PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO HUMANO E TECNOLOGIAS MODERNIZAÇÃO DO KARATÊ: Gichin Funakoshi e as Tecnologias Políticas do Corpo FABIO AUGUSTO PUCINELI JUNHO 2017 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS – RIO CLARO unesp Pucineli, Fabio Augusto Modernização do Karatê: Gichin Funakoshi e as tecnologias políticas do corpo / Fabio Augusto Pucineli. - Rio Claro, 2017 102 f. : il., figs., fots. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Biociências de Rio Claro Orientador: Carlos José Martins 1. Karatê. 2. Arte marcial. 3. Japão. I. Título. 796.8153 P997m Ficha Catalográfica elaborada pela STATI - Biblioteca da UNESP Campus de Rio Claro/SP Dedico aos meus grandes mestres: pai, mãe, Cris, Yang e Kuroi “(...) o caminho que conduz à arte sem arte é áspero” (Eugene Herrigel, A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen) A importância dada à luta e a agradável excitação que ela origina, que proporciona um complemento imprescindível às restrições da vida, igualmente indispensáveis, não foi uma opção pessoal. Se eu fosse livre de escolher o meu mundo, provavelmente não teria escolhido uma humanidade onde as lutas entre seres humanos são consideradas excitantes e agradáveis. (Norbert Elias, A Busca da Excitação) RESUMO Esta pesquisa busca refletir sobre as contingências que nortearam a emergência do Karatê moderno. Para tanto, objetiva-se investigar as práticas discursivas e não discursivas que o constituíram. Questiona-se como uma prática autóctone de uma região específica do Japão pré moderno vai se constituir, reinventando-se a partir dos novos modelos sociais e políticos, para atender exigências que o processo de transição coloca. A pesquisa visa investigar a modernização do Karatê, discutindo especialmente a reconfiguração dessa prática como arte marcial e também como esporte e interrogar as influências e importância de Gichin Funakoshi no conjunto desse processo, bem como as tecnologias políticas do corpo envolvidas. Para tal, são utilizados como principais referenciais metodológicos a Sociologia configuracional de Norbert Elias e a abordagem genealógica de Michel Foucault. A pesquisa é constituída por estudos bibliográficos e documentais sobre o assunto, bem como relatos de inspiração etnográfica. A sistemática da pesquisa mostrou Gichin Funakoshi estabeleceu emblemáticas e decisivas mudanças na prática que aprendera em Okinawa. Alterações essas que iam ao encontro das condições pelas quais o Japão passava: a modernização da sociedade e a formação de um Estado-nação japonês. A legitimação do Karatê acontece, então, pela racionalização de suas práticas discursivas e não discursivas e também pela sua configuração esportivizada. Palavras-chave: Karatê, tecnologias políticas do corpo, modernização, Gichin Funakoshi, Japão. ABSTRACT This research intent to reflect about the contingencies that guided the modern Karate´s emergency.Therefore, the objective is to investigate the discursive and non-discursive practices which constituted it. This research asks how an autochthonous practice coming from a specific region of pre-modern Japan, reinventing itself from the new social and political models, in order to overcome the demands that the transition process imposes. The research aims to investigate the modernization of Karate, discussing especially the reconfiguration of this practice as a martial art and also as a sport and interrogate the influences and importance of Gichin Funakoshi in the whole of this process, as well as the political technologies of the body involved. For this, Norbert Elias's configurational sociology and Michel Foucault's genealogical approach are used as the main methodological references. The research is constituted by bibliographical and documentary studies on the subject, as well as reports of ethnographic inspiration. The systematics of the research showed that Gichin Funakoshi established emblematic and decisive changes in the practice that he had learned at Okinawa. These changes were in line with the conditions under which Japan passed: the modernization of society and the formation of a Japanese nation-state. The legitimacy of Karate happens, then, by the rationalization of its discursive and non-discursive practices and also by its sportivized configuration. Keywords: Karate, political technologies of the body, modernization, Gichin Funakoshi, Japan. LISTA DE IMAGENS Figura 1 Cartaz do 2009 Okinawa Traditional Karatedo World Tournament 15 Figura 2 Área de competição demarcada com o posicionamento dos árbitros e dos competidores (aka e ao). 30 Figura 3 Disputa de uma final da categoria kata equipe masculino 30 Figura 4 Parte da campanha para inclusão do Karatê nos Jogos Olímpicos de 2020, realizada pela WKF 31 Figura 5 Tokyo Budōkan 32 Figura 6 Templo Todai (Todaiji), em Nara 32 Figura 7 Okinawa Budōkan 33 Figura 8 Disposição das câmeras para registro das disputas finais durante os eventos da WKF 34 Figura 9 Boxing, Jack Dempsey vs. Georges Carpentier, July 1921 36 Figura 10 Shurei-mon, um dos principais símbolos de Okinawa 38 Figura 11 Mestre Gichin Funakoshi 44 Figura 12 Mestre Yatsutsune (Anko) Itosu 45 Figura 13 Jigoro Kano ensinando 48 Figura 14 Prática de Karatê orientada por Shinpan Gusukuma, em 1938, no pátio do castelo de Shuri, antiga sede do reino Ryukyu 52 Figura 15 página da obra Karate Kyohan, escrita por Gichin Funakoshi 68 Figura 16 página da obra Karate Kyohan, escrita por Gichin Funakoshi 69 Figura 17 página da obra Karate Kyohan, escrita por Gichin Funakoshi 69 Figura 18 Robson Maciel e Laerte Ferraz. Campeonato Paulista de 1989 O piso é de madeira e não se usa proteções 84 Figura 19 A competição de Karate segundo as regras atuais da WKF: cuidadosas proteções e delicadas tecnologias para registro dos movimentos 85 Figura 20 Exemplo de homologação da WKF em vestimentas 85 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 11 MÉTODOS 20 O KARATÊ MODERNO 24 FUNAKOSHI E A MODERNIZAÇÃO DO KARATÊ 51 CONSIDERAÇÕES FINAIS 88 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 98 11 INTRODUÇÃO Final dos anos 1980. Numa sessão vespertina de filme na televisão, “Karate Kid - A hora da verdade”1. História de Daniel (Ralph Macchio), garoto que se muda com a mãe para outra cidade e começa a sofrer represálias de uma gangue de jovens abastados. Salvo e orientado pelo habilidoso senhor Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita), o personagem principal encontra sua redenção na prática da arte marcial que dá título ao filme. Ainda criança, me identifiquei com o drama do rapaz, assim como outras pessoas da minha idade na época, acredito. Também era diariamente agredido e humilhado de diversas maneiras na escola. Inspirado, comecei a praticar aquilo que poderia também ser minha redenção, mas que, na verdade, seria algo além, pois viria a nortear minha vida profissional e acadêmica: Karatê!2 Quanto mais praticava, mais eu me intrigava e me interessava em saber sobre as técnicas, história, significado das palavras frequentemente utilizadas etc. Era uma espécie de misto entre um encantamento fantasioso nutrido pela mídia, que fertilizava minha imaginação e as narrativas articuladas pelo meu sensei na época, frente às minhas questões. “Quem inventou o Karatê?”; “para que servem os kata?”; “faixa preta sabe tudo?”; “por que sempre fazemos ginástica antes de começar o Karatê?” – esses são exemplos de algumas das perguntas que eu fazia enquanto criança e que agora, como professor, ouço frequentemente. Essa curiosidade em saber mais sobre aquilo que eu praticava com tanto afinco e inspiração me levou a investigar sobre Karatê. O Dōjō3 onde comecei a praticar era um lugar bastante simples, num prédio já muito antigo, que não existe mais. Para chegar até o espaço, os 1 The Karate Kid, 1984. Direção: John G. Avildsen. 2 A propósito, isso é bastante comum nas referências que tratam sobre as biografias dos mestres Gichin Funakoshi (Karate) e Jigoro Kano (Judô), por exemplo: terem sido crianças de condições físicas fracas, que facilmente eram acometidos de alguma enfermidade ou mesmo eram oprimidos por crianças mais velhas e que resolveram seus problemas com a prática das artes marciais japonesas. 3 Dojo: lugar para prática do “caminho”. 12 alunos desviavam dos aparelhos de musculação que ficavam na sala ao lado. Lá também aconteciam outras práticas relacionadas à ginástica e ao condicionamento físico, no mesmo ambiente, em horários diferentes, sobre o tatami. Em Okinawa, onde o Karatê se configurou inicialmente, era ensinado e praticado em espaços conjugados às residências dos mestres; já no Ocidente (e também na modernizada Okinawa), este acontece também em academias de ginástica, clubes, centros comunitários, escolas ou universidades, por exemplo. Já nas primeiras aulas ouvi falar que o Karatê, como outras artes marciais japonesas, fora criado para que os mais fracos, oprimidos, vencessem os mais fortes, opressores, através de técnicas e estratégias específicas – um conceito condizente com o contexto do filme: Daniel, após um processo de incorporação e compreensão da prática corporal combativa, conquista sua honra e liberdade através da transformação pela qual passa, vencendo seus opressores. Porém, não demorou para que fossem identificadas diferenças entre as maneiras que o filme trata o Karatê e como era praticado no Dōjō da pequena cidade do interior de São Paulo: fui convencido de que ninguém aprendia Karatê pintando cercas, paredes, lixando assoalho ou lavando carros, por exemplo. Karate Kid é um filme. Filmes são “mentirosos”. O Karatê “verdadeiro” era aquele ensinado e praticado “de verdade”, orientado pelo sensei, faixa preta, num espaço “apropriado” para tal. O filme mostra três modos distintos de praticar Karatê: 1) num dōjō, onde os praticantes seguem as orientações de um professor, posicionando-se de maneira supostamente disciplinada, em filas, repetindo os gestos ao som de uma contagem; 2) quando Daniel tenta aprender Karatê usando um livro, espécie de manual didático e 3) a maneira aparentemente informal, peculiar e particular que o senhor Miyagi elege para ensinar seu único discípulo. Miyagi aprendeu Karatê com seu pai no extremo sul do Japão, em Okinawa, onde nascera. Era viúvo. A esposa falecera em virtude de complicações no parto. Daniel foi seu primeiro e único discípulo - uma releitura 13 da tradicional prática conhecida como isshin-sōden (一子相伝 ), na qual o Karatê era transmitido de pai para filho ou para seletos eleitos. Não foi dessa maneira que iniciei na prática da referida arte marcial. Na primeira aula, por exemplo, cheguei atrasado e já estavam todos enfileirados e uniformizados com seus karate-gi 4 , repetindo os exercícios ginásticos que precediam o Karatê propriamente dito. Logo em seguida o sensei nos orienta a assumir shiko-dachi5 para praticar socos parados, por exemplo – uma aula convencional de Karatê que já me incentivaria a querer conhecer cada vez mais sobre a arte marcial. Ainda criança, tive a oportunidade de me encontrar com o saudoso mestre japonês Yoshihide Shinzato, precursor do estilo Shōrin-ryu no Brasil. Foi meu primeiro contato mais direto com uma presença que personificava a história do Karatê. Vindo de Okinawa na década de 1950, parecia-se com o senhor Miyagi, o que me deixou ainda mais entusiasmado em praticar. Como já dito, o Karatê tornou-se para mim o norteador de muitas das minhas escolhas. O curso superior em Educação Física foi uma delas. Graduei- me faixa preta aos 14 anos de idade. Desde muito cedo auxiliava meu sensei nas aulas, ministrando exercícios na ausência deste inclusive, o que me estimulou significativamente em me tornar professor de Karatê. Durante a graduação, participei do projeto de extensão em Karatê na Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (FEF – Unicamp). Desenvolvi dois trabalhos de conclusão de curso com temas relacionados6. Além disso, iniciei meus estudos da língua japonesa no Centro de Estudos de Línguas da universidade. Nesse período aproximei-me de forma mais íntima das aulas mensais ministradas em São Paulo, pelo mestre Yoshihide Shinzato. 4 Traje de prática usado no Karate e equivocadamente chamado de kimono. 5 Postura na qual as pernas ficam afastadas e os joelhos flexionados. 6 PUCINELI, Fabio Augusto. Estresse em Crianças nas Competições de Karate. Trabalho de Conclusão de Curso. Bacharelado em Treinamento Esportivo. Faculdade de Educação Física. Unicamp. Campinas, 2003. PUCINELI, Fabio Augusto. Sobre Luta, Arte Marcial e Esporte de Combate: Diálogos. Trabalho de Conclusão de Curso. Licenciatura em Educação Física. Faculdade de Educação Física. Unicamp. Campinas, 2004. 14 Em 2006 tornei-me professor efetivo da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo, em Piracicaba – SP. Durante algum tempo, pratiquei Karate num dōjō da cidade que seguia o mesmo estilo e mestre. Também me aventurei a alugar um espaço para ministrar aulas e, quando a proprietária do local me informara de que não poderia mais utilizar o local, motivei-me a prestar um concurso para a Secretaria de Esportes do município visando a possibilidade de continuar ministrando aulas de Karatê, agora em espaços públicos. Ingressei como funcionário da Prefeitura Municipal no ano de 2008. Não demorou para que eu começasse a ensinar Karatê em diversos bairros da cidade. Com as economias que fiz trabalhando em dois locais, em 2009 acompanhei a delegação comandada pelo mestre Masahiro Shinzato durante o Okinawa Traditional Karatedo World Tournament (Figura 1), em Naha, capital de Okinawa, onde tive a oportunidade de participar de seminários ministrados no evento e também de conhecer o sensei Morinobu Maeshiro7, com quem praticamos em seu dōjō em três oportunidades. Minha primeira impressão sobre o dōjō do mestre Maeshiro foi: “nossa, que pequeno!”. Estávamos num grupo de 11 pessoas, acompanhados de uma delegação argentina que somava mais umas 20 e alguns franceses, o que deixou o pequeno lugar abarrotado. Praticamente não havia espaço nem para os movimentos básicos. O filho do chefe da delegação argentina foi responsável pela sessão de alongamento e aquecimento, já que era graduado em Educação Física. Percebi que o Mestre Maeshiro parecia um pouco confuso com os movimentos ginásticos. Estar em meio aquele grande grupo de pessoas num lugar tão pequeno me deixou um pouco incomodado. Era agosto, verão em Okinawa. Fazia muito calor. Perguntei-me como o mestre Maeshiro conseguia dar suas aulas naquele espaço tão reduzido. Ainda mais, como recebia grupos de outros países para ensinar? 7 Mestre Morinobu Maeshiro, 9o dan, foi aluno direto do fundador da escola Shōrin-ryu Shidokan, Mestre Katsuya Miyahira, 10o dan, falecido em 2010. Atualmente é vice- presidente da Okinawa Shōrin-ryu Karate-do Association. 15 Figura 1: Cartaz do 2009 Okinawa Traditional Karatedo World Tournament. Disponível em: www.okinawa-information.com/blog/2009-okinawa-traditional-karatedo-world- tournament. Acesso em 18/09/2016 Mesmo num grande grupo, Maeshiro sensei e sua esposa nos recepcionaram gentilmente em frente ao dōjō. Cada pessoa que adentraria, recebia um aperto de mão e uma reverência. Para meus olhos ocidentais aquilo foi impactante. Sendo ele o detentor de tão alta graduação (9º Dan) e tão respeitado pelos praticantes, não éramos nós que deveríamos reverenciar ao mestre e sua esposa? Ele é o “mestre”! Um mestre que pouco falou e muito sorriu durante os três encontros que tivemos para praticarmos com ele. Um mestre que entendia muito de Karatê, mas que, mesmo aparentemente um pouco perdido, parecia receber muito bem os comandos e contribuições dos exercícios de alongamento e aquecimento vindos de um professor de Educação Física argentino. De maneira geral, nesse primeiro contato com Okinawa fiquei maravilhado com a cultura e intrigado com as diversas maneiras de praticar, ensinar e apresentar o Karatê. Assim, estabeleci como um objetivo de vida voltar ao Japão a fim de morar por um tempo, sendo para trabalhar ou estudar. http://www.okinawa-information.com/blog/2009-okinawa-traditional-karatedo-world-tournament http://www.okinawa-information.com/blog/2009-okinawa-traditional-karatedo-world-tournament 16 Aqueles 15 dias me foram apenas uma amostra. Percebi que eu queria não só viver no Japão por um período. Queria viver o Japão! Três anos depois, regressei para cumprir o que havia prometido a mim mesmo. Conseguira uma bolsa de estudos oferecida pelo Monbu-kagaku- shō (Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão), também conhecida como Monbusho ou Mext, via Consulado Geral do Japão em São Paulo. Porém, não foi possível estudar em Okinawa, pois nenhuma das universidades oferecia cursos relacionados à minha área de atuação. Estudei intensivamente a língua japonesa na Universidade de Nagoya por 6 meses. Após esse período, mudei-me para cidade de Ōtsu, onde participei do curso The Theory of the Japanese Martial Arts, orientado pelo professor Dr. Kinji Murayama, que me incentivou a também praticar Kendō, na Universidade de Shiga, além de prosseguir com os estudos do idioma. O projeto inicial de estudos visava investigar como as artes marciais aconteciam nas escolas japonesas, já que era um curso de formação de professores. Com o passar do tempo, o professor Murayama me sugeriu que o trabalho final abordasse minha experiência na prática do Kendō japonês e o Karatê de Okinawa, estabelecendo relações de semelhanças e diferenças8. Dos 18 meses em que vivi no Japão, visitei Okinawa por quatro vezes a fim de praticar Karatê, onde permanecia por volta de 10 dias. Fui carinhosamente recebido pelo mestre Morinobu Maeshiro, com quem pratiquei com mais intensidade e frequência9. Contudo, tive a oportunidade de conhecer e receber orientações de outros mestres, dos diversos estilos e escolas existentes na ilha. 8 Optei por especificar o kendo como sendo japonês para marcar a diferença entre as culturas do continente principal (também conhecido como “Japão continental”) e da ilha de Okinawa, que tem no Karatê sua principal prática corporal combativa. 9 A recepção, acolhida e orientações vindas do mestre Morinobu Maeshiro foram possíveis graças ao amigo e professor de Karatê, sensei Flávio Vicente de Souza, que viabilizou meu contato com o mestre okinawano. Meus agradecimentos. https://pt.wikipedia.org/wiki/Minist%25C3%25A9rio_da_Educa%25C3%25A7%25C3%25A3o,_Cultura,_Desporto,_Ci%25C3%25AAncia_e_Tecnologia_do_Jap%25C3%25A3o https://pt.wikipedia.org/wiki/Minist%25C3%25A9rio_da_Educa%25C3%25A7%25C3%25A3o,_Cultura,_Desporto,_Ci%25C3%25AAncia_e_Tecnologia_do_Jap%25C3%25A3o 17 Praticar Kendō constituiu uma experiência bastante valiosa, no que se refere às comparações entre as culturas e os valores do Japão continental e de Okinawa, através de suas respectivas e importantes práticas corporais combativas. Os costumes vinculados ao Kendō refletem intensamente valores caros à cultura japonesa: pontualidade, respeito à hierarquia e dedicação àquilo a que se propõe a fazer são exemplos desses aspectos. Não é difícil perceber que há grandes e significativas diferenças entre a cultura e os costumes do povo de Okinawa e do continente. Por exemplo, enquanto o japonês em si é muito sistemático, os okinawanos levam suas vidas e seus compromissos de maneira aparentemente mais à vontade, mas nem por isso descompromissada. Okinawa é mais quente, tanto pelo seu clima tropical, consequência de sua localização geográfica, tanto na acolhida pela população. Isso se reflete em praticamente todas as práticas, inclusive no Karatê. Durante minha primeira aula particular com o mestre Maeshiro, ele ensinava e demonstrava em mim um movimento no qual havia uma torção no cotovelo. Imediatamente imaginei que seria doloroso e que ele possivelmente iria me derrubar categoricamente ao chão. Mas, aconteceu algo que me deixou espantado. A técnica fora interrompida no momento em que a dor iria começar. E foi só indicado que eu poderia facilmente ter ido ao chão. Sutilmente demonstrou a técnica, sua eficiência e gentilmente me perguntou: "você entendeu?". A partir daí comecei a compreender o que seria aprender Karatê com aquele sorridente senhor, que não fez questão de mostrar-se poderoso, provocando em mim desconforto e dor (como é muito comum entre professores de Karatê do ocidente, por exemplo), para que eu compreendesse a gestualidade daquele momento. Assim, minha atenção voltou-se para um aprendizado maior naquele dia: o Karatê ensinado pelo mestre Maeshiro não é e nem pode ser bruto; é gentil. As perguntas que eu fazia enquanto criança, relatadas no início desta apresentação, não foram necessariamente sanadas. Foram transformadas e ampliadas. Assim, o Karatê sempre foi para mim motivo de inspiração e questionamentos, o que levou, inclusive, a realização deste trabalho. Se as artes marciais japonesas foram criadas para que os mais fracos vencessem os 18 mais fortes, qual seria o motivo de fortalecer o corpo através de longas sessões de ginástica que antecediam a prática do Karatê propriamente dito? De onde vem a afirmação de que as artes marciais são ótimos agentes para a disciplina e educação das crianças? Como foi possível o Karatê tornar-se um esporte, agora olímpico? Assim, esta pesquisa parte de questões formuladas a partir das experiências que estabeleci ao longo da vida com as configurações modernas do Karatê, que se manifesta principalmente como esporte e arte marcial (Budō) e busca problematizá-las tendo como recorte histórico a Restauração Meiji (1868), evento que marca a modernização japonesa. Dentro desse contexto, nascido no mesmo ano, em Okinawa, a figura de Gichin Funakoshi emerge como aquele que se tornaria para muitos o “pai do Karatê moderno”. Funakoshi estabeleceu vínculos fundamentais entre as práticas corporais combativas de Okinawa pré-moderna e as demandas de um Japão já bastante modernizado. Fez duas importantes apresentações, em Kyoto e em Tokyo, iniciando um forte movimento de popularização do Karatê. Alterou não somente técnicas, mas maneiras de ensinar, pensar e sentir a prática. Dessa forma, esta pesquisa também objetiva discutir as tecnologias políticas do corpo envolvidas na modernização do Karatê, bem como busca compreender o que a figura de Funakoshi agregava que proporcionou a invenção de uma história do Karatê e o colocou como um dos principais nomes na empreitada de reformular a referida prática. A dissertação se apresenta de maneira a problematizar minhas experiências com a prática do Karatê, inclusive em Okinawa, com referenciais históricos e documentos (obras escritas por Gichin Funakoshi, em especial). É formada pelos capítulos “O Karatê Moderno”, que inicia com transcrições da versão esportivizada da prática e, a partir desses registros, apresentam-se regras básicas de como a competição acontece. Basicamente, o capítulo traz a problemática de como o Karatê tem acontecido na atualidade, inclusive como modalidade olímpica. No capítulo seguinte, o Karatê moderno é interrogado a partir da essencial figura de Gichin Funakoshi: o contexto no qual fora educado, suas influências e implicações na configuração atual da prática. A escrita busca 19 refletir, quais as novas tecnologias políticas do corpo engendradas pela modernização do Japão através dos discursos de Funakoshi em suas obras e também nos demais referenciais teóricos que embasam a pesquisa. De maneira geral, a dissertação conta como se deu o encantamento pelo tema Karatê, bem como o desencantamento através dos estranhamentos estabelecidos com as investigações históricas que legitimaram sua prática e popularização: interesses políticos, por exemplo. E, finalmente, a pesquisa explicita um reencantamento: o Karatê visto e sentido como ascese corporal, na busca pela transformação de si. 20 MÉTODOS A história do Karatê é muitas vezes contada de forma bastante ingênua. Os fatos são tratados como resultado de simples sequência cronológica de acontecimentos, cujas origens seriam “milenares”. É comum deparar-se, por exemplo, com uma suposta “origem” do Karatê que é associada à lenda na qual as artes marciais orientais teriam sido desenvolvidas a partir dos ensinamentos de exercícios combativos, inspirados em movimentos dos animais, que Bodidharma (Daruma, para os japoneses) ensinava para monges aparentemente sedentários. Tagnin (1975), por exemplo, afirma que o Karatê é uma “arte de dois milênios” e que é “difícil e mesmo impossível chegarmos à sua história embrionária. São várias as regiões que reclamam sua paternidade (Índia, China e Japão)” (p. 5). Na internet é possível encontrar afirmações como: Conta a história que em 520 AC um monge budista, “Hindú” [sic], BODHIDHARMA (Daruma em japonês), viajou para a China para ensinar o budismo. Chegando a China Daruma habitou o templo de Shaolin onde passou a ensinar sua filosofia. Muitos de seus discípulos foram incapazes de acompanhar o treinamento devido a pobre condição física. 10 Algumas pesquisas acadêmicas também vinculam a ideia. Como exemplo: Foi observado que, Bodhidharma, ao chegar no Templo, encontrou os monges numa condição de saúde precária, devido às longas horas que passavam imóveis durante a meditação, na posição de lótus (pernas cruzadas) (MOREIRA, 2003). Se o Karatê teve uma “origem milenar”, cujo propósito era resolver o problema do sedentarismo de religiosos que supostamente passavam o dia rezando ou meditando (como se não precisassem ao menos fazer limpeza ou 10 Karatê Jaguaribe. Ceará, Brasil. Disponível em: http://www.karatejaguaribe.com.br/historia/karate/. Acesso: 24 de março de 2017. http://www.karatejaguaribe.com.br/historia/karate/ 21 cozinhar seus alimentos, por exemplo), a tendência seria imaginar que existe uma linha evolutiva que resultou na prática tal como acontece hoje em dia? Ou seja, parece muito possível que do mesmo pensamento que recorre à “origem” resultem afirmações de que o Karatê tenha atingido seu ápice evolutivo com sua inclusão nos Jogos Olímpicos. Haveria, então uma lacuna na história do Karatê?; um espaço isento de descontinuidades e essencialmente cronológico entre a “origem” e a “evolução” que resultou no Karatê moderno? Para contrapor essas suposições, encontrei em Foucault (1979) a afirmação: “a história ensina também a rir das solenidades da origem”. O autor prossegue afirmando que: (...) gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição, que elas saíram brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã. A origem está sempre antes da queda, antes do corpo, antes do mundo e do tempo; ela está do lado dos deuses e para narrá-la se canta sempre uma teogonia (p. 18). Dessa forma, entendo que não cabe a essa pesquisa seguir trajetórias convencionais, como se a história do Karatê, ou qualquer outra história, fosse contínua ou solene. Pelo contrário. É singular e constituída por rupturas, descontinuidades e contradições. De acordo com Foucault, “a história será ‘efetiva’ na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser” (1979, p. 27). A abordagem genealógica que propõe Foucault consiste na contraposição “à unicidade da narrativa histórica e à busca da origem” (REVEL, 2005, p.52), estabelecendo uma “crítica da história concebida como contínua, linear, provida de uma origem e de um telos” (REVEL, 2005, p.58). Entende que os acontecimentos são singulares e descontínuos. A descontinuidade, inclusive, é ponto fundamental na Sociologia Configuracional proposta por Norbert Elias, segundo a qual o indivíduo age na sociedade da mesma forma que a sociedade age no indivíduo. A configuração, para Elias, constitui-se de padrões mutáveis, resultado da interdependência entre sociedade e indivíduos: “refere-se à teia de relações de indivíduos interdependentes que se encontram ligados entre si a vários níveis e de diversas maneiras” (ELIAS e DUNNING, 1992, p.25). 22 Elias defende que determinados fenômenos sociais somente são apreendidos e compreendidos se estudados em recortes de longa duração. Tais fenômenos influenciam decisivamente nas mudanças dos comportamentos, emoções e sensibilidades, cada vez mais internalizadas nos sujeitos. Investigar sobre a história do Karatê sob pressupostos da abordagem genealógica de Michel Foucault e da sociologia configuracional de Norbert Elias é a proposta deste estudo cuja questão norteadora é se o Karatê praticado hoje em dia pode ser resultado de interações, intervenções e invenções decorrentes de influências ocidentais modernas. A escolha dos referidos referencias tem por objetivo iluminar a questão se muito do que se atribui a supostas “tradições” vinculadas às artes marciais japonesas, em especial ao Karatê, parece constituir-se de reconfigurações às demandas de um novo Japão, pós Restauração Meiji (1868). Nesse sentido, corriqueiramente confundem-se muitos discursos e práticas que se hibridizam indiscriminadamente, misturando valores, inventando e reinventando supostas tradições. A história do Karatê é constituída de rupturas e descontinuidades. A Restauração Meiji foi um momento histórico de emblemático rompimento na história do Japão e de significativas transformações. Ocorre rápida modernização e ocidentalização dos costumes. De um sistema semelhante ao feudalismo, baseado principalmente na agricultura, pesca e no trabalho artesanal, adota-se o capitalismo e acontecem reformulações das estruturas políticas: o estabelecimento de um poder absolutista e a implantação de uma constituição. Introduz-se a ciência e tecnologia, especialmente devido à acelerada industrialização e militarização (MOTOYAMA, 1994, p.98). Assim, intervenções biopolíticas fizeram-se necessárias. A fim de criar e gerenciar novos corpos para a nova configuração social, política e cultural que emergia. O corpo dos camponeses, artesãos e pescadores precisava ser disciplinado para o trabalho nas indústrias e para rápida assimilação de costumes e valores ocidentais. Para Foucault, a biopolítica é o conjunto de ações governamentais sobre as populações, que se materializam pela “gestão da saúde, da higiene, da 23 alimentação, da sexualidade, da natalidade etc, na medida em que elas se tornam preocupações políticas” (REVEL, 2005). Com ela, os discursos, práticas e representações da modernidade se fazem fortemente presentes, “renovando” aspectos tidos como obsoletos da cultura tradicional, no caso do Japão. Nascido no mesmo ano da Restauração Meiji e educado de acordo com as novas configurações sociais, Gichin Funakoshi, é hoje entronizado por muitos praticantes, professores e também na literatura, como o “pai do Karate moderno”. Outros mestres também participaram do processo de popularização do Karate pelo mundo, mas elege-se a figura de Funakoshi como representante e responsável pelo processo e pelo conjunto de mudanças ocorridas na prática. Assim, a Restauração Meiji e suas implicações nos corpos e nos discursos associados à legitimação como arte marcial japonesa constituem o recorte temporal desta pesquisa, que visa compreender as transformações e tecnologias políticas do corpo empregadas e decisivas para a modernização do Karatê. Partindo do panorama atual do Karatê, que recentemente atingiu seu apogeu como esporte tornando-se modalidade olímpica, a presente pesquisa se faz através de minhas experiências e estudos sobre o Karatê; da análise documental e bibliográfica. Como pressupostos, formas metodológicas sustentadas pela Sociologia Configuracional de Norbert Elias e a abordagem genealógica de Michel Foucault. Este trabalho busca discutir e compreender como foram possíveis as transformações que levaram à configuração atual do Karatê: de práticas corporais combativas autóctones da distante e Okinawa a um esporte bastante popular e agora, olímpico. Também procura refletir sobre o papel histórico da figura de Gichin Funakoshi, personagem fundamental nas reconfigurações da prática e disseminação do Karatê pelo mundo11. 11 Nesta dissertação, todas as citações retiradas de referências em línguas estrangeiras constituem traduções livres. Os respectivos trechos originais aparecem em notas de rodapé. 24 O KARATÊ MODERNO Semifinal Mayazaki, dos EUA! É, e se o Douglas Brose é o lutador a ser batido, o americano parece preparado para complicar para o brasileiro. Ele venceu as três lutas que teve na primeira fase. É um lutador muito técnico. Agora, o Brose é o melhor do mundo, né, Gotino? O Brose é o melhor do mundo! Douglas Brose, o fera no Karatê! E que o Douglas Brose não fique com o bronze, né. Que ele fique com o ouro! Vai começar a luta. A gente já volta pro vôlei. Tem disputa de medalha aí. A luta é rápida. O jogo lá... no tempo técnico. E a gente, olha, são três minutos... Se a luta parar... Olha, já começou de forma intensa. Já pegou um ponto no rosto do americano. Ponto pro brasileiro! Começou bem o brasileiro. Esse é o Douglas Brose, prazer! Esse é o cartão de visita dele. Já chegou chegando. É o Karatê. Tem no Pan, mas não tem na Olimpíada. O Japão quer levar o Karatê para os Jogos Olímpicos de 2020. Dois minutos e meio de luta. Já se passaram mais de 30 segundos... Fugiu legal ali o brasileiro. É experiente, é campeão mundial. Mas o Mayazaki quer porque quer a vaga na grande final. Quer tirar a medalha de ouro do brasileiro. É, na hora que eles se encostam aí, precisa tomar muito cuidado para não receber um golpe. Uma punição para o Brose, mas tudo bem. A luta é tensa. Dois minutinhos e a gente já volta pro... pro vôlei. Ta comemorando ali o brasileiro, acho que vem ponto, heim. Tão pedindo a revisão, exatamente pro golpe de direita dele. A comissão técnica brasileira, o brasileiro conseguiu, Douglas Brose marcar o ponto. Daqui a pouquinho você vai ver o Brasil fechar o set, porque aqui é só mais um minutinho de luta, ó. Um e vinte e um. Se a luta para, a gente volta pro vôlei. Olha só, é uma luta rápida. São três minutos pros rapazes, dois minutos as moças. Feminino, dois minutos. No masculino, três minutos. É o Karatê. Muita gente não sabia, mas o Brasil tem a fera... do Karatê, Douglas Brose. É esse aí de azul. A faixa azul, o equipamento de proteção azul. Ele já tem dois yukos. Ele é bom... no soco... e ele é casado com a técnica. Que é a única brasileira tetra campeã panamericana. É a fera, a brasileira, esposa do Douglas Brose. Lucélia Brose! Lucélia... 25 Eles têm um filho que se chama Daniel, em homenagem a Daniel san... que ficou muito famoso com o filme Karatê Kid. Inclusive, a luta que nós mostramos agora há pouco, da brasileira, ela começou a lutar o Karatê por causa do filme. Vibra demais o brasileiro! Acho que tem ponto, heim. Entrou o golpe do brasileiro de novo no yuko. A esquerda dele. Três a zero. Olha aí, vai pra três a zero. O brasileiro vai carimbando o passaporte pra final. Legal demais. Aline De Paula começou a lutar o Karatê por causa do filme Karatê Kid. É legal. Essas histórias a gente vai contando pra você. Olha aí. Esse é Douglas Brose. Mostrando seu cartão de visita para o americano. Final... Karatê, meu amigo, Wilson Baldini! Começando a luta e o brasileiro já com dois pontos de vantagem. Brasil e Venezuela. É o Karatê masculino na categoria até 60kg. Emoção demais! Ta valendo ouro, Baldini! Eu quero ver o Brasil ganhar o ouro, Baldini! Olha, e quando o Brasil conseguir a vitória aí no 4º set, o Brose acertava um chute no, no tórax do lutador venezuelano, abrindo dois pontos. Ele é muito rápido, o brasileiro. O venezuelano também, mas ele consegue realmente surpreender ora com os braços, ora com as pernas. É um lutador completo, Gotino Daqui a pouco, tie breake do vôlei. Daqui a pouco tie breake do vôlei, agora você ta vendo o Brasil disputando ouro e o brasileiro já está em vantagem. É Douglas Brose, campeão mundial, quer a medalha de ouro... no Pan! Recebi mensagens durante toda a tarde, das academias espalhadas pelo Brasil. As academias de Karatê, porque a Record News prestigiou o Karatê durante a tarde. As vitórias do Brose. E as meninas também que fizeram bonito o papel. Daqui a pouco o Brasil vai brigar pelo ouro no feminino também. Olha, um minuto e meio pra gente conquistar esse ouro. Vamos lá, Douglas Brose! ... cai agora o brasileiro... dois a zero, a vantagem é dele. Olha, Gotino, e ele nem soltou o golpe principal dele até agora, heim. Um chute no rosto de calcanhar. Ele nem precisou fazer isso no pan americano. Os nomes são idênticos, embora os golpes sejam diferentes, tem yuko, tem waza-ari, tem ippon... Essas são as pontuações, né... Olha lá, dois a zero. Um minutinho. Um minutinho pro Brasil conquistar... essa medalha de ouro. Aí vai ficar bom demais, heim. Eu não ouvi o hino nacional brasileiro hoje ainda. Olha, acho que mais um terceiro ponto aí, heim, Gotino. Vem mais um ponto pro brasileiro, vamos aguardar. Ah, eles não deram. 26 Não deu, não deu. O brasileiro comemorou ali, mas a arbitragem não viu o golpe entrando. Tem isso também, né. Você às vezes entra com um golpe mais ou menos e no grito você tenta induzir a arbitragem. Dessa vez a arbitragem não caiu. Dois a zero. Lembrando que o Karatê é um esporte... o Baldini explicou hoje, muito bem explicado... é um semicontato, que você não entra com o golpe definitivamente. Você não acerta o adversário em cheio. Você marca o ponto. Você marca a entrada. Você mostra que você conseguiria atingir o adversário, mas você não desfere o golpe com violência. E agora, acho que olha lá, ó... É uma... acho que mais uma punição. A primeira punição para o lutador da Venezuela. O brasileiro comemora agora um soco no rosto, ele já avisou o técnico que se não derem o ponto, pra pedir a revisão. E é o que acontece, ó. Tem um entrosamento, o atleta, o karateca com o seu técnico... e ele informa com o olhar ali se ele acertou, para o técnico pedir, porque a luta é muito rápida. Agora no replay, em câmera lenta, a gente consegue ter uma... ih, entrou! Baldini, entrou, heim. É, agora a análise tem que ser feita pra ver se ele marcou só ou se ele golpeou forte demais. E se for forte demais, ele pune o brasileiro. É, mas foi ponto pra ele. Se o golpe for forte demais o atleta é punido, porque não é pra, pra agredir. É pra você marcar o ponto. No Karatê é assim. Mas o brasileiro, ele é muito técnico. Já abriu três a zero. Ta faltando sete segundos só e agora vem mais um ponto pro Brasil aí, heim! Vamos aguardar a marcação da arbitragem, mas faltam só sete segundos. Olha lá, quatro pontos, acho que não perde mais o brasileiro nessa luta. Dificilmente vai perder o ouro. Foge da luta, se esquiva ali. É o Karatê pra você... um segundo! Abre o sorriso, Douglas Brose! Com ele não tem bronze. É Douglas-ouro! É ouro para o Brasil! É ouro para o Brasil, pode vibrar! * Em quase 20 segundos, uma abertura num fundo azul, com um traço vermelho que vai delimitando um quadrado. Há muito brilho e uma música que aparenta pretender-se motivacional. Como numa marca d’água, cenas de confrontos e performances, seguidas pela imagem do planeta Terra, que se transforma em cinco círculos preenchidos com cores e formas que remetem aos anéis olímpicos, emoldurados juntos pelo nome “World Karate Federation”. A seguir, o gigantesco AccorHotels Arena, em Paris, praticamente lotado. Na vista panorâmica, o centro é a arena elevada para uma final do campeonato mundial de Karatê, realizado em 2014. A estrutura é de exemplar competência para o espetáculo que se espera. Há telões e câmeras posicionadas em locais estratégicos. Os espectadores são logo informados sobre o que apreciarão, com os respectivos nomes das competidoras e seus países vinculados à tela. A competidora do país sede já se apresentou. No referido vídeo, de pouco menos de cinco minutos, o foco é a representante da “tradição”, a japonesa Rika Usami, que veste a faixa azul. 27 Seu olhar é compenetrado. Ao fundo, muitos fotógrafos profissionais. Ela anuncia vigorosamente: “Chatanyara Kushanku” – o nome do kata do qual se vale para apresentar na grande final. O silêncio, digno de partidas de xadrez, é interrompido apenas pelo som de sua forte respiração e de seus próprios gestos: estalos provocados pelo traje de lona, e pelos calorosos aplausos do grande público, admirado com a maestria que Usami executa belamente complicadas sequências do referido kata. Ao fundo, os patrocinadores são muito bem valorizados. Suas propagandas estão estrategicamente bem posicionadas. Há várias e grandes pausas no kata de Usami, que são interrompidas por movimentos bastante explosivos, seguidos de lentos, num ciclo rítmico que chama a atenção. Usami termina o kata sendo ovacionada pelo público, que aplaude em pé. A decisão é unânime. Cinco bandeiras azuis são erguidas. A multidão se levanta e, em pé, intensifica seus aplausos. As competidoras cumprimentam-se, seguem os rituais de despedida e Usami chora emocionada. Balança os braços como uma pequena menina. Seu choro parece expressar grande alegria e alívio. A japonesa permite, naquele breve momento, que seu laborioso treinamento seja recompensado pela felicidade em ser campeã mundial 12 . O vídeo é encerrado com a mesma vinheta de abertura e logotipo da WKF é vislumbrado no último segundo, fechando os 4 minutos e 52 segundos de exibição. * A primeira transcrição acima corresponde à narração dos confrontos semifinal e final (categoria -60kg kumite), dos Jogos Pan Americanos realizados em 2015, em Toronto (Canadá), modalidade Karatê. Quem disputa é o brasileiro Douglas Brose. O combate foi transmitido pela Record News e divulgado na internet através do canal YouTube, pela MPETV13. 12 Em entrevista cedida a Jesse Enkamp, Usami afirma que chegou a praticar 12 horas por dia: “I sometimes practised from 10 am to 10 pm. Many times I practised by myself too, even after finishing the group training sessions”. A entrevista completa pode ser visualizada em: http://www.karatebyjesse.com/rika-usami-karate-kata-queen-interview/ (acesso em 26/12/2016). 13 Jogos Pan Americanos de 2015. Toronto, Canadá. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R8K3bs8hNBk. Acesso: 06/12/2016. Transmissão televisiva, Record News e divulgado na internet pela MPETV. http://www.karatebyjesse.com/rika-usami-karate-kata-queen-interview/ https://www.youtube.com/watch?v=R8K3bs8hNBk 28 A narração e comentários lembram as que são feitas em esportes como futebol e vôlei. Há identificação patriótica e coletiva: “eu quero ver o Brasil ganhar o ouro”. Não é o Brasil que ganha o ouro. É o competidor. O mimetismo permitido pelo esporte de ter o país representado por um atleta ganha espaço na metonímia narrativa: “um minuto e meio pra gente conquistar esse ouro”. Como as disputas acontecem simultaneamente a outra modalidade, narrador e comentarista lembram, repetidamente, os espectadores de que em instantes a transmissão será para o vôlei. Lembram também que “o Karatê é um esporte” e que contatos excessivos ou comportamentos que vão contra o fair play são passíveis de punições: é um semicontato, que você não entra com o golpe definitivamente. Você não acerta o adversário em cheio. Você marca o ponto. Você marca a entrada. Você mostra que você conseguiria atingir o adversário, mas você não desfere o golpe com violência. No comentário é evidente a preocupação com o controle da violência, marca fundamental para compreensão do esporte moderno, no qual as agressões devem acontecer simbolicamente. O narrador também apresenta outra condição: a possibilidade de esquecer temporariamente o “jogo limpo” e trapacear: “Você às vezes entra com um golpe mais ou menos e no grito você tenta induzir a arbitragem. Dessa vez a arbitragem não caiu”. Em seguida, um fragmento da categoria kata feminino, na final do 21º Campeonato Mundial de Karatê, realizado em Paris (2012). Quem apresenta a performance é Rika Usami, japonesa nascida em Tokyo, que vence a francesa Sandy Scordo na referida disputa pelo título. As regras seguidas são as institucionalizadas pela World Karate Federation (WFK), segundo as quais a competição acontece em dois momentos: kata e kumite. O primeiro é constituído pela performance na qual o competidor realiza uma sequência pré determinada de movimentos que representam um combate. Basicamente, são avaliadas a correta execução das técnicas, a potência e ritmo. Pode acontecer individualmente ou em equipes de 3 pessoas, quando o sincronismo também é elemento de avaliação. Kumite é o combate propriamente dito, no qual dois competidores buscam o maior número de pontos num intervaldo de 3 minutos para categoria 29 masculina e 2 minutos para a feminina14. Socos valem yuko, um ponto. Chutes na região média 2 pontos (waza-ari). Chutes altos ou golpes enquanto o oponente está caído, 3 (ippon). As penalidades vão desde contatos excessivos, especialmente no rosto ou em áreas não pontuáveis (braços, pernas e peito do pé, por exemplo) à falta de combatividade, quando os oponentes ficam tempo considerado excessivo sem atacar. Tanto para kata como para kumite, os competidores tiram as faixas que representam suas graduações e vestem uma vermelha (aka) ou azul (ao). No caso do kata, portadores da faixa vermelha executam primeiro. Há cinco juízes. Cada um porta uma bandeira com as respectivas cores das faixas. Assim que o segundo competidor realizar o kata, os dois posicionam-se na entrada da área de competição e os árbitros, que, ao som de um apito, levantam a bandeira da cor daquele que julgarem ter tido melhor desempenho15. Nas Figuras 2 e 3 é possível visualizar o posicionamento dos competidores e árbitros. A WKF é a entidade reguladora do Karatê esportivo reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional. Existem muitas outras federações e regras das mais diversas. Mas é a WKF a responsável pela campanha pela inclusão do Karatê nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tokyo, o que foi concretizado no dia 3 de agosto de 2016, quando o Comitê Olímpico Internacional aprovou a proposta para inclusão dos esportes sugeridos pela comissão organizadora das Olimpíadas de 2020. 14 Enviei e-mail à Federação Paulista de Karatê solicitando esclarecimentos sobre os motivos dessa diferença entre os tempos de combate e não obtive nenhuma resposta. 15 Maiores informações sobre o regulamento podem ser encontradas no endereço eletrônico da Federação Paulista de Karatê (FPK): http://www.fpk.com.br/upimg/ck/files/wkf_2015.pdf ou diretamente no site da World Karate Federation (WKF): http://www.wkf.net/ksport-rules-regulations.php. http://www.fpk.com.br/upimg/ck/files/wkf_2015.pdf http://www.wkf.net/ksport-rules-regulations.php 30 Figura 2 : Área de competição demarcada com o posicionamento dos árbitros e dos competidores (aka e ao). Disponível em : http://www.fpk.com.br/upimg/ck/files/wkf_2015.pdf. Acesso: 09/12/2016 Figura 3 : Disputa de uma final da categoria kata equipe masculino. Disponível em : http://www.wkf.net/thebook/. Acesso : 09/12/2016 http://www.fpk.com.br/upimg/ck/files/wkf_2015.pdf http://www.wkf.net/thebook/ 31 Figura 4: Parte da campanha para inclusão do Karatê nos Jogos Olímpicos de 2020, realizada pela WKF. Disponível em: http://www.wkf.net/thebook/. Acesso: 10/12/2016 Durante as Olimpíadas, as competições de Karatê acontecerão na Nippon Budōkan. Local conhecido como a sede das artes marciais japonesas. Construído em 1964 para sediar as disputas de Judô durante os Jogos Olímpicos de Verão, foi onde aconteceu o primeiro Campeonato Mundial de Karatê, em 1970. Além de eventos relacionados às artes marciais japonesas, recebe apresentações musicais de grande porte. Sua arquitetura, como de outros Budōkan pelo Japão16, é praticamente um misto entre templo e ginásio. Nas Figuras 5 e 6, a seguir, é possível identificar semelhanças arquitetônicas entre a Budōkan de Tokyo e um dos mais antigos templos do Japão, o Todaiji. 16 Existem vários budokan pelo Japão. Visitei os de Kyoto, que parece apresentar mais traços arquitetônicos tradicionais; o de Okinawa, cuja construção lembra um kabutō (capacete de samurai) gigante e o de Shiga, que fica num prédio comum. Cada andar é reservado a uma arte marcial específica. http://www.wkf.net/thebook/ 32 Figura 5: Tokyo Budōkan. Disponível em: http://www.japanvisitor.com/tokyo-travel- guide/Budōkan. Acesso: 22/02/2017 Figura 6: Templo Todai (Todaiji), em Nara. Arquivo pessoal do autor. http://www.japanvisitor.com/tokyo-travel-guide/budokan http://www.japanvisitor.com/tokyo-travel-guide/budokan 33 Figura 7: Okinawa Budōkan. Arquivo pessoal do autor. A imagem foi editada para preservar a identidade das pessoas. Em sua longa empreitada para incluir o Karatê nos Jogos Olímpicos, a WKF lançou mão de diferentes tecnologias para que a modalidade atendesse às demandas olímpicas: cuidadosa filmagem e edição dos principais campeonatos de amplitude mundial, vinculando as imagens especialmente pelo seu canal no YouTube; padronização cada vez mais rigorosa das vestimentas dos competidores, bem como de suas proteções; seleção dos golpes que possam proporcionar uma espetacularização maior para melhores pontuações; rigor sobre comportamentos supostamente “anti-esportivos” etc. A WKF declara em sua página virtual que seu “Projeto Olímpico” constituiu-se na mudança da natureza da competição para “aprimorar” a prática esportiva e criar eventos atrativos, com significativos impactos visuais, com regras mais objetivas, simples e justas. Ou seja, a WKF investiu, e tem investido na espetacularização crescente da competição de Karatê. Antonio Espinós, presidente da entidade, afirma que “a WKF tem impulsionado a evolução do Karatê de uma arte marcial esotérica asiática para um esporte 34 cativante e dinâmico com apelo global”17 (ESPINÓS, 2016). O representante da instituição afirma que durante quatro décadas foram feitos grandes investimentos na proteção dos competidores, na padronização do treinamento e qualificação da arbitragem, bem como na vinculação das competições à mídia, com transmissões em tempo real, inclusive. Figura 8: Disposição das câmeras para registro das disputas finais durante os eventos da WKF. Disponível em: http://fightnetwork.com/news/6385495:world-karate-federation-ups-hd- production-in-2013/. Acesso: 09/12/2016. A WKF possui um canal de televisão pago (WKF TV), através do qual proporciona “em tempo real, Karatê de nível mundial para as vidas e salas de estar de qualquer pessoa, em qualquer lugar do planeta”18. Além disso, a WKF 17 “The WKF has driven the evolution of Karate from an esoteric Asian martial art into a captivating and dynamic sport with global appeal” (ESPINÓS, 2016). http://www.wkf.net/thebook/. 18 “Through four decades of diligent investment in the safety of Karate athletes, standardized coaching and refereeing competence, as well as contemporary media promotion, the WKF has brought real-time, world-class karate into the lives and living rooms of anyone, anywhere on the planet” (WKF, 2016: www.wkf.net/thebook). http://fightnetwork.com/news/6385495:world-karate-federation-ups-hd-production-in-2013/ http://fightnetwork.com/news/6385495:world-karate-federation-ups-hd-production-in-2013/ http://www.wkf.net/thebook/ 35 também tem um movimentado canal no Youtube, com mais de mil vídeos e mais de 150 mil inscritos19. Um dos investimentos tecnológicos da WKF é o chamado “Hawk-eye”, sistema que permite a revisão de ocorrências durante o combate. Segundo o regulamento, cada técnico recebe um cartão vermelho ou azul que será usado caso haja dúvidas acerca das pontuações validadas pela arbitragem. Uma comissão examina o vídeo do combate. Caso o ponto seja válido, o cartão será mantido com o técnico. Se o protesto for rejeitado, este será retirado do treinador. A referida tecnologia do replay é um forte recurso para garantir que os combates sejam mais justos. Quanto maior é a suposta igualdade de condições, mais garantido é o espetáculo, que encontra numa provável justiça e imparcialidade, dois importantes elementos que legitimam o fair play. É uma tecnologia que vai além dos olhos. Garante uma nova vigilância para outra noção de “justiça”. “Depois de quase meio século de sucesso inovador”, afirma Espinós (2016), “a WKF espera continuar o desenvolvimento multifacetado do Karate em benefício da humanidade”20. As declarações de Antonio Espinós parecem explicitar um possível colonialismo, que se impõe sobre as culturas supostamente exóticas e parecem resgatar e validar os discursos vinculados à modernização do Karatê a partir da Restauração Meiji (1868). Apresenta que uma das intenções da WKF é continuar a modernizar aquilo que era uma “arte marcial esotérica asiática” para que seja um esporte – uma espécie de “higienização” e “pasteurização” da prática de modo que aconteça e possa ser compreendida mundialmente. Espinós parece renovar declarações de Funakoshi (1981), que declara no prefácio de sua autobiografia ter devotado tempo e esforço à tarefa de 19 Informações verificadas em 14/02/2017. 20 “After almost half a century of innovative success, the WKF looks forward to continuing the multifaceted development of Karate for the benefit of humankind” (ESPINÓS, 2016. Disponível em: www.wkf.net/thebook. http://www.wkf.net/thebook 36 “refinar” o Karatê, “essa arte de auTōdefesa para seu presente estado de perfeição”. Foi no início dos anos 1920, 100 anos antes dos próximos Jogos Olímpicos de Tokyo, que os japoneses se depararam pela primeira vez com uma luta de boxe. A divulgação desta aconteceu como num filme: nos cinemas. Os americanos Jack Dempsey e Georges Carpentier protagonizaram o duelo que deixou os japoneses atônitos. Havia recessão pós I Guerra Mundial e acreditava-se que possíveis sentimentos de apatia poderiam ser amenizados mediante inspirações que o intrigante combate teria despertado. Figura 9: Japanese Boxing, Jack Dempsey vs. Georges Carpentier, July 1921 Fonte: http://www.chisholm-poster.com/cgi-local/search.cgi?section=&search=japanese+boxing Acesso em 29/08/2016 37 Até então os japoneses conheciam suas formas peculiares de práticas corporais combativas que usavam implementos (espadas diversas, alabardas, arco e flecha etc) ou que tinham em seu repertório técnico, agarramentos, projeções e imobilizações, por exemplo. Nada parecido com aquilo que poderia ser mais uma alternativa para reforçar o Yamato Damashii - o espírito nacionalista japonês. Boxeadores famosos foram convidados para apresentações a fim de promover o esporte no Japão. Mas o país já estava sob forte influência estrangeira em diversos âmbitos, inclusive educacionais e militares. Grande parte da população sentia-se saturada dessa situação e não queria mais um elemento vindo de terras estrangeiras. A opção viria de ilhas do Sul, mais especificamente de Okinawa, onde eram praticados estilos particulares de formas combativas, que utilizavam os punhos. Inclusive a denominação mencionava essa peculiaridade: Ti (ou Te = “mãos”) – prática que posteriormente iria se reconfigurar em Karatê21, a partir de influências do que os japoneses chamavam de Kenpo (método de punhos), vindo da China. Okinawa está situada há aproximadamente 1600 Km ao sul de Tokyo. É a principal ilha, dentre as mais de 100 que fazem parte do arquipélago Ryukyu, um reino independente até o final do século XIX. Possui cultura bastante peculiar em virtude de sua posição geográfica e relações comerciais com países próximos, principalmente China e Japão. É conhecida pela cortesia de seus habitantes. Um dos seus principais símbolos, o Portal de Shuri Shureimon (守礼門) traz essa característica em sua inscrição: Shurei no Kuni (守禮之邦) – “lugar da cortesia”. Funakoshi (1981, p.32) observa que a “essência da arte” do Karatê é resumida em “Karatê 21 Para maiores informações, consultar: ENKAMP, Jesse. Why Modern Karate Is Broken (& How You Can Fix It). Fonte: http://www.karatebyjesse.com/why-karate-is- broken/. Acesso em 26/12/2016. http://www.karatebyjesse.com/why-karate-is-broken/ http://www.karatebyjesse.com/why-karate-is-broken/ 38 começa e termina com cortesia” e cita, em sua autobiografia, o exemplo do famoso portal. Atualmente, estar em Okinawa é estar no Japão e é também não estar no Japão. A língua oficial é a japonesa, mas, algumas pessoas, principalmente os idosos, ainda se comunicam através do que se tornou um dialeto peculiar, o uchinaguchi. Há grandes lojas de departamento, de conveniência, multinacionais etc. A maior base militar americana fora dos Estados Unidos está localizada em Okinawa. Ao mesmo tempo, basta sair um pouco do centro de Naha, a capital, para deparar-se com ruas bastante estreitas e casas bem pequenas. Conjugados a muitas dessas casas, algo bastante comum em Okinawa: diversos Dōjō de Karate. Figura 10: Shurei-mon, um dos principais símbolos de Okinawa. Portal que dá acesso ao castelo de Shuri, onde acontecia a maior parte das transações comerciais com a China, Japão e outros países asiáticos. É possível visualizar a inscrição Shurei no Kuni (Lugar da Cortesia) Arquivo pessoal do autor. Devido às relações comerciais com a China, os habitantes de Okinawa aprenderam e ressignificaram diversas práticas corporais combativas. As 39 desprovidas de armas eram chamadas genericamente de “Ti” (ou “Di”)22 que, combinadas com técnicas chinesas de combate, receberam o nome de tōde (唐 手 ), ideogramas que contam com outras duas leituras possíveis: o Tōdi e karate - "mãos chinesas"). Havia também uma prática corporal combativa autóctone denominada Okinawa-ti. Visitar Okinawa um mês após ter visitado a China, possibilitou-me sentir e observar com mais cuidado o hibridismo cultural existente na ilha: há características da cultura japonesa e chinesa em diálogo constante nas artes, nos costumes, na culinária e na maneira de viver, formando, como diz Sakurai (2007) “um amálgama” de tradições. Os okinawanos sempre estiveram próximos dos japoneses, embora a posição geográfica do antigo Ryukyu favorecesse o intercâmbio cultural com a China e a Coreia, tornando a sua cultura um amálgama de todas essas tradições (SAKURAI, 2007, p.54). Okinawa mantinha um “lucrativo comércio” com a China (geralmente via Fuchou, na província de Fukien), com o Japão continental e sudeste da Ásia, o que proporcionou um significativo crescimento econômico até ser invadido pelo clã Satsuma, de Kyushu, em 1609 (BISHOP, 1999, pp. 09 e 10; STEVENS, 2007, p. 55). “O feudo de Satsuma era o mais guerreiro do Japão”, segundo Stevens (2007), “com uma proporção entre samurais e pessoas comuns de um para três (a média nacional era de um para dezessete)” (p. 55). A invasão de Satsuma fazia parte da campanha para unificação nacional imposta pelo shogunato Tokugawa23. Porém, segundo José Yamashiro (1997), jornalista que se dedicou a estudar e publicar obras relacionadas à cultura e história japonesa, “Ryukyu não estava preparado para enfrentar as pressões transformadoras dessa nova situação”. O autor afirma que a invasão foi 22 É muito comum encontrar na literatura a leitura conforme o ideograma, cuja pronúncia em língua japonesa é “Te”. Porém, em uchinaguchi, língua de Okinawa antes de ser incorporada oficialmente ao território japonês, pode também ser lido como “Ti”. 23 Shogunato: espécie de governo militar surgido no século XII. O período Tokugawa vai de 1603 a 1868, quando o Japão se fecha para as relações internacionais e há significativa consolidação de aspetos culturais e políticos. 40 inesperada: “o espanto e a atonia causados pela nova ordem político-social produziram confusões e contradições internas que duraram cerca de meio século” (p.187). Uma das providências de Satsuma foi banir o uso de qualquer tipo de arma e a prática de artes marciais pelos habitantes de Okinawa – fator que, segundo Nagamine (1998), intensificou o desenvolvimento da prática corporal combativa denominada Te, que era praticada em segredo. As artes marciais de Okinawa eram praticadas em rigoroso segredo, para evitar sua observação por parte tanto dos senhores de Satsuma como das escolas rivais. As técnicas marciais eram consideradas patrimônio de família e protegidas zelosamente de geração a geração (STEVENS, p.57). Ensinava-se o Tōdi somente aos primogênitos ou a seletos eleitos, geralmente amigos da família. A esse costume dava-se o nome de isshisōden (一子相伝) e foi abolido com a Restauração Meiji, quando o Karate deixa de ser proibido e passa a ser popularizado. Apesar da imposição desta proibição por mais de trezentos anos, a arte do te não foi perdida. A arte proibida foi transmitida de pai para filho entre a classe samurai 24 em Okinawa. O treino continuava em segredo; devotos praticavam em lugares escondidos e remotos, encontrando-se entre a meia- noite e o amanhecer, por medo de informantes (NAGAMINE, 1998, p.21) 25 . Após presenciar uma apresentação de Karatê em sua passagem por Okinawa, no início dos anos 1920, o imperador Hiroito convida o professor okinawano Gichin Funakoshi para demonstrar a prática no Japão continental. Encorajado por seus mestres, Funakoshi aceita a proposta de expandir o 24 O autor se refere aos pechin, classe guerreira de Okinawa equivalente aos samurais, mas com particularidades. A classe samurai propriamente dita não existiu em Okinawa. 25 Despite the enforcement of this ban for over three hundred years, the art of te was not lost. The forbidden art was passed down from father to son among the samurai class in Okinawa. Trainning went on in secret; devotes practiced in hidden and remote places, meeting between midnight and dawn for fear of informers (NAGAMINE, 1998, p.21). 41 Karate além da ilha. Assim, a prática sofreria diversas transformações técnicas e conceituais. Segundo Johnson (2012, p.62), para que o Karatê pudesse ser considerado uma arte marcial japonesa, foi necessária uma espécie de “tradução cultural”: do contexto específico da cultura de Okinawa para os códigos sociais já consideravelmente modernizados do Japão continental. Foram também introduzidos elementos das tradições marciais japonesas, como rituais de comportamento no dojo, por exemplo. É muito provável que o iniciante na prática do Karatê não saiba que essa arte marcial é consideravelmente diversificada. Há uma quantidade muito grande de estilos, escolas e federações. Mesmo em seus primórdios, o Karatê acontecia de maneira diferente conforme as características, necessidades e interesses daqueles que praticavam e ensinavam. As três primeiras versões reconhecidas em Okinawa faziam referência às cidades onde eram praticados: Shuri-Te (首里手), Naha-Te (那覇手) e Tomari-te (泊手). Cada qual com suas particularidades, foram precursores do que seriam mais tarde os estilos de Karatê propriamente ditos. As relações culturais com a China começaram na segunda metade do século XIV, quando mais de 500 chineses migraram de Fujian para Okinawa e estabeleceram uma comunidade numa área chamada Kume. Eles introduziram elementos da cultura chinesa para o povo do arquipélago, inclusive práticas corporais combativas (JAPAN KARATE ASSOCIATION, p.189). O século XV foi marcado por intensas trocas culturais entre Ryukyu e os países asiáticos. Na obra publicada originalmente em 1976, intitulada The Essence of Okinawa Karate-do, Shoshin Nagamine, fundador da escola Matsubayashi Shōrin-ryu, corrobora que a prática corporal combativa conhecida como Te se desenvolveu fortemente sob tais circunstâncias, especialmente influenciada pelas artes marciais vindas da China (1998, p.20). Segundo Nagamine (1998), entre o final do século XVII e início do século XVIII houve uma espécie de fusão com estilos chineses de auto-defesa, o que deu origem aos kata de Karatê. Através da tradição oral e do treinamento corpo a corpo, as atuações secretas de mestres chineses na arte da auTōdefesa 42 passaram a ser conhecidas e seus kata foram integrados ao te (NAGAMINE, 1998, p.21). Okinawa passou a receber as determinações decorrentes da reforma Meiji somente a partir de 1879, quando é oficialmente incorporada ao Japão, sendo considerada como província (ken - 県). Dentre as diversas modificações impostas, a língua japonesa passa a ser o idioma oficial. Uma importante alteração imposta pelo governo Meiji foi a abolição do uso de coques (também chamados “birote”), que “eram um indicador da posição social e da boa educação dos nobres de Okinawa”, segundo Stevens (2007), “e a perda desse símbolo significou o fim de seu mundo (que era exatamente o que os reformadores Meiji tinham em mente)" (p.59). Funakoshi (1985), inclusive, inicia o primeiro capítulo de sua autobiografia, Karate-do, My way of life, com o tópico Losing a Topknot (A Perda do Birote), o que demonstra a grande importância desse emblemático fato e as transformações de simbologias e condições culturais daí decorrentes. Diz Funakoshi: Dentre as muitas reformas instituídas pelo jovem governo Meiji durante os primeiros vinte anos de sua existência foi a abolição do birote, um estilo de cabelo masculino que fora uma tradicional parte da vida japonesa durante tanto tempo que ninguém poderia se lembrar. Em Okinawa, em particular, o coque era considerado um símbolo não simplesmente de maturidade ou virilidade, mas de masculinidade propriamente dita (FUNAKOSHI, 1981, p.2) 26 . O corte do coque vai além de um simples ato de mudar a aparência física. Representa o rompimento com as tradições e os valores implícitos no trato com a cultura materializada no corpo, nesse caso, imposto pelos reformadores de Meiji, sob o pretexto da modernização. Implica na abolição de uma espécie de orgulho identitário. 26 Among the many reforms instituted by the young Meiji government during the first twenty years of its life was the abolition of the topknot, a masculine hairstyle that had been a traditional part of Japanese life for much longer than anyone could possibly remember. In Okinawa, in particular, the topknot was considered a symbol not simply of maturity and virility but of manhood itself (FUNAKOSHI, 1981, p. 2). 43 Funakoshi atendeu às condições impostas para atingir seu objetivo de tornar-se professor. Uma dessas condições foi a de cortar seu coque, usado por pessoas de classes nobres em Okinawa, um forte e tradicional símbolo da ilha. Como ele mesmo afirmou em sua autobiografia, o birote havia sido considerado uma “relíquia do passado” (FUNAKOSHI, p. 5). Com esse significativo gesto de ruptura e corte com as tradições, Funakoshi foi ao encontro das demandas do Japão moderno, na tentativa de contribuir com as conexões entre o antigo e o novo, oferecendo mais uma prática que pudesse ser reinventada através de uma suposta ponte entre as tradições e a modernidade, para a legitimação e consolidação do espírito nacional japonês. Apesar de atualmente a vertente esportiva ser uma espécie de carro- chefe do Karatê, essa prática não emergiu já como um esporte. Existem outras maneiras de concebê-lo e praticá-lo, que remetem a suas tradições marciais, por exemplo. Assim, o que teria levado o Karatê a se modernizar, ser institucionalizado e regulamentado por federações, reconfigurando sua prática e rituais? O que se chama atualmente de Karatê é uma pluralidade de práticas corporais combativas originadas na ilha de Okinawa, derivada de uma prática autóctone denominada Ti (手) e, como grande parte das maniestações culturais deste local, foi resultado de influências das práticas vindas dos países vizinhos, especialmente da China. Em seus primórdios, ainda não modernizado, apresentava-se como Okinawa-te 27 (“mãos” ou “técnicas” de Okinawa) e/ou Tō-de28. Até o início do século XX era ensinado em segredo, para poucas e selecionadas pessoas. Sua popularização iniciou-se com Anko Itosu, quando começa ensinar Karatê nas escolas de Okinawa. Na década de 1920, Gichin Funakoshi, discípulo de Itosu, é incumbido de apresentar a prática no Japão 27 沖縄手 28 唐手: “mãos” ou “técnicas” chinesas – o ideograma faz referência especificamente à dinastia Tang. Segundo Tazawa e outros (1985), a “exótica e cosmopolita sociedade chinesa da Dinastia T’ang teve “esmagadora influência sobre o Japão”, de onde veio “a maior parte das importações estrangeiras” (p.3). 44 continental, onde começa a sofrer mais intensamente os efeitos da modernização. Anos mais tarde, passa por significativas reformulações, inclusive tornando-se modalidade esportiva. Figura 11: Mestre Gichin Funakoshi Fonte: http://www.takahashiDōjō.com/pages/5. Acesso em 24/12/2016. http://www.takahashidojo.com/pages/5 45 Figura 12: Mestre Yatsutsune (Anko) Itosu Fonte: http://irkrs.blogspot.com.br/2013_04_01_archive.html. Acesso: 24/12/2016 Recentemente o Karatê alcançou o que poderia ser considerado sua apoteose como esporte sendo incluído como modalidade esportiva nos Jogos Olímpicos. Frente a essa condição, diversos questionamentos são levantados. Seria esse evento uma espécie de nova etapa do Karatê, com novas maneiras de encarar essa prática? O que esperar desses novos caminhos pelos quais o Karatê tem percorrido? Quais seriam os efeitos da inclusão do Karatê nas Olimpíadas? Como foi possível que a prática de Okinawa chegasse ao que é considerado o auge do esporte na modernidade? A singularidade das práticas corporais depende do contexto em que estas se inserem. Dessa maneira, pergunto: como uma prática autóctone de uma pequena ilha ao sul do Japão tornou-se uma modalidade esportiva, agora olímpica? Além disso, como o corpo também se transformou e continua se transformando com a modernização e as contínuas reconfigurações do Karatê? O recorte histórico que proponho para esta pesquisa é a Restauração Meiji (1868), evento que marca a modernização japonesa, sendo necessário forjar um novo corpo (moderno). Questiono: sob quais demandas os novos corpos deveriam ser forjados pelas tecnologias políticas, no contexto da formação do Estado japonês moderno? Para além de suas atribuições biológicas, o corpo constitui um campo político de atuação permeado de relações de poder que o marcam, investem, dirigem, supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias e exigem- lhe sinais (FOUCAULT, 1985, p.25). Segundo o autor, os investimentos http://irkrs.blogspot.com.br/2013_04_01_archive.html 46 políticos do corpo constituem interesses econômicos que permeiam sua força de produção, sob condições de poder e dominação. Foucault (1987) afirma que mesmo quando a violência ou quaisquer outras formas de força física não são utilizadas, a sujeição do corpo aos mecanismos de poder se dá pela prática de calculadas, organizadas, tecnicamente pensadas e sutis estratégias - o que constitui as “tecnologias políticas do corpo”. Quer dizer que pode haver um ‘saber’ do corpo que não é exatamente a ciência de seu funcionamento, e um controle de suas forças que é mais que a capacidade de vencê-las: esse saber e esse controle constituem o que se poderia chamar a tecnologia política do corpo (FOUCAULT, 1987, p.26). Para Foucault (1987), buscar entender as tecnologias políticas do corpo é fundamental para compreensão do mundo moderno, que “caracteriza-se pelo surgimento, reelaboração e disseminação de dispositivos disciplinares” (SOUZA, 2006, p.242). Da mesma forma, compreender as tecnologias políticas do corpo que implicaram na modernização do Karate é fundamental para o entendimento não só da referida arte marcial, mas também da sociedade japonesa pós Restauração Meiji, que é fortemente marcada pela cultura ocidental. O esporte é uma das práticas corporais que chegam ao Japão, associado à modernização. Segundo Elias e Dunning (1992), o esporte é uma ”atividade organizada, centrada num confronto entre, pelo menos, duas partes”, (ELIAS e DUNNING, 1992), sob controle da violência e regras que prometem suposta igualdade de condições. Para os autores, o esporte “exige esforços físicos de certo tipo e é disputado de acordo com regras conhecidas, incluindo, onde se revelar apropriado, regras que definem os limites autorizados de força física” (p.232). Elias e Dunning são pesquisadores que abordam a sociogênese do esporte. Em complemento, segundo a análise crítica e contemporânea de Bracht (2005), o esporte é sempre competitivo; pautado na racionalização do treinamento, busca por recordes e pelo rendimento. Além disso, proporciona o espetáculo, que conduz ao consumo de mercadorias vinculadas à modalidade específica. 47 Diz o autor: É importante ressaltar que muitos dos elementos característicos da sociedade moderna, no caso capitalista industrial, vão ser incorporados e/ou estão presentes no esporte: orientação para o rendimento e a competição, a cientifização do treinamento, a organização burocrática, a especialização de papeis, a pedagogização e o nacionalismo – este último sendo central para a expansão do esporte promovida pelo movimento olímpico (BRACHT, 2005, p.100). Assim, pergunto qual teria sido o papel das reconfigurações do Karatê como esporte e como arte corporal japonesa (Budō) no contexto da modernização do Japão e de constituição do Estado japonês. Importante nome para a modernização do Karatê, Gichin Funakoshi foi o incumbido de levar a referida prática corporal combativa de Okinawa para o Japão continental, onde realiza duas principais apresentações e, em seguida, sob auxílio de Jigoro Kano, criador do Judô e emblemática figura política na época, passa a vincular o Karatê às universidades e demais instituições de ensino. Jigoro Kano, nascido em 1860, na cidade de Kobe (cerca de 500 Km da capital), foi educado em meio a estrito rigor em escolas de Tokyo. Em 1882 funda seu instituto, denominado Kodokan, para ensinar a nova prática corporal combativa que sistematizara, o Judô. Foi membro do Comitê Olímpico Internacional e importante entusiasta no fomento do esporte moderno, da Educação Física, bem como das primeiras Olimpíadas realizadas em solo japonês, no ano de 1964. Jigoro Kano é contemporâneo ao processo de modernização japonês. Tendo empreendido sua formação neste período, Kano foi enviado por sua família a uma escola privada de Estudos Britânicos, na capital japonesa (1873). Quatro anos depois, com a criação da nova Universidade de Tokyo, Kano inicia seus estudos na Faculdade de Letras (STEVENS, 2007, p.16). Foi justamente neste período, por intermédio de professores estrangeiros, que os japoneses conheceram toda sorte de esportes americanos e europeus. Kano valorizava essas práticas e as legitimava através de argumentos validados por valores educativos associados a elas. 48 Figura 13: Jigoro Kano ensinando. Ao fundo a inscrição: Kodokan - “escola para estudo do Caminho” (KANO, 2008b). Disponível em: http://www.100yearlegacy.org/Kano_Jigoro/. Acesso: 06/06/2017 Inserido neste contexto de mudanças, Kano, um homem de transição entre modernização e tradição, estudou os clássicos chineses e a cultura japonesa com afinco, mas também foi um grande entusiasta em política e sociologia do Ocidente. Era fluente e inclusive escrevia seus diários na língua inglesa. Kano se apaixonara pelo jujutsu 29 e acreditava que ele devia ser preservado como um tesouro cultural japonês; mas também acreditava que ele deveria ser adaptado aos tempos modernos (STEVENS, 2007, p.22). Para tal, trabalhou numa releitura de um grupo de práticas corporais combativas conhecidas como jujutsu, substituindo o ideograma e toda a concepção vinculada ao jutsu (術, técnica) por dō (道, caminho). Kano, então, denominou sua prática como Judô Kodokan. Segundo ele, os métodos de 29 Jujutsu é um termo genérico para um conjunto de práticas corporais combativas existentes no Japão pré-moderno que se baseavam no princípio ju yoko go wo seisu, cuja ideia central era que o mais fraco poderia se sobrepor ao forte se não oferecer resistência, através de técnicas e estratégias específicas (KANO, 2008a; KANO 2008b). http://www.100yearlegacy.org/Kano_Jigoro/ 49 ensinamento do jujutsu eram “inadequados” e que, além disso, a referida prática era pensada como: (...) uma técnica em que se fazem coisas perigosas como estrangulamento do oponente, torção de membros ou, mesmo em casos extremos, técnicas mortais. Basicamente, pensamos em algo que causa dano ao corpo e que não traz benefícios” (KANO, 2008a). Stevens (2007, pp 35 e 36) descreve o que Kano denominou os “Três Elementos do Judô”: 1- “Judô como Educação Física”: segundo o qual o objetivo da Educação Física seria tornar o corpo “forte, útil e saudável”. Daí resultava o princípio denominado seiryoku zen’yo (精力善用), “máxima eficiência, mínima energia”, claramente influenciado por princípios utilitaristas modernos dos quais Kano se valia em seus estudos. 2- “Judô como Esporte”, neste item reforça-se que os “movimentos letais estão proibidos” (STEVENS, 2007, p.35), o que dá ao judô predicados do mundo esportivo vigente: a excitação do confronto, agora simbólico, de maneira controlada e “civilizada”, que supera as idiossincrasias, através da regulamentação e codificação específicas locais (MARTINS e ALTMANN, 2007, p.3), fazendo-se possível, então, a difusão mundial da modalidade, já que as particularidades autóctones são colocadas em segundo plano. 3- “Judô como Treinamento Ético”. Kano justificava que os princípios atribuídos ao judô (“diligência, flexibilidade, economia, boas maneiras e comportamento ético”) deveriam transcender a prática combativa em si e agregar-se a aspectos da vida em sociedade – novamente o caráter utilitarista atribuído ao Judô. O encontro entre Gichin Funakoshi e Jigoro Kano foi decisivo na configuração moderna do Karatê. A legitimação do mestre judoca fez com que a arte de Okinawa assumisse um uniforme identitário para a prática e nivelamento dos praticantes através das faixas (kyu e dan 30 ). Mas mais importante que isso, o Karatê foi reconhecido como arte marcial japonesa e 30 Kyu: graduações abaixo da faixa preta; Dan: graduações de faixa preta. 50 também assumiu discursos e práticas voltadas para a educação sob moldes utilitaristas e esportivos. 51 FUNAKOSHI E A MODERNIZAÇÃO DO KARATÊ A Restauração Meiji e eu nascemos no mesmo ano, 1868. A primeira vez que viu a luz do dia na antiga capital do shogun, Edo, que veio a ser conhecida como Tokyo 31 (FUNAKOSHI, 1985, p.1). Praticamente 100 anos antes das declarações do presidente da WKF, Antonio Espinós, apresentadas anteriormente, a modernização do Karatê era marcada pelas apresentações realizadas por Gichin Funakoshi em Kyoto e em Tokyo, nos anos 1920. Funakoshi, no prefácio de sua autobiografia, apresenta sua intenção de “refinar” o Karatê com o objetivo de atingir seu “estado de perfeição” (FUNAKOSHI, 1981). Segundo Figueiredo (1994), o Karatê passou por três momentos de massificação. O primeiro, com a introdução deste no currículo escolar de Okinawa por Anko Itosu, no início do século XIX. Em seguida, com a apresentação realizada por Gichin Funakoshi no Japão continental. O terceiro acontece após a segunda guerra mundial, com a intensificação dos aspectos esportivos da prática. Anko Itosu (1832 – 1916) foi um dos principais entusiastas à popularização do Karatê. No início dos anos 1900, começou a ensinar a prática nas aulas de educação física das escolas de Okinawa. “A pedagogia de Itosu”, escreve Tokitsu (1994), citado por Figueiredo (1994), “inspirou-se nos métodos de formação dos soldados que o Japão acabava de importar da Europa”. Em contraposição ao ensino tradicional, essa referida didática constituia-se na instrução de numerosos alunos por um instrutor que gritava ordem para cada gesto a executar. 31 The Meiji Restoration and I were born in the same year, 1868. The former saw the light of day in the shogun’s former capital of Edo, wich came to be know as Tokyo. 52 Figura 14: Prática de Karatê orientada por Shinpan Gusukuma, em 1938, no pátio do castelo de Shuri, antiga sede do reino Ryukyu. Disponível em: http://historicaltimes.tumblr.com/post/69799111126/karate-training-with-shinpan-gusukuma- sensei-at. Acesso em: 02/10/2016 A clássica e emblemática imagem acima é um exemplo do ensino massificado do Karatê, no qual cada sujeito tem seu espaço delimitado, executa os mesmos gestos do grupo, como numa formação de exercício militar. Em frente a um dos importantes símbolos de Okinawa, o Castelo de Shuri, Shinpan Gusukuma conduz uma prática de Karate para cerca de 100 pessoas. “A ordenação por fileiras, no século XVIII”, segundo Foucault (2014), “começa a definir a grande forma de repartição dos individuos na ordem escolar” (p. 144). Linhas abaixo, o autor afirma que “a organização de um espaço serial foi uma das grandes modificações do ensino elementar”. A disciplina, arte de dispor em fila, e da técnica para a transformação dos arranjos. Ela individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações (FOUCAULT, 2014, p.143). Segundo Bishop (1999), em 1901 Itosu começa a ensinar Karatê como parte do currículo de Educação Física na Shuri Jinjo Elementary School. Itosu promoveu modificações na prática: considerando que eram crianças, removeu as técnicas supostamente perigosas e simplificou os seus e outros kata para que pudessem ser facilmente assimilados (p.89). http://historicaltimes.tumblr.com/post/69799111126/karate-training-with-shinpan-gusukuma-sensei-at http://historicaltimes.tumblr.com/post/69799111126/karate-training-with-shinpan-gusukuma-sensei-at 53 Em 1908 Itosu escreve uma carta, Itosu Juukun (糸洲十訓 – “10 Preceitos de Itosu”), e a encaminha ao Prefectural Education Departament, justificando a prática do Karatê nas escolas de toda a ilha, “e mais tarde disseminado para o continente japonês, onde acabou por desempenhar um papel essencial no programa militar de doutrinação" 32 (ITOSU citado por BISHOP, 1999, p.89). A carta é escrita em língua japonesa antiga, com termos e ideogramas que não são mais corriqueiramente utilizados na escrita moderna. Pelo que a tradução de Bishop (1999) indica, Itosu deixa claro que os principais benefícios do Tōde (ou Karatê) são três: saúde, defesa (de si e dos próximos) e tornar o corpo forte para o serviço militar. O princípio 2 é um exemplo bastante claro nesse sentido: O propósito do Tōde é fazer com que o corpo fique rígido como pedras e ferro; mãos e pés devem ser usados como flechas; corações devem ser fortes e bravos. Se crianças praticassem Tōde desde a escola primária, eles podem vir a ser preparados para o serviço militar. Quando Wellington e Napoleão se encontraram, discutiram que “a vitória de amanhã vem do playground de hoje” (ITOSU, citado por BISHOP, 1999, p. 89) 33 . Itosu finaliza a carta afirmando: A razão para começar tudo isso é que, na minha opinião, todos os alunos do Colégio de Treinamento de Professores da Prefeitura de Okinawa devem praticar Tōde, de modo que quando se graduarem, possam ensinar as crianças nas escolas exatamente como eu as ensinei. Dentro de dez anos o Tōde espalhará para toda Okinawa e ao continente japonês. Isso será um grande trunfo para a nossa sociedade militarista (ibdem, p.90) 34 . 32 “and later its spread to the Japanese mainland, where it eventually played an essential role in the militaristic indoctrination programe” (ITOSU citado por BISHOP, 1999, p. 89). 33 The purpose of Tōde is to make the body hard like stones and iron; hands and feet should be used like the points of arrows; hearts should be strong and brave. If children were practise Tōde from their elementary-school days, they would be well prepared for military service. When Wellington and Napoleon met they discussed the point that ‘tomorrow’s victory will come from today’s playground’ (ITOSU, citado por BISHOP, 1999, p. 89). 34 The reason for starting all this is that it is my opinion that all students at the Okinawa Prefectural Teachers’ Training College should practise Tōde, so that when they graduate from here they can teach the children in the schools exactly as I have taught 54 Segundo Funakoshi (1999, p.27), L Assim, após uma apresentação de Karatê ao Comissário de Educação da Província de Kagoshima, Shintaro Ogawa, mestre Anko Itosu fora convidado por Ogawa, para apresentar o Karatê nas escolas. Foucault (1987) afirma que na segunda metade do século XVIII, O soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi ‘expulso o camponês’ e lhe foi dada a ‘fisionomia de soldado’” (p.117). No caso da implantação do Estado nacional japonês, o Karatê parece ter sido um importante instrumento para formação do soldado nos moldes ocidentais. Com esse argumento, Itosu legitima o ensino do Karatê nas escolas de Okinawa e inicia sua popularização. Nas palavras de Funakoshi: Com o início da era Meiji (1868 – 1912), o sistema de educação e o sistema de alistamento militar foram inaugurados, e durante o exame físico dos alistados e estudantes, os jovens praticantes de Karatê eram reconhecidos num relance e impressionavam muito os médicos examinadores pelo desenvolvimento bem equilibrado dos membros e pela musculatura bem definida. Então, algum tempo depois, o comissário das escolas públicas, Shintaro Ogawa, recomendou veementemente em um relatório para o ministro da Educação que se incluísse o Karatê no programa de educação física das escolas normais e da Primeira Escola de Ensino Médio da Prefeitura de Okinawa como parte de sua formação. Essa recomendação foi aceita e iniciou-se o ensino do Karatê nessas escolas em 1902 (FUNAKOSHI, 2014, p. 27). Após Ogawa enviar um relatório descrevendo os “méritos do Karatê” ao Ministério da Educação, fora concedida licença para a inclusão do Karatê nas aulas de Educação Física da Primeira Escola Secundária Pública de Okinawa e them. Within ten years Tōde will spread all over Okinawa and to the Japanese mainland. This will be a great asset to our militaristic society (Ibdem, p. 90). 55 da Escola de Preparação de Oficiais. Em sua autobiografia, Funakoshi apresenta um sentimento de grande gratidão a Ogawa: A arte marcial que estudei em segredo quando eu era pobre havia emergido da reclusão e obtivera aprovação do Ministério da Educação. Eu não saberia como expressar minha profunda gratidão a Ogawa, mas determinei que devotaria todo meu tempo e esforço disponíveis para a popularização da arte (FUNAKOSHI, 1985, p.42) 35 . O corpo transformado pelo Karatê seria consideravelmente útil para o Estado-nação que estava sendo construído, já que proveria o exército de jovens fortes, por exemplo. Tal sistema teria na educação formal uma fundamental aliada, sendo as instituições de ensino, importantes veículos para a disseminação das práticas que associavam ao Karatê. Determinando lugares individuais tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar (FOUCAULT, 2014, p.144). No caso da implantação do Estado nacional japonês, o Karatê parece ter sido um importante instrumento para formação do soldado sob moldes ocidentais. Com esse argumento, Itosu legitima o ensino do Karatê nas escolas de Okinawa, altera técnicas, simplificando-as; elabora alguns kata com fins didáticos e inicia a popularização da prática. Itosu foi um dos mestres que mais influenciaram Funakoshi tanto na prática do Karatê quanto aos ideias nacionalistas. Seu modo de pensar a popularização do Karatê foi decisivo no empreendimento de disseminar a prática pelo mundo. O ensino de Karatê passa, primeiramente com Itosu, a ser massificado. Prática antes ensinada de maneira privada e secreta, na residência dos mestres, adquire caráter pedagógico, fazendo com que os instrutores 35 The martial art that I had studied in secret when I was very poor had at last emerged from seclusion and had even won the approval of the Ministry of Education. I did not know how to express my deep gratitude to Ogawa, but I determined to devote all the time and effort I could spare to the popularization of the art (FUNAKOSHI, 1985, p.42). 56 lançassem mão de tecnologias disciplinares de ordenamento didático dos corpos e de seriação dos conteúdos a serem transmitidos. Possivelmente, um dos importantes elementos que validou e proporcionou o entrelaçamento entre o corpo e a ocidentalização do Karatê foi a ginástica, que já vinha sendo objeto de interesse do governo Meiji e acontecendo no país desde os anos 1870. Segundo Duke (2008), a pedido do então diretor do Mistério da Educação japonês, Fujimori Tanaka, um dos pesquisadores que havia saído para missão de estudar os métodos educacionais na Europa e Estados Unidos, o professor e médico George Leland fora enviado pela Universidade de Amherst e contratado pelo Japão como instrutor de ginástica e cultura física. ZHENG (2007, p.434) corrobora a informação afirmando: O primeiro programa de calistenia do Japão foi introduzido em 1878 pelo Dr. George Leland, um professor de educação física americano que serviu como diretor do Ministério da Educação japonês. Leland desenvolveu um sistema de “calistenia leve” (kei taisō) que foi instituído nas escolas primárias como regime regular de exercício em 1881. A rotina de Leland, entretanto, não permaneceu por longo período. Um decreto de 1886 sobre o ensino primário promoveu “exercícios ao estilo infantaria” o âmago de uma nova “calistenia militar” (heikishiki taisō). As reformas foram designadas não somente para “construir corpos fortes”, mas também para “instilar as crianças da nação com virtudes de obediência incondicional ao Estado. No Japão, estudantes serviam como um importante teste populacional para o desenvolvimento de categorias e técnicas de gestão populacional. Como recrutas, eles ofereciam as vantagens de uma cativa população” 36 . De “caráter ordenador, disciplinador e metódico”, aparece reformulada sob o viés científico no século XIX como um importante agente de 36 Japan’s first programme of calisthenics was introduced in 1878 by George Leland, an American physical educator serving as the director of the Japanese Ministry of Education. Leland developed a system of “light calisthenics” (kei taisō) that was instituited in primary schools as the regular exercise regimen in 1881. Leland’s routine, however, did not remain in place for long. An 1886 ordinance on primary school education made “infantry-style exercises in rank and file” the core of a new “military calisthenics” (heikishiki taisō). The reforms were designed not only to “build stronger bodies” but also to “instil the nation’s children with the virtues of unquestioning obedience to the state”. In Japan, students served as an important test population for the development of the categories and techniques of population management. Like military conscripts, they offered the advantages of a captive population (ZHENG, 2007, p.434). 57 reconfiguração do corpo moderno. Condizente com os “novos códigos de civilidade”, baseados nas ciências biológicas e nas técnicas de adestramento corporal, “como formas específicas de saber” (SOARES, 2002, p.17), a ginástica “científica” utilizava-se de discursos higienistas, eugênicos e nacionalistas para a formação de novos sujeitos. Em diversas associações de Karatê na atualidade, há sequências ginásticas predeterminadas que antecedem a prática do Karatê propriamente dito. Sequências essas exigidas como requisitos em exames de graduações para dan37, inclusive e que parecem ter inspiração na calistenia – série de exercícios localizados com finalidades corretivas e pedagógicas. Soares (2002) afirma que é mais precisamente no século XIX que se forma “uma pedagogia do gesto e da vontade”, constituída numa, reconhecidamente importante, “educação do corpo” (p.17). Para Kano (2008), a “finalidade da educação física” é aprender a fazer, de maneira racional, o melhor uso possível do corpo para atingir determinados objetivos. Além disso, “desenvolver um corpo forte e saudável, e treinar esse corpo para que venha a ser útil para a sociedade, ao mesmo tempo que desenvolve a habilidade de cultivar a mente” (p.46). É dessa ginástica, científica, militar e moderna, que se configura a Educação Fisica como área de intervenção e estudos sobre o corpo. E é dessa Educação Física, utilitarista, militarista e disciplinadora que possivelmente se servem as legitimações não só para a introdução de sequências de exercícios ginásticos que compõe as sessões de prática de Karatê no Ocidente, mas também para validar a prática sob viés científico e utilitarista. O Karatê, associado à ginástica, poderia ser considerado um importante instrumento que integraria as tecnologias de poder sobre os sujeitos na medida em que manipularia e moldaria os corpos para interesses de padronização e 37 O termo Dan (段), que pode ser traduzido como “nível”, refere-se às graduações acima da faixa preta (1º ao 10º Dan). Algumas escolas adotam faixas corais (vermelha e branca) para 7º e 8º Dan e vermelha para 9º e 10º. Para graduar-se, o praticante geralmente passa por exame de graduação. Os critérios variam conforme a associação, a federação ou ao dojo. 58 docilização dos indivíduos, tão fundamentais no processo de modernização e constituição do Estado japonês. Em The Essence of Karate, Funakoshi escreve: Realmente, o Karatê foi originalmente desenvolvido para condicionar a mente e o corpo, cultivando a vitalidade para a criação de competências individuais em benefício de todo o país, também provendo uma “espada que dá vida” 38 contra os fora da lei e gangues imprudentes. O florescimento do Karatê se deu em Ryukyu, tendo em toda parte através do nosso país (Japão), tendo dado frutos e, acredito, contribuirá para o lançamento da corrida japonesa no cenário mundial (FUNAKOSHI, 2013, p.103) 39 . A história oficial do Japão acontece em períodos bem delimitados de acordo com o clã que se encontra no poder, seja um imperador ou um shogun (um líder samurai). A primeira, conhecida como “Taika”, iniciou-se no ano de 645. Ainda hoje essas eras são elementos centrais no calendário japonês. Problematizações decorrentes da Era Meiji constituem o recorte para esta pesquisa porque é quando se dá a modernização japonesa e é no contexto dessa modernização que vai haver a reconfiguração das práticas e quando emergem Funakoshi e Kano. Segundo Yamashiro (1986, p.240), “a cultura japonesa de Meiji” é uma espécie de híbrido entre a “cultura feudal” e a ocidental, constituindo uma nova cultura, “adequada à sociedade capitalista moderna”. Com a Restaur