UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JULIO DE MESQUITA FILHO” INSTI TUT O DE GEO CI Ê NCI A S E CIÊNCI A S EXATA S Trabalho de Graduação Curso de Graduação em Geografia Rio Claro (SP) 2024 O CRESCIMENTO DO FENÔMENO RELIGIOSO E SUA ESPACIALIZAÇÃO NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA (1962-2024) Lívia de Souza Espindula Orientador: Prof. Dr. José Gilberto de Souza Coorientação: MSc. Bianca Caroline Bortolin UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Instituto de Geociências e Ciências Exatas Campus de Rio Claro LÍVIA DE SOUZA ESPINDULA O CRESCIMENTO DO FENÔMENO RELIGIOSO E SUA ESPACIALIZAÇÃO NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA (1962-2024) Trabalho de Conclusão de Curso sob orientação do Prof. Dr. José Gilberto de Souza e co-orientado por MSc. Bianca Caroline Bortolin, apresentado ao Conselho do Curso de Graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP / Campus de Rio Claro em cumprimento das exigências para obtenção do grau de Licenciatura em Geografia. RIO CLARO – SP 2024 Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Dados fornecidos pelo autor(a). E77c Espindula, Lívia de Souza O crescimento do fenômeno religioso e sua espacialização no município de Limeira (1962-2024) / Lívia de Souza Espindula. -- Rio Claro, 2024 53 f . Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura - Geograf ia) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Rio Claro Orientador: José Gilberto de Souza Coorientadora: Bianca Caroline Bortolin 1. Religião. 2. Fenômeno Religioso. 3. Neopentecostalismo. 4. Polarização. I. Título. LÍVIA DE SOUZA ESPINDULA O CRESCIMENTO DO FENÔMENO RELIGIOSO E SUA ESPACIALIZAÇÃO NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA (1962-2024) Trabalho de Conclusão de Curso sob orientação do Prof. Dr. José Gilberto de Souza e co- orientado por MSc. Bianca Caroline Bortolin, apresentado ao Conselho do Curso de Graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP / Campus de Rio Claro em cumprimento das exigências para obtenção do grau de Licenciatura em Geografia. Comissão Examinadora Prof. Dr. José Gilberto de Souza (orientador) MSc. Bianca Caroline Bortolin (coorientadora) Msc. Delana Cristina Corazzo Prof. Dra. Iara Leme Russo Cury Rio Claro, 29 de novembro de 2024. Assinatura do(a) aluno(a) Assinatura do(a) orientador(a) bianc Carimbo AGRADECIMENTOS A minha mãe, Juliana, o meu mais profundo agradecimento. Você foi minha maior incentivadora e inspiração para que eu continue trilhando meu caminho na Geografia, e principalmente na pesquisa, sempre me orientando e me dando o suporte emocional necessário em todos os momentos dessa jornada. O amor, a paciência e os sacrifícios de vocês são a base de tudo o que conquistei. Aos meus amigos, em especial aos que fiz durante a graduação Lívia, Kaue e José Diogo, que se tornaram parte fundamental dessa caminhada. Cada palavra de incentivo, cada gesto de carinho, foi essencial para que eu seguisse em frente, especialmente nos momentos em que desistir era uma opção. Obrigada por estarem ao meu lado, por acreditarem em mim e por me proporcionarem momentos de leveza durante este processo intenso. Gostaria de expressar minha profunda gratidão ao meu orientador, Professor José Gilberto de Souza, por todo o apoio, paciência e dedicação ao longo de todo o desenvolvimento deste trabalho. Suas orientações precisas e valiosas contribuições acadêmicas foram fundamentais para que eu pudesse evoluir não apenas como estudante, mas também como pesquisadora. Agradeço pela confiança em meu potencial e pela generosidade em compartilhar seus conhecimentos e experiência, sempre me incentivando a buscar a excelência. Agradeço também a minha coorientadora, Bianca Caroline Bortolin, pelo suporte constante e pela colaboração essencial para a realização deste trabalho. Sua atenção aos detalhes e suas sugestões enriquecedoras foram fundamentais para o aprofundamento e a qualidade da pesquisa. Sua orientação foi crucial em momentos decisivos, e sou imensamente grata pela dedicação e empenho em me guiar durante toda essa trajetória. A ambos, meu sincero agradecimento por acreditarem em meu potencial e por contribuírem de forma tão significativa para a realização deste projeto. A todos que, de alguma forma, contribuíram para que esse trabalho se tornasse realidade, meu sincero agradecimento. RESUMO Este trabalho aborda o crescimento do fenômeno religioso e sua espacialização no município de Limeira, no período de 1962 a 2024, com o objetivo de analisar como as práticas religiosas se distribuíram pelo espaço urbano, levando em consideração a evolução do padrão imobiliário e as transformações socioeconômicas da cidade. A pesquisa foca principalmente na identificação das igrejas e sua localização em relação aos bairros de diferentes perfis socioeconômicos, buscando entender se há uma correlação entre a presença das igrejas e as características dessas áreas. Através da análise de dados históricos e da caracterização dos bairros de Limeira, foi possível observar um crescimento significativo das atividades religiosas na cidade, especialmente em áreas que apresentam um padrão de urbanização mais recente. No entanto, a falta de dados específicos sobre a distribuição exata das igrejas nos bairros dificultou uma análise mais aprofundada, limitando a relação direta entre a distribuição religiosa e as variáveis socioeconômicas. Ainda assim, a pesquisa permitiu identificar que, em algumas áreas de Limeira, a presença de igrejas se concentra de maneira mais visível em bairros de classe média e média-baixa, ao passo que em bairros de maior poder aquisitivo, a presença religiosa tende a ser mais restrita ou concentrada em templos de maior porte. As limitações quanto à disponibilidade de dados sobre a quantidade exata de igrejas e suas localizações nos bairros impactaram a profundidade da análise, mas serviram como ponto de partida para uma discussão sobre a importância da religião na formação das comunidades urbanas da cidade. Palavras-chave: Religião; Fenômeno Religioso; Neopentecostalismo; Polarização. ABSTRACT This study addresses the growth of the religious phenomenon and its spatialization in the municipality of Limeira from 1962 to 2024, aiming to analyze how religious practices have distributed across the urban space, considering the evolution of the real estate pattern and the socioeconomic transformations of the city. The research mainly focuses on identifying churches and their location in relation to neighborhoods of different socioeconomic profiles, trying to understand whether there is a correlation between the presence of churches and the characteristics of these areas. Through the analysis of historical data and the characterization of Limeira's neighborhoods, it was possible to observe a significant growth in religious activities, especially in areas with more recent urbanization patterns. However, the lack of specific data on the exact distribution of churches in neighborhoods hindered a deeper analysis, limiting the direct correlation between religious distribution and socioeconomic variables. Nevertheless, the research allowed for the identification that, in some areas of Limeira, the presence of churches is more concentrated in middle-class and lower-middle-class neighborhoods, while in higher-income neighborhoods, religious presence tends to be more restricted or concentrated in larger temples. The limitations regarding the availability of data on the exact number and locations of churches in neighborhoods impacted the depth of the analysis, but served as a starting point for a discussion on the role of religion in the formation of urban communities in the city. Key-words: Religion; Religious Phenomenon; Neo-Pentecostalism; Polarization. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 7 OBJETIVOS ..................................................................................................................... 9 Objetivo Geral ............................................................................................................... 9 Objetivos Específicos.................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 - A SEPARAÇÃO ENTRE DIREITA E ESQUERDA ............................. 10 1.1 O surgimento das definições de direita e esquerda ............................................. 10 1.2 APONTAMENTOS DO PENSAMENTO POLÍTICO DA DIREITA E DA ESQUERDA ............................................................................................................... 12 1.2.1 Motivação do voto ...................................................................................... 12 1.2.2 Questão econômica.................................................................................... 12 1.3 A DIREITA, O DEBATE SOCIAL NA EUROPA E O FIM DO ESTADO DO BEM- ESTAR SOCIAL ............................................................................................... 14 1.4 O NEOLIBERALISMO E A DESTITUIÇÃO DO BEM-ESTAR SOCIAL ..... 17 CAPÍTULO 2 - RELIGIÃO E POLÍTICA: REFORMAS, MOVIMENTOS E CONSERVADORISMO ................................................................................................. 20 2.1 A REFORMA DE LUTERO E CALVINO: DESCENTRALIZAÇÃO RELIGIOSA E IMPACTOS POLÍTICOS ........................................................................................ 20 2.2 NEOPENTECOSTALISMO: ECONOMIA, PROSPERIDADE E POLÍTICA CONSERVADORA .................................................................................................... 22 2.3 CATOLICISMO: CATECUMENATO, OPUS DEI E A PRESERVAÇÃO DA TRADIÇÃO ................................................................................................................. 24 2.4 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: UM CONTRAPONTO PROGRESSISTA NA POLÍTICA.................................................................................................................... 25 2.5 RENOVAÇÃO CARISMÁTICA: ESPIRITUALIDADE, MORALIDADE E POLÍTICA.................................................................................................................... 26 2.6 RELIGIÃO, CONSERVADORISMO E DIREITA POLÍTICA: UMA MEDIAÇÃO 27 CAPÍTULO 3 - A PRESENÇA RELIGIOSA NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA – SP ....... 28 3.2 A RELIGIÃO NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA – SP ........................................ 29 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................... 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................................................. 48 7 INTRODUÇÃO O fenômeno religioso exerce uma importância histórica significativa no processo de dominação de determinados grupos sociais, destacando-se como um elemento estruturante tanto em momentos de estabilidade quanto em períodos de crises políticas e econômicas (Aranha, 2005). Essa relevância é percebida desde a colonização do Brasil, quando a religião católica atuava como ferramenta de controle social (Ribeiro, 2002). Até os dias atuais ela influencia fortemente questões sociais, econômicas, políticas e culturais. A religião, enquanto força simbólica e ideológica, serve como justificativa para ações diretas e indiretas na vida dos sujeitos e de grupos, muitas vezes moldando comportamentos e valores sociais (Bernardi; Castilho, 2016). No contexto brasileiro, a diversidade de concepções religiosas e a proliferação de templos refletem a complexidade das condições estruturais da sociedade. Este projeto de pesquisa busca analisar como o fenômeno religioso se manifesta e se espacializa no município de Limeira, interior do estado de São Paulo, ao longo do século XX. A espacialização do fenômeno religioso, especialmente nas periferias urbanas, está relacionada a transformações estruturais da Igreja Católica, que, sendo a matriz da religiosidade brasileira, passou por mudanças significativas em sua doutrina (Ribeiro, 2002). Passado o período de colonização, Independência e início da República, o Brasil continuou com a influência do catolicismo nas esferas sociais e políticas. Durante o século XX, especialmente no período do Golpe Militar de 1964, a Igreja Católica, em grande parte, apoiou o regime militar, justificando esse apoio como uma forma de combater o avanço do comunismo. No entanto, ao final da Ditadura Militar (1964-1982), surgiram movimentos importantes dentro da Igreja, como a Teologia da Libertação, que se comprometeram com as causas sociais e com a luta pelos direitos dos pobres, tendo como um de seus principais líderes Dom Pedro Casaldáliga (Silva, 2016). Ao mesmo tempo, a orientação pentecostal também ganhou força no Brasil. Como afirma Boff (2007), esses processos, tanto o fortalecimento da Teologia da Libertação quanto o crescimento do pentecostalismo, foram impulsionados em grande parte pela reação ao avanço de ideologias 8 progressistas, conforme os debates e orientações estabelecidas na Conferência de Puebla1. Simultaneamente, mudanças no campo político global, marcadas por ondas conservadoras oriundas da Europa e dos Estados Unidos, influenciaram o cenário brasileiro (Nicodemos, 2020). Esses movimentos se fortalecem com a disseminação da doutrina da prosperidade2 e são sustentados pelos princípios neoliberais que promovem competição e individualismo até nos setores religiosos – que no Brasil ganham corpo durante a década de 1990 (Harvey, 2008). Contraditoriamente, os gestores desses grupos religiosos utilizam a doutrina da prosperidade para justificar a exploração e a lógica neoliberal sobre a fé dos fiéis (Nicodemos, 2020). Essas transformações reverberam no campo ideológico, relacionando-se aos processos de representação política, especialmente em períodos eleitorais. No Brasil, a forte presença religiosa na política é evidente na chamada "Bancada da Bíblia", composta por parlamentares ligados a pautas religiosas3. Essa influência manifestase na formulação e veto de leis e projetos e políticas públicas, por exemplo, destacando o papel central da religião na política nacional e local (Dardot; Laval, 2016). O debate ganha corpo durante o Golpe jurídico-parlamentar de 2016 (Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950), que destituiu a Presidenta Dilma Rousseff, colocando Michel Temer no poder – o qual realizou mudanças estruturais importantes, como a Reforma Trabalhista e a PEC Teto de Gastos – e intensificando-se nas eleições presidenciais de 2018, persistindo na sociedade atual (Brasil, 1950). Dessa forma, este trabalho investiga a espacialização dos templos religiosos no município de Limeira/SP, buscando identificar sua quantidade e diversidade, além de discutir a posição e influência das religiões na sociedade. 1 Movimento teológico surgido na América Latina na década de 1960, que busca articular a fé cristã com a luta por justiça social e direitos dos pobres. A Conferência de Puebla (1979), organizada pela Igreja Católica, destacou a opção preferencial pelos pobres como um princípio teológico central. 2 Corrente teológica presente em igrejas neopentecostais, que associa fé religiosa à obtenção de bênçãos materiais, como riqueza e saúde, por meio de contribuições f inanceiras e dedicação espiritual 3 Em anexo, segue a notícia “Frentes parlamentares e bancadas de identidade religiosa no Congresso Nacional: Qual a diferença?” publicada pelo Jornal on-line Religião e poder em julho de 2024, que descreve a atuação da Bancada Evangélica no cenário político brasileiro. https://religiaoepoder.org.br/analise/f rentes-e-bancadas/. https://religiaoepoder.org.br/analise/frentes-e-bancadas/ 9 OBJETIVOS Objetivo Geral Analisar a espacialização dos templos religiosos no município de Limeira/SP e suas relações territoriais e políticas. Objetivos Específicos • Analisar as origens da polarização política • Identificar as origens da divisão e criação das vertentes protestantes dentro do cristianismo • Consolidar e analisar os dados relativos à espacialização de templos religiosos no município de Limeira/SP 10 CAPÍTULO 1 - A SEPARAÇÃO ENTRE DIREITA E ESQUERDA 1.1 O surgimento das definições de direita e esquerda A Revolução Francesa, ocorrida em 1789, foi um marco decisivo na história política e social mundial, cujas ideias de liberdade, igualdade e fraternidade impactaram profundamente as dinâmicas sociais e políticas não apenas na França, mas em todo o mundo. Além de suas repercussões em termos de direitos humanos e na organização social, a Revolução também desempenhou um papel crucial na definição das categorias políticas de direita e esquerda (Júnior, 2021). No final do século XVIII, durante as discussões na Assembleia Nacional Constituinte, as linhas políticas começaram a se desenhar claramente. A Assembleia estava dividida (Figura 1) entre aqueles que defendiam a manutenção da monarquia e a preservação dos privilégios da aristocracia e aqueles que desejavam reformas mais radicais, incluindo limitação do poder real e a promoção de direitos populares. Figura 1. Quadro do parlamento. Fonte: Organizado pela autora. Entre os grupos mais influentes da época, os jacobinos se destacaram como defensores de reformas sociais e políticas radicais, sendo associados à esquerda, enquanto os girondinos, mais moderados, defenderam uma abordagem menos radical, alinhando-se à direita. Já os monarquistas, eram 11 defensores da manutenção da monarquia absoluta, buscando preservar a ordem tradicional e os privilégios da nobreza, alinhados a uma visão conservadora. A partir dessa divisão, a Assembleia se configurou de maneira simbólica e prática como um campo de disputa ideológica, no qual as diferentes visões de sociedade, Estado e direitos sociais se materializavam na organização do espaço físico da assembleia (Bobbio, 1995; Jost et al., 2008; Hobsbawm, 2010). A partir dessa organização, a categorização de direita e esquerda passou a representar, de forma mais ampla, as diferentes posturas políticas sobre temas como igualdade social, poder do governo na economia e direitos individuais. À esquerda, os defensores de uma maior igualdade e de um governo democrático viam a necessidade de um sistema político que garantisse direitos universais, incluindo o direito ao voto para todos os homens, conforme registrado por Júnior (2021). Já à direita, os conservadores, muitos deles alinhados aos interesses da realeza, desejavam preservar a ordem tradicional e o sistema de privilégios, buscando impedir o avanço de uma revolução social que colocasse em risco a estrutura hierárquica existente. Esse embate entre progressistas e conservadores gerou uma dicotomia que perdura até os dias atuais. No século XIX, novas ideologias, como o socialismo, o liberalismo econômico e o nacionalismo, começaram a se consolidar, ampliando a complexidade das divisões políticas entre esquerda e direita. Cada lado passou a englobar diversas correntes e vertentes ideológicas que, embora compartilhassem objetivos centrais, divergiam em suas abordagens quanto à forma de alcançar esses fins (Eatwell, 1992; Freire, 2006). No contexto contemporâneo, as divisões entre esquerda e direita continuam a evoluir, especialmente após o colapso do bloco soviético no final do século XX, que trouxe à tona uma série de questionamentos sobre o futuro do comunismo e do socialismo em face de novas realidades políticas. A ascensão das reformas neoliberais, com suas promessas de liberdade econômica e de redução do papel do Estado, desafiou as concepções tradicionais de políticas sociais e redistributivas. Simultaneamente, discursos como os neomalthusianos e o ambientalismo conservador reforçaram a ideia de responsabilidade individual em meio a processos de austeridade e corte de direitos sociais, gerando uma nova dinâmica ideológica, marcada pela redução de direitos e a centralização do capital (Tarouco; Madeira, 2011). 12 Esses processos, como apontado por Júnior (2021), geraram uma intensificação das desigualdades sociais, enquanto os processos de concentração e centralização do capital ampliaram o poder político e econômico sobre as camadas populares. Esse cenário atual evidencia a continuidade e a mutabilidade das categorias de esquerda e direita, que continuam a ser definidas em grande parte pela interação entre os interesses econômicos, sociais e políticos em constante transformação. 1.2 APONTAMENTOS DO PENSAMENTO POLÍTICO DA DIREITA E DA ESQUERDA 1.2.1 Motivação do voto A posição de classe dos sujeitos perpassa pelo ato de votar, teoricamente com tendência a que os setores de baixa renda se decidam pelos partidos de esquerda e os de renda superior, pelos de direita. Uma possível explicação para este comportamento seria o interesse econômico, pois a esquerda se apresenta como um meio para as mudanças sociais e a igualdade, maximizando ganhos sociais, políticos e econômicos dos indivíduos de mais baixa renda (Pereira, 2020). Deste modo, o voto na esquerda responde a uma necessidade dos grupos mais pobres, tais como a segurança de renda, de trabalho satisfatório e de status e reconhecimento social, e que associam a direitos centrais elementares (educação, saúde, seguridade, moradia, alimentação, entre outros). Mesmo que existam diversas nuances e variações dentro desse espectro, dependendo de fatores culturais, econômicos e geográficos, é possível identificar um posicionamento de direita na política quando, geralmente, há referência à uma ideologia que enfatiza a importância da ordem social, do nacionalismo, da tradição e do conservadorismo (Rennó, 2006). Nos princípios fundamentais associados à direita o Conservadorismo é o conceito que melhor expressa suas posições, na qual a direita tende a valorizar a manutenção das tradições e instituições sociais estabelecidas, resistindo a mudanças rápidas ou radicais na sociedade. 1.2.2 Questão econômica Outro tópico que pode ser identificado é o liberalismo econômico, que é 13 uma teoria defensora do livre mercado, mínima intervenção do governo na economia, liberdade individual (meritocracia, acreditando que o sucesso deve ser realizado através do esforço pessoal e da capacidade individual, não por meio de políticas de combate às desigualdades e que busquem a equidade social) e a propriedade privada (Smith, 1983). Além de ser também uma perspectiva ao combate ao socialismo, pois ao contrário da esquerda, este campo político,a esquerda busca reconhecer a função social da propriedade e sua coletivização, bem como dos meios de produção; combate o individualismo e o atomismo social; descontrói o discurso meritocrático diante das diferenças de oportunidades e da trajetória socio-cultural dos indivíduos, entre outras pautas populares. O discurso da direita se centra no self made man, o sucesso pessoal e individual, a ideia de eficiência e custo de oportunidade, e sustenta o discurso na falácia da ineficiência do Estado, quando grande parte dos recursos estão vinculados a estratégias de corrupção e apropriação dos fundos públicos; critica a ausência de inovação, mas reduz os investimentos em ciência e tecnologia; aponta para o desperdício dos recursos, mas não estabelece uma crítica que associe a dívida pública às políticas monetaristas (Smith, 1983). Além da mínima intervenção do governo na economia, a direita defende que as responsabilidades com educação e saúde sejam deveres individuais, não estatais. Isso implica em uma visão de que o Estado deve se concentrar em funções essenciais, enquanto outras áreas podem ser geridas pela iniciativa privada (Harvey, 2008). A questão é: quais questões são essenciais quando todas as dimensões da vida estão privatizadas? Resta apenas a segurança pública, como mecanismo de criminalizar e controlar os movimentos sociais e populares que lutam por igualdade e manutenção dos direitos. Nesse sentido, o que vale como serviço essencial é o monopólio da violência exercido pelo Estado. Ainda no pensamento de Direita há o discurso de valorização da identidade e soberania nacional, defendendo controle rigorosos de imigração e proteção de interesses nacionais, além do fortalecimento da nação, pelo qual se chega a um importante tópico (Harvey, 2008). Esse processo é um estrondoso anacronismo uma vez que de forma diametralmente oposta defende as privatizações e a internacionalização da economia, consolidando os interesses 14 dos países centrais eme detrimento do que chamam de “nação”. De fato o individualismo, sob a ótica de que os sujeitos são responsáveis pela sua individualidade e têm liberdade para seguir seus próprios caminhos e seus próprios méritos, sem intervenção do governo, se colocam como um mantra neoliberal e que justificam a negação de direitos sociais. Argumentam que sem isso, a corrupção e a falta de liberdade levariam a uma dependência do Estado (Harvey, 2008). 1.3 A DIREITA, O DEBATE SOCIAL NA EUROPA E O FIM DO ESTADO DO BEM- ESTAR SOCIAL Em qualquer parte do mundo, há uma vasta gama de posicionamentos políticos que se opõem ao pensamento de direita, manifestando-se de maneiras diversas. A principal forma de oposição ao pensamento conservador vem de grupos progressistas, como sociais-democratas, socialistas e comunistas. Esses grupos geralmente defendem a promoção da igualdade social, políticas de bem- estar mais abrangentes e um maior envolvimento do governo na economia, além de abordarem questões sociais, como direitos das mulheres e imigração. Possuem uma perspectiva mais inclusiva e igualitária, focando em uma distribuição mais justa de recursos e oportunidades (Fiabiane, 1999). Na Europa, destacam-se movimentos sociais e sindicatos que se opõem ao discurso conservador, especialmente em relação a questões como direitos dos imigrantes, racismo e marginalização de grupos trabalhadores4. Esses movimentos podem se organizar em torno de eventos específicos ou em resposta a políticas propostas por partidos de direita5 (Engels, 1845). As organizações não governamentais (ONGs) também desempenham um papel significativo, promovendo os direitos humanos, justiça social e igualdade. Além disso, muitas ONGs atuam diretamente no apoio às populações vulneráveis, organizando protestos, greves e campanhas de conscientização contra cortes em serviços sociais, reformas 4 Sugestão de leitura sobre o assunto: https://jornal.usp.br/radio-usp/discursos- contra-a-imigracao-na-europa-sao-marcados-por-contradicoes/ 5Sugestão de leitura sobre o assunto: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36625173. https://jornal.usp.br/radio-usp/discursos-contra-a-imigracao-na-europa-sao-marcados-por-contradicoes/ https://jornal.usp.br/radio-usp/discursos-contra-a-imigracao-na-europa-sao-marcados-por-contradicoes/ https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36625173 15 trabalhistas e outras políticas prejudiciais aos trabalhadores e aos menos favorecidos. Os movimentos sociais e a atuação das ONGs frequentemente se contrapunham às políticas de direita, especialmente aquelas que são vistas como prejudiciais aos direitos dos cidadãos e ao bem-estar social. Segundo estudos sobre o tema, como no capítulo "Oposição a Políticas Antirracistas na Europa: Fatores Individuais e Socioestruturais" (2008) o pensamento de ameaça simbólica, que decorre da percepção de diferenças culturais entre as maiorias e minorias em relação a valores e atitudes, tem gerado um efeito positivo na mobilização contra políticas discriminatórias (Jost et al., 2008). O conceito de bem-estar social surgiu no final do século XIX e início do séculoXX, como resposta às precárias condições de vida geradas pela Revolução Industrial, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Durante este período, o crescimento das indústrias e a urbanização impuseram condições de trabalho extremamente precárias, com baixos salários, jornadas longas e condições insalubres. As organizações sindicais foram fundamentais para a conscientização dos trabalhadores sobre a necessidade de uma intervenção social para garantir melhores condições de vida (Engels, 1845). Nesse contexto, pensadores como Karl Marx e Friedrich Engels, em obras como O Capital (1985), contribuíram significativamente para a construção do pensamento sobre justiça social, desigualdade econômica e as responsabilidades do Estado em garantir proteção social. A Grande Depressão de 1929 foi outro fator crucial que impulsionou a adoção de políticas intervencionistas em diversos países. A crise global evidenciou as falhas das políticas econômicas existentes em lidar com as desigualdades e inseguranças sociais. Foi nesse cenário que muitos países passaram a investir em sistemas de bem estar social mais robustos, com políticas de saúde, educação e assistência social, visando proteger a população dos impactos econômicos adversos e conter o crescimento de movimentos socialistas e comunistas. A intervenção do Estado foi vista como uma forma de garantir a estabilidade social e evitar o fortalecimento de organizações radicais (Hobsbawm, 2010). No Brasil, embora não se tenha desenvolvido um estado de bem-estar social no modelo europeu, houve um processo de desenvolvimento que resultou em estratégias distributivas a partir da promulgação da Constituição Brasileira 16 de 1988, conhecida como a Constituição Cidadã. O artigo 193 dessa Constituição estabelece que a ordem social tem como base o primado do trabalho e como objetivos o bemestar e a justiça sociais (Brasil, 1988). Esses princípios se manifestam em várias políticas públicas, como mostra a Quadro 1. Quadro 1. Direitos Sociais e Políticas Públicas Garantidos pela Constituição Brasileira de 1988 e pela Lei nº 10.257 de 2001. ÁREA DIREITO/POLÍTICA REFERÊNCIA LEGAL Seguridade Social Programas de assistência financeira para idosos, deficientes, desempregados e famílias de baixa renda. Art. 194 da Constituição Brasileira (Brasil, 1988) Saúde Pública Garantia do acesso universal e gratuito à saúde, com o SUS6, incluindo serviços de saúde, vacinação e prevenção de doenças. Art. 196 da Constituição Brasileira (Brasil, 1988). Educação Educação básica obrigatória e gratuita, com políticas de inclusão no ensino superior e educação continuada. Art. 205 da Constituição Brasileira (Brasil, 1988). Habitação Garantia do direito à moradia com políticas para urbanismo inclusivo e erradicação da pobreza Habitacional. Art. 6º da Constituição Brasileira (Brasil, 1988) e Lei nº 10.257 de 2001 (Estatuto da Cidade). Fonte: Organizado pela autora. Além disso, o Estado brasileiro também investe em políticas para garantir o emprego e a renda, com foco na criação de empregos e na proteção dos direitos dos trabalhadores, além de oferecer suporte aos desempregados por meio de programas de qualificação e assistência. Essas medidas visam reduzir 6 O Sistema Único de Saúde (SUS) foi instituído pela Constituição Federal de 1988 e regulamentado pelas Leis nº 8.080/1990 e nº 8.142/1990, como uma resposta à necessidade de democratizar o acesso à saúde no Brasil. Sua criação foi impulsionada pelo Movimento da Reforma Sanitária, que defendia a saúde como um direito de todos e um dever do Estado 17 as desigualdades sociais e promover a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, em uma tentativa de garantir uma sociedade mais justa e igualitária. O conceito de bem-estar social (Engels, 1895), visa garantir condições dignas de vida a todos os cidadãos, promovendo a igualdade de oportunidades e reduzindo as desigualdades. Isso é feito por meio de políticas públicas que garantem o acesso a serviços essenciais como saúde, educação, moradia e seguridade social, com o objetivo de criar uma sociedade mais inclusiva e equitativa. 1.4 O NEOLIBERALISMO E A DESTITUIÇÃO DO BEM-ESTAR SOCIAL O processo de destituição do bem-estar social, caracterizado pela redução ou eliminação de programas e políticas de assistência, é frequentemente articulado sob a lógica da doutrina neoliberal. Segundo Dardot e Laval (2016), o neoliberalismo se configura como um "modo de governança" que ultrapassa o campo estritamente econômico, permeando as práticas políticas, sociais e culturais, ao instaurar o mercado como princípio regulador das relações sociais. As políticas neoliberais, embora fundamentadas em uma visão de economia política, tendem a se apresentar como questões meramente técnicas, relacionadas à administração do orçamento público, às contas nacionais ou à política monetária. Entretanto, tais abordagens obscurecem projetos mais amplos de sociedade e visão social de mundo. A destruição das políticas públicas de bem-estar social frequentemente é disfarçada como um ajuste técnico ou um esforço de austeridade fiscal, enquanto promove uma reconfiguração substancial das relações de poder e da estrutura de redistribuição social (Anderson, 1995). Um dos métodos mais comuns de desmonte do bem-estar social é a redução orçamentária. Governos, sob a lógica da austeridade, cortam investimentos em áreas como saúde, educação, habitação e assistência social, alegando limitações fiscais. Esses cortes impactam diretamente a oferta e a qualidade dos serviços, deixando milhões de pessoas sem acesso a recursos básicos. A austeridade, como destaca Harvey (2008), não apenas redistribui a riqueza para os estratos mais altos da sociedade, mas também fortalece o 18 controle das elites sobre os recursos públicos. Outro mecanismo amplamente utilizado é a reforma legislativa. Por meio de alterações legais, governos podem endurecer os critérios para elegibilidade aos programas sociais, reduzir os benefícios oferecidos ou transferir a responsabilidade desses serviços para o setor privado ou organizações não governamentais (ONGs). Esse processo é frequentemente apresentado como um esforço de modernização ou eficiência, mas, na prática, representa uma retração da responsabilidade estatal na proteção social (Anderson, 1995). A desregulamentação também desempenha um papel crucial no enfraquecimento do bem-estar social. A flexibilização das leis trabalhistas, por exemplo, pode reduzir custos para empregadores, mas também diminui a segurança econômica dos trabalhadores e enfraquece os direitos sociais conquistados ao longo de décadas. Nesse sentido, Harvey (2008) aponta que a desregulamentação é uma estratégia neoliberal para priorizar os interesses do capital em detrimento do trabalho, aumentando as desigualdades sociais. Um dos aspectos mais emblemáticos do desmonte do bem-estar social é a privatização de serviços públicos. Educação, saúde, previdência e outros serviços essenciais têm sido transferidos para o setor privado, o que frequentemente resulta em aumento de custos, redução da qualidade e restrição do acesso aos mais vulneráveis. A privatização, segundo Laval e Dardot (2016), não apenas transforma direitos sociais em mercadorias, mas também redefine o papel do Estado, que passa de provedor para regulador das iniciativas privadas. Essas políticas de desmonte têm consequências severas para as populações mais vulneráveis. A redução do bem-estar social implica um aumento da desigualdade, da pobreza e da precarização das condições de vida. Além disso, o esvaziamento das políticas sociais enfraquece a capacidade dos cidadãos de se organizar e resistir, consolidando ainda mais o poder das elites econômicas. 1.5 OS REFLEXOS DO NEOLIBERALISMO NO BRASIL O Brasil é historicamente marcado por desigualdades sociais e econômicas profundas, o que torna as políticas de bem-estar social fundamentais para mitigar essas disparidades e garantir assistência aos mais vulneráveis. Essas políticas têm desempenhado um papel essencial no enfrentamento das desigualdades, promovendo acesso a serviços básicos como 19 saúde, educação, habitação e assistência social. Contudo, a redução ou destituição do bem-estar social pode agravar essas desigualdades, ampliando a pobreza, a exclusão social e a vulnerabilidade de milhões de brasileiros. Como afirma Laval e Dardot (2016): O desmantelamento progressivo dos serviços públicos e das políticas sociais, promovido sob a égide do neoliberalismo, exacerba as desigualdades e gera uma precarização generalizada, levando a uma fragmentação do tecido social e ao aumento dos conflitos sociais (Laval; Dardot, 2016, p. 238). O debate em torno dessas questões no Brasil frequentemente polariza as discussões políticas. Enquanto setores progressistas defendem a ampliação dos programas sociais como ferramentas de promoção da justiça social, os setores mais alinhados ao liberalismo econômico argumentam que o papel do Estado deve ser reduzido, priorizando iniciativas do mercado e limitando intervenções governamentais na economia. Essa tensão ideológica frequentemente oculta o impacto das políticas neoliberais, que muitas vezes são implementadas sob o discurso de "ajuste fiscal", mas resultam em cortes significativos nos direitos sociais e trabalhistas (Anderson, 1995). A influência do conservadorismo social no Brasil também contribui para esse cenário, especialmente com a ascensão de partidos e movimentos políticos que se alinham à direita. Essas pautas conservadoras, vinculadas aos costumes e à tradição, frequentemente priorizam valores como a família nuclear, os papéis de gênero tradicionais e uma moralidade influenciada pela religiosidade. Ao enfatizar essas questões, temas como a redução de direitos trabalhistas, cortes em programas sociais e privatizações são implementados sem amplo debate público, sendo percebidos apenas após o impacto direto, como o fechamento de escolas, hospitais e programas assistenciais (Laval; Dardot, 2016, p. 238). Segundo Gohn (2008), o conservadorismo social no Brasil é caracterizado por valores que enfatizam a manutenção de estruturas hierárquicas e de papéis sociais fixos, frequentemente vinculados à ideia de meritocracia e ao respeito às tradições religiosas e culturais. Essa narrativa é fortalecida por setores políticos que, ao promoverem políticas neoliberais, associam a eficiência econômica ao desmantelamento de políticas públicas, mascarando os reais objetivos de contenção fiscal e redistribuição de poder econômico. 20 CAPÍTULO 2 - RELIGIÃO E POLÍTICA: REFORMAS, MOVIMENTOS E CONSERVADORISMO A relação entre religião e política é um fenômeno complexo e intrínseco à formação da sociedade moderna. Historicamente, diversas correntes religiosas desempenharam papéis fundamentais na configuração de movimentos políticos, desde as Reformas Protestantes de Lutero e Calvino até os movimentos mais recentes como o neopentecostalismo. Neste capítulo, serão apresentados cinco importantes fenômenos religiosos — a Reforma Protestante de Lutero e Calvino, o Catolicismo (com foco no catecumenato e no Opus Dei), a Teologia da Libertação, a Renovação Carismática —, analisando como essas correntes se relacionam com o pensamento político contemporâneo, em especial com as ideologias da Direita e do conservadorismo, e por fim o Neopentecostalismo. 2.1 A REFORMA DE LUTERO E CALVINO: DESCENTRALIZAÇÃO RELIGIOSA E IMPACTOS POLÍTICOS A Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero em 1517 e posteriormente expandida por João Calvino, representou uma ruptura profunda com a Igreja Católica, desafiando a centralização do poder eclesiástico e promovendo a ideia de que cada indivíduo poderia interpretar a Bíblia de forma independente. Lutero, ao expor suas 95 teses, criticou, por exemplo, a venda de indulgências e a corrupção dentro da Igreja Católica, defendendo que a salvação do Homem seria alcançada pela fé, e não por obras ou intermediação da Igreja, desencadeando a Reforma Protestante. Lutero, não buscava a ruptura com a Igreja Católica, mas todos seus apontamentos rapidamente mobilizou nobres que viam na reforma uma oportunidade para diminuir a influência papal e aumentar sua autonomia política e econômica (Mcgrath, 2012). O pensamento de Lutero e Calvino trouxe consigo uma nova visão sobre a autoridade religiosa, tendo desdobramentos e repercussões na organização política da época, principalmente no continente Europeu. A ideia de uma interpretação pessoal das Escrituras permitiu a construção dos ideais de autonomia e liberdade individual - pilares fundamentais para o pensamento político liberal. A partir da Reforma, diversos estados europeus começaram a adotar, por exemplo, posições mais descentralizadas e menos dependentes da 21 autoridade papal; o que também impactou a formação de governos mais próximos aos princípios da soberania popular (González, 2012). Mesmo não havendo uma crise econômica significativamente documentada, esse período foi marcado por diversas transformações sociais e econômicas na Europa, a transição do feudalismo para uma nova economia mais capitalista estava acontecendo, o que trouxe incertezas econômicas que influenciaram no dinamismo da época. Dessa forma, a população ficou insatisfeita e viam como uma injustiça o poder e a riqueza que a Igreja Católica possuía, além dos altos impostos, condenação de usura, numerosas propriedades e a imposição do dízimo, principalmente sobre os camponeses e burgueses, já que suas próprias condições de vida eram precárias. Esse descontentamento da população ajudou a a aumentar o apoio de Lutero (Rosa, 2016). Em 1520, Lutero publicou "À nobreza cristã da Nação Alemã acerca do melhoramento do estado cristão", sua primeira obra política, onde exigia reformas estruturais, tanto religiosas quanto sociais, propondo a abolição de impostos, melhoria no sistema de ensino e soluções para a mendicância, destacando a necessidade de mudanças estruturais (Lutero, 1989). No livro, o autor argumenta que o Estado possui responsabilidades próprias, e deveria operar de forma independente da Igreja, criticava a confusão que acontecia com a mescla dessas esferas, que poderiam levar a um regime teocrático, considerado contrário ao evangelho (Lutero, 1989). Entretanto, Lutero não enfatizava que a política permeia por todos os aspectos da vida e que a Igreja só deve se envolver em questões políticas uma vez que Deus é Senhor de toda a criação e exige justiça e bem-estar social. A confissão luterana rejeita a ideia de uma atuação apolítica, afirmando que a Igreja deve lembrar às autoridades políticas de sua responsabilidade moral. Assim, é fundamental que as esferas política e religiosa permaneçam distintas, mas inter-relacionadas, com o Estado promovendo a justiça e a Igreja proclamando o evangelho (Rosa, 2016). João Calvino, teólogo francês do século XVI, é conhecido pelo Calvinismo, que enfatiza a predestinação — crença de que Deus já determinou quem será salvo e quem será condenado — valorizava a o trabalho e os bons costumes, promovendo a ideia de que aceitar o status social era uma forma de 22 devoção a deus (Rocha, 2001). A ética Calvinista, desafiou as restrições católicas sobre o comércio, permitindo maior liberdade econômica, além disso enxergava o trabalho como uma vocação divina, o que incentivou a burguesia a busca por sucesso econômico como sinal de bênção divina. Max Weber argumentou que essa mentalidade “ética protestante” influenciou para o desenvolvimento do capitalismo, além de prosperar o espírito competitivo e aquisitivo (Ferreira, 2011). Os desdobramentos políticos do calvinismo na França foram significativos, especialmente através do crescimento do movimento huguenote — movimento político e religioso dos protestantes calvinistas que se opunham ao catolicismo, buscavam autonomia e reconhecimento — diversas igrejas calvinistas surgiram, provocando uma enorme tensão ao governo Francês, resultando em diversas perseguições e guerras religiosas (Ferreira, 2011). Essa doutrina influenciou a política ao promover ideias a resistência ao poder tirânico, contribuindo para debates sobre direitos civis e a relação entre Estado e igreja, que posteriormente seguiram para toda a Europa. O conservadorismo, por sua vez, resiste à radicalização dessas ideias de autonomia, preferindo a manutenção de uma hierarquia tradicional e da moral cristã como base do governo e da sociedade. Enquanto o liberalismo econômico, muitas vezes associado à direita política, defende a liberdade individual e a livre iniciativa, o conservadorismo social busca a preservação de valores morais oriundos da tradição cristã, que têm raízes no pensamento reformador de Lutero e Calvino. 2.2 NEOPENTECOSTALISMO: ECONOMIA, PROSPERIDADE E POLÍTICA CONSERVADORA O pentecostalismo é um movimento religioso dentro do cristianismo que valoriza a experiência direta com o Espírito Santo, incluindo manifestações como falar em línguas, curas e libertação espiritual. Surgido no início do século XX, o movimento se caracteriza por uma abordagem carismática e emocional da fé. Uma vertente mais recente, o pentecostalismo autônomo, destaca-se por sua independência de hierarquias tradicionais e por integrar religião e política em novas formas (Mariano, 1999). Já o neopentecostalismo, considerado uma evolução moderna do 23 pentecostalismo, emergiu no Brasil nas últimas décadas do século XX, estando associado a igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Internacional da Graça de Deus. Este movimento introduziu a teologia da prosperidade, que prega que a fé e contribuições financeiras feitas à igreja resultam em prosperidade material para os fiéis. Segundo Mariano (1999), essa doutrina tem forte apelo para aqueles que enfrentam dificuldades econômicas, prometendo soluções práticas e espirituais. O impacto político do neopentecostalismo no Brasil é significativo. Líderes religiosos neopentecostais têm ocupado espaços de poder, promovendo uma pauta conservadora que defende a "família tradicional" e é contrária à descriminalização do aborto e outras pautas progressistas. Como destaca Freston (1994), a articulação política desse movimento tem sido determinante na conformação de uma agenda conservadora em diversas esferas. Conforme a BBC News (2023)7, a expansão dos templos evangélicos no Brasil foi acelerada a partir dos anos 2000. O número de templos cresceu de 17.033 em 1990 para 109.560 em 2019, representando um aumento de 543%. Esse crescimento ilustra a diversificação do protestantismo brasileiro, com o neopentecostalismo se destacando como a vertente que mais atrai novos adeptos. O impacto do neopentecostalismo ultrapassa a esfera religiosa, influenciando política, cultura e sociedade. As igrejas neopentecostais, ao romperem com práticas ascéticas do pentecostalismo clássico, adotaram uma abordagem mais contemporânea, com forte presença na mídia e maior integração à sociedade moderna. Essa postura também se reflete em sua relação com o mercado, aproximando-se de correntes liberais e defendendo a meritocracia e a livre iniciativa econômica (Mariano, 1999). Além disso, o movimento fornece uma base teológica e ideológica para o populismo reacionário, legitimando uma visão de cidadania centrada na religiosidade. Isso foi evidente nas eleições de 2018, quando a mobilização de 7 Pesquisa disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgl7x0e0lmo#:~:text=Uma%20faceta%20desta%20ex pans%C3%A3o%20do,Um%20aumento%20de%20543%25 . https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgl7x0e0lmo#%3A~%3Atext%3DUma%20faceta%20desta%20expans%C3%A3o%20do%2CUm%20aumento%20de%20543%25 https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgl7x0e0lmo#%3A~%3Atext%3DUma%20faceta%20desta%20expans%C3%A3o%20do%2CUm%20aumento%20de%20543%25 24 evangélicos foi crucial para a vitória de Jair Bolsonaro (Reis, 2019). O engajamento político dos neopentecostais reflete-se em slogans como "irmão vota em irmão", simbolizando a nova postura política dessas comunidades. A teologia da prosperidade é um dos pilares do movimento, atraindo fiéis em busca de soluções financeiras e sociais. Outro aspecto central é a crença na "guerra espiritual", na qual os crentes são encorajados a lutar contra forças malignas por meio de orações e ações espirituais, promovendo mudanças em suas vidas e comunidades. 2.3 CATOLICISMO: CATECUMENATO, OPUS DEI E A PRESERVAÇÃO DA TRADIÇÃO Dentro da tradição católica, o catecumenato e o Opus Dei representam duas instituições que refletem uma visão conservadora e hierárquica da fé e da sociedade. O catecumenato é uma prática destinada à preparação de adultos para o batismo, destacando a importância de uma formação sólida antes da integração plena na comunidade cristã (Mejía, 1993). Ele promove o amadurecimento da fé inicial em um compromisso mais profundo e consciente, estruturado em fases pedagógicas que incluem ritos e celebrações. Essas etapas conectam os catecúmenos à comunidade cristã e à liturgia, culminando na recepção dos sacramentos de iniciação: Batismo, Confirmação e Eucaristia. Historicamente, o catecumenato teve início na Igreja Primitiva, após o primeiro anúncio (querigma). A partir da segunda metade do século II, tornou-se um processo mais elaborado, com etapas de instrução conduzidas por mestres ou catequistas. Após avaliações e escrutínios, os candidatos eram batizados durante a Vigília Pascal, também recebendo a Crisma e a Eucaristia, marcando simbolicamente o renascimento espiritual (CNBB, s/d).Esse itinerário formativo permanece significativo, reafirmando o compromisso batismal dos fiéis e preservando os valores e a tradição da Igreja. O Opus Dei (Obra de Deus, em latim), por sua vez, é uma prelazia pessoal fundada em 1928 por São Josemaría Escrivá. Sua missão é promover a santificação do trabalho e a disseminação dos valores cristãos na vida cotidiana, especialmente nos ambientes sociais e econômicos. O Opus Dei enfatiza a chamada universal à santidade, defendendo que todas as atividades humanas podem ser um caminho para a vivência da fé. A organização possui forte 25 influência em setores conservadores da sociedade e da política, difundindo valores como hierarquia, disciplina e obediência, além de atuar como uma defesa das tradições da Igreja Católica frente às mudanças contemporâneas (Andrews, 1996). Ambas as instituições desempenham papéis complementares na preservação da tradição católica. Enquanto o catecumenato se concentra na formação espiritual inicial e no fortalecimento da comunidade cristã, o Opus Dei promove a vivência da fé na esfera cotidiana, especialmente no trabalho (Andrews, 1996). Em conjunto, essas práticas ajudam a perpetuar os ensinamentos cristãos e os valores conservadores da Igreja, resistindo a reformas progressistas e mantendo uma estrutura social hierarquizada e tradicional. Além disso, seus posicionamentos frequentemente se alinham a pautas políticas conservadoras, como a oposição aos direitos LGBTQIA+ e a defesa de uma moralidade cristã rígida, garantindo que os valores centrais do cristianismo sejam transmitidos às novas gerações. 2.4 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: UM CONTRAPONTO PROGRESSISTA NA POLÍTICA A Teologia da Libertação foi desenvolvida, principalmente, na América Latina durante a década de 1970, por teólogos como Leonardo Boff (1984) e Gustavo Gutiérrez (1972). É um movimento teológico que se posiciona como uma crítica às estruturas sociais e políticas que perpetuam a desigualdade e a pobreza. Diferentemente dos movimentos anteriores, a Teologia da Libertação se alinha mais com as ideologias de esquerda, defendendo que o papel da Igreja é estar ao lado dos pobres e oprimidos, promovendo mudanças sociais profundas (Boff, 1984). Esse movimento religioso, que emergiu em um contexto de ditaduras militares na América Latina, propunha uma análise crítica da realidade social e defendia a luta dos pobre contra a injustiça, alinhando-se com movimentos sociais e políticos, além de criticar o modelo capitalista que, segundo seus teólogos, explorava os pobres e perpetuar desigualdades. Em termos políticos, a Teologia da Libertação propõe uma intervenção ativa na sociedade, promovendo reformas que levem a uma distribuição mais justa dos recursos e à emancipação dos marginalizados (Gutiérrez, 1972). 26 Os religiosos que adotaram essa teologia enfrentaram perseguições, sendo vistos como subversivos, mas também se tornaram vozes importantes na resistência contra a ditadura e na promoção da justiça social. A Teologia da Libertação incentivou a formação de comunidades Eclesiais de base, que se tornaram espaços de resistência e organização popular contra a opressão militar, além disso diversos religiosas usavam suas plataformas para denunciar abusos de direitos humanos, torturas e injustiças cometidas pelo regime (Gutiérrez, 1972). Em oposição a esse movimento, a direita e o conservadorismo criticaram a teologia da libertação por seu alinhamento com o marxismo e por sua defesa de uma "Igreja militante", considerada uma ameaça à ordem social e aos valores tradicionais. Ao longo das décadas, houve um enfraquecimento oficial dessa vertente dentro da Igreja Católica, mas seus princípios. Pedro Casaldáliga (1928- 2020) foi um bispo católico e teólogo espanhol, conhecido por seu ativismo em defesa dos direitos humanos e dos pobres no Brasil. Ele se destacou como uma figura central da Teologia da Libertação, promovendo a justiça social e a luta contra a opressão. Casaldáliga viveu em São Félix do Araguaia, onde se envolveu em questões agrárias e ambientais, tornando-se um símbolo de resistência e esperança para muitos. continuam a influenciar movimentos sociais de base. 2.5 RENOVAÇÃO CARISMÁTICA: ESPIRITUALIDADE, MORALIDADE E POLÍTICA A Renovação Carismática é um movimento dentro do catolicismo que surgiu na década de 1960 e enfatiza o papel do Espírito Santo, os dons espirituais e uma espiritualidade mais vívida e intensa. Este movimento teve uma enorme expansão em países como o Brasil, trazendo consigo uma renovação do fervor religioso e um enfoque em valores conservadores, como a defesa da família e da moralidade cristã (Martins, 1994). Politicamente, a renovação carismática se alinha frequentemente a movimentos de direita, promovendo uma visão tradicional da moralidade pública e da organização familiar. Esse movimento é muitas vezes visto como uma resposta às mudanças culturais dos anos 1960 e 1970, incluindo o surgimento de movimentos feministas, LGBTQIA+ e de contestação às normas sociais 27 estabelecidas. Na política, seus líderes e seguidores frequentemente advogam por políticas que reforcem os valores tradicionais e cristãos na sociedade, combatendo o secularismo e o relativismo moral (Rocha, 2002). 2.6 RELIGIÃO, CONSERVADORISMO E DIREITA POLÍTICA: UMA MEDIAÇÃO A interação entre religião e política no Brasil – espelho do que ocorre no mundo – tem contribuído fortemente para o crescimento de movimentos conservadores e de direita. A Reforma Protestante trouxe consigo ideias de autonomia e responsabilidade individual, que, apesar de se desdobrar em diversos contextos históricos, ainda influenciam correntes políticas que valorizam a liberdade econômica e a ordem social. Por outro lado, o Neopentecostalismo e a Renovação Carismática representam expressões modernas de religiosidade que contribuem para a difusão de ideais conservadores, especialmente em questões de moralidade pública (Mcgrath, 2012). O Catolicismo, especialmente por meio do catecumenato e do Opus Dei, permanece como um bastião de valores tradicionais, lutando contra mudanças sociais que ameaçam a estrutura familiar e a ordem estabelecida (Andrews, 1996). A Teologia da Libertação, embora marginalizada em contextos conservadores, oferece uma crítica radical a essas estruturas, propondo uma visão de sociedade mais justa e equitativa (Gutiérrez, 1972). Esses movimentos, dentre suas divergências, contribuem para uma narrativa que busca mediar a relação entre a fé e a política, mostrando que o conservadorismo religioso e a direita política estão intrinsecamente ligados na defesa de uma sociedade que preserva suas tradições e hierarquias. 28 CAPÍTULO 3 - A PRESENÇA RELIGIOSA NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA – SP 3.1 CARACTERIZAÇÃO DO MUNICÍPIO Localizado no interior do estado de São Paulo (Figura 2), o município de Limeira possui uma população de 291.869 pessoas (IBGE, 2024) e um território de 580 km² (IBGE, 2024). Seu Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHm) é de 0,775, valor considerado mediano quando comparado a municípios europeus, por exemplo. O IDHm, de acordo com o IBGE, é composto pelos indicadores de educação, saúde e bem-estar (IBGE, 2024); sendo, portanto, um índice passível de ser encontrado em países que alinham suas políticas econômicas às do Banco Mundial, FMI e empresas privadas. Os trabalhadores formais recebem uma média de 2,8 salários-mínimos por mês, sendo apenas 39,38% da população ocupada (IBGE, 2024). Da população total de 6 a 14 anos, 97,7% é alfabetizada. Em relação ao meio ambiente, o município de Limeira se caracteriza pela geomorfologia de relevo plano e ondulado, ao lado da Depressão Periférica Paulista, seguida pelo relevo cuestforme (REF Ab' Saber); e pertence ao bioma Mata Atlântica. Dada sua localização, Limeira é privilegiada pela presença das rodovias Anhanguera (SP-330), Washington Luís (SP-310) e Bandeirantes (SP- 348) – principais eixos rodoviários que ligam o interior do estado de São Paulo à capital e ao litoral –, além da própria proximidade com outros municípios importantes do interior, como Piracicaba, São Carlos e Ribeirão Preto. Na hierarquia urbana, o município de Limeira ocupa a classificação de Capital Regional C (2C) (IBGE, 2024). A produção de cana-de-açúcar é o carro-chefe no setor agrícola, sendo os dados do Censo Agrícola de 2017 apontando uma produção de 578.524 toneladas de cana-de-açúcar (IBGE, 2017). Historicamente, no entanto, Limeira teve um longo período em que a produção de laranjas foi considerada a mais importante da região. 29 Figura 2. Mapa do município de Limeira – SP Fonte: Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). 3.2 A RELIGIÃO NO MUNICÍPIO DE LIMEIRA – SP A análise sobre a questão religiosa no município de Limeira é fundamental para compreender as diversas práticas de fé presentes em sua população. Com base nos dados do Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), podemos observar a distribuição das religiões praticadas pela população limeirense. A população total do município é de 267.804 pessoas, e a tabela abaixo apresenta a quantidade de declarantes por religião, permitindo uma visão geral da diversidade religiosa presente no município. 30 Tabela 1. Número de declarantes por religião no município de Limeira – SP. RELIGIÃO Nº DECLARANTES PARTI.(%) Católica Apostólica Romana Evangélica Pentecostal Evangélica não determinada Sem religião (ateu ou agnóstico) Espírita Testemunha de Jeová Igreja Evangélica Missionária Não determinada e múltiplo pertencimento Outras religiosidades cristãs Igreja Messiânica Mundial Budismo Judaísmo Católica Apostólica Brasileira Candomblé Catóolica Ortodoxa Tradições Esotéricas Umbanda Outras religiões orientais Hinduísmo Islamismo 159.713 59.834 16.252 16.205 4.796 3.676 9.261 2.228 2.217 392 350 66 154 38 49 41 187 19 9 9 59,6 22,3 6,1 6 1,8 1,4 3,5 0,8 0,8 0,1 0,1 0,02 0,1 0,01 0,02 0,02 0,07 0,007 0,003 0,003 TOTAL 267.804 100 Fonte: Adaptado de IBGE (2010). Os dados apresentados na Tabela 1 mostram que, no ano de 2010 (dados disponibilizados pelo Censo), há uma predominância de fiéis à religião católica, contabilizando um total de 159.713 declarantes, seguido pela religião evangélica, com um total de 85.374 pessoas. Enquanto as demais religiões somadas, excluindo os não religiosos, possuem um total de 14.470 seguidores. Como salientado, uma das questões fundamentais sobre o avanço do conservadorismo 31 político está sustentada na dimensão religiosa. Diante deste fato, procurou -se identificar a espacialização do crescimento do fenômeno religioso no município de Limeira. Figura 3 : Mapa de localização e espacializalçao das Igrejas no municipios de Limeira-SP Fonte: IBGE (2024). Elaborado pela autora. Em contextos de grande urbanização, existe a necessidade de entender como a segregação socioespacial, risco e perigo e vulnerabilidade têm relação para compreender processo de deterioramento de níveis de bem-estar no âmbito sócioambiental, e não apenas econômico, esse fenômeno converge para a capacidade de resposta a situações de risco (HOGAN E MARANDOLA, 2006) A partir disso importante relacionar a falta de infraestrutura e serviços básicos com problemas sociais, como a falta de saneamento basico e a ligação com a incidencia de doenças; a falta de segurança e os altos niveis de criminalidade. (SILVA, 2023). A presença limitada do Estado em areas deficientes em infraestrutura, leva as igrejas a se estabelecerem nessas regiões, oferecendo suporte social e comunitario (ARANHA, 2005). Em um mercado religioso plural, a localização estratégica pode ser um diferencial competitivo, 32 atraindo fiéis que buscam apoio espiritual (MARIANO,2008) Analisando a espacialização e a distribuição das igrejas no municipio de Limeira, é possivel perceber a dominação das igrejas pentecostais e neopentecostais. A espacialização das igrejas dentro de um município ocorre através de várias dinâmicas que refletem a interação entre religião e espaço urbano. As igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais, tendem a se instalar em áreas periféricas e populosas, onde a presença do Estado é limitada. Essa escolha estratégica se deve à alta demanda por apoio social e comunitário nessas regiões (ROCHA,2019). Figura 4: Densidade Populacional do município de Limeira-SP Fonte: Prefeitura de Limeira (2006) 33 As características da espacialização em áreas periféricas incluem a difusão de novos templos que organizam a sociabilidade local, a construção de espaços simbólicos-monumentais, e a apropriação político-ideológica de espaços de representação. Além disso, a morfologia da paisagem é impactada pela presença de igrejas pentecostais, que se estabelecem rapidamente e podem alterar a paisagem urbana precarizada. A territorialidade fugaz dessas igrejas permite mudanças rápidas de localização e uso de imóveis urbanos (ROCHA,2019). Os aspectos que influenciam a escolha da localização das igrejas incluem a precariedade do espaço urbano, que facilita a ocupação de imóveis abandonados ou inadequados, e a flexibilidade organizacional das igrejas pentecostais, que permite uma rápida adaptação ao território (ROCHA,2019). Além disso, a dinâmica econômica e política da cidade, bem como a demanda social por apoio religioso em áreas carentes, também desempenham um papel crucial na definição desses locais. A simbiose entre espaço sagrado e profano, onde templos podem ser estabelecidos em locais não convencionais, como casas e comércios, também é um fator determinante (ROCHA,2019). Outro fator que atrai a construção de templos religiosos, é a concetração populacional, visto que áreas com maior fluxo de pessoas tem mais visibilidade e acessibilidade, atraindo novos fiéis, além disso a demanda de serviços é maior. A presença de uma população densa pode ser a garantia de recursos financeiros para as igrejas, facilitando a manutenção e as atividades (MARIANO, 2008). Na figura 4, é possivel perceber diversas áreas com uma alta concentração demografica, e diversas delas se localizam distante do centro urbano. O Parque Nossa Senhora das Dores (2 igrejas, sendo 1 neopentecostal); Parque Residencial Belinha Ometto (7 igrejas, sendo 1 pentecostal e 4 neopentecostal); Parque Residencial Aeroporto (3 igrejas, sendo 1 neopentecostal e 1 pentecostal); Jardim Olga Veroni (3 igrejas, sendo todas neopentecostais); Parque Hipolyto (10 igrejas no total, sendo 8 neopentecostais e 1 pentecostal) e Jardim Canaã (1 igreja sendo ela neopecostal), são os bairros que apresentam mais de 180 hab/km2 e são considerados com vunerabilidade social e falta de infraestrutura, todos os bairros possuem a predominancia de igrejas neopentecostais em seus limites, comprovando a preferencia de construção de igrejas em áreas mais carentes de assitencia do Estado e com 34 maior concetração populacional (MAGOSSO, s/d) Figura 5: Expansão Urbana em Limeira/SP Fonte: Prefeitura de Limeira (2006). A expansão urbana em Limeira foi acelerada a partir da década de 1970, impulsionada pela especulação imobiliária, resultando em uma ocupação descontínua e fragmentada do tecido urbano. Essa expansão gerou grandes vazios urbanos, aumentando os custos para o poder público em infraestrutura e dificultando o acesso da população pobre a serviços essenciais. O crescimento 35 desordenado trouxe desafios técnicos e financeiros, levando à suspensão da aprovação de novos loteamentos em 1982 (AZEVEDO, 2013) É possível associar a região central, que cresce até meados de 1938, com 17 igrejas no total, sendo 6 católica e 7 presbiteriana. A concetração de dioceses em relação à outros bairros, pode ser explicado pela história de colonização e evangelização, onde a Igreja Católica estabeleceu sua presença em regiões já habitadas. Além disso, a construção de igrejas em locais centrais visava facilitar o acesso da população aos serviços religiosos e fortalecer a influência da Igreja na sociedade. Por fim, a preservação de tradições e a continuidade da prática religiosa em comunidades mais antigas também contribuem para essa concentração (DOS REIS, 2017) Para tanto, solicitou-se junto à Administração Municipal o número de aberturas de templos identificadas como atividade religiosa presentes no cadastro técnico da Prefeitura, que se referem à autorização de localização e funcionamento. Os dados foram sistematizados para análise considerando o ano de abertura e o tipo de manifestação religiosa. Destaca-se que, quando as nomenclaturas (razão social ou nome fantasia das igrejas) não permitiam a identificação da denominação religiosa, optou-se por telefonar diretamente para o estabelecimento para confirmar se a atividade estava regular (funcionamento) e qual direção religiosa assumia ou a qual pertencia. Os gráficos apresentados reúnem, portanto, 8 principais categorias religiosas presentes no município. O layout do diagrama conta com duas linhas: a azul, que indica o número de igrejas abertas por ano, enquanto a linha vermelha representa o total acumulado ao longo do tempo, mostrando a quantidade de unidades de cada vertente e os anos, que podem variar a partir da data de registro. Neste primeiro gráfico (Figura 6) é apresentado o crescimento das igrejas pentecostais na cidade de Limeira, entre os anos de 1962 e 2023, mostrando uma tendência de aumento gradual até a década de 90, e que cresce exponencialmente a partir dos anos 2000. Com a redemocratização e a abertura política, em 1985, as igrejas pentecostais começaram a se expandir mais livremente, nesse contexto é possível observar que em 1998 houve 3 unidades abertas, o máximo atingido até os anos 2000. Esse período ficou marcado pelas severas dificuldades 36 econômicas que toda America Latina passava, causada pela dívida externa dos países que contraíram empréstimos para financiar projetos de desenvolvimento, além do avanço da globalização e do neoliberalismo, que fomentaram as desigualdades sociais, dessa forma,as pessoas sentiam ainda mais apoio para buscar apoio espiritual e esperanças nas igrejas (BRESSER-PEREIRA, 2013). Esses templos religiosos, cresciam rapidamente oferecendo suporte religioso e social em comunidades de baixa renda. Figura 6 - Crescimento da Igreja Pentecostal de 1962 a 2023 em Limeira/SP. Fonte: Adaptado da Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). Os anos de 2000 e 2001, tiveram sequencialmente 5 igrejas abertas por ano no município. Segundo Mariano (2008), entre 1991 e 2000, o número de pentecostais no Brasil saltou de 8,8 milhões para 17,7 milhões, representando um crescimento anual de cerca de 8,3%, esse fenômeno pode ser explicado pela estruturas organizacionais mais eficientes e profissionalizadas que as igrejas pentecostais adotaram, se comportando como empresas em termos de gestão financeira e administrativa. Isso incluiu a arrecadação agressiva de recursos e o uso intensivo dos meios de comunicação para evangelismo (CRUZ,2013) Neste primeiro momento dos anos 2000, as igrejas pentecostais enfrentaram resistência entre a classe média mais escolarizada, que muitas vezes rejeitava o estilo mais tradicional e moralista dessas denominações. No 37 entanto, algumas igrejas começaram a flexibilizar suas exigências comportamentais para atrair esse público (CANCIAN, 2016). A partir do ano de 2013, diversas manifestações conhecidas como "O Gigante Acordou" foram um marco na polarização política brasileira. Inicialmente motivadas por questões sociais e econômicas, essas mobilizações expuseram divisões profundas na sociedade, especialmente em relação ao governo do PT. O movimento atraiu uma variedade de grupos e ideologias, intensificando as tensões políticas e o conservadorismo, que impulsionam ainda mais o crescimento das igrejas pentecostais (4 igrejas abertas no ano de 2013), e principalmente a participação ativa no cenário político de grandes líderes religiosos. O aumento expressivo de igrejas é visível no gráfico a partir de 2010, tendo uma média de 2 igrejas sendo abertas anualmente, com um crescimento acentuado até 2023, possivelmente impulsionado pela busca de estabilidade em tempos de crise econômica e social, além do fortalecimento do discurso conservador. O maior pico de registros, mostra o ano de 2020, com 7 unidades abertas, durante esse período o COVID-19. Esse crescimento foi registrado em todo território nacional, onde foi possível notar que em áreas periféricas foram as maiores áreas de registro de novas unidades (BRAGA,2013). As igrejas desempenharam um papel crucial em suas comunidades durante a crise sanitária, oferecendo apoio social e assistência a pessoas em situação vulnerável. Muitas delas se tornaram um substituto para o Estado em termos de ajuda social, arrecadando alimentos e fornecendo serviços essenciais. A atuação das igrejas nesse contexto foi vista como uma resposta à crescente necessidade provocada pela pandemia. Algumas lideranças pentecostais se alinharam ao governo federal e adotaram posturas negacionistas em relação à gravidade da pandemia. Essa colaboração incluiu a promoção de mensagens que desconsideravam as recomendações científicas sobre isolamento e vacinação, e muitas igrejas optaram por não fechar completamente durante os períodos de restrição, justificando que as igrejas deveriam continuar operando como centros de apoio espiritual e comunitário (Massuchin, M. G., & Barba Santos, M. 2021). 38 Figura 7 - Crescimento da Igreja Filadélfia entre 1993 a 2011 em Limeira/SP. Fonte: Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira, (2023). Na análise do crescimento da Igreja Filadélfia em Limeira (Figura 7), entre 1993 e 2011, observa-se um aumento gradual, com a quantidade total de igrejas subindo de 1 para 7, enquanto a linha azul mostra as novas aberturas por ano, chegando a 5 em 2011. A década de 90 foi marcada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) no Brasil, durante o qual políticas econômicas de estabilização, como o Plano Real (1994), trouxeram controle sobre a inflação e incentivaram o consumo. No entanto, as desigualdades sociais ainda eram significativas, e muitas comunidades buscaram nas igrejas, que já estavam se diversificando em relação aos discursos, um apoio social e espiritual para enfrentar os desafios econômicos e sociais. Neste período a primeira igreja Filadélfia de Limeira foi registrada. Já no início dos anos 2000 com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (2003- 2010) e a implementação de políticas sociais como o Bolsa Família, houve um crescimento na inclusão social e um certo alívio econômico para famílias de baixa renda. Durante esse período, as igrejas, incluindo a Igreja Filadélfia, cresceram devido à busca por uma comunidade de apoio e pela integração espiritual e social que essas instituições proporcionaram, tendo seu maior pico de registros, de 5 unidades no ano de 2011. Além disso, o aumento 39 da visibilidade das igrejas evangélicas na política incentivou um maior crescimento e envolvimento da população com essas instituições8. Figura 8 - Crescimento da Congregação Cristã entre 1953 e 2021 em Limeira/SP. Fonte: Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). A figura 8 mostra o crescimento da Congregação Cristã em Limeira entre 1953 e 2021. É notável que, apesar de um crescimento mais lento nas primeiras décadas, houve uma aceleração a partir da década de 1980, com maior número de aberturas de novas congregações em anos recentes. Seguindo a mesma linha temporal histórica das igrejas presbiterianas, até a década de 80, as práticas religiosas eram mais discretas devido ao controle sobre movimentos organizados, dessa forma o crescimento moderado da Congregação Cristã, pode ser justificado como uma prevenção aos confrontos do regime. Já nos anos de 1990, com a redemocratização, houve um maior fortalecimento da participação religiosa na vida pública, nesse período 6 unidades foram abertas. A partir dos anos 2000, a expansão das igrejas como a Congregação Cristã se tornou exponencial, tendo um salto significativo no número de unidades, saindo de 13 unidades em 2000 para 25 igrejas no ano de 2021, um número que quase dobra em um período de 21 anos (SOARES,2017). 8 Sugestão de leitura sobre o assunto: https://www.ibfcanoas.com.br/hist%C3%B3ria https://www.ibfcanoas.com.br/hist%C3%B3ria 40 Figura 9 - Crescimento da Igreja Batista entre 1983 a 2021 em Limeira/SP. Fonte: Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). A análise do crescimento da Igreja Batista9 em Limeira (Figura 9), de 1983 a 2021, se destaca por ter seu primeiro registro no final do período ditatorial, com um aumento de unidades até os anos 2000, mantendo um padrão de apenas uma unidade aberta nos anos de 1983, 1987, 1990, 2001, 2002, 2004, 2016, 2019 e 2021. Após a virada do milênio houve um período de menor crescimento, com maiores espaços anuais de abertura, esse intervalo coincide com a estabilização econômica do país e com a ascensão de novos líderes religiosos no Brasil, que diversificaram a oferta de religiões (VEIGA,2023). Já a partir de 2016 é possível notar um leve retorno de crescimento, visto que desde de 2004 nenhuma igreja havia sido aberta, esse período foi marcado por crises políticas, como por exemplo o impeachment de Dilma Rousseff, além do aumento da popularidade de movimentos evangélicos. No ano de 2021, outra igreja é registrada, possivelmente impulsionado pela pandemia de COVID-19 (2020-2022), quando as pessoas voltaram a buscar apoio emocional e espiritual em um período marcado por incertezas. O crescimento da Igreja Presbiteriana em Limeira (Figura 10) se dá no período de 1952 a 2011. Na década de 1950 até os anos 2000, a Igreja 9 Sugestão de leitura sobre o assunto: https://www.cobapa.org.br/portal/a-cobapa/historia- 2/historia-dos-batista/ https://www.cobapa.org.br/portal/a-cobapa/historia-2/historia-dos-batista/ https://www.cobapa.org.br/portal/a-cobapa/historia-2/historia-dos-batista/ 41 Presbiteriana teve um crescimento lento e gradual, com apenas uma nova igreja aberta nos anos registrados. Esse período foi marcado por governos populistas no Brasil, como o de Juscelino Kubitschek (1956-1961), que focou no desenvolvimento econômico e na construção de Brasília. A estabilidade econômica da época talvez tenha limitado a expansão de novas igrejas, com a população mais preocupada com o desenvolvimento urbano. Figura 10 - Crescimento da igreja Presbiteriana entre 1952 e 2011 em Limeira/SP. Fonte: Adaptado da Prefeitura Municipal de Limeira (2024). O crescimento foi contínuo e constante até próximo aos anos 2000, onde notase um aumento de igrejas abertas, 2 igrejas abertas no ano, possivelmente em resposta às crises econômicas da época e ao crescimento de movimentos evangélicos e protestantes no Brasil. A Igreja Presbiteriana pode ter buscado fortalecer sua presença para competir com outras denominações evangélicas que estavam em crescimento. Até 2011, observa-se uma estabilização, com poucas novas aberturas, o último registro desta vertente.. Isso pode ser uma resposta a mudanças sociais e à diversificação religiosa no Brasil, onde outras igrejas e movimentos evangélicos começaram a ganhar mais espaço, enquanto as igrejas tradicionais mantinham uma presença mais consolidada. Sobre as Igrejas Católica, na cidade de Limeira, tiveram acesso a seus 42 registros a partir do ano de 1973 (Figura 11). Se destacando claramente das demais análises, durante o início do período militar, muitos líderes da Igreja Católica, incluindo bispos, apoiaram o golpe militar de 1964, acreditando que a intervenção era necessária para evitar a ascensão do comunismo no Brasil7. Um manifesto assinado por 26 bispos expressou gratidão aos militares por "salvarem" o país da "ameaça comunista", o que explica o grande salto no número de unidades de templos religiosos. Nesse contexto é possível observar uma relação com o maior registro de abertura de unidade em um ano, 7 igrejas abertas em 1976 (GEROMEL, 2021). Figura 11 - Crescimento da igreja Católica entre 1973 a 2020 em Limeira/SP. Fonte:Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira (2024). No entanto, à medida que o regime se tornava mais repressivo, com práticas de tortura e desaparecimentos forçados, a Igreja começou a adotar uma postura crítica. A partir da década de 70, a Igreja Católica desempenhou um papel importante na oposição ao regime, apoiando movimentos sociais e de direitos humanos. Em 1979 até 1989 nenhuma igreja Católica foi aberta na cidade (GEROMEL, 2021). Após o fim do regime militar e durante o processo de redemocratização, houve estabilidade no número de novas igrejas. A Igreja 43 Católica começou a perder espaço para outras denominações10 religiosas e movimentos evangélicos, o que contribuiu para o ritmo mais lento de novas aberturas. No início dos anos 2000, no contexto de estabilização econômica e social, a Igreja Católica continuou abrindo igrejas, embora em menor quantidade. O foco esteve em consolidar a presença já existente e enfrentar o crescimento de igrejas evangélicas, que se expandiram rapidamente no país. A partir de 2016, houve um pequeno aumento nas aberturas de igrejas (4 no ano). Esse período coincidiu com a crise econômica e política no Brasil (DOS REIS, 2017). Figura 12 - Crescimento da igreja Assembleia de Deus entre 1965 a 2023 em Limeira/SP Fonte: Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). O crescimento das unidades da igreja Assembleia de Deus em Limeira (Figura 12), São Paulo, apresenta um crescimento inicial baixo, ainda que gradual, com poucas unidades abertas, o período corresponde a ditadura militar, época em que as atividades religiosas eram permitidas, mas havia uma supervisão sobre reuniões e organizações civis, o que possivelmente limitou a expansão rápida dessas instituições (CANCIAN,2016). A partir do ano 2000, o crescimento foi acelerado, com 10 igrejas abertas 10 Sugestão de leitura sobre o assunto: https://memoriasdaditadura.org.br/igreja/ https://memoriasdaditadura.org.br/igreja/ 44 em um espaço de tempo de 23 anos, o período marcado pela redemocratização, liberdade religiosa e pela presença crescente de igrejas pentecostais e neopentecostais, possivelmente está associado a esse fenômeno. Esse período é marcado pelo aumento da visibilidade das igrejas evangélicas no cenário político brasileiro, culminando com a criação de uma bancada evangélica influente no Congresso Nacional. O papel político das igrejas evangélicas torna- se mais proeminente, atraindo mais população e expandindo sua presença em diversas regiões. O crescimento, no período entre 2010 e 2023,conta com algumas variações no número de novas aberturas. Esse período coincide com uma polarização política no Brasil e com debates sobre questões sociais e morais, nos quais as igrejas evangélicas tiveram um papel ativo. A influência das igrejas nas eleições e no cenário político aumenta, o que também pode ter contribuído para o aumento do número de igrejas em regiões específicas. Observa-se um pico significativo de novas unidades em 2021. Esse crescimento recente pode estar relacionado à recuperação pós-pandemia de COVID19, quando muitas roupas buscam reestruturar suas atividades e expandir para alcançar mais fidelidade. A pandemia também pode ter gerado um aumento na procura por apoio religioso, levando a uma expansão das atividades religiosas. Em resumo, o crescimento das igrejas Assembleia de Deus em Limeira parece ter sido influenciado por contextos políticos, econômicos e sociais, com uma expansão mais forte em períodos de abertura política e maior influência das igrejas evangélicas no cenário nacional. A alta recente, possivelmente reflete mudanças pós-pandemia e um cenário político de valorização da religião em algumas esferas do país. A Figura 13 apresenta dados sobre crescimento de outras religiões, que classifica os dados de religiões espíritas, de matriz africana e orientais, em Limeira. O gráfico apresenta o primeiro registro de templo religioso na cidade, no ano de 1906, um centro espírita, localizado no centro da cidade. Porém mesmo tendo os primeiros dados cadastrais, o último registro de abertura de igreja nessas vertentes se dá no ano de 2016. A presença de novas religiões no início do gráfico é mínima, com uma unidade registrada em 1906 e outra em 1953, e um total de 11 unidades abertas 45 em um espaço de 117 anos. O início do século XX foi marcado pela forte influência da Igreja Católica no Brasil, que era religião oficial até 1890. O país ainda vivia em um contexto de predominância católica, com pouca abertura para outras religiões, especialmente as de origem protestante, espírita e afro- brasileira. Figura 13 - Crescimento de outras religiões entre 1906 e 2016 em Limeira/SP Fonte: Adaptado de Prefeitura Municipal de Limeira, (2024). Durante o período de ditadura militar, nenhuma igreja de uma religião diferente das católicas e evangélicas foi aberta, o que pode ser reflexo das políticas de censura e controle social do golpe de 64. O gráfico mostra um crescimento moderado a partir de 1991, com um aumento gradual e constante, com uma média de 1 igreja aberta a cada dois anos (DOS REIS, 2017). No ano de 2016, observa-se que o crescimento chega em seu pico, com 11 unidades. Esse período coincide com os governos de Lula e Dilma, quando o Brasil experimentou um aumento na diversidade religiosa, impulsionado pelo incentivo de liberdade religiosa,políticas públicas sobre a conscientização sobre a diversidade religiosa e leis mais severas para o crime de intolerância religiosa. Durante esse período, houve um crescimento de religiões diferentes e novos movimentos religiosos que atendiam a diferentes necessidades espirituais e culturais da população no Brasil. 46 Com base nas análises dos gráficos é possível concluir que durante o período da Ditadura Militar, o crescimento foi lento e moderado em todas as vertentes religiosas, com exceção no pico inicial das igrejas católicas. Apesar das diversas limitações, igrejas evangélicas tiveram certa liberdade, pois o regime apoiava valores conservadores que se alinhavam aos princípios da igreja. É possível notar um padrão de aumento nas unidades religiosas em períodos políticos e econômicos mais movimentados, o que mostra que a população busca apoio espiritual em momentos complicados. Esse aumento pode ser observado também nos momentos de crise (econômicas, políticas e culturais), nas quais os sujeitos buscam refúgio ou respostas para suas demandas e necessidades, entendendo que possam existir culpados ou salvadores. Importante ressaltar que este trabalho é uma primeira aproximação com a temática, cuja continuidade se dará no decorrer do próximo ano, durante o desenvolvimento da iniciação científica de tema correlato. Ela exigirá uma maior reflexão sobre os elementos históricos de desenvolvimento do neopentecostalismo na sociedade brasileira – análises essas que são recentes – e em específico no município de Limeira/SP; bem como das esferas: de gênero (papel e presença das mulheres na reprodução das religiões), influências e ações significativas da política através de demandas religiosas, interferência das religiões na formação do pensamento coletivo, políticas educacionais e de saúde, entre outros temas. A cartografização desses processos deverá ser a ferramenta de observação da espacialização dos fenômenos. 47 CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho desenvolvido visa analisar o crescimento do fenômeno religioso no município de Limeira e sua espacialização, com foco nas características do padrão imobiliário da cidade. Durante a realização da pesquisa, diversas limitações foram encontradas, especialmente no que tange à obtenção de dados completos sobre a localização exata das igrejas e a correlação com a distribuição de renda nos bairros. Uma das principais dificuldades foi a falta de informações precisas sobre a situação socioeconômica de cada bairro e a sua relação direta com o padrão imobiliário. Embora tenha sido possível identificar e classificar os bairros de Limeira com base no seu perfil de infraestrutura, a ausência de um banco de dados consolidado sobre impediu a realização de uma análise espacial detalhada sobre sua distribuição nos diferentes contextos de renda. Além disso, a análise do padrão imobiliário, fundamental para compreender a relação entre as características dos bairros e a presença das igrejas, exigiria um levantamento de fotos e dados adicionais sobre as ruas e imóveis. No entanto, essas informações também não estavam prontamente disponíveis ou acessíveis, o que limitou a profundidade da análise visual e comparativa entre os bairros. Por fim, embora a pesquisa tenha atingido os objetivos de mapear as características sociais dos bairros de Limeira e discutir o crescimento religioso, a falta de dados específicos as características precisas dos bairros de alto e baixo padrão impactou a análise conclusiva sobre a distribuição espacial das igrejas na cidade. Seria necessário um levantamento mais aprofundado, que envolvesse fontes locais, mapas de igrejas e dados mais detalhados sobre o mercado imobiliário, para uma análise mais robusta. Portanto, a conclusão deste trabalho reforça a importância de futuras pesquisas que possam preencher essas lacunas, permitindo uma compreensão mais ampla do fenômeno religioso em relação às dinâmicas socioeconômicas e ao espaço urbano de Limeira. 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. In: SADER, E.; GENTILI, P. (Org.). Pósneoliberalismo: as políticas sociais e o estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. ANDREWS, R. The Opus Dei: The First Objective Look Behind the Myths and Reality of the Most Controversial Force in the Catholic Church. New York: McGrawHill, 1996. AZEVEDO, Ricardo José Gontijo. O espaço público em cidades médias: análise da dinâmica socioespacial de praças e parques de Limeira-SP. 2013. ARANHA, M. Fenômeno religioso: uma perspectiva antropológica e psicológica. Ciênc. cogn., Rio de Janeiro , v. 6, n. 1, p. 44-50, nov. 2005. BERNARDI, C. J.; CASTILHO, M. A. DE. A religiosidade como elemento do desenvolvimento humano. 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