Universidade Estadual Paulista “Júlio De Mesquita Filho” - UNESP Faculdade de Arquitetura, Artes E Comunicação - FAAC Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo Fernanda Silva Rodrigues Rua2: Um olhar sobre o Pinheirinho Bauru 2009 Fernanda Silva Rodrigues Rua2: Um olhar sobre o Pinheirinho Projeto Experimental apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do título de bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação. Orientador Prof. Luiz Fernando da Silva. Bauru 2009 Fernanda Silva Rodrigues Rua2: Um olhar sobre o Pinheirinho Projeto Experimental apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do título de bacharel em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação. Orientador Prof. Luiz Fernando da Silva. Aprovado em ___ de _________________ de 2009. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________ Roberto Della Santa – CeCa/UEL/Londrina _______________________________________________________ Diego Barcelos da Cruz – Opinião Socialista _______________________________________________________ Luiz Fernando da Silva - FAAC/Unesp Bauru Às lutadoras e lutadores do Pinheirinho AGRADECIMENTOS Agradeço à minha avó, à minha madrinha Márcia, meus tios, padrastos, irmãos e a todos meus familiares, que sempre se preocuparam em fazer de mim uma pessoa melhor. À “canção que o verão canta”, minha mãe, que sempre me mostrou o lado bom das coisas e de mim. Ao meu amado pai, grande responsável por eu ter me tornado quem sou, e que mesmo discordando das minhas ideologias nunca deixou de me apoiar. À Andrea Klaczko e Laurindo Gadoti Neto, pela atenção e ajuda impagáveis. Aos meus amigos de Bauru, que mais que conhecidos, se tornaram companheiros. À Marcus Silva, Jonathas Mendonça, Priscila Medina, Murillo Ferrari, Hebert Claros, João Gabriel, Manuela Morais, Karen Terossi, Victor Pontes, Kit Gaion e todos que de alguma forma contribuíram para esse trabalho. Aos moradores do Pinheirinho e membros da coordenação do MUST. À Luiz Fernando da Silva, mais que meu orientador, meu querido mestre. “Hoje, certamente mais importante que a consciência do lugar, é a consciência do mundo, obtida através do lugar” Milton Santos RESUMO Os movimentos sociais, como qualquer grupo social, são compostos por indivíduos complexos e cheios de particularidades. A grande mídia tende a homogeneizar os integrantes dos movimentos sociais e trazer uma abordagem superficial quanto a essa questão. Ainda que existam essas particularidades, é possível traçar um perfil desse grupo através de suas bandeiras, composição social e universo simbólico ao seu redor. A intenção desse trabalho é traçar um perfil do movimento social Pinheirinho, mas trazendo perfis individuais que mostrem a diversidade que existe entre os integrantes desse grupo. Palavras-chave: Jornalismo; Movimento Social; Pinheirinho; Movimento Urbano dos Sem Teto. Sumário 1 Introdução e justificativa 2 Objetivos 3 Fundamentação Teórica 3.1 Localização no momento histórico 3.2 Composição social 3.3 Quadro da composição social do Pinheirinho 3.4 Universo simbólico e ideológico do Pinheirinho 4 Detalhamento do livro 4.1 Formato 4.2 Diagramação 4.3 Textos e legendas 5 Considerações finais 6 Referências 1 Introdução e justificativa A escolha do tema para meu trabalho de conclusão de curso não foi difícil. Desde que entrei na universidade, por militar no movimento estudantil, tenho contato com diversos movimentos sociais e sindicais, e escolher retratar um deles foi minha primeira opção. A ocupação do Pinheirinho veio facilmente como preferência para o trabalho. A primeira vez que ouvi falar do MUST foi no Congresso da Coordenação Nacional de Lutas, em 2008. Posteriormente, em 2009, no Congresso Nacional de Estudantes, moradores do Pinheirinho solidariamente participaram como seguranças e equipe de apoio do evento. Foi quando tive certeza da escolha. A escolha de trabalhar com fotos tem relação com meu interesse pela área do fotojornalismo. Interesse esse que me levou a uma espécie de especialização, uma busca durante toda minha graduação por um desenvolvimento prático e técnico. O formato de livro, ao invés de um ensaio fotográfico ou de uma grande reportagem, se deu por esse trabalho procurar ser mais complexo que um trabalho fotográfico, envolvendo uma pesquisa jornalística de fundo. Acredito que o livro consegue contemplar a proposta de um ensaio e garantir as características jornalísticas específicas de uma reportagem. Por se tratar de um trabalho de conclusão do curso de jornalismo, parti da forma como a grande mídia retrata os movimentos sociais e busquei me contrapor a isso. A imprensa em geral criminaliza o movimento social e o trata de forma superficial, homogeneizando seus integrantes, desconsiderando a particularidade e complexidade das pessoas que o compõe. O papel de quebrar essa máscara imposta cabe hoje somente às mídias alternativas, sindicais e de esquerda. Esse livro é uma tentativa de complementar o trabalho dessas mídias. 2 Objetivos Esse livro tem dois objetivos centrais: trazer uma descrição do acampamento e levar o leitor a identificar os militantes da ocupação do Pinheirinho como indivíduos complexos, para além de uma caracterização rasa e simplista. O livro tenta fugir do estereótipo traçado pela grande mídia, que reduz os movimentos a um grupo homogêneo com poucos propósitos (normalmente uma só bandeira) e pouca ou nenhuma variedade de características, histórias, opiniões e posturas entre seus os integrantes. 3. Fundamentação Teórica 3.1 Localização do momento histórico Os movimentos sociais têm relação direta com o momento histórico em que se encontram inseridos. Essa relação se dá em uma via de mão-dupla: Por um lado, eles servem como termômetros, refletindo através de suas bandeiras quais são os principais problemas da sociedade em questão. Por outro, sua estruturação se liga diretamente à situação histórica vigente. Em cada momento histórico, são os movimentos sociais que revelam, como sismógrafo, as áreas de carência estrutural, os focos de insatisfação, os desejos coletivos, permitindo a realização de uma verdadeira topografia das relações sociais. Tanto sua forma como seu conteúdo são condicionados pela específica constelação histórica, razão pela qual não se pode compreendê-los sem remissão direta às determinações históricas macroestruturais (SOARES DO BEM, 2006) Caracterizar o momento histórico no qual se encontra inserido o objeto de estudo – no caso, o movimento social do Pinheirinho – é de vital importância para não cairmos numa análise superficial, considerando que o sujeito histórico nunca é um fato isolado das características e contradições da sociedade que o rodeia. O momento histórico no qual se inserem os atuais movimentos sociais é o da fase imperialista, que Lênin define como “fase superior do capitalismo”. Anteriormente a essa formulação leninista, Marx iniciou a caracterização do período histórico aberto com a consolidação do capitalismo. Segundo o marxismo, a luta de classes passou a se travar entre trabalhadores e detentores dos meios de produção: Entretanto, a nossa época, a época da burguesia, caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos opostos, em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado. (MARX, 1848) Lênin, em seu livro O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo atualiza o momento histórico colocado por Marx e avança na sua caracterização: O sinal do nosso tempo é o entusiasmo ‘geral’ pelas perspectivas do imperialismo, a sua defesa furiosa, o seu embelezamento por todos os meios. A ideologia imperialista penetra mesmo no seio da classe operária, que não está separada das outras classes por uma muralha da China. (LÊNIN, 1984) Nahuel Moreno resgata a questão colocada por Marx quando afirma que a localização no momento histórico – que ele define como ‘época’ – tem direta relação com a etapa da luta de classes. Partindo do conceito de forças produtivas, inicia-se a transição para uma nova época quando ocorre uma estagnação dessas forças: Quando se produz esse choque entre o desenvolvimento das forças produtivas e a velha estrutura social, abre-se para a humanidade uma época revolucionária. É uma época de grandes convulsões, na qual as novas classes progressistas lutam contra a velha classe exploradora que já não serve para nada e que freia todo o desenvolvimento. (MORENO, 2003) Em seu livro As Revoluções do século XX, Moreno coloca que a primeira guerra mundial iniciou uma nova fase, na qual nos encontramos até os dias de hoje: Esta época é a da revolução operária e socialista, porque a guerra (que se converterá num fenômeno permanente) e a miséria das massas (provocada pelo freio ao desenvolvimento das forças produtivas) fazem entrar em ação revolucionária a nova classe progressiva, a classe operária, que faz uma primeira revolução na Rússia em 1917. (MORENO, 2003) Com o estabelecimento dessa crise estrutural, o quadro da chamada “marginalidade” se torna naturalizado na sociedade. Se na década de 70 do século XX a marginalidade era pensada como fenômeno típico do capitalismo periférico e estava associada à existência de uma parcela dos trabalhadores urbanos não integrados aos modernos setores da atividade econômica, a partir da década de 90, com as mudanças estruturais, a situação modifica-se sensivelmente. A exclusão social, vista como um fenômeno típico do capitalismo atual, está relacionada à crescente precarização do mercado de trabalho e à fragilização da inserção profissional, que geram uma 'ruptura progressiva dos laços sociais' (Lesbaupin, 200, p.33). Ela transforma os 'excluídos necessários' das décadas anteriores (o 'exército industrial de reserva') em 'excluídos desnecessários', colocando-os na posição de 'inúteis' e 'excedentes'. (SOARES DO BEM, 2006) Os reflexos desse quadro histórico descrito são claramente visualizados quando se estuda a composição social de um movimento em questão, mostrando que a situação dos indivíduos dentro de um determinado grupo não foge à situação estrutural em que se encontra sociedade em geral. Um último aspecto importante a se destacar no atual contexto histórico é a criminalização dos movimentos sociais por parte da mídia e do Estado. Partindo de casos concretos ocorridos no Pinheirinho, podemos ver como essa criminalização se efetiva contra o movimento. Em 2004, o então prefeito de São José dos Campos, Emanuel Fernandes (PSDB), aprovou uma lei que retirava benefícios sociais das famílias que se encontravam no acampamento. A Lei Municipal Nº 6.539, de 26/03/2004 foi formulada pelo então presidente da Câmara dos Vereadores, Walter Hayashi (PSB) e ficou conhecida como “Lei da Fome”: Art. 1º O Poder Executivo deverá notificar todo aquele que invadir área pública ou particular, concedendo-Ihe o prazo de 24 (vinte e quatro) horas para desocupar o local, sob as penas da Lei. Art. 2º Aquele que deixar de atender à notificação do Poder Executivo será desligado de todos os programas sociais do Município, inclusive o habitacional, afora outras medidas legais adotadas. Art. 3º Se posteriormente ao desligamento o munícipe deixar a área invadida, haverá um prazo de carência de 6 (seis) meses para que readquira o direito de inscrição e participação em programas municipais.1 O procurador-geral de Justiça, Rodrigo César Rebelo Pinho encaminhou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade e, em 24 de maio de 2006, a lei foi considerada inconstitucional pelo tribunal de justiça do estado de São Paulo por violar o princípio da separação de poderes: Invadindo, pois, a esfera de atuação executiva, a Câmara editou lei que regulamenta o poder polícia administrativa, já que prevê punição e limitação de direitos daqueles que invadirem área pública ou particular, de molde a conter atos desse jaez, em beneficio da sociedade. É a administração pública, não a Edilidade, que deve impor medidas coercitivas, em prol do interesse público, balizadas pelos requisitos da necessidade, da proporcionalidade e da razoabilidade.“2 Ainda no documento que a anula, é citado a desproporcionalidade da lei traduzida como “Por demais severa”: Patente a desproporção entre o fato da invasão e a pena infligida que, no mais das vezes, transcenderá a figura do invasor. Nesse contexto, também não se afigura razoável punir o invasor com a perda de benefícios sociais. Essa medida é por demais severa e não guarda relação equânime entre a sanção e o benefício social. A condição de invasor de área pública ou privada, não pode, de forma alguma, importar perdas de todos os benefícios sociais já conquistados na coletividade.3 Em março de 2009, cerca de 90 soldados do exército ocuparam o Pinheirinho em busca de sete fuzis que haviam sido roubados do 6º Batalhão de Infantaria Leve de Caçapava. Posteriormente os fuzis foram encontrados e nenhum deles estava no Pinheirinho ou com pessoas que tivessem qualquer vínculo com o acampamento. 1 SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, Lei Municipal Nº6.539, de 26 de março de 2004, Dispõe sobre invasões nas áreas públicas e particulares e dá outras providências. Pub, BM n'º 1.607, de 08/04/2004 2 Ação Direta de Inconstitucionalidade n.° 125.738.0/0 - São Paulo - Voto n.° 11.066 3 Ação Direta de Inconstitucionalidade n.° 125.738.0/0 - São Paulo - Voto n.° 11.066 O ataque da direita às lutas sociais manifesta a força do movimento social brasileiro. Ao atingir interesses dos setores privilegiados, questiona as profunda injustiças e a desigualdade e propõe medidas concretas para tornar o país melhor para todos e todas e não somente para uma minoria. O caráter anti-capitalista e anti-imperialista do movimento social desperta a ira da direita. (SANSON, 2008) 3.2 Composição social Para o marxismo, a composição social de um grupo - que é definida pela localização dos indivíduos desse grupo nas relações de produção - define a classe desse grupo. Isso também se aplica ao movimento social: sua composição social define sua classe. Porém, existem autores recentes das ciências sociais que questionam a validade dessa discussão na sociedade moderna. Klaus Eder, em seu artigo publicado em junho de 2001 na Revista Brasileira de Ciências Sociais, traz uma atual discussão sobre os novos movimentos sociais. Para Eder, a classe social ainda tem relevância nas ciências sociais, porém não no sentido tradicional do século XIX. Tradicionalmente, a classe operária foi ligada a forças naturais, as forças da produção. A idéia da classe operária carregava uma ambivalência fundamental: ela era ao mesmo tempo um fenômeno natural e também social. O conceito de classe herdado dessa tradição é um conceito adequado a uma sociedade que ainda está ela própria ligada a formas naturalizadas. (EDER, 2001) Eder segue dizendo que a modernidade se caracteriza pela ‘desnaturalização’ da realidade social e consequentemente pela queda do conceito bem delimitado de classe. Essa ‘desnaturalização’ leva os movimentos sociais a atravessarem as linhas de classe, tornando inválida a definição da classe em um movimento social. São a geração, a posição e a mobilidade que são características dos grupos de pessoas que se engajam na política dos novos movimentos ou simpatizam com ela. (...) Os novos movimentos sociais são movimentos carregados de valor que não se ligam diretamente a características socioestruturais relacionadas à desigualdade social. (EDER, 2001) Não podemos cair no erro, porém, de aplicar o termo novos movimentos sociais a qualquer movimento social na atualidade, considerando apenas seu período de existência. O Pinheirinho é um movimento social novo, e não um novo movimento social. A linha delimitadora da classe social permanece visível nesse caso e, portanto, a definição da classe do movimento, partindo de uma análise de sua base social, permanece válida. 4.3 Quadro da composição social do Pinheirinho Não existem dados exatos sobre a situação dos moradores no que se refere ao mercado de trabalho. Para então montarmos um quadro que pretenda mostrar a composição social do movimento, vamos partir dos relatos dos moradores e lideres da ocupação e das informações colhidas durante o processo de observação feito no desenvolvimento das entrevistas. Em sua entrevista, Valdir Martins, conhecido como Marrom, membro da coordenação do movimento, citou que a maior parte dos moradores do Pinheirinho são trabalhadores assalariados ou eventuais - empregados nos chamados "bicos". Marrom chega a comentar que é frequente a entrada de representantes de empresas da cidade de São José dos Campos no acampamento à procura de mão de obra: “Hoje os empresários entram aqui procurando gente para trabalhar. É normal os empresários mandarem avisar ' Fala pro pessoal do Pinheirinho que têm emprego aqui', principalmente na área de construção civil.”4 Ainda na mesma entrevista, Marrom cita os condomínios residenciais próximos ao acampamento, que além de empregar homens na área de construção civil também emprega mulheres no serviço doméstico nas residências. Partindo de exemplos concretos, vemos o caso de uma das entrevistadas, Daniele. Hoje ela não exerce nenhuma atividade remunerada e seu marido trabalha de maneira informal na área de construção civil. No caso de Renato, outro entrevistado, seu trabalho é, segundo ele, no ramo de “reciclagem”. Ele recolhe - principalmente através de doações - e revende objetos usados, como móveis, eletrodomésticos e utensílios em geral. Para completar o quadro da composição social do Pinheirinho, é importante citar exemplos de moradores como o de Maria e Dina. Ambas possuem pequenos estabelecimentos dentro do acampamento. Maria, uma das entrevistadas, possui uma pequena mercearia na parte frontal da sua casa no acampamento. Além 4 Entrevista concedida em 31 de outubro de 2009. disso, ela também trabalha em casa como costureira, fazendo pequenos concertos em roupas. Tanto seus serviços de costura quanto a mercearia atendem apenas moradores do Pinheirinho. Dina, irmã da entrevistada Tereza, também possui um pequeno comércio. Na mesma rua de Maria, funciona o Sacolão da Dina, uma pequena quitanda que também atende aos moradores do acampamento. Esses três últimos exemplos – Renato, Maria e Dina – refletem iniciativas que Marrom acredita terem sido necessárias no início da ocupação: “Porque na época era muito dificultoso as pessoas arranjarem emprego aí fora, porque tinha uma 'queimação' danada no pessoal daqui, aí o jeito do pessoal sobreviver era catar reciclagem e cada um fazer seu próprio comércio”5. Ainda que Dina e Maria - por possuírem estabelecimentos próprios - não estejam em uma direta situação de exploração no mercado de trabalho, não há diferenciação entre elas e o restante dos moradores do Pinheirinho quanto à sua classe social. Isso por que a classificação de classe, ainda que parta da localização nas relações de produção, não pode ser encerrada nesse aspecto. Todo o universo cultural, ideológico e simbólico em torno da ocupação é pautado pela referência à classe proletária definindo assim uma identidade classista ao movimento. 4.4 Universo simbólico e ideológico do Pinheirinho O universo simbólico que envolve o acampamento é claramente de caráter classista. É possível encontrar bandeiras da CONLUTAS, do MUST e placas com apoio a candidatos de partidos de esquerda por toda a extensão do acampamento. Na primeira ida ao Pinheirinho isso foi notado já no barracão onde acontece as assembléias. No fundo do palco estava pregada uma faixa de comemoração ao aniversário de 5 anos da ocupação, e nela havia os dizeres: “Pai: MUST / Mãe: CONLUTAS”. O formato de assembléia e a utilização de reuniões de setores (chamadas núcleos) também mostra um caráter de organização operária. Existe uma proximidade com o movimento sindical e estudantil, ainda que os moradores não se encontrem diretamente inseridos nesses setores. Com relação 5 Entrevista concedida em 31 de outubro de 2009. ao movimento estudantil podemos citar a participação voluntária de moradores no Congresso Nacional de Estudantes. Nas entrevistas foi possível notar a referência que os moradores têm no movimento operário, que se reflete no apoio que muitos moradores expressam ao sindicato dos metalúrgicos de São José dos Campos. 4. Detalhamento do livro O produto concretizado trata-se de um livro fotográfico do movimento social estudado, o Pinheirinho. Partindo das conclusões do estudo sobre a identidade do movimento, pretendíamos abordar os indivíduos em fotos onde o tema principal a ser retratado é o próprio indivíduo, tentando demonstrar através dos retratos e das entrevistas o universo visualizado. A ordem das etapas para a execução do projeto foi importante. Após um levantamento bibliográfico inicial seguido de leitura e fichamento da bibliografia iniciou-se o trabalho no acampamento. As entrevistas precederam as fotos por uma questão bem clara, primeiro era construído um perfil do entrevistado, através das entrevistas e de relatos de outros moradores, fazendo sempre uma associação com a identidade traçada do movimento. Posteriormente se procurou obter fotos que harmonizassem com esse perfil do entrevistado e do ambiente. Dessa forma, a intenção do trabalho foi retratar nas fotos todo o universo ideológico e simbólico da ocupação e as características assimiladas de cada personagem pelas entrevistas. 4.1 Formato O formato escolhido para a impressão do livro foi folha A4, 21 por 29,7 centímetros. Essas dimensões privilegiam o formato mais tradicional de fotografia - horizontal – no qual a maior parte das fotos selecionadas para o livro estavam. Além disso, a importância do formato ser em largas dimensões garante a boa visualização dos detalhes da fotografia. 4.2 Diagramação O projeto gráfico do livro buscou privilegiar as fotos e facilitar a visualização dos detalhes. Portanto em cada página foi colocada apenas de uma a três fotos, garantindo uma diagramação leve e que garanta atenção nas fotos colocadas. A fonte escolhida para os textos foi Tahoma, por ser uma letra sóbria e sem serifa, facilitando uma leitura leve, dado que o conteúdo dos textos não pretende ser denso. Para a utilização do itálico, dado que a Tahoma não possui essa possibilidade, foi usada Verdana, uma letra com as mesmas características. 4.3 Textos e legendas As descrições do acampamento e dos entrevistados, tentaram reunir as informações coletadas nas entrevistas, mas com um discurso informal. A narrativa do livro acontece em primeira pessoa do singular e terceira pessoa do plural, definindo o tom de pessoalidade. Quando o discurso indireto é intercalado em algumas descrições com o discurso direto livre, é com a intenção de garantir aspectos importantes da fala original. As legendas são de dois tipos: trechos das entrevistas e descrições da autora. No capítulo de apresentação do acampamento, as legendas entre aspas são trechos da entrevista com Marrom, feita no dia 31 de outubro de 2009. Nos capítulos de perfis, as legendas entre aspas são trechos das entrevistas com a personagem descrita. As legendas que não se encontram entre aspas são textos da autora. Cada legenda foi posicionada próxima a foto a qual se refere. Houve uma preocupação de garantir que a leitura da foto não seja prejudicada pela atenção tomada pela legenda, por isso foi utilizada um tamanho de fonte pequeno mas legível. O tamanho da fonte nas legendas variam entre 12 e 16, destacando alguns trechos considerados importantes pela autora. 4.4 Execução O contato inicial com o acampamento foi no dia 14 de agosto de 2009, dia do ato que foi retratado no primeiro capítulo do livro. Nessa data, iniciou-se o processo de aproximação dos moradores do Pinheirinho, com o acompanhamento do ato desde sua concentração até a volta para o acampamento. Nessa data não foi feita nenhuma entrevista, apenas dados sobre o ato e fotos foram recolhidas. No dia seguinte, na assembléia, iniciou-se o processo dentro do acampamento. A partir de então a presença nas assembléias ao sábado se tornou freqüente até a finalização dos trabalhos. Durante essa assembléia, não foram feitas entrevistas nem fotos, e o projeto do trabalho foi apresentado aos moradores com a intenção de obter aprovação dos moradores quanto à execução do projeto e aproximar possíveis contatos para o livro. A partir de então as entrevistas começaram a ser marcadas e executadas aos fins de semana dos três meses que levaram a execução do livro. No total foram feitas 12 entrevistas com oito moradores. Destas entrevistas, cinco perfis foram selecionados para o livro. Após cada entrevista era feita uma sessão de fotos do entrevistado, não necessariamente a única. O trabalho de recolhimento de material para o livro foi concluído com a entrevista do Marrom e com duas sessões de fotos das assembléias. Por fim se iniciou o processo de transcrição das entrevistas, seleção das fotos, edição e diagramação. Só então os textos foram escritos e os trechos das entrevistas selecionados. 5 Considerações finais Quando o livro começou a ser executado, o formato de sua narrativa ainda não estava definido. Seria ingênuo pensar que uma descrição de uma ocupação, feita por uma pessoa que tem envolvimento com os movimentos sociais, seria meramente descritiva sem carregar valores da autora. Essa nunca foi a intenção do trabalho. A partir desse pressuposto e da relação que criei com as personagens e com o acampamento em si, concluí que o tom de pessoalidade nos textos seria o mais adequado. Tanto a descrição do acampamento quanto os perfis das personagens retratadas não tiveram a intenção de ser impessoais ou puramente quantitativos. Trazem uma forte carga de pessoalidade, que se refletiu no subtítulo do livro: Um olhar. O título do livro, capa e contracapa dizem muito a respeito da conclusão do projeto. A foto escolhida para a capa traz em primeiro plano a fachada de uma casa da Rua 2. O motivo de ser a fotografia escolhida para a capa é o mesmo que levou ao título do livro. Dos cinco perfis publicados, três residem atualmente na Rua 2, e nas primeiras entrevistas, os cinco residiam nessa rua. Os demais setores do acampamento também foram visitados e pesquisados, fazendo constar no livro fotografias do acampamento como um todo. Porém, pelos principais personagens se encontrarem na Rua 2, em cada ida ao acampamento o trabalho era sempre iniciado por esse trecho. A escolha não se deve apenas ao fato da Rua 2 ter sido o recorte escolhido dentro do espaço do Pinheirinho para a efetuação do trabalho. Dentro do acampamento é recorrente à referência ao número das ruas para indicação de pessoas e estabelecimentos. O termo “Rua 2” foi constantemente ouvido durante as entrevistas e todo o processo de pesquisa dentro da ocupação. Sua utilização no título do livro identifica o caráter da pesquisa: um trabalho de campo que incluiu observação participante – ao ponto da pesquisadora tomar um termo do vocabulário do movimento como seu. 6. Referências ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: Ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2000. APOIO e Solidariedade aos Lutadores do Pinheirinho. Disponível em: http://www.mtst.info/?q=taxonomy/term/195. Acesso em: 6 nov. 2009. 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