Raul Leme Medeiros A vivência dos afetos como ato de coragem no romance A palavra que resta, de Stênio Gardel São José do Rio Preto 2024 Câmpus de São José do Rio Preto Raul Leme Medeiros A vivência dos afetos como ato de coragem no romance A palavra que resta, de Stênio Gardel Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Letras, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Câmpus de São José do Rio Preto. Financiadora: CAPES Orientadora: Profª. Drª. Cláudia Maria Ceneviva Nigro São José do Rio Preto 2024 L551v Leme-Medeiros, Raul A vivência dos afetos como ato de coragem no romance "A palavra que resta", de Stênio Gardel / Raul Leme-Medeiros. -- São José do Rio Preto, 2024 141 p. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto de Biociências Letras e Ciências Exatas, São José do Rio Preto Orientadora: Cláudia Maria Ceneviva Nigro 1. Literatura brasileira. 2. Estudos de gênero. 3. Pessoas LGBTQIAPN+. 4. Coragem. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca do Instituto de Biociências Letras e Ciências Exatas, São José do Rio Preto. Dados fornecidos pelo autor(a). Essa ficha não pode ser modificada. Raul Leme Medeiros A vivência dos afetos como ato de coragem no romance A palavra que resta, de Stênio Gardel Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Letras, junto ao Programa de Pós-Graduação em Nome do Programa, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Câmpus de São José do Rio Preto. Financiadora: CAPES Comissão Examinadora Profª. Drª. Cláudia Maria Ceneviva Nigro UNESP – Câmpus de São José do Rio Preto Orientadora Prof. Dr. Flávio Adriano Nantes Nunes UFMS – Faculdade de Artes, Letras e Comunicação Prof. Dr. João Pedro Wizniewsky Amaral UFSM – Câmpus de Santa Maria São José do Rio Preto 28 de fevereiro de 2024 A quem acredita no poder transformador dos afetos. AGRADECIMENTOS Aos meus pais, Eliéte Leme da Silva e Nivaldo Barros Medeiros, e aos meus irmãos, Gabriel Leme Medeiros e Victor Leme Medeiros. Se pude cursar uma pós-graduação em condições tão favoráveis, isso se deve principalmente aos vários tipos de suporte que tive (e tenho) daqueles que compõem o que chamo de lar. Também agradeço a minha tia Eliza Leme da Silva, pelo constante incentivo e pela ajuda em algumas das minhas viagens a estudo. As minhas amigas Aline Rodrigues da Silva e Letícia de Almeida Barbosa. Desde o início da graduação em Letras – Português / Inglês pela UFMS/CPTL em 2013, mantemos nossa amizade. Obrigado por permanecerem, mesmo em momentos de distância. Obrigado, Letícia, por sempre acreditar na minha capacidade para a vida acadêmica e por apontar a UNESP como uma possibilidade para concretizar esse caminho. Obrigado, Aline, por ser minha grande parceria ao longo de todos esses anos. De simples passeios a viagens, de momentos descontraídos a situações formais, sou grato pela chance de compartilharmos tantas vivências. Aos meus amigos João Pedro Fernandes Gomes, Danilo Santos Fernandes e Daniel Rodrigues da Luz, por abrirem as portas de suas casas e me receberem durante minhas idas de Três Lagoas – MS a São José do Rio Preto – SP. Se não tive a oportunidade de aprofundar esses vínculos na época da graduação, sinto-me grato por ter outra chance nesse momento igualmente importante da minha vida. A minha amiga do programa Fulbright FLTA, Fernanda Dayanne Damasceno Cunha, por estender a amizade para além do período de intercâmbio. Obrigado por compartilhar as levezas e os dilemas da vida, sempre com um toque de humor, uma das minhas formas favoritas de demonstrar afeto. A minha supervisora da Fulbright na Dickinson College, Carolina Castellanos Gonella, por ser tão acolhedora durante meu período nos Estados Unidos e por ministrar a disciplina Afro-Brazilian Literature. Com essas aulas, pude relembrar minha paixão pela literatura e perceber minha vontade de aprofundar os estudos nessa área. À professora Cláudia Maria Ceneviva Nigro, por aceitar ser minha orientadora mesmo em um momento sobrecarregado; por acreditar no meu trabalho e no meu potencial quando eu duvidada deles; por estender a mão durante todo meu percurso acadêmico; por não se calar diante das injustiças, inspirando-me constantemente enquanto profissional e ser humano. À CAPES, uma vez que o presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, permitindo-me a dedicação exclusiva aos estudos. Aos professores do Ibilce que me proporcionaram novos ensinamentos desse rico campo que é a literatura. Em especial, aos professores Orlando Nunes de Amorim, com seus conhecimentos sobre Walter Benjamin, e Arnaldo Franco Junior, com suas aulas sobre Caio Fernando Abreu e Teoria da Narrativa. Ambos foram de suma importância para o desenvolvimento da pesquisa. Aos professores Flávio Adriano Nantes Nunes e João Pedro Wizniewsky Amaral, que aceitaram participar das minhas bancas de qualificação e defesa. Obrigado, Flávio, por demonstrar interesse e confiança em meu trabalho desde a ABRALIC de 2023 em Salvador – BA, fazendo observações e sugestões importantíssimas para meus estudos. Obrigado, João, pela leitura cuidadosa e minuciosa de meus textos, e por ser uma inspiração ao me mostrar que as mudanças podem trazer muitas realizações pessoais e profissionais. Da mesma forma, agradeço às professoras Tássia Tavares de Oliveira e Joanna Durand Zwarg, que aceitaram o convite para serem suplentes das bancas. Aos amigos que fiz no Ibilce: Ana Letícia Sanches da Silva, Lucas Ricardo Andreatta, Luiz Henrique Moreira Soares, Maria Clara Teixeira Lopes, Yuri Belloube e Josilene Moreira Silveira e Fernando Guimarães Saves. A jornada é sempre mais leve quando nos conectamos com as pessoas ao redor, seja por motivos da pós-graduação, pelos gostos em comum para filmes, séries, jogos e músicas, ou pelos memes (minha forma favorita de comunicação e conexão). Obrigado por dividirem esse caminho comigo. Ao autor Stênio Gardel, por ser tão receptivo e solícito com os leitores de sua obra e por aceitar o convite de assistir a minha defesa de mestrado. Sinto-me honrado por estudar um livro que tanto me tocou e me direcionou para uma pós-graduação em literatura. A Igor Soares Freitas, que colaborou para meu trajeto de muitas formas, mesmo indiretamente. Sou grato por ter aprendido um novo jeito de ler o mundo ao conhecer um professor de Coragem e um escritor de Afetos. Obrigado por ser um esticador de horizontes e aumentar o meu poente. Aos demais que estiveram envolvidos nessa caminhada, muito obrigado! Have I the courage to change? Have I the courage to change? Have I the courage to change today? (P!nk, 2019, s/p) RESUMO Essa pesquisa investiga o romance de estreia do escritor cearense Stênio Gardel (2021), A palavra que resta. Na história, Raimundo Gaudêncio de Freitas é um senhor analfabeto que, aos 71 anos de idade, decide aprender a ler e escrever para compreender uma carta deixada há mais de 50 anos por Cícero, seu primeiro e grande amor da juventude. Com esse objeto de estudo, busca-se discutir uma nova visada na literatura LGBTQIAPN+, destacando a vivência afetiva enquanto uma possibilidade para os sujeitos desviantes da cisheteronormatividade. Viver os afetos, portanto, pode ser visto como um ato de coragem (Barros-Oliveira, 2009; Koury, Gomes, 2012; Foucault, 2011; Gros, 2004; Tillich, [1952] 1992; Aulete, 2011; Ferreira, 2010; Houaiss, 2009) ao transgredir os padrões hegemônicos. Objetiva-se, assim, analisar de que modo o romance apresenta a hegemonia cisheterossexual como responsável pela exclusão e estigmatização dos sujeitos tidos como dissidentes. Para tanto, é preciso considerar a força humanizadora da literatura, que pode ser uma aliada na luta por transformação e justiça social, como afirma Antonio Candido ([1972] 1999, [1965] 2006, [1995] 2011). A literatura também tem propriedade para dizer o “não dito”, proporcionando reflexões mais profundas sobre a realidade por meio da ficção, segundo Derrida (2014). Como consequência, é possível repensar e até mesmo desafiar leis de ordem hegemônica. A fim de investigar e questionar as configurações sociais do gênero e da sexualidade, o aporte teórico-crítico encontra-se em Butler (2003, [1993] 2019), Foucault (1979, 1987, 1988), Louro (2004, 2018), Segdwick (2007), Silva (2000), Spargo (2017) e Weeks (2018). Para tratar dos afetos e da transformação por meio da alfabetização, tem-se de base bell hooks (2013, 2021) e Paulo Freire (1967, 1979, [1979] 2023, 1996 [2019]). Desse modo, discute-se como Raimundo se vale da coragem para ressignificar sua vida depois de experiências negativas relacionadas à sexualidade. Nesse processo, os afetos possuem um papel fundamental, pois, a partir deles, abre-se espaço para novas vivências, que proporcionam ao protagonista novos acessos ao mundo e a si mesmo. Palavras-chave: Literatura. LGBTQIAPN+. Cisheteronormatividade. Coragem. Afetos. ABSTRACT This research investigates the debut novel by the Brazilian writer Stênio Gardel (2021), A palavra que resta (The Words That Remain, the English version). In the story, Raimundo Gaudêncio de Freitas is an illiterate man who, at 71 years old, learns how to read and write to understand a letter left 50 years ago by Cícero, the first and great love of his youth. With this object, we seek to discuss a new perspective in LGBTQIAPN+ literature, highlighting the affective experience as a possibility for people who do not fit into cisheteronormativity. Therefore, living one’s affections can be seen as an act of courage by transgressing hegemonic standards (Barros-Oliveira, 2009; Koury, Gomes, 2012; Foucault, 2011; Gros, 2004; Tillich, [1952] 1992; Aulete, 2011; Ferreira, 2010; Houaiss, 2009). The objective is to analyze how the novel presents cisheterosexual hegemony as responsible for the exclusion and stigmatization of those considered dissident. To this end, it is necessary to consider the humanizing force of Literature, which can be an ally in the fight for transformation and social justice, as stated by Antonio Candido ([1972] 1999, [1965] 2006, [1995] 2011). Literature also says the “unsaid”, providing deeper reflections on reality through fiction, according to Derrida (2014). Consequently, it is possible to rethink and even challenge the laws of hegemony. In order to investigate and question the social configurations of gender and sexuality, the theoretical- critical support is on Butler (2003, [1993] 2019), Foucault (1979, 1987, 1988), Louro (2004, 2018), Segdwick (2007), Silva (2000), Spargo (2017) and Weeks (2018). To address themes like affections and transformations by literacy, we rely on bell hooks (2013, 2021) and Paulo Freire (1967, 1979, [1996] 2019, [1979] 2023). Thus, we discuss how Raimundo uses his courage to give new meanings to his life even after negative experiences concerning his sexuality. In this process, affections play a fundamental role once they bring about new experiences and provide new access to the world and to oneself. Keywords: Literature. LGBTQIAPN+. Cisheteronormativity. Courage. Affections. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 11 2 LITERATURA, ESTUDOS DE GÊNERO E A CORAGEM QUE RESTA 18 2.1 A função social da literatura 2.2 Os estudos de gênero na literatura 2.3 Coragem: conceitos e atos 19 26 36 3 GÊNERO, SEXUALIDADE E MEMÓRIA 46 3.1 Desejo e desvio: uma juventude conflituosa 3.2 Mobilidade e memória: uma tentativa de existência 3.3 Dalberto e Suzzanný: outras vivências dissidentes 47 63 73 4 A CORAGEM NAS VIVÊNCIAS AFETIVAS 88 4.1 Coragem na aceitação: a transformação por meio dos afetos 89 4.2 Coragem na alfabetização: novos acessos ao mundo e a si mesmo 4.3 Coragem na completude: as potências da palavra 103 116 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 131 REFERÊNCIAS 134 11 1 INTRODUÇÃO O compromisso de dizer a verdade estabelece os fundamentos para a abertura e a honestidade, que são a pulsação do amor. Quando podemos nos ver como realmente somos, e nos aceitamos, construímos os fundamentos necessários para o amor-próprio (hooks, 2021, p. 93). Desde as primeiras faíscas dessa pesquisa, a ideia de “coragem” sempre esteve presente. Do pré-projeto à versão final, o título sofreu várias modificações, porém, o trecho “ato de coragem” permaneceu inalterado em todos os momentos. Em nosso trabalho, optamos por um recorte enfatizando a coragem de viver os afetos, pois abrir-se para eles nem sempre é uma tarefa fácil. Quando se é LGBTQIAPN+1, a sociedade torna nossas vidas abjetas, conceito frequentemente usado por Judith Butler para nomear os espaços “não-visíveis e inabitáveis” da experiência social do sujeito. Nesse sentido, somos destituídos de valor e do próprio status de humano pelo poder hegemônico, pois “o ‘abjeto’ designa aquilo que foi expelido do corpo, descartado como excremento, tornado literalmente ‘Outro’” (Butler, 2003, p. 190-191). Não seguir a cisheteronormatividade2 implica em consequências como a exclusão, a estigmatização e as mais diversas formas de violências. Assim, diante de um contexto em que somos negados de ter uma existência digna, com as mais variadas experiências humanas, vivenciar os afetos pode ser considerado um ato de coragem. Permitir-se amar e ser amado, nos mais diversos sentidos, é afrontar esse sistema opressor e clamar por nossa humanidade. Podemos, então, contar com a literatura como aliada num processo de luta por justiça social ao questionar as imposições sociais, dando uma nova visada ao hegemonicamente constituído (Derrida, 2014). Ademais, a obra literária também é detentora de um poder humanizador ao atuar no subconsciente e no inconsciente, enriquecendo as vivências dos sujeitos (Candido, [1989] 2011). Regina Dalcastangnè e Paulo César Thomaz (2011) ainda apontam a legitimidade social da literatura por reconhecer o valor da experiência de grupos socialmente excluídos. 1 Para essa pesquisa, será utilizada a sigla LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Queer, Intersexo, Assexuais, Pansexuais, Não-binárias e mais sujeitos dissidentes da norma de sexualidade e gênero). Entretanto, devido ao fato da sigla LGBT ter sido oficializada após o primeiro congresso nacional voltado para este público em 2008, como aponta Aguião (2016), usaremos as letras LGBT para palavras derivadas, como “LGBTfóbico”. Ademais, quanto se tratar de uma citação direta, manteremos a sigla conforme escrito no original. 2 Para o termo “cisheteronormatividade”, valemo-nos da seguinte definição: “[...] um sistema de restrições que exige um certo alinhamento sexo-gênero-desejo: que o sexo de uma pessoa deve ser ‘condizente’ com seu gênero e que esse indivíduo deve desejar pessoas do sexo/gênero ‘oposto’” (Lewis, 2021, p. 62-63). 12 Desse modo, ao investigar as mais diversas injustiças deferidas contra a população LGBTQIAPN+, podemos encontrar na literatura espaços para questionar os padrões hegemônicos relacionados ao gênero e à sexualidade. Para tanto, os estudos de gênero problematizam esses conceitos, tidos como naturais, quando, em verdade, são construídos por discursos socialmente institucionalizados. Michel Foucault (1988) discorre sobre a formação do conceito de sexualidade e a descreve como um “dispositivo histórico”, termo usado para designar um conjunto de discursos que atuam socio-historicamente ao produzir realidades, saberes e verdades. Para o autor, a sexualidade não pertence ao domínio da natureza, pois se trata de construções discursivas visando o controle sobre os sujeitos. Butler (2003, [1993] 2019) parte de Foucault para ampliar as discussões sobre sexualidade, e postula o gênero e o sexo enquanto produções discursivas. Logo, os conceitos de “homem” e “mulher” são construções sociais, e não naturais. Nessa estrutura discursiva, estabelecem-se as normas e os desvios, com uma “tendência do sistema sexo-gênero ocidental contemporâneo de enxergar as relações heterossexuais como a norma, e todas as outras formas de comportamento sexual como desvios dessa norma” (Spargo, 2017, p. 53). Para firmar-se como norma nesse jogo discursivo, a heterossexualidade precisa da homossexualidade vista de modo negativo. Esse binarismo é responsável por rotular os desvios da norma, postulando-os como aquilo a ser evitado, repudiado ou até mesmo combatido. Como consequência, as pessoas desviantes dos padrões sexuais e de gênero tornam-se alvos de condenação e hostilidade. No contexto brasileiro, encontramos exemplos cruéis dessa realidade. De acordo com um levantamento feito por Acontece Arte e Política LGBTI+ et al. (2023), o Brasil lidera o ranking de países mais violentos contra as diversidades sexuais e de gênero. Diante desse contexto, Jeffrey Weeks (2018) defende o desvio da heteronormatividade e o assumir uma identidade dissidente como um ato de resistência. Foucault (1979), por sua vez, afirma que há sempre a possibilidade de resistências perante as relações de poder. Partindo dessas considerações, nossa pesquisa tem como objetivo geral discutir a vivência homoafetiva como um ato de coragem, investigando o romance de estreia de Stênio Gardel. O autor é natural de Limoeiro do Norte, no estado de Ceará. Servidor do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE), Gardel também conta com trabalhos nas coletâneas de contos Farol: contos do ateliê de narrativas Socorro Acioli (Acioli, 2017), Mirabilia: contos de Natal (Pinho, 2018), Quase nome (Thomé, 2019), Limiar: delírios cruzados (Coletivo, 2019), O castiçal, a escrivaninha, a cadeira e o rascunho (Coletivo, 2021) e Os modernismos de Gonçalina (Coletivo, 2023). Em abril de 2021, seu primeiro romance, A palavra que resta 13 (Gardel, 2021), foi publicado, sendo indicado ao 65º Prêmio Jabuti no ano seguinte3. Em 2023, houve o lançamento da versão em inglês sob o título The Words That Remain (Gardel, 2023), pela tradutora Bruna Dantas Lobato. No mesmo ano, a tradução foi vencedora do 74th National Book Award na categoria Translated Literature4. E, se por um lado, trouxemos um dado estatístico negativo sobre a população LGBTQIAPN+ no Brasil, também pontuamos que “desde 2005 a Parada do Orgulho Gay de São Paulo (São Paulo Gay Pride Parade) é o maior evento do gênero do mundo ultrapassando em número de participantes as pioneiras São Francisco e Nova York” (Matos, 2015, p. 34). Assim, centramos nossa análise na coragem de vivenciar os afetos LGBTQIAPN+, contrapondo as representações negativas e trágicas. Nesse sentido, a vivência afetiva se torna uma possibilidade para os sujeitos dissidentes da cisheteronomatividade, responsável pela exclusão e estigmatização daqueles que não se enquadram nos parâmetros impostos. Com essa perspectiva de afetos e coragem, voltamos nossa atenção ao romance de Gardel. Aqui, é valido pontuar a focalização, que, de acordo com Arnaldo Franco Junior (2009), [...] corresponde, como o próprio nome sugere, à posição adotada pelo narrador para narrar a história, ao seu ponto de vista. O foco narrativo é recurso utilizado pelo narrador para enquadrar a história de um determinado ângulo ou ponto de vista. A referência à visão, aqui, não é casual. O foco narrativo evidencia o propósito do narrador (e, por extensão, do autor) de mobilizar intelectual e emocionalmente o leitor, manipulando-o para aderir às ideias e valores que veicula ao contar a história (p. 42). Segundo as classificações de foco narrativo no texto do autor, embasadas em Norman Friedman ([1967] 2002), notamos que A palavra que resta conta com um “autor onisciente intruso”, pois “adota um ponto de vista divino, para além dos limites de tempo e espaço. Tal narrador cria a impressão de que sabe tudo da história, das personagens, do encadeamento e do desdobramento das ações e do desenvolvimento do conflito dramático” (Franco Junior, 2009, p. 42). Nesse processo de focalização, o narrador também cede a voz às personagens, transitando a narração entre terceira e primeira pessoa. Com isso, tem-se dois efeitos: o de maior detalhamento, indo além de uma visão limitada das personagens, e, ao mesmo tempo, o de maior aproximação com as personagens, por meio da invasão em suas subjetividades. Ao longo da narrativa, a oscilação permanece entre a terceira pessoa e o ponto de vista do protagonista, 3 LIVRO do servidor Stênio Gardel é finalista no Prêmio Jabuti 2022. Tribunal Regional Eleitoral-CE. 26/10/2022 Disponível em: https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/livro-do-servidor- stenio-gardel-e-finalista-no-premio-jabuti-2022. Acesso em 05 jan. 2024. 4 SERVIDOR do TRE-CE Stênio Gardel é vencedor do National Book Awards, nos EUA. Tribunal Regional Eleitoral-CE. 16/11/2023 Disponível em: https://www.tre- ce.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Novembro/servidor-do-tre-ce-stenio-gardel-e-vencedor-do-national-book- awards-nos-eua. Acesso em 05 jan. 2024. https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/livro-do-servidor-stenio-gardel-e-finalista-no-premio-jabuti-2022 https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Outubro/livro-do-servidor-stenio-gardel-e-finalista-no-premio-jabuti-2022 https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Novembro/servidor-do-tre-ce-stenio-gardel-e-vencedor-do-national-book-awards-nos-eua https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Novembro/servidor-do-tre-ce-stenio-gardel-e-vencedor-do-national-book-awards-nos-eua https://www.tre-ce.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Novembro/servidor-do-tre-ce-stenio-gardel-e-vencedor-do-national-book-awards-nos-eua 14 todavia, em determinada passagem, uma personagem secundária também assume a narração, estratégia utilizada para dar maior peso dramático a uma narrativa secundária. Também pontuamos a importância da disposição do texto para a narrativa, pois a forma como as palavras estão distribuídas gera determinado efeito de sentido, seja para demarcar uma memória, seja para enfatizar um pensamento da personagem ou um comentário do narrador. Assim, quando relevante, apresentamos as citações diretas longas seguindo o mesmo estilo do texto original, a fim de manter as ideias transmitidas pela obra. Por meio dessa construção narrativa, somos apresentados a Raimundo Gaudêncio de Freitas, um senhor analfabeto de 71 anos que decide aprender a ler e escrever em idade avançada para compreender uma carta deixada há mais de 50 anos por Cícero, seu primeiro amor. O protagonista provém de um cenário rural, onde desde muito cedo, ajuda o pai com os serviços da roça, não podendo, assim, frequentar a escola. Nesse contexto, Raimundo conhece Cícero, e durante a juventude, aos 17 anos, inicia um relacionamento amoroso com ele. Após dois anos se envolvendo secretamente, o casal é descoberto e brutalmente separado. Raimundo, então, torna-se alvo de agressões físicas e verbais no próprio ambiente familiar, até o momento em que decide fugir de casa. Pouco antes de partir, porém, recebe uma carta de Cícero, e carrega consigo aquela incógnita, uma vez que não consegue decifrá-la. Após a fuga, Raimundo consegue um emprego como ajudante de caminhoneiro, e a partir desse momento, assume uma identidade heterossexual devido às experiências negativas do passado. Por muitos anos, a personagem leva uma vida de dissimulação, usufruindo de seus desejos e prazeres em cinemas pornográficos com encontros sigilosos e furtivos. Os rumos de seu destino mudam quando conhece a travesti Suzzanný, que o inquieta e afronta, e, eventualmente, o acolhe. A partir dos afetos, Raimundo inicia sua transformação, aceitando sua sexualidade e permitindo-se novas vivências, dentre elas, a alfabetização. Portanto, quando encontra acolhimento após anos de isolamento e amargura, o protagonista é capaz de curar as feridas do passado e rumar a um futuro esperançoso (hooks, 2021). Com a obra, discutimos as formas de controle social que ocorrem por meio da sexualidade e do gênero, e como elas são responsáveis por determinar o modo de vida de uma população. Analisamos, então, como a cisheteronormatividade opera de modo a controlar as ações e os pensamentos das personagens, principalmente, do protagonista. Em contrapartida, também definiremos o poder curador e libertador dos afetos, proporcionando novas oportunidades na vida de Raimundo. Nesse sentido, apontamos os desafios de romper com os padrões de sexualidade e de gênero, e destacamos a coragem dos sujeitos dissidentes ao viver os afetos. 15 O capítulo “Literatura, estudos de gênero e a coragem que resta” dedica-se a introduzir e discutir as principais teorias que fundamentam nosso estudo. Começamos abordando a função social da literatura, e como ela pode atuar enquanto uma plataforma não apenas para denunciar o status quo, mas também para demandar novas narrativas, vociferando por sujeitos cujas vozes são silenciadas. A partir disso, correlacionamos a literatura com os estudos de gênero. Por meio deles, desenvolvemos, com maior profundidade, as noções de “sexualidade”, “gênero”, entre outros. A obra literária, portanto, mostra-se bastante propícia para a problematização desses conceitos, pois a ficção pode quebrar as supostas linearidades estabelecidas socialmente, criando espaços para a ruptura das convenções (Nigro et al., 2018). Por fim, trazemos algumas definições sobre o termo “coragem” em diferentes áreas, como a Psicologia (Barros-Oliveira, 2009), Sociologia (Koury; Gomes, 2012) e Filosofia (Foucault, 2011; Gros, 2004; Tillich, [1952] 1992), além do verbete em dicionários (Aulete, 2011; Ferreira, 2010; Houaiss, 2009). Também exemplificamos o ato de coragem com alguns excertos do corpus para complementar as explicações teóricas. Os eventos narrados no romance não ocorrem de forma linear, sendo esse jogo linguístico um dos responsáveis pela construção do efeito literário no texto. Entretanto, como estratégia metodológica, optamos pela disposição dos acontecimentos em ordem cronológica, com algumas exceções. Assim, ao acompanhar a progressão da história, discutimos nosso referencial teórico-crítico enquanto observamos a evolução das personagens. No Capítulo 3, “Gênero, sexualidade e memória”, analisamos, incialmente, a juventude de Raimundo, o relacionamento com Cícero e a reação da família com a descoberta da sexualidade do filho. As expectativas sociais sobre “ser homem” afligem tanto o protagonista quanto seu amado, que, constantemente, questionam a moralidade de seus atos ao manterem uma relação homoafetiva. Quando são descobertos, há uma reação brutal dos pais, seu Damião e dona Caetana, e Raimundo é marcado tanto pelas surras quanto pelas ofensas, que reverberam na personagem por décadas. Marcinha, a caçula, é a única a acolher e demonstrar afeto à personagem, entretanto, não é capaz de impedi-la de fugir de casa. Em seguida, lançamos um olhar para a vida de Raimundo após a fuga. Por se tornar ajudante de caminhoneiro, a personagem permanece em constante movimento, entendido como uma fuga tanto do passado quanto do presente, além de instabilidade. Há uma predominância de frustração, raiva e desgosto, pois a lembrança de Cícero reaviva-se na figura da carta. Ademais, sempre que frequenta um cinema pornográfico (Maia, 2018), intensifica-se o conflito interno na tentativa de seguir o padrão heterossexual. Como resultado, a dissimulação 16 (Sedgwick, 2007), as memórias (Bergson, [1896] 1999; Bosi, 1987; Ricoeur, 2007) e a mobilidade (Louro, 2004) tornam a existência de Raimundo bastante infeliz e irrealizada. Também dedicamos um subitem para tratar de Dalberto e Suzzanný, outras personagens dissidentes que impactam direta ou indiretamente o protagonista. Dalberto, tio de Raimundo, é assassinado pelo próprio pai por ser homossexual. Essa história secundária marca principalmente Damião, e explica sua reação ao lidar com a sexualidade do filho. Suzzanný, por sua vez, é a travesti que aborda Raimundo na saída do cinema pornográfico. As personagens se desentendem de imediato, e posteriormente, se envolvem numa altercação responsável por quebrar a costela da travesti. Depois desse conflito, o protagonista se solidariza com a situação e ajuda Suzzanný, e a partir de então, entende cada vez mais a realidade de pessoas abertamente dissidentes da cisheteronormatividade. Por fim, no quarto capítulo, “A coragem nas vivências afetivas”, apresentamos uma perspectiva da esperança, da libertação e da transformação por meio da vivência afetiva. Usamos bell hooks (2021) e Paulo Freire ([1979] 2023) para definir “afeto” como um amor engajado, comprometido, responsável e respeitoso, capaz de renovar a esperança pela vida. Segundo hooks (2021), é necessário coragem para correr os riscos de amar. Quando se trata de pessoas LGBTQIAPN+, essa coragem precisa ser duplicada, uma vez que suas experiências de vida são constantemente deslegitimadas e condenadas. Raimundo toma um ato de coragem quando decide morar com Suzzanný e dona Solange, enfrentando o medo, a vergonha e a culpa de ser visto como homossexual. Após anos de dissimulação, o protagonista se encontra rodeado de pessoas que o aceitam. A partir desse contexto, abre-se espaço para a transformação, não apenas na forma de encarar a sexualidade, mas também no emprego, que perde a função de fugir do passado e do presente, e se torna um ofício prazeroso e apaziguador. Com a aceitação, Raimundo viaja de volta para o sítio da família, na esperança de reencontrar Marcinha e resolver algumas questões do passado. A irmã o acolhe e o inteira sobre o destino dos pais e as poucas informações do paradeiro de Cícero. A visita ao lar de origem é um fator decisivo para Raimundo investir na alfabetização. Quando retorna de viagem, Raimundo inicia seus estudos. Nesse momento, voltamos nossa atenção para o impacto da alfabetização. Freire (1967, 1979, [1996] 2019) e hooks (2013) discutem o poder da educação na transformação e na libertação do sujeito, que encara o mundo de outro modo. Freire ainda afirma: “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem” (1967, p. 97). Reforça-se, portanto, como os afetos são primordiais no processo de 17 ensino-aprendizagem, requerendo ainda um ato de coragem ao ter novas visadas diante da realidade. Como finalização do capítulo, analisamos o impacto da carta e o efeito que certas palavras causam no protagonista. Observamos, portanto, como a palavra é capaz de expandir conceitos e ampliar experiências, bem como limitar vivências e até mesmo tolher comportamentos. Para tanto, teremos como base os estudos de Walter Benjamin ao traçar discussões sobre “linguagem” e “palavra”. A obra de Benjamin pela qual nortearemos nossa análise é Sobre a linguagem em geral e a linguagem humana ([1916] 2015), e usamos versões diferentes do texto: em português e em inglês On Language as Such and on the Language of Man ([1916] 1996). A decisão ocorre porque ambas são traduzidas do alemão, e há noções conceituadas de modo distinto nos textos. Essas diferenças, mesmo aparentemente pequenas em alguns momentos, nos ajudam a ter uma maior reflexão e compreensão sobre os conceitos de Benjamin, enriquecendo a pesquisa. Valendo-se das palavras do próprio autor: “As traduções, que são mais do que meios de transmissão de conteúdos, nascem quando, na sobrevida de uma obra, esta atinge o seu período áureo. [...] Nelas, a vida do original alcança o seu desenvolvimento último, mais amplo e sempre renovado” (Benjamin, [1923] 2015, p. 94). Concluímos pontuando como os afetos ressignificam os rumos de Raimundo, inclusive, em relação ao destino da carta. Portanto, acompanhamos o percurso do protagonista, passando pela paixão, separação, rejeição, frustração, negação, renascimento dos afetos, transformação, aceitação e alfabetização. Nessa trajetória, conhecemos um Raimundo com todos os motivos para levar uma vida amargurada, mas que, ao se abrir para os afetos, toma a coragem de ganhar o mundo. 18 2 LITERATURA, ESTUDOS DE GÊNERO E A CORAGEM QUE RESTA Tudo aquilo que a nossa / civilização rejeita, pisa e mija em cima, / serve para poesia / Os loucos de água e estandarte / servem demais / O traste é ótimo / O pobre- diabo é colosso / Tudo que explique / o alicate cremoso / e o lodo das estrelas / serve demais da conta / Pessoas desimportantes / dão pra poesia / qualquer pessoa ou escada / Tudo que explique / a lagartixa de esteira / e a laminação dos sabiás / é muito importante para a poesia / O que é bom para o lixo é bom para a poesia (Barros, 2001, p. 13-14). Dedicamos esse capítulo para abordar aquilo que se convenciona chamar de fundamentação teórica. Aqui, nosso arcabouço teórico-crítico trata da função questionadora e humanizadora da literatura, de conceitos frequentemente discutidos pelos estudos de gênero e da ideia de “coragem”, fundamentais para argumentar nossa hipótese de pesquisa: a vivência dos afetos como ato de coragem. Assim, ao considerar o poder da literatura para questionar o status quo, entendemos que “os fundamentos de uma poética queer, nesse sentido, não estão apenas a serviço de uma descrição das narrativas; eles também possibilitam uma acurada análise de como o texto reflete, subverte e questiona a realidade do mundo social no qual está inserido” (Alós, 2010, p. 843). Para apresentar o termo queer, valemo-nos dos estudos de Fernando Luís de Morais (2020): Historicamente, o termo foi introduzido na língua inglesa no início do século XVI, possivelmente derivado da forma alemã [quer, equivalente a “obliquo”, “perverso”], para marcar algo que se poderia chamar de “estranho”, “anticonvencional”, “excêntrico”, “ridículo”, “insólito”. Há, inclusive, registros fazendo referência ao submundo delituoso londrino, mais especificamente a uma rua conhecida como “Queer Street”, reduto de gays, prostitutas, pobres, delinquentes. Em resumo, todos os tipos de “devassos” e “pervertidos” na época. Em seguida, a expressão tem o sentido alterado, passando a ser empregada como insulto, como difamação, dirigidos, na maioria das vezes, a homens homossexuais, mas também a lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e todos aqueles afastados ou extraviados das normas comportadas e binariamente compartimentadas da heterossexualidade (p. 29). Usado inicialmente de modo pejorativo, ao longo do século XX, o termo foi reivindicado por movimentos sociais cujos integrantes eram o alvo do uso condenador da palavra. Queer torna-se uma afirmação de identidade dissidente, opondo-se às forças hegemônicas. Logo, uma poética queer diz respeito a essas forças “estranhas” à normatividade por meio da literatura. [...] as representações subversivas da sexualidade na literatura não funcionam apenas como a negação de um contexto social heteronormativo. Mais do que simplesmente negar esse contexto, elas assumem o caráter de intervenção, já que narrativizam o 19 mundo, as vivências e as maneiras pelas quais os indivíduos se organizam coletivamente, ‘construindo novos sentidos’ para condutas humanas socialmente relegadas ao plano da abjeção (Alós, 2010, p. 861). A fim de desnudar as construções sociais responsáveis pelas violências e estigmatização contra corpos queer, elaboramos três subitens para melhor discutir os conceitos basilares nessa pesquisa. Nesse movimento, também analisamos trechos do corpus para atestar a materialidade da força questionadora da literatura. 2.1 A função social da literatura Ao definir o conceito de literatura, Antonio Candido ([1989] 2011) a concebe como “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade [...] desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações” (p. 176). Nesse sentido, a literatura pode ser considerada uma manifestação universal. E assim, o contato com a fabulação e a poesia, em sentido amplo, torna-se imprescindível ao sujeito, que necessita da ficção em seu cotidiano. Candido (1999) ainda destaca uma das funções básicas da literatura: satisfazer a necessidade do sujeito em relação à fruição e ao devaneio. Esse papel, tão necessário para nós, está sempre vinculado com aspectos da realidade. O autor também acrescenta que a literatura é capaz de conferir humanidade ao ser, pois, ao se articular por meio do imaginário, atinge as camadas mais profundas da personalidade. Isso é possível a partir da capacidade que a literatura tem de atuar em nosso subconsciente e inconsciente. A força humanizadora ocorre principalmente por obtermos uma maior percepção sobre o próprio ser humano e sua realidade. Assim, a literatura “humaniza em sentido profundo, porque faz viver” (Candido, 1999, p. 85). Tal poder humanizador da obra literária se dá pelo modo como o escritor organiza seu objeto de trabalho; ou seja, a palavra (Candido, [1989] 2011). A seleção e a disposição das palavras são feitas de tal maneira que induz o leitor a se reorganizar mentalmente, causando uma reordenação no modo de encarar o mundo. Analisando um trecho da obra A palavra que resta, de Stênio Gardel (2021), notamos como o sentimento de aflição permeia a vida de Raimundo Gaudêncio de Freitas, protagonista do romance. Com uma carta que carrega consigo há mais de 50 anos, a personagem vive décadas de incompletude e incompreensão diante daquelas palavras nunca lidas. Ao observarmos o capítulo de abertura da narrativa, quando Raimundo inicia sua alfabetização 71 anos de idade, constatamos um trabalho de escrita bastante elaborado do texto literário, aprofundando a maneira de expor uma perturbação humana. 20 A vontade, tinha sim, desde menino, mas o pai lhe dizia que a letra era para menino que não precisava encher o próprio prato. Raimundo foi cedo para a lida. De noite, o braço ritmado no golpe da foice pedia descanso, que no outro dia tinha mais. O intento de aprender se rendeu à precisão. O futuro estava escrito na frente dele, era o presente do pai, pai de família, dono de um pedaço de chão, assinando com o dedo quando a palavra falada não bastasse. O que não podia ser falado, ficasse palavra muda, pensamento. Raimundo não virou pai de família nem dono de sítio. Se arrancou as raízes, levando no bolso da camisa a carta. Uma carta inteira. Uma palavra seguindo a outra, quantas palavras? Mandar carta para uma pessoa que não sabia ler, só sendo. A ponta do lápis pairou acima da linha. O próximo nome tinha escrito a carta cinquenta e dois anos antes. Ao lado do caderno, o envelope encruado, sempre fechado. Raimundo não deixou ninguém ler e envelheceu com o desejo de saber o que ela diz crescendo dentro dele. Feto idoso, rebento tardio. A carta guardava uma vida inteira (Gardel, 2021, p. 11-12). Por meio de uma linguagem poética, o trecho evidencia uma psique inquieta e melancólica. As memórias misturam-se com o momento presente, gerando um efeito de apego ao passado com tons de incerteza diante da carta, que representa um mistério cheio de angústias. Assim, a forma de escrita é fundamental para a literatura atingir camadas humanas mais profundas, garantindo o poder humanizador devido ao “conhecimento oriundo da expressão submetida a uma ordem redentora da confusão” (Candido, [1989] 2011, p. 182). Se considerarmos a obra literária como capaz de atuar no sujeito, sendo esse um ser social, a literatura e a sociedade possuem uma relação de imbricamento, pois “fatores sociais atuam concretamente nas artes, em especial na literatura” (Candido, [1965] 2006, p. 47). Portanto, não se pode tomar a obra literária como um objeto fixo e homogêneo. A literatura opera como um sistema vivo de obras agentes umas sobre as outras e sobre o público, numa espécie de diálogo entre quem escreve e quem lê (Candido, [1965] 2006). Considerando o papel social manifestado pela estrutura literária, entende-se a obra enquanto um trabalho elaborado de escrita que possui relação estreita com o artista e com as condições sociais de sua produção. Tal estrutura “repousa sobre a organização formal de certas representações mentais, condicionadas pela sociedade em que a obra foi escrita” (Candido, [1965] 2006, p. 177). Devido a essas características, a obra literária pode ser dotada de engajamento social por mudança e justiça. Alfredo Bosi (1996) complementa tal pensamento afirmado que a literatura se vale de técnicas narrativas como forma de construir essa resistência pela qual o sujeito é capaz de reconhecer o seu contexto e a si mesmo de maneira mais crítica. O processo de escrita é parte fundamental ao trabalhar “não só com a memória das coisas realmente acontecidas, mas, com todo o reino do possível e do imaginável” (Bosi, 1996, p. 15). O trabalho autoral é fundamental nesse processo de resistência ao dispor de uma liberdade inventiva para criar a obra. Candido ([1965] 2006) ainda destaca que 21 o escritor, numa determinada sociedade, é não apenas o indivíduo capaz de exprimir a sua originalidade (que o delimita e especifica entre todos), mas alguém desempenhando um papel social, ocupando uma posição relativa ao seu grupo profissional e correspondendo a certas expectativas dos leitores ou auditores (p. 83 – 84). Ao considerar o escritor como um intelectual dotado de privilégios pelo alcance e impacto de seu trabalho, Edward Said (2007) defende o papel desse sujeito: “desafiar e derrotar tanto um silêncio imposto como a quietude normalizada do poder invisível em todo e qualquer lugar e sempre que possível” (p. 164-165). Esse fato se torna viável devido à capacidade do escritor de propor narrativas alternativas, apresentando perspectivas que vão além das dominantes, geralmente tidas como únicas e corretas. O autor ainda pontua que embora seja verdade, e até desanimador, que todos os principais meios de comunicação são controlados pelos interesses mais poderosos e, consequentemente, pelos próprios antagonistas a quem se oferece resistência ou ataque, é também verdade que uma energia intelectual relativamente móvel pode tirar vantagem desse fato e, com efeito, multiplicar os tipos de palanques disponíveis (Said, 2007, p. 161). Jacques Derrida (2014) também contribui para nosso argumento ao mostrar como literatura é responsável por questionar imposições sociais e institucionais. Isso acontece por meio da linguagem utilizada na construção literária, capaz de dizer o “não dito” e ter uma nova visada do hegemonicamente instituído, proporcionando reflexões mais profundas sobre os temas abordados. Desta forma, o espaço da literatura não é somente o de uma ficção instituída, mas também o de uma instituição fictícia, a qual, em princípio, permite dizer tudo. Dizer tudo é, sem dúvida, reunir, por meio da tradução, todas as figuras umas nas outras, totalizar formalizando; mas dizer tudo é também transpor [franchir] os interditos. É liberar-se [s'affranchir] - em todos os campos nos quais a lei pode se impor como lei. A lei da literatura tende, em princípio, a desafiar ou a suspender a lei. Desse modo, ela permite pensar a essência da lei na experiência do “tudo por dizer”. É uma instituição que tende a extrapolar [déborder] a instituição (Derrida, 2014, p. 49). José Olímpio Neto (2014) traça observações sobre como Derrida articula os conceitos de literatura e desconstrução. Para tanto, indaga: “O que é a literatura? O que ela significa para Derrida? Como se articulam desconstrução e literatura? Para enfrentarmos estas questões, faz- se necessário, em primeiro lugar, definir literatura” (p. 136). Em seguida, define que [...] o pensamento da literatura como acontecimento se inscreve no texto de Derrida a partir do conceito de idioma. [...] Nós chamamos “literatura” as práticas de escritura que desconstroem as instituições literárias e filosóficas por sua idiomaticidade e sua irredutibilidade e acontecimento. A desconstrução sempre chega para a literatura, dito de outro modo, pela singularidade intraduzível e universal da língua de um texto (Neto, 2014, p. 138). 22 Faz-se necessário, aqui, definir os conceitos de “estrutura” e “desconstrução” pela ótica de Derrida. Assim, obras derridianas como Gramatologia (1973) e A escritura e a diferença (1995) discutem como determinadas estruturas são calcadas de modo a atuarem hierarquicamente por meio de binarismos. Segundo Derrida (1995), a estrutura, também chamada de estruturalidade da estrutura, encontra-se neutralizada e reduzida ao ser relacionada com um ponto de presença e uma origem fixa. Existe, portanto, a noção de centro da estrutura, tendo como função não apenas orientar e equilibrar, organizar a estrutura — não podemos efetivamente pensar uma estrutura inorganizada — mas sobretudo levar o princípio de organização da estrutura a limitar o que poderíamos denominar jogo da estrutura. É certo que o centro de uma estrutura, orientando e organizando a coerência do sistema, permite o jogo dos elementos no interior da forma total. Contudo, o centro encerra também o jogo que abre e torna possível. Enquanto centro, é o ponto em que a substituição dos conteúdos, dos elementos, dos termos, já não é possível. No centro, é proibida a permuta ou a transformação dos elementos (que podem aliás ser estruturas compreendidas numa estrutura) (Derrida, 1995, p. 230). Na obra Gramatologia, Derrida (1973) critica a forma dicotômica como Ferdinand de Saussure ([1916] 2006) conceitua o signo linguístico entre significado e significante, e destaca como o binarismo se engendra no pensamento ocidental. Consequentemente, ao encarar a estrutura como um jogo de opostos, um elemento se sobressai ao outro, criando uma espécie de hierarquia. Assim, “a metafísica ocidental, como limitação do sentido do ser no campo da presença, produz-se como a dominação de uma forma linguística” (Derrida, 1973, p. 28). O estruturalismo torna-se, então, um discurso dominante que “permanece preso hoje, por toda uma camada de sua estratificação, e às vezes pela mais fecunda, na metafísica - o logocentrismo - que ao mesmo tempo, se pretende, ter, como se diz tão depressa, ‘ultrapassado’” (Derrida, 1973, p. 124). Derrida, então, propõe o conceito de desconstrução, e busca repensar as estruturas tidas como fixas, explorando novos sentidos a partir daqueles já estabelecidos hegemonicamente. Nas palavras de Rodrigo Guimarães (2008), “Derrida analisa como a linearidade da escrita recalcou o pensamento simbólico pluridimensional e se solidarizou à economia, à técnica e à ideologia por meio dos processos de capitalização, de sedentarização e de hierarquização” (p. 67). Para tanto, é preciso considerar que A presença de um elemento é sempre uma referência significante e substitutiva inscrita num sistema de diferenças e o movimento de uma cadeia. O jogo é sempre jogo de ausência e de presença, mas se o quisermos pensar radicalmente, é preciso pensá-lo antes da alternativa da presença e da ausência; é preciso pensar o ser como presença ou ausência a partir da possibilidade do jogo e não inversamente (Derrida, p. 248, 1995). 23 Enquanto o estruturalismo pode ser considerado uma análise metodológica partido da estrutura textual, a desconstrução não se configura enquanto método. Segundo Ramiro Délio Borges de Meneses (2013), a desconstrução é uma leitura analítica pela qual se abrem possibilidades interpretativas diante do texto e da linguagem. Por meio desse processo, é possível reorganizar e revisar uma hegemonia repleta de contradições e desigualdades fixada no pensamento ocidental, pois “as diferentes significações de um texto poderão ser descobertas, decompondo a estrutura da linguagem na qual ela é redigida. Desta feita, Derrida estima que a desconstrução seja uma ‘prática narrativa’” (Meneses, 2013, p. 180). Quando Derrida (1973) afirma sua célebre frase “não há nada fora do texto” (p. 199), deve-se destacar que a desconstrução não parte de fora do texto, mas dos elementos que já estão ali presentes. Os significados são ampliados a partir do material linguístico existente, abrangendo cada vez mais um conceito limitado a priori. Portanto, desconstrução não é sinônimo de destruição, visando uma total eliminação do sentido originalmente estabelecido, tendo em vista que os movimentos de desconstrução não solicitam as estruturas do fora. Só são possíveis e eficazes, só ajustam seus golpes se habitam estas estruturas. Se as habitam de uma certa maneira, pois sempre se habita, e principalmente quando nem se suspeita disso. Operando necessariamente do interior, emprestando da estrutura antiga todos os recursos estratégicos e econômicos da subversão, emprestando-os estruturalmente, isto é, sem poder isolar seus elementos e seus átomos, o empreendimento de desconstrução é sempre, de um certo modo, arrebatado pelo seu próprio trabalho (Derrida, 1973, p. 30). Diante dessas possibilidades, ainda conforme Derrida (2014), o texto literário torna-se um espaço propício para a desconstrução ao ser capaz de “dizer tudo”. Essa característica típica do discurso literário permite reorganizar, repensar e reverter as ordens dominantes. Da mesma maneira, torna-se possível libertar-se “das regras, deslocando-as, e, desse modo, instituindo, inventando e também suspeitando da diferença tradicional entre natureza e instituição, natureza e lei convencional, natureza e história” (Derrida, 2014, p. 51). Tendo em vista tal cenário, a desconstrução encontra terreno fecundo para ser realizada por meio de textos literários ao considera que a literatura tem lugar, portanto, além da distinção entre o “real” e o “ficcional”, e o texto literário porta o testemunho de uma singularidade universalizável. A literatura se define como o direito de dizer tudo que não chega a se apagar, ela porta um testemunho singular e universalizável do acontecimento que ela arquiva no seu texto (Neto, 2014, p. 138). A desconstrução também se vincula ao processo de fruição e prazer presente na literatura. Por meio dessa articulação, muitas escritas e formas antes recalcadas são liberadas, 24 resultando numa espécie de “gozo” (Nascimento, 2014). A desconstrução utiliza esse processo a seu favor ao propor leituras alternativas e revisadas sobre o modo como o mundo nos é apresentado. Sendo assim, a experiência de “desconstrução”, de questionamento, de leitura ou de escritura “desconstrutora” de nenhuma forma ameaça ou lança suspeita sobre o enjoyment5. Acredito justamente no contrário. Sempre que há “gozo” [jouissance] (mas o “há” [il y a] desse acontecimento é, em si, extremamente enigmático), há “desconstrução”. Desconstrução efetiva. A desconstrução talvez tenha como efeito, senão como missão, liberar gozo proibido. É a esse respeito que se deve tomar partido. Talvez seja esse gozo o que mais irrita os adversários notórios da “desconstrução” (Derrida, 2014, p. 84-85). Ressaltando uma das funções da literatura, Evando Nascimento (2014) aponta como a luta por justiça social encontra no texto literário uma plataforma para sua manifestação, vociferando o desejo por mudanças e direitos. Para tanto, é preciso considerar a importância do “investimento formal que reinventa os jogos do real via linguagem. Sem a mediação lúdica da linguagem, nenhuma obra literária sustenta seu poder mobilizador e questionador, reduzindo- se a um dogmatismo fútil e raivoso” (Nascimento, 2014, p. 26). Como exemplo, analisamos um trecho do romance em que Raimundo dialoga com Suzzanný, sua amiga travesti. Numa espécie de monólogo interior, o protagonista confessa o alívio por se aceitar como homossexual após anos renegando os próprios desejos e sentimentos. O cirurgião era médico falso, mas um deus grego, me deu meus seios, quase de graça, rezo pra ele até hoje, tu gosta, Raimundo? De quê? Dos meus peitos? De mulher, nem natural, Suzzanný, Entendo, também gosto de peito de homem, era bom conversar com ela desse jeito, de verdade, sem ficar pastorando as palavras, tinham um som diferente quando eram iguais às palavras de dentro de mim (Gardel, 2021, p. 128). Conforme discutimos nos demais capítulos da pesquisa, Raimundo sofre com a própria sexualidade durante décadas até se aceitar e ser íntegro com seus afetos e sentimentos. O ato de “pastorar as palavras” pode ser interpretado como uma das formas de controle sofridas por pessoas desviantes da cisheteronormatividade. A linguagem poética empregada é fundamental para a transmissão da mensagem de modo a ter maior impacto na leitura, pois apresenta esse jogo com as palavras, com a presença e ausência. A literatura, assim, possui a legitimidade social para reconhecer o valor da experiência de grupos socialmente excluídos e silenciados, podendo posicionar-se contra as mais diversas injustiças que lhes são desferidas (Dalcastagnè; Thomaz, 2011). Complementando a ideia, “a literatura, como prática social, ajuda a construir representações que extrapolam o texto e o próprio campo literário” (Mata, p. 20, 2011). 5 Enjoyment é traduzido nesse texto como “gozo”. 25 Por meio dessa perspectiva, ao analisar um contexto no qual a população LGBTQIAPN+ é constantemente excluída e estigmatizada em uma sociedade cisheteronormativa, podemos contar com a literatura enquanto aliada num processo de luta por justiça social. Levando em consideração esse aporte teórico-crítico, temos como objetivo geral discutir a vivência homoafetiva de modo pleno como um ato de coragem. Em determinado momento do romance, o relacionamento de Raimundo e Cícero é descoberto, ocasionando em uma separação brutal do casal. a gente não devia ter ficado aqui, a céu aberto, A sombra do cajueiro é boa, Gaudêncio, mas hoje eu quero debaixo do sol, a gente se arriscou demais, isso sim, ficar aqui na beira do rio, mas na hora, na hora a gente viu que não podia ser outra hora, esse tempo todo sem se ver, sem se tocar, quando um corpo encostou no outro, foi a vontade todinha desses dez dias, conversa, foi a vontade de muito mais tempo, era a vontade da vida toda, que já passou e que ainda vai passar, que toda vez a gente sentia essa agonia boa aqui dentro, dizendo sim pra vontade e a vontade aperreando o sim do corpo, da cabeça, do tempo, e eu não podia esperar mais não, nem ele, dava não, foi por isso que vim, Cícero, tu também sente assim, mas ficou com aquela conversa de futuro, ter mulher, ter filho, se assustou, me assustou também, eu fiquei foi com uma agonia ruim aqui dentro, longe de tu, não podia esperar mais não, ia bem deixar teu juízo decidir nossa vida, aquelas palavras lá que tu me falou na última vez no cajueiro e depois foi embora, eu vim atrás de tu e agora, como vai ser? Tua família vai saber, minha família vai saber, se fazia rebuliço na nossa cabeça avalie na cabeça do pai da gente, o desgosto, a raiva que vão sentir, tu sabe o que pensam de gente assim, assim como nós dois, não sabe? pensam é tudo de ruim, pior que doença, cadê minha calça? vou ter que falar com o pai, dizer o quê? e pra mãe? (Gardel, 2021, p. 15-16). Além do sentimento de culpa e vergonha, há um grande medo da estigmatização da homossexualidade, pois romper com a cisheteronormatividade pode ter implicações nos diversos círculos sociais. Raimundo teme, principalmente, pela reação da família, sentindo desonra ao desviar da expectativa heterossexual. Também destacamos a intensidade do desejo e do anseio para reencontrar Cícero, apesar dos riscos. Nesse trecho, não há pontos finais, e as sentenças são separadas majoritariamente por vírgulas, contando com pontos de interrogação em alguns momentos. Como efeito, cria-se a sensação de agonia e ansiedade, com o turbilhão de pensamentos que invadem o protagonista. Novamente, pontuamos como o uso da linguagem é fundamental para a escrita literária na comunicação com quem lê. Somando às figuras de linguagem que transmitem representações com maior profundidade por causa do jogo, há um deslizamento no signo ao dar a voz ao protagonista. Quando Raimundo relata o conflito interno, somos impactados de modo a nos relacionarmos com aquele mesmo sentimento. Nesse processo, por meio de uma leitura visando os princípios da desconstrução, pretendemos trabalhar os conceitos envolvidos na vivência homossexual e homoafetiva, expandindo-os do hegemonicamente estabelecido. 26 Desse modo, com a análise do romance A palavra que resta, buscamos trazer contribuições para a literatura ao estudar uma obra capaz de representar e transparecer os conflitos de pessoas que ousam desafiar a heteronormatividade. Ao usar o verbo “representar”, valemo-nos aqui do conceito de representação enquanto “um processo que enforma um ato de comunicação perpassado por pressupostos políticos e suas consequências” (Mata, 2011, p. 16). Logo, pretendemos dar visibilidade e propor reflexões sobre o ato de coragem que envolve transgredir ordens dominantes em relação ao gênero e à sexualidade. Por fim, ressaltamos a função social da literatura, que, por meio de sua escrita e do jogo de linguagem, desempenha um papel de extrema importância ao elucidar questões encobertas propositalmente. Como apontamos pelo trabalho dos críticos mencionados, a literatura é capaz de desafiar certas imposições sociais, e enquanto agente de mudança, também pode ser responsável por representações daqueles que são muitas vezes silenciados e oprimidos, como a comunidade LGBTQIAPN+. Portanto, a luta por justiça social encontra na literatura uma aliada para vociferar suas demandas por mudanças. 2.2 Os estudos de gênero na literatura Dada a função social da literatura, por meio dela, é possível traçar discussões sobre os conceitos de gênero e sexualidade. Ao problematizar a forma como ambas as noções são concebidas, abrimos espaço para repensar e desconstruir discursos hegemônicos. Guacira Lopes Louro (2018) aponta como as identidades sociais são definidas no âmbito da cultura e da história. Os sujeitos são constituídos por essas múltiplas identidades ao serem interpelados por discursos em diferentes situações, instituições ou agrupamentos sociais. Durante nossa formação, passamos por processos profundamente culturais, como rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções, entre outros. “Portanto, as identidades sexuais e de gênero (como todas as identidades sociais) têm o caráter fragmentado, instável, histórico e plural” (Louro, 2018, p. 13). Quando tratamos das questões relativas ao gênero e à sexualidade, não se pode pautar as discussões apenas no âmbito da natureza, pois os corpos ganham seus mais diversos sentidos socialmente. Logo, A inscrição dos gêneros — feminino ou masculino — nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura. As possibilidades da sexualidade — das formas de expressar os desejos e prazeres — também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas. As identidades de gênero 27 e sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas pelas redes de poder de uma sociedade (Louro, 2018, p. 12). Ainda segundo a autora, historicamente, a norma estabelecida em nossa sociedade remete ao homem branco, heterossexual, pertencente à classe média urbana e à religião cristã. A partir da classificação do supostamente correto e natural, os demais sujeitos são marcados como desviantes. Consequentemente, “ao classificar os sujeitos, toda sociedade estabelece divisões e atribui rótulos que pretendem fixar as identidades. Ela define, separa e, de formas sutis ou violentas, também distingue e discrimina” (Louro, 2018, p. 18). Tomaz Tadeu da Silva (2000) argumenta a relação entre afirmação da identidade e a demarcação da diferença, numa operação de inclusão e exclusão. Logo, a identidade e a diferença podem ser lidas como relações de poder ordenadas em torno de oposições binárias. Essas operações são responsáveis pela hierarquização e normatização de determinados padrões em detrimento de outros. Isso implica dizer que Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização das identidades e das diferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos quais o poder se manifesta no campo pela identidade e pela diferença. Normalizar significa eleger -arbitrariamente- uma identidade específica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis, em relação às quais as outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural”, desejável, única (Silva, 2000, p. 83). Conforme Louro (2018), esses mecanismos são responsáveis por operarem no campo da sexualidade, e assim, a heterossexualidade torna-se um modelo de referência para todos os sujeitos ao ser concebida como “natural”, “universal” e “normal”. Desse modo, “os grupos sociais que ocupam as posições centrais, ‘normais’ (de gênero, de sexualidade, de raça, de classe, de religião, etc.) têm possibilidade não apenas de representar a si mesmos, mas também de representar os outros”. (Louro, 2018, p. 19). Esses grupos sociais detentores do poder se valem de suas representações para falar por si e pelos demais (e sobre os demais), comprovando o caráter altamente político envolvido nas identidades sociais e culturais. No primeiro volume da obra História da Sexualidade, Michel Foucault (1988) discorre sobre a formação do conceito de sexualidade a partir do século XIX para designar os sujeitos a partir das práticas e desejos sexuais. Nessa perspectiva, ao tratar da sexualidade, “não se deve concebê-la como uma espécie de dado da natureza que o poder é tentado a pôr em xeque, ou como um domínio obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvelar. A sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico”. (Foucault, 1988, p. 100). O termo “dispositivo histórico” serve para designar um conjunto de discursos que atuam socio- 28 historicamente ao produzir realidades, saberes e verdades. Para o autor, a história da sexualidade deve ser encarada do ponto de vista do discurso, envolvendo relações de poder. Essas são forças discursivas exercidas sobre os sujeitos, determinando seus modos de existência no mundo. [...] a sexualidade foi definida como sendo, “por natureza”, um domínio penetrável por processos patológicos, solicitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização; um campo de significações a decifrar; um lugar de processos ocultos por mecanismos específicos; um foco de relações causais infinitas, uma palavra obscura que é preciso, ao mesmo tempo, desencavar e escutar. É a ‘economia’ dos discursos, ou seja, sua tecnologia intrínseca, as necessidades de seu funcionamento, as táticas que instauram, os efeitos de poder que os sustém e que veiculam — é isso, e não um sistema de representações, o que determina as características fundamentais do que eles dizem. A história da sexualidade — isto é, daquilo que funcionou no século XIX como domínio de verdade específica — deve ser feita, antes de mais nada, do ponto de vista de uma história dos discursos (Foucault, 1988, p. 67). A heteronormatividade, estabelecida de maneira coerciva e produtiva, exerce controle por meio de seus discursos. Em seu artigo Heterossexualidade compulsória e existência lésbica, a poeta e crítica feminista Adrianne Rich (2010) define a “heterossexualidade compulsória” como uma força que obriga os sujeitos a seguirem os modelos e padrões heterossexuais. A autora ainda aponta como “nós não estamos confrontando apenas a manutenção simples da desigualdade e da posse de propriedade, mas também um feixe difuso de forças que abarcam desde a brutalidade física até o controle da consciência” (Rich, 2010, p. 25). Segundo Francisco Leandro de Assis Neto e Francisco Felipe Paiva Fernandes (2018), por meio da heteronormatividade, modelos discriminatórios e cruéis se impõem como uma espécie de reflexo da natureza desde os últimos três séculos. Desse modo, deve-se entender a heteronormatividade enquanto [...] um discurso forte, alicerçado, pois tinha como produtoras, propagadoras e “excitadoras” importantes instituições na forma da sociedade: a Igreja, a ciência, a escola, o Estado, o judiciário, que são, quer queira ou não, lugares de validação social do indivíduo. Este é um poder mais complexo do que o conceito de autoridade vertical imposto pelo jurídico, pela política ou quaisquer instituições coercitivas do Estado, porque toma para si o efeito de verdade. Não necessariamente, esse poder corresponde a uma representação da verdade, mas à forma como o conhecimento circula e impõem seus efeitos sobre nós, nosso comportamento, o que somos ou pensamos que somos (Neto; Fernandes, 2018, p. 126). Contemporânea de Foucault, a professora e filósofa Judith Butler (2003) abrange as discussões que envolvem a sexualidade, também postulando o gênero enquanto uma produção discursiva. Isso porque “[...] o ‘corpo’ é em si mesmo uma construção, assim como o é a miríade de ‘corpos’ que constitui o domínio dos sujeitos com marcas de gênero” (p. 27). Logo, as noções de “homem” e “mulher” são construções sociais em determinado local e momento sócio- 29 histórico-cultural. Não há universalidade nem estabilidade nesses conceitos, pois são as dimensões culturais que produzem o gênero, e não a natureza. A própria ideia do gênero como natural é uma verdade produzida por discursos culturalmente marcados. Em algumas explicações, a ideia de que o gênero é construído sugere um certo determinismo de significados do gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inexorável. Quando a “cultura” relevante que “constrói” o gênero é compreendida nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino. Nesse caso, não a biologia, mas a cultura se torna o destino (Butler, 2003, p. 26). Diante dessas construções de verdades, “a produção da heterossexualidade é acompanhada pela rejeição da homossexualidade. Uma rejeição que se expressa, muitas vezes, por declarada homofobia” (Louro, 2018, p. 33). Para entender as problematizações atuais sobre gênero, buscamos como essa categoria está concebida em outros momentos históricos. Anterior à década de 1960, o gênero caracteriza-se como discussão acerca das alegadas diferenças entre homens e mulheres. À mulher cabia ocupar o privado, cuidar da casa e dos filhos; ao homem abarcar o todo: no privado ser o suporte da família, no público ter vontade, opinião, emprego, direito de voto, entre outros. [...] A partir da década de 1970, outros questionamentos sobre gênero são trazidos. Há ainda a manutenção da diferença entre homens e mulheres, ou seja, a crença da existência de uma essência comum a todas as mulheres e a todos os homens, que os configuram como sujeitos homogêneos e fixos (Nigro, 2015, p. 16-17). A partir dos questionamentos efervescentes sobre gênero que surgem na segunda metade do século XX, trazidos principalmente pelos movimentos feministas e homossexuais, alguns conceitos são repensados, propondo uma revisada sobre algumas noções estabelecidas. Butler (2003) propõe a noção de gênero enquanto performance, e por consequência, não possui relação direta com o sexo biológico. Ao designar o termo “performatividade”, a autora afirma que não se trata de um ato singular e isolado, “pois sempre é a reiteração de uma norma ou de um conjunto de normas, e na medida em que adquire a condição de ato no presente, ela oculta ou dissimula as convenções das quais é uma repetição” (Butler, [1993] 2019, p. 34). Os processos culturais desempenham papeis fundamentais ao conceber sentidos aos corpos, consequentemente, estendendo-se para a sexualidade e para o gênero. Nesse sentido, o que faz alguém se identificar enquanto homem ou mulher decorre de um conjunto de regras socialmente estabelecido. Ao observar um trecho do romance, destacamos uma passagem que explicita tais regras. Após a mãe de Raimundo perder filhos gêmeos nascidos prematuramente, o protagonista decide presenteá-la na esperança de proporcionar alguma alegria. Ao escolher, junto com Cícero, um tecido como presente, temos a seguinte situação: 30 — Moça, tem crepe? — É pra tu? — Não, é pra um vestido pra minha mãe. — Tem essas cores aqui. Raimundo gostou do azul-claro. — Que tu acha desse? A moça do lado, olhando para os dois rapazes escolhendo tecido. — E eu sei, Gaudêncio? Quem compra tecido é mulher, sei dessas coisas não. Por que não veio com a Marcinha? Ela te ajudava mais que eu. — Marcinha está na aula e vou levar um presente pra ela também, de surpresa. Ela disse que queria um caderno de folha grande. É esse mesmo, moça, azul-claro. (Gardel, 2021, p. 70-71). O fato de dois rapazes comprarem tecido já chama a atenção de outra pessoa no recinto. E para além disso, ainda há a fala de Cícero afirmando que quem compra tecido é mulher. Podemos inferir, então, como essa atividade faz parte de um constructo social determinante da função de homem ou de mulher. Afinal, escolher e comprar tecidos não seria algo que homens poderiam fazer também? Assim como explica a construção social do gênero, Butler ([1993] 2019) contesta a noção de “sexo” socialmente encarada como fixa e imutável desde o nascimento: menino ou menina, homem ou mulher. Nesse sentido, “sexo” é um constructo ideal forçosamente materializado ao longo do tempo. Não se trata de um simples fato ou uma condição estática do corpo, mas de um processo no qual normas regulatórias materializam o “sexo” e alcançam essa materialização com uma reiteração forçada dessas normas. [...] [Essas] normas regulatórias do “sexo” trabalham de forma performativa para constituir a materialidade dos corpos e, mais especificamente, para materializar o sexo do corpo, para materializar a diferença sexual a serviço da consolidação do imperativo heterossexual (Butler, [1993] 2019, p. 16). Essa noção performativa nos condiciona a agir de determinado modo supostamente condizente com nosso sexo. Anselmo Peres Alós (2011) também discute essa questão e ainda acrescenta: Quando se afirma que o sexo e o corpo são construções culturais, não se quer em nenhum momento negar a materialidade dos corpos ou a existência de uma diferença anatômica entre homens e mulheres. O que se quer relativizar é o caráter naturalizado e essencializado de um sistema conceitual de relações que equaciona sexo e corpo. Mesmo “existindo” na realidade e na natureza, é apenas nos interstícios da cultura que o corpo e o sexo produzem sentidos e significados, ou seja, tornam-se “compreensíveis” e “inteligíveis”. A partir do momento em que tais noções são relativizadas, as categorias gênero e sexualidade – bem como as asseverações sobre a “normalidade” ou a “anormalidade” de determinadas sexualidades – podem ser repensadas como constructos culturais e não como “verdades” ou “essências” transcendentais e inquestionáveis (p. 426). Por sua vez, Louro (2018) pontua que durante nossa constituição enquanto homens ou mulheres, “ainda que nem sempre de forma evidente e consciente, há um investimento continuado e produtivo dos próprios sujeitos na determinação de suas formas de ser ou ‘jeitos 31 de viver’ sua sexualidade” (p. 31). No caso do romance, o simples fato de comprar um tecido já se enquadra como uma ação performativa de mulher, causando estranhamento ao ser realizada por dois rapazes. Tamsin Spargo (2017) também complementa a ideia de Butler pontuando que “nós não nos comportamos de determinadas maneiras devido a nossa identidade de gênero, nós chegamos a essa identidade por meio daqueles padrões comportamentais, os quais sustentam as normas de gênero” (p. 43). Por fim, recorremos novamente à Butler a fim de ressaltar que: Para os corpos serem coerentes e fazerem sentido (masculino expressa macho, feminino expressa fêmea), é necessário haver um sexo estável, expresso por um gênero estável, que é definido oposicional e hierarquicamente por meio da prática compulsória da heterossexualidade (Butler, 2003, p. 216). Uma vez que as normas de gênero são reiteradas constantemente nos sujeitos, um determinado padrão é eleito como norma e exemplo a ser seguido e espelhado. Assim, “a lei parece produzir tanto a heterossexualidade sancionada como a homossexualidade transgressora. Ambas são na verdade efeitos, temporal e ontologicamente posteriores à lei ela mesma” (Butler, 2003, p. 112). Ainda nessa perspectiva, a relação binária entre cultura e natureza promove uma relação de hierarquia em que a cultura “impõe” significado livremente à natureza, transformando-a, consequentemente, num Outro a ser apropriado para seu uso ilimitado, salvaguardando a idealidade do significante e a estrutura de significação conforme o modelo de dominação. (Butler, 2003, p. 66). Estudiosa sobre temáticas de gênero, a professora colombiana Mara Viveros Vigoya (2018) foca suas discussões na formação da masculinidade em territórios latino-americanos. Segundo a autora, “é necessário entender a masculinidade como um elemento no interior de uma estrutura e de uma configuração desta prática social que chamamos gênero” (p. 15). Considerar o contexto sócio-histórico da América Latina, referida pela autora como Nossa América (Nuestra América), é fundamental para entender as características da construção de masculinidade em nossos espaços, marcados por diversas formas de violências coloniais e imperialistas. A compreensão do gênero como uma estrutura que afeta a experiência corporal, a personalidade e a cultura explica hoje que possamos vincular masculinidades e violência. Em contrapartida, precisamos compreender o gênero - e no gênero, a masculinidade - como um produto histórico e uma prática produtora de história. A ordem de gênero e a sexualidade são mobilizados em processos de grande violência - conquista, colonização e construção de nações na Nossa América - cujos atores são espanhóis e portugueses, conquistadores, padres ou soldados, que utilizaram o gênero e a sexualidade de maneira coercitiva a serviço de suas estratégias de dominação e regulação da vida social (Vigoya, 2018, p. 183). 32 Perante esse contexto conflitoso, a literatura surge como um espaço para problematizações sobre o status quo e as normatizações responsáveis pela segregação, opressão e violências conferidas a todos aqueles tidos como desviantes. Isso porque “a ficção quebra a invenção, a fragmentação. Ao reavaliar os espaços ocupados pelo gênero na obra literária, reavaliam-se os papéis de personagens femininas/masculinas e cria-se o lugar para a ruptura” (Nigro et al., p. 18, 2018). Considerando a natureza da nossa pesquisa, dentre as várias abordagens possíveis para a pesquisa literária, valemo-nos dos estudos de gênero, que buscam “investigar as formas pelas quais a atividade literária faz-se marcada no sujeito que demanda o feminino, o masculino, entre outros” (Nigro; Chatagnier, p. 7, 2015). Logo, analisamos elementos que extrapolam a materialidade do texto. Nesse cenário, Os estudos de gênero (Gender Studies), incluídos nos estudos culturais, apresentam- se cada vez mais como uma das formas possíveis de analisar a condição humana no texto literário, nesse “tecido” de palavras e ideologias, nessa mesma impossibilidade que governa o campo político como uma idealização encantada de um porvir sempre brilhante onde toda classe dita fragilizada terá um lugar ao sol (Nigro et al., 2018, p. 17). Ainda segundo os autores, os estudos de gênero na literatura lidam com os discursos e as representações culturalmente marcadas nas construções identitárias de homens e mulheres, além das demais possibilidades que não se restringem aos binarismos. “A identidade de gênero, portanto, revela-se na grafia do texto, por meio de narradores e personagens, surgindo como uma tradução de memórias que desponta em termos de contraponto” (Nigro et al., p. 18, 2018). Por meio do nosso corpus, analisamos o modo pelo qual os discursos sobre gênero e sexualidade afetam as personagens, controlando suas ações, pensamentos e até a forma como lidam com os próprios afetos. Por exemplo, temos como base a passagem composta por uma conversa entre Damião e seu irmão mais novo Dalberto, juntamente com André. Damião demora para aceitar a sexualidade do caçula, que mantém um relacionamento amoroso com André. No trecho a seguir, entretanto, os irmãos se acertam e Damião decide convidar tanto Dalberto quanto André para seu casamento. Ora, se tu é assim, então pronto, que seja, não consigo ver outra pessoa na minha frente, é meu irmão mais novo, é sim, ficar longe de tu é que não quero, não vou, — E que admiração é essa? — Convidei não, o pai não sabe que converso com o André ainda, me fez jurar que não ia mais falar com ele, e ameaçou contar pro pai dele. Já te disse, André, se a família da gente descobre pela boca dos outros é pior, o negócio é falar logo, e olhe que levei uma pisa daquelas, mas, ainda assim, o pai ouviu de mim, sei lá por quê, parece que a pisa doeu menos. Como é que eu ia convidar? O pai não ia deixar, nem vai deixar um negócio desse, Damião. 33 — E a festa não é minha? Convido quem eu quiser, e o André está convidado sim, sei que vai ser bom pra tu ter ele lá pra conversar. — Viu, André? — Aceito o convite, sim, obrigado, Damião. tu vai assim na garupa, Dalberto, de banda? assim é jeito de mulher andar (Gardel, 2021, p. 50-51) Destacamos como Damião se mostra inquieto com a maneira que Dalberto se acomoda na bicicleta, julgando como um modo feminino para sentar-se. Mesmo tento aceitado a homossexualidade do irmão, ainda gera incômodo um homem agindo com condutas supostamente performadas por mulheres. Esse acontecimento exemplifica como os corpos são altamente marcados pelo gênero em sua constituição, e uma vez que Dalberto é socialmente reconhecido como homem, há uma expectativa para performar apenas atos considerados masculinos. Novamente, destacamos o gênero enquanto uma construção social por meio de discursos reiterados e repetidos nos sujeitos. Os limites da análise discursiva do gênero pressupõem e definem por antecipação as possibilidades das configurações imagináveis e realizáveis do gênero na cultura. Isso não quer dizer que toda e qualquer possibilidade de gênero seja facultada, mas que as fronteiras analíticas sugerem os limites de uma experiência discursivamente condicionada. Tais limites se estabelecem sempre nos termos de um discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que se apresentam como a linguagem da racionalidade universal. Assim, a coerção é introduzida naquilo que a linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero (Butler, 2003, p. 28). Louro (2018) argumenta como há um grande investimento em nossos corpos, que são constituídos para se adequarem aos critérios estéticos, higiênicos e morais segundo os padrões hegemônicos. Assim, “treinamos nossos sentidos para perceber e decodificar essas marcas e aprendemos a classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente, pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que se expressam.” (Louro, 2018, p. 17) Em outro trecho do romance, notamos a inquietação de outra personagem, dessa vez, do próprio protagonista. Raimundo se desentende com a travesti Suzzanný ao encontrá-la na saída do cine pornô, ofendendo-a com diversos insultos. Após a altercação, há um momento de reflexão e pesar por ter insultado outra pessoa LGBTQIAPN+. Na rede armada sob o baú do caminhão, a cabeça afundou na baeta que servia de travesseiro. Pra que tinha que se meter na vida da gente? tivesse me deixado quieto, eu vinha embora, ruminando minha raiva, como sempre fiz, nem lembro o rosto dele direito, mas lembro o que eu disse, disse não, cuspi na cara dela, não precisava, Raimundo, esbravejar daquele jeito, não pode, tua raiva tu guarda com você, nem que um dia você espoque, não pode é brigar na rua. Mas não era só isso. Tinha uma muriçoca voando no ouvido dele, afastando o sono, zunindo dentro da cabeça o que ele falou para alguém como ele, alguém que estava no meio do mundo, do mundo que 34 aceitava as pontas, homem que gosta de mulher e mulher que gosta de homem, o meio era caroço infértil. Fruto podre, que só serve pra jogar nos chiqueiros da vida, nas esquinas da madrugada, nas casas velhas transformadas em cine pornô e nos quartos fedidos, cheios de pecadores, cheios de pragas cheias de pus, pelo corpo, pela alma, a gente tentava espremer as feridas ali, um espremendo o outro, sujos como dizem, a gente era igual, e era diferente, que travesti não cuida de vergonha (Gardel, 2021, p. 67). Raimundo se entende como um homem cis, condizente com o sexo e o gênero designado no nascimento, e Suzzanný, como uma travesti, rompendo com tais designações. Apesar da diferença na identidade de gênero, Raimundo percebe que, assim como Suzzanný, ele também está fora dos padrões hegemônicos e normativos. A personagem ainda constata a coragem de Suzzanný por não se envergonhar de sua dissidência. E isso gera grande frustração no protagonista por ter sua sexualidade encoberta ao tentar agir como heterossexual em seu círculo social. Podemos afirmar que na constituição da cisheteronormatividade, há uma ênfase na rejeição de tudo caracterizado como desviante. Esse processo é instaurado pelas relações de poder e reiterado pelos sujeitos de maneira ativa e constante. Conforme Louro (2018), A produção dos sujeitos é um processo plural e também permanente. Esse não é, no entanto, um processo do qual os sujeitos participem como meros receptores, atingidos por instâncias externas e manipulados por estratégias alheias. Ao invés disso, os sujeitos estão implicados, e são participantes ativos na construção de suas identidades. Se múltiplas instâncias sociais [...] exercitam uma pedagogia da sexualidade e do gênero e colocam em ação várias tecnologias de governo, esses processos prosseguem e se completam através de tecnologias de autodisciplinamento e autogoverno que os sujeitos exercem sobre si mesmos (p. 31). No caso de Raimundo, uma vez assumida uma identidade heterossexual, as reações homofóbicas e transfóbicas são ainda mais intensas, pois se juntam à frustração e à infelicidade em que vive ao constantemente negar sua sexualidade e seus afetos. Raimundo também se torna responsável por iterar a homofobia, fazendo-o reprimir ainda mais seus sentimentos. O próximo trecho do romance pode ser visto como uma consequência do conflito vivido pela personagem. No momento em questão, Raimundo encontra-se em um monólogo interior em relação a sua sexualidade e seu gênero, usando Suzzanný e Tiomara como base para sua reflexão: e se eu gostava de homem, eu era meio assim? eu só gosto de homem, não tenho vontade de ter peito de mulher não, mas gosto de homem, e tu nasceu com corpo de homem e hoje tem peito de mulher, e tem mulher que gosta de mulher também, a Tiomara, lá do posto, todo mundo diz que ela dá pra macho mas gosta mesmo é de comer mulher, e tudo que tem entre o homem que gosta de mulher e a mulher que gosta de homem, tudo que tem no meio, um meio que foge das pontas ou se disfarça nas pontas, assim, meio embaçado, na penumbra entre a luz daqueles dois postes, tem uns que ficam nela, tem uns que vão mais pra um lado ou pro outro, sem se mostrar de verdade, tem uns que se mostram, ela se mostra, andar desse jeito, mesmo de noite, ela não foge da luz (Gardel, 2021, p. 107). 35 Nesse momento, os pensamentos de Raimundo retratam o modo como a cisheteronormatividade opera: controlando e decidindo a forma como se deve existir no mundo e estigmatizando tudo aquilo que foge de seus padrões. As metáforas com postes de luz e escuridão potencializam a maneira como a personagem retrata seus sentimentos diante da angústia com as normas sociais nas quais não se enquadra. Outro ponto relevante é o fato de algumas pessoas se enquadrarem ao padrão heterossexual para existir no mundo. E novamente, há uma espécie de espanto e admiração do protagonista ao constar que Suzzanný está fora das expectativas hegemônicas, e não se envergonha disso. Mais uma vez, notamos a forma binária de classificação dos sujeitos. No excerto em questão, para haver aqueles que estão nas pontas, metáfora para heterossexualidade, é necessário haver o meio, composto pelos considerados dissidentes. Nas palavras de Spargo (2017), a heterossexualidade normativa precisa de uma homossexualidade estigmatizada para ser propagada, pois [...] nenhuma oposição existe em isolamento esplêndido – todas elas atuam em relação com as demais. Por exemplo, a oposição tradicional entre masculino e feminino, mutualmente dependente, porém antagônica, assumiu sua estrutura hierárquica por meio da associação com outras oposições: racional e emocional, forte e fraco, ativo e passivo, etc. De modo semelhante, a oposição entre heterossexual e homossexual está presa numa rede de oposições auxiliares (p. 37). Por meio das discussões feitas até aqui, concluímos, consoante com Spargo (2017), como os vários discursos, juntamente com seus saberes, são os responsáveis por produzir e policiar a sexualidade e o gênero. Portanto, “as palavras que uso e os pensamentos que tenho estão ligados às construções da realidade da minha sociedade; [logo], [...] percebo minha identidade sexual dentro de um conjunto de ‘opções’ determinadas por uma rede cultural de discursos” (Spargo, 2017, p. 40). A formação de nossa identidade está fortemente vinculada ao gênero e à sexualidade pelos quais nos reconhecemos. Nesse sentido, Louro (2018) também complementa essa ideia ao postular que “nossas identidades de raça, gênero, classe, geração ou nacionalidade estão imbricadas com nossa identidade sexual e esses vários marcadores sociais interferem na forma de viver a identidade sexual” (p. 39). Assim, transformações e subversões da sexualidade podem perturbar ou atingir esses marcadores sociais, gerando grande impacto na vida do sujeito. A literatura, por sua vez, atua como uma instância capaz de questionar, problematizar e denunciar as ordens hegemônicas. Quando consideramos as questões de gênero e sexualidade, “[...] é ainda uma política de heteronormatividade, sustentada no maior poder, a regente das 36 relações desses sujeitos [representados na contemporaneidade]. [Por conseguinte], uma mudança de perspectiva trazida atualmente faz-se na vida da literatura” (Nigro; Chatagnier, p. 7, 2015). Nesse sentido, apontamos o impacto da sexualidade e do gênero na vida dos sujeitos ao analisar nosso corpus. 2.3 Coragem: conceitos e atos Com o título da pesquisa sendo A vivência dos afetos como ato de coragem no romance “A palavra que resta”, de Stênio Gardel, pretendemos definir, nessa seção, nossa interpretação sobre coragem. Para tanto, articulamos alguns verbetes, conceitos e estudos juntamente com excertos de nosso corpus para uma definição mais precisa sobre esse termo basilar. Dentre os dicionários analisados, estão o Houaiss (2009), o Aurélio (2010) e o Caldas Aulete (2011). Primeiramente, apresentamos o verbete no dicionário Houaiss, que se mostra bastante completo e organizado, contendo, inclusive, seções próprias e bastante demarcadas para sinônimos, antônimos e etimologia: coragem S.f. (1563) 1 moral forte perante o perigo, os riscos; bravura, intrepidez 2 firmeza de espírito para enfrentar situação emocional ou moralmente difícil 3 qualidade de quem tem grandeza de alma, nobreza de caráter, hombridade 4 determinação no desempenho de uma atividade necessária; zelo, perseverança, tenacidade ● ETIM fr. courage ‘id.’ ● SIN/VAR ânimo, arrojo, audácia, bravura, brio, decisão, denodo, desassombro, destemor, galhardia, heroísmo, ímpeto, intrepidez, ousadia, resolução, valentia, valor ● ANT acovardamento, covardia, desânimo, desbrio, fraqueza, horror, ignávia, medo, pavor, poltronaria, pusilanimidade, receio, sobressalto, susto, temor, terror, tremor (Houaiss, 2009, p. 548, grifos do texto). No dicionário Aurélio, encontramos um verbete mais conciso e direto, porém, não menos eficiente e preciso: coragem [Do fr. ant. corage, curage (atual courage).] S. f. 1. Bravura em face do perigo. 2. Intrepidez, ousadia. 3. Resolução, franqueza, desembaraço: Confessou com coragem a sua falta. 4. Perseverança, constância, firmeza: Foi notável sua coragem durante todo o longo período dos estudos. ● Interj. 5. Us. para infundir coragem (Ferreira, 2010, p. 584, grifos do texto). Buscamos uma terceira definição no dicionário Caldas Aulete. Esse, por sua vez, contém mais informações no verbete, trazendo questões morfológicas como separação silábica e formação de plural: coragem (co.ra.gem) sf. 1 Atitude firme (sem hesitação, sem temor ou sem fraqueza) diante de situações perigosas ou difíceis; BRAVURA; DESTEMOR: Foi muita coragem dele enfrentar os bandidos. 2 Força moral e perseverança no enfrentamento 37 de situações emocionalmente difíceis; disposição para suportar ou superar problemas: Ela enfrentou o câncer com grande coragem. 3 Pej. Atitude desaforada ou desavergonhada; AUDÁCIA, DESFACATEZ: Aquele safado teve a coragem de dizer na minha cara que não sabia de nada. 4 Firmeza de caráter, disposição firme a fazer o que se considera correto 5 Determinação, constância, perseverança; TENACIDADE [Pl.: -gens.] interj. 6 Us. para dar ânimo [F.: Do fr. courage.] (Aulete, 2011, p. 400). Notamos como as definições relatam um posicionamento firme em situações perigosas e/ou difíceis. Também se destacam a determinação e a perseverança diante de problemas ou adversidades. E, ao trazer uma perspectiva filosófica para o termo na obra A coragem de ser, Paul Tillich ([1952] 1992) indica que a coragem “é auto-afirmação ‘a-despeito-de’, isto é, a despeito daquilo que tende a impedir o eu de se afirmar” (p. 28). Nesse sentido, afirmar-se dissidente perante uma hegemonia condenadora e controladora pode ser interpretado como um ato de coragem. Pretendemos, portanto, argumentar como todas essas qualificações se relacionam com a vivência dos afetos LGBTQIAPN+, que requer muita coragem do protagonista de A palavra que resta para se efetivar. Ser íntegro e autêntico com os próprios sentimentos, desejos e sonhos torna-se um ato extremamente corajoso. Para além das definições dos dicionários, utilizamos discussões sobre coragem na área da psicologia, sociologia e filosofia, de forma a apresentar diversos usos e conceituações do termo. Iniciando pelo Professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação na Universidade do Porto, em Portugal, José Henrique Barros-Oliveira (2009) traça a origem do vocábulo “coragem”, que etimologicamente, “provém certamente do baixo latim coraticum donde derivou o provençal coratge e o francês courage. Tem na sua raiz cor (coração) estando a indicar que a verdadeira coragem arranca das forças mais íntimas e profundas da pessoa.” (Barros-Oliveira, 2009, p. 259). Todavia, o autor avalia o conceito de coragem como polifacetado e complexo, e aponta o termo fortitudo (amini) usado no latim clássico, “que indica antes de mais a força (fortis) física mas também a força mental e espiritual, a audácia ou ousadia” (Barros-Oliveira, 2009, p. 259). Ainda sobre os diversos usos do vocábulo “coragem”, segundo Barros-Oliveira (2009), “no grego, coragem diz-se andreia, que provém de anêr-andros (homem, varão). O mesmo sentido tem no latim a palavra ‘virtude’ derivada de vir (homem, varão), por oposição a mulher” (p. 263). Nesse sentido, o próprio autor aponta que na Idade Clássica, a coragem era encarada como uma virtude da qual as mulheres eram desprovidas ao serem menosprezadas por não irem para as guerras. Por conseguinte, os atributos de virilidade e força relacionados à coragem pertenciam somente aos homens, num caráter excludente. Observamos aqui os papéis e as 38 performances de gênero enquanto determinantes para o conceito de masculino e feminino, e como eles se refletem no uso da língua. Barros-Oliveira (2009) também aponta diversas classificações para o termo coragem, dentre elas, a física, a moral, a vital e a psicológica. Todas, entretanto, podem ser definidas, dentro de suas situações específicas, enquanto “um construto tendencialmente unifactorial que tem a ver com a capacidade de ultrapassar o medo, de enfrentar o risco, uma vez identificada a ameaça, em vista de um bem maior. De facto, falar de coragem é falar de medo a ser superado” (p. 262-263). Nesse sentido, considerando outros conceitos afins, A coragem pode ser chamada um ‘valor’, uma ‘virtude’, uma ‘paixão’, uma ‘emoção’, um ‘desejo’, ou ainda uma ‘atitude’, um ‘sentimento’, como acontece com outras emoções positivas (amor, esperança, perdão, etc.) ou negativas (tristeza, raiva, ódio, medo, etc.). O tópico da coragem está próximo de outros conceitos, como a bravura ou a fortaleza de espírito que, em linguagem escolástica, é considerada uma das quatro virtudes ‘cardeais’ (do latim cardo que significa ‘gonzo’), juntamente com a prudência, a justiça e a temperança; o contrário da fortaleza seria a cobardia. A relação da coragem com a prudência é de certo modo ambivalente, pois a coragem não pode prescindir de uma certa prudência, que evita, por exemplo, a temeridade; mas se a prudência se impõe, pode apagar a coragem (Barros-Oliveira, 2009, p. 263). No romance, algumas personagens questionam a coragem de se assumir homossexual perante a família e as possíveis consequências. Em determinado momento, acompanhamos o relato de Damião sobre seu irmão mais novo, Dalberto. Após o caçula contar para toda a família sobre sua homossexualidade, ele é fisicamente agredido pelo pai, que também surra Damião por tentar defender o irmão. Temos, então, a seguinte passagem: parecia que a surra tinha te ferido mais dentro que fora, não quis mais conversar comigo direito, nem sair junto como a gente sempre fazia, do jeito que tu era, era bem pensando que o pai ia continuar brigando comigo também, sei que tu lutava com isso, como tu lutava pra dar uma braçada bem-feita no rio, o mais incrível foi que tu acreditou que o pai podia aceitar, e toda vez que ouviu a gente insultando homem que era como tu? não é possível que tenha acreditado que era tudo da boca pra fora, porque não era, viu? era tudo verdade, a gente era tudo cheio de nojo de quem era baitola, como se tivessem o corpo coberto de chaga, tu teve muita coragem, mas ficou com medo por minha causa, não foi, Beto? não foi? (Gardel, 2021, p. 47-48, grifo nosso). Nesse conflito, mesmo com o medo e a não-aceitação iminente por parte do pai, Dalberto manteve seu propósito de expor sua sexualidade. O medo mencionado refere-se às represálias que poderiam atingir seu irmão mais velho, entretanto, o caçula não hesita em ser assumidamente homossexual mesmo com os riscos dessa decisão. Nesse caso, a coragem caracteriza-se não como um ato relacionado à masculinidade hegemônica, mas sim, pelo afrontamento a essa. Logo, “para além de todas as considerações sobre a natureza e a dimensionalidade deste tópico, importa é que as pessoas se manifestem corajosas frente às diversas adversidades da vida” (Barros-Oliveira, 2009, p. 265). 39 Por meio de uma perspectiva sociológica, o professor e antropólogo Mauro Guilherme Pinheiro Koury cede uma entrevista à pesquisadora Karina Sérgio Gomes, relatando o que compreende por coragem. Em suas palavras, “A coragem é confundida com bravura, como um ato heroico. Eu, de um ponto de vista da sociologia e antropologia das emoções, prefiro definir coragem como um ato cotidiano de ação em direção aos outros (humanos e objetos)” (Koury; Gomes, 2012, p. 266). Novamente, afastamo-nos do ideal primário no qual a coragem se relaciona diretamente com a masculinidade e dureza de guerreiros. Expandimos o conceito para uma noção mais inclusiva na interação humana ao considerar que [...] a coragem é um ato de aventura para o outro: é a descoberta da diferença do outro em relação ao conhecido e a si mesmo. Nessa configuração conceitual, é uma ação que rompe com os medos (embora recheada deles) em direção à aventura da descoberta, do encontro com o difere