RESSALVA Atendendo a solicitação do autor, Renan Merlin Cuani, o texto completo deste documento será disponibilizado somente a partir de 04/09/2027. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA JULIO DE MESQUITA FILHO FACULDADE DE CIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM RENAN MERLIN CUANI TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: relações entre flexibilidade cognitiva e psicológica Bauru 2025 RENAN MERLIN CUANI TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: relações entre flexibilidade cognitiva e psicológica Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem. Área de concentração: Comportamento e Saúde Orientação: Prof.ª Dr.ª Sandra Leal Calais Bauru 2025 Merlin, Renan Cuani. Transtorno do Espectro Autista: relações entre flexibilidade cognitiva e psicológica /Renan Merlin Cuani. – Bauru, 2025 62 f. Dissertação (Mestrado)– Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Ciências, Bauru Orientadora: Sandra Leal Calais 1. Transtorno do Espectro Autista. 2.Função Executiva. 3. Terapia de Aceitação e Compromisso. 4.Psicologia Clínica. I. Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências. II. Título. FOLHA DE APROVAÇÃO Às pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias. Que este trabalho possa contribuir para um mundo mais acolhedor, justo e atento às singularidades de cada ser. AGRADECIMENTOS Desde o primeiro atendimento à minha primeira paciente com Transtorno do Espectro Autista, descobri um propósito que viria a guiar toda a minha trajetória profissional. Com o tempo, fui me encantando também pela Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e pela Neuropsicologia. O mestrado me permitiu unir essas três paixões em uma única caminhada de aprendizado. Diante disso, agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo papel fundamental no fortalecimento da pós-graduação no Brasil e por contribuir para a consolidação da pesquisa científica no país. Agradeço à minha família, por ter me estruturado e possibilitado que eu chegasse até aqui. Em especial, à minha irmã Carol, pelo apoio incondicional, pela companhia constante e pelo privilégio que é dividir contigo as conquistas da vida. Sou profundamente grato a todas as minhas melhores amigas e a todas as mulheres incríveis que passaram pela minha vida e me apoiaram nos momentos mais desafiadores. Aos professores da Universidade Sagrado Coração, que serviram de exemplo e inspiração para minha formação profissional — em especial Tatiana, Salete, Junior, Ana Celina, Silvana e Thelma —, meu sincero reconhecimento e carinho. Agradeço ao Ambulatório Municipal de Saúde Mental de Bauru e ao Instituto Lauro de Souza Lima, que foram espaços fundamentais para minha formação prática e ingresso no mercado de trabalho. Um agradecimento especial às psicólogas Rosane e Thaís, que foram verdadeiros alicerces nesse processo. A todas as clínicas pelas quais passei e onde pude aprender com profissionais excepcionais e crescer como psicólogo. Um agradecimento afetuoso à equipe do Centro de Comportamento da Infância e Adolescência, especialmente à Dra. Ana Paula, pelas trocas valiosas e pelos sonhos compartilhados que já se tornaram — e ainda se tornarão — realidade. A toda equipe de professores, funcionários e alunos da Faculdade Galileu: vocês me dão forças para continuar. Só cheguei até aqui porque vocês acreditaram em mim. Aos professores e à equipe do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UNESP, muito obrigado por oferecerem um ambiente de acolhimento, leveza e apoio constante ao longo dessa jornada. Minha profunda gratidão à minha orientadora, professora Sandra, por toda paciência, dedicação, escuta e por acreditar na pesquisa que construímos juntos. Seu olhar sensível e comprometido foi fundamental para que este trabalho se realizasse. À minha psicóloga Mariana e à minha psiquiatra Renata, meu reconhecimento pelo cuidado com a minha saúde mental — sem o qual este caminho não teria sido possível. Como pessoa com diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar, reconheço que trilhar uma trajetória acadêmica também é enfrentar barreiras estruturais e preconceitos. Este trabalho é fruto de esforço pessoal, mas também do suporte profissional e afetivo que me permitiu resistir e seguir. Que ele sirva de inspiração para outras pessoas com transtornos mentais a ocuparem os espaços que lhes pertencem — a universidade também é lugar de quem vive com sofrimento psíquico. Por fim, ao novo amor que chega trazendo leveza e esperança: obrigado, Luiz, por caminhar ao meu lado neste novo capítulo. MERLIN. R. C. Transtorno do Espectro Autista: relações entre flexibilidade cognitiva e psicológica. 2025. 62 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem) – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências. Bauru, 2025. RESUMO O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve dificuldades na comunicação, interação social e presença de comportamentos repetitivos. Pessoas com TEA também apresentam comprometimentos na flexibilidade cognitiva, que é a capacidade de adaptar-se a diferentes contextos e perspectivas. Assim como há processos de flexibilidade cognitiva, também existem os processos de flexibilidade psicológica, objetivo de intervenção da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que é a habilidade de estar em contato com o momento presente e manter ou mudar o comportamento em função dos valores escolhidos. O objetivo desse trabalho foi verificar se alterações na flexibilidade psicológica poderiam produzir flexibilidade cognitiva no TEA. Trata-se de uma pesquisa de delineamento de sujeito único, cujo participante é um jovem adulto, 21 anos, trabalha e cursa graduação, pais separados, atualmente mora com a mãe, histórico de abuso, condição financeira baixa, diagnosticado com TEA sem deficiência intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional. Os instrumentos para a coleta de dados foram o Questionário Sociodemográfico, a Escala de Avaliação de Disfunções Executivas de Barkley, a Escala de Responsividade Social e a Escala Acceptance and Action Questionnaire – II. O protocolo de intervenção em desenvolvimento de flexibilidade psicológica foi criado e aplicado no sujeito. As 12 sessões foram gravadas e transcritas e seu conteúdo foi analisado. Por fim, foram feitas duas reavaliações com os instrumentos citados (uma logo após o término do treinamento e outra após dois meses). Foi possível identificar que a flexibilidade psicológica fornece postura de abertura diante da experiência, o que facilita o uso funcional das habilidades executivas associadas à flexibilidade cognitiva. Ao reduzir a evitação experiencial e aumentar a aceitação, o indivíduo torna-se mais capaz de tolerar a ambiguidade e considerar alternativas. Da mesma forma, a melhora na flexibilidade cognitiva pode ampliar o repertório comportamental do indivíduo, permitindo que ele implemente com mais eficácia ações alinhadas a seus valores. Portanto, flexibilidade psicológica e cognitiva operam em mútua retroalimentação: ganhos em uma podem potencializar a outra. Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista. Função Executiva. Terapia de Aceitação e Compromisso. Psicologia Clínica. Estudo de Caso Único. MERLIN, R. C. Autism Spectrum Disorder: Relationships Between Cognitive and Psychological Flexibility. 2025. 62 pages. Dissertation (Master's Degree in Developmental and Learning Psychology) – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências. Bauru, 2025. ABSTRACT Autism Spectrum Disorder (ASD) involves difficulties in communication, social interaction, and the presence of repetitive behaviors. Individuals with ASD also show impairments in cognitive flexibility, which is the ability to adapt to different contexts and perspectives. Just as there are processes of cognitive flexibility, there are also processes of psychological flexibility—the target of intervention in Acceptance and Commitment Therapy (ACT)— defined as the ability to be in contact with the present moment and to maintain or change behavior in accordance with chosen values. The aim of this study was to investigate whether changes in psychological flexibility could promote cognitive flexibility in ASD. This is a single- subject design study, in which the participant is a 21-year-old young adult, employed and enrolled in higher education, with divorced parents, currently living with his mother, with a history of abuse, low financial condition, diagnosed with ASD without intellectual disability and without impairment in functional language. The instruments used for data collection were the Sociodemographic Questionnaire, the Barkley Deficits in Executive Functioning Scale, the Social Responsiveness Scale, and the Acceptance and Action Questionnaire – II. The intervention protocol for the development of psychological flexibility was created and applied to the participant. The 12 sessions were recorded, transcribed, and their content was analyzed. Finally, two re-assessments were carried out with the instruments mentioned (one immediately after the end of training and another two months later). Results indicated that psychological flexibility provides an open stance toward experience, which facilitates the functional use of executive skills associated with cognitive flexibility. By reducing experiential avoidance and increasing acceptance, the individual becomes more capable of tolerating ambiguity and considering alternatives. Likewise, improvements in cognitive flexibility can broaden the individual’s behavioral repertoire, allowing for more effective implementation of actions aligned with personal values. Therefore, psychological and cognitive flexibility operate in mutual feedback: gains in one can enhance the other. Keywords: Autism Spectrum Disorder. Executive Function. Acceptance and Commitment Therapy. Clinical Psychology. Single-Case Study. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Fluxograma de procedimento..................................................................................24 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Análises funcionais das primeiras sessões...............................................................28 Tabela 2 – Resultados do pré, pós1 e pós 2 da SRS-2.................................................................40 Tabela 3 – Resultados do pré, pós1 e pós 2 da BDEFS...............................................................42 Tabela 4 – Resultados do pré, pós1 e pós 2 do AAQ-2...............................................................44 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 14 2. OBJETIVOS ................................................................................................................... 21 2.1 Objetivo Geral ......................................................................................................... 21 2.2 Objetivos Específicos .............................................................................................. 21 3. MÉTODO ........................................................................................................................ 22 3.1 Participante ............................................................................................................. 22 3.2 Local ......................................................................................................................... 23 3.3 Instrumentos ........................................................................................................... 23 3.4 Procedimentos para coleta e análise de dados ..................................................... 24 4. RESULTADOS ............................................................................................................... 27 4.1 Conceitualização do Caso ...................................................................................... 27 4.1.1 Histórico do Paciente ........................................................................................ 27 4.1.2 Análises Funcionais das Primeiras Sessões ...................................................... 30 4.2 Intervenções Psicoterapêuticas .............................................................................. 31 4.2.1 Sessão 4 ............................................................................................................ 31 4.2.2 Sessão 5 ............................................................................................................ 32 4.2.3 Sessão 6 ............................................................................................................ 34 4.2.4 Sessão 7 ............................................................................................................ 35 4.2.5 Sessão 8 ............................................................................................................ 36 4.2.6 Sessão 9 ............................................................................................................ 37 4.2.7 Sessão 10 .......................................................................................................... 38 4.2.8 Sessão 11 .......................................................................................................... 39 4.3 Resultados Qualitativos .......................................................................................... 40 4.4 Resultados Quantitativos ....................................................................................... 41 5. DISCUSSÃO ................................................................................................................... 47 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 54 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 56 APÊNDICE A – Questionário Sociodemográfico .................................................................... 60 APÊNDICE B - Protocolo de Intervenção no Desenvolvimento de Flexibilidade Psicológica .................................................................................................................................................. 61 APRESENTAÇÃO A introdução desta dissertação apresenta um panorama sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), destacando os impactos significativos que essa condição pode ter na saúde mental e na qualidade de vida de adultos diagnosticados, especialmente devido a dificuldades relacionadas à flexibilidade cognitiva e ao manejo do estresse. Discute-se a importância das funções executivas — em especial a flexibilidade cognitiva — no enfrentamento dos desafios cotidianos e na adaptação social, assim como sua relação com padrões rígidos de comportamento observados em pessoas com TEA. Nesse contexto, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é apresentada como uma abordagem promissora, cujo foco é o desenvolvimento da flexibilidade psicológica, ou seja, a capacidade de agir com base em valores pessoais mesmo diante de experiências internas difíceis. A introdução sustenta a hipótese de que o fortalecimento da flexibilidade psicológica por meio da ACT pode favorecer o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva, contribuindo para melhor adaptação em adultos com TEA. Em seguida, são apresentados os objetivos do estudo e o método utilizado. A seção de objetivos compreende o objetivo geral, que visa verificar se alterações na flexibilidade psicológica podem produzir flexibilidade cognitiva em pessoa com TEA, e os objetivos específicos, que incluem a criação de um protocolo de intervenção baseado na ACT, a avaliação de sua eficácia e a verificação de seus impactos na flexibilidade cognitiva. A seção de método está organizada em: caracterização dos participantes, que descreve o perfil clínico e social do sujeito da pesquisa; local da pesquisa, que apresenta o centro especializado onde a intervenção foi realizada; instrumentos utilizados, detalhando os questionários e escalas aplicados; procedimentos para coleta e análise de dados, que descrevem as etapas da intervenção e os momentos de avaliação; e, por fim, aspectos éticos, que garantem o cumprimento das normas de ética em pesquisa com seres humanos. Como forma de incentivar pesquisas na área da Psicologia Clínica, optou-se pelo delineamento de sujeito único, uma metodologia especialmente indicada para estudos com pessoas com TEA. Os resultados foram organizados em quatro partes principais. A primeira, intitulada Conceitualização do Caso, inclui a identificação das queixas do paciente, seu histórico de diagnóstico e as análises funcionais das primeiras sessões. A segunda aprofunda a compreensão das demandas do paciente, enfocando os impactos da inflexibilidade psicológica no cotidiano e as intervenções psicoterapêuticas realizadas. A terceira parte apresenta os resultados da intervenção psicoterapêutica propriamente dita, destacando os processos de flexibilização psicológica desenvolvidos ao longo das sessões. Por fim, a quarta parte traz os resultados obtidos nos testes de avaliação pré e pós-intervenção, divididos em resultados qualitativos e quantitativos. A discussão integra os principais achados do estudo, destacando a eficácia do protocolo aplicado e seus impactos observados ao longo do tempo. Explora a relação entre os construtos investigados, ressaltando sua importância para o funcionamento adaptativo do participante. Além disso, enfatiza a consistência entre os dados quantitativos e qualitativos, e aponta as contribuições clínicas e teóricas do trabalho para intervenções futuras em populações similares. As considerações finais apresentam uma síntese dos resultados e discutem as limitações do estudo, destacando a necessidade de cautela na interpretação dos dados. Também indicam direções para pesquisas futuras, sugerindo aprimoramentos metodológicos e a ampliação das investigações para fortalecer a validade e a aplicabilidade dos achados. Por fim, ressaltam a importância do tema e o potencial impacto das intervenções no campo estudado. Para concluir, a dissertação apresenta as referências, que reúnem as fontes bibliográficas utilizadas ao longo do trabalho. Em seguida, são disponibilizados os apêndices: Apêndice A, com o Questionário Sociodemográfico aplicado ao participante e Apêndice B, que traz o Protocolo de Desenvolvimento de Flexibilidade Psicológica usado na intervenção. 14 1. INTRODUÇÃO O Transtorno do Espectro Autista (TEA), segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5-TR (2023), é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento que se inicia em fase precoce do desenvolvimento infantil. As diretrizes diagnósticas para esse transtorno são déficits na comunicação e interação social, associados a interesses restritos e comportamentos repetitivos. O padrão comportamental pode ser manifestado por movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas); insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente); interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos); e hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse pouco comum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento) (American Psychiatric Association, 2023). As dificuldades enfrentadas por adultos com TEA impactam significativamente nas medidas de sua qualidade de vida, além disso, há maiores incidentes de resultados psicológicos negativos e eventos de vida adversos. Essa parcela da população apresenta taxas mais altas de estresse percebido (Bispo-Fitzpatrick et al., 2017) e qualidade de vida reduzida (Park et al., 2019), juntamente com sintomas psiquiátricos (por exemplo, depressão e ansiedade) (Croen et al., 2015), problemas de sono (Morgan et al., 2020) e até mortalidade prematura (Smith DaWalt et al., 2019). Até 70% dos adultos com TEA experimentam pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida e 50% atendem aos critérios para um transtorno de ansiedade ao longo da vida (Nah et al., 2018). Consequentemente, o desenvolvimento contínuo de tratamentos viáveis e eficazes que abordem o estresse, a qualidade de vida e o sofrimento psicológico em adultos com TEA é fundamental. Além disso, a investigação sobre intervenções psicológicas viáveis e eficazes que abordam os resultados de saúde em adultos autistas é limitada (Benevides et al., 2020). 15 Fragilidades na flexibilidade cognitiva têm sido apontadas como mais um elemento envolvido nas falhas de relacionamento social por parte de crianças e adultos autistas (Dias et al., 2015). Segundo Geurts et al. (2009), ao focar no comportamento cotidiano, parece que os indivíduos com autismo têm déficits de flexibilidade cognitiva. Eles encontram dificuldades em mudar de estratégia durante as atividades diárias ou adaptar sua perspectiva durante as interações sociais. A ideia é que os déficits de flexibilidade cognitiva estão claramente relacionados a essa rigidez de comportamento observada. Entende-se que flexibilidade cognitiva é uma das três habilidades que compõem as funções executivas junto da memória de trabalho e inibição (Diamond, 2013). Dificuldades executivas muitas vezes prejudicam a capacidade de lidar com as dificuldades diárias e alcançar metas de longo prazo (Bednarz et al., 2020; Uddin, 2021) e afetam áreas essenciais da vida como relações sociais, trabalho e vida independente (Lai et al., 2020). Dias e Malloy-Diniz (2020) afirmam que flexibilidade cognitiva se refere a um conjunto de processos cognitivos que, de forma integrada, permite à pessoa direcionar comportamentos a metas, avaliar a eficiência e a adequação desses comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes e, desse modo, resolver problemas imediatos, de médio e longo prazo. Ela permite ao indivíduo adaptar-se às demandas do ambiente e adequar seu comportamento a novas regras. Essa função executiva envolve a habilidade de mudar o foco de atenção e de perspectiva. Assim, possibilita que o indivíduo aborde um problema a partir de uma perspectiva diferente e possa gerar soluções alternativas, sem manter-se em padrões de comportamento pré-estabelecidos. Em outras palavras, diz respeito a realizar uma ação diferente da que se fazia anteriormente, procurando novas possibilidades, ou seja, pensar de forma flexível, maleando o raciocínio e livrando-se da rigidez de estratégias (Boer; Elias, 2022; Pereira, 2021). No que se refere à tarefa da flexibilidade cognitiva, o estudo de Boer e Elias, (2022) evidencia sua relação com variáveis como habilidades de resolução de problemas, estratégias de estudo, desempenho acadêmico, autoeficácia e tomada de decisão eficaz, é associada ainda com a diminuição de estresse emocional e a competências positivas de comunicação interpessoal. Esses achados sugerem que essa função executiva prevê auxiliar na adaptação do indivíduo a novas e diferentes exigências ambientais, e parece estar relacionada à capacidade de lidar com os desafios sociais, pessoais, emocionais, ambientais e acadêmicos. Assim como há processos de flexibilidade cognitiva, também existem os processos de flexibilidade psicológica, objetivo de intervenção da Terapia de Aceitação e Compromisso 16 (ACT), que é uma terapia de liderança no movimento chamado de “terceira geração” ou Terapias Comportamentais Contextuais. Essas terapias de terceira geração são particularmente sensíveis ao contexto e às funções do fenômeno psicológico e não apenas às suas formas, tendendo a enfatizar estratégias de mudanças contextuais e experimentais em adição às mais diretas e didáticas. Os tratamentos baseados nesses aspectos tendem a buscar a construção de repertórios amplos, flexíveis e efetivos sobre uma abordagem eliminatória para problemas bem definidos. Essas novas abordagens enfatizam questões como aceitação, atenção plena, valores e relacionamentos, sendo seus métodos mais vivenciais (Monteiro et al., 2015). A ideia central deste novo grupo de abordagens baseadas na aceitação e no contato com o momento presente é a função dos sentimentos e pensamentos, e não sua forma, que são mais importantes. Baseia-se no melhor dos dois campos: Terapia Comportamental/Análise do Comportamento e Terapia Comportamental e Cognitiva (Saban, 2015). Sendo assim, engloba pressupostos e técnicas nas quais há combinação de uma abordagem cognitiva e de um conjunto de procedimentos comportamentais (Monteiro et al., 2015). A ACT foi desenvolvida nos Estados Unidos por Steven Hayes, Kelly Wilson e Kirk Strosahl na década de 80 e pertence à terceira onda de terapias, tendo como raízes teóricas o campo da análise do comportamento. Hayes, Strosahl e Wilson (2021) enfatizam a função do comportamento, ou seja, o agir no contexto, ao invés da forma e conteúdo dos eventos (públicos e encobertos). Isso traz como implicação que o comportamento não pode ser classificado como “certo ou errado”, “falso ou verdadeiro”, mas sim se é eficaz ou viável de acordo com objetivos do cliente. Assim, o centro da mudança está na função dos comportamentos e, para tanto, devem ser alterados os contextos aos quais estão relacionados. A ACT não pretende alterar ou controlar o conteúdo das experiências privadas do indivíduo, mas sim modificar a maneira como esse indivíduo se relaciona com elas. Essa abordagem parte de uma concepção de ser humano profundamente enraizada no funcionalismo contextual e na teoria da linguagem chamada Teoria das Molduras Relacionais. Para ela, o ser humano é compreendido como um ser verbal e relacional, cujas experiências internas — pensamentos, emoções e memórias — são influenciadas pelos significados atribuídos por meio da linguagem. Segundo Hayes, Strosahl e Wilson (2021), “o sofrimento psicológico humano não deriva apenas de experiências traumáticas ou disfunções, mas da capacidade de linguagem e da tentativa de evitar ou controlar eventos internos indesejados”. Essa visão destaca que, embora a linguagem seja adaptativa do ponto de vista evolutivo, ela também torna o ser humano especialmente vulnerável ao sofrimento. Isso ocorre porque a 17 mente humana tende a evitar ou controlar pensamentos e sentimentos desagradáveis, criando um ciclo de evitamento experiencial que intensifica o sofrimento. Em vez de buscar eliminar a dor emocional, a ACT propõe que o ser humano busque um modo de viver mais significativo e autêntico, mesmo na presença da dor. Para ACT, a flexibilidade psicológica é a capacidade de fazer o que é essencial para si mesmo enquanto lida com obstáculos mentais que de outra forma estariam impedindo o desenvolvimento pessoal. Além disso, pode ser definida como a habilidade de estar em contato com o momento presente e manter ou mudar de comportamento em função dos valores escolhidos (Hayes, 2020). O construto inverso, a inflexibilidade psicológica, caracteriza o comportamento controlado principalmente pela linguagem e pouco orientado por valores. A flexibilidade psicológica é o resultado da interação entre seis processos psicológicos normais: desfusão cognitiva, aceitação, atenção flexível ao momento presente, self como contexto, valores e ações com compromisso. Para cada um deles, há um processo inverso que promove inflexibilidade, favorecendo o início e a manutenção da psicopatologia, são eles: fusão cognitiva, esquiva experiencial, atenção inflexível ao passado ou futuro, self como conceito, valores pouco clarificados e ações impulsivas ou inações (Saban, 2015; Hayes; Strosahl; Wilson, 2021). Ademais, considera que as psicopatologias são fruto de inflexibilidade psicológica (Hayes; Strosahl; Wilson, 2021). A fusão cognitiva ocorre quando o indivíduo está sob controle excessivo do comportamento verbal, representa um estado de literalidade do pensamento (Hayes et al., 2006). O indivíduo não percebe a cognição apenas como cognição, adotando seu conteúdo de modo literal. O contexto e a experiência são ignorados e o pensamento se torna a principal fonte de regulação do comportamento. O processo inverso, segundo Harris (2011), é a desfusão, é uma nova forma de se relacionar com seus pensamentos, diminuindo o impacto e a influência que exercem sobre o indivíduo, aprendendo a desfundir pensamentos desagradáveis e dolorosos, perdendo assim a capacidade de atemorizá-lo, perturbá-lo, aborrecê-lo, estressá-lo ou deprimi-lo. Desfundindo estes pensamentos, a influência que exercem sobre o comportamento diminuirá. Evitação experiencial é a indisponibilidade em lidar com eventos internos aversivos, levando a tentativas de reduzir sua forma, frequência ou intensidade (Hayes et al., 2006). Ao contrário da esquiva experiencial tem-se a aceitação, que abre espaço para sentimentos e sensações desagradáveis, em vez de tentar suprimi-los ou afastá-los (Hayes; Pistorello; Biglan, 2008). 18 O esforço contínuo para evitar problemas pode levar ao enrijecimento da atenção (Hayes et al., 2006). O indivíduo passa boa parte do tempo preocupado com o passado ou imaginando problemas que ainda não surgiram. Em ambos os casos, está psicologicamente ausente. A atenção flexível ao momento presente, entra em contato plenamente com o que quer que esteja acontecendo no presente; se concentra, envolve e vivencia o presente. Em vez de remoer o passado ou se preocupar com o futuro, se conecta profundamente com o momento (Hayes; Pistorello; Biglan, 2008). A noção de self como conteúdo representa a integração de diversos autoconceitos fundamentais para o indivíduo. Eventos que ameaçam os seus conceitos pessoais podem ser interpretados como um risco ao próprio indivíduo, levando ao sofrimento. Nessa concepção, ele é caracterizado como um lugar, e não como uma coisa (Hayes et al., 2006). O self observador se baseia na experiência consciente “eu-aqui-agora”, que está empiricamente relacionada à empatia e comunicação (Hayes et al., 2006). Este lugar é, ao mesmo tempo, permanente e transcendente, o que permite ao indivíduo observar suas experiências de modo mais consciente e seguro, inclusive em situações de adversidade. O objetivo dos métodos de desenvolvimento do self como contexto é a flexibilização das crenças sobre si mesmo. Segundo Wilson e Dufrene (2008), valores são eventos internos escolhidos livremente que resultam de padrões de comportamento específicos e dinâmicos. Os valores são vividos momento a momento, e não como uma conquista definitiva. Por outro lado, os valores podem se tornar disfuncionais quando indefinidos, baseados na vontade alheia ou evitativos. Os valores dão clareza e conexão, são essenciais para dar sentido à vida. São reflexos do que realmente é mais importante, que tipo de pessoa se quer ser, o que é relevante e significativo e o que pretende da vida. Os valores pessoais direcionam a vida e motivam para mudanças importantes (Hayes; Pistorello; Biglan, 2008). A ação comprometida constitui padrões comportamentais que permitem viver a responsabilidade pelos próprios atos, momento a momento, por meio de metas concretas de curto, médio e longo prazo. Para isso, a coerência entre o comportamento e os valores é continuamente reavaliada (Hayes et al., 2006). Padrões de inação, impulsividade ou evitação persistente representam uma ameaça à vida com sentido, pois não são orientados para valores. Contudo, a flexibilidade psicológica é aprimorada principalmente por meio de dois procedimentos: (1) treinamento de atenção plena, desfusão cognitiva e habilidades de aceitação, e (2) uso de técnicas de mudança de comportamento, que ajudam o indivíduo a definir valores, 19 ou seja, o que é importante para ele, e a agir de acordo com isso, atingindo assim os objetivos de comportamento escolhidos pessoalmente. Byrne e O’Mahony (2020) realizaram um estudo de revisão sistemática de literatura com o objetivo de avaliar a eficácia das intervenções informadas pelo ACT para indivíduos com atraso intelectual e/ou autismo na redução de dificuldades de saúde mental, no aumento das habilidades funcionais diárias e no aumento das habilidades psicológicas que promovem a flexibilidade psicológica. Embora todos os estudos incluídos utilizassem ACT, os estudos variaram na dosagem do tratamento, bem como nos componentes dos processos de flexibilidade psicológica que foram utilizados. O número de sessões relatadas nos artigos revisados variou de 3 a 17. Os estudos identificados pelo autor sugerem que a aplicação dessa terapia está num nível inicial para indivíduos com deficiência intelectual, mas está num nível ligeiramente mais desenvolvido para indivíduos que apresentam TEA nas áreas da saúde mental. Os resultados sugerem que a ACT pode ser um tratamento eficaz para adultos com TEA de alto funcionamento que apresentam dificuldades de humor e ansiedade. O estudo de Almeida et al. (2022) não foi direcionado a indivíduos com TEA, porém consistiu na construção de um protocolo de tratamento grupal semiestruturado para ansiedade e avaliou sua eficácia e efetividade para manejo de ansiedade entre universitários. A intervenção mostrou-se eficaz para aqueles que a completaram e efetiva para o contexto universitário e suas demandas. De forma geral, este tratamento se mostrou capaz de reduzir a sintomatologia ansiosa em 39,7% entre os pacientes que completaram o tratamento. A melhora atingida pelos participantes pode ter resultado de um aumento da flexibilidade psicológica. Dessa forma, é plausível que tenha ocorrido redução da esquiva experiencial, contribuindo para uma vida menos julgadora e mais comprometida com aquilo que se mostrou importante para os pacientes ao longo do processo. Recomenda-se a utilização desta intervenção como uma alternativa viável para o manejo de sintomatologia ansiosa em níveis clínicos. Indivíduos com TEA estão mais expostos a estressores, como experiências sensoriais aversivas e situações sociais estressantes. Portanto, tendem a correr um risco maior de desenvolver comportamentos evitativos e estratégias de enfrentamento desadaptativas, o que pode causar problemas de saúde mental de longo prazo (Conner et al., 2020; Pagni et al., 2020). Embora por vezes seja útil em curto prazo e auxilie no alívio imediato dessas situações aversivas, a evitação repetida implica muitas vezes a perda de oportunidades essenciais da vida, levando eventualmente a uma sensação de desesperança e causando ou agravando problemas de saúde mental. 20 O objetivo da ACT para indivíduos autistas não é “tratar o TEA”, mas facilitar a vida cotidiana, independentemente dos principais desafios consequentes do transtorno, visando mudar a forma como o indivíduo percebe seu funcionamento. Além disso, pesquisas indicam que as dificuldades centrais do TEA não são independentes do sofrimento emocional, sugerindo que a redução do estresse pode afetar a forma como o indivíduo percebe e vivencia suas dificuldades (South et al., 2017). Portanto, aumentar as habilidades de enfrentamento para lidar com situações estressantes com mais flexibilidade poderia reduzir a evitação e beneficiar a saúde mental e a qualidade de vida em adultos autistas. Em suma, a flexibilidade cognitiva, enquanto função executiva, refere-se à capacidade de adaptar pensamentos e comportamentos frente a novas demandas, sendo fundamental para a resolução de problemas e para a superação de padrões rígidos — aspectos frequentemente comprometidos em pessoas com TEA. A flexibilidade psicológica, por sua vez, é o foco da ACT e diz respeito à habilidade de agir conforme valores pessoais, mesmo diante de pensamentos e emoções difíceis, favorecendo uma adaptação emocional e comportamental mais saudável. A relação entre esses dois tipos de flexibilidade está na possibilidade de que o fortalecimento da flexibilidade psicológica — por meio das intervenções propostas pela ACT — também contribua para o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva. Isso porque, ao aprender a lidar de forma mais aberta e consciente com experiências internas, o indivíduo tende a se tornar mais adaptável em seu pensamento e comportamento. Dessa forma, a flexibilidade psicológica pode representar uma via terapêutica promissora para enfrentar os déficits cognitivos observados em pessoas com TEA, favorecendo sua adaptação aos desafios do cotidiano e às exigências do convívio social. Acredita-se que o padrão de comportamentos rígidos e restritos possam ser mantidos por reforçamento negativo, ou seja, a pessoa pode estar em esquiva experiencial para não enfrentar ou ter acesso aos eventos aversivos e se manter na zona de conforto. Esse processo de esquiva pode contribuir para o não desenvolvimento de repertórios para desempenhar ações de compromissos e estar em uma jornada comportamental vitalícia e guiada por valores. Contudo, a hipótese dessa pesquisa é que o desenvolver da flexibilidade psicológica baseado na ACT produza o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva em uma pessoa com TEA. 54 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS As considerações finais deste estudo reforçam a relevância de intervenções baseadas na flexibilidade psicológica para pessoas com TEA, especialmente aquelas com funcionamento preservado e sem déficits intelectuais. Os resultados apontaram que o desenvolvimento de flexibilidade psicológica pode repercutir positivamente em diversas áreas do funcionamento psicológico, social e cognitivo. Por meio da aplicação de um protocolo estruturado baseado na ACT, observou-se uma melhora expressiva na flexibilidade psicológica do participante, acompanhada de avanços relevantes na flexibilidade cognitiva, conforme indicaram os dados das escalas utilizadas. A diminuição de padrões comportamentais rígidos e repetitivos, somada ao progresso em funções executivas como organização, regulação emocional e resolução de problemas, sugere que o fortalecimento da flexibilidade psicológica pode atuar como uma base importante para o desenvolvimento de habilidades cognitivas mais adaptativas. Apesar dessas limitações, os resultados obtidos não devem ser desconsiderados. Ao contrário, eles oferecem indícios relevantes e promissores sobre o impacto positivo da ACT em pessoas com TEA. No entanto, as conclusões devem ser interpretadas com cautela, e as limitações destacadas apontam para importantes caminhos de desenvolvimento para futuras investigações. Pesquisas futuras podem buscar ampliar o número de participantes, incluindo amostras clínicas diversificadas com diferentes níveis de funcionamento e perfis cognitivos dentro do espectro do autismo. O uso de delineamentos experimentais com grupos controle e medidas pré, pós e follow-up mais extensos pode oferecer maior controle sobre variáveis intervenientes e permitir uma avaliação mais precisa da eficácia da intervenção. Também é recomendável a adoção de instrumentos específicos e validados para avaliar a flexibilidade cognitiva de forma mais objetiva, embora, até o momento, não hajam testes padronizados que tenham esse objetivo. Além disso, pode ser útil investigar o papel mediador da flexibilidade psicológica nas mudanças observadas nas funções executivas e no comportamento social, por meio de análises estatísticas mais sofisticadas como modelagem de equações estruturais ou análise de trajetória. Outros estudos podem explorar como fatores contextuais, como apoio familiar, ambiente acadêmico ou características da relação terapêutica, influenciam na efetividade da intervenção baseada em ACT. O protocolo desenvolvido para esta pesquisa foi elaborado a partir da avaliação inicial e, portanto, construído de maneira personalizada, considerando as demandas específicas do 55 participante. Por esse motivo, embora os temas e estratégias utilizados possam servir de referência para outras aplicações, recomenda-se que cada intervenção seja adaptada às necessidades individuais de cada pessoa. O número de sessões também não precisa ser fixo, podendo variar conforme o ritmo de progresso, os objetivos terapêuticos e as particularidades de cada caso. Essa flexibilidade na estrutura e na duração é coerente com os princípios da ACT e com a natureza processual do desenvolvimento da flexibilidade psicológica. Em suma, embora este estudo tenha apresentado resultados encorajadores quanto à relação entre flexibilidade psicológica e cognitiva em uma pessoa com TEA, as limitações aqui discutidas reforçam a necessidade de investigações futuras mais amplas, controladas e metodologicamente refinadas para consolidar a evidência empírica sobre a aplicabilidade da ACT nesse público. Essas pesquisas poderão contribuir significativamente para a criação de protocolos baseados em evidência que promovam maior autonomia, adaptação e qualidade de vida para pessoas com autismo. 56 REFERÊNCIAS ALMEIDA, R. B. et al. ACT em grupo para manejo de ansiedade entre universitários: ensaio clínico randomizado. Psicologia: Ciência e profissão. v. 42, p. 1-17, 2022. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 TR. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023. BARBOSA, L. M.; MURTA, S. G. Propriedades psicométricas iniciais do Acceptance and Action Questionnaire-II – versão brasileira. Psico-USF. v. 20, n. 1, p. 75- 85, 2015. BEDNARZ, H. M. et al. Metacognition and behavioral regulation predict distinct aspects of social functioning in autism spectrum disorder. Child Neuropsychology, Londres, v. 26, n. 7, p. 953–981, 2020. BENEVIDES, T. W. et al. Listening to the autistic voice: Mental health priorities to guide research and paractice in autism from a stakeholder-driven project. Autism: The International Journal of Research and Paractice, Londres, v. 24, n. 4, p. 822-833, maio 2020. BISHOP-FITZPATRICK, L. et al. Correlates of social functioning in autism spectrum disorder: The role of social cognition. Research in Autism Spectrum Disorders, [S.l.], v. 35, p. 25-34, mar. 2017. BOER, J. D. C.; ELIAS, L. C. S. Habilidades sociais, funções executivas e desempenho acadêmico: Revisão sistemática. Rev. psicopedag., São Paulo, v. 39, n. 119, p. 270-284, ago. 2022 BYRNE, G.; O'MAHONY, T. Acceptance and commitment therapy (ACT) for adults with intellectual disabilities and/or autism spectrum conditions (ASC): A systematic review. Journal of Contextual Behavioral Science, v. 18, p. 247-255, 2020. CONNER, C. M. et al. The role of emotion regulation and core autism symptoms in the experience of anxiety in autism. Autism: The International Journal of Research and Paractice, Londres, v. 24, n. 4, p. 931–940, 2020. CONSTANTINO, J. N.; GRUBER, C. P. Social Responsiveness Scale – Second Edition (SRS-2). Torrance, CA: Western Psychological Services; 2012. CROEN, L. A. et al. The health status of adults on the autism spectrum. Autism: The International Journal of Research and Paractice, Londres, v. 19, n. 7, p. 814–823, 2015. DIAMOND, A. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, jan. 2013. 57 DIAS, N. M. et al. Investigação da estrutura e composição das funções executivas: análise de modelos teóricos. Revista Psicologia: Teoria e Prática, v. 17, n. 2, p. 140-152, maio-ago. 2015. DIAS, N.; MALLOY-DINIZ, L. Funções executivas: modelos e aplicações. São Paulo: Pearson, 2020. ESTES, W. K.; SKINNER, B. F. Some quantitative properties of anxiety. Journal of Experimental Psychology, v. 29, p. 390- 400, 1941. FERSTER, C. B.; SKINNER, B. F. Schedules of reinforcement. New York, NY: Appleton- Century-Crofts, 1957. GEURTS, H. M. et al. The paradox of cognitive flexibility in autismo. Trends in Cognitive Sciences, v. 13, n. 2, p. 74-82, 2009. GODOY, V.; MATTOS, P.; DINIZ, L. M. Adaptação brasileira da Barkley deficits in executive functioning scale (BDEFS). Manual – Hografe; 2018. HARRIS. R. Liberte-se, evitando as armadilhas da procura da felicidade. p.1-200, 2011. HAYES, S. C. Acceptance and Commitment Therapy: Principles of Becoming More Flexible, Effective, and Fulfilled. Louisville, CO: Sounds True, 2020. HAYES, S. C. et al. Acceptance and commitment therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, v. 44, n. 1, p. 1–25, 2006. HAYES, S. C.; STROSAHL, K.; WILSON, K. Terapia de Aceitação e Compromisso: o processo e a prática de mudança consciente (2ª ed.). Porto Alegre: Artmed, 2021. HAYES, S.C.; PISTORELLO, J.; BIGLAN, A. Terapia de Aceitação e Compromisso: modelo, dados e extensão para a prevenção do suicídio. Revista brasileira de terapia comportamental e cognitiva, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 81-104, 2008. JOHNSTON, J. M.; PENNYPACKER, H. S. Strategies and tactics of behavioral research (2a ed.). Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum, 1993. KAZDIN, A. E. Single-case research designs. New York, NY: Oxford University Press, 1982. LAI, M.-C. et al. Evidence-based support for autistic people across the lifespan: Maximising potential, minimising barriers, and optimising the person–environment fit. Lancet Neurology, Londres, v. 19, n. 5, p. 434–451, 2020. MALLOY-DINIZ, L. F. et al. Avaliação Neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed, 2010. 58 MATOS, M. A. Controle experimental e controle estatístico: A filosofia do caso único na pesquisa comportamental. Ciência e Cultura, v. 42, p. 585-592, 1990. MONTEIRO, P. É. et al. Terapia de aceitação e compromisso (ACT) e estigma: revisão narrativa. Revista brasileira de terapia cognitiva, Juiz de Fora – MG, v. 11, n. 1, p. 25-31, 2015. MORGAN, B. et al. Sleep in adults with autism spectrum disorder: A systematic review and meta-analysis of subjective and objective studies. Sleep Medicine, Amsterdam, v. 65, p. 113– 120, 2020. NAH, Y.-H. et al. Brief report: Screening adults with autism spectrum disorder for anxiety and depression. Journal of Autism and Developmental Disorders, Nova Iorque, v. 48, n. 5, p. 1841–1846, 2018. PAGNI, B. A. et al. The neural correlates of mindfulness-induced depression reduction in adults with autism spectrum disorder: A pilot study. Journal of Neuroscience Research, Nova Iorque, v. 98, n. 6, p. 1150–1161, 2020. PARK, S. H. et al. Disability, functioning, and quality of life among treatment-seeking young autistic adults and its relation to depression, anxiety, and stress. Autism: The International Journal of Research and Paractice, Londres, v. 23, n. 7, p. 1675–1686, 2019. PEREIRA, V. Avaliação neuropsicológica das funções executivas: protocolo breve. 2021. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2021. SABAN, M. T. Introdução à terapia de aceitação e compromisso. Santo André: ESETec, 2015. SAMPAIO, A. A. S. et al. Uma introdução aos delineamentos experimentais de sujeito único. Interação em Psicologia, Curitiba, jun. 2008. SIDMAN, M. Táticas da pesquisa científica: Avaliação dos dados experimentais na psicologia (M. E. Paiva, Trad.). São Paulo, SP: Brasiliense, 1976. SKINNER, B. F. “Superstition” in the pigeon. The American Psychologist, v. 2, p. 426, 1947. SKINNER, B. F. A case history in scientific method. The American Psychologist, v. 11, p. 221-233, 1956. SKINNER, B. F. The behavior of organisms: An experimental analysis. New York, NY: Appleton-Century-Crofts, 1938. SMITH DAWALT, L. et al. Mortality in individuals with autism spectrum disorder: Predictors over a 20-year period. Autism: The International Journal of Research and Paractice, Londres, v. 23, n. 7, p. 1732–1739, 2019. 59 SOUTH, M. et al. Symptom overlap on the SRS-2 adult self-report between adults with ASD and adults with high anxiety. Autism Research, Hoboken, v. 10, n. 7, p. 1215–1220, 2017. STAKE, R. Estudos de caso em pesquisa e avaliação educacional. Educação e seleção, n.7, p. 5-14, 2013. UDDIN, L. Q. Brain mechanisms supporting flexible cognition and behavior in adolescents with autism spectrum disorder. Biological Psychiatry, Nova Iorque, v. 89, n. 2, p. 172–183, 2021. WILSON, K. G.; DUFRENE, T. Mindfulness for two. Oakland, CA: New Harbinger, 2008. 60 APÊNDICE A – Questionário Sociodemográfico Idade: ________________________________________________________________ Data de nascimento: _____________________________________________________ Gênero: _______________________________________________________________ Orientação sexual: _______________________________________________________ Raça: _________________________________________________________________ Escolaridade: ___________________________________________________________ Estado civil: ____________________________________________________________ Renda mensal: __________________________________________________________ Região de moradia: _______________________________________________________ Com quem reside: ________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ Histórico do diagnóstico: __________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ Tratamentos atuais: _______________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ _______________________________________________________________________ 61 APÊNDICE B - Protocolo de Intervenção no Desenvolvimento de Flexibilidade Psicológica Sessão OBJETIVOS TERAPÊUTICOS 1 Identificar o impacto dos conflitos da infância no comportamento social atual. Explorar os eventos aversivos geradores de sofrimento e seus desdobramentos. Identificar a rigidez nos padrões de comportamento, assim como os processos de esquiva experiencial. 2 Investigar o impacto do diagnóstico de TEA nas relações sociais e interpessoal. Explorar as estratégias de enfrentamento em curto prazo e o impacto emoções aversivas. 3 Identificar padrões de evitação e promover estratégias de aceitação e evitação de reações automáticas de fuga. Abordar como a fusão com pensamentos e emoções podem interferir no comportamento e gerar sofrimento, além de promover estratégias de desfusão cognitiva. 4 Explorar os valores pessoais, a fim de auxiliar a encontrar maior motivação e equilíbrio nas coisas que são importantes. Analisar se os comportamentos estão afastando ou aproximando de valores pessoais. 5 Investigar o impacto do hiperfoco, destacando a discrepância entre seu conhecimento aprofundado e o interesse ou compreensão dos outros. Desenvolver habilidades para perceber e entender as "pistas sociais", destacando que o comportamento social pode ser uma forma de comunicar interesse ou desinteresse. 6 Explorar e diferenciar os conceitos de valor e objetivos. Refletir sobre estratégias assertivas para lidar com interações sociais não recíprocas ou desrespeitosas. Incentivar a autorreflexão e busca ativa de ações de compromisso com os próprios valores. 7 Estimular a reconhecer e valorizar seus avanços e a buscar apoio quando necessário. Auxiliar na identificação e análise de interações sociais que não agregam valor, especialmente com indivíduos desinteressados ou resistentes ao diálogo. Incentivar a prática da flexibilidade nas interações sociais, promovendo aceitação da frustração como parte do desenvolvimento de novas habilidades sociais. 8 Investigar o impacto do hiperfoco nas interações sociais e no desconforto ao não poder expressar seus interesses em determinadas situações. Estimular a reflexão sobre o equilíbrio entre hiperfoco e outras áreas importantes da vida, utilizando a metáfora da bússola dos valores. Incentivar interações sociais mais espontâneas, ampliando as formas de conexão e comunicação. 9 Discutir o impacto de reações impulsivas e incentivar maior flexibilidade e adaptação às situações e aos outros. Estimular ações de compromisso para fortalecer as relações sociais significativas. 10 Explorar comportamentos alternativos ao hiperfoco para aproximação dos valores. Reavaliar as experiências sociais, focando em estabelecer conexões saudáveis, e incentivar a autocompaixão com as inseguranças. Estimular ações de compromisso para fortalecer as relações sociais significativas. 11 Investigar o impacto da sobrecarga sensorial e seus principais fatores causais como estratégia de intervenção por antecedentes. Refletir sobre o valor das relações sociais com o objetivo de manter relações respeitosas. Explorar processo de abertura para novas relações e vivenciar ações de compromisso. 12 Investigar a evolução do desenvolvimento da flexibilidade psicológica e cognitiva. Refletir sobre a importância de manter em desenvolvimento os processos de flexibilidade psicológica e do equilíbrio entre ceder e manter os seus próprios limites, sem submissão. Apresentar o progresso do paciente e suas habilidades adquiridas ao longo do processo terapêutico.