UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO INSTITUTO DE ARTES YASMIN DUKHAIL LAYAUN CORRÊA ALMEIDA A VOCAÇÃO CIVILIZATÓRIA DA MÚSICA: DANIEL BARENBOIM E EDWARD SAID SÃO PAULO 2016 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JÚLIO DE MESQUITA FILHO INSTITUTO DE ARTES YASMIN DUKHAIL LAYAUN CORRÊA ALMEIDA A VOCAÇÃO CIVILIZATÓRIA DA MÚSICA: DANIEL BARENBOIM E EDWARD SAID Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho como requisito básico para a conclusão do curso de Bacharelado em Música: Habilitação em Regência Orientador: Prof. Dr. Gilmar Roberto Jardim Prof. Livre Docente do Dpto. Música da ECA – USP. YASMIN DUKHAIL LAYAUN CORRÊA ALMEIDA A VOCAÇÃO CIVILIZATÓRIA DA MÚSICA: DANIEL BARENBOIM E EDWARD SAID Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho como requisito básico para a conclusão do curso de Bacharelado em Música: Habilitação em Regência Orientador: Prof. Dr. Gilmar Roberto Jardim Prof. Livre Docente do Dpto. Música da ECA – USP. BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Gilmar Roberto Jardim Universidade de São Paulo – ECA Prof. Dr. Lutero Rodrigues Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – IA São Paulo, _______ de Outubro de 2016. RESUMO O presente Trabalho de Conclusão de Curso abordará a relevância do uso da música no contexto de conflito entre árabes e judeus que atravessa muitos séculos. Um recorte da história dos povos mencionados será retratado, sempre objetivando mostrar os pontos atenuantes do conflito. Como alvo de observação estará a Orquestra West-Eastern Divan, fundada por Daniel Barenboim e Edward Said, que recebe músicos dessas nacionalidades e a atividade musical é o que os aproxima. Ao final, após explorar e discutir as opiniões e pensamentos desses dois fundadores, será possível entrever o papel relevante que a música desempenha para criar ambientes favoráveis de convivência baseada na aceitação entre civis. Palavras-chave: Civilização e Música, Barenboim e Said, Orquestra West-Eastern Divan, judeus e árabes. SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 6 OBJETIVOS ............................................................................................................................. 8 GERAL .................................................................................................................................. 8 ESPECÍFICOS ...................................................................................................................... 8 REFERENCIAL TEÓRICO ....................................................................................................... 9 ASPECTOS RELEVANTES NO CONFLITO ENTRE ÁRABES E JUDEUS ...................... 12 A ORIGEM DO CONFLITO ............................................................................................... 12 ORIENTALISMO ................................................................................................................ 13 A PALESTINA ..................................................................................................................... 15 O HOLOCAUSTO ............................................................................................................... 17 A GUERRA FRIA, O TERRORISMO E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO .................... 17 A CRIAÇÃO DO ESTADO DE ISRAEL EM 1948 ............................................................ 19 UNIÃO SOVIÉTICA E ISRAEL ......................................................................................... 20 GUERRA DO YOM KIPPUR .............................................................................................. 20 A QUEDA DO MURO DE BERLIM .................................................................................. 21 O ATENTADO DE 11 DE SETEMBRO DE 2001 ............................................................. 22 RICHARD WAGNER E O ANTISSEMITISMO ................................................................ 22 A FUNÇÃO DA MÚSICA NA FORMAÇÃO CIVILIZATÓRIA ......................................... 25 A ORQUESTRA WEST-EASTERN DIVAN ......................................................................... 26 RELEVÂNCIA DO USO DA MÚSICA PARA O PROJETO WEST-EASTERN DIVAN ... 28 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 32 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 35 6 INTRODUÇÃO Conflitos entre pessoas e povos sempre estiveram presentes no decorrer da história. A procura por soluções para esses atritos, a discussão deles, os debates, os pensadores que escrevem a respeito, a fundação de organizações para apaziguar conflitos de grande escala, entre outras tentativas mostram que essas contendas atraem a atenção da sociedade e a afetam diretamente. O que dizer então de um conflito que atravessa séculos? O conflito entre árabes e judeus está presente na história desde a origem desses povos, intensificando-se após a Segunda Guerra Mundial. O pensador, músico e escritor Edward Said dedicou a vida a esclarecer esse conflito. Escreveu muitos livros sobre o tema. De origem palestina, não se posicionava contra os judeus em seus escritos, mas buscava sempre uma solução “criativa”, e estimulava seus alunos à mesma ação. Dentro do mesmo contexto, o maestro Daniel Barenboim de origem judaica também pensa e escreve sobre o tema, visando os mesmos objetivos que Said. Juntos, os dois construíram um projeto, a Orquestra West-Eastern Divan em 1999. Sobre o projeto, Edward Said nos diz: “No nosso trabalho, planejamentos e discussões, o nosso princípio central é que a separação entre os povos não é solução para os problemas que dividem as pessoas. Cooperação e coexistência pode ser feita através da música da forma como nós temos feito e vivido. Eu estou repleto de otimismo apesar do céu escuro e da situação de aparente falta de esperança do momento que nos cerca a todos”1. Essa era a esperança que ele expressava ao falar sobre o assunto. Daniel Barenboim, sobre o mesmo assunto afirma: “Nosso projeto não é político, mas humano. Não buscamos que haja um consenso político entre os membros da orquestra. Isso é impossível entre 120 pessoas vindas daquela região, mas buscamos que aceitem, indaguem e tentem entender a história do outro, principalmente quando não se concorda com ela.”2 1INSTITUTO DA CULTURA ÁRABE – ICArabe. Edward Said – inspiração da nossa causa e de muitas outras, 16/07/2007. Disponível em: Acesso em 04 de abr. 2016. 2DEUTSCHE WELLE. Entrevista – Daniel Barenboim, 04/11/2014. Disponível em: Acesso em 30 de mar. 2016. 7 O encontro entre o pensamento dessas duas personalidades consagradas e esse trabalho conjunto na formação da orquestra West-Eastern Divan é foco especial dentro deste tema tão amplo. Como é possível utilizar a música dentro de um contexto político/civil que atravessa séculos de agressividade? Como conciliar os conflitos entre as pessoas na formação e atuação de uma orquestra? Qual a relevância da utilização da música num projeto social para melhorar um conflito agravado pelos meios de comunicação, confrontos diretos e conceitos pré- estabelecidos sobre o outro e como ela pode ajudar no processo de se criar um ambiente favorável de convivência? Como referencial histórico será utilizado o livro do historiador José Jobson de A. Arruda, citado na bibliografia, e a Bíblia, apontada por esse historiador como fonte do conhecimento que foi possível adquirir sobre a história do povo hebreu, ressaltando o Antigo Testamento.3 Ao final deste trabalho, os motivos responsáveis por iniciar e perpetuar esse conflito milenar serão abordados, assim como a atividade da Orquestra West-Eastern Divan e como tal projeto foi capaz de promover a aceitação mútua, utilizando por excelência a música como recurso. 3 Arruda, p.89 8 OBJETIVOS GERAL • Avaliar a questão do conflito entre árabes e judeus e como a linguagem musical pode ser utilizada para promover a convivência entre eles. ESPECÍFICOS • Fazer um recorte sobre a história do conflito entre árabes e judeus; • Revelar os pensamentos de Edward Said e Daniel Barenboim na questão do conflito oriental; • Mostrar a formação da Orquestra West-Eastern Divan e sua relevância para os indivíduos participantes; • Compreender como através da música pode-se aprender a aceitação. 9 REFERENCIAL TEÓRICO O trabalho reunirá essencialmente ideias dos pensadores Edward W. Said e Daniel Barenboim, fundadores da orquestra West-Eastern Divan. “Não podemos definir música como algo que tem apenas conteúdo matemático, poético ou sensual. Trata-se de tudo isso e muito mais. Relaciona-se à condição humana, porque a música é escrita e executada por seres humanos que expressam seus pensamentos íntimos, sentimentos, impressões e observações.” Barenboim (2009, p.18). [...]“enfatizo que nem o termo “Oriente” nem o conceito “Ocidente” têm estabilidade ontológica; ambos são constituídos de esforço humano – parte afirmação, parte identificação do Outro.” Said (2003, p.13). [...]”pode-se observar a possibilidade de aprender não só sobre a música, mas através dela – um processo que dura uma vida inteira. Através do ritmo, pode-se ensinar ordem e disciplina às crianças. Os jovens que experimentam o sentimento da paixão pela primeira vez e perdem todo o senso de disciplina podem observar, por intermédio da música, como paixão e disciplina podem coexistir – mesmo a mais apaixonada frase musical tem de ter, subjacente, um sentido de ordem.” Barenboim (2009, p.25). “Admitimos, com justiça, que o Holocausto alterou permanentemente a consciência de nosso tempo: por que não reconhecer a mesma mutação epistemológica nas ações do imperialismo e no que o orientalismo continua a fazer?” Said (2003, p.18). “A transformação da Palestina em Israel tem sido um projeto altamente oneroso, em especial para os árabes-palestinos” Said (1992, p.17). [...]”o mundo foi conduzido a uma outra direção depois de 9 de novembro de 1989 ou de 11 de setembro de 2001. A música nos ensina que devemos aceitar a inevitabilidade de um evento que modifica, irrevogavelmente, o curso da história.” Barenboim (2009, p.27). “Passei boa parte de minha vida, no decorrer dos últimos 35 anos, defendendo o direito do povo palestino à autodeterminação, mas sempre procurei fazê-lo mantendo-me totalmente atento à realidade do povo judeu e ao que ele sofreu em matéria de perseguição e genocídio. Mais importante do que tudo é dar ao conflito pela igualdade na Palestina e em Israel o 10 sentido de perseguir um objetivo humano, ou seja, a coexistência, e não o aumento da supressão e da denegação. Não por acaso, chamo a atenção para o fato de que o orientalismo e o antissemitismo moderno têm raízes comuns. Assim sendo, considero uma necessidade vital que os intelectuais independentes apresentem sempre modelos alternativos redutivamente simplificadores e aos modelos restritivos e baseados na hostilidade mútua que há tanto tempo prevalecem no Oriente Médio e em outras partes do mundo.” Said (2003, p.20). “A cultura incentiva o contato entre as pessoas e pode aproximá-las, promovendo a compreensão mútua. Foi por isso que Edward Said e eu fundamos o projeto West-Eastern Divan, com o objetivo de reunir músicos de Israel, da Palestina e de outros países árabes para fazer música juntos e, no fim – quando percebemos a quantidade de interessados pela ideia -, formamos uma orquestra.” Barenboim (2009, p.68). “A arte de tocar música é a arte de tocar e ouvir simultaneamente, uma atitude reforçando a outra. Isso estimulada pela audição e uma voz é reforçada pela outra. Essa qualidade dialógica inerente à música foi a principal razão para a fundação da nossa orquestra. Edward Said tornou claro, em suas discussões com os jovens músicos, que a separação das pessoas não é a solução para nenhum dos problemas que nos dividem e que a ignorância acerca do outro certamente não nos fornece nenhuma ajuda.” Barenboim (2009, p.70). “Na demonização de um inimigo desconhecido, em relação ao qual a etiqueta “terrorista” serve ao propósito geral de manter as pessoas mobilizadas e enraivecidas, as imagens da mídia atraem atenção excessiva e podem ser exploradas em épocas de crise e insegurança do tipo produzido pelo período pós Onze de Setembro.” Said (2003,p.22). “Na West-Eastern Divan a linguagem metafísica universal da música torna-se a conexão que esses jovens têm uns com os outros; é uma língua de diálogo contínuo. A música é a estrutura comum – uma linguagem abstrata de harmonia, em contraste com as muitas outras línguas faladas na orquestra – que torna possível expressar o que é difícil, ou mesmo proibido, de ser expresso em palavras.” Barenboim (2009, p.72). [...]”o que de fato importa é que o humanismo é nossa única possibilidade de resistência – e eu chegaria mesmo ao ponto de dizer que ele é nossa última possibilidade de resistência – contra as práticas desumanas que desfiguram a história humana.” Said (2003, p.26). “O caráter do projeto [West-Eastern Divan] é mais humanista que político” (Barenboim, 2009, p.78). 11 “O patrimônio cultural compartilhado pelos povos israelenses e árabes é extraordinário em sua diversidade e riqueza, e ainda é necessário buscar conscientemente as semelhanças entre eles para construir uma fundação que apoiará não um muro divisório, mas um fórum para a cooperação das duas populações. O paradoxo do conflito israelo-palestino consiste no fato de que ele não pode ser resolvido pela aplicação de axiomas internacionais, em razão de seu caráter local. Por outro lado, o conflito, assim como uma velha oliveira, desenvolveu tantos ramos e espalhou tantas sementes que, depois de algum tempo, voltaram a crescer como novos problemas que devem ser encarados tanto em nível local como global.” (Barenboim, 2009, p.108). “A transferência, no ânimo antissemita popular, de um alvo judeu para um alvo árabe foi realizada de forma suave, pois a figura era na essência a mesma.” Said (1995, p.382). 12 ASPECTOS RELEVANTES NO CONFLITO ENTRE ÁRABES E JUDEUS Sempre que surge uma nova autoridade para comandar uma nação, o argumento usado é que esse novo comando será diferente do outro. Promessas ilusórias são feitas, educação, saúde, benefícios são prometidos e se tenta mostrar uma imagem animadora do suposto progresso que virá. Na história das grandes civilizações também acontecia o mesmo. Quem subia ao poder se proclamava melhor que seu antecessor e capaz de realizar todas as proezas que não haviam sido feitas até o momento. Também promete-se paz, e a guerra é colocada como última opção na lista de soluções para conflitos que inevitavelmente acabem acontecendo. O que mais aconteceu, porém, é que essas promessas aparentemente foram esquecidas e a guerra tornou-se um meio fácil de mostrar poder e grandeza, assolando as pessoas dentro e fora da jurisdição do poder em vigor. Parece ser difícil deixar de ser iludido com discursos tão convincentes, e a única missão civilizatória que pode ser vista sendo cumprida é a de destruição e morte. A ORIGEM DO CONFLITO Dois povos que sofrem por muito tempo com esse tipo de regime governamental são os israelenses e os árabes. Esses povos tiveram sua origem na antiga Mesopotâmia, ambos semitas, ou seja, descendentes de Sem, filho de Noé. Da genealogia de Sem veio Abraão, e seus dois primeiros filhos foram Ismael, filho de Agar e Isaque, filho de Sara, esposa legítima de Abraão. Esses dois filhos de Abraão tiveram uma grande descendência. Ismael peregrinou pelos desertos e Isaque se estabeleceu na terra de Canaã, que pertencia a seu pai. Isaque gerou o povo de Israel (nome de um de seus filhos). Israel gerou doze filhos, sendo um deles chamado Judá (de onde vem o nome judeu). Na época do reinado do rei Roboão, filho de Salomão, as doze tribos originadas dos filhos de Israel se dividiram. Dez delas ficaram contra o rei Roboão e apenas duas mantiveram-se ao seu lado. Uma dessas duas foi a tribo de Judá, que continha a linhagem real. A partir desse momento, atribui-se o nome de judeu a eles, e as demais tribos são chamadas apenas de israelitas. Com o tempo, judeu passou a ser um nome atribuído a todo aquele que segue a religião judaica, e não apenas aos- indivíduos que possuem o sangue israelita nas veias. 13 Ismael casou-se com uma mulher egípcia e gerou o povo que é conhecido como árabe (por dominarem a Arábia). A princípio, esse povo foi conhecido como beduínos, os árabes do deserto. Uma grande parte da descendência de Ismael aliou-se a religião muçulmana, baseada nos ensinos de Maomé. Com o tempo, assim como aconteceu aos israelitas, o nome muçulmano e o nome árabe passaram a resumir o povo ismaelita. Ambos os povos citados são semitas, como já foi mencionado. Mas esses povos que existem hoje não vieram unicamente de Abraão. Parte dos árabes atribui sua origem a Naor, que era irmão de Abraão, também semita. Depois da morte da esposa de Abraão, Sara, ele casou-se com Quetura, e teve mais seis filhos com ela, que também geraram mais povos orientais e foram separados de Isaque. O conflito entre israelitas e ismaelitas já começa muito cedo, por volta de 1500 a.C. Sara, esposa de Abraão era estéril e muito idosa, e ofereceu sua serva Agar a Abraão para que tivesse um filho com ela e este valeria como filho de Sara. Porém, quando Agar viu que estava grávida, não quis mais ser apenas uma serva, e ela mesma criou Ismael. Depois de alguns anos, Sara engravidou e nasceu Isaque, que recebeu um banquete de seu pai. Isso gerou ciúme e iniciou um atrito entre as duas mulheres e Agar foi expulsa da casa de Abraão com seu filho Ismael. ORIENTALISMO Desde o momento em que um conceito para o Oriente começou a ser estudado, e o Ocidente passou a buscar entendê-lo com olhos ocidentais, surgiu o orientalismo. Porém, o que na verdade acontece é que os ocidentais não conseguem esquecer suas ideias pré- concebidas do Oriente, e aproximam-se dele como ocidentais, e não apenas como pessoas buscando aprender. Toda a bagagem de conhecimento que se adquire durante a vida, é carregada para as demais áreas que podem ser estudadas. Ao entrar no tema em questão, os orientalistas criam imagens sobre o Oriente que podem não corresponder à realidade. Uma única imagem é passada, passando a ser uma figura que resume tudo o que pode ser encontrado naquele lugar. Deixa-se transparecer que o 14 Oriente não pode representar a si mesmo, e que alguém deve explica-lo para que possa se tornar compreensível à sociedade ocidental. Uma questão complicada do orientalismo, citada diversas vezes por Edward Said, é o sentimento de superioridade que acompanha o pesquisador da área. Quando se aproxima do Oriente com o conhecimento que se possui e as ideias estereotipadas anexadas a ele, o Oriente é visto apenas como objeto de estudo. Vários orientalistas demonstraram essa visão com suas afirmações, resumidamente dizendo que o olhar europeu é mais puro, mais lógico e livre de ignorância. O oriental é apresentado como mais ingênuo ou não capaz de chegar ao nível intelectual que deveria possuir. Porém, a nação Egípcia, que dominou muitos povos nos primórdios das civilizações é objeto de estudo até hoje para muitos pesquisadores, egiptólogos. Muito do que pode ser visto hoje na área militar e governamental já havia sido utilizada por aquela grande civilização. O povo árabe fez uma grande contribuição em áreas muito estudadas, como a matemática, a física, a química, a astronomia, a arquitetura, a medicina, entre tantas outras. Como, pois, colocar-se em tal posto de superioridade na observação do próprio passado cultural? A questão relevante na história do Egito acontece em 1798, quando Napoleão Bonaparte invade o Egito. A partir desse momento, a relação Oriente Ocidente passa a ser vista sobre uma perspectiva que ainda pode ser refletida hoje nos aspectos culturais e políticos. Desse momento em diante, os olhares europeus é que seriam responsáveis por enxergar e transmitir a história. A religião é um aspecto delicado nesse contexto do orientalismo. O Cristianismo é a religião dominante no mundo ocidental. Os valores estabelecidos por essa religião permeiam as constituições dos países sob sua influência. Os valores éticos muitas vezes são estabelecidos com base nos valores cristãos. Com base nesses valores, o Islã passa a ser considerado como uma ameaça. Sempre a questão fundamental é: que conhecimento prévio se tem? Com base em que os conceitos serão estabelecidos? Para os orientalistas, é muito mais difícil aproximarem-se do Oriente com mentes limpas, prontos a observar e estudar. Quando um indivíduo se aproxima de uma situação sobre a qual tem pouco ou nenhum conhecimento, ele se sente pressionado a preparar-se para enfrenta-la, buscando pesquisar sobre o assunto. Normalmente essa pesquisa é feita em livros ou arquivos de mídia. Esse 15 material foi preparado por alguém que também teve uma experiência anterior. O conhecimento que o autor possuía o influenciou na criação do material, e quem fará uso dele, o tomará por verdade. Enquanto a própria pessoa que pesquisou não colocar-se em contato com essa nova situação, e não tirar conclusões próprias sobre o assunto, apenas o que ela leu será defendido. No entanto, o que muitas vezes acontece é que a realidade não corresponde ao que os livros ou a mídia mostram. Para cada pessoa, a experiência é única e fundamental para que se possa chegar a uma opinião concreta. Sobre o conceito de Orientalismo acontece a mesma coisa. Tudo o que já foi escrito e falado sobre o assunto manipulou a mente de muitas pessoas ocidentais para que vejam o Oriente com o mesmo olhar de seus pesquisadores. Essa situação é um agravante na formação de barreiras entre a comunicação de orientais e ocidentais. As atrocidades que acontecem no Oriente são mostradas pela mídia como uma prova da perversidade do povo; mas o que a sociedade parece não enxergar é que os próprios orientais é que são vitimas dessas “perversidades”. Impossível generalizar uma ideia sobre o caráter de um povo que vive dentro deste contexto. Serão “terroristas” ou vítimas do “terrorismo”? E impressiona o fato de orientais serem colocados como usurpadores de poder, como que tentando apoderar-se do mundo; a liberdade é colocada como ameaçada, e os orientais são considerados incorrigíveis, sendo impossível mudar suas ideias. O ideal então é preparar-se para resistir a eles. Essa é a ideia que tem sido difundida.4 A PALESTINA A antiga Palestina era composta de quatro regiões paralelas: a faixa junto ao mar mediterrâneo, uma zona de montanhas e colinas áridas, uma depressão onde está o Rio Jordão e o Mar Morto e dois planaltos com o Deserto da Síria e da Arábia.5 Segundo Said, Israel encontra-se no Oriente Médio, mas permanece distante da questão Palestina. Ele não se envolve nas questões do Oriente, ignorando a própria questão 4 Parágrafo baseado nas ideias de Edward Said, no livro “Orientalismo”. 5 Informações retiradas do livro “História Antiga e Medieval”, p.90, citado na bibliografia. 16 em que o seu território se encontra. As culturas dos povos residentes nessa faixa de terra são desvinculadas umas das outras. A Palestina é uma terra sem dono.6 Essa é uma questão que perdura por muitos séculos. Em 587 a.C., quando houve a queda de Israel como um reinado, o então atual rei Zedequias é levado cativo à Babilônia por Nabucodonosor, rei da Babilônia. Nesse momento o povo perde o direito a sua terra e é levado cativo à Babilônia para serviço escravo após um grande massacre ao povo judeu e ao seu território.7 Quando o Império Medo-Persa domina a Babilônia, Ciro, imperador persa, permite o retorno dos judeus à Israel. A diferença é que agora o domínio da terra de Israel é dos Medos e Persas, e a mesma situação prossegue quando os impérios sucessores assumem o domínio, como a Grécia e a Roma. O território então, após o exílio, passa a entrar numa condição de terra sob o domínio de alguma nação, mas que não possui a força de uma nação, nem dá aos que nascem em seu território direitos dignos de um cidadão nacional. A luta do povo judeu sempre foi conquistar a terra que uma vez foi sua. Esse desejo foi manifestado de várias formas por eles, especialmente por seu hino nacional, com letra composta desde 1878. “Enquanto no fundo do coração Palpitar uma alma judaica, E em direção ao Oriente O olhar voltar-se a Sião, Nossa esperança ainda não está perdida, Esperança de dois mil anos: De ser um povo livre em nossa terra, A terra de Sião e Jerusalém.”8 No hino pode ser reconhecida a ambição de se ter sua terra, desejada há mais de dois mil anos. Se for considerado o tempo desde a invasão de Israel pela Babilônia até a criação do Estado de Israel pela ONU, passaram aproximadamente dois mil trezentos e trinta e cinco anos. 6 Informações retiradas de trechos do livro “A Questão da Palestina”, citado na bibliografia. 7 Cronologia bíblica, p.1383, “Bíblia do Pregador”, citada na bibliografia. 8 Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Hatikvah, consultado em 27 de Agosto de 2016, às 13:20h. https://pt.wikipedia.org/wiki/Si%C3%A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Jerusal%C3%A9m 17 Mas o objetivo de Israel não está de todo conquistado. A terra de Israel ainda tem um território pertencente à Palestina e, sobretudo, uma mesquita onde anteriormente era o suntuoso templo de Jerusalém, sendo esse o principal motivo que ocasiona conflito. Com esses pedaços de terra dentro do Estado de Israel que não pertencem a eles e nem aos povos que neles habita, um consenso não é alcançado. Os árabes residentes na Palestina reclamam o direito natural à propriedade do território, que cada vez torna-se mais compacto devido à expansão de Israel. Eles não têm liberdade de livre circulação nem direitos pátrios. Esse grande conflito por uma causa tão complexa ainda é um empecilho na construção de um relacionamento pacífico entre esses povos irmãos. O HOLOCAUSTO Ao longo dos séculos, várias questões foram acrescentadas ao contexto de conflito que esses povos já enfrentavam. Talvez o mais grave tenha sido o Holocausto, que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O antissemitismo amplamente difundido naquela época gera traumas que duram até hoje. Esse passou a ser um ponto delicado de se discutir. Os judeus se sentem lesionados com esse acontecimento, e sentem-se assim com razão. Porém, apesar da reflexão mundial sobre o que foi o Holocausto e quão danoso foi ele para todos os povos e da decisão de não mais cometer tal atrocidade, o povo judeu ganhou especial atenção, pois foram as principais vítimas desse acontecimento; mas na verdade, essa decisão envolve todos os povos, ninguém mais deve morrer por causa do preconceito de outro, incluindo os árabes. Se esse detalhe pudesse ser compreendido perfeitamente, judeus e árabes poderiam começar a conviver pacificamente. A GUERRA FRIA, O TERRORISMO E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO Era 1947. A Segunda Guerra mundial já havia terminado e os Estados Unidos e a União Soviética haviam se fortalecido. Começa então uma disputa que divide o mundo entre capitalistas e socialistas. Os principais países envolvidos diretamente no conflito não entraram em confronto direto. Sua guerra na verdade se concentrou em território alheio. Os Estados Unidos e a URSS começaram sua corrida armamentista, e esse material era disponibilizado aos territórios que eles apoiavam. Os principais confrontos que marcaram o período da Guerra 18 fria foram os que ocorreram na Coreia e no Vietnã. Conflitos envolvendo civis e militares de cada país, onde apenas material bélico fosse fornecido eram mais interessantes e lucrativos para ambas as potências. A Guerra fria só chegou ao fim em 1991, sendo relevante a queda do muro de Berlim para tal e também a rendição da URSS na figura de Mikhail Gorbachev que após seus procedimentos de abertura política vê cada vez mais o capitalismo como uma alternativa plausível para os problemas vivenciados pela sociedade. A questão principal da Guerra Fria, no entanto, para árabes e judeus, vai além de capitalismo ou socialismo, oriente ou ocidente. Nessa guerra foram mostrados dois lados: um lado de apoio aos árabes (Rússia) e outro de apoio aos judeus (Estados Unidos). Apesar de a antiga URSS ter caído, os dois países em questão continuam seu conflito indireto, apoiando cada qual uma nação diferente. Para o mundo árabe, os Estados Unidos são inimigos declarados, e para os judeus, a Rússia. No mundo ocidental, todos os conceitos que estavam por trás da Guerra Fria perdem o sentido com a queda do Muro de Berlim ou com o fim da União Soviética. Mas para os orientais, isso está longe de acabar. E para enganar o ocidente, tentando mostrar que a Guerra Fria não acabou, atribuem-se novos nomes a esses conflitos, sendo o principal deles terrorismo. Todas as desculpas para acontecerem guerras, catástrofes, atentados, homicídios relacionados com esses povos (mais enfaticamente, os árabes) são atribuídas ao chamado terrorismo; e as vítimas apontadas são sempre os ocidentais. Isso porque a grande responsável é a mídia, e ela tem tal poder de persuasão a ponto de transformar conceitos errados em certos, ou deixar pessoas imunes ao sofrimento alheio apenas afirmando que as vítimas mereciam tal desgraça, pois são terroristas e atacam sem razão ou motivo justo. A comunicação rápida e em massa que podemos ter hoje devido ao avanço tecnológico trabalha para firmar conceitos na mente humana e leva-las a raciocinarem como é esperado pelos manipuladores da propaganda que raciocinem. Como manter um mundo em sua maioria capitalista se for mostrado à população o que realmente esse sistema está causando? A questão na verdade não é saber se o socialismo é melhor ou pior que o capitalismo, mas mostrar que a potência que promove o capitalismo consegue fazê-lo a um alto custo. Comparando-se o número de mortes causadas pelo chamado terrorismo e o número de mortes aos terroristas, o segundo grupo é muito maior. Não se têm noção de quantos atentados são feitos aos países envolvidos nesse conflito sob a bandeira da defesa do mundo contra um grupo tão cruel e sanguinário. O conceito de que o povo árabe é sanguinário por razões genéticas é amplamente difundido, e para tal afirmação toma-se por base depoimentos 19 feitos por estudiosos e intelectuais, considerados referências pelo ocidente.9 Prosseguindo por esse caminho, tentando usar política e mídia para tentarem resolver a questão, não se chegará a lugar algum. A CRIAÇÃO DO ESTADO DE ISRAEL EM 1948 O Sionismo, desde sua criação em 1890 é o principal responsável por incutir na mente do povo judeu o desejo de supremacia.10 Esse movimento foi criado por intelectuais judeus com o fim de combater o antissemitismo, conceito que, diferente do que muitos pensam, não surgiu apenas após a Segunda Guerra mundial, mas acompanhou a história do povo de Israel por muitos séculos. Após a Primeira Guerra mundial, em 1924 o Império Otomano chegou a seu fim. A Palestina encontrava-se sob o domínio desse Império e, com sua queda, o território tornou-se palco de constantes conflitos entre árabes e judeus. Os embates continuam até que chega a Segunda Guerra mundial. Nessa guerra, o marco histórico foi o holocausto, atentado feito principalmente contra os judeus. Ao terminar o conflito em 1945, o mundo ocidental se vê em dívida para com este povo, vítimas de tão grande massacre. O Sionismo então ganha forças para defender sua visão de que o mundo realmente carrega um sentimento de antissemitismo, e que tal sentimento foi o responsável por tantas mortes. Tal argumento é muito bem aceito, e a melhor forma de remediar o estrago é dar ao povo o que eles mais almejam: sua terra. Então, em 1948 é feita uma reunião para votação de legalizar o território Palestino como o Estado de Israel. Naturalmente, os países árabes se opuseram, já que a Palestina lhes pertencia quando o Império Otomano liderava. Por outro lado, os demais países ali representados concordaram que a Palestina deveria ser dada aos judeus. Desde então, essa questão de terra ocasiona intermináveis conflitos.11 9 Informações baseadas no livro “Orientalismo” de Edward Said. 10 Informações baseadas no livro “Orientalismo” de Edward Said. 11 Essa afirmação foi baseada em conhecimentos e reflexões próprias sobre o assunto abordado. 20 UNIÃO SOVIÉTICA E ISRAEL Depois da Segunda Guerra Mundial, marcada pelo antissemitismo, a União Soviética no ano de 1970 permitiu a imigração de judeus à terra de Israel. Quando esses imigrantes chegaram ao seu destino, trouxeram muitos avanços consigo. Pesquisas progrediram e a cultura fixou-se fortemente. A orquestra Filarmônica de Israel era composta de muitos músicos vindos da Europa central, que foram substituídos pelos novos imigrantes. Eles fizeram grandes mudanças na orquestra, e alteraram totalmente o estilo da mesma. O problema que essa imigração trouxe veio do sentimento que esses judeus russos trouxeram consigo. Por terem conseguido seu objetivo de voltar à sua terra e fazê-la progredir, ignoraram o problema da Palestina, da terra de ninguém. GUERRA DO YOM KIPPUR Ocorrida no ano de 1973, a guerra do Yom Kippur foi mais uma batalha árabe- israelense. No feriado judaico do Yom Kippur, o dia do perdão, Egito e Síria invadiram o território israelense, que fora tomado na Guerra dos Seis Dias. Estados Unidos e União Soviética colocaram-se ao lado desses povos para defenderem seus interesses; Estados Unidos com Israel e União Soviética com os árabes. Desse momento em diante, a imagem do árabe passou a ser mais assustadora. O árabe passa a ser associado a atentados, ao terror. Antes era apenas um povo que usava mantos, turbantes e vivia vagueando pelo deserto. O antissemitismo apenas mudou de alvo e migrou sutilmente do judeu para o árabe. O árabe passa a ser agora o perseguidor do judeu; o antissemitismo prossegue, mas agora o alvo desse preconceito é considerado culpado. Agir dessa forma para com os árabes é considerado justo, e a ideia de que pensamentos semelhantes aos que predominavam na época do holocausto não deveriam ser repetidos é simplesmente esquecida. A mídia torna-se a principal responsável em difundir ideias xenofóbicas sobre os árabes; estes são sempre representados como trapaceiros, ladrões, terroristas sanguinários e traficantes. Piratas e sheiks de cinema nunca são bons ou dignos de confiança. Artigos foram escritos afirmando que assassinato e a violência são atributos 21 genéticos dos árabes. Ideias são difundidas pelos meios de comunicação de tal forma a convencer o leitor ou telespectador do que é mostrado, sendo que, na maioria das vezes não há embasamento sólido para tal afirmação. O mundo passa a temê-los. A revista New York Times depois desta guerra encomendou dois artigos sobre o assunto, mostrando o ponto de vista de cada povo sobre o ocorrido. O representante dos israelenses foi um advogado israelense. A defesa dos árabes foi feita por um antigo embaixador americano num país árabe. Os dois povos são orientais, semitas, e ambos precisaram de representantes que pudessem explica-los ao público ocidental. Era isso mesmo necessário? Os acontecimentos não são autoexplicativos? Essa guerra foi assistida por todo o mundo, e agora estavam tentando mostrar as razões dos dois lados, como se fora uma tentativa de mostrar porque o conflito começou para um público que não convive naquele ambiente e, na maioria das vezes, não têm nem ideia sobre a cultura, leis, ou qualquer outra forma de regimento a que o povo oriental está submetido, cada um segundo a sua nacionalidade.12 A QUEDA DO MURO DE BERLIM Construído em 1961, o muro de Berlim visava dividir a Alemanha oriental da ocidental, o capitalismo do socialismo. Esses dois lados tornaram-se evidentes a partir do final da Segunda Guerra mundial, que fortaleceu duas potências: Estados Unidos (capitalista) e URSS (socialista). Estados Unidos cada vez ganham mais força para poder alcançar o domínio que conseguiu sobre a URSS. Como uma negociação entre essas duas potências não era possível, constantes guerras eram travadas. No comando da URSS estava Mikhail Gorbachev, que posteriormente derrubou as cortinas de ferro dessa potência com seus dois programas de governo e, sob o comando dos Estados Unidos estava George H. W. Bush. Alguns anos mais tarde, em 09 de Novembro 1989 a população se reúne para derrubar esse muro, e em Outubro do ano seguinte, a Alemanha consegue ser reunificada. 12 Todo o tópico sobre essa Guerra do Yom Kippur foi baseado nos livros de Daniel Barenboim “A Música Desperta o Tempo” e Edward Said “Orientalismo” e “A Questão da Palestina”, incluindo a citação ao artigo da Revista New York Times. 22 A questão é que a reunificação daquele país pode ter significado muito para a mídia ou para as pessoas envolvidas no evento, mas não solucionou os problemas ocasionados pelas divisões que levaram à construção do muro de Berlim. O ocidente e o oriente ainda não se misturam, um não consegue enxergar o outro sem seus conceitos previamente estabelecidos, sem levar em consideração as ideias preconceituosas que lhes foram transmitidas por tantos anos. E as duas potências envolvidas na divisão entre capitalismo e socialismo continuam a fazer suas disputas indiretas, dividindo cada dia mais as pessoas. O ATENTADO DE 11 DE SETEMBRO DE 2001 Nesse dia, 11 de Setembro de 2001, o mundo parou para ver o atentado às torres gêmeas do complexo empresarial World Trade Center em Nova Iorque, Estados Unidos. A mídia fez uma cobertura estupenda do evento e o nome “terrorismo” foi atribuído para gerar um sentimento de revolta, indignação e raiva, mantendo os telespectadores assim por muitos anos. Desde então, sempre que se busca chocar a sociedade com alguma notícia, visando um fim parecido, o terrorismo é citado. Os árabes passaram então a serem vítimas de uma etiqueta pré-definida sobre eles e o quão cruéis poderiam ser. Foram mostrados como pessoas que não aceitam nenhuma autoridade que se imponha sobre eles, inimigos dos Estados Unidos, que apoiam os judeus. Edward Said aponta três causas para que a percepção sobre os árabes se tornasse politizada. A primeira é o preconceito histórico contra esse povo; a segunda é a luta entre árabes e judeus e seus reflexos nos judeus americanos; a terceira é a falta de oportunidade de diálogo entre ocidentais e orientais. RICHARD WAGNER E O ANTISSEMITISMO Wilhelm Richard Wagner, o grande compositor alemão viveu num período anterior às duas grandes guerras mundiais. Seus pensamentos e teorias influenciaram muitas mentes em sua época e em anos posteriores, chegando até aos nossos dias. 23 Edward Said declara: “Uma mente madura deve ser capaz de admitir a coexistência de dois fatos contraditórios: que Wagner foi um grande artista e, segundo, que Wagner foi um ser humano abominável.” Em 1850, Wagner escreve um ensaio sob um pseudônimo, intitulado “O Judaísmo na Música”. Nesse ensaio ataca diretamente aos judeus, em especial dois contemporâneos seus, Mendelssohn e Meyerbeer, compositores com os quais não tinha afinidade. Wagner declara em uma carta a Liszt que sentia um ódio contra os judeus e não os aceitava como dominadores financeiros. Certamente, Wagner não foi o responsável por criar ideias antissemitas, mas tendo tamanha influência desde aquela época, influenciou grandemente várias mentes. Entre as pessoas que utilizaram suas ideologias e sua música, podemos achar Adolf Hitler (1889-1945). Hitler levou avante seus ideais no contexto da Segunda Guerra mundial e do holocausto aos judeus. Óperas de Wagner eram executadas sob a bandeira do nazismo, e toda a pompa que elas continham; suas harmonias e melodias fortes e marcantes eram inspiração a Hitler para que continuasse sua batalha. Para os nazistas, os judeus não deveriam ter o domínio financeiro que tinham, os grandes banqueiros deveriam ser pessoas da raça pura ariana, que deveria dominar o mundo. Se, segundo Wagner, nem a música era um campo apropriado de atuação para os judeus, quem dirá, pois, a administração! Wagner conseguiu transportar o ódio antissemita para o campo cultural, da música principalmente. Por isso lhe é atribuída grande responsabilidade nessa questão. Desde a criação do Estado de Israel em 1948, uma questão polêmica acompanha as orquestras desse país: tocar ou não Wagner? Todas as vezes em que tal atitude foi tomada, houve protesto. Wagner é uma figura repugnante para os judeus, afinal, suas obras eram executadas frequentemente pelo nazismo e as ideias do compositor também eram antissemitas. Os sobreviventes ao holocausto se consideram desrespeitados quando as obras desse odiado compositor são tocadas em sua pátria, em seu território que lutaram tanto para conquistar. É difícil fazer a separação de uma obra e de seu compositor. É complicado para muitos judeus executar ou mesmo escutar uma música que remonta uma época de crueldade em sua mente. Os fatos não podem simplesmente serem ignorados, mas há muitos judeus que conseguem dividir essas questões e executar uma obra deste compositor observando apenas o aspecto musical, e a contribuição que ele deixou para a música ocidental; caso contrário, não 24 existiria nenhuma orquestra ou grupo de Israel interessado em executar as obras de Richard Wagner. 25 A FUNÇÃO DA MÚSICA NA FORMAÇÃO CIVILIZATÓRIA “Não podemos definir a música como algo que tem apenas conteúdo matemático, poético ou sensual. Trata-se de tudo isso e muito mais. Relaciona-se à condição humana, porque a música é escrita e executada por seres humanos que expressam seus pensamentos íntimos, sentimentos, impressões e observações.”13 A música possibilita aprendizado – aprendizado teórico e prático de elementos audíveis; mas também aprendizado sobre si mesmo. Por despertar sentimentos e pensamentos, gera reflexões profundas, que podem ser refletidas em ações. Empregada para objetivos específicos, pode gerar os resultados esperados. Os próprios elementos musicais como ritmo, altura e intensidade, promovem disciplina a quem são ministrados esses ensinamentos. A música também ensina a aceitar a passagem do tempo, o curso natural dos acontecimentos. Na formação musical, a audição é relevante, assim como o é na formação humana. Grande parte da memorização vem pelo que se escuta; sendo assim, a música pode estar aliada a alguma memória, alguma história ou até algum sentimento. Segundo Daniel Barenboim, na música intelecto e emoção caminham juntos para compositor e intérprete. Levando em consideração toda a atuação musical em aspectos emocionais, ela não poderia ser deixada de lado num contexto de guerra civil que percorre séculos entre dois povos. A cultura aproxima os indivíduos, e gera reflexões sobre o outro, compreensão dos valores que regem outros povos. A música está dentro deste universo, e pode ser uma linguagem comum entre pessoas que não falam o mesmo idioma, não vestem o mesmo tipo de vestimenta, não se sustentam com o mesmo alimento. Tocar juntos requer a habilidade de saber escutar e executar ao mesmo tempo. Na prática musical, um aspecto em especial é muito importante: a igualdade. No momento em que todos estão juntos para tocar uma obra, todos são iguais. E essa igualdade é o início de uma reflexão sobre si, sobre o próximo e sobre como podem conviver. A possibilidade de convivência é então considerada. É preciso primeiro compreender a história do outro, ouvir seu lado e não julgá-lo pelo conhecimento prévio. 13 BARENBOIM, Daniel. A Música Desperta o Tempo, p.18 26 A ORQUESTRA WEST-EASTERN DIVAN “Pela música afastamos a hostilidade.”14 Partindo da ideia da integração entre povos que enfrentam o contexto da guerra há tanto tempo e considerando a música como o recurso disponível mais viável para a execução dessa tarefa, já que conflitos militares e discursos políticos não transcendem ao imaginário e abstrato que a música é capaz, surge o projeto de Daniel Barenboim e Edward Said, a Orquestra West-Eastern Divan, que reúne músicos israelenses, palestinos e árabes (sírios, libaneses, jordanianos, egípcios...). O nome do projeto vem de uma coleção de poemas de Goethe, um europeu muito interessado na cultura árabe após o contato que teve com o Alcorão. A função da música na integração de indivíduos se dá devido à necessidade de colaboração mútua para a prática orquestral. Os indivíduos devem ouvir uns aos outros, esperar as partes de cada um para executarem a sua própria parte. Todos os músicos, independentemente de sua nacionalidade, estão sob a direção de um único maestro. Então não há espaço para disputas entre nações, já que um único objetivo se tem em vista – executar a obra que foi proposta. Na atividade em conjunto, os músicos podem desenvolver um contato mais íntimo uns com os outros e sair de sua zona de conforto procurando um conhecimento mais profundo do outro. Edward Said buscou transmitir ao grupo da Orquestra West-Eastern Divan a ideia de que separar-se não é a solução para os problemas que dividem as pessoas e que manter-se ignorantes a respeito da história do outro não ajuda em nada. Além de todas as oportunidades que a música gera para que as pessoas interajam, há algumas atividades que acontecem entre os músicos da referida orquestra que promovem momentos de integração. Quando dois músicos sentam-se juntos para compartilhar uma partitura na mesma estante, quando os naipes de cordas marcam as arcadas que serão realizadas, ou quando todos devem tocar em uníssono, todo o preconceito e ideias estereotipadas que uns têm dos outros tendem a ser deixadas por um momento para que o objetivo comum seja alcançado. “Se na música elas forem capazes de seguir com um diálogo, 14 BARENBOIM, Daniel. A Música Desperta o Tempo, p.164 27 tocando simultaneamente, então, um diálogo verbal comum, em que cada um espera até que o outro se cale, se tornaria consideravelmente mais fácil.”15 Entre dois povos que enfrentam um conflito de tão longa data, a música é a linguagem comum que pode expressar o que não se consegue dizer em palavras. Para executá-la precisa- se estar muito bem consigo mesmo, estado que proporciona maior possibilidade de interação equilibrada com outros. Os fundadores da Orquestra West-Eastern Divan estavam conscientes de que esse projeto seria incapaz de trazer paz entre esses povos, mas criaria condições para “entendimento mútuo”. O projeto visa promover o diálogo entre eles, para que se tornem mais curiosos sobre a história e a visão que o outro possui. O que se busca não é a “tolerância”, mas a “aceitação”, ou seja, não suportar as pessoas considerando que sua nacionalidade é um aspecto negativo, mas sim reconhecer que os outros indivíduos são dignos de respeito independentemente de sua origem, suas crenças, sua cor ou qualquer outro aspecto similar. A Orquestra West-Eastern Divan promove workshops que têm por objetivo estimular diálogos. Os músicos tem a possibilidade de não participarem desses eventos. Mas eles participam, pois sabem que lá experimentarão situações que não teriam condição de passar em seus próprios países, em suas áreas de convívio habitual. A música não serve apenas para aproximação fazendo com que as pessoas esqueçam sua realidade de conflito, mas ajuda a refletir e entender sobre esses conflitos. “O caráter do projeto é mais humanista que político”16 O que se pode observar é que a palavra “humanista” engloba a todos, não apenas as nações citadas. A política é separatista, já que leva em consideração a bagagem que cada nação carrega. Mas se tudo for observado pelo lado humano, todos os preconceitos gerados por ideias pré-concebidas são irrelevantes, e um novo alvo pode ser traçado. Segundo Edward Said, o humanismo é a única possibilidade de resistência contra as práticas que desfiguram nossa história. 15 BARENBOIM, Daniel. A Música Desperta o Tempo, p.70-71. 16 BARENBOIM, Daniel. A Música Desperta o Tempo, p.78 28 RELEVÂNCIA DO USO DA MÚSICA PARA O PROJETO WEST-EASTERN DIVAN A atividade musical requer disciplina e objetivo. Quando executada individualmente, o músico deve estabelecer suas metas para realizar uma boa execução, observando questões como afinação, intensidade e depois fraseado, nuances. Tudo deve ser estabelecido para que se possa construir a partir daí o resultado esperado, e tudo deve ser decidido pelo próprio intérprete ou por quem ele decidir que o oriente nessa tarefa. Já na prática musical em conjunto, quando várias decisões devem ser tomadas quase que em unanimidade, essa responsabilidade de decisão é atribuída ao maestro. Este, por sua vez, deve decidir como irá construir a estrutura musical e o que será acrescentado à interpretação quando o que já tiver sido escrito pelo compositor na obra for executado. É da responsabilidade do maestro estabelecer fraseados e ênfases não escritos, e da observação e estudo que ele fez da música depende toda a interpretação que será realizada pela orquestra. Nessa questão é que se pode verificar a importância da música feita em conjunto para criar conceitos civis em um grupo. Quando se está sob o comando artístico de uma pessoa que será responsável em pensar e elaborar uma execução e interpretação musical para um grupo, todos devem sujeitar-se às ideias dela. Se as ideias de todos não coincidem, o papel do maestro deve ser exercido a fim de reunir propostas e estabelecer um alvo comum. Aplicando esse princípio ao contexto civil, aprende-se que o respeito às autoridades é necessária para o bom andamento da vida em comunidade e que as autoridades devem estar dispostas também a ouvir novas ideias e sugestões e assim construir caminhos que possam ser trilhados em harmonia. Estando centrado cada um em suas próprias opiniões, raciocínios e conceitos, um senso comum não pode ser encontrado. Na orquestra West-Eastern Divan não é diferente. Cada um dos músicos tem uma bagagem, uma experiência de vida, uma nacionalidade diferente. Assim, cada um constrói uma ideia sobre o mundo e sobre a história, ideias essas que podem ser muito diferentes, tão diferentes que podem nunca chegar a se conciliarem umas às outras. A linguagem comum nesse contexto é a música, onde o idioma, a cultura, os costumes, os históricos nacionais, os interesses e as preferências podem não coincidir. Desde o momento em que os jovens passam a participar do projeto, devem-se colocar na condição de quem aceita a direção musical proposta, e lá são todos colocados na mesma posição, tendo que compartilhar partes da 29 mesma música, dividir estantes, marcar arcadas únicas, tocas as mesmas notas, fazer uníssonos quando são requeridos, entre outras necessidades da execução. Com todos esses parâmetros em mente, um bom resultado musical é alcançado com o trabalho feito inteiramente em equipe. Todos devem desenvolver seu trabalho atendendo às propostas artísticas sugeridas pelo diretor para que seja possível a construção musical e um bom resultado. Na orquestra West-Eastern Divan, a situação não é fácil de ser decidida, já que além de todos os conceitos musicais pessoais distintos, a questão da nacionalidade ainda fala muito alto. Lá se encontram povos que vivem há muito tempo num acérrimo conflito milenar. Há a presença de europeus também na orquestra, mas um destaque deve-se dar ao citar que judeus, árabes e palestinos lá se encontram. Judeus e árabes enfrentam guerras há muitos tempo, o que não é esquecido nem quando se executa uma linha sublime de alguma composição musical, por mais arrebatadora que seja. Ambos estão calejados de ouvir aspectos negativos um do outro. Os palestinos, observando sua posição nada favorável quanto à geografia e direitos civis de sua nação, almejam por justa divisão de terra e de direitos. Por mais que a música tenha o objetivo de expressar sentimentos, afetos, ideias, essa expressão pode diferenciar dentro da mesma música para cada pessoa. Uma mesma melodia pode trazer sentimentos e lembranças totalmente distintas de um indivíduo para outro. Quando a orquestra West-Eastern Divan executa uma mesma obra, cada músico pode a estar associando a algo diferente, trazendo uma lembrança específica à mente. Porém, por estarem todos executando juntos, sob o único comando do maestro, a parceria entre eles pode atuar sobre seus sentimentos recorrentes na audição das obras interpretadas. O maestro é a figura que deverá integrar todos aqueles jovens visando um objetivo artístico comum, e regerá tudo o que irá acontecer naquele momento, seja do ensaio ou da apresentação, e não o presidente ou líder nacional que cada músico possui. A prática orquestral inibe manifestações de opiniões ou xenofobia. Colaborando juntos na execução de uma obra, os preconceitos e histórias vividas entre os povos envolvidos no conflito não são esquecidos, mas minimizados, perdendo a relevância pessoal momentaneamente para que se possa tocar juntos. Também é possível que no momento de ensaio ou execução, uma reflexão seja iniciada sobre a relevância dos preconceitos e o quanto eles podem excluir uma pessoa de viver experiências que podem ser altamente construtivas. Causar reflexões assim é um poder que a música possui ao transportar a mente para um 30 campo diferente do que se considera a verdadeira realidade; pode mudar a visão a respeito de algum assunto sobre o qual se para pouco para refletir. Esse conflito entre árabes, judeus e palestinos é um assunto sobre qual se tem muitas reflexões e ideias preconceituosas e muitas vezes não correspondentes à realidade. As gerações apenas transmitem para seus descendentes o ódio e os conceitos que recebem de seus ascendentes. As origens reais do conflito são maximizadas, tornando-se razões claras para uma guerra, um conflito direto. Nesse contexto, os workshops promovidos para a orquestra West-Eastern Divan são fundamentais, por proporcionarem momentos de reflexão e oportunidades de diálogo que não seriam possíveis na terra natal de muitos dos músicos. Esses workshops só puderam acontecer devido ao ambiente comum que a musica foi capaz de criar para o convívio entre habitantes de lugares tão afetados pelo conflito. No contexto vivenciado pela Orquestra West-Eastern Divan, o papel primordial da música é servir como pretexto para reunir aqueles jovens sem levá-los a pensar de imediato que estão entrando em um ambiente que apenas influenciará a mudar seu olhar em relação ao contexto de conflito no qual estão inseridos ou que irá buscar torná-los mais compreensíveis e sensíveis à história alheia. Tem-se em mente unicamente o fazer música. A partir disso é que podem ser criados laços de amizade e contato pacífico. Nos encontros, workshops ou ensaios sempre há o momento em que se pode partilhar em grupo emoções, histórias, sentimentos e pensamentos. Nesse ambiente, desenvolve-se a escuta musical, grande necessidade na atividade musical. Na vida cotidiana, o ouvir também se torna uma prática necessária para se conseguir harmonia. A vontade de ser aceito e respeitado como indivíduo é comum a todo ser humano. Ao envolver-se de forma mais profunda, percebe-se então a possibilidade de um convívio pacífico no ambiente criado pela música. Ela torna-se então o meio e não apenas o fim. Logicamente, uma boa execução musical também é desejada, mas esse não é o único objetivo. Algo não muito esperado pode ser alcançado sem muito esforço. Em um cenário de constantes guerras, a prática musical em conjunto com seus opositores políticos diminui a tensão. As apresentações realizadas nos territórios alvos de conflito podem despertar na mente do público a ideia de que, apesar de todas as divisões políticas, sociais e culturais, quando se deseja, é possível sim trabalhar em conjunto por um objetivo comum. 31 Os jovens que compõem a Orquestra West-Eastern Divan obviamente não esquecem todo o seu passado histórico e não se sentam amigavelmente ao lado dos civis de outras nações, com um espírito perdoador e sem ressentimentos. Nem é esse o objetivo de tal projeto. Não se espera que toda a história seja ignorada, mas que se possa refletir quanto desse ódio foi gerado por questões reais, e sobre o que se pode fazer para que haja mais aceitação, para que ambos possam mudar seus preconceitos. Suponhamos que o projeto tivesse sido levado a cabo apenas com o objetivo que visa alcançar, mas sem utilizar a música para tal fim. Se ao invés de uma orquestra, fossem montados apenas workshops e encontros para que as nações inimigas pudessem ter um local para discutir suas diferenças. Haveria um resultado promissor? Tirando-se a música do contexto, levando apenas em consideração os conceitos pré-estabelecidos ou o lado lógico e racional, qual a probabilidade de o mesmo grupo de jovens em questão conseguirem harmonizar seus interesses na realização de alguma tarefa ou de desfrutar da presença do outro e admirar tal momento? As chances, com toda a certeza, seriam mínimas. A música é uma forte aliada na construção de ambientes aprazíveis de convívio. Formando cidadãos abertos ao diálogo não se acaba com as guerras, os preconceitos ou as diferenças. O que se consegue é vislumbrar um horizonte de possibilidades para diálogos, menos tensão nas relações diretas e esperança de se utilizar o mesmo recurso para conseguir resultados semelhantes em situações adversas, não necessariamente internacionais, mas em qualquer situação que envolva civis. 32 CONSIDERAÇÕES FINAIS Através da música pode-se criar um ambiente favorável ao contato entre grupos rivais que não seria possível se uma linguagem comum não fosse utilizada. Na idealização e formação da Orquestra West-Eastern Divan, ao serem colocados lado a lado, os jovens que a compõem, que possuem nacionalidades tão diferentes e conflitantes, se veem em um ambiente onde não precisam obrigatoriamente trazer à tona seus pensamentos e posicionamentos políticos, pois podem executar uma obra musical com seus, considerados até então, adversários. A música é fundamental nesse contexto, já que além de falar todas as línguas, possibilita a construção de disciplina e inspira sentimentos. Apesar de toda a divulgação feita pelos meios de comunicação sobre o outro, se pode verificar com o contato pessoal, atenuado pelo uso da linguagem musical, como aceitar indivíduos até então estereotipados. Conflito é algo que sempre acompanhou a humanidade. A origem do conflito entre árabes e judeus se deu por volta de 1500 a.C., e desde então vários acontecimentos serviram para aumentar a tensão entre eles. Conceitos sobre o oriente são cada vez mais elaborados pelos ocidentais. O Orientalismo foi desenvolvido para se estudar o oriente com olhos ocidentais. O que se percebe, no entanto, é que cada vez mais esse estudo preconceituoso é responsável por criar barreiras quase que intransponíveis entre oriente e ocidente, e, com menos contato, menor o conhecimento e maior a intolerância. Um dos fatores agravantes na relação entre árabes e judeus é a questão do território da Palestina. Essa situação não foi resolvida ao se criar o Estado de Israel em 1948. Para os judeus, receber tal território foi uma vitória alcançada após passarem por um período sombrio de sua história, o holocausto. Porém dentro de Israel ainda existe um território pertencente ao antigo Império Otomano, uma terra considerada pelos árabes como própria, onde se encontra ainda sua mesquita, muito representativa de sua principal religião. Ao mesmo tempo em que o período posterior ao holocausto parece ter favorecido os judeus e mostrado ao mundo que tal atrocidade nunca mais deve ser cometida, também aparenta que o mundo não aprendeu que nenhum povo mais deve sofrer por causa do preconceito de outro, já que o antissemitismo parece ter migrado dos judeus para os árabes. Um combate relevante foi o causado pelo confronto indireto entre Estados Unidos e União Soviética. Ambos progrediram em sua corrida armamentista e política, a custa de vidas e territórios alheios. E o apoio no conflito árabe-israelense por ambas as potências é 33 estabelecido, criando na mente dos orientais dos respectivos países a ideia que ainda hoje os acompanha sobre quem são seus amigos ou inimigos de fato. O apoio dado pelos Estados Unidos aos judeus e pela União Soviética aos árabes também foi presenciado na Guerra do Yom Kippur. Quando a Alemanha foi palco da destruição do Muro de Berlim, teoricamente se estava ali colocando fim na divisão entre oriente e ocidente, capitalismo e socialismo. Porém, cada vez mais o desconhecimento sobre os orientais faz com que o ocidente lhe atribua o título de “terrorista”, que firma uma imagem negativa sobre eles. Anos depois da queda do Muro de Berlim, no dia 11 de Setembro de 2001 na cidade de Nova Iorque, após o atentado às torres gêmeas, o conceito de terrorista ganha enorme força, pois a mídia se responsabiliza por implantar na mentalidade geral o quão cruel os árabes poderiam ser, e a maioria da população está sob a influência dos veículos de comunicação para estabelecer suas próprias opiniões. O nome “árabe” passa então a ser associado a todos os eventos devastadores que se passam desde então pelos que utilizam esse verbete num contexto genérico. Como se não bastassem todos os agravantes citados para piorar a tensão entre o conflito árabe-israelense, também podemos ver a música participando do contexto. Wagner foi grandemente relacionado ao nazismo e ao antissemitismo. Aliás, suas obras acompanharam o holocausto e ele mesmo difundia ideias antissemitas com seus ataques diretos e indiretos aos judeus. Dentro do contexto citado de embate cultural, social e político vivenciado por árabes e judeus, a música pode atuar de forma poderosa. Quando utilizada para objetivos específicos, pode despertar sentimentos e criar ambientes propícios a igualar as pessoas e fazer com que passem a ver umas às outras como semelhantes. Para criar um ambiente de aceitação, realizando juntamente com isso uma atividade musical, foi criada a Orquestra West-Eastern Divan por Daniel Barenboim e Edward Said, visando alcançar mais do que tolerância entre esses povos. Lá eles são colocados em contato direto e num ambiente oportuno para diálogos, que não seria possível em seu território de origem. Realizando uma atividade cultural comum, a Orquestra West-Eastern Divan tem a oportunidade de refletir sobre as ideias até então aceitas como certas e traçar novos horizontes, possibilidade de aceitação mútua e convívio pacífico. Através da música aplicada 34 nesse contexto político e social, o papel civilizatório é desempenhado e a harmonia esperada pode ser alcançada. 35 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARRUDA, José Jobson de Andrade. História Antiga e Medieval. São Paulo, Ática, 1976. ARRUDA, José Jobson de Andrade. História Moderna e Contemporânea. São Paulo, Ática, 1977. 7ª edição revista. Bíblia do Pregador. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; Curitiba, PR: Editora Evangélica Esperança, 2009. 1408p.; 24 cm. Almeida Revista e Atualizada. BARENBOIM, Daniel. A Música Desperta o Tempo. Tradução do inglês Eni Rodrigues; tradução do alemão Irene Aron. – São Paulo: Martins, 2009. PEIXOTO, Paulo Matos. Enciclopedia Universal Paumape. São Paulo: Editora Paumape, vol. 8, “Hitler”. PEIXOTO, Paulo Matos. Enciclopedia Universal Paumape. São Paulo: Editora Paumape, vol. 1, “Abraão”. SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. 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