UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Instituto de Geociências e Ciências Exatas Campus de Rio Claro FERNANDA VIEIRA XAVIER MÉTODOS GEOELÉTRICOS APLICADOS AO DIAGNÓSTICO AMBIENTAL SUBSUPERFICIAL DO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE RIO CLARO, SP Rio Claro, SP 2015 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Instituto de Geociências e Ciências Exatas Campus de Rio Claro FERNANDA VIEIRA XAVIER MÉTODOS GEOELÉTRICOS APLICADOS AO DIAGNÓSTICO AMBIENTAL SUBSUPERFICIAL DO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE RIO CLARO, SP Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas do Campus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Geociências e Meio Ambiente. Orientador: Prof. Dr. Walter Malagutti Filho Rio Claro, SP 2015 ii FERNANDA VIEIRA XAVIER MÉTODOS GEOELÉTRICOS APLICADOS AO DIAGNÓSTICO AMBIENTAL SUBSUPERFICIAL DO CEMITÉRIO MUNICIPAL DE RIO CLARO, SP Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas do Campus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Geociências e Meio Ambiente. Comissão Examinadora __________________________________ Prof. Dr. Walter Malagutti Filho Orientador IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) ________________________________ Prof. Dr.Antônio Celso de Oliveira Braga IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) ______________________________ Prof. Dr.César Augusto Moreira IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) ______________________________ Prof. Dr. José Domingos Faraco Gallas IG/USP/São Paulo (SP) ______________________________ Prof. Dr. Robson Willians da Costa Silva CENA/USP/Piracicaba (SP) Resultado: Aprovado Rio Claro, 13 de março de 2015. iii À minha família, minha maior incentivadora, e aos amigos amados, dedico. iv Agradecimentos Nietzsche, em Crepúsculo dos ídolos, já ressaltava que nossas verdadeiras experiências não são ditas, não são tagarelas. Para tudo aquilo que temos palavras, é porque já fomos além. Que as reais experiências, vivências, sentimentos, moram além das palavras.... Portanto, minhas simples palavras de agradecimento aqui descritas, não conseguem expressar verdadeiramente minha consideração por tais pessoas. Começo, agradecendo às forças superiores por me concederem a saúde e a determinação necessárias para que eu pudesse realizar este trabalho. Agradeço à minha família, base de sustentação de pilares nos quais eu me espelho; e à Samuel, companheiro de longa viagem, por estar ao meu lado, sempre. Ao meu orientador prof. Dr. Walter Malagutti pela sábia orientação, apoio, incentivo e por acreditar que eu seria capaz de realizar este trabalho; Aos professores César, Braga, Gallas e Robson, que contribuírem para enriquecimento da pesquisa nas bancas de qualificação e defesa; Ao professor César, pela disponibilidade em ajudar com as coletas de dados com o equipamento EM34 e com o processamento de dados; Ao professor Braga pela contribuição na realização do arranjo Gradiente e pelas valiosas sugestões acerca do processamento dos dados; Ao técnico Francisco Manoel Garcia Barrero, o Paco, por sua amizade e inestimável ajuda nas coletas de dados no cemitério; Á Rosângela Vacello pela dedicação, amizade, apoio, e pela prestatividade sempre que precisamos; Á Maria Emília Auler, pela ajuda nas coletas de campo e pela concessão dos dados no arranjo Gradiente; Aos colegas da Pós-Graduação e a todos aqueles que me ajudaram nas idas ao cemitério para a realização dos ensaios geofísicos, em especial: José v Ricardo, Maria Emília, Syngra, Lenon, Adriano, Henrique, Felipe, Roberto, e a todos não mencionados aqui, e que não são menos importantes; Aos queridos amigos da Pós-Graduação, companheiros de “Sujinhos”, de boas risadas, mas também de momentos de estudo, conselhos e dificuldades. Obrigada pela troca de experiências e aprendizados. É bom saber que temos com quem contar muitas vezes! Às colegas e amigas da república pela vivência, amizade, diálogos e trocas de saberes; Ao Restaurante Universitário da UNESP, pelas ótimas refeições a preços módicos; À cidade de Rio Claro, e bairro Bela Vista pela acolhida; À Pós-Graduação em Geociências e Meio Ambiente; À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES pela bolsa concedida; À Prefeitura Municipal de Rio Claro, pela liberação da pesquisa no Cemitério São João Batista; À administração, e aos funcionários do Cemitério, pela prestatividade; À empresa Geocia, pela concessão dos dados analíticos; À UNIPAMPA pelo empréstimo do equipamento EM34; Ao Departamento de Geologia/Geofísica Aplicada pela concessão do resistivímetro Terrameter; A todos aqueles de contribuíram de alguma forma para a realização deste trabalho, e que, mesmo não mencionados aqui, desempenharam com certeza, papel importante, e assim, deixo meus sinceros agradecimentos. vi Os conhecimentos nos dão meios para viver. A sabedoria dos dá razões para viver. Sábias são as pessoas que sabem viver. Tolo é aquele que, tendo defendido tese sobre barcos e mapas, não sonha com horizontes, não planeja viagens, não imagina portos. Anda sempre em terra firme por medo do naufrágio. Rubem Alves O nome daquele mar eu não sei. Nunca fui lá. Não o naveguei. Não o conheço. Por isso, nada tenho a dizer. É mar desconhecido, por navegar. Mas, com o que sei sobre outros mares, vou lhe ensinar a se aventurar por mares desconhecidos: essa é a aventura suprema. Para isso nascemos. É isso que deve ser uma pesquisa e uma tese: uma aventura por um mar que ninguém mais conhece. Roland Barthes vii RESUMO Necrochorume é um efluente gerado a partir da decomposição de corpos. Em áreas de cemitério, a principal causa de poluição subsuperficial é a sua percolação, que altera significativamente o solo impedindo-o de realizar suas funções naturais. Particularmente no Brasil, pela falta de planejamento consequente do histórico cultural, os cemitérios se localizam totalmente integrados à malha urbana, representando um problema de saúde pública. O necrochorume pode causar contaminação dos solos e águas subterrâneas, devido à presença de elementos, tais como compostos nitrogenados, metais pesados, vírus e bactérias, com riscos inerentes à saúde humana. Na bibliografia, essa presença de contaminantes no ambiente geológico muitas vezes resultou em baixos valores de resistividade quando comparados a uma área que não impactada. A presente pesquisa objetivou investigar qualitativamente o meio físico subsuperficial do cemitério, para reconhecer eventuais alterações, correlacionáveis às presenças de contaminantes (necrochorume), através da inter- relação entre as respostas geofísicas e os resultados analíticos dos poços de monitoramento e assim, subsidiar pressupostos indicativos de anomalias geofísicas no cemitério municipal de Rio Claro, São Paulo. Portanto, o presente trabalho apresenta e discute os resultados de aplicação de Imageamento Eletromagnético (usando Geonics EM34) e método de resistividade elétrica, utilizando as técnicas de Sondagem Elétrica Vertical, (Schlumberger) e Imageamento Elétrico 2D/dipolo – dipolo e Gradiente. Foram definidos dois estratos geoelétricos principais, referentes à geologia local – Formação Rio Claro e Formação Corumbataí e os resultados dos ensaios permitiram a definição de três classes principais de faixas de resistividades que deram margem às interpretações sobre possíveis áreas contaminadas. São elas: baixos valores de resistividade como áreas potencialmente impactadas; valores intermediários de resistividade, como áreas de transição, com possível influência do contaminante; e altos valores de resistividade, como áreas sem alterações físicas no meio, representados pelas condições geológicas naturais. Tais interpretações foram discutidas e relacionadas juntamente com os resultados de condutividade aparente e com os resultados analíticos de solos e água. A definição do sentido de fluxo das águas subterrâneas através das SEVs demonstrou a migração de água subterrânea concomitante com o possível contaminante (necrochorume), no sentido NE - SW. Os resultados geofísicos mostraram boa correlação com a evolução espacial e temporal da ocupação do cemitério ao longo de sua história, uma vez que os altos valores de resistividades foram associados às regiões de viii ocupação mais recentes no cemitério, e os baixos valores, associados às regiões ocupadas inicialmente, datadas da construção do cemitério, no século XIX, portanto, mais antigas. Palavras-chave: Cemitério; Necrochorume; Geofísica, Eletrorresistividade; Eletromagnético; ix ABSTRACT Cemetery slurry is an effluent generated from the decomposition of organic bodies. In cemetery areas, the major cause of subsurface pollution is its percolation, which significantly alters the soil features limiting its functional performance. Particularly in Brazil, due to a historical lack of consequent planning, cemeteries are mostly located fully integrated into the urban fabric, representing a public health problem. The slurry can cause contamination of soil and groundwater due to the presence of nitrogen compounds, heavy metals, viruses and bacteria, and others risks to human health. In the literature the presence of contaminants in the geological environment often resulted in low resistivity values when compared to not affected areas. This research aimed to qualitatively investigate the subsurface of the cemetery in Rio Claro, São Paulo, to identify any changes, correlated with contaminants by inter-relationship between the geophysical responses and analytical results on monitoring wells in order to subsidize indicative assumptions of geophysical anomalies. This paper presents and discusses the results of application of Electromagnetic profiling (using Geonics EM34) and electrical resistivity method, using the Vertical Electrical Sounding techniques (Schlumberger) and 2D Electrical profiling / dipole – dipole and Gradiente. Two geoelectric main layers were defined, related to the local geology - Rio Claro Formation and Corumbataí Formation. Test results allowed the definition of three major classes of resistivity ranges giving rise to interpretations of possible contaminated areas. They are: (i) low resistivity values as potentially impacted areas; (ii) intermediate resistivity values, as transition areas, with possible influence of the contaminant; (iii) and high resistivity values, such as areas without physical changes in the environment represented by natural geological conditions. Such interpretations are discussed and related with the results of apparent conductivity and analytical results of soil and water. The definition of the direction of groundwater flow through the SEVs demonstrated the migration concomitant groundwater with possible contaminant in a NE - SW. The geophysical results showed good correlation with the spatial and temporal evolution of the occupation of the cemetery throughout its history, since the high resistivity values were associated with the most recent occupation of regions in the cemetery. The low values were associated with the former occupied regions, dated on the construction of the cemetery in the nineteenth century. Key Words: Cemetery; Necrochorume; Geophysics; Electrical Resistivity; Electromagnetic. x LISTA DE FOTOS Foto 1.1: Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. ................................................................................... 8 Foto 1.2: Idem. ........................................................................................................................................ 8 Foto 3.1: Extravasamento de necrochorume no cemitério Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo. Fonte: (MATOS &PACHECO, 2000) ............................................................................................................. 33 Foto 3.2: Extravasamento de necrochorume no túmulo no Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. Fonte: acervo pessoal. ........................................................................................................................... 34 Foto 3.3: Extravasamento de necrochorume no túmulo no Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. Fonte: acervo pessoal. ........................................................................................................................... 34 Foto 3.4: Extravasamento de necrochorume no túmulo no Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. Fonte: acervo pessoal. Estes estágios de extravasamento ocorrem aproximadamente em 20 a 30 dias após o sepultamento, de acordo com as datas nos túmulos, e das condições climáticas do município. 35 Foto 5.1: Adaptação de eletrodos para a utilização no piso de “Pedra Portuguesa” ............................. 62 Foto 5.2: Idem. ...................................................................................................................................... 62 Fotos 5.3: Resistivímetro TERRAMETER modelo SAS 4000 da ABEM Instruments. ....................... 63 Foto 5.4: Sistema de posicionamento Global: Antena DGPS Trimble; receptor Navigation Pathfinder Pro XR 12 e coletor Recon respectivamente. ....................................................................................... 65 Fotos 5.5: Equipamento EM-34 composto por duas bobinas (transmissora e receptora). Um módulo de controlo e emissão de corrente elétrica e um módulo de leitura. .......................................................... 71 Foto 5.6: Furo de sondagem sendo executado na área externa ao Cemitério Municipal. ..................... 74 Foto 5.7: Furo de sondagem no interior do cemitério. .......................................................................... 75 Foto 5.8: Procedimento de coleta de amostras de solos. ....................................................................... 75 Foto 6.1: Túmulos antigos do século XIX localizados na porção mais antiga do cemitério............... 105 Foto 6.2: Primeiros túmulos construídos próximos à entrada principal. ............................................. 105 Foto 6.3: Túmulos do início da construção do cemitério. ................................................................... 106 Foto 6.4: Em um mesmo túmulo, foram sepultadas dezenas de pessoas. Situação recorrente no cemitério de Rio Claro. ....................................................................................................................... 106 Foto 6.5: Avenida central. ................................................................................................................... 123 Foto 6.6: Avenida principal central do cemitério. ............................................................................... 123 Foto 6.7: Capela do cemitério ............................................................................................................. 125 Foto 6.8: visão lateral da capela. ......................................................................................................... 126 Foto 6.9: Túmulos menores na porção posterior do cemitério. ........................................................... 126 Foto 6.10: Túmulos localizados na região posterior do cemitério, atrás da capela, corroborando com hipóteses do histórico de ocupação. .................................................................................................... 127 Foto 6.11: Árvores de grande porte e raízes expostas. ........................................................................ 127 Foto 6.12: Idem ................................................................................................................................... 127 Foto 6.13: Torneiras ao longo da avenida principal. ........................................................................... 128 Foto 6.14: Idem ................................................................................................................................... 128 Foto 6.15: Idem ................................................................................................................................... 128 Fotos 6.16: muro com cerca elétrica e postes de iluminação do lado de fora, paralelos ao muro do cemitério. ............................................................................................................................................. 129 Foto 6.17: Cemitério de indigente ....................................................................................................... 129 Foto 6.18: Torneiras localizadas ao longo dos muros limítrofes do cemitério.................................... 130 Foto 6.19: Idem ................................................................................................................................... 130 xi Foto 6.20: Sequência de fotos de estruturas metálicas ocorrentes no cemitério: vasos, enfeites, adereços dos túmulos. ......................................................................................................................... 131 Foto 6.21: Estátuas de bronze e cobre com mais de um metro de altura. ........................................... 131 Foto 6.22: Idem ................................................................................................................................... 131 Foto 6.23: Estruturas diversas, artefatos metálicos, decorativos dentre outros. .................................. 131 Foto 6.24: Cerca de arame, pequenas construções. ............................................................................. 131 Foto 6.25: Estruturas metálicas, muito comuns no cemitério. ............................................................ 132 Foto 6.26: Portão lateral do cemitério. ................................................................................................ 134 Foto 6.27: Banheiro (branco) e cemitério de indigentes (verde), próximos ao portão lateral. ............ 134 LISTA DE FIGURAS Figura 2-1: Inserção regional do município de Rio Claro, SP. ............................................................. 10 Figura 2-2: Médias mensais de chuva (em mm) - período de 2000 a 2011. Fonte: CEAPLA, (2011). 11 Figura 2-3: Mapa Geológico regional do município de Rio Claro. Fonte dados: Serviço Geológico do Brasil – CPRM. ..................................................................................................................................... 13 Figura 2-4: Contexto geológico local do cemitério. Fonte dados: Serviço Geológico do Brasil – CPRM. ................................................................................................................................................... 14 Figura 2-5: Mapa de domínios hidrogeológicos. Fonte: adaptado de Bonfim (2010). ......................... 17 Figura 2-6: Localização do Cemitério São João Batista - Rio Claro, SP. Capacidade esgotada, porém ativo há 138 anos. .................................................................................................................................. 18 Figura 2-7: Raio de 200 m a partir dos limites do cemitério com áreas contaminadas cadastradas na CETESB e os poços de captação cadastrados no DAEE - Departamento Autônomo de Água e Esgoto podem ser visualizados.......................................................................................................................... 19 Figura 4-1: Organograma referente aos métodos, técnicas e arranjos utilizados no presente trabalho. 42 Figura 4-2: diferentes tipos de condutividade (ORELLANA, 1972). ................................................... 43 Figura 4-3: Esquema de um condutor cilíndrico homogêneo. .............................................................. 45 Figura 4-4: Esquema de disposição de eletrodos para medições no campo por meio do método da eletrorresistividade. Obs: a configuração dos eletrodos empregados pode ser diferente conforme o arranjo objetivado. ................................................................................................................................. 46 Figura 4-5: Esquema simplificado de Sondagem Elétrica Vertical – a profundidade de investigação aumenta conforme a distância AB. Onde I é a intensidade da corrente, e ΔV é a diferença de potencial medida em Volts, formando dessa forma um circuito elétrico em meio geológico. ............................. 49 Figura 4-6: Plotagem dos dados de SEV. .............................................................................................. 50 Figura 4-7: Operação de embreagem em curvas de SEV. ..................................................................... 51 Figura 4-8: Esquema do Arranjo dipolo - dipolo na técnica do Imageamento Elétrico. ....................... 53 Figura 4-9: Plotagem dos dados de campo em forma de pseudo – seção. ............................................ 53 Figura 4-10: Esquema do arranjo Gradiente. ....................................................................................... 55 Figura 4-11: Propagação da onda eletromagnética. Fonte: adaptado de Reynolds (1997). .................. 58 Figura 4-12: Princípio dos métodos eletromagnéticos. Fonte: Gallas (2007). ...................................... 60 Figura 4-13: Combinações de utilização dos sistemas de bobinas. A seta representa a orientação do campo magnético (Fonte: BORGES, 2007). ......................................................................................... 61 Figura 5-1: Exemplos de morfologia de curvas de resistividade. ......................................................... 64 Figura 5-2: Esquema de localização das grades do IE – Gradiente. ..................................................... 69 Figura 5-3: Área investigada pelo arranjo gradiente no Cemitério São João Batista, Rio Claro, SP. ... 70 xii Figura 5-4: Linhas de EM nas ruas e avenidas do cemitério. ................................................................ 72 Figura 5-5: Mapa de localização de alocação dos poços de monitoramento e sondagens. ................... 73 Figura 6-1: Mapa de localização das SEVs no Cemitério São João Batista, Rio Claro, SP. ................ 88 Figura 6-2: Exemplo de curva de campo típica de ensaios geofísicos em áreas de rochas sedimentares para as Formações Rio Claro e Corumbataí, do tipo “KQ”. ................................................................. 89 Figura 6-3: Variação da resistividade em função da distribuição da água no solo ............................... 90 Figura 6-4: modelo geoelétrico interpretado para o cemitério. ............................................................. 90 Figura 6-5: SPM2 (Av.2 com rua 6 - próxima da SEV3). Os pontos nas figuras representam os locais amostrados. Mudança litológica ocorreu em 12,70. .............................................................................. 95 Figura 6-6: SPM3 (Av.3 com rua7 - próxima da SEV15). Os pontos nas figuras representam os locais amostrados. Mudança litológica ocorreu em 14,90 metros. .................................................................. 95 Figura 6-7: SEV3: curva de campo interpretada. .................................................................................. 96 Figura 6-8: SEV15: curva de campo interpretada. ................................................................................ 97 Figura 6-9: SPM4 - localizada na avenida 4 com rua 10. Próxima à SEV2. ........................................ 98 Figura 6-10: Curva de campo e modelo geoelétrico da SEV2. ............................................................. 99 Figura 6-11: Mapa potenciométrico da área de estudo. ...................................................................... 101 Figura 6-12: Localização das linhas de IE nas avenidas do cemitério São João Batista, Rio Claro, SP. Arranjo dipolo - dipolo. ....................................................................................................................... 103 Figura 6-13: Seção de IE, localizada fora da área do cemitério. (Fonte: Camargo, Isadora Vilela, 2007). .................................................................................................................................................. 105 Figura 6-14: Seção geoelétrica IE1. .................................................................................................... 108 Figura 6-15: Seção geoelétrica IE2, com presença do poço SPM02. .................................................. 108 Figura 6-16: Seção geoelétrica IE4, com a presença do SPM04. ....................................................... 109 Figura 6-17: Seção geoelétrica IE5, com presença do poço SPM05. .................................................. 110 Figura 6-18: Seção geoelétrica IE7 ..................................................................................................... 110 Figura 6-19: Seção geoelétrica IEr2. ................................................................................................... 111 Figura 6-20: Seção geoelétrica IEr4. ................................................................................................... 111 Figura 6-21: Seção geoelétrica IEr6, com presença do poço SPM02. ................................................ 112 Figura 6-22: Seção geoelétrica IEr8. ................................................................................................... 112 Figura 6-23: Seção geoelétrica IEr10. ................................................................................................. 113 Figura 6-24: Seção geoelétrica IEr12. ................................................................................................. 113 Figura 6-25: Seção geoelétrica IEr14. ................................................................................................. 114 Figura 6-26: Seção geoelétrica IEr15. ................................................................................................. 114 Figura 6-27: Mapa do nível 1. Profundidade aproximada: 2,5 m. ...................................................... 115 Figura 6-28: Mapa do nível 2. Profundidade aproximada: 5 m. ......................................................... 116 Figura 6-29: Mapa do nível 3. Profundidade aproximada: 7,5 m. ...................................................... 117 Figura 6-30: Mapa do nível 4. Profundidade aproximada: 10 m. ....................................................... 117 Figura 6-31: Mapa do nível 5. Profundidade aproximada: 12,5 m. .................................................... 118 Figura 6-32: Mapa do nível 6. Profundidade aproximada: 15 m. ....................................................... 119 Figura 6-33: Mapa Pseudo 3D ou Multinível até o sexto nível geoelétrico. ....................................... 120 Figura 6-34: Arranjo Gradiente - mapa resistividade aparente - Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. ............................................................................................................................................................. 122 Figura 6-35: Mapa de isocondutividade aparente, profundidade máxima de 7,5 metros. ................... 125 Figura 6-36: Mapa de isocondutividade aparente, profundidade máxima de 15 metros. .................... 133 xiii LISTA DE TABELAS Tabela 6.1: Parâmetros Analíticos de solos, com destaque para valores acima do LQ. ........................ 83 Tabela 6.2: Parâmetros Analíticos de solos........................................................................................... 83 Tabela 6.3: Parâmetros analíticos de água subterrânea ......................................................................... 86 Tabela 6.4: Localização Geográfica e aberturas máximas das SEVs no cemitério São João Batista. .. 87 Tabela 6.5: Modelo geoelétrico de curva de campo interpretada .......................................................... 96 Tabela 6.6: Modelo geoelétrico de curva de campo interpretada. ......................................................... 97 Tabela 6.7: Modelo geoelétrico de curva de campo interpretada. ......................................................... 99 Tabela 6.8: Identificação da das cotas dos níveis d’água e potenciometria da área do cemitério Municipal de Rio Claro, SP................................................................................................................. 100 LISTA DE QUADROS Quadro 2.1: Temperaturas médias máximas e mínimas e precipitação média para Rio claro. Fonte: Cepagri, (2011). .................................................................................................................................... 11 Quadro 3.1: Composição aproximada do corpo de um homem adulto de 70 kg (Fonte: DENT e KNIGHT, 1998). ................................................................................................................................... 32 Quadro 5.1: Profundidade de exploração do EM 34-3, com variação no espaçamento entre as bobinas (adaptado de McNeill, 1980). ................................................................................................................ 71 Quadro 5.2: Localização espacial das sondagens e poços de monitoramento instalados...................... 74 Quadro 5.3: Parâmetros analisados em solo. ......................................................................................... 76 Quadro 5.4: Principais características construtivas dos poços de monitoramento instalados. .............. 78 Quadro 5.5: Parâmetros analisados em água subterrânea. .................................................................... 79 Quadro 6.1: Resistividades calculadas por nível geoelétrico ................................................................ 92 LISTA DE EQUAÇÕES (Equação 4.1) ........................................................................................................................................ 45 (Equação 4.2) ........................................................................................................................................ 45 (Equação 4.3) ........................................................................................................................................ 47 (Equação 4.4) ........................................................................................................................................ 48 (Equação 4.5) ........................................................................................................................................ 48 (Equação 4.6) ........................................................................................................................................ 48 (Equação 4.7) ........................................................................................................................................ 48 (Equação 4.8) ........................................................................................................................................ 48 (Equação 4.9) ........................................................................................................................................ 50 (Equação 4.10) ...................................................................................................................................... 51 (Equação 4.11) ...................................................................................................................................... 54 (Equação 4.12) ...................................................................................................................................... 55 (Equação 4.13) ...................................................................................................................................... 55 (Equação 4.14) ...................................................................................................................................... 56 (Equação 4.15) ...................................................................................................................................... 57 (Equação 4.16) ...................................................................................................................................... 59 (Equação 4.17) ...................................................................................................................................... 60 file:///C:/Users/Fernanda%20Pc/Dropbox/TESE_2013/completo_tese.docx%23_Toc418418642 xiv SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO __________________________________________________________ 1 1.1. Contextualização __________________________________________________________ 1 1.2. Problemática e Justificativa _________________________________________________ 4 1.3. Premissas ________________________________________________________________ 7 1.4. Objetivos ________________________________________________________________ 9 2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO ____________________________________ 10 2.1. Localização e aspectos gerais da área de estudo ________________________________ 10 2.2. Contexto Pedológico ______________________________________________________ 12 2.3. Contexto Geológico _______________________________________________________ 12 2.3.1. Caracterização Hidrogeológica ___________________________________________________ 16 2.4. Inserção Urbana do Cemitério São João Batista_________________________________ 18 2.4.1 Poços de Captação e Áreas Contaminadas ____________________________________________ 19 3. REVISÃO HISTÓRICA ____________________________________________________ 20 3.1. Origem dos Cemitérios e Sepultamentos ______________________________________ 20 3.2. Contexto Histórico urbano de rio claro _______________________________________ 22 3.2.1. Serviços de Água e Esgoto da Cidade ______________________________________________ 24 3.2.2. A Remoção do Cemitério Municipal _______________________________________________ 24 3.2.3. Cemitério São João Batista ______________________________________________________ 26 3.2.4. Cemitério dos “Bexiguentos ou Leprosos” __________________________________________ 27 3.3. impactos potenciais causados por corpos em decomposição ______________________ 27 3.4. Processos Transformativos de Cadáveres _____________________________________ 31 3.4.1 Necrochorume __________________________________________________________________ 31 3.4.2. Processo de decomposição de cadáveres __________________________________________ 35 3.5. Métodos Geofísicos Aplicados a Estudos Ambientais ____________________________ 38 3.5.1. Breve histórico _______________________________________________________________ 38 3.5.2. Métodos geoelétricos __________________________________________________________ 40 4. MÉTODOS GEOELÉTRICOS: CONCEITOS FUNDAMENTAIS _______________________ 41 4.1. Generalidades ___________________________________________________________ 41 4.2. Eletrorresistividade _______________________________________________________ 42 4.3. Resistividade Aparente ____________________________________________________ 46 4.3. Técnica da Sondagem Elétrica Vertical ________________________________________ 49 4.3.1. Arranjo Schlumberger __________________________________________________________ 50 4.4. Técnica do Imageamento Elétrico ____________________________________________ 52 xv 4.4.1. Arranjo Dipolo - Dipolo _________________________________________________________ 52 4.4.2. Arranjo Gradiente _____________________________________________________________ 54 4.5. Método Eletromagnético EM _______________________________________________ 56 4.5.1. Técnica EM no Domínio da Frequência - FDEM ______________________________________ 58 5. TRABALHOS REALIZADOS ________________________________________________ 61 5.1. Considerações iniciais _____________________________________________________ 61 5.2. Sondagem Elétrica Vertical – SEVs ___________________________________________ 62 5.3. Georreferenciamento dos dados ____________________________________________ 65 5.4. Superfície potenciométrica do Cemitério Municipal _____________________________ 66 5.5. Imageamento Elétrico – Dipolo - Dipolo _______________________________________ 66 5.6. Pseudo 3D - Mapa Multinível _______________________________________________ 68 5.7. Gradiente _______________________________________________________________ 68 5.8. Eletromagnético – FDEM ___________________________________________________ 70 5.9. Sondagens Mecânicas _____________________________________________________ 73 5.9.1. Amostragem de solo ___________________________________________________________ 75 5.9.2. Instalação de Poços de Monitoramento ___________________________________________ 77 5.9.3. Amostragem de água subterrânea ________________________________________________ 78 6. INTERPRETAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ____________________________ 79 6.1. Resultados analíticos ________________________________________________________ 79 6.2. Resultados analíticos de solo _______________________________________________ 80 6.3. Resultados analíticos de água subterrânea ____________________________________ 84 6.4. Ensaios Geofísicos ________________________________________________________ 87 6.5. Sondagem Elétrica Vertical - SEV ____________________________________________ 87 6.5.1. Potenciometria ______________________________________________________________ 100 6.6. Imageamento Elétrico – IE ________________________________________________ 102 6.6.1. Seções Geoelétricas – dipolo - dipolo ____________________________________________ 102 6.6.2. Mapa Pseudo 3d ou Mapa de nível ______________________________________________ 114 6.6.3. Imageamento Elétrico – IE arranjo Gradiente ______________________________________ 121 6.7. Imageamento Eletromagnético - EM ________________________________________ 124 7. CONCLUSÕES _________________________________________________________ 135 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS __________________________________________ 138 ANEXO I ________________________________________________________________ 150 1 1. INTRODUÇÃO 1.1.CONTEXTUALIZAÇÃO Um dos grandes desafios do século XXI é, indubitavelmente, minimizar a problemática ambiental originada da evolução da sociedade no que diz respeito ao desenvolvimento econômico. Há tempos o homem rompeu com a natureza e esta passou a ser considerada mero objeto de exploração e mercantilização dadas as condições do modo de produção contemporâneo. Desde então, a natureza tida como insumo, despertou um tipo de desenvolvimento moderno inevitável, que associa crescimento econômico e sustentabilidade. Dessa forma, o Desenvolvimento Sustentável, termo definido por WCED (1987) em “Nosso Futuro Comum”, já alertava e sugeria, de certa forma, um novo olhar, mais cauteloso, para as futuras ações e tomadas de decisões em relação ao meio ambiente. Sabe-se que qualquer alteração no ambiente reflete em uma cadeia de consequências e que o processo de urbanização como parte do progresso e desenvolvimento econômico está diretamente relacionado à qualidade de vida da população. Logo, qualquer alteração na ordem da urbanização altera sua urbanidade, sua função social, econômica e ambiental. Problemas ambientais no contexto urbano são comuns, estão atrelados por ação e reação, e afetam a vida da população exposta a suas consequências. Questões relacionadas em geral com o uso do solo e da água são os mais sérios, visto que, basicamente todos as espécies dependem destes dois elementos para sua sobrevivência. Neste sentido, o mau uso destes recursos têm se tornado constante, e o homem, contudo, já vem enfrentando sérios problemas tanto por escassez, como por inutilização por poluição e contaminação. Muitas são as causas de contaminação de águas superficiais e subterrâneas e, cada vez mais, as dificuldades de seu aproveitamento se tornam reais. Segundo Silva (2008), a maior preocupação se concentra na contaminação de aquíferos subterrâneos, que têm suas técnicas de despoluição muito complexas e onerosas, além de não funcionar em curto prazo. Muitas vezes, o aquífero se torna irrecuperável. Para Pinto et.al. (1976), a distribuição das águas subterrâneas, seu deslocamento e eventual ressurgimento na superfície, natural ou artificialmente, envolvem condicionantes extremamente variados e complexos nos domínios da geologia e da hidráulica do escoamento em meios porosos, constituindo um amplo campo de estudo especializado. A preocupação justifica-se não só pela importância das águas subterrâneas, cujas reservas são dezenas de 2 vezes superiores ao volume de água doce superficial disponível, como pela sua estreita inter- relação com a mesma. Segundo o Ministério do Meio Ambiente – MMA, a água doce, representada por 2,4% do total de água existente no planeta, tem sua maior parte situada nas calotas polares e geleiras (1,9%), inacessível aos homens pelos meios tecnológicos atuais. Da parcela restante (0,5%), mais de 95% é constituída pelas águas subterrâneas. Menos de 5% da água doce disponível no planeta, portanto, estão presentes nos rios e lagos, que são mais afetados pela ação antrópica do que as águas subterrâneas. Pode-se dizer, genericamente, que há dois tipos de fontes de poluição e contaminação: A) a fonte localizada (ou pontual), responsável pelo lançamento de poluentes em um determinado local, que é fácil de identificar e de monitorar, e B) a fonte difusa (ou não localizada), que envolve o lançamento dos poluentes sem um ponto de referência, espalhando-os por toda a área, que é difícil de identificar e tratar. Dentre as fontes de poluição e contaminação da água, destacam-se aquelas capazes de atingir as águas subterrâneas, pelo potencial estratégico que estas terão na manutenção da vida. São elas: i) infiltração das fossas sépticas; ii) injeção de esgotos no subsolo; iii) vazamentos de tubulações ou depósitos subterrâneos; iv) infiltração de águas contendo agrotóxicos, fertilizantes, detergentes e poluentes atmosféricos depositados no solo; v) infiltração de resíduos industriais contendo metais pesados, combustíveis, produtos químicos em geral; vi) resíduos de curtumes; vii) contaminação por resíduos derivados de lixo hospitalar; viii) percolação do chorume resultante de depósitos de lixo doméstico no solo, e xix) percolação do necrochorume resultante dos cemitérios. A última é pouco conhecida, talvez por se tratar de um tema pouco discutido, talvez pela simples aversão que o mesmo comumente produz. De acordo com Pacheco et.al. (1993); Marinho (1998); Silva (2000), Matos (2001) e Rezende (2005), em áreas de cemitério, a principal causa de poluição subsuperficial é a percolação do necrochorume, efluente gerado a partir da decomposição dos corpos. Em termos físico-químicos esse efluente apresenta, na sua composição, aproximadamente 60% de 3 água, 30% de sais minerais e 10% de substâncias orgânicas; viscosidade maior que a água; densidade de 1,23 g/cm3; e pH entre 5 e 9 à temperatura de 23 a 28ºC. Além da problemática que envolve a contaminação de aquíferos, a descarga de resíduos de toda e qualquer espécie no solo, infere em alterações significativas, causando danos a este meio, que o impede de exercer suas funções ecossistêmicas. De acordo com CETESB (1999), o solo foi considerado por muito tempo receptor ilimitado de substâncias nocivas descartáveis, como o lixo doméstico e os resíduos industriais, com base no suposto poder tampão e potencial de autodepuração, que leva ao saneamento das mudanças geradas. Porém, sua capacidade foi superestimada e, somente a partir da década de 70 foi dispensada maior atenção à sua preservação. Sendo assim, a percolação por necrochorume em áreas de cemitérios se torna potencialmente preocupante no que diz respeito à possível contaminação de solos e aquíferos. De acordo com Almeida & Macêdo (2005), os cemitérios são monumentos à memória daqueles que morreram e que os vivos fazem questão de perpetuar. Consequentemente, ao longo do tempo, este tipo de construção adquiriu a condição de inviolabilidade no que tange à pesquisa científica nos seus diferentes aspectos. Pacheco (2000) ressalva que as sociedades contemporâneas, não se sentem à vontade, em geral, de tratar do assunto morte. É algo incomodativo, perturbante. Procura-se esquecer do assunto fugindo à discussão. No entanto, a literatura sobre o tema tem aumentado nos últimos tempos. Sociólogos, antropólogos e historiadores têm trazido ótimas contribuições sobre os costumes e os hábitos funerários. Por outro lado, a relação entre cemitério e meio ambiente, nunca foi incluída na lista das prioridades sobre questões de possíveis formas tradicionais de contaminação do solo e da água. Por preconceito, ou por crenças de que os cadáveres, depois de enterrados não tinham quaisquer tipos de consequências sobre o meio ambiente e saúde pública. Sendo assim, o homem como agente de constante transformação do meio, deve prezar por assumir uma postura mais responsável e agir de forma a mitigar os impactos causados pelo desenvolvimento. Parafraseando Porto-Gonçalves (2006) e Leff (2001), o homem deve assumir os limites da relação sociedade-natureza, diagnosticando os efeitos dos impactos ambientais oriundos das práticas atuais e daquelas decorrentes dos processos históricos. 4 1.2.PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA Em função da localização de cemitérios em áreas urbanizadas, célebres casos de febre tifóide já foram constatados em Berlim no século XIX e em Paris, na década de 70 (COSTA et.al. 2002). Esta é uma questão de saúde pública, com a possibilidade de utilização das águas contaminadas por microorganismos patogênicos oriundos do necrochorume. Os cemitérios, contudo, não recebem a devida atenção, a começar pelo local de seu assentamento, frequentemente impróprio do ponto de vista geológico. A preservação desses locais, geralmente é deficitária e a ocupação do seu entorno, não planejada, pode gerar ocupações irregulares de famílias de baixa renda, que acabam por vezes utilizando a água local. Diante da situação socioambiental, a World Health Organization – WHO (1998) demonstra preocupação com os impactos que os cemitérios podem causar ao meio ambiente, ressaltando que fatores hidrogeológicos foram historicamente desconsiderados em sua localização e potencial de impacto sobre a qualidade das águas, enfatizando sobre a necessidade de mais pesquisas a respeito do assunto. Felicioni et.al. (2007) ressaltam que o risco de impacto aumenta na ausência de políticas ambientais e cuidados sanitários nos cemitérios, principalmente os públicos. Matos (2001) afirma que os estudos sobre os impactos ambientais provocados pelos cemitérios ainda são incipientes e que o maior problema está nos cemitérios administrados pelos municípios, nos quais os sepultamentos ocorrem em covas rasas diretamente no solo, sem qualquer tipo de proteção. No município de São Paulo, existem 16 cemitérios particulares e 23 públicos. Destes, 75% apresentam algum tipo de problema ambiental ou sanitário. (FELICIONI et.al., 2007). A localização de cemitérios ocorre em grande parte, no Brasil, em áreas urbanas. Com o crescimento desordenado das cidades, é comum encontrar cemitérios totalmente integrados à malha urbana, até mesmo em suas áreas mais centrais. Atualmente, os olhares têm se voltado à contaminação das necrópoles, às águas subterrâneas, como ressaltou o pesquisador e professor Alberto Pacheco, do Centro de Pesquisas das Águas Subterrâneas – CEPAS em Pacheco (2000), da Universidade de São Paulo (USP). Segundo o mesmo, todo cemitério é um risco em potencial: “Para que esse risco seja controlado é preciso projetar adequadamente um cemitério, levando em conta os aspectos geológicos, hidrogeológicos e geotécnicos. Se isto não for feito, aquele risco potencial vai evoluir para um risco efetivo, e teremos 5 então, os impactos ambientais. E o principal impacto está naquela água subterrânea de menor profundidade, que é o aqüífero freático, aquele onde a temática ambiental está mais exposta à contaminação por parte dos cemitérios, não só dos cemitérios, mas também dos lixões, aterros sanitários e postos de gasolina”. Mesmo com aumento do número de estudos e trabalhos voltados à identificação e investigação de áreas utilizadas para disposição de cadáveres, além de levantamentos ambientais nesses locais, existem autores que contestam os resultados encontrados, discorrem Felicioni et.al. (2007). Enquanto não existe consenso sobre a real possibilidade de contaminação das águas subterrâneas, estuda-se o desenvolvimento de alternativas para evitar que o líquido atinja o solo. De acordo com Dent (1995), a quantidade de produtos que infiltram no solo devido ao tipo de sepultamento, pode atingir o lençol freático e é extremamente difícil de quantificar no tempo e espaço. Pacheco (2000) estudou a relação entre cemitério e meio ambiente, e através de várias referências, enfatizou que as propriedades físico-químicas do solo permitem que o mesmo tenha uma capacidade de depuração natural dos contaminantes, e que a capacidade de retenção no solo mantém uma relação inversa com a permeabilidade do mesmo. Esclareceu, ressaltando que a infiltração de material contaminante em um terreno arenoso ocorre com velocidades muito superiores às que ocorrem nas argilas, e que ao infiltrar contaminantes, infiltram também microorganismos responsáveis pela evolução do contaminante. Dessa forma, a presença das argilas no solo permite fixar um grande número de produtos de decomposicão e assegurar uma boa depuração das águas. Dent (1995) afirma que o conjunto geológico formador das áreas contaminadas pode atenuar naturalmente as plumas, porém, da mesma forma, pode haver algum efeito de acumulação de metais em materiais cadavéricos enquanto eles persistem. Dent (2007) ressalta que quando a chuva cai, ocorrem as interações habituais entre o ciclo hidrológico e suas relações com o solo. A água pode evaporar, infiltrar, escoar, ou acumular dentro ou sobre o solo e suas estruturas. Quando a água infiltra poderá levar consigo artefatos de restos mortais. Somente a configuração hidrogeológica do cemitério poderá ditar o grau de atenuação natural hidrogeoquímica e da biota. Os produtos de decomposição podem extravasar dos limites do cemitério, dependendo do grau de acumulação existente, dos caminhos de escoamento da água, da localização do cemitério e muitos outros fatores. 6 Romero (1970) sumarizou os resultados de muitos estudos sobre o movimento de bactérias em águas subterrâneas, e chegou à conclusão que o percurso máximo dos microorganismos em condições normais varia de 15,0 a 30,0 metros em meios saturados, podendo percorrer maiores distâncias em águas com nutrientes. Para vírus, a distância pode atingir até 60 metros. Tendo em vista as características geopedológicas do cemitério objeto deste estudo, fez-se necessária uma investigação direta e indireta acerca de possíveis níveis de alteração no subsolo do local. Na maioria dos cemitérios é incomum o planejamento de áreas para o sepultamento de indigentes, que são enterrados diretamento no solo. Além disso, outros fatores que afetam as taxas de quantificação de sepultamentos e que dizem respeito à cobertura do solo, podem acontecer ou não em áreas complementadas com gramado, monumentos ou uma combinação destes. Entretanto, a prática operacional, e que mais afeta significativamente estudos quantitativos, é a deposição altamente variável espacial e temporal dos restos mortais. Enterros ocorrem em partes muito diferentes dos cemitérios em épocas diferentes. A questão é ainda mais complicada em relação aos cemitérios mais antigos, pois os sepultamentos ocorrem por meio da reutilização de jazigos das famílias. Isto provoca uma variação vertical no tempo e no espaço com graves consequências para o meio subsuperficial. Quanto maior o cemitério, mais provável esta variação ocorrer. Ainda segundo Dent (1995), cemitérios são sistemas complexos e merecem uma atenção especial, pois são considerados um tipo especial de aterro sanitário. Em essência, pequenas quantidades de resíduos orgânicos são depositadas abaixo do nível da superfície e coberto com terra. Para a WHO (1998), cada corpo é capaz de liberar uma grande quantidade de componentes orgânicos e inorgânicos e parâmetros biológicos para o subsolo. Sem novos terrenos nas cidades para criação de cemitérios em locais apropriados, ocorre o acúmulo e sobrecarga do sistema daquele solo. Plumas de contaminação são geradas a partir da infiltração de resíduos dos corpos e caixões, e podem atingir os corpos d’água subterrâneos. De qualquer forma, é notória a necessidade de estudos mais aprofundados. Atualmente no Brasil, a implantação de cemitérios está sujeita ao atendimento dos critérios legais da Resolução nº 335 de 3 de abril de 2003, do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, que dispõe sobre a obrigatoriedade do Licenciamento Ambiental de cemitérios horizontais e verticais no território nacional (CONAMA, 2003). Essa Resolução foi criada devido ao consenso de que cemitérios são fontes de contaminação localizadas, mas de grande periculosidade devido à elevada carga de patógenos e substâncias químicas 7 liberadas para o meio, que podem acabar atingindo o nível de água. Esta água, por sua vez, é eventualmente utilizada pelas populações vizinhas às necrópoles. (MIGLIORINI, 2002). É conveniente considerar os impactos ambientais e os procedimentos de um cemitério, assim como o estudo do histórico do crescimento do mesmo, diante do objetivo em evidenciar indícios de coerência entre as áreas alteradas fisicamente com os locais de sepultamentos mais antigos. Parte-se do pressuposto que o potencial de alteração física exista principalmente nos cemitérios mais antigos, e nos locais mais antigos dentro de um determinado cemitério. Além disso, o histórico do surgimento do cemitério está diretamente relacionado com o crescimento da cidade e seu entorno. Para que haja um pensamento direcionado ao planejamento adequado de cemitérios, são necessários estudos e pesquisas específicas in loco, com a necessidade de se pensar em ferramentas adequadas de trabalho, que juntamente com métodos também adequados, possibilitem efetuar trabalhos relevantes que subsidiem ações futuras objetivando a minimização de prováveis impactos ambientais. 1.3.PREMISSAS Este trabalho realiza uma pesquisa no cemitério São João Batista, localizado no município de Rio Claro, São Paulo. Tem por interesse, a identificação de possíveis alterações no meio subsuperficial, detectadas pela geofísica, relacionados à presença de necrochorume. A referida área de estudo é o principal cemitério da cidade (Fotos 1.1 e 1.2), recebeu seus primeiros sepultamentos a partir de 1875, de forma irregular e, a princípio, se localizava afastado da região do vilarejo. Porém, com o crescimento desordenado ao redor do mesmo, hoje o cemitério encontra-se totalmente integrado à malha urbana, e em área central da cidade. Atualmente, sua capacidade está esgotada, porém, o mesmo se mantém ainda ativo e os jazigos familiares são reutilizados após aproximadamente dois anos do último sepultamento na mesma cova. 8 Foto 1.1: Cemitério Municipal de Rio Claro, SP. Foto 1.2: Idem. A presente pesquisa baseia-se nas seguintes premissas: - Os primeiros sepultamentos na área de estudo ocorreram a partir de 1875, e desde então, o cemitério representa uma fonte de reposição pontual de corpos, oriunda dos diversos sepultamentos posteriores; - O solo, predominantemente arenoso e com alta permeabilidade característica da formação geológica local, permite uma acelerada percolação subsuperficial de compostos diversos; - O nível basal dos jazigos situa-se a aproximadamente 2 metros da superfície do terreno, o que possivelmente permite um escoamento de necrochorume de mais fácil acesso ao meio subsuperficial; - Em termos gerais, inúmeros trabalhos foram realizados para identificação de possíveis plumas de contaminação em áreas de cemitério, e muitos, obtiveram resultados positivos para contaminação apresentando os resultados de análises químicas; - Métodos geofísicos começaram a ser utilizados para investigação de contaminação em cemitérios a partir da década de 80 pela Universidade de São Paulo - USP e, desde então, têm se mostrado eficientes, com diversos trabalhos publicados em revistas e livros; - Métodos geoelétricos são muito utilizados para identificação de plumas de contaminação no Brasil e no mundo; - Métodos eletromagnéticos não costumam ser empregados em investigação de cemitérios urbanos, devido à possível situação de ruídos geoelétricos verificados, embora aplicados em estudos ambientais. A premissa é a de que, mesmo em situação ruidosa, e, utilizado em experimentação, o método pode ser válido para comparação com os demais; 9 - Muitos trabalhos concluíram que plumas de contaminação são identificáveis por meio dos métodos supracitados, devido à sua composição química caracterizada pela elevada quantidade de STD - Sólidos Totais Dissolvidos, com alteração física em termos de resistividade e condutividade elétrica; - A aplicação dos métodos geofísicos em estudos dessa natureza apresenta diversas vantagens, principalmente pela característica investigativa indireta e não invasiva, e constitui uma boa ferramenta para utilização em cemitérios, sem riscos para construções presentes como jazigos, lápides, mausoléus, dentre outros; - A investigação geofísica em área de cemitério urbano representa um desafio, por questões estruturais, de manuseio dos equipamentos, ruídos urbanos, dentre outros. 1.4.OBJETIVOS O principal objetivo do presente trabalho foi a investigação indireta do meio físico subsuperficial do cemitério, para identificar eventuais alterações físico-químicas associadas à presença de contaminantes (necrochorume), através da inter-relação entre as respostas geoelétrica, os resultados analíticos dos poços de monitoramento e o histórico de ocupação do cemitério Municipal de Rio Claro, São Paulo. Para alcançar tal objetivo as etapas foram as seguintes:  Realização das coletas de dados geofísicos por meio dos métodos da Eletrorresistividade e Eletromagnético no Domínio da Frequência - FDEM;  Mapeamento do nível freático como subsídio à realização do mapa de superfície potenciométrica, para determinação do sentido do fluxo subterrâneo;  Análise da adequabilidade das ferramentas geofísicas na investigação de cemitério em área urbana;  Identificação de anomalias geofísicas derivadas possivelmente da presença de compostos provenientes do necrochorume;  Elaboração do mapa pseudo 3D para visualização da migração de possíveis plumas em subsuperfície;  Estabelecimento da relação qualitativa entre as respostas geofísicas e os resultados analíticos de solo e água;  Análise acerca da importância da realização de estudos que visem a investigação em áreas potencialmente impactantes ao meio ambiente, como cemitérios. 10 2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO 2.1.LOCALIZAÇÃO E ASPECTOS GERAIS DA ÁREA DE ESTUDO O município de Rio Claro está localizado na porção centro-leste do estado de São Paulo, distando 85 km do município de Campinas, ao qual pertence à região administrativa, noroeste da capital paulista. Dista cerca de 170 km da capital paulista, com ligação através do Sistema Anhanguera – Bandeirantes e rodovia Washington Luiz. É circundado, num raio de aproximadamente 30 km, pelos municípios de Corumbataí e Leme, a norte; Piracicaba e Iracemápolis, a sul; Araras e Santa Gertrudes, a leste; e Ipeúna e Itirapina, a oeste. Possui como distritos: Assistência, Ajapi, e Santa Gertrudes, e, como bairros rurais, Batovi e Ferraz (Figura 2.1). Possui uma população de aproximadamente 188.000 habitantes de acordo com último censo registrado pelo IBGE (2010). Figura 2-1: Inserção regional do município de Rio Claro, SP. Em termos geomorfológicos o município está localizado na Depressão Periférica Paulista, representada por uma área rebaixada com altitudes variando de aproximadamente 500 a 700 metros, no cento do Estado de São Paulo. De acordo com Penteado (1976), o sistema de relevo dominante na região de Rio Claro, são as colinas tabuliformes de vertentes suavemente convexas e patamares de fraca inclinação dispostos entre 550 e 650 metros. 11 Segundo a classificação climática de Köeppen, baseada em dados mensais pluviométricos e termométricos, o estado de São Paulo abrange sete tipos climáticos distintos, a maioria correspondente a clima úmido. O tipo dominante na maior área é o Cwa, que define toda a parte central do Estado e é caracterizado pelo clima tropical de altitude, com chuvas no verão e seca no inverno, com a temperatura média do mês mais quente superior a 22°C. É o caso do município de Rio Claro. O “C” representa a média do mês mais frio (3oC a 18oC); “w” representa a seca no inverno, e “a”, o mês mais quente. Pode ser enquadrado dentro de um clima tropical alternadamente seco e úmido, controlado por massas tropicais e equatoriais, que predominam em mais de 50% do ano. As temperaturas médias anuais de Rio Claro situam-se entre 18º e 21ºC (Quadro 2.1). Quadro 2.1: Temperaturas médias máximas e mínimas e precipitação média para Rio claro. Fonte: Cepagri, (2011). A distribuição de chuvas anual é caracterizada por um período seco, entre abril e setembro, com chuvas de 15 a 20 dias e um período chuvoso, entre outubro e março, com mais de 80% das precipitações anuais com média de 1.200 mm (Quadro 2.1). Os dados utilizados foram da Estação Meteorológica da CEAPLA/UNESP - Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, Rio Claro. O gráfico apresenta a distribuição mensal do regime de chuvas correspondente ao período de janeiro de 2000 a dezembro de 2011 (Figura 2.2). Figura 2-2: Médias mensais de chuva (em mm) - período de 2000 a 2011. Fonte: CEAPLA, (2011). 12 O município de Rio Claro localiza-se na bacia hidrográfica do Rio Corumbataí, com seus principais afluentes sendo constituídos pelos Rios Passa Cinco, Cabeça, e Ribeirão Claro. As cabeceiras destes rios situam-se nas escarpas das serras e morrotes que compõem a linha de cuestas; suas águas afluem para o Rio Piracicaba (ZAINE, 1994). 2.2.CONTEXTO PEDOLÓGICO No município de Rio Claro predominam rochas areníticas, que originam solos de textura arenosa. Devido a essa característica, a infiltração e percolação da água da chuva ocorrem rapidamente, pela grande porosidade existente, promovendo a fácil lixiviação - processo físico de intemperismo - tornando os solos ácidos e pobres (ZAINE, 1994). Os solos predominantes na região de Rio Claro são: (1) Argissolos Vermelho - amarelos, (2) Latossolos Vermelho - amarelos e (3) Latossolos Vermelho férrico - antigo Latossolo Roxo, ou Terra Roxa, derivados do diabásio. O primeiro (1) apresenta textura médio-argilosa, presentes nos baixos topográficos, como nos vales do Rio Corumbataí e Ribeirão Claro. São os principais contribuintes dos argilitos e siltitos da Formação Corumbataí. O segundo (2) corresponde ao solo predominantemente arenoso da Formação Rio Claro. Trata-se de um solo pobre, profundo e lixiviado, com fácil percolação e profundidade entre 10 e 12 metros; O terceiro (3) com textura argilosa a muito argilosa, que ocorrem somente em pequenas quantidades. 2.3.CONTEXTO GEOLÓGICO A área de estudo localiza-se, em termos geológicos, no flanco nordeste da bacia sedimentar do Paraná. Segundo o IPT (1981), esta bacia sedimentar: “(...) é uma unidade geotectônica estabelecida sobre a plataforma sul-americana a partir do Devoniano inferior, senão mesmo do Siluriano. A persistente subsidência desta bacia, embora com caráter oscilatório, permitiu a acumulação de 13 grande espessura de sedimentos, lavas basálticas e sills de diabásio...” O IPT (1981) cita que, na região mais profunda da bacia, até a qual se estende o extremo oeste do estado de São Paulo (Pontal do Paranapanema), a espessura total destes depósitos pode ultrapassar 5.000 metros. O município de Rio Claro está localizado sobre litotipos pertencentes à Formação Rio Claro que capeia os grandes divisores de águas aplainados da região, sobre a qual está assentada, em sua maior parte, a ocupação urbana do município e, em termos regionais, está inserida na Bacia Sedimentar do Paraná (Figura 2.3). Figura 2-3: Mapa Geológico regional do município de Rio Claro. Fonte dados: Serviço Geológico do Brasil – CPRM. O cemitério está localizado na área urbana de Rio Claro, e é representado pela Formação Rio Claro (Figura 2.4). 14 Figura 2-4: Contexto geológico local do cemitério. Fonte dados: Serviço Geológico do Brasil – CPRM. Zaine (1994) apresenta a referida Formação, com características marcantes: fraca litificação e profunda alteração pedogenética, espesso solo arenoso e domínio de litotipos arenosos, esbranquiçados amarelados e avermelhados, variando de areia fina a grossa, com intercalação de camadas de conglomerados e de sedimentos argilosos. A espessura máxima é da ordem de 40 m, predominando valores entre 25 e 30 m. Tais características justificam a maior ocorrência no contexto regional, em nível de bacia hidrográfica, de Argissolos Vermelho-Amarelos seguido por Latossolo Vermelho-Amarelo ambos com predomínio de textura arenosa, bem drenados, com lixiviação e infiltração grandes, pobres em matéria orgânica, ácidos, pouco adequados para a agricultura, originados das formações Pirambóia, Botucatu e Rio Claro, de acordo com estudo feito por Köffler (1993). Ainda segundo Zaine (1994), o intervalo basal é marcado por um nível conglomerático, que grada para um arenito argiloso e argilitos intercalados no sentido da base. 15 Os mesmos foram separados em quatro fácies: depósitos de lamitos; depósitos de cascalhos associados com areias com estratificação acanalada ou tabular; depósitos de areia com estratificação plano-paralela e cruzada acanalada e com intercalações de argila e, finalmente, depósitos argilosos a siltoargilosos, com laminação distinta a indistinta e conteúdo fossilífero. Há também uma delgada lente de conglomerado basal sobre as unidades subjacentes, em discordância angular. Apresenta contato basal discordante com a Formação Corumbataí, constituído por seixos de quartzo, fragmentos de siltito, argilito e sílex. Na região ainda afloram rochas da Formação Serra Geral, além de sedimentos aluvionares recentes As fácies encontradas na Formação Rio Claro são interpretadas como representantes de sistema fluvial meandrante em clima úmido. O conteúdo fossilífero é composto por restos de vegetais, sem datação precisa. Os depósitos da Formação Rio Claro são explorados localmente para obtenção de cascalho e areia para construção civil, areia para moldes de fundição e argila para a indústria cerâmica. Em relação à Formação Corumbataí, Zaine (1994) descreve que a mesma, ocorre de forma extensa pelo vale do rio Corumbataí, e constitui a principal unidade subjacente à Formação Rio Claro. Ocorre o domínio litológico dos argilitos, siltitos e folhelhos arroxeados e marrom-avermelhados, às vezes esverdeados, com intercalações de arenitos e leitos carbonáticos. É composta na sua seção inferior de um pacote de argilitos, folhelhos e siltitos cinza- escuros e pretos, com fraturas conchoidais e concreções calcíferas, e ainda um conjunto de argilitos e folhelhos cinza-escuros, de aspecto rítmico, com ocasionais leitos de calcário silicificados, oolíticos em parte, além de níveis coquinóides. Na seção superior, ocorre uma sequência de argilitos e arenitos finos, argilosos, regular a bem classificados, esverdeados, arroxeados e avermelhados. A Formação Corumbataí foi depositada em ambiente marinho costeiro e representa uma deposição sob regime regressivo iniciando em sua base por depósitos marinhos de costa- afora (offshore). A sucessão de camadas de topo está composta por depósitos de planície de maré, representados por siltitos, arenitos e calcários. Sua espessura na região de Rio Claro oscila entre 60 e 180 m. Na área urbana, ocorre nos bairros periféricos da zona norte e noroeste, nas médias e baixas vertentes, em direção ao vale do rio Corumbataí, tendo como características o solo pouco profundo (< 2 m) e o nível freático bastante próximo à superfície, em época de chuvas. 16 Calcários e camadas de argilas são os recursos minerais desta unidade, podendo assumir importância regional, como o polo cerâmico de Rio Claro - Santa Gertrudes - Cordeirópolis localizado no interior do estado de São Paulo. 2.3.1. CARACTERIZAÇÃO HIDROGEOLÓGICA De acordo com Bonfim (2010), a área sob investigação encontra-se no Domínio hidrogeológico das Bacias Sedimentares - Subdomínio Bacia do Paraná (Figura 2.5). A Bacia do Paraná encontra-se na parte meridional do território brasileiro, com área de cerca de 1,1 milhões de km2. Com formato alongado na direção NNE-SSW, tem aproximadamente 1.750 km de comprimento e largura média de 900 km. Os valores máximos de espessura de rochas sedimentares e vulcânicas, se somados, ultrapassam 6000 m (ZALÁN et al., 1990). A referida bacia, possui aquíferos de grande importância econômica como os sistemas do aquífero Guarani, (Formações Botucatu e Pirambóia), Bauru, Itararé e Serra Geral. Este domínio está representado por depósitos relacionados temporalmente ao Quaternário e Terciário como aluviões, coluviões, depósitos eólicos, areias litorâneas, depósitos fluvio-lagunares, arenitos de praia, depósitos de leques aluviais, depósitos de pântanos e mangues, coberturas detríticas e detríticas lateríticas diversas e coberturas residuais (ZAINE, 1994). De acordo com Zaine (1994), as Formações Cenozóicas são representadas por pacotes de rochas sedimentares de naturezas e espessuras diversas, que recobrem as rochas mais antigas. Em termos hidrogeológicos, possuem um comportamento de “aquífero poroso”, com alta porosidade/permeabilidade, o que permite a exploração de vazões significativas. 17 Figura 2-5: Mapa de domínios hidrogeológicos. Fonte: adaptado de Bonfim (2010). Para o município de Rio Claro, SP, a exploração de águas subterrâneas, é implementada principalmente em rochas do Subgrupo Itararé, que encontra-se relativamente profunda (de 200 a 500 metros), e se caracteriza por apresentar baixa produtividade, além de apresentar, em porções mais profundas, alta salinidade, comprometendo sua qualidade. Porém, existe também a utilização de água subterrânea extraída dos arenitos da Formação Rio Claro, assentada sobre siltitos e lamitos da Formação Corumbataí. Tais arenitos, com intercalações de finas camadas argilosas, constituem um aquífero pouco espesso, raso (aproximadamente 30 metros) que dependem das condições de pluviosidade para sua constante recarga. Oliva (2006) ressalta que o aqüífero Rio Claro atende de maneira satisfatória à demanda atual, mas um incremento muito elevado na exploração deste aqüífero, no entanto, pode gerar problemas no suprimento de água. 18 2.4.INSERÇÃO URBANA DO CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA O cemitério municipal São João Batista está localizado na Avenida da Saudade, bairro Consolação, município de Rio Claro, SP. Trata-se do primeiro cemitério oficial da cidade com 138 anos de utilização e área total de 80.000 m², (Figura 2.6). Atualmente sua capacidade está esgotada, ocorrendo sepultamentos apenas em jazigos familiares e após dois anos do último sepultamento. O histórico detalhado do cemitério está relatado no Capítulo 3. Figura 2-6: Localização do Cemitério São João Batista - Rio Claro, SP. Capacidade esgotada, porém ativo há 138 anos. Localiza-se especificamente na porção centro-sul da área urbana do município de Rio Claro, e o acesso principal é feito pela Avenida da Saudade, sendo possível adentrar suas dependências pelos portões laterais nas Avenidas Dezenove e Vinte e Três, e pelos fundos na Rua Vinte. O entorno urbano próximo à área investigada, cerca de 200 metros de raio (Figura 2.7) é essencialmente residencial, com alguns pontos de comércio incluindo bares, restaurantes, lanchonetes, supermercados e prestadoras de serviços relacionadas ao cemitério, como funerárias e floriculturas. Por mês, são realizados cerca de 90 sepultamentos. 19 Figura 2-7: Raio de 200 m a partir dos limites do cemitério com áreas contaminadas cadastradas na CETESB e os poços de captação cadastrados no DAEE - Departamento Autônomo de Água e Esgoto podem ser visualizados. No entorno não são identificados fragmentos de vegetação nativa, bem como Áreas de Proteção Ambiental, Áreas de Preservação Permanentes, Áreas de Preservação de Mananciais ou Áreas Tombadas pelo Patrimônio Histórico. Segundo o Plano Diretor vigente no município de Rio Claro, a área investigada está inserida na Mesozona 6 da Unidade Regional de Planejamento (URP) 1 - Central, especificamente na subárea denominada ZUD 6. A ZUD-6 compreende os loteamentos Jardim Claret, Jardim Rio Claro, grande parte do loteamento Consolação, parte dos loteamentos Município, Jardim do Trevo, Jardim Shangrilá, Jardim Olímpico, Jardim Quitandinha e áreas agregadas. 2.4.1 POÇOS DE CAPTAÇÃO E ÁREAS CONTAMINADAS De acordo com o cadastro no DAEE -, não são identificados poços de captação de água dentro do entorno estudado. O ponto de captação mais próximo dista aproximadamente 450 m a norte dos limites do cemitério (Figura 2.7). 20 O cadastro de áreas contaminadas contido na CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, não apresenta áreas contaminadas inseridas no entorno estudado, havendo uma área cadastrada, denominada Auto Posto Paraqueda Ltda., localizada a aproximadamente 280 m a norte do empreendimento. Segundo o cadastro da CETESB, o Auto Posto Paraqueda apresenta subsolo e aguas subterrâneas dentro da área do empreendimento, impactados por combustíveis líquidos oriundos dos locais de armazenagem dos mesmos. A área está em processo de remediação, com recuperação de fase livre e monitoramento da eficiência e eficácia do sistema. 3. REVISÃO HISTÓRICA 3.1.ORIGEM DOS CEMITÉRIOS E SEPULTAMENTOS Os cristãos consideram que os mortos, sob a escrita bíblica, não estão mortos, mas sim adormecidos até a ressurreição (Apocalipse 14;13). Preferiam por isso, a palavra “cemitério” como lugar do seu repouso, em vez de outras palavras latinas que expressavam a idéia de encerramento eterno da vida. A palavra cemitério vem do latim Coemeterium, derivado do grego Koimetérion, a partir do verbo Kimáo que significa “dormitório”, “pôr a jazer” ou “fazer deitar”. Significa o recinto onde se enterram e guardam os mortos. Segundo Bayard (1993), na terminologia hebraica, o cemitério é designado por termos como: Berth Olam (casa da eternidade) e Beth ha’ hayaim (casa da vida). É o mesmo que necrópole ou Sepulcrário. Muitas perguntas são feitas sobre o que se fazer com o cadáver. Estudos arqueológicos vêm desvendando, através de testemunhos e outros documentos, as práticas funerárias de muitas civilizações antigas, que têm evoluído desde as cavernas até os dias atuais, à luz das circunstâncias e crenças sociais, religiosas e econômicas. Segundo Felicioni et.al. (2007), o sepultamento de cadáveres data da pré-história, quando os homens enterravam os corpos da tribo por questões de segurança. O corpo exposto poderia atrair predadores. Pode-se adicionar aí o incômodo que um corpo humano em decomposição pode ocasionar. A palavra “cadáver” tem origem latina e significa – “carne dada aos vermes”, o que traduz o destino dessa matéria orgânica. Como a maior parte dos costumes, com o passar do tempo, o ato de enterrar se tornou um tabu, e foi inserido nas regras religiosas dos povos. Dois exemplos clássicos de que a 21 prática tornou-se quase obrigatória foram os egípcios e os maias. Duas civilizações bastante distintas, mas para as quais o sepultamento era extremamente importante. Pacheco (2000) realizou um estudo histórico acerca do tema, e o que se segue foi baseado no seu trabalho. Desde a era cristã é que se tem notícia de cemitérios (necrópolis). Sua origem data do fim do século I na Roma antiga, onde existia o costume de incinerar e/ou embalsamar o cadáver, pois em geral não havia lugar nos territórios romanos para inumação e nem para o encerramento do cadáver nos sarcófagos. Dessa forma, foi interrompida a tradição das necrópoles, que outrora coexistia em outros locais como no Egito e em outras regiões da Europa. Com a difusão do cristianismo, a inumação tornou-se uma realidade, os cristãos passaram a sepultar os seus mortos nas catacumbas de Roma e, depois, fora da cidade às margens das vias de trânsito. Segundo Pacheco (2000), o III Concílio de Toledo realizado no ano de 627, no Cânon 22 estabelece a inumação como norma geral da Igreja. Muitos povos antigos, por razões higiênicas, sepultavam os seus mortos longe das cidades. Porém, a repugnância à proximidade dos mortos acabou por se esmaecer entre os antigos cristãos. No período compreendido entre a Idade Média e o século XVIII, na Europa Ocidental, em especial na França, os mortos passaram a ter maior proximidade com a população. Os sepultamentos começam a ser feitos nas imediações das igrejas, mosteiros, conventos e no interior destes, em sarcófagos de pedras. Os que possuíam maior poder aquisitivo eram enterrados no interior das igrejas, para estarem próximos de Deus, enquanto os pobres eram enterrados em campos afastados, em valas comuns. Com o passar dos tempos iniciaram-se na França, campanhas médicas que se opunham aos enterros em interiores de mosteiros, igrejas dentre outros, apoiadas em relatos de que pessoas morreram devido à exposição a “vapores mefíticos” oriundos de corpos em decomposição e uma ordem de Luís XVI, em 1776, interditou os sepultamentos nas igrejas, mosteiros, conventos e capelas, com exceção dos corpos de entidades eclesiásticas. Como consequência, a geografia dos cemitérios urbanos da cidade de Paris foi substituída pelas necrópoles extramuros. Em Portugal, os problemas sanitários decorrentes da insalubridade de cadáveres enterrados em locais fechados, e interiores de igrejas, já se tornava uma realidade no século XVIII. Aos poucos, foi surgindo a consciência dos perigos causados por estes tipos de sepultamentos tanto nos interiores quantos nos arredores das vilas e cidades. Definitivamente, em meados do século XIX, foi decretada a construção de cemitérios públicos mais afastados das vilas e cidades, como forma de defender a salubridade das 22 mesmas. O preconceito, o conservadorismo e a incapacidade da população para entendimento dos problemas sanitários do país, coexistiam naquela época, o que levou a muitas dificuldades e obstáculos para, de fato, se iniciarem as construções de tais obras públicas. No Brasil, foi a colonização cristã dos portugueses, que trouxe ao país todas as tradições de Portugal incluindo as práticas de sepultamentos no interior de igrejas, conventos etc, sobretudo nos estados brasileiros como Minas Gerais, onde a influência portuguesa era intensa e dominante. As igrejas em Ouro Preto, por exemplo, possuem em seu interior, no assoalho, as demarcações de “túmulo” nas tábuas corridas do piso de madeira, que são numeradas de acordo com os cadáveres que lá foram enterrados. Nesta época, no fim do século XVIII, os médicos brasileiros já se preocupavam com as questões de saúde pública causadas por essas tradições de sepultamento. Os médicos acreditavam que os sepultamentos deveriam ocorrer em locais afastados das cidades, longe das fontes de água, em terrenos arejados, ou seja, implicitamente nestas opiniões, já se via certa preocupação ambiental. Finalmente foi promulgada a lei imperial que determinou a localização dos cemitérios afastados das vilas e cidades, e assim como na França e Portugal, a lei só entrou em vigor anos depois, devido às mesmas resistências encontradas nesses países, principalmente por coligações católicas leigas. Dessa forma, os cemitérios passaram a ser construídos afastados das cidades, como cita Pacheco (2000), foi oficializada a primeira necrópole pública na cidade de São Paulo - o Cemitério da Consolação, no ano de 1858, longe dos vivos, por razões de salubridade pública, e após este, surgiram outros vários, públicos e particulares. Estes cemitérios que antes se localizavam afastados, nos dias atuais, se encontram totalmente inseridos nos centros urbanos, devido ao crescimento populacional e urbano e novamente, constituem uma preocupação de saúde pública. 3.2.CONTEXTO HISTÓRICO URBANO DE RIO CLARO De acordo com pesquisa realizada no Arquivo Histórico Municipal de Rio Claro, o livro “Rio Claro - Sesquicentenária” (PEREIRA et.al. 1978), o surgimento da cidade de Rio Claro ocorreu através de forasteiros que vinham de toda a região da província de São Paulo, passando pela região do Ribeirão Claro à procura de ouro no Mato Grosso desde 1719. A rota pelo rio era perigosa, devido à febre que dizimava o povo, e preferiram a rota pela terra. Assim, surgiam os primeiros povoados que se fixavam nas planícies do Morro Azul e Ribeirão Claro como relata trecho do histórico: 23 (...) “Aos bandeirantes e aventureiros que desbravavam inóspitos sertões à procura de ouro, aqui se deixavam ficar, às vezes vencidos pelo cansaço, outras, entusiasmados pela exuberância da flora e pela salubridade do clima”. As primeiras casas e glebas foram alocadas junto às margens do Ribeirão Claro, e quando as primeiras sesmarias foram demarcadas, já existia um incipiente povoado. O surgimento do município de Rio Claro se deu por uma série de concessões dadas pelo governo da província de São Paulo às famílias e freguesias na região do Ribeirão Claro por volta de 1821 e familiares desta freguesia foram povoando outras regiões ao redor e nas proximidades dando início a vários bairros e vilas. A primeira capela surgiu devido a vinda do padre chamado Delfino da Silva Barbosa, para paraninfar a fundação da sesmaria pertencente à família sua amiga. O padre trouxe em sua bagagem uma imagem de São João Batista e assim nasceu o povoado “São João Batista do Ribeirão Claro”. A imagem do santo que figurou naquela solenidade é a mesma que ainda se encontra no altar-mor da igreja matriz da cidade de Rio Claro. Desta forma, construíram uma capela e uma casa paroquial para a residência do referido padre e novas construções e casas e comércio se iniciaram ao redor. O dono das terras, logo doa um grande terreno para a edificação da futura cidade e da igreja definitiva. Foi erguida no lugar da atual matriz uma igreja de paredes de barro socado e madeira lavrada - foi a primeira matriz de São João do Ribeirão Claro e serviu aos fiéis de Rio Claro por 40 anos. A população aumentava por volta de 1830 a 1845, e com ela as necessidades sociais e econômicas. Porém, a freguesia de São João Batista de Ribeirão Claro não possuía uma câmara municipal que resolvesse seus interesses. Dessa forma, seus habitantes, encabeçados por Jose Estanislau de Oliveira - Visconde de Rio Claro idealizaram elevar a freguesia à categoria de vila, e o desvencilhamento da freguesia de Limeira. No dia 07/03/1845, Rio Claro elevou-se à categoria de vila. Por volta de 1850, a vila de Rio Claro passava por grande desenvolvimento, sobretudo no setor agrícola. Colhia-se com abundância o milho, o café, a cana - de - açúcar, e o algodão. Fabricava-se e exportava-se o açúcar produzido nos diversos engenhos instalados na região. O comércio melhorava, o número de habitações crescia e novas casas de negócios se abriam. Era a lei da oferta e da procura. 24 Em 30 de abril de 1857, foi decretada a Lei nº 44 que promovia a vila à categoria de cidade. Desde sua fundação em 1827 até 1857, com 30 anos de existência, Rio Claro se tornou cidade em uma época de fracos recursos. Visconde de Rio Claro foi o prefeito de 1857 a 1860. 3.2.1. SERVIÇOS DE ÁGUA E ESGOTO DA CIDADE Até 1886, a população de Rio Claro era abastecida de água potável através de poços domiciliares e das nascentes existentes ao longo das margens do Córrego da Servidão. Porém, com o aumento crescente da população, a água havia se tornado insuficiente. Em 1900, foi inaugurado pela câmara o novo serviço de abastecimento de água, que se tratava de um reservatório (a água pertencia ao Córrego da Servidão). Através de bombeamento após filtragem, a água era distribuída em encanamentos pelas ruas da parte oeste da cidade a partir da rua 5. Em 1901, foi inaugurada a rede de esgoto, a fim de acabar em definitivo com as fossas domiciliares, ruinosas à higiene e à saúde pública. Futuramente, por volta de 1945, deu-se início ao aproveitamento do Ribeirão Claro. 3.2.2. A REMOÇÃO DO CEMITÉRIO MUNICIPAL Na situação de cidade, São João do Rio Claro insistia para a remoção de seu cemitério para um lugar mais afastado do centro urbano. O cemitério ocupava uma quadra próxima à igreja matriz, no lugar onde se encontra hoje o grupo escolar “Cel. Joaquim Sales” situado à rua 7, que foi o primeiro cemitério não oficial da cidade. Em 1873, a câmara decidiu contrair um empréstimo para executar as obras do novo cemitério, dadas as condições de limitações de recursos do município e na ocasião, o vereador Dr. José Alves de Cerqueira Cesar, membro da comissão das obras do futuro cemitério, leu perante os seus pares o seguinte parecer: “A remoção do Cemitério Público é uma necessidade reconhecida de longa data; a Sociedade do Bem Comum, criada por iniciativa particular para zelar dos públicos interesses desta localidade, há 40 anos já a reconhecia. Há oito anos, esta Câmara Municipal demarcou o local para o erguimento do novo cemitério, 25 porém a míngua de recursos não permitiu que se levasse a efeito a obra, cuja necessidade de dia para dia, torna-se maior, atento ao crescimento que se observa na cidade. Hoje, o cemitério acha-se circundado de casas, ocupa o centro da povoação, apesar da notável repugnância que todos sentem em habitar nas vizinhanças dos lugares destinados aos mortos. Deixaria esta câmara de corresponder às expectativas de seus munícipes, se pusesse de parte a satisfação dessas necessidades, por todos sentida (...) outro expediente não pode a câmara recorrer senão o de contrair um empréstimo com esse destino (...) Rio Claro, 23 de fevereiro de 1873”. Procurando diminuir a dúvida, o intendente da municipalidade, Coronel Joaquim de Salles, consultou ao então diretor de serviços sanitários do estado, Dr. Emilio Ribas, indagando se os trabalhos poderiam ter prosseguimento ou se haveria inconveniência no uso do terreno do então cemitério sediar um estabelecimento de ensino primário e também para a saúde da população. Em março do mesmo ano Emilio Ribas dizia em resposta, que “pode ser utilizado o local, por tratar-se de um terreno poroso, com declividade natural (...), tempo decorrido é mais que suficiente para a decomposição dos cadáveres pela ação combinada do ar, da água, do calor e dos germes saprófitas, como costuma acontecer em tais circunstancias depois de 5 anos”. Em seguida o Dr. Emilio Ribas aconselhava que “durante o revolvimento da terra, seja feita a desinfecção do terreno com leite de cal recentemente preparado, como medida de precaução”. A preocupação se dava pela quantidade de doenças e epidemias que ocorriam naquele período. Desde 1889, Rio Claro e Campinas vinham apresentando numerosos casos de febre amarela, com número acentuado de óbitos, quando também o litoral brasileiro sofria as consequências do Tifo, ou Febre Tifóide. No ano de 1892, a epidemia de febre amarela deixou em Rio Claro um grande saldo de óbitos: 331 pessoas haviam sucumbido. Outra epidemia que assolou o país foi a “Gripe Espanhola”. A epidemia foi pior no ano de 1918 no Brasil, em Rio Claro ocorreram 597 óbitos no geral, e dentre eles, 59 foram por causa da gripe. Em 1919, de 512 óbitos totais, 45 foram devidos à gripe, ou seja, mais de 10% do total dos óbitos. 26 Outros tipos de gripes também atingiram Rio Claro, como a “Gripe Asiática” e a “Gripe Beija Flor”, sendo bastante significativos os números de doentes na cidade. Cerca de 600 casos de média anual, porém, sendo insignificante o número de óbitos (PEREIRA et.al. 1978). Por volta de 1971, apareciam os primeiros casos de meningite na cidade de Rio Claro, atingindo seu pico máximo em 1975, porém a campanha de vacinação conseguiu vacinar cerca de 86.000 pessoas em um único dia! O índice da doença caiu e no total, ocorreram 56 óbitos (PEREIRA et.al. 1978). 3.2.3. CEMITÉRIO SÃO JOÃO BATISTA O novo Cemitério Municipal ficou pronto em 1875, e sua inauguração foi marcada para o dia primeiro de novembro, dia de Todos os Santos. O serviço de demarcação e alinhamento da nova necrópole foi entregue ao agrimensor Manoel José de Carvalho, que faleceu no dia marcado para a inauguração. O seu sepultamento realizou-se no dia 02 de novembro, dia de Finados, e a sua sepultura recebeu o número “1”, número de ordem dos enterramentos. Dessa forma, com seu cadáver, inaugurou o cemitério que havia demarcado. O cemitério São João Batista recebeu seu nome devido ao padroeiro da cidade, e primitivamente era localizado nas ruas que hoje, são conhecidas como 7 e 8 e avenidas 5 e 7, e posteriormente transferido para onde se encontra atualmente, nas ruas 16b e 20b e avenidas 19 e 23. Desde sua inauguração - 2 de novembro de 1875, até o presente, sofreu várias transformações e ampliações. Destaca-se a transferência do portão principal, então situado em frente ao túmulo de Barão de Rio Claro - Visconde de Rio Claro, para o lugar onde se encontra na rua16. Em 1922, nova área foi anexada ao cemitério, promovendo sua ampliação. Outras ampliações foram realizadas desde então, o que ensejou oportunidade para novas reformas ocorridas com destaque para a fachada e portal de entrada. O cemitério de Rio Claro, hoje graças aos cuidados que vem merecendo do poder municipal, se destaca pela beleza de seu traçado, pela riqueza dos seus túmulos, pela arborização e, sobretudo, pela paz que transmite em local de habitual frequência da população local. 27 3.2.4. CEMITÉRIO DOS “BEXIGUENTOS OU LEPROSOS” As grandes epidemias de varíola e a alta incidência da lepra (hanseníase) no município de Rio Claro, no século XIX, produziram um número bastante elevado de mortes. Todavia, aos que morriam dessas doenças, não lhes era permitido que fossem sepultados nos cemitérios locais e só podiam ser sepultados em covas de 10 palmos de profundidade. Somente a partir de janeiro de 1874, essa proibição foi revogada por deliberação da câmara. Até então, os chamados “bexiguentos” e leprosos que morriam, deveriam ser enterrados no campo, fora da cidade. Assim, houve a necessidade que se lhes destinasse um local no campo, como exigia a determinação da câmara, para acolher os corpos desses doentes. E, dessa forma, surgiu em Rio Claro outro cemitério - o “dos bexiguentos ou dos leprosos” como era chamado. Nas buscas efetuadas, não foram encontrados registros ou documentos de sua existência formal oficial. Todavia, é certa a sua existência, pois podia-se notar a ocorrência de ruínas. Localizava-se na região sudoeste da cidade, a aproximadamente 300 metros à esquerda da atual via Washington Luiz, na altura do km 176. Não havia muro de fecho e a sua área teria sido de aproximadamente 1000 m². Hoje nada mais dele resta, tendo sido completamente destruído. Porém, antes da existência do referido cemitério, os “bexiguentos” - os doentes de varíola, eram enterrados no cemitério da rua 7, onde hoje se encontra a escola “Cel. Joaquim Salles”, e em 1902 - 27 anos após a inauguração do novo cemitério – o São João Batista, procedia-se à demolição e ao revolvimento da terra, para ser construído o grupo escolar. Nessa mesma época, surgiram vários casos de varíola na cidade, fato que causou a apreensão na população, que atribuiu o fato à contaminação pelas terras onde haviam sido sepultados variolosos, há mais de 25 anos. Dessa forma, surgiram suspeitas de que cadáveres podem se tornar perigosos poluentes quando se trata de sua localização em meio urbano. 3.3. IMPACTOS POTENCIAIS CAUSADOS POR CORPOS EM DECOMPOSIÇÃO Do ponto de vista químico o corpo humano é formado por diferentes substâncias e depois de morto o mesmo passa a ser um ecossistema de populações formado por bactérias e microorganismos destruidores de matéria orgânica. Os seres microscópicos são os responsáveis pela putrefação, ou seja, a destruição dos tecidos do corpo. O resultado é a decomposição gradual gerando gases, líquidos e sais. 28 Em entrevista concedida a Felicioni et.a.l (2007), o professor Leziro Marques Silva exemplifica: “vamos considerar um cadáver adulto, um biotipo brasileiro de 70 Kg. No processo de decomposição, é capaz de produzir 24 litros de gases variados, 30 litros de substâncias mineralizadas e 10% de substâncias orgânicas. O necrochorume é mais denso que a água, tem cor acastanhada ou acinzentada, muito mal cheiroso” Segundo o especialista, a decomposição do corpo pode durar de alguns meses a vários anos, dependendo da ação ambiental. Em clima tropical, o cadáver demora aproximadamente três anos para ser totalmente decomposto. Em regiões temperadas, o processo pode durar até dez anos (FELICIONI et.al 2007). Além da eliminação do necrochorume pelos corpos, outros poluentes, não menos importantes, levantados por Silva (1995) e Silva (1998), não podem ser esquecidos, como, por exemplo, os óxidos metálicos (Ti, Cr, Cd, Pb, Fe, Mn, Hg, Ni e outros) lixiviados dos adereços diversos das urnas mortuárias, acessórios de embalsamamento, dentre outros. Jonker & Olivier (2012), estudaram o cemitério de Zandfontein em Tshwane, na África do Sul, objetivando identificar se as práticas funerárias, poderiam contaminar com metais pesados os solos do cemitério. Compararam os solos de dentro do cemitério e de fora, e como foram enterrados cerca de 60.000 caixões, determinaram se a carga de enterros afetou a composição mineral do solo, a ponto de causar um risco potencial para a saúde. Constataram que houve um excesso de metais pesados, provavelmente de origem antrópica e práticas funerárias e verificou-se que a composição mineral do solo dentro “Zandfontein Cemetery” foi significativamente maior do que aquelas fora do local e que os solos nas zonas com as cargas mais altas de sepultamentos eram mais contaminados do que nas partes menos utilizadas do cemitério. Isto indicou que a quantidade de sepultamentos tem impacto direto no conteúdo dos minerais do solo mineral e, portanto, os cemitérios podem ser considerados também como fontes antropogênicas de contaminação. Bergamo (1954) defendeu a necessidade de estudos geológicos e sanitários das áreas de cemitérios e a verificação das possibilidades de contaminação das águas subterrâneas e superficiais, que podem significar riscos às populações residentes nas adjacências de cemitérios. Ottmann (1987) citado por Pacheco (2000), através de um extenso trabalho fez considerações de caráter geológico, legislativo e regulamentar sobre a implantação e gestão de cemitérios na França. Colocou em evidência o papel geológico na elaboração de projetos 29 sobre necrópoles, cuja intervenção é fundamental para proteção do meio ambiente, notadamente águas superficiais e subterrâneas. Oliveira et.al. (2010) avaliaram o uso e ocupação de dois cemitérios instalados em Fortaleza - CE, relacionado às condições geoambientais e hidrogeológicas das áreas ocupadas por estes empreendimentos. Objetivaram com esta pesquisa, avaliar a vulnerabilidade da região ocupada pelos cemitérios. Os resultados obtidos demonstraram que grande parte dos cemitérios instalados no município situa-se em locais desapropriados pelas leis ambientais onde apresentam litologias sedimentares, o que pode resultar em uma alta permeabilidade e transmissividade. Spongberg & Becks (2000), atentam para o crescente número de enterros e cemitérios, e os possíveis contaminantes antrópicos que deles são provenientes como: produtos químicos venenosos, como arsênio e mercúrio, que foram usados nos embalsamamentos no passado e práticas funerárias que utilizaram: formaldeído a partir de práticas de embalsamamento atuais; vernizes, selantes, e conservantes utilizados em caixões de madeira; e o chumbo, zinco, cobre, aço e de caixões de metal. O trabalho teve como objetivo estudar os metais adsorvidos em solos de um grande cemitério a noroeste de Ohio, EUA. Concluiu-se que certos metais associados com práticas funerárias atuais e do passado podem se acumular em profundidade em cemitérios. Foram identificadas concentrações elevadas de ferro, chumbo, cobre, zinco, cobalto e de arsênio, com a profundidade. O necrochorume pode veicular, além de microrganismos oriundos do corpo, metais pesados e materiais antrópicos, restos ou resíduos de tratamento químicos hospitalares (quimioterapia) e os compostos decorrentes da decomposição da matéria orgânica. Silva (1995) e Silva (1998) afirma que todos esses contaminantes incorporados ao fluxo de necrochorume são também prejudiciais ao solo e as águas subterrâneas. Pacheco et.al. (1993), após monitoramento na área interna de três cemitérios, constataram contamina