UNIVERSIDADE ESTADUAL JÚLIO DE MESQUITA FILHO – UNESP FACULDADE DE ARTES, ARQUITETURA E COMUNICAÇÃO - FAAC DEPARTAMENTO DE ARTES E REPRESENTAÇÃO GRÁFICA - DARG GRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS CAMPUS DE BAURU RAFAELA PUPIN DE OLIVEIRA NAVEGANTE: processo criativo do livro ilustrado e os caminhos para a experiência estética na Arte/educação Bauru 2020 RAFAELA PUPIN DE OLIVEIRA NAVEGANTE: processo criativo do livro ilustrado e os caminhos para a experiência estética na Arte/educação Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso Artes Visuais, habilitação em Licenciatura, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC UNESP/Campus Bauru, como requisito parcial à obtenção do título de Licenciatura em Artes Visuais, sob orientação da Profa. Dra. Eliane Patricia Grandini Serrano. Bauru 2020 O48n Oliveira, Rafaela Pupin de Navegante : processo criativo do livro ilustrado e os caminhos para a experiência estética na Arte/educação / Rafaela Pupin de Oliveira. -- Bauru, 2020 149 p. : il. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura - Artes Visuais) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru Orientadora: Eliane Patricia Grandini Serrano 1. livro ilustrado. 2. experiência estética. 3. artes visuais. 4. processo criativo. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Biblioteca da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design, Bauru. Dados fornecidos pelo autor(a). Essa ficha não pode ser modificada. RAFAELA PUPIN DE OLIVEIRA NAVEGANTE: processo criativo do livro ilustrado e os caminhos para a experiência estética em Arte/educação Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso Artes Visuais, habilitação em Licenciatura, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC UNESP/Campus Bauru, como requisito parcial à obtenção do título de Licenciatura em Artes Visuais, sob orientação da Profa. Dra. Eliane Patricia Grandini Serrano. BANCA EXAMINADORA: ____________________________________ Profª Drª Eliane Patricia Grandini Serrano (Orientadora) Departamento de Artes e Representação Gráfica da Universidade Estadual Paulista - UNESP, Campus de Bauru. ____________________________________ Profª Drª Regilene Ap. Sarzi Ribeiro Departamento de Artes e Representação Gráfica da Universidade Estadual Paulista - UNESP, Campus de Bauru. ____________________________________ Profª Mª. Priscila Leonel de Medeiros Pereira Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista - UNESP, Campus de São Paulo. Bauru, _____ de 2020. AGRADECIMENTOS Primeiramente, agradeço à minha família, que é minha base e meu guia nas jornadas da existência. Especialmente, sou grata a Antônio Carlos e Ivone, meus pais, que nunca deixaram de acreditar no meu potencial e me incentivaram a persistir nas etapas mais áridas desta longa trajetória. Aos amigos que conheci durante a graduação, agradeço pelas trocas quando nossos caminhos se cruzaram e se conectaram. Colegas da turma, veteranos, pessoas com quem dividi casa, tenho guardado um pedaço de cada um comigo e uma imensa gratidão pelas histórias que compartilhamos. Dentre estes, expresso também meu agradecimento ao Alex, meu parceiro que me ensinou a caminhar junto. Sua companhia e compreensão foram cruciais para que eu aprendesse a ver as situações de outra perspectiva e a lidar com múltiplos desafios que eventualmente precisei encarar. Sou imensamente grata a todos os meus professores, exímios navegantes da grandiosa jornada do ensinar e aprender. Não apenas aos que me ensinaram na universidade, mas também os que marcaram minha trajetória escolar. Especialmente, agradeço à professora Patricia Grandini, minha orientadora, pelo apoio e confiança. Suas palavras, incentivos e ensinamentos foram mapas fundamentais para que eu chegasse ao meu destino. Também sou grata à professora Tarcila Costa, que me auxiliou enquanto dei os primeiros passos na pesquisa do livro ilustrado. Obrigada às professoras Profª Mª Priscila Leonel e Profª Drª Regilene Sarzi por aceitarem fazer parte da banca e por tantos ensinamentos. Suas atuações como educadoras, artistas e pesquisadoras são exemplos para quem eu quero me tornar. Por fim, agradeço à UNESP, por ter oferecido suporte para que eu pudesse navegar, por ser lugar de aprendizado e desenvolvimento acadêmico e pessoal, e por ter proporcionado o convívio com indivíduos únicos e inspiradores. "Invento o mar Invento em mim o sonhador Para quem quer me seguir eu quero mais Tenho o caminho do que sempre quis E um saveiro pronto pra partir Invento o cais E sei a vez de me lançar." “Cais” (1972), de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos RESUMO Este trabalho apresenta uma discussão em arte/educação atrelada a uma pesquisa-criação sobre as possibilidades poéticas e educativas da relação entre o livro ilustrado e a experiência estética. A experiência estética é uma forma particular de interação entre o sujeito e os objetos artísticos, os quais estimulam a percepção e a criação, em um fluxo que leva à unidade com o meio ambiente. Tal contato pode ser pensado do ponto de vista do fruidor das manifestações artísticas, como também de quem se envolve com o fazer poético, tanto que ambas podem ser exploradas pelo arte/educador, seja por meio da mediação cultural quanto por suas próprias experiências enquanto pesquisador e agente em processos criativos. Neste sentido, a experiência permite tornar-nos indivíduos sensíveis, reflexivos e abertos para a aprendizagem sobre a arte e a cultura, bem como contribui para a formação de sujeitos com tais qualidades. Estes aspectos são explorados de forma poética nesta pesquisa pela criação de um livro ilustrado intitulado Navegante, o qual é composto de uma narrativa visual e verbal, articulada por um projeto gráfico, sobre uma jornada de transformação representada pelos atos de observar, conhecer, sentir, navegar e criar. Desta forma, é estabelecida uma relação entre os conceitos teóricos abordados, referências visuais e literárias, vivências pessoais e as possíveis ações educativas para os livros ilustrados através da experiência estética. Os olhares poéticos discutidos e explorados no livro criado evidenciam o processo orgânico e subjetivo da experiência, em que se edificam conhecimentos sobre ilustração, a relação entre arte e vida, o papel do professor-artista, a educação estética e o potencial da arte para a formação do ser humano. Palavras-chaves: livro ilustrado, experiência estética, arte/educação, processo criativo. ABSTRACT This work presents a discussion on art/education linked to a research-creation about the poetic and educational possibilities of the relationship between the picturebook and the aesthetic experience. The aesthetic experience is a particular form of interaction between the subject and the artistic objects, which stimulate perception and creation, in a flow that leads to unity with the environment. Such contact can be thought of from the point of view of the spectator of artistic manifestations, as well as of those who get involved with poetic making, so that both can be explored by the art/educator, either through cultural mediation or through their own experiences as a researcher and agent in creative processes. In this sense, the experience allows us to become sensitive, reflective and open individuals for learning about art and culture, as well as contributing to the formation of subjects with such qualities. These aspects are explored in a poetic way in this research by the creation of a picturebook entitled Navegante, which is composed of a visual and verbal narrative, articulated by a graphic project, about a journey of transformation represented by the acts of observing, knowing, feeling, navigating and creating. In this way, a relationship is established between the theoretical concepts addressed, visual and literary references, personal experiences and the possible educational actions for picturebooks through aesthetic experience. The poetic views discussed and explored in the book created show the organic and subjective process of experience, in which knowledge about illustration is built, as well as the relationship between art and life, the role of the artist-teacher, aesthetic education and the potential of art in the formation of the human being. Keywords:​ picturebook, aesthetic experience, art/education, creative process. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Exemplo de livro com ilustrações,​ Histórias Maravilhosas de Andersen​ (2012).................................................................................................... Figura 2 - Exemplo de um livro ​pop-up​,​ Under the ocean​ (2013), Anouck Boisrobert e Louis Rigaud. 15,5 x 1,6 x 29,5 cm………………………………….... Figura 3 - Páginas do livro imagem​ Onda​ (2008), de Suzy Lee. 18,4 x 30,8 cm.. Figura 4 - Um livro interativo cujas páginas se constituem de lâminas, ​Piú e meno​ (1970), de Bruno Munari e Giovanni Belgrano. 15.5 x 15.5 cm………........ Figura 5 - Detalhe da capa do livro ​A árvore vermelha ​(2009), de Shaun Tan.... Figura 6 - Projeto gráfico do livro ​Fabiana: la palmera prófuga​ (2013), cuja ilustradora Malota aposta em técnicas como colagem, pintura e uso de carimbos para gerar resultados visuais semelhantes às artes gráficas tradicionais, como gravura e serigrafia.................................................................. Figura 7 - Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil.. Figura 8 - Coluna de Trajano, 113 d.C., Roma…………………...…...................... Figura 9 - Papiro egípcio que representa os pântanos da planta papiro, matéria-prima para os precursores do livro, ca. 1427–1400 a.C., Hugh R. Hopgood. Têmpera sobre papel.79 x 68 cm. Museu Metropolitano de Nova York……..….......................................................................................................... Figura 10 - Livro ilustrado com xilogravura, ​Roti-Cochon​, entre 1689 e 1704, Claude Michard…………………………….……………………………………..……. Figura 11 - Livro com ilustração do século XVIII, ​The History of Goody Little Two-Shoes ​(1765), de John Newbery………………………………………….……. Figura 12 - Detalhe de página traduzida de ​Orbis Pictus​ (1698), de Comenius... Figura 13 - Página do livro ​João Felpudo​ (1844), de Heinrich Hoffmann……….. Figura 14 - Ilustração de John Tenniel para a primeira edição de ​Alice no País das Maravilhas​ (1865), de Lewis Caroll……………………………....………....….. Figura 15 - Ilustração de ​Hey Diddle Diddle​ and Baby Bunting (1882), de Randolph Caldecott…………………………...……………………………………..… Figura 16 - Página de ​Macao et Cosmage ​(1919), de Edy-Legrand, 31 X 33 cm. p. 32 p. 33 p. 33 p. 34 p. 36 p. 38 p. 39 p. 40 p. 40 p. 41 p. 42 p. 43 p. 44 p. 45 p. 46 p. 47 Figura 17 - Ilustração da capa do livro ​O Patinho Feio, ​edição de 2015, ilustrado por Franz Richter ……………………………...……………………………. Figura 18 - Página dupla de ​Onde vivem os monstros​ (1963), Maurice Sendak.. Figura 19 - Página dupla de ​Flicts​ (1969), Ziraldo.…………………………………. Figura 20 - Capa colorida de ​The Songs of Innocence and of Experience (1789), de William Blake ...................................................................................... Figura 21 - Página dupla do livro ​Die Nibelungen​ (1909), de Carl Otto Czeschka ……………………………………………....……………….……………… Figura 22 - Capa e páginas do livro imagem ​La mela e la farfalla​ (1960), edição de 2004, de Enzo Mari ......................................................................................... Figura 23 - ​Poemobiles ​(1974), Augusto de Campos e Julio Plaza …………....... Figura 24 - Ilustração do livro ​O Homem no Teto​................................................. Figura 25 - Aquarela (2018) ................................................................................. Figura 26 - Desenho em ​sketchbook ​(2018) ........................................................ Figura 27 - Aquarela, projeto para ​assemblage ​(2018) …………………………… Figura 28 - Capa do livro ​Rosa​ (2017), Odilon Moraes, 22,6 x 19,3 cm ……....... Figura 29 - Página dupla do livro ​Rosa ​(2017), Odilon Moraes. ………………..... Figura 30 - Livro ilustrado ​Ismália ​(2006), Odilon Moraes, 16,8 x 12,1 cm. ….… Figura 31 - Capa do livro ilustrado ​Ninguém e Eu ​(2012), Bart Mertens e Benjamin Leroy, 25 x 29,2 cm. ............................................................................. Figura 32 - Página do livro ilustrado ​Ninguém e Eu ​(2012), Bart Mertens e Benjamin Leroy. .................................................................................................... Figura 33 - Capa do livro ilustrado ​A árvore vermelha ​(2009), Shaun Tan. 30,8x 24 cm. ................................................................................................................... Figura 34 - Ilustração do livro ilustrado ​A árvore vermelha ​(2009), Shaun Tan... Figura 35 - Imagens salvas em meu perfil pessoal do ​Pinterest​…..……………... Figura 36 - Ilustração do livro ​Pinocchio ​(1993), Lorenzo Mattotti, 11.8 x 9.4 cm. Figura 37 - Ilustração de Lorenzo Mattotti para a revista Internazionale (2008)... Figura 38 - Icarus (2018), Owen Gent …………………………………………….… Figura 39 - Ilustração para 247 Magazine (2012), Owen Gent. ……………….…. Figura 40 - La Mer (1998), Jean Michel Folon, aquarela. ……………………….… p. 48 p. 49 p. 49 p. 56 p. 57 p. 58 p. 59 p. 95 p. 96 p. 97 p. 97 p. 101 p. 102 p. 102 p. 103 p. 104 p. 104 p. 105 p. 106 p. 107 p. 108 p. 108 p. 109 p. 110 Figura 41 - ​L’ombre​ (1975), Jean Michel Folon. Aquarela sobre papel, 27 x 45 cm………………………………..…………………………...………………………….. Figura 42 - Capa do Livro ​Persépolis ​(2007), Marjane Satrapi, 24,4 x 16,4 cm.... Figura 43 - Rosto de personagem, aquarela (2018). ……………………….…...… Figura 44 - Esboços do Navegante. ………………………………………….……... Figura 45 - Esboços das ilustrações com o “mediador”, cavalo..………….……... Figura 46 - ​Garanhão​, Habiballah of Sava, ca. 1601–6. Tinta, aquarela e ouro sobre papel. 19.7 x 12.7 cm. Museu Metropolitano de Nova York.…………….… Figura 47 - ​Khusru descobre a Princesa Shirin se banhando​. Arte de Sultan Muhammad para o poema de Nizami, Placa VII.1. Século XVI. Tinta, ouro e prata sobre papel, 29.9 x 18.6 cm. Eugene Fuller Memorial Collection.……….... Figura 48 - Esboços das ilustrações juntamente com o texto.………………….… Figura 49 - Esboços das páginas juntamente com rascunhos do texto.……….... Figura 50 - ​Storyboard ​com as ilustrações de cada página em sequência (da esquerda para a direita). …………………………………………………………....… Figura 51 - Página do ​sketchbook ​com estudos em aquarela ……………..…..… Figura 52 - Estudo de cores em aquarela …………………………………………. Figura 53 - Estudo de cores em aquarela de uma sequência de páginas duplas. Figura 54 - Sequência do processo criativo de uma das páginas do livro….....… Figura 55 - Detalhes do livro impresso: capa, elementos pré-textuais, páginas da narrativa e elementos pós-textuais……………………………………………….. p. 110 p. 110 p. 113 p. 114 p. 114 p. 116 p. 117 p. 118 p. 119 p. 120 p. 121 p. 122 p. 123 p. 126 p. 127 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 11 CAPÍTULO 1​ - ​A JORNADA DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA E POR QUÊ É PRECISO NAVEGAR 16 1.1 Experiência estética: de piratas a navegantes 16 1.2 O sujeito enrijecido e a criatura viva 21 1.3 O mundo como paisagem que se conhece, os mapas que se abrem: experiência e educação 25 CAPÍTULO 2​ - ​OS CAMINHOS: DA ARTE AO LIVRO ILUSTRADO 30 2. 1 Livro ilustrado: trilhas definidas 30 2. 2 Fazer livros, ilustrar mundos, desenhar palavras: percursos do passado 39 2. 3 Relações entre texto e imagem 50 2. 4 Livros ilustrados como obras de arte 53 CAPÍTULO 3​ - ​NAVEGANTE: O SUJEITO DA EXPERIÊNCIA E A LEITURA DO MUNDO 61 3.1 Ser Navegante: a vivacidade de estar entregue à jornada 61 3.2 A experiência estética na percepção da obra 65 3.3 A aventura de ler 67 3.4 A educação do olhar na arte/educação 73 CAPÍTULO 4​ - ​A MEDIAÇÃO ENTRE O MUNDO DOS NAVEGANTES E OS MARES A NAVEGAR: O PROFESSOR CRIADOR DE NOVAS PAISAGENS 80 4.1 Professor-mediador: possibilitador de leituras e experiências 8​1 4.2 Professor-artista, o navegante do ensino de Arte 87 CAPÍTULO 5​ - ​GESTO: UMA TRAJETÓRIA SOBRE O POTENCIAL CRIATIVO HUMANO 90 5.1 O fazer artístico como experiência estética 90 5.2 Concepção do livro ilustrado Navegante 94 5.2.1 Passos dados, paisagem à vista 94 5.2.2 Conceito e estrutura narrativa 98 5.2.3 Referências 100 5.2.4 Gesto que toma forma: personagens e páginas traçadas 112 5.4 Semear 123 CONSIDERAÇÕES FINAIS 129 REFERÊNCIAS 134 APÊNDICE A - LIVRO ILUSTRADO NAVEGANTE 1​40 11 INTRODUÇÃO  Para a humanidade, a arte é uma forma de expressão e comunicação através da qual se transmite para o mundo conteúdos de imaginação e sensibilidade. Duas perspectivas podem guiar as reflexões sobre o contato com objetos artísticos, a primeira sobre a relação do artista, no ato de produção, com sua obra, e a segunda, sobre quem interage com a obra no âmbito da apreciação. Por meio da filosofia estética pode-se estudar as formas particulares de se estabelecer experiências com a arte, ditas estéticas. John Dewey (2010) foi um dos estudiosos que se dedicaram ao estudo destas experiências, enquanto também enfatizou seu potencial educativo, pois a sua visão era de que eram processos contínuos à própria experiência do viver, e portanto necessários para a formação de novas qualidades nos sujeitos. Segundo Dewey (2010), a experiência estética é definida como uma interação característica do indivíduo com o meio ambiente, que começa pelo estímulo dos objetos aos nossos sentidos. Nós estamos constantemente nos relacionando com o mundo, o qual nos oferece meios de satisfazer nossas necessidades, mas também provoca constantes desafios, e isto pode gerar uma tensão. Resolvê-la é uma oportunidade de crescimento e mudança, pois o indivíduo que encara este desafio se engaja em direção a um desfecho, e neste fluxo ele pode alcançar certa unidade com o meio, isto é, ter uma experiência. Esta perspectiva orgânica e subjetiva a respeito de experiências, sejam elas artísticas ou educativas influenciou os movimentos educacionais, tanto que a educação estética está presente no pensamento do ensino artístico contemporâneo desde seus primeiros estudos na década de 1980 no Brasil. Tais estudos ressaltam a percepção dos sujeitos sobre as manifestações artísticas do mundo, e consequentemente, o fazer poético sobre o meio, como necessidades inerentes a todo sujeito, enquanto humano e integrante da cultura (ALMEIDA, 2009). Neste sentido, o educador de arte tem um importante papel: mediar o encontro com os objetos artísticos, propor experiências, de modo a criar condições de equilíbrio entre os objetos e os sujeitos em formação para que estes possam desenvolver autonomia para buscarem conhecimento pela experiência. Para tanto, 12 autores como Mirian Celeste Martins e Gisa Picosque (2012) e Almeida (2009) entendem que este processo começa pela própria vivência do educador. Aquele que se envereda em vivências artísticas, seja na sua pesquisa poética em ateliê, seja na apreensão de obras de arte, compreende os caminhos dos sentidos rumo às experiências estéticas. Deste modo, os objetos estéticos seriam vias por meio das quais encontros sensíveis ocorrem, mas e quando os objetos de que estamos falando não são obras tradicionais, como pinturas ou esculturas, e sim livros ilustrados? Os livros ilustrados, tais como as artes visuais, são formados por imagens, geralmente pensadas para serem representações poéticas que dialogam com a linguagem da palavra. A articulação de dois níveis de comunicação, visual e verbal, é um traço marcante dos livros ilustrados, que segundo Salisbury e Styles (2013), depende desta mútua interação para que o leitor apreenda seu sentido. A produção de livros ilustrados é hoje cada vez mais diversificada, ultrapassando a categorização por faixa etária, público e temática, dadas as possibilidades técnicas de reprodução, como também possibilidades criativas, que tornam os limites entre livros de arte, literatura e arte gráfica cada vez mais indefinidos. Desta forma, os livros ilustrados podem ser um caminho para se observar, criar e avaliar conteúdos da linguagem visual por um viés artístico. Levando esta ideia em consideração, esta pesquisa se direcionou a responder a seguinte questão: como identificar possibilidades poéticas e educativas a partir da relação entre o livro ilustrado e a experiência estética? Alguns caminhos foram definidos para nos guiar nesta busca. O primeiro, foi produzir um livro ilustrado cuja narrativa verbal e visual fosse uma reflexão acerca de minhas vivências pessoais, como arte/educadora em formação, para adquirir conhecimentos e habilidades para atuar como professora, mas também me enveredar por processos criativos. O fazer artístico se encaminhou para relacionar a minha produção poética com estéticas literárias e visuais, bem como a ilustração contemporânea. Este entrelaçamento também foi alimento para investigar o potencial do livro ilustrado como objeto artístico possibilitador de experiência estética, do ponto de vista 13 daquele que cria e do leitor, incluindo sua aplicabilidade em sala de aula. Deste modo, buscou-se discutir a ação mediadora em arte/educação e o conceito do professor-artista a partir das qualidades artísticas e estéticas do livro ilustrado. De início, podemos contemplar a vista de uma paisagem distante, aquela que a princípio definimos como destino. Tendo estes objetivos como mapas, formulamos a imagem de onde se queria chegar: uma pesquisa de arte/educação atrelada a uma pesquisa-criação, na qual o próprio livro a ser criado seria objeto para discussão de conceitos e representativo de um processo de formação, do mesmo modo que os conteúdos teóricos poderiam trazer à margem imagens e palavras que se tornaram esboços na narrativa que se definiu como “​Navegante​”. Isto está apresentado em uma sequência, tal como uma história, que divide-se em fragmentos, cada um presente em uma página a ser folheada. A jornada começa no primeiro capítulo com a definição do conceito de experiência estética, fundamentada no livro ​Arte como experiência de John Dewey (2010), cujas ideias nos levaram ao encontro dos autores Jorge Larrosa (2002) e Alfonso López Quintás (1993). Estes também discutem a necessidade de que experiências estéticas sejam propostas para formarmos criaturas vivas, sujeitos das experiências que se abrem para um conhecimento específico que as experiências nutrem. O segundo capítulo aborda o caminho principal pelo qual percorremos: o livro ilustrado, sua definição, história e pontos de vista para concebê-los como obras de arte, junto a considerações sobre as especificidades da ilustração. No capítulo terceiro, passamos a falar do sujeito da experiência, que atitude ele precisa assumir para viver um acontecimento estético, e a primeira situação, o ponto de vista da percepção da obra, que também se configura no processo de leitura que é bastante característico quanto aos livros ilustrados, e por isto, demanda um cultivo por parte do leitor. Este cultivo pode ser desenvolvido com a educação do olhar, e esta é discutida no fim do capítulo. A seguir, no capítulo quatro, trazemos o foco para o educador, primeiramente enquanto mediador, aquele que liga o mundo desconhecido àquele que irá protagonizar a jornada estética, mas também enquanto criador, pesquisador, professor-artista, que incorpora o papel principal da história. 14 Enquanto estes temas são discutidos, já se fala em um navegante, em um ambiente instigador do personagem que no passar de cada capítulo vai se definindo. Mas é no último e quinto capítulo que a trama do livro ilustrado ​Navegante ​e os aspectos de seu desenvolvimento são reveladas. Imagens que emergem, palavras que ganham luz sob o sol da arte como criação, e portanto, como necessidade humana que faz parte do processo de viver. Com este trabalho, verificamos as sutilezas da arte de ilustrar, que mesmo ligada ao texto verbal, não se subordina a ele, e sim estabelece relações e contrastes. O que relatamos é o vaivém do pensamento criador, o olhar que percebe e a mão que faz sempre em sintonia, tal como Dewey (2010) descreveu sobre a experiência do artista. Tendo como suporte as ideias de Cecília Almeida Salles (2011), relacionamos a característica de continuidade da experiência com as condições que a originaram com a mesma particularidade do processo criativo, no que diz respeito aos elos que puderam ser estabelecidos entre memórias do passado, esboços antigos e novos rascunhos para o livro, e influências sobre escolhas criativas. A experiência estética é uma necessidade criativa humana, que pode ser um caminho para a formação de sujeitos reflexivos, sensíveis, inventivos e abertos para vivenciarem diferentes situações, a partir das quais podem aprender sobre o mundo e a cultura agindo sobre eles. As características da experiência por si só nos dão indícios a respeito da aplicabilidade dos livros ilustrados em sala de aula. Tendo como âncora o conceito de mediação, entendemos que é um processo singular, que pode ser vivido de modo particular por cada um, mas que é impulsionado pela ação do educador, sendo que este é visto também no papel de sujeito. Assim, vislumbramos o cruzamento de diversos caminhos: o da arte e vida, do professor como mediador e também como protagonista de seus próprios encontros sensíveis com a arte, e a criação com a educação, já que entre estes dois eixos mútuas influências e conceitos se condensaram para que ​Navegante ​surgisse. Através do livro, contaremos uma história aberta para ser interpretada sob diversos ângulos, que fala de um ser desperto para se envolver com os mares do mundo, conhecê-lo, observá-lo, senti-lo e criá-lo. A jornada de formação de um ser fictício e poético seria um símbolo para a formação do ser humano com todo seu 15 potencial? Contemplemos a jornada, e que nossas vistas se ampliem com o viver desta experiência. 16 CAPÍTULO 1  A JORNADA DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA E POR QUÊ É PRECISO  NAVEGAR  Iniciamos a jornada. Abrimos os mapas, os sentidos colocam-se atentos, de prontidão para dar o primeiro passo. Mas de que jornada estamos falando? Para onde ela se encaminha? Quais mapas nos guiam e por quê utilizá-los? Em busca de evidenciar os caminhos possíveis, neste capítulo encarrego-me de discutir o tema central deste trabalho, que motivou a criação do livro ilustrado Navegante ​e que fundamenta sua narrativa visual e poética: a experiência estética. No primeiro subcapítulo, apresento o conceito de experiência estética com base em John Dewey (2010), Jorge Larrosa (2002) e Alfonso López Quintás (1993), para em seguida discutir a situação da sociedade contemporânea no que tange a este tema, e no fim deste capítulo apresentar a necessidade de que sejam propostas experiências deste caráter nas salas de aula pelos arte/educadores. 1.1 Experiência estética: de piratas a navegantes A palavra estética tem sua origem grega, no termo “aesthesis”, que significa percepção. Trata-se de uma área da filosofia que estuda o belo e os fundamentos da arte, introduzida como disciplina pelo filósofo Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), mas corresponde a um conceito teorizado desde Platão. O filósofo da Grécia Antiga concebia o belo como algo puro e essencial, presente em todos os objetos, mas não totalmente manifesto: é um reflexo. Esta concepção está voltada para uma ideia de belo como verdade, algo eterno que não depende dos objetos e das pessoas (GREUEL, 1994). Já na modernidade, o belo é entendido de maneira oposta a Platão, pois é tomado em consideração o sujeito concreto e o mundo material. A partir do século XV, ocorre uma mudança na consciência do homem, que desperta para a importância da existência material e passageira, da mesma forma em que se reconhece a importância do sujeito. Desta forma, “A reflexão sobre a arte torna-se 17 Estética propriamente dita a partir do momento em que o belo começa a ser relacionado com a percepção.” (GREUEL, 1994, p. 149) Então, no século XVIII, a Estética voltou-se para o conceito do sublime, que se apoia na ideia do temor reverencial à natureza, sendo assim, algo ilimitado, que supera o próprio homem (SUBLIME, 2017). Segundo Pereira (2012), em seguida o belo torna-se um valor subjetivo, oriundo de uma experiência singular e individual que o sujeito tinha do mundo. As teorias sobre a estética se desdobraram até o entendimento de que a arte não é algo que possui um conteúdo que deve ser decifrado, nem uma essência universal: Ao contrário de perguntar o que é arte ou se isso é uma obra de arte, vale tomar em questão a experiência de algum objeto, situação, acontecimento ou processo ​naquilo que ele tem em termos de potencial artístico​, ou seja, naquilo que o configura como um acontecimento estético. (PEREIRA, 2012, p. 113) Aqui entra em questão o conceito de experiência, de modo que, estudar estética, conforme sintetiza Greuel (1994), significa investigar a natureza da arte em três sentidos: a) a obra; b) o artista e o ato de produção; c) o apreciador. Dada esta breve retomada na história, chegamos ao conceito de experiência estética, que nesta pesquisa está fundamentada no pensamento do filósofo norteamericano John Dewey (1859-1952). As ideias de Dewey foram muito influentes do século XX, sendo a base para a Escola Progressiva dos Estados Unidos e o movimento da Escola Nova no Brasil nas décadas de 1920 e 1930, momento de renovação do ensino de Arte no país, segundo a arte/educadora Ana Mae Barbosa (2008). 1 Nos século XXI, o pensamento de John Dewey possui ressonâncias e é considerado muito atual. Suas percepções favorecem uma visão de continuidade na História, contrapondo-se à concepção moderna de criatividade, entendida como 1 Ana Mae Barbosa (1936-) é uma das principais pesquisadoras da área da Arte/educação. Foi pioneira na sistematização do ensino de Arte, através da Abordagem Triangular, desenvolvida durante sua gestão no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP), que influenciou e influencia a metodologia de ensino-aprendizagem artísticas nas escolas. Discípula de Paulo Freire, estudou a filosofia de John Dewey, a qual foi tema de sua pesquisa de doutorado a respeito da influência do norte-americano na educação do Brasil (BARBOSA, 2008, 1991; BARBOSA; CUNHA, 2010). 18 ruptura com o passado, e enfatizam as possibilidades que podem ser reveladas e descobertas no presente (BARBOSA, 2008). O próprio conceito de experiência estética revela-se como pertinente à contemporaneidade, tanto que é referencial de autores da área de Arte/educação e até mesmo como uma possibilidade válida de atuar em sala de aula no contexto atual, que possui suas problemáticas e complexidades, como será discutido mais adiante. O livro ​Arte como Experiência (DEWEY, 2010) serviu como ponto de partida para compreensão da experiência estética e dos conceitos que giram entorno, os quais tornaram-se relevantes não apenas para entendimento da proposta contemporânea de arte/educação, mas para a realização do trabalho poético em formato de livro ilustrado. Publicado originalmente em 1934 nos Estados Unidos, a obra é composta de textos de palestras proferidas na Universidade de Harvard, em 1931. É considerado por Ana Mae Barbosa (2008, p. 90) como “uma celebração e validação da educação artística e estética.” É um dos últimos trabalhos de Dewey, no qual o autor preocupa-se com o dualismo cultural, a separação feita entre os objetos artísticos das condições de origem e funcionamento na experiência, pois dificulta a significação. Então, através de suas ideias busca restabelecer a continuidade entre “de um lado, as formas refinadas e intensificadas de experiência que são as obras de arte e, de outro, os eventos, atos e sofrimentos do cotidiano universalmente reconhecidos como constitutivos da experiência.” (DEWEY, 2010, p. 60) Ou seja, o autor não defende que a arte seja compartimentada e isolada em museus e galerias, mas que esteja vinculada às suas condições que a originaram, para que se recupere a relação entre a experiência estética e os processos da vida cotidiana. Nas palavras de Dewey (2010, p. 73) “a compreensão estética - distinta do puro prazer pessoal - parte do solo, do ar e da luz dos quais brotam coisas esteticamente admiráveis.” Mas o que é esta compreensão estética? O que significa vivenciar uma experiência? O que a caracteriza, segundo John Dewey? A experiência estética pressupõe uma interação característica com o meio ambiente. É neste meio ambiente e por causa dele que a vida se realiza. O mundo 19 nos oferece meios de satisfazer nossas necessidades, mas também provoca desafios constantemente, gerando uma tensão que torna-se oportunidade de resolução. O indivíduo se engaja para a mudança, e em direção a um desfecho pode ter uma experiência. Isto ocorre normalmente nas situações da vida, como explica o autor, pois é como se caracteriza o mundo real, ou seja, uma combinação de rupturas, reencontros, movimento e culminação (DEWEY, 2010). Assim, entende-se que há uma qualidade estética possível em nossa interação com o meio ambiente, mas Dewey (2010) explica que alguns fatores distinguem uma experiência singular e estética. Uma experiência estética ocorre quando é vivida de forma integral e completa, para que, chegando ao seu fim, seja possível considerá-lo não uma conclusão, mas a consumação de um movimento de acumulação. Este caráter consumatório significa que a experiência é um todo integrado (BARBOSA, 2008), pois o sujeito alcança uma harmonia interior, significando que unificou-se com o meio. John Dewey (2010), então, afirma: Uma experiência estética só pode compactar-se em um momento no sentido de um clímax de processos anteriores de longa duração se chegar em um movimento excepcional que abarque em si todas as outras coisas e o faça a ponto de todo o resto ser esquecido. O que distingue uma experiência como estética é a conversão da resistência e das tensões, de excitações que em si são tentações para a digressão, em um movimento em direção a um desfecho inclusivo e gratificante. (DEWEY, 2010, p. 139) Isto quer dizer que, conforme o pensamento de Dewey (2010), a experiência estética é quando atinge-se o auge da integração do ser com o mundo, e a arte especificamente configura-se como “a melhor prova da existência de uma união realizada, e portanto realizável, entre o material e o ideal” (DEWEY, 2010, p. 97), considerada como parte dos processos da vida. A arte em produção é vista como um processo atrelado à experiência estética, à medida que o artista interage com um material físico, seja seu próprio corpo ou algo externo a si, com a intenção de criar algo para ser visto, tocado, ouvido, sentido. Aquele que produz arte está em constante observação e percepção do que realiza, estando a qualidade estética envolvida no ato criativo (DEWEY, 2010). 20 Dewey (2010) discorre substancialmente acerca da criação artística, mas também tece suas considerações sobre o ato do observador diante da obra de arte: “Para perceber, o espectador ou observador tem de criar sua experiência. E a criação deve incluir relações comparáveis às vivenciadas pelo produtor original.” (DEWEY, 2010, p. 137) O objeto necessita ser perpassado pela emoção, e é a partir da matéria, originada na natureza, que mergulhamos nesta forma de experiência. Nossos sentidos atuam como intermédio desta relação com o meio. Assim, para entendermos a experiência, tem-se que levar em conta os sentidos, os órgãos através dos quais os seres humanos participam da vida ao seu redor. Nas palavras do filósofo John Dewey (2010), os sentidos operam como “sentinelas”, que em uma experiência estética são mais do que receptores, pois é através deles que o sujeito participa ativamente, lembrando que o significado de “sentido” abrange uma variedade de conteúdos: “o sensorial, o sensacional, o sensível, o sensato e o sentimental, junto com o sensual.” (DEWEY, 2010, p. 88) Portanto, a arte como experiência estética é algo que amplia a vida, em um processo de fluxos constantes, em que o material é vivenciado até sua consumação (e não cessação). Em uma experiência, o fluxo vai de algo para algo. À medida que uma parte leva a outra e que uma parte dá continuidade ao que veio antes, cada uma ganha distinção em si. O todo duradouro se diversifica em fases sucessivas, que são ênfases de suas cores variadas. (DEWEY, 2010, p. 111) Complementar ao pensamento de John Dewey são as considerações de Jorge Larrosa (2002) sobre a experiência, o qual define esta palavra como “o que nos acontece”. O autor enfatiza o pronome “nos” para explicar que experiência não é simplesmente o que acontece, é o que ​nos ​toca. Ou seja, é a possibilidade de que algo nos afete. Larrosa (2002) retoma a origem da palavra, que vem do latim ​experiri​, provar (experimentar). A etimologia da palavra nos oferece uma relação interessante, a qual serviu de inspiração para criar o mundo imaginário e a narrativa desenvolvida no livro ilustrado “Navegante”. Experiência vem do latim ​experiri​, que significa provar, experimentar. Do radical ​periri​, também origina-se a palavra ​periculum​, perigo, e ainda, explica o autor: A raiz indo-européia é ​per​, com a qual se relaciona antes de tudo a idéia de travessia, e secundariamente a idéia de prova. Em grego há numerosos 21 derivados dessa raiz que marcam a travessia, o percorrido, a passagem (...) (LARROSA, 2002, p. 25) Mostrando como esta palavra tem uma rica dimensão que carrega o sentido de uma passagem, mas também de perigo, a percepção de Larrosa (2002) foi um estímulo para conceber o livro, no qual eu tomo este sentido literal de travessia para retratar a experiência estética como uma viagem, na qual o sujeito embarca e engaja ativamente sua percepção, rumo à consumação, ou à criação artística, como atividade que reúne todas as qualidades do processo. Se Dewey (2010) nos apresenta a experiência estética em um lugar de continuidade com a realidade e uma relação orgânica entre a arte o mundo, o sentido geral de “Navegante” busca enfatizar exatamente isso, além de outros conceitos que se desdobrarão a seguir, como um mundo que vai se revelando conforme prosseguimos rumo a um destino, ou quem sabe, uma breve parada. A seguir, discutiremos a raridade - e a riqueza - de se vivenciar a experiência estética e as condições que a impossibilita, pois são estas que compõem a crítica de Dewey (2010), Larrosa (2002), dentre outros autores que serão discutidos, e que demonstram o quão necessário é que a arte na educação proponha experiências estéticas em sala de aula, dado seu potencial formativo do ser humano. 1.2 O sujeito enrijecido e a criatura viva Tanto Dewey (2010) quanto Larrosa (2002) argumentam que viver uma experiência compreende vivenciar certas condições que a possibilitam, e apontam características da sociedade moderna que não oportunizam a vivência da experiência, limitando a formação dos sujeitos. Segundo o professor da Universidade de Barcelona Jorge Larrosa (2002), a experiência é um encontro com algo que se experimenta, se prova, algo cada vez mais raro nos dias atuais, por conta do excesso de informação, de opinião, de trabalho, e falta de tempo, pois estes fatores são incapazes de oportunizar a experiência. 22 O excesso de informação é descrito por Larrosa (2002) quase como o oposto da experiência, pois a ênfase dada pela sociedade para que sejamos sujeitos informados torna-nos obsessivos por saber muitas coisas, o que inibe a possibilidade de que algo nos aconteça. Aliás, o autor explica que este “saber” inclina-se mais para o sentido de “estar informado” do que “sabedoria”, e não garante que o acúmulo de informações seja o mesmo que aprendizagem. Da mesma forma, o excesso de opinião torna a experiência mais rara, pois o sujeito que busca informar-se sobre tudo, também entende que deve opinar sobre tudo. É um fenômeno tão imperativo na contemporaneidade que tornou-se automático, e está presente no modo como as pessoas são educadas ao longo de sua formação: Desde pequenos até a universidade, ao largo de toda nossa travessia pelos aparatos educacionais, estamos submetidos a um dispositivo que funciona da seguinte maneira: primeiro é preciso informar-se e, depois, há de opinar, há que dar uma opinião obviamente própria, crítica e pessoal sobre o que quer que seja. A opinião seria como a dimensão “significativa” da assim chamada “aprendizagem significativa”. A informação seria o objetivo, a opinião seria o subjetivo, ela seria nossa reação subjetiva ao objetivo. (LARROSA, 2002, p. 23) A consequência desta visão é que o indivíduo passa a ser imediatamente reativo aos acontecimentos, concordando ou discordando, não permitindo-se experienciar as coisas. Com esta ideia chegamos à falta de tempo, em que tudo acontece tão depressa que torna-se efêmero. Uma novidade rapidamente substitui a outra, de um modo vicioso que nos torna meros consumidores de estímulos (LARROSA, 2002). Neste sentido, John Dewey (2010, p. 87) afirma que “(...) cedemos a condições de vida que forçam os sentidos a se manterem como excitações superficiais.” Isto é, muitas das vezes, os sentidos operam como meras vias de recepção de material, que é armazenado como uma possibilidade postergada. Assim, “As experiências também têm seu amadurecimento abreviado pelo excesso de receptividade. Nesse caso, o que se valoriza é o mero passar por isto ou aquilo, independentemente da percepção de qualquer significado.” (DEWEY, 2010, p. 124). Isto é diferente da experiência estética, em que os sentidos operam de modo ativo - mais do que reação direta, nossas respostas ao meio são formas de expressão e comunicação. 23 O tempo com que se estabelecem as vivências também é um fator que impedem a experiência estética. Larrosa (2002) argumenta que o próprio tempo tornou-se mercadoria, visto como uma lacuna a ser cada vez mais ocupada - e assim não há momentos de silêncio, nem oportunidade para que sejam criadas memórias. Contra esta corrente de vivências instantâneas e fragmentadas está a experiência, a ser valorizada de modo que para o autor: A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar,parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LARROSA, 2002, p. 24) Entretanto, o que ocorre muitas vezes é a experiência vivida ser incipiente. Distraídos e dispersos, não vivenciamos uma experiência singular, segundo Dewey (2010), pela discordância entre o que observamos, pensamos e desejamos. Assim, o princípio de continuidade defendido por Dewey (2010) como parte da experiência não se realiza, à medida que esta significa que experiências passadas são tomadas como referência e as futuras são modificadas, conforme Carlesso e Tomazetti (2011) explicam. Mas isto não quer dizer que o presente deve estar subordinado ao passado, nem que devemos ficar apreensivos quanto ao futuro, porque Somente quando o passado deixa de perturbar e as expectativas do futuro não são aflitivas é que o ser se une inteiramente com seu meio e, com isso, fica plenamente vivo. A arte celebra com intensidade peculiar os momentos em que o passado reforça o presente e em que o futuro é uma intensificação do que existe agora. (DEWEY, 2010, p. 82) A fugacidade dos acontecimentos, informações acumuladas e opiniões formadas descritas por Larrosa (2002) são, portanto, barreiras para experiências conscientes. Deste modo, chegamos a outro excesso que o autor cita, que é o de trabalho. Larrosa (2002) pontua que o homem intervém excessivamente sobre o mundo conforme a pretensão de que pode fazer tudo o que quer. O desejo de produzir e mudar algo cria um homem moderno hiperativo, focado em realizar atividades, que não tem tempo para parar, e portanto, não vive experiências. 24 Isto faz com que os produtos realizados nestas atividades não sejam estéticos, pois como argumenta Dewey (2010, p. 96): Onde quer que as condições sejam tais que impeçam o ato de produção de ser uma experiência em que a totalidade da criatura esteja viva e na qual ela possua sua vida através do prazer, faltará ao produto algo da ordem do estético. Deste modo, caracterizam-se como atividades dispersivas, ausentes da amplitude de uma experiência, sendo assim impossibilitadas de oferecer enriquecimento da vida que é a contribuição maior da experiência estética (CARLESSO; TOMAZETTI, 2011). O filósofo e pedagogo Alfonso López Quintás (1993) ao discorrer sobre a experiência estética e seu papel na educação, também apresenta sua crítica ao modo como o homem passa a ver o mundo a partir do momento em que vive conforme um modelo produtivo de excessivo trabalho e relaciona-se com condições que barram a vivência significativa com o meio ambiente. Quintás (1993, p. 16) ressalta que nossa sociedade é impelida por um “ideal do domínio e do mito do eterno progresso​”​, algo que modela a cultura há mais de quatro séculos. Há uma convicção de que o saber teórico, e consequentemente o saber técnico geram um domínio progressivo da realidade, que nos conforta. Esta ideia de possuir e dominar faz com que tenhamos uma percepção das realidades como objetos possuíveis, analisáveis, controláveis, a serem considerados meios para fins próprios. Esta visão “objetivista” das realidades submete meu modo de pensar aos esquemas “sujeito-objeto”, “dentro-fora”, “interior-exterior”, “o próprio-o alheio”… A submissão a tais esquemas anula de raiz toda possibilidade criadora ​no homem, porque a criatividade implica uma colaboração estreita entre ele e tudo que o cerca, e tal colaboração é impossível com seres que estão ​fora​, no âmbito do exterior e alheio. (QUINTÁS, 1993, p. 16) Assim, entendendo de que modo esta percepção reduz a realidade, como torna-se possível relacionar com o mundo em uma perspectiva do encontro, a ponto de nos fundirmos a uma realidade, que ao mesmo tempo é alheia mas que é possível de se alcançar uma unidade, tornando-se íntima? Uma perspectiva possível a ser pensada é a superação destes esquemas, ou dilemas, que não possibilitam a experiência, já que esta requer do homem uma entrega para o encontro. É isto que lhe confere uma abertura para uma nova 25 compreensão de si mesmo e do mundo, oferecendo-lhe modos de desenvolvimento da personalidade, como defende Quintás (1993). Sabendo como se configura a cultura objetivista e compartimentada de nossa sociedade (QUINTÁS, 1993; DEWEY, 2010; LARROSA, 2002), o sujeito da experiência, seja o ser humano em seu cotidiano, ou o educador e o educando são chamados a participar de um acontecimento que é o envolver-se com o mundo. Oportunizar e propor experiências estéticas é o grande desafio do qual nos aproximamos. Lançados a uma aventura como personagens de uma história, a travessia da experiência começa a desvelar-se a partir do que ela não pode ser. Agora, veremos como educadores para a experiência serão fundamentais nesta descoberta. 1.3 O mundo como paisagem que se conhece, os mapas que se abrem: experiência e educação Podemos considerar a experiência no processo de aprendizagem a partir de reflexões que levantam a importância desta forma singular de se relacionar com a realidade para a formação humana. Para entender esta questão, partimos da colocação de Larrosa (2002), em que a experiência envolve um aprendizado característico, o saber da experiência, que “se dá na relação entre o conhecimento e a vida humana. De fato, a experiência é uma espécie de mediação entre ambos.” (LARROSA, 2002, p. 26-27). Tanto Dewey quanto Larrosa têm a compreensão de que o ambiente escolar é responsável por moldar as formas de pensar. Apesar de muitas vezes não possibilitarem condições para que elas sejam construídas, os currículos escolares são decisivos para o acontecimento de experiências singulares (CARLESSO; TOMAZETTI, 2011). O saber da experiência é diferente do significado predominante de conhecimento, que nos dias atuais limita-se a um saber utilitário ligado à ciência e à técnica. Também a noção de vida hoje é reduzida a satisfazer necessidades, que não deixam de ser influenciadas pela lógica de consumo, restringindo-se a uma 26 visão biológica, como Larrosa (2002) expõe. Para o autor, o saber da experiência se opõe a esta lógica, retomando um pensamento anterior ao capitalismo, que está baseado na aprendizagem no e por aquilo que nos acontece: Este é o saber da experiência: o que se adquire no modo como alguém vai respondendo ao que vai lhe acontecendo ao longo da vida e no modo como vamos dando sentido ao acontecer do que nos acontece. No saber da experiência não se trata da verdade do que são as coisas, mas do sentido ou do sem-sentido do que nos acontece. (LARROSA, 2002, p. 27) Por se tratar daquilo que ​nos ​acontece, a experiência possui um saber que é particular, seja de um indivíduo ou de comunidade. Por ser subjetiva, a experiência tem um caráter existencial, pela sua relação com a vida singular de um ser que existe de maneira singular e concreta: “A experiência e o saber que dela deriva são o que nos permite apropriar-nos de nossa própria vida.” (LARROSA, 2002, p. 27). Pensar a vida como algo a ser construído (e desconstruído) conforme é experienciada corroboram para que as condições de ocorrência da experiência sejam as mesmas da própria existência, revela Larrosa (2002). A partir desta percepção, podemos reconhecer o processo educativo - vivo e presente - da experiência. Nas situações práticas, crianças e adultos são instigados a resolver problemas, onde para Dewey se dá a ligação entre experiência e pensamento. Quando direcionada pela reflexão, a atividade humana denomina uma experiência que se desenvolve com transformações e fluxos, e que o conhecimento faz parte de um processo de “alterações simultâneas entre o agente do conhecimento e o que foi conhecido” (PONTES, 2015, p. 205). Então, Pontes (2015) destaca a relação orgânica entre experiência e educação no pensamento de Dewey. A educação, entendida como um fenômeno direto e particular da vida humana, é processo de reconstrução e de reorganização do conhecimento que provoca o sujeito para experiências futuras. A educação é a experiência em curso, ao mesmo tempo em que é resultado da experiência. (PONTES, 2015, p. 205) Com isto, o processo de aprendizagem garante o princípio de continuidade conforme Dewey (2010), pois o estudante tem a oportunidade não apenas de relacionar-se com o novo, mas de agregar ao que já é conhecido o desconhecido. Surge então, um desafio ao agente do conhecimento: “a aventurar-se na construção 27 do novo conhecimento e nas potencialidades de experiência que dali advêm.” (CARLESSO; TOMAZETTI, 2011, p. 81) Esta visão de construção humana e de conhecimento é permeada pela concepção de que o homem apropria-se de si mesmo, de seu próprio corpo, como manifestação de vida e presença, através do qual comunica-se e expressa-se no mundo. É justamente esta a possibilidade de formação através ensino-aprendizagem em Arte, compreendida pelos conceitos relativos à experiência: Dando-se a ver pela sua configuração sensível, que age sobre aquele que a confronta, tem-se que a estesia como condição do estético, condição que, se é mais perceptível na arte, não lhe é exclusiva, sendo requerida amplamente nos enfrentamentos da vida. Ao ser trabalhada nos anos de escolaridade, abrem-se possibilidades para uma formação de sujeitos mais competentes para a construção da inteligibilidade mesma do mundo. Como alteridade, permanentemente desafiante, o entendimento do mundo pode se dar pelo entendimento da arte. (BUORO, 2002, p. 12) Arte. Aquela que produz efeitos de sentido naquele que cria e naquele que contempla. O objeto estético em seu potencial de ser, de acontecer e provocar. Vivenciá-la dentro do âmbito educativo desdobra-se entre o cognitivo e o sensível, mas também cria ligações: A vivência artística oferece ao aluno as condições de desenvolver os saberes necessários e significativos que envolvem os saberes estéticos implicados no pensar e no fazer arte. Sob este enfoque entendemos a arte como uma construção simbólica que relaciona o mundo que nós vivemos ao mundo que nós pensamos e a possibilidade de trabalho na escola se abre para uma ponte entre o sensível e o inteligível, entre o cognoscível e a experiência estética. (SALOMÉ, 2013, p. 1) É este o caminho, segundo Quintás (1993), que faz o homem chega ao melhor de si mesmo: através da experiência estética. Segundo o autor, a experiência alcança este patamar por conta de seu caráter formativo. O ser humano, diferente dos animais, não tem sua formação inteiramente determinada pela espécie. Orientado por seus instintos, os animais ajustam-se ao meio ambiente, enquanto o ser humano se faz pelo vínculo com o meio, de forma que “deve escolher, e, ao optar entre as diversas possibilidades que o meio ambiente lhe oferece, vai criando seu ​mundo​.” (QUINTÁS, 1993, p. 14). Desta maneira, a formação humana ocorre por meio do encontro, e de um ato potencialmente criativo, que atinge sua forma exemplar na experiência estética. 28 Cabe ressaltar que este meio ambiente de que falamos é o meio com o qual nos relacionamos cotidianamente, que é profundamente marcado pela difusão imagética e artística, possibilitada pelos meios de comunicação e as inovações técnicas de reprodução. Marly Meira (2006) afirma que vivemos a civilização da imagem, com alto poder sugestivo, que configura uma realidade dotada de complexidade e que somos “seres de visibilidade”, ou seja, para o ser humano o conhecimento tem sentido quando articulado em imagens compreensíveis. Somos saturados por estímulos sensoriais excessivos, vinculados à publicidade, que demarcam o empobrecimento da experiência sensorial. Forquin (1982) alega que tendemos a perceber muito depressa e superficialmente, sem nos atentarmos aos detalhes. A própria educação tende a conformar-se ao imediatismo da vida diária, e dirigir o olhar do sujeito para as utilidades. Logo, para inverter esta ordem, torna-se fundamental uma educação para o pensamento estético, ou que Forquin (1982) chama de uma “aprendizagem das aparências”. Sendo assim, “A sensibilização ao meio ambiente pressupõe um desvio do caminho habitual: é preciso perceber o mundo como uma paisagem, como uma soma de estímulos, não como uma série de utensílios.” (FORQUIN, 1982, p. 29). Perceber o mundo como uma paisagem é uma possibilidade de educação pela arte que abarca a educação do olhar para a formação da sensibilidade através da experiência estética. No movimento de vivenciar uma experiência, seja pelo sujeito em seu cotidiano, seja pelo estudante em sala de aula, aquele que se coloca no encontro com as imagens constituintes da realidade permite a própria nutrição: (...) a experiência estética não só afina e refina nossa sensibilidade; realiza um trabalho mais profundo: descobre-nos a articulação interna dos processos criadores, nos abre à riqueza das imagens - além das meras figuras - nos ensina a ver em profundidade e em relevo, nos introduz no mundo que os artistas plasmam em suas obras, nos ensina a considerar o sensível não como uma barreira entre nossa intimidade e a intimidade dos outros seres, mas também como lugar vivo da presença destes, ponto luminoso de vibração de uma multidão de realidades que nutrem nossa vida pessoal. (QUINTÁS, 1993, p. 9-10) Assim sendo, enfatizamos que a partir dos conhecimentos da Arte trabalhados na escola, o ser humano tem a possibilidade de interagir de forma crítica e criativa com o mundo. Tendo a experiência estética como o núcleo central da educação artística, outros aspectos podem aflorar, como o desenvolvimento da 29 personalidade, a sensibilização ao meio ambiente, e a universalização da iniciativa criadora e expressiva humana. O professor, ao criar condições para a ocorrência de experiências singulares/artísticas, abre caminhos para a aprendizagem no contato com a arte, tanto no ato produtivo quanto no ato de percepção de objetos artísticos ou acontecimentos. Não é uma tarefa simples, sendo necessário pensar na ambiguidade que a experiência estética incorpora: de um lado, uma aptidão de ordem emocional, e de outro, um comportamento cultural; o prazer estético e a educação intelectual a serem propostos (FORQUIN, 1982). Ademais, é possível perceber que as vivências significativas dependem que o sujeito coloque-se em condições de que algo lhe aconteça, as quais requerem uma atitude. Portanto, iremos discutir sobre o sujeito da experiência e as posturas assumidas por aqueles que se encontram no processo educativo artístico. Não basta conhecer o mundo, decorar os mapas e reconhecer os relevos. É preciso sentir, entre texturas, cores, formas e sensações, conformar o fora e o dentro, unificando-os. Colocar-se em posição para ser navegante. 30 CAPÍTULO 2  OS CAMINHOS: DA ARTE AO LIVRO ILUSTRADO  Os primeiros passos da caminhada foram dados. Nos enveredamos pelos conceitos que se fundam em um território imaginado, o da arte, mas cujas fronteiras e horizontes foram agora apresentadas, os da experiência. São muitas as vias pelas quais se pode percorrer. Temos trilhas já marcadas, rotas projetadas e mapas com um “x” marcando o destino. Seja por terra ou por mar, o caminho em si se define por um meio: o da literatura ilustrada. São livros como arte , arte em forma de objeto manipulável, para se guardar e abrir quando for 2 preciso, e desejável. Folhear livros, como se abrem janelas, como se já fosse possível subir em uma embarcação. O Navegante tem diante de si uma missão, fazer sua travessia chamada experiência estética no mundo rico das palavras e imagens. O que há de especial nesta combinação? Veremos adiante o conceito do livro ilustrado, como surgiu e como é definido, em seguida será abordada a relação texto-imagem estabelecida nele, para enfim, apresentá-lo como um objeto artístico que tem suas qualidades para experiências estéticas, sobretudo as educativas. 2. 1 Livro ilustrado: trilhas definidas Os livros ilustrados são conhecidos por conterem em suas páginas não apenas palavras, como também imagens. Se na literatura tradicional o conteúdo está condensado na linguagem escrita, nas obras com ilustrações há uma linguagem a mais da qual se apreende sentido. Apesar de ser senso comum a ideia de que imagens são decorativas e atrativos para cativar os iniciantes na leitura, as teorias sobre o livro ilustrado têm demonstrado a riqueza de possibilidades englobadas neste tipo de literatura, seja para crianças, jovens ou adultos. 2 Os autores abordados nesta pesquisa que se dedicam a estudar o livro ilustrado consideram-no um objeto de valor artístico (OLIVEIRA, 2008b; VAN DER LINDEN, 2011; SALISBURY; STYLES, 2013). Do mesmo modo, artistas conhecidos na história da arte também criaram livros no sentido de explorar as possibilidades deste objeto. 31 Autores como Perry Nodelman (1988), Maria Nikolajeva e Carole Scott (2011), Sophie Van Der Linden (2011), Martin Salisbury e Morag Styles (2013), são alguns dos nomes de teóricos que têm dedicado suas pesquisas à definição e compreensão das características específicas, tanto formais quanto dos processos de leituras nos livros ilustrados. O que de modo geral se afirma sobre estes livros é que, por apresentarem uma história pela associação de diferentes linguagens, eles se constituem como uma forma específica de expressão. Segundo esta definição, as imagens não são simplesmente complementos ao texto, e sim que uma interação interessante e única pode existir em livros onde haja esta combinação. Em palavras sucintas, Van der Linden (2011, p. 9) conceitua o livro ilustrado como “um conjunto coerente entre textos, imagens e suportes”. Para entender melhor como isto ocorre, vale pensar na teorização do livro ilustrado em relação a outras formas de literatura, a definição da palavra ilustração, e em seguida, de que forma, ao longo da história, imagens e palavras se aliaram para construírem sentidos juntas. Segundo Van der Linden (2011), a definição e o próprio termo que distingue o livro ilustrado variam entre países e línguas. Em países europeus, o nome mais utilizado é álbum, derivado de ​album amicorum​, que no século XIX era um caderno onde viajantes coletavam registros. Na língua inglesa, o termo considerado mais adequado é ​picturebook​, o qual expressa um tipo específico de produto cultural que valoriza a interação entre palavra e imagem. A palavra ​picture ​pode significar quadro, pintura, imagem, filme, fotografia, mas também remete ao verbo imaginar, e ainda, uma conjuntura, conforme Graça Ramos (2011). O sentido de ​picturebook ​seria então, ampliado de “livro de imagens” para um livro onde há um conjunto, uma união de elementos que dialogam. No Brasil, o termo mais comum é “livro ilustrado” que é utilizado de modo amplo, assim como “livro infantil contemporâneo” e “livro de imagem” - este último restringe-se mais às obras desprovidas de texto verbal (VAN DER LINDEN, 2011). Para entender como se aplica esta terminologia, é necessário entender que existem outros tipos de literatura em que as imagens interagem com palavras, principalmente entre aqueles dirigidos ao público infantil. Sophie Van der Linden (2011) classifica estes livros, a começar pelos livros com ilustrações, que são os 32 livros infantis mais tradicionais (Figura 1). Neste caso, o texto é predominante e sustenta a narrativa, enquanto a imagem não é muito explorada na construção do sentido. Figura 1 - Exemplo de livro com ilustrações,​ Histórias Maravilhosas de Andersen​ (2012). Fonte: ASH; HIGTON (2012). Existem também livros chamados de “primeiras leituras”, são como romances destinados aos leitores iniciantes, contam com mais ilustrações, dentre elas vinhetas e imagens emolduradas junto ao texto. Outros tipos de literatura ilustrada são as 3 histórias em quadrinhos, nas quais as imagens são apresentadas em sequência, na forma de quadros justapostos; livros ​pop-up ​(Figura 2), que permitem a manipulação e mobilidade de elementos, apresentando-se como peças que se dobram, se encaixam, e assim por diante; livros brinquedo, os quais apresentam elementos em três dimensões - tanto como os livros “para banho”; e livros interativos, que trazem atividades e materiais, assim como os livros-CD (VAN DER LINDEN, 2011). Porém, a autora considera que as fronteiras não são tão fáceis de demarcar, pois os conteúdos desses livros são muito amplos, assim como os livros de artista e livros ilustrados se entrecruzam, dificultando suas diferenciações. 3 Vinheta vem de ​vignette ​(francês), originalmente era um ornamento que representava cachos e folhas de videira, símbolo da abundância. São pequenas ilustrações que ocupam até ¼ da página (CAMARGO, 1995). 33 Figura 2 - Exemplo de um livro ​pop-up​,​ Under the ocean​ (2013), Anouck Boisrobert e Louis Rigaud. 15,5 x 1,6 x 29,5 cm. Fonte: https://i.pinimg.com/564x/ae/e0/82/aee082f6ad6b5c4e71d381fc583a967e.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Diferente de Van der Linden (2011), as autoras Nikolajeva e Scott (2011) optam por definir o livro ilustrado com base em um espectro pautado em dois extremos: de um lado, texto, do outro, imagem. O tipo de livro que estiver mais próximo do primeiro extremo é totalmente construído com palavras, e quanto mais ilustrações tiver, chegando ao livro-imagem (Figura 3), atinge-se o outro ponto do espectro. Figura 3 - Páginas do livro imagem​ Onda​ (2008), de Suzy Lee. 18,4 x 30,8 cm. Fonte: https://i.pinimg.com/564x/d6/44/f3/d644f3915400c3ba0a2001d27885b87b.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. 34 Perpendicular a esta linha, também há uma divisão entre livro narrativo e não narrativo, permitindo diferenciar livros construídos em cima de uma história em sequência daqueles em “lâminas” (Figura 4) ou livros de poesias independentes. O livro ilustrado como aqui está sendo abordado estaria no centro deste espectro, mas existindo sub-categorias próprias conforme as diferentes relações texto-imagem. Figura 4 - Um livro interativo cujas páginas se constituem de lâminas, ​Piú e meno​ (1970), de Bruno Munari e Giovanni Belgrano. 15.5 x 15.5 cm. Fonte: https://i.pinimg.com/564x/df/0a/cb/df0acb02384f01200357f0a30f711c6d.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Para introduzir esta questão da relação texto-imagem, falaremos do papel desempenhado pela ilustração. Luís Camargo (1995) faz um resgate das primeiras definições em língua portuguesa da palavra “ilustração” e verifica que muitas tinham o sentido de ornamentação ou explicação um texto verbal. Por meio desta ideia, a informação principal está toda contida no texto e a imagem se reduz a uma tradução na linguagem visual, de algo que já é dito pelas palavras. Ainda assim, Ciça Fittipaldi (2008) lembra que as ilustrações contribuem trazendo uma qualidade do visível ao livro ilustrado, e possui uma função crucial: a de pontuar - a imagem, orientada para o texto junto ao qual está inserida, sinaliza seu início, suas partes, cria pausas, destaca passagens, cenas ou até mesmo inventa e introduz na sequência narrativa alguns outros elementos. (FITTIPALDI, 2008, p. 115) 35 Mas há muito mais que a ilustração pode fazer. Para Camargo (1995), as imagens podem exercer várias funções: descritivas, narrativas, simbólicas, expressivas, estéticas, lúdicas e metalinguísticas. Estas não são categorias, e sim qualidades dominantes, segundo o autor, podendo variar e se relacionar. Para o autor e ilustrador Rui de Oliveira (2008b), é possível destacar três gêneros de ilustração: informativa, com objetivos específicos e clareza de informações; persuasiva, voltada para ​marketing ​e publicidade; e narrativa, a qual nos interessa, em que as imagens narram e descrevem histórias sem que necessariamente as ideias sejam redundantes ao texto. Por outro lado, existe uma questão mais ampla que os criadores de livros ilustrados levantam. Vivemos em uma época marcada pela profusão de imagens, concebidas muitas vezes para atrair, persuadir, vender e informar. Assim, Cristina Biazetto (2008) chama atenção para o importante papel da ilustração nas obras literárias, que ao contrário das características citadas acima, deve promover a criatividade e imaginação, ser cheia de poesia, de metáforas e fantasia, e que não seja óbvia: Entendemos como ideal aquela ilustração que encanta, comunica-se com o leitor, num diálogo que não se esgota no primeiro momento, mas convida a criança ou o jovem a revê-la, ir e voltar pelas páginas, retomar algum detalhe, olhar novamente. (BIAZETTO, 2008, p. 79) Desta forma, as funções de uma imagem não se reduzem a explicar e decorar um texto, quando se pensa nas possibilidades qualitativas que um livro ilustrado pode adquirir, mas o que se observa é um número considerável de livros em bibliotecas e livrarias cujas figuras buscam corresponder a uma necessidade comercial, ao referenciar personagens e produtos que a criança já têm contato. Sobre essa relação entre a ilustração e as imagens de nossa cultura, Rui de Oliveira (2008a) tece o seguinte questionamento: Até que ponto a ilustração de nossos dias - em grande parte influenciada pelos bonequinhos do cartum, pelos quadrinhos ou pelas séries de desenhos animados da TV - possui pregnância necessária para compor a memória e a imaginação dos pequenos leitores? (OLIVEIRA, 2008a, p. 44) Para o autor, a literatura é um prisma e não um espelho, e que “Diante da individualidade e abrangência dos olhares, não podemos dogmatizar ou circunscrever a imagem narrativa ao binômio narrar-descrever.” (OLIVEIRA, 2008a, 36 p. 41). Deve ocorrer o que o ilustrador Marcelo Ribeiro (2008) considera ser o principal fundamento da ilustração: a metamorfose. Ou seja, o sentido das palavras são transpostos para uma outra linguagem, a da imagem, de maneira que a coerência se dê pela poesia e não pela interpretação direta de uma frase. Para ler o livro ilustrado tem que ser considerado o modo como cada linguagem conta a história. Quando são mais do que ornamentação, as ilustrações são capazes de ampliar o significado de um livro, desdobrando camadas, amplificando a magia das histórias e o alcance delas no universo do leitor, criando pontes entre o real e o imaginário. É por isto que Rui de Oliveira (2008b) valoriza a criação de livros ilustrados como se fossem sombras das palavras: Explicando melhor, a arte de ilustrar se localiza mais na sombra do que nos aspectos simbólicos da palavra. O olhar pergunta mais para o que está na escuridão do que para o que está nos significados dos objetos representados à luz. A ilustração não se origina diretamente do texto, mas de sua aura. (OLIVEIRA, 2008b, p. 32) Figura 5 - Detalhe da capa do livro ​A árvore vermelha ​(2009), de Shaun Tan. Fonte: https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/41WGhLYk80L.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Se olharmos atentamente para a capa do livro ​A árvore vermelha ​(2009), de Shaun Tan, notamos que a sombra do barco onde a menina está é diferente, não é de água, mas de inúmeras folhas secas (Figura 5). O que isto quer dizer? E aquela folha vermelha que parece boiar sobre a água? As palavras não falarão sobre folhas, nem mesmo sobre a árvore que dá título ao livro. Seu significado está nas 37 entrelinhas, e podemos contar com as pistas dadas pela sequência de texto e ilustração no interior do livro. Este é o sentido do termo ​picturebook​, pois títulos com esta característica se definem pela predominância da interconexão do texto com a ilustração, sendo que a questão visual tem grande importância, juntamente com o ​design ​gráfico. Criador renomado de livros ilustrados, o norte-americano Maurice Sendak (1928-2012) criou o termo “poema visual” para conceituá-los, e desde então muitos ilustradores se tornaram herdeiros deste estilo de criação voltado para uma identidade visual impressa em todos os elementos do livro (RAMOS, 2011). Outra questão à qual se pode debruçar é o projeto gráfico, ou seja, o design do livro, pois, como afirma o ilustrador Odilon Moraes (2008), a qualidade de um livro ilustrado é determinada por uma boa integração entre as suas partes, que propicia uma boa fruição. Não se deve esquecer que as imagens associadas às palavras estão inseridas em um contexto - o do livro objeto. Para o leitor, é favorável que o livro não seja percebido “(...) como um composto de fragmentos (palavras, imagens, páginas) mas como um universo singular de leitura.” (MORAES, 2008, p. 58) Concomitantemente, Van Der Linden (2011) afirma que a literatura ilustrada não se define apenas pela copresença de texto e imagem, mas de uma interação, a partir da qual surgirá o sentido - ou os possíveis sentidos - do livro. A ênfase dada ao aspecto visual do livro é uma das características que distinguem os livros ilustrados contemporâneos. De modo resumido, pode-se ainda mencionar as seguintes tendências: preocupação com a plasticidade das mensagens linguísticas, ou seja, com a visualidade do texto, por meio da tipografia, a aplicação de técnicas mistas de diagramação e entrelaçamento das linguagens, que se estabelecem de modo único em cada página dupla; leva-se muito em conta a materialidade do livro, aposta-se na variedade de estilos, já que as possibilidades criativas foram ampliadas pelas inovações tecnológicas (VAN DER LINDEN, 2011). Nas ilustrações, a combinação de técnicas é muito comum, ao mesmo tempo em que meios expressivos antigos são resgatados, como a gravura (Figura 6), ao mesmo tempo que ilustrações digitais ganham cada vez mais espaço. 38 Figura 6 - Projeto gráfico do livro ​Fabiana: la palmera prófuga​ (2013), cuja ilustradora Malota aposta em técnicas como colagem, pintura e uso de carimbos para gerar resultados visuais semelhantes às artes gráficas tradicionais, como gravura e serigrafia. Fonte: https://i.pinimg.com/564x/7c/50/1b/7c501b6be731a3f4ca7353265ed930ab.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Os textos são breves, já que parte das informações e dos detalhes estão nas imagens. No trabalho criativo, autor, ilustrador, editor e outros profissionais articulam-se cada vez mais buscando uma coesão entre as partes que constituem o livro, como explica Van der Linden (2011). O campo semântico é marcado pela ambiguidade, explorada pelo potencial dos múltiplos significados, segundo Salisbury e Styles (2013). Ainda segundo estes autores, livros ilustrados são hoje marcados pela era chamada pós-modernidade, na qual “diversão, quebra de regras, fragmentação e incerteza são comuns (e aparecem em muitos ilustrados desafiadores) (SALISBURY; STYLES, 2013, p. 75). Devido a estas tendências, os debates no campo da literatura ilustrada têm se voltado para a designação “infantil” para os livros ilustrados. Mesmo sendo livros que tradicionalmente eram utilizados como apoio à alfabetização de crianças, hoje as possibilidades criativas se expandiram muito, com os livros ilustrados se entrelaçando com os livros de arte. Por esta razão, não se pode mais afirmar que este tipo de literatura se restringe apenas a crianças e a leitores iniciantes (SALISBURY; STYLES, 2013). 39 Mas como chegamos a tamanha liberdade criativa nos livros ilustrados? Eles sempre foram livros pensados para crianças? Quando surgiu a literatura com imagens? Voltaremos um pouco no tempo para mostrar como se deu este processo, e os principais marcos que deram ao livro ilustrado potencialidades expressivas cada vez maiores. 2. 2 Fazer livros, ilustrar mundos, desenhar palavras: percursos do passado Contar histórias por meio de imagens é uma prática que antecede a existência do próprio livro, pois como afirmam Salisbury e Styles (2013), as primeiras pinturas nas cavernas feitas há milhares de anos atrás já são registros de como as sociedades humanas valorizam as imagens na comunicação (Figura 7). O homem primitivo usava o desenho como ferramenta de linguagem para descrever eventos de um modo que ainda não era possível fazer com as palavras. Figura 7 - Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara, Brasil. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/70/Serra_da_Capivara_-_Several_Paintings _2b.jpg/1024px-Serra_da_Capivara_-_Several_Paintings_2b.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Séculos à frente, na Antiguidade, alguns artefatos marcam: a Coluna de Trajano (Figura 8), datada do século II d.C., é citada por ser uma representação das batalhas do imperador romano, feitas em baixo-relevo sobre um monumento. As tumbas do Egito Antigo e os muros de Pompéia são outros exemplos de como a civilização humana narra histórias por meio de figuras ao longo do tempo e em diversas culturas (SALISBURY; STYLES, 2013). 40 Figura 8 - Coluna de Trajano, 113 d.C., Roma. Fonte: https://hav120151.files.wordpress.com/2016/07/figure-2.png?w=718. Acesso em 2 abr. de 2020. Os egípcios não apenas realizavam desenhos como representação visual do discurso falado, como também foram responsáveis pela criação dos “primeiros livros ilustrados”, segundo Renato Alarcão (2008): os papiros, como demonstra a Figura 9. Figura 9 - Papiro egípcio que representa os pântanos da planta papiro, matéria-prima para os precursores do livro, ca. 1427–1400 a.C., Hugh R. Hopgood. Têmpera sobre papel.79 x 68 cm. Museu Metropolitano de Nova York. Fonte: https://collectionapi.metmuseum.org/api/collection/v1/iiif/557718/1411398/main-image. Acesso em 2 abr. de 2020. Entretanto, as representações gráficas que encontramos nos livros ilustrados começaram a relacionar-se desde uma origem comum: Desde o início, palavras e imagens brotaram como galhos de uma mesma árvore: o homem. A progressiva simplificação dos nossos desenhos, por 41 exemplo, deu origem a símbolos gráficos abstratos para a representação de fonemas e letras. Essa invenção, embora espetacular, não varreu do mapa o nosso interesse pelas imagens. Pelo contrário, o abraço dialético entre palavras e imagens ficou ainda mais caloroso. (ALARCÃO, 2008, p. 62) Avançando na história, e pensando mais especificamente no objeto livro, temos alguns pontos de referência que são considerados importantes para definir o livro ilustrado contemporâneo. O formato do livro atual, denominado códice, remonta à Roma Antiga, quando o ​volumen​, livro em forma rolo, foi substituído por placas. Então, na Idade Média, os códices se tornam manuscritos, sequenciados em páginas, combinando palavras e as ancestrais da ilustração, as iluminuras. Eis que, por volta de 1450, o alemão Johannes Gutenberg torna-se reconhecido como inventor da prensa de tipos móveis, que possibilitou o surgimento dos livros impressos, substituindo a produção artesanal (ALARCÃO, 2008; SALISBURY; STYLES, 2013). Desde então, o suporte literário foi passando por melhoramentos nas técnicas de impressão e reprodução, que permitiram que as ilustrações atingissem um status cada vez mais elevado (VAN DER LINDEN, 2011). Até o século XVIII, a técnica mais versátil e mais utilizada para criar e reproduzir imagens foi a xilogravura, na qual a ilustração é traçada e entalhada sobre uma placa de madeira, que depois é entintada e pressionada sobre o papel, gerando uma cópia (Figura 10). Dentro das possibilidades da gravura em madeira, os caracteres e ilustrações poderiam ser impressos na mesma página, como explica Van der Linden (2011). Figura 10 - Livro ilustrado com xilogravura, ​Roti-Cochon​, entre 1689 e 1704, Claude Michard. Fonte: VAN DER LINDEN, (2011, p. 12). 42 Por outro lado, desde o século XVI, uma outra forma de gravura era utilizada, o talho doce. Realizada sobre uma placa de cobre, a técnica conferia maior fineza ao desenho, porém não era possível reunir imagem e texto em uma mesma página. Além disso, o processo de feitura da gravura e o processo de impressão dos caracteres eram particulares, sendo realizados por profissionais diferentes. Pelo fato da relação texto-imagem ser determinada pelo que a técnica utilizada possibilita, Van der Linden (2011) explica que os primeiros livros ilustrados possuíam poucas imagens, tanto que até o século XIX, a literatura feita para crianças limitava-se aos livros com ilustração (Figura 11). Figura 11 - Livro com ilustração do século XVIII, ​The History of Goody Little Two-Shoes ​(1765), de John Newbery. Fonte: https://janeaustensworld.files.wordpress.com/2011/05/rarebook2.jpg?w=500&h=369. Acesso em 2 abr. de 2020. No entanto, uma obra do educador checo John Amos Comenius, reconhecido como o pai da pedagogia moderna, é muito citada como o primeiro livro ilustrado infantil - ou ​picturebook​, com o significado que este termo carrega. O livro didático Orbis Pictus ​(Figura 12), de 1698, é destacado por apresentar uma relação muito forte entre texto e ilustração, uma sinergia, segundo Ramos (2011). Comenius criou imagens que não exercem apenas o papel de ornamentação, pois servem ao objetivo de educar até mesmo os leitores iniciantes na alfabetização (RAMOS, 2011). 43 Figura 12 - Detalhe de página traduzida de ​Orbis Pictus​ (1698), de Comenius. Fonte: MIRANDA (2011). Em seguimento aos avanços nas técnicas de impressão, uma grande inovação que ampliou as possibilidades criativas foi a xilografia de topo, um tipo de gravura em madeira que permite maior definição do desenho. Segundo Van der Linden (2011), o inglês Thomas Bewick foi o responsável por este avanço, em 1770. Ainda outra técnica de gravura foi um marco: a litografia, realizada sobre uma matriz em pedra, desenvolvida por Aloysius Senefelder no final do século XVIII. Foi por meio desta técnica que Rodolphe Töpffer criou suas primeiras imagens sequenciais juntamente com textos, sendo considerado pioneiro da história em quadrinhos, assim como Heinrich Hoffmann realizou as ilustrações de seu livro ​João Felpudo (1844) (Figura 13), um clássico da literatura infantil alemã reconhecido por sua originalidade, seu humor e ironia (SALISBURY; STYLES, 2013). 44 Figura 13 - Página do livro ​João Felpudo​ (1844), de Heinrich Hoffmann. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-9tKqbKYkC1w/UkLsSxNXk4I/AAAAAAAAADY/Nmt02j4n-ik/s400/383940548 _6abe256543.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Ao longo do tempo, a combinação de texto e imagem foi ocorrendo com maior liberdade, até que chegamos à Era Vitoriana, um período muito frutífero para a literatura ilustrada que deixou suas marcas até os dias atuais, como mencionado por Oliveira (2008a), Ramos (2011) e Alarcão (2008). Esta era se refere ao período em que governaram a Inglaterra a Rainha Vitória I (1819-1901) e seu filho sucessor Eduardo VII (1841-1910), e foi marcado por mudanças sociais, culturais e tecnológicas que contribuiram para a origem do livro ilustrado como é conhecido hoje. O contexto do século XIX foi de grande desenvolvimento para a Inglaterra, onde ocorreu a Revolução Industrial e se consolidou a classe burguesa. Esta passou a exigir uma maior variedade de publicações próprias para seus filhos, que começam a ser vistos pela sociedade de um modo distinto, pois como explica Oliveira (2008a): a criança passa a ser aceita e compreendida como um ser único, possuidor de particularidades e necessidades inerentes à sua fase da vida, superando, dessa forma, a visão tradicional da criança como um adulto pequeno. (OLIVEIRA, 2008a, p. 15) Desta forma, a literatura ilustrada tornou-se um objeto voltado para a infância, e pelos modos como a criança se relaciona com o mundo. Livros infantis são concebidos como objeto de arte, para entreter, brincar, mas também para transmitir valores morais e educacionais da época, segundo Oliveira (2008a). São deste período Edward Lear, Walter Crane, Kate Greenaway, Randolph Caldecott, e o 45 clássico ​Alice no País das Maravilhas (1865) de Lewis Caroll ilustrado por John Tenniel (Figura 14). Enquanto isso, em outros países, livros clássicos infantis são publicados em versão ilustrada, como os contos Charles Perrault na França, e as histórias de Jacob e Wilhelm Grimm na Alemanha. Figura 14 - Ilustração de John Tenniel para a primeira edição de ​Alice no País das Maravilhas​ (1865), de Lewis Caroll. Fonte: https://www.theguardian.com/books/2016/may/30/alice-in-wonderland-first-edition-christies-auction. Acesso em 2 abr. de 2020. Desde então, até o final da década de 1930, como afirma por Oliveira (2008a), se denomina a “Era de Ouro” da ilustração de livros para crianças, em que a figura do ilustrador surge e se consolida como profissional. A imagem atingia na época o ápice em sua reprodução e captura, já que surgia a fotografia e a reprodução de ilustrações coloridas com o aprimoramento da litografia (cromolitografia), como é exemplificado na Figura 15. 46 Figura 15 - Ilustração de ​Hey Diddle Diddle​ and Baby Bunting (1882), de Randolph Caldecott. Fonte: https://wahooart.com/Art.nsf/O/9DJ5V8/$File/Randolph+Caldecott-The+Cat+And+The+Fiddle+And+T he+Children's+Party.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Dadas estas influências, a ilustração adquire determinadas características e alcança uma integração com o elementos textual. Caldecott é um dos ilustradores que trabalha entrecruzamento de palavras e imagens, estabelecendo uma relação de complementaridade considerada inovadora (RAMOS, 2011; VAN DER LINDEN, 2011). Walter Crane também trouxe uma valiosa contribuição, reconheceu a importância de integrar harmoniosamente as partes do livro para conferi-lo qualidade estética e artística. Entendia o objeto como sequência de imagens dispostas em espaços e páginas, e por isso, pensava no projeto gráfico e no ​design ​do livro (OLIVEIRA, 2008a). Este entendimento incentivou à visão que se tem dos livros ilustrados na atualidade: Hoje é muito comum, e cada vez mais importante, que o ilustrador faça ou participe da elaboração do projeto gráfico do próprio livro. Feito por diferentes mãos ou por um mesmo profissional, a qualidade de um livro e a condução de sua leitura dependerão sempre da integração entre a palavra e a ilustração dada pelo design. (MORAES, 2008, p. 54) No século XX, uma série de autores-ilustradores foram responsáveis por explorar o livro ilustrado como suporte para expressão, por um lado devido à riqueza das imagens, que vão invertendo a relação vigente de predominância de texto sobre imagem, e por outro pela preocupação cada vez maior com a diagramação, o formato e o modo como o leitor é levado ao mundo das histórias e poesias visuais (VAN DER LINDEN, 2011). Na modernidade, a página dupla vai se afirmando como espaço onde a relação texto-imagem se estabelece, por exemplo nos livros ​Macao 47 et Cosmage ​(1919), de Edy-Legrand (Figura 16), a série ​Gédéon​, de Benjamin Rabier e ​A história de Babar, o pequeno elefante (1931), de Jean de Brunhoff, como menciona Van der Linden (2011). Figura 16 - Página de ​Macao et Cosmage ​(1919), de Edy-Legrand, 31 X 33 cm. Fonte: http://fulltable.dyndns.org/vts/aoi/l/legrand/mc.htm. Acesso em 2 abr. de 2020. Foi neste período que começou a se fortalecer a presença da imagem nos livros destinados a crianças no Brasil. Ramos (2011) explica que isto ocorreu por influência de uma série de fatores: mais crianças passaram a frequentar a escola, as técnicas gráficas s aperfeiçoaram, mudanças sociais modificaram a visão que se tinha sobre a infância, passando a valorizá-la, e com isso, o incentivo à produção de conteúdos adequados e dirigidos ao público infantil. Muito importante também foram os estudos que demonstraram a importância da literatura ilustrada na formação de crianças, levando em conta seus estímulos à fantasia que contribuem para os processos de alfabetização e leitura. Até então, a tradição de ilustração brasileira ainda baseava-se no preto e branco, mas com a publicação do livro ​O Patinho Feio ​(1915), ilustrado por Franz Richter (Figura 17) e impresso em policromia, as mudanças no papel da imagem na literatura começaram a ser observadas (RAMOS, 2011). 48 Figura 17 - Ilustração da capa do livro ​O Patinho Feio, ​edição de 2015, ilustrado por Franz Richter. Fonte: https://images-na.ssl-images-amazon.com/images/I/51Z4+Zo-4WL._SX343_BO1,204,203,200_.jpg. Acesso em 2 abr. de 2020. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se cada vez mais fundamental o papel dos editores, que passaram a incentivar cada vez mais a publicação de livros cuja materialidade fosse explorada, bem como seus aspectos visuais. Robert Delpire e Pierre Marchand são dois nomes citados por Van der Linden (2011) que realizaram trabalhos neste sentido. Neste período também se destaca o trabalho do autor-ilustrador Maurice Sendak, conhecido mundialmente pelas obra premiada Onde vivem os monstros (1963), na qual a imagem adquire uma nova concepção, marcada por representar o inconsciente infantil e es