UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FABIO HENRIQUE LEPRI BOSCHESI PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COM USO DAS TIC DECLARADAS POR PROFESSORES DE MATEMÁTICA DO ENSINO MÉDIO NO CONTEXTO DO NOVO CURRÍCULO DO ESTADO DE SÃO PAULO PRESIDENTE PRUDENTE 2016 FABIO HENRIQUE LEPRI BOSCHESI PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COM USO DAS TIC DECLARADAS POR PROFESSORES DE MATEMÁTICA DO ENSINO MÉDIO NO CONTEXTO DO NOVO CURRÍCULO DO ESTADO DE SÃO PAULO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Campus de Presidente Prudente /SP, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Educação. Orientadora: Profª. Drª. Maria Raquel Miotto Morelatti PRESIDENTE PRUDENTE 2016 FICHA CATALOGRÁFICA Boschesi, Fabio Henrique Lepri. B752p Práticas Pedagógicas com uso das TIC declaradas por Professores de Matemática do Ensino Médio no contexto do novo Currículo do Estado de São Paulo / Fabio Henrique Lepri Boschesi. - Presidente Prudente : [s.n], 2016 159 f. Orientador: Maria Raquel Miotto Morelatti Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Tecnologia Inclui bibliografia 1. Tecnologias da Informação e Comunicação. 2. Currículo de Matemática e suas Tecnologias. 3. Práticas Pedagógicas. I. Boschesi, Fabio Henrique Lepri. II. Morelatti, Maria Raquel Miotto. III. Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências e Tecnologia. IV. Título. DEDICATÓRIA Dedico este trabalho à minha Esposa Flávia e ao nosso Filho João Vitor, por todo amor, incentivo e compreensão. Estrelas-guia da minha vida! AGRADECIMENTOS A presente pesquisa, além de um sonho, representa uma realização profissional, cujo resultado é fruto da colaboração e incentivo de várias pessoas a quem dedico meus sinceros agradecimentos. A Deus, por guiar meus passos nesse percurso. Aos meus pais e familiares, pelo apoio, incentivo e compreensão pela minha ausência nesse período. À minha orientadora, Profª. Drª. Maria Raquel Miotto Morelatti, pela paciência, compreensão e, principalmente, por acreditar no meu potencial para realização deste trabalho. Gratidão eterna. À banca de Qualificação e Defesa, composta pelas professoras Prof.ª Dr.ª Leny Rodrigues Martins Teixeira e Prof.ª Dr.ª Sueli Liberatti Javaroni, pelas fundamentais contribuições nesta pesquisa. Aos meus amigos, que desde a adolescência quando ainda planejávamos sonhos para o futuro, com muito orgulho, hoje compartilho com vocês essa conquista. Aos meus amigos do mestrado, especialmente, Rudolph e Armando grandes amigos com quem aprendi muito nesse período. À Equipe da EE Joaquim Silvio Nogueira, por acreditar no meu trabalho e por não medirem esforços para que eu pudesse realizar todas as etapas deste curso. Aos professores participantes da pesquisa, grandes educadores, com quem pude conviver pouco, mas aprender muito. E, todos aqueles que contribuíram direta ou indiretamente para a realização desta pesquisa. RESUMO A presente pesquisa foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia, UNESP – Campus de Presidente Prudente, vinculada à linha de Pesquisa Processos Formativos, Ensino e Aprendizagem. Diante da implantação de uma nova organização curricular, proposta pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, que visa propor um novo Currículo para os níveis Ensino Fundamental II e Ensino Médio e as práticas pedagógicas realizadas por professores de Matemática do Ensino Médio com uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) surge o seguinte problema de pesquisa: como as TIC estão presentes no Currículo de Matemática, mais especificamente, nas Situações de Aprendizagem dos Cadernos do Professor e dos Cadernos do Aluno, e como os professores de Matemática do Ensino Médio relatam que estão desenvolvendo suas práticas com uso destes recursos na realidade da escola pública Estadual? Os dados foram coletados junto a 30 professores de Matemática da rede Estadual, com aulas atribuídas no Ensino Médio, pertencentes a uma Diretoria de Ensino do Interior de São Paulo. Os procedimentos metodológicos envolveram análise documental dos materiais que subsidiam o novo Currículo, aplicação de questionários e a realização de entrevistas com os professores. Os resultados da pesquisa mostram que os Cadernos do Professor e do Aluno pouco contribuem para que os professores integrem as TIC às suas práticas. A ausência de orientações para o desenvolvimento da aula e a sequência didática do material não favorece o uso das TIC como potencializadoras do processo de ensino e aprendizagem. Em relação ao uso das TIC pelos professores participantes, os resultados mostram que apesar das dificuldades enfrentadas, advindas da falta de formação específica e da ausência de orientações no material do Currículo, em suas aulas os professores estão superando a sequência didática sugerida. Sobre as condições de infraestrutura escolar para realização de aulas com uso destes recursos os resultados apontam que ainda há muitos desafios a serem superados. PALAVRAS-CHAVE: Tecnologias da Informação e Comunicação. Currículo de Matemática e suas Tecnologias. Práticas Pedagógicas. ABSTRACT This research was developed jointly to the Educational Post Graduation Program of the University of Science and Technology – UNESP – Presidente Prudente campus, entailed to the research line of Educational Processes, Teaching and Learning. In face of the implementation of a new curricular organization proposed by the Secretary of Education of São Paulo which aims proposing a new curriculum for Elementary school, cycle II and High School, besides the pedagogical practices performed by mathematics teachers of high school with the use of the Technologies of Information and Communication (TIC) has risen the following research issue: How are the TIC present in the curriculum of Mathematics, more specifically, at the Learning Situations of the Teachers and Students Textbooks, and how High School mathematics teachers report the way they are developing their practices with the use of such resources within the reality of Public State School? For data collecting we count on with the participation of 30 Mathematics teachers from State public schools, with assigned classes in High School levels, belonging to a Board of Education in the countryside of São Paulo. The methodological procedures involved documental analysis of the material that subsidizes the new Curriculum, questionnaire and interviews with teachers. The research results show that teachers and students textbooks do not present enough contribution for teachers to integrate the TIC to their practices. The lack of orientation for class planning and didactic sequence of the material does not enable the use of TIC as empower tools for the teaching and learning process. Regarding to the use of TIC by the participant teachers, the results show that even in face of difficulties, due to the lack of specific training and absence of material orientation in the curriculum, the teacher are overcoming the suggested didactic sequence in their classes. What concerns to school facilities for classes accomplishment with the uses of these resources, the results point that there are still a lot of challenges to be superseded. Key Words: Technologies of Information and Communication. Mathematics Curriculum and its Technologies. Pedagogical Practices. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Espiral da aprendizagem que ocorre na interação aprendiz-computador ....... 39 Figura 2: Quadro da Situação de Aprendizagem 1 da 1ª Série do Ensino Médio .......... 68 Figura 3: Ícones - Tipo de Seção dos Cadernos do Professor ........................................ 69 Figura 4: Distribuição dos professores por tempo de Magistério ................................... 76 Figura 5: Distribuição dos Professores Participantes com Pós-Graduação .................... 77 Figura 6: Situação de Aprendizagem 5, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 .............. 82 Figura 7: Situação de Aprendizagem 3, 1ª Série do Ensino Médio, Volume 2. ............. 84 Figura 8: Situaçãode Aprendizagem 3, 1ª Série do Ensino Médio, Volume 2. .............. 85 Figura 9: Situaçãode Aprendizagem 3, 1ª Série do Ensino Médio, Volume 2. .............. 86 Figura 10: Situaçãode Aprendizagem 3, 1ª Série do Ensino Médio, Volume 2. ............ 87 Figura 11: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 92 Figura 12: Situaçãode Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............. 93 Figura 13: Situaçãode Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............. 94 Figura 14: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 95 Figura 15: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 96 Figura 16: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 97 Figura 17: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 98 Figura 18: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 ............ 99 Figura 19: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 .......... 100 Figura 20: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 .......... 101 Figura 21: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 .......... 102 Figura 22: Situação de Aprendizagem 3, 2ª Série do Ensino Médio, Volume 1 .......... 103 Figura 23: Situaçãode Aprendizagem 1, 1ª Série do Ensino Médio, Volume 2. .......... 106 Figura 24: Número de computadores das Salas do Acessa Escola............................... 117 LISTA DE QUADROS Quadro 1: Perfil Profissional dos Professores, Formação Inicial e Continuada ............. 75 Quadro 2: Município onde atuam os Professores Participantes ..................................... 77 Quadro 3: Situações de Aprendizagem com indicação de uso das TIC ......................... 80 Quadro 4: Natureza das atividades com indicação de uso das TIC ................................ 83 Quadro 5: Objetivo da Atividade.................................................................................... 90 Quadro 6: Pesquisas selecionadas no levantamento realizado no Banco de Teses da Capes ............................................................................................................................ 137 Quadro 7: Pesquisas selecionadas no levantamento no Repositório Institucional UNESP ...................................................................................................................................... 139 Quadro 8: 1ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP – Volume 1 ......................... 141 Quadro 9: 1ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP –Volume 2 .......................... 143 Quadro 10: 2ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP –Volume 1 ........................ 145 Quadro 11: 2ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP –Volume 2 ........................ 147 Quadro 12: 3ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP –Volume 1 ........................ 149 Quadro 13: 3ª Série do Ensino Médio – Material SEE/SP –Volume 2 ........................ 151 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Modalidades de uso do computador ............................................................. 107 Tabela 2: Domínio de uso de softwares para explorar conteúdos matemáticos ........... 108 Tabela 3: Formação específica para o uso das TIC ...................................................... 108 Tabela 4: As TIC presentes nos cursos de formação .................................................... 109 Tabela 5: As TIC utilizadas pelos 19 professores em suas aulas ................................. 110 LISTA DE SIGLAS CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior DCNEM – Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio EM – Educação Matemática ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio ETI – Escola de Tempo Integral FUNDAP – Fundação do Desenvolvimento Administrativo IDESP – Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo LDBEN - Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional PCNEM – Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino PCNP – Professor Coordenador do Núcleo Pedagógico PEBII - Professor de Educação Básica II PED– Programa Estadual de Desestatização SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica SARESP– Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo SBEM – Sociedade Brasileira de Educação Matemática SEE/SP – Secretaria de Estado de Educação de São Paulo TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 13 2 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA COM USO DAS TIC ......................................................................................................................... 22 2.1 Apropriação das TIC pelos Professores de Matemática ........................................... 25 2.1.1 Onde os professores aprendem usar as TIC? ......................................................... 28 2.2 Abordagens Pedagógicas de uso das TIC ................................................................. 32 3 REFLEXÕES SOBRE CURRÍCULO ........................................................................ 41 3.1 O que é Currículo? .................................................................................................... 41 3.2 Reforma curricular do Estado de São Paulo e o novo Currículo Oficial .................. 45 3.3 Apresentação do Currículo de Matemática e suas Tecnologias ............................... 48 3.4 A constituição da Matemática como uma área do conhecimento específica no Currículo do Estado de São Paulo: breve histórico ........................................................ 52 3.5 Currículo de Matemática: Ensino Fundamental (Ciclo II) e Ensino Médio ............. 54 4 METODOLOGIA ........................................................................................................ 60 4.1 Objetivo Geral .......................................................................................................... 61 4.2 Objetivos Específicos ............................................................................................... 61 4.3 Procedimentos e Instrumentos de coleta dos dados.................................................. 62 4.3.1 Aproximação dos professores participantes .......................................................... 62 4.3.2 Primeira fase da coleta dos dados: Análise dos Cadernos do Professor ................ 65 4.3.3 Segunda fase da coleta dos dados: Aplicação do questionário .............................. 69 4.3.4 Terceira fase da coleta dos dados: Entrevista ........................................................ 71 4.4 Procedimentos de análise dos dados ......................................................................... 72 4.5 Perfil dos Professores de Matemática ....................................................................... 75 5 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COM USO DAS TIC: ORIENTAÇÕES E AÇÕES ENVOLVIDAS NESSE PROCESSO ............................................................................ 78 5.1 Cadernos do Professor de Matemática para o Ensino Médio e as TIC .................... 78 5.1.1 Categoria 1: Natureza da atividade proposta segundo a organização do material do Currículo. ........................................................................................................................ 82 5.1.2 Categoria 2: Orientações Técnicas e Pedagógicas fornecidas pelo material ao professor para desenvolvimento da atividade com uso das TIC. ................................... 88 5.1.3 Categoria 3: Objetivo da atividade proposta com uso das TIC e as possibilidades para a construção de novos conhecimentos. ................................................................... 90 5.1.4 Categoria 4: A atividade favorece a interação: professor x aluno e/ou aluno x aluno ............................................................................................................................. 105 5.2 Apropriação e uso das TIC pelos Professores de Matemática: os obstáculos do caminho ........................................................................................................................ 106 5.3 A realidade das escolas dos professores participantes ............................................ 115 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 124 REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 130 ANEXO 1: Quadro de Conteúdos do Ensino Médio .................................................... 134 APÊNDICE 1 – Levantamento de Teses e Dissertações .............................................. 137 APÊNDICE 2 – Análises dos Cadernos do Professor .................................................. 141 APÊNDICE 3 – Modelo de Questionário .................................................................... 153 APÊNDICE 4 – Roteiro da Entrevista Semiestruturada .............................................. 158 13 1 INTRODUÇÃO Ao longo de todo o período de escolarização, a Matemática sempre foi a minha disciplina do Currículo escolar favorita. A cada ano que avançava na escola, desde as séries iniciais do Ensino Fundamental até a conclusão do ensino médio, o gosto pelo aprendizado desta ciência foi sempre crescente. Nessa trajetória escolar, houve momentos de dificuldades na aprendizagem da Matemática, como comumente acontece com qualquer aluno ao construir seu conhecimento sobre determinada ciência, porém a interação com bons professores contribuiu para a superação dos desafios que a Matemática apresenta na resolução de situações problema. Outra área em que mostrei desde cedo muito interesse pelo aprendizado foi a informática. Quando ainda cursava a 8ª Série do Ensino Fundamental, no ano de 1998, ocorreu o primeiro contato com o computador em um curso de computação básica. A partir desse momento, mesmo sem possuir computador pessoal, o apreço pelo uso dos recursos da informática nas atividades pessoais e, posteriormente, profissionais se fortaleceu e persiste até hoje. O gosto pela informática tomou tamanha proporção que a minha primeira opção de carreira profissional escolhida foi a área da computação. Porém, as dificuldades em ingressar em um curso desta área em uma universidade pública forçaram a procura por outra opção de graduação. Durante a terceira série do Ensino Médio, ao participar de uma Orientação Vocacional, oferecida pela escola pública em que estudava, o resultado do teste apontou como possibilidades de carreira profissional a área das ciências exatas, em cursos como Computação, Matemática e Física. Além destes cursos, o teste revelou também a habilidade de comunicação e expressão que poderiam favorecer atividades profissionais como o magistério. Três anos após a conclusão do Ensino Médio e sem ter iniciado um curso superior, as orientações fornecidas pelo teste vocacional continuavam a fazer parte das reflexões do pesquisador sobre a escolha da carreira profissional. Motivado pelos resultados do teste e pela oportunidade de fazer um curso superior de Licenciatura em uma instituição de ensino superior particular com bolsa de estudos integral, decidi, então, pelo curso de Licenciatura em Matemática. A escolha pelo curso representou a 14 possibilidade de ingressar no ensino superior e, também, de dar continuidade aos estudos em uma área na qual eu tinha facilidade na aprendizagem. Inicialmente, não tinha a pretensão de seguir a carreira de professor de Matemática, mas a partir da proposta de trabalho que condicionava a obtenção da bolsa de estudos integral pelo Programa Escola da Família 1 , o contato com a escola foi inevitável. O Programa Escola da Família foi criado em 2003 pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – SEE/SP. Nele os educadores universitários, como são chamados os beneficiados pela bolsa de estudos integral, desenvolvem atividades do Programa junto às Escolas Públicas Estaduais, sendo a jornada de trabalho de 16 horas – 8 horas cumpridas no sábado e 8 horas no domingo. Atualmente, o programa passou por reformulações e os educadores universitários têm que cumprir apenas 8 horas, no sábado ou no domingo, de acordo com as necessidades do programa. Durante a permanência no Programa Escola da Família e concomitantemente cursando Licenciatura em Matemática, desenvolvi dois projetos voltados para a área da Educação: aulas de reforço para alunos com dificuldades de aprendizagem em Matemática e aulas de informática básica para a comunidade do município. A convivência, aos finais de semana, no ambiente escolar com os demais profissionais envolvidos no programa e a experiência adquirida com a realização dos dois projetos foram decisivos para a escolha da carreira de professor de Matemática após o término da graduação. Após a conclusão do curso, em 2008, tive a oportunidade de atuar como docente na rede pública do Estado de São Paulo como Professor de Educação Básica em uma Escola de Tempo Integral – ETI. As ETI foram instituídas a partir do ano de 2006. As escolas selecionadas para fazer parte deste projeto passaram a funcionar em dois turnos – manhã e tarde – e com carga horária semanal de 45 aulas. Tal carga horária era composta por uma parte referente ao ensino regular, ou seja, pelo Currículo básico do Ensino Fundamental II; e outra parte em que eram desenvolvidas oficinas. Dentre as oficinas oferecidas pela ETI, fui selecionado para ministrar aulas de Informática Educacional. Ainda em 2008, além de ministrar aulas na Oficina de Informática Educacional na Escola de Tempo Integral, consegui ampliar minha jornada de trabalho como 1 Disponível em: . Acesso em: 15/07/2014. 15 professor em outra escola da rede estadual, ministrando aulas de Matemática no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio. Em seguida, permaneci por três anos ministrando aulas nestas mesmas escolas sob o regime de contratação de professor temporário na categoria Ocupante de Função Atividade – OFA. Após a aprovação em concurso público para o cargo de Professor de Educação Básica – PEB II –, realizado em 2010, ingressei como Professor Efetivo de Matemática na rede pública estadual de São Paulo no ano de 2011, firmando-se a escolha pela profissão docente. Neste mesmo ano, ingressei também como professor da rede pública de Ensino Médio Técnico no Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, ministrando aulas de Matemática em cursos técnicos. A Matemática e as Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC – estiveram muito presentes ao longo de toda a minha trajetória escolar e de formação profissional. Nesse contexto, tornou-se crescente o desejo de aliar o ensino da Matemática com o uso das TIC. Pelas experiências que a escola proporcionou no início de minha atuação como professor, passei a questionar-me sobre a forma como poderia fazer essa união, pois não se tratava apenas de uma vontade de incluir as tecnologias como mais um recurso, mas proporcionar aos alunos a possibilidade de potencializar suas aprendizagens em Matemática através do uso das tecnologias. Desse momento em diante, passei a refletir sobre minha formação para o uso das TIC no ensino da Matemática obtida no curso de licenciatura. O meu sentimento de despreparo para o trabalho com as TIC, do ponto de vista da ação pedagógica que se pretendia alcançar, revelou que a licenciatura não ofereceu uma formação adequada nesse aspecto, mesmo tendo cursado disciplinas de informática e de práticas pedagógicas que abordaram essa temática no curso de licenciatura. O ano de 2008 demarca o início da minha carreira como professor de Matemática e, nesse mesmo ano, na rede pública estadual de ensino do Estado de São Paulo iniciou-se uma nova organização curricular. Nesse ano SEE/SP começou a implantação de um projeto com o objetivo de propor um novo Currículo para os níveis Ensino Fundamental II e Ensino Médio, o que constituía uma proposta curricular e buscava também desenvolver uma base comum de conhecimentos e competências entre as escolas que compõem a rede estadual de ensino. Em 2010, a Proposta Curricular, como foi intitulada inicialmente, concretiza-se como Currículo Oficial. Para a implementação do Currículo, a SEE/SP elaborou e 16 distribuiu às escolas um conjunto de documentos e materiais de apoio tanto para os gestores quanto para os professores. Diante das inquietações sobre a atuação dos professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas com uso das TIC, considerando desde aspectos relacionados ao planejamento da aula, a formação do professor para o uso da tecnologia e as condições da escola, passei a interessar-me por estudos que abordam a maneira como os professores de Matemática utilizam as tecnologias e organizam as Situações de Aprendizagem, pois estes elementos podem contribuir para a o desenvolvimento de práticas pedagógicas que levem os alunos a uma aprendizagem significativa. Pensada para o contexto escolar como um sistema de referência para a organização do ensino a Teoria da Aprendizagem Significativa foi desenvolvida pelo pesquisador norte-americano David Paul Ausubel (1963-2008) em um período de predominância do pensamento behaviorista. A ―aprendizagem significativa é um processo através do qual uma nova informação relaciona-se com um aspecto relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo‖ (MOREIRA, 1985, p.128). Assim, para que ela ocorra é necessário que a nova informação interaja com os conhecimentos prévios que o indivíduo possui em sua estrutura cognitiva, ou seja, ―a aprendizagem significativa ocorre quando a nova informação ancora-se em conceitos relevantes preexistentes na estrutura cognitiva do aprendiz‖ (MOREIRA, 1985, p. 128). Nesse contexto defendemos que o uso das TIC no ensino da Matemática pode levar o aluno a aprendizagem significativa dos conceitos matemáticos, pois na interação com as TIC o aluno deve ―acessar‖ seus conhecimentos prévios para desenvolver estratégias para resolver um problema e refletir sobre o resultado obtido. Além disso, com as possibilidades de reflexão sobre esse resultado que os recursos associados às TIC oferecem é possível reiniciar o processo ao verificar que a solução encontrada não está correta. Assim, o professor como mediador do processo de ensino e aprendizagem, deve criar condições para que o aluno vivencie essas experiências e, portanto, que o professor seja capaz de integrar as TIC a sua prática pedagógica, para além do uso destes recursos apenas para informatizar os métodos tradicionais de ensino. A minha experiência como professor da rede pública estadual revelou, ainda, outros desafios no planejamento de aulas com o uso das TIC, dentre eles pode-se destacar: o acesso à sala de informática, as condições de uso dos equipamentos disponíveis, o número de alunos por classe, o número de computadores na sala de 17 informática, o apoio e incentivo da Equipe Gestora para que o professor possa desenvolver suas aulas no laboratório de informática, etc. Ao ingressar no Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia – FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente, no ano de 2013, surgiu a possibilidade de investigar como as TIC estão sendo utilizadas pelos professores de atemática. Os caminhos percorridos para a realização desta pesquisa têm como ponto de partida a identificação da produção acadêmica relacionada à temática que abordamos neste estudo, ou seja, a identificação da abordagem de uso das TIC no ensino, revelada pelas práticas pedagógicas dos professores de Matemática, e a influência do novo Currículo de Matemática para o Ensino Médio do Estado de São Paulo sobre o trabalho do professor. Para tanto, selecionamos como fonte de pesquisa o Banco de Testes da Capes 2 , determinamos o período para busca os trabalhos produzidos de 2008 a 2012 e utilizamos, para a realização das buscas de dissertações e teses, os seguintes descritores: ―Proposta Curricular do Estado de São Paulo‖, ―Currículo de Matemática São Paulo‖, ―TIC e Matemática‖, ―Computador e Matemática‖, ―Informática e Matemática‖ e ―Prática Pedagógica Matemática e TIC‖. Com os descritores que utilizamos nas buscas foram selecionadas 43 pesquisas em nível de Mestrado e Doutorado. Apresentamos em apêndice (Apêndice 1) o quadro com os resultados, no qual os dados foram organizados de acordo com o ano da pesquisa, a instituição de realização, o autor e área do conhecimento abordada. Nas teses e dissertações selecionadas buscamos, ainda, através da leitura dos resumos, identificar naquelas relacionadas a Currículo se havia relação com as TIC, e, naquelas relacionadas às TIC e Matemática se havia relação com o novo Currículo do Estado de São Paulo. Para o descritor ―Proposta Curricular do Estado de São Paulo‖ foram selecionadas 30 pesquisas, das quais 14 são da área de Matemática e 16 são e outras áreas do conhecimento ou não apresentaram no resumo do trabalho a área. Das 14 pesquisas da área de Matemática, 3 abordam o Currículo Oficial de Matemática do Estado de São Paulo e o uso das TIC no ensino de conteúdos matemáticos, as demais em sua maioria tratam questões relacionadas aos impactos da implantação no novo Currículo no trabalho do professor. 2 Disponível em: http://bancodeteses.capes.gov.br/. Acesso em: 10/07/2013. 18 Para o descritor ―Currículo de Matemática São Paulo‖ foi selecionada 1 pesquisa que analisou as percepções dos professores de Matemática do 6º Ano sobre o processo de implantação do novo Currículo, porém a pesquisa não apresenta nenhuma relação com o uso das TIC. Para os demais descritores relacionados às TIC foram selecionadas 12 pesquisas da área de Matemática, porém nenhuma apresentou relação com o novo Currículo Oficial de Matemática de São Paulo. A maioria das pesquisas aborda o uso das TIC no ensino de conteúdos matemáticos e possibilidades de formação do professor para o uso das TIC. A partir da análise do panorama da produção acadêmica em relação aos temas ―novo Currículo do Estado de São Paulo‖ e ―uso das TIC no ensino da Matemática‖ identificamos a possibilidade de investigar as práticas dos professores de Matemática com uso das TIC após a implantação do novo Currículo, pois no levantamento realizado nenhuma pesquisa investigou esta questão. A partir disso determinamos o problema de pesquisa que orientou a definição do objetivo geral, e para respondê-lo foram estabelecidos os objetivos específicos. No segundo semestre do ano de 2015, atualizamos o levantamento de teses e dissertações, consultando o Banco da Capes e o Repositório Institucional da UNESP. Utilizando os mesmos descritores anteriores selecionamos mais 30 pesquisas da área de Matemática, as quais algumas estão relacionadas ao uso das TIC, porém nenhuma delas abordou o problema que investigamos nesta pesquisa. Os resultados desse levantamento estão disponíveis em apêndice (Apêndice 1). Portanto, no contexto da implantação do novo Currículo de Matemática no Estado de São Paulo delimitamos como problema de pesquisa: Como as TIC estão presentes no Currículo de Matemática, mais especificamente nas Situações de Aprendizagem dos Cadernos do Professor e dos Cadernos do Aluno, e como os professores de Matemática do Ensino Médio relatam que estão desenvolvendo suas práticas com uso destes recursos na realidade da escola pública estadual. Para investigar tal problemática, alguns questionamentos foram pertinentes para a estruturação da pesquisa: 1. Quais as dificuldades do professor para integrar as TIC em sua prática pedagógica e atender as orientações do Currículo para a formação dos alunos? 2. Que tipo de uso o professor faz das TIC em suas aulas? 19 3. Quais as condições que o professor vivencia ao integrar as TIC em sua prática pedagógica, considerando aspectos de formação deste professor e recursos materiais disponíveis, na realidade da escola pública do estado de São Paulo? Partindo das orientações presentes nos dispositivos legais da Educação brasileira, em especial a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional – LDBEN (BRASIL, 1996) que estabelece a educação tecnológica básica como uma diretriz para orientar o Currículo do Ensino Médio, delimitou-se como foco da investigação as práticas pedagógicas de professores de Matemática do Ensino Médio, assim como a análise do material do Currículo Oficial deste segmento. Conforme o artigo 36 da LDBEN (BRASIL, 1996): Art. 36º. O Currículo do ensino médio observará o disposto na Seção I deste Capítulo e as seguintes diretrizes: I - destacará a educação tecnológica básica, a compreensão do significado da ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania; Reconhecemos a importância do uso das TIC pelos professores ao longo de toda a vida escolar dos alunos, porém delimitamos nosso estudo ao curso do Ensino Médio por ser a fase final da escolarização e, em consonância com os objetivos desta etapa da educação básica, a apropriação do uso destes recursos pelos alunos se justifica pela necessidade de preparação dos mesmos para dar sequência aos estudos no ensino superior ou para ingresso no mercado de trabalho e, principalmente, para o exercício pleno da cidadania, sendo estes cenários moldados atualmente pela presença das TIC. Para compreensão das relações entre educação e tecnologia no Currículo de Matemática e suas Tecnologias, e reafirmando as orientações da LDBEN (1996), o uso destes recursos comparece no documento com duas finalidades complementares: ―a) como educação tecnológica básica; e, b) como compreensão dos fundamentos científicos e tecnológicos da produção‖ (SÃO PAULO, 2012). Nesse sentido, a tecnologia é vista como a chave para relacionar os conteúdos do Currículo da educação básica ao mundo da produção de bens e serviços (SÃO PAULO, 2008). A presença das TIC no novo Currículo visa, por um lado, o desenvolvimento de competências que capacitem os jovens para o enfrentamento da nova sociedade em que estão inseridos, e, por outro lado, como possibilidades de melhoria dos processos de 20 ensino e aprendizagem na medida em que os professores as integram às suas práticas pedagógicas. No entanto, é sabido que o uso das TIC pelos professores com as finalidades enunciadas anteriormente ainda está longe do que se espera alcançar. Em tal contexto, ganha destaque o papel que o professor desempenha nesse novo cenário moldado pela presença das TIC, pois o modelo de professor da chamada ―educação bancária‖ (FREIRE, 1983), cuja principal função é a de transmitir o conhecimento aos alunos, não se justifica nos dias atuais. A sociedade atual exige que o professor seja o mediador do processo de construção do conhecimento, gerando novas formas de ver o processo de ensino e aprendizagem. A esse respeito ganha ênfase a justificativa da pesquisa, pois espera-se compreender as dificuldades que os professores de Matemática da rede pública de ensino enfrentam para integrar as TIC em suas práticas pedagógicas, assim como, busca-se observar o quanto tais práticas se aproximam da abordagem Construcionista. Quanto à relevância social, é propósito do pesquisador que este trabalho seja um instrumento de informação e orientação para professores em exercício na rede e para os futuros professores que se encontram em formação inicial nos cursos de Licenciatura em Matemática, motivados a desenvolver suas práticas pedagógicas com o uso destes recursos. Para favorecer a compreensão da forma como a pesquisa foi organizada, este trabalho está dividido nos seguintes capítulos: No capítulo “Práticas Pedagógicas de Professores de Matemática com uso das TIC” será abordada a tendência em Educação Matemática de uso das Tecnologias no Ensino, bem como a importância da formação do professor para o uso adequado das TIC e as abordagens pedagógicas de uso das TIC no ensino, especialmente, a abordagem Construcionista que pode contribuir efetivamente para a aprendizagem dos alunos nas aulas propostas com uso destes recursos. Para tanto, foram utilizadas as contribuições dos teóricos: Fiorentini e Lorenzatto (2012), Pais (2007), Gomes (2002), Ponte (1998, 2014), Fürkotter e Morelatti (2007, 2008), Penteado e Borba (2000), Gatti (2008), Valente (1993, 2002) e Papert (1985). No capítulo Reflexões sobre Currículo, serão apresentados apontamentos relevantes no campo de estudo sobre Currículo com base nas contribuições de teóricos como: Doll (1997), Fonseca (2008), Goodson (1995, 1997, 2007), Moreira (2001), Oliveira (2008) Pires (2004) e Cação (2010). 21 No capítulo Metodologia, serão apresentados o objetivo geral, os objetivos específicos, os instrumentos utilizados para coleta e análise dos dados e o contexto em que desenvolvemos nossa pesquisa. Por fim, no capítulo Práticas Pedagógicas com uso das TIC: orientações e ações envolvidas nesse processo apresentamos os resultados de pesquisa interpretados à luz do referencial teórico que embasa nosso estudo. 22 2 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA COM USO DAS TIC Os resultados do rendimento escolar apresentados pelos alunos da Educação Básica, especialmente na área de Matemática, revelados pelos indicadores nacionais e estaduais que qualificam este nível de escolarização, apontam para a necessidade de profundas reflexões por parte dos professores que ensinam Matemática e pesquisadores da área da Educação Matemática – EM – sobre possíveis caminhos que levem à mudança deste precário cenário educacional. Não queremos dizer que os profissionais da educação não estejam engajados na busca por melhores resultados, porém estes mostram-se preocupantes do ponto de vista da formação adequada que a escola deve oferecer aos alunos para que, após a conclusão do Ensino Médio, eles sejam capazes de dar sequência aos estudos no Ensino Superior ou estejam preparados para ingressar no mercado de trabalho. Nesse cenário o professor, ou melhor, as práticas pedagógicas que os professores desenvolvem em sala de aula representam uma possibilidade de melhoria dos processos de ensino e aprendizagem que, consequentemente, podem gerar melhores resultados na formação dos alunos ao final da escolarização básica. A Formação Inicial e Continuada são, entre outros, importantes fatores que condicionam a atuação dos professores em suas práticas cotidianas, além disso, a produção acadêmica na área da EM disponível aos professores apresenta um vasto e diferenciado leque de opções sobre abordagens metodológicas para o trabalho em sala de aula no ensino de conteúdos matemáticos, porém é sabido que essas pesquisas não chegam tão facilmente ao conhecimento dos professores da Educação Básica. A partir da formalização da EM no Brasil como campo de estudo e pesquisa específico, em 1988 com a fundação da Sociedade Brasileira de Educação Matemática – SBEM – e o surgimento dos primeiros programas de pós-graduação, ampliaram-se as pesquisas na área, assim como a divulgação dos resultados à comunidade de pesquisadores e professores de Matemática. Segundo Fioretini e Lorenzato (2012, p.5) a Educação Matemática trata-se de: (...) uma área de conhecimento das ciências sociais humanas, que estuda o ensino e a aprendizagem da Matemática. De modo geral, poderíamos dizer que a EM caracteriza-se como uma práxis que envolve o domínio do conteúdo específico (a Matemática) e o domínio de ideias e processos pedagógicos relativos à transmissão/assimilação e/ou à 23 apropriação/construção do saber matemático escolar. Entretanto, sendo a prática educativa determinada pela prática social mais ampla, ela atende a determinadas finalidades humanas e aspirações sociais concretas. Assim, podemos conceber a EM como resultante das múltiplas relações que se estabelecem entre o específico e o pedagógico num contexto constituído de dimensões histórico-epistemológicas, psicocognitivas, histórico-culturais e sociopolíticas. Pela definição de EM de Fiorentini e Lorenzato (2012) nota-se que os estudos produzidos nesta área não se restringem exclusivamente ao conteúdo específico da Matemática, mas, principalmente, dos processos envolvidos no ensino e na aprendizagem, ou seja, das relações que se estabelecem entre o conteúdo matemático e a processos pedagógicos no ensino e na aprendizagem desta ciência, que interagem, além da Matemática, outras áreas do conhecimento. A esse respeito Fiorentini e Lorenzato (2012, p.12) explicam que: A preferência pelo uso do termo ―educação Matemática‖ é atribuída ao fato de que este tem uma conotação mais abrangente, podendo significar tanto um fenômeno ou uma atividade educacional – que visa à formação integral do cidadão – quanto uma área multidisciplinar de conhecimento – em que a Matemática é uma disciplina entre outras, tais como a psicologia, a filosofia, a história, a epistemologia, a antropologia, a sociologia, a pedagogia, a linguística. Em relação aos objetivos da EM, Fiorentini e Lorenzato (2012, p.10) apresentam dois, sendo eles de diferentes abordagens: ―Um, de natureza pragmática, que tem em vista a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem de Matemática; Outro, de cunho científico, que tem em vista ao desenvolvimento da EM como campo de investigação e de produção de conhecimentos.‖ Como base nos objetivos da EM os trabalhos e pesquisas produzidos nesta área se apresentam aos professores de Matemática como opções metodológicas, a literatura especializada as denomina como Tendências em Educação Matemática. Assim, acreditamos que estas tendências podem, em certa medida, influenciar a prática dos professores que ensinam Matemática. Segundo Pais (2007, p. 65-66): A expansão da Educação Matemática, nas últimas décadas, revela avanços que não devem ser esquecidos. O aumento no número de cursos de pós- graduação redimensionou o panorama existente na década de 1980. A facilidade de acesso aos textos especializados, como acontece hoje, praticamente, não existia até pouco tempo. Essa facilidade expande as condições de levantar dados de pesquisa motivar a concepção de novas práticas. 24 Nesse sentido, consideramos que os estudos produzidos na área da EM podem subsidiar o planejamento das aulas dos professores de Matemática e, portanto, favorecer o desenvolvimento de práticas pedagógicas que podem contribuir para a melhoria da formação oferecida nas escolas públicas, em relação ao saber matemático escolar. Nesta pesquisa, quando nos referimos às tendências em EM, estamos falando das tendências produzidas pelos estudos dos educadores matemáticos, pois há outro grupo de tendências baseado em teorias pedagógicas. Kilpatrick (1994) classificou as pesquisas na área da EM em sete eixos temáticos:  Processos de ensino/aprendizagem de Matemática;  Mudanças curriculares;  Emprego de novas tecnologias no ensino de Matemática;  Prática docente;  Desenvolvimento profissional (de professores);  Práticas de avaliação;  Contexto sócio-cultural e político do ensino/aprendizagem de Matemática. A partir destes eixos e/ou linhas de pesquisa da EM destacam-se como atuais tendências:  Etnomatemática;  Modelagem Matemática;  Tecnologias no Ensino da Matemática;  Didática da Matemática Francesa;  Educação Matemática Crítica;  Escrita na Matemática;  Educação Matemática e Interdisciplinaridade;  História no Ensino da Matemática;  Resolução de Problemas. O incentivo ao desenvolvimento de novas práticas pedagógicas busca superar o ensino baseado na visão clássica, ainda muito presente nas escolas e na formação inicial do professor. De acordo com Pais (2007, p.67) ―a prática usual inspirada nessa visão caracteriza-se por atividades concebidas e implementadas, quase somente, em torno dos conteúdos conceituais.‖ Sobre as perspectivas atuais de mudança Pais (2007, p.68) afirma que ―de modo geral, há sinais de mudanças no cenário amplo da educação 25 Matemática, como mostram alguns livros didáticos atuais, onde os conteúdos são usados como instrumento para resolver problemas, ao invés de serem tratados apenas como objeto de estudo‖. Embora reconheçamos o valor de todas as Tendências em EM citadas anteriormente, em nosso estudo, nos deteremos à linha de pesquisa de Tecnologias no Ensino da Matemática, por se tratar do foco de investigação desta pesquisa. Assim, na seção seguinte, abordaremos a formação do professor de Matemática para o uso das TIC e as abordagens pedagógicas de uso das TIC no ensino, elementos estes que nortearam as análises das práticas pedagógicas com uso das TIC dos professores de Matemática participantes da pesquisa. 2.1 Apropriação das TIC pelos Professores de Matemática ―Por que, atualmente, o professor de Matemática deve utilizar as TIC?‖ Iniciamos esta seção com esse questionamento para justificar a necessidade dos professores buscarem por esta aprendizagem e, para respondê-lo recorremos a alguns estudiosos da área de Formação de Professores. Para Perrenoud (2000) saber utilizar as tecnologias está entre as “Dez novas competências para ensinar” que o professor deve desenvolver. Para Bittar (2011, p.158) ―diversas investigações realizadas nos últimos trinta anos mostram que a tecnologia pode contribuir de diferentes modos com o processo de ensino e aprendizagem da Matemática‖. Ao analisar as perspectivas atuais de formação do professor de Matemática Ponte (2014) destaca, entre outros, como elementos-chave desse processo as ―Tecnologias e o uso de recursos‖. Segundo Ponte (2014, p.353): As tecnologias de informação e comunicação têm vindo a revolucionar os modos de trabalho de todas as áreas profissionais e até o nosso dia-a-dia. Elas constituem uma ferramenta poderosíssima hoje em dia à disposição da escola e dos professores proporcionando um manancial de possibilidades para a prática profissional do professor na sala de aula, permitindo-lhe definir novos objetivos para a aprendizagem dos alunos e novos modos de trabalho na sala de aula. Fürkotter e Morellati (2008) afirmam que: 26 O professor deve ser capaz de integrá-las à sua prática docente, e isto exige que ele conheça suas diferentes formas de uso em educação. As novas tecnologias devem favorecer não só a busca e a troca de informações, mas também possibilitar a criação de ambientes de aprendizagem nos quais os alunos possam pesquisar, fazer simulações, experimentar, conjecturar, testar hipóteses, relacionar, representar, comunicar e argumentar (FÜRKOTTER e MORELLATI, 2008, p.53). De maneira geral, as TIC se inseriram e transformaram todos os setores da sociedade e com a escola não foi diferente, elas possibilitaram o surgimento de novas formas de ensinar e aprender colocando o professor no centro desta discussão, no entanto é sabido que nem todas as escolas da rede pública podem ser incluídas nessa nova realidade. Além disso, elas revelam o grande contraste entre as tradicionais práticas pedagógicas e as novas expectativas e buscas por melhorias nos resultados em relação a novas práticas, especialmente, as que aliam o uso das TIC ao processo de ensino e aprendizagem. Portanto, a reflexão acerca da renovação das práticas pedagógicas tradicionais por novas práticas com uso das TIC, que atendam às demandas da escola contemporânea, deve abranger vários aspectos: infraestrutura física das escolas, os recursos disponíveis, a gestão escolar, as políticas públicas, a formação dos professores e, principalmente, o uso que os professores fazem das tecnologias no processo de ensino e aprendizagem. Ainda que não se possa explicitar detalhadamente a importância de todos os aspectos anteriormente citados, o uso que o professor faz das tecnologias em sua prática é imprescindível para a construção de um eficiente processo de aprendizagem. No entanto, quando nos referimos ao uso das TIC pelos professores de Matemática não estamos considerando, como adequado, qualquer tipo de uso, pois, concordando com Bittar (2011), as TIC contribuem para a aprendizagem dos alunos quando elas são integradas à prática pedagógica do professor, o que é diferente de inserir o uso das tecnologias na realização de atividades já executadas, por exemplo, com lápis e papel. Nesse sentido, de acordo com Coll et al. (2010), [...] não é nas TIC nem nas suas características próprias e específicas que se deve procurar as chaves para compreender e avaliar o impacto das TIC sobre a educação escolar, incluído o efeito sobre os resultados da aprendizagem, mas nas atividades que desenvolvem professores e estudantes graças às possibilidades de comunicação, troca de informação e conhecimento, acesso e processamento de informação que estas tecnologias oferecem (COLL et al., 2010, p.70). 27 O acesso que os alunos têm ao grande fluxo de informações, possibilitado pelas TIC, traz em si um novo desafio ao trabalho do professor, que tem de preparar os estudantes para que eles sejam capazes de utilizar estas informações como ferramenta para a produção de novos conhecimentos. Quando falamos em propostas criativas e transformadoras, contudo, não estamos nos referindo apenas aos modos como se utilizam as TIC; para além disso, esse tipo de proposta compreende uma postura diferente diante das concepções sobre ensino-aprendizagem (GOMES, 2002, p. 123). Portanto, essas práticas pedagógicas, que contam com a presença das TIC, requerem novas posturas por parte professor e, além disso, elas exigem o rompimento de muitos paradigmas pertencentes às práticas pedagógicas tradicionais. Quando nos referimos às práticas pedagógicas com TIC não estamos falando de qualquer forma de uso destas ferramentas pelos professores, mas de um uso que contribua para o processo de ensino e aprendizagem e, principalmente, que possibilite ao aluno a construção de seu conhecimento. Nesse sentido Bittar (2011) em seu estudo sobre a apropriação da tecnologia pelo professor de Matemática e seu uso em sua prática, faz uma interessante observação entre os termos inserir e integrar as tecnologias à prática pedagógica. Para Bittar (2011) quando o professor insere um novo instrumento em sua prática, nesse caso as TIC, ―significa fazer uso desse instrumento sem que ele provoque a aprendizagem, usando-o em situações desconectadas do trabalho em sala de aula‖ (BITTAR, 2011, p.159). E, argumenta ainda, que este instrumento não está em consonância com as ações do professor. Quando o professor integra um novo instrumento em sua prática pedagógica, referindo-se as tecnologias, (...) significa que ele passa a fazer parte do arsenal de que o professor dispõe para atingir seus objetivos. Implica em fazer uso do instrumento de forma que este contribua para o processo de aprendizagem do aluno, que lhe permita compreender, ter acesso, explorar diferentes aspectos do saber em cena. (...), a tecnologia deve ser usada com fins de permitir ao aluno ter acesso a propriedades ou a aspectos de um conceito; ou ainda a atividades Matemáticas diferentes daquelas habitualmente tratadas no ambiente papel e lápis (BITTAR, 2011, p.159). Concordando com a distinção dos termos inserir e integrar de Bittar (2011) passamos, deste ponto em diante do texto, a usar o termo integrar para nos referir à forma adequada do professor se apropriar das TIC e, assim, fazer uso dos recursos a elas 28 associados em sua prática pedagógica. Além da apropriação adequada das TIC pelos professores de Matemática, defendemos, ainda, como já mencionamos anteriormente, que esta apropriação deve ser acompanhada de uma abordagem pedagógica de uso que contribua para o processo de aprendizagem do aluno, que discutiremos mais adiante. 2.1.1 Onde os professores aprendem usar as TIC? Pelo exposto nota-se que são muitas e promissoras as possibilidades que as TIC oferecem aos professores de Matemática, o que justifica a necessidade da integração destas às práticas pedagógicas. Entre as possibilidades destacam-se: o desenvolvimento de novas práticas, melhorias nos resultados da aprendizagem dos alunos e a superação das tradicionais práticas que não atendem as demandas atuais. Portanto, com base nas afirmações de Perrenoud (2000), Bittar (2011), Ponte (2014) e Fürkotter e Morellati (2008), retomando a questão central desta seção, podemos dizer que a Formação Inicial e a Continuada constituem-se como possibilidades de formação do professor para integração das TIC em sua prática pedagógica. Nesse contexto a forma como os professores fazem uso das TIC apresenta estreita relação com os meios pelos quais estes professores são formados nesse aspecto, tanto para a apropriação do uso técnico destas tecnologias, quanto, e principalmente, para o uso pedagógico das TIC no ensino. Sobre formação para o uso das TIC Penteado e Borba (2000) esclarecem que: A formação na área de informática educativa é mais do que simplesmente proporcionar aos professores o contato com a tecnologia. É preciso que esta seja explorada no contexto de atuação docente. Se considerarmos um professor de Matemática, é preciso que ele conheça softwares a serem utilizados no ensino de diferentes tópicos e que seja capaz de reorganizar a seqüência de conteúdos e metodologias apropriadas para o trabalho com a tecnologia informática em uso (PENTEADO E BORBA, 2000, p.24). O argumento de Penteado e Borba (2000) reforça a ideia de que o domínio técnico das TIC não é suficiente para que o professor desenvolva novas práticas, para alcançar esse objetivo ganha ênfase o uso pedagógico destas na ação docente. Segundo Bittar (2011), em sua experiência com Formação de Professores Inicial e Continuada, o conhecimento do software e algum domínio do computador não são 29 suficientes para que o professor transforme sua prática pedagógica. ―Ou seja, na maioria das vezes em que um software de Matemática é usado com os alunos não se trata de uma situação que provoque mudanças com relação ao saber‖ (BITTAR, 2011, p.159). Sobre a presença da TIC na formação inicial do professor de Matemática Fürkotter e Morellati (2008) observam que ―são restritas as alternativas metodológicas utilizadas que criam condições facilitadoras e garantem a aprendizagem, desenvolvendo um processo dinâmico de ensino e aprendizagem que utiliza as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC)‖ (FÜRKOTTER e MORELLATI, 2008, p.53). Além disso, segundo as mesmas autoras, nas disciplinas em que o computador é utilizado não ocorrem mudanças significativas nas práticas pedagógicas, sendo o papel das tecnologias apenas de dar um ―ar de modernidade‖ ao curso (FÜRKOTTER e MORELLATI, 2008). Portanto, em relação à presença das TIC na Formação Inicial, consideramos relevante a articulação das tecnologias nas diversas disciplinas do curso como forma de colocar o professor em contato com estes recursos e levá-lo a refletir sobre as possibilidades de integrá-los à sua prática futura, ou seja, o uso pedagógico das TIC. Esse contato com as TIC na Formação Inicial pode favorecer a formação do professor em dois aspectos: na formação técnica, pois muitos alunos não possuem domínio algum em informática quando ingressam no curso de graduação; E, na formação para o uso adequado das TIC no ensino. A esse respeito Fürkotter e Morellati (2008) afirmam que: As oportunidades em que o futuro professor tem de identificar diferentes concepções de ensino e aprendizagem e de vivenciar o uso das TIC durante todo o processo de formação podem fundamentar suas ações e levá-lo a utilizá-las de forma inovadora (FÜRKOTTER e MORELLATI, 2008, p.62). Outra possibilidade de formação do professor para uso das TIC em sua prática de pedagógica é através da Formação Continuada. As propostas de Formação Continuada de Professores tem se ampliado consideravelmente nos últimos anos, tal movimento encontra-se relacionado à ―precariedade em que se encontram os cursos de Formação de Professores em nível de graduação‖ (GATTI, 2008, p.58). De acordo com Gatti (2008, p.57) ―nos últimos dez anos, cresceu geometricamente o número de iniciativas colocadas sob o grande guarda- chuva do termo ―Educação Continuada‖‖. 30 Os estudos e pesquisas nesse campo indicam que não há uma definição ―fechada‖ para o termo, segundo Gatti (2008, p.57) ―as discussões sobre o conceito de educação continuada nos estudos educacionais não ajudam a precisar o conceito, e talvez isso não seja mesmo importante, aberto que fica ao curso da história‖, porém explica que esse conceito ora se restringe o significado da expressão aos limites de cursos estruturados e formalizados oferecidos após a graduação, ou após ingresso no exercício do magistério, ora ele é tomado de modo amplo e genérico, como compreendendo qualquer tipo de atividade que venha a contribuir para o desempenho profissional – horas de trabalho coletivo na escola, reuniões pedagógicas, trocas cotidianas com os pares, participação na gestão escolar, congressos, seminários, cursos de diversas naturezas e formatos, oferecidos pelas Secretarias de Educação ou outras instituições para pessoal em exercício nos sistemas de ensino, relações profissionais virtuais, processos diversos a distância (vídeo ou teleconferências, cursos via internet etc.), grupos de sensibilização profissional, enfim, tudo que possa oferecer ocasião de informação, reflexão, discussão e trocas que favoreçam o aprimoramento profissional, em qualquer de seus ângulos, em qualquer situação. Uma vastidão de possibilidades dentro do rótulo de educação continuada (GATTI, 2008, p.57). Espera-se que os cursos de Formação Continuada propiciem ao professor o aprofundamento ou ampliação de seus conhecimentos, porém ao analisar as Políticas Públicas para Formação Continuada no Brasil, no ano de 2008, Gatti (2008) identificou nas iniciativas públicas de formação outro caráter. Muitas das iniciativas públicas de formação continuada no setor educacional adquiriram, então, a feição de programas compensatórios e não propriamente de atualização e aprofundamento em avanços do conhecimento, sendo realizados com a finalidade de suprir aspectos da má-formação anterior, alterando o propósito inicial dessa educação – posto nas discussões internacionais –, que seria o aprimoramento de profissionais nos avanços, renovações e inovações de suas áreas, dando sustentação à sua criatividade pessoal e à de grupos profissionais, em função dos rearranjos nas produções científicas, técnicas e culturais (GATTI, 2008, p.58). Em face às grandes carências da Formação Inicial, a Formação Continuada do Professor de Matemática apresenta-se como uma possibilidade de superação destas, em especial sobre a base de conhecimentos pedagógicos imprescindíveis ao fazer docente, pois ―a concepção de formação de professores vigente na maioria dos cursos de licenciatura, ainda hoje, tem um caráter de complementação à formação profissional‖ (FÜRKOTTER e MORELLATI, 2007, p.320), sendo a ênfase do curso dada aos conteúdos específicos e pequena parcela dedicada às disciplinas pedagógicas, 31 configurando uma dicotomia entre o saber disciplinar e o saber pedagógico (SHULMAN, 1986). Nesse sentido Fiorentini e Lorenzato (2012) apontam uma importante diferença entre o olhar do matemático e do educador matemático, que nos leva a refletir sobre a importância dos conhecimentos pedagógicos na formação do professor de Matemática, não diminuindo, sobretudo, a importância dos conhecimentos específicos. Segundo Fiorentini e Lorenzato (2012, p.3-4): O matemático, por exemplo, tende a conceber a Matemática como um fim em si mesma, e, quando requerido a atuar na formação de professores de Matemática, tende a promover uma educação para a Matemática priorizando os conteúdos formais dela e uma prática voltada à formação de novos pesquisadores em Matemática. O educador matemático, em contrapartida, tende a conceber a Matemática como um instrumento importante à formação intelectual e social de crianças, jovens e adultos e também do professor de Matemática do ensino fundamental e médio e, por isso, tenta promover uma educação pela Matemática. Nesse sentido concebemos a Formação do Professor de Matemática – Inicial e Continuada – como um processo que leva o professor ao desenvolvimento profissional. Nesse sentido quando assinalamos a necessidade do professor integrar as TIC à sua prática pedagógica, entendemos que ao fazer isso ele estará se desenvolvendo e, também, atendendo às demandas atuais que a sociedade impõe à escola. Segundo Ponte (1998, p.2): A formação pode ser perspectivada de modo a favorecer o desenvolvimento profissional do professor, do mesmo modo que pode, através do seu ―Currículo escondido‖, contribuir para lhe reduzir a criatividade, a autoconfiança, a autonomia e o sentido de responsabilidade profissional. O professor que se quer desenvolver plenamente tem toda a vantagem em tirar partido das oportunidades de formação que correspondam às suas necessidades e objectivos. Assim, ao pensarmos o aproveitamento dos professores nos cursos oferecidos para formação para o uso das TIC no ensino, concordamos com Ponte (1998) que estes podem desencadear nos professores o desenvolvimento profissional, quando estes passam a repensar suas práticas e integram a elas tais recursos. Por outro lado, se o professor não se formar adequadamente nesse aspecto, suas práticas com uso das TIC tornam-se, apenas, a ―informatização dos métodos tradicionais de ensino‖ (VALENTE, 32 1993, p.32). A opção por um ou outro modelo depende, como mencionado por Ponte (1998), das necessidades e objetivos do professor. Segundo Ponte (2014, p.346): Os conceitos de formação e desenvolvimento profissional podem ser vistos como traduzindo movimentos opostos (Ponte 1998). Assim, a formação representa um movimento de ―fora para dentro‖, do curso e do formador para o formando, enquanto o desenvolvimento profissional constitui um movimento de ―dentro para fora‖, do professor em formação para o ambiente onde está inserido. (...) No entanto, mais do que opor formação e desenvolvimento profissional, o importante é saber como combinar ambos os processos. Reconhece-se que o desenvolvimento profissional pode envolver uma combinação de processos formais e informais e, por isso, a formação pode ser encarada de modo a favorecer este desenvolvimento, sem se subordinar a uma lógica de transmissão de conhecimento. Identificar as potencialidades das TIC no processo de ensino e aprendizagem e modos de usá-las de forma produtiva que podem ser incluídos nos cursos de Formação de Professores – Inicial e Continuada – são, hoje, temas atuais de investigação nessa área (Ponte, 2014). Assim, referindo-nos, agora, às abordagens pedagógicas de uso das TIC, acreditamos que a abordagem Construcionista (PAPERT, 1985; VALENTE, 1993) pode favorecer a integração das TIC às práticas pedagógicas dos professores de Matemática. Na seção seguinte apresentamos detalhadamente essa abordagem. 2.2 Abordagens Pedagógicas de uso das TIC A possibilidade de uso das TIC na educação, em especial o computador, trouxe consigo grandes expectativas quanto às possibilidades de melhoria nos resultados do rendimento escolar e quanto à abertura a novas práticas que favoreçam a aprendizagem dos alunos. Segundo Gomes (2002, p.121): A escola, como parte da sociedade, precisa estar preparada para acompanhar e participar das transformações em curso pela introdução dos recursos informáticos e comunicacionais cada vez mais numerosos e velozes que passam a integrar o dia a dia dos cidadãos. 33 A esse respeito, nota-se que tão importante quanto a garantia de acesso a estas tecnologias é o uso que os professores fazem das TIC ao integrá-las em suas práticas pedagógicas, já que a simples inserção das TIC (BITTAR, 2011) sem a devida análise do papel que elas desempenham na construção do conhecimento pelo aluno, bem como do papel que o professor desempenha nesse processo de construção do conhecimento não conduz à mudança das tradicionais práticas pedagógicas. Sobre esse assunto, Gomes (2002, p.121) ainda salienta que ―a utilização de novos recursos comunicacionais e informáticos não deve ser encarada como mais uma novidade, mas como uma possibilidade para que alunos e professores assumam o papel de sujeitos críticos e construtores de seu próprio conhecimento‖. Para Valente (1993, p.06): A mudança da função do computador como meio educacional acontece juntamente com um questionamento da função da escola e do papel do professor. A verdadeira função do aparato educacional não deve ser a de ensinar mas sim a de criar condições de aprendizagem. Isto significa que o professor deve deixar de ser o repassador do conhecimento - o computador pode fazer isto e o faz muito mais eficientemente do que o professor - e passar a ser o criador de ambientes de aprendizagem e o facilitador do processo de desenvolvimento intelectual do aluno. Frequentemente, professores incluem as TIC em suas práticas sem que haja nenhuma inovação no processo de ensino e aprendizagem, pois eles apenas transpassam suas tradicionais práticas para a sua execução através dos recursos tecnológicos, como, por exemplo, a digitação de textos utilizando um software de edição de textos — situação que substitui a produção de um texto com simples materiais como papel, lápis e borracha. Portanto, a forma como os professores utilizam as tecnologias e organizam as situações de aprendizagem é que define o grau de transformação e melhoria no processo de ensino e aprendizagem. De acordo com Gomes (2002) o uso do computador e dos recursos das TIC a ele associados podem ocorrer de duas maneiras: 1. para tornar mais fáceis as rotinas de ensinar e aprender; nesse caso o computador estaria sendo empregado como máquina de ensinar e repetindo os mesmos esquemas do ensino tradicional; 2. como organizador de ambientes de aprendizagem em que os alunos são encorajados a resolver situações-problema e o professor é capaz de identificar e respeitar o estilo de pensamento de cada um, ao mesmo tempo em que os convida a refletirem sobre o seu pensar (pensamento reflexivo); neste caso o ensino estará sendo inovador (GOMES, 2002, p. 123). 34 Além disso, de acordo com Gomes (2002, p. 120), ―somente a utilização dos recursos das tecnologias da informação e comunicação pela escola não garante mudanças na qualidade da educação. É necessário repensar os paradigmas existentes para a adoção de novas práticas educativas‖. Os argumentos de Gomes (2002) traduzem as duas abordagens pedagógicas de uso das TIC, sendo elas, respectivamente, instrucionista e construcionista. De acordo com o primeiro argumento de Gomes (2002) a abordagem pedagógica de uso das TIC descrita é a instrucionista. Essa abordagem ―pressupõe que a aprendizagem melhora/aumenta com o aperfeiçoamento do ensino‖ (GOMES, 2002, p.127). Nessa abordagem, o computador é inserido na escola como mais um recurso disponível, como já ocorreu com outros recursos audiovisuais – TV e vídeo, por exemplo. Não há reflexão sobre como o computador pode contribuir para modificar e criar ambientes de aprendizagem e novas formas de apropriar-se do conhecimento (GOMES, 2002, p. 127). Os estudos do desenvolvimento dessa concepção de uso do computador apontam como início do processo a invenção de uma máquina de corrigir testes de múltipla escolha por Sidney Pressey, em 1924. Em 1950 Burrhus Frederic Skinner propõe uma máquina de ensinar baseada na instrução programada. A instrução programada consiste em dividir o material a ser ensinado em pequenos segmentos logicamente encadeados e denominados módulos. Cada fato ou conceito é apresentado em módulos seqüenciais. Cada módulo termina com uma questão que o aluno deve responder preenchendo espaços em branco ou escolhendo a resposta certa entre diversas alternativas apresentadas. O estudante deve ler o fato ou conceito e é imediatamente questionado. Se a resposta está correta o aluno pode passar para o próximo módulo. Se a resposta é errada, a resposta certa pode ser fornecida pelo programa ou, o aluno é convidado a rever módulos anteriores ou, ainda, a realizar outros módulos, cujo objetivo é remediar o processo de ensino (VALENTE, 1993, p.4). Ao longo da década de 50 e início da década de 60, do século passado, a instrução programada foi muito utilizada. Com o advento dos computadores, apesar do acesso aos mesmos nessa época ser restrito, verificou-se que os módulos do material instrucional poderiam ser apresentados com mais flexibilidade. Nesse momento nasce a instrução auxiliada por computador – Computer Aided Instruction – conhecida como CAI. Durante a década de 60 o governo americano investiu fortemente na produção de 35 CAI com o objetivo de revolucionar a educação. Somente na década de 80, com os microcomputadores, que o CAI chega às escolas americanas. O CAI representa a primeira forma de uso do computador na educação, porém nesse modelo não se verificou inovações nos tradicionais métodos de ensino, nas palavras de Valente (1993, p.32) ―o uso do computador como máquina de ensinar consiste na informatização dos métodos de ensino tradicionais‖. Já o segundo argumento de Gomes (2002) descreve a abordagem pedagógica de uso das TIC que julgamos adequada a ser utilizada pelos professores de Matemática no desenvolvimento de suas aulas, a Construcionista (Papert, 1985; Valente, 1993). Segundo o Gomes (2002, p.127): No modelo construcionista, a construção de novos conhecimentos ocorre num processo cíclico que pressupõe descrição – execução – reflexão – depuração (Valente, 1993, 1999; Almeida, 2000) de ideias, na busca da solução de uma situação-problema desafiadora, cujo conteúdo seja significativo para quem aprende (GOMES, 2002, p. 127). Nessa abordagem de uso das tecnologias no ensino Valente entende o uso do computador como ferramenta educacional. ―Segundo esta modalidade o computador não é mais o instrumento que ensina o aluno, mas a ferramenta com a qual o aluno desenvolve algo, e, portanto, o aprendizado ocorre pelo fato de estar executando uma tarefa por intermédio do computador‖ (VALENTE, 1993, p.12). Sobre o papel do professor e do aluno na abordagem Construcionista, Fürkotter e Morelatti (2008) apontam que: Ao contrário da abordagem tradicional, em que o professor assume o papel de ―transmissor‖ de informações e o aluno fica passivo no processo de aprendizagem, em um ambiente construcionista, o professor age como facilitador mediador da aprendizagem, respeitando o ritmo e o estilo de cada aluno. Nesta abordagem, o aluno constrói o seu conhecimento sobre determinado assunto por meio da resolução de um problema ou desenvolvimento de um projeto significativo (do interesse do aluno) e contextualizado (vinculado à realidade do aluno), em um trabalho compartilhado e colaborativo. Nesse sentido, é a vertente considerada inovadora por Gomes (2002) (FÜRKOTTER e MORELATI, 2008, p.58). O modelo de ensino pela abordagem construcionista foi definido por Seymour Papert. Segundo o teórico os computadores podem ser utilizados como instrumentos para trabalhar e pensar, como meios de realizar projetos, como fonte de conceitos para pensar novas ideias e não apenas como uma forma de apoio à instrução como tem sido 36 utilizados na abordagem instrucionista. Assim, ao questionar o uso do computador na Educação baseado no instrucionismo, Papert em conjunto com sua equipe do Massachusetts Institute of Technology – MIT – desenvolveram no final da década de 60 a linguagem de programação LOGO, uma linguagem de programação que permite a construção do conhecimento como pressupõe sua teoria. A linguagem de programação LOGO possui uma linguagem própria, porém de fácil assimilação, conforme o propósito de Papert para o trabalho com crianças ou adultos. O ambiente do software LOGO apresenta a figura de uma tartaruga que se move na tela, de acordo com os comandos dados através da linguagem de programação, e ao se movimentar a tartaruga deixa um rastro na tela. Inicialmente Papert construiu um robô tartaruga que se movimentava através dos comandos digitados no software LOGO, e quando se movimentava o robô riscava o trajeto, permitindo a observação do mesmo e a figura formada. Posteriormente, em sua versão software, o ambiente LOGO passou apresentar uma janela de comandos, que é por onde os mesmos são digitados e uma janela gráfica, sendo o habitat da tartaruga, onde o aprendiz pode observar o resultado do comando na ação da tartaruga pelo rastro deixado na tela. Por exemplo, ao digitar parafrente10 a tartaruga avança 10 paços para frente, e assim, outros comandos como paratrás, paradireita e paraesquerda podem ser utilizados para movimentar a tartaruga. Além disso, o LOGO é uma linguagem procedural, ou seja, permite ao aluno criar novos termos através do comando aprenda. Nessa ferramenta o aluno dá um nome ao conjunto de comandos elaborado pelo mesmo e que produz o gráfico desejado. Valente (2002) aponta duas vantagens da linguagem de programação LOGO. A primeira delas se refere à apropriação da linguagem e o uso da mesma que ocorrem simultaneamente, ou seja, para aprender sobre um comando o aluno deve usá-lo. Ao emitir um comando à tartaruga produz-se um resultado na tela que leva o aluno a querer resolver um problema que exige do mesmo a coordenação deste e de outros comandos que ele deve aprender. A segunda vantagem se relaciona à possibilidade da linguagem LOGO permitir a representação do raciocínio elaborado pelo aluno na resolução de um problema, e essa representação pode servir de transição para que o aluno entenda conceitos mais complexos e mais abstratos. Assim, a possibilidade de expressar ideias por intermédio de programas Logo auxilia não só a compreensão sobre o problema em si, sobre os conceitos envolvidos, como o programa pode ser considerado como uma representação 37 formal do raciocínio que o aprendiz usa para resolvê-lo (VALENTE, 2002, 19). Em suas publicações até os anos 1990 Valente utilizou esta justificativa para o uso da linguagem LOGO. Porém, com os avanços em seus estudos, entendeu que a linguagem LOGO possibilita muito mais que a representação de ideias. Ao ser programado o software apresenta um resultado para o aluno. ―É justamente este resultado que, quando confrontado com a ideia original, possibilita ao aprendiz rever seus conceitos e com isso aprimorá-los ou construir novos conhecimentos‖ (VALENTE, 2002, p.19). Assim, surgiu a noção de que a programação acontece em ciclos, e a realização do ciclo de ações – descrição-execução-reflexão-depuração – pode favorecer o processo de construção do conhecimento. Valente (2002) afirma que o ciclo de ações pode ser identificado no uso da linguagem de programação LOGO pelo aluno ao elaborar programas para resolver problemas. Por exemplo, ao receber a tarefa de traçar uma determinada figura na tela o aluno, inicialmente, elabora uma ideia de como proceder para chegar ao seu objetivo; essa ideia é transmitida à tartaruga por uma sequência de comandos na linguagem LOGO, o que implica a descrição da solução do problema. O computador executa a sequência de comandos e apresenta um resultado na tela, segundo a movimentação da tartaruga. A partir disso o aluno realiza a reflexão sobre o que ele esperava como resultado e o que ele obteve. Essa etapa possibilita duas ações alternativas: o aluno não modifica o programa porque o resultado esperado está de acordo com suas ideias iniciais; ou depura o programa quando o resultado é diferente do que ele esperava. Ao optar pela depuração do programa inicia-se uma nova descrição da solução do problema, e assim repete-se o ciclo de ações. É importante destacar que se em alguma etapa do processo o aluno não dispõe dos conhecimentos necessários para realizar o ciclo é fundamental a presença do professor na promoção de condições, seja na descrição, na reflexão ou na depuração, para que o aluno mantenha o ciclo em ação. Sobre o papel do professor neste processo trataremos mais adiante. A ideia do ciclo possibilitou a compreensão das ações que o aluno realiza na interação com o computador e que favorecem a construção do conhecimento, porém esta ideia é limitada ao ser utilizada como mecanismo para entender o que ocorre na mente do aluno na interação com o computador, pois o ciclo sugere a ideia de repetição, de fechamento e, portanto, o conhecimento não seria crescente (VALENTE, 2002). A 38 cada realização do ciclo de ações, mesmo não alcançando o resultado correto para o problema, as construções são sempre crescentes. ―Na verdade, terminado um ciclo, o pensamento nunca é exatamente igual ao que se encontrava no início de sua realização‖ (VALENTE, 2002, p.27). Assim, a ideia para explicar o processo mental da aprendizagem que ocorre na interação aluno-computador passa a ser a de uma espiral. De acordo com Valente (2002) citando Morin: ―O circuito espiral do remoinho é, de facto, o circuito que se fecha abrindo-se e, assim, se forma e se reforma‖ (MORIN, 1997, p.197 apud VALENTE, 2002, p.28). A concepção da espiral da aprendizagem representou um avanço importante para a compreensão e diferenciação do que acontece no crescente processo de construção do conhecimento na interação aluno-computador, assim, o teórico passou a considerar a possibilidade de usar a espiral para explicar a construção o conhecimento que ocorre na interação aluno-computador, porém ressalta a necessidade de fazer uma distinção entre as ações realizadas pelo aluno e o que acontece no pensamento do mesmo. Por esta nova concepção entendeu-se que as ações realizadas pelo aluno não mudam, o ciclo descrição-execução-reflexão-depuração se repete, porém o desenvolvimento do conhecimento acontece na forma de uma espiral crescente. Pela ideia da espiral foi possível compreender como a reflexão e a depuração podem contribuir para o desenvolvimento do pensamento do aluno. De acordo com Valente (2002) a reflexão pode levar o aluno a realizar três níveis de abstrações (PIAGET, 1995; MANTOAN, 1994) que são importantes no processo de construção do conhecimento: A abstração empírica é a mais simples, permitindo ao aprendiz extrair informações do objeto ou das ações sobre o objeto, tais como a cor, o peso e a textura. Por exemplo, o aprendiz pode não gostar da cor de um desenho produzido e alterá-la. A abstração pseudo-empírica permite ao aprendiz deduzir algum conhecimento da sua ação ou do objeto. Por exemplo, entender que a figura obtida não é um quadrado pelo fato de não ter quatro lados iguais. Assim, tanto as abstrações empíricas quanto as pseudo-empíricas permitem ao aprendiz depreender uma ou mais propriedades daquilo que observa e estas informações podem levá-lo a depurar o seu programa. Porém, o aprendiz ainda está muito dependente do resultado empírico obtido e as depurações decorrentes podem ser vistas como pequenos ajustes, nunca como grandes mudanças conceituais. Mudanças conceituais e construção de novos conhecimentos são frutos da abstração reflexionante. Este tipo de abstração, segundo Piaget (1995), engloba dois aspectos que são inseparáveis: um definido como reflexionamento, que consiste em projetar (como em refletor) sobre um patamar superior aquilo que é extraído de um patamar inferior; o outro, que Piaget definiu como reflexão, é um ato mental de reconstrução ou 39 reorganização sobre o patamar superior daquilo que é retirado e projetado do patamar inferior. Neste sentido, as informações provenientes das abstrações empíricas e pseudo-empíricas podem ser projetadas para níveis superiores do pensamento e reorganizadas para produzir novos conhecimentos (VALENTE, 2002, p.24). A espiral da aprendizagem foi representa por Valente (2002) esquematicamente como mostra a Figura 1, o teórico esclarece, ainda, que apesar das ações serem apresentadas de modo independente e sequencial elas podem ocorrer simultaneamente. Figura 1: Espiral da aprendizagem que ocorre na interação aprendiz-computador Fonte: (VALENTE, 2002, p.30) A separação das ações como apresenta a Figura 1 permite compreender o papel de cada uma delas no processo de construção do conhecimento e, também, identificar outras igualmente importantes. A representação do conhecimento, que o trabalho com o computador possibilita, revela os conceitos e estratégias que o aluno utiliza para resolver um problema ou projeto, ou seja, revela o lado cognitivo da resolução. Além disso, estão presentes nesse projeto aspectos estéticos, que são representados e permitem a análise dos mesmos como é feito com o aspecto cognitivo. Esse é o lado emocional do trabalho com o computador, até então ignorado. No presente capítulo apresentamos a tendência em Educação Matemática de uso das Tecnologias no Ensino da Matemática, onde os professores podem encontrar subsídios para desenvolver suas práticas, discutimos também a importância da formação do professor para o uso adequado das TIC e, além disso, as abordagens pedagógicas de uso das tecnologias no ensino, com ênfase à abordagem Construcionista, esta que entendemos contribuir efetivamente para a aprendizagem dos alunos nas aulas propostas 40 com uso destes recursos. É com esta perspectiva de uso que pretendemos analisar as práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores de Matemática com uso das TIC. 41 3 REFLEXÕES SOBRE CURRÍCULO Em continuidade à composição do referencial teórico que fundamenta a investigação da presente pesquisa que pretende analisar como os professores de Matemática estão desenvolvendo suas práticas pedagógicas com uso das TIC, a partir da implantação do novo Currículo Oficial de Matemática para o Ensino Médio do Estado de São Paulo – além do enfoque principal sobre o uso das TIC no ensino apresentado no capítulo anterior, pretende-se neste terceiro capítulo complementar tal referencial com os estudos sobre Currículo, utilizando-se, principalmente, das contribuições de estudiosos do campo do Currículo como Doll (1997), Fonseca (2008), Goodson (1995, 1997, 2007), Moreira (1997, 2001) e Oliveira (2008). Como a pesquisa delimitou-se a analisar as práticas dos professores a partir da implantação do novo Currículo Oficial, faz-se necessário compreender alguns pressupostos teóricos sobre Currículo e conhecer a reforma curricular do Estado de São Paulo – iniciada em 2008 com a Proposta Curricular e, posteriormente, em 2010 com a consolidação do Currículo Oficial para toda a rede estadual – para que seja possível analisar qual a influência do novo Currículo sobre as práticas dos professores de Matemática quando do uso das TIC no ensino da Matemática. Além disso, espera-se, também, identificar como as TIC estão incluídas no material do novo Currículo, que orientam as práticas pedagógicas dos professores atualmente. Para tanto serão analisados o documento do Currículo Oficial e os materiais de apoio, em especial, os Cadernos do Professor e os Cadernos do Aluno para o Ensino Médio. 3.1 O que é Currículo? Esta subseção dedica-se a abordar o tema Currículo, porém não se limita a responder o questionamento com uma definição pronta e acabada. Segundo Moreira (1997) não há um consenso sobre o que é Currículo, pois para o autor o conceito de Currículo está relacionado a problemas complexos e se constitui como uma construção cultural, histórica e socialmente determinada. De acordo com Moreira (2001, p. 3-4): 42 A literatura especializada tem registrado, ao longo dos tempos, diferentes significados para a palavra Currículo. Dominam, dentre eles, os que associam o Currículo a conteúdos e os que vêem o Currículo como experiências de aprendizagem. Outras concepções apontam para a ideia de Currículo como plano, como objetivos educacionais, como textos e, mais recentemente, como quase sinônimo de avaliação. Moreira (2001) admite a importância de todos os elementos presentes em cada concepção, mas alerta para a necessidade de articulação entre eles, considerando o conhecimento como a matéria prima do Currículo. O autor entende o Currículo, citando Silva (1996), como o ―conjunto de experiências de conhecimento que a escola oferece aos estudantes‖ (SILVA, 1996 apud MOREIRA, 2001, p.4). O Currículo, segundo Goodson (1997, p.17), ―é um artefato social, concebido para realizar determinados objetivos humanos específicos‖. Os estudos no campo do Currículo, que o consideram como construção social e cultural, apontam para a necessidade do reconhecimento das mudanças que a pós- modernidade incorporou à sociedade atual (DOLL, 1997). De acordo com Oliveira (2008, p.537) ―O Currículo de hoje deve ser pensado em termos de contextos visivelmente multiculturais e, assim, a estruturação do Currículo não pode ser feita desvinculada do contexto social, histórico e cultural.‖ Para melhor compreensão da atual abordagem do Currículo como construção social e cultural é importante resgatar, mesmo que de forma breve, o desenvolvimento histórico dos estudos sobre Currículo que se consolidou como campo de estudo em Educação a partir do final do século XIX, início do século XX, nos Estados Unidos. Inicialmente os estudos sobre Currículo partiram de duas tendências: a primeira delas de caráter progressista, desenvolvida por Dewey e Kilpatrick, que destacava a importância do Currículo abranger os interesses dos alunos em sua formulação; e, a segunda que seguia o modelo tecnicista, desenvolvida por Bobbitt, em um contexto de necessidade de escolarização de massas nos Estados Unidos, transpôs-se para a educação princípios da administração científica taylorista, modelo esse com ênfase aos processos de racionalização, sistematização e controle da escola e do Currículo (Fonseca, 2008). Ao final dos anos 60 do século passado esse modelo é fortemente criticado pelo caráter tecnicista, abrindo o campo do Currículo à nova perspectiva que se inicia na década de 70, a Teoria Crítica do Currículo. De acordo com Fonseca (2008, p.14): 43 Nessa nova perspectiva, denominada Teoria Crítica do Currículo, o campo passa a ser influenciado fortemente pelos estudos sociológicos, seja pela influência americana dos estudos neomarxistas de Michael Apple e de Henry Giroux – os quais voltaram seus olhares para questões como Currículo e estrutura social, Currículo e controle social, Currículo e cultura, Currículo e poder, Currículo e ideologia. Nesta nova concepção de Currículo a escola deixa de ser vista como um sistema fechado, ou seja, aquele que troca energia, mas não troca matéria, não ocorrendo transformação, passando para uma visão da escola como um sistema aberto, onde ocorrem trocas de energia e matéria produzindo, assim, transformação. Para Oliveira (2008, p.540), na visão como um sistema fechado ―o objetivo do Currículo era conter o conhecimento organizado para ser transferido e transmitido pelo professor ao aluno‖. Enquanto que o objetivo do Currículo na visão como um sistema aberto ―(...) é permitir que os poderes humanos de organização e reorganização criativa da experiência sejam operativos num meio ambiente que mantém uma tensão saudável entre a necessidade de encontrar o fechamento e o desejo de explorar‖ (DOLL, 1997, p.53). Ao considerar a escola como instituição social e assumindo o Currículo como parte dela, não se pode mais admitir que ela não acompanhe as mudanças que ocorreram na sociedade, e que o Currículo praticado nela não esteja situado no tempo e no contexto social e cultural que a escola se insere. Segundo Goodson (1997, p.79) ―Longe de ser um produto tecnicamente racional, que resume imparcialmente o conhecimento tal como ele existe num dado momento histórico, o Currículo escolar pode ser visto como veículo portador de prioridades sociais‖. Sobre a importância do Currículo, Oliveira (2008, p.545) destaca: É notória a importância do Currículo no contexto escolar, social e cultural e, por isso, tornou-se, contemporaneamente, alvo de atenção e de reformas educacionais, dado o seu valor estratégico em se tratando da conservação e da conformação dos indivíduos e da própria sociedade. Dada a importância do Currículo nas reformas educacionais, no contexto em que se realiza a presente pesquisa busca-se, entre outros objetivos, identificar as contribuições da implantação do novo Currículo do Estado de São Paulo para as práticas dos professores de Matemática com uso das TIC, pois o Currículo escrito é aquele que ―nos proporciona um testemunho, uma fonte documental, um mapa do terreno sujeito a modificações; constitui também um dos melhores roteiros oficiais para a estrutura institucionalizada da escolarização‖ (GOODSON, 1995, p. 21). 44 Em outra perspectiva, segundo Goodson (1995, p.17) Currículo é uma palavra chave, pois ―como qualquer outra reprodução social, ele constitui o campo de toda sorte de estratagemas, interesses e relações de dominação‖. No contexto da reforma curricular do Estado de São Paulo consideramos que o Currículo proposto pela SEE/SP aproxima-se do modelo prescritivo (GOODSON, 2007). Segundo Goodson (2007, p. 242): O currículo como prescrição sustenta místicas importantes sobre estado, escolarização e sociedade. Mais especificamente, ele sustenta a mística de que a especialização e o controle são inerentes ao governo central, às burocracias educacionais e à comunidade universitária. Na implantação da reforma curricular do Estado de São Paulo, de um lado tem- se o Estado, representando pela SEE/SP, responsável pela elaboração do Currículo e, de outro, os professores da rede como responsáveis por colocá-lo em prática. Nessa reforma os professores, subordinados ao poder do Estado, têm apenas o papel de executores das prescrições do Currículo. ―Desse modo, as prescrições curriculares determinam alguns parâmetros, mas algumas transgressões ou transcendências ocasionais são permitidas, desde que a retórica e o gerenciamento das prescrições não sejam desafiados‖ (GOODSON, 2007, p.242). A esse respeito Goodson (2007, p. 243) esclarece que: o currículo foi basicamente inventado como um conceito para dirigir e controlar o credenciamento dos professores e sua potencial liberdade nas salas de aula. Ao longo dos anos, a aliança entre prescrição e poder foi cuidadosamente fomentada, de forma que o currículo se tornou um mecanismo de reprodução das relações de poder existentes na sociedade. Em pleno contexto de reforma curricular, a imposição de um modelo de Currículo prescritivo pela SEE/SP revela ainda mais as relações de poder existentes na sociedade, pois ―mais do que escrever novas prescrições para as escolas, um novo currículo ou novas diretrizes para as reformas, elas precisam questionar a verdadeira validade das prescrições predeterminadas em um mundo em mudança‖ (GOODSON, 2007, p.242). No contexto da presente pesquisa foi indispensável à reflexão sobre o campo do Currículo, pois de posse de uma melhor compreensão sobre esse tema, apresentamos na seção seguinte a reforma curricular mais recente ocorrida no Estado de São Paulo. 45 3.2 Reforma curricular do Estado de São Paulo e o novo Currículo Oficial A partir da década de 90 do século passado o governo estadual, principalmente após o lançamento do Programa Estadual de Desestatização – PED, instituído pela Lei 9.361 em 05 de julho de 1996, deu início a profundas reformas em diversas áreas, entre as quais, interessa aqui, a reforma no campo da Educação. De acordo com Moreira e Angelo (sd.) na forma de leis, decretos, resoluções, pareceres, indicações; entre as mudanças ocorridas nesse período, resumidamente, destaca-se: implantação da Progressão Continuada no Ensino Fundamental, aprovação de novo Plano de Carreira, Reorganização da Rede Física e da Trajetória Escolar no Ensino Fundamental através da implantação de classes de aceleração, criação do Programa de Parceria Educacional Estado-Município, Reclassificação de alunos no ensino fundamental e médio, início do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo – SARESP, entre outras. A criação do SARESP possibilitou, ao Estado obter informações periódicas sobre a qualidade da educação oferecida nas escolas da rede e, além disso, para o direcionamento de ações, tanto da SEE/SP quanto de cada escola, para melhoria da qualidade do ensino oferecido. Criado em 2007, com o objetivo de ser o indicador da qualidade da educação básica do Estado de São Paulo, o Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo – IDESP 3 – passou a ser elaborado anualmente, levando em consideração dois critérios: o desempenho dos alunos no SARESP (o quanto os alunos aprendem); e, o fluxo escolar (em quanto tempo aprendem). De acordo com a nota técnica da SEE/SP, de março de 2010, com a instituição do Programa de Qualidade da Escola em 2008, e com a divulgação do IDESP de cada escola, passou-se a estabelecer metas de qualidade para cada uma delas ano a ano. E assim, até o momento da realização desta pesquisa, permanece esse modelo de avaliação da educação básica para o Estado de São Paulo. 3 O IDESP corresponde à multiplicação de dois indicadores – o indicador de desempenho (ID), que avalia o quanto os alunos aprenderam, e o indicador de fluxo (IF), que avalia quanto tempo os alunos levam para aprender. O IDESP é calculado para cada etapa da escolarização (s): IDESPs = IDs * IFs ; Onde IDs é o indicador de desempenho da série s e IFs é o indicador de fluxo da série S, e S representando o 5º ano do EF, o 9º ano do EF ou a 3ª série do EM. Disponível em: http://idesp.edunet.sp.gov.br/Arquivos/NotaTecnica2013.pdf . Acesso em: 10/01/2015. 46 Nesse movimento de reforma, ganha forte atenção para a elaboração dos índices de qualidade da educação básica do Estado de São Paulo as avaliações externas, especialmente, o SARESP. De acordo com as Matrizes de Referência para a Avaliação do Rendimento Escolar: A avaliação da educação básica do estado de São Paulo, denominada SARESP – Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, utiliza procedimentos metodológicos formais e científicos cada vez mais aprimorados para coletar e sistematizar dados e produzir informações sobre o desempenho dos alunos ao término das segundas, quartas, sextas e oitavas séries ou, no caso do ensino de nove anos, terceiras, quintas, sétimas e nonas séries do Ensino Fundamental, bem como da terceira série do Ensino Médio (SÃO PAULO, 2009, p.7). Em sua história de desenvolvimento o SARESP passou por muitas mudanças principalmente a partir de 2007, com objetivo de torná-lo cada vez mais adequado como um sistema de avaliação em larga escala. Em especial, a principal mudança ocorreu em 2007 com a colocação dos resultados do SARESP na escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB 4 . Desde 1995 a qualidade da educação básica do Brasil foi medida pelo SAEB. Com o instrumento de avaliação da qualidade da Educação Básica estabelecido e aprimorado pela SEE/SP, surge um questionamento interno à secretaria sobre ―o que avaliar?‖. ―Pergunta para a qual a resposta mais significativa só pode ser: Aquilo que o aluno deveria ter aprendido‖ (SÃO PAULO, 2009, p.8). Até o ano de 2007 a rede pública de ensino do estão de São Paulo não tinha um Currículo comum a todas as escolas da rede claramente definido. Esse quadro poderia dificultar a eficácia da avaliação externa em larga escala e o desenvolvimento dos índices de cada escola de forma justa e igualitária. Segundo as Matrizes de Referência para a Avaliação do Rendimento Escolar: Se as reformas educacionais havidas no Brasil na década de 1990 propuseram, pra esse nível de educação, parâmetros e diretrizes gerais devidamente consolidados pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, também delegaram que esses parâmetros e diretrizes 4