1 6 1 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 * Mestranda em Comunicação Midiática pela Unesp-Faac/Bauru. E-mail: carol.taveira@yahoo.com.br. ** Professor Doutor no curso de Jornalismo. Mestrado e Doutorado da Unesp/Faac-Bauru. E-mail: maxvicente@faac.unesp.br. Revisão técnica e de texto: Doutora Érika de Moraes Data da submissão: 29/julho/2014 Data da aprovação: 10/agosto/2014 O JORNALISMO ECONÔMICO POR MEIO DA IMPRENSA ALTERNATIVA: BUNDAS E A ACESSIBILIDADE DA INFORMAÇÃO The economic journalism by alternative press: Bundas and the accessibility of information Caroline Gonçalves Taveira* Maximiliano Martin Vicente** RESUMO O presente artigo busca, através da análise do conteúdo expresso no semanário Bundas, mostrar como este tratou dos assuntos econômicos no Brasil, no período de 1999 a 2001. Com este estudo, buscaremos compreender a forma como o impresso abordava os assuntos econômicos e, por meio da investigação da linguagem empregada, evidenciar de que forma este veículo se diferia dos demais quando se trata da clareza na transmissão da informação. O jornalismo econômico possui uma forma de abordagem muitas vezes incompreensível pelos leitores, sendo assim, com base na análise de Bundas, mostraremos o papel desse jornalismo para a sociedade e a importância de se tornar claro ao público leitor. Palavras-chave: Jornalismo Econômico. Imprensa Alternativa. Bundas e Acessibilidade. 1 6 2 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . ABSTRACT This article aims to analyze the content expressed in the weekly Bundas and show how this addressed the economic issues in Brazil in the period 1999-2001. Through this study, we will seek to understand how the printed addressed the economic issues and the language employed by evidence how the vehicle was differed from the others in the category accessibility. The economic journalism has a way of approach often incomprehensible by readers, so the analysis of Bundas show the role of that journalism to the society and the importance of it becoming available to the reading public. Keywords: Economic Journalism. Alternative Press. Bundas and Accessibility. B 1 Introdução: Histórico de Bundas e metodologia de estudo undas foi um meio de comunicação de veiculação semanal, em formato tabloide, criado por Ziraldo Alves Pinto, jornalista responsável pelo periódico. Entrou no mercado em 1999, período do segundo mandato FHC, sendo impresso no Rio de Janeiro pela editora Pererê Ltda., e circulou até fevereiro de 2001, com um total de 80 edições. O periódico se baseava numa crítica bem-humorada à ostentação de personalidades e famosos que semanalmente apareciam na revista Caras. O semanário foi feito sem grandes investimentos, e possuía um título que chamava a atenção do público leitor, causando espanto e curiosidade. Ziraldo e toda comissão editorial e de colaboradores do periódico, que trazia nomes como: Nani, Millôr, Luís Pimentel, Arthur Xexéo, Tutty Vasques, Chico Caruso, Paulo Caruso, Angel, Miguel Paiva, dentre uma série de nomes que envolviam não só o meio jornalístico como também o cultural brasileiro, tentaram mostrar que era possível o resgate dos sentimentos que impulsionaram a imprensa alternativa dos anos 70, já que os anos em que o impresso circulou foram marcados por crises econômicas e um aumento significativo do desemprego. Bundas se destaca nesse período por mostrar um lado da política que dificilmente era mostrado pelos grandes veículos impressos de informação, destacando a figura do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), de forma negativa e satirizada. O que chama a atenção no semanário, em um primeiro momento, é a forma como ele tratava a política de FHC: com diversas críticas, ataques e ironias. Apesar do semanário se mostrar como um veículo que estava no mercado apenas para detratar a figura do presidente, com imagens e palavras muitas vezes grosseiras, ele se apresenta como defensor da população, no que diz respeito aos problemas que esta 1 6 3 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 estava enfrentando no período. A partir de então, surge o interesse nas matérias que tratam de economia, pois o noticiário econômico em Bundas se apresentava, muitas vezes, como forma de denúncia em relação à política e ao governo vigente, devido à crise econômica vivida no período, graças ao salário baixo e ao desemprego, assuntos que, entre outros, apareciam constantemente no impresso, como veremos adiante. 2 Bundas: um meio alternativo de fazer informação Consideramos o impresso Bundas um veículo alternativo de informação, e a partir da análise de estudos sobre imprensa alternativa, baseada em autores consagrados na área, como Chinem (1995), Kucinski (2003), Abramo (1988) e Downing (2002), pudemos compreender como esta imprensa, fora dos padrões dos grandes meios impressos, praticava seu jornalismo e, partindo dos conceitos defendidos por esses autores, buscar uma nova definição para os alternativos da atualidade. Chinem (1995, p. 7-8) caracteriza essa imprensa, que se situa fora dos padrões dos grandes impressos, como independente, e ainda destaca: “O dicionarista Aurélio Buarque de Holanda acrescentou, na segunda edição de seu Novo Dicionário, a definição do termo ‘alternativo’ como algo que não está ligado aos interesses ou tendências políticas dominantes”. Segundo Abramo (1988), a imprensa alternativa buscava fazer um contraponto à imprensa burguesa, ela não tinha como intuito substitui-la, mas foi a forma encontrada de expor outros pontos de vista políticos e sociais através do meio impresso. A pauta dos alternativos tinha por base as notícias da grande imprensa, porém com novas análises e enfoque, fatores que de fato os diferia e os colocava em perspectivas diferentes. Nos estudos sobre imprensa ou mídia alternativa, também se destaca o trabalho de Downing (2002, p. 21), que caracteriza como mídia radical alternativa as diversas manifestações da comunicação de linha contra- hegemônica. Esta mídia é vista como uma forma de expressão alternativa às políticas, prioridades e perspectivas hegemônicas. Downing enfatiza em seu estudo as formas de expressão da mídia radical alternativa, tais como: danças, músicas, internet, jornais impressos, dentre outros. De forma geral, o conceito de mídia ou imprensa alternativa pode ser caracterizado como a prática de um jornalismo contestador ao sistema vigente. Todos os autores mencionados acima expõem seu ponto de vista ao termo alternativo, como uma manifestação contra-hegemônica, crítica às matérias dos grandes impressos e forma de resistência. Em suma, a imprensa alternativa se revela como uma forma de atuação, a fim de expor o que os grandes meios impressos muitas vezes não expõem; desta forma, 1 6 4 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . assuntos que são minimizados pela grande imprensa ganham espaço nos veículos alternativos, como veremos em Bundas. Quanto à abordagem referente ao jornalismo econômico, buscamos explicações, por meio da reflexão sobre autores como Basile (2002), Kucinski (1996), dentre outros estudiosos na área, para constatarmos que a informação econômica ainda é algo inacessível para a maioria da população. O jornalismo econômico é praticado por meio de muitos tecnicismos e com assuntos que, muitas vezes, não interessam ao público leitor. As notícias econômicas, como bem destaca Basile (2002 p.7), tornaram-se complexas e de difícil entendimento, fazendo com que se criasse no Brasil, “nos últimos anos, um mito segundo o qual as notícias de economia são chatas (sem que se especifique o que é chato)”. Ainda segundo Basile Se formos chatos, burocráticos, herméticos, os leitores simplesmente passarão ao largo de nossos textos. Se ao invés disso, formos rápidos, descritivos, atentos, competentes, emotivos e apaixonados em nosso texto, as pessoas certamente se voltarão para nós e o tipo de jornalismo que praticamos. (2002, p.113). As críticas feitas à linguagem, no jornalismo econômico nos grandes impressos, são claras, pois evidenciam que esta é complexa ao entendimento do público leitor, não o atraindo para buscar informação. Muitas vezes, esses problemas ocorrem porque o profissional voltado ao jornalismo econômico nem sempre é especializado, resultando na presença de especialistas na área, como economistas e sociólogos. (KUCINSKI, 1996). Assuntos sobre economia estão presentes diariamente em nossa vida, não apenas nos cadernos específicos de economia. Se a informação econômica vier com a clareza necessária ao entendimento do público leitor, será mais fácil entendermos por que determinados problemas, às vezes tão distantes da nossa realidade, por exemplo, afetam diretamente nosso bolso. Diante deste fato, vimos no alternativo Bundas um meio de informação, que buscou transmitir a informação econômica de maneira mais acessível. Enquanto tais fenômenos externos, em geografias distantes, ocorrem em profusão, sentimos que nosso destino é impactado das mais diversas maneiras. Uma grande empresa de energia quebra Estados Unidos e, subitamente, os empregos de sua subsidiária no Brasil começam a minguar. Árabes se organizam, episodicamente para fazer com que os preços do petróleo subam, cortando a produção e, pouco depois, você sente o peso dessa decisão quando vai encher o tanque do seu carro. (BASILE, 2002, p. 4). 1 6 5 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 3 A importância dos recursos gráficos Além de teorias que tratem de imprensa alternativa e jornalismo econômico, buscou-se compreender como os recursos imagéticos podem contribuir para a acessibilidade da informação. A partir de autores como Morin (1970) e Caruso (2007), dentre outros estudiosos da área, foi notado que os recursos gráficos, além de complementarem a informação, tornam-na atrativa ao leitor, muitas vezes estimulando-o à leitura do texto. O recurso humorístico frequentemente é utilizado nos impressos, como importante instrumento para atrair o público leitor. Para Morin (1970), o humor gráfico estaria em desenhos, acompanhados ou não de textos, que questionam as medidas do mundo, recusam a aparência das coisas e rompem com a fotogenia, virando pelo avesso as representações. A charge passou a ganhar um espaço significativo nos impressos, não só aqueles considerados alternativos, como também os da grande imprensa. A tese de doutorado defendida por Aragão trabalha com uma entrevista feita com o chargista Chico Caruso, que menciona a importância da charge nos jornais, e ainda comenta ser a televisão um ambiente fértil para difusão deste recurso: Onde tiver jornal, tem de ter charge. Como a televisão é uma coisa cada vez mais onipresente, então eu acho natural que a charge vá para a televisão também. Agora a gente tem de fazer ela avançar tanto em termos tecnológicos, quanto em termos de tempo também, nós temos de conquistar mais espaço, porque aquilo acabou sendo, como a charge na primeira página do Globo, meio um nicho, um gueto, que fica ali, entra, e tem ali aquele negócio, vinte segundos. Eu gosto quando você começa a poder imaginar um jornal só de charges com um textinho escrito… e eu acho que o jornal na TV podia ser isso, sei lá, só imagem, animação, meia hora de animação e cinco minutos para o speaker falar o que ele quiser. (CARUSO apud ARAGÃO, 2007, p. 118-119). As caricaturas, as charges e os cartuns fazem parte do humor gráfico, e surgem como forma de contestação através do riso. Bundas buscou, através dos recursos gráficos (charge, cartum e caricaturas), transmitir os seus assuntos e, através de imagens e humor, a informação econômica se mostrou muito mais atrativa. Juntamente com a análise do conteúdo do texto e da linguagem empregada, discutiremos a sua relação com a imagem e a maneira como ela foi construída para dar sentido ao texto. Através desta análise, será possível compreender o posicionamento de Bundas frente ao quadro político- 1 6 6 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . econômico do período, além de evidenciar a forma como este veículo buscou trazer uma linguagem mais acessível quando se trata de economia. Para que esta análise seja feita, criamos duas categorias: Salário e Desemprego, temas frequentes no semanário, totalizando 19 matérias do total de 14 edições. Por meio da análise da Linguagem, Imagem, do Espaço, das Fontes e dos Critérios de Noticiabilidade, buscaremos compreender o gênero jornalístico empreendido pelo semanário e sua construção textual, para ver de que forma Bundas elaborava as notícias. A análise do Espaço nas matérias terá como intuído perceber o espaço destinado à economia, podendo ela estar nas capas, no interior do semanário ou em diferentes seções. As Fontes utilizadas possibilitarão apreender o tipo de informação no qual os autores se basearam para escrever as notícias. E, por fim, serão analisados os Critérios de Noticiabilidade, ou seja, que elementos interferiram na produção da notícia como: circunstâncias históricas, políticas, econômicas ou sociais, os julgamentos pessoais do jornalista ao escrever a notícia, as limitações da empresa, dentre outros fatores que poderiam ter influenciado a produção da notícia. 4 O desemprego em Bundas Um dos temas mais encontrados no semanário é a questão da falta de emprego à população. O período em que Bundas circulou, segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), foi marcado por constantes crises econômicas, acarretando desemprego. Diante desse fato, criamos a categoria desemprego, que esteve em evidência em grande parte das edições de Bundas. Os anos 90 foram marcados principalmente pelo desemprego; nesse período, já vivíamos uma democracia, mas os brasileiros ainda enfrentavam uma economia difícil. Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil de 1995 a 2003, governou o País quando ainda vivíamos sob um período de inflação gerada pelos militares, e o Plano Real foi adotado como medida de contenção da inflação e como uma forma de inserir o Brasil no contexto neoliberal, como aponta Fiori [...] o Plano Real não foi concebido para eleger FHC; FHC é que foi concebido para viabilizar no Brasil a coalizão de poder capaz de dar sustentação e permanência ao programa de estabilização do FMI, e viabilidade política ao que falta ser feito das reformas preconizadas pelo Banco Mundial. (1997, p. 14). 1 6 7 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 De fato, o Plano Real foi capaz de conter a inflação, mas os prejuízos foram grandes ao trabalhador brasileiro. A população, a princípio, se beneficiou com a queda da inflação e o aumento do poder de compra, mas, em contrapartida, a queda dos preços dos produtos fez com que várias pessoas perdessem emprego, principalmente aquelas ligadas ao setor agrícola. Apesar de o governo FHC ter diminuído a inflação, a desaceleração da economia acarretou desemprego. Houve uma queda na produção devido às altas taxas de juros, aumentando as taxas de desemprego, além de haver uma diminuição do consumo e desestruturação do sistema produtivo, tanto na indústria quanto na agricultura, acarretando baixos índices de crescimento econômico. O desemprego no semanário foi algo largamente tratado, totalizando 10 matérias a esse respeito, sendo a forma de abordagem bem acessível ao público leitor. A edição de número 1 na coluna de Aloysio Biondi, por exemplo, traz o assunto crise econômica pontuando o desemprego como um dos efeitos da crise, e trabalha de forma a ironizar que foi apenas uma crise passageira, apontando taxas que indicam que a crise só estava a aumentando, ao contrário do que defendiam os assessores de FHC, ao dizerem que a crise era passageira. Os termos empregados (linguagem) e a forma como foi trabalhado o assunto é o que o difere dos grandes impressos. Na matéria mencionada, destaca-se a forma de abordagem do assunto, criando um personagem fictício Brasilino, para mostrar o que ele pensa sobre a crise. A criação deste personagem fez com que a situação econômica abordada se tornasse algo mais próximo da realidade do leitor, apresentando os problemas de forma mais clara ao entendimento deste, além de trazer ilustrações a respeito do assunto, descontraindo e atraindo o leitor para o tema. 1 6 8 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Figura 1 – Brasilino Fonte: Bundas, Edição 1, p. 25, 1999. A ironia ilustrada por Jaguar cita o presidente com a frase A CRISE PASSOU, complementada pela imagem de um homem machucado, como se tivesse sido atropelado, dizendo que a crise passou por cima dele. A matéria se baseia em notícias divulgadas na grande imprensa e nos depoimentos dos assessores do presidente, que sustentam a ideia de que a crise vivenciada naquele momento foi apenas algo passageiro, sem muita influência na vida da população. Mas Bundas rebate a afirmativa com dados que demonstram o aumento do número de desempregados, a queda das vendas de roupas, dentre outros setores. Figura 2 – Brasilino Fonte: Bundas, Edição 1, p. 25, 1999. 1 6 9 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 O espaço dedicado à matéria é de uma página, mas, apesar de longa, por se tratar de economia, a matéria é extremamente acessível ao entendimento do leitor, pois apresenta termos coloquiais como: tolice; abalozinho e brejo, e uma forma de abordagem bem descontraída do tema. Na mesma edição (número 1), na coluna: Nani Pinta... e Borda, do cartunista e chargista Nani, estão presentes várias charges para tratar do desemprego. Sempre de maneira bem-humorada, o desemprego e o salário são temas ironizados por Nani, a fim de mostrar que emprego era realmente algo muito difícil de conseguir naquele momento. Na coluna de Nani, dificilmente os textos são algo presentes, a seção se destaca por suas charges retratando os acontecimentos do período. Figura 3 – Coluna de Nani Fonte: Bundas, Edição1, p. 31, 1999. Na edição de número 4, também na coluna de Nani, é apresentada a questão do desemprego de forma mais superficial, destacando apenas que está cada vez mais presente na vida da população. De forma bem-humorada, ele apresenta o assunto com o intuito de chamar a atenção do público leitor para o problema presente, e mostra dois homens malvestidos conversando sobre o assunto. Apesar de não haver nenhum texto para discutir a questão, o assunto abordado é claro, pois atribui ao real, moeda adotada no período, o motivo de tanto desemprego. 1 7 0 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Figura 4 – Coluna de Nani Fonte: Bundas, Edição 4, p. 24, 1999. Outra edição que trouxe a temática foi a de número 27, com a seção de Nani novamente, mostrando a dificuldade de jovens recém-formados na busca por emprego: 1 7 1 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 Fonte: Bundas, Edição 27, p. 49, 1999. Figura 5 – Coluna de Nani Biondi, em sua seção para tratar de assuntos econômicos, também tratou sobre desemprego na edição de número 29. A matéria intitulada Ah, mas vai melhorar... retrata bem o empenho do governo de FHC em querer mostrar ao povo que tudo vai melhorar e que a crise seria apenas algo passageiro. A primeira edição de Bundas já havia abordado este assunto e esta matéria de Biondi veio enfatizar ainda mais esta questão, trabalhando o tema com mais profundidade. 1 7 2 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . O desemprego é apresentado nesta edição como algo localizado, afirmação de Pedro Malan, Ministro da Fazenda no período: “Acenando com o surgimento de novos polos industriais no Nordeste”. Notícias como essas, segundo Biondi, foram amplamente difundidas por grandes veículos da grande impressa, como Veja, fato que nos leva a pensar que Bundas estava abordando o assunto, com o intuito de desmascarar o noticiário divulgado nos grandes impressos, além de mostrar o assunto desemprego sobre outra perspectiva: a de algo constantemente vivenciado por grande parte do povo brasileiro, não apenas por uma pequena parcela da população, como defendido nos grandes impressos. A matéria também apresenta dados sobre o aumento do desemprego no País e suas consequências para a economia nacional, e esses não foram apenas apresentados, mas também discutidos, abordando o tema de forma que o leitor pudesse compreender a crise econômica enfrentada no período. O uso de termos coloquiais também está presente na matéria como: gargalhadas, rombo, deboche, Aahhhhh, dentre outros, tornando a informação menos densa. A matéria é acompanhada de uma ilustração de Cruz, que possivelmente retrata a carestia e a fome, graças à alta dos preços agrícolas e do desemprego, assuntos trabalhados na matéria. Figura 6 – Ilustração de Cruz Fonte: Bundas, Edição 29, p. 25, 2000. 1 7 3 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 A coluna Bundalelê frequentemente trazia assuntos sobre economia; a edição de número 52 foi para mostrar os índices de desemprego nos anos 80, comparado aos dos anos 90, mostrando ter havido um aumento de 5,4% para 5,7%. Outra, na mesma coluna, foi para tratar da diminuição da jornada de trabalho, pois FHC dizia ser a favor da diminuição, mas a negociação precisaria ser feita entre patrões e empregados, realidade comparada com a França, onde a diminuição se tornou lei. Na mesma nota, é mencionado o desemprego estrutural (que ocorre quando o número de desempregados é superior ao número de colaboradores que o mercado quer contratar, e esse excesso de oferta de trabalhadores não é temporário), dizendo estar o País passando por esse problema e, apesar disso, o governo não criar leis que favoreçam o trabalhador. Apesar de as notas não trazerem ilustrações e não partirem de recursos humorísticos para se transmitir a informação, elas se mostram claras ao leitor, pois não se baseiam em termos complexos, apenas apresentam alguns dados numéricos. As colunas em Bundas, que apresentam alguma nota sobre economia, objetivam fazer comparações ou propor pequenas discussões sobre o assunto, com o intuito de apresentar uma crítica e fazer o leitor pensar sobre o tema em questão. A imprensa tradicional, sempre quando possível, é mencionada, de forma a mostrar seu caráter manipulador e enganoso, como na nota a seguir, de Sader, sociólogo e cientista político: Figura 7 – Texto de Sader Fonte: Bundas, Edição 62, p. 7, 2000. 1 7 4 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Na nota exposta acima, novamente, a imprensa tradicional é mencionada e ainda referida como “imbecil”. É mostrado o motivo do aumento do prestígio de FHC, dizendo ser este relacionado ao que é divulgado pela imprensa. A nota é curta, mas é clara a colocação de Sader sobre o caráter manipulador da grande imprensa, mostrando que Bundas andava na contramão do que era divulgado por aqueles impressos. Na matéria da edição de número 64, o assunto discutido acima é trabalhado com mais profundidade, ocupando duas páginas. Sader contesta o fato de os índices econômicos não refletirem a realidade da maioria da população, mostrando apenas o crescimento de um pequeno grupo; um dado que provaria que o desemprego estava aumentando cada vez mais, e que os salários não se recuperavam. A matéria de Sader discute a situação econômica do Brasil, que é camuflada por índices que mostram apenas uma parte da economia nacional, retratando a economia de outros países e a popularidade dos presidentes FHC e de Clinton dos Estados Unidos (EUA), de forma a comparar as duas políticas econômicas exercidas. Os termos coloquiais também se mostram presentes nesta edição, como: idiota e afoito, além da ilustração de Lula ironizando o crescimento do Brasil comparado ao dos Estados Unidos. Figura 8 – “É o economicismo idiota!” Emir Sader Fonte: Bundas, Edição 64, p. 36, 2000. 1 7 5 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 Na edição de número 68, a coluna Bundalelê volta a abordar a questão do desemprego. Em letras garrafais, escreve: O DESEMPREGO ESTÁ CAINDO. No lombo de quem ainda tem um empreguinho, e mostra o quadro social do País, relatando que as pessoas estavam vivendo com menos de R$1,80 por dia. Os dados foram extraídos do jornal Folha de S. Paulo e complementados para mostrar que a situação não era boa, ironizando ser um belo quadro social. Fonte: Bundas, Edição 68, p. 7, 2000. Figura 10 – Coluna Bundalelê Figura 9 – Ilustração de Lula Fonte: Bundas, Edição 64, p. 36, 2000. Na mesma edição, é discutida a questão do desemprego tecnológico, que seria a substituição do homem pela máquina, ou seja, existe cada vez menos a necessidade de se contratar mão de obra humana, já que as máquinas exercem seu trabalho. A matéria contesta que seja esse o motivo das altas taxas de desemprego, dizendo que a tecnologia não manda ninguém embora: “A tecnologia, produto da experiência dos operários e da reflexão dos cientistas, diz apenas que se pode, digamos, fabricar o mesmo par de sapatos na metade do tempo.” 1 7 6 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Figura 11 – Texto de Sader F o n te : B u n d a s, E d iç ã o 6 8 , p . 1 2 , 1 3 . 2 0 0 0 . A imagem que a matéria traz ilustra a temática, mostrando um homem com uma perna mecânica chutando outro, representando a substituição do homem pela máquina. A solução é apontada a partir do caso francês sobre a diminuição da jornada de trabalho, sem reduzir os salários, socializando os benefícios da tecnologia, diminuindo a jornada de trabalho, combatendo o desemprego e aumentando o bem-estar de todos. Termos coloquiais também estão presentes na matéria como: cacete, manja, cai fora, homi, dentre outros. Esta matéria, além de apontar os problemas econômicos, com uma linguagem de fácil compreensão, aponta possíveis soluções. As matérias tradicionais sobre economia dificilmente usam o recurso comparativo, muito menos mostram possíveis soluções. Bundas frequentemente se valia deste recurso para tratar dos assuntos econômicos, aproximando a economia da realidade da população. De forma geral, os artigos, as notas e as charges, que buscaram tratar do desemprego no País, foram claras. Apesar de as charges não virem acompanhadas de nenhum texto para explicar de forma mais aberta o que foi ilustrado, lançaram temática ao leitor. Grande parte dos textos veio acompanhada de ilustrações, muitas vezes complementando as informações ali expressas, mas não foi encontrado 1 7 7 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 nenhum critério, no espaço em que essas matérias foram ocupadas. Por não haver nenhuma coluna fixa no semanário para tratar exclusivamente de economia, o tema desemprego esteve presente em várias seções, e a forma de abordagem, como já dito, foi através de textos ou simplesmente uma charge. Os critérios utilizados na seleção desta categoria se basearam, principalmente, no Impacto, mostrando constantemente os números expressivos de pessoas afetadas pelo desemprego, além do Governo abordando assuntos de interesse nacional, e decisões e medidas tomadas pelo governo, como o Plano Real, por exemplo. 5 O salário em Bundas A partir da adoção do Plano Real, o governo começa a apoiar as privatizações e exportações, com uma política econômica de juros altos, para atrair capital estrangeiro. A necessidade de acúmulo de dólar para formar a base monetária foi extremamente prejudicial à economia interna, pois limitou o crescimento por meio de altas taxas de juros, enfraquecendo a moeda nacional por meio da entrada de capitais estrangeiros. A valorização da moeda dependia da entrada de dólares no Brasil, por meio de investimentos estrangeiros; foi a partir deste momento que o governo começa a apoiar as privatizações e exportações, com uma política econômica de juros altos, para atrair capital estrangeiro. Desta forma, o País cada vez mais se afundava numa crise, acarretando a elevação da dívida externa, inviabilizando o aumento dos salários aos trabalhadores. Nove foram as matérias em seis edições que trataram desse tema; especificamente, o salário-mínimo foi o tema encontrado. A primeira edição a tratar deste assunto foi a de número 14. Sérgio Macedo tratou da questão salarial do povo brasileiro abordando as consequências do Plano Real para a população, como o aumento nas tarifas públicas, nos combustíveis, do desemprego e arrocho salarial. Depois de constatadas as informações com dados do Produto Interno Bruto (PIB), e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é iniciada a questão das reivindicações salariais e, através de uma análise crítica e comparativa, entre a situação da população com a dos parlamentares, a situação econômica vivida naquele período é apresentada de forma bastante acessível ao entendimento do leitor, não apresentando apenas números para se discutir economia. O foco da matéria foi mostrar que os parlamentares estavam reivindicando salários mais altos do que já tinham: 1 7 8 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Figura 12 – Coluna do Macedo F o n te : B u n d a s, E d iç ã o 1 4 , p . 2 4 , 1 9 9 9 . Macedo conclui com uma pergunta: Figura 13 – Coluna de Macedo Fonte: Bundas, Edição 14, p. 24, 1999. 1 7 9 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 O artigo de Macedo, além abordar o assunto de forma clara, nos mostra que os deputados além do alto salário que recebem, possuem diversos benefícios, que, quando comparados com o salário-mínimo, se torna um valor bem-expressivo. Macedo então contesta as reivindicações dos parlamentares em querer aumento salarial, uma vez que o salário-mínimo, no período, era de apenas R$136,00. A imagem de Aliedo ilustra o título da matéria: EM CAUSA PRÓPRIA, que é resumidamente explicada no final com a frase: “Ao nosso bolso, tudo; ao vosso reino, nada.” A matéria mostra, assim, que os políticos são mais beneficiados que os demais brasileiros. Figura 14 Fonte: Bundas, Edição 14, p. 24, 1999. Na edição 41 da seção Bundalelê, o tema salário-mínimo esteve presente em uma nota de Emir Sader e Sergio Augusto. Sader trata do aumento do mínimo para R$151,00 e ironiza a lei de responsabilidade fiscal, segundo a qual ninguém poderia gastar mais do que recebia. 1 8 0 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Fonte: Bundas, Edição 41, p. 43, 2000. Já a nota de Sergio Augusto critica o salário-mínimo dizendo ser este menor que o valor de uma cesta básica. Figura 16 – Nota de Sergio Augusto Figura 15 – Nota de Sader e Sergio Augusto Fonte: Bundas, Edição 41, p. 43, 2000. A edição de número 43 de Bundas também trouxe a coluna Bundalelê. MERRECA foi o título das duas notas de Sergio Martins; “merreca” foi como se caracterizou o salário-mínimo de R$151,00. A nota foi para mostrar a lucratividade que terão os banqueiros no final do mês, pois os caixas eletrônicos foram programados para permitirem o saque, apenas, de notas de R$50 e R$10, fazendo com que as pessoas que ganham essa quantia, em grande parte aposentados, deixem R$1, precisando de mais dez meses 1 8 1 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 para completar R$10 e sacar. Além disso, é apresentada a dificuldade de receber o dinheiro integral no guichê do caixa, ato considerado como sacanagem, e, consequentemente, representando dinheiro de graça para os banqueiros. Esta matéria não apenas faz uma crítica ao salário-mínimo, como também mostra algumas de suas consequências, favorecendo poucos grupos, como, no caso mencionado, os banqueiros. As notas são uma crítica ao salário e às ações dos bancos, acompanhadas de uma charge, que dá a entender que o salário-mínimo é uma merda! Figura 17 – Marreca I e II Fonte: Bundas Edição 43 p 45 2000 Fonte: Bundas, Edição 43, p. 45, 2000. 1 8 2 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Figura 18 – Ilustração de Marreca II Fonte: Bundas, Edição 43, p. 45, 2000. Os termos coloquiais aparecem com frequência nas notas mencionadas acima, o próprio título já apresenta a matéria de forma bem coloquial: MERRECA; além de o texto utilizar palavras como bagatela, pobre coitado, velhinho, sacanagens, e até o dito popular tirar doce de criança. Esses recursos acabam por tornar mais acessível o conteúdo, fazendo com que todos entendam o que está sendo transmitido. Na mesma seção da edição de número 43, Sergio Augusto sustenta a ideia de que o salário-mínimo, no ano 2000, comparado ao dos anos 40, é bem pior. Sergio menciona dados de um economista da Unicamp (Marcio Pochmann), que diz ser o salário-mínimo do ano 2000 equivalente a 26% do pago em 1940, e apresenta o depoimento de um aposentado de 84 anos, que, em entrevista a repórter do Jornal do Brasil, diz que o salário em 1940 era muito melhor: “Comíamos muito bem; eu pagava aluguel; todos andavam bem vestidos; íamos ao cinema; aos jogos de futebol. Passeávamos.” Esta pequena nota se baseou em dados coletados por um veículo da grande imprensa no período, e foi a única informação encontrada no semanário, que não se mostrou combativa aos dados apresentados pela grande imprensa, mas expõe o assunto sob uma nova abordagem, a de criticar negativamente o salário no período. Outra nota em Bundalelê, na edição 49, também fez uma crítica ao salário- mínimo, dizendo que é possível aumentá-lo para, pelo menos, R$180, considerado ainda como mísero, pois, se os parlamentares ganharam o direito de aumentar o salário para R$151, com um orçamento no valor de 1 8 3 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 5,8 bilhões, as despesas não aumentariam tanto, palavras do impresso. A nota objetivou também criticar o empenho do governo por uma melhoria salarial, pois, com tanta verba, ainda pouco se faz pelos trabalhadores. Bundalelê da edição de número 37 também trouxe o salário-mínimo como tema de uma de suas notas. O salário foi mencionado por Sergio Augusto, a fim de mostrar que o rombo que a Previdência sofria, naquele momento, não foi por conta do salário-mínimo, mas da sonegação das grandes empresas, que recolheram as contribuições de seus empregados e não a repassaram ao governo. A matéria conclui que, só em 1999, a sonegação chegou a R$12,5 bilhões, três vezes mais do que provocaria o aumento do mínimo para R$ 178. Ou seja, o semanário quis mostrar que muitas são as desculpas apresentadas para não se aumentar o salário. A nota também é acompanhada por uma charge sobre Antônio Carlos Magalhães, senador na época, que satirizava a iniciativa do político em aumentar os salários, deixando claro que a alta salarial não passava de uma lenda. Figura 19 – Bundalelê F o n te : B u n d a s, E d iç ã o 4 2 , p . 4 -5 , 2 0 0 0 . 1 8 4 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Na edição de número 42, o salário-mínimo é retratado em duas charges no editorial de Luís Fernando Veríssimo, mostrando a dificuldade de se sobreviver com um salário de R$151. Figura 20 – Charge de Luís Fernando Veríssimo Fonte: Bundas, Edição 42, p. 4-5, 2000. Os cartuns ilustram o que foi dito de maneira indireta no editorial, pois em nenhum momento a questão salarial é mencionada no mesmo. O que está sendo abordada é a corrupção e a falta de iniciativa do governo em melhorar a vida da população. O trecho abaixo, do editorial, ilustra bem essa situação, ou seja, o governo desvia nossa atenção enquanto o dinheiro é desviado e o salário-continua “mínimo”. Figura 21 – Parte do editorial Fonte: Bundas, Edição 42, p. 26, 2000. Fonte: Bundas, Edição 42, p. 26, 2000. 1 8 5 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 Ainda na edição 42, cartuns sobre o salário-mínimo (que teve um aumento para R$151) ilustram as suas consequências, do suposto ponto de vista de um agente de viagem; de um organizador de evento cultural, de um médico e de acionistas, de forma a ridicularizar que o salário, além de mal dar para sobreviver, ocasionaria o caos nos mais diversos segmentos da sociedade e nas suas diversas manifestações. Figura 22 – Salário-mínimo F o n te : B u n d a s, E d iç ã o 4 2 , p . 2 6 , 2 0 0 0 . Os acionistas dizem que haveria um consumismo desenfreado e irresponsável, uma ironia, pois, com R$151,00 mensais, dificilmente o consumo da população seria desenfreado, uma vez que os preços dos produtos naquele período eram cada vez mais altos. Já o médico fala de sua preocupação com uma educação alimentar inadequada, que levaria à obesidade, outra ironia, pois cada vez mais as pessoas precisavam regrar o que compravam para comer, devido à alta dos produtos alimentícios. O agente de viagens se preocupa com a destruição das belezas naturais já que, com o aumento do poder aquisitivo, mais pessoas viajariam e usufruiriam desses recursos, o que, evidentemente, é uma ironia diante do valor do salário-mínimo. E, por fim, há demonstração de uma instalação em um evento cultural, que, segundo o personagem, resgata a identidade do brasileiro enquanto povo (malvestido e na sarjeta pedindo esmola). 1 8 6 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . Desta forma, esses cartuns mostram, de maneira bem-humorada, a situação ruim que os brasileiros estavam vivendo naquele momento, devido à inflação e a um salário que não supria as necessidades básicas da população. Outro cartum, na mesma página, ilustra que o aumento do salário para R$151,00 não melhorou em nada a vida da população, retratando a ira e o descontentamento dos trabalhadores. Figura 23 – Salário-mínimo Fonte: Bundas, Edição 42, p. 26, 2000. 1 8 7 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 Grande parte das publicações nesta categoria veio acompanhada de ilustrações, e quase sempre na seção Bundalelê. Como vimos em outras edições, a seção Bundalelê não trazia apenas assuntos econômicos, pois buscava discutir diversos assuntos. O que chama a atenção é o fato de nenhuma edição tratar o assunto salário-mínimo com profundidade, já que grande parte do que foi encontrado no semanário foi por meio de notas e pequenas discussões. Desta forma, se o leitor buscasse saber um pouco mais sobre o assunto, ou os motivos que levaram o governo a instituir determinados valores salariais, Bundas não traria essas informações concentradas e analisadas em profundidade. Se, por um lado, isso dificulta a compreensão do assunto, por outro, pode servir para que os leitores não se esqueçam da gravidade envolvida no tema. Mas, de qualquer forma, o tema foi abordado, não com a devida expressividade, mas fez parte de um número considerável de edições. Esta categoria apresentou três critérios bem-evidentes para selecionar as suas notícias: Impacto (grandes quantias de dinheiro); Polêmica (controvérsia) e por fim o Governo (decisões e medidas). O primeiro deles, Impacto, foi utilizado para dar evidência, principalmente, à grande quantidade de verbas destinadas ao aumento salarial. A segunda foi utilizada para denotar as controvérsias de medidas e ações, como, por exemplo, as ações do EUA em buscar que sua população tenha menos desigualdades sociais, enquanto no Brasil as desigualdades só aumentavam. E, principalmente, na contestação, por parte dos parlamentares, ao reivindicarem seu aumento salarial, enquanto grande parte dos brasileiros ganhava apenas um salário-mínimo. Por fim, o Governo, em suas decisões e medidas que não favoreciam o trabalhador, inviabilizando o aumento salarial. 6 Considerações finais A nova imprensa alternativa se caracteriza, assim como os alternativos dos anos 70, por atuar estritamente do lado da esquerda e da crítica ao modelo capitalista, motivo pelo qual consideramos Bundas como um veículo alternativo. Mas, se antes havia censura, hoje, com a liberdade de imprensa, os assuntos podem ser livremente divulgados e discutidos, dando um novo caráter ao que chamamos de imprensa alternativa. É em meio à globalização e a uma política neoliberal que eclode uma nova forma de se fazer jornalismo. E, como bem explica Macedo, em seu artigo: 1 8 8 C a ro li n e G o n ç a lv e s T a v e ir a e M a x im il ia n o M a rt in V ic e n te • O j o rn a li sm o e c o n ô m ic o p o r m e io d a i m p re n sa a lt e rn a ti v a :. . [...] uma imprensa disposta a se opor e criticar o sistema vigente; a revelar o que a imprensa servil ao sistema e favorável ao status quo tratou de se distanciar, buscando uma outra alternativa de jornalismo e imprensa, tomando para si o princípio jornalístico de aflorar os conflitos e produzir alterações significativas na intenção de que “os comportamentos e as ações sociais, derivadas dos atos comunicativos do jornalismo, realimentasse o processo social, provocando transformações nos cenários da atualidade e da ordenação ética, política e moral da sociedade”, como disse o pesquisador Manuel Carlos Chaparro... (2012). Quando se trata da informação econômica, entendemos que esta precisa atender diversas classes e grupos e sociais, produzindo informação que não interesse apenas a empresários e pessoas engajadas no universo financeiro, mas que tenha por objetivo levar informação ao consumidor comum, como: estudante, trabalhador, donas de casa, dentre outros grupos considerados leigos, quando se trata de economia. Os assuntos econômicos precisam abordar, além de taxas e índices, temas que irão interferir na vida da população. Bundas trabalhou o assunto econômico de maneira bem-acessível ao publico leitor, como vimos anteriormente, e trouxe os principais problemas econômicos enfrentados pelo País e pela população, de forma a fazer do leitor um agente participativo do universo econômico, já que muitas vezes este se mostra distante de sua realidade. A grande função social do jornalismo é transmitir com veracidade os fatos que acontecem na sociedade, de forma clara, objetiva e precisa, que são os princípios básicos da linguagem jornalística. Somente seguindo essas características da linguagem é que se pode alcançar com sucesso a distribuição do conhecimento nas matérias de economia, aos mais variados tipos de público. O recurso humorístico foi o mecanismo utilizado pelo semanário para se tornar mais atrativo e assimilável, tornando a informação menos densa e fazendo do jornalismo econômico algo mais acessível ao leitor. O uso de termos coloquiais, de imagens e a abordagem de assuntos que interessam à grande parte da população fizeram de Bundas um veículo diferente dos grandes veículos impressos, mostrando que é possível abordar os assuntos econômicos sob uma nova perspectiva, a do humor. Mesmo que os assuntos econômicos não tenham sido o carro-chefe do impresso, esses se mostraram presentes em suas várias seções; e, mesmo sem possuir uma coluna fixa para tratar do assunto, Bundas buscou trazer a temática de forma crítica e atrativa. 1 8 9 C o n e x ã o – C o m u n ic a ç ã o e C u ltu ra , U C S , C a x ia s d o S u l – v . 1 3 , n . 2 6 , ju l./d e z . 2 0 1 4 Enquanto meio alternativo, Bundas usou todos os recursos disponíveis para fortalecer seu posicionamento crítico em relação à ordem vigente. Nesse sentido, o semanário resgatou uma trajetória consolidada de unir a crítica com a possibilidade de ter um meio alternativo de comunicação. O espaço ocupado pelos humoristas, chargistas e caricaturistas, alguns com passagens significativas na imprensa alternativa dos anos 70, permitiu imprimir um ritmo de contestação no jornalismo, num momento em que a comunicação de massa se tornava hegemônica. Bundas acabou sucumbido mercadologicamente, mas nem por isso não merece ser destacada como uma forma alternativa de entender mais criticamente a transição neoliberal, promovida nos anos 90, e por trazer a informação econômica de maneira tão acessível e atrativa. Referências ABRAMO, Perseu. Imprensa alternativa: alcance e limites. Revista Tempo e Presença, n. 233, ago. 1988. Boletim Periscópio Internacional. BASILE, Sidnei. Elementos do jornalismo econômico. Rio de Janeiro: Campus, 2002. CARUSO, C. Entrevista. In: ARAGÃO, O. A reconstrução gráfica de um candidato: como os chargistas perceberam a mudança de imagem de Luís Inácio Lula da Silva. 2007. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – UFRJ, Rio de Janeiro, 2007. CHINEM, Rivaldo. Imprensa alternativa: jornalismo de oposição e inovação. São Paulo: Ática, 1995. DOWNING, John D. H. Mídia radical: rebeldia nas comunicações e movimentos sociais. São Paulo: Senac, 2002. FIORI, José. L. Ajustes e milagres latino-americanos. In: _____. 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Número 37, 29 de fevereiro a 6 de março de 2000. Bundas. Número 41, 28 de março a 3 de abril de 2000. Bundas. Número 42, 4 a 10 de abril de 2000. Bundas. Número 43, 11 a 17 de abril de 2000. Bundas. Número 49, 23 a 29 de maio de 2000. Bundas. Número 52, 13 a 19 de junho de 2000. Bundas. Número 62, 22 de agosto de 2000. Bundas. Número 64, 5 de setembro de 2000. Bundas. Número 68, 3 de outubro de 2000.