! UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” – UNESP ALEXANDRE TRAJANO PEQUINI O USO DAS TECNOLOGIAS NO COTIDIANO, NA EDUCAÇÃO E NO ENSINO MUSICAL SOB UMA PERSPECTIVA EDUCACIONAL E SOCIOCULTURAL. São Paulo 2016 ALEXANDRE TRAJANO PEQUINI O USO DAS TECNOLOGIAS NO COTIDIANO, NA EDUCAÇÃO E NO ENSINO MUSICAL SOB UMA PERSPECTIVA EDUCACIONAL E SOCIOCULTURAL. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Música. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Sonia Regina Albano de Lima São Paulo 2016 Ficha catalográfica preparada pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Artes da UNESP P425u Trajano, Alexandre, 1977- O uso das tecnologias no cotidiano, na educação e no ensino musical sob uma perspectiva educacional e sociocultural / Alexandre Trajano Pequini. - São Paulo, 2016. 142 f. Orientador: Prof.ª Dr.ª Sonia Regina Albano de Lima. Tese (Doutorado em Música) – Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”, Instituto de Artes. 1. Música – Instrução e estudo. 2. Música e tecnologia. 3. Conectivismo. 4. Teorias geracionais. I. Lima, Sonia Regina Albano de. II. Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes. III. Título. CDD 780.7 ! ALEXANDRE TRAJANO PEQUINI O USO DAS TECNOLOGIAS NO COTIDIANO, NA EDUCAÇÃO E NO ENSINO MUSICAL SOB UMA PERSPECTIVA EDUCACIONAL E SOCIOCULTURAL. BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________ Presidente e Orientadora: Prof. Dr. Sonia Regina Albano de Lima ____________________________________________________ Examinadora: Prof. Dr. Adriana Clementino ____________________________________________________ Examinadora: Prof. Dr. Francisca Eleodora Santos Severino ____________________________________________________ Examinadora: Prof. Dr. Yara B. Caznok ____________________________________________________ Examinador: Prof. Dr. Flávio Apro São Paulo, 2016 ! À minha mãe por seu valor sem medida a minha vida. ! AGRADECIMENTO À Deus, criador de todas a coisas, sem o qual minha vida não teria sentido. À minha orientadora Prof. Dra. Sonia Albano de Lima por seu empenho, dedicação e disponibilidade sem medida jamais vista. Agradeço a CAPES pelo auxílio a essa pesquisa. As Profs. Drs. Yara B. Caznok a Adriana Clementino pelas valiosas contribuições. A todos os professores do Instituto de Artes os quais tive o prazer de conhecer e contar com suas valiosas contribuições: Prof. Dr. Alberto Ikeda, Prof. Dra. Dorotéa Kerr, Prof. Dra. Lia Vera Tomás, Prof. Dra. Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, Prof. Dra. Iveta Maria Borges Ávila Fernandes, Prof. Dr. Paulo Castagna, Prof. Dra. Margarete Arroyo e Prof. Dra. Sonia Marta Rodrigues Raymundo A todos os funcionários da secretaria da pós-graduação do Instituto de Arte da Unesp em especial a Angela Lunardi e Fábio Akio Maeda. À minha mãe, Lídia Trajano, por entender meus momentos extracurriculares e por seu apoio incondicional e incontestável a qualquer tempo ou circunstância. À Karin Cristina Luchetta Camarinha por sua amizade, incentivo e extremo companheirismo. À minha família que soube entender minha ausência no período da realização dessa pesquisa. ! RESUMO Esta pesquisa, de caráter bibliográfico, foi pautada tomando como base o questionamento: Quais as razões que impedem a utilização ampla da tecnologia nos processos de ensino e aprendizagem musical, considerando-se o seu amplo emprego na sociedade? Para sua confecção foram traçados os seguintes objetivos: 1 - Descrever e refletir sobre o uso de tecnologias de informação e comunicação na sociedade, na educação e no ensino musical brasileiro, sob uma ótica sociocultural e educacional; 2 - Descrever os atores desse mundo tecnológico focando mais intensamente as teorias veiculadas por GARDNER & DAVIS (2013); STRAUSS & HOWE e PRENSKY (1991); 3 - verificar em que medida as Revistas Científicas na área de Música têm realizado textos referendando esta temática. A justificativa encontra-se no fato de que se houver uma intensificação do emprego de ferramentas tecnológicas no ensino musical, a música enquanto área de conhecimento terá melhor desenvolvimento. A metodologia da pesquisa adotada constituiu-se de um levantamento bibliográfico de autores, entre eles, SANTOMÉ (2013), NOVAK (2012), SIEMENS (2004), LÉVY (1993;1999,2003) sem desconsiderar os autores acima citados. Além da Introdução e das Considerações Finais foram delineados 7 capítulos, o primeiro abordou o Ciberespaço, o segundo descreveu os exemplos práticos da construção da inteligência coletiva. O terceiro capítulo tratou dos processos de ensino e aprendizagem e do Conectivismo. O quarto capítulo cuidou das TICs e sua adoção no cotidiano, no sistema educativo e no ensino musical. O quinto reporta-se aos atores no cenário tecnológico, evidenciado nas teorias de GARDNER & DAVIS; STRAUSS & HOWE E PRENSKY. O sexto traz o levantamento de Revistas Científicas de Música com Qualis A1 e A2 que abordam a relação da tecnologia com a música. O sétimo capítulo conta com o posicionamento do pesquisador sobre o material pesquisado. Concluímos que apesar da defasagem tecnológica presente nos processos de ensino e aprendizagem em relação ao ambiente tecnológico adotado no cotidiano dos indivíduos, a educação informal e a EAD têm utilizado mais intensamente a tecnologia, fator que necessitaria ser priorizado na educação formal e não formal. PALAVRAS CHAVES: Música, ensino musical, tecnologia, TIC, Conectivismo, teorias geracionais. ! ABSTRACT This bibliographical research was guided, based on the following question: What are the reasons that prevent the widespread use of technology on music teaching and learning, given its wide use in society? For its preparation the following objectives were outlined: 1 - reflect and discuss about the use of information and communication technologies in society and in education and as the Brazilian music education in a socio-cultural and educational perspective. 2 - Describe the actors in this technological world focusing more intensely in theories propagated by GARDNER & DAVIS (2013); STRAUSS & HOWE and PRENSKY (1991). 3 - Check as the Journals in the Music area have carried out texts endorsing this theme. The justification for its realization lies in the fact that if there is an intensification of the use of technological tools in teaching music, music as knowledge area will have a considerable advance. The research methodology adopted consisted of a literature of authors, among them, SANTOMÉ (2013), Novak (2012), Siemens (2004), Levy (1993, 1999, 2010), without disregarding the others aforementioned authors. Besides the introduction and the final considerations were outlined six chapters, first charpter addressed the Cyberspace, second described the practical examples of the construction of collective intelligence. The third chapter dealt with the processes of teaching and learning as connectivism well. The fourth chapter took care of ICTs and its adoption in everyday life, in education and musical education. The fifth refers to the actors in the technological scenario, evidenced in the theories of GARDNER & DAVIS; STRAUSS & HOWE and PRENSKY. The sixth chapter has introduced Music Journals with Qualis A1 and A2 that address the relationship of technology with music. The seventh deliveries the researcher's point fo view about the material founded. We concluded that despite the existing technological imbalance in the teaching and learning processes in relation to the technological environment adopted in the everyday life of individuals, informal education and distance education have used technology in a more intense way, a factor that should be adopted in formal and non-formal education. KEYWORDS: music, music education, technology, ICT, connectivism, generations theories. ! LISTA DE QUADROS, TABELAS, FIGURAS, IMAGENS E LINKS QUADROS Quadro 01. Relação entre a modalidade presencial e a de EAD nos cursos de Pedagogia, Letras, Educação Física e Artes. Elaborado pelo Autor. Quadro 02. Proporção de Domicílios com Computador. Nic.br Quadro 03. Proporção de Domicílios com Acesso à Internet. Nic.br Quadro 04. Total de Publicações Analisadas. Elaborado pelo Autor. Quadro 05. Total de Artigos Pesquisados. Elaborado pelo Autor. Quadro 06. Comparativo entre artigos que tratam da Tecnologia e o total de artigos publicados na Revista ABEM. Elaborado pelo Autor. Quadro 07. Comparativo entre artigos que tratam da Tecnologia e o total de artigos publicados na Revista HODIE. Elaborado pelo Autor. Quadro 08. Comparativo entre artigos que tratam da Tecnologia e o total de artigos publicados na Revista OPUS. Elaborado pelo Autor. Quadro 09. Comparativo entre artigos que tratam da Tecnologia e o total de artigos publicados na Revista PERMUSI. Elaborado pelo Autor. Quadro 10. Comparativo do Percentual Total de Publicações que retratam a relação tecnóloga e Música. Elaborado pelo Autor. Quadro 11. Comparativo entre periódicos. Elaborado pelo Autor. TABELAS Tabela 01. Autores ABEM e respectivas Produções. Elaborado pelo Autor. Tabela 02. Autores HODIE e respectivas Produções. Elaborado pelo Autor. Tabela 03. Autores OPUS e respectivas Produções. Elaborado pelo Autor. Tabela 04. Autores PERMUSI e respectivas Produções. Elaborado pelo Autor. Tabela 05. Autores de todas as publicações. Elaborado pelo Autor. Tabela 06. Publicações organizadas por anos. Elaborado pelo Autor. FIGURAS Figura no1. Tipos de Mídia. HILL; DEAN; MURPHY (2014, p. 06) IMAGENS Imagens 01 - 06 . Print Screen de Navegação. WIKIPEDIA ! LINKS http://qualis.capes.gov.br/webqualis/principal.seam http://www.facebook.com http://www.linkedin.com http://www.myspace.com http://www.youtube.com http://www.secondlife.com http://goo.gl/MLXr3n http://www.apple.com/br/ios/siri/ http://www.apple.com/br/ipod/ http://www.ted.com/profiles/790583 http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles http://www.vagalume.com.br/facebook/ - ixzz2evPRmot9 https://www.facebook.com/bandauniaodosartistas/posts/453933558006255 https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipédia:Wikipédia_em_outras_línguas http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u21947.shtml https://pt.wikipedia.org/wiki/Controvérsia_Seigenthaler https://pt.wikipedia.org/wiki/Controvérsia_Essjay http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/carlos-alberto- sardenberg/2014/08/11/CASO-QUE-ACONTECEU-COMIGO-E-COM-A- MIRIAM-E-GRAVISSIMO.htm http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/computadores-do-governo- alteraram-wikipedia-diz-folha http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia https://www.youtube.com/ http://img1.olhardigital.uol.com.br/noticia/youtube-e-o-2º-maior-buscador-da- web/6617 https://www.youtube.com/watch?v=6z4KK7RWjmk https://www.youtube.com/watch?v=a_Z1uKpmiSo https://www.waze.com/pt-BR https://www.whatsapp.com/ http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2014/12/acesso- internet-pelo-celular-cresce-65-em-um-ano-diz-pesquisa.html http://www.tecmundo.com.br/app-store/69787-confira-apps-baixados-loja-ios- 2014.htm http://goo.gl/wShZju ! http://goo.gl/eQm2c6 http://www.shazam.com/apps http://censo2010.ibge.gov.br/ http://www.dummies.com/ http://www.altabooks.com.br/para-leigos.html https://www.youtube.com/watch?v=CusvdN6A_eA&noredirect=1 https://www.youtube.com/watch?v=PeCZU6Y3eIU http://www.tse.jus.br/ http://scorecloud.com/?from=scorecleaner http://br.playstation.com/ps2/ http://qualis.capes.gov.br/webqualis/principal.seam http://www.abemeducacaomusical.org.br/revistas.html http://www.musicahodie.mus.br/index.php http://www.anppom.com.br/opus/pt-br/opus http://www.musica.ufmg.br/permusi/port/ ! LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ASTD - Sociedade Americana para Treinamento e Desenvolvimento BNCC - Base Nacional Comum Curricular (BNC) CD - Compact Disk CF - Constituição Federal DCNs - Diretrizes Curriculares Nacionais DVDs - Digital Versatile Disc EAD - Ensino a Distância GPS - Global Positioning System IES - Instituição de Ensino Superior K7 - compact cassette ou fita cassete LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação MEC - Ministério de Educação e Cultura PCNs - Parâmetros Curriculares Nacionais PNE - Plano Nacional de Educação TICs - Tecnologias da Informação e Comunicação UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul VHS - Vídeo Home System ou "Sistema Doméstico de Vídeo" WEB - do inglês Teia ! SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................... 13 CAPITULO 01 - O CIBERESPAÇO ......................................................... 24 1.1 INTERNET ......................................................................................... 26 1.2 PRODUÇÃO .................................................................................. 31 1.3 DISTRIBUIÇÃO .................................................................................. 33 1.4 MEDIAÇÃO E CONSUMO .............................................................. 35 CAPÍTULO 02 - CONSTRUÇÃO DA INTELIGÊNCIA COLETIVA – EXEMPLOS PRÁTICOS ................................................................................................ 39 2.1 FACEBOOK ......................................................................................... 40 2.2 WIKIPEDIA .......................................................................................... 44 2.3 YOUTUBE ........................................................................................... 48 2.4 OUTROS CANAIS ............................................................................... 49 CAPÍTULO 03 - OS PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM E O CONECTIVISMO ....................................................................................... 51 CAPÍTULO 04 AS TICs E SUA ADOÇÃO NO COTIDIANO, NO SISTEMA EDUCATIVO E NO ENSINO MUSICAL .................................................... 57 CAPÍTULO 05 - OS ATORES NO CENARIO TECNOLÓGICO SOB A PERSPECTIVA DE GARDNER & DAVIS; STRAUSS & HOWE E PRENSKY.................................................................................................. 62 5.1 A TEORIA DAS GERAÇÕES DE STRAUSS & HOWE ...................... 63 5.2 A TEORIA GERAÇÃO APLICATIVO DE GARDNER & DAVIS ........... 67 5.3 PRENSKY: NATIVOS E IMIGRANTES DIGITAIS ............................... 73 CAPITULO VI - A PESQUISA MUSICAL E SUA RELAÇÃO COM O CENÁRIO TECNOLÓGICO ........................................................................................ 81 CAPITULO VII - PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS EM UM CENÁRIO TECNOLÓGICO ........................................................................................ 97 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................106 REFERÊNCIAS ......................................................................................... 113 LEGISLAÇÃO CONSULTADA .................................................................. 117 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................... 118 ANEXOS ................................................................................................... 125 ! 13! INTRODUÇÃO A tecnologia, devido sua natureza multidisciplinar, tem despertado interesse de pesquisadores dedicados a investigar a sua presença na sociedade, na cultura, na educação e no comportamento humano. Ela tem contribuído para inúmeros avanços sociais e no que se reporta à educação em geral, configura-se como uma ferramenta relevante tanto para a formação de professores, quanto para o ensino das diferentes áreas de conhecimento, entre eles, a música. A sociedade contemporânea, por inúmeras razões, nos últimos anos sofreu mudanças significativas e, por conta disso, houve a necessidade das escolas se integrarem a esta nova realidade, para atender as exigências do mundo do conhecimento, da cultura, do trabalho e da sociedade. Essa visão holística da Educação tem a tecnologia como uma ferramenta aliada. Santomé relata (2013, p. 16) que as tecnologias permitem realizar inúmeras tarefas, ter acesso a informações, instituições e pessoas, abrem novas possibilidades de atribuição de poderes aos grupos que sabem se aproveitar delas, entretanto, deixam deslocados os grupos e pessoas que não se incorporam a esses novos hábitos: Desde que foram surgindo as primeiras tecnologias digitais, os critérios de sucesso e fracasso de todas as organizações e instituições têm estado cada vez mais relacionados com a capacidade de adaptações às mais atuais inovações tecnológicas do momento e também com o desenvolvimento das imprescindíveis habilidades das pessoas que integram esses órgãos para utilizar e explorar tais recursos. O mundo dos aparelhos e recursos que esta revolução torna possível na medida em que seu manejo se torna, a cada dia mais simples, e seu custo mais acessível, penetra com enorme rapidez em todas as esferas da vida das pessoas. À medida que vão aparecendo no mercado novas máquinas, dispositivos e programas e com a difusão de seu uso, a maneira de viver de seus usuários sofre grandes transformações de maneira continuada. Originam-se novas formas de acesso à informação, de se relacionar, ver, se comportar, aprender, trabalhar, se divertir, pensar e ser. Embora o uso da tecnologia esteja sendo empregado na sociedade de forma intensa, ele ainda é um tanto tímido no que se reporta aos processos de ensino e aprendizagem na educação formal e não formal. Mesmo que as empresas dedicadas ao hardware tenham o sistema educativo sob sua mira, [...] existe uma preocupação menor em gerar software especificamente pensado para ser empregado no âmbito da educação, nos diferentes níveis do sistema escolar, educação infantil, primária, secundária e formação profissional. A mesma situação em relação aos software (sic) para o mundo universitário é muito diferente, pois a ! 14! própria rede de centros de pesquisa que se concentra nesse nível é propulsora e destinatária de uma parte muito importante desse tipo de tecnologia da informática. Além disso, os diferentes programas para incentivar a presença das tecnologias da informática nos níveis não universitário sempre se esforçaram muito mais para facilitar a entrada de hardware nas escolas e salas de aula do que estimular a criação de software adequados aos processos de ensino e aprendizagem que se dá nesses espaços (Ibid, p. 16-17) Corroborando essa fala, podemos verificar que muitos são os computadores introduzidos nas instituições escolares, mas poucos são os softwares que poderiam auxiliar a aprendizagem dos alunos, intensificar as estratégias de ensino dos professores e utilizar procedimentos tecnológicos que já são largamente utilizados pelos indivíduos na sociedade. Observa-se um desequilíbrio entre o uso da tecnologia nos processos de ensino e aprendizagem e o uso da tecnologia na sociedade. Quais seriam as razões dessa tendência, considerando-se a importância que os ordenamentos pedagógicos têm dado à tecnologia? A leitura da Lei n.º 13.005, de 25 de junho de 2014, referente ao Plano Nacional de Educação – PNE, com vigência por 10 anos, já no artigo 2º, inciso VII, reporta-se a tecnologia como sendo uma de suas diretrizes: “art. 2º - São diretrizes do PNE: [...] inciso VII - promoção humanística, científica, cultural e tecnológica do País” (BRASIL, 2014) - (grifo nosso), o que pressupõe que os demais ordenamentos ligados a Educação adotarão política semelhante. O PNE contempla 14 artigos e um anexo contendo 20 metas e as devidas estratégias de ação para cada uma delas que deverão ser implantadas até 2024. Várias delas abordam ações político-pedagógicas que envolvem a tecnologia como pressuposto de avanço para os processos de ensino e aprendizagem. Reportamo- nos a algumas dessas estratégias com o intuito de demonstrar em que medida e função a tecnologia se insere neste ordenamento: Estratégia 2.6 - desenvolver tecnologias pedagógicas que combinem de maneira articulada, a organização do tempo e das atividades didáticas entre a escola e o ambiente comunitário, considerando as especificidades da educação especial, das escolas do campo e das comunidades indígenas e quilombolas. ! 15! Estratégia 3.14 - estimular a participação dos adolescentes nos cursos das áreas tecnológicas e científicas. Estratégia 5.4 - fomentar o desenvolvimento de tecnologias educacionais e de práticas pedagógicas inovadoras que assegurem a alfabetização e favoreçam a melhoria do fluxo escolar e a aprendizagem dos (as) alunos (as) consideradas as diversas abordagens metodológicas e sua efetividade. Estratégia 5.6- promover e estimular a formação inicial e continuada de professores (as) para a alfabetização de crianças, com o conhecimento de novas tecnologias educacionais e práticas pedagógicas inovadoras, estimulando a articulação entre programas de pós-graduação stricto sensu e ações de formação continuada de professores (as) para a alfabetização. Estratégia 6.3 - institucionalizar e manter, em regime de colaboração, programa nacional de ampliação e reestruturação das escolas públicas, por meio da instalação de quadras poliesportivas, laboratórios, inclusive de informática, espaços para atividades culturais, bibliotecas, auditórios, cozinhas, refeitórios, banheiros e outros equipamentos, bem como da produção de material didático e de formação de recursos humanos para a educação em tempo integral. Estratégia 7.12- incentivar o desenvolvimento, selecionar, certificar e divulgar tecnologias educacionais para a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio e incentivar práticas pedagógicas inovadoras que assegurem a melhoria do fluxo escolar e a aprendizagem, assegurada a diversidade de métodos e propostas pedagógicas, com preferência para softwares livres e recursos educacionais abertos, bem como o acompanhamento dos resultados nos sistemas de ensino em que forem aplicados. Estratégia 7.14 - universalizar, até o quinto ano de vigência deste PNE, o acesso à rede mundial de computadores em banda larga de alta velocidade e triplicar, até o final da década, a relação computador/aluno ! 16! (a) nas escolas da rede pública de educação básica, promovendo a utilização pedagógica das tecnologias de informação e da comunicação. Estratégia 7.20 - prover equipamentos e recursos tecnológicos digitais para a utilização pedagógica no ambiente escolar a todas as escolas públicas da educação básica, criando, inclusive, mecanismos para implementação das condições necessárias para a universalização das bibliotecas nas instituições educacionais com a acesso as redes digitais de computadores, inclusive a internet. Estratégia 7.22 - informatizar integralmente a gestão das escolas públicas e das secretarias de educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como manter programa nacional de formação inicial e continuada para o pessoal técnico das secretarias de educação. Estratégia 9.11 - implementar programas de capacitação tecnológica da população jovem e adulta, direcionados para os segmentos com baixos níveis de escolarização formal e para os (as) alunos (as) com deficiência, articulando os sistemas de ensino, a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, as universidades, as cooperativas e as associações, por meio de ações de extensão desenvolvidas em centros vocacionais tecnológicos, com tecnologias assistivas que favoreçam a efetiva inclusão social e produtiva dessa população. Estratégia 9.12 - considerar, nas políticas publicadas de jovens e adultos, as necessidades dos idosos, com vista à promoção de políticas de erradicação do analfabetismo, ao acesso a tecnologias educacionais e atividades recreativas, culturais e esportivas, à implementação de programas de valorização e compartilhamento dos conhecimentos e experiência dos idosos e à inclusão dos temas do envelhecimento e da velhice nas escolas. Estratégia 14.7 - manter e expandir programa de acervo digital de referências bibliográficas para os cursos de pós-graduação, assegurar a acessibilidade de pessoas com deficiência ! 17! Estratégia 15.10 - fomentar a oferta de cursos técnicos de nível médio e tecnológicos de nível superior destinados à formação, nas respectivas áreas de atuação, dos (as) profissionais da educação de outros segmentos que não os do magistério (BRASIL, Lei n. 13.005/14). Em seguimento ao que determina o PNE, o Ministério da Educação, após o trabalho desenvolvido pelas equipes formadas pela Secretaria de Educação Básica, apresenta para discussão e análise da sociedade uma versão inicial do que poderá ser a Base Nacional Comum Curricular (BNC) prevista na Constituição para o ensino fundamental e ampliada no PNE para o ensino médio. Este documento tem como propósito renovar e aprimorar a educação básica como um todo e detém um forte sentido estratégico nas ações de todos os educadores e gestores de educação no Brasil. Em linhas gerais a BNC traça os princípios orientadores da base nacional comum curricular, inclusive os que dizem respeito as Artes. De acordo com a redação apresentada pelo MEC, a Base Nacional Comum Curricular (BNC) pretende deixar claro os conhecimentos essenciais pelos quais todos os estudantes brasileiros têm o direito de ter acesso e se apropriar durante sua trajetória na Educação Básica, ano a ano, desde o ingresso na Creche até o final do Ensino Médio. Com ela, os sistemas educacionais, as escolas e os professores terão um importante instrumento de gestão pedagógica e as famílias poderão participar e acompanhar mais de perto a vida escolar de seus filhos. Ela é parte do Currículo e orienta a formulação do projeto Político- Pedagógico das escolas, permitindo maior articulação deste. A partir da BNC, os mais de 2 milhões de professores continuarão podendo escolher os melhores caminhos de como ensinar e, também, quais outros elementos precisam ser somados nesse processo de aprendizagem e desenvolvimento de seus alunos. Tudo isso respeitando a diversidade, as particularidades e os contextos de onde estão (BRASIL, BNC, 2015). A área de Linguagens presente neste documento trata dos conhecimentos relativos à atuação dos sujeitos em práticas de linguagem, em variadas esferas da comunicação humana, das mais cotidianas às mais formais e elaboradas. Esses conhecimentos possibilitam mobilizar e ampliar recursos expressivos, para construir ! 18! sentidos com o outro em diferentes campos de atuação. Propiciam, ainda, compreender como o ser humano se constitui como sujeito e como age no mundo social em interações mediadas por palavras, imagens, sons, gestos e movimentos. Ela reúne quatro componentes curriculares: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Arte e Educação Física. Esses componentes articulam-se na medida em que envolvem experiências de criação, de produção e de fruição de linguagens. Um dos objetivos transversais do componente curricular Arte, abordados nesse documento, diz respeito ao uso da tecnologia no contexto artístico-educacional: Considerado o nível de aprofundamento e complexidade compatíveis com o contexto do grupo, espera-se que o estudante possa...[...] explorar os recursos tecnológicos como meio para o registro, pesquisa e criação em arte (BRASIL, BNC, 2015, p. 86) No que se reporta ao ensino musical propriamente dito, ordenamentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais - Arte, publicado em 1997, já indicavam o uso de tecnologias em arranjos, composições e improvisações e também nas transformações de técnicas, instrumentos, equipamentos e tecnologia nos contextos referentes a história da música (BRASIL, PCN-Artes, 1997, p. 78 e 80). Igualmente, a Resolução CNE/CES n. 2, de 08 de março de 2004, que aprova as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Música, no artigo 4º reporta-se a pesquisa tecnológica: Art. 4º O curso de graduação em Música deve possibilitar a formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências e habilidades para: [...] II - viabilizar pesquisa científica e tecnológica em Música, visando à criação, compreensão e difusão da cultura e seu desenvolvimento (BRASIL, Resolução CNE/CESn. 2/2004). Outra realidade presente na educação contemporânea e que tem se estendido para o ensino musical superior é o Ensino a Distância (EAD). Esta modalidade tem se tornado uma opção de capacitação profissional em diversos campos de saber, inclusive na música e de certa maneira tem utilizado mais amiúde o ambiente tecnológico. A EAD no Brasil, especialmente no ensino superior, começou a se consolidar a partir da promulgação da LDB n. 9394/96, que a inseriu como uma modalidade válida, em todos os níveis de ensino: ! 19! Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União. § 2º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância. § 3º As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação a distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas. § 4º A educação a distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá: I - custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens e em outros meios de comunicação que sejam explorados mediante autorização, concessão ou permissão do poder público; II - concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas; III - reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais (BRASIL, LDB N. 9394/96) Conforme relata Silvestre Novak, Vice-Secretário da Educação a Distância da UFRGS (2012), a EAD rapidamente se estendeu para diversos campos de formação docente, visto que não se tratava somente da ampliação de vagas em instituições existentes dedicadas exclusivamente à EAD, mas da adesão repentina de um ! 20! grande número de Instituições Públicas de Educação Superior, que embora não tivessem uma experiência prévia, passaram a incorporar a modalidade às suas práticas educativas: À medida que praticamente todas as IES, públicas e privadas, se inseriram, de alguma forma, num curto espaço de tempo, no mundo da EAD, seja através do desenvolvimento de pesquisa, seja através da oferta de cursos de extensão, graduação e pós-graduação nesta modalidade de ensino, ou ainda, através do uso das tecnologias de EAD como apoio ao ensino presencial, a questão da institucionalização desses novos processos, em particular, e da EAD, de um modo geral, passa a se colocar como uma questão crucial (NOVAK, 2012, p. 45-46). Novak relata que a importância do uso da modalidade de ensino a distância na formação de professores em exercício não se restringe à viabilização do acesso à educação. Pode ir além, à medida que utiliza a EAD como uma metodologia de ensino e não uma modalidade de ensino: Não são somente os conteúdos abordados, no caso da formação professores, mas a própria metodologia de ensino, que tende a gerar resultados que modificam as concepções pedagógicas e epistemológicas desencadeando uma prática educativa transformadora. A experiência da aprendizagem em rede, baseada em intenso processo de interação, entre alunos, tutores e professores, mas principalmente entre os próprios alunos, constitui fator de grande potencial transformador (Ibid, p. 60). A EAD tem se transformado em uma porta de acesso à Educação para boa parte da população, especialmente em regiões de difícil acesso no país, auxiliando em muito o sistema educacional brasileiro no cumprimento de um dispositivo constitucional que prevê a educação como um direito social que deve ser partilhado por todos: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, C.F, art. 6º, redação dada pela Emenda Constitucional n. 90, de 2015). Em uma pesquisa publicada em 2012 por LIMA, BRAZ e CLEMENTINO, constatou-se pelo exame dos sites das Instituições de Ensino Superior, um número ainda inexpressivo de cursos de Pedagogia, Letras, Educação Física e Artes, que adotam a EAD como modalidade de ensino. O quadro abaixo ilustra essa realidade: ! 21! Quadro 01. Elaborado pelo Autor São poucos os cursos de Licenciatura oferecidos nesta modalidade em relação aos presenciais. Entretanto, mesmo não sendo objeto de nossa análise, é importante relatar que o EAD tem sido um excelente canal de entrada da tecnologia na educação superior, inclusive na área musical. Fato que não tem ocorrido nos cursos presenciais, onde a tecnologia não tem sido largamente utilizada. Outros benefícios da revolução tecnológica no ensino estão presentes na construção de hiperlinks ou de referências cruzadas entre documentos: A hipertextualidade permite o enriquecimento de qualquer texto ao facilitar interações com outros documentos, combinar a escrita com outros formatos audiovisuais (fotografias, desenhos, áudios, filmes, gráficos, apresentações em slides, etc). As novas tecnologias da informação e comunicação permitem que qualquer pessoa possa acessar com toda a facilidade quantidades ilimitadas de documentos em diferentes suportes (a multimodalidade) (SANTOMÉ, 2013, p.15). ! 22! Diante desse quadro, quais seriam as razões que impedem a utilização ampla da tecnologia nos processos de ensino e aprendizagem musical, considerando-se o seu emprego excessivo na sociedade? Foi esse questionamento que motivou esta pesquisa e para que ela fosse cumprida foram traçados os seguintes objetivos: • Descrever e refletir sobre o uso de tecnologias de informação e comunicação na sociedade, na educação e no ensino musical brasileiro, sob uma ótica sociocultural e educacional. • Descrever os atores desse mundo tecnológico focando mais intensamente as teorias veiculadas por GARDNER & DAVIS (2013); STRAUSS & HOWE e PRENSKY (1991). • Verificar o quanto as Revistas Científicas na área de Música têm publicado textos referendando esta temática. A justificativa para essa investigação está no fato de que se houver uma intensificação do emprego de ferramentas tecnológicas no ensino musical, a música enquanto área de conhecimento terá avanços consideráveis nas diversas subáreas. Esta pesquisa tem caráter bibliográfico, desenvolvida a partir de material já elaborado em livros e artigos científico (GIL, 1999, p.65). A preferência por essa modalidade de investigação surgiu pelo fato de ela permitir a cobertura de uma gama de fenômenos ligados a um tema de grande amplitude, tanto na sociedade como nos ambientes educacionais e mais enfaticamente no ensino musical. Mesmo sendo uma pesquisa bibliográfica, ela se configura como uma pesquisa social voltada para a Educação e, dessa forma, exigiu uma análise qualitativa da bibliografia referendada. Não é nosso objetivo apresentar uma linha histórica do desenvolvimento da tecnologia, considerando-se que o termo abarca diferentes frentes de trabalho e pesquisa. Vamos nos ater essencialmente ao estudo da tecnologia no contexto educacional e sua relevância sociocultural, pois consideramos que o uso de tecnologias nos ambientes educacionais vai além de sua infraestrutura, demandando a inclusão de práticas tecnológicas nos processos de ensino e aprendizagem. ! 23! Na presente Introdução foram apontados artigos de ordenamentos que incentivam a implantação da tecnologia em ambientes educacionais e processos de ensino/aprendizagem, além da exposição da problemática, dos objetivos, da metodologia da pesquisa e hipótese de solução. No I Capítulo, por conta da ampla ação da tecnologia no cotidiano dos indivíduos, foi imprescindível mapear o meio onde essas ações ocorrem e conceituar o termo “ciberespaço”. No Capítulo II fornecemos e discutimos alguns exemplos de dinâmicas que ocorrem no ambiente Ciberespaço, entre eles, Facebook, Youtube, Wikipédia, entre outros. No Capitulo III são discutidos os processos de ensino e aprendizagem e o conectivismo. No Capítulo IV são discutidas as TICs nos processos de ensino/aprendizagem, principalmente no ensino musical. No Capítulo V são expostas as teorias de Strauss & Howe, Gardner & Davis e Prensky que organizam os indivíduos em gerações, sendo que duas delas organizam essas gerações segundo a vivência dos indivíduos com a tecnologia. O Capítulo VI promove um levantamento dos artigos publicados em Revistas Científicas de Música brasileiras que contemplam o termo tecnologia e suas variantes nos resumos e palavras chave, no período de 2002 a 2014. Só serviram de base para a realização dessa tarefa as Revistas Científicas de Música Brasileiras qualificadas com extrato A1 e A2, segundo QUALIS1. Finalizando a pesquisa seguem as considerações finais. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 1 http://qualis.capes.gov.br/webqualis/principal.seam ! 24! CAPITULO I O CIBERESPAÇO Por conta da ampla ação da tecnologia no cotidiano dos indivíduos, é imprescindível mapear o meio onde essas ações ocorrem, daí a importância de conceituar o termo “ciberespaço”. Como aponta MONTEIRO (2007) existem muitas perspectivas e discussões a partir deste termo. Mergulhar na diversidade de detalhes e sentidos que ele comporta fugiria de nossa proposta investigativa. Vamos nos ater ao que é relevante para esta pesquisa. Neste particular, duas perspectivas importantes e em certa medida contratantes, precisam ser consideradas. A primeira se refere ao ciberespaço como sendo a infraestrutura que suporta ou que viabiliza os meios digitais: computadores, softwares, arquitetura e derivados. A segunda, sem desconsiderar a importância da estrutura, valoriza a relação dos indivíduos inseridos nesses meios virtuais - é a relação que se processa entre os indivíduos e a forma como se apropriam dessa tecnologia, compartilhando conteúdos, impulsionados principalmente pela internet, que seria o fator chave do conceito (MONTEIRO, 2007). O entendimento de LÉVY (1999) que será utilizado como referência para futuras reflexões, está alinhado à segunda perspectiva: “O termo [ciberespaço] especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informação que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo” (LÉVY, 1999, p. 17). Importante destacar que esse ambiente possui práticas tão expressivas que o autor sugere uma cultura própria a esse meio, chamada de cibercultura: “Quanto ao neologismo ‘cibercultura’, especifica aqui o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 17). Em linhas gerais, o ciberespaço é o ambiente onde as relações cotidianas ligadas a tecnologia acontecem, ou são apoiadas virtualmente. Isso não quer dizer que essas relações estejam afastadas da realidade concreta dos indivíduos. O uso da palavra virtual, que durante algum tempo, representou algo que de fato não ! 25! existia, ou que se distanciava da concretude do dia-a-dia, frente a tantos avanços, trata de algo que existe e está presente no cotidiano dos indivíduos, ainda que não seja tangível. Quanto mais a tecnologia se especializa, mais ela se simplifica e se aproxima do indivíduo comum e quanto mais comum ela se torna para o usuário, maior é a proximidade que ela estabelece entre o cotidiano concreto e virtual. Na atualidade a separação entre virtual e concreto vem se desfazendo, pois de fato, tanto o virtual como o concreto se integram2 no dia-a-dia dos indivíduos. Como exemplo, vamos tomar o conceito de compartilhamento de conteúdos, no que tange aos materiais musicais. De fato, muito antes das tecnologias peer-to- peer3, as pessoas já compartilhavam música. Uma seleção de músicas (hoje chamadas de playlist) era gravada em uma fita K7 e entregue a outra pessoa (uma realidade palpável e concreta). Para ouvir o conteúdo dessa fita, a pessoa deveria ter um aparelho específico. Com o avanço tecnológico, principalmente com a digitalização sonora, os indivíduos passaram a fazer o download de sua playlist e gravá-las em um CD ou pendrive. Atualmente as pessoas deixaram de compartilhar este material de maneira física, elas compartilham apenas o link deste material organizado por elas. Dessa forma, um indivíduo é capaz de compartilhar uma biblioteca de arquivos sonoros com apenas um link de acesso. Na atualidade o avanço tecnológico permite que ambientes concretos e virtuais se aproximem de tal forma que a distinção entre eles se tornou desnecessária. Essa tendência de compartilhamento de conteúdos levou muitas gravadoras a falência. Muitos processos de ensino e aprendizagem foram desenvolvidos em um mundo onde a experiência do indivíduo era 100% concreta. Hoje o mundo transformou-se em um complexo vivo formado por processos concretos e virtuais. Para muitas pessoas, o universo digital já é um lugar comum, portanto, promover um processo de ensino e aprendizagem baseado em uma experiência !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 2 Quando afirmamos que não existe distinção entre virtual e concreto, não estamos considerando os ambientes totalmente virtuais, como os jogos eletrônicos, por exemplo. Nosso ponto de vista está centrado nas práticas do cotidiano dos indivíduos. 3 O termo refere-se a uma rede de computadores onde todos podem fazer download de conteúdos, assim como podem oferecer o seu conteúdo para download. ! 26! 100% concreta, acaba se afastando não apenas da realidade tecnológica presente na atualidade, mas também da forma como lidamos com o mundo atual. Na verdade, a proximidade entre o concreto e o virtual é tão comum na atualidade, que autores como LONGO (2014) já admitem que nós estamos migrando para uma nova era – a pós-digital, considerando-se que as tecnologias já fazem parte do cotidiano dos indivíduos e são plenamente assimiladas. Assim, discutir no ensino formal ou informal como utilizar os meios tecnológicos numa era pós-digital representa uma defasagem se comparado com a dinâmica cotidiana, já que muitas dessas discussões reportam-se a uma era anterior - a pré-digital. Lévy assim se manifesta quanto a esse fato: Muitas vezes, enquanto discutimos sobre os possíveis usos de uma dada tecnologia, algumas formas de usar já se impuseram. Antes de nossa conscientização, a dinâmica coletiva escavou seus atratores. Quando finalmente prestamos atenção, é demasiado tarde. Enquanto ainda questionamos, outras tecnologias emergem na fronteira nebulosa onde são inventadas as idéias, as coisas e as práticas (LÉVY, 1999, p.21). Teríamos maior avanço pedagógico quanto ao uso das tecnologias se promovêssemos um ambiente de aprendizagem que integrasse a tecnologia nos processos de ensino/aprendizagem, da mesma maneira como foi assimilada no dia- a-dia dos indivíduos. F. Iazzetta ao se reportar ao uso do computador, em certa medida manifesta parte dessa realidade: A questão é olhar o computador como uma possibilidade auxiliar, que vai além da execução infinitamente rápida de cálculos complicados e ações precisas. A questão é a de conseguir criar um tipo de relação onde o computador seja utilizado realmente como uma máquina interativa e capaz de gerar possibilidades realmente novas (IAZETTA, 2009, p.02). O ciberespaço é subsidiado substancialmente pela Internet, aliás ele nem existiria sem esta ferramenta, daí a necessidade de uma análise mais profunda deste termo. 1.1 - INTERNET Existe vasta bibliografia argumentando o quanto a tecnologia - em especial quando associada à internet - tem modificado a forma como os indivíduos interagem ! 27! entre si e com os demais conteúdos disponíveis online (livros, revistas, música, vídeos, imagens e suas variantes) e o quanto a internet dinamizou uma série de processos (GARDNER, DAVIS, 2003; SIEMENS, 2004; LÉVY, 2003; KUSEK, LEONHARD, 2005; SÃO PAULO, 2008; PRENSKY 2001; BAUMAN, 2001). Hoje a oferta de conteúdos e os níveis de interatividade não são os mesmos desde o início da internet. Pelo contrário, inicialmente o acesso era mais técnico e dirigido apenas aos que dominavam tecnicamente esse meio. É importante relatar que mesmo com os avanços já conquistados, a internet ainda está sendo aprimorada por especialistas que buscam desenvolver subsídios para que ela se torne mais eficiente na entrega de conteúdos e informações. Nesse processo de evolução que continua em operação, é possível relatar o desenvolvimento da internet a partir de três perspectivas nomeadas de Web 1.0, Web 2.0 e Web 3.0 (HILL; DEAN; MURPHY, 2014 e MAGALHÃES, 2012). A WEB 1.0 era caracterizada por oferecer fontes de informação sem interação com o usuário, espaço para discussão ou condição de compartilhamento direto4 ou social5. Ou seja, os internautas tinham a possibilidade de acessar o conteúdo, mas sem uma perspectiva de interação ou coautoria. ! Já a WEB 2.0, que dá conta dos principais artifícios que hoje a caracterizam como uma ferramenta revolucionária, dá a chance ao internauta de interagir, compartilhar e até mesmo gerar conteúdo, publicá-lo (HILL; DEAN; MURPHY, 2014), promovê-lo e até mesmo monetizá-lo. Ravenscroft (2009) relata que o grande diferencial da WEB 2.0 é seu cunho social e participativo nas redes, destacando não apenas as redes sociais como o Facebook6 ou LinkedIn7, mas também chamando a !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 4 O compartilhamento de conteúdos direto é aquele que por meio de um click, é possível compartilhar um determinado conteúdo, como por exemplo, um botão para compartilhar uma playlist, ou um clipe musical. O compartilhamento indireto é aquele que demanda maior número de cliques para que seja possível compartilhar um conteúdo, como por exemplo, copiar um trecho de um website, abrir o programa de envio de emails, colar o conteúdo, digitar o email do destinatário para então compartilhar o conteúdo. Ou seja, o número de ações para este compartilhamento é sensivelmente maior se comparado ao direto. 5 Na atualidade, grande parte dos conteúdos possuem link para compartilhamento nas redes sociais, por isso chamamos de compartilhamento social, como por exemplo, quando um indivíduo lê um artigo em um blog e decide compartilhá-lo com toda a sua rede de amigos com apenas um clique, 6 http://www.facebook.com- Facebook é uma rede social digital onde o indivíduo cria um perfil pessoal com a possibilidade de adicionar outros perfis ao círculo de amizades com a possibilidade de compartilhar diversos conteúdos como fotos, vídeos, opiniões entre outros. 7 http://www.linkedin.com - LinkedIn é uma rede similar ao Facebook, porém com caráter corporativo. ! 28! atenção para as redes de compartilhamento de conteúdos, entre elas, MySpace8 e Youtube9, como também os mundos virtuais, por exemplo a Second Life10. HILL; DEAN; MURPHY (2014, p. 06) propõem um quadro ilustrativo sobre o desenvolvimento da internet que vai desde o cenário pré-internet11, posteriormente ela transita por um "antepassado" menos interativo, chegando até a digitalização de materiais. Ou seja, a imagem ilustra esse caminho da WEB 1.0, sua transição para a web 2.0 e sua extensão até as redes sociais, evidenciando, por uma barra vertical, o momento da intervenção da internet em meio a todos os processos ilustrados na imagem. Figura no1. HILL; DEAN; MURPHY (2014, p. 06) !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 8 http://www.myspace.com- rede social que caiu em desuso, servia principalmente aos músicos que buscavam compartilhar seus perfis de forma profissional. 9 http://www.youtube.com- similar ao Facebook, o Youtube é uma rede social baseada na distribuição e compartilhamento de vídeos. 10 http://www.secondlife.com- trata-se de um mundo virtual criado pelos usuários. "O Second Life é um mundo em 3D no qual todas as pessoas que você vê são reais e todos os lugares que você visita são construídos por gente como você." (http://secondlife.com/whatis/?lang=pt-BR acessado em agosto de 2015). 11 Também chamado analógico. ! 29! A internet continua seu movimento de expansão, renovação e especialização. Na atualidade os pesquisadores buscam uma realidade de conexão que facilite ainda mais o cotidiano dos usuários para o futuro – a web 3.0 ou web semântica. Esta se configura como uma dinâmica sensivelmente mais interativa que caminha em direção a construção de uma inteligência artificial, na qual toda a informação disponibilizada será organizada de maneira otimizada e mais inteligível as máquinas. Ou seja, os resultados de buscas serão mais precisos e oferecerão aos internautas, resultados mais próximos do que eles realmente procuram. MAGALHÃES (2012) compara a internet de hoje (a web 2.0) a uma coleção de livros. Para que uma determinada informação seja encontrada é necessário lermos diversos livros até encontrarmos o que de fato desejamos. Já a web semântica (ou web 3.0) seria uma biblioteca organizada onde os livros estariam classificados segundo autores, assuntos, editoras, etc; permitindo um acesso mais eficiente a informação. Grande parte do conteúdo da internet hoje não é criado respeitando regras semânticas, o que se compara a uma coleção de livros não organizada que não privilegia o acesso preciso de conteúdos. Quando nos referimos a web semântica, é como se o conteúdo disponibilizado na internet tivesse uma etiqueta especial. Por exemplo, em um website, ao ser inserido um endereço, deveria haver uma etiqueta12 dizendo que aquela informação não é apenas uma sequência qualquer de palavras, mas sim um endereço. Ou seja, para que a web semântica se torne uma realidade, todo o seu conteúdo deverá ser reestruturado e etiquetado (tag) (MAGALHÃES, 2012). Uma vez organizada, os computadores teriam condições de processar os conteúdos e então oferecer ao usuário uma informação mais eficiente. Em certa medida parece inexequível esta nova modalidade de Web, contudo a internet vai se desenvolvendo à medida que novas perspectivas e demandas vão surgindo. Novas práticas nascem em resposta a essas novas demandas, e assim, a web semântica já é uma realidade, e aos poucos, o conteúdo cibernético caminha para essa adequação em sua integralidade. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 12 Estamos nos referindo a linguagem de códigos que não fica visível ao navegante, mas sim aos códigos que são utilizados pelas máquinas para o processamento dos dados e apresentação da informação ao usuário. ! 30! Tomemos como exemplo o mais novo produto da Amazon.com13 chamado de "Amazon Echo"14. Sua função é bastante simples, interagir com demandas do cotidiano do proprietário por comando de voz. Para isso, basta o proprietário chamá- lo por seu nome "Alexa" e fazer a interação de voz: perguntar a hora, anotar itens para compra no supermercado para posterior consulta no celular, automação residencial (acender e apagar luzes, por exemplo), informações sobre tempo e tráfego, bem como fazer buscas em enciclopédias virtuais como a Wikipedia, executar playlist musicais específicas e ser capaz de aprender "truques" novos. Todo o processo acontece via internet, assim como o aplicativo SIRI do sistema IOS15 da Apple. Vale ressaltar mais uma vez que quanto mais a tecnologia se especializa, mais próxima e mais acessível ela fica da população - o preço do Amazon Echo é de aproximadamente U$ 179,00, valor aproximado de um celular (smartphone) de padrão médio no Brasil. Se nos reportarmos para o ensino, devemos relatar que uma das grandes problemáticas na educação contemporânea reside em como trabalhar com as mesmas dinâmicas tecnológicas do cotidiano, que a partir da web 2.0, evidencia essa realidade sistêmica, onde o todo e as partes formam um aglomerado dinâmico que se reformula a todo momento, oferecendo uma nova modalidade de acesso, compartilhamento e construção de significados. Hoje é muito importante o professor trazer para a sala de aula o cotidiano tecnológico vivenciado pelos alunos. Como já foi relatado anteriormente, seria um equívoco esperar que modelos elaborados a partir de uma realidade que desconsidere esses avanços, atenda de maneira eficiente uma nova geração de indivíduos. Esse argumento está presente nas teorias de Gardner, Davis e Prensky que serão avaliadas nos capítulos posteriores. Seria importante que as escolas elaborassem uma nova maneira de promover o conhecimento utilizando a tecnologia, fato já exposto na Proposta Curricular do Estado de São Paulo. Trata-se de um documento desenvolvido pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo que apresenta os princípios orientadores para !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 13 Amazon.com é uma famosa loja de comércio eletrônico. 14 http://goo.gl/MLXr3n 15 http://www.apple.com/br/ios/siri/ ! 31! uma escola capaz de promover as competências indispensáveis ao enfrentamento dos desafios sociais, culturais e profissionais no mundo contemporâneo: As novas tecnologias da informação produziram uma mudança na produção, na organização, no acesso e na disseminação do conhecimento. A escola hoje já não é mais a única detentora da informação e do conhecimento, mas cabe a ela preparar seu aluno para viver em uma sociedade em que a informação é disseminada em grande velocidade (SÃO PAULO, 2008, p. 19). Fica evidente nos relatos até agora expostos que atualmente os conteúdos tecnológicos são entregues de maneira diferente do que era feito no passado. A distribuição ou compartilhamento de conteúdos na contemporaneidade está intimamente ligada à popularização do acesso ao serviço de internet. Existe vasta bibliografia a respeito do surgimento da internet e sobre os protocolos de transmissão de informação e dados, contudo, vamos nos reportar aos processos que vem historicamente viabilizando a cultura musical por meio de materiais sonoros: a produção, a distribuição, a mediação e o consumo. De certa maneira, eles podem ser entendidos como fatores que alteraram os meios de acesso a esses materiais. 1.2 PRODUÇÃO Anteriormente a produção de materiais musicais era gerenciada pelas grandes gravadoras, visto que os equipamentos e expertise necessários eram de difícil acesso. Essas grandes gravadoras, além de subsidiar a gravação em estúdios profissionais, eram responsáveis também pela distribuição do produto final. Assim elas exerciam um papel fundamental enquanto mediadora dos materiais que o público em geral consumia, além de ter sobre sua tutela os músicos que construíam sua carreira apoiados na ampla disseminação de sua produção artística. Nossa intenção não é expor as grandes gravadoras como “vilãs da cultura musical”, mas de fato, no passado, sem uma grande e cara estrutura seria impossível gerar os materiais musicais que chegavam até nós. Os equipamentos eram caríssimos, desde microfones, amplificadores, infraestrutura técnica, engenheiros de som, produtores executivos, produtores musicais, contratos com rádio, gráficas, distribuidoras, etc. ! 32! Dessa maneira a “música das mídias de massa” demandava uma estrutura que ia além do talento ou da virtuosidade do músico, pois ela só se sustentava mediante um alto retorno financeiro. Assim dito, apenas as músicas de grande apelo popular faziam parte dessa dinâmica. Mesmo que um músico fosse extraordinário, se não houvesse público que justificasse o investimento, ele não teria a chance de gravar e divulgar sua arte nos veículos de massa. As grandes gravadoras determinavam quais artistas chegariam ao público, ou seja, tinham um poder midiático e mediador fortíssimo que dificilmente poderia ser superado. Adorno (2011), em seu tempo, já se reportava aos custos socioculturais advindos desse cenário, que, no seu entendimento, resultavam em uma regressão gradual da qualidade de escuta. Não entraremos no mérito dessa discussão presente nas publicações de Adorno (2011) e Copland (1974), para não nos distanciarmos dos objetivos traçados nesta pesquisa. Não apenas a produção e a distribuição estavam encerradas nesse ciclo das gravadoras, mas também o consumo da música, ou seja, a distribuição dos produtos musicais - fossem discos, LPs, CDs ou espaço em rádio. Por mais que um músico, por meios próprios, conseguisse ultrapassar a barreira da produção, o processo de distribuição estava comprometido devido aos custos elevados e networking cativo das grandes gravadoras. Assim, a participação de um músico que não estivesse vinculado a uma grande gravadora, configurava-se como um enorme desafio. O consumo do material musical gravado estava sujeito às grandes mídias, pois as gravadoras influenciavam o que as pessoas deveriam escutar. Tomando como exemplo a novela, programa de grande apelo popular no Brasil, além do enredo da trama, seria imprescindível que ela fosse detentora de uma trilha sonora vinculada não apenas à história, mas, principalmente, aos protagonistas, exercendo um papel próximo a Leitmotiv16 de Wagner em seus dramas musicais. Nesse particular, as pessoas ao ouvirem parte da canção, já sabiam que iriam assistir a uma cena com determinado personagem ou casal. Consequentemente, as músicas que eram disseminadas para o grande público - via grandes meios !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 16 Traduzido diretamente do alemão, significa tema motivo. Foi usado por Richard Wagner (1813- 18883) em seus dramas musicais. Em linhas gerais, trata-se do uso de um motivo ou tema que se repete sempre que uma passagem ou personagem entra em cena. ! 33! midiáticos de comunicação - é que compunham os referenciais musicais da população. Com o barateamento das tecnologias, aos poucos a possibilidade da produção de materiais musicais foi chegando a um maior número de músicos. Os multipistas17 analógicos populares (que usavam fita K7) tiveram seu lançamento em meados da década de 70 e já possibilitavam aos músicos, o registro de sua produção de uma maneira revolucionária para a época, porém, ainda esbarravam na condição de distribuição desse material em larga escala. Mesmo que conseguissem, a escuta dos indivíduos em larga medida era moldada pelas grandes mídias, a exemplo das novelas. Com a digitalização dos materiais musicais, o segundo processo também passou a ser vencido comercialmente, ou seja, a distribuição. 1.3 DISTRIBUIÇÃO O processo de digitalização também permitiu o barateamento da replicação dos materiais musicais (livros, partituras, etc) e audiovisuais. De fato, ao invés de materiais originais e suas cópias, o universo da digitalização conferiu às cópias, a condição de originais, visto não haver mais diferenciação entre ambos: Assim, depois que uma transcrição do meio analógico é feita para o meio digital, qualquer informação é facilmente transferida de um sistema a outro, através de cópias perfeitas, em que todas são originais. Por exemplo, as músicas de um CD podem ser copiadas para o disco rígido de um computador, enviadas por e-mail, acessadas de uma segunda máquina e colocadas em um outro CD. Com este procedimento, dois CDs com dados idênticos podem ser produzidos em poucos minutos, em duas regiões distantes do planeta. Com o suporte analógico, a gravação teria que viajar fisicamente até o local de destino (GOHN, 2009, p.53). Portanto, o advento da internet fez implodir uma distribuição em massa, tendo em vista a disseminação dos aparelhos portáteis que são capazes de armazenar quantidades significativas de músicas18. Esse fator incentivou um processo de “pirataria” significativo. Até hoje existem esforços para combater este fenômeno e incentivar os indivíduos a adquirem de forma lícita, os diversos materiais disponíveis em formato digital - a exemplo, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 17 Multipistas consiste em um gravador que disponibiliza canais individuais de gravação para cada instrumento. 18 Como o iPod http://www.apple.com/br/ipod/ ! 34! seguem o Spotify19, e o mais recente Tidal20, com lançamento ocorrido em março de 2015, que alegam garantir uma remuneração adequada aos artistas que disponibilizarem seus materiais musicais em sua plataforma. Em tempos anteriores, para que os usuários pudessem realizar o compartilhamento de músicas e vídeos em formatos digitais21 era necessário a instalação de softwares específicos em um computador ou notebooks. Com o expressivo aumento da velocidade da internet (NEGROPONTE, 1995) o download desses arquivos deixou de ser condição sine qua non para acessar esses conteúdos. Mais recentemente esses arquivos ficam disponíveis 24 horas por dia, podendo ser acessados pelo usuário da internet a qualquer momento, via canais de transmissão streaming22, como é o caso dos projetos citados (Spotify e Tidal) ou mesmo pelo Youtube. Acompanhando essa velocidade de transmissão, presenciou-se a possibilidade de compartilhamento não apenas do áudio, mas também de arquivos de vídeo – muito maiores que os arquivos de áudio23; ou seja, o usuário da internet, nos dias atuais, tem a possibilidade de ter acesso imediatamente ao registro visual e sonoro de uma performance ou concerto em resposta a sua busca. Assim, não existe mais a necessidade de se possuir uma gravação em suporte físico como em fitas VHS, DVDs, Bluray ou mesmo no HardDrive do computador, pois o acesso substitui a posse. Afinal, se você pode ouvir o que quiser, quando quiser, não é preciso ‘possuir’ um suporte físico (KUSEK e LEONHARD, 2005. p. 04). !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 19 Spotify trata-se de um serviço de distribuição de conteúdos musicais via streaming por meio de aplicativo específico para aparelhos móveis, e via webs para desktops. 20 Da mesma forma que o Spotify, trata-se de um serviço de distribuição de faixas musicais, porém oferece uma qualidade superior de definição de áudio, se comparado com seus concorrentes. 21 A digitalização da música permitiu que fosse possível a criação de cópias idênticas ao original (GOHN, 2003). Existe vasta bibliografia a respeito da maneira como esse processo acontece. Não iremos abordar tais processos nesse capítulo. Para a presente reflexão consideramos importante o uso desses arquivos digitais e não o processo de digitalização de conteúdos. Porém acreditamos ser importante frisar que o formato digitalizado de músicas mais popularmente encontrado na internet é o mp3. 22 O streaming é uma forma de distribuição de informações multimídia por meio da internet. Normalmente, em streaming, as informações multimídia não são arquivadas pelo usuário que está recebendo o conteúdo. A mídia é reproduzida à medida que chega ao usuário. 23 Quando usamos o termo "maiores", estamos nos referindo a quantidade de informações em megabytes a seres transferidos. Em linhas gerais, enquanto um arquivo de áudio de 128kbps toma 1 megabyte de espaço, um arquivo de vídeo e, HD, com Bitrate 2500 kbps megabytes toma mais de 20 megabytes por minuto de informação. ! 35! O compartilhamento de arquivos ainda é uma prática comum entre os usuários da internet e o download é parte essencial para manter os arquivos em aparelhos portáteis de execução de áudio e vídeo, sem conexão móvel. Entretanto, com o desenvolvimento do compartilhamento por nuvem e a crescente velocidade da internet - principalmente em smartphones já preparados para a o uso da tecnologia 4G24, muito em breve o streaming será a realidade dominante, fato que corrobora a perspectiva de KUSEK e LEONHARD (2005) de substituição da posse pelo acesso. Dessa maneira a posse será uma prática apenas dos colecionadores que buscam ter fisicamente os materiais; a grande população irá caminhar para o acesso de conteúdos musicais via streaming. A distribuição de conteúdos foi parcialmente superada, mas o consumo ainda é uma barreira que está sendo ultrapassada. De fato, os indivíduos têm potencial aquisitivo e meios para acessar esses materiais, contudo estão sujeitos a mediação das grandes mídias. Ou seja, os mediadores principais da grande população ainda continuam os mesmos, só que a internet e suas ferramentas de comunicação têm se constituído como uma possibilidade de ultrapassar essa barreira. 1.4 MEDIAÇÃO E CONSUMO Anterior ao cenário tecnológico atual, o consumo de materiais musicais acontecia apenas pela aquisição de materiais físicos, por exemplo: um livro; um LP, K7 ou CD; uma fita VHS, um DVD - além de outros suportes físicos. Esse tipo de consumo estava totalmente ligado a produção e a distribuição, que dependiam de uma grande engrenagem logística para que o material musical chegasse ao indivíduo. Como esse consumo estava ligado a determinados canais de distribuição, a mediação de conteúdos era uma consequência do processo, portanto, atravancava a possibilidade de acesso a outras matrizes. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 24 4G se refere a 4ª geração de telefonia móvel, que em linhas gerais promete entregar aos telefones móveis um serviço de internet mais eficiente com taxas de download e upload superiores aos padrões 2G e 3G. ! 36! Desenhando um fluxograma, teríamos a mediação como um fator determinante em todo o ciclo de veiculação do material - desde a decisão sobre quais seriam produzidos, quais seriam distribuídos e quais entregues para o consumo. Com a digitalização dos materiais, o consumo percorre novos canais de maneira mais ampla e interativa, indo além dos tradicionais canais mediados. Hoje, para consumir um material musical, ao invés do indivíduo adquirir um suporte físico (CD, DVD, etc..), ele acessa o material de interesse por um dispositivo conectado à internet. Desta forma, na atualidade, a figura do mediador perde força no processo de consumo do bem musical. Hoje, o indivíduo pode atuar como seu próprio mediador (SIEMENS, 2004). Ainda existem mediadores no processo de distribuição dos materiais musicais, contudo eles não são mais os únicos canais de acesso a esses materiais. Por meio de uma pesquisa online, o indivíduo pode acessar uma série de materiais musicais gratuitos, o que viabiliza processos mais dinâmicos de distribuição e acesso. Muitas são as pesquisas que buscam entender o comportamento do internauta: como ele navega pelos sites, em quais ele dedica maior tempo de navegação, entre outros questionamentos25. Essa discussão foge do escopo de nossa pesquisa, porém, um dado relevante foi exposto por Parisier26 em sua palestra (2011) no renomado website ted.com27, 28. O palestrante revela como os resultados de uma busca no Google são gerados. Não se trata de resultados aleatórios sobre um determinado assunto ou organizados segundo uma mediação técnica; pelo contrário, os resultados entregues são formados segundo os interesses do indivíduo que realizou essa procura, ou seja, segundo as suas pesquisas anteriores, ainda que sobre assuntos diferentes da atual - perfilhando seus hábitos de navegação. O autor argumenta que, se duas pessoas realizarem uma busca com as mesmas palavras, ainda que ao mesmo tempo, a probabilidade de terem resultados diferentes gerados pelo Google, é muito grande. O que também corrobora a perspectiva de KEEN (2007) quando nos aponta que a internet nos oferece reforços !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 25 Apontamos para a pesquisa KRUG (2014). 26 http://www.ted.com/profiles/790583 27 Segundo o website do projeto TED.com “é uma organização sem fins lucrativos dedicada à difusão das idéias, geralmente sob a forma de palestras, poderosas curtas (18 minutos ou menos)” - “TED is a nonprofit devoted to spreading ideas, usually in the form of short, powerful talks (18 minutes or less).” 28 http://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles ! 37! daquilo que somos ou buscamos, ou seja, uma vez que fazemos buscas constantes e os resultados apresentados a nós estariam vinculados a essas buscas anteriores29, ficaríamos ilhados ao redor de nossos próprios conhecimentos e interesses, o que torna essa situação ainda mais preocupante - estaríamos, então, reféns dos nossos próprios saberes - próprio do sujeito alienado que é refém de seus próprios conhecimentos. PARISER (2011) também expressa que essa prática seletiva de apresentação de conteúdos segundo nosso filtro de interesses, estende-se as redes sociais. Como exemplo, o Facebook e diversos outros portais, como o Yahoo news. Desta forma PARISER (2011) conclui que muitas vezes na internet, o que chega até as pessoas não são os conteúdos que elas precisam ver, mas sim, os conteúdos que os mecanismos entendem que as pessoas gostariam de ver. Essa condição é nomeada pelo autor como “Filter bubbles” ou “filtros bolha”30. O filtro bolha seria uma área definida pelos mecanismos de perfil que retratam os seus gostos e interesses baseados no seu comportamento online. O grande problema dessa condição é que: 1) o indivíduo não decide o que faz parte dessa área de interesse, ou seja, ele não define o que será apresentado a ele. 2) o indivíduo não tem acesso ou mesmo ciência da existência dos conhecimentos que estão fora do filtro bolha. PARISER (2011) admite que, antes da internet, existiam mediadores entre os saberes e os indivíduos que apontavam aos interessados o que era relevante. Com a internet, esses mediadores foram deixados de lado e os indivíduos escolhem os conteúdos que querem ter acesso. Com o desenvolvimento da internet, uma nova realidade se instaura, a mediação nesses casos é feita por algoritmos que determinam o que é relevante para cada indivíduo, e não, necessariamente, o que é referencial enquanto saber ou conhecimento humano. A cada dia estamos mais sujeitos a um cotidiano de informações menos reflexivo e mais dinâmico podendo comprometer o desenvolvimento de nossa inteligência, que como aponta GARDNER (2001), desenvolve-se também segundo o meio que vivemos. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 29 PARISIER (2011) aponta que existem 57 critérios que são levados em consideração pelos algoritmos que engendram os mecanismos que filtram nossa atividade na internet com o intuito de gerar um perfil de interesses. 30 Tradução livre do autor. ! 38! Ainda que o Google e outros motores de busca ofereçam sugestões de resultados, é importante que o indivíduo desenvolva capacidades para que consiga encontrar os conteúdos que procura. O Google e similares não se configuram como uma prisão cibernética, mas sim, como facilitadores que, apoiados em uma mediação pessoal (SIEMENS, 2004) oferecem acesso ao conhecimento de maneira mais ampliada se compararmos com o passado menos tecnológico. Dessa forma, podemos admitir que existem duas perspectivas de mediação interconectadas, podemos pensar que as ferramentas do Google podem mediar nossos processos de aquisição de conhecimento, mas também, nós mesmos podemos dar cabo dessa mediação. Do relato aqui produzido, testemunhamos o quanto o acesso aos materiais musicais tem se modificado em razão dos avanços tecnológicos que mudaram sensivelmente a forma do indivíduo produzir, distribuir, mediar e consumir os materiais musicais. ! 39! CAPÍTULO II CONSTRUÇÃO DA INTELIGÊNCIA COLETIVA – EXEMPLOS PRÁTICOS Apresentar um capítulo com exemplos práticos da dinâmica do ciberespaço tornou-se indispensável para que pudéssemos tangenciar como de fato as dinâmicas de comunicação e compartilhamento acontecem no meio tecnológico. Pensamos que não trazer esses exemplos talvez nos distanciássemos do objeto em si, o que não faria sentido, uma vez que a tecnologia está imersa no cotidiano e totalmente conectada com todas as práticas do dia-a-dia, desde as mais simples até as mais complexas. Contudo, antes de nos atermos aos exemplos, é importante conceituar o termo. Segundo Lévy (2003, p. 28), a inteligência coletiva é “[...] uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”. Ela é composta pelas habilidades de cada um dos indivíduos inseridos nessa dinâmica complexa, organizadas e distribuídas pelas TICs de forma a colaborar com o todo Com a Internet, cada vez mais rápida e conexões móveis, essas dinâmicas se mostram ainda mais imersas no cotidiano dos indivíduos. Portanto, separar uma área nesta pesquisa que oferecesse exemplos práticos, pareceu-nos prudente, ainda que, com a velocidade das mudanças tecnológicas, alguns aspectos aqui expostos, caiam rapidamente no campo da obsolescência. Talvez em um ano ou menos esses exemplos que se seguem estejam totalmente ultrapassados, contudo as dinâmicas sociais ainda serão permeadas pelas tecnologias. Portanto, o que se torna ultrapassado são as ferramentas e não o comportamento. Vale ressaltar que não encontramos menção sobre o uso dessas ferramentas nos processos de ensino e aprendizagem nos artigos publicados nas Revistas Científicas A1 e A2. Também é importante considerar que tanto o Facebook, quanto a Wikipédia e similares são consideradas ferramentas de menor utilização na Academia, pois se configuram como fonte de informação incertas e duvidosas, ainda que, no caso do Facebook, possa ser utilizada como meio de comunicação entre os indivíduos. ! 40! 2.1 FACEBOOK Mesmo sendo um meio virtual, a internet possui “pontos de encontro” onde além de compartilhar conteúdos digitais, as pessoas dialogam sobre suas preferências e dividem suas experiências pessoais sob os mais diversos assuntos do dia-a-dia. Um desses pontos de encontro é o Facebook, que é um dos meios virtuais que compõe as chamadas mídias ou redes sociais, seguem a mesma dinâmica da internet, ou seja, são teias de relacionamentos compostas por canais virtuais, nas quais os indivíduos formam comunidades também virtuais que permitem a comunicação entre os usuários cadastrados nessa comunidade. Uma característica importante do Facebook é que além de possuir usuários em todo o mundo, ele abarca diferentes frentes de interesses, desde articulações políticas, como as recentes manifestações no Brasil em 201331, até a publicação de fotos de um passeio familiar de final de semana, passando por transmissões online de palestras, manifestações, eventos e mesmo shows musicais ao vivo. Importante destacar que segundo a revista INFO (2012), 98% dos acessos à internet se dão por conta de acessos ao Facebook, o que garante à essa rede social a condição de ser um dos principais pontos de encontro virtual, ou tecnicamente falando, o hub principal de acesso à internet. Dessa forma acreditamos que o Facebook pode ser entendido como um agregador de conteúdos e/ou polo de discussões. Além dele, existem outros “agregadores de conteúdo”, mas ele é o que predomina. Tomando como parâmetro os conteúdos musicais, podemos citar os sites: youtube.com que é direcionado ao compartilhamento de vídeos; soundcloud.com que é direcionado para arquivos de áudio e também o site vagalume.com.br que além de focar seu conteúdo em letras de músicas e tradução de músicas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 31 O início das manifestações foi marcado pela reivindicação do não aumento das passagens de ônibus em São Paulo. Após alguns dias, as manifestações passaram a ter um novo caráter descentralizado e uma sensível porcentagem da população foi as ruas reivindicando outros direitos comuns. Grande parte da organização dessas manifestações - que aos poucos se espalharam por todo Brasil - foram articuladas por meio da internet, principalmente pelas redes sociais. Os manifestantes podiam postar imagens e vídeos do andamento das manifestações, registrando momentos de confronto com policiais, vandalismos ou mesmo validando manifestações pacíficas. O grande avanço recai sobre o fato de que as manifestações aconteceram sem uma organização centralizada. Ou seja, a partir de comunicações e compartilhamento via redes sociais, as pessoas se organizaram para estar presente nas manifestações. ! 41! internacionais, também permite a elaboração de playlists usando vídeos da rede Youtube. A título de exemplo, segue abaixo um convite que se encontra na primeira página do portal www.vagalume.com.br incentivando os visitantes do site a compartilhar suas playlists: Crie playlists, compartilhe e envie músicas para seus amigos no Facebook! Comece a usar agora o Vagalume no Facebook! Com o novo aplicativo você pode mandar música para seus amigos, compartilhar e criar playlists, comentar em playlists de outras pessoas e conhecer o gosto musical dos seus amigos! Não deixe de convidar os seus amigos para acessar suas playlists32! (VAGALUME, 2013). Consideramos o Facebook um dos principais canais comunicativos da atualidade, tendo em vista suas características de compartilhamento de informações e sua dinâmica de conexão entre os indivíduos e seu caráter agregador. Nele as pessoas compartilham links tanto dos sites mencionados anteriormente (youtube.com, soundcloud,com e vagalume.com.br) como muitos outros, além de possuir seu aplicativo para smartphones. Como exemplo de interação entre o Facebook e as demais redes, iremos trazer o uso do aplicativo Shazam. Dentre outras funcionalidades ele é capaz de identificar uma música que está sendo tocada em um ambiente somente pelo reconhecimento do registro sonoro. Em alguns segundos ele consegue identificar diversas informações: o álbum em que foi lançada a música, o respectivo ano, sua letra e o intérprete33. Tão importante quanto esse fato é a possibilidade de compartilhar essa música com toda a rede de amigos do Facebook do usuário. É possível formar até mesmo playlists das músicas “identificadas por você” como compartilhá-las no seu perfil do Facebook - o que garante que toda a sua rede de amigos poderá acompanhar suas preferências musicais, ou mesmo que tipo de música tem chegado até você. Ou seja, agora é possível ter a chance de ouvir um trecho da canção para conferência e já acessar um link para a compra da versão integral. É possível compartilhar todo o tipo de preferência por meio do perfil pessoal no Facebook, desde resenhas de livros a filmes e seriados; seja a partir de sites ou aplicativos para dispositivos móveis ou diretamente do computador. Tomando como exemplo os livros, basta se conectar ao site skoob.com.br e efetivar o link ao perfil !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 32 Link: http://www.vagalume.com.br/facebook/#ixzz2evPRmot9 (acessado em setembro, 2013). 33 A maior parte do acervo de reconhecimento refere-se a músicas internacionais, mais precisamente as com letras em inglês. ! 42! pessoal do Facebook, compartilhando com os amigos os livros lidos, uma resenha pessoal sobre eles, os livros que ainda estão sendo lidos, como também o planejamento dos próximos livros que serão lidos. Ou seja, o Facebook, além de um agregador de conteúdos a partir de postagens internas, conecta-se também as mais diversas websites e fontes de conteúdo, dando ao usuário da rede a chance de compartilhar praticamente tudo que quiser a seu respeito, até mesmo sua localização geográfica e para onde pretende ir - uma característica latente da web 2.0. Em vista disso, o Facebook tem sido considerado um grande canal comunicativo dado suas características de compartilhamento de informações, sua dinâmica de conexão entre os indivíduos e seu caráter sistêmico com diversos ambientes digitais. As ações que visam alcançar o público permitem uma interação dos usuários, gerando um engajamento não apenas no que diz respeito ao consumo, mas também ao comportamento do indivíduo, influenciando seu cotidiano, seja no modo de se vestir, ou em seus hábitos alimentares, e principalmente para essa pesquisa, influenciando até mesmo o comportamento de consumo de materiais musicais, podendo alterar até mesmo os padrões de escuta musical. Diante da dinâmica das redes sociais e seus desdobramentos, constrói-se uma possibilidade de subverter a condição mediadora das grandes mídias. A mediação passa a ser construída em parte pela coletividade, na medida em que os indivíduos desse coletivo não oferecem apenas os materiais musicais, mas também promovem uma discussão estética e de gosto, construindo uma consciência coletiva34, que não se encerra nos círculos referenciais das grandes mídias, mas, em parte, na busca individual do interessado em um material específico. No que se reporta aos conteúdos musicais, normalmente os textos expostos, ou as publicações como são tratadas nas redes sociais, possuem amplo foco na transmissão de saberes, sem referendar a origem científica deles. Segue abaixo a transcrição35 de uma publicação no Facebook: 10 BENEFÍCIOS DA MÚSICA 1 - A música provoca um forte impacto no cérebro e deve ser encorajada nas crianças desde cedo; !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 34 Conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria (DURKHEIM, 2012, p. 342). 35 https://www.facebook.com/bandauniaodosartistas/posts/453933558006255 ! 43! 2 - Tocar instrumentos fortalece e melhora a coordenação motora; 3 - O estudo musical amplia o raciocínio nas crianças na escola; 4 - Crianças que estudam música têm melhor comportamento em salas de aula e apresentam uma redução de problemas disciplinares; 5 - Pessoas de mais idade envolvidas em fazer música têm melhorias significativas na saúde; 6 - O fazer musical altera algumas regiões do cérebro para combater o mal de Alzheimer; 7 - O desenvolvimento musical faz reduzir os sentimentos de ansiedade, solidão e depressão; 8 - A música diminui o estresse e reforça o sistema imunológico; 9 - Estudos comprovam que aulas de piano ou teclado para idosos provocam aumento do hormônio do crescimento, colaborando no aumento do nível de energia, das funções sexuais e da massa muscular, evitando osteoporose e rugas; 10 - Em todas as idades, a música reforça o sentimento e convivência em grupo, proporcionando melhorias no relacionamento interpessoal. O que constatamos nesta publicação é que uma séria de "verdades" que incentivam as pessoas a aderirem a uma prática musical é introduzida na consciência coletiva. Contudo, nenhuma referência científica é fornecida, abrindo espaço para uma série de questionamentos e críticas. Por exemplo, o item 4 afirma que "crianças que estudam música têm melhor comportamento em salas de aula e apresentam uma redução de problemas disciplinares". Parece-nos que a música intrinsecamente carrega consigo um caráter disciplinador, mas por experiência própria, acredito que não seja uma verdade completa. Buscando uma referência científica para esse item, fiz uma busca no Google, e para surpresa, diversos sites simplesmente replicam esses mesmos "10 benefícios ! 44! da música". Encontramos essa realidade nas três primeiras páginas de resultados do Google. Blogs, sites de escola de música, bandas dentre outros, replicam esses "benefícios", sem nenhum critério científico aparente e, portanto, são consumidos pela população que acessa esses canais. Entretanto, estudos de GARDNER (1995) e de outros tantos pesquisadores voltados para esta temática tem introduzido inúmeras pesquisas científicas relatando os benefícios do estudo musical para crianças e jovens (GARDNER 1995 in TRAJANO, 2008). 2.2 WIKIPEDIA Outra ferramenta que está à disposição na Internet de forma gratuita, para consulta dos mais diversos assuntos é a Wikipédia. Trata-se de uma enciclopédia criada em forma colaborativa pelos usuários da Internet, traduzida em mais 276 idiomas36. Essa característica colaborativa tem privilegiado uma constante reconstrução de seu conteúdo, tanto pelos usuários como também pelos seus avaliadores e pelos editores de texto e também oferece características peculiares que serão a seguir apresentadas. Segue abaixo a definição encontrada no site do próprio projeto: Wikipédia é um projeto de enciclopédia multilíngue de licença livre, baseado na web, escrito de maneira colaborativa e que encontra-se atualmente sob administração da Fundação Wikimedia, uma organização sem fins lucrativos cuja missão é “empoderar e engajar pessoas pelo mundo para coletar e desenvolver conteúdo educacional sob uma licença livre ou no domínio público, e para disseminá-lo efetivamente e globalmente.” Integrando um dos vários projetos mantidos pela Wikimedia, os mais de 30 milhões de artigos (805 778 em português em 18 de dezembro de 2013) hoje encontrados na Wikipédia foram escritos de forma conjunta por diversos voluntários ao redor do mundo; e quase todos os verbetes presentes no site podem igualmente ser editados por qualquer pessoa com acesso à internet e ao sítio eletrônico http://www.wikipedia.org (WIKIPÉDIA, 2013). Fica evidente nesta citação que qualquer pessoa com acesso à internet pode editar o conteúdo de um verbete nesta ferramenta. O que de certa forma, enfraquece a confiabilidade da enciclopédia. Larry Sanger, que participou da criação da Wikipedia afirma que “seu conteúdo não é muito confiável”37 (FOLHA, 2007). !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 36https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipédia:Wikipédia_em_outras_línguas 37http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u21947.shtml ! 45! [...] Temo que Johnson não sabe ainda dos problemas que a Wikipédia possui, começando pela dificuldade da sua gestão, dos conteúdos muitas vezes não confiáveis e o envolvimento em uma série de escândalos [...]. A Wikipédia ainda é muito útil e foi um fenômeno interessante, mas chegamos à conclusão de que não é uma fonte totalmente confiável (FOLHA, 2007, s/p). Quando Larry Sanger (FOLHA, 2007) refere-se a escândalos, é possível encontrar informações dentro da própria WIKIPÉDIA, onde são citados os casos Seigenthaler38 e Essjay39 que evidenciam lacunas na supervisão dos conteúdos publicados. No Brasil, também observamos casos de insatisfação, como aponta o jornalista Carlos Alberto Sadenberg em sua coluna a CBN (CBN 2014)40 onde comenta a fragilidade da informação encontrada na enciclopédia, tomando como exemplo, eventos políticos e seu caso pessoal de informações difamatórias com alterações efetuadas a partir de computadores da base do governo federal (CBN, 2014, EXAME.COM, 201441): […] e acho que tem que ter uma outra forma de controle, porque esse da Wikipédia está fracassando. Você veja: se eu quiser entrar lá e escrever no meu perfil que eu sou o maior jornalista de todos os tempos, pode. (Risos) Se eu quiser entrar no verbete ‘Teoria da Relatividade’, mexer lá e dizer que Einstein estava errado, também pode. Pode até ser que eles troquem, mas por alguns dias fica lá, né? Então a governança da Wikipédia está errada. Está muito fraca, porque senão você vai ficar obrigado a todo dia ir lá verificar o seu perfil e tal. Então… acho que isso aí é um efeito secundário dessa história que é… ela fica um pouco desmoralizada, a Wikipédia… porque se mostrou que há uma vulnerabilidade muito grande. Ok, você vai atrás depois, mas já está feito, né? (SADENBERG, CBN 2014). Contudo, a Wikipédia vem aprimorando sua gestão sobre conteúdos, oferecendo maior controle sobre o que é publicado. Ela ainda não pode ser utilizada como única fonte de conteúdo, visto que, por mais que existam curadores que determinam o que será publicado, qualquer pessoa pode inserir ou editar um verbete. Ainda assim, pode ser uma possibilidade de primeiro contato com um tema desconhecido. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 38 https://pt.wikipedia.org/wiki/Controvérsia_Seigenthaler 39 https://pt.wikipedia.org/wiki/Controvérsia_Essjay 40 http://cbn.globoradio.globo.com/comentaristas/carlos-alberto-sardenberg/2014/08/11/caso-que- aconteceu-comigo-e-com-a-miriam-e-gravissimo.htm 41 http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/computadores-do-governo-alteraram-wikipedia-diz- folha ! 46! Para testar essa facilidade, decidimos editar um verbete na enciclopédia Wikipedia. Procuramos o termo música o qual foi encontrado no seguinte link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Música. Após isso, navegamos pelo conteúdo do verbete até chegar em sua definição – a qual queríamos editar. Do lado do título existe a palavra “editar”, que quando clicada apresenta a seguinte janela pop-up sobre o conteúdo a ser editado. Imagem 01. Print Screen de navegação. WIKIPEDIA42 Ao clicar no botão continuar, o usuário recebe à direita do navegador, algumas orientações sobre os cuidados a serem tomados antes da edição, tais como, não usar textos protegidos, usar linguagem formal dentre outras orientações que possuem links para mais detalhes, caso o usuário fique em dúvida de como proceder com a edição. O parágrafo que decidimos editar como teste começa com “Definir música não é uma tarefa fácil...”. Para a edição optamos por acrescentar apenas a locução !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 42 Transcrição da imagem: "Está e a nova maneira de editar, mais fácil. Ele ainda está em fase Beta, o que significa que pode encontrar partes da página em que não poderá editar, ou encontrar problemas que precisam ser corrigidos. Nós encorajamos que reveja as suas alterações, e são bem- vindos relatórios sobre problemas que possam vir a surgir durante o uso do editor visual (clique no botão "ajuda" para enviar relatório). Ainda pode utilizar o editor de código-fonte ao clicar no botão "Editar código-fonte"- as alterações que não forma guardadas serão perdidas.". ! 47! adverbial de afirmação “sem dúvida” no início do texto. Assim o texto passaria a ser “Sem dúvida, definir música não é uma tarefa fácil...”. Após inserir nossa edição, clicamos no botão verde à esquerda do navegador (que indica gravar página), para finalizar nossa edição. Após uma série de telas de confirmação e lembrete, como por exemplo, lembrando o editor que não use texto protegidos por direitos autorais, o processo de edição é finalizado Caso não tenha havido mais alterações no verbete demonstrado, é possível checar as alterações feitas online descritas nesse texto43. De fato, apenas fizemos uma alteração que não necessariamente muda o conteúdo do texto, porém essa alteração poderia ter sido substancial – o que acontece de forma semelhante com a criação de um novo verbete. Não é necessário apresentar nenhum diploma, certificado, ou mesmo bibliografia que valide qualquer ação na base de dados. Basta apenas ter os meios tecnológicos para isso, ou seja, computador e internet. De qualquer forma, fica evidente, inclusive dentro do próprio site da WIKIPEDIA, que ela não deve ser a primeira fonte de conteúdo. Nenhum artigo ou o seu conteúdo é propriedade do seu criador ou de qualquer outro editor, ou é avaliado por qualquer autoridade reconhecida; ao contrário, os conteúdos são acordados por consenso. Por padrão, qualquer edição em um artigo se torna disponível imediatamente, antes de qualquer revisão. Isto significa que um artigo pode conter erros, contribuições equivocadas, defesa de algo, ou mesmo absurdos evidentes, até que outro editor corrija o problema (WIKIPEDIA)44. Três fatores ficam evidentes na proposta da Wikipedia: 1) Ela é construída com a ajuda de todos que se propõem a oferecer conteúdo; fato que, em certa medida, corrobora a perspectiva de LÉVY (2003) sobre a construção da Inteligência Coletiva. 2) Ainda que esteja aberta para as contribuições, ela está sujeita a mediações – o que vai na contramão de alguns autores, que preveem um uso auto regulatório do ciberespaço, por acreditar que o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 43 Visitamos o website no final de 2015, e o texto já havia sido editado novamente. 44 http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia ! 48! indivíduo deva possuir ferramentas que o auxiliem a julgar o conteúdo que se encontra disponível (SIEMENS, 2004). 3) Mesmo que seja intitulada como uma enciclopédia livre e lance mão de mediadores em momentos estratégicos, ela não pode ser considerada uma referência científica, devido a fragilidade de seu gerenciamento – o que em linhas gerais, demonstra a debilidade dos conteúdos encontrados na internet, ainda que ela seja uma das maiores enciclopédias gratuitas online. 2.3 YOUTUBE O website Youtube45 também se enquadra no segmento redes sociais. Materiais midiáticos mostram que o Youtube se posiciona como o segundo maior portal de buscas da internet, abaixo apenas do Google46. Seu grande diferencial reside no compartilhamento de vídeos que podem ser produzidos profissionalmente, ou amadoristicamente, permitindo que qualquer indivíduo que tenha condições técnicas mínimas possa oferecer conteúdo. Apesar dessa rede não ser dedicada exclusivamente a distribuição de materiais musicais, o que testemunhamos são os altos índices de acesso que são informados pelo número de visualizações, que, em muitos casos, atingem milhões de visualizações, como exemplo da 5ª sinfonia de Beethoven, da qual uma das interpretações já ultrapassou mais de 11 milhões de visualizações47. Mesmo vídeos amadores de execução de conteúdos musicais apresentam números expressivos de audiência48 - com mais de 5 milhões de visualizações. Essa rede social se configura como um ambiente bastante democrático, onde as pessoas têm a chance de publicar seus próprios materiais, sejam eles profissionais ou não, e receber um feedback quanto a sua performance. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 45 https://www.youtube.com/ 46 http://img1.olhardigital.uol.com.br/noticia/youtube-e-o-2º-maior-buscador-da-web/6617 47 https://www.youtube.com/watch?v=6z4KK7RWjmk 48 https://www.youtube.com/watch?v=a_Z1uKpmiSo ! 49! Uma problemática levantada por Keen (2010), referendando esse tipo de ambiente, é que qualquer indivíduo pode produzir e distribuir material sobre qualquer temática, e em certa medida equiparar-se a especialistas que se dedicam profissionalmente a pesquisa ou a performance. O autor caracteriza isso como um problema, visto que, antes das dinâmicas tecnológicas, o conhecimento era validado por uma comissão, e somente após passar por revisões, era apresentada ao público. O que vai na contramão da perspectiva atual, onde uma pessoa pode gravar um conteúdo em vídeo no celular, e publicá-lo de imediato no Youtube. Os autores Keen (2007, 2015) e Siemens (2004) têm opiniões diversas quanto a esse fato. Keen desconsidera a possibilidade de avaliação dos conteúdos ser feita pelo internauta. Siemens, por sua vez, defende que o internauta deve desenvolver recursos próprios para a avaliação dos conteúdos. De qualquer maneira, o Youtube se configura como um espaço virtual, onde as pessoas têm a oportunidade de produzir e distribuir seus materiais, além de consumir os que estão disponíveis na rede. 2.4 OUTROS CANAIS É possível encontrar na internet diversos canais de acesso - gratuitos e pagos - dos mais diversos materiais musicais, desde repositórios de arquivos de áudio seja etnográfico ou de obras musicais, versões digitais de livros, partituras e transcrições, processos colaborativos de composição, entre outros. Um exemplo interessante de processo coletivo para produção de conteúdo musical é o site cifraclub.com.br – que encontra similaridades com a Wikipedia. Como o nome sugere, trata-se de um ambiente no qual o internauta tem acesso às cifras de música. Seu diferencial é que o conteúdo é proposto pelos internautas - tanto as cifras de músicas (as quais podem conter diversos versões) como as possíveis correções daquelas já existentes. Trata-se de um ambiente no qual o internauta deve ter recursos próprios para identificar qual material é correto – fato que encontra amparo na perspectiva de Siemens (2004). Um fato curioso é que o website começou a produzir conteúdo em vídeos onde profissionais executam as cifras, além de ensinar passo-a-passo como tocar ! 50! da maneira correta uma determinada canção. Esse tipo de ação demonstra um cuidado em apresentar o que consideram a forma correta de executar uma canção, o que em certa medida, oferece uma mediação entre o conteúdo disponível e aquilo que os editores acreditam ser o correto – fato que vai de encontro a teoria de Keen quanto a necessidade de mediadores de conteúdos. Outros exemplos relevantes de ferramentas são os aplicativos Waze49 e Whatsapp50. O Waze é um aplicativo de coordenadas GPS51 que auxilia os motoristas a encontrarem o melhor roteiro para o seu destino. Contudo, o grande diferencial desse aplicativo é o seu caráter colaborativo