos filhos de imigrantes, empregados em sua maioria no setor terciário. O governo representativo passou a ser atraente para esses grupos, que acusavam a elite criolla de dificultar sua ascensão social74”. Neste momento, o número majoritário de trabalhadores pouco qualificados concentrava-se em torno de partidos socialistas ou anarquistas. Segundo Romero, “a decisão de Yrigoyen de modificar a tradicional atitude repressora do Estado, utilizando seu poder para mediar entre os distintos atores sociais e equilibrar assim a balança, parecia aparar as arestas conflitivas75”, contudo apenas aparar as referidas arestas não era suficiente, e a mera aproximação do presidente para com esses grupos na tentativa de construir consenso em uma sociedade heterogênea, gerou certa antipatia em alguns setores da sociedade. Consequentemente, sua figura tomou forma contraditória, representando para uns a tão esperada solução que a Argentina precisava, e para outros, um “caudilho ignorante e demagogo76”. É valido mencionar que este sentimento de crise, somado à pressão dos setores populares, gerou também uma forte vertente de pensamento nacionalista de teor reacionário extremamente pessimista. Partindo do pressuposto de que sua cultura havia sido corrompida e estava em decadência, a única maneira de regenerar os valores perdidos seria a partir de medidas autoritárias e, na Argentina, muito desse autoritarismo foi justificado a partir de uma retomada da figura de Juan Manuel de Rosas, estancieiro condenado pelos liberais do século XIX. Ideologicamente, muitos desses intelectuais têm em comum o positivismo, diagnosticando a culpa pelo atraso frente aos demais países na questão racial. Partindo de um 73 ROCK, David. El Radicalismo Argentino: 1890-1930. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1997, p.59, tradução do autor. 74 Ibidem, p.62, tradução do autor. 75 ROMERO, Luís Alberto. Breve historia contemporánea de la Argentina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001, p.15, tradução do autor. 76 Ibidem, p.37, tradução do autor. 28 olhar às elites políticas e intelectuais brancas, “se definia ‘sociologicamente’, de maneira eugênica, o ‘outro’ étnico, social e cultural77”. Mesmo com os projetos de identidade despidos de ideais europeus ganhando força com o fim da Primeira Guerra Mundial, intelectuais argentinos, debruçados sobre o estudo da literatura popular de vertente criollista, já manifestavam interesse por esta questão antes mesmo dos anos 1910, momento em que construíam suas carreiras enquanto escritores. Nos livros de Leopoldo Lugones (1874-1938) e Ricardo Rojas, eram frequentes as críticas às políticas imigrantistas, assim como um olhar mais atento à cultura interiorana de seu país. Desta forma, quando o ideal de progresso passa a ser contestado e a Europa já não é mais considerada o exemplo de civilização a ser mimetizado, ambos escritores já possuem algum reconhecimento, ostentando certo prestígio entre as elites econômicas e intelectuais da capital. A literatura criollista estudada por estes intelectuais, segundo David Rozotto, postulou a representação de culturas autênticas, distintas e essencialmente americanas em um momento de reflexão continental e refundação cultural frente ao centenário das novas nações do idioma espanhol. Estas passavam por grandes transformações econômicas, políticas e sociais. O criollismo se desenvolveu principalmente nas narrativas, tanto na novela como nos contos, mediante uma variedade de classificações, o que levaria a confusão na definição desta literatura e afetaria seu posterior estudo nos âmbitos acadêmicos78. E, desta forma, “a representação dos jovens países do novo continente era o objetivo declarado dos escritores do criollismo79”. A importância desta literatura se dá não só pela influência que teve nos escritos dos intelectuais estudados, mas também pela popularidade que alcançou durante as últimas décadas século XIX e início do século XX. É valido mencionar que o fenômeno do criollismo extrapola as fronteiras da Argentina, possuindo versões particulares em outros países da America Latina, que “sob a influência do remanescente romantismo oitocentista e da crise das repúblicas oligárquicas, revisitaram a literatura do século XIX como forma de protegerem os costumes tradicionais80”. Tamanha popularidade de tal vertente literária pode ser explicada, para além do apreço popular, a partir da redução do número de analfabetos. De acordo com Adolfo Prieto, “o novo leitor foi um produto da estratégia de modernização empreendida pelo poder público, e sua 77 FUNES, Patricia. Salvar La nacion: intelectuais, cultura y política en los años veinte latinoamericanos. Buenos Aires: Prometeo Libros Editorial, 2006, p.139, tradução do autor. 78 ROZOTTO, David. El criollismo em la América de habla hispana: revisita y reflexiones sobre el patrimonio de una literatura centenaria. In: Literatura: teoría, historia, crítica, vol. 21, núm. 1, págs. 117-141, 2019, p.118, tradução do autor. 79 Ibidem, p.119, tradução do autor. 80 MINELLI, Ivia. La Tradición se Apea: Revistas Criollas e Intelectualidade Criollista na Argentina (Final do século XIX – Início do XX). 2018. 208 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2018, p.25. 29 conformação é parte da conformação da Argentina moderna, dos efeitos desejados e dos efeitos indesejados de seu programa fundador81”. Alinhado ao crescimento da imprensa, mesmo os leitores que não eram plenamente alfabetizados estavam ávidos por exercer sua nova capacitação. Dotado de um caráter ambíguo, enquanto o criollismo era visto como uma forma de rechaçar o estrangeiro e afirmar sua justa liderança da nação para os grupos dirigentes, para os setores populares era uma forma de manter suas tradições vivas, fomentando um sentimento de nostalgia do campo frente ao cenário urbano onde foram obrigados a viver graças ao processo de urbanização. A principal forma de circulação desta literatura se deu no formato de folhetim, e segundo Pietro, no início dos anos 80, os folhetins gauchescos de Eduardo Gutiérrez estabeleceram o repertório temático e as projeções do criollismo percebido como criollismo popular (...) O mais notório dos personagens de Gutiérrez, Juan Moreira (modelador de uma conduta cívica exaltada ou execrada em seu nome, proveniente de uma imagem estereotipada que se tornou imprescindível nos desfiles carnavalescos e na pena dos dibunjantese cartunistas da época) estava a figura, o paradigma que o derramou do criollismo popular entendido como fenômeno de difusão literária e como um fenômeno de flashing de um assunto decorrente de fontes literárias82. Em questões de popularidade, as novelas que tinham o gaucho como temática foram muito bem sucedidas nos espaços urbanos do país, desbancando até mesmo novelas que tinham a cidade como ambiente. Os fatores que contribuem para este cenário são diversos: inicialmente, podemos citar a identificação muito maior dos leitores com temáticas relacionadas ao campo em detrimento dos espaços urbanos. Deste modo, “Juan Moreira somava, então, muitos elementos a seu favor para marcar o tom e as tendências de uma literatura de consumo popular83”. Outro personagem dotado de grande apreço popular foi Santos Vega, também de Eduardo Gutiérrez. Neste caso, o autor se inspirou no gaucho lendário de mesmo nome, mas desta vez, que se dedicava mais ao canto do que às atividades já exploradas em Juan Moreira84. Algumas das canções de Vega se tornaram tão populares entre as populações campesinas, que aparecem inclusive nos Cancioneros compilados por Alfonso Carrizo. Como 81 PRIETO, Adolfo. El Discurso Criollista em la Formación de la Argentina Moderna. Tucumán: Siglo Veintiuno Editores, 2006, p.13, tradução do autor. 82 Ibidem, p.19, tradução do autor. 83 Ibidem, p.99, tradução do autor. 84 Enquanto em Juan Moreira, Gutierrez explora o trabalho braçal do gaucho, dando atenção à sua habilidade no trato com o gado e as atividades envolvidas no trabalho com a terra, com Santos Vega o autor explora o canto associado ao ócio. Com a retomada do poema de José Hernandez, Lugones coloca em evidência tanto o trabalho braçal de Martin Fierro, como sua habilidade com a música. 30 sintetiza Prietro, “estas rápidas verificações abrem a suspeita, quando não a certeza, de que praticamente a totalidade dos versos impressos na novela de Gutiérrez passaram a formar parte do corpus de uma poesia que os especialistas registram como tradicional e anônima85”. Entretanto, o autor não nega a existência de um debate sobre a possibilidade de Gutiérrez ter utilizado em suas obras canções de autoria desconhecida. Com o tempo, o criollismo viria a extrapolar o campo da literatura com o surgimento dos centros criollos e suas vastas atividades, articulando “um processo de socialização que busca tanto garantir o sentimento de identidade de grupos jovens de procedências e origens étnicas diversas, como facilitar-lhes orientações de mobilidade interna consagradas pelo setor social dominante86”. Em El Payador (1917), através do poema El Gaucho Martin Fierro (1872), de José Hernandez (1834-1886), Lugones foi capaz de despir o gaucho de todos os seus traços rebeldes87, marco de sua personalidade na literatura criollista. Relacionando este feito do autor com as explanações de Roger Chartier sobre o conceito de apropriação, podemos observar como “a própria cultura de elite é constituída, em grande parte, por um trabalho operado sobre materiais que não lhe são próprios88”. Explorando esta relação, é possível observar como a leitura e utilização do poema de Hernandez feita por Lugones busca trazer para a elite cultural e política de Buenos Aires uma peça que até então circulava por meio de folhetins majoritariamente entre setores populares. Neste sentido, o conceito de apropriação aparece como uma investigação das “condições e os processos que, muito concretamente, sustentam as operações de construção de sentido89”, e é justamente à construção de um novo sentido ao poema de José Hernandez, que Lugones se dedica em El Payador. Para Prieto90, o trabalho deste intelectual não era a expressão de uma posição puramente individual, mas sim parte de um movimento de políticas culturais91, já iniciado na virada do século, com a 85 PRIETO, Adolfo. El Discurso Criollista em la Formación de la Argentina Moderna. Tucumán: Siglo Veintiuno Editores, 2006, p.112, tradução do autor. 86 Ibidem, p.131, tradução do autor. 87 SANTIAGO, Javier Sanchez. El aporte del “criollismo” a la forja de la identidad nacional argentina. In: Artelogie, 2010, p.203. 88 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Rio Branco: UFRGS, 2002, p.50. 89 Ibidem, p.68. 90 PRIETO, Adolfo. Op. cit. Tucumán: Siglo Veintiuno Editores, 2006, p.134. 91 Em Políticas Culturales y democracia: hacia uma teoria de las oportunidades, Joaquin Brunner apresenta o conceito de políticas culturais, definindo-o como formado por duas categorias: agentes habituais de ação cultural – na qual estão inseridos produtores profissionais, empresas privadas, agências públicas e associações voluntárias – e as organizing institutions, compreendidas como dispositivos e mecanismos de organização social, que podem ser divididas em mercado, administração pública e Estado. 31 intenção de domesticar os múltiplos elementos tradicionais que resistiam ao processo de modernização. Como bem explorado por Ivia Minelli, a relação de Rojas com o criollismo parte de sua posição enquanto membro de uma elite intelectual que, frente às transformações vivenciadas nas cidades, “mobilizou seus lugares de atuação junto ao Estado, ao mesmo tempo em que enfatizava nessa relação o alcance da profissionalização letrada92”. Juntamente a outros intelectuais de mesma posição, como Ernesto Quesada e Robert Lehmann-Nitsche, “desenvolveram estudos, consolidaram teorias e compilaram acervos na virada do século que seriam fundamentais para a compreensão da questão criollista, aos poucos incorporada como cerne da cultura argentina93”. Neste momento, a tese da autora entra em diálogo com o que defende Adolfo Prietro, pois ambos veem na retomada destas temáticas por intelectuais argentinos uma resposta da elite letrada que buscava ter o controle sobre os elementos populares constituintes da nação. Novamente a produção de sentido alertada por Chartier94 ao cunhar o conceito de apropriação aparece nesta tentativa dos intelectuais de estudar, compreender e pensar a identidade nacional a partir de elementos presentes nos folhetins gauchescos. Abordando a trajetória intelectual do autor, Diego Chein observa, a partir do contato com Joaquin Victor Gonzales, que: Tanto Lugones como Rojas foram convocados por este ministro do Estado roquista95 para ocupar cargos de hierarquia no sistema educativo e desenvolver relatórios especiais para o governo. El império jesuita é a resposta de Lugones a essa tarefa governamental, e La Restauración nacionalista, a de Rojas. A liberdade criativa e a elaboração cuidadosa que ambos os relatos revelam até que ponto a interpelação estatal não apenas não pretende distorcer sua autonomia intelectual, mas até a promove, na medida em que são convocados em sua própria qualidade de escritores96. Neste momento, a capital Argentina passava por um intenso processo de modernização, e o sentimento de afastamento em relação aos fatores que constituíam a nacionalidade já transpareciam nos textos de alguns escritores do momento. Rojas, como 92 MINELLI, Ivia. La Tradición se Apea: Revistas Criollas e Intelectualidade Criollista na Argentina (Final do século XIX – Início do XX). 2018. 208 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2018, p.27 93 Ibidem, p.27. 94 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Rio Branco: UFRGS, 2002, p.68. 95 Refere-se ao presidente Roque Saénz Peña (1851-1914). 96 CHEIN, Diego José. Escritores y estado em el Centenario: apogeo y dispersión de la literatura nativista. In: Revista Chilena de Literatura, Santiago, n.77, p.51-73, Novembro, 2010, p.53, tradução do autor. 32 aponta Ivia Minelli97, dedicou-se desde o início do século XX ao estudo da literatura argentina, sendo o idealizador da primeira cátedra – ainda em 1912 – sobre o tema no país, catalogando e separando obras originais em vertentes distintas de acordo com suas características. É desse amplo estudo realizado pelo intelectual que o livro História de la literatura argentina é forjado. Nesse trabalho, dividido nos tomos “los gauchescos” (1917), “los coloniales” (1918), “los proscriptos” (1918) e “los modernos” (1922), o autor “sobrepõe a noção de ‘origem’ à de ‘começo’, quando reconhece que, apesar de existirem vestígios literários no período colonial, estaria na permanência da literatura gauchesca o critério de fundação da nacionalidade98”. Pelo apresentado, investigar os argumentos apresentados por Rojas no primeiro tomo dessa obra aparece como fundamental para entender a relação que o intelectual busca criar entre essa vertente literária e a constituição da argentinidade. Também serve para traçar comparações com o trabalho feito posteriormente por Alfonso Carrizo em seus Cancioneros, nos quais advoga pelo abandono do gaucho como um dos símbolos do nacional. O primeiro tomo de Historia de la Literatura Argentina conta com uma breve introdução na qual o autor revela suas intenções com a obra e o que será encontrado nas páginas seguintes. Segundo o intelectual, o livro era resultado das investigações realizadas em arquivos, de experiências adquiridas na vida literária e de sua atividade na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires. O estudo da literatura aparece nesse escrito como uma prática muito importante, pois a partir dela seria possível fazer o que o sistema educacional e o governo eram incapazes de realizar por conta própria: “revelar a vida íntima da alma argentina, mostrando as correntes de ideias, de paixões, de emoções que a agitam99”. Além de abordar correntes literárias de maior relevância, os objetivos dessa cátedra da Universidade de Buenos Aires estendiam-se a mapear a bibliografia e criar um “sistema teórico que permitisse organizá-la100”. As barreiras encontradas estavam relacionadas à dificuldade em entender o que de fato constituiria a literatura nacional, uma vez que durante o período colonial a extensão territorial do país havia mudado bastante. Contudo, seria um erro generalizado em nossas esferas didáticas e literárias acreditar que a Argentina começa, cronologicamente, em 25 de maio de 1810, e 97 MINELLI, Ivia. La Tradición se Apea: Revistas Criollas e Intelectualidade Criollista na Argentina (Final do século XIX – Início do XX). 2018. 208 f. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2018. 98 ROJAS, Ricardo. Historia de la Literatura Argentina: los gauchescos. Coni Hermanos, 1917, p.31, tradução do autor. 99 Ibidem, p.26, tradução do autor. 100 Idem. 33 que sua proclamação em Buenos Aires significa a negação de todo o espanhol que havia precedido nos anos inicias da colônia101. Partindo dessa concepção, Rojas considera a Argentina como mutável, constituída por um povo, um território, um Estado, um idioma e também um ideal que se define melhor com o passar do tempo. O que o autor pretendia com suas investigações literárias era justamente tentar entender de forma mais precisa o que constituía esse ideal. Por esse motivo, títulos como La argentina manuscrita de Ruy Diaz de Guzmán e Argentina de Martin del Barco Centera, apesar de não serem escritos por argentinos, deveriam integrar a literatura nacional. Martin Fierro aparece neste escrito do tucumano com uma perspectiva diferente da adotada por Lugones, tendo seu valor reconhecido não pela capacidade de representar o gaucho como um paladino ou um defensor dos ideais de justiça e liberdade, mas por sua simplicidade no relato, regionalismo em seu vocabulário e expressão perfeita do espírito e emoção encontrados nos pampas. Em seu estudo, Rojas identifica algumas poesias que precederam Hernandez como gauchescas, categoria na qual El Gaucho Martin Fierro está inclusa. Entretanto, apesar de seu grande sucesso, a poesia que se atem a esses temas logo perde popularidade, sendo retomada posteriormente no teatro e na narrativa em formato de prosa. Dessa forma, o intelectual divide estas produções em três períodos: “o primeiro, anônimo, de raiz oral (folkore); o segundo, com Hernandéz, de conclusão (Martin Fierro); e o terceiro de transmigração para outros gêneros escritos (teatro, novela e música nacional)102”. Na visão do autor, estas formas artísticas eram o reflexo da grande miscigenação cultural ocasionada pela ocupação espanhola, pelas guerras de independência, as conquistas do deserto patagônico e pela “crise étnica da imigração cosmopolita103”. Esses seriam os motivos pelos quais os protagonistas dessa vertente literária serem sempre o gaucho, o colono e o indígena. Compreender a construção de nacionalidade desse intelectual passa pela necessidade de entender a discussão empreendida em torno do conceito de “raça”, através do qual estabelece diálogo com demais autores do período. Nessa obra, Rojas define-a de forma bastante particular, diferenciando-se dos que ele chama de “discípulos de Darwin”. Quando o tucumano o utiliza, é no sentido de “povo ou comunidade nacional, homens de origem ou ‘raiz’ comum pela pátria ou pela hereditariedade104”. Nessa perspectiva, adentram questões 101 ROJAS, Ricardo. Historia de la Literatura Argentina: los gauchescos. Coni Hermanos, 1917 p.34, tradução do autor. 102 Ibidem, p.56, tradução do autor. 103 Idem. 104 Ibidem, p.87, tradução do autor. 34 relacionadas às condições geográficas e psicológicas que designam a nacionalidade, sendo mais apropriada àqueles que pretendem estudar as literaturas nacionais, visto que a nacionalidade não tem uma existência material, mas está presente na alma de um povo e de sua nação. A partir desse conceito, Rojas aponta que o estudioso da literatura seria capaz de “definir melhor a consciência de sua própria nacionalidade, pois conhecendo melhor nosso povo compreendemos melhor nossa própria literatura, uma vez que esta é um testemunho histórico desse povo105”. Analisando o contingente populacional de seu país no momento em que escrevia seu livro, Rojas observa que o que ele chama de “contingente africano” estava rumo ao desaparecimento, enquanto o contingente caucasiano ainda exercia forte presença devido à imigração europeia. A partir dos dados do último censo, o escritor afirma que já naquele momento a argentina era um povo de raça branca, portanto, de origem europeia. Contudo, antes de caracterizar seus conterrâneos como parte desta, Rojas busca considerar também a importância de outras etnias na constituição da nacionalidade, tanto do negro, que já havia desaparecido, quanto do indígena, que teria o mesmo destino com o processo de assimilação. É exatamente a busca por essas contribuições que leva o intelectual tucumano a voltar- se ao passado colonial da Argentina e encontrar um núcleo branco muito pequeno se comparado à população pré-colombiana. Mesmo com essa tentativa de valorização de culturas não-brancas, a influência de ideias eugenistas aparecem na obra, e o autor considera o fato de que o pequeno contingente populacional branco tenha superado em número os indígenas, uma prova de sua superioridade. Nessa perspectiva, o negro é visto como um terceiro elemento, incorporado posteriormente e “considerado menos nobre pelos antropólogos brancos, e sem dúvida alguma historicamente inferiores pelo seu tipo de cultura retardado106”, o que explicaria o fato de na literatura gauchesca o negro sempre ocupar o papel de “personagem pitoresco”. Contudo, mesmo considerando o argentino como pertencente a uma suposta raça branca, Rojas a define como diferente da europeia por seu contato e assimilação de culturas distintas, como observamos no trecho a seguir: É evidente que em quatro séculos de evolução étnica, a raça argentina eliminou quase toda sua antiga parte de sangue africano. É também evidente que nesse tempo assimilou quase totalmente seu denso concurso de sangue indígena, até definir-se como um novo tipo de raça branca, diferente de seu progenitor espanhol e muito parecida com seus semelhantes americanos.107 105 ROJAS, Ricardo. Historia de la Literatura Argentina: los gauchescos. Coni Hermanos, 1917, p.88, tradução do autor. 106 Ibidem, p.89, tradução do autor. 107 Ibidem, p.96, tradução do autor. 35 Quanto aos idiomas falados por aqueles que habitavam a América antes da chegada dos europeus, surpreende o fato do autor ter grande conhecimento sobre a diversidade de línguas existentes no território que futuramente constituiria a Argentina. A ideia de mestiçagem também permeia as concepções do autor sobre o idioma falado em seu país. Rojas o encara como resultado de um embate entre as línguas faladas pelos indígenas, principalmente o quíchua, a araucano e o guarani, com o castelhano. Todos esses fatores reunidos deram à poesia gaucha e ao folclore, principalmente das províncias localizadas no Noroeste da Argentina, criações onde a hibridização linguística é muito presente, sendo até mesmo complexo identificar a individualidade de cada uma. Rojas credita a sua capacidade de compilar estes cantos ao tempo em que morou em províncias interioranas, o que lhe deu a oportunidade de “estudar pessoalmente o folclore dos gauchos e coletar seu cancioneiro108”. Em regiões mais próximas ao litoral, as hibridizações encontradas aconteceram entre o espanhol e o guarani. Já no caso do idioma araucano, a questão torna-se mais nebulosa, graças ao fato das “raças patagônicas permanecerem rebeldes até a segunda metade do século XIX, ou seja, o tempo de Martin Fierro, entrando consequentemente em menor grau na formação do folclore linguístico109”, sendo mais influente no Chile do que na Argentina. Diferente do que outros intelectuais do período defendiam, Rojas não enxergava os casos de hibridização como exemplos da degeneração do castelhano. Na verdade, era o completo oposto. Serviam como um testemunho de como os idiomas indígenas foram se perdendo progressivamente até desaparecer, enquanto o espanhol, por pertencer a um povo civilizado, conseguiu se manter. Nesse tipo de embate, a língua mais poderosa sempre sairia vitoriosa, e para o tucumano, nas poesias a hibridização consiste em ir além de uma simples assimilação para lhes impor terminações próprias, como nos exemplos citados, normalmente formam vozes compostas de duas raízes mistas (como toropsombra ou sachacuchara) ou alterna entre os versos de dois idiomas nas estrofes, ou decora o verso com uma rima ou refrão estrangeiro110 Ou seja, da mesma forma que algumas terminações de palavras podem aparecer de formas acidentais graças à hibridização desses idiomas, também pode ocorrer como uma forma de expressão artística, prova da amplitude das raízes folclóricas. 108 ROJAS, Ricardo. Historia de la Literatura Argentina: los gauchescos. Coni Hermanos, 1917, p.159, tradução do autor.. 109 Ibidem, p.160, tradução do autor. 110 Ibidem, p.166, tradução do autor. 36 Portanto, desde este momento fica evidente que a perspectiva de Rojas sobre a construção da literatura e do país como um todo está amparada na mestiçagem entre o espanhol e o indígena. Esse fator, somado às adaptações sofridas em função de questões territoriais teria germinado um novo arquétipo, o gaucho, eleito pelo intelectual como símbolo do nacional e da definição da argentinidade. Nele estariam presentes as virtudes de ambos os povos, visto que “sua herança europeia o ajudou a orientar-se, enquanto o legado indígena serviu de guia na obscuridade do meio virgem111”. Todas estas características constituintes da literatura nacional estariam presentes em El Gaucho Martin Fierro, evocado pelo autor para salientar a importância da literatura gauchesca: Não foi menos clara a consciência de José Hernandez sobre o valor cultural dos costumes gauchescos, enquanto eram fruto de uma surpreendente adaptação. Se o gaucho, discípulo do indígena, não tivesse adotado ou criado esses costumes, teria sucumbido em seu primeiro encontro com a natureza virgem, e o homem europeu, precursor do gaucho, não teria conseguido levar sua morada estável em terra argentina (...) O folclore guarda a ciência de esta sabedoria providencial, e ensina o passo cauteloso ao indígena, do indígena ao gaucho, do gaucho ao colono, e deste ao tipo definitivo de homem argentino, que haverá de ser, sem negação, uma síntese de seus predecessores locais112. No pequeno excerto acima é possível observar como o tucumano desenvolve sua definição de mestiçagem, assim como a importância desta na construção do país, uma vez que, a partir dela, o gaucho foi capaz de se adaptar ao ambiente, distinguindo-se do espanhol neste processo. Contudo, esta concepção apresenta delimitações bastante específicas do que constitui a argentinidade. É necessário lembrar que naquele momento, o contingente imigrante em Buenos Aires superava em números absolutos os argentinos, e essa proposta de identidade, ao mesmo tempo em que justifica a posição das elites criollas por serem representantes do tipo definitivo de homem argentino, sucessor do gaucho, também exclui o recém chegado. Desta forma, Rojas, que durante a década seguinte se tornaria ainda mais notável nos estudos do folclore, influenciado pela literatura criollista e a recente modernização de seu país, inclinou-se a pensar temas ligados à constituição da nação antes do antieuropeísmo marcante no após a Primeira Guerra Mundial, apesar desta, sem dúvidas, favorecer o florescimento desses debates. 111 ROJAS, Ricardo. Historia de la Literatura Argentina: los gauchescos. Coni Hermanos, 1917, p.169, tradução do autor. 112 Ibidem, p.207, tradução do autor. 37 Assim, inicialmente Ricardo Rojas, e posteriormente Alfonso Carrizo, atuam na construção de representações113 identitárias distintas. Compreendê-las seria uma forma de dar “atenção às estratégias simbólicas que determinam posições e relações que constroem, para cada classe, grupo ou meio, um ‘ser-percebido’ constitutivo de sua identidade114”. Neste sentido, os ideais de nacionalidade defendidos e propagados por estes intelectuais operam privilegiando determinados aspectos do nacional popular, ao mesmo tempo em que exclui outros. O folclore aparece, portanto, não como um tema exclusivo de alguns estudiosos, mas como objeto de disputa política. 1.2. Alfonso Carrizo, Ernesto Padilla e a modernidade portenha. Nascido da província de Catamarca, Juan Alfonso Carrizo, diferente dos nomes citados, não fazia parte da elite econômica de sua província, e a principal atividade realizada pela sua família era a agricultura de subsistência, com periódicas atividades de busca por minérios. Teve sua educação primária na Escuela Normal de Catamarca, e a secundária na Escuela Normal de Maestros, onde teve contato com duas figuras que o encaminharam profissionalmente: o professor de literatura Don José P. Castro que, em 1915, lhe deu como trabalho final o tema Antiguos Cantos populares de Catamarca; e o padre Antonio Larrouy, professor no Seminário da província, que orientou Carrizo na realização desse trabalho115. Após tornar-se professor, em 1916 dirigiu-se à Buenos Aires, onde conseguiu emprego no Consejo Nacional de Educación. Já nesse período, o autor alinha-se aos docentes católicos da capital, tendo em vista sua oposição à grande popularidade das correntes de esquerda nos grêmios dessa profissão. No período de férias escolares, Carrizo retornava à sua província natal, onde continuava com a pesquisa dos cantos populares, até completá-la e publicar o livro Antiguos Cantos Populares (Cancionero de Catamarca), em 1926. Inicialmente, a ideia do catamarquenho era que o livro contasse com um prefácio de Ricardo Rojas, que negou o pedido diante das discordâncias ideológicas e da alegada falta de originalidade presente na obra. Após a 113 Para Chartier [2002, p.75], as representações “visam, com efeito, a fazer com que a coisa não tenha existência senão na imagem que a exibe, com que a representação mascare ao invés de designar adequadamente o que é seu referente. A relação de representação é assim turvada pela fragilidade da imaginação, que faz com que se tome o engodo pela verdade, que considera os sinais visíveis como indícios seguros de uma realidade que não existe. Assim desviada, a representação transforma-se em máquina de fabricar respeito e submissão, necessária lá onde falta o possível recurso à força bruta”. 114 CHARTIER, Roger. À Beira da Falésia: A História entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002, p.73. 115 JACOVELLA, Bruno. Juan Alfonso Carrizo. Buenos Aires: Leonardo Impressora, 1963, p.57. 38 resposta negativa, Carrizo procurou o então deputado e ex-governador de Tucumán116, Ernesto Padilla, que se interessou pelo tema, escrevendo o prólogo requerido e propondo ao catamarquenho a realização de um trabalho semelhante nas outras províncias do Noroeste argentino. Nos anos seguintes, Carrizo contou com a ajuda de Padilla e de Alberto Rougès para mobilizar os recursos necessários à pesquisa e à coleta do material que iria compor os próximos Cancioneros. O re