UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E VETERINÁRIAS CAMPUS DE JABOTICABAL Vanessa Kelen Nunes Orientador: Profa. Dra. Hirasilva Borba Supervisor: Rian Carvalho Silva JABOTICABAL – S.P. 2º SEMESTRE DE 2025 RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO DO CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA, REALIZADO JUNTO À EMPRESA NORVIDA NA UNIDADE DA JBS DE LINS-SP. Caso de interesse: Abate de emergência em bovinos com problemas locomotores: análise de casos UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E VETERINÁRIAS CÂMPUS DE JABOTICABAL Vanessa Kelen Nunes Orientador: Profa. Dra. Hirasilva Borba Relatório do Estágio Curricular em Prática Veterinária apresentado à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Câmpus de Jaboticabal, Unesp, para graduação em Medicina Veterinária. JABOTICABAL – S.P. 2º SEMESTRE DE 2025 RELATÓRIO FINAL DE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO DO CURSO DE MEDICINA VETERINÁRIA, REALIZADO JUNTO À EMPRESA NORVIDA NA UNIDADE DA JBS DE LINS-SP. Caso de interesse: Abate de emergência em bovinos com problemas locomotores: análise de casos Agradecimentos Agradeço primeiramente a Deus, por me sustentar até aqui e por conceder força, discernimento, sabedoria e saúde ao longo dessa caminhada. Aos meus maiores bens, meus pais Ana e Marcelo, e ao meu irmão Wesley, sou imensamente grata pelo apoio incondicional, incentivo, orações e por sempre transformarem meus sonhos em realidade. Vocês serão, para sempre, minhas maiores inspirações e meu maior exemplo de ser humano em amor, cuidado e bondade. Dedico esse trabalho e minha graduação a vocês. À república Éssakana, que por tantos anos foi meu lar e refúgio, deixo meu sincero agradecimento. Às minhas companheiras Vitória Tiemi e Fernanda Lindenberg, pela irmandade, apoio, amor e por compartilharmos cada etapa desse percurso. Às veteranas Bárbara Bonani, Ana Laura Caporusso, Jaqueline Alves, Bárbara Thomazini, Laura Oliveira, Isadora Gianeis, Ludmilla Guimarães e todas as demais que me acolheram, ensinaram e abriram caminhos. Às minhas bixetes Nicoly Gomes, Julia Thomazini, Giovanna Suttini, Ana Júlia Cardoso, Júlia Bonfim, Júlia Clemente e Lívia Ribeiro, pelo carinho e cumplicidade que tornaram a rotina mais leve. E à dona Mercês, que sempre cuidou tão bem de mim e das meninas. Aos amigos que a república me presenteou, especialmente Larissa Marchini e Thaiane Oliveira, que me inspiraram e incentivaram durante o caminho. Aos amigos construídos ao longo da graduação, em especial Lucas Teixeira e Ana Clara Ascanio, pela amizade e companheirismo. Agradeço a todo o Laboratório de Análises de Alimentos de Origem Animal e à Professora Hirasilva pelas oportunidades e orientação. Um agradecimento especial ao Lucas e à Isabela pelo apoio constante e pelo carinho construído ao longo do tempo. À turma de estagiários Norvida 2025.2, deixo minha gratidão, especialmente à Raíssa, que esteve ao meu lado durante essa etapa tão importante. E a todos colaboradores da Unidade JBS de Lins – SP. Por fim, agradeço ao meu supervisor de estágio, Rian e a empresa Norvida, pela oportunidade concedida e por acreditar no meu potencial. v Sumário I. Relatório de estágio ....................................................................................... 7 1. Introdução ........................................................................................................... 7 2. Descrição do local de estágio ........................................................................... 7 2.1. Descrição da Norvida ................................................................................... 7 2.2. Descrição da JBS ......................................................................................... 9 3. Descrição das atividades ................................................................................. 10 3.1. Produtos Nattukort ..................................................................................... 11 3.1.1. Filé mignon congelado ........................................................................ 11 3.1.2. Filé mignon resfriado .......................................................................... 12 3.2. Etiqueta Naturkõtt ...................................................................................... 13 3.3. Caixas Naturkõtt ......................................................................................... 14 3.4. Manejo pré-abate e abate .......................................................................... 15 3.5. Rotina antes do início da produção .......................................................... 17 3.6. Desossa de meias carcaças ...................................................................... 18 3.7. Embalagem primária .................................................................................. 20 3.8. Embalagem secundária ............................................................................. 25 3.9. Conferência de caixas ............................................................................... 25 3.10. Paletização e expedição ......................................................................... 26 3.11. Testes microbiológicos .......................................................................... 28 3.12. Não conformidades ................................................................................ 28 3.12.1. Etiqueta mal posicionada ................................................................ 28 3.12.2. Defeitos e dobras na solda .............................................................. 30 3.12.3. Sujidades na solda ........................................................................... 30 3.12.4. Peças com excesso de sebo e cortes na membrana prateada .... 31 3.13. Relatórios e Planilhas Produzidos no Estágio ..................................... 33 3.13.1. Relatório diário ................................................................................. 33 3.13.2. Relatório de Aproveitamento do Filé Mignon ................................ 34 3.13.3. Planilha de Programado e Realizado .............................................. 35 3.13.4. Relatório de carregamento .............................................................. 36 3.13.5. Relatório semanal............................................................................. 36 3.13.6. Checklist semanal ............................................................................ 37 vi 3.13.7. Relatório de abate ............................................................................ 38 3.13.8. Relatório de PPHO............................................................................ 39 3.13.9. Relatório de divergência de peso ................................................... 40 3.13.10. Planilha de não conformidade em embalagens e etiquetas ......... 41 II. Monografia ........................................................................................................ 43 1. Introdução ......................................................................................................... 43 2. Revisão de Literatura ....................................................................................... 44 2.1. Bem-estar animal ....................................................................................... 44 2.2. Manejo pré-abate ........................................................................................ 45 2.3. Problemas de locomoção no manejo pré-abate ...................................... 47 2.4. Abate de emergência ................................................................................. 48 3. Descrição dos casos ........................................................................................ 49 3.1. Casos analisados ....................................................................................... 49 3.1.1. Caso 1: .................................................................................................. 49 3.1.2. Caso 2: .................................................................................................. 49 3.1.3. Caso 3: .................................................................................................. 50 3.1.4. Caso 4: .................................................................................................. 50 4. Discussão .......................................................................................................... 50 5. Conclusão ......................................................................................................... 52 6. Referências ....................................................................................................... 52 7 I. Relatório de estágio 1. Introdução O estágio ocorreu no período de 01 de agosto de 2025 a 12 de novembro de 2025, totalizando 600 horas na disciplina de Estágio Curricular em Prática Veterinária. O estágio foi realizado na empresa Norvida por intermédio da planta frigorifica da JBS de bovinos na Unidade de Lins-SP, sob supervisão do Médico Veterinário Rian Carvalho Silva por parte da Norvida e sob orientação da Profa. Dra. Hirasilva Borba. As atividades do estágio foram voltadas para o monitoramento de toda produção Naturkott, garantindo o padrão e a qualidade dos produtos em todas as fases de produção. Durante o estágio, foi realizado treinamento teórico nos programas relacionados à garantia da qualidade dos produtos, incluindo Boas Práticas de Fabricação (BPF), Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), Procedimento Padrão de Higiene Operacional (PPHO) e Bem-Estar Animal, que integraram a rotina de atividades ao longo de todo o período. Também foi realizado treinamento prático em todas as etapas do processo produtivo, desde o recebimento dos animais, passando pelo abate e desossa, até a expedição dos produtos para o destino final. Logo, este relatório tem como objetivo apresentar as atividades desenvolvidas durante o período de estágio, bem como descrever e analisar um caso de interesse relacionado ao abate de emergência em bovinos em decorrência de problemas locomotores. 2. Descrição do local de estágio 2.1. Descrição da Norvida A Norvida (Figura 1) foi estabelecida em Estocolmo, em 1990, inicialmente sob 0o nome North Trade. É uma empresa sueca especializada em importação e comercialização de carnes e proteínas para o mercado nórdico, tanto no varejo quanto no segmento de serviços de alimentação. A sede da empresa está localizada em Nacka, na região de Estocolmo, mas encontra-se presente também na Finlândia, Noruega e Brasil. Nesse contexto, a Norvida é responsável pela compra de cortes nobres de bovinos para importar para a Suécia, Finlândia e Noruega, incluindo contra- filé, filé mignon e filé de costela. 8 Figura 1 – Logotipo da empresa Norvida Fonte: Norvida (2025). A Norvida abrange dez marcas diferentes e cerca de trezentos produtos distintos, incluindo variações de sabores das carnes, dos valores e também a finalidade dos produtos. Para atender esse mercado diversificado a Norvida adquire e vende carne de alguns países como Canadá, Nova Zelândia, Brasil, Uruguai, Irlanda, entre outros. A marca da Norvida atuante no Brasil e outros países da América do Sul é a Naturkott (Figura 2), composta por cortes finos e baseados nos padrões de qualidade e sustentabilidade da Norvida. Figura 2 – Logotipo da marca Naturkõtt. Fonte: Norvida (2025). A Norvida tem como foco garantir a alta qualidade de seus produtos, e para isso obtém carne de diferentes países e em distintas épocas do ano, visando manter o mesmo padrão independentemente das variações de clima, estação ou localização 9 geográfica. A empresa adota princípios baseados na sustentabilidade e no bem-estar animal, garantindo que nenhuma produção ocorra próxima a região amazônica, além de seguir de forma rigorosa as “cinco liberdades”. Também assegura o abate somente com insensibilização prévia, reduz o uso de antibióticos, e busca reduzir o impacto climático relacionado ao transporte dos produtos. Dessa maneira, o padrão de qualidade alcançado pela Norvida é respaldado por rigorosos requisitos e regulamentações acerca da sustentabilidade e do bem-estar animal. 2.2. Descrição da JBS O estágio curricular foi realizado na Unidade da JBS de Lins- SP, S/N, Via de Acesso Lins, Getulina - Parque Industrial, Lins - SP, 16404-110. A JBS S.A. é uma das maiores empresas do setor de alimentos do mundo, com atuação voltada principalmente à produção e processamento de proteínas de origem animal. Fundada em 1953, em Anápolis -GO, a empresa expandiu-se nacional e internacionalmente, consolidando-se como referência em eficiência produtiva e segurança alimentar. A empresa desenvolve suas atividades com foco na qualidade dos produtos, na sustentabilidade e na responsabilidade socioambiental, buscando constantemente aprimorar seus processos e garantir o bem-estar animal ao longo de toda a cadeia produtiva. A Unidade Industrial da JBS de Lins (Figura 3), identificada sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF) nº 337, possui habilitações para diversos mercados como: União Europeia, Singapura, Estados Unidos, Argentina, Japão, Paraguai, Uruguai, Canadá, Filipinas, África do Sul, Albania, Argelia, Brasil, Chile, China, Croácia, Cuba, Egito, Irã, Malta, Ilhas Maurício, Mianmar, Noruega, Peru, Rússia, Suíça, Ucrania, Belarus, Bulgária, Iemem, Antiga Macedonia, Nova Caledonia, Romenia, Arábia Saudita, Líbano e Venezuela. 10 Figura 3 – Imagem satélite do abatedouro frigorífico JBS S/A Lins - SP. Fonte: Google Earth (2025). A capacidade de abate é de 1.200 animais/dia (378 ton), sendo a capacidade anual de abate de 288.000 animais (90.000 ton). Em relação a desossa, a capacidade é de 335 ton/dia, em que a capacidade projetada de produção é de 2.400 dianteiros/dia (120 ton/dia), 2.400 traseiros/dia (168 ton/dia) e 2.400 pontas de agulha/dia (36 ton/dia). A empresa é dividida em bloco I (In Natura) e bloco II (Conserva, Supergelados, Ingredientes, Pouch, Latas Grandes, Extrato, Carne Cozida Congelada). O número total de colaboradores trabalhando nesta unidade é de 3.044 pessoas. Em relação a área que ocupa, a unidade apresenta um total e 974.000,00 m², sendo que o total de área construída representa 204.729,18 m². 3. Descrição das atividades Inicialmente foi desenvolvido um treinamento teórico-prático pelo supervisor de estágio M.V. Rian Carvalho Silva, no qual foram abordados temas como Planos de Autocontrole, que incluíram: Boas Práticas de Fabricação, Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle, Procedimento Padrão de Higiene Operacional, Procedimento Sanitário Operacional e Bem-Estar Animal. Além de temáticas 11 relacionadas ao padrão dos produtos Naturkõtt e as possíveis ocorrências de não conformidades que poderiam ser encontradas nos produtos, sendo esse o foco principal do treinamento. Esta primeira parte teórica do treinamento ocorreu na JBS S/A – Campo Grande (MS) Unidade 1. Posteriormente, as duas próximas semanas englobaram o treinamento prático na JBS S/A- Campo Grande - MS Unidade 2, onde acompanhou-se toda a produção dos produtos Naturkõtt. Em seguida, as atividades foram direcionadas para a Unidade da JBS S/A Lins- SP, onde ocorreu de fato o desenvolvimento do estágio. As atividades incluíram desde o acompanhamento do abate de bovinos com habilitação para União Europeia, o processo de desossa, embalagem, paletização e expedição dos produtos. Ademais, eram entregues relatórios diários sobre acontecimentos da produção, planilhas com dados sobre a produção (quantidades) e o estoque, cálculos sobre o aproveitamento e relatórios semanais com fotos do padrão dos produtos e demais ocorrências. 3.1. Produtos Nattukort 3.1.1. Filé mignon congelado No período de 14 de agosto a 29 de setembro, foi realizada a inspeção da produção de filé mignon congelado. Quanto ao padrão esperado para esse produto, os requisitos incluíam: ausência do cordão do filé mignon, ausência da capa, presença da membrana prateada, além da ausência de hematomas, coágulos, cortes e sebo (Figura 4). O filé mignon congelado contemplava dois tipos, denominados filé mignon 3/4 (Oxfilé – Sisafilee) e filé mignon 4/5 (Oxfilé – Sisafilee). O filé mignon 3/4 apresentava variação de peso entre 1,4 kg e 1,8 kg, enquanto o filé mignon 4/5 variava de 1,8 kg a 2,7 kg. 12 Figura 4 – Filé mignon com padrão de refile Naturkõtt. Fonte: Arquivo pessoal (2025). O filé mignon congelado tinha como embalagem primária um invólucro transparente, tanto na parte frontal quanto na posterior (Figura 5). Além disso, as peças eram acondicionadas na embalagem secundária, sendo sete unidades para o filé mignon 3/4 e seis unidades para o filé mignon 4/5. Figura 5 – Filé mignon Naturkõtt envolvido por embalagem transparente. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.1.2. Filé mignon resfriado A produção de filé mignon resfriado teve início em 30 de setembro e foi finalizada em 05 de novembro. O padrão desse produto também incluía a ausência do cordão do filé mignon, ausência da capa, presença da membrana prateada e ausência de hematomas, coágulos, cortes e sebo. O filé mignon resfriado era 13 composto por dois tipos, denominados 3/4 e 4/5, que apresentavam variações de peso de 1,350 kg a 1,8 kg e de 1,8 kg a 2,5 kg, respectivamente. O filé mignon resfriado apresentava uma embalagem primária transparente na parte frontal e preta na parte posterior, a qual continha recomendações em sueco (Figura 6). Ademais, as peças eram acomodadas na embalagem secundária, sendo sete unidades para o filé mignon 3/4 e seis unidades para o filé mignon 4/5. Figura 6 – Filé mignon Naturkõtt envolvido por embalagem de fundo preto. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.2. Etiqueta Naturkõtt A rotulagem de carne bovina na União Europeia, conforme o Regulamento (CE) n° 1760/2000 e a legislação horizontal de alimentos da UE, deve fornecer informações completas que assegurem a rastreabilidade e segurança dos produtos. Para isso, as etiquetas dos produtos Naturkõtt (Figura 7) apresentam dizeres importantes que incluem a denominação do produto, o peso líquido, datas de embalagem e validade, condições de conservação, o código identificador sanitário de abate e processamento. Ademais, a etiqueta também contém o código denominado EAN 13, que por sua vez 14 permite a identificação única do produto, facilitando o controle de estoque, logística e rastreamento. Figura 7 – Etiqueta Naturkõtt contendo os dizeres obrigatórios. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.3. Caixas Naturkõtt Os filés mignon Naturkott recebiam a embalagem primária, e posteriormente uma embalagem secundária, representada por uma caixa do tipo “palito” (Figura 8), facilitando o transporte, armazenamento e logística do produto. Figura 8 – Embalagem secundária do filé mignon Naturkõtt, denominada "caixa palito". Fonte: Arquivo pessoal (2025). 15 A embalagem secundária contendo suas respectivas unidades de filé mignon, sendo sete unidades para o filé mignon 3/4 e seis unidades para o filé mignon 4/5, recebia uma testeira após a etapa de pesagem. A testeira (Figura 9) continha informações essenciais como: código de identificação do produto, tipo de produto, data de produção e data de validade, número do SIF, identificações de rastreabilidade, entre outros. Figura 9 – Testeira da embalagem secundária Naturkõtt, contendo informações de identificação do produto. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.4. Manejo pré-abate e abate No manejo pré-abate, foi possível observar o recebimento e desembarque dos animais, a condução até os currais e o período de descanso, no qual eram asseguradas condições adequadas de conforto, acesso à água e o processo de jejum. Na etapa de abate propriamente dita, foi possível acompanhar o atordoamento, realizado de forma eficiente e de acordo com os princípios de Bem-Estar Animal (BEA), garantindo a insensibilização completa antes da sangria. Em seguida, observou-se a sequência das etapas de sangria, esfola, evisceração e serragem das 16 meias carcaças, conduzidas sob padrões higiênico-sanitários e supervisionadas pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF). O foco das atividades na etapa de abate esteve voltado para a identificação e contagem de cortes no filé mignon, com o objetivo de detectar possíveis falhas no processo e reduzir prejuízos na produção dessa peça de alto valor comercial. De modo geral, os cortes observados no filé mignon de origem do abate eram decorrentes das etapas de evisceração, retirada dos rins ou remoção de linfonodos, que por sua vez comprometiam o rendimento e a padronização do produto final (Figura 10). Figura 10 – Filé mignon com cortes de origem do processo de abate. A- corte profundo e extenso originado no abate; B-corte extenso de origem do abate; C- corte originado na etapa de abate. Fonte: Arquivo pessoal (2025). A contagem dos cortes era realizada nas meias carcaças habilitadas para a União Europeia, no final da linha de abate, antes da entrada das carcaças na etapa de estimulação elétrica. Após a identificação das ocorrências, eram registradas as origens dos cortes e os monitores e supervisores do abate eram imediatamente notificados, a fim de orientar os colaboradores e corrigir as não conformidades observadas. Posteriormente, a contagem dos cortes era registrada em um relatório de acompanhamento, no qual constavam as porcentagens representativas de ocorrências antes e após as ações corretivas adotadas pela equipe de monitoramento e supervisão. 17 3.5. Rotina antes do início da produção Antes do início da desossa, era realizado um procedimento de verificação prévia para assegurar que todas as etapas do processo estivessem em conformidade com os padrões de qualidade estabelecidos. Inicialmente, solicitava-se às colaboradoras da linha que pesassem um filé mignon em cada um dos dois terminais, a fim de verificar se as informações contidas nas etiquetas estavam corretas (Figura 11). Além disso, era avaliada a qualidade da impressão, observando possíveis falhas como impressão sobreposta, borrada ou incompleta. Caso algum problema fosse identificado, a equipe de Tecnologia da Informação (TI) era acionada para realizar os ajustes necessários antes do início da produção. Figura 11 – Etiqueta de filé mignon Naturkõtt Fonte: Arquivo pessoal (2025). Em seguida, procedia-se à verificação das informações da testeira (Figura 12) assim que a primeira caixa fosse pesada. Para isso, era realizada uma pesagem prévia de algumas caixas, o que permitia a conferência da tara. Admitia-se uma variação de até 5% para mais ou para menos; caso a divergência ultrapassasse esse limite, solicitava-se à equipe do estoque físico a correção do valor da tara no sistema. 18 Figura 12 – Caixa de filé mignon Naturkott com testeira. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Outro ponto importante era confirmar a presença do colaborador responsável pela conferência de peso, já que todas as peças de filé mignon deveriam ser pesadas individualmente e ter o código de barras lido. Na ausência do colaborador ou na passagem de peças sem conferência, o fato era imediatamente comunicado ao monitor ou supervisor para que fosse feita a revisão das peças. Por fim, verificava-se o funcionamento adequado da máquina de vácuo e do túnel de encolhimento, garantindo que estivessem operando corretamente antes do início da desossa, de modo a evitar interrupções no processo e assegurar a qualidade final do produto. 3.6. Desossa de meias carcaças Ainda no setor de desossa, foi possível acompanhar de forma detalhada todas as etapas do processo produtivo do filé mignon Naturkõtt, desde a desossa dos quartos traseiros até a montagem das caixas do produto final. Inicialmente, observou- se a separação do contrafilé e do filé mignon, etapa que requer habilidade e precisão técnica para evitar cortes, perfurações ou lacerações que possam comprometer o padrão de qualidade da peça. Durante esse acompanhamento, avaliava-se se o 19 procedimento estava sendo executado de forma adequada, visto que danos ao filé mignon eram, em sua maioria, ocasionados pelo uso incorreto dos ganchos durante a desossa (Figura 13). Figura 13 – Filé mignon com corte originado por gancho Fonte: Arquivo pessoal (2025). Na sequência, a etapa de refile demandava atenção redobrada, uma vez que o produto precisava atender aos padrões de qualidade Naturkõtt, estabelecidos. Nessa fase, era realizada uma inspeção visual criteriosa, garantindo que o filé mignon apresentasse conformidade com as especificações da marca, como ausência de cortes ou lacerações, integridade da membrana prateada e ausência de sebo. Nessa etapa, as não conformidades encontradas geralmente eram cortes na membrana prateada e excesso de sebo (Figura 14). Figura 14 – Não conformidades relacionadas ao refile do filé mignon. A –.Corte grande na membrana prateada; B – Corte profundo na membrana prateada; C – Excesso de sebo. 20 Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.7. Embalagem primária Seguido do refile, cada peça era pesada individualmente, gerando uma etiqueta automática com o peso correspondente, que era fixada na embalagem primária junto ao produto (Figura 15). Nessa etapa, verificava-se se o procedimento de pesagem e rotulagem estava sendo realizado de maneira correta e contínua, além de monitorar possíveis falhas técnicas nos terminais de pesagem, computadores e impressoras utilizados no processo. 21 Figura 15 – Filé mignon Naturkõtt envolvido pela embalagem primária. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Após o processo de embalagem, o filé mignon seguia pela esteira até a máquina de vácuo, passando posteriormente pela conferência do peso da etiqueta e, por fim, pelo túnel de encolhimento. Na máquina de vácuo, os principais problemas observados estavam relacionados à má extração de ar, formação de dobras na solda da embalagem e presença de pequenos furos e barramento cortando a solda, fatores que comprometiam a vedação e a aparência final do produto (Figura 16). As peças com falhas no vácuo eram destinadas ao chamado teste de borracheiro (Figura 17), utilizado para identificar a origem do defeito. Para a realização desse teste, fazia-se um pequeno furo na embalagem, por onde era injetado ar. Em seguida, o furo era vedado e a peça submersa em água, permitindo visualizar o ponto de escape do ar e, assim, determinar a causa exata do problema. 22 Figura 16 – Embalagem de filé mignon com problema de vácuo devido a defeito no barramento da solda. Fonte: Arquivo pessoal (2025) Figura 17 – "Teste do borracheiro" em embalagem do filé mignon. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Durante a conferência de peso, verificava-se se o peso indicado na etiqueta correspondia ao peso real da peça. Eram aceitas variações de até 30 gramas a mais, 23 porém nunca um peso inferior ao registrado, a fim de assegurar a conformidade com os padrões de qualidade e transparência da marca (Figura 18). Figura 18 – Divergências de peso no momento da conferência. A – Peso da etiqueta maior do que o peso do filé mignon na balança; B – Peso da etiqueta menor do que o peso do filé mignon na balança. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Por fim, no túnel de encolhimento (Figura 19), era realizada uma inspeção visual para garantir que o processo estivesse ocorrendo de forma eficiente, observando-se especialmente se havia cozimento superficial das peças e se o encolhimento da embalagem estava sendo executado corretamente. Para evitar o cozimento superficial das peças ou mal encolhimento da embalagem, era necessário checar a temperatura correta do túnel de encolhimento, que deveria estar entre 85- 88°C, temperaturas abaixo ou acima desta margem são consideradas inadequadas (Figura 20). 24 Figura 19 – Equipamento túnel de encolhimento. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Figura 20 – Temperatura do túnel de encolhimento abaixo da faixa ideal (85-88°C). Fonte: Arquivo pessoal (2025). 25 3.8. Embalagem secundária Após o túnel de encolhimento, as peças seguiam para a embalagem secundária, onde eram organizadas em caixas contendo de seis a sete unidades, conforme a classificação de filé mignon 4/5 ou filé mignon 3/4, respectivamente. A organização interna das caixas seguia um padrão específico, alternando cabeça e cauda das peças para melhor acomodação (Figura 21). Por fim, as caixas eram colocadas na esteira para pesagem, arqueadas, identificadas com a testeira contendo as informações do produto e recebiam o lacre do SIF, assegurando a integridade e a rastreabilidade do lote. Figura 21 – Peças de filé mignon organizadas na caixa “palito”. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.9. Conferência de caixas Após a pesagem, eram separadas algumas caixas para a realização da conferência, etapa importante para verificar a conformidade dos produtos antes da estocagem e expedição. Para esse controle, três caixas de cada código produzido eram revisadas em diferentes momentos do dia, totalizando seis caixas ao todo. A inspeção das caixas tinha como objetivo identificar possíveis não conformidades nos produtos, que eram registradas no relatório semanal por meio de 26 fotografias, descrições detalhadas dos problemas encontrados e preenchimento de um checklist. A conferência incluía a verificação do padrão de qualidade do filé mignon, o peso indicado na etiqueta, as informações da etiqueta da embalagem primária, a integridade das embalagens, a embalagem secundária e as informações contidas na testeira. Quando eram identificadas não conformidades mais graves, como problemas de vácuo ou peso incorreto, as peças eram substituídas e a caixa era pesada novamente para garantir a correção do desvio. Nesses casos, também era aumentada a amostragem, de forma a ampliar o controle e assegurar que o restante da produção estivesse em conformidade com os padrões exigidos. Assim, eram conferidas mais três caixas daquele código que apresentou determinado problema e, caso ainda fossem encontradas não conformidades graves a amostragem aumentava novamente. 3.10. Paletização e expedição As caixas eram destinadas para o choque térmico e, posteriormente, eram encaminhadas às câmaras de refrigeração, onde permaneciam estocadas até o momento da expedição dos produtos. Essa etapa era fundamental para garantir a manutenção da temperatura adequada, preservando a qualidade, segurança e integridade do filé mignon até sua distribuição. O carregamento da produção não ocorria em um dia fixo, pois dependia da quantidade de produto disponível em estoque. No caso dos produtos congelados, o carregamento era realizado apenas quando o estoque atingia 25 toneladas, enquanto os produtos resfriados geralmente eram expedidos a partir de 15 toneladas. O acompanhamento do carregamento era feito de forma detalhada, sendo registrado por meio de um padrão de fotos, posteriormente anexado ao relatório semanal (Figura 22). Durante essa etapa, um membro da equipe de Garantia da Qualidade acompanhava o processo, realizando uma amostragem de conferência das caixas antes do carregamento para verificar as condições do produto e a temperatura. Para 27 os produtos congelados, a temperatura exigida era de -18°C, enquanto os produtos resfriados deveriam manter-se entre -2°C e 2°C. Figura 22 – Padrão de fotos do carregamento da carga de filé mignon. A –Container vazio; B – Número do container; C – Foto do caminhão com as portas abertas, mostrando o container carregado e o termógrafo; D – Container com uma porta fechada; E – Container com duas portas fechadas; F – Temperatura das peças (sanduíche); G – Container lacrado (SIF); H – Lacre do SIF; I – Placa. Fonte: Arquivo pessoal (2025). O carregamento era acompanhado até sua finalização, garantindo que a carga recebesse o lacre do SIF, assegurando a rastreabilidade e conformidade sanitária. Após o término, eram coletadas informações referentes ao carregamento para manter os supervisores do estágio atualizados. Essas informações incluíam o resultado do 28 laudo de Salmonella, dados de faturamento, registro da saída do contêiner da planta, bem como a assinatura e liberação do Certificado Sanitário Internacional (CSI). 3.11. Testes microbiológicos O carregamento do filé mignon produzido acontecia somente após a emissão dos resultados de testes microbiológicos. Tendo em vista que o resultado esperado para Salmonella é sempre “ausência”, garantindo a segurança microbiológica do produto. A análise de Salmonella no filé mignon é realizada de forma rotineira como parte do controle de qualidade. Assim, todos os dias um membro da garantia da qualidade realizava uma coleta de amostras, selecionando dez filés mignon e coletando porções da superfície, incluindo ponta e cabeça da peça. As amostras eram encaminhadas ao laboratório para análise de Salmonella, com emissão posterior do COA (Certificado Oficial de Análise). 3.12. Não conformidades As possíveis não conformidades na produção dos filés mignon são inúmeras, porém algumas ocorreram de forma mais recorrente durante esses meses de estágio. Ainda assim, todas foram corrigidas diariamente com auxílio da equipe de Garantia da Qualidade, dos monitores e dos supervisores da produção. 3.12.1. Etiqueta mal posicionada No decorrer da produção era necessário verificar se as etiquetas estavam sendo aplicadas corretamente nas embalagens (Figura 23), ou seja, seguindo o padrão de posicionamento. Quando alguma irregularidade era identificada, as peças com problema eram encaminhadas ao monitor ou supervisor da linha, para que pudesse orientar o colaborador responsável pela embalagem primária. Dessa 29 maneira, reforçava-se a atenção ao processo, sendo feita a correção da atividade executada. Figura 23 – Peças de filé mignon com etiquetas mal posicionadas. Fonte: Arquivo pessoal (2025). No caso da embalagem do filé mignon resfriado, a identificação do correto posicionamento da etiqueta deve seguir a ilustração (quadro verde) do verso da embalagem. Logo, a etiqueta deve ser aplicada de forma alinhada com o limite inferior do quadro (Figura 24). Figura 24 – Embalagem de filé mignon Naturkõtt resfriado. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 30 3.12.2. Defeitos e dobras na solda A passagem das peças pela máquina rotativa de vácuo deveria ocorrer de forma alinhada para que o resultado da solda fosse efetivo. Nesse sentido, falhas operacionais culminavam na presença de dobras na solda, fato que comprometiam a extração de ar, não promovendo o vácuo adequado (Figura 25). Dessa maneira, o monitor e supervisor eram comunicados para que o colaborador fosse orientado sobre o alinhamento da embalagem. Figura 25 – Presença de dobra na solda da embalagem do filé mignon. Fonte pessoal: Arquivo pessoal (2025). 3.12.3. Sujidades na solda A presença de sujidades como pedaço de carne ou sebo na abertura da embalagem comprometem a realização da solda, consequentemente interfere na eficiência do vácuo (Figura 26). Dessa forma, o monitor da linha era comunicado, a fim de orientar o colaborador da embalagem primária a embalar da forma correta, evitando a presença de resquícios na região da abertura da embalagem. 31 Figura 26 – Embalagem de filé mignon com sebo na solda, comprometendo o vácuo. Fonte: Arquivo pessoal (2025) 3.12.4. Peças com excesso de sebo e cortes na membrana prateada O padrão do refile Norvida exige que as peças não apresentem sebo e também que a membrana prateada esteja integra. No entanto observava-se a ocorrência de peças com excesso de sebo (Figura 27) e cortes na membrana prateada (Figura 28), necessitando acionar os monitores e supervisores para que reforçassem as informações do padrão exigido aos colaboradores. Figura 27 – Peças de filé mignon com excesso de sebo. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 32 Figura 28 – Peças de filé mignon com cortes na membrana prateada. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Acúmulo O acúmulo (Figura 29) pode ocorrer em diversas etapas da produção, no entanto, observou-se de forma mais recorrente o acúmulo no refile e ensacamento do filé mignon. Nesse aspecto é necessário redobrar a atenção, visto que o aumento de temperatura e exsudação podem comprometer a qualidade do produto, além de reduzir a eficiência de processos posteriores como o vácuo. Logo, os monitores e supervisores eram comunicados, e para solucionar o acúmulo optavam pela redução da velocidade da linha ou pela disponibilidade de mais colaboradoras na etapa de refile. 33 Figura 29 – Acúmulo de filé mignon para refilar e embalar. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13. Relatórios e Planilhas Produzidos no Estágio Durante o período de estágio, foram elaborados e entregues diversos relatórios e planilhas com o objetivo de registrar, acompanhar e analisar as atividades realizadas. Esses documentos foram fundamentais no monitoramento da rotina operacional, permitindo a sistematização das informações e a verificação contínua dos padrões de qualidade. Entre os materiais desenvolvidos, incluíram-se relatórios diários, utilizados para descrever as atividades executadas durante a produção; relatórios semanais, que apresentavam as principais ocorrências do período; e relatórios relacionados ao carregamento, para o acompanhamento do fluxo de expedição. Além desses, foram produzidas planilhas voltadas ao controle da produção, abordando dados de rendimento, pesos, quantidades processadas e demais indicadores relevantes. A elaboração e a entrega desses documentos permitiram manter as informações organizadas, a acompanhar o andamento das atividades, além de compreender os principais problemas de cada etapa produtiva. 3.13.1. Relatório diário O relatório diário tinha como finalidade registrar, ao final do expediente de estágio, um resumo dos principais acontecimentos relacionados à produção (Figura 30). Nesse documento eram descritos os problemas observados durante o turno, bem 34 como as ações adotadas para solucioná-los, garantindo com que o Supervisor acompanhasse de forma contínua as atividades. Após sua elaboração, o relatório era enviado ao grupo de WhatsApp destinado à comunicação com o responsável, assegurando o registro dessas informações. Figura 30 – Exemplo de Relatório Diário referente a produção Naturkõtt. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.2. Relatório de Aproveitamento do Filé Mignon O relatório de aproveitamento era elaborado exclusivamente para o acompanhamento do rendimento do filé mignon (Figura 31). Para o cálculo, era necessário obter do PCP duas informações importantes: a quantidade de meias carcaças desossadas no dia e o total de peças de filé mignon destinadas à Naturkõtt. A partir desses dados, era possível determinar o percentual de aproveitamento diário do corte. Sempre que o valor obtido fosse inferior a 90%, era obrigatório apresentar uma justificativa, descrevendo fatores que tenham influenciado a redução do rendimento, a fim de manter o controle adequado do processo, além de corrigir possíveis irregularidades. 35 Figura 31 – Exemplo de cálculo do aproveitamento do filé mignon Naturkõtt. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.3. Planilha de Programado e Realizado A planilha de programado e realizado (Figura 32) tinha como finalidade comparar o volume programado para a produção com o resultado propriamente alcançado no dia. Para preencher essa planilha era utilizado o “Programado Norvida”, composto pelos valores disponibilizados pelo supervisor Leandro na semana anterior. Já o “Previsto JBS” não era disponibilizado pelo PCP e, por esse motivo, permanecia sem preenchimento na planilha. Após a atualização diária da planilha, as informações eram enviadas ao grupo de WhatsApp com o supervisor do estágio, Rian, e também ao Leandro, tanto pelo WhatsApp privado quanto por e-mail. O envio incluía três itens obrigatórios: o print do estoque, o print da produção do dia e a planilha de programado e realizado atualizada, garantindo com que os supervisores acompanhassem as metas de produção. Figura 32 – Planilha "Programado e Realizado". Fonte: Arquivo pessoal (2025). 36 3.13.4. Relatório de carregamento O relatório de carregamento (Figura 33) era elaborado em formato de check- list, e tinha como objetivo acompanhar de forma contínua o andamento das etapas relacionadas à expedição do filé mignon. As atualizações eram realizadas de manhã, tarde e noite, sendo enviadas diariamente até a emissão do Certificado Sanitário Internacional (CSI). O documento incluía informações importantes, como o status do carregamento, a liberação do laudo de Salmonella, o andamento do faturamento, o horário de saída do contêiner da planta, bem como a assinatura e a liberação do CSI. Todas essas atualizações eram compartilhadas no grupo de WhatsApp que reunia todos os supervisores, a fim de manter todos os responsáveis alinhados ao andamento do processo de expedição carga. Figura 33 – Exemplo de Relatório de Carregamento. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.5. Relatório semanal Diariamente, três caixas de cada código eram conferidas para identificar possíveis não conformidades no produto. Durante essa conferência, deveriam ser registradas tanto as fotos padrão (Figura 34) quanto as imagens de eventuais irregularidades encontradas. Essas fotos, juntamente com as imagens do carregamento e com os dados de identificação como número da ordem de compra (PO), placa e número do contêiner, eram reunidas e organizadas no relatório semanal. 37 Após a elaboração, o relatório era enviado para o e-mail do Rian, garantindo o registro das informações. Figura 34 – Padrão de fotos do Relatório Semanal. A- testeira; B- caixa aberta mostrando a testeira; C- caixa aberta demonstrando a organização; D- todas as peças dispostas com a etiqueta para cima; E- uma peça mostrando o verso e outra a frente; F-temperatura das peças; G -uma peça sendo pesada; H-pesagem da caixa vazia. ; Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.6. Checklist semanal O check-list semanal devia ser preenchido diariamente e abrangia todos os códigos de todos os produtos produzidos no dia, sendo atualizado durante a conferência das caixas. Para o correto preenchimento, utilizava-se a legenda (Figura 35) disponível ao final da própria planilha, garantindo padronização das informações. Após concluído, o documento (Figura 36) era enviado para o e-mail do supervisor Rian. 38 Figura 35 – Legenda para preenchimento do Checklist. Fonte: Arquivo pessoal (2025). Figura 36 – Checklist de conferência de caixa. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.7. Relatório de abate Os relatórios de abate eram elaborados em dias esporádicos, normalmente quando não havia produção ou quando as atividades encerravam mais cedo, permitindo a realização da avaliação das meias carcaças. Nessas ocasiões, eram analisadas as meias carcaças com habilitação para União Europeia, registrando-se tanto o número total avaliado quanto a quantidade que apresentava cortes no filé mignon (Figura 37). 39 Figura 37 – Exemplo de Relatório de Abate. Fonte: Arquivo pessoal (2025). A estrutura do relatório também incluía a comparação das porcentagens de cortes antes e depois do acionamento dos monitores, que, ao serem comunicados, realizavam orientações imediatas aos colaboradores envolvidos nas etapas críticas do processo. Essa comparação permitia analisar o impacto das intervenções e a redução das não conformidades ao longo da atividade. Geralmente, os cortes estavam relacionados às etapas de evisceração e à retirada do rim e da gordura. Após a elaboração, o relatório era encaminhado ao supervisor do estágio, Rian, por meio do grupo de WhatsApp. 3.13.8. Relatório de PPHO O relatório de Avaliação de PPHO (Figura 38) era elaborado com o objetivo de monitorar as condições de higienização e o cumprimento dos Procedimentos Padrão de Higiene Operacional antes do início das atividades, ou seja, no período pré- operacional. Nessa etapa, realizava-se uma verificação minuciosa do setor de desossa, observando a limpeza de equipamentos, superfícies, utensílios, pisos e estruturas, bem como a organização geral do ambiente e a ausência de resíduos ou possíveis fontes de contaminação. O relatório era desenvolvido e encaminhado no grupo de WhatsApp com o supervisor Rian. 40 Figura 28 – Exemplo de Relatório Pré-Operacional de PPHO. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.9. Relatório de divergência de peso Os relatórios de divergência de peso (Figura 39) tinham como finalidade registrar todas as peças que apresentavam peso fora do padrão apresentado na etiqueta. A variação nunca poderia ser inferior ao peso mínimo definido e, caso isso ocorresse, todas as peças nessa condição deveriam ser registradas na planilha de divergência de peso. Em relação ao peso ser superior ao da etiqueta, era permitido apenas um acréscimo de até 30 g acima do peso padrão. Assim, após o preenchimento completo, a planilha de Excel era enviada ao supervisor Rian por meio do WhatsApp juntamente com as fotos dos desvios de peso. 41 Figura 39 – Exemplo de Relatório de Divergência de Peso. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 3.13.10. Planilha de não conformidade em embalagens e etiquetas Quando surgia um problema envolvendo etiquetas ou embalagens de um determinado lote, a planilha de não conformidades (Figura 40) era preenchida e a informação era compartilhada no grupo que incluía todos os estagiários. A principal informação registrada era o número do lote da embalagem ou etiqueta, permitindo que os estagiários das outras unidades verificassem os materiais que estavam utilizando e acompanhassem possíveis repetições do problema. Dessa forma, era possível prevenir ocorrências semelhantes e garantir maior controle sobre os insumos utilizados. 42 Figura 40 – Planilha de Não Conformidades em Etiquetas e Embalagens. Fonte: Arquivo pessoal (2025). 43 II. Monografia 1. Introdução O bem-estar animal no manejo pré-abate é um ponto de extrema importância na pecuária, pois influencia diretamente as condições fisiológicas dos bovinos e a qualidade final da carne. Esse manejo envolve etapas como transporte, desembarque, descanso nos currais e preparação para o abate, sendo que cada uma dessas fases pode alterar o nível de estresse dos animais (Davis et al., 2022). Com o aumento da atenção pública e das exigências legais sobre bem-estar animal, cresce também a necessidade de práticas adequadas e do cumprimento das normas que regulam o setor (Da Costa et al., 2012). Além desses aspectos relacionados ao estresse, o manejo pré-abate também interfere diretamente nas características tecnológicas da carne (Ferguson; Warner,2008). Parâmetros como pH, maciez, cor e rendimento de carcaça são sensíveis às condições às quais os animais são submetidos (Mustafá e Clemente 2025). Fatores como longos períodos de transporte, manejo inadequado ou estrutura insuficiente dos currais podem comprometer o glicogênio muscular, favorecer o surgimento de lesões e alterar processos fisiológicos essenciais (Perin e Gallo 2016). Esses efeitos resultam em carne de menor qualidade, com maior risco de defeitos tecnológicos e perdas pelo processamento. Dentre os problemas existentes no manejo pré-abate de bovinos, as questões locomotoras representam uma delas, levando em consideração que a mobilidade dos animais é um fator importante tanto para a produção, quanto para o bem-estar animal (Davis et al., 2024). Os problemas locomotores no manejo pré-abate têm grande impacto no bem-estar dos bovinos e na rotina dos frigoríficos, pois dificultam o deslocamento dos animais e aumentam o risco de quedas e interrupções no fluxo de trabalho. Muitas dessas lesões, como contusões e fraturas surgem devido a falhas no transporte e nas instalações, incluindo o uso inadequado de instrumentos de manejo (Strappini et al., 2013). De acordo com Hirata et al. (2025) manejo racional no pré-abate é fundamental para reduzir o estresse e prevenir problemas locomotores nos bovinos. Nesse sentido, 44 a equipe deve aplicar técnicas baseadas no comportamento dos bovinos, guiando os animais com estímulos leves e direcionamentos adequados, sempre mantendo um ambiente calmo durante a movimentação. Além disso, instalações bem planejadas, com pisos antiderrapantes, corredores amplos e curvas suaves, contribuem com o manejo racional ao diminuir riscos de quedas e escorregões (Grandin, 2020). Diante de algumas circunstâncias, o abate de emergência é uma prática adotada no manejo pré-abate de bovinos, pois garante o bem-estar de animais que chegam ao frigorífico ou que, já no estabelecimento, desenvolvem condições de sofrimento, como fraturas, quedas ou incapacidade de locomoção (Galvão et al.,2019). A Portaria nº 365/2021 do MAPA estabelece que esses animais devem ser submetidos ao abate emergencial, sendo insensibilizados antes de qualquer movimentação e, preferencialmente, sangrados no local (BRASIL, 2021). Nesse contexto, o objetivo deste trabalho é analisar casos de abate de emergência em bovinos com problemas locomotores, considerando sua aplicação no manejo pré- abate. 2. Revisão de Literatura 2.1. Bem-estar animal O bem-estar animal representa um aspecto essencial dentro do processo de produção, pois busca assegurar que os animais sejam manejados de forma que não haja dor, estresse e desconforto (Da Silva; Yada,2018). Nesse contexto, o bem-estar animal foi construído a partir das Cinco Liberdades, definidas inicialmente no Relatório Brambell, em 1965, que estabelecem princípios básicos para a manutenção da qualidade de vida dos animais: liberdade de fome e sede, de desconforto, de dor, lesões e doenças, de medo e estresse, além da liberdade para expressar comportamentos naturais (Van Der Staay et al.,2025). Dessa maneira, o bem-estar animal deve estar presente em todo processo produtivo, sendo respaldado no Brasil por uma vasta legislação que visa estabelecer medidas de proteção animal, como é o caso da Portaria nº 365 de 16 de julho de 2021, que por sua vez aborda o manejo pré- abate, abate humanitário e métodos de insensibilização (BRASIL,2021). No contexto do manejo pré-abate de bovinos, é necessário que as medidas de bem-estar animal https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-365-de-16-de-julho-de-2021-334038845 45 sejam preconizadas, a fim de evitar acidentes, lesões e estresse no animal (Venancio et al., 2024). 2.2. Manejo pré-abate O embarque compreende a primeira etapa do manejo pré-abate de bovinos, na qual envolve a transição dos animais da propriedade para o veículo de transporte. Esta é uma etapa que exige atenção, tendo em vista que fatores como a infraestrutura, condução e comportamento animal influenciam diretamente o nível de estresse e a ocorrência de acidentes (Lambooij, 2024). Assim, alguns aspectos devem ser considerados nessa etapa, como é o caso da zona de fuga e o ponto de equilíbrio dos bovinos, visando conduzir os animais de forma calma. A zona de fuga corresponde ao espaço ao redor do animal, no qual a aproximação de uma pessoa ou estímulo faz com que ele se mova, já o ponto de equilíbrio determina a direção desse movimento, que pode ser um avanço ou recuo, a depender de onde o trabalhador se posiciona, sendo atrás ou a frente respectivamente (Brennecke et al., 2018). Em relação as instalações, a rampa de embarque deve ter inclinação menor que 20°, um trecho final plano de pelo menos dois metros e altura próxima de 1,40 m, além de manter o terreno de estacionamento nivelado para evitar degraus que dificultem o embarque dos animais (ACRIMAT, 2016). O transporte pode ser considerado como uma das etapas mais sensíveis do manejo pré-abate de bovinos, visto que nesse trajeto os animais são expostos a diversas situações estressantes, como a densidade, variação térmica e o tempo de percurso (Aleme e Bekel, 2021). Segundo Abubakar et al. (2021), a densidade de animais durante o transporte é um fator decisivo na resposta ao estresse, principalmente em trajetos de longa distância. No Brasil a densidade é recomendada a partir de diferentes pesos de bovinos, considerando 390 a 410 kg/m² como o ideal (BRASIL, 2023). Ademais, a ventilação adequada é um fator essencial para evitar estresse térmico, além de prevenir a desidratação dos animais e o aumento de cortisol, que podem ocorrer devido ao transporte (Silva, 2016). De acordo com Moreira et al. (2014), 46 a distância percorrida durante o transporte apresenta relação direta com os índices de contusões, perda de peso e até mesmo a morte dos animais, e quanto maior a distância, maiores são os riscos. O desembarque representa a transição dos animais do ambiente de transporte para as instalações do frigorifico, devendo ser realizado de maneira rápida, mas principalmente de forma calma e evitando estímulos aversivos (Da Silva; Guimarães; Ribeiro, 2021). Após o desembarque os bovinos são destinados aos currais de descanso, etapa em que ocorre a recuperação fisiológica, visto que o transporte altera a frequência respiratória e cardíaca, aumenta os níveis de cortisol e gera desidratação (Silva et al., 2024). De acordo com a Portaria nº 365, de 17 de junho de 2021, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o período de jejum de bovinos no manejo pré-abate não deve ultrapassar 24 horas. A importância do jejum está relacionada com a diminuição do conteúdo no trato gastrointestinal, a fim de minimizar os riscos de contaminação da carcaça durante o processo de evisceração (Bonesi e De Santana, 2008). A dieta hídrica também deve ser garantida aos bovinos nesse momento de descanso, prevenindo a desidratação e reduzindo o estresse (Moura et al., 2021). Além disso, os currais de descanso devem comportar a lotação adequada de animais, objetivando reduzir a ocorrência de lesões no manejo pré-abate. A superlotação dos currais aumenta a probabilidade de quedas, escorregões e interações agressivas, gerando contusões que afetam o bem-estar e comprometem a qualidade da carcaça (Bandeira et al., 2015). A condução até o box de insensibilização também deve ser realizada de forma adequada, respeitando os princípios do bem-estar animal e visando a qualidade da carcaça. Nessa perspectiva, um estudo mostra que as falhas nas instalações, na qualificação da equipe de manejo e na supervisão das práticas de condução relacionam-se ao aumento de ph da carcaça e menor eficiência do atordoamento (Leite et al., 2015). Somado a isso, a condução estressante corrobora para a ocorrência de hematomas e lesões musculares, que afetam diretamente a qualidade da carne (Nantes; Areco; Bier, 2021). Outros estudos demonstram que a projeção de 47 instalações adequadas aos bovinos, bem como princípios de manejo com baixo estresse, como corredores curvos, iluminação adequada posicionamento dos manejadores, podem reduzir os efeitos negativos da condução (Royer et al., 2010). Posteriormente os bovinos passam pelo banho de aspersão, que é responsável pela limpeza e remoção de sujidades, além de contribuir para a vasoconstrição e diminuição do estresse (Dos Santos e Taham, 2009). Em seguida os bovinos são destinados a contenção para a insensibilização, sendo a etapa que promove a inconsciência do animal antes da sangria, evitando dor e sofrimento, onde método de insensibilização comumente utilizado em bovinos é o dardo cativo penetrante (Panzenhagen et al., 2013). De acordo com Calesci et al. (2014), a ocorrência de falhas na insensibilização pode culminar em reflexos indesejados, como é o caso da correção de postura, além do sofrimento do animal. Dessa maneira, é crucial para o bem-estar animal que esta etapa seja efetiva, assim como reforça a Portaria MAPA n° 365/2021 sobre a insensibilização garantir a inconsciência imediata, representando uma etapa obrigatória do manejo pré-abate (BRASIL, 2021). 2.3. Problemas de locomoção no manejo pré-abate Durante o manejo pré-abate, os bovinos são expostos a situações de estresse que aumentam o risco de lesões locomotoras, como escorregões, quedas, contusões e outras fraturas (Keller,2022). Nesse sentido, pesquisas relacionam o transporte, a densidade de carga nos caminhões, o tempo de viagem e o desembarque com o risco de traumas e machucados nos animais (Dias et al., 2025). Outro aspecto importante nesse contexto é a forma como a equipe conduz os bovinos, considerando que trabalhadores bem treinados aplicam as técnicas adequadas e consequentemente reduz a ocorrência de lesões, enquanto a falta de capacitação aumenta os riscos (Strappini, 2012) Ademais, também é válido levar em consideração as características do animal, como o sexo, idade e temperamento, diante da suscetibilidade desses problemas. 48 Assim, estudos indicam que vacas adultas e animais mais reativos tem maior tendência a apresentar lesões graves (Vaz et al., 2023). Outrossim, há situações em que o animal já apresenta uma condição prévia que compromete sua locomoção, permanecendo, geralmente, em decúbito, tornando- se incapacitado de se locomover por diferentes causas, incluindo doenças metabólicas, traumas, distúrbios neuromusculares ou lesões nos membros (Cockram,2019) No contexto do pré-abate, a presença desses animais incapacitados de locomoção torna-se grave, além de aumentar o sofrimento e a probabilidade de dano muscular e nervoso (Stull et al., 2007). Segundo McDermott et al. (2022), a etapa de identificação de bovinos lesionados ou com incapacidade locomotora antes do embarque é decisiva para garantir o bem-estar no pré-abate. Os autores destacam que animais com dor intensa, dificuldade de locomoção ou risco de decúbito não devem ser transportados, visto que o deslocamento agrava o quadro clínico e o sofrimento (EFSA Panel on Animal Health Animal Welfare,2022). 2.4. Abate de emergência O abate de emergência pode ser definido como o procedimento aplicado a animais que, após o transporte, no momento da chegada ao frigorífico ou no descanso pré-abate, apresentam condições clínicas graves que impedem sua locomoção ou comprometam seu bem-estar (Marcante, 2024). Nesse sentido, os animais que não conseguem se locomover de forma segura não devem ser submetidos ao deslocamento pelos corredores, devendo ser abatidos no próprio local, mediante insensibilização e posterior sangria (Souza e Ribeiro, 2021). Os critérios para decidir sobre o abate de emergência envolvem avaliação clínica ante-mortem por um médico veterinário oficial, sendo necessário considerar sinais como incapacidade do animal se locomover sozinho, sinais de desidratação, evidencias de ferimentos graves ou que estejam acometidos por enfermidades, dor ou qualquer forma de sofrimento (Do Amaral, 2019). Ademais, é fundamental que o SIF (Serviço de Inspeção Federal) autorize o abate emergencial dentro da planta frigorífica, tendo em vista que o decreto n° 49 9.013/2017 estabelece que os animais desembarcados nos estabelecimentos sob inspeção federal devem aguardar a avaliação física por parte do SIF, além de impor obrigações relacionadas ao bem-estar animal desde a chegada até o abate (BRASIL, 2017). Por fim, em relação a destinação da carcaça, o médico veterinário do Serviço de Inspeção Federal será responsável por determinar a finalidade da carcaça, podendo variar o destino desde conserva, graxaria, incineramento, entre outros (Terra, 2017). 3. Descrição dos casos Foram analisadas quatro ocorrências de abate de emergência em bovinos que apresentaram problemas locomotores, cuja origem está associada a questões pré- existentes, fisiológicas ou relacionadas a interação entre os animais. As informações foram obtidas a partir dos comunicados internos de abate emergencial do frigorífico, que abrangeram o período de agosto a outubro de 2025. 3.1. Casos analisados 3.1.1. Caso 1: Em 16/08/2025, o animal nº 203, do lote 02, foi identificado no curral 8 apresentando fratura na pata traseira direita. O bovino encontrava-se em decúbito e impossibilitado de se levantar. A equipe do frigorífico realizou o abate de emergência às 07h46, sob autorização do SIF. Não houve indícios de colisão com estruturas ou acidentes nas instalações, indicando que a lesão ocorreu em momento anterior ou por condições intrínsecas ao animal. 3.1.2. Caso 2: No dia 25/09/2025, um animal do lote 06 foi encontrado deitado no curral 36, incapaz de levantar. Não houve relato de trauma, impacto ou acidente com estruturas. 50 O quadro foi compatível com debilidade locomotora de origem fisiológica ou metabólica. Para evitar sofrimento prolongado, foi realizado o abate de emergência às 09h27, com a devida autorização do SIF. 3.1.3. Caso 3: No dia 30/09/2025, um animal do lote 04 chegou ao frigorífico apresentando uma fratura na paleta esquerda. O bovino desceu da carreta mancando, permaneceu em decúbito no corredor e não conseguiu retomar a estação. Diante do quadro irreversível, foi realizado o abate de emergência às 16h23, com autorização do Serviço de Inspeção Federal (SIF). A lesão não teve relação com o manejo ou com a infraestrutura do frigorífico, sugerindo origem no transporte ou em etapas anteriores. 3.1.4. Caso 4: Em 29/10/2025, um animal foi submetido ao abate de emergência após sofrer fratura na pata dianteira direita. Segundo relato do motorista, o bovino deitou durante o trajeto e foi pisoteado por outro animal dentro da carreta, ocasionando o trauma. À chegada, o animal não conseguia se locomover adequadamente, sendo abatido às 13h36 com autorização do SIF. A causa foi atribuída à dinâmica natural entre os animais durante o transporte, sem envolvimento de falhas estruturais. 4. Discussão O animal relatado no caso 1 foi encontrado no curral com a fratura na pata traseira, sem indícios de que o trauma tenha ocorrido nas instalações. Nesse sentido, a lesão manifestou-se apenas após o descanso do animal no curral, fato que demonstra um aumento na gravidade da fratura após longos períodos de viagem (Alam et al., 2018). Esse tipo de ocorrência reforça a necessidade de monitoramento rigoroso e medidas preventivas, buscando identificar possíveis sinais de lesão traumática, como a claudicação (Baptista et al., 2023). O caso 2 evidencia um quadro de decúbito permanente do animal, no qual ele se deitou e não conseguiu retornar para a posição de estação posteriormente. 51 Situações como essas podem estar associadas a distúrbios metabólicos, exaustão e debilidade orgânica, especialmente após o transporte, uma vez que o estresse gerado durante essa etapa provoca alterações no metabolismo proteico, na glicemia e em outros parâmetros fisiológicos dos animais (Earley; Murray; Prendiville, 2010). Além disso, condições como altas temperaturas, longas distâncias e densidade excessiva no caminhão aumentam a probabilidade dos animais ficarem incapazes de locomoção durante a viagem (González et al, 2012). Nessa mesma perspectiva, a microbiota dos bovinos reflete também os efeitos estressantes do transporte, demonstrando que a função imunológica e metabólica pode ser comprometida (Li et al, 2019). O caso 3 descreve um animal que já chegou a unidade frigorifica com uma fratura pré-existente na paleta, demonstrando dificuldade de locomoção desde o desembarque. Fraturas como essas geralmente estão relacionadas a acidentes que antecedem o transporte, e podem se agravar durante a viagem ou no próprio percurso, tendo em vista as situações de instabilidade e sobrecarga do caminhão no decorrer da viagem (Grandin, 2017). A identificação tardia de problemas locomotores reforça a importância de avaliar criteriosamente os animais antes do embarque, visando detectar aqueles que não estão aptos ao transporte (Silva et al, 2022). Já o caso 4 está associado a uma fratura causada por pisoteio de outros animais durante o transporte, após o animal deitar na carreta. Segundo Buckham- Sporer e Earley (2018), o comportamento social dos bovinos, principalmente quando formam-se grupos mistos, pode levar a empurrões, disputas e desestabilização durante o transporte, aumentando as chances de queda. Além disso, a densidade é outro ponto crítico, haja vista que tanto lotações elevadas quanto reduzidas aumentam o risco de perda de equilíbrio e pisoteio, já que podem restringir ou ampliar o movimento dos animais (Brenneck et al., 2021). Assim, a ocorrência de contusões e quedas esta susceptível a interação entre fatores ambientais, sociais e individuais que influenciam a estabilidade e o comportamento dos bovinos durante o transporte (Diniz et al., 2011). Dessa forma, os casos analisados mostram que muitos dos problemas locomotores identificados no pré-abate resultam de questões fisiológicas, histórico prévio, resposta ao estresse e características comportamentais, ou seja, são inerentes do próprio animal quando chega ao frigorífico (Lee et al., 2017). Diante disso, é 52 imprescindível que as etapas que abrangem a movimentação dos animais sejam acompanhadas e monitoradas de forma contínua, além de incluir a capacitação da equipe envolvida nesse processo, associado as boas condições das instalações (Barbalho, 2007). Logo, a adoção dessas práticas permite a identificação precoce dos animais debilitados, permitindo intervenções rápidas e priorizando o bem-estar no manejo pré-abate. 5. Conclusão Diante dos casos analisados, é possível observar que o estado individual do animal é um fator determinante na ocorrência de problemas locomotores no manejo pré-abate. Considerando que as lesões e debilidades apresentadas originaram-se antes da chegada dos animais ao frigorifico ou resultaram da própria condição fisiológica dos bovinos, demonstrando que fatores intrínsecos ao animal exercem influência na sua locomoção e resposta ao estresse. Dessa forma, reforça-se a importância de uma avaliação criteriosa do estado individual dos animais, desde o embarque na propriedade de origem até o desembarque, permitindo identificar os indivíduos debilitados. Nesse contexto, o abate de emergência representa uma medida fundamental para assegurar o bem-estar dos animais incapacitados, buscando reduzir o sofrimento. 6. Referências ABUBAKAR, Ahmed A. et al. The effects of stocking density and distances on electroencephalographic changes and cortisol as welfare indicators in Brahman crossbred cattle. Animals, v. 11, n. 10, p. 2895, 2021. ALAM, M. et al. Assessment of transport stress on cattle travelling a long distance (≈ 648 km), from Jessore (Indian border) to Chittagong, Bangladesh. Veterinary Record Open, v. 5, n. 1, p. e000248, 2018. ALEME, M.; BEKELE, G. Effect of handling cattle during transport and marketing on quality of beef. J Fisheries Livest Prod, v. 9, 2021. 53 ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE MATO GROSSO (ACRIMAT). 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