design e ergonomia luis carlos paschoarelli marizilda dos santos menezes (orgs.) aspectos tecnológicos DESIGN E ERGONOMIA LUIS CARLOS PASCHOARELLI MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES (Orgs.) DESIGN E ERGONOMIA ASPECTOS TECNOLÓGICOS CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ D487 Design e ergonomia : aspectos tecnológicos / Luis Carlos Paschoarelli, Marizilda dos Santos Menezes (org.). - São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009. il. Inclui bibliografi a ISBN 978-85-7983-001-3 1. Ergonomia. 2. Desenho industrial. I. Paschoarelli, Luis Carlos. II. Menezes, Marizilda dos Santos. 09-6043. CDD: 620.82 CDU: 60 Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Editora afi liada: © 2009 Editora UNESP Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br SUMÁRIO Apresentação 7 1 Usabilidade e acessibilidade de equipamentos médico- hospitalares: um estudo de caso com pacientes obesos 11 Cristina do Carmo Lucio e Luis Carlos Paschoarelli 2 Design ergonômico de cadeira de rodas para idosos 33 Ivan Ricardo Rodrigues Carriel e Luis Carlos Paschoarelli 3 Antropometria estática de indivíduos da terceira idade 55 Adelton Napoleão Franco e José Carlos Plácido da Silva 4 Avaliação de forças de preensão digital: parâmetros para o design ergonômico de produtos 73 Bruno Montanari Razza e Luis Carlos Paschoarelli 5 Estudo ergonômico ambiental de escolas das cidades de Bauru e Lençóis Paulista 97 Mariana Falcão Bormio e José Carlos Plácido da Silva 6 Condições ambientais em escolas municipais de ensino infantil da cidade de Marília (São Paulo): estudo de caso 119 Eiji Hayashi e João Roberto Gomes de Faria 7 Revisão de metodologias de avaliação ergonômica aplicadas à carteira escolar: uma abordagem analítica e comparativa 147 Sileide Aparecida de Oliveira Paccola e José Carlos Plácido da Silva 8 Rótulos de embalagem de agrotóxico: uma abordagem ergonômica 169 Caroline Zanardo Gomes dos Santos e João Eduardo Guarnetti dos Santos 9 Rótulos e bulas de agrotóxicos: parâmetros de legibilidade tipográfi ca 197 Maria Gabriela Nunes Yamashita e João Eduardo Guarnetti dos Santos 10 Análise ergonômica do colete à prova de balas para atividades policiais 223 Iracilde Clara Vasconcelos e Luiz Gonzaga Campos Porto 11 Design ergonômico: análise do conforto e desconforto dos calçados com salto alto 241 Eunice Lopez Valente e Luis Carlos Paschoarelli 12 Insatisfação e desconforto: o caso da poltrona do motorista de ônibus urbano 269 Roberto Carlos Barduco e Abílio Garcia dos Santos Filho APRESENTAÇÃO A evolução tecnológica observada nas últimas décadas representa a materialização da criatividade humana no desenvolvimento de ambientes, produtos e sistemas, os quais trouxeram muitos benefí- cios, com destaque para o aumento na economia global, o aumento na expectativa de vida das pessoas, as possibilidades de comércio, interações e comunicações, entre outros. Mas essa mesma evolução também vem resultando em alguns problemas, os quais preocupam tecnólogos, pesquisadores e enti- dades de proteção aos consumidores sob, pelo menos, dois aspectos bastante pragmáticos: o impacto negativo de muitas dessas tecno- logias sobre o meio ambiente e os problemas das interfaces tecnoló- gicas, as quais geram constrangimentos, acidentes e frustração aos consumidores e usuários. Este segundo aspecto está em discussão desde o fi nal do século passado, quando os termos ergonomia, usabilidade, acessibilidade e design universal tomaram conta das questões científi cas em torno do design de produtos e sistemas. A discussão em torno desses temas, por vezes, parece antiquada para os dias atuais, mas de fato envolve questões ainda não respondidas pela comunidade científica. Ao design, ainda resta a questão: como a ergonomia pode contribuir para minimizar os impactos negativos da evolução tecnológica de produtos, sistemas e ambientes? 8 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Nesta coletânea, dividida em doze capítulos, são apresentadas diferentes questões, métodos de abordagem e expressivas deman- das para a aplicação da ergonomia no design. O primeiro capítulo apresenta os problemas de usabilidade e acessibilidade enfrentados por indivíduos obesos quando eles necessitam de auxílio médico hospitalar, uma vez que mobiliários e equipamentos são oferecidos para o denominado “homem médio”, o que exclui as pessoas com sobrepeso ou obesas. Também sob as justifi cativas da acessibilidade, o segundo ca- pítulo trata das particularidades da população de idosos (que está em crescimento no Brasil) e o refl exo destes no design de cadeira de rodas. Ainda considerando a população de idosos, o terceiro capítulo aborda um levantamento antropométrico de indivíduos da terceira idade que contribui expressivamente para a defi nição de parâmetros antropométricos destinados ao correto dimensionamento de produ- tos e ambientes. O quarto capítulo aborda uma avaliação de forças de preensão digital, considerando as diferenças entre os gêneros (masculino e feminino) e reafi rma, com parâmetros estatísticos, a infl uência dessas variáveis no design de instrumentos manuais que devem considerar a elevada capacidade física dos homens, e as limitações de força do público feminino. Os três capítulos seguintes tratam de aspectos relacionados ao espaço e ao equipamento escolar, cuja demanda é elevada, espe- cialmente no Brasil, onde a educação ainda não foi bem tratada. O quinto capítulo realiza uma comparação das condições ambientais entre escolas públicas e particulares em duas cidades paulistas. O sexto capítulo aborda um tema semelhante, as condições ambientais de escolas de ensino infantil de outra cidade do interior paulista, mas com outros processos metodológicos, e o sétimo capítulo discute as metodologias de avaliação ergonômica de equipamentos escolares. Problemas informacionais em rótulos e bulas de embalagens também são objeto de estudo da ergonomia. Dois capítulos tratam desse assunto, abordando embalagens de agrotóxicos e legibilidade tipográfi ca das informações. DESIGN E ERGONOMIA 9 Os três últimos capítulos destacam outros problemas com o uso de produtos: uma análise do colete de proteção para atividades policiais, uma avaliação perceptiva dos calçados com salto alto uti- lizados pelo público feminino e avaliação da poltrona do motorista de ônibus urbano. É importante destacar que todos os capítulos relatam estudos e projetos de pesquisa desenvolvidos no Programa de Pós-graduação em Design da Unesp (Campus de Bauru), particularmente na linha de pesquisa Ergonomia. Estes estudos ressaltam a importância da aplicação da ergonomia no design de produtos e sistemas, com a fi na- lidade de desenvolver tecnologias para a qualidade de vida humana. 1 USABILIDADE E ACESSIBILIDADE DE EQUIPAMENTOS MÉDICO-HOSPITALARES: UM ESTUDO DE CASO COM PACIENTES OBESOS Cristina do Carmo Lucio1 Luis Carlos Paschoarelli2 Introdução A obesidade é uma doença que já pode ser considerada uma pan- demia, pois atinge inúmeros países no mundo, com predominância em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Com fatores desen- cadeantes tanto metabólicos quanto psicossociais, vem apresentando crescimento alarmante devido, principalmente, à adoção recente de hábitos ocidentais, como ingestão de alimentos constituídos de grande quantidade de açúcares e gorduras e o sedentarismo. Estima-se que haja 1,7 bilhão de pessoas acima do peso em todo o mundo (Deitel, 2003) e a última pesquisa divulgada pela National Center for Health Statistics nos Estados Unidos mostra que 30% dos adultos norte-americanos acima de vinte anos são obesos (IOTF, 2006). Galvão (2006) relata, a partir de estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que 71% dos homens, 61% das mulheres e 33% das crianças estão acima do peso naquele país. 1 Mestre em design, Universidade Estadual de Maringá. 2 Pós-doutor em ergonomia, Universidade Estadual Paulista. 12 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Na Europa, o número de obesos está aumentando de modo preo- cupante; um em cada quatro homens é obeso e uma em cada três mulheres tem excesso de peso (Folha Online, 2006). No Brasil a situação não é diferente. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE, 2004), em 2002 havia 40,6% de indivíduos com idade superior a vinte anos acima do peso e destes 11% eram obesos (cerca de 10,5 milhões de pessoas). A obesidade pode facilitar o surgimento de graves problemas de saúde e psicológicos e, além desses problemas, frequentemente o indivíduo obeso enfrenta difi culdades na acessibilidade e usabilidade de produtos e equipamentos desenvolvidos para a considerada faixa média da população. Menin et al. (2005), em seus estudos sobre antropometria de indivíduos obesos, comentam que os problemas de acessibilidade enfrentados por esses indivíduos têm levado empresários a inves- tirem no aperfeiçoamento de serviços e produtos e na geração de novas tecnologias. Apesar dessas iniciativas, Feeney (2002) alerta que as empresas não têm conhecimento sobre as características físicas e cognitivas desse público, como suas preferências, circunstâncias em que vi- vem e dados de seu estilo de vida, e desconhece os métodos para adquirir tais dados, o que impossibilita a produção de equipamentos adequados. Nesse contexto, os equipamentos médico-hospitalares merecem atenção especial, pois têm a fi nalidade de reabilitar o paciente. Car- doso (2001) alerta que a difusão da ergonomia hospitalar é ainda pequena e muito restrita à atividade do profi ssional que trabalha em hospitais. A autora ainda expõe que ambientes e equipamentos inadequados podem gerar custos humanos, causando desconforto e até acidentes. Desse modo, o presente capítulo pretende reunir informações sobre os problemas da obesidade e sua relação com a acessibili- dade e usabilidade de produtos, procurando apresentar e discu- tir os problemas de interface entre usuários obesos e os produtos médico-hospitalares. DESIGN E ERGONOMIA 13 Revisão bibliográfi ca Ulijaszek (2007) enuncia que a obesidade emergiu como um importante fenômeno biológico humano construído pelas nações industrializadas durante os últimos sessenta anos e tem sido dissemi- nada pelo mundo com a modernização e a industrialização. O autor completa que o rápido crescimento da doença indica que a tendência de tornar-se obeso é universal, justamente pela criação de ambientes “obesogênicos”, ou seja, que favorecem o acúmulo de tecido adiposo por hábitos de vida pouco salutares. Em seu estudo de revisão sobre uma possível relação entre obe- sidade e incapacidade, Ells et al. (2006) expõem que indivíduos com IMC acima de 40 kg/m2 possuem elevados (e signifi cativos) índices de dor na coluna, quando comparados com indivíduos com peso nor- mal. Os autores acrescentam que os distúrbios mentais relacionados à obesidade são a segunda maior causa de incapacidade nesses indi- víduos. Segundo estudo de Duval et al. (2006), os indivíduos obesos ainda aumentam seu risco de morte de 50 a 100%, se comparado com o de indivíduos de peso normal. Além dos graves problemas de saúde, os obesos sofrem precon- ceito, discriminação e muitos problemas relacionados à usabilidade de produtos, normalmente inadequados à sua condição física. Es- ses indivíduos, principalmente os obesos mórbidos, apresentam difi culdades na utilização de mobiliários, vestimentas, passagens e equipamentos médico-hospitalares, entre outros. Segundo Pastore (2003), a obesidade é uma realidade sem previ- são para ser resolvida e, por esse motivo, os obesos esperam a revisão dos padrões e normas atuais para confecção de produtos, de forma a tornarem-se adequados à sua condição de vida. A importância da multidisciplinaridade A correta aplicação dos conceitos multidisciplinares é de grande importância para a defi nição de parâmetros projetuais para a pro- 14 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES dução de produtos e equipamentos voltados a públicos específi cos, garantindo-lhes o bem-estar, devido à possibilidade de abranger diversos fatores, que seriam facilmente mascarados por apenas uma área do conhecimento. Verifi ca-se por meio da integração entre acessibilidade, antro- pometria, design ergonômico, design universal, ergonomia e usabi- lidade, que é possível empregar soluções mais condizentes com as reais necessidades dos usuários, permitindo contemplar diversas potencialidades, que não seriam adequadamente atendidas pela ótica de uma única área do conhecimento. Martins et al. (2001) acrescen- tam que o papel dos profi ssionais é, antes de tudo, ouvir o usuário, visando tornar o ambiente construído acessível ao maior número de indivíduos possível. No que se refere ao ambiente hospitalar, deve haver uma maior preocupação ao considerar a situação na qual os indivíduos se en- contram quando internados. Nessa situação, muitas vezes atividades básicas são transformadas em tarefas de difícil execução, podendo gerar quadros de depressão, prejudicando a recuperação do paciente ou até mesmo agravando sua situação (Cardoso, 2001). Segundo Paschoarelli et al. (2004), o principal problema de usa- bilidade e acessibilidade dos obesos está relacionado às questões dimensionais dos equipamentos e produtos disponíveis, normal- mente produzidos para a faixa média da população, desconsiderando consequentemente grupos específi cos. Se considerarmos apenas o número de leitos para internação em estabelecimentos de saúde no Brasil em 2002 (IBGE, 2003), mais de 470 mil unidades, e a porcentagem da população obesa no Brasil, 11%, quase 52 mil leitos deveriam ser direcionados a esse público, sem considerar, entretanto, que essa doença causa maiores prejuízos à saúde e, portanto, aumenta as chances de hospitalização e utilização dos serviços médicos e ambulatoriais. Esses dados percentuais justifi cam propostas de projetos nesse campo, por entender-se a necessidade de adequação de uma série de produtos a uma parcela de mercado substancial, gerando sua confecção em escala industrial. DESIGN E ERGONOMIA 15 É importante considerar que os produtos e equipamentos desti- nados aos obesos não devem apenas ter resistência ao peso e possuir dimensões maiores, mas devem ser também confortáveis e efi cien- tes, permitindo alternância de posições do corpo, de forma a não exercer compressões prejudiciais da circulação sanguínea, além de oferecerem design seguro e compatível às necessidades dessas pessoas (Bucich & Negrini, 2002). Com relação à legislação e normas técnicas de acessibilidade no Brasil, há algumas leis e decretos vigorando em algumas cidades brasileiras, com o objetivo de melhorar a acessibilidade dos obesos. Muitas envolvem o aperfeiçoamento na prestação de serviço pelas empresas de transporte coletivo urbano ou reserva de assentos em espaços culturais e salas de projeção, ou ainda adaptação de camas de uso hospitalar a esse público específi co, e outras obrigam todos os hospitais a possuírem macas dimensionadas para esses indivíduos. Mas, apesar da existência dessas leis e decretos, não há na Asso- ciação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) uma norma especí- fi ca com parâmetros de diferenciação quanto à forma, dimensões e requisitos de resistência para confecção de produtos e equipamentos destinados aos obesos; ou seja, há leis tangentes aos produtos e equi- pamentos destinados a esses indivíduos, mas não há base técnica específi ca de referência que valide sua usabilidade. Consta na NBR 9050 de 2004 (Acessibilidade a edifi cações, mo- biliário, espaços e equipamentos urbanos) que espaços em locais de reunião pública (cinemas, teatros) e locais de esporte, lazer e turismo devem ter assentos destinados a P.O., com especifi cação de onde devem estar instalados e referências quanto à largura, resistência e espaço livre frontal (item 8.2.1.3.3 – largura equivalente à de dois assentos, espaço livre frontal de no mínimo 0,60 m e devem suportar carga de no mínimo 250 kg). Entretanto, as especifi cações quanto ao tamanho e resistência são adequadas a pessoas com obesidade nível III (mórbida), acima de IMC 40, enquanto que a grande quantidade de obesos se enquadra entre os níveis I e II, com IMC até 40, ou seja, até cerca de 130 kg (para pessoas com 1,80 m). 16 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES O que se pretende apontar é que poderiam ser disponibilizados esses assentos dispostos na norma em quantidades menores e os demais assentos com dimensionamento menor e menos resistentes do que especifi cado em norma, dispensando grandes espaços e gastos desnecessários com materiais, possibilitando fornecer, dessa forma, mais assentos, mais conforto e, consequentemente, maior acessibi- lidade. Essas providências reduziriam, também, o constrangimento de pessoas com obesidade graus I e II de terem que ser deslocadas a um assento duplo por questão de poucos centímetros, segregando-as. Para que todos tenham direitos iguais (de fato), é necessário que todos tenham também oportunidades iguais de realização das mais diversas atividades cotidianas, independentemente de sua situação físico-motora. Fica evidente a necessidade de uma análise tão ou mais criteriosa para os equipamentos médico-hospitalares. Esses produtos devem proporcionar o máximo de conforto e segurança aos seus usuários, por serem utilizados em situações de muito incômodo, dor e estresse, não devendo causar ainda mais transtornos do que o problema de saúde do indivíduo. Cabe ao designer a valorização da capacidade funcional do usuário, identifi cando os problemas de interface e adequando os produtos às necessidades humanas, por meio de metodologias ajustáveis ao público específi co (Baptista & Martins, 2004). Para Girardi (2006), outra questão muito importante que deve ser considerada no projeto refere-se ao aspecto estético, que na área médica envolve a humanização do ambiente, o respeito ao paciente e a racionalização do trabalho do profi ssional de saúde. A função do designer nesse aspecto é justamente vencer o desafi o de propor soluções inclusivas, visando extinguir a segregação causada por barreiras físicas e sociais. A integração social nas ações cotidianas possibilita ao portador de necessidades especiais uma rotina que pode ser considerada saudável no que se refere aos aspectos relacionados à autoestima e valorização do indivíduo (Emmel et al., 2002). Lebovich (1993) relata que desde a antiguidade as pessoas têm tentado remediar defi ciências ou habilidades reduzidas, e descreve DESIGN E ERGONOMIA 17 de forma clara que as principais ferramentas para inclusão social são a fl exibilidade, a criatividade e a imaginação. Completa que o bom design em termos de acessibilidade inicia com o acesso igualitário; não basta adicionar uma entrada acessível nos fundos de um ambiente, enquanto a entrada da frente permanece inacessível. Esse acesso igualitário, segundo o autor, deve contemplar todas as pessoas com a mesma informação e experiência. Vem se tornando senso comum compatibilizar o design para indi- víduos com necessidades especiais às demais pessoas, e segundo os propósitos do design universal, colocar-se no lugar do outro facilitaria a compreensão de suas necessidades e anseios. É de fundamental im- portância projetar objetos seguros, inteligíveis e agradáveis por meio de um design consciente em termos sociais, econômicos e ambientais, visando reduzir o preconceito a que esses indivíduos são submetidos por sua condição física. Conceitos de design universal e a usabilidade na avaliação de projetos Story et al. (1998) relatam que encontrar soluções universais é fácil na teoria, mas muito complicado na prática. O Centro de Design Universal da Universidade Estadual da Carolina do Norte (Esta- dos Unidos) reuniu um grupo de arquitetos, designers de produto, engenheiros e pesquisadores de design ambiental com o objetivo de desenvolver princípios de design universal que englobem o conhe- cimento atual. Esses princípios visam avaliar projetos existentes, guiar processos de produção e educar designers e consumidores sobre características de produtos e ambientes com melhor usabilidade. Foram desenvolvidos sete princípios para determinar usabilidade e acessibilidade de produtos, ambientes e sistemas: • Uso equitativo: o projeto deve atender a pessoas com diferentes habilidades. • Flexibilidade no uso: o projeto atende a uma gama de indiví- duos com diferentes preferências e habilidades. 18 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES • Uso simples e intuitivo: uso fácil e inteligível, independente- mente de experiência, conhecimento, forma de comunicação ou nível de entendimento dos usuários. • Informação perceptível: o projeto deve transmitir informações de forma efetiva ao usuário, independentemente das condições ambientais ou das habilidades sensoriais dos usuários. • Tolerância ao erro: o projeto deve minimizar erros e as conse- quências adversas de ações acidentais. • Baixo esforço físico: o projeto deve ser utilizado com efi ciência, conforto e fadiga mínima. • Tamanho e espaço adequados para acesso e uso: o projeto deve apresentar tamanho e espaços adequados para acesso, uso e manipulação de objetos, independentemente da antropometria, postura ou mobilidade do indivíduo. Outros autores também apresentam princípios de design universal e usabilidade para serem aplicados na avaliação de produtos, equipa- mentos e sistemas. Para Jordan (1998), os princípios para melhorar a usabilidade dos produtos são: • Consistência: operações semelhantes devem ser realizadas de forma semelhante. • Compatibilidade: há compatibilidade quando são atendidas as expectativas do usuário baseadas em suas experiências anteriores. • Capacidade: devem ser respeitadas as capacidades individuais do usuário para cada função. • Feedback: os produtos devem dar um feedback aos usuários quanto aos resultados de sua ação. • Prevenção e correção de erros: os produtos devem impedir pro- cedimentos errados e, caso ocorram, devem permitir correção fácil e rápida. • Controle: ampliar o controle que o usuário tem sobre as ações desempenhadas por determinado produto. • Evidência: o produto deve indicar claramente sua função e modo de operação. • Funcionalidade e informação: o produto deve ser acessível e de uso fácil. DESIGN E ERGONOMIA 19 • Transferência de tecnologia: deve ser feito o uso apropriado de tecnologias desenvolvidas em outros contextos para realçar a usabilidade do produto. • Clareza: funcionalidade e método de operação devem ser explícitos. Já Norman (1998) defi ne quatro princípios de design para a inte- ligibilidade e usabilidade de produtos: • Prover um bom modelo conceitual: sem um bom modelo, opera-se às cegas. • Visibilidade: é importante manter informações visíveis ao maior número de indivíduos possível, incluindo defi cientes visuais, sem que se precise recorrer a outras fontes para conhecer de- terminada informação. • Mapeamento: os produtos devem utilizar modelos mentais conhecidos, sejam naturais ou culturais, facilitando a com- preensão e uso. • Feedback: é o retorno ao usuário sobre alguma ação que tenha sido executada. Objetivos Este capítulo teve como objetivo analisar a interface entre alguns tipos de equipamentos médico-hospitalares e os indivíduos obesos, verifi cando a ocorrência de problemas e restrições nessa interface e discutindo tais problemas observados entre usuários obesos e esses produtos. Materiais e métodos A pesquisa de campo foi desenvolvida pela observação do am- biente de estudo e da abordagem com pacientes obesos, conforme descrito a seguir. 20 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Aspectos éticos O estudo em questão contemplou os procedimentos descritos pelo Conselho Nacional de Saúde, sob resolução 196-1996 (Brasil, 1996) e pela norma ERG-BR 1002 do Código de Deontologia do Ergono- mista Certifi cado (Abergo, 2002), atendendo às exigências éticas e científi cas fundamentais. Para tanto, ele foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu (OF.356/2006-CEP). Foi aplicado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), no qual o sujeito tomou ciência da espécie de pesquisa para a qual foi voluntário (não-remunerado). Casuística Foram abordados 51 pacientes obesos, dos quais vinte em clínicas e 31 internados em um hospital da cidade de Bauru (SP). Com rela- ção ao gênero, foram 27 homens e 24 mulheres, entre 18 e 60 anos, com média de idade de 44 anos (d.p.11,1 anos) e IMC de 40,1 kg/m2 (d.p.9,8 kg/m2). Procedimentos metodológicos: observação do ambiente de estudo Iniciou-se a pesquisa de campo por observação assistemática do Hospital de Base de Bauru, visando compreender o ambiente hospitalar para posterior realização da observação sistemática direta, cujos resultados possibilitaram a coleta de dados dos equipamentos médico-hospitalares e entrevistas com os indivíduos obesos e pro- fi ssionais envolvidos no trato dos pacientes. Para a observação assistemática, foram anotadas a quantidade e as condições de uso e manutenção dos equipamentos médico- hospitalares disponíveis e a rotina hospitalar referente a banhos, alimentação dos pacientes, visita de médicos, medicação, horário DESIGN E ERGONOMIA 21 regular para realização de cirurgias, higienização das dependências do hospital e horário de visitas. Após essa observação, foi possível desenvolver um mapa simpli- fi cado do Hospital de Base de Bauru (fi gura 1), dividido por setores, visando codifi car os dados e facilitar as medições de equipamentos. Figura 1. Mapa simplifi cado do Hospital de Base de Bauru – três andares e o térreo. As áreas azuis correspondem aos setores de internação e as áreas em vermelho correspondem ao centro cirúrgico. As demais áreas referem-se a setores de análises clínicas, exames gerais, UTI, farmácia, setores administrativos e outros. Para a observação sistemática relatada neste capítulo, foram ano- tadas as condições de uso e manutenção dos equipamentos médico- hospitalares defi nidas por meio da adaptação de princípios de aces- sibilidade, usabilidade e design universal de Jordan (1998), Norman (1998) e Story et al. (1998), já apresentados no referencial teórico. A partir do estudo de todos esses autores, foram adaptados os princípios que melhor se aplicavam à pesquisa e inseridos nos protocolos: • Flexibilidade: deve atender ao maior número de indivíduos e com diferentes habilidades. • Evidência: inteligibilidade da tarefa; uso simples e intuitivo. • Visibilidade: informações devem estar visíveis ao usuário, incluindo defi cientes sensoriais. • Capacidade: equipamento deve prever capacidades individuais diversas. • Compatibilidade: com aspectos fisiológicos, culturais e de experiências anteriores; similaridade. 22 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES • Tolerância: prevenção de acidentes e correção de erros, por meio de pouca sensibilidade. • Esforço: equipamentos devem reduzir o gasto energético. • Espaço: deve ser apropriado ao maior número de indivíduos, incluindo obesos. • Feedback: retorno ao usuário de que a operação está sendo realizada da forma correta ou incorreta. Optou-se por realizar a observação sistemática juntamente com a abordagem aos usuários diretos (pacientes obesos internados) no Hospital de Base de Bauru, visando obter dados dos equipamentos e poder confrontar esses dados com as respostas dos indivíduos. Os equipamentos eram previamente observados sistematicamente e, após o término da análise, realizava-se então a entrevista com o paciente. Procedimentos metodológicos: abordagem com pacientes A abordagem iniciava-se pela apresentação do entrevistador e da pesquisa e, após a aceitação do sujeito, era realizada a análise siste- mática dos equipamentos constantes no protocolo. Após a fi nalização dessa análise, o sujeito assinava o TCLE e seus dados pessoais eram anotados no protocolo de recrutamento. Ele era, então, interpelado sobre sua percepção de conforto no uso dos equipamentos médico- hospitalares constantes no protocolo. Análise dos dados Para a análise dos dados, estes foram tabulados e submetidos à estatística descritiva e analítica por meio do teste estatístico de Mann- Whitney, visando comparar os grupos de dados e descobrir se havia diferenças estatisticamente signifi cativas entre os mesmos (p ≤ 0,05). DESIGN E ERGONOMIA 23 Resultados e discussão Resultados da observação sistemática A tabela 1 apresenta a avaliação sistemática dos equipamentos médico-hospitalares. Visando facilitar a compreensão, os princípios de usabilidade e design universal foram codifi cados e dispostos na ta- bela da seguinte maneira: fl exibilidade (A), evidência (B), visibilidade (C), capacidade (D), compatibilidade (E), tolerância (F), esforço (G), espaço (H), feedback (I). As notas são distribuídas como ótimo (5), bom (4), regular (3), ruim (2) e péssimo (1). Os resultados demonstram algumas inadequações dos equipa- mentos analisados. A fi gura 2 apresenta a média das notas atribuí- das aos equipamentos médico-hospitalares de acordo com todos os princípios de acessibilidade, usabilidade e design universal. Tabela 1. Resultados da observação sistemática dos equipamentos. Sistema de descanso e alimentação Equipamento A B C D E F G H I Cama Média 3,4 4,1 4,1 3,3 3,9 3,8 3,3 2,2 3,9 D.P. 0,6 0,7 0,6 0,5 0,6 0,5 0,6 0,7 0,5 Colchão Média 3,2 4,5 4,4 3,3 4,3 3,5 2,7 1,9 4,0 D.P. 0,7 0,5 0,5 0,5 0,8 0,7 0,6 0,7 0,3 Escada Média 2,8 4,3 3,8 2,6 4,1 1,8 2,7 2,2 3,8 D.P. 0,8 0,5 0,6 0,6 0,7 0,9 0,7 0,6 0,6 Suporte para soro Média 3,2 3,9 3,1 2,8 3,4 3,4 2,6 3,0 3,9 D.P. 0,7 0,6 0,6 0,6 0,7 0,7 0,9 0,9 0,4 Suporte alimentar Média 2,7 4,0 3,3 2,8 3,9 2,3 2,7 2,2 4,0 D.P. 0,5 0,5 0,5 0,4 0,6 0,5 0,9 0,7 0,0 Campainha Média 3,6 4,1 3,5 3,2 4,0 3,1 3,3 3,3 3,9 D.P. 1,2 0,4 0,8 0,9 0,6 0,9 1,1 1,1 0,8 Sistema de banho Equipamento A B C D E F G H I Cadeira de banho Média 2,8 4,0 3,8 2,8 3,5 2,8 2,5 1,0 3,5 D.P. 0,5 0,8 0,5 0,5 0,6 0,5 1,0 0,0 0,6 Continua. 24 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Tabela 1. Continuação. Sistema de locomoção Equipamento A B C D E F G H I Maca de transporte Média 3,5 3,5 4,0 3,0 3,5 2,5 3,0 2,0 4,0 D.P. 0,7 0,7 0,0 0,0 0,7 0,7 1,4 1,4 0,0 Cadeira de rodas Média 2,0 2,5 2,5 1,5 3,0 2,0 1,5 1,0 3,5 D.P. 0,0 0,7 0,7 0,7 0,0 1,4 0,7 0,0 0,7 Andador O hospital não possui andadores ou muletas; os pacientes os levam quando necessário, ou são emprestados pela assistente social.Muletas Figura 2. Classifi cação dos equipamentos pela média dos conceitos de usabilidade e design universal. De todos os equipamentos, os que se mostram em situação mais preocupante são as cadeiras de rodas e as cadeiras de banho, pois possuem notas de regular a péssimo em grande parte dos princípios de usabilidade e design universal. De forma geral, pode-se dizer que esses dois equipamentos: • Não atendem satisfatoriamente a grande parte dos usuários; • não são inteligíveis e as informações não se mostram visíveis a indivíduos com diferentes habilidades; • não aproveitam capacidades individuais; DESIGN E ERGONOMIA 25 • possibilitam a ocorrência de acidentes devido ao seu estado de conservação; • não possuem espaço adequado para indivíduos acima do con- siderado “padrão”, com nota péssima nesse quesito. Apresentando problemas isolados com nota de ruim a péssimo encontram-se a escada, com grande risco de acidentes devido à falta de borrachas nos degraus e pés, e o colchão e a maca de transporte, com espaço inadequado a indivíduos de tamanho acima do conside- rado “padrão” (fi gura 3). Figura 3. Escada, à esquerda. Colchão, ao centro. Maca de transporte, à direita. A partir dessa primeira análise, fi ca evidente que o design, as- sociado aos conhecimentos da pesquisa em ergonomia, tem papel importante na identificação desses problemas e apresentação de recomendações de melhoria ou do próprio desenvolvimento de projetos mais adequados aos seus usuários. Resultados da abordagem com os pacientes obesos No protocolo dos usuários diretos, havia apenas questões para atribuir nota (de ótimo a péssimo). Desse modo, será apresentada na fi gura 4 a classifi cação dos equipamentos sob a percepção dos pacientes obesos entrevistados. 26 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Figura 4. Classifi cação dos equipamentos por notas de ótimo (5) a péssimo (1). De forma a comparar dados de públicos distintos, optou-se por dividir a amostra em duas partes: pacientes obesos internados no Hospital de Base de Bauru (31 sujeitos) e pacientes aguardando consulta em duas clínicas de problemas da obesidade (vinte sujeitos). É importante salientar que a maioria dos pacientes abordados nas clínicas respondeu ter sido internada em hospitais particulares, ao passo que o Hospital de Base de Bauru é mantido pelo SUS, portan- to, com características de hospital público. A fi gura 5 apresenta os conceitos atribuídos aos equipamentos pelos pacientes do hospital e das clínicas. Observando a fi gura 5, verifi ca-se que não há grande variação nas respostas; apenas o item cadeira de banho apresentou diferença mais expressiva, entretanto não signifi cativa (p = 0,2228). A teoria estatística explica que tal diferença se deve, entre outros fatores, à quantidade reduzida de respostas obtidas nessa variável. O suporte para soro apresentou diferença estatisticamente signifi - cativa (p = 0,0321). Os pacientes internados em hospitais particulares atribuíram notas inferiores a esse equipamento, ainda que se saiba que geralmente há suportes para soro com rodas e de material mais leve e fácil de transportar. Desse modo, não foram encontrados mo- tivos concretos para justifi car tal diferença nas respostas. DESIGN E ERGONOMIA 27 Figura 5. Comparação entre as respostas dos pacientes internados no Hospital de Base de Bauru (A) e entrevistados em clínicas (B), onde indica que houve diferenças esta- tisticamente signifi cativas (p ≤ 0,05) e indica que não houve diferenças signifi cativas (p > 0,05), segundo teste de Mann-Whitney. De modo geral, observa-se que houve pequena diferença nas opiniões, demonstrando consistência nos resultados. Análise sistemática x abordagem com os pacientes obesos Comparando os dados obtidos nas abordagens (fi gura 5) com os dados obtidos na análise sistemática (fi gura 3), observa-se uma con- sistência nos resultados que evidencia que as condições de instalação e acomodação de obesos em diferentes hospitais necessitam de uma intervenção urgente do design, oferecendo melhores condições de acesso e uso por esses pacientes. 28 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Considerações fi nais Este capítulo encontrou algumas difi culdades em sua formula- ção e desenvolvimento. A primeira difi culdade encontrada esteve relacionada ao pequeno e limitado número de referências antropo- métricas da população de obesos, além da falta de normas ou parâ- metros técnicos brasileiros que regulamentem o dimensionamento de equipamentos médico-hospitalares. Esse fator acaba evidenciando a ausência de critérios para a produção desses produtos e a total despreocupação com sua adequação ergonômica. Do ponto de vista metodológico, houve algumas limitações quan- to aos resultados das abordagens junto ao público direto, pois as abordagens tratam de opiniões subjetivas, que podem ser infl uen- ciadas por fatores sobre os quais não há possibilidade de um controle rigoroso. A partir dos procedimentos metodológicos adotados e dos resultados apresentados e discutidos aqui, podemos considerar que a análise sistemática dos critérios de usabilidade, design universal e design ergonômico, associada às abordagens com usuários, possi- bilita identifi car de forma mais objetiva os problemas mais críticos enfrentados por pacientes obesos. Quanto aos métodos de abordagem, pode-se considerar que seria importante realizar uma ampla revisão metodológica de meios de abordagem por entrevista e questionários mais efi cientes que possam não eliminar, mas conduzir a subjetividade de modo a apontar com maior clareza as opiniões e reclamações dos sujeitos, visando apro- veitar com mais segurança a resposta dos entrevistados. Apesar de os resultados obtidos com o estudo serem considerados preliminares, confi guram-se como importantes parâmetros para o projeto de equipamentos mais seguros, efi cientes e confortáveis para esses indivíduos, ressaltando que atualmente não há quaisquer padrões referentes a essa temática. Pela observação e refl exão sobre esses problemas, e empregan- do-se os conhecimentos de design e ergonomia, é possível apre- sentar alguns parâmetros projetuais. É importante que o espaço ocupado por um obeso permita ou facilite o desenvolvimento de DESIGN E ERGONOMIA 29 suas habilidades e capacidades individuais, não acentuando suas limitações. Também são de fundamental importância vencer o preconceito e a segregação atuais e começar a desenvolver produtos com um design que inclua esses indivíduos, considerando que ninguém está livre de desenvolver esse problema ou ter um membro de sua família acometido pelo mesmo, e que ninguém se encontra nessa condição porque quer ou porque não se importa. O desenvolvimento de produtos plenamente acessíveis a obesos também não deve ser encarado como um estímulo à doença, mas uma garantia de melhor qualidade de vida e conforto psíquico para que esse cidadão desenvolva plenamente suas atividades pessoais e de reabilitação. De modo geral, o estudo apresentado neste capítulo contribui para destacar a importância da multidisciplinaridade no projeto e também a importância de se pensar nos percentis extremos da população que, embora isoladamente não sejam a maioria, se con- siderados em grupo tornam-se uma fatia considerável na economia e devem ser pensados em qualquer projeto que seja desenvolvido, pois são usuários e têm direitos e deveres como todo e qualquer cidadão, merecendo, portanto, dignidade no uso de bens e serviços e qualidade de vida. Referências bibliográfi cas ABERGO. Código de Deontologia do Ergonomista Certifi cado. Norma ERG BR 1002, 2002. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2004. BAPTISTA, A. H. N., MARTINS, L. B. Ergonomia e a classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde. In: Congresso Brasileiro de Ergonomia, 13, 2004, Fortaleza. Anais do XIII Congresso Brasileiro de Ergonomia. Fortaleza, 2004. 1 CD-ROM. BUCICH, C., NEGRINI, V. 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Considerando os três últimos itens e a parcela de idosos que necessitam de tecnologias assistivas para locomoção, especialmente as cadeiras de rodas, defi niu-se a questão da pesquisa e o problema a 1 Mestre em design, Universidade Federal de São Carlos. 2 Pós-doutor em ergonomia, Universidade Estadual Paulista. 34 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES ser solucionado perguntando-se se as cadeiras de rodas atualmente comercializadas atendem às necessidades psicofisiológicas dos idosos. As bases científi cas: ergonomia e design De caráter interdisciplinar, a ergonomia agrega-se a várias dis- ciplinas que sustentam a sua base científi ca e tecnológica. O design, por exemplo, é uma dessas disciplinas que trazem de forma corre- lata um elo para que os objetivos da ergonomia sejam amplamente alcançados e estabelecidos. Dul & Weerdmeester defi nem esse elo da seguinte forma: “A ergonomia é a ciência aplicada ao projeto de máquinas, equipamentos, sistemas e tarefas, com o objetivo de melhorar a segurança, saúde, conforto e a efi ciência no trabalho” (2004). Considerando as propostas de Bürdek (2006), o design tem um papel importante nesse elo, pois o design deve atender a problemas específi cos, como, por exemplo, visualizar progressos tecnológicos, priorizar a utilização e o fácil manejo de problemas (não importa se hardware ou software), tornar transparente o contexto da produção, do consumo e da reutilização do produto e promover serviços e a comunicação, mas também, quando necessário, exercer com energia a tarefa de evitar produtos sem sentido. Portanto, diante das pre- missas da ergonomia e das metas para solucionar os problemas de design, a pesquisa aqui relatada objetiva encurtar os passos da tarefa de projetar, sugerindo recomendação para o projeto do produto cadeira de rodas para idosos. Fundamentação Por meio da observação da Interface Tecnológica (IT) caracte- rizada pelo idoso e a cadeira de rodas e também pelo enfermeiro e DESIGN E ERGONOMIA 35 cuidador, conforme apresentado pela fi gura 6, percebeu-se que as cadeiras de rodas apresentavam problemas de interface, caracteriza- dos principalmente pelas queixas de desconforto dos idosos usuários dessas cadeiras. Figura 6. Fluxograma da fundamentação da pesquisa. Diante desses problemas observados, buscou-se por meio dos conceitos teóricos e práticos da ergonomia e do design descobrir quais seriam as recomendações para o projeto de cadeira de rodas para idosos. Objetivos O objetivo geral da pesquisa foi sugerir recomendações para o projeto de cadeiras de rodas para idosos e que essas recomendações estivessem baseadas nos princípios do design ergonômico. Já os ob- jetivos específi cos foram conhecer a realidade das cadeiras de rodas e descobrir suas verdades; verifi car a viabilidade de um método es- pecífi co para a coleta e análise dos dados, e provocar um pensamento refl exivo da importância da aplicação do design ergonômico. 36 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Revisão da literatura Tecnologia assistiva Para criar um fl uxo de entendimento para a pesquisa, começou- se defi nindo a tecnologia assistiva, termo criado em 1988, segundo Bersch (2005), para dar suporte jurídico à legislação norte-americana. Mais tarde esse termo foi normalizado pela Internacional Organiza- cional for Standardization (ISO): “(...) qualquer produto, instrumen- to, equipamento ou sistema técnico usado por uma pessoa defi ciente, especialmente produzido ou disponível que previne, compensa, atenua ou neutraliza a incapacidade”. A norma regulamentada pela ISO 9999 apresenta defi nições e classifi cações do que seriam as tecnologias assistivas. Para exempli- fi car as tecnologias assistivas são necessários os seguintes artefatos: auxiliares de treinamento e treino; próteses e órteses; auxílios para cuidados pessoais e higiene; auxílios para mobilidade; auxílios para cuidados domésticos; mobiliários e adaptações para habitações e outros locais; auxílios para comunicação, informação e sinalização; auxílios para manuseio de produtos e mercadorias; auxílios para me- lhorar o ambiente, ferramentas e máquinas e auxílios para recreação. No Brasil, o termo tecnologia assistiva ainda é pouco utilizado, porém o sinônimo ajudas técnicas é utilizado. Por se tratar de um termo regulamentado por Lei é válido ressaltar o que diz o Artigo 61 do Decreto 5296, que aponta uma defi nição para o termo Ajudas Técnicas: “são produtos, instrumentos, equipamentos ou tecnologias adaptados ou projetadas para melhorar a funcionalidade da pessoa com defi ciência ou com mobilidade reduzida, favorecendo a auto- nomia pessoal, total ou assistida”. Este capítulo não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas sim de contribuir para o desenvolvimento de novos produtos, especialmente considerando as características psicológicas e fi siológicas dos idosos, buscando uma melhoria para a qualidade de vida dessas pessoas, pro- porcionando, a partir do conceito do design ergonômico, conforto, se- DESIGN E ERGONOMIA 37 gurança e efi ciência na realização das atividades da vida diária (AVDs), principalmente daqueles indivíduos que fazem uso de cadeira de rodas. As cadeiras de rodas Falando especifi camente das cadeiras de rodas, esse objeto foi o primeiro a ser patenteado no Brasil. Segundo Rodrigues (1973), em 1830, D. Pedro I sancionou a Lei de Propriedade Industrial – vigente até os dias de hoje – e por meio dessa lei o então inventor Joaquim Marques de Oliveira e Souza recebeu exclusividade por um período de dez anos pelo seu invento que denominava cadeira de rodas para aleijados. Diante desse fato marcante da História do Brasil, acreditou-se que seria fundamental fazer um levantamento do histórico da cadeira de rodas, pois, conforme sugeriu Ono (2006), fazer a relação da cultura e do design é essencial para entender a iden- tidade dos indivíduos e de grupos sociais, já que Norman e Draper afi rmaram que um produto é ao mesmo tempo “um refl exo da história cultural, política e econômica, o qual ajuda a moldar a sociedade e afeta a qualidade de vida das pessoas” (1986). Portanto, buscou-se entender um pouco mais sobre as questões do design por meio do histórico iconográfi co das cadeiras de rodas, ou seja, do estilo, do conceito, da forma do objeto e de suas diversas aplicações. Por meio da iconografi a histórica dos mais de quarenta modelos de cadeiras de rodas catalogados, percebeu-se que há um descompasso no design das cadeiras de rodas se o compararmos com outros setores mais dinâmicos da indústria, como, por exemplo, o automobilístico. Em menos de cem anos a forma e o conceito do carro mudou completamente. Comparando o Ford T (1908) com o protótipo desenvolvido pela Toyota para o carro do futuro (2005), percebemos que em trezentos anos o design das cadeiras de rodas nada mudou no conceito e na sua forma. Porém, o protótipo para o carro do futuro desenvolvido pela Toyota deixa uma incógnita que descobriremos somente no seu tempo: será que a confi guração do I- Unit representa o futuro dos carros ou será que representa o futuro das cadeiras de rodas? 38 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Idoso Voltando à linha de fl uxo das defi nições, para compreendermos o que é ser idoso, temos que entender o fator envelhecimento. O envelhecimento no Brasil tem um respaldo legal cumprido por leis e estatutos. Segundo Sanchez (2000), a classifi cação do envelhecimento pode ser feita em dois níveis, a saber, o envelhecimento normal que está relacionado com os fatores biológicos, cronológicos e sociais, e o envelhecimento patológico que corresponde às incapacidades psí- quica, fenomenológica e funcional do indivíduo que caracterizam as enfermidades. Portanto, a compreensão dessas enfermidades sugere e direciona algumas demandas para o design de cadeira de rodas. Enfermidades da senescência Para Caldas (2004), o conceito de fragilidade é um importante parâmetro na área do envelhecimento, pois estabelece critérios para determinar quando e em que situações um idoso necessita de apoio. A fragilidade é defi nida por Hazzard et al. (2003) como a vulnerabi- lidade que o indivíduo apresenta aos desafi os do próprio ambiente. Essa condição é observada em pessoas com mais de oitenta anos, ou naqueles mais jovens, que apresentam uma combinação de doenças ou limitações funcionais que reduzem sua capacidade de se adap- tarem ao estresse causado por doenças agudas, hospitalizações ou outras situações de risco. As principais características de fragilidade do ser humano são a idade avançada, a perda de autonomia e a presença de doenças crônicas ou síndromes geriátricas. São consideradas síndromes geriá- tricas: a instabilidade e quedas, imobilidade, deterioração cognitiva, défi cit sensorial, incontinência e iatrogia. Com o intuito de minimizar risco acidentário, em consequência da fragilidade do idoso cadeiran- te, busca-se, a partir do estudo das enfermidades, uma relação com as necessidades de usabilidade das cadeiras de rodas e objetiva-se apresentar contribuições que possam ser adequadas às tecnologias DESIGN E ERGONOMIA 39 assistivas, visando estabelecer um produto com características pre- ventivas às complicações dessas doenças, além da manutenção ou reabilitação plena do estado de saúde do idoso. Embora as intervenções do design ergonômico ainda sejam ar- bitrárias na área da saúde, percebeu-se que as enfermidades mais frequentes na senescência, como a diabetes mellitus, distúrbios mús- culo-esqueléticos e infecções urinárias, entre outras, exigem tanto o desenho específi co quanto o desenvolvimento de acessórios. Paschoarelli et al. (2005) sugerem propostas e conceitos meto- dológicos básicos para o design ergonômico, especialmente para a concepção de produtos que visam à prevenção e ou à reabilitação. Os autores afi rmam que esses conceitos metodológicos mostram-se essenciais e signifi cativos, tanto para o desenvolvimento de produtos seguros, confortáveis e efi cientes, quanto para disponibilizar recursos para que a reintegração de incapacitados à sociedade ocorra de forma digna e humana. Portanto, a especifi cidade patológica demanda reco- mendações projetuais próprias para a cadeira de rodas poder oferecer maior segurança, conforto e efi ciência e para o objetivo ser melhor alcançado deve-se associar a essas recomendações uma metodologia de desenvolvimento específi ca para o design de tecnologias assistivas. Se essas recomendações não forem bem resolvidas pelo design do produto, os fatores prevenção, manutenção e reabilitação do estado de saúde do idoso podem fi car comprometidos. Antropometria e biomecânica Outra recomendação projetual é considerar a antropometria, que se trata do estudo da forma e do tamanho do corpo. Rodriguez-Añez (2000) concluiu, baseando-se na defi nição de Roebuck (1975): [A antropometria é a] ciência da mensuração e a arte da aplicação que estabelece a geometria física, as propriedades da massa e a ca- pacidade física do corpo humano. O nome deriva de “anthropos”, que signifi ca homem, e “metrikos”, que signifi ca ou se relaciona com a mensuração. 40 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Para este capítulo foi revisada a antropometria estática de cinco grupos de idosos, dos quais se considerou para a referência dimen- sional os percentis 5 e 95. Vinte e uma variáveis antropométricas expressivas para o design de cadeira de rodas foram corrigidas em consequência das roupas para que a antropometria pudesse ser aplicada de forma prática no design ergonômico de cadeira de rodas (CR) e atendesse à norma NBR 9050 da ABNT (fi gura 7). Figura 7. Variáveis antropométricas. Outro critério projetual importante é a biomecânica: para di- minuir a sobrecarga biomecânica do sentado deve-se trabalhar a postura, oferecendo ao produto ajustes dentro dos limites aceitáveis e seguros, pois a correta confi guração das partes do corpo vai permitir o aperfeiçoamento da tarefa. As formas do assento e os materiais empregados podem pro- porcionar uma postura do sentado mais adequada, e a maneira de propulsionar a cadeira de rodas também infl uencia na sobrecarga biomecânica. Conhecer e aplicar as amplitudes seguras e as técnicas de propulsão pode favorecer a efi ciência da interface tecnológica e principalmente o estado de saúde do usuário. Das formas de propulsão, segundo Bonninger et al. (2002), por exemplo, a semicircular é a mais adequada por provocar menos le- sões nos ombros e braços. Já a propulsão em forma de arco é a mais inadequada (fi gura 8). DESIGN E ERGONOMIA 41 Figura 8. Grau de adequação das técnicas de propulsão da cadeira de rodas. Usabilidade Partindo do princípio de que a interface tecnológica deva ser fl exível mesmo se existirem barreiras para essa fl exibilidade (fi gura 9) e de que a usabilidade não é um critério pós-projeto, criou-se um modelo para o entendimento da usabilidade da cadeira de rodas. Então, por meio de um teste de usabilidade, verifi cou-se como a especifi cidade patológica, as características físicas, de propulsão e morfológicas das cadeiras de rodas interferem nessa fl exibilidade e quais seriam as recomendações para serem aplicadas nas etapas iniciais do desenvolvimento do produto. Figura 9. Fluxograma da fl exibilidade. Jordan (1998), Moraes (2001) e Iida (2005) alertam que a usa- bilidade deve ser considerada no desenvolvimento do design de produtos, e, especialmente quando os indivíduos são idosos, o design deve levar em consideração as características particulares desses indivíduos. 42 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Metodologia Estrutura metodológica da pesquisa A estrutura metodológica da pesquisa para este capítulo foi re- tratada numa pirâmide (figura 10), na qual os módulos da base contemplam a abordagem teórica e a pesquisa de opinião. Figura 10. Pirâmide metodológica. O módulo referente às questões éticas é responsável pela conexão entre os módulos, inclusive com a terceira abordagem, cujos testes e as entrevistas foram realizados com os idosos usuários e não-usuários de cadeira de rodas. Questões éticas Dos 11 critérios de eticidade adotados aqui vale ressaltar: • Encaminhamento do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu, que recebeu aprovação e liberação. DESIGN E ERGONOMIA 43 • Utilização de um Termo de Consentimento Livre e Esclare- cido (TCLE), regulamentado pelo Ministério da Saúde e pela Associação Brasileira de Ergonomia (Abergo). • Utilização de uma fi cha de anamnese que antecede os testes de usabilidade. Primeira abordagem: teórica sistemática Na primeira abordagem a cadeia temática do estudo teórico estava conectada com os termos idoso, ergonomia, cadeira de rodas e design, conforme apresentado pelo quadro da fi gura 11. Figura 11. Cadeia temática da abordagem teórica. Segunda abordagem: pesquisa de opinião Na segunda abordagem, buscou-se entender a problemática da pesquisa ouvindo a opinião dos cuidadores, acompanhantes de ido- sos, enfermeiros e os profi ssionais das áreas clínicas, os quais estão diretamente ligados à interface tecnológica. 44 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Materiais Os materiais utilizados na pesquisa de opinião foram: • 315 cartas de apresentação; • 315 protocolos de pesquisa (entende-se por protocolos a fi cha de identifi cação do sujeito, o TCLE e o questionário propria- mente dito). Desses, 183 foram envelopados e enviados via Correios. Terceira abordagem: teste de usabilidade e entrevistas Para a terceira abordagem foi desenvolvido e montado um teste com base na NBR 9050 (fi gura 12), ou seja, desenvolveu-se uma pista de teste com dimensionais de acessibilidade normalizados e regulamentados. Figura 12. Desenho esquemático da pista de teste (esquerda) e pista de teste montada (direita). Antes de o sujeito iniciar o teste, ele era orientado sobre como fazer o percurso. O enfermeiro realizava os procedimentos clínicos de pesagem, medição de altura e massa corpórea, e, se estivesse tudo em ordem, o sujeito estava apto a realizar os testes. Vale ressaltar que não tivemos nenhum sujeito inapto para realizar os testes. DESIGN E ERGONOMIA 45 Materiais e equipamentos Os materiais utilizados para os testes e entrevistas com idosos foram o protocolo de pesquisa, o diagrama de Corllet & Manenica (1980) construído em madeira e jogos de cartões, o que deixou o procedimento mais dinâmico e interessante para o participante (fi gura 13). Figura 13. À esquerda, diagrama de Corllet & Manenica (1980). À direita, jogos de cartões plastifi cados. 46 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Os equipamentos utilizados foram balança digital, com capaci- dade de 180 kg; cone de tráfego; esfi gmomanômetro e estetoscópio; câmera/fi lmadora digital com tripé; e uma cadeira de rodas de pro- pulsão manual, conforme apresentado pela fi gura 14. Figura 14. Equipamentos utilizados no teste de usabilidade. A cadeira de rodas foi utilizada única e exclusivamente como referencial tecnológico, pois o objetivo dessa abordagem foi conhecer o desempenho do idoso na realização da tarefa. A cadeira de rodas modelo AVD Plus da Ortobrás também foi escolhida por apresentar uma proximidade técnica e estética com as cadeiras de rodas mais comumente utilizadas pelos idosos, por não existir um modelo de cadeira de rodas específi co para idoso e por haver colaboração da Ortobrás, que doou a cadeira de rodas para a pesquisa. Vale ressaltar que seis empresas de cadeiras de rodas foram contatadas. Resultados Resultados da pesquisa de opinião Enfermeiros e cuidadores Os resultados obtidos na pesquisa de opinião com os enfermeiros retratam um quadro panorâmico entre as queixas de desconforto DESIGN E ERGONOMIA 47 corporal e morfologia da cadeira de rodas, crítico e sistêmico: 13% dos sujeitos apontaram que idosos, quando usuários de cadeiras de rodas, se queixam muito de dores no pescoço e costas-médias; 7,35% apontaram as costas-inferiores; já para a região das costas-inferiores e bacia esse índice sobe para cerca de 30%, e 20% para a região das coxas e pernas. Fazendo a associação com a morfologia da cadeira de rodas, temos o assento e os apoiadores de braços, sendo os itens mais críticos, por manterem uma relação direta com as regiões corporais das quais os idosos mais se queixam de desconforto. Profi ssionais das áreas clínicas Quando se perguntou aos profi ssionais das áreas clínicas qual era a região corporal em que o idoso usuário de cadeira de ro- das apresentava maiores dificuldades de reabilitação, novamen- te, costas-inferiores e bacia aparecem no topo com quase 30% das opiniões. Perguntou-se qual era a difi culdade que os profi ssionais encontravam para o sucesso da reabilitação do indivíduo e as res- postas foram que assento/encosto, a falta de acessórios, a difi cul- dade de propulsão e o custo elevado da CR difi cultavam a pres- crição, comprometendo, portanto, todo o processo de reabilitação e muitas vezes levando o idoso a quadros clínicos mais críticos e irreversíveis. Resultados do teste de usabilidade e entrevistas Os resultados obtidos pelo teste de usabilidade e nas entrevistas, os quais podem ser observados pelo gráfi co da fi gura 15, apontaram graus de difi culdade para diversas tarefas realizadas com cadeira de rodas. 48 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Figura 15. Resultados do teste de usabilidade. Fazendo a análise do gráfi co da fi gura 15, têm-se as seguintes conclusões: cerca de 60% dos idosos não-usuários de cadeira de rodas (INUCR) apontaram difi culdades para remover os suportes laterais. Vale ressaltar que o pino trava da cadeira utilizada no teste desgastou, tornando essa tarefa mais difícil. Mais de 15% disse ser muito difícil fechar a cadeira de rodas. Comparando os resultados, a manobra da cadeira de rodas para 36% dos INUCR é uma tarefa que demanda certa habilidade, o que se pode comprovar pelo índice dos idosos usuários de cadeira de rodas (IUCR) que cai para cerca de 15%. Já para a tarefa de autopropulsão os índices invertem, ou seja, para os IUCR é mais difícil propulsionar a CR do que para os INUCR. Outras tarefas apontadas pelos IUCR foram a difi culdade de desviar de obstáculos e a falta de conforto do objeto. Resultados gerais da relação de desconforto entre homem e tecnologia Fazendo uma compararão genérica das abordagens realizadas, o grau de desconforto apontado pelos sujeitos no diagrama de Corllet & Manenica (1980) está diretamente relacionado com a inefi ciência DESIGN E ERGONOMIA 49 ou inadequações da morfologia da cadeira de rodas. Para citar alguns dos exemplos apresentados pela fi gura 16, temos a queixa de descon- forto no pescoço por consequência da falta de apoio para a cabeça, e o desconforto nas costas-inferiores e bacia pela inadequação ou ine- fi ciência do assento que interfere na manutenção da postura correta. Figura 16. Relação do desconforto com a morfologia da cadeira de rodas. Considerações fi nais Embora as recomendações projetuais estejam detalhadas ao longo do capítulo, algumas refl exões para a prática projetual de cadeira de rodas para idosos podem ser apontadas. Não podemos esquecer que fatores como os aspectos sociais e econômicos, as enfermidades da senescência, os aspectos antropométricos e biomecânicos, e ainda a usabilidade e a postura do sentado devem ser considerados. Também de grande importância é atrelar o padrão estético dese- jado pelo idoso ao design do produto, mudar o paradigma da forma e provocar mudanças para um novo conceito de rodas em cadeiras, desenvolver produtos de fácil higienização e manutenção e que possuam formatos anatômicos e ajustáveis. Pois, se considerarmos esses fatores, estaremos valorizando a vida do idoso cadeirante e 50 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES consequentemente assumindo a responsabilidade de prevenção, manutenção e reabilitação do estado de saúde. As cadeiras de rodas também devem oferecer facilidade no seu transporte, e um manual ilustrado ou cartilha que seja de fácil entendimento. Também é im- portante criar uma família de cadeiras de rodas e acessórios com base na especifi cidade patológica e que cada objeto dessa família tenha um custo reduzido para atender a grande parte da população brasileira. Por fi m, este capítulo buscou apontar um equilíbrio entre o de- senvolvimento científi co e o desenvolvimento tecnológico, criando um elo de responsabilidade entre os desenvolvedores de cadeira de rodas, pois descobriu-se com a pesquisa, a partir da metodologia aplicada, que as cadeiras de rodas para idosos são específi cas e se diferem dos parâmetros atuais utilizados, principalmente se a base projetual for o design ergonômico. Referências bibliográfi cas ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR9050: Acessibilidade e edifi cações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. 2.ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2004. 97p. 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O presente estudo foi estruturado e desenvolvido tendo como base trabalhos relacionados à antropometria (Silva,1995; Paschoa- relli, 1997; Queiroz, 2000; Villa, 2001) que tiveram como amostra indivíduos de faixas etárias bem inferiores aos voluntários da presen- te pesquisa. Sabendo-se da importância da continuidade sistemática nas pesquisas, defi niram-se as 27 variáveis antropométricas, mais o Índice de Massa Corpórea (IMC), a faixa etária e os locais de recru- tamento dos participantes voluntários. 1 Mestre em design, Universidade do Sagrado Coração. 2 Professor titular, Universidade Estadual Paulista. 56 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES O envelhecimento é, em grande parte, um desafi o do mundo contemporâneo, afetando tanto os países ricos quanto os países po- bres, ainda que de forma diferente e específi ca em cada sociedade, cultura e contexto socioeconômico. As estimativas sobre populações no mundo preveem para daqui a vinte anos um aumento de até 88% de idosos com mais de 65 anos de idade, o que representa quase um milhão de pessoas por mês. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2025, a expec- tativa de vida para mais de oitenta anos de idade será a idade média em pelo menos 26 países. Quatro deles – Itália, Japão, Islândia e Suécia – já cumprem essa expectativa (IBGE, 2000). O contingente de idosos no Brasil enfrenta um crescimento grandioso, como no resto do mundo. A estimativa da população geral no país é de 177.620.328 pessoas segundo o censo demográfi co de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE). Um panorama geral sobre os idosos no Brasil estima que 14.536.029 pessoas são idosos. No estado de São Paulo, são 3.316.957. Na cidade de Bauru, a população geral é de 316.064 pessoas, enquan- to a de 60 anos ou mais chega a 32.841. Estatísticas mostram que a população idosa no Brasil em meados de 2020 chegará à casa dos 20% da população geral. Eles estarão em todas as partes das cidades, desenvolvendo o comércio, o turismo, o lazer e até disputando vagas no mercado de trabalho. Seguindo essa premissa, Charness e Bosman (1992) destacam que uma simples extensão tradicional de acesso dos fatores huma- nos, de acordo com a idade, traria benefícios gerais à sociedade. Os primeiros fatores do centro de atenção para indivíduos na faixa de 40 a 64 anos são a efi ciência e a segurança de produtos. Já o grupo da idade de 65 a 74 anos está mais relacionado com a segurança, conforto e tranquilidade de uso. Para o grupo de 75 anos ou mais, além desses, incluem-se os instrumentos e dispositivos de auxílio para AVDs, levando-se em conta as características do processo de envelhecimento. O processo de envelhecimento humano é assunto atual nos meios de comunicação; a televisão dedica parte de seus preciosos minutos DESIGN E ERGONOMIA 57 a apresentar em programas de entretenimento, e principalmente em telejornais, séries que tentam de alguma forma mostrar ao público que fi car velho não signifi ca adoecer, mas, sim, entregar-se a esse estágio da vida com saúde, vivacidade, independência e apresentar-se funcional. Exemplos dessa natureza são mostrados na revista Veja de 15 de novembro de 2004, sob o título de capa: A ciência da vida longa e saudável. As jornalistas Thereza Venturoli, Isabela Boscov e Lucila Soares dedicam 11 páginas ao assunto, destacando que “a promessa é de uma velhice saudável e prazerosa”. Para Erbolato (apud Neri & Freire, 2000), algumas teorias foram baseadas em aspectos biológicos do ser humano citadas em estudos realizados por cientistas europeus no século passado, quando ob- servaram uma série de alterações nos órgãos e no corpo humano, incluindo a diminuição de seu tamanho e defi ciências em seu fun- cionamento. Durante o envelhecimento, todas as pessoas sofrem mudanças físicas. Estudos de Ribas & Ely (2002) demonstraram que os problemas encontrados frente às necessidades físicas, informativas e sociais da pessoa da terceira idade podem ser resolvidos desde que se tome conhecimento e consciência de suas limitações e potencialidades com a chegada da velhice. Além disso, há que se considerar que o espaço deve acompanhar as mudanças ocorridas no corpo humano frente ao envelhecimento, propiciando aos idosos, sobretudo aos de menor renda, mecanismos que lhes garantam igualdade de cidadania e mais independência para uma vida normal na utilização de edifi - cações, espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, apesar das limitações impostas pela velhice. Compartilham desse pensamento antropométrico Cavalcanti & Ely (2002). Frente a esse contexto, Bomm et al. (2003) e Barros (2000) dis- correm: quando o ambiente não oferece condições de conforto, se- gurança e acessibilidade, ele não garante a seus usuários autonomia e independência. A antropometria tem sua função multivariada na ergonomia, desde a concepção de produtos, racionalização de ambientes e espa- ços, elaboração e intervenção em postos de trabalho, aos estudos que 58 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES tentam decifrar as variações e diferenças físicas, tanto individuais quanto em grupos e populações distintas. No Brasil, a discussão sobre as variáveis antropométricas começa a ganhar corpo. No entanto, há tendência para pesquisar a população infantil, juvenil e adulta, enquanto para os idosos os estudos nessa área são insufi cientes. Países como Canadá, China, França, Itália, Japão, Inglaterra e Estados Unidos acompanham substancialmente os parâmetros antropométricos de suas populações (Smith et al. 2000). Um documento exemplo dessa natureza (Older Adultdata da Inglater- ra) é uma coleção de informações antropométricas de adultos de mais de cinquenta anos de idade de diversos países e inclui 155 medidas. A antropometria trata de medidas físicas do corpo humano. Para Iida (1997), medir as pessoas seria uma tarefa fácil, bastando para isso ter uma régua, trena e balança, mas isso não é assim tão simples quando se deseja obter medidas confi áveis de uma população que contém indivíduos dos mais variados tipos. As condições em que es- sas medidas são realizadas (com ou sem roupas, com ou sem calçados, ereto ou na postura relaxada) infl uem nos resultados. É importante defi nir quem usa e quem usará, realmente, o produto para a escolha do melhor levantamento antropométrico a ser adotado no projeto (Quaresma & Moraes, 2000). O levantamento do IBGE de 1977 constituiu em avaliar o peso e a altura de indivíduos a partir de 18 anos e rotulou-se como repre- sentativo de toda população. O estudo procurou mostrar, por meio de comparações de dados, o quanto os valores da norma técnica PB 472 de 1979 estão diferentes dos reais. Na época, sugeriu a revisão da PB 472, incluindo em seu texto a necessidade de um levantamento antropométrico de outras variáveis, bem como de populações com idades distintas, para assim representar bem a população. Com toda essa motivação, e diante de componentes considera- dos importantes por diversos pesquisadores e aqui explicitados, a proposta do presente capítulo foi verifi car as características antro- pométricas e o IMC em indivíduos com 50 anos ou mais de idade, frequentadores de grupos da terceira idade da cidade de Bauru, reunindo 29 variáveis. DESIGN E ERGONOMIA 59 Materiais e métodos A amostra constitui-se de 190 pessoas de ambos os gêneros (mas- culino e feminino), com idade igual ou superior a cinquenta anos, frequentadoras das atividades físicas de grupos da terceira idade da cidade de Bauru (SP), nos anos de 2004 e 2005. Para ser participante voluntário, o presente levantamento ateve- se aos idosos que não fossem dependentes de auxílio ou dispositivos de ajuda, como andadores, muletas, próteses de membros superiores ou inferiores, ou ainda acometidos por patologias determinantes que infl uenciem a postura em pé ou sentada, de forma a gerar diferenças signifi cativas na padronização das medidas e nos parâmetros mor- fológicos identifi cados pelo pesquisador. Trata-se de uma pesquisa transversal descritiva, desenvolvida por meio do raciocínio dedutivo, em que os sujeitos foram recruta- dos por conveniência, ou seja, o pesquisador solicitava a participa- ção voluntária de acordo com a presença dos idosos nas atividades desenvolvidas. Houve nas atividades físicas um total de 384 participantes, 304 mulheres e oitenta homens, e determinou-se o tamanho amostral com nível de 95% de confi ança e 10% de erro de estimativa, estabelecendo- se, aproximadamente, 190 sujeitos voluntários, com proporciona- lidade ao gênero (Cochran, 1977), constituindo a amostra de 50 homens e 140 mulheres (tabela 2). Foram utilizadas tabelas preestabelecidas para o IMC (índice de Quetelet) que variam de acordo com a fonte consultada. As referên- cias exemplifi cadas para a pesquisa foram da OMS (1995), Hirsh (2003), e da Iaso (2005) (tabela 3). As técnicas estatísticas aplicadas para a apresentação e inter- pretação dos dados foram baseadas em tabelas de levantamentos antropométricos do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e re- comendadas em Padovani (1995): medidas de posição ou tendência central: média simples, percentis (1; 2,5; 5; 10; 25; 50; 75; 95 e 99), valores máximo e mínimo, e medidas de dispersão ou variabilidade (desvio-padrão, coefi ciente de variação e coefi ciente de correlação). 60 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Materiais e equipamentos métricos Foram empregados o parecer do Comitê de Ética em Pesqui- sa, protocolo 073/2005; termo de consentimento e protocolo de anotações, intitulado levantamento de dados antropométricos de indivíduos da terceira idade; uma balança de precisão com barra antropométrica, da marca Welmy, patrimônio número 04293, do Departamento de Desenho Industrial da Faac, Unesp de Bauru; uma cadeira antropométrica, com três escalas (100 cm, 55 cm e 50 cm), todas da marca Filling, construção própria; um paquímetro ou antropômetro, com escala de 100 cm da marca Filling, construção própria; e uma fi ta métrica (trena) fl exível de 10 m da marca Western. Resultados Os resultados estão inseridos como dados quantitativos em quatro tabelas distintas: duas para amostra masculina (tabelas 2 e 3) e duas para amostra feminina (tabelas 4 e 5), com valores numéricos e suas unidades. Tabela 2. Dados quantitativos da amostragem masculina. Variáveis Antropométricas Valores Amostra Masculina – Estatística de N=50 Média Desvio padrão Coef. Variação Valor mínimo Valor máximo Idade 66,28 anos 9,06 13,67% 50 anos 88 anos Peso Corpóreo 75,32 kg 11,53 11,53% 48 kg 101 kg Estatura 166,87 cm 6,43 3,85% 157,00 cm 183,00 cm Olhos-chão 156,46 cm 6,21 3,97% 147,00 cm 172,00 cm Acrômio-chão 139,83 cm 6,64 4,75% 130,00 cm 159,00 cm Cotovelo-chão 102,96 cm 4,44 4,31% 95,00 cm 115,00 cm Cotovelo-mão aberta 46,38 cm 2,43 5,25% 41,00 cm 53,00 cm Cotovelo-punho 27,84 cm 1,36 4,90% 25,00 cm 33,00 cm Axila-chão 130,48 cm 6,42 4,92% 117,00 cm 145,00 cm Acrômio-mão aberta 74,05 cm 3,56 4,81% 67,00 cm 85,00 cm Continua. DESIGN E ERGONOMIA 61 Tabela 2. Continnuação. Variáveis Antropométricas Valores Amostra Masculina – Estatística de N=50 Média Desvio padrão Coef. Variação Valor mínimo Valor máximo Circunferência craniana 57,16 cm 1,40 2,45% 54,00 cm 61,00 cm Circunferência torácica 97,24 cm 8,01 8,24% 82,00 cm 117,00 cm Circunferência abdominal 98,26 cm 10,62 10,81% 68,00 cm 120,00 cm Largura quadril 34,57 cm 2,27 6,55% 30,00 cm 40,00 cm Largura acrômios 29,09 cm 2,19 7,33% 25,00 cm 36,00 cm Largura ombros 45,60 cm 3,20 7,02% 38,00 cm 53,00 cm Assento-cabeça 85,03 cm 4,29 5,04% 78,00 cm 97,00 cm Assento-olhos 74,77 cm 4,28 5,72% 68,00 cm 86,00 cm Assento-acrômio 58,22 cm 3,63 6,23% 52,00 cm 65,00 cm Assento-cotovelo 21,60 cm 2,87 13,29% 15,00 cm 27,00 cm Altura das coxas 13,79 cm 1,62 11,77% 8,00 cm 17,00 cm Sacro-poplítea 48,77 cm 2,41 4,93% 43,00 cm 55,00 cm Sacro-joelho 59,66 cm 2,39 4,01% 55,00 cm 66,00 cm Altura poplítea 44,37 cm 2,74 6,18% 40,00 cm 52,00 cm Largura do pé 9,12 cm 0,60 6,61% 8,00 cm 11,00 cm Comprimento do pé 24,62 cm 1,27 5,15% 21,00 cm 27,00 cm Altura calcânea 7,66 cm 0,88 11,45% 6,00 cm 10,00 cm IMC em cm² 26,52 cm² 3,76 14,20% 18,00 cm² 35,00 cm² Tabela 3. Dados quantitativos da amostragem masculina. Variáveis Antropométricas Percentis Amostra Masculina de N= 50 P01 P2,5 P05 P10 P25 P50 P75 P95 P99 Idade 50,98 52,00 52,90 54,00 60,00 65,50 72,75 80,65 86,04 Peso Corpóreo 49,72 53,41 60,45 61,09 67,25 76,25 82,00 95,00 98,55 Estatura cm 157,49 158,23 159,00 159,00 161,00 166,00 169,00 179,01 182,51 Olhos-chão 147,49 148,00 148,00 149,00 151,00 156,00 159,75 168,01 171,02 Acrômio-chão 130,00 130,00 130,45 132,09 135,00 139,00 142,88 152,00 157,53 Cotovelo-chão 95,49 96,00 96,00 97,09 100,00 102,00 105,75 110,55 113,53 Cotovelo-mão aberta 41,00 41,23 42,00 43,00 45,00 47,00 48,00 49,55 52,51 Continua. 62 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Tabela 3. Continuação. Variáveis Antropométricas Percentis Amostra Masculina de N= 50 P01 P2,5 P05 P10 P25 P50 P75 P95 P99 Axila-chão 117,98 119,23 120,09 123,09 126,00 130,00 135,00 143,65 145,00 Acrômio-mão aberta 67,00 67,23 68,45 69,09 72,00 74,00 76,00 79,55 83,04 Envergadura 161,49 162,23 163,45 164,00 167,25 173,05 176,00 186,65 190,02 Circunferência craniana 54,49 55,00 55,00 55,09 56,00 57,00 58,00 59,00 60,51 Circunferência torácica 82,49 83,23 84,45 87,00 91,25 97,05 102,00 108,55 114,06 Circunferência abdominal 69,96 74,48 83,09 85,09 90,25 99,05 105,00 114,55 117,55 Largura quadril 30,49 31,00 31,45 32,00 33,00 34,00 36,00 38,55 39,51 Largura acrômios 25,98 27,00 27,00 27,00 28,00 30,00 31,00 33,55 35,02 Largura ombros 38,49 39,23 40,45 41,09 44,00 45,50 47,75 51,00 52,51 Assento-cabeça 78,49 79,00 79,45 80,00 82,00 84,00 88,00 92,10 96,02 Assento-olhos 68,49 69,00 69,00 69,09 72,00 74,00 77,00 81,55 85,02 Assento-acrômio 52,00 52,23 53,45 54,00 55,25 57,50 61,00 64,55 65,00 Assento-cotovelo 15,98 17,00 17,45 18,00 19,00 21,00 24,00 26,55 27,00 Altura das coxas 9,47 11,00 11,45 12,00 13,00 14,00 15,00 16,00 17,00 Sacro-poplítea 43,25 43,61 44,45 46,00 48,00 49,00 50,00 53,00 54,02 Sacro-joelho 55,00 55,45 57,00 57,00 58,00 59,25 61,00 64,00 65,02 Altura poplítea 40,00 40,00 40,23 41,00 43,00 44,00 45,88 49,55 51,76 Largura do pé 8,00 8,00 8,00 8,50 9,00 9,00 9,50 10,00 10,76 Comprimento do pé 21,49 22,11 22,33 23,00 24,00 24,50 25,50 26,38 27,00 Altura calcânea 6,00 6,00 6,23 6,50 7,00 7,50 8,00 9,00 9,80 IMC em cm² 18,00 18,45 20,00 22,00 24,00 27,00 29,00 32,00 34,02 Tabela 4. Dados quantitativos da amostragem feminina. Variáveis Antropométricas Valores Amostra Feminina – Estatística de N= 140 Média Desvio padrão Coef. Variação Valor mínimo Valor máximo Idade 66,01 anos 7,66 anos 11,60% 50 anos 88 anos Peso Corpóreo 64,30 kg 10,84 kg 16,85% 40,00 kg 105,05 kg Estatura 154,27 cm 5,87 cm 3,81% 136,00 cm 169,00 cm Olhos-chão 144,05 cm 5,82 cm 4,04% 126,00 cm 160,00 cm Continua. DESIGN E ERGONOMIA 63 Tabela 4. Continuação. Variáveis Antropométricas Valores Amostra Feminina – Estatística de N= 140 Média Desvio padrão Coef. Variação Valor mínimo Valor máximo Cotovelo-chão 94,19 cm 4,15 cm 4,41% 80,00 cm 104,00 cm Cotovelo-mão aberta 42,75 cm 2,12 cm 4,96% 36,05 cm 49,00 cm Cotovelo-punho 26,11 cm 1,70 cm 6,51% 22,00 cm 32,00 cm Axila-chão 119,65 cm 5,27 cm 4,40% 105,00 cm 134,00 cm Acrômio-mão aberta 67,90 cm 3,20 cm 4,72% 59,00 cm 75,00 cm Envergadura 158,50 cm 7,11 cm 4,48% 137,00 cm 177,00 cm Circunferência craniana 55,28 cm 1,50 cm 2,72% 51,00 cm 60,00 cm Circunferência torácica 92,18 cm 7,65 cm 8,30% 72,00 cm 113,00 cm Circunferência abdominal 94,14 cm 9,46 cm 10,05% 68,00 cm 122,00 cm Largura quadril 35,29 cm 3,11 cm 8,82% 26,05 cm 50,00 cm Largura acrômios 26,64 cm 2,01 cm 7,55% 22,00 cm 32,00 cm Largura ombros 42,20 cm 3,61 cm 8,56% 35,00 cm 57,00 cm Assento-cabeça 79,87 cm 3,53 cm 4,42% 69,00 cm 87,00 cm Assento-olhos 69,92 cm 3,47 cm 4,98% 59,00 cm 76,00 cm Assento-acrômio 54,47 cm 2,79 cm 5,13% 47,00 cm 62,00 cm Assento-cotovelo 20,44 cm 2,48 cm 12,14% 14,00 cm 26,00 cm Altura das coxas 13,70 cm 1,85 cm 13,47% 10,00 cm 20,00 cm Sacro-poplítea 46,45 cm 2,79 cm 6,01% 37,05 cm 55,00 cm Sacro-joelho 56,24 cm 3,72 cm 6,61% 45,00 cm 79,00 cm Altura poplítea 40,39 cm 2,88 cm 7,14% 33,00 cm 52,00 cm Largura do pé 8,58 cm 0,63 cm 7,30% 7,00 cm 10,50 cm Comprimento do pé 22,31 cm 1,16 cm 5,20% 19,00 cm 25,00 cm Altura calcânea 7,35 cm 0,74 cm 10,10% 5,50 cm 9,50 cm IMC em cm² 27,01 cm² 5,05 cm² 18,69% 19,00 cm² 49,00 cm² Tabela 5. Dados quantitativos da amostragem feminina. Variáveis Antropométricas Percentis Amostra Feminina de N= 140 P01 P2,5 P05 P10 P25 P50 P75 P95 P99 Idade 50,39 52,48 54,00 57,00 60,00 66,00 71,00 78,00 84,22 Peso corpóreo 43,70 46,74 49,45 52,90 58,00 62,00 69,13 83,01 98,03 Estatura 139,95 143,00 144,00 146,00 151,00 154,00 158,00 162,53 167,4 Continua. 64 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES Tabela 5. Continuação. Variáveis Antropométricas Percentis Amostra Feminina de N= 140 Olhos-chão 129,56 133,00 134,00 136,00 140,75 144,00 148,00 152,05 156,6 Acrômio-chão 115,17 117,48 119,00 122,00 126,00 129,05 133,00 137,00 139,6 Cotovelo-chão 85,39 87,00 88,00 89,00 91,00 95,00 97,00 100,00 102,0 Cotovelo-mão aberta 38,00 38,00 39,00 40,00 41,00 43,00 44,00 46,00 46,61 Cotovelo-punho 22,39 23,00 23,00 24,00 25,00 26,00 27,00 29,00 30,00 Axila-chão 107,39 109,48 111,00 112,00 116,00 120,00 123,00 127,05 132,4 Acrômio-mão aberta 60,00 61,00 62,00 64,00 66,00 68,00 70,00 73,05 74,81 Envergadura 140,78 144,24 145,00 150,00 154,00 158,00 163,00 170,00 173,8 Circunferência craniana 52,00 52,00 53,00 53,00 54,00 55,00 56,00 58,00 59,00 Circunferência torácica 80,00 80,00 81,00 83,00 87,00 91,00 97,00 106,05 110,2 Circunferência abdominal 75,00 76,00 80,00 83,00 89,00 93,00 100,00 110,01 120,4 Largura quadril 30,00 31,00 32,00 32,00 33,00 35,00 37,00 40,01 44,00 Largura acrômios 22,00 22,00 23,00 24,00 26,00 27,00 28,00 30,00 31,00 Largura ombros 36,00 36,48 37,00 38,00 40,00 41,25 45,00 48,05 51,61 Assento-cabeça 71,00 71,95 73,00 75,00 78,00 80,00 83,00 85,00 86,00 Assento-olhos 60,39 61,95 64,00 65,00 68,00 70,00 72,00 75,00 75,61 Assento-acrômio 47,39 49,00 50,00 51,00 52,88 55,00 56,63 58,03 60,00 Assento-cotovelo 15,20 15,74 16,00 17,00 19,00 20,00 22,00 24,53 25,81 Altura das coxas 10,00 10,00 11,00 11,00 13,00 14,00 14,50 16,00 19,31 Sacro-poplítea 39,09 40,48 42,00 43,00 45,00 46,05 48,00 51,00 52,61 Sacro-joelho 48,09 49,24 51,00 53,00 54,00 56,00 58,00 61,00 64,81 Altura poplítea 33,59 35,00 36,00 37,00 38,88 41,00 42,00 45,00 46,61 Largura do pé 7,50 8,00 8,00 8,00 8,00 8,50 9,00 9,50 10,00 Comprimento do pé 20,00 20,00 21,00 21,00 21,50 22,50 23,00 24,00 25,00 Altura calcânea 6,00 6,00 6,00 7,00 7,00 7,50 8,00 8,50 9,00 IMC em cm² 19,39 20,00 21,00 22,00 24,00 26,00 29,00 358,00 44,88 Discussão Com o objetivo de verifi car as características físicas antropométri- cas de idosos que subsidiem procedimentos metodológicos utilizados por pesquisadores e profi ssionais que investigam e concentram seus trabalhos em projetos, produtos e serviços para a população estudada, DESIGN E ERGONOMIA 65 a pesquisa direcionou os resultados de forma quantitativa. Visando abranger a faixa etária mais ampla possível, ateve-se aos cinquenta anos em diante, alcançado a marca dos 88 anos de idade em ambos os gêneros. No presente estudo, as mulheres representaram 73,7% da amos- tra, e os homens 26,3%, num total de 190 sujeitos. Em estudos também transversais, Kubena et al. (1991) coletaram dados an- tropométricos em 424 idosos. As mulheres representaram 63% da amostra e os homens 37%. Falciglia et al. (1988) depararam com essa variabilidade entre os gêneros: do total de 746 indivíduos, 66% eram mulheres e 34% homens. Em Menezes e Marucci (2005), que estudaram a antropometria de 305 idosos, 69,2% eram mulheres e 30,8% eram homens. Na variável idade cronológica, observou-se uma variabilidade de participação dos diferentes grupos etários. Os sujeitos homens de cinquenta a 59 anos de idade representam 22% desse grupo, enquanto 44% estão entre sessenta e 69 anos, representando a maioria; 28% têm entre setenta e 79 anos e 6% do grupo têm oitenta ou mais anos de idade, atingindo-se uma média de 66,28 ± 9,06 anos. No caso das mulheres, a média fi cou em 66,01 ± 7,66 anos de idade. Os valores assemelham-se quando observamos as porcen- tagens participativas de faixas etárias: 20% desse grupo apresentou idade entre cinquenta e 59 anos; as mulheres com sessenta a 69 anos também foram maioria com 46,4%; já as de idade entre setenta a 79 anos representaram 29,3%, e as mais velhas (oitenta a 88 anos) participaram com 4,3%, sugerindo uma participação mais efetiva dos grupos etários entre sessenta a 79 anos em ambos os gêneros. Quanto à variável peso corpóreo (E01 – kg), os sujeitos masculi- nos marcaram a média de 75,32 ± 11,53 kg, enquanto entre os do sexo feminino a média foi de 64,30 ± 10,84 kg. Se confrontarmos esses resultados com os dados do projeto piloto de Franco et al. (2003), observaremos uma aproximação, mesmo sendo estudos realizados com equipamentos e grupos diferentes. Vejamos: nos homens o peso médio foi de 68,07 ± 15,59 kg, nas mulheres a média foi 64,91 ± 12,75 kg. No presente estudo o valor máximo aferido dessa variável 66 LUIS CARLOS PASCHOARELLI • MARIZILDA DOS SANTOS MENEZES foi 101 kg para homens e 105,5 kg para mulheres, o valor mínimo foi 48 kg nos homens e 40 kg nas mulheres. Os resultados do projeto piloto fi caram assim distribuídos: nos homens o valor máximo al- cançado foi 93 kg, e nas mulheres 96 kg, já os valores mínimos para homens e mulheres foram 46 kg e 44 kg respectivamente. Em Zu- chetto e Trevisan (1993), o peso corporal foi uma das preocupações em relação ao estilo de vida dos idosos. A variável estatura (E02 – cm) sugere observações quanto ao declínio do controle do equilíbrio estático e no momento em que se procediam as leituras das medidas em pé. A variável envergadura (E10 – cm) na maioria das vezes registrou medidas superiores em relação à estatura. Características físicas determinadas pelas mu- danças corporais do processo de envelhecimento, que atingem a coluna vertebral e suas estruturas adjacentes, mudam a confi guração corporal que antes era mais ereta e agora se mostra com as curvaturas mais acentuadas (Venturoli et al., 2004; Yuaso & Squizzatto, 1996). Dentre outros aspectos, esses são visíveis, podem se transformar em possíveis itens de auxílio a estudos sobre o assunto atual, inte- grando-os com prováveis perdas da capacidade cardiorrespiratória, das funções neuromusculares, das degenerações músculo-esquelé- ticas (ossos, articulações,