167R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 o MoRFEMa dE GERúndIo “ndo” no poRtUGUÊs BRasILEIRo: anáLIsE FonoLÓGICa E soCIoLInGUIstICa Jesuelem Salvani FERREIRA Mestre em Estudos Linguísticos – Universidade Estadual Paulista – CJSRP E-mail: jesuelem@gmail.com Luciani Ester TENANI Doutor Universidade Estadual Paulista – CJSRP E-mail: lutenani@ibilce.com.br Sebastião Carlos Leite GONÇALVES Doutor Universidade Estadual Paulista – CSJRP E-mail: scarlos@ibilce.unesp.br Resumo Neste artigo, tratamos do processo fonológi- co de apagamento do /d/ no morfema de ge- rúndio “ndo” em uma variedade do Português Brasileiro. Com base em análise acústica e per- ceptual, verificamos que, quando /d/ tem seus parâmetros acústicos alterados, os ouvintes percebem seu apagamento no morfema de ge- rúndio. Essa correlação, porém, não é categóri- ca. A regra de apagamento do /d/ é variável e se aplica somente a formas de gerúndio. Esses fatos levam ao desafio de interpretar o proces- so ou como regra lexical ou como poslexical. Fundamentados nos pressupostos da Fonolo- gia Lexical, defendemos que se trata de regra lexical. Na análise variacionista do fenômeno, analisamos 76 amostras de fala constituídas a partir do controle das variáveis sociais sexo/ gênero, idade e escolaridade. Constatamos que homens jovens e com poucos anos de escolari- dade são os que mais aplicam o apagamento de /d/ nas formas de gerúndio, o que nos permite concluir, com base em hipóteses clássicas da atuação de variáveis sociais, que tal fenômeno é estigmatizado na comunidade de fala estudada. Palavras-chave gerúndio; fonética; fonologia; sociolinguística; Português Brasileiro 168 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 Introdução Este artigo trata do morfema de gerúndio “ndo” que pode ser realizado como [no], por meio de um processo fonológico aqui denominado apagamento do /d/, o qual é recorrente na variedade do Português falado na região paulista de São José do Rio Preto (SP), Brasil. Assim, formas como “falando”, “comendo”, “pondo” e “partindo” podem ser realizadas, respectivamente, como “fala[no]”, “come[no]”, “po[no]” e “parti[no]”. O estudo apenas das formas de gerúndio justifica-se por esse fenômeno ser recorrente somente nesse tipo de morfema no córpus da variedade estudada, não atingindo demais palavras que tenham “ndo”, como “Fernando”, “segundo”. Essa constatação já particulariza a varieda- de paulista frente ao que é relatado, por Mollica e Mattos (1992), sobre a va- riedade carioca, que apresenta ocorrências de redução de “ndo” em “mundo”, por exemplo. O objetivo, neste texto, é o de caracterizar o apagamento do /d/ na variedade do Português do noroeste paulista, problematizando o fato de ser uma regra lexical, mas de natureza variável, e o de buscar, ainda, identificar as variáveis sociais que condicionam sua aplicação. A maioria dos trabalhos já realizados sobre o gerúndio em Português do Brasil (doravante, PB) trata-o a partir de uma perspectiva morfossintática (cf. LEMLE 1984), e outros poucos tecem considerações acerca da possibilidade de redução da forma “ndo” (por meio do processo de apagamento do /d/), mas sem aprofundamento do estatuto morfofonológico de tal redução (cf. MOLLI- CA, 1989; CRISTÓFARO SILVA, 1996; MARTINS, 2006). Frente a produtividade do apagamento de /d/ em contextos de gerúndio, no PB, pode-se considerar que poucos são também os trabalhos que se dedicam exclusivamente à inves- tigação do fenômeno, sob perspectiva sociolinguística (cf. MARTINS, 2001, 2004; MOLLICA; MATTOS, 1992). Assim, este artigo se diferencia, frente a es- ses trabalhos, por conjugar essas duas perspectivas, ou seja, apresentar carac- terísticas fonético-fonológicas do processo de apagamento de /d/ e descrevê- lo de uma perspectiva sociolinguística. Apresentamos, aqui, parte dos resultados de Ferreira (2010), que discute, com detalhes em que medida o fenômeno em análise suscita uma questão de natureza fonológica, que diz respeito à interpretação de a regra ser de nature- za lexical por se aplicar somente a morfemas de gerúndio, embora se comporte como regra variável (o que por definição, é de natureza pós-lexical), condicio- nada por fatores de natureza interna (linguísticos) e externa (extralinguísti- cos). Neste artigo, descrevemos esse problema sem, no entanto, constituir nos- so objetivo tratar da adequada interpretação fonológica do fenômeno. Para o desenvolvimento do tema aqui delimitado, este texto está organi- zado do seguinte modo: na seção 1., apresentamos as questões e os pressu- postos teóricos que embasam o fenômeno e os resultados aqui expostos; na seção 2., problematizamos, com base em dados acústicos, a possibilidade de haver ou não o apagamento do /d/ na forma “ndo” do gerúndio, e, na seção seguinte, a possibilidade de o fenômeno ser visto como regra lexical, mesmo 169R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 apresentando característica de regra variável. Descritas as características fo- nético-fonológicas do fenômeno, passamos, na seção 4., a tratar da análise das variáveis sociais investigadas. Finalizamos o artigo sistematizando os resulta- dos tratados nas seções anteriores. Definindo questões e abordagens teóricas A redução de “ndo” é, há muito tempo, abordada por alguns autores que descrevem as variedades do PB. Segundo os trabalhos de dialetologia, o apaga- mento de /d/ em morfema de gerúndio no PB é registrado desde o trabalho de Amaral (1920). Assim, encontram-se sobre o tema vários estudos dialetológi- cos, como os de Marroquim (1934) e de Teixeira (1938), variacionistas, como os de Mollica (1989) e de Martins (2001, 2004), fonético-fonológicos, como os de Dalpian e Méa (2002) e de Cristófaro Silva (1996), dentre outros. O presen- te trabalho se particulariza por articular uma abordagem fonético-fonológica a uma variacionista, na investigação do apagamento do /d/ de morfema “-ndo” de gerúndio. Cristófaro Silva (1996) investiga alguns aspectos de mudanças na organi- zação da sequência sonora do PB de Belo Horizonte, para mostrar a interação existente entre processos fonológicos e componentes morfológicos e sintáticos da gramática. Relativamente ao morfema de gerúndio, a autora constata que, em algumas variedades do PB ocorrem formas como “fala[nu]” e “menti[nu]” (para “falando” e “mentindo”, respectivamente), em que a sequência de vogal nasal acentuada seguida de [do] passa a [no]. Segundo suas palavras: Quando temos [falãdu] a consoante nasal cumpre o seu papel de nasalizar a vogal precedente e /do/ ocorre como a sílaba final. Quando temos [falãnu] a consoante nasal cumpre o seu papel de nasalizar a vogal precedente, mas a consoante nasal irá também ocupar a posição de consoante inicial da sílaba final. (CRISTÓFARO SILVA, 1996, p. 61) Cristófaro Silva salienta que esse processo de redução: (i) se aplica apenas às formas de gerúndio; (ii) se aplica com informação morfológica dada pelo componente fonológico e morfológico (forma de gerúndio); (iii) não leva à re- organização lexical, ou seja, não há mudança de organização interna do léxico, visto que palavras contendo o mesmo contexto favorável à redução e que não portam informação morfológica de gerúndio não são afetadas pelo processo. Antecipamos que essa caracterização também se aplica para a variedade do noroeste paulista em foco neste trabalho. Neste artigo, seguindo Cagliari (2002), empregamos o termo “apagamen- to” para designar o processo de eliminação do [d] no morfema de gerúndio “ndo”, pois, segundo o autor, uma regra de eliminação/apagamento ocorre quando há supressão de segmento da forma básica de um morfema. Assim, a forma nominal do gerúndio do verbo “falar” (“falando”) tem a oclusiva /d/ apagada na variedade estudada, como em (1): 170 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 (1) falando ð [falãndo] ou [falãno] Para Ohala (1979), os casos que envolvem alternância de som na fala ocor- rem por meio de variações alofônicas, mudanças de som e/ou variação morfo- fonêmicas. Ainda segundo Ohala (1979, p. 360), os estudos de cunho acústico são de suma importância para a prática da Fonologia, porque nos ensinam a buscar hipóteses explicativas para a resolução de problemas de interpretação de fenômenos fonéticos. Além de investigar aspectos acústicos relativos à realização ou não do seg- mento /d/, quando parte do morfema de gerúndio “ndo”, consideramos tam- bém a natureza fonológica do processo estudado. Dado que o fenômeno ocorre em contexto morfológico, este trabalho considera, também, estudos sobre o PB que se fundamentam na Fonologia Lexical (doravante, FL), em cujo modelo clássico os componentes da fonologia e da morfologia se intermisturam, de modo que as regras fonológicas relevantes se aplicam à saída de toda regra morfo- lógica, criando uma forma que é entrada para outra regra morfológica (LEE, 1995, p. 05). A FL é caracterizada pela interação entre a morfologia e a fonologia. Ki- parsky (1982), ao analisar o inglês, diz que o léxico de uma língua está or- ganizado em uma série de níveis, que são os domínios para regras fonológi- cas e morfológicas. Lee (1995), ao analisar dados do PB, assume que há dois níveis ordenados: nível derivacional (α) e nível flexional (β), que funcionam como domínios da aplicação de regras fonológicas e morfológicas. Segundo Lee (1995), o nível 1 (α) inclui todos os processos derivacionais, a flexão irregular e alguns processos de composição aos quais se podem acrescen- tar os sufixos derivacionais; o nível 2 (β) inclui a flexão regular do verbo e do não-verbo e a formação de palavras produtivas do português, como as formações de diminutivo (“-inho”, “-zinho”), de advérbio em “-mente” e de grau (“-íssimo”). O nível ω (palavra prosódica), saída do léxico e entrada para a sintaxe, compreende o componente pós-lexical e prevê que a aplicação da regra é não-cíclica e não afeta as operações morfológicas. Além disso, na FL, há dois tipos de regras fonológicas: as regras lexicais e as pós-lexicais. Estas são caracterizadas por terem aplicação variável, e entre palavras, além de serem condicionadas foneticamente e poderem introduzir no léxico novos segmen- tos. Aquelas são caracterizadas por possuírem aplicação categórica dentro do léxico; além disso, preservam a estrutura da palavra, por serem sensíveis à informação morfológica. Como observado anteriormente, o fenômeno em estudo também pode ser condicionado por variáveis estruturais e sociais, motivação que nos levou à realização também de uma investigação sob perspectiva variacionista. Os estudos que se referem ao contexto social em que a língua é usada de- 171R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 fendem a ideia de que elementos da estrutura linguística submetem-se a uma variação sistemática. Um dos estudiosos principais nessa área de investigação é Labov (1972), por seu pioneirismo em buscar explicação para fenômenos lin- guísticos variáveis na correlação com diferentes aspectos sociais, como classe social, sexo/gênero, atitude profissional, etnia etc. É também sob tal perspec- tiva teórico-metodológica que erigimos as bases de nossa investigação sobre a realização do morfema de gerúndio, com a finalidade de mostrar qual o julga- mento social de seu uso como regra variável. Por exemplo, Wolfram e Fasold (1974) argumentam que existe uma espécie de julgamento das características sociais de um indivíduo por seu modo de falar; logo, para esses autores, do mes- mo modo que há classes sociais, também há dialetos sociais, o que implica di- zer que não há uma variedade melhor ou pior. Alkmim (2001) também discute essa valoração das variedades linguísticas, a qual reflete a hierarquia dos gru- pos sociais. Para a autora, há variedades prestigiadas e estigmatizadas. Na pri- meira, há uma variedade padrão, que é socialmente mais valorizada, variedade que estabelece um conjunto de normas que definem o modo “certo” de falar. Para Labov (1972, p. 290), há algum suporte empírico para postular a oposição entre dois conjuntos de valores quanto ao correlato normativo de marcadores sociolingüísticos estáveis (…) [e] o objeto apropriado de estudo não deve ser só o comportamento, ou só as normas, mas sim o grau em que (e as regras das quais) as pessoas se desviam das normas explícitas que elas sustentam. Feitas essas breves considerações sobre os aspectos fonético-fo- nológicos e sociolinguísticos que fundamentam a descrição do fenômeno lin- guístico que investigamos, adotamos, então, três arcabouços teóricos para a investigação do apagamento do /d/ em morfema de gerúndio. A relação entre eles se justifica devido à proposta de análise dos diferentes aspectos que en- volvem o fenômeno ora focalizado. Assim é que recorremos aos pressupostos da Fonética Acústica para responder, por meio de uma inspeção acústica, ao questionamento de se há ou não a realização do /d/ em “ndo”, aos da Fono- logia Lexical, para descrever e interpretar fonologicamente o processo, visto que envolve questões fonológicas e morfológicas, e, por fim, aos da teoria va- riacionista, para analisar o fenômeno em seu contexto sociocultural, por meio de uma investigação empírica, considerando tanto variáveis extralinguísticas quanto linguísticas. Quando há apagamento ou realização de /d/ em “ndo”? A fim de responder a questão que dá título a esta seção, Ferreira (2010) fez um experimento para proceder a uma avaliação perceptual da realização do morfema de gerúndio, seguida de uma inspeção acústica dos mesmos ar- quivos sonoros. Neste artigo, trazemos um resultado, dentre aqueles obtidos por meio do experimento fonético e da inspeção acústica, relevante para a ca- racterização do processo. Para a elaboração do experimento fonético, foram controladas três vari- 172 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 áveis: (i) conjugação verbal (1ª, 2ª, 3ª); (ii) regularidade/irregularidade mor- fológica do verbo (REG, não-REG); (iii) estrutura sintática (Perífrase, Oração reduzida, Frase foco sem redução e com redução da forma do morfema). A par- tir dessas variáveis foram construídas 24 sentenças, as quais foram gravadas por 3 informantes (mulheres com idade entre 24 e 25 anos, de nível superior e natural de São José do Rio Preto), que repetiram três vezes cada sentença, resultando em 216 ocorrências de sentenças com formas de gerúndio. Esses arquivos sonoros serviram para a inspeção acústica do apagamento do /d/ e também para realização de um teste de percepção. Durante o teste de percepção, os ouvintes-juízes foram orientados a in- dicar a presença ou a ausência do /d/ quando em morfema de gerúndio. A presença é caracterizada quando se percebe, de oitiva, a realização do seg- mento em contexto de gerúndio, como, por exemplo, em “sain[d]o”; a ausên- cia é caracterizada quando não é possível, de oitiva, detectar a realização do segmento /d/ em contexto de gerúndio, como, por exemplo, em “sain[Ø]o”. Na inspeção acústica, realizada por meio do programa PRAAT, adotamos os crité- rios de quantificação da closura, burst, transição formântica e duração relativa da consoante /d/. Esses parâmetros dão pistas para caracterizar a presença da consoante, segundo Kent e Read (1992), por exemplo. Dentre os resultados da inspeção acústica dos dados, verificamos que um mesmo informante alterna a velocidade de fala ao fazer a repetição das frases do experimento, o que leva a diferenças na realização do morfema de gerún- dio. Isso nos remete às considerações de Labov (1972), segundo o qual não existe falante de estilo único. Ainda é possível afirmar, resgatando a discussão de Ohala (1979), que, a partir de inspeção acústica, também podemos descre- ver os fenômenos linguísticos, uma vez que nem sempre o que ouvimos é exa- tamente aquilo que produzimos, como podemos notar na análise comparativa dos resultados do experimento de base perceptual e o de base acústica, por meio do quadro 1. Quadro 1. Comparação entre análise perceptual e inspeção acústica, por aplicação (1) ou não aplicação (0) do apagamento da consoante /d/ Para a elaboração do experimento fonético, foram controladas três variáveis: (i) conjugação verbal (1ª, 2ª, 3ª); (ii) regularidade/irregularidade morfológica do verbo (REG, não-REG); (iii) estrutura sintática (Perífrase, Oração reduzida, Frase foco sem redução e com redução da forma do morfema). A partir dessas variáveis foram construídas 24 sentenças, as quais foram gravadas por 3 informantes (mulheres com idade entre 24 e 25 anos, de nível superior e natural de São José do Rio Preto), que repetiram três vezes cada sentença, resultando em 216 ocorrências de sentenças com formas de gerúndio. Esses arquivos sonoros serviram para a inspeção acústica do apagamento do /d/ e também para realização de um teste de percepção. Durante o teste de percepção, os ouvintes-juízes foram orientados a indicar a presença ou a ausência do /d/ quando em morfema de gerúndio. A presença é caracterizada quando se percebe, de oitiva, a realização do segmento em contexto de gerúndio, como, por exemplo, em “sain[d]o”; a ausência é caracterizada quando não é possível, de oitiva, detectar a realização do segmento /d/ em contexto de gerúndio, como, por exemplo, em “sain[Ø]o”. Na inspeção acústica, realizada por meio do programa PRAAT, adotamos os critérios de quantificação da closura, burst, transição formântica e duração relativa da consoante /d/. Esses parâmetros dão pistas para caracterizar a presença da consoante, segundo Kent e Read (1992), por exemplo. Dentre os resultados da inspeção acústica dos dados, verificamos que um mesmo informante alterna a velocidade de fala ao fazer a repetição das frases do experimento, o que leva a diferenças na realização do morfema de gerúndio. Isso nos remete às considerações de Labov (1972), segundo o qual não existe falante de estilo único. Ainda é possível afirmar, resgatando a discussão de Ohala (1979), que, a partir de inspeção acústica, também podemos descrever os fenômenos linguísticos, uma vez que nem sempre o que ouvimos é exatamente aquilo que produzimos, como podemos notar na análise comparativa dos resultados do experimento de base perceptual e o de base acústica, por meio do quadro 1. Quadro 1. Comparação entre análise perceptual e inspeção acústica, por aplicação (1) ou não aplicação (0) do apagamento da consoante /d/ Estrutura  Perífrase Frase foco  Análise  Perceptiva  Acústica Perceptiva Acústica  Repetição  1ª  2ª  3ª  1ª 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª  1ª  2ª  3ª  Verbo  Inf.        Verbo Inf.       brincar  2  0  0  0  1 0 0 Brincar 2 0 0 0 1  0  0    3  1  0  1  1 1 1 Dar 3 0 0 0 1  1  1  morrer  2  0  0  1  0 1 1 Morrer 3 1 1 1 1  1  0  perder  2  0  0  0  0 1 0 Perder 3 1 0 0 1  1  0  sair  2  1  0  1  1 1 1 Sair 3 0 0 0 1  0  0  Ao compararmos a análise perceptual e a acústica, observamos que a divergência ocorreu entre sentenças com as estruturas Perífrase e Frase foco. No quadro, estão sombreadas as ocorrências divergentes quanto ao que foi percebido e realizado para três repetições (1, 2 e 3) produzidas pelos informantes (inf. 2 e inf. 3) ao lerem as frases do experimento acústico que apresentavam estrutura de Perífrase, como em “Pedro está brincando pela rua”, e de Frase Foco, como em “Diga “brincando” para ele”, formadas com os verbos “dar, brincar, morrer, perder, sair”. No que se refere à ausência ou presença do [d] em morfema de gerúndio, houve apenas 12 ocorrências (células Ao compararmos a análise perceptual e a acústica, observamos que a di- vergência ocorreu entre sentenças com as estruturas Perífrase e Frase foco. 173R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 No quadro, estão sombreadas as ocorrências divergentes quanto ao que foi percebido e realizado para três repetições (1, 2 e 3) produzidas pelos infor- mantes (inf. 2 e inf. 3) ao lerem as frases do experimento acústico que apre- sentavam estrutura de Perífrase, como em “Pedro está brincando pela rua”, e de Frase Foco, como em “Diga “brincando” para ele”, formadas com os verbos “dar, brincar, morrer, perder, sair”. No que se refere à ausência ou presença do [d] em morfema de gerúndio, houve apenas 12 ocorrências (células sombrea- da no quadro) que apresentaram divergências do total de 216 ocorrências do experimento. Observamos, ainda, que a maioria das divergências refere-se à não-aplica- ção do apagamento, na análise perceptual, em que reconhecemos, por exem- plo, a realização ‘brinca[ndo]’, mas que a inspeção acústica revelou, na verda- de, tratar-se de variante com o apagamento, como, por exemplo, ‘brinca[no]’. O fato de um segmento percebido como realizado não ser atestado por meio da inspeção acústica pode ser motivado pela percepção de algum parâmetro caracterizador da consoante [d]; no entanto, esse segmento pode, de fato, não ter sido produzido com todos os parâmetros suficientes para caracterizá-lo na inspeção acústica. Se considerados os resultados do experimento de base perceptual, observamos que, na Frase Foco com o verbo “morrer”, a forma de gerúndio foi percebida como tendo sofrido apagamento, mas, na inspeção acústica, não se constatou a ausência de /d/, não se confirmando, portanto, a redução. Exemplificamos, na tabela 1, as pistas acústicas caracterizadoras da consoante /d/ em morfema de gerúndio. tabela1. parâmetros acústicos para [d], no verbo “morrendo”, realizado pela informante 3 na terceira repetição sombreada no quadro) que apresentaram divergências do total de 216 ocorrências do experimento. Observamos, ainda, que a maioria das divergências refere-se à não-aplicação do apagamento, na análise perceptual, em que reconhecemos, por exemplo, a realização ‘brinca[ndo]’, mas que a inspeção acústica revelou, na verdade, tratar-se de variante com o apagamento, como, por exemplo, ‘brinca[no]’. O fato de um segmento percebido como realizado não ser atestado por meio da inspeção acústica pode ser motivado pela percepção de algum parâmetro caracterizador da consoante [d]; no entanto, esse segmento pode, de fato, não ter sido produzido com todos os parâmetros suficientes para caracterizá-lo na inspeção acústica. Se considerados os resultados do experimento de base perceptual, observamos que, na Frase Foco com o verbo “morrer”, a forma de gerúndio foi percebida como tendo sofrido apagamento, mas, na inspeção acústica, não se constatou a ausência de /d/, não se confirmando, portanto, a redução. Exemplificamos, na tabela 1, as pistas acústicas caracterizadoras da consoante /d/ em morfema de gerúndio. Tabela1. Parâmetros acústicos para [d], no verbo “morrendo”, realizado pela informante 3 na terceira repetição Frase Foco Repetição Closura (ms) Burst (ms) F1 (Hz) F2 (Hz) 3 18 9 449 1556  Dos resultados da inspeção acústica realizada para caracterizar a presença de /d/, destacamos as evidências a favor da – ou contra à – hipótese que formulamos de que a redução de gerúndio esteja relacionada apenas à informação de morfema de gerúndio e de que seja uma regra de aplicação variável condicionada pela estrutura sintática. A partir dos parâmetros acústicos do /d/ em contexto de morfema de gerúndio, encontramos argumentos para concluir que a percepção do apagamento do morfema de gerúndio está relacionada a uma perda de qualidade da consoante /d/, pois os valores de closura, burst, transição formântica e duração relativa dessa consoante demonstram frequências médias diferentes dos postulados pela literatura. Constatamos, por exemplo, realizações da consoante /d/ com uma closura de 18ms, o que indica uma perda de sua qualidade, já que na literatura esse parâmetro seria de 50 a 100ms. Mesmo tendo sido identificado que os demais parâmetros se encontram dentro do que é definido na literatura (cf. Tabela 1), essa realização de /d/ com closura de 18ms foi percebida como uma forma reduzida do morfema de gerúndio. A inspeção acústica revelou ainda que, de modo geral, a estrutura sintática perífrase, como em “Maria está dando um jantar”, é o ambiente que propicia a aplicação da regra de apagamento do /d/ em morfema de gerúndio, enquanto frase foco, como em “Diga ‘morrendo’ para ele”, é o ambiente que tende a desfavorecer a aplicação da regra. Esses resultados revelam que, em um teste de percepção, a estratégia de frase-foco captura um estilo mais formal do falante do que a construção de sentenças com formas de gerúndio. Foi possível constatar uma sistemática diferença entre percepção e produção de uma mesma forma linguística, que, no mínimo, permite corroborar a afirmação de Labov, já questionada na literatura sociolinguística, de que uma comunidade de fala não se resume a pessoas que falam do mesmo modo, mas que compartilham as mesmas regras com respeito à variedade adotada. Assim, a inspeção acústica converge com a Dos resultados da inspeção acústica realizada para caracterizar a presen- ça de /d/, destacamos as evidências a favor da – ou contra à – hipótese que formulamos de que a redução de gerúndio esteja relacionada apenas à infor- mação de morfema de gerúndio e de que seja uma regra de aplicação variável condicionada pela estrutura sintática. A partir dos parâmetros acústicos do /d/ em contexto de morfema de gerúndio, encontramos argumentos para concluir que a percepção do apaga- mento do morfema de gerúndio está relacionada a uma perda de qualidade da consoante /d/, pois os valores de closura, burst, transição formântica e dura- ção relativa dessa consoante demonstram frequências médias diferentes dos postulados pela literatura. Constatamos, por exemplo, realizações da conso- ante /d/ com uma closura de 18ms, o que indica uma perda de sua qualidade, já que na literatura esse parâmetro seria de 50 a 100ms. Mesmo tendo sido 174 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 identificado que os demais parâmetros se encontram dentro do que é definido na literatura (cf. Tabela 1), essa realização de /d/ com closura de 18ms foi per- cebida como uma forma reduzida do morfema de gerúndio. A inspeção acústica revelou ainda que, de modo geral, a estrutura sintáti- ca perífrase, como em “Maria está dando um jantar”, é o ambiente que propicia a aplicação da regra de apagamento do /d/ em morfema de gerúndio, enquan- to frase foco, como em “Diga ‘morrendo’ para ele”, é o ambiente que tende a desfavorecer a aplicação da regra. Esses resultados revelam que, em um teste de percepção, a estratégia de frase-foco captura um estilo mais formal do fa- lante do que a construção de sentenças com formas de gerúndio. Foi possível constatar uma sistemática diferença entre percepção e pro- dução de uma mesma forma linguística, que, no mínimo, permite corroborar a afirmação de Labov, já questionada na literatura sociolinguística, de que uma comunidade de fala não se resume a pessoas que falam do mesmo modo, mas que compartilham as mesmas regras com respeito à variedade adotada. Assim, a inspeção acústica converge com a análise variacionista no aspecto de que os processos fonológicos variáveis geram diferenças entre percepção e produção com alta frequência. Regra lexical ou pós-lexical? Conforme prevê o modelo da Fonologia Lexical, a flexão de gerúndio está no nível 2 (β) do léxico, pois aí inclui-se a flexão regular do verbo. Seguindo esse modelo, procuramos tratar das características dos domínios de aplica- ção do fenômeno de redução do gerúndio. Além disso, pretendemos, abordar a questão sobre a regra de redução de gerúndio ser lexical ou pós-lexical no PB.1 Em (2), apresentamos a regra de apagamento do /d/, que se aplica ape- nas às formas de gerúndio e não a outras formas verbais. Os vários processos fonológicos pelos quais as formas verbais passam também são apresentados a seguir: (2) /manda+ndo/ /mand+o/ Nível β mandando mando sufixação de β mãndãndo mãndo nasalização mãndãno _____ apagamento do d Nível ω mãndãnu mandu neutralização Representação fonética [mãdãnu] [mãdu] Com as representações em (2), queremos mostrar que, em um primeiro momento, os itens lexicais são atingidos pela sufixação, ou seja, a flexão regu- 1 Uma discussão mais detalhada se encontra em Ferreira e Tenani (2009). 175R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 lar dos verbos; em um segundo momento, os itens lexicais são atingidos pelo processo de nasalização; em um terceiro momento, a regra de apagamento aplica-se somente à forma de gerúndio. Dessa forma, a regra não se aplica aos termos do nível β que não teriam preservada a estrutura do léxico, como ex- plicitado em (3). Logo, demonstramos que o domínio da aplicação dessa regra lexical é o nível β. (3) [falar] [fal[a[ndo]]] sufixação [fal[ã[ndo]]] nasalização [fal[ã[no]]] apagamento do “d” [falãnu] representação fonética Defendemos, portanto, que o fenômeno de apagamento do /d/ — na va- riedade estudada — não se aplica aos itens do nível α nem a todos os itens do nível β do léxico, pois, nos dois casos, a regra é bloqueada pelo princípio de Preservação de Estrutura (SP), o qual prevê que somente segmentos contras- tivos de cada língua podem ocorrer durante as operações lexicais, determi- nando os tipos de regras fonológicas que podem se aplicar no léxico de modo a preservar a sua estrutura. Além disso, a aplicação do fenômeno também é condicionada pelo princípio de Condição de Ciclo Estrito (SCC), já que o verbo no gerúndio ocorre somente no nível β, e esse princípio bloqueia a regra em ambientes não derivados, isto é, aplica-se a regra somente a “ndo” que este seja morfema e não quando parte de raiz de palavra. Logo, segundo esses prin- cípios, não ocorrem formas como *[lĩnu] para “lindo”, no nível α, nem *[mãnu] para “mando”, no nível β, porque a aplicação da regra alteraria a estrutura da palavra e atingiria outro nível do léxico. Portanto, a fronteira de morfema de gerúndio é fundamental na definição da regra. Para a variedade em estudo, essa regra de redução de gerúndio é variá- vel, característica que a faria ser interpretada como uma regra pós-lexical. No entanto, a regra não se caracteriza como pós-cíclica porque atinge somente as formas verbais de gerúndio e não outros itens lexicais (uma vez que se sujeita aos princípios de SP e SCC, princípios aos quais as regras pós-cíclicas não se sujeitam, já que estas regras desconhecem as informações morfológicas). Des- se modo, o apagamento de /d/ em morfema de gerúndio é, aqui, interpretado como regra lexical por ser aplicável apenas aos morfemas de gerúndio e não a outras formas lexicais ou entre palavras2. A comparação entre as possíveis realizações do par “vendo” (1ª pessoa, singular, do presente do indicativo de “vender”) e “vendo” (forma do gerúndio do verbo “ver”) atesta essa afirmação: 2 Em outras variedades do PB, o fenômeno já está atingindo outros níveis. Por exemplo, Molli- ca (1989) apresenta dados do tipo ‘qua[no]’ e ‘fala[no]’ para o dialeto carioca, em que a pri- meira forma pertence ao nível α e a segunda ao nível β. Podemos dizer que, nesse dialeto, o apagamento está atingindo várias classes gramaticais e que a sua aplicação é opcional. Uma vez que a regra tem o comportamento variável, esta é de natureza poslexical. 176 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 a forma [] só pode ser interpretada como a forma do gerúndio do verbo “ver” e nunca como a forma “vendo” do verbo “vender”. Em outras palavras, para “vend+o” apenas a realização [] é possível, enquanto para “ve+ndo” é possível haver duas realizações [] ~ []. Diante da constatação de essa regra de apagamento de /d/ ser variável, passamos, na próxima seção, a tratar de variáveis que podem estar condicionando esse comportamento. Regra variável e estigmatizada? Nesta seção, apresentamos o banco de dados utilizado, os grupos de fato- res investigados e os resultados obtidos, por meio do programa GoldVarb, na análise variacionista da regra de redução do morfema de gerúndio na comuni- dade de fala3 de São José do Rio Preto, Brasil. O grupo de informantes que participam de nossa investigação foi selecio- nado do banco de dados Iboruna, que, reunindo inquéritos de fala do interior do Estado de São Paulo, coletados sob rigoroso controle de variáveis sociais, compõe-se dois tipos de amostra de fala: Amostra Comunidade (ou Amostra Censo) e Amostra de Interação Dialógica. Nesta pesquisa, utilizamos apenas in- quéritos da Amostra Censo (doravante, AC), provenientes da cidade de São José do Rio Preto e de seis cidades fronteiriças, a saber: Bady Bassit, Cedral, Guapia- çu, Ipiguá, Mirassol e Onda Verde. Para a coleta das amostras, os informantes foram estratificados em: (i) sexo/gênero (masculino/feminino), (ii) faixa etá- ria (de 7 a 15 anos; de 16 a 25 anos; de 26 a 35 anos; de 36 a 55 anos; mais de 55 anos), (iii) nível de escolaridade (1º Ciclo do Ensino Fundamental; 2º Ciclo de Ensino Fundamental; Ensino Médio; Ensino Superior); e (iv) renda familiar (mais de 25 salários mínimos (SM); de 11 a 24 SM; de 6 a 10 SM; até 5 SM). Para o presente estudo, selecionamos os seguintes perfis sociais de in- formantes: de sexo feminino e masculino, pertencentes às cinco faixas etárias, aos quatro níveis de escolaridade e a duas faixas de renda familiar (de até 5 SM e de 6 a 10 SM). Do nosso interesse na investigação dessas variantes sociais, selecionamos do banco de dados 76 amostras de fala4. Dessas 76 amostras, in- vestigamos apenas o trecho que corresponde às narrativas de experiência pes- soal, escolha que se fundamenta na minimização do paradoxo do observador (LABOV, 1972), que prevê o desvio da atenção do falante com assuntos e per- guntas que possibilitem fortes emoções devido a alguma experiência do passa- do. Dessa forma, partimos da premissa já estabelecida de que, ao produzir esse tipo de narrativa, o informante, em geral, está menos atento à monitoração de sua fala, e, portanto, afrouxando a preocupação com a norma padrão da língua. 3 O conceito de comunidade de fala adotado é o mesmo formulado por Labov (1972). Nesta pesquisa, a comunidade de fala estudada é representada por um grupo de falantes que com- partilha as mesmas normas da língua na região investigada. 4 Cabe observar que, da impossibilidade do preenchimento de células sociais resultantes do cruzamento da faixa etária de 7 a 15 anos e do nível de escolaridade superior, resultam qua- tro inquéritos a menos do total de combinatórias possíveis. 177R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 A escolha das faixas etárias investigadas se baseia nos resultados apre- sentados por Mollica (1989), que mostrou que informantes de 16 a 25 anos tendem a realizar mais o gerúndio na sua forma em “-ndo” do que informantes mais velhos, contrariando, assim, resultados esperados para a atuação variável faixa etária em fenômenos variáveis (LABOV, 1972), comportamento inespera- do que pode vir também a atingir outras variáveis sociais, como, por exemplo, o nível de escolarização do informante. Entretanto, essas são apenas hipóteses a serem testadas em nossa investigação. Além de faixa etária, consideramos o nível de escolaridade, em razão de esta variável ser sempre considerada nos estudos variacionistas de extrema relevância para explicar processos variáveis como o que aqui estamos investigando. Assim, ao considerarmos essas duas variáveis, poderemos esclarecer se ambas ou se somente uma delas atuam de modo relevante na aplicação da regra variável em questão. A consideração de informantes do sexo feminino e masculino se deve à obtenção de uma amostra heterogênea representativa da comunidade de fala estudada. A variável renda familiar, embora tenha participado da composição da subamostra do banco de dados, não foi considerada na tabulação dos dados, por conta de seu estatuto controverso como variável de enquadramento socioeconômico. Estudos como os de Mollica (1989) e Martins (2001), entre outros, já con- sideraram como regra variável o fenômeno de apagamento do /d/ em morfema de gerúndio, em que o falante, ao realizar o gerúndio, alterna entre a forma re- duzida [no] e forma não-reduzida [ndo]. Na presente pesquisa, a regra variável é entendida como uma afirmação da probabilidade de que um falante irá apli- car o mapeamento de algumas regras mais abstratas em um conjunto menos abstrato. Assim, o falante exibe seu conhecimento sobre o sufixo de gerúndio, reduzindo esse morfema, porém tudo o que o ouvinte tem de saber é se a forma [no] é opcional ou não, já que ele interpreta cada realização de gerúndio à medi- da que a recebe e, a partir disso, passa a fazer uma avaliação para aceitar, inter- pretar ou rejeitar essa regra, por meio de restrições variáveis (cf. LABOV, 1972). Para explicar uma regra variável, muitos aspectos linguísticos e extralin- guísticos podem afetar a probabilidade de aplicação da regra, o que deman- daria uma quantidade de dados imensa para calcular sua probabilidade de aplicação. A partir do método estatístico de probabilidade, é possível confir- mar ou rejeitar a hipótese de independência de condicionamentos variáveis em qualquer instância particular e, assim, oferecer dados fundamentais para validar a operação linguística básica de composição de esquemas de regras. Assim, a pesquisa quantitativa que adotamos justifica-se na asserção de que a escolha do falante entre uma ou outra forma obedece a um padrão sistemático regulado por regras variáveis que “expressam a covariação entre elementos do ambiente linguístico e do contexto social” (cf. BRESCANCINI, 2002, p. 15). Para a análise quantitativa, selecionamos na subamostra as ocorrências que apresentavam forma nominal de gerúndio e consideramos como variável dependente binária a aplicação e a não-aplicação do processo de redução do gerúndio, como mostrado em (4a) e (4b), respectivamente.. 178 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 (4) a. eu ficava conversan(d)o o tempo todo [AC-014:NE:L.75] b. ai professora tô entendendo tudo agora [AC-014:NE:L.73] Das 999 ocorrências de formas verbais no gerúndio analisadas, verifica- mos que é alta a aplicação da regra de redução na variedade estudada, atingin- do 72% das ocorrências. Esse elevado percentual evidencia que o fenômeno é uma característica marcante da variedade falada em São José do Rio Preto, interior paulista. Muitos autores, como Amaral (1920), Marroquim (1934), Coutinho (1967), Melo (1971), dentre outros, descreveram o apagamento do [d] em morfema de gerúndio como característica do falar “caipira” ou “roceiro”, típico de falantes “incultos” e “rústicos”, caracterização que revela certo estigma em torno desse fenômeno. No entanto, nossos resultados demonstram que o apa- gamento do [d] está ganhando força na variedade riopretense. Ao longo desta análise, procuramos descrever de que modo esse índice de aplicação do apa- gamento está estratificado nessa comunidade e verificar em quais segmentos sociais ele está mais presente.5 A discussão dos resultados seguirá a ordem de relevância dos grupos de fatores sociais apontada pelo programa GoldVarb. A faixa etária foi a primeira variável selecionada pelo programa como re- levante para a aplicação da regra. O Gráfico 1 demonstra os resultados desse grupo de fatores. Input 0.764 Sig. 0.042 Gráfi co 1. peso relati vo da redução do gerúndio a parti r da variável Faixa etária De acordo com o gráfico acima, informantes de 7 a 15, de 16 a 25 e os de 26 e 35 anos são os que mais aplicam a regra de apagamento do [d] em morfema 5 Em Ferreira (2010), há uma discussão de todas as variáveis linguísticas e extralinguísticas investigadas. 179R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 de gerúndio, com PR (peso relativo), respectivamente, de .63, de .56 e de .64; já os informantes de 36 a 55 anos e os de mais de 55 anos, respectivamente, apresentam PR de .44 e de .17. Assim, em relação ao apagamento do [d] em morfema de gerúndio, a aplicação da regra torna-se menos produtiva a partir da faixa etária de 36 a 55 anos e coloca de um lado os mais jovens (7 a 15, 16 a 25 e 26 a 35 anos) e de outro os mais velhos. Podemos verificar também o comportamento decrescente da aplicação do apagamento do [d] em morfema de gerúndio em relação à faixa etária, uma vez que o Gráfico 1 ilustra que a aplicação da regra é inversamente proporcional à idade, pois quanto maior a faixa etária do informante, menor é a probabilidade de aplicação da redu- ção do gerúndio. Tais resultados indicam claramente que estamos diante de um processo de mudança em progresso, visto que os PRs para informantes mais jovens indicam que a forma inovadora está suplantando a forma padrão. Verifica-se, então, que os dados da variedade da região de São José do Rio Pre- to confirmam a hipótese de Labov (1972), que prevê que falantes mais velhos preservam a variante padrão, contrariamente ao que observa Mollica (1989) para fenômeno semelhante. Quanto à variável escolaridade, essa foi a segunda mais significativa se- lecionada pelo GoldVarb em nosso estudo. O Gráfico 2 mostra os resultados obtidos. Input 0.764 Sig. 0.042 Gráfi co 2. peso relati vo da redução do gerúndio a parti r da variável Escolaridade Segundo os dados do Gráfico 2, o nível de escolaridade que mais favo- rece o apagamento do [d] em morfemas de gerúndio é o de informantes de 1º ciclo do EF, seguido pelo de informantes de 2º ciclo do EF, que levemente favorece a aplicação da regra, enquanto os níveis de ensino médio e superior claramente atuam na preservação do [d], com PRs abaixo de 0.5. Assim, es- 180 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 ses resultados indicam que a regra de apagamento do [d] em contexto de morfema de gerúndio é inversamente proporcional ao aumento do nível de escolaridade, ou seja, quanto mais escolarizado menor a probabilidade da aplicação da regra. Esses resultados demonstram que há uma ratificação das correlações confirmadas em outros trabalhos variacionistas (como os de Vo- tre (1994, 2003), Martins (2001), dentre outros) de que maiores níveis de escolarização estão sempre associados ao uso mais frequente da forma pa- drão e menores níveis de escolarização ao uso mais frequente da forma não- padrão. Devido à aplicação da regra apresentar-se inversamente proporcio- nal ao aumento do grau de escolaridade, comprova-se o pouco prestígio da forma inovadora. Assim, concluímos que essa possa ser a tendência para o fenômeno em questão, e uma possível explicação para esses resultados seria o fato de os informantes mais escolarizados terem maior conhecimento da gramática normativa e dos seus valores sociais, uma vez que as formas pri- vilegiadas são aquelas provindas da gramática e dos grupos sociais de maior prestígio, que, consequentemente, na maioria das vezes, compõem-se de in- divíduos com maior grau de escolaridade. Dos fatores extralinguísticos, a variável sexo/gênero foi a última se- lecionada como significativa. O Gráfico 3 mostra os resultados para essa variável. Input 0.764 Sig. 0.042 Gráfi co 3. peso relati vo da redução do gerúndio a parti r da variável Escolaridade Demonstramos, no Gráfico 3, que indivíduos do gênero Masculino favo- recem a aplicação da regra, pois, para esse fator, o PR é de .59, enquanto para o fator gênero Feminino, o PR é de .40, levemente desfavorável. Os resultados apresentados para a variedade riopretense confirmam a premissa variacionis- ta de que mulheres são relativamente mais sensíveis às formas de prestígio (forma padrão). Segundo Labov (1972), essa diferença linguística ocorre por- 181R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 que as mulheres têm mais percepção dos sinais de estratificação social. A esse respeito, o autor afirma ainda que homens e mulheres são socialmente dife- rentes, no sentido de que a sociedade lhes confere papéis distintos e, por isso, espera deles comportamentos linguísticos também distintos, uma vez que a linguagem reflete esse fato social. A partir dos resultados apresentados até o momento, podemos dizer que a forma reduzida do gerúndio está mais presente na fala dos mais novos, na dos menos escolarizados e na dos homens. Tais indícios apontam, então, para a tendência de considerá-la como uma forma desprestigiada, o que leva a um quadro típico de variante inovadora e aponta para a sua estigmatização. Esses resultados assinalam também que a variante inovadora está espraiada social- mente, e, desse modo, com o intuito de detectar focos sociais de uso, passamos ao cruzamento dos fatores sociais, com o objetivo de melhor descrever a apli- cação do fenômeno em relação a essas variáveis. Inicialmente, apresentamos o cruzamento dos grupos de fatores idade e sexo dos informantes. Os resultados são dados no Gráfico 4. Input 0.745 Sig. 0.000 Gráfi co 4. Cruzamento das variáveis faixa etária e sexo/gênero: aplicação do apagamento do [d] do morfema de gerúndio (em p.R.). Observamos, no Gráfico 4, que informantes masculinos mais jovens são os que mais favorecem o apagamento do [d] de gerúndio, e informantes do sexo feminino, de modo geral, os que mais desfavorecem-no, independentemente da faixa etária, sempre com PR próximo ou abaixo de 0.5. Relativamente ao fenômeno em questão, o comportamento diferenciado de gênero se neutraliza na faixa de 16 a 25 anos, e se acentua na faixa seguinte, de 26 a 35 anos, na qual o perfil masculino fortemente se associa à forma não padrão. Nas duas últimas faixas etárias, o comportamento entre os dois gêneros não é tão díspar, ambos desfavorecem o apagamento do [d], embora informantes do gênero feminino 182 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 estejam sempre na dianteira do uso da forma padrão. Observe-se, entretanto, que, no tocante ao gênero feminino, mulheres de faixas etárias mais avançadas são mais conservadoras do que as de faixa etária mais nova. Fica claro, ainda, que os informantes masculinos de 7 a 15 anos e os de 26 a 35 anos têm o mes- mo comportamento favorecedor da regra6. Esses resultados confirmam as correlações vistas em outros trabalhos de que mulheres, de modo geral, e falantes de mais idade, quer homens, quer mu- lheres, preservam mais as formas de prestígio. A aplicação da regra é maior entre os informantes masculinos mais jovens, apresentando queda gradativa do apagamento do [d] entre falantes mais velhos (acima de 35 anos). Assim, podemos dizer, a partir desses resultados, que o apagamento do [d] em mor- fema de gerúndio está indicando mudança em progresso, na comunidade de fala investigada, sobretudo quando se considera a primeira faixa etária. Em razão de esta mudança ser liderada pelos homens, podemos esperar, com base em Labov (1972), que ela ocorra de forma mais lenta, pois, segundo o autor, a maioria das crianças adquirirem a sua primeira língua por meio das mulheres que transmitem uma forma relativamente conservadora a seus filhos, e as mu- danças dirigidas pelos homens se implementam de forma mais lenta na comu- nidade. Na medida em que os principais transmissores de uma variedade lin- guística, no caso as mulheres, apresentam comportamento aproximadamente linear em relação ao uso das formas inovadoras, a mudança em progresso ten- de a ser enfraquecida ou mesmo refreada. Pode-se dizer, ainda em relação ao Gráfico 4, que as mulheres parecem mesmo inibir o apagamento do [d], por utilizarem mais as formas de prestígio, embora as mais jovens apresentem um avanço na utilização da forma inovadora, seguindo exatamente a tendência de fortalecimento liderada pelos homens. Também cruzamos as variáveis escolaridade e sexo/gênero. O resultado está demonstrado no Gráfico 5. 6 Os picos dos informantes masculinos de 7 a 15 anos e de 26 a 35 anos apresentados nesse gráfico podem sugerir explicações que remetam à aplicação categórica da regra por algum informante dessas faixas etárias, mas, verificando as taxas de aplicação de cada indivíduo da Amostra Censo, constatamos não ser este o caso. Um único indivíduo masculino da faixa de 26 a 35 anos que apresentava aplicação praticamente categórica da redução de gerúndio foi retirado das rodadas. 183R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 Input 0.732 Sig .049 Gráfi co 5. Cruzamento das variáveis Escolaridade e sexo: aplicação do apagamento do [d] do morfema de gerúndio. O cruzamento das variáveis demonstra que os informantes do gênero masculino aplicam mais o apagamento do [d] do que as mulheres, indepen- dentemente da escolaridade. Além disso, o Gráfico 5 mostra que o compor- tamento dos gêneros difere quanto à regressão da aplicação da regra, pois as mulheres apresentam uma queda discreta e os homens uma queda relati- vamente brusca, em termos de peso relativo, à medida que aumenta o nível de escolaridade, uma vez que a linha desce no sentido de favorecimento da regra até o ensino médio. Esses resultados ratificam a afirmação de Labov (1972) de que o uso das formas inovadoras pelas mulheres apresenta um comportamento mais linear do que pelos homens em relação à implementa- ção dessas formas. Observamos ainda que mulheres que possuem o primeiro e o segundo ciclo do ensino fundamental apresentam pesos relativos bem pró- ximos, enquanto os homens desses mesmos níveis de escolaridade demons- tram valores probabilísticos bastante diferenciados. Todavia, quando obser- vamos os dois extremos de escolaridade (1ºEF e ES), os dados mostram que a diferença de PR entre homens e mulheres é exatamente a mesma, isto é, uma diferença de 38 pontos para os dois fatores. Por fim, verificamos clara- mente que tanto os homens quanto as mulheres menos escolarizados usam mais o apagamento do que os mais escolarizados. A linha dos homens indica favorecimento maior do que a das mulheres e é indicativa de favorecimento até o EM e a linha das mulheres, até o 2º EF. Além disso, os resultados indi- cam que as mulheres mais escolarizadas (EM e ES) são ainda mais sensíveis do que os homens à forma de prestígio, o que confirma uma tendência geral dos estudos variacionistas. A partir dos resultados apresentados até o momento, confirmamos que a forma inovadora apresenta-se estigmatizada na comunidade, em razão de 184 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 as mulheres e os mais escolarizados fazerem uso mais frequente da forma pa- drão, isto é, da variante prestigiada. O cruzamento demonstrado no Gráfico 6 traz o comportamento dos falan- tes quanto à faixa etária e à escolaridade. Input 0.744 Sig. 0.000 Gráfi co 6. Cruzamento das variáveis Faixa etária e escolaridade: aplicação do apagamento do [d] do morfema de gerúndio (em p.R.). Os resultados do Gráfico 6 mostram que, de modo geral, o fator 1º ciclo do ensino fundamental é o mais favorecedor da aplicação do apagamento do [d] em morfema de gerúndio, enquanto o fator nível superior é o que mais refreia essa mesma regra nas diferentes faixas etárias. Nas faixas etárias extremas, en- tretanto, informantes com ensino médio respondem pela menor taxa de apli- cação da regra. Apesar da queda do PR ao longo das faixas etárias, se compa- rados esses resultados aos do Gráfico 5, que mostra uma atuação francamente positiva da escolarização para ambos os gêneros em direção ao uso da forma de prestígio, verifica-se que a atuação dessa mesma variável não se reflete da mesma forma equilibrada na diferenciação de indivíduos pertencentes a cada uma das faixas etárias consideradas. Isso equivale a dizer que o aumento de escolaridade entre indivíduos de uma dada faixa etária nem sempre significará menor taxa de apagamento do [d] do morfema de gerúndio, principalmente entre indivíduos dos dois níveis intermediários de escolaridade nas faixas de 16 a 25, 26 a 35 e 36 a 55 anos e entre os indivíduos de mais de 55 anos, para os quais indivíduos com ensino médio preserva mais o [d] do que os de nível superior, assim como os de 1o. ciclo do EF em relação aos de 2o. ciclo do EF. Essa observação pode sugerir que na comunidade de fala em questão, o fator idade atua mais fortemente na identidade dos indivíduos do que o fator escolaridade. 185R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 Qualquer que seja a interpretação em termos de identidade social para o fenômeno em análise, o certo é que a estigmatização da forma inovadora é sempre perceptível, uma vez que falantes do gênero feminino, falantes mais escolarizados e falantes mais velhos tendem a inibir o apagamento do [d] de morfemas de gerúndio, o que significa que perfis sociais com essa combinação constituem foco de resistência da mudança. Considerações finais Neste artigo, apresentamos os principais resultados de pesquisa sobre o fenômeno de redução de gerúndio em uma variedade do PB falada no interior paulista. A partir da inspeção acústica, verificamos que ocorre uma perda de qualidade da consoante /d/, o que leva a uma percepção de que tenha ocorrido a queda dessa consoante. Essa investigação mostrou uma diferença recorrente entre percepção e produção que permite corroborar uma afirmação de Labov (1972) de que uma comunidade de fala não se resume a pessoas que falam do mesmo modo, mas que compartilham as mesmas regras com respeito à variedade adotada. Assim, a análise acústica converge com a análise variacio- nista no aspecto de que os processos fonológicos variáveis geram diferenças de percepção e produção com muito mais frequência. Por fim, essa inspeção acústica revelou também que, de modo geral, a estrutura sintática perífrase é o ambiente que mais tende à aplicação da regra de apagamento do /d/ em morfema de gerúndio. Do ponto de vista fonológico, com base nos pressupostos da Fonologia Lexical, mostramos, em termos de organização do léxico, por que esse pro- cesso fonológico não ocorre em todas as palavras terminadas em “ndo, mas apenas no morfema de gerúndio. Propusemos que a regra de apagamento de /d/ tem como domínio de aplicação o nível β, em razão de o gerúndio ocorrer somente nesse nível, que é regido por regra lexical. Esse tipo de regra se sujeita aos princípios de Condição de Ciclo Estrito, que impede a aplicação das regras lexicais nos ambientes não derivados, e ao de Preservação da Estrutura, que bloqueia a regra quando a sequência “ndo” se encontra na raiz do item lexical. Valendo-nos de análises acústicas, afirmamos que o apagamento do /d/ em morfema de gerúndio é regra variável, uma vez que o processo pode não se aplicar mesmo havendo contexto para seu apagamento, evidenciando, assim, que a aplicação da regra é opcional, uma característica de natureza pós-lexical. Diante desse cenário, assumimos que, para a comunidade estudada, a regra é de natureza lexical por atingir somente as formas de gerúndio e não outras formas lexicais. Sob a perspectiva da Sociolinguística variacionista, mostramos que a for- ma não-padrão (ausência do /d/ no morfema de gerúndio) é a mais utilizada do que a forma padrão (presença do /d/), uma caracteriza marcante da comu- nidade pesquisada. Constatamos que a variável sexo/gênero é a mais relevan- te, pois informantes do gênero masculino tiveram comportamento favorável à 186 R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p.167-188 jan.|jun. 2012 aplicação da regra de modo sistemático na correlação com as variáveis faixa etária e escolaridade, cujos resultados também permitiram comprovar as hi- póteses variacionistas clássicas, quais sejam: a de que quanto maior o grau de escolaridade do indivíduo menor a probabilidade de uso da forma não-padrão e a de que informantes mais velhos tendem a usar com menor frequência a variante não-padrão do que os informantes mais jovens. Na ausência de testes de avaliação social em torno das formas variantes, os resultados para as variá- veis investigadas permitem concluir que o apagamento do [d] em morfema de gerúndio é forma socialmente estigmatizada na comunidade de fala, uma vez que, probabilisticamente, ocorre com menor frequência entre indivíduos com o seguinte perfil social: gênero feminino, de nível elevado de escolaridade e de faixa etária mais avançada. Diante dos resultados aqui apresentados, concluímos, então, que varian- tes com morfemas de gerúndio reduzido podem ser consideradas formas ino- vadoras e sua estratificação na comunidade de fala de São José do Rio Preto aponta para uma mudança em progresso, apreensível em tempo aparente. FERREIRa, J. s.; tEnanI, L. E.; GonçaLVEs, s. C. L. tHE GERUnd MoRpHEME “ndo” oF BRaZILIan poRtUGUEsE: pHonoLoGICaL and soCIoLInGUIstICs anaLYZIs Abstract In this paper, we deal with the phonological process of d-deletion in gerund morpheme “ndo” in a Brazilian Portuguese variety. Based on acoustic and perceptual analysis of gerund forms, we found that when /d/ has its acoustic parameters changed, listeners perceive the d-deletion of morpheme. This correlation, however, is not categorical. This d-deletion process is a variable rule and applies only to gerund morpheme. These facts lead us to face a phonological puzzle of interpreting the process or as a lexical or as a poslexical rule. Based on the assumptions of Lexical Phonology Theory, we argued that it is a lexical rule. Under perspective of variationist analysis, we analized 76 samples of speech recorded from the control social variables of sex/gender, age and education level. We found that young men with fewer years of formal education are the ones who the most apply the rule. We concluded that d-deletion in gerund form is a stigmatized rule in the speech community studied. Keywords gerund; phonetics; phonology; sociolinguistics; Brazilian Portuguese Referências bibliográficas ALKMIM, T. Sociolinguística: Parte I. In: MUSSALIN, F.; BENTES, A. C. Introdução à lin- güística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001, p. 21-48. 187R. Let. & Let. Uberlândia-MG v.28 n.1 p. 167-188 jan.|jun. 2012 AMARAL, A. O dialeto caipira: gramática, vocabulário, 4a. Ed. São Paulo: HUCITEC, Bra- sília: INL. [1920] 1982. BRESCANCINI, C. A análise de regra variável e o programa VARBRUL 2S. In: BISOL, L.; BRESCANCINI, C. Fonologia e variação: recortes do português brasileiro. Porto Alegre: Editora da PUCRS, 2002, p. 13-75. CAGLIARI, L. C. Análise fonológica: introdução teoria e a prática com especial destaque para o modelo fonêmico. Campinas: Mercado de Letras, 2002. CEDERGREN, H.; SANKOFF, D. Variable: Performance as a Statistical Reflection of Competence. 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