1 BENTÔ SOARES BATALHA Contando histórias e florescendo a vida: o encontro dos meninos Zezé, de O meu pé de laranja lima (1968) e Tistou, de O menino do dedo verde (1957) ASSIS 2025 2 BENTÔ SOARES BATALHA Contando histórias e florescendo a vida: o encontro dos meninos Zezé, de O meu pé de laranja lima (1968) e Tistou, de O menino do dedo verde (1957) Dissertação apresentada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis, para a obtenção do título de Mestre em Letras (Área de Conhecimento: Literatura e Vida Social). Orientadora: Daniela Mantarro Callipo Bolsista: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior - Brasi l (CAPES) - Código de Financiamento: 88887.973534/2024-00 ASSIS 2025 3 5 IMPACTO POTENCIAL DESTA PESQUISA Esta pesquisa visa contribuir e agregar para com os conhecimentos da área da Literatura Comparada no que concerne às suas relações interculturais, mas respaldada por uma perspectiva que compreende as narrativas brasileiras no mesmo pé de igualdade das narrativas estrangeiras. A intencionalidade dessa dissertação é mostrar que obras como a de José Mauro de Vasconcelos, autor que foi incompreendido pela crítica da sua época, conseguem atingir o mesmo impacto social - humanizador - que obras de autores consagrados, como por exemplo, a do francês Maurice Druon. Ainda, tem-se a intenção de colaborar com a presença e permanência dos estudos de Druon no Brasil, visto que atualmente não temos muitos estudos sobre ele e, os que temos, instauram-se em nichos fora do campo das literaturas propriamente dita. No entanto, o encontro dos dois meninos, Zezé e Tistou, visa não somente contribuir para o fomento dos estudos acadêmicos, mas sobretudo, realizar um debate acerca da potência humanizadora que a literatura tem e que pode servir como uma quebra de laços com as ideias pré-fabricadas e socialmente impostas. É através do contato com as representações artísticas que o ser humano tem a possibilidade de se ver no mundo, de se reinventar, de ampliar o seu olhar para o gênero humano e se tornar mais empático. Há nessa pesquisa, uma contribuição para os estudos de Zezé e de Tistou, mas em especial, uma contribuição para a valorização do direito à vida. IMPACT POTENTIEL DE CETTE RECHERCHE Cette recherche vise à contribuer aux connaissances de la Littérature Comparée en ce qui concerne ses relations interculturelles, mais soutenue par une perspective qui comprend les récits brésiliens sur le même pied d’égalité que les récits étrangers. L’intention de cette dissertation est de montrer que les œuvres comme celle de José Mauro de Vasconcelos, auteur qui a été incompris par la critique de son époque, parviennent à atteindre le même impact social - humanisant - que les œuvres des auteurs consacrés, comme par exemple, celle du français Maurice Druon. De plus, on a l’intention de collaborer avec la présence et la permanence des études de 6 Druon au Brésil, puisque actuellement nous n’avons pas beaucoup d’études sur lui, et ceux que nous avons, s’établissent dans des niches en dehors du champ des littératures proprement dites. Cependant, la rencontre des deux garçons vise non seulement à contribuer à l’encouragement des études académiques, mais surtout, à mener un débat sur la puissance humanisante qu’a la littérature et qui peut servir comme une rupture de liens avec les idées pré-fabriquées et socialement imposées. C’est par le contact avec les représentations artistiques que l’être humain a la possibilité de se voir dans le monde, de se réinventer, d’élargir son regard sur le genre humain et de devenir plus empathique. Il y a dans cette recherche, une contribution aux études de Zezé et de Tistou, mais particulièrement, une contribution à la valorisation du droit à la vie. 4 UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Câmpus de Assis CERTIFICADO DE APROVAÇÃO TÍTULO DA DISSERTAÇÃO: Contando histórias e florescendo a vida: o encontro dos meninos Zezé, de O meu pé de laranja lima (1968) e Tistou, de O menino do dedo verde (1957) AUTOR: BENTÔ SOARES BATALHA ORIENTADORA: DANIELA MANTARRO CALLIPO Aprovado como parte das exigências para obtenção do Título de Mestre em LETRAS, área: Literatura e Vida Social pela Comissão Examinadora: Profa. Dra. DANIELA MANTARRO CALLIPO (Participaçao Presencial) UNESP/FCL - Assis Profa. Dra. CLEONICE FERREIRA DE SOUSA (Participaçao Virtual) Universidade de São Paulo (USP) Prof. Dr. JOÃO LUIS CARDOSO TÁPIAS CECCANTINI (Participaçao Virtual) UNESP/FCL - Assis Assis, 11 de setembro de 2025. Faculdade de Ciências e Letras - Câmpus de Assis Av. Dom Antonio, 2100, 19806900 www.assis.unesp.br/posgraduacao/letras/ - CNPJ: 48.031.918/0006-39. Bentô Soares Batalha 7 A cada pessoa que um dia conseguiu sentir a poesia da vida. A cada pessoa que, mesmo em frente à aspereza da sua existência, ainda conseguiu conjugar o verbo esperançar. E a cada pessoa que, antes mesmo de chegar à academia, já conhecia o poder que a literatura tinha. 8 AGRADECIMENTOS Agradeço à vida. E, consequentemente, agradeço a Deus e a Nossa Senhora Aparecida por todos os bons caminhos e as boas oportunidades que permitiram que essa pesquisa fosse realizada com o carinho, o cuidado, a destreza e a humanidade que ela precisava. Agradeço, de modo muito especial, a Pai Caboclo Roxo, meu pai, que me acolheu quando eu mais precisei, devolvendo-me a capacidade de olhar a vida da forma mais bonita que ela pode ser. Agradeço ao meu terreiro, Templo Umbandista Aioká, aos Guias e às Entidades chefes que lá trabalham. Agradeço ao meu pai de santo, Pai Reinaldo, à minha Babá e aos meus irmãos, por tanto terem me ouvido, pela paciência, por terem acompanhado ao meu lado o nascimento e o desenvolvimento desse trabalho; sem os senhores e as senhoras, eu não teria conseguido aprender a olhar a vida - e a literatura - com a seriedade necessária. Agradeço à minha orientadora, Daniela Callipo, pois antes mesmo de ser professora, ela foi mãe. Me ouviu, segurou minha mão, me ensinou com seu exemplo magistral… Me deixou ser livre naquilo que eu acreditava. Agradeço às psicólogas Elisa Gouvêa e Jaqueline Brisola, por introduzirem a psicologia aos meus conhecimentos e por terem me ajudado a trazer mais veracidade a essa pesquisa. Agradeço a presença do professor João Luís Ceccantini e da professora Cleunice Ferreira na banca de qualificação e de defesa, uma vez que me ensinaram grandemente e me deram o fôlego necessário para continuar pesquisando. Agradeço ao Programa de Pós-Gradução de Letras. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Agradeço de modo amoroso, à minha mãe, que desde os meus primeiros anos escolares me incentivou ao estudo, me deu forças, abriu caminhos, esteve ao meu lado nos bons e maus momentos para que eu pudesse um dia chegar à universidade. E, por fim, agradeço a todas as pessoas que ainda acreditam na literatura e em seu poder humanizador. 9 "Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo…” Manuel de Barros 10 RESUMO O meu pé de laranja lima (1968), do brasileiro José Mauro de Vasconcelos, (1920-1984) é um livro antigo, que esteve presente em muitas gerações, desde a sua primeira publicação, e que tem como característica principal ser um livro que o leitor não esquece jamais. Nessa mesma linha da memória, se encontra Tistou les pouces verts (1957), obra francesa poeticamente escrita por Maurice Druon (1918-2009), na qual as lições aprendidas pelo menino Tistou são de caráter formativo para o leitor e sua vida. Ambas as narrativas apresentam um grande valor estético pautado no poder das palavras e concedem desde ao leitor comum até ao leitor acadêmico, uma possibilidade de mudança de olhar através da função humanizadora da literatura e o seu fazer viver. Seus autores, por intermédio de recursos da Estilística, criam um ponto de contato e conseguem chegar até o coração daquele que os lê, seja pela dor do menino Zezé ou pela coragem do pequeno Tistou; o que toca o leitor é o discurso poético de Vasconcelos e de Druon, os quais, mesmo com mensagens de grande peso social, não fazem um discurso panfletário. A humanização acontece como a leveza de uma poesia. Os recursos estéticos e estilísticos operam como instrumentos de aprimoração, visto que é por meio das figuras de estilo - metáfora e personificação - que a beleza e a emoção dos textos se concretiza. Em suma, busquei compreender como a poeticidade impregnada nas personagens de dois autores vindos de contextos tão diferentes contribui para o auxílio e desenvolvimento da perspectiva poética do ser para com a vida, isto é, busquei apurar como a arte literária auxilia na edificação de uma vivência mais humanizada e gentil, na qual se estrutura como base primária, a poesia - o olhar o outro. Respaldado pela teoria da Literatura Comparada (Carvalhal (2006); Genette (2010); Kristeva (2005); Samoyault (2008)) e pelas noções de Estilística (Melo (1976); Martins (1997)) percebo que tanto em Vasconcelos, quanto em Druon, é por meio dos pensamentos das personagens que o discurso poético transforma e edifica a perspectiva do leitor, fazendo com que assim ele seja capaz de reconstruir o seu olhar - de um modo mais humanizado - em relação à sociedade que o cerca. Palavras-chave: Literatura Comparada. Recursos Estéticos. O meu pé de laranja lima. O menino do dedo verde. 11 RÉSUMÉ O meu pé de laranja (1968) de l'écrivain brésilien José Mauro de Vasconcelos (1920-1984) est un livre ancien qui a été présent dans la vie de plusieurs générations depuis sa première publication et qui a comme caractéristique principale celle d’être un livre que le lecteur n’oublie jamais. Dans cette même ligne de la mémoire, se trouve Tistou les pouces verts (1957), œuvre française poétiquement écrite par Maurice Druon (1918-2009), dans laquelle les leçons apprises par le garçon Tistou sont de caractère formatif pour le lecteur et sa vie. Les deux récits présentent une grande valeur esthétique basée sur le pouvoir des mots et donnent au lecteur commun comme au lecteur académique, la possibilité de changer son regard à travers la fonction humanisante de la littérature et sa manière de faire vivre. Ses auteurs, à travers les ressources de la Stylistique, créent un point de contact et peuvent atteindre le cœur de celui qui les lit, soit par la douleur du petit Zezé ou par le courage du petit Tistou; ce qui touche le lecteur est le discours poétique de Vasconcelos et de Druon, qui, même avec des messages de grand poids social, ne font pas un discours pamphlétaire. Les ressources esthétiques et stylistiques agissent comme des instruments d’amélioration, puisque c’est à travers les figures de style – la métaphore et la personnification - que la beauté et l’émotion des textes se concrétisent. Bref, j’ai cherché à comprendre comment la poésie imprégnée dans les personnages des deux auteurs venant de contextes si différents contribue à l’aide et au développement de la perspective poétique de l’être pour la vie, c’est-à-dire, j’ai cherché à déterminer comment l’art littéraire aide à la construction d’une expérience plus humanisée et gentille, dans laquelle se structure comme base primaire, la poésie. Soutenu par la théorie de la Littérature Comparée (Carvalhal (2006); Genette (2010); Kristeva (2005); Samoyault (2008)) et par les notions de Stylistique (Melo (1976); Martins (1997)) je vois que chez Vasconcelos comme chez Druon, c’est à travers les pensées des personnages que le discours poétique transforme et édifie la perspective du lecteur, lui permettant ainsi de reconstruire son regard par rapport à la société qui l’entoure. Mots-clés: Littérature Comparée. Ressources Esthétiques. Mon bel oranger. Tistou les pouces verts. 12 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Retrato de José Mauro de Vasconcelos com sua roupa de poeta ……. 67 Figura 2 - Transmissão de afeto ………………………………………………………. 71 13 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………. 14 CAPÍTULO I: No qual são apresentados ao leitor os romances e seus autores .… 20 José Mauro de Vasconcelos: o contador de histórias da alma ……………………… 21 O meu pé de laranja lima: da sua infância para minha história …….……………….. 26 Maurice Druon: o homme das palavra ……………………………….………………… 33 Tistou les pouces verts: o menino que descobriu o mundo …………………..….….. 38 O encontro dos dois meninos ................................................................................... 45 CAPÍTULO II: No qual são apurados os recursos estéticos e estilísticos e as suas contribuições para com as obras .............................................................................. 58 Desenhando com as palavras: a estilística do texto …………………………………. 60 Um outro lado da história: os paratextos .................................................................. 65 A simplicidade em contar e a facilidade em encantar: a história do menino Zezé ... 70 1. Onde a personificação encontra a ternura ........................................................... 72 2. As metáforas: uma vivência de afetividade …………………………………………. 77 A força denunciativa das palavras: o menino que tinha um dedo verde ………..….. 83 1. Personificar para aprender: o pônei Gymnastique e o seu ensinamento ……….. 85 2. De Mirapólvora para Miraflores: uma lição de metáfora ….……………………….. 90 CAPÍTULO III: O menino anjo e o menino diabo e a conquista da poeticidade para além das páginas …………………………………………………………….…………. 103 A simbologia da salvação ou do abandono: o menino anjo e o menino diabo ……105 A conquista da poeticidade e a sua importância .................................................... 117 O ponto de contato do fazer viver literário e as suas particularidades ................... 127 CONSIDERAÇÕES FINAIS ……………………………………………………………. 136 REFERÊNCIAS ………………………….……………………………………………… 142 14 INTRODUÇÃO Em primeiro lugar, gostaria de dar início a este trabalho destacando que, para mim, a literatura é, antes de tudo, a lida com a vida; em outras palavras, a literatura é o recorte perfeitamente costurado do que chamamos de sociedade e de gênero humano, uma vez que ela, com as suas funções e os seus poderes, consegue colocar em evidência todo e qualquer aspecto do mundo real. De modo metalinguístico, saliento, ainda, que estudar o texto literário mediante uma perspectiva meramente acadêmica não é garantia vital para se acessar o vasto entendimento da literatura. A literatura acontece na vida, na rua, na possibilidade do sentir; a literatura acontece no leitor comum, quando dá a ele novas oportunidades… Ela é a força que ultrapassa as barreiras que o homem um dia preestabeleceu, sejam elas sociais ou acadêmicas. Ao estudar a narrativa, o discurso, as formas, as maneiras de escritura, estamos facilitando apenas o caminho para quem vem depois. No entanto, é necessário sempre lembrar que a verdadeira literatura se instaura no âmbito do sentimento. É lendo e sentindo que a literatura nos concede a oportunidade de conhecer o seu papel na sociedade e, é aqui que a gente encontra a sua função humanizadora, que a gente vê o seu poder e cria memórias com ela. Ademais, antes de mais nada, me retiro inicialmente desse lugar de acadêmico para deixar um relato pessoal: destaco que fui formado pela rua; não foi na academia que eu conheci o que posteriormente aprendi que era a função humanizadora da literatura, a rua já havia me ensinado isso há algum tempo. Sem, contudo, o uso de termos e de estruturas, ela apenas me fazia sentir - e, assim, nasce tempos depois, o desejo desse trabalho. A todos humaniza, isto é, permite que os sentimentos passem do estado de mera emoção para o da forma construída, que assegura a generalidade e a permanência […] A forma permitiu que o conteúdo ganhasse maior significado e ambos juntos aumentaram a nossa capacidade de ver e sentir (Candido, 2014, p. 28). Sendo assim, começo por acentuar que, ao nos dedicarmos aos estudos acerca do meio literário brasileiro, é provável que nos deparemos com o louvável registro acerca dessa função da literatura, o qual nos diz que a literatura humaniza em sentindo profundo porque faz viver. Esse pensamento é resultante dos trabalhos 15 do critico literário Antonio Candido (1918-2017), para quem a literatura é um direito de todo e qualquer cidadão; para ele, através dela é provável que haja a formação de um sujeito pensante que se projeta no mundo por intervenção de um pensamento crítico e seguro. Além disso, saliento que inauguro essa dissertação fazendo uso dos estudos de Candido - que serão aprofundados no capítulo III - presentes em O direito à literatura (1988), posto que é por meio deles que encontrarei os meninos Zezé e Tistou. Para que tenhamos uma primeira compreensão da pesquisa, vale evidenciar que esta proposta se enquadra na área de estudos voltada para a Literatura Comparada e os Estudos Culturais. Esta linha de pesquisa se caracteriza pela visada comparatista, que concebe a literatura como um fenômeno complexo, no qual as fronteiras de classe, de nações e de gênero são superadas. No âmbito mais especificamente literário, investigam-se os processos de transposição, substituição e invenção cultural pelos quais uma literatura (ou autor) fecunda outra (outro). Ainda, de uma perspectiva mais ampla, que considera a cultura como um todo, estudam-se as relações entre a literatura e outras áreas do conhecimento, contemplando representações de gênero, mitos literários, identidades regionais, nacionais, continentais e de classe. Este trabalho se insere nesta linha de pesquisa, na medida em que iremos estabelecer uma relação entre os romances Tistou les pouces verts (1957) do autor francês Maurice Druon (1918-2009) e O meu pé de laranja lima (1968) do contador de histórias brasileiro José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), já que se encontra nas obras um tom filosófico que permite que a abordagem da vida seja trabalhada de forma mais humanizada. Sabe-se que as análises literárias da Teoria da Literatura Comparada são diversificadas e, por isso, notabilizo que a abordagem que será empregada aqui será unicamente a análise da poeticidade, do discurso e de seus recursos estéticos e estilísticos utilizados. Segundo Bakhtin (1990) tudo é fruto daquilo que eu li e do que eu ouvi e, de acordo com Kristeva (2005), "todo texto é um mosaico de citações”; tudo que eu escrevo está impregnado em tudo que eu li. Assim sendo, o encontro de O meu pé de laranja lima e Tistou les pouces verts será assegurado pelas minhas memórias literárias (Samoyault, 2008), em que unicamente o discurso servirá como régua de análise. Ao findar este trabalho, tentarei revelar as possíveis respostas para as perguntas que tanto busquei: se a literatura de fato humaniza, como então 16 ela faz isso? E se faz, o faz com todo mundo? Quais ferramentas foram necessárias para que se obtivesse tal resultado? - são questionamentos simples, mas norteadores para o que veremos. A literatura satisfaz, em outro nível, à necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando-nos a tomar posição em face deles. É aí que se situa a literatura social, na qual pensamos quase exclusivamente quando se trata de uma realidade tão política e humanitária quanto a dos direitos humanos, que partem de uma análise do universo social e procuram retificar as suas iniquidades (Candido, 2014, p. 29). Aponto, além do mais, que o meio acadêmico brasileiro ainda não conta com muitos estudos em relação ao romance Tistou les pouces verts e, em especial, com análises comparatistas entre a obra francesa e O meu pé de laranja lima no que concerne a essa perspetiva mais humana. Entretanto, os estudiosos que declinaram o seu olhar em direção ao texto literário de Druon apresentaram grandes caminhos para a construção do conhecimento além do texto. A título de exemplificação, marco que Annie Tarsis de Morais Figueiredo e Mylena de Lima Queiroz (2016) ambas da Universidade Estadual da Paraíba, no artigo Mudar o mundo com um toque: A personagem que conscientiza em O menino do dedo verde , utilizando-se da 1 concepção de personagem e pessoa defendida por Antonio Candido e dos conceitos de consciência, dialogismo e ideologia da linha bakhtiniana, apontam o seu texto para as implicações didáticas que a narrativa de Tistou possuí. Da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, por intermédio de Marcela Angela Mesquita de Oliveira Campos (2021), procedeu uma monografia que parte do intelecto e dirige-se à prática, visto que Campos realiza uma análise quanto à abordagem de questões naturais na literatura infantil e juvenil de Maurice Druon. Além disso, na superfície da práxis, um grupo de teóricos pertencentes à Revista Querubim em seu sexto volume (2019), dissertam sobre a importância do menino Tistou no ensino de ciências e sobretudo, da área botânica, realizando um balanço entre Linguagens e Ciências da Natureza. Em resumo, compreende-se que a narrativa de Maurice Druon se mostra tão ampla que é capaz de abarcar muitas vertentes do conhecimento, inclusive da tradução, dado que Leísa Gonçalves da Rocha da Universidade de Brasília idealiza uma nova proposta de transposição em A retradução de O Menino do Dedo Verde: uma nova proposta (2017). Disponível em: https://www.editorarealize.com.br/artigo/visualizar/8291 17 É frente a esses fatores que a relevância da presente pesquisa se fundamenta, uma vez que se observa uma ausência de estudos que abordem a metáfora e a personificação nos dois romances, respaldando-se nos conceitos da Literatura Comparada. Justifico, pois, a intencionalidade deste meu trabalho atentando para a sua contribuição para os estudos acadêmicos em relação aos recursos estéticos e estilísticos das obras de Vasconcelos e de Druon, visando dissertar sobre a vinculação entre ambas e o poder que os seus discursos possuem. Mas ela não sabia a revolução que se realizava dentro de mim. O que eu tinha resolvido. Iria mudar de filmes. Nada mais de filmes de cowboy, nem índio nem nada. Eu de agora em diante só iria ver filme de amor, como os grandes chamavam. Filme que tivesse muito beijo, muito abraço e que todo mundo se gostasse. Já que eu só servia para apanhar, poderia pelo menos ver os outros se gostarem (Vasconcelos, 1968, p. 142). Tistu, meu filho, nosso negócio é excelente. Canhão não é como 2 guarda- chuva, que ninguém quer comprar quando faz sol. Ou como chapéu de palha, que fica na vitrine quando chove. Canhão sempre se vende, seja qual for o tempo! (Druon, 1957, p. 24) . 3 No mais, no que diz respeito à estrutura deste trabalho, trago três capítulos que julgo abarcar os pontos norteadores já mencionados desta pesquisa. Em seu primeiro capítulo, conheceremos as obras e seus autores, juntamente com a base teórica que contribuiu para dar vida ao encontro dos dois meninos. Aqui, saliento, sobretudo, que conhecer a biografia dos autores não se configura como instrumento primordial para a compreensão das narrativas. No entanto, especialmente quando tratamos das obras de José Mauro e Maurice Druon, tal dedicação colabora para que as obras consigam ganhar um olhar ainda mais profundo. Já no segundo capítulo, teremos o momento em que nos aprofundaremos nas narrativas, para que, através do discurso - e somente através dele - comecemos a chegar às respostas para as perguntas anteriores. Notaremos que ambos os autores apresentam em suas obras recursos estéticos e estilísticos de grande valor no que condiz com o auxílio da humanização do leitor. Contudo, destaco que nos Tistou, mon garçon, c’est un bon commerce que le nôtre. Les canons ne sont pas comme les 2 parapluies, dont personne ne veut lorsqu’il fait du soleil, ou comme les chapeaux de paille, qui restent en devanture pendant les étés pluvieux. Quel que soit le temps, on vend du canon (Druon, 1957, p. 28). A tradução utilizada para essa pesquisa foi a realizada por D. Marcos Barbosa na edição 113ª de O 3 menino do dedo verde publicada em 2018 pela editora José Olympio, uma vez que ela se mostrou satisfatória e fiel a poeticidade presente na obra original francesa. 18 dedicaremos somente aos estudos da metáfora e da personificação, visto que foram elas as que mais se mostraram relevantes para exercer esse papel. Por fim, no terceiro e último capítulo, após passar com o cuidado necessário pelas narrativas, ou seja, depois de compreender seu discurso, sua forma, sua beleza e grandeza poética, é chegada a hora de adentrar um pouco mais em sua simbologia para arrematarmos todos os recursos utilizados e ressaltar o quão cíclicos eles são. Observam-se nesses símbolos - e recursos - que um se mostra o oposto e o complemento do outro - tem-se aqui a presença simbológica de um menino anjo e de um menino diabo. E, além disso, é também nesse capítulo, que chegamos às conclusões de nossos questionamentos, ao momento da verdadeira compreensão se, de fato, a humanização da literatura ocorre com todo perfil de leitor ou se faz necessário estar pré-disposto para tal. Posto isso, este trabalho contempla as nuances da Estilística, graças à qual será possível observar, através das figuras dos meninos, Zezé e Tistou, o quão importante é a utilização dos recursos estéticos para que a mensagem do autor atravesse o seu público de forma consistente. Os romances possuem como alvo o leitor infantil e juvenil; contudo, as mensagens ali presentes estimulam, desde os futuros adultos, até as velhas crianças, concedendo a eles um suspiro de esperança. Partindo desse pressuposto, reforço que a ênfase deste trabalho está pautada somente na análise do discurso e na verificação de como este tem função primordial para a propagação da literatura. Destaca-se, acima de tudo, a importância que a Teoria da Estilística possui nesse processo, pois, para que a mensagem das obras chegue até o leitor comum de forma eficaz, é preciso que haja um tratamento da linguagem - como eles o fizeram; a Estilística atua no que tange à concepção de maior expressividade ao que está escrito. Ressalta-se, ainda, que Chaves de Melo (1917-2001) aponta como o uso da linguagem ordenado à produção do Belo, como meio ou como fim, coloca-se em pauta muito diversa, exigindo o concurso da imaginação, da inventiva, de um ritmo diferente, de sutilezas, de provocações e de surpresas. Para a teoria estética, é a escolha o ponto essencial e é este ponto que o presente trabalho tem a intenção de abordar, verificando como essas escolhas podem interferir na construção de sentido do romance daquele que o lê. 19 Em suma, reafirmo, para então dar voz às obras, que as nossas inquietações norteadoras se basearão no texto. No entanto, já que este é um trabalho acadêmico, é válido destacar que Vasconcelos e Druon souberam utilizar de modo arguto os recursos a eles concedidos pela escritura e fizeram com que nós, leitores, ganhássemos memórias poeticamente inesquecíveis, sem precisar passar pela academia para tê-las e compreendê-las verdadeiramente. 20 Capítulo I No qual são apresentados ao leitor os romances e seus autores Considerações iniciais Falar sobre literatura do Brasil é falar sobre literatura comparada. O professor e crítico literário Antonio Candido (1918-2017) evidenciou em seu texto “Literatura comparada”, no livro Recortes (1993), acerca dos estudos comparados, que a nossa literatura é resultado de um comparativismo difuso realizado por críticos que cultivavam a estranha “mania de referência”. Há mais de quarenta anos eu disse que "estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada”, porque a nossa produção foi sempre tão vinculada aos exemplos externos, que insensivelmente os estudiosos efetuavam as suas análises ou elaboravam os seus juízos tomando-os como critérios de validade. Daí ter havido uma espécie de comparativismo difuso e espontâneo na filigrana do trabalho crítico desde o tempo do romantismo, quando os brasileiros afirmaram que a sua literatura era diferente da de Portugal (Candido, 1996, p. 211). Inauguro esse primeiro capítulo e, consequentemente, os estudos desse trabalho, utilizando-me dessa abordagem para assegurar que, ao analisar as obras Tistou les pouces verts (1957) do autor francês Maurice Druon (1918-2009) e O meu pé de laranja lima (1968), do escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos (1920- 1984), a velha noção de influência que se tinha nos primórdios da literatura comparada foi totalmente abolida; apoiei-me nas memórias da literatura. Nesse estudo, o francês e o brasileiro são equiparados em pé de igualdade, cada um com sua grandeza e genialidade. Além disso, não busquei saber se José Mauro foi um leitor de Druon ou vice-versa; se foi, fico feliz porquê tiveram a graça de se encontrarem em linhas tão bonitas, mas se não foi, não me prendi a criar falsas marcações ideológicas - ambas as obras são capazes de se manterem por sua própria beleza. A professora e crítica literária Tânia Franco Carvalhal (1943-2006) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no decorrer de seu estudo da 21 literatura comparada, aponta a importância de se comparar pelas diferenças e semelhanças, para que não se caía novamente na caça às fontes e às influências, visto que foi a partir de um olhar crítico - sabendo identificar as diferenças e as possíveis semelhanças - que a literatura brasileira se consolidou. A diferença deixa de ser compreendida apenas como um simples objeto a ser buscado em substituição a analogias; e mais do que isso, é recurso preferencial para que se afirme a identidade nacional. Contra os riscos da analogia, as armas do contraste, pois é a diferença que permite nossa inserção no universal. Por isso, comparar é contrastar (Carvalhal, 2006, p. 77). Dito isso, os aspectos aqui abordados se declinarão apenas no que diz respeito ao caráter tematológico, sem apontar uma literatura que é maior ou melhor do que a outra; é o poder do discurso de cada uma que nos é importante. José Mauro de Vasconcelos: o contador de histórias da alma Não havia fantasia porque a estranha revelação a colocara frente à realidade. Descobrira que a beleza não existia nas coisas e sim dentro da gente. E quando ela morria as coisas se tornavam opacas, apagadas e incrivelmente comuns (Vasconcelos, 1963, p. 49). Na construção de nossa biblioteca vivida, temos o acaso de nos deparar com autores que parecem escrever para a alma da gente, autores esses que, com a suas palavras, agem como se estivessem dando um afago em nosso peito. A cada linha é um suspiro, a cada virgula é uma lágrima e a cada ponto se constrói o anseio de querer saber cada vez mais o que ele têm a nos dizer. E é exatamente com esses parâmetros que eu lhes apresento José Mauro de Vasconcelos (1920-1984). José Mauro foi um autor que completaria 100 anos no ano de 2020 e, ao longo desse período, esteve presente na casa de muitas pessoas, passando por diversas gerações e, ainda, conseguindo se manter tão atual. O professor e pesquisador João Luís Ceccantini (1962-) em uma entrevista (2020) comemorativa à Tv Metrópolis em honra ao centenário de José Mauro de Vasconcelos e divulgação da reedição da sua obra realizada pela editora Melhoramentos, aponta para um dos motivos de sua obra conseguir transitar por diferentes épocas. José Mauro foi “um escritor muito importante para a gente despertar o gosto pela leitura naquelas pessoas que talvez não gostem de ler ou mesmo aquelas que estão em um 22 processo inicial de formação; ele ajuda o leitor, agarra o leitor pela força das narrativas, da trama” (Ceccantini, 2020). José Mauro traz beleza à escrita, uma poesia, um refinamento, faz uso de recursos estéticos e estilísticos, mas, ao mesmo tempo, traz uma linguagem de “gente como a gente”, que toca nosso coração de uma forma tão singela, que é capaz de nos ajudar a olhar a vida de uma outra maneira. A citação inaugural é uma das inúmeras passagens de José Mauro que reaquece o lado de dentro da gente e auxilia na (re)organização do lado de fora. Esse excerto foi tirado de Rosinha, minha canoa, livro publicado em 1963 e que possui uma forma de ver a vida extremamente única e sensível. Louco, você? Só porque consegue entender as árvores ou falar com as coisas? Bobagens! Loucos são os outros homens que perderam a poesia de Deus, que endureceram o coração e nem sequer podem entender os próprios homens. Esses são loucos (Vasconcelos, 1963, p. 190). José Mauro de Vasconcelos nasceu no ano de 1920 na cidade do Rio de 4 Janeiro. O contador de histórias - como assim gostava de se referenciar - tem suas raízes vindas de uma família financeiramente carente e, por tal motivo, José Mauro foi entregue aos cuidados de seus tios durante a sua infância para que assim pudesse morar com eles em Natal, no estado do Rio Grande do Norte. José Mauro sempre teve uma afeição para com os estudos e, assim como o menino Zezé, na obra O meu pé de laranja lima (1968), ele também aprendeu a ler sozinho. No mais, apesar de seu perfeito desempenho no âmbito escolar, José Mauro possuía um grande interesse nos esportes devido a sua boa desenvoltura para tal. José Mauro teve enorme destaque na natação e, segundo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) em sua apresentação na edição de 1944 do livro Banana Brava (1942), o então menino foi campeão de nado no Rio Potengi. José Mauro era uma pessoa multifacetada no que diz respeito aos afazeres que ele realizou enquanto trilhava seus caminhos. A saber, o autor já foi desde operário de fábrica, até ator de cinema - inclusive ganhou prêmios de melhor atuação; foi um jovem garçom, mas também foi aluno do curso de medicina – que depois abandonou; já foi instrutor de boxe e, ainda, foi ganhador de uma bolsa de As informações sobre a vida de José Mauro de Vasconcelos foram obtidas a partir das seguintes 4 fontes: Bidaud, 2023; Cascudo, 1944; Leão, 2018; Rádio Agência, 2016; TV Metrópolis, 2020 todas elas indicadas nas referências. 23 estudos na Espanha - mas preferiu não dar continuidade. Sem dúvidas, José Mauro foi um colecionador de experiências, e essas bagagens foram se transformando em personagens de suas obras. As décadas de 60 e 70 foram um grande marco na carreira de José Mauro de Vasconcelos, visto que foi nesse período que o autor alcançou grande sucesso com seu público. Para mais, devido a sua tamanha prática de vida, José Mauro, além de exprimir pequenos traços de sua trajetória em seus personagens em decorrência do seu modo de viver, também cultivava esse hábito em sua escrita para que fosse possível entender a realidade que se vivia naquela época. Ressalto, ainda, que o livro O meu pé de laranja lima (1968) é um livro com tintas autobiográficas, assim como os livros Doidão (1969) e Vamos aquecer o sol (1974) que também possuem traços de sua história - fechando, assim, a tríade que possui elementos autobiográficos de José Mauro. Segundo Samuel Bidaud em seu recente artigo La poétique du nom dans l’oeuvre de José Mauro de Vasconcelos (2023), ao contrário do que a gente poderia pensar - devido ao grande renome do autor no Brasil e na França e a sua vasta obra - existem poucos estudos sobre José Mauro e, citando Andréa Borges Leão, Bidaud aponta que uma das possíveis razões para esse descompasso é exatamente a tamanha popularidade a que foi amarrada a figura do autor, sobretudo, em terras brasileiras. Samuel Bidaud se mostra descontente com esse acontecimento que cerca José Mauro e o refuta dizendo que isso que se deu por causa da postura que a crítica literária da época adotou e acrescenta que, por ocasião do centenário de nascimento de Vasconcelos, uma revalorização de seus escritos está se inaugurando - felizmente. Uma das razões para isso é buscar, como sugere Andréa Borges 5 Leão, na reputação de escritor popular que Vasconcelos tem, como se o fato que atingiu um público importante tivesse tido como consequência afastar uma crítica tradicionalmente desconfiada perante a todo o sucesso da massa (Bidaud, 2023, p. 02). Para Samuel Bidaud, Vasconcelos foi autor de uma obra tão forte quanto bonita, tão emocionante quanto original. Além do mais, o retorno à cena de José L’une des raisons en est à chercher, comme le suggère Andréa Borges Leão, dans la réputation 5 d’écrivain populaire attachée à Vasconcelos, comme si le fait touché un lectorat important avait eu comme conséquence d’éloigner une critique traditionnellement méfiante devant tout succès de la masse (Bidaud, 2023, p. 02). 24 Mauro se deu devido à reedição de suas obras pela editora Melhoramentos. Nas apresentações das novas tiragens, a editora presenteou o leitor com uma análise geral do professor Ceccantini (1962-) sobre o caráter profundamente humanista dos livros de Vasconcelos. Tal posicionamento nos permite pensar que a popularidade não foi sinônimo de obra rasa, como a crítica tradicional gosta de chamar as literaturas de massa. Bidaud citando Ceccantini: Vasconcelos conjuga, em suas personagens, espírito de aventura e vigor físico com dimensões introspectivas; aborda temáticas regionalistas, bem como as de natureza urbana; analisa a sociedade contemporânea segundo uma visão crítica e racional sem abrir mão de explorar aspectos afetivos ou até mesmo sentimentais de personagens e problemas; põe em relevo espíritos desencantados, assim como aqueles impregnados de esperança; debruça-se tanto sobre os vícios como sobre as virtudes dos entes a que dá vida; esses, entre tantos outros elementos, dão corpo a uma literatura à qual não se fica indiferente (Bidaud, 2023, p. 02). O autor era tão querido pelos seus leitores que participava de programas de rádio e televisão. E vindo para um contexto mais atual, me deparei com o programa História Hoje de 26 de fevereiro de 2016, da Rádio Agência Nacional, contando um pouco da história desse autor que foi tão querido pela massa e segregado pela crítica e, assim, foi possível conhecer mais alguns detalhes sobre sua trajetória. José Mauro de Vasconcelos era leitor de autores de grande renome, como por exemplo, Graciliano Ramos (1892-1953) e José Lins do Rego (1901-1957), mas apesar de seu gosto pelos estudos e pela leitura, contava que não queria ser escritor. Contudo, sentiu-se obrigado a sê-lo porque sentia a necessidade de colocar para fora suas emoções e experiências; mas, ainda assim, denominava-se como contador de histórias. Sua estreia foi com a obra Banana Brava (1942), livro que apresenta os traços da vida no garimpo brasileiro. Um dos traços mais marcantes da trajetória de José Mauro é o fato de que, apesar dele ter tido inúmeras experiências de vida, em nenhuma delas ele se sentiu inquestionavelmente comtemplado. E, depois de percorrer diferentes caminhos, ele decidiu se juntar aos irmãos Villas-Bôas - exploradores e defensores brasileiros da causa indígena na expedição Roncador-Xingu - Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998) e Leonardo (1918-1961), seguindo em direção ao Centro-Oeste na região do Rio Araguaia. 25 Para José Mauro, esse foi um verdadeiro marco em sua jornada como escritor, visto que foi nesse período que, realizando uma espécie de estudo de campo minucioso, José Mauro conseguiu atribuir riquezas de detalhes para suas obras. Quando ele estava na beira do rio, apanhou informações que, mais tardiamente, seriam usadas em seu primeiro grande sucesso Rosinha, minha canoa (1963) e, em seguida, em As Confissões de Frei Abóbora (1966). Jose Mauro viajou por todo o Brasil e com isso, conseguiu trazer para as suas obras o brasileiro, o sertanejo, o garimpeiro, desde a sua linguagem, até a região local em que a população estava acostumada a viver. Ao escrever, tinha o fino cuidado de primeiro escolher o cenário e depois mudar-se para lá. Foi essa imersão que concedeu às obras de José Mauro tamanho realismo; é possível sentir os cheiros, as texturas, a vida pulsando. Devido à simplicidade de suas palavras, Vasconcelos teve um importante papel na formação do leitor brasileiro e estrangeiro, dado que suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e, como apresenta Felipe Lindoso (2015), em 2015 a obra de José Mauro de Vasconcelos, O meu pé de Laranja lima (1968), ainda atingia a oitava posição na lista de obra mais traduzida no mundo entre autores de língua portuguesa, segundo os dados disponibilizados pela base Index Translationum da UNESCO, graças, entre outros fatores, à descomplicação na escrita e ao cuidado em representar diferentes lugares e falas. Em 1969, como aponta Andréa Borges Leão (2018) em seu artigo José Mauro de Vasconcelos: o intérprete e as traduções do Brasil (2018), quando o livro O meu pé de laranja lima (1968) estava no auge do seu sucesso e as suas vendas estouraram, o Ministério da Educação da época proibiu que os professores o adotassem nas escolas, pontuando que havia erros de português em seu texto. A saber, neste momento, José Mauro estava à mercê de uma sociedade cunhada por autoridades retrógradas que ainda bebiam nos pilares da literatura do século XIX do universo lusitano - mesmo depois do modernismo; Vasconcelos, estava na contramão desse cenário, pois suas obras tinham um projeto estético muito mais popular que traziam o linguajar do povo brasileiro. Segundo Leão, "os personagens, dizia, José Mauro, modelavam a sua autorrepresentação de escritor com linguagem simples e regional” e trazendo o posicionamento do próprio Vasconcelos no ano de 1979, acrescenta: 26 O povo é simples como eu. Não gosta de atitude sofisticada dos escritores em geral. Como já disse, não tenho nada de escritor, nada da aparência de escritor. Eu me considero dentro do meu jeito de ser. É o meu jeito de ser. Sou eu (Jornal do Brasil, 1979). Andréa Borges Leão (2018, p. 153) também incorpora em seu trabalho o posicionamento crítico de Syria Poletti que aponta que “Vasconcelos nos da una creación estética sustentada en valores universales, dentro de una estructura formal que refleja el ámbito histórico y geográico en el que está inmerso”. José Mauro foi um grande contador de histórias com uma vasta obra. No entanto, foi reduzido a sua narrativa mais famosa, a história do menino Zezé, romance que virou filme em 1970 e foi adaptado para três telenovelas, sendo a primeira versão exibida também no ano de 1970 pela antiga TV Tupi. Foram esses fatos que foram concedendo a José Mauro tamanha popularidade e permitiram que ele realizasse participações e entrevistas em jornais e canais de televisão. José Mauro tinha uma delicadeza no olhar e conseguia transformar com maestria tal aspecto em palavras. Saliento que ele é, sem dúvidas, um autor que merecia muito mais reconhecimento, e não por ele, mas pela gente, leitores apreciadores de suas narrativas, em virtude de que José Mauro foi um escritor que muito contribuiu para a nossa formação e, felizmente, parte disso ficou eternizado em suas obras. O livro de Zezé é a sua obra mais conhecida e o corpo desta dissertação, mas deixo aqui a minha menção honrosa à Rosinha, minha canoa (1968), uma vez que “nosso coração não esquece as coisas bonitas que criamos” - nesse caso, que lemos. O meu pé de laranja lima: da sua infância para minha história Inauguro os estudos acerca dessa obra assegurando que essa é a “história de um meninozinho que um dia descobriu a dor…”. Agora sabia mesmo o que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha que morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo. Dor que dava desanimo nos braços, na cabeça, até vontade de virar a cabeça no travesseiro (Vasconcelos, 1968, p. 171). 27 Mas que é também, a história de um menininho que, no brincar dos seus cinco anos, foi capaz de encantar gerações com a pureza e a grandeza da sua alma. Aí eu me aproximei bem dele e encontrei minha cabeça junto ao seu braço. Portuga![…] Eu nunca mais quero sair de perto de você, sabe? [...] Porque você é a melhor pessoa do mundo. Ninguém judia de mim quando estou perto de você e sinto um sol de felicidade dentro do meu coração (Vasconcelos, 1968, p. 128). O meu pé de laranja lima é uma obra do autor brasileiro José Mauro de Vasconcelos (1920-1984) publicada no ano de 1968. Com uma linguagem simples e uma história comovente, não demorou muito para que a sua narrativa se lançasse para as casas dos brasileiros. Entretanto, é válido dizer que, apesar do livro de Vasconcelos ter alcançado um grande sucesso editorial - sendo enquadrado até mesmo como best-seller -, segundo o professor João Luís Ceccantini (1962-) em entrevista à TV Métropolis (2020), Vasconcelos "talvez tenha sido um pouco injustiçado como escritor, como homem de cultura”, uma vez que esse e outros de seus livros tiveram grande aceitação do público. Contudo, a crítica literária da época não concedeu a José Mauro o devido reconhecimento e, para Ceccantini, tal fato se deu pela linguagem que ele usava. Muitas vezes o que se cobrou do José Mauro de Vasconcelos e que acho que não era simplesmente uma bandeira para ele, era a questão de experimentação do ponto de vista literário - formal; não é uma obra de ruptura, é uma obra que ao contrário, tá ligada a uma certa tradição regionalista brasileira, forte e importante que teve nomes como Jorge Amado, Raquel de Queirós, José Lins do Rego; a idéia dele era contar bem história, histórias multifacetadas, que envolvem muito o leitor, que tem um apelo muito grande, pra questão da ficção e que nem sempre a literatura dos anos 60-70 teve preocupada em fazer isso (Ceccantini, 2020). A professora e socióloga Andréa Borges Leão (2018) em seu artigo José Mauro: o intérprete e as traduções do Brasil, traz um pouco de como se deu a posição da crítica em relação à figura de Vasconcelos e a seu modo de narrar. Leão apresenta o desgosto do político, professor e crítico brasileiro Eduardo Portella, sobre O meu pé de laranja lima, em artigo publicado na revista Manchete (1969), um ano após a sua publicação: O livro de José Mauro de Vasconcelos é antes de tudo literatura ingênua, por vezes sentimentaloide, frequentemente melodramática. Desenvolvendo-se sob a forma de uma narrativa memorialística, O 28 meu pé de laranja lima conta as peripécias de uma criança pobre “um meninozinho que um dia descobriu a dor”. A infância reprimida tem sido o salto patético da ética ocidental. Mas não se trata aqui de um corte vertical sobre o drama humano, onde um tema tópico esconde um problema social, no caso ingenuamente aflorado. Não resta dúvida de que O meu pé de laranja lima, essa metáfora cordial de uma rejeição, é uma provocação constante às emoções fáceis. E como a civilização do lazer consome desesperadamente comprimidos de evasão, ele é o maior best-seller do ano (Manchete, 1969, p. 164). De fato, a história do menino Zezé é uma trama rodeada de sentimentos, mas não é, de forma alguma, da maneira como Portella a descreve. Com Zezé, nós pudemos testemunhar que a ternura vale mais do que qualquer outra coisa no mundo, até mais do que as bolinhas de gude e figurinhas de artistas norte- americanos para um menino de cinco anos. A obra de Vasconcelos nos faz sim chorar, mas por causa do sentimento de que existem muitos meninos Zezé espalhados por aí de que a gente sequer um dia vai tomar conhecimento e, ainda, permite-nos cultivar a esperança de que um dia eles possam encontrar um certo Portuga capaz de deixar a vida menos áspera. Em certo momento da narrativa, Zezé diz para seu amigo Portuga: Disse no começo. Depois matei você ao contrário. Fiz você morrer nascendo no meu coração. Você é a única pessoa que eu gosto, Portuga. O único amigo que eu tenho. Não é porque me dá figurinhas, refresco, doce ou bola de gude… Juro que estou falando a verdade (Vasconcelos, 1968, p. 147). O meu pé de laranja lima é uma singela e significativa narrativa que conta a árdua história do menino Zezé. Na trama, acompanhamos o despertar do seu coração - do seu contato com o acolhimento -, mas também, o enrijecer de sua alma, em virtude de que, ao mesmo tempo em que Zezé conhece o que é a felicidade, também está em constante contato com a dor física. Com cinco anos, Zezé mora em Bangu, Zona Norte do Rio de Janeiro, juntamente com seus pais Paulo Vasconcelos e Estefânia Pinagé e seus irmãos Luís, Totoca, Lalá, Jandira e Glória. Vê-se que Zezé, como toda criança de sua idade, é curioso, arteiro, um verdadeiro "descobridor de coisas”, mas para as pessoas grandes que não o compreendem, ele é apenas um menino que tinha o "diabo no corpo" e, devido à difícil realidade que a sua família levava em virtude de seu pai estar desempregado e ser alcoólatra e de sua mãe trabalhar por muitas horas em uma fábrica para conseguir dar o mínimo de auxílio a sua família, dentro 29 de sua casa, Zezé é constantemente surrado pela falta de compreensão de seus familiares. Em O meu pé de laranja lima temos uma linguagem tão amparada pelos recursos estéticos e estilísticos que cada relato de surra que essa criança leva ressoa como se estivessem surrando o coração da gente. A dor que o pai causa em seu filho faz com que, em certos momentos, ele começasse a ter contato com pensamentos suicidas no anseio de que assim aquele sofrimento pudesse cessar. E o leitor - de modo geral - se solidariza com o menino Zezé nos primeiros anos de sua meninice, pelo fato dele já demonstrar uma ideação suicida em decorrência de sua vulnerabilidade social e dos incessantes espancamentos a que era submetido dentro de sua residência. Meu rosto quase não se podia mexer, era arremessado. Meus olhos abriam-se para tornar a fechar com o impacto das bofetadas. Eu não sabia se devia parar ou se tinha de obedecer… Mas na minha dor tinha resolvido uma coisa. Seria a última surra que eu levaria, seria a última mesmo que morresse para isso. Quando ele parou um pouco e me mandou cantar, eu não cantei. Olhei Papai com um desprezo enorme e falei: Assassino!… Mate de uma vez. A cadeia está ai para me vingar (Vasconcelos, 1968, p. 138). Todavia, a custosa vida que Zezé levava era amenizada por um amigo natural que ele cultivava, um pé de laranja lima a quem ele chamava carinhosamente de Xururuca ou Minguinho. O pezinho de laranja era uma das árvores que tinha na casa da família do menino e, é válido dizer, era a mais feinha, mas foi ele, o pé de laranja lima, o protagonista de várias histórias de Zezé com seu irmão Luís. Minguinho não era qualquer árvore, era a árvore dele! E, para além do real, era ainda, a sua imaginação, a sua vontade de sonhar e a sua vontade de viver. Evidencio que foi também em virtude desses aspectos que José Mauro se estabeleceu na cena literária; ele trouxe o sonho, a forma imaginativa para as suas narrativas e não somente o caráter denunciativo. Com Minguinho, Zezé viajou o mundo, mas também chorou… Foi xerife, herói, cowboy, mas também foi ali, aos pés da pequena árvore que ele entendeu a sua pequenez mediante um mundo tão cruel. O pé de laranja lima era para Zezé a possibilidade de renovação, depois de cada surra que ele levava e, segundo Leão, o cultivo da árvore foi extremamente necessário para que assim se pudesse equilibrar a sua rotina miserável. 30 Zezé ainda é agraciado com uma outra presença, um senhor português de nome Manuel Valadares ou como ele mesmo diz, seu grande amigo Portuga. O amor foi mostrado a Zezé através da chegada de Portuga, que fez questão de nos exemplificar como o contato com a ternura é capaz de ressoar na vida da gente e como a amizade é capaz de modificar a forma como vemos o mundo. É portuga que assegura a Zezé que ele não está mais sozinho no mundo, pois agora ele tem seu fiel amigo e tudo o que ele tem a oferecer, isto é, o devido cuidado e carinho que aquela criança merecia. Zezé é um menino esperto que aprendeu a ler sozinho e que, desde muito cedo, já havia ganhado as ruas, mas Zezé ainda era iniciante na matéria do amor e da afetividade. No entanto, é notório que, de pedaço em pedaço, o menino vai se remontando através da amizade com seu amigo Portuga. Ademais, devido a esse buraco no peito - a falta de amor - que Zezé tinha e que Portuga foi alinhavando com o passar do tempo, o menino chegou até esse português completamente sedento pela necessidade de ser olhado, de ser cuidado. Entretanto, o que chama a atenção por sua boniteza - além das inúmeras outras coisas que se darão em linhas seguintes - é a capacidade dos dois se encontrarem, não somente no sentido físico, mas sim no que diz respeito à forte ligação que eles foram capazes de criar. Ninguém entende essa criança em sua casa. Nunca vi um menino com tamanha sensibilidade. […] O que tu pensas ainda é pouco. É um Pirralho maravilhoso e inteligente. […] Não és muito criança para entenderes dos problemas de gente grande? (Vasconcelos, 1968. p. 144). Ninguém, só Deus, deveria saber da nossa amizade. […] Junto à Confeitaria, defronte à Estação, estava o carrão lindo parado. Nasceu o primeiro raio de sol de alegria. Meu coração se adiantou na frente cavalgando a minha saudade. Ia ver o meu amigo mesmo (Vasconcelos, 1968. p. 142). O meu pé de laranja lima é uma obra que, desde o ano de seu lançamento, já cativava os seus leitores. José Mauro era um escritor que, com a simplicidade de sua maneira de escrever, atingia facilmente o coração daqueles que o liam, um exímio contador de histórias que, ao contar, conseguia encantar a alma da gente. E, apesar da crítica literária de sua época não ter concedido a José Mauro o devido reconhecimento que ele de fato merecia, uma vez que observando sob um olhar mais apurado no que diz respeito aos trabalhos literários, defendo que sua literatura 31 é sim uma literatura bem lapidada e bem calçada em seus recursos estéticos e estilísticos; há um discurso bem realizado, uma linguagem bem trabalhada - falaremos melhor sobre isso no capítulo II. Além disso, não é porque o seu texto possui um linguajar mais simplificado que isso significa que ele não foi bem construído, José Mauro já dizia que ele gostava de escrever para gente como ele. E, ainda, não é porque o seu texto conseguiu atingir as grandes massas e não ficou restrito apenas à parte intelectual da população como acontecia com as literaturas canônicas, que ele não merecia ter sido valorizado como escritor. Andréa Borges Leão (2018) também nos conta que José Mauro com Banana Brava e Guimarães Rosa com Sagarana "viram os dois a mesma luz da publicidade” na editora carioca Agir. Entretanto, José Mauro continuou sendo incompreendido pela crítica. De fato, a literatura de Vasconcelos, mesmo com seu caráter de preciosidade literária, foi vítima de uma incompreensão elitista e excludente. Contudo, por esse mesmo motivo, aproveito para citar e realçar a importância da professora Maria Alice Faria no que concerne à compreensão da beleza da obra, posto que ela, testemunha desse paradigma que permeou a escrita de José Mauro, colocou-se em direção contrária, notou a sensibilidade presente em O meu pé de laranja lima e o defendeu dando-lhe seu devido valor. Maria Alice em sua pesquisa, preocupa-se de maneira gentil com a formação do leitor no Brasil. Com isso, reconheceu que a Literatura Infantil e Juvenil tinha um papel muito importante nesse processo. Em seu artigo O meu pé de laranja lima ou “a ternura da vida”, publicado em 1997 e que está presente no livro Narrativas juvenis: modos de ler, Maria Alice elucida de modo muito verdadeiro e sensível - desde a linguagem que ela utiliza até os elementos que ela cita em seu texto - o motivo pelo qual a história do menino Zezé merecia - e merece - os louros que lhe cabem. Neste estudo, Maria Alice ressalta os inúmeros pontos que permitiram que José Mauro conquistasse o seu leitor, ela evidencia o lado afetivo da obra, a descrição delicada e verdadeira da infância - e sua perda - sua importância para a denúncia da realidade dos anos 1920 em virtude de seu aspecto social e documental, a presença da imaginação e o modo de escritura do autor. Desprezado - se não ridicularizado - por intelectuais brasileiros, considerado um escritor medíocre, José Mauro de Vasconcelos mostra, porém, com o sucesso de O meu pé de laranja lima, que, pelo menos, nesse livro, possui certas virtudes que 32 contradizem os estigmas lançados pelos nossos críticos. (Lima, 1997, p. 36). Além disso, é válido destacar, ainda, que Maria Alice não teve um papel fundamental somente em relação à obra de José Mauro, visto que foi graças a ela que a Literatura Infantil e Juvenil como um todo teve a sua relevância compreendida. Com a presença de Maria Alice Faria, essa literatura pode, enfim, entrar para o currículo acadêmico da região de Assis, realçando, assim, que a Literatura Infantil e Juvenil também é literatura - ela foi pioneira em defender que era preciso trazer essa literatura para o curso de Letras da UNESP. No mais, como orientanda do próprio Antonio Candido, manteve esse cuidado com o leitor e a sua humanização. Maria Alice foi a primeira pessoa que teve a coragem - e a ternura - de exaltar a narrativa do menino Zezé perante os posicionamentos que caminhavam em direção oposta dos críticos literários da época; ela se empenhou em quebrar esse preconceito de uma literatura menor e olhou a obra como ela de fato precisava que ser olhada. José Mauro de Vasconcelos não se lançou no mundo por causa de, mas apesar de. O meu pé de laranja lima foi uma obra que ajudou a reposicionar a literatura do Brasil no mundo, posto que a história do menino Zezé foi eternizada em diversos idiomas e, segundo a sua tradutora para o espanhol Haydée Mercedes Jofre Barroso (1916-2006), em seu estudo que ela consagrou a José Mauro Vida y saga de José Mauro de Vasconcelos (1978), o que a encantou foi justamente a simplicidade coloquial do autor - ponto esse que a crítica mais reprimia. “[...] e tê-lo satisfeito na mesma medida em que ele me satisfez com 6 sua bela história: pelo menos assim nós dissemos - já tinha outra língua que mudava de nome mas não de essência às suas palavras” (Barroso, 1978, p. 150). O que encanta na narrativa de Zezé é justamente a ternura que se encontra em cada linha. A maneira como o discurso foi apresentado faz com que sejamos levados a um espaço-tempo dolorido, sofrido, mas também nos é permitido viajar para novos horizontes, diferente daquele desenhado na residência do menino. A forma de contar de José Mauro ajudou a criar em torno da obra uma memória, fez-se aqui uma memória da literatura, posto que é provável que, ao nos depararmos com obras nas quais se encontra um certo menino que faz uso de algum elemento mágico para se “[...] y haberle satisfecho en la misma medida en que él me satisizo a mi com su bellísima historia: 6 por lo menos así nos lo hemos dicho mutuamente – ya tenía otro idioma que cambiaba de nombre pero no de esencia a sus palabras” (Barroso, 1978, p. 150). 33 construir perante o mundo, nos lembraremos de O meu pé de laranja lima e a beleza do menino Zezé. A professora e crítica literária Tiphaine Samoyault (1968-) em seu livro A intertextualidade, publicado em 2001, apresenta o conceito de memória literária. Para ela, a memória da literatura concede ao leitor um papel ativo no estabelecimento do dialogismo, uma vez que, ao ler, é ele quem cria a intertextualidade de um texto com o outro. A intertextualidade, segundo Samoyault, é um fenômeno que permite às obras terem várias vidas diferentes devido à sua variabilidade de recepção: A literatura é transmissão, mas também porque ela acarreta a retomada, a adaptação de um mesmo assunto a um público diferente. E do mesmo modo que um novo amor faz nascer a lembrança do antigo, a literatura nova faz nascer a lembrança da literatura (Samoyault, 2001, p. 75). Haverá muitas histórias de famílias que surravam suas crianças, de meninos pobres que descobriram que a eles “contaram as coisas muito cedo”, de crianças que precisaram apoiar-se em uma válvula de escape para que a lida com a realidade miserável ficasse menos sofrida e, também, haverá os relatos de quebra de laços familiares. Contudo, a partir da memória literária é possível lembrar que uma das narrações mais doídas e bonitas dessa separação é aquela que veio daquele "meninozinho que um dia descobriu a dor”: Funguei compridamente. Não faz mal, eu vou matar ele. […] Vou, sim. Eu até que comecei. Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu (Vasconcelos, 1968, p. 146). Maurice Druon: o homme das palavras É sabido que a força das narrativas se apresenta mediante uma boa construção dos seus discursos, ou seja, é esperada, daquele que conta, uma preocupação estética com o seu trabalho, posto que, em sua maioria, não é aquilo que se conta que marca, mas sim o modo como se conta. Nos estudos de Teoria da Estilística, nos deparamos com o pressuposto de que para que uma determinada 34 mensagem chegue de forma consistente até o seu leitor, é preciso haver um tratamento cuidadoso para com a linguagem. Além disso, é válido relembrar que estudiosos como Mikhail Bakhtin (1895-1975) e Gladstone Chaves de Melo (1917-2001) já apresentavam em seus trabalhos o quão necessária é a utilização dos recursos estéticos no texto literário, uma vez que estes ajudam a entender melhor o conteúdo, conferindo à palavra dados emotivos. Consoante Chaves de Melo, em seu livro Ensaio de estilística da língua portuguesa (1976), a língua não exprime só o pensamento, mas também os sentimentos e foi exatamente pela comoção - seja ela por bons ou maus motivos - que grandes mensagens foram transmitidas pelas vozes de pequenos meninos. Dito isso, fica a pergunta: por que falar sobre as noções de estilística antes de apresentar quem foi Maurice Druon (1918-2009)? E a resposta é bem simples, falar sobre Druon é falar sobre Teoria da Estilística, visto que falar sobre Druon é falar sobre uma preocupação estética pautada no sentimento, pois, antes de tudo, Druon foi um homem que tinha um apreço para com os adornos da linguagem e o poder que as palavras tinham e transmitiam. Veja, é desde a minha infância que eu tive o gosto da escrita e o 7 gosto da palavra. Na verdade, nada é feito no mundo, eu acho, sem a palavra. A história avança primeiro com palavras, são as letras pronunciadas, são as ideias expressadas que fazem os acontecimentos. Além disso, a memória se constrói nas palavras. A história se conta com palavras, caso contrário não saberíamos nada do passado, se não tivéssemos as palavras. A diversidade dos caracteres humanos... ainda as palavras para expressá-las… (Radio- Canada Archives, 1974). A citação acima, retirada de uma entrevista televisionada realizada em 1974 pela Radio-Canada, é a plena consolidação do poder do trabalho discursivo que se vê na narrativa de Druon, como por exemplo, a obra Tistou les pouces verts (1957), também base dessa pesquisa, posto que essa demonstração de pensamento do autor para com a importância das palavras revela uma preocupação genuína e um fino cuidado com aquilo que se diz. Vous voyez, c’est depuis mon enfance que j’ai eu le goût de l’écriture et le goût du mot. En fait, rien 7 ne se fait dans le monde, je pense, que par le mot. L’histoire avance d’abord avec des mots, ce sont des paroles prononcées, ce sont des idées exprimées qui font les événements. Et puis le souvenir tient sur les mots. L’histoire se raconte avec des mots sinon nous ne saurions rien du passé si nous n’avions pas les mots. La diversité des caractères humains... encore les mots pour exprimer ces diversités… (Radio-Canada Archives, 1974). 35 Mostrou-lhe a sala onde se pode olhar através do corpo de uma 8 pessoa como através de uma janela, para ver onde a doença se esconde. […] Já que aqui se impede o mal de ir adiante, tudo deveria parecer alegre e feliz’’, pensava Tistu. Onde estará escondida a tristeza que estou sentindo? …’’ (Druon, 2018, p. 69). Maurice Druon era parisiense nascido em 1918, ano em que se encerrou a 9 Primeira Guerra Mundial e, também em Paris, falece Druon aos 91 anos em 2009. No que concerne a sua trajetória, salienta-se sua grande relação com a política e a literatura. No âmbito político, foi ministro da cultura e, no cenário literário, Maurice Druon foi consagrado por sua série de sete romances Les Rois Maudis iniciada em 1950. A narrativa do menino Tistou foi a única produção infantil de Druon e, no prefácio da obra, há o seu relato de que “Tistou les pouces verts est le seul conte 10 pour enfants que j’aie écrit, et le seul sans doute que j’écrirai jamais”. É válido apontar que, no decorrer da trama, somos surpreendidos pela guerra entre os Vazys e os Vatens e tal infeliz acontecimento desperta no menino Tistou novos questionamentos. Ao representar a guerra em seu texto, Druon explicita que o caminho do meio é sempre o mais assertivo, ou seja, é aquele que preza por um tratado de paz - mesmo que esse seja realizado mediante a intervenção de um menino-anjo. Assim como o menino Tistou, Maurice Druon, fora das páginas, também defendeu o fim dos conflitos armados, dado que, durante grande parte de sua vida, a guerra estava em acensão; ele nasce no fim de um confronto, participa ativamente de outro e presencia a tensão das movimentações de um terceiro. Ao longo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Druon participa dos combates no interior da França - ingressando posteriormente nas forças da Resistência - até o ano de 1941, quando ocorreu o Armistício - tratado que decretou o fim das hostilidades armadas. Ainda na Segunda Guerra Mundial, Druon tornou-se oficial da cavalaria e, com o Il lui montra la salle où l’on peut regarder à travers le corps de quelqu’un, comme à travers une 8 fenêtre, pour voir où la maladie se cache […] ‘’Puisque ici l’on empêche le mal de passer, tout devrait sembler gai et heureux, se disait Tistou. Où se cache donc cette tristesse que je sens? … (Druon, 1957, p. 94). As informações sobre a vida de Maurice Druon foram obtidas a partir das seguintes fontes: 9 Academia Brasileira de Letras, 2009; Academia Francesa, acessado em maio de 2024; Jornal Le Monde, 2009 todas elas indicadas nas referências. O menino do dedo verde é a única história para crianças que escrevi e, sem dúvida, a única que 10 escreverei (Druon, 2018, p. 09, trad. de D. Marcos Barbosa). 36 desembarque dos aliados na Normandia, começou a atuar como correspondente de guerra na França, Holanda e Alemanha. Já em 1942, Maurice Druon deixa a França para atravessar de maneira clandestina a Espanha e Portugal, com o objetivo de atuar nos serviços de informação da chamada "França Livre”, em Londres, na Inglaterra. Ademais, é de suma importância destacar que Tistou les pouces verts é uma obra de 1957 e, durante esse período, o mundo atravessava uma bipolarização extrema, uma vez que os Estados Unidos e a antiga União Soviética disputavam a Guerra Fria (1947-1991). Mediante tal contexto histórico, é provável que, ao manifestar os desconfortos causados pela guerra com o menino Tistou, Druon de fato estava fazendo referência a esse momento bipolarizado da humanidade - e, também, aos outros conflitos que ele testemunhou. Conforme Mariana Maciel dos Santos Souza da UEMS em seu artigo SR. Trovões: Polifonia e Dialogismo em “O menino do dedo verde”, nessa época não se ouvia uma terceira voz, apenas as que eram dominantes ecoavam fortemente. Em meio à luta do capitalismo contra o socialismo, não havia espaço e tolerância para uma terceira concepção mundial. Qualquer voz contestadora era calada, analogamente ao que o Sr. Trovões intenta fazer com Tistu (Souza, 2007, p. 08). Maurice Druon conseguiu trazer a denúncia dessa bipolarização na narrativa de Tistou de modo surpreendente, em virtude de que sendo ele o homem das palavras, ao nomear os povos que estavam em guerra, Druon fez uso dos aspectos sonoros da língua francesa; os Vazys e os Vatens exemplificam, sobretudo, as consequências de uma sociedade bipolarizada, onde não se ecoam outras frentes de pensamento. Os Vazys, colocados em uma perspectiva sonora, lembra-nos da expressão francesa Vas-y!, que significa vai lá. Já os Vatens, por sua vez, têm o poder de nos fazer relembrar do dito Va-t-en!, que possui como significação sai daqui. Ainda, com a presença dos Vai lá e dos Sai daqui fica nítido que não havia outro tipo de saída a não ser a disputa na sociedade de Tistou; não havia lugar para outro alguém. Druon foi muito perspicaz ao apresentar essa bipolarização dessa forma tão singela, visto que ele conseguiu explicar os seus principais fatores e consequências de modo “simplificado" - entre aspas porquê trazer essa sonoridade foi, acima de tudo, genial. 37 Ainda no que diz respeito ao contexto histórico-político, destaca-se na vida Maurice Druon sua forte proximidade com seu tio, o romancista Joseph Kessel (1898-1979). Refugiados em Londres, Kessel e Druon compõem juntos o hino da Resistência Le Chant des Partisans em 1943 - chamado posteriormente de hino dos movimentos de resistência ao nazismo. Amigo, você ouve o voo negro do corvo sobre as nossas planícies? 11 Amigo, você ouve esses gritos surdos do país que se acorrenta? Ohé apoiadores, operários e camponeses, é o alarme! Esta noite, o inimigo conhecerá o preço do sangue e das lágrimas (Druon; Kessel, 1943). A forma política de Druon ver o mundo se mostra de modo explícito em suas produções escritas. Sua obra Les Rois Maudis (1950-1960), citada anteriormente, é formada por textos históricos nos quais o autor faz uma denúncia social em relação à nobreza francesa e ela apresentou tão grande destaque, que foi traduzida para vários idiomas. Maurice Druon, após presenciar os horrores da guerra, se consagra à carreira literária a partir de 1946. Vale acentuar que as raízes da literatura na vida de Druon não estão restritas apenas a seu tio Kessel, em virtude de que, dentre os seus familiares, temos a presença do brasileiro Manuel Odorico Mendes (1799- 1864), bisavô de Druon, célebre por dedicar também sua vida à política e à literatura; Manuel foi um dos primeiros tradutores da Ilíada de Homero e das obras de Virgílio para o português. Maurice Druon passou sua infância na Normandia e, em 1936, ele foi vencedor do Concurso Geral no Lycée Michelet com o prêmio de melhor aluno. Aos 18 anos, o autor de Tistou começa a publicar nas revistas e nos jornais literários normandos, cultivando assim seu gosto pela escritura. Druon sempre manteve lado a lado a sua relação com a literatura e a política. Ele foi aluno de Ciências Políticas em 1937 e também foi aluno do curso de Letras de Paris. A escrita de Druon é, sobretudo, assertiva, fato esse que lhe concedeu vários prêmios. Em 1948, Druon recebe o prêmio Goncourt com seu romance Les Grandes Familles (1948), uma crônica cínica e severa da grande burguesia francesa e, em 1966, recebe o prêmio Prince Pierre de Monaco pelo conjunto de sua obra. Além disso, reitero que a narrativa de Tistou é a única obra de Druon para crianças, mas Ami, entends-tu le vol noir du corbeau sur nos plaines? Ami, entends-tu ces cris sourds du pays 11 qu'on enchaîne? Ohé partisans, ouvriers et paysans, c'est l’alarme! Ce soir, l'ennemi connaîtra le prix du sang et des larmes (Druon; Kessel, 1943). 38 acrescento que ela é essencial para as crianças grandes, posto que, com sua linguagem poética, com seus recursos estéticos e sua narrativa bem construída, ela consegue se mostrar denunciativa e atual. De acordo com o seu discurso, a miséria devia ser uma horrível 12 galinha negra, de olhos ferozes, bico adunco, de asas tão grandes quanto o mundo, chocando continuamente horrendos pintinhos. […] Havia o pinto-roubo, […] o pinto-embriaguez, […] o pinto-vício, […] o pinto-crime, […] o pinto-revolução, sem dúvidas o pior de todos… (Druon, 2018, p. 64). Por fim, notabiliza-se ainda, acerca do trajeto literário de Druon, sua participação nas Academias. Em 1966, Maurice Druon é eleito para a 30ª cadeira da Académie Française, tonando-se posteriormente secretário perpétuo em 1985, onde permaneceu por 14 anos. No Brasil, apesar de não haver muitos estudos sobre sua obra, Druon também participou da nossa Academia Brasileira de Letras como Sócio Correspondente, sendo substituído, em 2009, por José Saramago, após o seu falecimento. Maurice Druon conhecia o poder que tinham a humanização, a gentileza e o cuidado na vida das pessoas. A maneira de narrar de Druon é forte, mas, ao mesmo tempo, é delicada. O peso das suas palavras é construído em sua obra de forma leve. Sua vivência é denunciativa e é assertiva, em conjunto com uma maneira explícita e singela de contar. Falar sobre Druon é falar sobre o poder das palavras; nada se faz sem as palavras, assim como nada se muda sem a força da literatura. E é tal aspecto que se faz fortemente presente em sua obra. Tistou les pouces verts: o menino que descobriu o mundo Inicio a apresentação da obra contando um fato que, para mim, foi surpreendente. Tistou les pouces verts (1957) foi criado entre as publicações da célebre série de romances Les Rois Maudis (1950-1960), a partir de uma tentativa do seu autor, Maurice Druon (1918-2009), de testar um gênero literário que ele ainda não havia abordado, para que assim fosse possível descontrair-se um pouco. Druon D’après son discours, la misère semblait être une horrible poule noire, à l’oeil furieux, au bec 12 crochu, aux ailes aussi larges que le monde et qui couvait sans cesse d’affreux poussins. […] il y avait le poussin-vol, […] le poussin-ivrognerie, […] le poussin-vice, […] le poussin-crime, […] le poussin- révolution, sûrement le pire de la couvée… (Druon, 1957, p. 86). 39 tinha como objetivo principal que essa obra fosse diferente de todas as suas outras e, em seu prefácio de novembro de 1967, ele relata que a dificuldade para escrever foi a mesma, o que mudou foi somente a forma - ele não descansou, mas conseguiu fazer nascer uma obra maravilhosa. François-Baptiste, Tistou, para as pessoas grandes, é um menino de oito anos que não se adaptou aos moldes tradicionalistas de ensino-aprendizagem e que, ao longo de sua narrativa, recebe lições de vida. A cada capítulo, Tistou é levado a conhecer certos aspectos que compõem uma sociedade. Há momentos em que o menino recebe lições de jardinagem, com seu tutor, Monsieur Moustache; há momentos em que o menino vai até à favela e lá, recebe lições de desigualdade social; e há ainda, momentos em que Tistou chega ao hospital e aqui, ele conhece a tristeza - esses são apenas alguns exemplos do modelo de discurso que encontraremos na obra de Druon. Ele aprenderá as coisas que deve saber olhando-as com os 13 próprios olhos. Ensinar-lhe-ão, no local, a conhecer as pedras, o jardim, os campos; explicar-lhe-ão como funciona a cidade, a fábrica e tudo que puder ajudá-lo a tornar- se gente grande. A vida, afinal, é a melhor escola que existe. Vamos ver o resultado! (Druon, 1957, p. 35). Tistou les pouces verts se endereça aos futuros adultos ou às velhas crianças e, é válido salientar, que se tem aqui uma narrativa doce e atemporal, na qual é possível acompanhar o desenvolvimento do senso crítico-escolar do pequeno Tistou. O lado emocional do enunciado de Druon traz para o leitor um apuro minucioso da sensibilidade, visto que as críticas e os apontamentos são feitos no romance mediante a imagem de um garotinho de oito anos, e as dúvidas e perguntas feitas por Tistou são equivalentes ao modo que uma criança, fora das páginas, faria. Contudo, a verdadeira beleza da obra se instaura no momento exato em que percebemos que, a cada lição que Tistou recebe, quem aprende não é ele, mas sim a gente, uma vez que, segundo Druon, o menino é uma criança que se nega a aceitar as coisas como elas são e anseia todo o tempo por mudanças - como toda velha criança já quis um dia. Il apprendra les choses qu’il doit savoir en les regardant directement. On lui enseignera sur place à 13 connaître les cailloux, le jardin, les champs; on lui expliquera comment fonctionnent la ville, l’usine et tout ce qui pourra l’aider à devenir une grande personne. La vie, après tout, c’est la meilleure école qui soit. On verra bien le résultat (Druon, 1957, p. 41). 40 Toda criança tem a experiência de agir pelo bem comum e, para 14 isso, aguarda o milagre de ser grande. E depois, quando é grande, geralmente esqueceu o que queria fazer ou renunciou a isso. E nada se faz. Sobra apenas um adulto a mais, sem milagre (Druon, 1967, p.10). Para mais, é observável, já em seu capítulo inicial, o quão forte irá se instaurar esse discurso de Druon por intermédio da figura de Tistou, em virtude de que há nele a apresentação da problemática das ideias pré-fabricadas, ou seja, dos pré- conceitos que acompanham uma sociedade e que vão rodear Tistou desde o momento de seu nascimento - até mesmo na hora da escolha de seu nome. Isso prova simplesmente que as ideias pré-fabricadas são ideias 15 mal fabricadas, e que as pessoas grandes não sabem mesmo o nosso nome, como também não sabem, por mais que o pretendam, de onde foi que viemos, por que estamos aqui e o que devemos fazer neste mundo (Druon, 1957, p. 12). As grandes pessoas têm, sobre todas as coisas, ideias todas feitas 16 que lhes servem para falar sem refletir. Ora, as ideias todas feitas são geralmente ideias mal feitas. Elas foram fabricadas há muito tempo, não sabemos mais por quem. Elas são muito usadas, mas como há várias, sobre qualquer coisa, elas têm essa prática que pode mudar muitas vezes (Druon, 1957, p. 14). Tistou é, para Druon, uma criança que, como todas as outras, sonha em mudar o meio que a rodeia, uma criança que tem a alma pura e inocente, mas que, diferente das outras, teve a oportunidade de agir ainda nos primeiros anos de sua meninice. Para Druon (1967), Tistou, “age utilizando flores que são, exatamente 17 como a infância, promessa e esperança” (Druon, 1967, p.10). E, dentre muitos outros aspectos, são essas mudanças que o pequeno menino realiza em sua cidade, que cativa o seu leitor a cada capítulo; Tistou é uma criança esperta, com convicções próprias, que se desenvolve seguindo o que vem do seu Tout enfant est impatient d’agir dans le sens du bien commun, et il attend pour cela le miracle d’être 14 grand. Et puis, quand il est grand, généralement, il a oublié ce qu’il voulait faire, où bien il y a renoncé. Et rien ne se produit. Il y a seulement une grande personne de plus, sans miracle (Druon, 1967, p. 7). Ceci prouve simplement que les grandes personnes ne savent pas vraiment notre nom, pas plus 15 qu’elles ne savent d’ailleurs, en dépit de ce qu’elles prétendent, d’où nous venons, ni pourquoi nous sommes au monde, ni ce que nous avons à y faire (Druon, 1957, p. 12). Les grandes personnes ont, sur toutes choses, des idées toutes faites qui leur servent à parler sans 16 réfléchir. Or les idées toutes faites sont généralement des idées mal faites. Elles ont été fabriquées il y a longtemps, on ne sait plus par qui; elles sont très usées, mais comme il y en a plusieurs, à propos de n’importe quoi, elles ont ceci de pratique qu’on peut en changer souvent (Druon, 1957, p. 14). agit en employant des fleurs qui sont exactement comme l’enfance, de la promesse et de l’espoir 17 (Druon, 1957, p.10). 41 coraçãozinho. No mais, antes que eu possa continuar dando voz a essa obra tão singela, cedo o lugar a Druon, para que o próprio criador nos possa contar quem é Tistou no mais íntimo da sua singularidade. O personagem de Tistu é um menino dessa espécie, que não 18 admite que os adultos lhe expliquem o mundo com suas ideias preconcebidas. E como ele apresenta - é a virtude essencial da infância - um olhar novo sobre os seres e as coisas, desorganiza o raciocínio dos adultos, que têm o julgamento embaçado pelas lentes de costume. Particularmente, ele não entende por que os homens não conseguem chegar a um acordo para viver em paz, já que vivemos melhor com bons sentimentos do que com maus, com a liberdade do que com a obrigação, com a justiça do que com a arbitrariedade, com a paz do que com a guerra, digamos simplesmente com o bem do que com o mal (Druon, 1967, p.10). É notório que há, na obra, um trabalho estético cuidadosamente detalhista, proveniente de uma preocupação ativa no que diz respeito ao poder que as palavras evocam. A narrativa de Tistou se harmoniza com os conceitos da literatura infantil e juvenil. Entretanto, as suas sutilezas só são compreendidas mediante o correr do tempo - em cada idade ou em cada momento de nossas vidas em que adentramos o universo do pequeno menino, nós o entendemos de modo diferente. Se acaso fosse necessário explicar quem é Tistou com apenas uma frase, certamente eu diria que Tistou é um menino que deseja saber o porquê das coisas. No entanto, pediria licença para acrescentar que, no instante em que ele tenta descobrir, recebe a resposta sem graça de uma pessoa grande de que isso é, porque um dia foi. No mais, é válido destacar que Druon, ao dizer que sua personagem Tistou age utilizando flores em linhas anteriores, em sua narrativa isso se estabelece em sentido literal, devido ao fato de que a obra leva o nome de um dom que o menino possuí. Tistou é um garotinho mágico que possui um dedo 19 verde, ou seja, com seu polegar Tistou consegue fazer florescer todo tipo de flores e fazer brotar toda gama de árvores e plantas onde quer que ele toque; e é essa a Le personnage de Tistou est un petit garçon de cette espèce-là, qui n’admet pas que les grandes 18 personnes lui expliquent le monde à l’aide d’idées toute faites. Et comme il ouvre - c’est la vertu essentielle de l’enfance - un oeil neuf sur les êtres et les choses, il met souvent en déroute le raisonnement des grandes personnes qui ont le jugement faussé par les lunettes de l’habitude. Particulièrement, il ne comprend pas pourquoi, puisqu’on vit plus heureux avec de bons sentiment qu’avec de mauvais, avec la liberté qu’avec la contrainte, avec la justice qu’avec l’arbitraire, avec la paix qu’avec la guerre, disons très simplement avec le bien qu’avec le mal, les hommes ne parviennent pas à s’accorder pour vivre dans le bien (Druon, 1967, p. 08). Ter um dedo verde significa ter um bom manejo com as plantas. Essa forma de dizer vem da 19 expressão originária do inglês Green Thumb que se melhor como polegar verde. 42 maneira que ele encontra de modificar o seu entorno, não aceitando o que lhe é dito apenas pelo fato de que sempre se deu daquela forma. A princípio, o ato de florescer do menino do dedo verde pode ser analisado como uma atitude ingênua de dar vida a partir das cores e do preenchimento do seu espaço social por meio de seu sentir empático. Contudo, a brincadeira de criança tornou-se a salvação de uma sociedade inteira, dado que ela conseguiu parar até mesmo uma guerra; em cada lição de vida que Tistou recebe, ele traz suas flores com o objetivo de levar um pouco mais de conforto para aquele lugar. Quando Tistou floresce o espaço fisico, também floresce o espaço interno da gente… Fazendo brotar a esperança, a empatia e o anseio por mudança. Com suas lições de vida, nós nos tornamos os alunos e ele, o professor, olhando sob os olhos da infância, onde é possível observar que, às vezes, o olhar solidário precisa apenas de uma semente inicial. Acerca do modelo de escrita de Maurice Druon é benéfico realçar que, ao retratar a sua personagem Tistou como um mero aprendiz desde os temas mais simples, tais quais os princípios de jardinagem, até os mais complexos, como, por exemplo, o estabelecimento da ordem, Druon faz com que o seu leitor decline o olhar para a solidariedade e a empatia. Com o florescer da favela e o disparar das flores nos canhões em meio à Guerra, se estabelece uma contribuição eficaz para a construção da poeticidade daquele que lê, posto que a obra de Druon desfruta carinhosamente dos recursos estéticos para que sua poética atinja todos os locais e a sua classificação infantil e juvenil pouco importa quando é lida pelo público mais velho; a partir do caráter de Tistou é viável repensar as atitudes mundanas e pessoais. Foi em decorrência da personagem Tistou ter sido exposta a temas sensíveis e ter tido contato com a desigualdade social e a doença, por exemplo, que se fez necessário o uso de uma escrita mais amena, para que assim fosse possível a limpa compreensão das crianças menores. Druon, ao nos presentear com uma narrativa sob esses moldes, deixa nítida a sua preocupação com as palavras, utilizando-se delas como meio de colaboração da construção de um trabalho estético acurado, visto que há na obra uma forte presença das figuras de linguagem e de estilo. Além disso, reiterando as linhas em que o menino conhece a favela, é dada ao leitor uma descrição de como seria esse local e, com isso, Tistou utiliza da 43 precariedade dos barracos e descreve os moradores como sendo parecidos com as chicórias que ele via na horta do Monsieur Moustache. Nesse momento, ao invés de ocorrer um debate explícito sobre a luta de classes, o menino, de maneira sutil, explica ao leitor que não seria feliz se fosse tratado como uma chicória e é aqui que a linguagem mostra toda a sua força. Notabiliza-se que as comparações presentes no romance constroem o toque de sutileza do texto, uma vez que contribuem para uma leitura mais agradável e, em especial, cooperam para o desenvolvimento do olhar poético. Nos barracos vivia muito mais gente do que eles podiam conter; 20 essa gente havia de ter, é claro, um mau aspecto. ‘'Vivendo apertados assim uns contra os outros, sem um raio de sol, tornam-se pálidos como as chicórias que o Bigode conserva na adega. Eu não gostaria que me tratassem como um pé de chicória!’’ (Druon, 1957, p. 63). Em todos os lugares que se mostravam inquietantes, Tistou deixava sua marca, fazendo florescer, em todo local onde o mandavam ter, lições de vida. Acrescento que, para mim, Tistou é a própria literatura na mais pura de suas concepções. O texto literário, já em seus primórdios, não só, mas também, se apresentava de modo denunciativo e extremamente poético e, no romance de Druon, a poesia tem o dom de florescer o corpo social que o envolve, resolvendo de modo natural questões que assombram até mesmo as nações contemporâneas. Na narrativa de Tistou, há a concretização de um discurso no tocante ao poder da literatura na constituição do ser, posto que há, na obra, o gerenciamento de um sentimento empático concebido através das realidades que o menino com qualidades humanas - poderia dizer sobrenaturais, mas Tistou é somente alguém que declinou seu olhar para o seu entorno - modifica. Em Druon, se sobressai o desenho da personagem Tistou mediante o seu caráter extremamente alegórico, em virtude de que esta, com suas pequenas atitudes, transformou uma cidade inteira, incluindo seu nome, Mirapólvora - agora, Miraflores - que, anteriormente, representava a sua natureza caótica. Por intermédio de Tistou, a alegoria estilística pode ser compreendida como a principal vertente Dans ces cabanes vivaient plus de gens qu’elles n’en pouvaient contenir; ces gens, forcément, 20 avaient mauvaise mine. ''À vivre serrés les uns contre les autres, et sans lumière, ils deviennent pâles... comme les endives que Moustache fait pousser dans la cave. Moi je ne serais pas heureux si l’on me traitait comme une endive" (Druon, 1957, p. 84). 44 contribuinte para a modificação do ser, uma vez que é a partir do texto literário que se vivem outras histórias e que se tem a possibilidade de se (re)formar com elas. Ainda no que tange à construção da personagem Tistou, vale reforçar que o seu caráter alegórico resvala desde a sua imagem, uma vez que essa é representada pelo narrador como sendo um menino de olhos claros e cabelos loiros, até as suas ações solidárias para com a cidade de Mirapólvora. Além disso, tais características do menino remetem, sob um olhar mais profundo, às figuras angelicais que se fazem presentes nos livros bíblicos e que foram esculpidas por grandes artistas nos séculos passados. O final aberto de Tistou les pouces verts, provoca no leitor a dúvida se realmente Tistou era apenas um menino ou se a sua misticidade era de fato real. Contudo, a alegoria angelical criada pelo escritor - que será abordada no capítulo III - faz com que o seu público acredite no poder que a espiritualidade possui - mediante tal termo evidencia-se que espiritualidade não obrigatoriamente irá recair em uma seita religiosa específica -, em virtude de a fé remeter à crença em algo. O ambiente em que Tistou estava presente inclinou-se para o dom que ele tinha e a sua importância para a cidade e tal reflexão, permite que nós, leitores, entendamos a alegoria, ainda, em seu caráter místico. Por hora, concluo que Tistou é uma força maior que edifica tudo o que toca e não apenas um menino. Druon, ao escolher a cor verde para representar o dedo de Tistou, provavelmente não o fez apenas pela boa lida com as plantas do menino, mas também, pelo fato da cor verde ser entendida fora das narrativas como a cor que nos remete ao verbo esperançar, fazendo com que assim tenhamos o anseio pela mudança. Na narrativa de Tistou, o menino é o elo entre aquele que necessita - e isto pode ser desde as palavras até atitudes as concretas de solidariedade - e seu meio físico. Tem-se aqui um menino de alma empática, mas que, para as pessoas grandes, era apenas uma criança que pensava demais. Sentia vontade de chorar, e não disse uma só palavra no caminho 21 de volta. O Sr. Trovões interpretou esse silêncio como um bom sinal e pensou que sua lição de ordem começava a produzir frutos. Mesmo assim, escreveu no caderno de notas de Tistu: “É preciso vigiar de perto esse menino; ele pensa demais!" (Druon, 1957, p. 47). Il avait envie de pleurer, et ne prononça pas un mot pendant tout le chemin du retour. Monsieur 21 Trounadisse interpréta ce silence comme un bon signe et pensa que la leçon d’ordre avait porté ses fruits. Néanmoins, il écrivit sur le carnet de notes de Tistou: Cet enfant est à surveiller de près; il se pose trop de questions (Druon, 1957, p. 63). 45 O encontro dos dois meninos É benéfico inaugurar a curva do encontro entre o menino Tistou e o menino Zezé utilizando-me da linha de pensamento da professora e crítica literária Tiphaine Samoyault (1968-). Em seu livro A intertextualidade (2001), a teórica explica que desde a origem, a literatura está duplamente ligada à memória. Para que fosse possível dar vida a esse encontro, utilizei-me desta bonita memória da literatura, uma vez que é característico dos estudos de Literatura Comparada realizar comparações não somente pelas defasadas noções de influência; utilizei-me da minha memória como leitor para dar voz a dois meninos tão singulares. Nesse encontro, um é o complemento do outro: um menino anjo e um menino diabo… Um menino salvador e outro que precisava ser salvo. Ainda, é válido expor que, parafraseando uma outra vez Samoyault (2001), como leitor passeei no jardim da literatura, no momento em que, ao conhecer a dura história do menino Zezé, viajei até Miraflores, para encontrar-me com o pequeno Tistou. Tem-se aqui dois universos diferentes. Contudo, é exatamente desse modo que se constrói a peneira do leitor, posto que foi em meio a linhas tão marcantes, que se estabeleceu essa memória, inaugurando assim, a intertextualidade. Segundo Samoyault (2001), a intertextualidade é um fenômeno que permite às obras terem várias vidas diferentes devido a sua variabilidade de recepção – e, aqui, se estabelece apenas uma dessas inúmeras possibilidades. As flores subiam pela cadeia, escondiam as favelas, alastravam-se 22 no interior de um hospital! […] Já nenhum prisioneiro tenta fugir da cadeia. As favelas se transformaram num próspero bairro. As crianças do hospital estão todas sarando. Por que nos irritamos? (Druon, 1957, p. 75). E os dias andaram sem pressa e sobretudo muito felizes. Até que lá em casa começaram a notar a minha transformação. Eu já não fazia tantas travessuras e vivia no meu mundinho de fundo de quintal. Verdade que algumas vezes o diabo vencia os meus propósitos. Mas já não dizia tantos palavrões como antigamente e deixava em paz a vingança (Vasconcelos, 1968, p. 122). Les fleurs envahissaient tous les monuments publics. […] Aucun prisonnier ne s’échappe plus. Le 22 quartier des taudis est devenu prospère. Tous les enfants de l’hôpital guérissent. Pourquoi s’irriter? (Druon, 1957, p. 104). 46 Essa memória nada mais é do que o resultado de tudo aquilo que foi lido e, a forma mais bonita de adentrar o meio literário ocorre quando nossas memórias nos levam a outros universos ou, ainda, provocam em nós o anseio de conhecer novas histórias, novos mundos. De modo simples, é esse aspecto que Samoyault defende como sendo a intertextualidade. Para ela, ainda, a intertextualidade não é perceptível no texto, uma vez que sou eu como leitor que a estabeleço, ou seja, é essa memória do leitor que irá cria-lá. Não há estudos anteriores que tenham comparado as vidas de Zezé e Tistou. Entretanto, a força do discurso das narrativas e de suas personagens, permite-nos gerenciar esse encontro; não apenas por uma camada inicial, ou seja, levando em consideração o fato de que ambas as obras têm a forte presença dos arquétipos do sábio e do inocente desenvolvidos por Carl Gustav Jung (1875-1961) em seus estudos em 1976. É a força humanizadora das narrativas a principal condutora do caminho da memória. A literatura é a transmissão, mas também porque ela acarreta a retomada, a adaptação de um mesmo assunto a um público diferente. E do mesmo modo que um novo amor faz nascer a lembrança do antigo, a literatura nova faz nascer a lembrança da literatura (Samoyault, 2001, p. 75). É válido salientar, ainda, que para Samoyault essa memória da literatura possui um papel fundamental na lida do leitor para com o texto, em virtude de que é ela quem vai estabelecer a verdadeira intertextualidade. Para que seja possível realizar uma comparação textual longe das barreiras das noções de influência, a intertextualidade atua como fator primordial. É o leitor que a estabelece ao entrar em contato com um texto e lembrar de outro, colocando-os em diálogo; tem-se aqui um papel ativo desse leitor no estabelecimento do dialogismo. Para mais, Tiphaine Samoyault apresenta em seus escritos outro conceito que dialoga com esse estudo: a memória melancólica. Segundo Samoyault, essa intertextualidade é o resultado técnico, objetivo, do trabalho constante, sútil e, às vezes, aleatório da memória da escritura - é esse o caminho que a literatura realiza, permitindo que o leitor, o texto e o autor tenham os seus papéis estabelecidos sem se anularem. No texto literário, há a premissa de que esse leitor possa ser livre para viajar para onde quer que sua memória o leve, tal qual fez Zezé com Minguinho, o seu pé de laranja lima. A intertextualidade é ferramenta fundamental para que se estabeleça 47 o fascínio pela literatura, visto que uma história é capaz de despertar o desejo e/ ou a lembrança de outra, construindo assim uma biblioteca vivida; a intertextualidade permite analisar a circularidade dos efeitos de sentido em uma análise estilística dos textos - fator esse que é base desse estudo. Tistou e Zezé se interrelacionam nas entrelinhas da memória, auxiliando na elaboração de uma terceira narrativa, a do seu leitor. É conveniente, também, trazer o encontro dos dois meninos para uma perspectiva benjaminiana, dado que tanto a narrativa de Zezé, quanto a narrativa de Tistou apresentam o mundo respaldado pela ótica da criança - cada uma a sua maneira; seja através de uma lente emotiva como em José Mauro ou através de uma lente denunciativa e inconformada, como em Druon. No entanto, não é apenas em decorrência de seu teor temático, mas sim porque seus autores trazerem essa infância cunhada em um eixo epistemológico e sensível da leitura crítica; quem desenha, interpreta e apresenta o mundo é a criança; no nosso caso, os dois - grandes - meninos. Estão menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer entre os mais diferentes materiais, através daquilo que criam em suas brincadeiras, uma relação nova e incoerente. Com isso as crianças formam o seu próprio mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande (Benjamin, 2002, p. 104). O ensaísta, filósofo, sociólogo e crítico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940) dedicou muitos de seus estudos para apresentar, segundo a sua concepção clara e naturalmente poética, o que é a infância. Em Benjamin, nota-se, uma valorização da criança mediante o mundo que a rodeia. Para ele, a infância concede à criança uma percepção mais pura e original da realidade. Relembro que, em páginas anteriores na apresentação de Maurice Druon, temos, também, o ideal do autor no que tange a essa fase da vida, visto que ele conceitualiza a infância como sendo uma experiência do agir pelo bem comum, ou seja, Druon aborda em seu prefácio que, ao crescer, perde-se a vontade de mudar o mundo - restando nesse futuro sem cor, apenas adultos sem milagres. E, dialogando com esse olhar benjaminiano, isso se dá em virtude de que na fase adulta, há uma noção de vida maculada