UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - UNESP “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais POSMAT MARCIA YUMI TERUYA “ESPECTROSCOPIA DE IMPEDÂNCIA EM SOLUÇÕES IÔNICAS E MISTURA DE ETANOL/ÁGUA” PRESIDENTE PRUDENTE 2008 MÁRCIA YUMI TERUYA “ESPECTROSCOPIA DE IMPEDÂNCIA EM SOLUÇÕES IÔNICAS E MISTURA DE ETANOL/ÁGUA” Tese apresentada a Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciência e Tecnologia. Curso de Doutorado, como requisito à obtenção do título de Doutor em Ciência e Tecnologia de Materiais. Orientador: Prof. Dr. José Alberto Giacometti. PRESIDENTE PRUDENTE 2008 Teruya, Marcia Yumi T318e Espectroscopia de impedância em soluções iônicas e de misturas de etanol/água. / Marcia Yumi Teruya. - Presidente Prudente : [s.n], 2008 83 f. Tese (doutorado) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências. Orientador: José Alberto Giacometti Banca: Neri Alves, Margarida Juri Saeki, Antonio Jose Feliz de Carvalho, Luis Humberto da Cunha Andrade e José Alberto Giacometti Inclui bibliografia 1. Capacitores. 2. Espectroscopia de impedância. 3. Dupla camada. I. Autor. II. Título. III. Presidente Prudente - Faculdade de Ciências e Tecnologia. CDD(18.ed.) 530 Ficha catalográfica elaborada pela Seção Técnica de Aquisição e Tratamento da Informação – Serviço Técnico de Biblioteca e Documentação - UNESP, Campus de Presidente Prudente. Dedico esta tese aos meus pais Paulo e Nobuko, meus irmãos André e Gerson por serem meu alicerce em todos os momentos de minha vida. E a Jorge Duarte pelo amor e paciência. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. José Alberto Giacometti, por ser uma referência como pesquisador, pela paciência, apoio, amizade e confiança, sem os quais esse trabalho não teria realizado. Aos Prof. Dr. Paulo A. Ribeiro e Drª. Fátima Raposo por me acolherem e terem possibilitado minhas pesquisas na Universidade Nova de Lisboa em Portugal. Aos meus pais Paulo e Nobuko, que acreditaram em mim e estiveram ao meu lado me dando força que muitas vezes me faltou e principalmente pelo exemplo de vida que sempre me mostraram. Aos meus irmãos André e Gerson, que apesar da distância sempre me apoiaram e ajudaram a tomar atitudes importantes pelos exemplos de dedicação, esforço e trabalho. A Maria Rangon pelos bons conselhos que foram de muita importância. A Renata pela amizade, sabedoria, sinceridade e companhia nas viagens e principalmente pelas aventuras que elas proporcionaram. Aos amigos do departamento de Física, Química e Biologia: Juliana, Andréia, Maikon, Juvanir, Dalton, Alberny, Felipe, Flávio pelo ótimo ambiente de trabalho, cooperação, carinho e inúmeras discussões que fortaleceram minha formação. A todos os professores do departamento de Física, Química e Biologia. Ao Sr. Eng. Jorge Duarte, pela disponibilidade demonstrada para o desenvolvimento deste estudo, preocupação inerente ao meu estado físico e psicológico e ajuda prestada no decorrer das tarefas do cotidiano com seu amor incondicional. TERUYA, M. Y. Espectroscopia de impedância em soluções iônicas e misturas de etanol/água. 2008. 83f. Tese (Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais). UNESP, Bauru, 2008. RESUMO Apresentam-se medidas de espectroscopia de impedância elétrica, na faixa de freqüência de 0,1 mHz a 10 MHZ, obtidas com a solução de KCl em diferentes concentrações e com a mistura de etanol e água variando-se a porcentagem. Foram utilizados capacitores de placas paralelas e com eletrodos interdigitados. Os principais resultados experimentais obtidos com as soluções e as misturas, para o capacitor de placas paralelas, mostraram a existência de dois picos na curva da impedância imaginária em função da freqüência: o da região de alta freqüência (região de MHz) e outro na região de baixa freqüência (região de mHz) que ainda não era conhecido na literatura. Nas medidas com a mistura de etanol/água usando capacitor com eletrodos interdigitados não foi observado o pico na região de baixa freqüência. Os resultados experimentais foram interpretados usando-se circuitos equivalentes com o elemento de impedância de Cole-Cole (para representar a formação da dupla camada de cargas junto ao eletrodo) em série com o circuito RC em paralelo (para representar o volume da solução). O circuito com o elemento de Cole-Cole permitiu determinar com sucesso a mobilidade dos íons da solução e a espessura da dupla camada de cargas. O mesmo circuito foi usado para analisar os resultados da mistura de etanol e água obtendo-se grandezas adequadas para o volume da mistura, mas a espessura da dupla camada foi muito maior que o valor esperado. As medidas realizadas com o capacitor de eletrodos interdigitados para mistura de etanol/água foram analisadas substituindo-se o elemento de Cole-Cole pelo elemento CPE. Os resultados foram de grande importância para compreensão dos fenômenos físicos em sensores capacitivos e há um grande interesse do uso destes sensores para analisar a qualidade do etanol combustível. TERUYA, M. Y. Impedance Spectroscopy studies of ionic solutions and ethanol/water mixtures. 2008. 83f. Tese (Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Materiais). UNESP, Bauru, 2008. ABSTRACT Electric impedance spectroscopy was employed to investigate ionic solutions of potassium chloride and mixtures of ethanol-water in the frequency range from 0,1 mHz to 10 MHz. Experimental results obtained for the solutions and mixtures with a capacitor with parallel plates showed two peaks in imaginary impedance curves: one at high-frequency (at MHz range) and the other at low-frequency (mHz range). Such low-frequency peak was not observed in measurements performed with ethanol-water mixtures using an interdigitated capacitor. Impedance curves were analyzed employing equivalent circuits containing linear and non-linear impedance elements. A parallel RC circuit was used to represent the volume of the ionic solution and of the ethanol-water mixture. The Cole-Cole element, connected in series with the RC circuit, was used to represent the double layer of charges near the electrode. The equivalent circuit allowed us to obtain the mobility of the ions in the ionic solution and the thickness of the double layer. The same circuit was also used to analyze the results obtained for the ethanol-water mixtures giving a good description of the bulk properties but the thickness of the double layer was much larger than the expected one. Results of the measurements performed with the interdigitated capacitor for the ethanol-water mixtures were analyzed employing a circuit containing a constant-phase distribution element instead of the Cole-Cole one. Results presented here are of large importance for the comprehension of the physical-chemical phenomenona in capacitive sensors that have great interest to analyze the quality of the ethanol fuel. CONTEÚDO CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 1  CAPÍTULO 2 – INTRODUÇÃO TEÓRICA ............................................................................................. 3  2.1.  ESPECTROSCOPIA DE IMPEDÂNCIA ............................................................................................ 3  2.2.  MODELO DE DEBYE E EQUAÇÕES EMPÍRICAS ......................................................................... 5  2.2.1.  Modelo de Debye ............................................................................................................................. 6  2.2.2.  Equação de Cole-Cole ..................................................................................................................... 8  2.2.3.  Equação de Cole-Davidson ........................................................................................................... 10  2.2.4.  Equação empírica de Havriliak-Negami ....................................................................................... 11  2.3.  FENÔMENOS NA INTERFACE METAL/LÍQUIDO ...................................................................... 13  2.4.  CAPACITOR PREENCHIDO COM UM LÍQUIDO ......................................................................... 16  2.4.1.  Modelo de Becchi - camada de Helmholtz .................................................................................... 16  2.4.2.  Modelo de Barbero - adsorção/dessorção ..................................................................................... 19  2.5.  CIRCUITOS EQUIVALENTES ........................................................................................................ 21  2.5.1.  Circuito equivalente ao modelo de Becchi - Helmholtz ................................................................. 22  2.5.2.  Circuito equivalente com o elemento de Havriliak-Negami (HN) ................................................. 24  2.5.3.  Circuito equivalente com o elemento de fase constante (CPE) ..................................................... 28  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................................. 31  CAPÍTULO 3 – MATERIAIS E MÉTODOS .......................................................................................... 33  3.1.  SOLUÇÃO DE KCL .......................................................................................................................... 33  3.2.  MISTURA DE ETANOL E ÁGUA .................................................................................................... 34  3.3.  CAPACITOR DE ELETRODOS INTERDIGITADOS ..................................................................... 34  3.4.  CAPACITOR DE PLACAS PARALELAS ....................................................................................... 35  3.5.  O ANALISADOR DE IMPEDÂNCIA .............................................................................................. 36  3.5.1.  Medidas de espectroscopia de impedância sem a interface 1296A ............................................... 38  3.5.2.  Medidas com a interface 1296A .................................................................................................... 39  3.6.  PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS PARA A REALIZAÇÃO DE MEDIDAS ........................ 40  3.6.1.  Controle de Temperatura .............................................................................................................. 40  3.6.2.  Configurações de uso dos equipamentos e conexões..................................................................... 40  3.7.  SOFTWARE ZVIEW ........................................................................................................................... 42  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................................. 45  CAPÍTULO 4 – RESULTADOS E DISCUSSÕES – SOLUÇÃO DE KCL ................................... 46  4.1.  REPRODUTIBILIDADE DAS MEDIDAS DE IMPEDÂNCIA ....................................................... 46  4.2.  RESULTADOS DAS MEDIDAS DE IMPEDÂNCIA....................................................................... 48  4.3.  ANÁLISE DAS CURVAS EXPERIMENTAIS ................................................................................. 50  4.3.1.  Propriedades de Volume ............................................................................................................... 54  4.3.2.  Propriedades da Dupla Camada ................................................................................................... 56  4.4.  CONCLUSÕES .................................................................................................................................. 59  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................................................. 62  CAPÍTULO 5 – RESULTADOS E DISCUSSÕES – MISTURAS ÁGUA E ETANOL ............. 64  5.1.  RESULTADOS EXPERIMENTAIS .................................................................................................. 65  5.1.1.  Capacitor de placas paralelas ....................................................................................................... 65  5.1.2.  Capacitor interdigitado ................................................................................................................. 67  5.1.3.  Comparação dos resultados obtidos com os dois capacitores ...................................................... 69  5.2.  ANÁLISE DAS CURVAS EXPERIMENTAIS ................................................................................. 70  5.2.1.  Capacitor de placas paralelas ....................................................................................................... 70  5.2.2.  Capacitor de eletrodos interdigitados ........................................................................................... 75  5.3.  CONCLUSÕES .................................................................................................................................. 80  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................................. 82  ÍNDICE DE FIGURAS Figura 2.1 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária em função freqüência e (c) o semicírculo no plano de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0 = 2, εs /ε0 = 10 e τ = 10-3 s. ................... 7  Figura 2.2 - (a) Curvas de permissividade real, (b) imaginária versus a freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0 = 2, εs /ε0 = 10 e τ = 10-3 s. ..................................................... 9  Figura 2.3 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária versus da freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0=2, εs /ε0=10 e τ = 10-3 s. .............................................. 11  Figura 2.4 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária versus da freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0=2, εs /ε0=10 e τ =10-3 s. ............................................... 13  Figura 2.5 - Dupla camada de cargas formada na superfície do eletrodo. Na figura é mostrada a posição do plano externo de Helmholtz, PEH. .............................................................. 15  Figura 2.6 - Curvas da impedância: (a) parte real Z’ e (b) parte imaginária Z” em função da freqüência, e (c) curva de impedância real versus imaginaria; onde β = 0,99, Cs = 42,63 μC2/N2m e CB = 0,1094 nC2/N2m. ................................................................................... 18  Figura 2.7 - Curvas da impedância:(a) parte real Z’, (b)parte imaginária Z” em função da freqüência e (c) a impedância real versus a imaginária; onde D = 1,98x10-10 m2/s, ε = 78,5ε0, N = 2,02x1023 m-3, k = 3,65x10-7 (ms)-1, τ = 0,02 s e d = 2,03x10-3 m. ............... 21  Figura 2.8 - Circuito elétrico equivalente do modelo de Becchi - Helmholtz. ......................... 22  Figura 2.9 - (a) Curvas da impedância real e (b) imaginária em função da freqüência, e (c) o semicírculo de Z”versus Z’; onde R = 5 kΩ e C1 = 0,1 nF. ............................................. 24  Figura 2.10 - Circuito equivalente: circuito R1C1 em paralelo e em série com o elemento de HN. ................................................................................................................................... 25  Figura 2.11 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência; onde R1 = 50 KΩ, C1 = 10 pF, RHN = 300 KΩ, τ = 6 s e α = 0,7. ..................................................... 26  Figura 2.12 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência; onde R1 = 50 KΩ, C1 = 2 pF, τ = 6 s, β = 1, α = 0,7. ........................................................................ 27  Figura 2.13 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência, C1 = 2 pF, RHN = 300 KΩ, τ = 6 s, e α = 0,6.β = 1 ............................................................................ 28  Figura 2.14 - Circuito equivalente: circuito R1C1 em paralelo e em série com o elemento CPE. .......................................................................................................................................... 29  Figura 2.15 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência, R1 = 10 kΩ, C1 = 0,1 nF, P = 0,77. ....................................................................................................... 30 Figura 3.1 - Fotografia do capacitor interdigitado. No lado direito são mostrados os dois contatos elétricos e no lado esquerdo os micro-eletrodos interdigitados. ........................ 34  Figura 3.2 - (a) Vista em perspectiva e (b) corte lateral do capacitor interdigitado. ................ 35  Figura 3.3 - Fotografia do capacitor de placas paralelas. ......................................................... 36  Figura 3.4 - Analisador de impedâcia Solartron 1260A acoplado a interface 1296A e o reservatório de água com paredes de isolador térmico para manter a temperatura da amostra constante. ............................................................................................................ 37  Figura 3.5 - Janela principal do programa ZPlot. ..................................................................... 38  Figura 3.6 - Janela principal para programação da interface 1296A. ....................................... 39  Figura 3.7 - Casador de impedância utilizado com o analisador de impedância Solartron1260A para realizar medidas na faixa de freqüência entre 1 a 10 MHz. ........... 41  Figura 3.8 - Janela do programa ZView para mostrar as curvas da parte real, Z’, e da parte imaginária, Z”, da impedância versus a freqüência. Na esquerda é para mostrar a curva de Z”versus Z”. ................................................................................................................. 42  Figura 3.9 - Janela de exibição do “circuito” e entrada de informações para a simulação e ajuste de curvas com o programa ZView. ........................................................................ 44 Figura 4.1 - (a) Curvas de impedância real e (b) imaginária em função da freqüência para solução de KCl para diferentes valores de tempo. No detalhe da figura (a) é mostrado as curvas de Z’ em função do tempo em minutos para freqüência de 100 Hz. .................... 47  Figura 4.2 - (a) Curvas de impedância elétrica real, Z’, (b) impedância elétrica imaginária, Z” versus a freqüência: para a solução de KCl. No detalhes da figura (b) são mostradas as curvas de Z” em escala linear para realçar o pico na freqüência de 1 mHz. .................... 49  Figura 4.3 - Curvas de impedância elétrica Z” versus Z’ para a solução de KCl com diferentes concentrações. .................................................................................................................. 50  Figura 4.4 - Circuito equivalente RC em paralelo em série com o elemento de Cole-Cole. .... 51  Figura 4.5 - Impedância em função da freqüência para a solução de KCl. (a) parte real da impedância, (b) parte imaginária versus a freqüência. No detalhe da figura (b) é mostrado a curva de Z”e seu ajuste em escala linear para realçar o pico na freqüência de 1 mHz. 52  Figura 4.6 - Resultados de Z” versus Z’. Os círculos são os pontos experimentais e a linha é a curva ajustada. .................................................................................................................. 53  Figura 4.7 - (a) Valores da resistência R1 versus a concentração, (b) Valores da resistência R1 versus o inverso da concentração. .................................................................................... 54  Figura 4.8 - Mobilidade dos íons versus a concentração da solução de KCl. .......................... 56  Figura 4.9 - Valores de (1-α) em função da concentração de KCl. .......................................... 56  Figura 4.10 - Resultados para a dupla camada: (a) tempo de relaxação e (b) em função da concentração de KCl. ........................................................................................................ 57  Figura 4.11 - (a) Espessura da dupla camada e (b) comprimento de Debye em função da concentração de KCl. ........................................................................................................ 58  Figura 4.12 - Resistividade elétrica da dupla camada em função da concentração de KCl. .... 59 Figura 5.1 - Curvas de (a) impedância real, (b) imaginária da mistura de etanol/água versus a freqüência e (c) Z”versus Z’. No detalhe do gráfico (b) são mostradas as curvas de Z” com a ampliação do pico de baixa freqüência. ................................................................. 66  Figura 5.2 - Curvas de capacitância e resistência de misturas de etanol/água versus a freqüência. ........................................................................................................................ 67  Figura 5.3 - Curvas da (a) impedância real, (b) imaginária da mistura de etanol/água versus a freqüência e (c) Z”versus Z’. No detalhe do gráfico (b) são mostradas as curvas de Z” em escala logarítmica para capacitor interdigitado. ............................................................... 68  Figura 5.4 - Comparação das curvas de impedância obtidas com os capacitores de placas paralelas e com eletrodos interdigitados para a mistura com 40% de etanol. .................. 69  Figura 5.5 - Circuito equivalente com a resistência em série ................................................... 71  Figura 5.6 - Exemplo do ajuste das curvas (a) Z”, (b) Z’ versus a freqüência e (c) Z”versus Z’ obtidas para a mistura com 40% de etanol/água. .............................................................. 71  Figura 5.7 - (a) Valores da capacitância C1 (b) da resistência R1 versus a porcentagem de água. .................................................................................................................................. 73  Figura 5.8 - Valores do expoente de Cole-Cole em função da porcentagem de água. ............. 74  Figura 5.9 - (a) Valores da resistência RC e (b) valores do tempo de relaxação em função da porcentagem de etanol. ..................................................................................................... 74  Figura 5.10 - Exemplo do ajuste das curvas de Z’ e Z“ em função da freqüência, obtidas para a mistura etanol/água para capacitor interdigitado. .......................................................... 76  Figura 5.11 - Exemplo de ajuste das curvas (a) Z”, (b) Z’ versus a freqüência e (c) Z”versus Z’ obtidas para a mistura com 40% de etanol/água para capacitor interdigitado. ............ 78  Figura 5.12 - (a) Valores da capacitância C1 (b) da resistência R1 versus a porcentagem de água para capacitor interdigitado. ..................................................................................... 79  Figura 5.13 - (a) Valores de Q e (b) valores do tempo de relaxação em função da porcentagem de etanol para capacitor interdigitado. .............................................................................. 80  TABELA Tabela 3.1 - Configurações experimentais utilizadas nos experimentos. ................................. 42  Tabela 3.2 - Principais variáveis elétricas do programa ZView. .............................................. 43 Tabela 4.1 - Valores dos parâmetros e os erros relativos obtidos nos ajustes (água/KCl). Na última coluna mostra-se o desvio padrão dos ajustes. Os ajustes foram feitos deixando todos os parâmetros livres. ............................................................................................... 53 Tabela 5.1 - Valores dos parâmetros e os erros relativos obtidos nos ajustes (etanol/água). Na última coluna mostra-se o desvio padrão dos ajustes. Os ajustes foram feitos deixando todos os parâmetros livres. ............................................................................................... 72  Tabela 5.2 - Valores dos parâmetros e os erros relativos obtidos nos ajustes (etanol/água). Na última coluna mostra-se o desvio padrão dos ajustes. Os ajustes foram feitos deixando todos os parâmetros livres. ............................................................................................... 78  LISTA DE ABREVIATURAS AEHC Álcool Etílico Combustível Hidratado CC Cole-Cole CD Cole-Davidson CenPRA Centro de Pesquisa Renato Archer CPE Elemento de fase constante HN Havriliak-Negami PEH Plano Externo de Helmholtz TOC Teor de Carbono LISTA DE SÍMBOLOS α, β Constantes βS Constante relacionada à mobilidade de íons na solução ε* Permissividade dielétrica complexa ε´ Componente real da permissividade ε” Componente imaginária da permissividade εS Constante dielétrica da dupla camada εs Permissividade dielétrica estática ε∞ Permissividade dielétrica para alta freqüência ka Coeficiente de adsorção λD Comprimento de Debye μ Mobilidade elétrica τd Coeficiente de dessorção τ Tempo de relaxação φ Ângulo de fase ω Freqüência angular A Área do eletrodo c Concentração molar C* Capacitância complexa C´ Componente real da capacitância C” Componente imaginária da capacitância C1 Capacitância de volume C2 Capacitância da dupla camada CS Capacitância da dupla camada CV Capacitância elétrica de volume D Coeficiente de difusão d Distância dos eletrodos G* Condutância complexa I* Corrente de resposta I0 Amplitude da corrente elétrica K Constante de Boltzmann l Espessura L Espessura M Massa molecular n Densidade de íons N Densidade de íons n* Densidade de íons na presença de fenômenos de adsorção q Unidade de carga elementar R1 Resistência elétrica de volume T Temperatura V Volume V* Tensão aplicada V0 Amplitude da tensão Y* Admitância complexa Z* Impedância elétrica complexa Z´ Componente real da impedância Z” Componente imaginária da impedância Capítulo 1 - Introdução 1 CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO Sensores capacitivos é uma designação geral usada para referir a dispositivos construídos de um capacitor elétrico de um material transdutor de sinal colocado entre duas placas metálicas. Neste tipo de sensor o sinal de transdução é obtido através de medidas elétricas da corrente elétrica, impedância elétrica, capacitância etc. Exemplos deste tipo de sensores são os microfones capacitivos, sensores de pressão, sensores piezoelétricos, sensores para “línguas e narizes eletrônicos” etc. No caso de sensores utilizados em uma “língua eletrônica” a transdução é feita através de medidas de capacitâncias elétricas dos sensores e suas variações quando os sensores são imersos em diferentes líquidos. Este trabalho tem como motivação compreender os fenômenos físicos envolvidos em sensores capacitivos que são utilizados em “línguas eletrônicas” e para avaliar a porcentagem de água no etanol (álcool etílico combustível hidratado - AEHC) e a qualidade dessa mistura. O interesse no estudo do etanol está relacionado ao uso crescente do AEHC como biocombustível em motores de veículos, o que requer o desenvolvimento de sensores de baixo custo que permitam uma rápida avaliação do AEHC. A determinação da capacitância elétrica é feita a partir de medidas de impedância elétrica do sensor e o interesse específico deste trabalho é estudar os fenômenos elétricos que ocorrem no volume desses líquidos e nas interfaces dos eletrodos de capacitores. Será mostrado que: i) a resposta em alta freqüência (de 10 kHz a 10 MHz) está relacionada com as propriedades de volume da solução iônica e das misturas de etanol e água; Capítulo 1 - Introdução 2 ii) a resposta em baixa freqüência (de 0,1 mHz a 10 kHz) está relacionada com a formação de duplas camadas de carga, freqüentemente denominada de dupla camada elétrica, nas interfaces do líquido com os eletrodos do capacitor. Na primeira parte deste trabalho estudaram-se as propriedades da solução de cloreto de potássio (KCl) para se melhor compreender os fenômenos interfaciais uma vez que este tipo de medida é relativamente bem conhecida na literatura e existem vários modelos teóricos para a interpretação dos resultados experimentais. Na segunda parte foram estudadas as misturas de etanol e água. A contribuição deste trabalho foi realizar as medidas na região de freqüências de 0,1 mHz a 10 MHz. Mostrar-se-á que as curvas de impedância imaginária, tanto para a solução iônica como para as misturas de etanol e água, apresentam um pico em torno da freqüência de 10 mHz, fato este que ainda não tem sido descrito na literatura pois as medidas eram restritas ao intervalo de freqüência de ~1 Hz até 10 MHz. A existência do pico na região de 10 mHz foi interpretado empiricamente usando-se um circuito elétrico equivalente com um elemento de Cole-Cole e os resultados mostram que a descrição é coerente dos resultados em relação ao problema estudado. Esta tese está organizada da seguinte forma: No capítulo 2 apresenta-se uma breve revisão da literatura sobre a relaxação dielétrica, a formação interfacial de duplas camadas de cargas na superfície de eletrodos imersos em líquidos, os resultados e modelos teóricos para as medidas de espectroscopia de impedância elétrica em soluções de KCl. No capítulo 3 apresenta-se os procedimentos experimentais, os materiais utilizados, a preparação das soluções e misturas, equipamentos e os programas para as medidas. Nos capítulos 4 e 5 apresentam-se os resultados experimentais obtidos com a solução de KCl e misturas de etanol e água, a interpretação desses resultados e as conclusões. Capítulo 2 – Introdução Teórica 3 CAPÍTULO 2 – INTRODUÇÃO TEÓRICA Na seção 2.1 são apresentadas as equações básicas da técnica de espectroscopia de impedância elétrica. Na seção 2.2 são apresentadas o modelo de Debye e as equações de Cole- Cole, Cole-Davidson e Havriliak-Negami e na seção 2.3, o modelo de Helmholtz para a formação de duplas camadas de cargas elétricas na interface metal/líquido. Na seção 2.4 são apresentados de forma resumida dois modelos físicos para descrever o comportamento de capacitores preenchidos com uma solução iônica. Na última seção são apresentados dois circuitos elétricos que serão utilizados para a interpretação dos resultados experimentais. 2.1. ESPECTROSCOPIA DE IMPEDÂNCIA A técnica de espectroscopia de impedância é um método de caracterização elétrica desenvolvido para o estudo dos processos elétricos em materiais [1], circuitos [2], dispositivos eletrônicos [3,4], processos eletroquímicos [5], entre outros. Ressalta-se que a medida de impedância elétrica é não destrutiva e possui uma precisão adequada para o estudo de materiais e dispositivos [6]. Nas medidas de espectroscopia de impedância, a freqüência se estende de 0,1 mHz a 100 GHz sendo que no intervalo de freqüência entre 0,1 mHz a 100 MHz, na maioria dos casos, a medida relativamente é simples de ser feita. Ela pode ser automatizada controlando-se a varredura de freqüência, a amplitude do sinal, a tensão de polarização, a precisão da medida etc. Escrevendo-se a tensão e a corrente elétrica alternada como grandezas complexas: Capítulo 2 – Introdução Teórica 4 * 0( ) j tV t V e ω= e * ( ) 0( ) j tI t I e ω φ−= [2.1] onde V0 é a amplitude da tensão, I0 é a amplitude da corrente elétrica, ω é a freqüência angular (ω=2πf, f é a freqüência) e φ é o ângulo de fase entre a corrente e a tensão elétrica. A impedância complexa, Z*, é definida como: " [2.2] onde Z’ é a parte real e Z” é a parte imaginária da impedância elétrica. O ângulo de fase é dado por: 1 "tan ' Z Z φ − ⎛ ⎞= ⎜ ⎟ ⎝ ⎠ [2.3] Quando se estuda amostras dielétricas sob tensão alternada descrevem-se os resultados através da permissividade elétrica complexa. Os valores das partes real, ε´, e imaginária, ε”, da permissividade elétrica são obtidos a partir da capacitância elétrica complexa da amostra, definida como: * ' "C C jC= − [2.4] Usando que a corrente elétrica através de um capacitor é * * * dVI C dt = e as equações 2.1, 2.2 e 2.3, a parte real e imaginária da capacitância elétrica complexa, em termos da impedância elétrica real e imaginária, são escritas como: ( ) ( )2 2 1 "' ' " ZC Z Zω ⎛ ⎞− = ⎜ ⎟ ⎜ ⎟+⎝ ⎠ [2.5] ( ) ( )2 2 1 '" ' " ZC Z Zω ⎛ ⎞ = ⎜ ⎟ ⎜ ⎟+⎝ ⎠ [2.6] Estas relações permitem calcular os valores das partes real e imaginária da Capítulo 2 – Introdução Teórica 5 capacitância complexa e posteriormente os valores das permissividades real e imaginária. Por exemplo, se for usado um capacitor de placas paralelas de área A e a separação entre os eletrodos, d, tem-se e " ". Como foi mencionado, no estudo de dielétricos se utilizam as curvas da permissividade elétrica real, ε’, e a imaginária, ε”, em função da freqüência. Entretanto, muitas vezes as curvas experimentais são representadas através das curvas de ε’ e a tangente do ângulo de perda é determinada por "tan ' εδ ε= . Esta grandeza fornece a energia dissipada na amostra em cada ciclo da tensão elétrica. Há ainda outras grandezas que podem ser derivadas da impedância elétrica complexa, as quais são importantes para a técnica de espectroscopia de impedância elétrica. Na Tabela 2.1, mostram-se as principais grandezas utilizadas e os valores de suas partes reais e imaginárias. Tabela 1.1 - Grandezas complexas em medidas de impedância e suas relações. Função Complexa Símbolo Componente Real Componente Imaginária Impedância Z* " Admitância Y* " " " Condutância G* " " Capacitância C* ( ) ( )2 2 1 "' ' " ZC Z Zω ⎛ ⎞− = ⎜ ⎟ ⎜ ⎟+⎝ ⎠ ( ) ( )2 2 1 '" ' " ZC Z Zω ⎛ ⎞ = ⎜ ⎟ ⎜ ⎟+⎝ ⎠ 2.2. MODELO DE DEBYE E EQUAÇÕES EMPÍRICAS Há na literatura vários modelos e equações empíricas para estudar a relaxação Capítulo 2 – Introdução Teórica 6 dielétrica de materiais. O modelo de Debye [7] é o mais simples e descreve um material com um único tempo de relaxação dipolar. A partir da equação de Debye os pesquisadores Cole- Cole [8], Cole-Davidson [9] e Havriliak-Negami [10] propuseram equações empíricas para descrever curvas experimentais [11,12]. 2.2.1. Modelo de Debye O primeiro modelo de relaxação dielétrica foi proposto por Debye (1929) que assumiu que as moléculas dipolares possuíam a forma esférica e se encontravam num solvente não polar [7]. As esferas são sujeitas ao atrito devido a forças viscosas entre a superfície das esferas e o solvente. Debye assumiu também que a concentração de esferas na solução é pequena para garantir que não haja interação entre as mesmas. A permissividade dielétrica ε* obtida pelo modelo de Debye tem a forma: 1 sj j ε εε ε ε ε ωτ ∞ ∞ −′ ′′∗ = − = + + [2.7] onde, τ é o tempo de relaxação do dipolo, εs e ε∞ são respectivamente a permissividade dielétrica estática ( )0ω → e para alta freqüência ( )ω → ∞ . A parte real e imaginária da permissividade dielétrica em função da freqüência angular são: ( )21 sε εε ε ωτ ∞ ∞ −′ = + + [2.8] ( )21 sε εε ωτ ωτ ∞−′′ = + [2.9] As Figuras 2.1a e 2.1b mostram as curvas da permissividade real e imaginária em função da freqüência associadas ao modelo de Debye. A permissividade real decresce do Capítulo 2 – Introdução Teórica 7 valor estático, εs, até o valor de alta freqüência, ε∞, e a curva da permissividade imaginária apresenta um pico de formato simétrico em relação à posição do seu máximo, denominado de pico de relaxação dielétrica, e a sua posição é determinada pela relação ω 1. Eliminando-se ω das equações da permissividade real e imaginária (equações 2.8 e 2.9) encontra-se que: ( ) 2 2 2 2 2 s sε ε ε εε ε −∞ ∞⎛ + ⎞⎛ ⎞ ⎛ ⎞′ ′′− + =⎜ ⎟⎜ ⎟ ⎜ ⎟ ⎝ ⎠ ⎝ ⎠⎝ ⎠ [2.10] que corresponde a equação de um círculo com raio 2 2 sR ε ε∞−⎛ ⎞= ⎜ ⎟ ⎝ ⎠ e o seu centro localizado nas coordenadas: 2 s s' ε εε ∞+⎛ ⎞= ⎜ ⎟ ⎝ ⎠ e ε" 0, como é mostrado na Figura 2.1c. 10-4 10-2 100 102 104 106 0 2 4 6 8 10 12 εs /ε0 f (Hz) ε ε'/ ε 0 8 (a) /ε 0 10-4 10-2 100 102 104 106 0 1 2 3 4 ε" /ε 0 f (Hz) (b) 0 2 4 6 8 10 0 2 4 8ε ε" /ε 0 ε'/ε0 R εs (c) Figura 2.1 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária em função freqüência e (c) o semicírculo no plano de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0 = 2, εs /ε0 = 10 e τ = 10-3 s. Capítulo 2 – Introdução Teórica 8 2.2.2. Equação de Cole-Cole Cole-Cole (CC) [8] modificaram a equação de Debye introduzindo o expoente (1 – α) no termo jωτ (0 ≤ α < 1) propondo assim uma equação empírica para descrever a permissividade dielétrica complexa. O objetivo foi interpretar resultados experimentais que não podiam ser descritos pelo modelo de Debye. A permissividade complexa é escrita como: A parte real é escrita como: ( ) ( ) ( ) ( ) 1 2 2 1 1 1 sen 2 1 sen cos 2 2 s α α α παε ε ωτ ε ε πα παωτ ωτ − ∞ ∞ − − ⎛ ⎞⎛ ⎞− + ⎜ ⎟⎜ ⎟⎝ ⎠⎝ ⎠′ = + ⎛ ⎞ ⎛ ⎞⎛ ⎞ ⎛ ⎞+ ⎜ ⎟ ⎜ ⎟⎜ ⎟ ⎜ ⎟⎝ ⎠ ⎝ ⎠⎝ ⎠ ⎝ ⎠ [2.12] e a parte imaginária: ( )11 s j α ε εε ε ωτ ∞ ∞ − − ∗ = + + [2.11] ( )( ) ( ) ( ) 1 2 2 1 1 cos 2 1 cos 2 2 s sen α α α παε ε ωτ ε πα παωτ ωτ − ∞ − − ⎛ ⎞− ⎜ ⎟ ⎝ ⎠′′ = ⎛ ⎞ ⎛ ⎞⎛ ⎞ ⎛ ⎞+ +⎜ ⎟ ⎜ ⎟⎜ ⎟ ⎜ ⎟⎝ ⎠ ⎝ ⎠⎝ ⎠ ⎝ ⎠ [2.13] Capítulo 2 – Introdução Teórica 9 10-4 10-2 100 102 104 106 0 2 4 6 8 10 12 α = 0,1 0,5 ε'/ ε 0 f (Hz) 0,8 (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 1 2 3 4 α = 0,1 0,5 0,8 f (Hz) ε" /ε 0 (b) 0 2 4 6 8 10 12 2 4 α = 0,1 0,5 0,8 ε" /ε 0 ε'/ε08ε εs (c) Figura 2.2 - (a) Curvas de permissividade real, (b) imaginária versus a freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0 = 2, εs /ε0 = 10 e τ = 10-3 s. Na Figura 2.2a são mostradas as curvas de permissividade real e na Figura 2.2b as curvas de permissividade imaginária em função da freqüência. As diferenças entre as curvas de CC e de Debye são que o pico da curva de ε” versus a freqüência se alarga quando α aumenta e a curva de ε’ real decresce mais suavemente com a freqüência. Como mostrado na Figura 2.2c se obtém um arco de círculo para ε” versus ε’ mas o centro do círculo está localizado em 2 2 s tgε ε παε ∞+⎛ ⎞′′ = −⎜ ⎟ ⎝ ⎠ e 2 sε εε ∞+′ = e seu raio é igual a sec 2 2 sR ε ε πα∞− = . Capítulo 2 – Introdução Teórica 10 2.2.3. Equação de Cole-Davidson Cole-Davidson (CD) [9] propuseram outro tipo de modificação da equação de Debye introduzindo que o termo (1 + jωτ) é elevado ao expoente β (0 < β ≤ 1), ou seja: ( )1 s j β ε εε ε ωτ ∞ ∞ − ∗ = + + [2.14] A parte real da permissividade elétrica é dada por: ( )cos coss βε ε ε ε ϕ ϕβ∞ ∞′ = + − [2.15] e a parte imaginária é dada por: ( )cos sens βε ε ε ϕ ϕβ∞′′ = − [2.16] As Figuras 2.3a e 2.3b mostram que as curvas da impedância real e imaginária são distintas das obtidas com os modelos anteriores. A curva de ε” versus a freqüência tem um pico assimétrico em relação ao seu máximo e saliente-se que o pico decresce mais suavemente no seu lado à direita. Além disto, como é mostrado na Figura 2.3c é ε” versus ε’ uma curva que não tem mais o formato de um arco de um semicírculo. Capítulo 2 – Introdução Teórica 11 10-4 10-2 100 102 104 106 0 2 4 6 8 10 12 0,9 0,5 β = 0,1 ε'/ ε 0 f (Hz) (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 1 2 3 4 0,1 0,5 β = 0,9 f (Hz) ε" /ε 0 (b) 0 2 4 6 8 10 12 2 4 0,1 0,5 β = 0,9 ε'/ε0 ε" /ε 0 8ε 8ε εs (c) Figura 2.3 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária versus da freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0=2, εs /ε0=10 e τ = 10-3 s. 2.2.4. Equação empírica de Havriliak-Negami Havriliak-Negami (HN) [10] propuseram uma equação empírica mais geral que englobou as equações CC e CD. A equação de HN é escrita como: ( )(1 )1 s j βα ε εε ε ωτ ∞ ∞ − − ∗ = + ⎡ ⎤+⎣ ⎦ [2.17] onde (1-α) e β são as duas constantes previamente definidas nas equações de CC e CD. Assim, o expoente α produz o alargamento da curva de ε’ enquanto que a constante β introduz a assimetria do pico na curva de ε”. No caso particular de 1β = a equação de HN se reduz a equação de Cole-Cole e se 0α = ela se reduz a equação de Cole-Davidson e quando 1β = e 0α = obtém-se a equação de Debye. Capítulo 2 – Introdução Teórica 12 As partes real e a imaginária de ε∗ são dadas como: ( ) coss M β ε ε ε ε βφ∞ ∞ − ′ = + [2.18] e ( ) sens M β ε ε ε ε βφ∞ ∞ − ′′ = + [2.19] onde M vale: ( ) ( ) 1 2 2 2 (1 ) (1 )1 cos sen 2 2 M α ααπ απωτ ωτ− −⎡ ⎤⎛ ⎞ ⎛ ⎞= + +⎢ ⎥⎜ ⎟ ⎜ ⎟ ⎝ ⎠ ⎝ ⎠⎢ ⎥⎣ ⎦ [2.20] onde o angulo φ é: (1 ) (1 ) ( ) cos( / 2)arctan 1 ( ) ( / 2)sen α α ωτ απφ ωτ απ − −= + [2.21] As Figuras 2.4a e 2.4b mostram respectivamente as curvas de impedância real e imaginária em função da freqüência. Na Figura 2.4c, as curvas de ε” versus ε’ apresentam formatos que dependem dos valores dos expoentes α e β. Capítulo 2 – Introdução Teórica 13 10-4 10-2 100 102 104 106 2 4 6 8 10 12 α = 0,1 e β = 0,8 α = 0,3 e β = 0,4 α = 0,6 e β = 0,3 ε'/ ε 0 f (Hz) (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 2 3 4 5 α = 0,1 e β = 0,8 α = 0,3 e β = 0,4 α = 0,6 e β = 0,3ε'/ ε 0 f (Hz) (b) 0 2 4 6 8 10 12 2 4 6 α = 0,1 e β = 0,8 α = 0,3 e β = 0,4 α = 0,6 e β = 0,3ε" /ε 0 ε'/ε0 8 ε 8 ε εs (c) Figura 2.4 - (a) Curvas da permissividade real, (b) imaginária versus da freqüência e (c) a curva de ε” versus ε’; onde ε∞ /ε0=2, εs /ε0=10 e τ =10-3 s. As funções de HN e os seus casos particulares (CC e CD) são freqüentemente utilizadas na interpretação de resultados experimentais de medidas dielétricas. Entretanto, essas funções são utilizadas também para representar elementos de impedância elétrica em circuitos elétricos equivalentes [6]. 2.3. FENÔMENOS NA INTERFACE METAL/LÍQUIDO Nas soluções iônicas os íons e as moléculas de água (no caso de solvente aquoso) estão em equilíbrio térmico e são submetidas a forças que na média temporal são independentes da direção e da posição no volume da solução iônica. Os dipolos permanentes das moléculas de água estão orientados aleatoriamente e os íons positivos e negativos são Capítulo 2 – Introdução Teórica 14 distribuídos uniformemente no volume da solução iônica e há neutralidade de cargas elétricas. Quando eletrodos são imersos na solução iônica cria-se a interface solução iônica/metal o que leva quebra da simetria na interface eletrodo/solução iônica e as forças nessa região se tornam anisotrópicas, provocando um rearranjo das moléculas e dos íons. Se o eletrodo for polarizado eletricamente os íons de carga contrária são atraídos para as suas proximidades gerando um excesso de íons na interface enquanto que o volume da solução iônica permanece neutro. Uma descrição simplificada da interface eletricamente carregada é descrita a seguir. O eletrodo polarizado eletricamente gera um campo elétrico o qual produz a orientação dos dipolos da água. Os íons solvatados são atraídos pelos eletrodos carregados e como mostrado na Figura 2.5 eles se depositam sobre a primeira camada de moléculas de água que estão imobilizadas e orientadas na superfície do eletrodo. A camada monomolecular de água sobre o eletrodo é denominada de camada de hidratação do eletrodo e a camada de íons solvatados formada na proximidade do eletrodo forma o plano externo de Helmholtz (PEH). A condição de equilíbrio na interface é atingida quando a densidade de íons do plano PEH for igual à densidade de cargas no eletrodo e como as densidades de cargas das camadas têm sinais opostos o campo elétrico fora das camadas de carga é praticamente nulo. Na literatura, essas duas camadas de cargas são denominadas de dupla camada de cargas e ela é, portanto, equivalente a um capacitor de placas paralelas. Capítulo 2 – Introdução Teórica 15 Figura 2.5 - Dupla camada de cargas formada na superfície do eletrodo. Na figura é mostrada a posição do plano externo de Helmholtz, PEH. De acordo com essa descrição simplificada formam-se duas camadas de cargas separadas por moléculas de água e a dupla camada tem a espessura d. O potencial elétrico ao longo da região da dupla camada varia linearmente com a posição relativa ao eletrodo e é nulo no volume da solução iônica. Em geral, a diferença de potencial sobre a dupla camada é da ordem de um volt e distância entre as camadas é da ordem de uma dezena de angstroms. Assim, o campo elétrico que atua sobre as moléculas de água da camada de hidratação é muito grande, da ordem de 107 Vcm-1. É interessante salientar que a densidade de cargas elétricas da dupla camada e a polarização elétrica resultante na camada de hidratação são dependentes da diferença de potencial aplicada aos eletrodos. Na literatura existem modelos mais elaborados que foram desenvolvidos por Gouy e Chapman (GOUY, 1903 e CHAPMAN, 1913 aput BOCKRIS, 1973, p.737) [13], Stern [14], Grahame [15] e Bockris, Devanathan e Müller [16] os quais são detalhadamente descritos em vários livros de eletroquímica [13,17,18]. Eles levam em conta outros detalhes do fenômeno de formação da dupla camada que não serão aqui descritos, pois as discussões realizadas neste trabalho serão baseadas no modelo simplificado de Helmholtz. Capítulo 2 – Introdução Teórica 16 2.4. CAPACITOR PREENCHIDO COM UM LÍQUIDO Descrevem-se de forma resumida os princípios e as equações dos modelos físicos para descrever os resultados obtidos em medidas de impedância complexa em função da freqüência de um capacitor plano preenchido com a solução iônica de água e o sal de KCl [19,20]. 2.4.1. Modelo de Becchi - camada de Helmholtz Seja um capacitor de placas paralelas preenchido por uma solução de KCl. Assume-se que os íons de potássio e de cloro possuem a mesma mobilidade e que sob uma diferença de potencial os íons migram para as proximidades da superfície do eletrodo formando a dupla camada de cargas [21]. Assume-se que os eletrodos não injetam cargas na solução, a condução elétrica no volume é ôhmica e que a densidade volumétrica de íons da solução é suficientemente grande e para que a sua densidade não varie quando os íons migram do volume para a superfície para formar as duplas camadas de cargas junto ao eletrodo. Supõe-se que a dupla camada possui constante dielétrica, , e resistência elétrica infinita. Portanto, no modelo de Becchi o capacitor é dividido em três regiões: duas duplas camadas de íons de espessuras L e o volume da solução iônica de espessura l e constante dielétrica . O cálculo da impedância complexa do capacitor é feito resolvendo-se as equações eletrostáticas unidimensionais [21]. As partes real e imaginária da impedância complexa do capacitor são escritas como: 2 ω /2 [2.22] e Capítulo 2 – Introdução Teórica 17 " ω /2 ω ω /2 [2.23] onde ε /l é a capacitância elétrica do volume, A é a área do eletrodo, / é a capacitância da dupla camada, βS = εSd/4μγqnL onde 1/γ =1+2(LεB)/dεS. Na constante βS, μ é a mobilidade dos íons na solução, q é a unidade de carga e n é a densidade dos íons na solução, os quais estão em equilíbrio termodinâmico na solução. As curvas de Z’ e Z” em função da freqüência são mostradas nas Figuras 2.6a e 2.6b. Elas foram obtidas utilizando os valores dos parâmetros fornecido no trabalho de Becchi et al. [19] para ajustar as curvas experimentais medidas com a solução de KCl. A Figura 2.6a mostra que a impedância real é constante na região de baixa freqüência e tende para zero no limite de alta freqüência. Na Figura 2.6b é mostrado que a curva de impedância imaginária apresenta um pico em alta freqüência e o valor da Z” diverge quando a freqüência tende para zero. Na Figura 2.6c mostra-se que a dependência de Z” com Z’ é caracterizado por um semicírculo ligeiramente deformado e uma reta vertical justaposta ao semicírculo. O semicírculo é determinado pelas características elétricas do volume da solução enquanto que a reta vertical do lado direito do semicírculo é devida a existência das duplas camadas de cargas formadas junto aos eletrodos do capacitor preenchido com a solução. Capítulo 2 – Introdução Teórica 18 10-1 101 103 105 107 0.0 0.5 1.0 1.5 Z' (k Ω ) f (Hz) (a) 10-1 101 103 105 107 1 2 3 4 5 - Z " (k Ω ) f (Hz) (b) 0.0 0.4 0.8 1.2 1.6 0.0 0.4 0.8 1.2 1.6 - Z " (k Ω ) Z' (kΩ) (c) Figura 2.6 - Curvas da impedância: (a) parte real Z’ e (b) parte imaginária Z” em função da freqüência, e (c) curva de impedância real versus imaginaria; onde β = 0,99, Cs = 42,63 μC2/N2m e CB = 0,1094 nC2/N2m. Este modelo descreve parcialmente os resultados experimentais obtidos [20] para a solução de KCl, pois no intervalo de 1 Hz a 10 MHz, as curvas experimentais mostram que a impedância real aumenta com a diminuição da freqüência (f < 100 HZ), fato este não previsto pelo modelo de Becchi. Por esta razão, Barbero et al. [20] propuseram outro modelo considerando a existência de fenômenos de adsorção e dessorção [13] de íons para descrever a formação da dupla camada. Capítulo 2 – Introdução Teórica 19 2.4.2. Modelo de Barbero - adsorção/dessorção No modelo alternativo proposto por Barbero et al. [20] os fenômenos de adsorção e dessorção de íons da solução são os responsáveis pela formação da camada de Helmholtz na superfície do eletrodo. Adsorção e dessorção descrevem a cinética de processos que produzem a acumulação de íons e moléculas com ou sem momento dipolares sobre uma superfície de um eletrodo metálico. A resolução do modelo de adsorção/dessorção [20] mostra que a admitância elétrica complexa, Y, é dada como: 0 2 cosh sinh 2 1 2 a dkq d dY j A P C i β τβ βω ε β ωτ ⎧ ⎫⎛ ⎞⎛ ⎞ ⎛ ⎞= − + +⎨ ⎬⎜ ⎟ ⎜ ⎟⎜ ⎟+⎝ ⎠ ⎝ ⎠⎝ ⎠⎩ ⎭ [2.24] onde 2 2 1 1 , , * 2 * 1 2( / ) D D D a d KT Nj n D n q k d λ εβ ω λ λ τ = + = = + [2.25] onde n* é a densidade de íons na presença de fenômenos de adsorção, d a distância entre os eletrodos, N densidade de íons no volume da solução iônica sem a presença do campo elétrico, as constantes ka e τd representam respectivamente os coeficientes de adsorção e de dessorção, D é o coeficiente de difusão, K é a constante de Boltzmann, T é a temperatura, ε é a constante dielétrica da solução e λD é o comprimento de Debye [20]. Os parâmetros P0 e C na equação 2.24 são determinados pelas equações: 0 * / ( )1 tanh( / 2) 0 1 ( / ) cosh( / 2) k n q KTd P j C i D d τβ β ωτ ω β β ⎧ ⎫+ − =⎨ ⎬+⎩ ⎭ [2.26] e Capítulo 2 – Introdução Teórica 20 02 12 sinh 2 2 2 q d dP Cβ εβ ⎛ ⎞− + =⎜ ⎟ ⎝ ⎠ [2.27] A Figura 2.7 mostra as curvas da parte real e imaginária de impedância elétrica em função da freqüência para as quais foram utilizados os valores dos parâmetros fornecidos no trabalho de Barbero et al. [20] para ajustar as curvas experimentais obtidas com a solução de água e KCl. Na Figura 2.7a é mostrado que na região de baixa freqüência há um aumento da amplitude na curva de Z’ quando a freqüência decresce. Na Figura 2.7b é mostrado que Z” cresce quando se diminui a freqüência e apresenta um pico em alta freqüência. Como discutido no trabalho de Barbero et al. [20] este modelo descreve os resultados experimentais para a solução de KCl pois ele leva ao aumento de Z’ quando a freqüência decresce. Na Figura 2.7c mostra-se a dependência de Z” versus Z’ obtendo-se também um semicírculo ligeiramente deformado e do lado direito do semicírculo tem-se uma curva com crescimento muito acentuado e não uma reta vertical como encontrado no modelo da seção anterior (veja Figura 2.6c). Capítulo 2 – Introdução Teórica 21 1 2 3 4 5 6 7 0.0 0.4 0.8 1.2 1.6 2.0 f (Hz) Z' ( kΩ ) (a) 1 2 3 4 5 6 7 0.0 0.4 0.8 1.2 1.6 2.0 - Z " (k Ω ) f (Hz) (b) 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 - Z " (k Ω ) Z' (kΩ) (c) Figura 2.7 - Curvas da impedância:(a) parte real Z’, (b)parte imaginária Z” em função da freqüência e (c) a impedância real versus a imaginária; onde D = 1,98x10-10 m2/s, ε = 78,5ε0, N = 2,02x1023 m-3, k = 3,65x10-7 (ms)-1, τ = 0,02 s e d = 2,03x10-3 m. As curvas das Figuras 2.7 foram obtidas utilizando os valores dos parâmetros dos modelos que permitiram descrever as curvas experimentais da impedância da solução de KCl. Por esta razão as curvas apresentadas na Figura 2.7 representam com boa precisão os resultados experimentais obtidos utilizando a solução de KCl [20] no intervalo de freqüência de 1 Hz a 10 MHz. 2.5. CIRCUITOS EQUIVALENTES Uma abordagem comum em medidas de impedância é ajustar os resultados com de um circuito elétrico equivalente com aqueles obtidos experimentalmente para descrever o Capítulo 2 – Introdução Teórica 22 comportamento do sistema físico. Os circuitos equivalentes são importantes para o entendimento dos fenômenos elétricos que ocorrem no sistema em estudo. 2.5.1. Circuito equivalente ao modelo de Becchi - Helmholtz Considerando as hipóteses feitas no modelo de Becchi descrito na secção 2.4.1, o volume da solução iônica pode ser representado por um capacitor em paralelo com um resistor, que é o modelo de Maxwell para um material dielétrico que apresenta uma condução do tipo ôhmica. Por outro lado, no modelo de Becchi foi assumido que a dupla camada de Helmholtz [19] se comporta como um capacitor ideal. Assim, o capacitor com a solução iônica pode ser representado pelo um circuito elétrico mostrado na Figura 2.8, onde R1 e C1 são a resistência e a capacitância do volume da solução e C2 representa a soma das duas capacitâncias das duplas camadas de Helmholtz que se formam junto aos eletrodos. Figura 2.8 - Circuito elétrico equivalente do modelo de Becchi - Helmholtz. A impedância elétrica do circuito da Figura 2.8 é escrita como: 1 ω ω 1 ω 1 ω [2.28] onde a parte real da impedância elétrica é: Capítulo 2 – Introdução Teórica 23 1 ω [2.29] e a parte imaginária é: " ω 1 ω 1 ω [2.30] As curvas da impedância real e imaginária versus a freqüência são mostradas nas Figuras 2.9a e 2.9b. Para se melhor compreender o comportamento do circuito as figuras mostram as curvas variando-se o valor de C2 nas condições C2 < C1, C2 = C1 e C2 > C1. A Figura 2.9a mostra que as curvas de Z’ versus a freqüência não dependem do valor de C2 (veja a equação 2.29) e valor de Z’ é constante em baixa freqüência. As curvas de Z” mostram um comportamento dependente do valor de C2. Na condição de C2 > C1 vê-se que se reproduz os resultados mostrados na Figura 2.6b obtidos com o modelo de Becchi considerando a dupla camada de Helmholtz (seção 2.4.1). A Figura 2.9c mostra a dependência de Z” versus Z’ para os diferentes valores de C2 e no caso em que C2 > C1 este circuito reproduz a forma da curva do modelo de Becchi, um semicírculo justaposto a uma reta vertical. Capítulo 2 – Introdução Teórica 24 10-4 10-2 100 102 104 106 0 1 2 3 4 5 Z' ( kΩ ) f (Hz) C2=10-10 F 10-9 F 10-6 F (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 2 4 6 8 10 C2=10-10 F 10-9 f (Hz) - Z " (k Ω ) 10-6 (b) 0 2 4 6 8 10 0 2 4 6 8 10 C2=10-10 F 10-9 10-6 - Z " (k Ω ) Z' (kΩ) (c) Figura 2.9 - (a) Curvas da impedância real e (b) imaginária em função da freqüência, e (c) o semicírculo de Z”versus Z’; onde R = 5 kΩ e C1 = 0,1 nF. 2.5.2. Circuito equivalente com o elemento de Havriliak-Negami (HN) Como será mostrado no capítulo 4 as curvas experimentais da impedância imaginária da solução de KCl obtidas no intervalo de freqüência de 0,1 mHz a 10 MHz apresentam um pico em muito baixa freqüência (em torno de 10 mHz). Este comportamento não é previsto pelos modelos de Becchi e Barbero [19,20] os quais foram apresentados nas seções 2.4.1 e 2.4.2. Para interpretar a existência do pico na freqüência de 10 mHz propõe-se substituir o capacitor C2 do circuito equivalente da Figura 2.8 por um elemento de impedância de HN. Capítulo 2 – Introdução Teórica 25 Este elemento produz um pico na curva da impedância imaginária em função da freqüência. A impedância do elemento de HN é caracterizada por uma equação análoga à equação 2.17, proposta para a permissividade elétrica. Como um elemento de impedância a equação é escrita como: 1 ωτ [2.31] onde o valor de RHN é uma resistência elétrica, (1-α) e β são os expoentes de HN e τ é o tempo de relaxação e C é uma capacitância elétrica. A seguir é analisado o comportamento do circuito da Figura 2.10 em termos de parâmetros do circuito visando a sua aplicação para interpretar os resultados experimentais. Por esta razão serão usados valores de parâmetros que geram curvas de impedância com o formato similar às curvas experimentais que serão mostradas no capítulo 4, cuja característica principal é a separação entre as respostas para a região de baixa e de alta freqüência. Figura 2.10 - Circuito equivalente: circuito R1C1 em paralelo e em série com o elemento de HN. O resistor R1 e o capacitor C1 representam o volume da solução (resposta em alta freqüência) enquanto que o elemento de HN representa o comportamento da dupla camada de Helmholtz (resposta em baixa freqüência). Na região de alta freqüência se obtêm curvas que são equivalentes ao modelo de Becchi et al. da seção 2.4.1 e ao circuito da seção 2.5.1. As Figuras 2.11a e 2.11b mostram as curvas de Z’ e Z” versus a freqüência variando-se o valor do expoente β do elemento de HN (mantendo-se fixos os outros Capítulo 2 – Introdução Teórica 26 parâmetros do circuito e do elemento de HN). No limite de baixíssima freqüência Z’ tende para um valor constante, diminui até atingir um patamar e depois decresce para o valor nulo. As curvas de Z” versus a freqüência mostram um pico em baixa freqüência de formato assimétrico (β < 1) cuja amplitude e posição dependem do valor de β. Saliente-se que o valor de β afeta a assimetria do pico levando a uma curva com variação mais suave no seu lado à direita. 10-4 10-2 100 102 104 106 0.0 0.1 0.2 0.3 0.4 β = 1 f (Hz) Z' ( M Ω ) 0,8 0,6 (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 20 40 60 80 100 0,6 - Z " ( k Ω ) f (Hz) β = 1 0,8 (b) Figura 2.11 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência; onde R1 = 50 KΩ, C1 = 10 pF, RHN = 300 KΩ, τ = 6 s e α = 0,7. A Figura 2.12 mostra as curvas de Z’ e Z” versus a freqüência variando-se a resistência RHN do elemento de HN e mantendo-se todos os outros parâmetros do circuito e do elementos de HN constantes. No limite de baixíssima freqüência o valor de Z’ é dependente do valor de RHN e as curvas de Z” mostram que a amplitude do pico em baixa freqüência aumenta de amplitude com RHN. Capítulo 2 – Introdução Teórica 27 10-4 10-2 100 102 104 106 0.1 0.2 0.3 0.4 RHN = 320 kΩ 280 f (Hz) Z' ( Μ Ω ) 300 (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 20 40 60 80 100 280 RHN = 320 kΩ f (Hz) - Z " ( k Ω ) 300 (b) Figura 2.12 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência; onde R1 = 50 KΩ, C1 = 2 pF, τ = 6 s, β = 1, α = 0,7. No circuito poder-se-ia variar também o tempo de relaxação τ e fixando os outros parâmetros do circuito equivalente, o que corresponde variar o valor de C mantendo-se RHN constante. Neste caso, nas curvas de Z” versus a freqüência (não mostradas) a posição do pico depende de C enquanto que a sua amplitude não varia. Na análise a seguir discute-se a variação dos parâmetros R1 e C1 do circuito que afetam a resposta na região de alta freqüência. Na Figura 2.13 mostra-se que as curvas de Z” apresentam picos de alta freqüência cuja posição e amplitude dependem do valor de R1. As curvas de Z’ mostram que o valor de Z’ no patamar, região de freqüência intermediária, é dependente de R1, fato este esperado pois R1 representa a resistência elétrica do volume da solução iônica. O aumento do valor de C1 provoca o deslocamento do pico de alta freqüência na curva de Z” para freqüências menores sua amplitude permanece constante (resultados não apresentados). As amplitudes das curvas de Z’ decrescem em função da freqüência e elas se deslocam para a região de baixas freqüências quando se aumenta o valor de C. Capítulo 2 – Introdução Teórica 28 10-4 10-2 100 102 104 106 0 100 200 300 400 50 Z' ( kΩ ) f (Hz) R1=70 kΩ 60 (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 0 20 40 60 80 100 - Z " ( k Ω ) f (Hz) R1=70 kΩ 60 50 (b) Figura 2.13 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência, C1 = 2 pF, RHN = 300 KΩ, τ = 6 s, e α = 0,6.β = 1 As curvas apresentadas para o circuito com o elemento de HN foram obtidas para a condição na qual as respostas em alta e baixa freqüência do circuito são independentes, isto é, o circuito R1C1 fornece a resposta em alta freqüência enquanto que o elemento de HN fornece a resposta em baixa freqüência. 2.5.3. Circuito equivalente com o elemento de fase constante (CPE) O elemento CPE (constant-phase distribution element) [22] é usado em circuitos elétricos equivalentes para ajustar os dados experimentais de impedância. O comportamento de CPE geralmente é atribuído a reatividade distribuída da superfície, a não homogeneidade de superfície, aspereza ou geometria de fractal, porosidade de eletrodo, e às distribuições de corrente e potenciais associada com a geometria de eletrodo [23]. O elemento CPE é definido pela equação: 1 [2.32] onde T e P são duas constantes. Se P = 1, o elemento CPE atua como um capacitor, se P = 1 Capítulo 2 – Introdução Teórica 29 o elemento CPE atua como um resistor, se P = 0,5 uma linha inclinada de 45º é produzida no diagrama de Z” versus Z’. Quando o elemento CPE é colocado em paralelo com um resistor produz se um semicírculo no diagrama de Z” versus Z’, que corresponde ao elemento de Cole [8]. Geralmente, o CPE é usado em um circuito em substituição a um capacitor a fim de compensar eventuais heterogeneidades no sistema. Como por exemplo, uma superfície rugosa ou porosa pode originar o aparecimento de uma capacitância de dupla camada com um elemento de fase constante com um valor de P entre 0,9 e 1. Na Figura 2.14 mostra se o circuito elétrico equivalente RC com elemento CPE: Figura 2.14 - Circuito equivalente: circuito R1C1 em paralelo e em série com o elemento CPE. O resistor R1 e o capacitor C1 representam o volume da solução (resposta em alta freqüência), como já foi discutido anteriormente, enquanto que o elemento CPE representa o comportamento em baixa freqüência. Nas Figuras 2.15a e 2.15b são mostradas as curvas de Z’ e Z” versus a freqüência variando-se o valor da constante T do elemento CPE (mantendo-se fixos os outros parâmetros do circuito e do valor de P do CPE). Na região de baixa freqüência (< 100 Hz) Z’ varia linearmente com a freqüência (em escala logarítmica) e seu valor, para uma determinada freqüência, diminui com o aumento da constante T. As curvas de Z” versus a freqüência mostram o mesmo comportamento linear na região de baixa freqüência (< 1 kHz) e o valor de Z” também diminui com o aumento da constante T. Capítulo 2 – Introdução Teórica 30 10-4 10-2 100 102 104 106 100 103 106 109 T=10-9 T=10-8 f (Hz) Z' (Ω ) T=10-10 (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 101 104 107 1010 (a) T=10-8 T=10-9 T=10-10 f (Hz) - Z " (Ω ) Figura 2.15 - Curvas de impedância (a) real e (b) imaginária versus a freqüência, R1 = 10 kΩ, C1 = 0,1 nF, P = 0,77. Quando se aumenta o valor de P (0 ≤ P ≤ 1) (mantendo-se fixos os outros parâmetros) tem se o aumento da inclinação da reta em baixa freqüência com seu deslocamento para alta freqüência, tanto para a parte real como para a parte imaginária. O embasamento teórico apresentado neste capítulo é de extrema importância pois é através dos modelos empíricos (Debye, CC, CD e HN) e do modelos fenomenológicos como o de Becchi e Barbeiro permitirá, nos capítulos 4 e 5, a interpretação dos resultados experimentais. Outra forma de se estudar o comportamento físico de um sistema é se utilizar circuitos elétricos equivalentes que permite obter os parâmetros do circuito para interpretar os fenômenos físicos. Capítulo 2 – Introdução Teórica 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] BARTNIKAS, R. Engineering Dielectrics. Vol II B. Baltimore: American Society for Testing and Materials, 1987. [2] DORF, R.C.; SVOBODA, J.A. Introdução aos Circuitos Elétricos. 5ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2003. [3] CHATTERJEE, S.; KUO, Y.; LU, J. Thermal annealing effect on electrical properties of metal nitride gate electrodes with hafnium oxide gate dielectrics in nano-metric MOS devices. Microelectronic Engineering, v. 85, p. 202–209, 2008. [4] PINGREE, L.S.C. et al. 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Capítulo 3 – Materiais e Métodos 33 CAPÍTULO 3 – MATERIAIS E MÉTODOS Neste capítulo são apresentados os materiais utilizados nos experimentos, a técnica de medida da impedância e os programas computacionais utilizados para controlar as medidas e interpretar os resultados experimentais. Nas seções de 3.1 a 3.4 são apresentadas as metodologias de preparação das soluções e misturas e os tipos capacitores utilizados nas medidas. Nas seções 3.5 e 3.6 são descritos o analisador de impedância elétrica e as condições experimentais nas quais foram realizadas as medidas de impedância com os capacitores interdigitado e de placas paralelas. Finalmente na seção 3.7 é apresentado o programa ZView, o qual foi utilizado para analisar as curvas experimentais de impedância. 3.1. SOLUÇÃO DE KCL Para preparar soluções iônicas foi utilizado o cloreto de potássio, Sigma Aldrich, e a água ultrapura Milli-Q obtida do sistema de purificação Millipore “Direct-Q System”. Esse sistema produz água com resistividade de 18,2 MΩcm a 25 ºC e teor de carbono (TOC) menor que 10 ppb. Foram preparadas soluções de KCl com as concentrações de 0,3, 0,45, 0,6, 0,75 e 0,9 mmolL-1, onde a massa molecular do KCl (74,56 gmol-1). Para medir a massa de KCl foi utilizada uma balança analítica da Mettler Toledo, modelo AB204-S, com precisão de 0,1 mg. Antes da preparação da solução a vidraria foi lavada com água e detergente, enxaguada com água destilada e seca. Capítulo 3 – Materiais e Métodos 34 3.2. MISTURA DE ETANOL E ÁGUA Na preparação de misturas etanol/água foi utilizado o etanol absoluto PA, da Merck, com 99,9% de pureza e a água Milli-Q ultrapura obtida do sistema de purificação “Direct-Q System”. As misturas de etanol e água foram preparadas com o volume total de 100 mL. Os volumes dos líquidos foram medidos usando-se uma proveta de 100 mL graduada em 1 mL. Nos cálculos das porcentagens das misturas, se for assumido que o etanol etílico absoluto possui 0,1% de água como principal tipo de impureza, dever-se-ia considerar esse porcentual. Entretanto, por ser menor que o erro na determinação do volume com a proveta, esta porcentagem de impurezas foi desprezada. 3.3. CAPACITOR DE ELETRODOS INTERDIGITADOS O capacitor interdigitado foi fabricado pelo Centro de Pesquisa Renato Archer – CenPRA [2]. Na Figura 3.1 é mostrada a fotografia do capacitor interdigitado e como mostrado no desenho esquemático da Figura 3.2, ele possui dois micro-eletrodos com 50 dígitos, de 5 mm de comprimento o espaçamento é de 10 μm, largura de 10 μm e espessura de 100 nm. Os micro-eletrodos são de ouro e foram depositados sobre uma lâmina de vidro de dimensões de 20x5x2 mm. Figura 3.1 - Fotografia do capacitor interdigitado. No lado direito são mostrados os dois contatos elétricos e no lado esquerdo os micro-eletrodos interdigitados. Capítulo 3 – Materiais e Métodos 35 Antes de cada medida os micro-eletrodos foram previamente limpos com solução sulfocrômica, enxaguados em água Milli-Q e secos em fluxo de nitrogênio. (a) (b) w = 10 μm, largura do dígito g = 10 μm, espaçamento entre os dígitos h = 100 nm, espessura do dígito Figura 3.2 - (a) Vista em perspectiva e (b) corte lateral do capacitor interdigitado. Para a realização da medida de impedância elétrica o capacitor interdigitado foi inserido em um conector elétrico preso na tampa do recipiente da solução o qual também permitiu fazer a conexão com o analisador de impedância. O capacitor interdigitado foi imerso na mistura de etanol/água contida em um recipiente cuidadosamente fechado para evitar a evaporação do etanol durante a medida. Durante as medidas a temperatura foi mantida constante em (22,0 ± 0,5) ºC. 3.4. CAPACITOR DE PLACAS PARALELAS O capacitor de placas paralelas é composto de duas placas circulares de latão recobertas com ouro depositado eletro quimicamente. O diâmetro dos eletrodos é de 2 cm e a distância entre eles varia entre 1 a 2 mm, dependendo do experimento. A relação entre o diâmetro do eletrodo e a distância de separação entre eles deve ser muito grande para minimizar o efeito de borda. O invólucro do capacitor foi construído em poli(metil Capítulo 3 – Materiais e Métodos 36 metacrilato) e possui um anel de borracha para vedação. Assim, a solução foi mantida dentro do sistema evitando a evaporação do etanol. Na Figura 3.3 são mostradas duas fotografias do sistema de capacitor de placas paralelas. A Figura 3.3a mostra sistema pronto para o uso e a Figura 3.3b mostra o sistema com os eletrodos de placas paralelas separados. (a) (b) Figura 3.3 - Fotografia do capacitor de placas paralelas. Antes de se realizar uma medida o capacitor foi lavado utilizando água e detergente, enxaguado com água Milli-Q e seco com fluxo de gás nitrogênio. Após o capacitor ter sido preenchido com o líquido e fixado através dos parafusos (veja Figura 3.3) ele foi envolvido em uma gaiola de faraday a qual foi conectado ao terra dos equipamentos para minimizar interferências de ruídos nas medidas. A temperatura durante as medidas foi mantida constante em (22,0 ± 0,5) oC. 3.5. O ANALISADOR DE IMPEDÂNCIA As medidas por espectroscopia de impedância elétrica foram realizadas usando-se o analisador de impedância Solartron, modelo SI 1260A, mostrado na Figura 3.4. Ele opera na Capítu faixa altern parâm (veja eleva inter interm foram Fig etano tensã temp nece most ulo 3 – Materi a de freqüên nada, permi metros da m a Figura 3.4 ado (até 100 face 1296A mediários ( m conectado gura 3.4 - Ana com As ol/água fora ão ac de am po de integr ssário para traram que ais e Métodos ncia de 10 μ ite a aplicaç medida. O a 4), o qual é u 0 TΩ) quand A garante (de 10 a 10 os a um mic lisador de imp paredes de is medidas de am realizada mplitude de ação é um p realizar um o tempo co s μHz a 32 M ção de uma analisador p um amplific do compara maior prec 00 MΩ). O cro computa pedâcia Solar solador térmic e impedânc as na faixa e 60 mV, s parâmetro im ma medida. orresponden Hz, possibi tensão dc d pode ser ac cador que p ado com o S cisão para analisador ador através rtron 1260A a co para mante cia com as de freqüên sem tensão mportante p Testes cuid nte a um pe ilita a escolh de polarizaç oplado à in permite med Solartron 12 as medida de impedâ s de uma int coplado a inte er a temperatu s soluções cia de 0,1 m de polariz para garanti dadosos, va eríodo do si ha da ampli ão e ainda p nterface diel dir uma imp 260A (até 10 as de impe ância 1260A terface GPI erface 1296A ura da amostr de KCl e mHz a 10 M zação dc. E ir a precisão ariando-se o inal aplicad itude da ten podem-se v létrica, mod pedância de 00 MΩ). Al edâncias co A e a interf B. e o reservató ra constante. com as m MHz aplican Em baixa fr o e determin o tempo de do é suficie nsão elétrica ariar outros delo 1296A e valor mais lém disto, a om valores face 1296A rio de água misturas de ndo-se uma reqüência o nar o tempo integração, ente para se 37 a s A s a s A e a o o , e Capítulo 3 – Materiais e Métodos 38 obter as medidas de impedâncias com boa precisão. Usando-se apenas um período do sinal como tempo de integração, a duração do experimento para se medir a impedância elétrica na faixa de 0,1 mHz até 10 MHz é de aproximadamente 28 horas. 3.5.1. Medidas de espectroscopia de impedância sem a interface 1296A Para realizar as medidas de espectroscopia de impedância elétrica com o analisador Solartron 1260A, sem o uso da interface 1296A, foi utilizado o programa ZPlot (Scriber Assoc. Inc.) [3] que permite ao usuário programar todas as funções do analisador de impedância. O programa ZPlot deve ser configurado antes de cada medida especificando os parâmetros experimentais. A janela gráfica do programa ZPlot é mostrada na Figura 3.5. Figura 3.5 - Janela principal do programa ZPlot. Capítulo 3 – Materiais e Métodos 39 3.5.2. Medidas com a interface 1296A A interface 1296A é um amplificador que permite estender a faixa de operação do Solartron 1260A para valores maiores de impedância elétrica [4]. Neste trabalho ela permitiu realizar as medidas em freqüências de até 0,1 mHz aonde o valor da impedância do capacitor pode chegar a 10 MΩ que é muito elevado para ser medido com boa precisão sem o uso da interface 1296A. Para realizar as medidas com o Solartron acoplado a interface 1296A, foi utilizado o programa da Solartron “Impedance Measurement Software” cuja janela é mostrada na Figura 3.6. Os recursos deste programa são similares aos existentes no programa ZPlot. Figura 3.6 - Janela principal para programação da interface 1296A. Capítulo 3 – Materiais e Métodos 40 3.6. PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS PARA A REALIZAÇÃO DE MEDIDAS 3.6.1. Controle de Temperatura Para se manter a temperatura constante durante as medidas de impedância a primeira tentativa foi utilizar um banho termostático. O circuito elétrico do controlador de temperatura induz ruídos que inviabilizaram o uso deste tipo de equipamento. Para resolver este problema, o sistema com o capacitor de placas paralelas (ou o recipiente fechado com o capacitor interdigitado) foi mergulhado em água contida dentro de um reservatório de 20 litros e isolado termicamente com paredes de isopor. Como a massa de água tem uma inércia térmica grande conseguiu-se obter, durante um período de dezena de horas, temperatura com uma variação de aproximadamente ±0,5 ºC, mesmo que a temperatura da sala variasse alguns graus. Como cada medida durou mais de um dia para ser realizada, a temperatura foi monitorada e quando necessário o seu valor foi corrigido adicionando-se água mais quente ou mais fria que a existente no reservatório. 3.6.2. Configurações de uso dos equipamentos e conexões Como será mostrado nos capítulos 4 e 5, foi necessário realizar as medidas de impedância até a freqüência de 10 MHz. Entretanto, na faixa de freqüência de 1 a 10 MHz as medidas do Solartron 1260A (com ou sem a interface 1296A) não produzem resultados confiáveis quando se usa cabos coaxiais na configuração padrão dos aparelhos [4]. Para sanar este problema de operação do Solartron foi necessário se utilizar o casador de impedância Capítulo 3 – Materiais e Métodos 41 representado na Figura 3.7 [5] que foi construído colocando-se os resistores no interior de uma pequena caixa metálica. Figura 3.7 - Casador de impedância utilizado com o analisador de impedância Solartron1260A para realizar medidas na faixa de freqüência entre 1 a 10 MHz. Como o casador de impedância só pode ser utilizado acima da freqüência de 1 MHz todas as medidas foram realizadas em duas etapas. Na primeira mediu-se a impedância na faixa de freqüência de 0,1 mHz a 1 MHz usando-se cabos coaxiais com a conexão padrão do Solartron (ou da interface) e na segunda etapa na faixa freqüência de 1 a 10 MHZ usou-se o casador de impedância para conexão da amostra. Após a conclusão das medidas usou-se o programa ZView para justapor os resultados contidos nos dois arquivos em um único para se obter as curvas da impedância na faixa de 0,1 mHz a 10 MHz. Na Tabela 3.1 mostram-se as configurações experimentais utilizadas para a realização das medidas das soluções de KCl e das misturas etanol/água com os capacitores interdigitado e de placas paralelas. Capítulo 3 – Materiais e Métodos 42 Tabela 3.1 - Configurações experimentais utilizadas nos experimentos. Tipo de capacitor Faixa Freqüência Configuração Experimental Água e KCl Capacitor de placas paralelas 1 a 10 MHz Solartron e casador 0,1 mHz a 1 MHz Solartron e interface Etanol e água Capacitor interdigitado 1 a 10 MHz Solartron e casador 0,1 Hz a 1 MHz Solartron 0,1 mHz a 0,1 Hz Solartron e interface Capacitor de placas paralelas 1 a 10 MHz Solartron e casador 0,1 mHz a 1 MHz Solartron e interface 3.7. SOFTWARE ZView O ZView é um programa fornecido pelo fabricante para permitir o monitoramento da medida de impedância em tempo real e analisar os resultados experimentais. A janela de acesso ao programa é mostrada na Figura 3.8. O programa é baseado no Microsoft Windows e permite mostrar de forma gráfica, analisar e exportar os resultados experimentais. Figura 3.8 - Janela do programa ZView para mostrar as curvas da parte real, Z’, e da parte imaginária, Z”, da impedância versus a freqüência. Na esquerda é para mostrar a curva de Z”versus Z”. O programa ZView é muito prático pois permite ao usuário visualizar os resultados mostrando vários tipos de variáveis elétricas das medidas de impedância, tais Capítulo 3 – Materiais e Métodos 43 como: capacitância, condutância, admitância e módulo da impedância e a fase entre a tensão e a corrente elétrica. Outra opção é apresentar os resultados em termos de componentes de circuitos equivalentes (veja Tabela 3.2). Por exemplo, usando-se o método de circuito equivalente RC são fornecidos os valores da resistência R e da capacitância elétrica C do capacitor (o valor de C é a parte real da capacitância e igual à calculada pela expressão 2.5). Tabela 3.2 - Principais variáveis elétricas do programa ZView. Método de Medida Coordenadas Representa Impedância (Z’,Z”) Parte real e imaginária (|Z|,theta) Magnitude e o ângulo de fase da impedância (Y', Y'') Admitância real e imaginária (|Y|, theta) Magnitude e o ângulo de fase da admitância (M',M'') Modulo real e imaginária (E',E'') Permissividade dielétrica real e imaginária (|E|,theta) Magnitude e o ângulo de fase da permissividade (|E|,tanδ) Magnitude e o tangente de perda da permissividade Circuitos equivalentes (C,R) Capacitância e resistência (C,Q) Capacitância e fator de qualidade (C,D) Capacitância e dissipação (L,R) Indutância e resistência (L,Q) Indutância e fator de qualidade (L,D) Indutância e dissipação Como mostrada na janela da Figura 3.9, o programa ZView apresenta duas possibilidades para o estudo de circuitos elétricos: a simulação da resposta elétrica de um circuito e a modelagem dos resultados experimentais com o uso de um circuito equivalente. Escolhendo-se um determinado circuito, o programa ZView permite ajustar as curvas de resposta do circuito à curva obtida experimentalmente. Os parâmetros do circuito podem ser mantidos fixos a valores pré-determinados ou deixados para variar livremente durante o ajuste (se deve fornecer apenas o valor inicial). Capítulo 3 – Materiais e Métodos 44 Figura 3.9 - Janela de exibição do “circuito” e entrada de informações para a simulação e ajuste de curvas com o programa ZView. Na Figura 3.9 mostra-se a janela que permite a definição dos parâmetros e controle do processo de ajuste. Pode-se também escolher o intervalo de freqüência a ser usado no ajuste o que é muito útil, pois se pode simplificar o circuito com o objetivo de se analisar a resposta experimental em determinadas regiões de freqüência. No lado direito da janela mostrada na Figura 3.9, o programa fornece o valor do desvio padrão do ajuste de cada parâmetro (e o seu valor percentual) e o valor do desvio padrão do ajuste (coeficiente “Chi- quadrado”). Capítulo 3 – Materiais e Métodos 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] BROWN, T.L. et al. Química a Ciência Central, 9ª Ed., São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. [2] Disponível no site . Acessado em 20/07/2008. [3] Software ZPlot e ZView. Disponível no site . Acessado em 01/12/2007. [4] Manual operacional 1260 Impedance/Gain-Phase Analyzer. Solartron analytical, 2001. [5] Manual operacional do ZPlot e do ZView para Windows, Electrochemical Impedance Software. Version 2.6. Scribner Associates, Inc.: 2001. Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 46 CAPÍTULO 4 – RESULTADOS E DISCUSSÕES – SOLUÇÃO DE KCl Neste capítulo são apresentados os resultados de medidas de impedância elétrica obtidos para a solução de KCl. Elas foram realizadas no intervalo de freqüência de 0,1 mHz a 10 MHz e mostram a existência de um pico, em torno de 10 mHz, nas curvas de Z” versus a freqüência. A existência deste pico ainda é desconhecida na literatura pois nos trabalhos publicados as medidas foram feitas na faixa de freqüência de ~1 Hz a 10 MHz [1,2,3]. A interpretação dos resultados é feita utilizando-se um circuito equivalente, uma prática corrente neste tipo de estudo quando se busca a interpretação semi-empírica. Será mostrado que o circuito equivalente com um elemento de Cole-Cole é consistente com as propriedades esperadas do capacitor preenchido com a solução de KCl. Na seção 4.1 apresenta-se a reprodutibilidade das medidas de impedância, na seção 4.2 apresentam-se os resultados, na seção 4.3 a análise dos resultados e na seção 4.4 apresentam-se as conclusões. 4.1. REPRODUTIBILIDADE DAS MEDIDAS DE IMPEDÂNCIA Para se avaliar a reprodutibilidade das medidas de impedância elétrica foi investigada a sua dependência com o tempo de imersão dos eletrodos na solução, que é principal causa de erros neste tipo de medida [4]. As medidas foram iniciadas após o preenchimento do capacitor com a solução e são apresentados apenas os resultados obtidos Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 47 para a solução de KCl com a concentração de 0,6 mmolL-1 uma vez que os resultados para outras concentrações foram muito semelhantes. 100 102 104 106 101 102 103 104 105 0 10 20 30 40 360 362 364 366 368 370 Tempo de medida (min) Z' ( Ω ) 0 min 5 10 15 20 25 30 35 40 Z' (Ω ) f (Hz) (a) 100 102 104 106 10-2 10-1 100 101 (b) 0 min 5 10 15 20 25 30 35 40 - Z " (k Ω ) f (Hz) Figura 4.1 - (a) Curvas de impedância real e (b) imaginária em função da freqüência para solução de KCl para diferentes valores de tempo. No detalhe da figura (a) é mostrado as curvas de Z’ em função do tempo em minutos para freqüência de 100 Hz. Na Figura 4.1 são mostradas as curvas de Z’ e Z” versus a freqüência. Como as curvas são praticamente coincidentes, na detalhe da Figura 4.1a são mostrados os valores de Z’ em função do tempo para a freqüência de 100 Hz. Os resultados mostram que Z’ varia muito pouco após tempo de imersão de 15 minutos e nota-se que a variação dos valores é da ordem de 1% em relação ao valor inicial, fato este muito adequado para os experimentos. Com objetivo de se garantir a máxima reprodutibilidade, após o capacitor ter sido preenchido com a solução, sempre se aguardou pelo menos 15 minutos antes de se iniciar as medidas de impedância. Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 48 4.2. RESULTADOS DAS MEDIDAS DE IMPEDÂNCIA Nesta seção são apresentados os resultados de medidas utilizando as soluções com diferentes concentrações de KCl, entre 0,3 a 0,9 mmolL-1. As medidas foram realizadas apenas para o capacitor de placas paralelas, pois um dos interesses é comparar os resultados obtidos anteriormente por Becchi et al. [5] e Barbero et al. [6,7], os quais foram descritos na seção 2.4. Além disto, os valores das concentrações de KCl utilizados nas nossas medidas foram escolhidos por serem próximos ao valor de 0,6 mmolL-1, o qual foi utilizado nos trabalhos acima citados. A Figura 4.3 mostra as curvas da impedância elétrica real e imaginária em função da freqüência para as soluções no intervalo de freqüência de 0,1 mHz a 10 MHz. A Figura 4.3a mostra que o valor de Z’, em baixa freqüência, diminui com o aumento da freqüência, a curva apresenta um patamar na região de freqüência intermediária (100 Hz a 1 MHz) e tende para o valor nulo para alta freqüência. Na Figura 4.3a ilustra-se também que o patamar das curvas de Z’ tem amplitude decrescente com a concentração de KCl. A Figura 4.3b mostra que as curvas de Z” apresentam dois picos. O primeiro em torno da freqüência de 1 MHz (denominado de pico de alta freqüência) e o segundo pico em torno de 10 mHz (denominado de pico de baixa freqüência). O detalhe da Figura 4.3b mostra que a amplitude do pico de baixa freqüência aumenta com a concentração de KCl e é assimétrico em relação a posição do seu máximo, pois apresenta uma variação mais suave no seu lado esquerdo. Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 49 10-4 10-2 100 102 104 106 101 102 103 104 105 106 Z' (Ω ) 0,3 mMolL-1 0,45 0,6 0,75 0,9 f (Hz) (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 101 102 103 104 105 106 10-4 10-2 100 102 0 20 40 60 80 100 120 140 f (Hz) - Z" (k Ω ) f (Hz) 0,3 mMolL-1 0,45 0,6 0,75 0,9 - Z" (Ω ) (b) Figura 4.2 - (a) Curvas de impedância elétrica real, Z’, (b) impedância elétrica imaginária, Z” versus a freqüência: para a solução de KCl. No detalhes da figura (b) são mostradas as curvas de Z” em escala linear para realçar o pico na freqüência de 1 mHz. Na Figura 4.4 são mostrados que as curvas de Z” versus Z’ são semicírculos ligeiramente deformados que correspondem aos resultados da região de alta freqüência e quanto maior for a concentração de KCl na solução menor é o raio do semicírculo. A região de baixa freqüência corresponde às curvas que aparecem justapostas à direita dos semicírculos. Os semicírculos interceptam o eixo Z” = 0 na freqüência de 10 MHz a esquerda e em ~30 kHz a direita. A Figura 4.3a mostra que a freqüência de 30 kHz corresponde à posição mediana do patamar e delimita, portanto, as regiões de baixa e alta freqüência nas medidas de impedância. Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 50 0 200 400 600 800 1000 0 200 400 600 800 1000 0,3 mMolL-1 0,45 0,6 0,75 0,9 - Z " (Ω ) Z' ( Ω ) Figura 4.3 - Curvas de impedância elétrica Z” versus Z’ para a solução de KCl com diferentes concentrações. 4.3. ANÁLISE DAS CURVAS EXPERIMENTAIS Como discutido na seção 2.5.1 a resposta em alta freqüência do capacitor com a solução iônica é devida ao volume da solução enquanto que a resposta em baixa freqüência é devido à dupla camada de Helmholtz formada próxima a superfície do eletrodo [8,9,10]. A resposta em alta freqüência, portanto, pode ser representada por um capacitor e um resistor conectados em paralelo. Na seção 2.5.2 foram apresentadas as curvas de impedância do circuito equivalente com o elemento de Havriliak-Negami e como discutido a seguir, o circuito possui características adequadas para se analisar de forma empírica os resultados experimentais obtidos com a solução de KCl. As Figuras 2.11a a 2.13a mostram que as curvas de impedância real do circuito têm como comportamento: na região de baixa freqüência decrescem com o aumento da freqüência, apresentam um patamar na região de freqüência intermediária e tendem para zero na região de alta freqüência. Além disto, a Figura 2.13a mostra que o valor da impedância no patamar é proporcional ao valor da resistência R1 enquanto que os resultados experimentais mostram, de forma coerente, que a impedância cresce com a diminuição da concentração de Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 51 íons da solução (maior resistência elétrica). Portanto, os resultados experimentais de Z’ da Figura 4.3 mostram o mesmo tipo de comportamento das curvas do circuito. As Figuras 2.11b a 2.13b mostram que as curvas de impedância imaginária do circuito apresentam o pico de baixa e de alta freqüência. Nos resultados experimentais os picos de baixa freqüência tem amplitude crescente com a concentração de KCl que corresponde ao aumento da resistência RHN (veja Figura 2.12b). Nos resultados experimentais os picos de alta freqüência se deslocam para freqüências menores quando se diminui a concentração de KCl enquanto que a Figura 2.13b mostra, de forma coerente, que esse tipo de deslocamento ocorre quando se aumenta o valor de R1. É importante salientar que os pontos experimentais de Z” mostrados na Figura 4.3 e as curvas obtidas do circuito equivalente da Figura 2.10 mostram uma assimetria invertida no pico de baixa freqüência. No resultado experimental (Figura 4.3a) o pico tem variação mais suave no seu lado esquerdo enquanto que as curvas simuladas (Figura 2.11a) a assimetria é no lado direito do pico. Nos ajustes das curvas teóricas e experimentais verificou-se que o valor da constante β era sempre muito próximo de β = 1. Devido a essa assimetria invertida só é possível ajustar a curva teórica a um dos lados do pico da região de baixa freqüência. Por estas razões, o elemento de HN do circuito foi substituído pelo elemento de CC (β = 1), como mostrado no circuito da Figura 4.5. Figura 4.4 - Circuito equivalente RC em paralelo em série com o elemento de Cole-Cole. Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 52 A Figura 4.6 mostra um exemplo dos resultados experimentais (pontos) para a solução de KCl com a concentração de 0,3 mmolL-1 e a curva teórica obtida no ajuste (linha). A Figura 4.6a mostra que os pontos experimentais de Z’ se ajustam de forma adequada enquanto que na curva Z” o ajuste não é adequado na região esquerda do pico pois a equação de Cole-Cole prevê um pico simétrico. 10-4 10-2 100 102 104 106 101 102 103 104 105 106 0,3 mMolL-1 Ajuste Z' (Ω ) f (Hz) (a) 10-4 10-2 100 102 104 106 101 102 103 104 105 10-4 10-2 100 102 0 25 50 75 100 f (Hz) - Z ' ( kΩ ) (b) f (Hz) - Z " (Ω ) 0,3 mMolL-1 Ajuste Figura 4.5 - Impedância em função da freqüência para a solução de KCl. (a) parte real da impedância, (b) parte imaginária versus a freqüência. No detalhe da figura (b) é mostrado a curva de Z”e seu ajuste em escala linear para realçar o pico na freqüência de 1 mHz. Na Figura 4.7 mostra-se que o semicírculo teórico descreve razoavelmente os pontos experimentais de Z” versus Z’ e ocorre um afastamento maior do semicírculo teórico para os pontos experimentais no lado esquerdo (alta freqüência), quando comparado com o lado direito do semicírculo. O afastamento maior no lado esquerdo do semicírculo pode ser devido a imprecisão de medida do analisador Solartron em alta freqüência. Além disso, ocorre um grande afastamento da curva teórica justaposta a direita do semicírculo. Como o diâmetro do semicírculo é igual ao valor da resistência R1, a Figura 4.7 mostra que os pontos experimentais fornecem R1 ~850 Ω, o qual é um valor próximo ao que será obtido do ajuste das curvas de Z’ e Z” versus a freqüência (veja Tabela 4.1). Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 53 0 200 400 600 800 1000 0 200 400 600 800 1000 (c) 0,3 mMolL-1 Ajuste - Z " (Ω ) Z' (Ω) Figura 4.6 - Resultados de Z” versus Z’. Os círculos são os pontos experimentais e a linha é a curva ajustada. Na Tabela 4.1 mostram-se os valores dos parâmetros de ajuste das curvas e os correspondentes erros, quando todos os parâmetros do circuito foram deixados livres durante o ajuste das curvas teóricas com os pontos experimentais, exceto o valor de C1 que foi determinado diretamente das curvas de capacitância à freqüência de 200 kHz. Os valores dos desvios padrões (Chi2) para o ajuste das curvas teóricas são relativamente pequenos (< 0,1) para os valores de concentrações menores e para as concentrações mais elevadas são da ordem de 0,2. Os erros dos parâmetros ajustados foram da ordem de 3% exceto para o valor de τ, que é da ordem de 10%. Nota-se que a constante (1-α) é obtida com o menor erro, 1%, e a razão disso é que o seu valor depende essencialmente da largura e da amplitude do pico de baixa freqüência. Tabela 4.1 - Valores dos parâmetros e os erros relativos obtidos nos ajustes (água/KCl). Na última coluna mostra-se o desvio padrão dos ajustes. Os ajustes foram feitos deixando todos os parâmetros livres. Concentração (mmolL-1) R1 (Ω) Erro (%) C1 (pF) RC (kΩ) Erro (%) τ (s) Erro (%) 1-α Erro (%) Chi2 0,30 803 2 181 323 3 6,1 10 0,69 1 0,07 0,45 580 2 179 308 3 4,1 9 0,70 1 0,06 0,60 449 3 172 337 3 4,7 10 0,73 1 0,10 0,75 307 4 169 246 5 2,5 13 0,75 1 0,21 0,90 261 3 154 266 4 3,1 9 0,81 1 0,17 Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 54 Nos próximos parágrafos será mostrada a análise dos resultados encontrados nos ajustes, isto é, os valores dos parâmetros mostrados na Tabela 4.1. Na primeira parte serão discutidos os resultados de R1 e C1 referentes às propriedades do volume do capacitor (região de alta freqüência) e a seguir serão discutidos os resultados referentes à dupla camada (região de baixa freqüência). 4.3.1. Propriedades de Volume Na Figura 4.8a mostra-se que o valor da resistência R1 decresce em função da concentração de KCl em água. Este resultado é esperado, pois a condução elétrica depende da densidade de íons no volume do líquido, como mostrado a seguir. 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 R 1 ( kΩ ) Concentração de KCl (mM) (a) 0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 (b) R 1 ( kΩ ) 1/concentração (mM-1) Figura 4.7 - (a) Valores da resistência R1 versus a concentração, (b) Valores da resistência R1 versus o inverso da concentração. A condutividade elétrica da solução [11] é expressa por: σ 2 μ [4.1] Capítulo 4 – Resultados e Discussões – Solução de KCl e água 55 onde os sinais + e - indicam os valores das densidades e mobilidades dos íons positivos e negativos, e assumiu-se que n+ = n- = n e as mobilidades μ+ = μ- = μ. O valor de R1 é: 1 2 1 1 2 10 1 [4.2] onde c é a concentração em mol.L-1, NA é o número de Avogrado, n é a densidade, q é a carga elétrica e μ é a mobilidade dos íons na solução. A Figura 4.8b mostra que a dependência de R1 versus o inverso da concentração é linear, o que indica também que o valor da mobilidade é independente da concentração de íons. Conhecendo-se o valor de R1, da equação 4.2 determinou-se também o valor da mobilidade dos portadores e os resu