UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA "JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES, COMUNICAÇÃO E DESIGN - FAAC CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO Ana Maria Fernandes Soares ARQUITETURA INCLUSIVA CENTRO INCLUSIVO DE ARTES E DANÇA Bauru, 2023 2 Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design Curso de Arquitetura e Urbanismo ARQUITETURA INCLUSIVA CENTRO INCLUSIVO DE ARTES E DANÇA Trabalho final de graduação apresentado ao Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo, da Universidade Estadual Paulista – UNESP – Campus de Bauru, para a obtenção do título de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo. CANDIDATA: Ana Maria Fernandes Soares ORIENTADORA: Profa. Dra. Renata Cardoso Magagnin BAURU 2023 3 Soares, Ana Maria Fernandes S676a Arquitetura inclusiva : Centro Inclusivo de Artes e Dança / Ana Maria Fernandes Soares. -- Bauru, 2023 123 f.: il., tabs., fotos, mapas Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado - Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru Orientadora: Renata Cardoso Magagnin 1. Escola de Dança. 2. Escola de Artes. 3. Acessibilidade. 4. Inclusão. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru. Dados fornecidos pelo autor(a). Ficha catalográfica Minervina Teixeira Lopes 4 AGRADECIMENTOS Todo meu reconhecimento para com as pessoas que colaboraram para que este TFG fosse realizado. Em primeiro lugar, dedico este trabalho à minha mãe Andréa, que me ensinou o significado de amor e família, e me expôs a importância da educação. Obrigada por sempre apoiar meus sonhos e paixões, por me fornecer uma criação e uma educação de qualidade, e por todos os pequenos detalhes das nossas vidas que me tornaram a pessoa que sou hoje. Obrigada também por todo o carinho e paciência nestes cinco anos de graduação, em que minha presença nem sempre foi uma constante, e a distância e a saudade muitas vezes pesaram em nossos corações. Agradeço à UNESP - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” pela infraestrutura e ensino que possibilitam o desenvolvimento e a evolução científica no país; e a todos os professores que tornaram a realização deste sonho possível. Em especial, agradeço à minha orientadora Professora Renata por todo suporte durante esta jornada. Agradeço também aos amigos que conquistei nessa caminhada, companheiros tanto nos momentos de alegria, quanto nos de perrengues e noites viradas. Obrigada pelas risadas, pelos abraços, pelas sessões de terapia, pelos sorrisos, pelos puxões de orelha, pelos ombros amigos e por todo carinho que cada um forneceu com seu jeitinho. Beatriz Kanayama, Caroline Barros Walkinir, Debora Miyuki Furumori, Karen Tiemi Kimura, Hellen Midori Muraoka, João Pedro Zanaqui Ortega Alonso e Tiago Camilo, saibam que vocês são como uma família para mim, e foram muito importantes para que eu chegasse até aqui. Por fim, agradeço à Associação Solidariedança de Arte e Cultura e à Cintia Lima, pelo lindo trabalho de inclusão e desenvolvimento de tantos talentos, que inspiraram esse projeto! 5 SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS ............................................................................................... 8 RESUMO............................................................................................................... 13 ABSTRACT ........................................................................................................... 14 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 15 1.1 OBJETIVO ...................................................................................................... 15 1.2 ESTRUTURA DO TRABALHO ............................................................................. 15 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...................................................................... 17 2.1 O PODER DA ARTE E DA DANÇA ...................................................................... 17 2.1.1 ARTE ................................................................................................ 17 2.1.2 DANÇA .............................................................................................. 18 2.1.3 ARTETERAPIA E DANÇATERAPIA .......................................................... 20 2.1.4 ESPAÇO PARA MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS ......................................... 23 2.2 ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO .......................................................................... 24 2.2.1 CONTEXTO ATUAL DA ACESSIBILIDADE NO BRASIL ................................. 31 2.2.2 CONCEITO DE DESENHO UNIVERSAL ................................................... 35 2.3 CONFORTO AMBIENTAL .................................................................................. 37 3 ESTUDOS DE CASO ..................................................................................... 39 3.1 PRAÇA DAS ARTES - BRASIL ARQUITETURA - 2012 .......................................... 39 6 3.2 CENTRO DE ARTE CORPO ............................................................................... 45 4 SOLIDARIEDANÇA ....................................................................................... 50 4.1 O SOLIDARIEDANÇA ....................................................................................... 50 4.2 O EDIFÍCIO ..................................................................................................... 52 4.3 DIAGNÓSTICO DA INFRAESTRUTURA FÍSICA DO EDIFÍCIO .................................... 54 4.3.1 WALKTHROUGH ................................................................................. 55 4.3.2 AVALIAÇÃO DE USUÁRIOS ................................................................... 62 4.3.3 SÍNTESE DOS RESULTADOS ................................................................. 67 5 PROPOSTA PROJETUAL PARA O SOLIDARIEDANÇA ............................. 69 5.1 ÁREA DE INTERVENÇÃO DO NOVO EDIFÍCIO DO SOLIDARIEDANÇA ....................... 69 5.1.1 A CIDADE DE SÃO PAULO ................................................................... 69 5.1.2 A ESCOLHA DO TERRENO .................................................................... 70 5.2 PROGRAMA DE NECESSIDADES ....................................................................... 76 5.3 PARTIDO E CONCEITO ARQUITETÔNICO ............................................................. 77 5.4 IMPLANTAÇÃO ................................................................................................ 81 5.5 A ESCOLA DE ARTE E DANÇA .......................................................................... 84 5.6 AUDITÓRIO .................................................................................................. 101 5.7 PÁTIO CENTRAL ........................................................................................... 110 5.8 COBERTURA ................................................................................................ 112 5.9 PAISAGISMO ................................................................................................ 114 7 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................... 116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 117 APÊNDICE 1 - ROTEIRO DE ENTREVISTA ...................................................... 121 APÊNDICE 2 – PROJETO ARQUITETÔNICO ................................................... 122 8 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Porcentagem da população, por tipo e grau de dificuldade e deficiência. ............................................................................................................................. 33 Figura 2 – Vista fachada - Praça das Artes .......................................................... 40 Figura 3 – Diagrama da Praça das Artes. ............................................................ 41 Figura 4 – Planta do pavimento térreo da Praça das Artes. ................................. 42 Figura 5 – Planta do primeiro pavimento da Praça das Artes. ............................. 42 Figura 6 – Planta do segundo pavimento da Praça das Artes.............................. 43 Figura 7 – Implantação da Praça das Artes. ........................................................ 44 Figura 8 – Foto da Praça das Artes. ..................................................................... 44 Figura 9 – Sala de concertos da Praça das Artes. ............................................... 45 Figura 10 – Vista aérea do Centro de Arte Corpo. ............................................... 46 Figura 11 – Maquete eletrônica Centro Arte Corpo. ............................................. 47 Figura 12 – Corte longitudinal lateral. ................................................................... 47 Figura 13 – Planta do pavimento térreo. .............................................................. 48 Figura 14 – Planta do primeiro pavimento. ........................................................... 48 Figura 15 – Planta do segundo pavimento. .......................................................... 48 Figura 16 – Planta do terceiro pavimento. ............................................................ 48 Figura 17 – Espetáculo "Nossa História. Por trás das cortinas", 2016. ................ 50 Figura 18 – Implantação Solidariedança. ............................................................. 51 Figura 19 – Planta do pavimento térreo do Solidariedança, sem escala. ............. 53 9 Figura 20 – Planta do subsolo do Solidariedança. ............................................... 54 Figura 21 – Percurso realizado no walkthrough. .................................................. 56 Figura 22 – Fotos do hall de entrada – Solidariedança. ....................................... 57 Figura 23 – Corredor que dá acesso à Sala 1. ..................................................... 58 Figura 24 – Fotos da Sala 1 – Solidariedança...................................................... 59 Figura 25 – Fotos do banheiro – Solidariedança. ................................................. 60 Figura 26 – Fotos da Sala 2 – Solidariedança. ..................................................... 61 Figura 27 – Fotos do subsolo – Solidariedança. .................................................. 62 Figura 28 – Função exercida dos entrevistados. .................................................. 63 Figura 29 – Porcentagem dos entrevistados que possuem deficiência. ............... 63 Figura 30 – O edifício atende à atividade da dança? ........................................... 64 Figura 31 – Ambiente mais confortável. ............................................................... 64 Figura 32 – Maiores problemas encontrados no edifício. ..................................... 65 Figura 33 – Vão que atrapalha a circulação das cadeiras de rodas. .................... 65 Figura 34 – Conforto do edifício. .......................................................................... 66 Figura 35 – Espetáculo "La Muerte", 2019. .......................................................... 67 Figura 36 – Localização do município de São Paulo no Estado........................... 69 Figura 37 – Mapa com a divisão dos bairros de São Paulo. ................................ 71 Figura 38 – localização do terreno no entorno imediato. ...................................... 72 Figura 39 – Definição das Zonas de Centralidade (ZC). ...................................... 73 Figura 40 – Mapa de zoneamento com a localização do terreno. ........................ 73 10 Figura 41 – Localização de transporte público no entorno do terreno. ................. 74 Figura 42 – Topografia do terreno. ....................................................................... 75 Figura 43 – Ventilação e Insolação. ..................................................................... 75 Figura 44 – Imagem do terreno, vista frontal ........................................................ 76 Figura 45 – Imagem do terreno. ........................................................................... 76 Figura 46 – Fluxograma do Centro Inclusivo de Arte e Dança. ............................ 78 Figura 47 – Módulo giro 360° da cadeira de rodas............................................... 79 Figura 48 – Pré-dimensionamento da Sala de dança. ......................................... 80 Figura 49 – Dimensionamento das salas teóricas, de artes e costura. ................ 80 Figura 50 – Dimensionamento do palco do Auditório. .......................................... 81 Figura 51 – Implantação do Centro de Arte e Dança Solidariedança. .................. 82 Figura 52 – Remanejamento das curvas de nível do terreno. .............................. 83 Figura 53 – Vista da entrada da escola. ............................................................... 84 Figura 54 – Projeto do Centro de Artes e Dança. ................................................. 86 Figura 55 – Vista frontal da escola. ...................................................................... 87 Figura 56 – Vista lateral esquerda escola. ........................................................... 87 Figura 57 – Vista posterior escola. ....................................................................... 87 Figura 58 – Vista lateral direita escola. ................................................................ 87 Figura 59 – Isométrica escola. ............................................................................. 88 Figura 60 – Vista interna da recepção. ................................................................. 89 Figura 61 – Planta do Centro de Arte e Dança, em detalhe o espaço da recepção. 11 ............................................................................................................................. 90 Figura 62 – Sala de dança. .................................................................................. 91 Figura 63 – Detalhamento parede com tratamento termo acústico. ..................... 91 Figura 64 – Plantas das salas de dança. ............................................................. 92 Figura 65 – Detalhamento piso de madeira flutuante. .......................................... 93 Figura 66 – Planta da sala de costura. ................................................................. 94 Figura 67 – Planta tipo das salas teóricas. .......................................................... 95 Figura 68 – Planta da sala de música. ................................................................. 96 Figura 69 – Plantas das salas de artes. ............................................................... 97 Figura 70 – Planta "Sala Azul" e Brinquedoteca. ................................................. 99 Figura 71 – Perspectiva do espaço interno da Sala "Azul". ................................. 99 Figura 72 – Planta sala da direção. .................................................................... 100 Figura 73 – Plantas hall professores e funcionários. .......................................... 101 Figura 74 – Planta do edifício do Auditório. ........................................................ 102 Figura 75 – Elevações Auditório ......................................................................... 103 Figura 76 – Planta foyer. .................................................................................... 104 Figura 77 – Planta da área da plateia. ............................................................... 105 Figura 78 – Estudo de visibilidade, planta. ......................................................... 106 Figura 79 – Estudo de visibilidade, corte. ........................................................... 106 Figura 80 – Espaço entre as poltronas. .............................................................. 107 Figura 81 – Área do Palco. ................................................................................. 108 12 Figura 82 – Planta área dos camarins ................................................................ 108 Figura 83 – Planta do vestiário feminino. ........................................................... 109 Figura 84 – Planta do depósito do auditório ....................................................... 110 Figura 85 – Vista do pátio central. ...................................................................... 110 Figura 86 – Pátio Central. .................................................................................. 111 Figura 87 – Quiosque. ........................................................................................ 111 Figura 88 – Isométrica da escola. ...................................................................... 112 Figura 89 – Isométrica do auditório. ................................................................... 113 Figura 90 – Plantas de cobertura do auditório e da escola. ............................... 114 Figura 91 – Planta de paisagismo. ..................................................................... 115 13 RESUMO Este trabalho final de graduação visa abordar a questão da inclusão social na arquitetura, utilizando as artes e a dança como principais ferramentas de integração. A partir da identificação das barreiras físicas e sociais encontradas por pessoas deficientes no uso de edifícios associados a dança e a cultura, o trabalho desenvolve o projeto de um edifício voltado a arte e dança que visa proporcionar maior qualidade de vida e bem-estar a todos os usuários. O projeto tem como suporte as normas técnicas e legislações sobre acessibilidade dos âmbitos federal, estadual e municipal. O projeto incorpora a importância da Arte e da Dança e seus benefícios como instrumentos de terapia, além dos conceitos de acessibilidade, inclusão e Desenho Universal. O Centro Inclusivo de Arte e Dança, localiza-se na região Leste de São Paulo/SP. Espera-se que o projeto possa se tornar um modelo de referência estética e de acessibilidade, além de ser de grande relevância tanto para os usuários quanto para a comunidade local. Palavras-chave: Escola de dança, Escola de Arte, Acessibilidade, Inclusão. 14 ABSTRACT This undergraduate works aims to analyze the issue of social inclusion in architecture, using the arts and dance as the main integration tools. From the identification of the physical and social barriers encountered by people with disabilities in the use of buildings associated with dance and culture, the project will develop a building dedicated to art and dance that aims to provide better quality of life and well-being to all users. The project is supported by technical standards and federal, state and local legislation on accessibility. The project incorporates the importance of Art and Dance and its benefits as instruments of therapy, in addition to the concepts of accessibility, inclusion and Universal Design. The Inclusive Center for Art and Dance is located in the East region of São Paulo/SP. It is expected that the project can become an aesthetic and accessibility reference model, in addition to being of great relevance both for users and for the local community. Keywords: Dance School, Art School, Accessibility, Inclusion. 15 1 INTRODUÇÃO De acordo com alguns dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde em 2021, cerca de 1 bilhão de pessoas, o que equivale a aproximadamente 15% da população mundial, vive com algum tipo de deficiência, seja temporária ou permanente, que podem estar associadas à diversas causas, como acidentes, envelhecimento da população, entre outras causas (WHO, 2012). No Brasil, esta porcentagem é ainda mais alta, chega a mais de 25% da população, segundo o último Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). Compreender o número de pessoas com deficiências e suas circunstâncias pode melhorar os esforços para remover as barreiras incapacitantes e prover serviços para permitir que as pessoas com deficiência participem mais. (WHO, 2021, p.21) Analisar esses números é de grande importância para promover a eliminação de barreiras arquitetônicas e urbanísticas e assim melhorar a vidas das pessoas com deficiência nas cidades e na sociedade, visto que diversas pessoas com deficiência ainda são excluídas das atividades da vida cotidiana, e não possuem acesso igualitário à assistência médica, educação e oportunidades de emprego (WHO, 2021, p. xxi). As expressões artísticas proporcionam uma outra visão do mundo, e além de permitir a exteriorização dos sentimentos e emoções, também dão a oportunidade de interação, participação, socialização e inclusão de pessoas com deficiência, e exploram a criatividade e a autonomia de cada usuário. Sendo assim, podem funcionar como ótimos instrumentos de inserção na sociedade. 1.1 Objetivo O objetivo deste trabalho final de graduação é desenvolver o projeto de um Centro de Artes e Dança que incorpore a inclusão social e a acessibilidade. 1.2 Estrutura do Trabalho O primeiro Capítulo desta monografia introduz o tema. Na sequência, o https://www.sinonimos.com.br/exteriorizacao/ 16 Capítulo 2 “Fundamentação Teórica” apresenta a importância e os benefícios da Arte, como um todo, e da Dança, e uma contextualização da Arteterapia, da Dançaterapia, da acessibilidade, da inclusão e do desenho universal, assim como uma breve classificação da deficiências e restrições espaciais. O capítulo 3 traz dois estudos de caso sobre centros voltados para artes e dança que irão nortear o projeto deste trabalho. O Capítulo 4 apresenta o diagnóstico do edifício Solidariedança, escolhido para ser o tema deste Trabalho de Conclusão de Curso, que trabalha com a inclusão sociocultural de pessoas usuárias de cadeiras de rodas através da dança. O Capítulo 5 se refere a proposta projetual para um novo Centro de Arte e Dança inclusivo. Por fim, no Capítulo 5 estão as considerações finais do trabalho, seguido pelas Referências Bibliográficas e Apêndices. 17 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Este capítulo apresenta uma revisão de literatura que busca embasar o desenvolvimento de um projeto arquitetônico voltado para arte e dança com foco na inclusão. Assim os temas abordados se referem a dança, arte, arteterapia, dançaterapia, acessibilidade e inclusão, desenho universal e a classificação das deficiências. 2.1 O poder da Arte e da Dança 2.1.1 Arte “A arte é quase tão antiga quanto o homem. É uma forma de trabalho, e o trabalho é uma atividade característica do homem” (FISCHER, 1987, p. 21). Não é de hoje que se percebe os benefícios da arte. A expressão artística esteve presente na humanidade desde seu início, contribuindo para sua sobrevivência, saúde e crescimento da sensibilidade humana, através da criação de um espaço para criar, sonhar, realizar-se, descobrir; um tempo criativo para pensar, sentir e criar; entre outros (PUFFAL; WOSIACK; JUNIOR, 2009). A arte sempre foi utilizada como forma de expressão e está intrinsecamente ligada à história e à evolução do ser humano. Ela registra a história, a cultura, os sentimentos e até as convicções humanas ao longo do tempo. Segundo Coli (1981), a arte é uma forma específica de conhecimento, cujo objetivo artístico é um meio de despertar as emoções de cada indivíduo, servindo para a compreensão do mundo. Fischer (1987), por sua vez, observa que a arte eleva o homem; que passa de um estado de fragmentação para um estado íntegro. Capacita-o, assim, para a compreender a realidade; ajuda-o a transformá-la, e a torná-la mais hospitaleira e humana. Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa 18 também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza - esta provocadora - pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte (FISCHER, 1987, p.14). Isso nos leva a perceber que a arte é muito mais do que apenas a forma de expressão de um povo. Ela representa o ser humano em relação ao mundo e conecta diferentes culturas através de sua linguagem única, além de desenvolver no ser humano a capacidade de refletir, de criticar e criar. Desta forma, pode-se dizer que a arte é de suma importância para o desenvolvimento intelectual e sensorial do ser humano. “A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas a arte também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente” (FISCHER, 1987, p. 20). 2.1.2 Dança Caracterizada pelo movimento expressivo do corpo de forma rítmica, a dança é uma das três principais artes cênicas da antiguidade, junto ao teatro e a música. E assim como toda atividade humana, a dança sofreu o destino das formas, das instituições e da existência social dos homens, passando assim por diferentes formas, como a de poder místico que agia sobre os homens, espíritos e deuses, para uma dança de propriedade humana, que contagia os homens pela sua ação puramente estética (FAHLBUSCH, 1990). Antes mesmo de expressar a linguagem oral, o homem já dançava e expressava a linguagem gestual. A dança era uma forma de expressão, uma maneira com a qual o homem se comunicava e se relacionava com o ambiente em que vivia; chegando a ser considerada como uma manifestação na vida dos povos mais antigos, pois era a atividade mais significante para estes e estava presente em todos os momentos: o homem dançava para pedir chuva, solicitar cura de algumas doenças, agradecer vitórias e até mesmo em momentos de morte (HASS; GARCIA, 2006). Existem indícios de que o homem dança desde os tempos mais remotos. Todos os povos, em todas as épocas e lugares dançaram. Dançaram para expressar revolta ou amor, reverenciar ou afastar deuses, mostrar força 19 ou arrependimento, rezar, conquistar, distrair, enfim, viver! (TAVARES, 2005, p.93). Durante a Idade Média, a dança era vista apenas como uma forma de divertimento, e só foi começar a florescer na época do Renascimento, quando surgiu o balé. Neste período, o balé era um tipo de dança que valorizava muito o corpo dos dançarinos, que criavam suas coreografias baseadas no tema desejado. Estes foram tempos em que a dança era dominada por homens vestidos como mulheres, uma vez que estas não podiam participar dessa dança. Só muito tempo depois houve participações de mulheres que foram mostrando suas técnicas e movimentos apropriados na dança (HASS; GARCIA, 2006). Desta forma, a dança foi tomando espaço, assim chegando a lugares menos privilegiados, e levando para as pessoas diversão e emoções sentidas através dos movimentos. Segundo Hass e Garcia (2006), a dança significa nesse contexto: cultura, religião, educação e sociedade. De acordo com Szuster (2011), a dança é uma atividade física alegre que traz sensações de bem-estar e que estimula a pessoa que a exerce. A prática desta atividade leva o indivíduo a ter mais motivação, autoestima e autodeterminação, fazendo com que este sinta-se mais tranquilo e feliz consigo mesmo e com as pessoas ao seu redor. A autora ainda afirma que, assim como qualquer outra atividade física, a dança pode beneficiar o indivíduo, retardando alguns problemas que podem ser diminuídos com o passar dos anos e melhorando a saúde das pessoas. A dança enquanto atividade física tem muitos benefícios, melhora elasticidade muscular, melhora movimentos articulares, diminui o risco de doenças cardiovasculares, problemas no aparelho locomotor e sedentarismo, reduzindo o índice de pressão. (SZUSTER, 2011, p.29). Faz parte do universo da dança promover melhorias ao organismo do indivíduo harmoniosamente, respeitando suas emoções e estado fisiológico; desenvolvendo habilidades motoras e autoconhecimento; e atuando como fator de prevenção no combate de situações estressantes (SZUSTER, 2006). Desta forma, pode-se dizer que a dança é uma atividade física que gera diversos benefícios tanto para a saúde, quanto para a qualidade de vida de cada indivíduo. 20 Segundo Hass e Leal (2006, apud SILVA, 2008, p. 8) “A dança tem forte caráter socializador e motivador; seja em par ou sozinho, seja velho ou criança, seja homem ou mulher. Dançando todos nos sentimos bem”. Pode-se considerar então que a dança é um ótimo exemplo de atividade física completa, que exercita tanto o corpo, quanto a mente e até as emoções de quem a pratica, e que traz diversos benefícios como: fortalecimento físico, alongamento, flexibilidade, resistência, memória, coordenação motora, equilíbrio, postura, ritmo, musicalidade, alívio do estresse, melhora da autoestima e maior qualidade de vida. Além de ser uma importante ferramenta para transmitir valores culturais e auxiliar na integração social, uma vez que, nesse contexto, entende-se que o indivíduo dançante, pode se esquecer de suas próprias limitações e ter momentos de prazer e felicidade. 2.1.3 Arteterapia e Dançaterapia Para Kneller (1983), a arte pode ocupar um lugar privilegiado no processo inclusivo. Segundo Fiorenzano et al. (2011), as artes fazem parte da vida do ser humano, seja ele deficiente ou não. Ao desenhar ou pintar, se exprime suas interpretações e impressões sobre o mundo, o que torna a arte uma forma de linguagem, o que, por si só, já justificaria sua presença no contexto da Educação de modo geral. Fundamentada na Medicina, na Psicologia e nas Artes, a Arteterapia é uma prática que estuda os meios apropriados para socializar aliviar ou curar os indivíduos através das expressões artísticas, trazendo à tona ideias, traumas ou até mesmo fobias (OLIVIER, 2011). Indo na mesma vertente, Carvalho (1995) define Arteterapia como uma área de atuação profissional que utiliza recursos artísticos com finalidade terapêutica. Segundo Paín e Jarreau (1996), a arteterapia tem sua origem em uma prática milenar, porém é recente enquanto instrumento após a segunda guerra mundial, baseada nas ideias de Jung e influenciada pelo surgimento terapêutico, tendo desenvolvido de uma nova visão da arte. 21 Entre as décadas de 1920 e 1930, as teorias de Jung e Freud trouxeram as bases para o desenvolvimento inicial da arteterapia como campo específico de atuação (CARVALHO; ANDRADE, 1995). Ilustre discípulo de Freud, com quem posteriormente rompeu para desenvolver sua própria teoria, Carl Gustav Jung (1875 – 1961), um psiquiatra e psicoterapeuta suíço e fundador da Psicologia Analítica, foi quem propriamente começou a usar a linguagem artística associada à psicoterapia. Com um pensamento discordante ao de Freud, que considerava a arte como uma forma de sublimação das pulsões, Jung considerava a criatividade artística uma função psíquica natural e estruturante, cuja capacidade de cura estava em dar forma ou em transformar os conteúdos inconscientes em imagens simbólicas (SILVEIRA, 2001). De acordo com Andrade (2000), Jung sugeria aos seus pacientes que desenhassem ou pintassem livremente seus sonhos, sentimentos, situações de conflito, etc; para que depois pudesse analisar as imagens criadas por eles como uma simbolização do inconsciente individual e coletivo. Jung utilizava estes desenhos livres tanto para facilitar a interação verbal com o paciente, como também porque acreditava na possibilidade de o homem organizar seu caos interior utilizando a arte. Por meio do criar arte e do refletir sobre seus processos e trabalhos artísticos realizados, as pessoas podem ampliar o conhecimento de si mesmos e dos outros, o que resulta no aumento da autoestima, no aprendizado de como lidar melhor com os sintomas do stress, como lidar com experiencias traumáticas, no desenvolvimento de recursos, cognitivos e emocionais, na criatividade e espontaneidade, favorecendo a busca pela harmonia e na qualidade de vida (LOUREIRO, 2003). Paín e Jarreau (1996) ainda afirmavam que, na arteterapia os remédios são tintas, papéis e movimentos, e que todos estes materiais e experiências artísticas acrescentam e permitem o aprendizado de novas formas de viver, desenvolvendo novas habilidades, sentimentos e ações. 22 Além disso, diversos estudos já comprovaram que atividades como a dança e música estimulam o cérebro e ajudam na memória, na atenção e na capacidade cognitiva, pois envolvem a percepção do próprio corpo para que se movimente de acordo no ritmo desejado. Assim como as palavras são formadas por letras, os movimentos são formados por elementos; assim como as orações são compostas de palavras, as frases da dança são compostas de movimento. Esta linguagem do movimento, de acordo com seu conteúdo, estimula a atividade mental de maneira semelhante, e talvez até mais complexa que a da palavra falada. (LABAN, 1990, p. 32). Quando se fala em Dançaterapia (fundamentada na metodologia criada pela bailarina argentina María Fux) se fala sobre utilização dos recursos artísticos, educacionais e terapêuticos da dança para encontrar as pessoas e auxiliá-las a descobrir caminhos, superar os desafios, suas deficiências e viver mais felizes. De acordo com o Centro Internacional de Dançaterapia Maria Fux (2022, sp), dançaterapia é “um caminho de reapropriação da linguagem corporal por meio de estímulos criativos que favorecem a conjunção do movimento ao “sentir” único e vivo de cada ser humano”. O método da bailarina argentina baseia-se na “possibilidade de uma mudança que permita sair e abandonar gradualmente a rigidez, o medo, a instabilidade, independente do estado psíquico, físico e social de cada um” (Centro Internacional de Dançaterapia Maria Fux, 2022, sp). A terapia pela dança permite a exploração do espaço, transforma o ambiente e gera autoconfiança, autonomia e independência (CAZE; OLIVEIRA, 2008). De acordo com Buchanan e Ulrich (2001), a dança oferece a melhora do repertório do movimento humano, assim como reduz a dor e limitação articular, viabilizando a expansão das escolhas pessoais e respostas para vários aspectos da vida, como emocionais, relacionais e intelectuais. Porém, Silva (2004), ressalta a importância de se considerar alguns aspectos existentes durante o processo terapêutico com deficientes físicos, como a superação de meras dificuldades práticas. Por exemplo: o transporte para a 23 sessão, a disposição das cadeiras de rodas e a confecção de palhetas, pincéis e lápis devem ser adequados para que a pessoa com deficiência física seja capaz de utilizar os recursos disponíveis e se sinta incluída na atividade. Saviani (2000) também explica que a deficiência física de uma pessoa pode alterar o resultado que estas pessoas esperam, fazendo com que elas se sintam frustradas. Por isso, é importante que estas utilizem de sua própria deficiência para trazer o sentimento de realização. 2.1.4 Espaço para manifestações artísticas Como já dito anteriormente, as expressões artísticas estão em todos os lugares e segundo Hernandez (2000, p.27), estão também situadas no campo das comunicações, do audiovisual, da internet, da gestão de museus como espaços de consumo, da publicidade e do indivíduo como consumidor e produtor de imagens, enfocando a sua importância e presença no mundo. Porém, para que seja possível realizar essas manifestações artísticas e culturais, é necessário muito mais do que a presença de um espaço físico disponível. Tais ambientes devem possuir uma linguagem artística adequada, recursos materiais que estimulem a criatividade e a produção da arte; além de serem flexíveis e versáteis, de forma a promover a interação, a criação e a diversidade. Dernardi (2009) afirma que existem grandes contribuições positivas, se tais espaços forem utilizados de forma democrática. Existe ainda uma aura de erudição e especialização que envolve a arte. Como se arte, essa expressão intensa do espírito humano, fosse uma atividade apenas para um grupo seleto de pessoas ou um mero produto com um “valor de mercado”. Mas não. Ela é para todos, tanto no sentido da produção quanto da recepção. E a escola tem papel fundamental na tentativa de mostrar o quão democrática a arte é, ou deveria ser. (DENARDI, 2009, p.5) Eduardo e Castelnou (2007, p. 112) mencionam que “à medida que os povoados crescem e as cidades aumentam de tamanho, o poder público sente empiricamente a necessidade de construir centros especializados para a prática de lazer, cultura e arte”. Porém, é de conhecimento geral, que muitas vezes, o acesso 24 a estes espaços não é totalmente democrático, tendo um custo muito caro para boa parcela da população e, de acordo com os autores, “[...] percebe-se que esses equipamentos de lazer e cultura que pontificam a cidade contemporânea, atendem a uma minoria de todas as classes sociais” (EDUARDO; CASTELNOU, 2007, p. 112). Diante desse contexto, vê-se a necessidade de promover o acesso igualitário à arte e cultura, independente de classe social, idade, sexo ou condições físicas; não apenas fornecendo um espaço, como também investindo em insumos, materiais e atividades. De qualquer forma, é importante lembrar que todo equipamento de lazer e cultura, bem planejado, prevê investimentos não apenas de construção como de manutenção e animação. Não importa quanto se tenha investido esteticamente na construção, as municipalidades têm de se conscientizar de que não adianta apenas abrir as portas de seus monumentos para que a população os frequentes. Ao cabo e ao fim, esses espaços são criações artificiais de uma política cultural, que precisa ser traduzida concretamente em uma programação que atenda às necessidades da população e, assim, seja por ela sentida. (EDUARDO; CASTELNOU, 2007, p. 112). 2.2 Acessibilidade e Inclusão A legislação brasileira descreve acessibilidade como: A condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, das edificações, dos serviços de transporte e dos dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida. (BRASIL, 2004) Porém, há uma definição mais atual de acessibilidade apresentada pela NBR 9050, que a define como: possibilidade e condição de alcance, percepção e entendimento para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privado de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida. (ABNT, 2020, p.2) Segundo Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012, p. 16), na língua portuguesa, o termo deficiência tanto refere-se muitas vezes aos problemas fisiológicos dos indivíduos, como também implica na incapacidade de se realizar certas atividades. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm 25 Porém, é importante ressaltar que a presença de deficiência não significa necessariamente incapacidade, e que qualquer pessoa pode ser incapaz de realizar certo tipo de atividade a qualquer momento, seja por fatores fisiológicos, ambientais, culturais ou socioeconômicos. Desta forma, as autoras utilizam o termo “deficiência” para se referir aos problemas de nível fisiológico dos indivíduos, e o termo “restrição” para designar as dificuldades resultantes da relação entre as condições dos indivíduos e as características do meio ambiente na realização de atividades (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). A incapacidade não é um atributo da pessoa, mas um conjunto complexo de condições, muitas das quais criadas pelo meio ambiente social. Consequentemente a solução do problema requer ação social e é de responsabilidade coletiva da sociedade fazer as modificações necessárias para a participação plena de pessoas com deficiências em todas as áreas da vida social. A questão é, pois, atitudinal ou ideológica quanto às mudanças sociais, enquanto que no nível político é uma questão de direitos humanos. (CIF, 2001) Considera-se deficiência "toda perda ou anomalia de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano" (BRASIL, 1999). Para Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012), é fundamental compreender a natureza dos problemas fisiológicos que atingem os indivíduos de forma a relacioná-los com fatores socioculturais, ambientais e espaciais, para que se possa reverter, se possível, situações que levam à incapacidade e à exclusão. Para facilitar a compreensão dos tipos de deficiência, as autoras classificaram as deficiências em quatro grupos distintos: físico-motoras, sensoriais, cognitivas e múltiplas: a. Deficiências Físico-Motoras Então de acordo com Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012), as deficiências físico-motoras seriam aquelas que alteram a capacidade de mobilidade geral do indivíduo, gerando dificuldades, ou até a impossibilidade, de realização de qualquer 26 movimento. Esse tipo de deficiência pode ser provocado pela ausência, má- formação, lesões e paralisia dos membros superiores e inferiores, ou até mesmo pela presença de dor, contrações e falta de tonificação em tais membros. O Decreto nº 5.296/04, caracteriza a deficiência Físico-Motora pela alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física. Ou seja, de forma geral, as deficiências físico-motoras afetam a realização de atividades que demandam força física, coordenação motora, precisão e mobilidade do indivíduo no espaço. Assim, as características espaciais são fundamentais para a redução das dificuldades encontradas por pessoas com este tipo de deficiência e, para isso, é necessário eliminar desníveis verticais ao longo de percursos; promover suportes para apoio; criar superfícies uniformes com inclinação leve, com pisos antiderrapantes e com boa aderência; observar as dimensões mínimas adequadas para deslocamento; entre outros. E ainda, no caso da presença de desníveis ou escadas, devem ser criados caminhos alternativos com elevadores ou rampas, que se tiverem um grande percurso, também devem possuir locais de repouso. O layout e a dimensão de equipamentos e mobiliários também devem ser acessíveis e exigir o mínimo de força (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012; ABNT, 2021). b. Deficiências Sensoriais Já as deficiências sensoriais, segundo as autoras, são aquelas em que há perda significativa na capacidade dos sistemas de percepção do indivíduo, fazendo com que este tenha dificuldade em perceber de diferentes tipos de informações ambientais. As deficiências no sistema visual, por exemplo, provocam limitações na capacidade de enxergar e são mais habituais do que parecem. Segundo o IBGE (2010), mais de 35 milhões de brasileiros possuem algum problema na visão, esse número representa quase 19% da população. As deficiências parciais, também conhecidas como “visão baixa” são as mais comuns, comparadas com a perda total ou cegueira, e podem ser oriundas de diversas patologias, que afetam a visão de diferentes formas, como a perda de nitidez, perda de visão periférica ou de visão 27 central, manchas no campo visual, ofuscamento, incapacidade de distinção de cores, entre outras (IBGE, 2022). Para se orientar, a pessoa cega necessita fazer o uso dos demais sistemas perceptivos, como a audição e o tato, e muitos utilizam um conjunto de técnicas e equipamentos para manter ou melhorar suas capacidades funcionais, como bengalas, cães-guias e até o método Braille (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Por sua vez, deficiências no sistema auditivo, segundo o Decreto n° 5296/2004, constituem a perda bilateral, total ou parcial de quarenta e um decibéis ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2000 Hz e 3000 Hz (BRASIL, 2004). No caso da surdez, onde há a perda total da capacidade de perceber estímulos sonoros, o indivíduo não é capaz de ouvir a fala humana com ou sem a ajuda de aparelhos, o que prejudica a sua capacidade de adquirir o código da linguagem oral. Mas algumas pessoas com deficiência auditiva acabam desenvolvendo outras habilidades como a leitura labial ou a capacidade de distinguir vibrações sonoras, além disso, muitas delas acabam aprendendo a Língua Brasileira dos Sinais (LIBRAS) para se comunicar (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Outro exemplo de Deficiência Sensorial é aquela que atinge o sistema de orientação e equilíbrio, localizado no estatocisto no labirinto, estrutura interna do ouvido, e responde às forças gravitacionais. Qualquer alteração neste sistema compromete o funcionamento de todas as atividades sensoriais, afetando desde a capacidade de equilíbrio, e gerando crises de tontura e vertigem; até gerando dificuldade para o indivíduo se orientar espacialmente. Nestes casos, ambientes bem-organizados, com fácil legibilidade, superfícies niveladas e presença de apoios são fundamentais (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). c. Deficiências Cognitivas Se referem às dificuldades de compreensão e tratamento das informações recebidas, que podem afetar o processo de aprendizado, comunicação linguística e interpessoal. Esse tipo de deficiência compromete a concentração, a memória e 28 até mesmo o raciocínio dos indivíduos, faz com que estes, muitas vezes, acabem por depender de outras pessoas e tem dificuldade de convívio social. É importante ressaltar que a falta deste convívio social, frequentemente acentuada por uma discriminação institucionalizada, acarreta na exclusão total de oportunidades de trabalho e educação, e reduz a possibilidade de desenvolvimento e de adaptação dos indivíduos com esta deficiência (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Segundo Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012), em ambientes acessíveis para pessoas com deficiência cognitiva, é muito importante priorizar a presença de dispositivos de segurança, e evitar ambientes muito complexos com muita poluição visual, porém deve haver apelo visual e contraste de cores que evitem repetição e monotonia; e uma boa iluminação; fazendo assim com que as mensagens e informações sejam fornecidas de forma clara. d. Deficiências Múltiplas Por fim, as autoras definem deficiências múltiplas como a ocorrência de mais de um tipo de deficiência em um indivíduo e dão como exemplo a condição da surdo-cegueira, na qual um indivíduo possui diferentes graus de deficiência auditiva e visual associada, que comprometem tanto sua comunicação social, como seu aprendizado, sua orientação espacial, entre outros. Deve-se considerar que mesmo que uma pessoa não possua deficiências múltiplas, geralmente, uma deficiência acaba acarretando alterações em outras estruturas e funções corporais. Por isso, em projetos de ambientes para indivíduos com deficiências múltiplas devem-se atender os requisitos necessários para a solução dos problemas de cada uma das deficiências de forma integrada. (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Porém, a acessibilidade não deve ser considerada apenas no sentido físico. A fim de se alcançar um cenário ideal onde todas as pessoas são beneficiadas, quer estas tenham deficiência ou não, a acessibilidade deve estar presente em todos os contextos e aspectos da atividade humana. Foi pensando nisso que Sassaki (2004), classificou o conceito de acessibilidade em seis dimensões, nos campos de educação, trabalho e lazer. 29 ● Dimensão Atitudinal: considerada como o primeiro passo para fazer a diferença, dimensão atitudinal é a percepção sobre o outro, sem a presença de preconceitos, estigmas, estereótipos ou discriminações, o que promove a sensibilização, a conscientização e a convivência. ● Dimensão Arquitetônica: eliminação das barreiras físicas em espaços e equipamentos, de modo a permitir a participação efetiva de todos dentro da sociedade, sem qualquer impedimento causado pela infraestrutura. ● Dimensão Comunicacional: atua nas diversas formas de expressão e propagação de informações, tais como linguagem escrita, oral, corporal, língua de sinais, intérpretes, sinalização adequada dos locais, entre outros. ● Dimensão Instrumental: refere-se à adequação dos equipamentos e dispositivos integrados em locais de lazer, estudo ou trabalho, e que vão desde ferramentas cotidianas como lápis e canetas, até máquinas mais complexas como computadores. ● Dimensão Metodológica: aplicação e adequação de metodologias e técnicas dentro de ambientes escolares e de trabalho, que garantam o aprendizado e o desenvolvimento de tarefas. ● Dimensão Programática: eliminação das barreiras invisíveis presentes nas políticas públicas como leis, decretos, portarias, normas, regulamentos, entre outros. Dentre os diferentes tipos de acessibilidade anteriormente citados, neste trabalho final de graduação, o foco será a Acessibilidade Arquitetônica, também conhecida como Acessibilidade Espacial, que compreende bem mais do que apenas alcançar um local desejado, mas que também permite ao usuário entender sua função, sua organização, suas relações espaciais, assim como permitir a participação de todos nas atividades que ocorrem que o local oferece de forma segura, confortável e com independência, sem qualquer tipo de restrição ou discriminação. Para que isso ocorra, deve-se conhecer as premissas associadas a Acessibilidade Espacial. De acordo com Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012), a acessibilidade espacial apoia-se em 4 categorias, a saber: 30 ● Orientação Espacial, cujas condições são determinadas pelas características ambientais que permitem ao indivíduo reconhecer a identidade dos espaços e as suas funções, através de seus sistemas perceptivos; para que assim, possa definir estratégias para seu deslocamento e uso. ● Comunicação, que diz respeito à possibilidade de troca de informações, tanto de forma interpessoal quanto com a utilização de equipamentos de tecnologia assistiva, instrumentos facilitadores de funções; que permitam o acesso, o entendimento e a participação dos indivíduos nas atividades existentes. Resumidamente, a informação deve ser acessível a todos. ● Deslocamento, que se refere à possibilidade de movimentação de qualquer pessoa ao longo de percursos horizontais e verticais, “de forma independente, segura e confortável, sem interrupções e livre de barreiras físicas para atingir os ambientes que deseja” (DISCHINGER; BINS ELY.; PIARDI, 2012, p. 30). ● Uso, tanto dos espaços quanto dos equipamentos, remete-se à possibilidade de participação efetiva e de realização das atividades por todos. Para tal finalidade, muitas vezes é indispensável a utilização de equipamentos e dispositivos de tecnologia assistiva, como pisos táteis e sistemas de voz em computadores no caso de pessoas com deficiência visual. A inclusão pode ser definida como a possibilidade de participação em condições de igualdade e sem discriminação. No caso de pessoas com deficiência, é fundamental reconhecer sua diversidade e suas singularidades para que se possam promover as mudanças necessárias (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Conceitua-se a inclusão social como o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A inclusão social constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. (SASSAKI, 1997, p. 3). A inclusão social é uma ferramenta social muito importante, responsável por atuar na garantia de direitos a todos os cidadãos. E por se tratar de um problema tão complexo, que envolve diversos fatores como a capacitação do 31 deficiente e a garantia de seus direitos sociais de acesso à saúde, educação, trabalho, cultura e lazer. Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012) citam como aspectos inter-relacionados indispensáveis para se obter, de fato, a inclusão efetiva: ● O comportamento sociocultural, referente a eliminação da discriminação em relação à deficiência e a aceitação e respeito; ● A existência e a aplicação de leis, políticas e ações de inclusão, e a dotação financeira; ● As condições da saúde pública e do atendimento médico, para que se possa prevenir, tratar e, até mesmo, se recuperar dos diferentes tipos e níveis de deficiência; ● A presença de serviços de reabilitação, treinamento e educação especial, que auxiliam no aumento da competência do indivíduo com deficiência, o que melhora seu desemprenho na realização de atividades; ● A melhoria das condições do espaço físico, que podem dificultar ou impedir por completo a realização de algumas atividades; ● A disponibilidade de “tecnologias assistivas”, ferramentas tais como equipamentos, produtos e serviços usados para manter ou melhorar as capacidades funcionais de indivíduos com deficiência e dar mais autonomia. Dentre as várias adaptações necessárias, aquelas relativas ao espaço arquitetônico são muitas vezes essenciais para permitir a inclusão efetiva. 2.2.1 Contexto atual da acessibilidade no Brasil A Constituição Brasileira de 1988 garante o direito de igualdade a todos os cidadãos sem nenhuma forma de discriminação. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a assistência aos desamparados e a proteção à maternidade e à infância, para todas as pessoas independente do sexo, da cor, credo, condição social, idade ou deficiência. Segundo Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012), para permitir a inclusão na sociedade, são necessárias não só mudanças de ações políticas e legislativas de responsabilidade do Estado garantir, mas também mudanças culturais e de atitude. 32 Entre elas, é fundamental promover mudanças no ambiente físico para atingir melhores condições de acessibilidade espacial e permitir a todas as pessoas a realização de atividades desejadas. Entre 785 (15,6%) a 975 (19,14%) milhões de pessoas, em todo o planeta, possuem algum tipo de deficiência, segundo a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2021). De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, aproximadamente 46 milhões de brasileiros declarou ter algum grau de dificuldade em pelo menos uma das habilidades investigadas, como enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus (IBGE, 2022). Esse número representa cerca de 24% da população brasileira, enfrentando diariamente diversos tipos de obstáculos e barreiras, seja para obter informações, se comunicar, se deslocar e utilizar equipamentos, espaços e serviços públicos. Ainda de acordo com o Censo de 2010, quando se considera somente as pessoas que possuem grande ou total dificuldade para enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus (ou seja, pessoas deficientes com restrições nessas habilidades), além das que declaram ter dificuldade mental e/ou intelectual, temos mais de 12,5 milhões de brasileiros com deficiência, que corresponde a cerca de 6,7% da população brasileira. 33 Figura 1 – Porcentagem da população, por tipo e grau de dificuldade e deficiência. Fonte: IBGE, 2022. De acordo com a Figura 1, em 2010, a deficiência visual estava presente em 3,4% da população brasileira; a deficiência motora em 2,3%; deficiência auditiva em 1,1%; e a deficiência mental/intelectual em 1,4%. Mas além destas pessoas, qualquer indivíduo está sujeito a enfrentar dificuldades em realizar diversas atividades ao longo da vida, seja devido a acidentes, doenças ou até mesmo pelo processo natural de envelhecimento. Pessoas grávidas ou obesas têm dificuldade de utilizar transportes públicos e passar por roletas, e passar com carrinhos de bebês em ruas mal pavimentadas são exemplos disso, mostrando que as dificuldades podem atingir qualquer um (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Porém, no caso de pessoas com deficiência, a diferença é que essas dificuldades são permanentes, e muitas vezes, impossíveis de se superar, afetando não apenas a independência dessas pessoas, como também limitando seu acesso à cidadania (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). No Brasil, existe a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, conhecido também como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que tem por objetivo 34 “assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania” (BRASIL, 2015). O Decreto nº 5.296/2004 determina que a NBR 9050, norma reguladora criada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), seja utilizada como referência para a criação de projetos. Essa é norma técnica mais importante para assegurar edifícios acessíveis, pois define as diretrizes relacionadas à acessibilidade em edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos. Dentre as diversas orientações feitas pela NBR 9050, pode-se citar aquelas que se referem à sinalização horizontal e vertical, ao espaço de circulação adequado para cadeira de rodas, ao tamanho de banheiros, características de pisos, rampas de acesso, estacionamentos. Porém, apesar das leis e normas técnicas existentes no país, a maioria dos edifícios em nossas cidades foram construídos sem considerar as questões da acessibilidade espacial. De acordo com Dischinger, Bins Ely e Piardi (2012) isso acontece tanto por conta da complexidade do problema quanto pela dificuldade de acesso ao conhecimento técnico necessário para a sua solução destes obstáculos, que podem surgir de duas formas: físico-espaciais, geralmente denominadas de barreiras arquitetônicas, ou as atitudinais. As barreiras físico-espaciais são os elementos físicos, naturais ou construídos, que dificultam ou impedem a realização de atividades desejadas de forma independente. Por exemplo, a colocação de canteiros reduzindo a área de circulação num passeio público impede o deslocamento de uma pessoa em cadeira de rodas, sendo também um obstáculo para todos os pedestres. (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI 2012, p.14) As barreiras físicas podem se distinguir entre permanentes e temporárias (ou dinâmicas) dependendo da sua duração no tempo e no espaço. Para ficar mais claro, as autoras dão o exemplo de um poste e um carrinho de pipoca. O primeiro caso se categoriza como um obstáculo permanente num passeio, enquanto o segundo se configura como uma barreira temporária. Por outro lado, as barreiras atitudinais se estabelecem na esfera social, quando as relações humanas se centram nas dificuldades dos indivíduos e não em 35 suas habilidades, criando empecilhos para a sua participação na sociedade. (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Conforme as autoras, é muito difícil combater as atitudes de discriminação e preconceitos arraigados sobre o que as pessoas com deficiências podem ou não fazer, que podem surgir devido à falta de conhecimento sobre as diferentes deficiências. Mesmo que a solução dos problemas gerados por barreiras atitudinais não seja possível por meio de transformações no espaço físico, é importante o seu reconhecimento para desenvolver ações de conscientização da população no sentido de respeito às leis e práticas efetivas de inclusão social das pessoas com deficiência. (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012, p.14) 2.2.2 Conceito de Desenho Universal A partir do final da segunda guerra mundial e principalmente após os anos 1960, houve uma crescente conscientização mundial a respeito dos direitos de cidadania e de participação em todos os aspectos da vida social das pessoas que possuem algum tipo de deficiência (DISCHINGER; BINS ELY; PIARDI, 2012). Com o intuito de evitar a necessidade de “projetos especiais” ou “adaptações” para pessoas com deficiência, e a fim de assegurar que todos possam utilizar com autonomia e segurança os diversos espaços e objetos construídos, sejam eles ambientes, meios de transporte ou até mesmo utensílios, na década de 1980 surgiu uma nova área de atuação e pesquisa atualmente conhecida no Brasil como “Desenho Universal”, cunhada pelo arquiteto norte-americano Ron Mace, que também era usuário de cadeira de rodas e de respirador artificial. De acordo com o livro "Diretrizes do Desenho Universal na Habitação de Interesse Social no Estado de São Paulo", lançado em 2010 pelo Governo do Estado de São Paulo, no ano de 1990, um grupo de arquitetos defensores de uma arquitetura e design mais focados no ser humano e na diversidade se reuniu no Centro de Desenho Universal da Escola de Design da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e definiu os sete princípios do Desenho Universal, que foram adotados mundialmente em planejamento e obras de acessibilidade. São eles: https://www.archdaily.com.br/br/tag/desenho-universal https://www.archdaily.com.br/br/tag/habitacao 36 1) Uso Equitativo: espaços, objetos e produtos que não são foram feitos apenas para um grupo de pessoas, mas que evitem segregação ou estigmatização de qualquer usuário, de forma a ser atraente e garantir igualdade, privacidade, segurança e proteção a todos. 2) Uso Flexível: espaços que atendam às diferentes necessidades de usuários com diferentes habilidades e preferências e que possibilitem adequações e transformações, tais como as dimensões de um ambiente. 3) Uso Simples e Intuitivo: os ambientes devem ser de fácil compreensão, independente da habilidade, conhecimento ou atenção dos usuários, de forma que evitem complexidades desnecessárias. 4) Informação de fácil percepção: os meios de comunicação devem passar as informações necessárias com o máximo de clareza para os indivíduos, para tornar fácil o uso do equipamento ou espaço. 5) Tolerância ao erro (segurança): afim de minimizar o risco de acidentes, a concepção dos espaços e a escolha correta de materiais e demais produtos é fundamental. 6) Esforço físico mínimo: os elementos de um espaço devem ser dimensionados de tal modo a minimizar ações repetitivas e esforços físicos, para que estes sejam feitos de forma eficiente, segura, confortável e com o mínimo de fadiga. 7) Dimensionamento de espaços para acesso e uso abrangente: os espaços devem ser garantir o acesso e o uso a todas as pessoas, a partir de dimensões e espaços apropriados que certifiquem que independente do tamanho ou mobilidade, todos os usuários serão capazes de utilizá- los. De acordo com Dischinger, Bins Ely e Piardi, (2012), bons exemplos de Desenho Universal não são discriminatórios ou exclusivos, mas sim beneficiam todas as pessoas. Além disso, muitas soluções acabam passando despercebidas, já que somente podem ser identificadas quando se tem conhecimento das razões que as motivaram. Logo, é fundamental conhecer as diferentes deficiências e identificar os diversos tipos de problemas que podem ocorrer no uso de espaços e equipamentos 37 para se criar ambientes acessíveis a todos. 2.3 Conforto Ambiental A busca pelo bem-estar físico, fisiológico e psicológico humano vem de longa data, porém apenas nas últimas décadas têm se intensificado os estudos dos efeitos do conforto sobre as pessoas em ambientes internos (LAMBERTS; XAVIER, 2003). A Psicologia Ambiental é uma área da Psicologia que busca compreender a forma com que o espaço e as condições de conforto de um ambiente influenciam o comportamento humano, possibilitando que a arquitetura desenvolva um ambiente mais humanizado e coerente, ao propor uma união entre o psicológico e o arquitetônico. Diante disso, surge o Conforto Ambiental, um conjunto de características e estratégias capazes de satisfazer as necessidades humanas através de um ambiente construído, e que pode ser definido uma condição mental e física que expressa total satisfação do homem com o meio em que vive (SUNDARRAJA et al., 2009). Conforto Ambiental é um termo que descreve um estado de satisfação do ser humano em um determinado espaço. Estar em conforto ambiental significa que o espaço proporciona boas condições psicológicas, hidrotérmicas, acústicas, visuais, de qualidade do ar e ergonômicas para a realização de uma tarefa humana, seja de lazer, trabalho, descanso ou estudo. (BOLLNOW,2008) A partir disso, percebe-se a importância do conforto ambiental para se pensar em um ambiente que proporcione todas as condições adequadas à realização das diversas atividades humanas como o estudo, o trabalho, o descanso e outras. Para Corbella e Yannas (2003), uma pessoa está confortável quando observa ou sente um acontecimento ou fenômeno sem preocupação ou incômodo, sentindo neutralidade em relação a ele. Ainda de acordo com as autoras, o conforto ambiental pode ser dividido em três categorias básicas, ou principais: o conforto térmico, relacionado à 38 temperatura, umidade relativa e movimento do ar, radiação solar e radiação infravermelha; o conforto visual, lumínico ou luminoso, relacionado a ver bem, a ter uma quantidade de luz agradável, que permita a realização de tarefas de forma satisfatória; e o conforto acústico, relacionado a ambientes em que não haja a presença de nada que interfira na capacidade de ouvir satisfatoriamente o som desejado, e que bloqueie ruídos indesejados. Com tudo que foi dito, pode-se concluir então que para garantir a acessibilidade de forma definitiva, todo projeto arquitetônico deve garantir o acesso e o uso do ambiente para todas as pessoas, promovendo uma boa relação entre o espaço o usuário. Para isso, devem ser seguidas as diretrizes do Desenho Universal e as leis e normas de acessibilidade. Além disso, a arte e a dança são dois instrumentos de expressão artística capazes de promover a inclusão, através da interação e participação de indivíduos normalmente excluídas das atividades sociais, que se utilizam dessas ferramentas para poder se expressar, explorar sua criatividade e melhorar sua autonomia. 39 3 ESTUDOS DE CASO Para os estudos de caso que irão nortear o projeto deste Trabalho de Conclusão de Curso foram escolhidas 3 obras, com objetivos de investigação distintos. O primeiro deles, a Praça das Artes, projetada pelo escritório Brasil Arquitetura, apresenta uma integração muito grande do edifício com o exterior e com a comunidade local, além do uso de materiais interessantes. O segundo, o Centro de Arte Corpo, se destaca por sua volumetria e materialidade, que ao mesmo tempo em que complementam a paisagem, também destacam a monumentalidade do edifício em comparação com seu entorno. E por fim, a Instituição Solidariedança, cuja missão é a inclusão sociocultural, que permite analisar o programa de necessidade e investigar de perto a relação dos usuários, principalmente deficientes, com o espaço. 3.1 Praça das Artes - Brasil Arquitetura - 2012 Projetada pelo escritório Brasil Arquitetura, a Praça das Artes é um espaço cultural implantado no quadrilátero das Ruas Conselheiro Crispiniano e Formosa, da Av. São João e da Praça Ramos de Azevedo, no coração de São Paulo, em uma região bastante degradada pelo abandono às novas centralidades. O projeto possui uma área total construída de 28500 m², e foi inaugurado em 2012. O projeto foi instalado no antigo prédio do Conservatório Dramático Musical (edifício branco da Figura 2) de São Paulo, um importante marco histórico e arquitetônico que se encontrava inutilizado há décadas, e gerar uma revitalização urbana na área. http://www.brasilarquitetura.com/ https://bit.ly/1aUOpZt https://bit.ly/1aUOpZt https://www.archdaily.com.br/search/br/projects/min_area/22800/max_area/34200?ad_name=project-specs&ad_medium=single 40 Figura 2 – Vista fachada - Praça das Artes Fonte: ArchDaily, 2022 Mas além de restaurar e reabilitar este edifício, o projeto da Praça das Artes também o vinculou a um conjunto de novas construções e espaços de circulação. Desta forma, o novo complexo integra as sedes das Orquestras Sinfônica Municipal e Experimental de Repertório, dos Corais Lírico e Paulistano, do Balé da Cidade e do Quarteto de Cordas, e abriga também as Escolas Municipais de Música e de Dança, o Museu do Teatro, o Centro de Documentação Artística, além de restaurantes, um estacionamento subterrâneo e áreas de convivência (Figura 3). https://www.archdaily.com.br/ 41 Figura 3 – Diagrama da Praça das Artes. Fonte: ArchDaily, 2022. Logo, este equipamento cultural não atende apenas à carência de espaços para o funcionamento do Teatro, como também desempenha um importante papel na requalificação da área central da cidade, por conta de seu complexo programa de uso marcado por funções de caráter público, convivência e vida urbana. https://www.archdaily.com.br/ 42 Figura 4 – Planta do pavimento térreo da Praça das Artes. Fonte: Miyazaki et al., 2014. Figura 5 – Planta do primeiro pavimento da Praça das Artes. Fonte: Miyazaki et al., 2014. 43 Figura 6 – Planta do segundo pavimento da Praça das Artes. Fonte: Miyazaki et al., 2014. Há projetos de arquitetura que se impõem soberanos em grandes espaços livres, situações aprazíveis e visíveis à distância, e há outros projetos que se acomodam em situações adversas, espaços mínimos, nesgas de terrenos comprimidos por construções preexistentes, em que os parâmetros para seu desenvolvimento são ditados pelas dificuldades. O caso da Praça das Artes se enquadra dentre esses últimos. (ARCHDAILY, 2022) O projeto cria um contraste entre a arquitetura pré-existente e a nova, e sua implantação foi feita de tal modo no terreno que o edifício se encaixa perfeitamente no espaço, sem excluir ou apagar o que há em seu entorno (Figura 7). Além disso, as áreas construídas foram distribuídas de forma que não atrapalhassem a circulação e o fluxo das pessoas. Sendo assim, o pavimento térreo funciona como uma extensão da cidade. 44 Figura 7 – Implantação da Praça das Artes. Fonte: ArchDaily, 2022. Na parte externa, as paredes e os forros foram revestidos com placas de concreto aparente, na cor ocre, que oferecem um aspecto rústico, irregular e muito interessante ao conjunto (Figura 8). Figura 8 – Foto da Praça das Artes. Fonte: ArchDaily, 2022. Já a parte interna recebeu um grande investimento para o tratamento acústico do edifício, e foi inclusive equipada com amortecedores para absorver os ruídos e vibrações que pudessem ter repercussão durante os ensaios. https://www.archdaily.com.br/ https://www.archdaily.com.br/ 45 Figura 9 – Sala de concertos da Praça das Artes. Fonte: ArchDaily, 2022. Por fim, conclui-se que além de todas as características arquitetônicas citadas, o projeto cumpre um papel social muito importante, pois serve de palco a eventos abertos ao público e a encontros em suas áreas livres de convívio. 3.2 Centro de Arte Corpo Primeiro colocado na quarta edição do concurso nacional Prêmio Usiminas Arquitetura em Aço, de 2002, no qual concorreu com outros 160 projetos, este complexo para artes e dança organizou seu programa em quatro caixas de aço construídas em etapas (VITRUVIUS, 2022). O projeto (Figura 10) foi realizado a partir da análise de diversos condicionantes pré-existentes, e buscou soluções criativas que respondessem as questões impostas pelo edital do concurso, como o local, os usos propostos, a tecnologia de construção empregada e a relação com as artes e cultura contemporânea (VITRUVIUS, 2022). Além disso, o local escolhido para a implantação do Centro de Arte Corpo, o município de Nova Lima (MG), permite que este seja entendido não só como um centro de cultura, mas também como o marco inicial de construção de uma urbanidade desejável, uma ideia de cidade. https://www.archdaily.com.br/ 46 Figura 10 – Vista aérea do Centro de Arte Corpo. Fonte: Arquitetos Associados, 2022. De acordo com os próprios arquitetos responsáveis, o projeto responde às especificidades do sítio proposto em quatro âmbitos diferentes: o da geografia, a da estrutura urbana existente, a da relação entre o edifício e o espaço público, e as características geomorfológicas do local. As grandes dimensões verticais do conjunto se tornam um elemento escultórico que complementa a paisagem a sua volta assim como reafirmam a relevância do edifício, ao que este se destaca das outras construções presentes em seu entorno (VITRUVIUS, 2022). Isso devido ao contraste que projeto estabelece entre os grandes volumes que atendem as atividades propostas e os vazios que segmentam as massas de edificações. Desta forma, o conjunto demarcar o interior do exterior e o exterior, e define os domínios públicos e privados (VITRUVIUS, 2022). Outro importante aspecto que surge da consideração do espaço urbano é a abertura proposta, que visa a não distinção entre frente e fundo, buscando uma integração equilibrada entre o projeto e o conjunto adjacente, a evitar o confinamento excessivo dos espaços públicos. Essa estratégia reforça o caráter atípico da intervenção, permitindo novas ocupações nos terrenos da circunvizinhança com atividades complementares ao conjunto. Para isso, procurou-se, através das fendas escultóricas que seccionam os volumes, fragmentar a massa construída a 47 fim de estabelecer conexões entre seus dois lados, de modo a ampliar as possibilidades de apropriação do espaço público pelos futuros habitantes das quadras adjacentes. (VITRUVIUS, 2022, online) Figura 11 – Maquete eletrônica Centro Arte Corpo. Fonte: Arquitetos Associados, 2022. O programa de necessidades foi dividido em 2 (dois) grandes setores, um de uso púbico e o outro para a sede do Grupo Corpo Companhia de Dança, que foram dispostos de tal modo a funcionar como duas partes que se complementam formando um conjunto coeso. Isso também acaba com a ideia de frente e fundo, o que permite que o conjunto possa ser acessado por todos os lados (VITRUVIUS, 2022). Figura 12 – Corte longitudinal lateral. Fonte: H F Arquitetos, 2022 48 Figura 13 – Planta do pavimento térreo. Fonte: H F Arquitetos, 2022 Figura 14 – Planta do primeiro pavimento. Fonte: H F Arquitetos, 2022 Figura 15 – Planta do segundo pavimento. Fonte: H F Arquitetos, 2022 Figura 16 – Planta do terceiro pavimento. Fonte: H F Arquitetos, 2022 Por fim, em relação à sua materialidade, o elemento principal do edifício e pelo qual este é revestido, é aço oxidado, que reforça a relação com a paisagem. 49 Além disso “o uso do aço, ainda que na sua produção exija grande dispêndio de energia, é recomendável por suas diversas possibilidades de reciclagem, minimizando a longo prazo sua interferência negativa no ambiente” (VITRUVIUS, 2022, online). Seu uso também foi estendido aos trechos internos para promover a continuidade. No Centro de Arte Corpo o aço é mais do que estrutura ou suporte: é elemento que enfatiza a estratégia da busca de uma síntese entre uma linguagem universal e as influências regionais, como a dança do Corpo, a contribuir para a construção de uma expressão contemporânea da cultura brasileira. (VITRUVIUS, 2022). 50 4 SOLIDARIEDANÇA Este capítulo apresenta o objeto de estudo, o Solidariedança, um edifício que visa explorar os movimentos do corpo e transformar as deficiências em potencial a partir da dança como ferramenta de reabilitação. E, por fim é realizado um diagnóstico das diversas áreas que compõe o Solidariedança para subsidiar a proposta projetual. 4.1 O Solidariedança Filiada à Confederação Brasileira de Dança em Cadeira de Rodas (CBDCR), a Solidariedança é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão a inclusão sociocultural, que se tornou referência no trabalho de popularização da arte, e que conta com o maior grupo de dança artística em cadeira de rodas do país, cerca de 30 pessoas (Figura 17). Figura 17 – Espetáculo "Nossa História. Por trás das cortinas", 2016. Fonte: Solidariedança, 2022. Fundado em 2008, o projeto surgiu da fisioterapeuta e bailarina Cintia Lima, que tinha a intenção de tonar a rotina da clínica de reabilitação mais suave e prazerosa, a fim de explorar os movimentos do corpo sem a pretensão de deixá-los perfeitos, mas de torná-los reais em suas emoções, sensações e impressões, e de 51 transformar a deficiência em potencialidade (SOLIDARIEDANÇA, 2022). De acordo com a fundadora, "O Solidariedança nasceu de um sonho. O de tornar o dia-a-dia de uma clínica de fisioterapia mais leve, uma rotina de prazer" (SOLIDARIEDANÇA, 2022). A instituição conta com o apoio de voluntários de diversas áreas, como fisioterapia, educação física, teatro, dança, psicopedagogia, musicoterapia, psicologia e advocacia, que trabalham juntos com a direção do local para atender mais de 400 associados, com e sem deficiência, que frequentam o Solidariedança. Localizado no município de São Paulo – SP, na região sudeste da cidade, o seu acesso é feito pela Avenida do Oratório (Figura 18), importante via que corta todo o distrito do São Lucas e o liga ao município de Santo André. Figura 18 – Implantação Solidariedança. Fonte: Adaptado do Google Maps pela autora, 2022. Atualmente, o local oferece 11 cursos distintos, além de alguns projetos e parcerias realizados junto com a comunidade local, listados a seguir. ● Dança em Cadeira de Rodas. ● Ballet Clássico (infantil e adulto). 52 ● Jazz (infantil e adulto). ● Contemporâneo. ● Dança de Rua. ● Dança de Salão. ● Dança do Ventre. ● Dança Flamenca. ● Teatro. ● Eficiência Física. ● Fisioballet. 4.2 O edifício O Solidariedança foi implantado em um antigo galpão comercial, cujo terreno tem aproximadamente 468 m². O edifício é dividido em 2 níveis: térreo e subsolo. O térreo concentra as salas de aulas, a recepção e a cozinha; enquanto o subsolo é reservado para o depósito de roupas de dança e outros materiais, além de uma sala de gravações de vídeos e aulas online, realizados durante a pandemia da COVID-19. As Figuras 19 e 20 apresentam, respectivamente a planta do pavimento térreo e do subsolo. 53 Figura 19 – Planta do pavimento térreo do Solidariedança, sem escala. 54 Figura 20 – Planta do subsolo do Solidariedança. 4.3 Diagnóstico da infraestrutura física do edifício Para avaliar a infraestrutura física da escola de dança foram utilizadas técnicas de avaliação pós-ocupação do ambiente construído que permitiram avaliar qualitativamente os seguintes elementos: dimensionamento dos ambientes, acessibilidade e qualidade destes espaços. O diagnóstico foi realizado em três etapas distintas: i) avaliação técnica realizada com a diretora da escola, utilizando o método do walkthrough (passeio acompanhado), e ii) aplicação de entrevistas a docentes, discentes e pais de alunos da escola, para identificar os principais problemas relacionados a acessibilidade, ao conforto e organização funcional do edifício, que irão subsidiar a proposta projetual de um novo edifício para o Solidariedança. 55 4.3.1 Walkthrough Para obter um diagnóstico completo da instituição foi utilizado o método Walkthrough, que combina simultaneamente uma análise feita por observação com uma entrevista elaborada com os próprios usuários, o que possibilita a identificação dos aspectos positivos e negativos do ambiente analisado (RHEINGANTZ et al., 2009). O Passeio Walkthrough, segundo Rheingantz et al. (2009), consiste na realização do percurso do ambiente guiado por algum usuário do local, para que, através de diálogos, de fotografias e das percepções dos espaços físicos, entre outros tipos de registro, seja possível compreender os usos dos ambientes construídos, suas qualidades e defeitos, e toda relação desenvolvida com seus usuários. A responsável por acompanhar o trajeto foi a própria idealizadora da Associação Solidariedança de Arte e Cultura, Cíntia Lima, que dispõem de grande conhecimento sobre todas as áreas do edifício. O percurso teve seu início na entrada do edifício, passou por todos os ambientes do pavimento térreo, até descer para o subsolo, no qual foi finalizado, como mostra a Figura 21. 56 Figura 21 – Percurso realizado no walkthrough. Ao entrar no local, os usuários logo se deparam com um longo corredor (Figura 22 c), que abriga as áreas da recepção, de espera (Figura 22 b) e uma pequena cozinha (Figura 22 a). Devido às celebrações de Festa Junina, o edifício estava todo decorado com bandeirinhas e outros adereços típicos da comemoração. De imediato foi possível perceber que um dos principais problemas do edifício se refere a acústica local, pois desde a porta de entrada já era possível escutar o som alto que vinha de ambas as salas de aula. Outro ponto notado, foi em relação ao fluxo de pessoas no estreito corredor. A visita foi realizada num sábado de manhã, no horário da turma de dança com cadeiras de rodas, que 57 precisa formar uma fila para conseguir entrar na sala de aula devido a largura do corredor (que possui 1,5 m de largura), o que dificulta a circulação (Figura 23). Figura 22 – Fotos do hall de entrada – Solidariedança. 58 Figura 23 – Corredor que dá acesso à Sala 1. Em seguida, adentramos a sala 1. Seu acesso é realizado por meio do corredor principal que liga o espaço com a entrada do edifício. A “Sala do tablado”, como também é conhecida devido ao seu piso de tablado de madeira, possui cerca de 120m², sendo o segundo maior ambiente do edifício e, apesar de ter uma boa iluminação natural (Figura 24 c), sua cobertura de zinco ondulado, por não possuir forro, não proporciona um bom isolamento acústico, o que intensifica ruídos externos, como os da outra sala de aula, os barulhos do impacto da água em dias de chuva forte, e até mesmo os sons da rua. Outro ponto negativo desse espaço apontado por muitos usuários é a questão da ventilação. Durante o verão a sala se torna uma espécie de estufa devido ao calor, e nem mesmo os ventiladores existentes conseguem trazer alívio em função da falta de aberturas adequadas para circular o ar. Na parede de divisa do terreno pode-se observar uma ‘janela’ que permite a ventilação desta sala (Figura 24a). A iluminação é realizada por meio de lâmpadas e por telhas translúcidas que torna o ambiente bem iluminado (Figura 24 c), mas isso também contribui com o aquecimento do local. A sala 1 possui um espelho fixado ao longo de toda parede e barras de 59 apoio para exercícios (Figura 24 b). As paredes internas são pintadas na cor preta. O tipo de fechamento externo para a área de circulação é realizado por divisórias de madeira, finas e baixas (Figura 17 a), que também contribuem para o ruído. Figura 24 – Fotos da Sala 1 – Solidariedança O próximo ambiente analisado foi o banheiro (Figura 25), que atende tanto as mulheres quanto os deficientes físicos do Solidariedança. Durante a visita, muitos cadeirantes afirmaram que nunca utilizaram o banheiro da instituição, seja por este ser longe da entrada ou devido ao seu acesso mais dificultado. Em relação ao seu tamanho, ele atende as dimensões mínimas recomendadas pela NBR 9050, porém alguns dos cadeirantes necessitam de ajuda para utilizá-lo, e o espaço não é suficiente para duas pessoas. 60 Não há iluminação no local, e apesar das telhas translúcidas permitirem que entre iluminação natural durante o dia, a noite o ambiente depende que as luzes dos outros espaços estejam acesas para que os usuários possam usar o banheiro. O banheiro possui um vaso sanitário, uma cuba sanitária, um chuveiro, que se encaixam nas diretrizes da NB% 9050, e barras de apoio estão presentes em quase todas as paredes, porém não há apoio na porta. As paredes internas são brancas, mas apresentam manchas causadas por mofo ou infiltração (Figura 25). Figura 25 – Fotos do banheiro – Solidariedança. Na sequência foi realizada a visita na sala 2. Seu acesso é realizado por meio de uma rampa, para vencer um desnível de 1,20 m. Também conhecida como “sala emborrachada” por conta do tipo de piso utilizado que diminui o impacto dos 61 dançarinos com o chão, este ambiente apresenta os mesmos problemas já apontados na sala 1, principalmente em relação à acústica. Figura 26 – Fotos da Sala 2 – Solidariedança. Fonte: Imagens da Web, 2022. Para finalizar a visita, uma das alunas e sócias da instituição apresentou a área do subsolo, no qual são guardados todos os figurinos e materiais como os moldes dos figurinos e as máquinas de costura, utilizadas para confeccionar alguns trajes e realizar ajustes nas roupas das apresentações (Figura 27 b). O ambiente também possui um espaço reservado para as gravações das videoaulas e das lives realizadas no período pandêmico em que o centro não funcionou presencialmente (Figura 27 c). No geral, o subsolo funciona como um grande depósito, devido a sua falta 62 de ventilação natural, uma vez que as aberturas presentes no espaço não são suficientes para arejar o local (Figura 27), e não permitem que as aulas possam ser realizadas ali. A rampa de acesso a este espaço não segue as normas definidas pela NBR 9050, pois ultrapassa os 8,33% de inclinação, o que a torna inacessível aos usuários de cadeiras de rodas. Figura 27 – Fotos do subsolo – Solidariedança. 4.3.2 Avaliação de Usuários A fim de entender um pouco melhor a visão dos usuários e esclarecer os pontos positivos e negativos do edifício a partir de diferentes experiências, foram entrevistados 3 membros da diretoria que também são professores, 2 pais de alunos, 1 voluntário e 6 alunos (Figura 28); o que ao todo resulta em 12 pessoas, dentre as quais 4 são usuárias de cadeiras de rodas (Figura 29). 63 Figura 28 – Função exercida dos entrevistados. Figura 29 – Porcentagem dos entrevistados que possuem deficiência. Foram realizadas 10 perguntas, que buscaram entender se o edifício é considerado adequado para seus usuários (Apêndice 1). A primeira pergunta questionava se o edifício atual atende à atividade e a prática da Dança, e todos os entrevistados confirmaram que sim (Figura 30), porém um dos professores comentou que a acústica do local não é satisfatória, e que quando acontecem duas aulas simultâneas, o som de uma sala atrapalha a outra. 64 Figura 30 – O edifício atende à atividade da dança? Em seguida foi perguntado qual dos ambientes cada entrevistado considerava como o melhor, e as respostas se dividiram entre as duas salas de aula (Figura 31). No caso da sala 1, a justificativa é de que ela é mais ampla, e por isso possui mais espaço para a circulação dos cadeirantes; enquanto que para a sala 2 a explicação está associada ao tipo de piso, que por ser emborrachado, para muitos alunos, é considerado mais confortável para dançar. Figura 31 – Ambiente mais confortável. A próxima pergunta se referia aos maiores problemas do edifício. Na opinião dos entrevistados, o conforto térmico do lugar (Figura 32), foi considerado o pior para 5 entrevistados. De acordo com alguns alunos e funcionários, a 65 sensação é que o edifício “intensifica todas as sensações térmicas do lado de fora”, ou seja, “em dias frios o interior é muito frio, e em dias de verão, o interior é muito quente”. Além deste problema, também foram mencionados problemas de acústica, já citado anteriormente, e de acessibilidade no local, como por exemplo, a existência de uma grelha no piso, próximo a sala 1, que foi coberto com uma tábua de madeira, para facilitar o deslocamento das cadeiras de rodas. Foi relatado que antes muitas cadeiras de rodas ficavam presas nesta grelha (Figura 33). Figura 32 – Maiores problemas encontrados no edifício. Figura 33 – Vão que atrapalha a circulação das cadeiras de rodas. 66 Sobre o conforto do edifício em relação à sua infraestrutura, muitos responderam que não, devido aos problemas já apresentados (Figura 34). Uma das entrevistadas até afirmou que o local é “funcional, porém desagradável”, enquanto outra explicou que se sente acolhida pelas pessoas e pelo projeto, porém não pelo espaço. Figura 34 – Conforto do edifício. Outra questão se referiu a visibilidade da entidade, para identificar como a comunidade local enxerga o Solidariedança. As respostas apontaram que, apesar de toda divulgação realizada, boa parte da comunidade não sabe o que é feito ali e pensa que a associação trabalha apenas com cadeirantes, ou não entende a proposta do local. Um dos entrevistados disse: “Ainda não são todos que conhecem ou entendem o trabalho do Solidariedança. Muitas vezes pessoas de mais longe acabam conhecendo, mas quem mora pela região nem sempre compreende”. Para entender um pouco melhor o porquê disso, a próxima pergunta questionou se existiam outras atividades, além da dança, que ajudavam a promover a integração entre a instituição e a comunidade, e como resposta foram citados diversos projetos. Há vários eventos e festas, além de colaborações realizadas com escolas, instituições e até mesmo orfanatos, além de um espetáculo realizado todo ano com uma temática diferente, mas destaca-se o trabalho da psicóloga e da nutricionista voluntárias que atendem a comunidade. 67 Figura 35 – Espetáculo "La Muerte", 2019. Fonte: Solidariedança, 2022. As últimas perguntas buscaram entender as mudanças e melhorias desejadas pelos usuários do Solidariedança, e a partir delas, surgiram diversas respostas interessantes. Muitos alunos e professores afirmaram que há uma necessidade urgente de melhorar a sensação térmica e a acústica do edifício e sentem que o espaço disponível é insuficiente e inadequado. Com relação a área interna das salas de aula, foi sugerido a implementação de um piso mais adequado, que absorva melhor o impacto dos dançarinos com o chão. Para os outros ambientes a maior observação foi em relação à recepção, que poderia ser mais agradável, e ao acesso aos banheiros que deveriam ser mais próximos da recepção. Além disso, foi sugerido a criação de alguns novos ambientes como vestiários, sala de reuniões, uma cozinha mais privativa, mais banheiros, brinquedoteca e até mesmo uma “sala azul”, que seria de grande uso durante crises sensoriais de pessoas autistas. 4.3.3 Síntese dos resultados De modo geral, os usuários da Associação Solidariedança de Arte e Cultura apreciam o local, mesmo com suas falhas arquitetônicas. As críticas a infraestrutura do edifício se limitam basicamente ao seu conforto térmico e acústico, principalmente dentro das salas de aula; e ao acesso dos cadeirantes à parte mais 68 interna do local, como os banheiros, a sala 2 e o subsolo. Outro ponto discutido foi em relação à falta de espaço dos ambientes em geral, porém quando se analisa o subsolo percebe-se que este é bem amplo, e abrigaria facilmente outras funções caso seu acesso, ventilação e iluminação fossem resolvidos. Além disso, muitas soluções encontradas no local foram improvisadas pelos próprios membros da instituição, como é o caso das divisórias da sala 2, idealizadas e produzidas pelo pai de uma das alunas. Fora isso, alguns elementos do edifício também se encontram desgastados pelo tempo e uso, como os pisos e a pintura das paredes. 69 5 PROPOSTA PROJETUAL PARA O SOLIDARIEDANÇA Neste capítulo é apresentada a nova área para a implantação do edifício do Solidariedança, o programa de necessidades, partido arquitetônico adotado e o projeto final. 5.1 Área de Intervenção do novo edifício do Solidariedança De acordo com os objetivos do projeto, considera-se que a Zona Leste da cidade de São Paulo seja interessante para a implantação de um novo centro de arte e cultura, devido ao acesso facilitado para os usuários e a gama de outras infraestruturas existentes que proporcionam cultura, esporte e lazer. 5.1.1 A cidade de São Paulo São Paulo é a capital do estado homônimo e sede da Região Metropolitana de São Paulo, e está entre as cidades mais populosas do mundo, com aproximadamente 12.396.372 habitantes, e cerca de 1.521 km² de área, segundo o Censo de 2021 do IBGE (IBGE, 2022). Figura 36 – Localização do município de São Paulo no Estado. Fonte: Wikipedia, 2022. Centro financeiro do Brasil, o município é considerado uma cidade global, por conta de seu dinamismo econômico e de todos os serviços que oferece, além das diversas instituições culturais e de sua arquitetura. São Paulo é rico em Arte e Cultura. Além de seus inúmeros museus, salas 70 de cinema, bibliotecas, teatros e centros culturais, a cidade também possui diversas festas populares e feiras que acontecem em seus espaços públicos. O Teatro Municipal, por exemplo, um dos mais tradicionais da cidade, tem diversas atrações em sua programação, como apresentações periódicas da Orquestra Sinfônica Municipal, artistas da MPB e o Balé da Cidade. 5.1.2 A escolha do terreno A Zona Leste é a área mais populosa de São Paulo, com aproximadamente 4.620.494 habitantes, e é muito rica em cultura e lazer (Figura 37). Alguns de seus atrativos são: Arena Corinthians, Capela São Miguel, Centro Cultural da Penha, Parque Ecológico do Tietê, Parque do Carmo, Parque do Piqueri, CERET, Parque Linear Várzeas do Tietê, Museu da Imigração, Shopping Aricanduva, Casa da Memória, Sesc Belenzinho, Casa do Tatuapé, Parque São Jorge, Basílica Nossa Senhora da Penha, Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Templo de Salomão, entre muitos outros. 71 Figura 37 – Mapa com a divisão dos bairros de São Paulo. Fonte: Mapas SP, 2022. O terreno escolhido está localizado próximo ao Shopping Anália Franco (Figura 38), no bairro do Tatuapé, que se situa na Zona Leste de São Paulo e é considerado um dos bairros mais tradicionais da cidade. A região possui comércios e oferece diversas opções de cultura e lazer, como é o caso do famoso Parque Esportivo dos Trabalhadores, também conhecido como CERET (Figura 38), que possui aproximadamente 268.000 m² e abriga quadras poliesportivas, campo de futebol, ginásios, piscinas, parquinhos, trilhas de caminhada, entre outros. Em relação a área de saúde, a região também se destaca devido a facilidade de acesso e a vários hospitais e clínicas especializadas, como o Hospital São Luiz e o Hospital Maternidade Vitória. 72 Figura 38 – localização do terreno no entorno imediato. Fonte: Google Maps, 2022; com alterações da autora. A escolha do terreno se justifica tanto pela presença destes diversos equipamentos urbanos próximos ao local, como também pela facilidade de acesso as Avenidas Regente Feijó e Abel Ferreira (Figura 38), importantes vias de tráfego de São Paulo. O terreno possui cerca de 25.000m² e encontra-se em uma área definida pelo Plano Diretor de São Paulo como ZC, ou Zona de Centralidade (Figuras 39 e 40), definida como uma porção do território que se situa fora dos eixos de estruturação da transformação urbana, e cujo objetivo é promover atividades típicas de áreas centrais, subcentros regionais ou de bairros. Além disso, este tipo de zona pretende promover majoritariamente usos não residenciais, e é definida por: ● Testada mínima = 5m. ● Gabarito máximo = 48m. ● Coeficiente de aproveitamento máximo (C.A. máx) = 2,0. ● Taxa máxima de ocupação (T.O.) = 0,7 ou 70%. ● 1 vaga de garagem para cada 70m² de área construída computável (no caso de uso não residencial). https://www.archdaily.com.br/ 73 Figura 39 – Definição das Zonas de Centralidade (ZC). Fonte: Cartilha de Zoneamento Ilustrado, 2016. Figura 40 – Mapa de zoneamento com a localização do terreno. Fonte: Google Maps, 2022; Prefeitura de São Paulo, 2016. O terreno também pode ser acessado por transporte público. Ao todo existem 15 pontos de ônibus, localizados em um raio de 500m, definidos a partir do https://www.archdaily.com.br/ 74 lote, que possibilitara o deslocamento de alunos, professores e funcionários ao edifício, pois diversas linhas de ônibus passam diariamente nesse entorno. Destaca-se que 3 (três) destes pontos de ônibus estão localizados na Rua Antônio Alves Barril, endereço do terreno escolhido (Figura 41). Isso contribui para o acesso ao local e aumenta o raio de abrangência do Centro, uma vez que as linhas de ônibus que passam por ali vão e voltam de diferentes locais, podendo atrair mais pessoas para as atividades do Solidariedança. Figura 41 – Localização de transporte público no entorno do terreno. Fonte: Adaptado Google Maps, 2023. Com relação a topografia, o terreno se caracteriza por uma diferença de altitude de 10m, onde a cota mais baixa (762m) está localizada na região esquerda do lote e a mais alta (772m) no canto superior direito do lote. Essa declividade demandará um remanejamento para a implantação do edifício (Figura 42). E, em relação aos ventos predominantes, na cidade de São Paulo eles ocorrem na direção nordeste a sudeste, como indica a Figura 43. 75 As Figuras 44 e 45 apresentam algumas imagens do terreno escolhido para o desenvolvimento da proposta projetual. Figura 42 – Topografia do terreno. Figura 43 – Ventilação e Insolação. Fonte: Adaptado Google Maps, 2022. 76 Figura 44 – Imagem do terreno, vista frontal Fonte: Google Maps, 2022. Figura 45 – Imagem do terreno. Fonte: G