UNIVERSIDADE ESTADUAL “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE ARTES - CAMPUS SÃO PAULO HORÁCIO SOUSA MORA DE CARVALHO BEATLES E CONTRACULTURA: o legado São Paulo – SP 2024 HORÁCIO SOUSA MORA DE CARVALHO BEATLES E CONTRACULTURA: o legado Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” como parte dos requisitos para obtenção do grau de Licenciado em Música. Orientadora: Profª. Drª Andréia Miranda de Moraes Nascimento São Paulo – SP 2024 Ficha catalográfica desenvolvida pelo Serviço de Biblioteca e Documentação do Instituto de Artes da UNESP. Dados fornecidos pelo autor. C331b Carvalho, Horácio Sousa Mora de (Horácio Ibanez), 2000- Beatles e contracultura : o legado / Horácio Sousa Mora de Carvalho. -- São Paulo, 2024. 50 f. : il. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Andréia Miranda de Moraes Nascimento. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Música) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Instituto de Artes. 1. Música - Anos 1960. 2. Rock (Música). 3. Beatles (Conjunto musical). 4. Contracultura - História. I. Nascimento, Andréia Miranda de Moraes. II. Universidade Estadual Paulista, Instituto de Artes. III. Título. CDD 781.66 Bibliotecária responsável: Catharina Silva Gois - CRB/8 11.323 HORÁCIO SOUSA MORA DE CARVALHO BEATLES E CONTRACULTURA: o legado Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” como parte dos requisitos para obtenção do grau de Licenciado em Música. Orientadora: Profª. Drª Andréia Miranda de Moraes Nascimento Dissertação aprovada em 08/10/2024 Banca Examinadora ______________________________________________ Profª. Drª. Andréia Miranda de Moraes Nascimento Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” ______________________________________________ Prof. Dr. Rafael Y Castro Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Dedico este trabalho aos meus pais que sempre incentivaram meus estudos e meu amor pela Música. AGRADECIMENTOS Agradeço à minha família e amigos por todo o apoio durante os anos de estudos na Universidade. Agradeço também aos professores pelos ensinamentos e pelo compartilhar de experiências e amor pela profissão. “Viver com os olhos fechados é fácil Confundindo tudo o que você vê Está ficando difícil ser alguém Mas tudo vai dar certo Isso não importa muito para mim”. -John Winston Ono Lennon RESUMO Este trabalho visa por meio de diversas análises demonstrar a ligação entre a banda The Beatles e a chamada contracultura. A partir desse ponto o objetivo será demonstrar que esse fator principal é o motivo pelo qual a banda impõe um legado que sobrevive às barreiras do tempo, resplandecendo durante décadas sempre com um frescor que encanta gerações e gerações de jovens, e que continuará encantando. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, os rapazes de Liverpool, não entraram somente no mundo da Música, entraram para a História. Palavras-chave: The Beatles; contracultura; legado; juventude; história. ABSTRACT This work aims, through various analyzes, to demonstrate the connection between the band The Beatles and the so-called counterculture. From this point on, the objective will be to demonstrate that this main factor is the reason why the band imposes a legacy that survives the barriers of time, shining for decades always with a freshness that delights generations and generations of young people, and which will continue to delight. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison and Ringo Starr, the boys from Liverpool, didn't just enter the world of Music, they entered History. Keywords: The Beatles; counterculture; legacy; youth; history. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Jack Kerouac, principal nome da Geração Beat………….…………….…….……15 Figura 2 - Guerra aos Teddy Boys. Ameaça nas cidades nas cidades britânicas está a ser limpa finalmente………………….……………………..…….…………....………16 Figura 3 - “Os Teddy Boys”........……..……………………….…….……….………….……16 Figura 4 - “Os Mods”.…………………….…………...…………..…..…...…………………17 Figura 5 - “Os Rockers”…………………….…………………..……..………...……………18 Figura 6 - “Os Hippies”………………………………………...….……..……..……………19 Figura 7 - Cartazes do Festival de Woodstock…….………………………..………….…..…23 Figura 8 - Vista de cima do Festival Woodstock em 1969.…………………..……...……..…24 Figura 9 - Joe Cocker……………….……….………………..…………..…….……….……25 Figura 10 - John Lennon………………………………….…...……….…..…………………27 Figura 11 - Paul McCartney…………………………....……...………..……….……………28 Figura 12 - George Harrison…………………...….………………………....….……………29 Figura 13 - Ringo Starr (Richard Starkey).…………...…………………..…….…….………29 Figura 14 - The Quarrymen.………………………………………………….....……………30 Figura 15 - Indra Club - Hamburgo, 17 de agosto de 1960.……………..……….………..…31 Figura 16 - Audição para a Decca Records…………..………………...……..………………32 Figura 17 - Brian Epstein, empresário da banda……………………...………………………33 Figura 18 - Formação oficial - The Beatles………………………………………..…………33 Figura 19 - George Martin, produtor dos Beatles………………………....…...…..…………34 Figura 20 - Beatlemania………………………………………………..…………..…………35 Figura 21 - Bed-in………………………………………....…………..……………...………42 Figura 22 - Lennon sarcástico………………………....…………..……….………...….……44 LISTA DE QUADROS Quadro 1 (Line-up Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival)…………………...…20 Quadro 2 (Line-up Festival Internacional de Música Pop de Monterey).....…………………21 Quadro 3 (Line-up Festival de Woodstock)…………………...….……………….….………22 Quadro 4 (Line-up Festival de Águas Claras)……………………………..…….….…..……25 Quadro 5 (Filmes, animações e cartoons)……………....………………………...…..………35 Quadro 6 (Álbuns e fases)………………………....………………………..………...………35 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...…...………….……………………………………...………………..…12 2 CONTRACULTURA...……………………….…...….………………………….……..…14 2.1 Geração Beat………………………………………………………………………...…..14 2.2 Teddy Boys, Rockers, Mods…………………………………………………………….15 2.3 Movimento Hippie……………………………………………………………………….18 2.3.1 Verão do Amor - O auge………………………………………………………………..19 2.3.2 Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival……………………...………..……..20 2.3.3 Festival Internacional de Música Pop de Monterey………………………...……….….21 2.3.4 Festival de Woodstock……………………………………………………………....….22 2.3.5 Festival de Águas Claras……………………………..…………………………...…….25 2.4 E o que aconteceu com a contracultura?........................................................................26 3 HISTÓRIA DOS BEATLES……………………….……………………...………...……27 3.1 Infância e adolescência………………………………………………………….………27 3.1.1 John Winston “Ono” Lennon……………………………………………………..…….27 3.1.2 James Paul McCartney…………………………………………………………...…….27 3.1.3 George Harrison………………………………………………………………..……….28 3.1.4 Richard Starkey…………………………...……………………………….……………29 3.2 The Quarrymen……………………………………………………………………...…..30 3.3 Hamburgo……………………………………………………………………………..…31 3.4 Cavern Club e Brian Epstein……………………………………………………..…….32 3.5 Primeiras gravações (George Martin, saída de Pete e entrada de Ringo)...................33 3.6 Beatlemania e Invasão Britânica………………………………………………...……..34 3.7 O início do fim………………………………………………………………...…………36 4 CANÇÕES, EVENTOS, POLÊMICAS, LEGADO E ROCK ‘N’ ROLL…….……….38 4.1 Blackbird e o racismo…………………………………………………………..……….38 4.2 Dê uma chance à paz……………………………………………………………...……..39 4.3 Bed-in (1969)......................................................................................................................42 4.4 Polêmicas……………………………………………………………………..…………..43 4.4.1 “Sacudam suas joias, por favor"......................................................................................43 4.4.2 “Mais populares que Jesus”.............................................................................................44 4.4.3 - Passado e presente…………………………………………………………..……..….44 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS……….…………………………………...…….………….46 REFERÊNCIAS………………...…………………………………………….……………..48 12 1 INTRODUÇÃO A influência dos Beatles no âmbito musical e social do século XX é inegável; Teve início na década de 1960 com o movimento intitulado “Beatlemania” (onde atingiram seu auge, com uma imensa legião de fãs) e perdura até os dias atuais de certa forma, alcançando diversas gerações de apreciadores da obra. Visto isso fica a indagação sobre o motivo de o quarteto ter sobrevivido a prova do tempo; Surge então a ligação entre o grupo e a chamada contracultura. A contracultura, que surgiu como resposta dos jovens da década de 60 à uma visão extremamente conservadora e capitalista de seus pais, foi muito alimentada pelos Beatles. A ideia consistia em criar novos valores e ideais para a sociedade, buscando uma maior liberdade; Sexual, intelectual e econômica. No livro “A batalha pela alma dos Beatles”, Peter Doggett descreve bem a ligação entre os dois temas: “Anos 60” - Liberação sexual, moda extravagante, protestos estudantis, pacifismo, a Carnaby Street, a Grosvenor Square, a Primavera de Praga, o maio de 1968 em Paris, LSD, maconha, liberação das drogas, amor livre, música livre, libertação de um passado e, conforme se viu, também de um futuro. Fatores múltiplos combinaram-se, colocando os Beatles no coração de toda essa agitação cultural, ou revolução, qualquer expressão que melhor descreva um sentimento coletivo de que o mundo nunca mais seria o mesmo. (DOGGETT, 2012, p. 18-19). Alguns exemplos de mudanças surgiram a partir dos movimentos sociais, como o movimento feminista, Black Power, Hippie, entre outros. Sobre o machismo, John Lennon faz um crítica na canção “The Woman is the Nigger of The World” do seu album solo de 1972, Some Time in New York City: “Se ela não quer ser nossa escrava, dizemos que não nos ama, se ela é sincera, nós dizemos que ela está tentando ser um homem, enquanto botamos ela para baixo, fingindo que ela está acima de nós”. O fator importante consistia no inconformismo desses jovens em relação às guerras, consumo exacerbado e regimes ditatoriais. Na canção Imagine, Lennon traz uma mensagem com cunho anti-violência, guerras, etc… “Imagine que não há países, não é difícil imaginar, nada pelo que matar ou morrer, e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz”. Os meios utilizados para o combate à essa cultura hegemônica até então estabelecida se deu por meio da arte em todos os nichos imagináveis; Música, literatura, cinema, moda, etc... 13 Em todos esses âmbitos os Beatles apresentaram muita significância; Lançaram moda, muito do visual da contracultura surgiu através do grupo, as letras de suas músicas, declarações e atitudes se fundamentavam em elementos da contracultura. Em pouco tempo o movimento de contracultura se expandiu para todo o mundo, e tomou outras proporções, de certa forma daria também origem ao movimento Punk nos anos 70. Muito do que é visto hoje na sociedade provém das mudanças que ocorreram nessa época onde os Beatles foram o maior expoente cultural. Com os pontos citados acima, podemos adentrar na proposta deste trabalho em si, que consiste em: Pesquisar o principal fator pelo qual os Beatles sobreviveram à prova do tempo, e relacionar sua produção artística à contracultura (tema abordado no primeiro capítulo) que por sua vez está ligada aos jovens quase que de maneira direta, haja visto que os problemas enfrentados pelos jovens atualmente, apesar de serem outros, são de mesmos princípios dos jovens dos anos 60. Como objetivos específicos busca-se analisar o contexto histórico da banda e também o contexto cultural da época (Capítulo 2) com maior profundidade e fazer uma ligação com a realidade atual, além de realizar análise de letras, músicas e declarações que vinculem os pensamentos dos Beatles à contracultura e ao imaginário do jovem moderno (tema que será abordado no terceiro capítulo). No quesito metodologia, a pesquisa será embasada por artigos sobre a banda e sobre a contracultura, livros, letras de músicas, declarações e entrevistas da época. 14 2 CONTRACULTURA Para nos situarmos diante a abrangência desse trabalho é necessário que saibamos o que foi a contracultura, o seu momento histórico e auge; esse é o objetivo deste capítulo. O existencialismo de Sartre que contemplava ideias de liberdade incondicional, escolha e responsabilidade pessoal, além da própria postura anti-fascista e anti-guerras do filósofo forjaram o ínicio da contracultura. Essa postura é muito bem descrita por Fernando Savater, Luis Antonio de Villena em “Heterodoxias y contracultura” (1989, p. 51): Sartre foi resistente durante a invasão alemã ao seu país e logo se destacou pela sua oposição à guerra da Argélia, junto com muitos outros intelectuais franceses de sua geração (Simone de Beauvoir, Merleau-Ponty). A partir de então, apoiou ativamente com seu nome, sua caneta e sua presença todas as causas progressistas de seus dias. Interveio ativamente contra a guerra do Vietnã, chegando a presidir à sessões do Tribunal Russell e também estava junto aos estudantes em maio de 68; para apoiar a uma revista maoísta perseguida pela lei, La cause du peuple (A causa do povo), emprestou seu nome para a publicação como único responsável legal perante à justiça, sabendo ser inviolável por conta de seu prestígio, e chegou a vender a publicação pelas ruas de Paris. Também interveio na criação do diário radical Libération. Sartre teorizou abundantemente, de maneira discutível e apaixonada, sobre o que chamou de “o compromisso do intelectual”, sua obrigação moral de manchar as mãos com a intervenção política direta (uma das obras teatrais mais célebres de Sartre se intitula precisamente “As mãos sujas) e não se coíbe de um papel testemunhal, que corresponde em certo modo aos privilégios burgueses de que a sociedade lhe confere. 2.1 Geração Beat Todos esses fatores podem ser considerados como as primeiras fagulhas que alimentaram um movimento embrionário para a chamada contracultura; Esse movimento que se iniciou nos anos 50 nos Estados Unidos é conhecido como “Movimento beat” ou “Geração Beat” e inspirou John Lennon ao criar o nome Beatles. Dentre os principais nomes do movimento podemos citar Jack Kerouac (autor de “On the Road” de 1957), Allen Ginsberg (Howl de 1956) e William S. Burroughs (Naked Lunch de 1959). Os integrantes desse movimento são conhecidos pela alcunha de “beatniks”. Dentre as principais características desse movimento marcado pelo pós-guerra podemos citar o inconformismo, a busca pela liberdade e uma postura nomadista, anti-establishment, a grande maioria dos escritores do movimento tinham posicionamento político de esquerda ou eram anarquistas e, nos anos 50, nos EUA não eram bem vistos pelo governo, o Macartismo regia à “caça aos comunistas”, não respeitando os direitos civis, visando apenas a perseguição política. 15 Além disso, é importante citar que os autores buscavam um entendimento espiritual, muitas vezes através do Budismo, e alterações sensoriais através de drogas, essa fuga da realidade, em tempos envoltos em guerra foram refletidos em outros movimentos posteriores que também fazem parte desse grande englobado que é a contra-cultura. [...] para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações. (KEROUAC, 2004, p. 25) Figura 1 - Jack Kerouac, principal nome da Geração Beat Fonte: Poets.org, 2024 2.2 Teddy Boys, Rockers, Mods Na Inglaterra do pós-guerra houve o nascimento de diversas subculturas, as principais foram os Teddy Boys, Rockers e os Mods. Essas gangues que estão intrinsecamente ligadas eram formadas exclusivamente de jovens que queriam representar a si mesmos pelas músicas que escutavam, pela postura e atitudes e através das roupas que utilizavam; Visto que o vigente e tido como padrão na época eram os valores tradicionais, a conformidade e monotonia. Apesar de não serem a primeira subcultura jovem britânica, os Teddy boys (também conhecidos como Teds) foram os antecessores dos Mods. Fato esse que é descrito por Ferris e Lord (2012, p. 3) Os Teds não foram o primeiro grupo juvenil, essa honra vai para os Scuttlers, gangues violentas de adolescentes da classe trabalhadora que aterrorizaram 16 Manchester durante trinta anos, entre as décadas de 1860 e 1890. No entanto, eles foram o primeiro grupo juvenil britânico da era moderna dominada pela mídia de massa. O modo de vestir dos Teds era baseado em jaquetas drapeadas e calças jeans, além disso usavam grandes topetes oleosos com uma mecha no centro. Eram um grupo extremamente narcisista que cultivava uma imagem elegante. O estilo do grupo não era bem aceito pela sociedade, que teve uma reação exagerada e os insultavam. O grupo, assim como os beatniks, foi pioneiro em lutar contra essa conformidade e monotonia vigente na época, porém ao final dos anos 50 o grupo já estava obsoleto e outras mudanças estavam por vir. Figura 2 - Guerra aos Teddy Boys. Ameaça nas cidades nas cidades britânicas está a ser limpa finalmente. Fonte: The Great British Teddy Boy, 2013 Figura 3 - “Os Teddy Boys”. Fonte: Autor1, 2024 1 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites PUL&P e Huck 17 Os Mods, sucessores dos Teddy Boys, são muito bem descritos por Melissa M. Casburn em seu artigo “A Concise History of the British Mod Movement”(2013, p.1) tradução literal: Uma história concisa do movimento Mod britânico. Lutando para escapar à opressão da moral, às obrigações familiares e à disciplina rigorosa nas escolas e nas ruas, uma série de subculturas juvenis emergiu como forma de rebelião e auto-expressão, começando pelos boêmios e continuando até hoje com os punks e os skin-heads. Em algum lugar no meio estão os Mods, um culto incomensuravelmente grande e difundido de adolescentes da classe trabalhadora adoradores da moda, com dinheiro nos bolsos e tempo disponível. Esse grupo, tinha como principais características o apreço pela moda, o gosto pelo Jazz e pelo Blues, além disso estavam sempre se utilizando das famosas scooters, Lambrettas e Vespas para sua locomoção. Com o passar do tempo outros estilos foram anexados ao gosto musical da juventude, como foi o caso do Ska, R&B e até mesmo o Bluebeat. Algumas bandas que também são referências para a subcultura Mod são o The Who, Small Faces e o The Yardbirds. Figura 4 - “Os Mods”. Fonte: Autor2, 2024 Os Rockers eram os rivais dos Mods. Preferiam um visual mais voltado para as jaquetas de couro e uso de grandes topetes inspirados em seus ídolos, como por exemplo Elvis Presley, Gene Vincent e Eddie Cochran. Adotavam como principal meio de transporte as motocicletas no estilo café racer, além de ouvirem Rock and Roll e Rockabilly. Criticavam o estilo Mod, por acharem que se tratava de um estilo muito afeminado e cheio de sensibilidade. 2 Montagem a partir de imagens coletadas no site Pinterest. 18 Figura 5 - “Os Rockers” Fonte: Autor3, 2024 2.3 Movimento Hippie Os existencialistas influenciaram a geração beat, agora a geração beat influenciava o que viria a se tornar um dos maiores movimentos de contracultura: O movimento Hippie. Esse movimento teve origem nos anos 60 e era voltado à contestação às guerras tendo como tônica a frase: paz e amor. A não violência, a liberdade sexual, a visão anti patriarcal(pautas feministas), o anti-racismo, o anti–capitalismo e anti-autoritarismo seriam a grande força do movimento. Para os beatnicks (nome dado aos participantes da geração beat) a música que ecoava nos pensamentos de quebra de paradigmas era o jazz, já para o hippies o som que embalaria o contestar seria o rock. Nas palavras de Hobsbawm (2002, p. 279), “se há alguma coisa que simboliza os anos 60 é o rock”. O autor ainda completa: Durante alguns anos na década de 1960 a linguagem, a cultura e o estilo de vida das novas gerações do rock ficaram politizadas. Falavam dialetos reconhecíveis como derivados da antiga linguagem da esquerda revolucionária, embora naturalmente não do comunismo de Moscou, desacreditado tanto pelos acontecimentos da era de Stalin quanto pela moderação política dos partidos comunistas (HOBSBAWM, 2002, p. 281). Esse simbolismo do Rock nos anos 60 se deu através de diversas bandas, artistas e grupos tais quais The Beatles, Scott McKenzie, Grateful Dead, Mountain, Jethro Tull, The Doors, The Who, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Joe Cocker, Joan Baez, Canned Heat, 3 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites Pinterest, Language Unlimited. 19 Blood, Sweat and Tears, Creedence Clearwater Revival, Mamas and the Papas, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Quicksilver Messenger Service, The Doors, Pink Floyd, The Kinks, Bob Dylan, Crosby, Stills, Nash e Young, Sonny & Cher e Fleetwood Mac, etc… No Brasil, podemos citar como referências musicais de contestação: Raul Seixas, Mutantes, Zé Ramalho, Secos & Molhados, Sá, Rodrix e Guarabyra, Made in Brazil e os tropicalistas (Caetano Veloso, Gilberto Gil), Novos Baianos, A Barca do Sol, Som Nosso de Cada Dia, etc… 2.3.1 Verão do Amor - O auge No ano de 1967, durante o verão no hemisfério norte, grandes manifestações ocorreram no mundo, dentre elas o grande deslocamento de jovens para San Francisco, que seria o berço do movimento hippie, a cidade foi o ponto escolhido para o florescer do movimento. A partir daí o contágio para o mundo foi inerente, afetando toda a realidade do jovem dos anos 60. Vários festivais musicais viriam a fortalecer e embalar essa nova forma de agir e pensar. Figura 6 - “Os Hippies” Fonte: Medium, 2024 20 2.3.2 Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival Apesar de não muito conhecido, foi o primeiro festival do chamado “Verão do amor”, e abriu portas para os outros que seguiram. Ocorreu entre 10 e 11 de junho de 1967, 36.000 pessoas compareceram ao concerto, O line-up do show foi o seguinte: Quadro 1 (Line-up Fantasy Fair and Magic Mountain Music Festival) Sábado, 10 de junho de 1967 (Line up) Domingo, 11 de junho de 1967 (Line up) The Charlatans Jefferson Airplane Mount Rushmore The Byrds com Hugh Masekela Rodger Collins P.F. Sloan Dionne Warwick Captain Beefheart & The Magic Band The Doors The Seeds The Lamp of Childhood The Grass Roots Canned Heat The Loading Zone Jim Kweskin & Jug Band Tim Buckley Spanky and Our Gang Every Mother’s Son Blackburn & Snow Steve Miller Band The Sparrows Country Joe and the Fish Every Mother’s Son Sons of Champlin Kaleidoscope The 5th Dimension The Chocolate Watchband The Lamp of Childhood The Mojo Men The Mystery Trend The Merry-Go-Round Penny Nichols The Merry-Go-Round The Salvation Army Band Fonte: Autor, 2024 21 2.3.3 Festival Internacional de Música Pop de Monterey Aconteceu de 16 à 18 de junho de 1967 em Monterey, na Califórnia, nos Estados Unidos. Esse festival foi uma prévia do que viria a acontecer no festival de Woodstock em 1969, o maior de todos os festivais do movimento hippie. Artistas que se apresentaram em Monterey: Quadro 2 (Line-up Festival Internacional de Música Pop de Monterey) Sexta-feira, 16 de junho de 1967 Sábado, 17 de junho de 1967 Domingo, 18 de junho de 1967 The Association Canned Heat Ravi Shankar The Paupers Big Brother and the Holding Company The Blues Project Lou Rawls Country Joe and the Fish Big Brother and the Holding Company Beverly Al Kooper The Group With No Name Johnny Rivers The Electric Flag Buffalo Springfield Eric Burdon & The Animals Quicksilver Messenger Service The Who Simon and Garfunkel Steve Miller Band The Jimi Hendrix Experience Enigma Bang Moby Grape Grateful Dead Hugh Masekela Scott McKenzie The Byrds The Mamas & The Papas Laura Nyro Jefferson Airplane Booker T. & the MG’s Otis Redding Fonte: Autor, 2024 22 2.3.4 Festival de Woodstock Aconteceu entre 16 e 18 de agosto de 1969. tendo sido o maior dos festivais de música do movimento hippie e o festival mais conhecido de todos os tempos, atraindo um público de aproximadamente 400.000 pessoas. O modo hippie de viver foi contemplado em todos os dias do festival. o Line- up do festival segue abaixo: Quadro 3 (Line-up Festival de Woodstock) Sexta-feira, 15 de agosto de 1969 Sábado, 16 de agosto de 1969 Domingo, 17 de agosto de 1969 Richie Havens Quill Joe Cocker & The Grease Band Swami Satchidananda Country Joe McDonald Country Joe and the Fish Sweetwater Santana Ten Years After Bert Sommer John Sebastian The Band Tim Hardin Keef Hartley Band Johnny Winter e Edgar Winter Ravi Shankar The Incredible String Band Blood, Sweat & Tears Arlo Guthrie Canned Heat Crosby, Stills, Nash & Young Joan Baez Mountain Paul Butterfield Blues Band Grateful Dead Sha-Na-Na Creedence Clearwater Revival Jimi Hendrix/Gypsy Sun & Rainbows Janis Joplin/The Kozmic Blues Band Sly & the Family Stone The Who Jefferson Airplane Fonte: Autor, 2024 Após a contextualização temporal do evento e seu Line-up, sigamos agora para contextualização geográfica do mesmo, vista a sua importância para o sucesso do espetáculo. 23 O Festival de Woodstock foi realizado em uma fazenda de 600 acres na cidade de Bethel, próximo à região de White Lake, no estado de Nova York, EUA. O proprietário das terras era Max Yasgur, que concordou em alugá-las por 50 mil dólares pelo período de duração do evento. Feito o acordo, houve muita represália dos moradores mais conservadores da região, que ameaçaram muitas vezes Max, mas em contrapartida muitos o apoiaram dizendo que o evento traria atenção para a pequena cidade, que poderia vir a desenvolver-se mais no viés econômico. Ao que já sabemos, o evento ocorreu e foi um grande sucesso, que marcou uma geração e atingiu muitas outras. Devido a essa grande importância do festival abaixo seguirão algumas imagens referentes ao mesmo e detalhamentos sobre a descrição contida nos cartazes de divulgação do evento. Figura 7- Cartazes do Festival de Woodstock Fonte: Autor4, 2024 A arte dos cartazes do evento já era impregnada de características dos hippies, presença de muitas cores chamativas , desenhos e letras estilizadas. Além disso, os cartazes citam o evento como “ An Aquarian Exposition”, tradução literal de: Uma exposição aquariana; Menção à Era de Aquário, que na astrologia será uma Era em que a humanidade repensar suas atitudes, com uma visão mais sustentável e saudável, além disso, os movimentos sociais terão mais força e voz perante a civilização. 4 Montagem a partir de imagens coletadas no site Pinterest. 24 Essa Era é muito bem descrita pelo escritor americano Gary Lachman em seu livro “Turn off your mind”: Mas o que, você pergunta, é a Era de Aquário? Astronomicamente, é o efeito de uma oscilação na superfície da Terra. rotação, parte de um fenômeno curioso conhecido como “precessão sessão dos equinócios". A cada 2.160 anos, a constelação contra a qual o sol nasce a leste na madrugada do verão e acontecem mudanças no equinócio. A próxima constelação na fila é Aquário, onde o Sol terá entrado por volta de 2000 d.C., onde ficará por um século ou dois. A última mudança, de Áries para Peixes, foi pouco antes do nascimento de Cristo. Misticamente, a Era de Aquário é a “nova era” a caminho durante o último século ou mais. A ideia remonta a Platão, mas obteve seu significado atual na alta do ocultismo do final do século XIX e ganhou disseminação pop através do Haight- O astrólogo de Ashbury, Gavin Arthur, nas páginas do Oráculo San Francisco. De acordo com esta visão esotérica da história, a humanidade está à beira de uma mudança massiva de consciência, um retorno, em suma, à Idade do Ouro. Mas historicamente a Era de Aquário significa aqueles poucos anos em meados da década de 1960 - e continuando no início anos setenta - “todas as coisas ocultamente maravilhosas”, como Theodore Roszak, historiador da contracultura, assim o chamou, falando sobre cultura popular, especialmente a música. Na década de 1960 e início dos anos setenta vi um “reavivamento oculto” como não tinha sido visto no Ocidente desde os dias do fim do século de Madame Blavatsky e a Sociedade Teosófica, e Aleister Crowley. Na verdade, o rosto de Crowley aparece entre os heróis culturais, os Beatles ficaram famosos ao incluí-lo na capa da sua obra-prima mística de 1967, Sergeant Pepper 's Lonely Hearts Club Band. (LACHMAN, 2001, p, 12) Figura 8 - Vista de cima do Festival Woodstock em 1969 Fonte: Reddit, 2022 25 Figura 9 - Joe Cocker (imortalizou a canção dos Beatles “With a Little Help From my Friends” no Festival de Woodstock). Fonte: San Francisco Art Exchange, 2024 2.3.5 Festival de Águas Claras Se tratando de Brasil, o festival que corresponderia ao Woodstock seria o Festival de águas claras, muito sobre esse festival pode ser conferido num documentário chamado: O barato de Iacanga de 2019. Segue abaixo o Line-up desse evento que ocorreu em janeiro de 1975 (17, 18 e 19 de janeiro). Quadro 4 (Line-up Festival de Águas Claras) Som Nosso de Cada Dia Jazco Corpus Terreno Baldio Tibet Burmah Mitra Apokalypsis Grupo Capote Marcus Vinicius Walter Franco Jorge Mautner Nushkurallah Ursa Maior Acaru Rock da Mortalha Moto Perpétuo Raízes O Terço Fonte: Autor, 2024 A análise desses festivais e line-ups servem de exemplos substanciais de como o movimento teve proporções gigantescas e promoveu a ideia de contracultura para todo o mundo. 26 Apesar de os Beatles nunca terem se apresentado em nenhum desses festivais, eles agiram muitas vezes de forma indireta, como por exemplo, Paul McCartney ter sido um dos membros da comissão do festival de Monterey, além disso muitas das músicas dos Beatles foram interpretadas por outros artistas durante esses festivais e não podemos negar o fato de eles terem sido os maiores porta-vozes da mensagem Paz e Amor em músicas. 2.4 E o que aconteceu com a contracultura? A contracultura continuou sendo refletida em movimentos posteriores, como por exemplo o movimento punk e de certa forma ainda ecoa em nossa sociedade, mas não com o mesmo vigor que um dia teve. Para o conteúdo desse trabalho no entanto iremos nos ater às suas origens, estopim e posteriormente nesse eclodir em tempos modernos no âmago do jovem, e sua ligação com a música dos Beatles, seu legado, sua mensagem. 27 3 HISTÓRIA DOS BEATLES Dando início agora à história da banda The Beatles, temos que nos situar no período da Segunda Guerra Mundial, em que os integrantes viveram seus primeiros anos na Inglaterra, oriundos da cidade de Liverpool, os Fab4 cresceram numa Inglaterra ainda muito afetada pelo pós-guerra. 3.1 Infância e adolescência Durante esse tópico tratarei de demonstrar fatos importantes referentes à infância e adolescência de cada Beatle, fatos esses que em sua maioria fundamentaram a personalidade de cada um deles, além de apontar as afinidades que possuíam entre si. 3.1.1 John Winston “Ono” Lennon John Lennon teve uma infância muito turbulenta, sua mãe era distante, seu pai quis levá-lo para Nova-Zelândia quando ele tinha somente 5 anos, com essa mesma idade John teve que escolher com gostaria de ficar, seu pai ou sua mãe; No final quem cuidou de John foi sua tia Mimi, com quem ele manteve contato até o final de sua vida. Sua mãe, Julia, morreu atropelada quando John tinha somente 17 anos. Figura 10 - John Lennon Fonte: Autor5, 2024 5 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites Images&Visions, Bunte e Pinterest. 28 3.1.2 James Paul McCartney Paul é filho de uma enfermeira e um músico. Sua mãe morreu de câncer quando Paul tinha apenas 14 anos (essa perda que também foi sofrida por John como acima citado acabou por aproximar mais esses jovens amigos). Sua mãe seria lembrada em músicas como Lady Madonna e Let it Be (A “mother Mary” citada na música é sua mãe). Seu pai tocava trompete e piano, e tocava em bandas de salão quando mais novo, sua influência vinha dos sons de Dixieland e vaudeville. Figura 11 - Paul McCartney Fonte: Autor6, 2024 3.1.3 George Harrison George teve contato com a música desde cedo, sua mãe gostava muito de cantar e o jovem George passou a se interessar por música também, principalmente por um instrumento em específico: A Guitarra. Na sua adolescência gostava de ouvir Carl Perkins, Elvis Presley, Little Richard, entre outros; mas George já tinha ouvido até Django Reinhardt. Todo esse interesse por guitarras preocupava um pouco o pai Harold, que lhe comprou a sua primeira. George viria a conhecer Paul McCartney que também compartilhava da mesma paixão. 6 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites Tenho Mais Discos Que Amigos, Facebook e Pinterest. 29 Figura 12 - George Harrison Fonte: Autor7, 2024 3.1.4 Richard Starkey Richard Starkey teve uma infância muito difícil, pois sofreu de enfermidades que o impediram de frequentar a escola de maneira efetiva, e até mesmo criar amizades. Ainda por conta das enfermidades, o pequeno Richard foi apresentado aos instrumentos de percussão no hospital, onde tocou na banda. “Ringo”, que ganhou esse apelido devido ao seu gosto pelo uso de anéis(“Ring” em inglês) viria a se tornar baterista de algumas bandas com certa popularidade antes dos Beatles. Figura 13 - Ringo Starr (Richard Starkey) Fonte: Autor8, 2024 8 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites Pinterest e Scream & Yell 7 Montagem a partir de imagens coletadas nos sites Pinterest e The Independent 30 3.2 The Quarrymen O interesse pela música surgiu para todos por meio do Rock ‘n’ Roll vindo diretamente dos EUA, aquele ritmo contagiou os jovens ingleses, muitos deles resolveram montar bandas. A banda que seria o embrião do The Beatles foi o “The Quarrymen”, montada com estudantes do colégio de mesmo nome “Quarry” Bank High School (onde John estudava). Numa das apresentações do Quarrymen, um jovem que assistia ao show na plateia era Paul McCartney que foi apresentado a John Lennon por um amigo em comum. Paul foi incentivado por esse amigo a mostrar seu talento no violão; Realmente Lennon ficou impressionado, e pouco tempo depois Paul integraria o Quarrymen. O encontro dos dois ocorreu no dia 6 de julho de 1957. O próximo a entrar na banda seria George, que já era amigo de Paul, e foi Paul mesmo que o apresentou para John. George tocou a música Raunchy para John, ele novamente ficou muito impressionado, mas a entrada de George para a banda demorou mais, pois ele era muito novo ainda, e John estava relutante nesse sentido. A banda aos poucos foi mudando de formação e de nomes (visto que ninguém mais estudava na Quarry Bank High School). Se chamaram The Silver Beetles, The Beetles, até que por fim chegaram ao nome The Beatles. Figura 14 - The Quarrymen Fonte: The Beatles, Forever, 2011 31 3.3 Hamburgo A cidade de Hamburgo tem muita importância na história dos Beatles, pois foi lá que eles se desenvolveram como músicos, chegando a tocar mais de 8 horas por dia (usando preludin, um medicamento oriundo do Pervertin, que os deixava com energia para essas apresentações sem fim). Desenvolveram mais o lado performático. Na época ainda eram os The Silver Beatles, e a banda conta com: John Lennon (guitarra e vocais), Paul McCartney (na época ainda tocava guitarra, e também vocais), George Harrison (Guitarra e vocais), Stuart Sutcliffe (Baixo) e Pete Best (Bateria). George Harrison acabou sendo deportado por ser menor de idade, Paul e Best foram os próximos, por terem ateado fogo num preservativo. John Lennon retornou para Liverpool alguns meses depois e “Stu”, apelido de Stuart Sutcliffe, ficou na Alemanha pois iria se casar com Astrid Kirchherr, que foi quem tirou as primeiras fotos profissionais dos Beatles. Ainda houveram mais alguns retornos para Hamburgo; Numa dessas viagens os Beatles acabaram por adotar o corte “tigelinha” que virou marca registrada da banda, a mudança ocorreu por influência de Astrid. Ainda nessa estadia, chegaram a gravar um álbum acompanhando o cantor Tony Sheridan, também “Scouser” (nome dado aos nascidos em Liverpool). Nesse álbum o nome adotado pela banda foi “The Beat Brothers”. Figura 15 - Indra Club - Hamburgo, 17 de agosto de 1960 Fonte: The Beatles Bible, 2012 32 3.4 Cavern Club e Brian Epstein Nessas idas e vindas acabariam por conhecer Brian Epstein, futuro empresário da banda, que os viu tocar no Cavern Club (esse se localiza em Liverpool), e gostou muito. Os rapazes finalizaram contrato com seu antigo empresário e Brian estava apto a galgar novos horizontes para eles. Nesse meio tempo Stu, que já havia deixado a banda para se dedicar exclusivamente para a pintura, a sua grande paixão, acabou falecendo de hemorragia cerebral, o que afetou a todos os outros, principalmente Lennon que era o amigo mais próximo. Voltando para Epstein, esse conseguiu algumas entrevistas com gravadoras, uma delas a Decca Records, que acabou recusando a banda, dizendo que os grupos com guitarras estão em baixa. Numa nova tentativa, agora com o selo Parlophone (uma filial da EMI) eles obtiveram sucesso. Na linha de frente desse selo fonográfico estaria George Martin, produtor e outra grande figura chave para a história do grupo. Figura 16 - Audição para a Decca Records Fonte: Diário dos Beatles, 2010 33 Figura 17 - Brian Epstein, empresário da banda Fonte: Pinterest, 2024 3.5 Primeiras gravações (George Martin, saída de Pete e entrada de Ringo) Após terem assinado com a Parlophone, tiveram início as primeiras gravações de singles dos Beatles. George Martin, logo percebeu que o som de bateria de Pete não iria muito longe, e nessa época o substituíram por uma baterista de sessão (Andy White), para pouco tempo depois admitirem Ringo Starr como novo baterista do grupo. Os rapazes já haviam tocado com Ringo em Hamburgo, quando ele fazia parte de outra banda: Rory Storm and the Hurricanes. A formação oficial dos Beatles havia se concretizado. Figura 18 - Formação oficial - The Beatles Fonte: WordPress, 2019 34 Figura 19 - George Martin, produtor dos Beatles Fonte: Happy Mag, 2016 Como Single, os Beatles lançariam, Love me do, Please Please Me e P.S I love you. Love me do e P.S I love you fizeram bastante sucesso, mas foi Please please quem catapultou os Fab4 para o estrelato. Os Beatles viriam a gravar seu primeiro álbum com o nome dessa canção. Esse álbum foi gravado em apenas 1 dia, com músicas autorais e covers. Pouco tempo depois lançaram os singles From me to you e She Loves you. Rapidamente foi se instaurando a chamada Beatlemania. 3.6 Beatlemania e Invasão Britânica Muitos jovens, principalmente garotas, se tornaram fãs da banda e o sucesso criou a chamada Beatlemania, ou seja, os maníacos por The Beatles. A banda já havia conquistado a Europa e estava começando a fazer muito sucesso também nos EUA. A chamada invasão britânica recebeu esse nome devido aos Beatles terem dado o primeiro passo fazendo sucesso lá, o que era muito difícil e nenhuma banda da europa tinha conseguido até então, depois deles, as portas tinham sido abertas e muitas bandas viriam surfar essa onda; Como por exemplo: The Rolling Stones, The Kinks, The Yardbirds, The Who, etc… No auge da fama os Beatles fizeram filmes e viraram até desenhos animados, abaixo são citadas algumas dessas referências. 35 Figura 20 - Beatlemania Fonte: Reddit, 2022 Quadro 5 (Filmes, animações e cartoons) Filmes (Lançados durante a existência da banda). Animação e Cartoons (Lançados durante a existência da banda). A Hard Day’s Night (1964) Yellow Submarine - Animação de 1968 Help (1965) The Beatles Cartoon (1965 - 1969) Magical Mystery Tour (1967) How I Won The War (1967) - Estrelado por Lennon. Let It Be (1970) Fonte: Autor, 2024 Álbuns divididos por fases: Quadro 6 (Álbuns e fases) 1ª Fase: Músicas com teor mais adolescente, conhecida como a fase “terninho” ou “Iê Iê Iê” da banda. 2ª Fase: Músicas com letras voltadas para assuntos mais “maduros”, com indagações e críticas. 3ª Fase: Experimental/ psicodélica (Haviam parado de fazer shows). 4ª Fase: Fim da psicodelia e últimos dias da banda. Please Please Me (abril-63) Help (agosto-65) Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (junho-67) Abbey Road (setembro-69) 36 With The Beatles (novembro-63) Rubber Soul (dezembro-65) Magical Mystery Tour (dezembro-67) Let It Be (maio-70) A Hard Day’s Night (julho-64) Revolver (agosto-66) The Beatles - “Álbum Branco” (novembro-68) Beatles For Sale (novembro-64) Yellow Submarine (dezembro-68) Fonte: Autor, 2024 3.7 O início do fim Citadas as informações de suma importância para questões sonoras e estéticas da banda, voltamos às situações históricas da banda. Passada a fase da Beatlemania e iniciada a fase mais experimental e psicodélica do quarteto houve uma grande decisão que foi tomada pela grupo; Cansados de fazer turnês, decidiram agora que seriam uma banda de estúdio, e que poderiam experimentar mais visto que não precisam apresentar as canções ao vivo. Decisão difícil, pois as turnês rendiam muito para a banda, mas os Beatles estavam dispostos a ditar as regras. Provaram mais uma vez estarem corretos e mudaram muito o mercado fonográfico e músicas que estavam sendo produzidas até então. Juntamente com o produtor George Martin, os fab4 inovaram com efeitos de gravação, uso de instrumentos, colagens sonoras: O céu era o limite. Infelizmente foi também nessa época que o empresário da banda Brian Epstein viria a falecer (27 de agosto de 1967), por overdose de Carbitol (medicamento para insônia). Muitos consideram esse momento como o “início do fim”, visto que os Beatles não tinham conhecimento de como lidar com a parte do business da banda, coisa que Brian fazia com maestria. Nas palavras do próprio Lennon ditas em entrevista à Jann Wenner em 1970: “Vi que a gente teria problemas. Nunca me enganei: era certo que a gente não sabia fazer nada além de música. E fiquei apavorado. Pensei: “Estamos acabados””.(2001, p. 42) Posteriormente fundaram a Apple Records, o próprio selo da banda, e tinham agora como novo empresário Allen Klein, que foi mais um dos motivos para o desgaste da banda. McCartney não concordava com suas abordagens, enquanto os outros Beatles chegaram a continuar trabalhando com Klein até 1979 (já em carreiras solo). John Lennon mais tarde admitiu que as suspeitas de Paul em relação a Klein eram verdadeiras e que o mesmo causou danos financeiros ao grupo. 37 Musicalmente George Harrison se sentia ofuscado, visto que no início os principais compositores eram Lennon/McCartney, mas nos anos seguintes George mostrou ser um compositor excepcional, tendo algumas músicas suas deixadas de lado; Isso o aborrecia. Um fato famoso que demonstra a situação foi quando George convidou Eric Clapton para gravar um solo na canção While my guitar Gently weeps para que Paul e John se sentissem constrangidos e fossem “obrigados” a gravá-la. Dentre todo esse desgaste, o grupo teve seu fim em 10 de abril de 1970. A partir daí os integrantes se dedicariam exclusivamente às suas carreiras solo. 38 4 CANÇÕES, EVENTOS, POLÊMICAS, LEGADO E ROCK ‘N’ ROLL Neste capítulo iniciam-se as análises, o critério de seleção se deu através de temas que estiveram e ainda estão em alta nos dias atuais, visando mostrar como a influência e o imaginário Beatle ainda está e estará presente por diversos anos em nosso meio, devido às suas críticas em muitos âmbitos da sociedade. 4.1 Blackbird e o racismo Esta canção de autoria de Paul McCartney lançada no Álbum Branco em 1968 é um nítido exemplo de contracultura, pois se apega nos conflitos raciais de sua época, principalmente em relação às mulheres negras. O compositor se utiliza da imagem do melro para evocar a liberdade para uma parcela da população que vinha sofrendo diversas injustiças, e como sabemos até hoje sofrem, segue abaixo a letra da canção e sua tradução: Blackbird singing in the dead of night Take these broken wings and learn to fly All your life You were only waiting for this moment to arise Blackbird singing in the dead of night Take these sunken eyes and learn to see All your life You were only waiting for this moment to be free Blackbird, fly Blackbird, fly Into the light of the dark black night Blackbird, fly Blackbird, fly Into the light of the dark black night Blackbird singing in the dead of night Take these broken wings and learn to fly All your life You were only waiting for this moment to arise You were only waiting for this moment to arise 39 You were only waiting for this moment to arise O melro canta na calada da noite Tome estas asas partidas e aprenda a voar Toda a sua vida Você somente aguardou o momento de alçar voo O melro canta na calada da noite Tome estes olhos cavados e aprenda a enxergar Toda a sua vida Você somente aguardou o momento de ser livre Voe, melro! Voe, melro! No clarão da noite escura Voe, melro! Voe, melro! No clarão da noite escura O melro canta na calada da noite Tome estas asas partidas e aprenda a voar Toda a sua vida Você somente aguardou o momento de alçar voo Você somente aguardou o momento de alçar voo Você somente aguardou o momento de alçar voo Nos trechos “Take these broken wings and learn to fly, all your life you were only waiting for this moment to arise” (Tome estas asas partidas e aprenda a voar, toda a sua vida você somente aguardou o momento de alçar voo) e “Take these sunken eyes and learn to see, all your life you were only waiting for this moment to be free” (Tome estes olhos cavados e aprenda a enxergar, toda a sua vida você somente aguardou o momento de ser livre) podemos notar que o compositor clama por liberdade para esse “blackbird” que sofre discriminação até os dias atuais. Mais uma vez podemos notar como as canções da banda reverberam através do tempo. 4.2 Dê uma chance à paz Give Peace a chance é uma canção de John Lennon lançada em 1970 com a banda Plastic Ono Band e creditada originalmente à Lennon/McCartney. 40 Na letra dessa música podemos notar um pedido pela paz, se trata de uma canção anti-guerras; Tema esse que viria ser recorrente durante a carreira solo do músico. Abaixo poderemos acompanhar letra e tradução da canção, seguidas de uma análise. Ev'rybody's talking about Bagism, Shagism, Dragism, Madism, Ragism, Tagism This-ism, that-ism, is-m, is-m, is-m All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance C'mon Ev'rybody's talking about Ministers Sinisters, Banisters and canisters Bishops and Fishops and Rabbis and Pop eyes And bye bye, bye byes All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance Let me tell you now Ev'rybody's talking about Revolution, evolution, masturbation Flagellation, regulation, integrations Meditations, United Nations Congratulations All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance Ev'rybody's talking about John and Yoko, Timmy Leary, Rosemary Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper Derek Taylor, Norman Mailer Alan Ginsberg, Hare Krishna Hare, Hare Krishna All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance All we are saying is give peace a chance 41 Todos estão falando sobre Bagismo, Shaguismo, Draguismo, Madismo, Ragismo, Tagismo Esse ismo, ismo, ismo Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Qual é Todos estão falando sobre Ministro Sinistro, Corrimãos e Latas, Bispos, Peixes, Coelhos, Olhos Abertos E tchau tchau, tchau tchau. Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Vou falar agora Todos estão falando sobre Revolução, Evolução, Masturbação Flagelação, Regulação, Integrações Mediações, nações unidas Parabéns Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Todos estão falando sobre John e Yoko, Timmy Leary, Rosemary Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper Derek Taylor, Norman Mailer Alan Ginsberg, Hare Krishna Hare Hare Krishna Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz Tudo o que dizemos é dê uma chance à paz. Quando a música foi lançada, John disse ter sentido arrependimento ao dar créditos da canção para Paul, pois esse seria seu primeiro single em carreira solo e a canção tinha sido escrita em parceria com sua esposa Yoko Ono9. 9 Ao citar Yoko Ono, é necessário quebrar certos paradigmas em relação à sua pessoa. Yoko é diversas vezes tratada como “ a mulher de John Lennon”, o que na verdade não passa de um pensamento simplista e machista, 42 A canção que evoca uma certa repetição mântrica, demonstra através de sua letra a tendência humana por divisão de movimentos e ideologias, idolatria e talvez ao descaso às guerras, como à do Vietnã que estava acontecendo naqueles dias. Por isso, a principal mensagem da canção trata-se de um pedido: Dê uma chance à paz. A canção foi entoada por cerca de 500 mil pessoas no evento de Moratória para acabar com a Guerra do Vietnã, que ocorreu em 15 de novembro de 1969, em Washington, D.C, contra as atitudes do governo Nixon. Ainda nesse mesmo ano John Lennon devolveu ao governo Inglês uma honraria que havia recebido em 1965, a chamada MBE, que o tornava Membro da Ordem do Império Britânico, o motivo da devolução foi o apoio da Inglaterra aos EUA na Guerra do Vietnã. Relacionando aos dias atuais, notamos uma mesma necessidade do pedido realizado por John em 1969. Mudam-se as pessoas, mas os problemas persistem; Em 2024 temos diversas guerras acontecendo, duas então tendo mais destaque na mídia, a Guerra Rússia/Ucrânia e a guerra entre Israel e Palestina. 4.3 Bed-in (1969) Figura 21 - Bed-in Fonte: Washington Post, 2019 pois Yoko já era uma artista de renome no período em que o casal se conheceu, sendo participante ativa do grupo Fluxus (grupo dos anos 60 totalmente voltado à contracultura, com ideias libertárias que sempre envolviam a arte). Alguns outros participantes desse grupo foram: John Cage, Jackson Mac Low, Toshi Ichijanagi, e o brasileiro Paulo Bruscky e o Luso-brasileiro Artur Barrio. 43 No dia 20 de março de 1969, John Lennon e Yoko Ono se casam, e pouco tempo depois promovem os chamados Bed-Ins; Estes foram eventos de protesto pela paz, no qual o casal permitia que a imprensa entrasse em um quarto de hotel em que estariam hospedados e , deitados na cama eles falariam de paz. Os eventos ocorreram em Amsterdã do dia 25 de março a 31 de março e o segundo ocorreu em Montreal, iniciando em 26 de maio do mesmo ano e se estendendo por cerca de uma semana. Uma famosa citação ao evento está presente na canção Don’t look Back in Anger da banda Oasis: “So I start a revolution from my bed, 'cos you said the brains I had went to my head”, em tradução livre: “Então eu começo uma revolução da minha cama, pois você disse que minha esperteza havia subido à minha cabeça”. 4.4 Polêmicas 4.4.1 “Sacudam suas joias, por favor" Em 1963, Os Beatles foram convidados para tocar em um evento de gala realizado pela monarquia inglesa para arrecadar fundos para caridade. A Rainha Elizabeth II estava grávida, não podendo comparecer ao evento. Sendo assim, a rainha mãe foi em seu lugar. No entanto, não esperava que seria pega de surpresa numa situação embaraçosa e constrangedora promovida por John Lennon num tom sarcástico. A última música a ser tocada naquela noite seria Twist and Shout, John aproveita para apresentá-la da seguinte maneira: “Para o nosso último número, eu gostaria de pedir a ajuda de vocês! As pessoas nos lugares mais baratos, quero que batam palmas. Enquanto os outros sacudam suas joias, por favor". É nítido o desconforto da rainha mãe perante a situação, e nítido também é a rebeldia de Lennon perante algo tão intocável para os ingleses das gerações anteriores, esse subjugar da monarquia é um claro traço de inconformismo dos jovens, o laço com a contracultura e o quebrar de paradigmas. 44 Figura 22 - Lennon sarcástico Fonte: Beatles Archive, 2019 4.4.2 “Mais populares que Jesus” Essa é considerada a maior polêmica se tratando de Beatles. “O cristianismo chegará ao fim. Ele encolherá e desaparecerá. Eu nem preciso argumentar sobre isso; eu estou certo, e o tempo provará o que estou dizendo. Nós somos mais populares que Jesus agora. Eu não sei o que desaparecerá primeiro: o rock ‘n’ roll ou o cristianismo. Jesus era legal, mas seus discípulos eram estúpidos e toscos. É a forma como eles distorceram as coisas que acaba com o cristianismo para mim”. (LENNON, 2009) Esse depoimento de John gerou muita polêmica e controvérsia, resultando num boicote aos Beatles; Músicas sendo banidas das rádios americanas, queima de discos pelas instituições religiosas, cartas de ódio à Lennon, etc… John era o tipo de pessoa que dizia o que pensava, apesar dos pesares; Muito relutante, Lennon se desculpou pelo comentário, porque Brian Epstein e outros integrantes da banda o convenceram de que era o melhor a se fazer. Mas só o episódio já é suficiente para demonstrar sua insatisfação com o Status Quo. 4.4.3 - Passado e presente Como via de análise também é válido mencionar músicas do quarteto que foram produzidas e lançadas após o término da banda. As músicas referentes ao assunto são: Free as a Bird, Real love e a mais recente Now and Then. 45 A importância dessas músicas se deve ao fato de que como citado anteriormente elas são músicas dos Beatles lançadas após o término da banda, músicas dos Beatles lançadas em diferentes gerações, ou seja, aí está o frescor Beatle novamente atingindo a juventude. Free as a bird, Real Love e Now and Then eram canções inacabadas de John Lennon, que com a permissão de Yoko Ono, sua esposa, foram entregues aos outros Beatles para que pudessem ser concluídas; Então nos anos 90, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr se uniram novamente nas sessões do que viria a ser a coletânea Anthology e gravaram Free as a Bird e Real Love. Um ponto a salientar é a qualidade das fitas demo de John, eram gravações caseiras, isso dificultou muito o processo de gravação das canções; Das 3 músicas, uma foi deixada de lado, pois era a que estava com pior qualidade: Now and Then. Décadas se passam. Em 2001, infelizmente George Harrison faleceu, e a ideia de concluir a canção se tornava cada vez mais distante. Somente em 2023, 1 ano antes da realização deste trabalho é que foram retomados os esforços para a conclusão da canção. Os Beatles mais uma vez inovadores se utilizaram da tecnologia mais em alta nos tempos atuais: a IA (Inteligência Artificial). Com esta tecnologia eles conseguiram isolar e melhorar a qualidade dos vocais de Lennon que estavam misturados a um som de piano na fita demo. A partir daí foi retornar de onde tinham parado. George Harrison já havia gravado as faixas de guitarra para a canção nos anos 90, então Paul e Ringo, terminaram a canção e ela foi lançada em 2 de novembro de 2023 (G1 - Fantástico, 2023). 46 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como considerações finais, permito-me demonstrar que o inconformismo, a relação anti-establishment, anti-guerras, o sonho de uma sociedade mais igualitária, presente na obra e ações de seus integrantes, além das outras diversas bandas que sofreram influências dos Beatles, são mais do que suficientes para demonstrar que seu legado perdura por conta da defesa desses temas acima citados. Esses temas são como água no deserto para um jovem que anseia por liberdade e pensamento crítico. O não aceitar de uma concepção já pré-estabelecida e tida como certa para a grande massa é de suma importância para entender a relevância da banda e de sua obra, não somente musical. Outro fator importante é o de saber se comunicar com as mais diversas gerações, estar “antenado”, e os Beatles sempre fizeram isso muito bem. A transmissão de seu legado perdura através das gerações por conta de suas canções, concepções, moda, atitude, dentre os mais diversos fatores. Ao se tratar de quase qualquer assunto moderno é possível trazer alguma conotação e referência aos Beatles, seja direta ou indiretamente. Volto a mencionar o uso recente da Tecnologia IA com finalidade de concluir uma canção. Esse frescor, vitalidade, rebeldia e pioneirismo em diversos campos é o que transforma a banda num ícone para a sociedade moderna dos séculos XX e XXI. Um dos princípios da contracultura é o não aceitar das coisas como pré concebidas de uma certa forma ou padrão; e é nisso que toda a obra dos Beatles é pautada. Os anos se passam mas muitos dos dilemas enfrentados por nossos pais e avós são repetidos nas gerações seguintes, aproveito até para fazer uma referência à uma canção brasileira, autoria de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, mais conhecido somente por Belchior, que era um declarado fã dos Beatles, sempre os reverenciando em suas canções; A canção em questão é “Como nossos Pais”, eternizada em gravação pela também amante da obra do quarteto de Liverpool, Elis Regina. Segue abaixo uma estrofe da canção: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Essa canção demonstra a frustração de alguém que percebe que aqueles jovens de outrora, hoje repetem os mesmos comportamentos de seus pais, se transformando naquilo que um dia repudiaram de certa maneira, com isso Belchior captura muito da “essência Beatle” 47 que viveu e sempre apreciou. Mais uma vez o ar de contestação e repúdio por aceitar as coisas porque “elas são assim” está presente. Esse ar sonhador e idealizador é conscientemente massacrado pelo sistema e sociedade em que vivemos; Artistas como os Beatles e toda uma gama de outros artistas posteriormente influenciados pela banda lutam contra esse mesmo sistema todo dia. Finalizo com um trecho de uma canção de autoria de Lennon, que fica como uma grande reflexão para todos. A canção se chama “Imagine” do álbum homônimo de 1971. “Imagine que não houvesse nenhum país Não é difícil imaginar Nenhum motivo para matar ou morrer E nem religião, também Imagine todas as pessoas Vivendo a vida em paz Você pode dizer que eu sou um sonhador Mas eu não sou o único Espero que um dia você junte-se a nós E o mundo será como um só”. 48 REFERÊNCIAS BEATLES Archive. Disponível em: . Acesso em 30 ago. 2024. BUNTE. Disponível em: . Acesso 30 ago. 2024. CASBURN, Melissa M. A Concise History of the British Mod Movement, 2004. 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