1 VICTOR SEIJI OYAMADA Docentes: Orientadora: Profa. Renata Cristina Batista Fonseca Supervisor: Profo. Felipe Wanderley de Amorim Análise temporal da mastofauna terrestre associada a uma área em restauração florestal BOTUCATU - SP 2025 2 Victor Seiji Oyamada Análise temporal da mastofauna terrestre associada a uma área em restauração florestal Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado a Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Biociências de Botucatu, como parte das exigências para obtenção do título de Bacharelado do curso de Graduação em Ciências Biológicas. Orientador: Prof. Dra. Renata Cristina Batista Fonseca Supervisor: Prof. Dr. Felipe Wanderley de Amorim Botucatu 2025 O98a Oyamada, Victor Seiji Análise temporal da mastofauna terrestre associada a uma área em restauração florestal / Victor Seiji Oyamada. -- Botucatu, 2025 25 p. : tabs., fotos, mapas Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado - Ciências Biológicas) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Biociências, Botucatu Orientadora: Renata Cristina Batista Fonseca 1. Restauração ecológica. 2. Sucessão secundária. 3. Mamíferos. 4. Ecologia. 5. Fragmentação florestal. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Dados fornecidos pelo autor(a). 3 Felipe Wanderley de Victor Seiji Oyamada Análise temporal da mastofauna terrestre associada a uma área em restauração florestal Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado à Universidade Estadual Paulista, como parte das exigências para a obtenção do título de Bacharel em Ciências Biológicas. Botucatu, 05 de dezembro de 2025. BANCA EXAMINADORA by Felipe Wanderley de Amorim:05687879609 DN: cn=Felipe Wanderley de Amorim:056878796 09 Amorim:05687879609, ou=UNESP - Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, o=ICPEdu, c=BR Date: 2025.12.05 16:13:12 -03'00' Prof. Dr. Felipe Wanderley de Amorim Departamento de Biodiversidade e Bioestatística Instituto de Biociências de Botucatu Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Campus de Botucatu Prof. Dra. Renata Cristina Batista Fonseca Departamento de Ciência Florestal, Solos e Ambiente Faculdade de Ciências Agronômicas Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Campus de Botucatu Prof. Dr. Vagner Aparecido Cavarzere Junior Departamento de Biodiversidade e Bioestatística Instituto de Biociências de Botucatu Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Campus de Botucatu 4 Agradecimentos: Eu gostaria de agradecer: À minha família, por todo o apoio financeiro e educacional que tive durante todos os meus vinte e dois anos, sem eles eu não teria chegado até aqui; À minha orientadora, a Professora Doutora Renata Cristina Batista Fonseca, pela orientação e acompanhamento durante todo o meu projeto de conclusão de curso; Ao meu supervisor, o Professor Doutor Felipe Wanderley de Amorim, pela supervisão deste trabalho, além de auxiliar no desenvolvimento final do mesmo; Ao Professor Mestre José Roberto Silveira Mello Júnior, pelo auxílio durante o desenvolvimento da estatística do projeto; Ao Laboratório de Conservação da Natureza e seus membros, pelo conhecimento compartilhado durante as reuniões mensais; À minha namorada, estudante de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, Isabella Ferreira Ventaja, pelo apoio durante o andamento do projeto; Aos biólogos e engenheiros florestais: Gilberto Vieira, Renato Martins e Victor Antonelli, Gabriel Gumiero e Gustavo Bertuolo, respectivamente, pelo acompanhamento de campo durante o desenvolvimento do projeto; À turma 57 de Ciências Biológicas, que durante seis anos, foi a minha turma onde pude trabalhar meus conhecimentos junto com alunos excepcionais; À República Monte Olimpo, que foi minha casa por cinco anos, tendo conhecido diversas pessoas de diversos cursos, e foi onde eu trabalhei minhas habilidades sociais; Ao Instituto de Biociências de Botucatu e à Faculdade de Ciências Agronômicas pelos recursos disponibilizados para realização do projeto; Aos funcionários da UNESP, principalmente da Fazenda Experimental Edgardia; 5 SUMÁRIO: Resumo ........................................................................................................................06 Abstract ........................................................................................................................07 Introdução .................................................................................................................... 08 Objetivos ...................................................................................................................... 09 Material e Métodos ..................................................................................................... 09 Resultados ................................................................................................................... 12 Discussão..................................................................................................................... 16 Referências Bibliográficas… ........................................................................................ 19 6 Resumo: O Estado de São Paulo, apesar de ser o principal centro econômico do Brasil, enfrenta desafios socioambientais intensos, especialmente relacionados ao desmatamento e à fragmentação de habitats. Esses processos comprometem a biodiversidade e a estabilidade ecológica, exigindo estratégias de restauração florestal que integrem aspectos ecológicos e faunísticos. O presente estudo teve como objetivo caracterizar a comunidade de mamíferos de médio e grande porte associada a uma área em processo de restauração ecológica na Fazenda Experimental Edgárdia, Botucatu (SP), bem como avaliar as mudanças na composição dessa comunidade ao longo do tempo. A área de estudo, implantada entre 1997 e 1998, foi monitorada por meio de parcelas de areia e armadilhas fotográficas, totalizando 45 dias de esforço amostral. Os dados foram analisados com base em índices de diversidade alfa (Shannon e Simpson) e beta (turn-over, nestedness e dissimilaridade de Jaccard).. Os resultados indicaram aumento na riqueza e diversidade de espécies entre 2009 e 2025, refletindo avanços nos processos sucessionais e na estabilidade ecológica da área restaurada. Observou-se também a presença de espécies invasoras, como Sus scrofa (javali), e de predadores de topo, como Puma concolor e Leopardus pardalis, sugerindo a reestruturação trófica da comunidade. Contudo, fatores externos, como incêndios recentes, períodos de seca intensa e atividade de caçadores, interferiram nas coletas e podem ter influenciado a presença e a frequência das espécies registradas. Conclui-se que a área apresenta sinais positivos de restauração ecológica, embora o monitoramento contínuo e medidas de controle de distúrbios antrópicos sejam essenciais para consolidar o equilíbrio ecológico local. Palavras-chave: restauração ecológica; sucessão secundária; mamíferos silvestres; diversidade; fragmentação florestal. 7 Abstract: Despite its status as Brazil's economic hub, the State of São Paulo faces severe socio-environmental challenges, specifically deforestation and habitat fragmentation. These processes compromise biodiversity and ecosystem stability, underscoring the need for restoration strategies that effectively integrate habitat recovery with faunal conservation. This study characterized the medium- and large-sized mammal community in an area undergoing restoration at Fazenda Experimental Edgardia (Botucatu, São Paulo, Brazil) and evaluated temporal variations in community composition. Monitoring was conducted using sand plots and camera traps over a 45-day sampling period. Alpha diversity (Shannon and Simpson indices) and beta diversity metrics (turnover, nestedness, and Jaccard dissimilarity) were analyzed within the R environment. Results indicate an increase in species richness and diversity between 2009 and 2025. The recording of invasive species, such as Sus scrofa, alongside apex and mesopredators like Puma concolor and Leopardus pardalis, suggests a trophic restructuring of the community. Nevertheless, environmental stressors—including recent fires, droughts, and hunting pressure—may have influenced detection rates. We conclude that while the area exhibits positive signs of ecological restoration, continuous monitoring and the mitigation of anthropogenic disturbances are essential to ensure long-term ecological integrity. Keywords: ecological restoration; secondary succession; wild mammals; diversity; forest fragmentation. 8 Introdução: O Estado de São Paulo consolida-se historicamente como o centro econômico do Brasil. Contudo, esse protagonismo no cenário agropecuário — que confere à nação o título de "fazenda do mundo" e a posiciona entre as maiores exportadoras de commodities (THÉRY, 2019) — apresenta um contraponto crítico às questões socioambientais contemporâneas. O modelo de desenvolvimento econômico acelerado resultou em uma severa supressão da vegetação nativa, particularmente no bioma Mata Atlântica, hoje reduzido a fragmentos esparsos. Para ilustrar a magnitude desta perda histórica, municípios como Viçosa (CE) sofreram reduções drásticas, restando apenas frações de sua cobertura original em poucas décadas (SOS MATA ATLÂNTICA; INPE, 2015). Em escala nacional, o Brasil preserva apenas cerca de 28% da fitofisionomia original da Mata Atlântica (SOS MATA ATLÂNTICA, 2019), um cenário que agrava a vulnerabilidade de espécies endêmicas e reduz a resiliência ecossistêmica frente às mudanças climáticas globais e à crise de biodiversidade (PRIMACK; RODRIGUES, 2001). Como consequência direta do desmatamento histórico, o processo de fragmentação de habitats tornou-se uma das principais ameaças à biodiversidade tropical. No Estado de São Paulo, os remanescentes florestais cobrem cerca de 13,94% do território (CAES, 2009), encontrando-se muitas vezes isolados em uma matriz antropizada de pastagens e monoculturas. A fragmentação não apenas reduz a área disponível, mas altera a configuração da paisagem, criando o chamado "efeito de borda", que modifica o microclima e a estrutura da vegetação nas margens dos fragmentos (MURCIA, 1995). Esse processo compromete a conectividade ecológica e a mobilidade das espécies, expondo a fauna a pressões externas como caça predatória, atropelamentos e isolamento reprodutivo (MACARTHUR; WILSON, 1967; FAHRIG, 2003; LAURANCE et al., 2011). A persistência desse isolamento pode levar à defaunação, culminando no fenômeno da "floresta vazia", onde a estrutura vegetal persiste, mas as interações ecológicas funcionais são drasticamente reduzidas ou extintas (REDFORD, 1992; DIRZO et al., 2014). Diante desse antagonismo entre expansão econômica e conservação, a restauração ecológica emerge como uma estratégia fundamental de mitigação. Definida como a ciência e a prática que auxiliam a recuperação de ecossistemas degradados, a restauração visa restabelecer não apenas a cobertura vegetal, mas a integridade ecológica e a sustentabilidade ambiental (ENGEL; PARROTTA, 2003). O sucesso dessas iniciativas depende intrinsecamente da compreensão dos processos de sucessão ecológica secundária. Segundo Begon e Townsend (2023), a sucessão é um padrão direcional de colonização e extinção de populações. Contudo, diferentemente da visão clássica de "monoclímax" estável de Clements (1916), a ecologia moderna reconhece que a sucessão em áreas tropicais é frequentemente interrompida ou desviada por distúrbios recorrentes, como fogo e invasão biológica (TANSLEY, 1939; PAGLIA et al., 2012). Nesses cenários, a regeneração natural torna-se lenta e dependente da chegada de propágulos oriundos de fragmentos vizinhos (CHAZDON, 2008; ANDRESEN, 2000). 9 Nesse contexto de recuperação, as interações animal-planta assumem um papel central. A mastofauna de médio e grande porte desempenha funções ecossistêmicas insubstituíveis. Espécies frugívoras, como a anta (Tapirus terrestris) e o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), atuam como dispersores de sementes de longa distância, conectando fragmentos isolados e promovendo o fluxo gênico vegetal (GALETTI et al., 2001; REIS et al., 2023). Além disso, a presença de predadores de topo, como a onça-parda (Puma concolor), é crucial para o controle populacional de herbívoros e mesopredadores, evitando o pastoreio excessivo que poderia impedir o crescimento de plântulas em áreas de restauração, um fenômeno conhecido como controle "top-down" ou cascata trófica (TERBORGH et al., 2001; ALVES, 2009). Por outro lado, a ausência desses animais ou a presença de espécies exóticas invasoras, como o javali (Sus scrofa), pode comprometer o recrutamento vegetal e desestabilizar a comunidade nativa (GALETTI; DIRZO, 2013). Para compreender a dinâmica dessas comunidades em áreas de restauração, o monitoramento contínuo é essencial. A Fazenda Experimental Edgardia, localizada em Botucatu-SP, tem sido objeto de diversos levantamentos de fauna nas últimas décadas, permitindo uma análise temporal valiosa. Estudos pioneiros de Maragno e Lourenço (2000) registraram a presença de predadores de topo e grandes roedores. Posteriormente, Alves (2009) e Caes (2009) aprofundaram a caracterização da mastofauna local, identificando uma rica diversidade que incluía desde marsupiais até grandes carnívoros, além de primatas como Sapajus sp. (anteriormente registrado como Cebus apella). Almeida (2013) observou que fragmentos maduros ainda sustentam maior riqueza do que áreas em restauração recente, corroborando a hipótese de que a recuperação da fauna é um processo lento que acompanha a maturação da floresta. Passados mais de dez anos desde os últimos levantamentos sistemáticos na área, torna-se imperativo avaliar as mudanças ocorridas na comunidade de mamíferos. Portanto, este estudo visa atualizar e avaliar a composição da mastofauna de médio e grande porte associada à área de restauração da Fazenda Experimental Edgardia. Espera-se que, com o avanço dos processos sucessionais e a maturação do habitat, ocorram alterações na riqueza e abundância de espécies,, fornecendo dados cruciais para o manejo adaptativo e a consolidação das estratégias de restauração ecológica. Objetivos: O presente trabalho estudou os efeitos de um processo de restauração florestal iniciado em 1997, utilizando diferentes métodos de plantio na Fazenda Experimental Edgardia, localizada na cidade de Botucatu, São Paulo. É esperado que após quase 30 anos desde o início da restauração, haja uma estabilidade ecológica, onde as interações das populações corroborem os processos sucessionais, onde as espécies vegetais de estágios secundários mais tardios condizem com a abundância e riqueza de animais. a) Caracterizar a comunidade de mamíferos de médio e grande porte associada à área em processos de restauração; b) Testar se houve mudanças na comunidade de mamíferos ao longo do tempo. Material e Métodos: 10 1. Local do estudo O estudo foi realizado em uma área de 3,75 hectares em processo de restauração florestal implantada em 1997-1998, inserida em uma região de Floresta Estacional Semidecidual (IBGE, 2004), na Fazenda Experimental Edgardia. A temperatura média anual é de 21,34 °C e a pluviosidade média é de 1.534,47 mm por ano, com uma precipitação máxima em um período chuvoso (dezembro) e um período seco (agosto) de 200,15 mm e 38,60 mm, respectivamente (Franco et al., 2023). A paisagem é composta por áreas agrícolas, pastagens e áreas naturais modificadas por extração madeireira e alterada por ocorrências de incêndio (Ortega e Engel,1992). Figura 1. Imagem via Google Earth da Fazenda Experimental Edgardia junto com a localização da área em restauração florestal. O solo da área de estudo é classificado como Argissolo Vermelho-Amarelo, sendo inicialmente área de pastagem para criação de gado e próximo a ela um fragmento de Floresta Estacional Semidecidual pouco modificada com extrações restritas de madeira até os anos 70 (Machado, 2016). 2. Metodologia A metodologia do estudo foi baseada em uma pesquisa já realizada em 2007-2008, utilizando o método de uso de parcelas de areia (Pardini et al., 2003) e armadilhas fotográficas (Tomas e Miranda, 2003). O uso é baseado nos hábitos noturnos que dificultam sua observação direta (Pardini et al., 2003). No total, foram utilizadas 30 parcelas de areia para a área de restauração florestal. A distribuição se deu com base na distância entre as parcelas, sendo colocadas a cada 10 metros de distância. As parcelas apresentaram 50 cm de comprimento e 50 cm de largura, feitas de areia fina com 3 cm de espessura. Foram utilizados pedaços de banana como isca para atrair os animais às parcelas de areia, que foram verificadas diariamente, e as iscas não ingeridas foram removidas e recolocadas. A matéria orgânica vegetal também foi retirada e a areia remexida para tirar as 11 pegadas e voltar ao estado uniforme que era inicialmente determinado. A identificação foi com base nos estudos de Becker e Dalponte (1991) e Borges e Tomas (2004). A confecção de formas de gesso também foi realizada em caso de dificuldades na identificação local. O esforço amostral do estudo foi inicialmente estabelecido por 30 dias, porém os números não foram satisfatórios. Por isso, foi prorrogado por mais 15 dias de coleta, para sim ter dados conclusivos. Para complementar a riqueza caracterizada por meio das parcelas de areia, foi utilizada uma armadilha fotográfica, posicionada em troncos de árvores e ativada após o período de coleta das parcelas. A caracterização da estrutura da comunidade de mamíferos baseou-se na partição da diversidade biológica em componentes alfa, beta e gama, conforme proposto por Whittaker (1972). Todas as análises estatísticas e ecológicas foram conduzidas no ambiente computacional R, versão 2024.(R CORE TEAM, 2024), utilizando um conjunto de pacotes específicos para ecologia de comunidades e manipulação de dados, detalhados a seguir. Para a organização inicial, limpeza e estruturação do banco de dados, foram utilizados os pacotes readr e dplyr. O pacote readr foi empregado para a importação eficiente dos dados brutos (registros de pegadas e armadilhas fotográficas), garantindo a integridade da leitura de grandes volumes de dados textuais. Já o pacote dplyr foi fundamental para a manipulação dos data frames, permitindo a filtragem de registros, padronização taxonômica e a sumarização das abundâncias por espécie e por local de amostragem (WICKHAM et al., 2019). Dada a variação na abundância total de registros entre os anos amostrados, a comparação direta da riqueza observada poderia incorrer em vieses estatísticos. Para corrigir essa distorção e padronizar as amostras com base na cobertura (completude) do inventário, utilizou-se o pacote iNEXT (Interpolation and Extrapolation for Species Diversity). Esta ferramenta implementa a metodologia proposta por Chao et al. (2014), permitindo o cálculo de curvas de rarefação e extrapolação para os números de Hill (q = 0, 1, 2) com intervalos de confiança de 95% baseados em bootstrap (HSIEH; MA; CHAO, 2016). Para a confecção das figuras e representação visual dos dados, empregou-se o pacote ggplot2. Baseado na "Gramática dos Gráficos", este pacote permite a construção de visualizações complexas e esteticamente refinadas através da sobreposição de camadas de dados, geometrias e escalas, garantindo a clareza e a qualidade editorial das curvas de diversidade geradas (WICKHAM, 2016). 2.1. Diversidade Alfa A diversidade alfa, definida como a diversidade local de uma comunidade (TUOMISTO, 2010), foi quantificada através de métricas que consideram tanto a riqueza (número de espécies) quanto à equabilidade (distribuição da abundância). Para o cálculo destes índices, utilizou-se o pacote vegan (OKSANEN et al., 2020), uma das principais bibliotecas para análises de ecologia de comunidades no R. 12 Foram calculados: i) Índice de Shannon-Wiener: Métrica sensível a espécies raras, calculada pela equação: H′=−∑pi⋅ln(pi) Onde pi representa a proporção de indivíduos da i-ésima espécie em relação ao total da amostra. ii) Índice de Simpson Inverso: Medida de dominância que, em sua forma invertida (números de Hill), representa a diversidade em termos de "número efetivo de espécies" (JOST, 2006). É calculado como: 1/D= 1/∑pi2 Essa transformação facilita a interpretação biológica, onde valores maiores indicam maior diversidade e menor dominância de uma única espécie. 2.2. Diversidade Beta e Decomposição A diversidade beta, que mensura a variação na composição de espécies entre diferentes locais ou tempos (SHEN, 2025), foi analisada utilizando o índice de dissimilaridade de Jaccard. A análise foi aprofundada através da decomposição da diversidade beta proposta por Baselga (2010), utilizando o pacote betapart. Este pacote permite particionar a dissimilaridade total em dois componentes aditivos distintos: 1. Turnover (Substituição): Reflete a substituição de espécies entre comunidades, onde espécies presentes em um local são trocadas por diferentes espécies em outro. 2. Nestedness (Aninhamento): Reflete a perda ou ganho de espécies, onde comunidades com menor riqueza são subconjuntos de comunidades mais ricas (BASELGA; LEPRIEUR, 2015). A fórmula geral da dissimilaridade de Jaccard aplicada é: βjac = b+c/a+b+c Onde: ● a = número de espécies compartilhadas entre os dois locais; ● b = número de espécies exclusivas do primeiro local; ● c = número de espécies exclusivas do segundo local. Por fim, o pacote adespatial foi incluído na rotina de análise para investigar potenciais estruturas espaciais nos dados ecológicos, permitindo avaliações multiescalares da comunidade quando necessário (DRAY et al., 2023). Resultados O esforço amostral total resultou na obtenção de registros de mamíferos de médio e grande porte com uma diferença expressiva de abundância entre os períodos: foram 13 contabilizados 97 registros em 2009 e 14 registros em 2025. Devido a essa disparidade na abundância absoluta, a comparação direta apenas pelos números brutos poderia enviesar a interpretação da diversidade real. Para corrigir o viés amostral e permitir uma comparação robusta, aplicou-se o método de interpolação e extrapolação baseado nos números de Hill (CHAO et al., 2014). As curvas de rarefação baseadas no número de indivíduos (Figura 2) demonstram comportamentos distintos entre os anos. Figura 2. Curvas de rarefação (linha contínua) e extrapolação (linha tracejada) para a diversidade de mamíferos, comparando os anos de 2009 (laranja) e 2025 (azul) com base no número de indivíduos. As áreas sombreadas representam o intervalo de confiança de 95%. Observou-se um incremento na riqueza específica ao longo do período monitorado: enquanto em 2009 foram registradas 4 espécies, o levantamento de 2025 identificou a presença de 6 espécies (Tabela 1). Nota-se, no período mais recente, o registro de espécies de topo de cadeia e a ocorrência de espécies exóticas invasoras, especificamente o javali (Sus scrofa) e suas formas híbridas ("javaporco"). Tabela 1. Tabela referente à caracterização da riqueza de espécies entre as observações dos anos de 2009 e 2025. Legenda: Forma de Registro - P: Pegada; V: Visualização direta; AF: Armadilha Fotográfica. 14 Para o ano de 2009 (linha laranja), a curva atingiu a assíntota rapidamente, indicando que o esforço amostral foi suficiente para registrar a totalidade da riqueza estimada para aquela comunidade, caracterizada por baixa riqueza e alta dominância da espécie Nasua nasua (n=53). Em contraste, a curva de 2025 (linha azul) apresenta uma inclinação acentuada e ascendente, sem atingir a assíntota. Isso indica que a riqueza real da área em 2025 é significativamente superior à observada, sugerindo que um aumento no esforço amostral revelaria ainda mais espécies. A análise de completude da amostra (Sample Coverage, Figura 3) confirma essa saturação diferencial. O inventário de 2009 atingiu uma cobertura próxima a 100% (1.0), enquanto 2025 permaneceu abaixo de 90%, refletindo uma comunidade mais complexa e com maior proporção de espécies raras (singletons) não detectadas. Figura 3. Completude da amostra (Sample Coverage) em função do número de indivíduos para os anos de 2009 e 2025. Ao padronizar a comparação pela cobertura da amostra (Figura 4), a comunidade de 2025 apresentou índices de diversidade superiores aos de 2009 para todas as ordens de diversidade (q). Em q=0 (Riqueza), q=1 (Shannon - equitabilidade) e q=2 (Simpson - dominância), as curvas de 2025 mantêm-se acima das de 2009, confirmando que a 15 comunidade atual é intrinsecamente mais diversa e ecologicamente estruturada, superando a dominância acentuada de mesopredadores observada no passado. Figura 4. Comparação da diversidade baseada na cobertura da amostra para as ordens q=0 (riqueza), q=1 (Shannon) e q=2 (Simpson). A análise dos índices de diversidade alfa (Tabela 2) demonstrou valores superiores para o ano de 2025 em comparação a 2009, tanto para o Índice de Shannon (H') quanto para o Índice de Simpson (1/D). Isso indica que, na amostragem atual, a comunidade apresenta maior diversidade e menor dominância de uma única espécie em relação ao cenário anterior (Figuras 5 e 6). Figura 5. Gráfico representando a riqueza de espécies encontrada em função do ano de coleta. 16 Figura 6. Gráficos representando os valores de diversidade alfa (índice de Simpson - A; índice de Shannon - B) em função dos anos de amostragem. No que tange à diversidade beta (Tabela 2), a decomposição da dissimilaridade revelou que a diferença entre as comunidades temporais é explicada majoritariamente pelo componente de substituição (turnover), que apresentou valores elevados. Em contrapartida, o componente de aninhamento (nestedness) mostrou-se baixo. O índice de dissimilaridade de Jaccard confirmou que a composição de espécies de 2025 guarda baixa similaridade com a de 2009. Tabela 2. Tabela representativa dos valores da diversidade alfa e da diversidade beta Discussão A interpretação dos resultados obtidos deve, primariamente, considerar as interferências estocásticas e antrópicas que marcaram o período de estudo. Em outubro de 2024, a Fazenda Experimental Edgardia sofreu um incêndio de grandes proporções que afetou diretamente a área original do experimento, exigindo o deslocamento para um novo sítio amostral. Este evento impõe limitações à comparabilidade temporal, visto que o fogo altera drasticamente a fisionomia da vegetação, a disponibilidade de recursos e o comportamento da fauna (PIVELLO, 2011; SILVA et al., 2020). O incêndio pode provocar a diminuição da riqueza e abundância mas pode aumentar a riqueza e abundância em áreas próximas ao incêndio por conta do deslocamento temporário da fauna. Adicionalmente, o cenário de mudanças climáticas, caracterizado por secas prolongadas na região, aliado à pressão de caça observada na região, atua como um filtro ambiental severo. A presença humana compromete a detectabilidade das espécies, que tendem a alterar seus padrões de atividade e uso do espaço para evitar a predação humana 17 (GALETTI et al., 2017). Tais fatores explicam, em parte, o baixo número absoluto de registros (n=12), configurando um desafio para o monitoramento da mastofauna local. Contudo, a análise das curvas de rarefação (Figura 2 e 3) permitiu superar essa limitação amostral e revelou uma tendência ecológica positiva. O fato de a curva de 2025 não ter atingido a assíntota — apresentando uma inclinação íngreme (steep slope) — é um forte indicador biológico. Diferentemente de 2009, onde a comunidade parecia simplificada e dominada por bandos de quatis (Nasua nasua), a comunidade atual apresenta uma estrutura latente muito mais rica. A alta taxa de turnover e a elevação dos índices de Shannon e Simpson (visualizados nas curvas de ordem q=1 e q=2) sugerem que a área está suportando uma teia trófica mais complexa, capaz de manter predadores de topo como a onça-parda (Puma concolor) e a jaguatirica (Leopardus pardalis). Apesar dessas limitações, a análise temporal revela uma tendência positiva no processo de restauração ecológica. O aumento da diversidade alfa e a alta taxa de turnover indicam que a comunidade não está apenas acumulando espécies (nestedness), mas sim substituindo grupos pioneiros e generalistas por uma fauna mais complexa. Essa reestruturação da comunidade é compatível com os processos de sucessão ecológica secundária avançada: à medida que a vegetação avança em direção ao clímax, espera-se o aumento da complexidade das interações biológicas (ODUM, 1988; BEGON; TOWNSEND, 2023). Entretanto, um ponto de alerta crítico evidenciado neste estudo é a alta frequência de Sus scrofa (javali) (Figura 7 - A e B). Introduzida na América do Sul em meados do século XX (DACIUK, 1978; NAVAS, 1987), esta espécie exótica invasora expandiu-se agressivamente, atingindo mais de 60% dos municípios da Mata Atlântica (HEGEL et al, 2022). Figura 7. Imagens de javalis (Sus scrofa) obtidas pelas armadilhas fotográficas1. A presença do javali representa uma dupla ameaça. No âmbito socioeconômico, causa prejuízos à agricultura, afetando plantações de milho e cana-de-açúcar (BERCÊ, 2018). No âmbito ecológico, sua competição com espécies nativas, como o cateto (Pecari tajacu) e o queixada (Tayassu pecari), é preocupante. Devido ao seu porte avantajado (superando 100 kg) e alta plasticidade alimentar, o javali pode deslocar competitivamente os taiassuídeos nativos — já vulneráveis pela caça —, alterando as funções de revolvimento do solo e predação de sementes no ecossistema (DE OLIVEIRA, 2012; GARCIA et al., 2011). Conclui-se, portanto, que a aplicação dos números de Hill e das curvas de rarefação permitiu demonstrar que, a despeito da menor abundância de registros causada por fatores externos (fogo e caça), a área de restauração da Fazenda Experimental Edgardia apresenta hoje uma biodiversidade significativamente maior e mais equitativa do que há 16 anos, 18 evidenciados pelo aumento da riqueza, diversidade e pelo retorno de predadores de topo. A alta dissimilaridade e o elevado turnover confirmam uma reestruturação profunda da comunidade, compatível com processos sucessionais avançados. Contudo, a integridade desse processo está ameaçada pela invasão biológica de Sus scrofa, que pode induzir desequilíbrios ecológicos e suprimir populações nativas funcionais. Para monitoramentos futuros, recomenda-se a substituição ou complementação das parcelas de areia por um esforço amostral intensivo com armadilhas fotográficas modernas, que oferecem maior precisão taxonômica e eficácia na detecção, permitindo um acompanhamento mais refinado tanto da recuperação da fauna nativa quanto da expansão das espécies invasoras. 19 Referências Bibliográficas ALVES, T. R. Diversidade de mamíferos de médio e grande porte e sua relação com o mosaico vegetacional na fazenda experimental Edgárdia, UNESP, Botucatu/SP. 2009. Dissertação (Mestrado em Ciências Biológicas) – Universidade Estadual Paulista, Botucatu, 2009. ALVES, T. R.; FONSECA, R. C.; ENGEL, V. L. Mamíferos de médio e grande porte e sua relação com o mosaico de habitats na cuesta de Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil. 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