UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA "JULIO DE MESQUITA FILHO" CÂMPUS DE JABOTICABAL RELATÓRIO DO ESTÁGIO CURRICULAR EM PRÁTICA VETERINÁRIA REALIZADO NA FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA (FMVZ) CÂMPUS DE BOTUCATU/SP - ÁREA DE PLANEJAMENTO DE SAÚDE ANIMAL E SAÚDE PÚBLICA, E NA IAGRO - AGÊNCIA ESTADUAL DE DEFESA SANITÁRIA ANIMAL E VEGETAL, CHAPADÃO DO SUL/MS Caso de interesse: 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária – Unesp FMVZ Giovana Almeida Reis Graduanda JABOTICABAL – SP 2º semestre/2024 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA "JULIO DE MESQUITA FILHO" CÂMPUS DE JABOTICABAL RELATÓRIO DO ESTÁGIO CURRICULAR EM PRÁTICA VETERINÁRIA REALIZADO NA FACULDADE DE MEDICINA VETERINÁRIA E ZOOTECNIA (FMVZ) CÂMPUS DE BOTUCATU/SP - ÁREA DE PLANEJAMENTO DE SAÚDE ANIMAL E SAÚDE PÚBLICA, E NA IAGRO - AGÊNCIA ESTADUAL DE DEFESA SANITÁRIA ANIMAL E VEGETAL, CHAPADÃO DO SUL/MS Caso de interesse: 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária – Unesp FMVZ Giovana Almeida Reis Orientadora: Profª. Drª. Adolorata Aparecida Bianco Carvalho Relatório do Estágio Curricular em Prática Veterinária apresentado à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Câmpus de Jaboticabal, Unesp, para graduação em Medicina Veterinária JABOTICABAL – SP 2º semestre/2024 Dedico todo e qualquer sucesso à minha família que, sob muito sol, me fez chegar aqui pela sombra. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus pela sustentação de todos os dias. Agradeço aos meus pais Marta e Divino José, que sempre me apoiaram e incentivaram em todos os meus sonhos, fazendo o possível e o impossível para me ver prosperar. Agradeço à minha tia, Isabel, por estar presente todos os dias nas minhas alegrias e tristezas, pessoa ímpar e de coração imenso. Sem vocês nada disso seria possível. Aos meus amigos de Curso e de vida, Pedro, Gustavo, Yumi, Kamila, Carlos, Catarina Mayara e Daniel, que nos desafios e alegrias, fizeram desses cinco anos os melhores da minha vida. Aos encontros maravilhosos que a faculdade proporcionou, Ricardo, Maria Julia, Lorena, Clara, Guilherme, Bruna, pessoas incríveis que tanto me ajudaram e a Daiane, amiga parceira de longa data que muito me curou ao longo de mais de oito anos. Á Liga Acadêmica de Saúde Pública Veterinária (LASP) que me mostrou o caminho da Saúde Única, me trazendo profundo crescimento pessoal e profissional, e me proporcionou pessoas excepcionais, Caio, Letícia, Beatriz e Yasmin, que levarei para a vida toda. À Profª. Drª. Adolorata Aparecida Bianco Carvalho que, a partir da LASP, esteve presente nessa jornada desde o início, pessoa de imenso coração que muito me ensinou, sempre me guiando e apoiando nas mais diversas experiências até o final, neste presente relatório. Ao Vector-borne Bioagents Laboratory (VBBL) e ao Prof. Dr. Marcos Rogério André, que me proporcionaram incontáveis aprendizados e impulsionaram minha carreira profissional. Ao supervisor de estágio curricular na FMVZ/Unesp, Prof. Dr. Cassiano Victoria, ao Prof. Dr. José Rafael Modolo e aos demais professores, residentes e todos que tive o prazer de conhecer, por todo o conhecimento transmitido; a Monique Cândido da Silva, médica veterinária fiscal agropecuário, que não mediu esforços na sua supervisão para me mostrar e auxiliar em tudo o que estava ao seu alcance na IAGRO/MS. Por fim, agradeço a todos os professores e a toda FCAV/Unesp, lugar o qual pude chamar de casa, que me acolheu, engrandeceu e formou, que deixa memórias que serão levadas por toda minha vida. v SUMÁRIO Pag. I. RELATÓRIO ...................................................................................................... 1 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 1 2. DESCRIÇÃO: LOCAIS DE ESTÁGIO E ATIVIDADESDESENVOLVIDAS ....... 1 2.1 Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus Botucatu/SP - Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública ......... 1 2.1.1 Atividades desenvolvidas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus Botucatu, SP - área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública ................................................................................... 4 2.2 IAGRO Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul ..................................................................................... 8 2.2.1 Atividades desenvolvidas na IAGRO/MS .......................................................... 10 3. DISCUSSÃO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS ....................................... 17 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 18 II. MONOGRAFIA – CASO DE INTERESSE ......................................................... 19 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................... 19 2. REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................. 19 2.1 Campanhas de vacinação antirrábica canina e felina ......................................... 19 2.2 A raiva ................................................................................................................ 21 2.3 Educação em Saúde .......................................................................................... 24 2.4 Microchipagem de animais ................................................................................. 25 3. RELATO DO CASO: 3a AÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA VETERINÁRIA 26 3.1 Características da área ...................................................................................... 26 3.2 Organização e execução .................................................................................... 26 3.3 Recursos humanos ............................................................................................ 27 3.4 Divulgação do evento ......................................................................................... 29 3.5 Atividades ........................................................................................................... 30 3.6 Logística .................................................................................................... 38 4 RESULTADOS .................................................................................................. 40 4.1 Vacinação contra a raiva .................................................................................... 40 4.2 Microchipagem ................................................................................................... 42 4.3 Colheita de sangue ............................................................................................. 44 5. DISCUSSÃO ................................................................................................................ 44 6. CONCLUSÃO .................................................................................................... 45 7. REFERÊNCIAS ................................................................................................. 46 1 I. RELATÓRIO 1. INTRODUÇÃO Este relatório aborda o desenvolvimento do estágio curricular em prática veterinária, etapa fundamental que ocorre no décimo semestre do Curso de bacharelado em Medicina Veterinária da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), Câmpus de Jaboticabal da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Sob orientação da Profª. Drª. Adolorata Aparecida Bianco Carvalho, os dois locais selecionados para estágio foram alinhados com o objetivo de proporcionar uma imersão capaz de aprimorar e sedimentar os conhecimentos teórico-práticos adquiridos, estabelecendo uma conexão entre esses conhecimentos e a experiência prática profissional. Durante os dias 05 de agosto a 04 de outubro de 2024 este estágio foi desenvolvido na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus Botucatu/SP, na área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública, totalizando 360 horas. Neste local foi possível acompanhar atividades de vacinação e microchipagem de cães e gatos, confecção de calendário zoossanitário de suínos com posterior visita à propriedade, além de aulas da Disciplina “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública”. No período de 07 de outubro a 22 de novembro de 2024, perfazendo um total de 280 horas, o estágio foi realizado junto à IAGRO – Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, em Chapadão do Sul/MS, onde foi possível acompanhar atividades de Educação em Saúde em escolas da região, fiscalização de revendas de produtos veterinários, vigilância de doenças como a raiva de herbívoros, entendendo o funcionamento do Órgão, como um todo. 2. DESCRIÇÃO DOS LOCAIS DE ESTÁGIO E ATIVIDADES DESENVOLVIDAS 2.1 Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus Botucatu/SP - Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública Em 1962 foi fundada a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Câmpus de Botucatu, Unesp (Figura 1) e, em 1963, inicia o Curso de Medicina Veterinária. O 2 local, desde então, desenvolve seus objetivos de formar e aperfeiçoar profissionais, realizar pesquisas científicas, além de prestar serviços à comunidade. No Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva (antigo Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública) (Figura 2) está a Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública (Figura 3), sob supervisão dos professores Dr. José Rafael Modolo e Dr. Cassiano Victória, onde são desenvolvidas aulas para os alunos do 4º ano da Medicina Veterinária na Disciplina “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública” (Figura 4), além de atividades como a "Ação de Saúde Pública Veterinária" e visita nos setores de produção animal da Unidade Unesp Lageado para posterior confecção de calendário zoossanitário junto com os alunos da referida Disciplina. Figura 1. Vista da fachada da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Unesp Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 3 Figura 2. Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Unesp - Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 Figura 3. Áreas de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública do Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Unesp - Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 4 Figura 4. Aula da Disciplina “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública” no Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Unesp - Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 2.1.1 Atividades desenvolvidas na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, Câmpus Botucatu, SP - área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública A rotina na área se deu de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Durante o período de estágio, foi possível acompanhar as atividades desenvolvidas pelos dois residentes do setor, além de participar das aulas ministradas pelos professores responsáveis na Disciplina “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública”. O mês de agosto foi dedicado à organização da "3ª Ação de Saúde Pública Veterinária" (Figura 5), desenvolvida pelos residentes em parceria com a Prefeitura de Botucatu e a Vigilância Ambiental em Saúde. A ação faz parte da programação da Disciplina "Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública", ministrada aos alunos do 8º semestre do Curso de graduação em Medicina Veterinária da Unesp Botucatu, como atividade de extensão e avaliativa. Assim, os 56 alunos da turma puderam praticar vacinação, microchipagem e coleta de sangue em cães e gatos. 5 Figura 5. Cartaz utilizado para divulgação da 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária organizada na àrea de “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública” no Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), Unesp - Botucatu/SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024. Em paralelo à organização da Ação, às quintas-feiras a rotina se dava no Centro de Acolhimento de Animais de Botucatu (Canil Municipal), onde cerca de 60 cães, 10 gatos e 3 cavalos residem temporariamente, à espera de adoção. A equipe veterinária do canil realiza o monitoramento de todos os animais, com especial atenção aos cães e gatos que apresentam sinais de doenças. Esses animais são avaliados e recebem tratamentos adequados para garantir sua recuperação. A equipe também mantém registros médicos detalhados que ajudam no acompanhamento do progresso de cada animal. Foi possível acompanhar a organização do local para a realização de uma feira de adoção aberta à comunidade. Durante a feira, os cidadãos de Botucatu têm a oportunidade de conhecer os animais disponíveis, interagir com estes e aprender mais 6 sobre adoção responsável. A equipe do canil oferece orientação sobre cuidados com os animais, além de verificar as condições de adoção para garantir que os animais sejam adotados por famílias responsáveis e que têm condições de proporcionar um lar seguro. O canil recebe animais vítimas de maus-tratos e/ou abandono, que são encaminhados por autoridades locais. Os animais chegam debilitados, com sinais de abuso físico, desnutrição ou condições precárias de higiene. É realizada uma avaliação inicial, fornecendo os cuidados necessários, como alimentação, hidratação e tratamento de ferimentos para posterior acomodação dos mesmos nas instalações (Figura 6). Figura 6. Fotos de alguns animais abrigados no Canil Municipal de Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 Além disso, às sextas-feiras o acompanhamento era feito na Vigilância Ambiental em Saúde (VAS), onde foi possível acompanhar diversas atividades com os Agentes de Vigilância Ambiental (AVA), como a ida em casas e estabelecimentos para localizar possíveis focos de mosquitos transmissores da dengue, o acompanhamento de acumuladores, auxiliando na conscientização destes, além da cata de escorpiões no cemitério municipal, com o objetivo de realizar o controle de pragas (Figura 7). 7 Figura 7. Captura de escorpiões no cemitério municipal realizada pelos Agentes de Vigilância Ambiental da Vigilância Ambiental em Saúde (VAS) de Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 Ainda com relação à Disciplina “Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública”, também foi possível acompanhar visitas aos setores de suinocultura e caprinocultura da Unesp/Botucatu para avaliar o manejo e, posteriormente, elaborar os calendários zoossanitários, adequando os protocolos à realidade dos locais (Fig.8). Figura 8. Modelo/Exemplo de calendário zoossanitário utilizado nos setores de suinocultura e caprinocultura da FMVZ/Unesp Botucatu. Fonte: Guia de orientação teórico e prático da Disciplina Planejamento de saúde animal e Saúde Pública, FMVZ/Unesp, 2024. 8 2.2 IAGRO - Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal - Chapadão do Sul, Mato Grosso do Sul A IAGRO foi criada pelo decreto-lei nº 9, de 1º de janeiro de 1979, denominado Departamento de Inspeção e Defesa Agropecuária do Mato Grosso do Sul (IAGRO) e, pela lei nº 2.152, de 26 de outubro de 2000, recebeu a atual denominação: Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (IAGRO) (Figura 9). Figura 9. Identidade Visual da IAGRO - IAGRO Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, Mato Grosso do Sul Fonte: IAGRO, 2024 A IAGRO é uma autarquia, com sede e foro na Capital do Estado, vinculada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (SEMADESC) e é por ela supervisionada, com personalidade jurídica de direito público, patrimônio próprio, autonomia técnica, administrativa e financeira, e prazo de duração indeterminado, nos termos da lei. A agência possui diversas unidades ao longo do estado do Mato Grosso do Sul, sendo a sede, em Campo Grande, um local estruturado, com espaços dedicados a auditorias, controle de dados, exames e atendimentos técnicos relacionados à sanidade agropecuária. Suas unidades, voltadas à fiscalização e ao desenvolvimento de políticas públicas para o setor agropecuário, são locadas em regionais e suas respectivas unidades locais para melhor abranger as áreas de atendimento, como visto na figura 10. 9 Figura 10. Divisão das Unidades IAGRO e suas áreas de abrangência. Fonte: IAGRO, 2024 A Unidade local em que foi desenvolvido o estágio está situada em Chapadão do Sul, área de divisa com o Estado de Goiás, pertencente à regional de Costa Rica. O local conta com atendimento ao público e espaços administrativos para apoio ao trabalho dos fiscais, onde são realizadas as questões como logística, processamento de documentos, emissão de relatórios e controle de recursos (Figuras 10, 11 e 12). Grande parte da rotina se dá a campo, na realização de vigilâncias ativa e passiva. Figura 10. Vista da entrada da Unidade local da IAGRO - Chapadão do Sul/MS. Fonte: acervo pessoal, 2024 10 Figura 11. Recepção da Unidade local da IAGRO – Chapadão do Sul/MS. Fonte: acervo pessoal, 2024 Figura 12. Unidade local de Chapadão do Sul – MS, área geral Fonte: acervo pessoal, 2024 2.2.1 Atividades desenvolvidas na IAGRO/MS A IAGRO é responsável por executar a defesa sanitária animal e vegetal, com o objetivo de proteger a Saúde Pública e promover o bem-estar da agricultura e pecuária do Estado do Mato Grosso do Sul. Durante o período foram executadas atividades envolvendo fiscalização, monitoramento, controle de doenças e pragas que possam afetar a produção agropecuária, além de integrar programas de erradicação de epidemias e disseminação de boas práticas agrícolas. Foram promovidas diversas palestras educativas em várias cidades do estado, com o objetivo de sensibilizar a população escolar sobre a relação da saúde animal, da fitossanidade e a Saúde Pública. As palestras abordaram temas como inspeção de produtos de origem animal, doenças transmitidas por alimentos e zoonoses, além da 11 importância da defesa sanitária tanto no setor animal quanto vegetal. As atividades ocorreram nos municípios de Alcinópolis, Cassilândia, Costa Rica e Chapadão do Sul, direcionadas a alunos tanto dos ensinos Fundamental e Médio, quanto alunos do Curso de Agronomia das Universidades Federal e Estadual do Mato Grosso do Sul (UFMS e UEMS) (Figuras 13 e 14). Figura 13. Palestra da IAGRO realizada no Município de Cassilândia-MS durante o estágio curricular. Fonte: acervo pessoal, 2024 Figura 14. Palestra da IAGRO realizada no Município de Chapadão do Sul-MS durante estágio curricular. Fonte: acervo pessoal, 2024 12 A agência realiza vigilâncias ativa e passiva para o controle de doenças em animais. A vigilância ativa é estruturada pela divisão do Estado em quadrantes, sendo que cada quadrante possui suas metas específicas definidas com base no número e no tipo de propriedades existentes na região (Figura 15). Essa abordagem permite um monitoramento mais eficaz, considerando as particularidades de cada área, como a densidade populacional animal e o perfil produtivo. Por meio da vigilância ativa, são realizadas inspeções regulares, coletas de amostras e orientações preventivas. Já, a vigilância passiva consiste no recebimento de notificações de suspeitas ou ocorrências de doenças, complementando o sistema de controle e garantindo respostas rápidas a possíveis surtos. Figura 15. Divisão do Estado de Mato Grosso do Sul em quadrantes de fiscalização pela IAGRO. Fonte: Monique Silva, 2024 13 Grande parte das atividades se deram a campo: ▪ Visitas a confinamentos, fazendas e haras - a equipe da IAGRO realizou fiscalizações em propriedades rurais, com foco em alimentação para ruminantes. A inspeção teve como objetivo verificar se havia práticas proibidas, como o fornecimento de alimentos de origem animal para ruminantes, prática essa ilegal devido ao risco de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), doença da qual o Brasil se mantém livre (Figura 16). Figura 16. Confinamentos visitados pela equipe do IAGRO para avaliação de alimentação de ruminantes, em propriedades rurais . Fonte: acervo pessoal, 2024 ▪ Denúncias de maus-tratos ao gado - a IAGRO também recebeu denúncias sobre animais em situação de maus-tratos. Nas visitas, constatou-se que os animais não estavam recebendo alimentação suficiente, o que resultou em mortes de bovinos, podendo ser vistos vários cemitérios improvisados e até animais mortos no meio da pastagem. A equipe registrou a situação e tomou as providências necessárias, incluindo a atuação da Polícia Ambiental, quando aplicável (Figura 17). ▪ Notificação de Caso Positivo de Raiva em Bovino - a IAGRO foi acionada para investigar um caso de raiva em bovino. A equipe fez o perifoco da doença (Figura 18), indo até as fazendas próximas para alertar os produtores sobre o risco e a necessidade de vacinação dos animais. Além disso, foi feito um esforço para encontrar abrigos de morcegos hematófagos, transmissores da doença 14 (Figura 19). O caso foi formalmente notificado no SISBRAVET, e um outro caso suspeito foi investigado, com necropsia realizada em um ovino e envio do material para análise laboratorial (Figura 20). Figura 17. Propriedades com denúncia de maus tratos, animais mortos e “cemitério” visitadas pela equipe da IAGRO/MS. Fonte: Acervo pessoal, 2024 Figura 18. Mapa de propriedades selecionadas pela IAGRO para a realização do perifoco em caso positivo de raiva bovina. Fonte: IAGRO, 2024. 15 Figura 19. Atividade da equipe do IAGRO para busca por abrigos de morcegos hematófagos em propriedade com caso positivo de raiva bovina. Fonte: acervo pessoal, 2024. Figura 20. Equipe do IAGRO em atividade de coleta de material encefálico de animal suspeito de raiva, para envio ao laboratório. Fonte: acervo pessoal, 2024. ▪ Fiscalização em Lixões - a equipe da IAGRO fez visitas a lixões para verificar se havia presença de porcos, uma prática proibida devido ao risco de peste suína clássica, que pode ser disseminada por contato inadequado com animais de criação. ▪ Fiscalização em Revendas de medicamentos veterinários - foram realizadas visitas a estabelecimentos que revendem medicamentos veterinários, com foco na vacina contra a raiva e venda de medicamentos possivelmente clandestinos. A fiscalização verificava a temperatura das geladeiras onde as vacinas eram armazenadas, garantindo que estas estivessem sendo recebidas e que a cadeia de frio tenha sido mantida, além de conferir se são vendidos possíveis medicamentos clandestinos (Figura 21). 16 Figura 21. Equipe do IAGRO em atividade de fiscalização de revendas produtos veterinários. Avaliação de recebimento de vacinas e produtos em prateleiras. Fonte: IAGRO, 2024 ▪ Reuniões com gestores municipais - foram feitas reuniões com prefeitos de cidades como Camapuã e Costa Rica para discutir a importância da educação sanitária e estreitar o relacionamento entre o órgão e as administrações municipais. Essas reuniões tiveram como objetivo sensibilizar os gestores públicos sobre a relevância do trabalho da IAGRO e como uma comunicação efetiva entre o município e a agência pode beneficiar a saúde pública e a defesa sanitária na região. Foi um passo importante para melhorar a cooperação no combate a doenças, garantir a qualidade da produção agropecuária e promover o bem-estar animal (Figura 22). Figura 22. Reunião de representantes da IAGRO na prefeitura de Camapuã/MS, com parceria da SEMADESC e AGRAER. Fonte: Instagram IAGRO, 2024 17 4. DISCUSSÃO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS As atividades desenvolvidas pela Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da FMVZ/Unesp e pela IAGRO, no Mato Grosso do Sul, mostram abordagens complementares na promoção da saúde e do bem-estar animal, e da Saúde Pública, cada uma com suas especificidades, mas em um mesmo foco de educação sanitária e prevenção de doenças. Ambas as instituições desempenham papéis fundamentais na educação, no monitoramento e na defesa da saúde pública, no entanto, suas ações variam em termos de contexto, atividades e públicos-alvo. Um ponto central de convergência entre as atividades da FMVZ e da IAGRO está no foco em educação e conscientização. A IAGRO, através de palestras e visitas educativas, busca sensibilizar a população sobre a importância de práticas sanitárias responsáveis e a prevenção de doenças zoonóticas. No caso da IAGRO, isso inclui temas como a inspeção de produtos de origem animal, os riscos de doenças transmitidas por alimentos e animais, e a importância da defesa sanitária tanto no setor animal quanto vegetal. Por outro lado, a Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da FMVZ, através de sua Ação de Saúde Pública Veterinária, atua diretamente com os alunos da UNESP, oferecendo oportunidades de aprendizagem prática para os estudantes de Medicina Veterinária. A 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária realizada em parceria com a Prefeitura de Botucatu e a Vigilância Ambiental em Saúde (VAS) é um exemplo claro dessa interação entre ensino e comunidade. As atividades da IAGRO, além do papel de manutenção da saúde pública veterinária, têm função crucial no fortalecimento da economia agropecuária brasileira, que é um dos pilares do PIB nacional. Ao garantir a qualidade sanitária da produção agropecuária, a IAGRO assegura que os produtos de origem animal e vegetal atendam aos padrões internacionais de segurança alimentar, permitindo que o Brasil mantenha seu status de exportador confiável para mercados exigentes, como a União Europeia, China e Estados Unidos. Além disso, a atuação da IAGRO na fiscalização de propriedades rurais e no controle de doenças como raiva, febre aftosa e peste suína clássica é fundamental para proteger o país nacional e internacionalmente garantindo a segurança dos consumidores e competitividade do país no comércio global de alimentos. 18 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Todas as experiências vividas foram fundamentais para minha formação enquanto médica veterinária, agregando um valor significativo à minha trajetória profissional. Trabalhando na IAGRO pude ampliar minha compreensão sobre a importância da fiscalização e defesa sanitária, mostrando as implicações diretas no sucesso da agropecuária brasileira. Tais vivências me proporcionaram uma visão sistêmica de como o veterinário contribui estrategicamente para a economia nacional, onde pude lidar com controle epidemiológico, certificação de qualidade e gestão de crises sanitárias, vivências práticas de conhecimentos teóricos vistos na universidade. Além disso, com as atividades na FMVZ da UNESP desenvolvi habilidades importantes na comunicação e na educação sanitária, elementos essenciais para um profissional que deseja atuar de forma integrada com diferentes públicos, sejam eles produtores rurais, gestores públicos ou a própria comunidade. A experiência de trabalhar em projetos de extensão e em ações de prevenção e bem-estar animal me ensinou a importância de uma atuação preventiva, fundamentada na educação, o que é um diferencial valioso na gestão de políticas públicas de saúde. Essas vivências fortaleceram minha capacidade de atuar em diversas frentes e me prepararam para lidar com os desafios de uma carreira versátil e de grande impacto, que busca promover a saúde e o bem-estar de populações, diretamente no contexto da saúde única. 19 II. MONOGRAFIA – CASO DE INTERESSE 1. INTRODUÇÃO A Ação de Saúde Pública Veterinária (ASPV), realizada no município de Botucatu, é um importante evento para a promoção da Saúde Pública e do bem-estar dos animais da região, organizada por meio de uma parceria entre a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp e a Prefeitura Municipal, por intermédio da Secretaria de Saúde e da Vigilância Ambiental em Saúde. A 3ª edição do evento ocorreu em setembro de 2024, direcionada à população de Vitoriana, um distrito rural afastado da zona urbana de Botucatu, cuja população, de acordo com o último censo, é de 3.130 habitantes. A 3ª ASPV teve duração de três dias, em que a comunidade teve acesso gratuito a serviços essenciais como vacinação contra raiva, microchipagem de animais, cadastro para castração gratuita e orientação sobre zoonoses. As duas primeiras edições, em 2022 e 2023, ocorreram na zona urbana, próximas ao centro de Botucatu, local com maior concentração de pessoas e animais. Essa iniciativa impacta diretamente na população local, especialmente para os tutores de animais que, muitas vezes, não têm acesso a esses cuidados devido a limitações financeiras ou geográficas. Além de promover a saúde animal, a ação contribui para a prevenção de doenças que podem ser transmitidas aos seres humanos, como a raiva e a dengue, fortalecendo o controle epidemiológico e a qualidade de vida da comunidade, a partir da expansão de conhecimentos para a população. Ao integrar educação, assistência veterinária e ações preventivas, a ASPV demonstra o compromisso com a saúde coletiva e com o desenvolvimento sustentável da cidade, evidenciando o impacto positivo da parceria entre a universidade e o poder público. 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Campanhas de vacinação antirrábica canina e felina Desde 2020 não estão ocorrendo as Campanhas em massa de vacinação antirrábica de cães e gatos no Estado de São Paulo, e muitos questionamentos são feitos pela população e pelos próprios gestores, nos municípios. Para que haja, 20 definitivamente, uma compreensão do porquê foram suspensas as campanhas anuais de vacinação antirrábica de cães e gatos no Estado de São Paulo, será aqui transcrita a Deliberação CIB nº 169, 15-12-2021: Considerando a situação epidemiológica da raiva no Estado de São Paulo (ESP), em que, o último caso humano pela variante canina ocorreu em 1997, e o último caso animal em 1998 e desde então, todos os casos humanos registrados no ESP foram causados por variantes de morcego; Considerando que, em pesquisa conduzida pela Organização Pan-Americana da Saúde, em que as diversas regiões da América Latina foram classificadas em cinco áreas distintas no que se refere à epidemiologia da raiva, levando-se em conta os casos caninos da doença e os esforços de vigilância do agravo, o estado de São Paulo foi inserido no grupo 1 - área livre de raiva pela variante canina, por mais de 10 anos; Considerando que os principais transmissores da raiva, atualmente, no estado de São Paulo são os morcegos; Considerando que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quando existem elevados percentuais de cães vacinados (altas coberturas vacinais), durante uma série de anos, atinge-se o controle da raiva, como ocorreu no estado de São Paulo, ficando então a estratégia de campanha anual de vacinação antirrábica de cães e gatos classificada como uma atividade de emergência para áreas endêmicas ou epidêmicas; Considerando que a campanha de vacinação antirrábica de cães e gatos é apenas uma das estratégias do Programa de Vigilância e Controle da Raiva do Estado de São Paulo; Considerando que o Ministério da Saúde orienta que a vacinação antirrábica de cães e gatos deve ser realizada de acordo com o preconizado para cada região e, conforme o contexto epidemiológico da raiva na área local, deverá ser definido as ações de prevenção que serão estratégicas e prioritárias. E recomenda que, em território em que as variantes sejam as de morcego encontradas em cão ou gato, a vacinação deve ser feita por bloqueio de foco, uma vez que alguns estudos demonstram que a disseminação/adaptação do vírus da raiva é menor por essas variantes; Considerando a atual situação epidemiológica da raiva no ESP, na qual não se verifica a circulação da variante “2” há mais de duas décadas, indicando que a manutenção de um elevado contingente populacional canino vacinado por meio da estratégia de campanha (recomendação da OMS somente para os locais onde essa variante é endêmica) não mais se justifica, tendo como lógica criar uma imunidade de rebanho, que seria responsável por impedir uma possível expansão da doença, A Comissão Intergestores Bipartite do Estado de São Paulo – CIB/SP, em sua 318ª reunião ordinária realizada em 09/12/2021, aprova a manutenção da vacinação antirrábica de cães e gatos em estratégia de rotina, vacinação de cães e gatos contactantes de morcegos e bloqueio de foco (quando for o caso) e a suspensão das campanhas anuais de vacinação a partir de 2022, no ESP. Devendo ser mantidas todas as atividades do Programa de Vigilância e de Controle da Raiva no ESP. Comissão Intergestores Bipartite do Estado de São Paulo, 26-12-2021, pag 1 e 2 (grifos da autora) (D.O. ESTADO SÃO PAULO, 2022). Apesar da interrupção das campanhas, a imunização de cães e gatos contra a raiva continua sendo uma medida fundamental para a prevenção da doença. A vacinação regular desses animais mantém a barreira sanitária, evitando possíveis reintroduções do vírus no ciclo urbano, especialmente em áreas próximas a habitats de morcegos ou regiões com maior interação entre animais domésticos e silvestres. 21 autoridades sanitárias locais disponibilizem o imunizante, viabilizem as vacinações. e reforçarem a importância da vacinação como parte da guarda responsável e vigilância em saúde. Atualmente, há uma mudança no perfil da raiva humana no país, havendo mais registros com envolvimento do ciclo aéreo e silvestre do que pelo ciclo urbano, de acordo com a situação epidemiológica disposta no Ministério da Saúde (Figura 23). Figura 23. Casos de Raiva humana segundo espécie animal de agressor, 1986- 2024, Brasil. Fonte: SVSA/MS. Atualizado em 11/09/2024. Verifica-se que os números de raiva humana transmitida por cães foram diminuindo ao longo dos anos, devido, especialmente, às ações de prevenção e controle da doença em cães, com o sucesso das campanhas de vacinação (Ministério da Saúde, 2024). Atualmente, a variante predominante do vírus está associada a morcegos, indicando uma mudança no perfil epidemiológico para o ciclo silvestre. 2.2 A raiva A raiva é uma das primeiras zoonoses relatadas no mundo, com descrições que datam de 4 mil anos (Baer, 2007). É uma doença viral que afeta mamíferos e apresenta um prognóstico fatal em praticamente 100% de suas ocorrências. O vírus da raiva, pertencente ao gênero Lyssavirus (Figura 24), compromete o sistema nervoso central, causando encefalite e sintomas neurológicos severos, como agressividade, paralisia e hidrofobia (WHO, 2018). A penetração do vírus presente na 22 saliva de animais infectados, principalmente pela mordida de cães e morcegos, se mostra como a principal forma de transmissão, mas arranhões e lambeduras em feridas abertas também podem transmiti-lo (Babboni & Modolo, 2011; Batista et. al, 2007). Figura 24. Ilustração Lyssavirus Fonte: AdobeStock, 2024 O vírus da raiva apresenta grande diversidade em suas variantes, que estão intimamente relacionadas aos hospedeiros naturais e aos ciclos epidemiológicos. No Brasil, são conhecidas sete variantes antigênicas principais, associadas a diferentes espécies. As variantes 1 e 2 estão ligadas a cães; a variante 3 ao morcego hematófago (Desmodus rotundus); as variantes 4 e 6, a morcegos insetívoros (Tadarida brasiliensis e Lasiurus cinereus, respectivamente). Há também variantes específicas encontradas em espécies silvestres, como o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e o sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus). O conhecimento dessas variantes é essencial para a vigilância epidemiológica, auxiliando na identificação dos ciclos de transmissão, nas estratégias de controle e no direcionamento de medidas de prevenção em áreas endêmicas (Kotait et. al, 2009). Existem, no Brasil, quatro ciclos de transmissão, definidos de acordo com os ambientes e espécies envolvidas (MAPA, 2022) (Figura 25). No ciclo rural, o morcego hematófago, ao se alimentar de animais como bovinos e equinos, pode transmitir o vírus para essas espécies. Já no ciclo silvestre aéreo, os morcegos hematófagos e não hematófagos infectados, representam uma ameaça potencial a humanos e animais em regiões sinantrópicas. No ciclo silvestre terrestre, há a transmissão entre espécies selvagens terrestres, como raposas e guaxinins, que podem atuar como reservatórios naturais em determinados nichos ecológicos, possibilitando a 23 manutenção do vírus na natureza. Por fim, no ciclo urbano a transmissão ocorre a partir de cães e gatos domésticos, que são os principais hospedeiros do vírus nessas áreas e, além disso, a circulação de cães e gatos errantes em áreas urbanas, muitas vezes sem supervisão ou vacinação adequada, aumenta o risco de transmissão (Soto, 2000; Batista et. al, 2007; WHO, 2018). Figura 25. Esquema dos ciclos epidemiológicos de transmissão da raiva no Brasil. Fonte: Deidt/SVS/MS, 2021 O controle da raiva está pautado na prevenção. Na área urbana, a vacinação em massa dos animais mostra-se como principal arma, tendo, no Brasil, ano após ano, diminuído significativamente o número de casos de raiva canina e humana, o que aumenta a importância das ações de vigilância epidemiológica visando prevenir a reintrodução da doença (Batista et. al, 2007). Na área rural, a principal atividade é o monitoramento de abrigos de morcegos hematófagos e o controle da população desses animais (Figura 26), aliada à vacinação dos rebanhos em áreas endêmicas e de maior risco, além de outras ações previstas no Programa de Controle da Raiva dos Herbívoros (MAPA, 2022). 24 Figura 26. Captura de morcego hematófago pelo SVO Fonte: Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) Rio Grande do Sul, 2019 2.3 Educação em Saúde A educação em saúde é um pilar fundamental no âmbito da medicina veterinária e da saúde única, desempenhando um papel essencial na conscientização da população. Por meio de atividades educativas, é possível se conectar com o ouvinte, mostrando na prática como ações preventivas, como vacinação, manejo sanitário e controle de zoonoses, podem impactar diretamente no seu bem-estar e no da comunidade ao seu redor (Manzi, 2018). A partir da compreensão de sua responsabilidade no cuidado com a saúde, uma pessoa pode adotar práticas corretas, que façam sentido, fazendo ações de forma consciente, pois entende a importância em sua realidade, devendo tal educação ser feita de forma contínua (Vasconcelos, 2001). Além disso, a educação em saúde promove a integração de saberes, valorizando tanto o conhecimento científico quanto o empírico das comunidades, criando um diálogo construtivo entre profissionais e a população local (Falkenberg et. al, 2014). Essa prática é particularmente fundamental em áreas rurais ou de pouco acesso à informação técnica, onde o contato direto com animais aumenta os riscos de transmissão de doenças. Outro benefício significativo é a ampliação da conscientização sobre a saúde única, mostrando como práticas inadequadas, por exemplo, no cuidado animal, podem impactar a saúde humana, desde zoonoses até questões ambientais, como a contaminação de recursos hídricos. (Manzi, 2018; Epifânio & Brandespim, 2019). Além de atuar na prevenção de doenças, a educação em saúde é uma ferramenta poderosa para romper barreiras culturais e mitos relacionados à saúde 25 animal. Em muitas regiões, a figura do médico veterinário é associada apenas à fiscalização, gerando receio por parte da população. Campanhas educativas trazem um caráter mais humano nessa relação, reforçando o papel dos veterinários como parceiros na promoção da saúde e no desenvolvimento econômico local (Dos Anjos et. al, 2021). Portanto, investir na educação em saúde, por meio da medicina veterinária e da saúde única, impulsiona a sustentabilidade dos sistemas de saúde e fortalece a relação entre comunidades, animais e o meio ambiente. A criação de políticas públicas que fomentem essas práticas e a capacitação contínua dos profissionais envolvidos são indispensáveis para promover uma sociedade mais consciente e resiliente (Pinheiro et. al, 2003). 2.4 Microchipagem A microchipagem de animais vem ganhando maior importância a cada dia por se tratar de um método de identificação fácil e de longa duração (BRITO, 2022). O dispositivo de microchip é pequeno, do tamanho de um grão de arroz, encapsulado em um cilindro de vidro biocompatível (Figura 27 A e B) (Matieli & Curto, 2009). Uma vez inserido sob a pele, geralmente na linha média dorsal, em posição imediatamente cranial às escápulas, possui número único que pode ser lido por um scanner específico (Figura 27 B) (Scortegagna et. al, 2017; WSAVA, 2024). Figura 27. A - Microchip comparado à grão de arroz; B – Leitor de microchip Fonte: Portal do Dog Essa identificação está diretamente ligada a um banco de dados com as informações do proprietário e do animal, não agindo como um sistema de GPS, mas sim, como um cadastro em um banco de dados. Tal sistema de rastreamento facilita A B 26 a devolução de animais para seus donos e contribui na promoção dos preceitos de guarda responsável, diminuindo os casos de abandono, uma vez que o proprietário pode ser identificado e responsabilizado em casos de negligência ou maus-tratos (Souza, 2014; Scortegagna et. al, 2017). A identificação eletrônica auxilia as autoridades e centros de zoonoses a monitorar a população de cães e gatos nas cidades, prevenindo a proliferação de doenças que podem ser transmitidas entre animais e humanos. Além disso, a tecnologia auxilia minimizando os custos de resgate e cuidados com animais de rua. Em alguns locais, como na cidade de Botucatu, a microchipagem é obrigatória por lei municipal, solidificando a noção de que a tutela de um animal deve ser tratada com seriedade e compromisso social (Matieli & Curto, 2009; BOTUCATU, 2023). 3. RELATO DO CASO - 3a Ação de Saúde Pública Veterinária 3.1 Características da área O município de Botucatu está localizado na região Centro-Sul do Estado de São Paulo, com extensão territorial de 1.482,642 km2 e população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, em 2024, estimada em 150.442 habitantes. O evento foi realizado no distrito de Vitoriana, que apresenta uma população de 1.551 habitantes (IBGE, 2022). A população animal foi estimada em 560 animais, sendo definida a meta vacinal de 450 animais, considerando-se 360 cães e 80 gatos. O local escolhido para a execução do evento foi a praça Manoel Alves dos Santos ao lado da Unidade de Saúde da Família de Vitoriana. 3.2 Organização e execução A 3a Ação de Saúde Pública Veterinária ocorreu por meio da parceria da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu com a Secretaria Municipal de Saúde de Botucatu por meio da Vigilância Ambiental em Saúde, localizada à rua Major Matheus, no 7, Vila dos Lavradores, Botucatu – SP. Os coordenadores representantes da FMVZ foram o professor Assistente Doutor Cassiano Victória (coordenador) e o professor Titular Jose Rafael Modolo (vice- coordenador), em nível de prefeitura o responsável foi Valdinei Moraes Campanucci da Silva, Supervisor de Serviços de Saúde Ambiental e Animal de Botucatu e contou 27 com a equipe técnica de apoio formada pelos residentes Thiago Araujo dos Santos (R2) e Luiza Gazeta Passos (R1), médicos-veterinários. 3.3 Recursos humanos As equipes de trabalho foram compostas por 56 alunos quartanistas do curso de Medicina Veterinária da disciplina de Planejamento de Saúde Animal e Veterinária Preventiva, quatro estagiárias, dois residentes, dois docentes e dois motoristas; todos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) (Figura 28). A atuação dos alunos em cada um dos dias do evento foi definida mediante escalas de trabalho (Figura 29), contando um período de almoço de 15 minutos. Foi realizado um escalonamento dos alunos no período da manhã e tarde, após o almoço ocorreu a troca de estação de trabalho para o período da tarde, garantindo assim que todos os alunos atuassem em todas as ilhas, conforme a sorologia para raiva. Figura 28. Equipe Unesp atuante na “3ª Ação de Saúde Pública Veterinária" realizada no distrito de Vitoriana, Botucatu – SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 28 Figura 29. Escala de trabalho dos alunos no primeiro dia da 3a Ação de Saúde Pública Veterinária, realizada no distrito de Vitoriana, Botucatu – SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 A equipe da Prefeitura Municipal foi composta pelo Supervisor de Serviços de Saúde Ambiental e Animal da VAS e quatro agentes de saúde ambiental (Figura 30). Além destes, participaram quatro médicos-veterinários do Canil Municipal e três residentes da Unesp que estavam em estágio não obrigatório no Canil Municipal, totalizando 78 pessoas envolvidas Figura 30. Parte da equipe: Prefeitura, Vigilância Ambiental em Saúde (VAS), residentes e estagiárias, atuantes na “3ª Ação de Saúde Pública Veterinária" realizada no distrito de Vitoriana, Botucatu – SP Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 29 3.4 Divulgação do evento A divulgação do evento ficou sob responsabilidade dos residentes da área, que promoveram a Ação nas rádios de Botucatu (Prever FM, Municipalista, Stereo FM, Criativa e Clube FM) (Figura 31) e distribuíram 25 cartazes em estabelecimentos comerciais e nas escolas na região de Vitoriana (Figura 32). Além destes, a Ação foi divulgada no site e perfil do Instagram da FMVZ e no site “Acontece Botucatu”. Figura 31. Residentes entrevistados para divulgação da 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária na Rádio Prever FM de Botucatu – SP. Fonte: Rádio Prever FM, 2024 Figura 32. Cartaz utilizado para divulgação da 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária de Botucatu – SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 30 3.5 Atividades A ação ocorreu nos dias 10,11 e 12 de setembro de 2024, das 9h às 16h. O evento foi realizado por meio de ilhas de atendimento dispostas no gramado (Figura 33) de maneira a favorecer um fluxo dentro do evento, propiciando que a população que buscasse os serviços oferecidos pudesse circular no evento intuitivamente. Figura 33. Local da 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária, ao lado do Posto de Saúde de Vitoriana, Botucatu/SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 O evento contou com seis ilhas de atendimento sendo elas: ▪ Ilha 1: Recepção da população A ilha foi composta por quatro alunos responsáveis por receber a população no evento, com foco em informar as atividades que estão sendo desenvolvidas, tirar as principais dúvidas nesse primeiro contato, direcionar a população dentro do evento e colher as primeiras informações (úteis para organização e posteriormente repassadas para as outras ilhas) (Figura 34). Entrada Saída 31 Figura 34. Ilha de recepção, com acolhimento inicial da população, durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 ▪ Ilha 2: Cadastro da população e dos animais A ilha foi composta por nove alunos, sendo um facilitador, três duplas para o cadastramento do tutor e animal no evento e uma dupla para registro da medalha do microchip no site da Tripuí Med. Para o cadastro, foram utilizadas a “Ficha de Registro e Microchipagem” (Figura 35) e a “Ficha de Cadastro de Vacinação de Cães/Gatos” (Figura 36). A “Ficha de Cadastro de Vacinação de Cães/Gatos” era preenchida com os dados do animal (nome, idade, sexo e se é castrado ou não, perfil dos animais em relação ao grau de mobilidade e restrição a rua e também o número de vezes que o animal havia sido vacinado contra a Raiva) e do proprietário (nome e a localização do domicílio). Já a “Ficha de Registro e Microchipagem” compreende os mesmos dados da ficha de Cadastro, porém com mais detalhes do tutor (endereço completo, CPF, RG e telefone) e do animal (cor da pelagem, raça e número do microchip e da medalha). Todos estes dados coletados são cruciais e relevantes, pois tornam possível avaliar a dinâmica da população animal e auxiliam na projeção da demanda de doses de vacina e microchips para os anos posteriores (Figura 37). 32 Figura 35. Ficha de registro de microchipagem de cães e gatos utilizadas durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 Figura 36. Fichas de cadastro de vacinação contra raiva de cães e gatos, utilizadas durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 Figura 37. Fotos no ato de preenchimento das Fichas de cadastro de vacinação contra raiva durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 33 ▪ Ilha 3: Ciências e Cevap A equipe desta Ilha era composta por dez alunos distribuídos em três grupos de três alunos e um facilitador. Os alunos eram responsáveis por fornecer orientações gerais à população e entregar panfletos educativos sobre a posse responsável, evidenciando a importância das vacinações, vermifugações e controle de ectoparasitas, com ênfase na prevenção de zoonoses como febre maculosa, raiva, leishmaniose, sarna, leptospirose, entre outras (Figura 38). A ilha contava também com material educativo sobre o combate à dengue, prevenção de acidentes com escorpião, exibição de exemplares de morcegos, parasitos e escorpiões conservados em álcool (Figura 39). Como parceiro do evento, o Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (CEVAP) levou para exposição duas serpentes peçonhentas em viveiros, além de exemplares de serpentes em vidros com álcool e panfletos informativos sobre animais peçonhentos. A figura 40 retrata a interação das crianças com a equipe e os materiais apresentados. Figura 38. Panfletos educativos distribuídos na Ilha de Ciências durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da FMVZ/Unesp, 2024 34 Figura 39. Alguns materiais apresentados durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 Figura 40. Interações de crianças com os materiais e a equipe durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu, SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 35 ▪ Ilha 4: Vacinação contra raiva e microchipagem Para a vacinação e microchipagem organizou-se uma equipe de 16 alunos, sendo um facilitador responsável pelo controle e conferência dos materiais em ficha específica (Figura 41). A equipe foi dividida em dois grupos de cinco alunos para o atendimento de cães e uma equipe de cinco alunos para atender gatos. As atividades dos alunos dentro de cada equipe de vacinação eram compostas por: 1) Preenchimento do comprovante vacinal e ID do microchip; 2) Controle e preparação vacinas; 3) Vacinação; 4) Microchipagem; 5) Fornecimento de instruções sobre o microchip. Figura 41. Ficha de conferência de materiais por caixa de vacinação utilizada na “Ilha de Vacinação e Microchipagem durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP.” Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 Foi realizada a vacinação de cães e gatos acima de três meses de idade e que não receberam o imunizante nos últimos doze meses. Também foi realizada a 36 microchipagem dos cães e gatos atendidos durante o evento, conforme disposto na Lei no 6.556, de 19 de dezembro de 2023, que estabelece no Artigo 24 a obrigação, por parte do tutor, da realização do procedimento de microchipagem e identificação do animal (Botucatu, 2024). Na Ação, a vacinação foi realizada mediante microchipagem (Figura 42). As vacinas contra a Raiva canina e felina utilizadas na Ação foram a vacina de vírus inativado Bioraiva ® Pet. O frasco apresentava 25 mL, sendo utilizado 1 mL por animal, via subcutânea, independentemente do porte do animal. As doses foram fornecidas pela VAS. O acondicionamento e a manutenção das vacinas foram feitos em caixas térmicas monitoradas com termômetros, sendo estas mantidas a uma temperatura entre 2°C a 8°C. O facilitador da ilha de vacinação e microchipagem era responsável por conferir e registrar a temperatura a cada hora na ficha de controle de temperatura. Os microchips utilizados foram da empresa Tripuí Med e foram disponibilizados pela VAS. Após os procedimentos, os proprietários receberam devidamente preenchidos o “Comprovante de Vacinação Contra a Raiva” (Figura 43 A) de cães e gatos e o “Certificado de Microchipagem” (Figura 43 B), caso o animal tenha sido microchipado no evento. Já animais que possuíam cadernetas de vacinação, estas foram carimbadas e afixadas a etiqueta de identificação do evento pelos alunos responsáveis pelo preenchimento do comprovante de vacinação. Figura 42. Vacinação e microchipagem de cães e gatos durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 37 Figura 43. Comprovantes de vacinação contra raiva (A) e de microchipagem (B) utilizados na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 ▪ Ilha 5: Castração — Informações e cadastro Atuavam nesta ilha quatro alunos, sendo um facilitador. Foi ofertado o cadastro para o programa de castração gratuita da Prefeitura e esclarecimento de possíveis dúvidas relacionadas ao procedimento. Para o cadastro do animal era utilizada a Ficha de Cadastro para Castração, sendo preenchida pelos alunos. A ilha contava com material educativo do tipo folder mencionando os benefícios da castração de cães e gatos, com o objetivo de sensibilizar a população e melhorar a adesão do público aos mutirões (Figura 44). Figura 44. Ilha de castração montada na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 A B 38 ▪ Ilha 6: Colheita de sangue para pesquisa do Laboratório de Zoonoses Para a colheita de sangue de cães, foi organizada uma equipe de 13 alunos, sendo um facilitador responsável pelo controle e conferência dos materiais em ficha específica. As atividades dos alunos dentro de cada equipe de colheita de sangue eram compostas por: 1) Captação/cadastro; 2) Contenção; 3) Auxiliar colheita; 4) Colheita. Ao concluir todo o trajeto planejado dentro do evento, foi ofertada ao tutor a participação voluntária na pesquisa, mediante preenchimento do Termo de consentimento livre esclarecido e cadastro na atividade, por meio do preenchimento da “Ficha de cadastro para colheita de sangue” (Figura 45). Foi colhida uma amostra de sangue de cada animal, aliquotada em dois tubos, um tubo de 0,5 mL com EDTA e um tubo de 3 mL com ativador de coagulação, com objetivo de diagnóstico de doenças de interesse em saúde pública, sendo informado aos tutores que somente serão contatados em caso de animais positivos para algum dos diagnósticos a serem realizados. Figura 45. Ficha de cadastro para colheita de sangue de cães utilizada na “Ilha de Colheita de Sangue” durante a 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: Área de Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), 2024 3.6 Logística 3.6.1. Treinamentos Os residentes do Planejamento de Saúde Animal e Saúde Pública realizaram três treinamentos teóricos para os alunos após as aulas da Disciplina “Planejamento 39 de Saúde Animal e Saúde Pública”. Foi apresentado pelos residentes uma introdução sobre o evento para que os alunos pudessem se familiarizar com o panorama geral das atividades e, posteriormente, as atividades de cada ilha. Além disso, foi realizada uma dinâmica com os alunos para treinar o preenchimento das Fichas de Cadastro. O supervisor da VAS Foi fez uma apresentação sobre a situação epidemiológica da Dengue e a equipe do Departamento de Proteção Animal abordou a questão legal referente aos maus tratos de animais. Os alunos também tiveram a oportunidade de receber treinamento prático no Centro de Acolhimento de Animais de Botucatu abordando contenção de cães e gatos, técnicas de colheita de sangue, vacinação e microchipagem (Figura 46) Figura 46. Treinamento prático dos alunos da FMVZ de Botucatu para atuarem na na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária no Distrito de Vitoriana, Botucatu,SP. Fonte: acervo pessoal, 2024 3.6.2. Transportes utilizados A mobilidade para o evento contou com um ônibus, uma van e um carro da FMVZ que fizeram o translado dos alunos, estagiárias, residentes e professores, além dos materiais a serem utilizados na Ação, até o local do evento em Vitoriana. A prefeitura de Botucatu disponibilizou uma Kombi para transporte da equipe e dos insumos utilizados para vacinação e microchipagem. O transporte das mesas, cadeiras e três barracas ficou sob responsabilidade da VAS. 40 4. RESULTADOS 4.1 Vacinação contra a raiva Na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária foram vacinados 399 animais, sendo 328 cães e 71 gatos. Baseando-se na meta vacinal de 450 animais para obtenção da cobertura vacinal de 80% da população animal, a cobertura vacinal abrangeu 69,78% de cães e 78,88% de gatos, totalizando 71,25% da população estimada para unidade epidemiológica do evento, como mostrado na tabela 1. Tabela 1. Estimativa da população canina e felina e metas de vacinação e cobertura vacinal atingidas na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária/2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP. Estimativas da população e metas vacinais Espécie População Estimada Meta Vacinados Cobertura Vacinal (%) Cão 470 365 328 69,78 Gato 90 85 71 78,88 Total 560 450 399 71,25 Fonte: elaboração da autora, 2024. Em comparação às outras edições do evento, ocorridas no município de Botucatu/SP nos anos de 2022 e 2023, vê-se uma diminuição em relação ao ano anterior, conforme observado na Figura 47. Isso pode ter ocorrido devido o local definido para 2024, o distrito de Vitoriana, zona rural e afastada do polo urbano, com menor população humana e animal; no ano anterior o evento foi no centro da cidade. Figura 47. Evolução do número de animais vacinados contra raiva nas Ações de Saúde Pública Veterinária, no período de 2022 a 2024. 41 Com as informações das fichas preenchidas, foi possível fazer um levantamento da situação de imunização da população atendida, notando-se que, dos 399 cães e gatos vacinados, 32,83% teriam sua primeira dose no local (sendo 98 cães e 33 gatos), 60,40% já haviam sido vacinados em anos anteriores (209 cães e 32 gatos) e 6,76% não souberam informar a situação de seus animais (21 cães e 6 gatos). As informações foram especificadas por espécie nas figuras 48 e 49. Figura 48. Situação vacinal da população de cães na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária/2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP Fonte: elaboração da autora, 2024 . Figura 49. Situação vacinal da população de gatos na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária/2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP Fonte: elaboração da autora, 2024. 1ª vez (98/328) Já vacinado anteriormen te (209/328) Não sabe (21/328) SITUAÇÃO VACINAL DA POPULAÇÃO DE CÃES 1ª vez (33/71) Já vacinado anteriorment e (32/71) Não sabe (6/71) SITUAÇÃO VACINAL DA POPULAÇÃO DE GATOS 42 Além disso, quanto ao sexo e status reprodutivo dos animais vacinados, observou-se que, dos 399 animais vacinados, 180 eram machos (divididos entre castrados – M/C - e não castrados - M) e 219 fêmeas (divididas entre castradas -F/C e não castradas - F), correspondendo a 45,11% e 54,89%, respectivamente, conforme mostrado na tabela 2. Tabela 2. Perfil da população de cães e gatos vacinados contra a Raiva quanto ao sexo e realização ou não do procedimento de castração atendidos na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária - 2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP Sexo e status reprodutivo dos animais vacinados Espécie M M/C F F/C Total Cão 115 35 59 119 328 Gato 16 14 11 30 71 Total 131 49 70 149 399 Fonte: elaboração da autora, 2024. Na tabela 3 é apresentado o perfil de mobilidade dos animais vacinados na ASPV. Grande parte dos animais foram declarados como domiciliados pelos tutores, com um total de 292 animais domiciliados (D), o que corresponde a 73,18% dos animais vacinados. De 71 gatos, pode-se observar que 54,93% da população foi declarada como semi-domiciliada (SD), enquanto nos cães esse número foi de apenas 19,82% em relação aos 328 cães vacinados. O número de animais comunitários (C) vacinados não chegou a 1%, e não houve tutores que não sabiam informar o perfil de mobilidade do animal vacinado (NS). Tabela 3. Perfil de mobilidade da população de cães e gatos vacinados contra a Raiva na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária -2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP Perfil de mobilidade Espécie D SD C NS Total Cão 261 65 2 0 328 Gato 31 39 1 0 71 Total 292 104 3 0 399 Fonte: elaboração da autora, 2024. 4.2 Microchipagem De 402 animais atendidos para microchipagem, 258 (64,18%) receberam o microchip no evento e 144 (35,82%) já possuíam o dispositivo e, dos novos, 215 43 (83,4%) foram cães e 43 (16,6%) foram gatos. Dos animais que já o possuíam, 113 (78,48%) eram cães e 31 (21,52%) eram gatos. Tais resultados estão representados no gráfico a seguir (Figura 50). Figura 50. Relação da microchipagem nos cães e gatos na 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária - 2024 no Distrito de Vitoriana, Botucatu/SP Fonte: elaboração da autora, 2024. Em comparação aos outros anos, vê-se também uma diminuição em relação ao ano anterior, conforme observado na Figura 51. Tal fato também pode ter se dado pela localização, em Vitoriana, zona com menor população humana e animal, sendo no ano anterior o evento realizado no centro da cidade. Figura 51. Evolução do número de animais microchipados nas Ações de Saúde Pública Veterinária de Botucatu/SP, no período de 2022 a 2024. Relação da microchipagem na 3ª ASPV 0 100 200 300 400 1ª ASPV 2022 2ª ASPV 2023 3 ª ASPV 2024 Evolução do número de animais microchipados por edição de evento Cães Gatos 44 4.3 Colheita de sangue Ao total foram colhidas 144 amostras de sangue de 144 cães nos três dias de Ação e, dos mesmos, 47,22% corresponderam a machos e 52,78% a fêmeas. Em relação à idade dos animais, verifica-se que a maioria dos animais têm entre 1 e 5 anos de idade, correspondendo a 55,56% dos animais colhidos. Em seguida, vem os animais com mais de 5 anos de idade, representando 32,64% dos animais colhidos, enquanto os animais de até 12 meses representaram 6,25%. Houve também uma porcentagem de 5,56% dos tutores que não sabiam informar a idade do animal. 5. DISCUSSÃO A 3ª Ação de Saúde Pública Veterinária (ASPV) mostrou ser um exemplo de intervenção integrada voltada para a saúde coletiva e o bem-estar animal. Com o foco na vacinação contra a raiva, na microchipagem e na educação em saúde, a ação agregou na vida de tutores e animais em áreas de menor acesso a informações e serviços veterinários. O fato de o evento ter ocorrido em um distrito rural gerou pontos positivos e negativos pois, de um lado, a população beneficiada pelo evento é periférica e, portanto, muito provavelmente não teria acesso a tais serviços se esse não fosse alocado em sua localidade, abarcando animais e pessoas muitas vezes esquecidos e negligenciados, que estão fora do centro urbano. No entanto, tal local propiciou uma adesão consideravelmente menor em comparação às outras edições, gerando valores absolutos baixos de vacinações e microchipagem, sendo muitos animais, que participaram em outras edições, não contemplados em 2024. Para maior adesão da população rural, poderiam ter sido empregados carros de som, maior contato boca a boca para divulgação do evento e, dado o apoio da prefeitura e consideradas as logísticas necessárias, poderiam ter sido realizadas ações diretamente nas residências, permitindo um contato mais próximo e personalizado com a comunidade. Os resultados alcançados, como a vacinação de 71,25% da população animal estimada e a microchipagem de 258 novos animais, mostram o sucesso da ação que atingiu objetivos essenciais para a Saúde Pública. Esses números refletem não apenas o alcance em quantidade das metas estabelecidas, mas também a 45 importância de estratégias bem planejadas e executadas, que envolveram a participação ativa da comunidade e a integração de diferentes setores. A execução da ação envolveu esforços conjuntos entre a universidade, prefeitura e equipes de vigilância, demonstrando a importância de uma visão holística e da colaboração entre instituições acadêmicas e governamentais. O atendimento com ilhas temáticas, facilitou o fluxo de participantes e a disseminação de informações relevantes, contribuindo para romper barreiras culturais e mitos relacionados à saúde animal, trazendo informações de qualidade e aplicáveis no dia a dia da população. Os desafios enfrentados ressaltam a necessidade de estratégias específicas para áreas rurais e ações contínuas que promovam a adesão da comunidade a longo prazo. A 3ª ASPV reafirma a importância de ações integradas que alinhem assistência direta, educação e políticas públicas, criando um modelo sustentável de promoção da saúde única. 6. CONCLUSÃO Foi possível atingir, nos três dias de Ação, uma cobertura vacinal antirrábica de 71,25% para a região atendida, a garantia de microchipagem em todos os presentes, e demonstrar a importância de parcerias entre universidade, prefeitura e vigilância ambiental para promover saúde coletiva. Com a vacinação contra a raiva, microchipagem e orientações educativas, a iniciativa beneficiou a população local e reforçou a conscientização sobre temas presentes em seu dia a dia. Apesar de desafios como menor adesão devido à localização rural, a ação foi eficaz e gerou dados que podem ser usados para futuras ações e planejamentos. Tal Ação reforça a necessidade de políticas públicas contínuas para garantir saúde e bem-estar animal, humano e ambiental. 46 7. REFERÊNCIAS: BABBONI, SD; MODOLO, JR. 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