UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS BEATRIZ RODRIGUES Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada”: cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900-1926) FRANCA 2015 BEATRIZ RODRIGUES Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada”: cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900-1926) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como pré-requisito para a obtenção do título de Mestre em História. Área de Concentração: História e Cultura Orientador(a): Prof.ª Dra. Márcia Regina Capelari Naxara FRANCA 2015 Rodrigues, Beatriz Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada” : cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900-1926) / Beatriz Rodrigues. – Franca : [s.n.], 2015. 209 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências Humanas e Sociais. Orientador: Márcia Regina Capelari Naxara 1. Epistolografia. 2. Pires, Cornélio – 1884-1958. 3. São Paulo (SP) - Imprensa. I. Título. CDD – 981 BEATRIZ RODRIGUES Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada”: cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900-1926) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- Graduação da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como pré-requisito para a obtenção do título de Mestre em História. BANCA EXAMINADORA Presidente: Profª. Drª. Márcia Regina Capelari Naxara Universidade Estadual Paulista (UNESP) 1º Examinador: Profª. Drª Fraya Frehse Universidade de São Paulo (USP) 2º Examinador: Profª. Drª Virginia Célia Camilotti Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) e Universidade Estadual Paulista (UNESP) Suplentes: Profª Drª Jacy Alves de Seixas Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Profª Drª Karina Anhezini de Araújo Universidade Estadual Paulista (UNESP) Franca, 05 de novembro de 2015. AGRADECIMENTOS O trabalho do historiador com as fontes de pesquisa e a escrita da dissertação é certamente árduo e solitário. Minha trajetória foi facilitada pelo caráter despojado dos textos caipiras e macarrônicos, que permitiram muitos risos em momentos de desespero. Pude contar com um número significativo de pessoas que, das mais variadas maneiras, compartilharam das minhas alegrias, angústias e incertezas. Agradeço também aquelas que abalaram minhas convicções, mostrando caminhos diferentes daqueles que eu pensava trilhar, propiciando importante amadurecimento intelectual, fundamental para o desenvolvimento deste trabalho. Começo agradecendo minha orientadora, Márcia Naxara, pela confiança em mim, uma desconhecida até então, e no meu projeto. Com muita sabedoria e afeição, sempre esteve pronta para ajudar. Agradeço à Virgínia Camilotti por suas dicas preciosas e pelo interesse que demonstrou por minha pesquisa. Também presente em minha Banca de Qualificação, agradeço à Karina Anhenzini pelas sugestões, sempre pertinentes. À Fraya Frehse, por aceitar o convite para a Banca de Defesa. Agradeço à Paula Janovitch, já que foi por meio de seus trabalhos sobre a imprensa irreverente e de suas sugestões valiosas que o interesse pelas cartas caipiras surgiu. Em relação ao trabalho com as fontes, agradeço à Estela Madeira da Biblioteca Mário de Andrade e ao Tárcio Silva do Arquivo do Estado pela ajuda e pela acolhida. Agradeço à CAPES pelo financiamento da pesquisa. Aos amigos de Franca, agradeço à Vera pela leitura atenciosa, pela companhia, pelas trapalhadas e por me ouvir em momentos de aflição. Ao Plauto, pela hospitalidade e amizade. Ao Carlos, pelas dicas e ajudas diversas. Aos amigos de São Paulo, agradeço ao Leandro, “o rapaz da poesia”, pela atenção, pela disposição em ajudar e por ter compartilhado dos problemas e das alegrias do meu texto. Quanto à minha família, agradeço ao meu pai por tantas idas e vindas, à minha mãe por me apoiar sempre, às minhas irmãs pelo afeto e à minha sogra pela atenção. Por fim, agradeço ao Maurício, meu companheiro, pelas sugestões, por estar ao meu lado nos momentos difíceis, por me colocar para dormir e pelo amor dedicado. Além destas pessoas, me senti verdadeiramente apoiada por outros amigos, ainda que estes não estivessem diretamente ligados ao meu mestrado, seja pelo carinho, seja por me ouvirem, especialmente quando falei desenfreadamente, ou pelo interesse manifestado pelo meu trabalho. A todos, minha gratidão. “Atazanada pelos ruidos, rumores, chiados, roncos, apitos, ribombos, estrondos, explosões de motores de todas as origens, businadas em todos os tons, repicados impertinentes de tímpanos de bondes, ruidosos „jazz-bands‟ infernaes, impingindo ruídos por harmonia, e gritos em reclamos e protestos em todas as línguas, na Babel amalucada que é hoje S. Paulo, a minha alma caipira, envolvida no torvelinho desse rodopiar extenuante que nos faz atravessar atordoadamente a vida, sem percebel-a bem e nos leva, de atropello em atropello, à velhice, tive saudade, uma enorme saudade, uma profunda, amarga e acabrunhante saudade de um ambiente ainda Brasil-de-hontem, um Brasil de bangués e carros de bois.” Cornélio Pires, 1929. RODRIGUES, Beatriz. Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada”: cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900–1926). Franca, 2015. 209 f. Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2015. RESUMO Este trabalho consiste na análise das cartas em dialeto caipira, encontradas nos periódicos de São Paulo entre os anos de 1900 e 1926, que contêm reflexões sobre o cotidiano da capital, colocando em destaque muitas das transformações vivenciadas pelos seus habitantes. Aqueles que escreveram, ao mesmo tempo em que representaram a cidade moderna, acabaram por delinear um perfil para o habitante do interior. As imagens do caipira que foram construídas relacionam-se com as questões da identidade brasileira e dialogam com algumas produções literárias do período, especialmente as de Cornélio Pires. O estilo epistolar, a disposição dos textos em versos e a utilização de pseudônimos constituíam algumas das marcas dessa produção que, juntamente com os textos macarrônicos, sinalizavam para a inserção de uma linguagem mais coloquial na imprensa. Foi por meio de um discurso descontraído e cômico que as cartas caipiras representaram a cidade e o habitante rural, ao mesmo tempo em que fizeram parte daquela realidade enquanto prática cultural. Palavras-chave: Cartas caipiras. Cidade de São Paulo. Modernidade. Imprensa. Humor. RODRIGUES, Beatriz. Linguagens urbanas e modernidade na “Babel amalucada”: cartas caipiras em periódicos paulistanos (1900-1926). Franca, 2015. 209 f. Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2015. ABSTRACT This work deals with the analysis of the caipira dialect, found in São Paulo‟s periodicals of the years 1900-1926, which contains glimpses of daily life in the capital, bringing forward many of the transformations experienced by their inhabitants. The ones who wrote it, while representing the modern city, ended up tracing a profile of the country person too. The caipira´s images that were built are related to matters of brazilian identity, and establish a dialog with the literary productions of that period, especially the ones by Cornélio Pires. The letter like style, the text´s arrangement in verses and the use of pseudonyms were some of the characteristics of this kind of production, which, along with the macaronic texts, pointed to the insertion of a more colloquial language in the press. It was through a relaxed and comic discourse that the letters represented the city as well as the country person, while also being a part of that reality as a cultural practice. Keywords: Caipira letters. São Paulo city. Modernity. Press. Humor. LISTA DE FIGURAS Figura 01 - As cartasd‟abax‟o Pigues por Annibale Scipione ....................................... 35 Figura 02 - Medindo versos – Carta de um caipira por Fidêncio da Costa ................... 41 Figura 03 - Um caso de literatura paulista por Voltolino .............................................. 42 Figura 04 - Cornélio Pires imortal por Voltolino .......................................................... 45 Figura 05 - Correio d‟A Gargalhada ............................................................................. 56 Figura 06 - Pirralho .... Carteiro .................................................................................... 56 Figura 07 - Cartas de um caipira por Juca do Rego ...................................................... 64 Figura 08 - “Carta” por Malaquias T. de Souza ............................................................ 64 Figura 09 - Cartas de Nhô Vadô por Vadosinho Cambará ............................................ 65 Figura 10 - Cartas de Nha Purcheria por Purcheria do Sabará ...................................... 65 Figura 11 - Propaganda chocolate Lacta ....................................................................... 70 Figura 12 - Cornélio e os “versos” por Voltolino.......................................................... 71 Figura 13 - Fidêncio da Costa por Voltolino por Voltolino .......................................... 80 Figura 14 - Juó Bananére por Voltolino ........................................................................ 80 Figura 15 - Sacy elegante .............................................................................................. 91 Figura 16 - Sacy caipira ................................................................................................. 91 Figura 17 - Segurança pública por Voltolino ............................................................... 110 Figura 18 - Anúncio Mappin Stores ............................................................................. 124 Figura 19 - Cornélio Pires por Voltolino por Voltolino ............................................... 178 10 SUMÁRIO Introdução ..................................................................................................................... 11 PARTE I - DIZ-ME COMO SE APRESENTA E DIR-TE-EI QUEM ÉS! ........... 20 Capítulo 1 - Linguagem e periodismo ........................................................................ 21 1.1 Um sinal dos tempos ...................................................................................... 23 1.2 As correspondências caipiras e macarrônicas em circulação ......................... 31 1.3 Manifestações literárias: “nem ua coisa nem ótra” ........................................ 38 Capítulo 2 - Sobre as cartas ........................................................................................ 55 2.1 As cartas de Segismundo ............................................................................... 58 2.2 As epístolas em conjunto ............................................................................... 61 2.3 Pseudônimos .................................................................................................. 72 2.4 A comicidade do matuto ................................................................................ 81 PARTE II – NO PERCURSO DAS REPRESENTAÇÕES ..................................... 96 Capítulo 3 - São Paulo em cena .................................................................................. 97 3.1 Pelas ruas: sem ordem nem “porguesso” ....................................................... 104 3.2 A “tar” civilização .......................................................................................... 116 3.3 As cartas intrometem-se na “pulítica e na inconomia da capitá” .................... 130 Capítulo 4 - O caipira em meio urbano ..................................................................... 150 4.1 O matuto “ladino” .......................................................................................... 158 4.2 Diante das novas condições ........................................................................... 162 4.3 Ótimos trabalhadores desenvolvem o progresso aqui e lá ............................. 169 4.4 “Tal i quà”: a questão da alteridade ............................................................... 177 Considerações finais .................................................................................................... 183 Referências bibliográficas ........................................................................................... 185 Apêndice - Tabela de cartas caipiras ......................................................................... 201 Anexo - Cartas caipiras ............................................................................................... 204 11 INTRODUÇÃO Meu compade, seu Trancoso, Eu hoje vô lhe conta As mudança que soffri Nessa grande Capitá Eu tô muito diferente Do que tava no sertão, Desse tempo em que eu andava Em casa, de pé no chão.1 O caipira é o narrador da história acima. A paisagem bucólica, com árvores, riachos e animais, porém, não compõe o cenário desta narrativa. O fragmento, de autoria de Nha Purcheria, revela que é a cidade paulistana, em toda a sua complexidade, que entrara em cena. Representando o habitante do interior que se mudara para a capital, os matutos Fidêncio da Costa, Ambrózio da Conceição, Vadosinho Cambará, dentre tantos outros pseudônimos descobertos, escreveram, cada um à sua maneira, textos em formato de carta que foram veiculados na imprensa nos primórdios do século XX. Essas correspondências, espécie de crônicas da cidade, expunham por meio do humor a maneira como as pessoas lidaram com as transformações da cidade de São Paulo naqueles tempos. As cartas caipiras analisadas nesta pesquisa compreendem o período entre os anos de 1900 e 1926. A data inicial é justificada devido ao número crescente de publicações após o ano de 1900. Além disso, a virada do século parecia trazer consigo um sinal de novos tempos, representando o eufórico mundo moderno, embora saibamos que a vida cotidiana é bem mais fluida e cheia de inquietações, algo que as balizas temporais dificilmente comportam. A escolha do ano de 1926 deve-se à publicação do periódico O Sacy. Dirigido por Cornélio Pires, autor de diversas cartas em dialeto caipira, O Sacy representou o último periódico a publicar as tais cartas de forma mais intensa. Na literatura brasileira, as duas primeiras décadas do século XX ficaram conhecidas como pré-modernistas. Parte da produção literária desse período é considerada pouco inovadora, criticada pela tipificação dos personagens e pelo superficialismo. Antonio Candido afirmou que a literatura desses anos conservou os traços desenvolvidos nos anos finais do romantismo e que nada apresentou de novo. Para o autor, “uma literatura satisfeita, sem angústia formal, sem rebelião nem abismos”.2 1 SABARÁ, Purcheia do. Cartas de Nhá Purcheria. O Furão, São Paulo, n. 232, 25 out. 1919, não paginado. 2 CANDIDO, Antonio. Literatura e cultura de 1900 a 1945. In: Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 5ª Ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 113. 12 O termo “pré-modernismo”3 carrega consigo muita ambiguidade, sobretudo quando o termo “pré” é analisado do ponto de vista temporal. Parece existir uma tentativa de se definir os antecedentes para os momentos considerados marcantes da literatura, tal como o movimento modernista. É nesse sentido que o termo “pré-modernismo” parece ser uma maneira anacrônica do presente olhar o passado.4 De acordo com Sylvia Leite,5 os textos não devem ser valorizados com relação à literatura anterior ou posterior a eles, mas por si mesmos como forma de pensamento e expressão de uma dada época. Tânia de Luca também recordou que o peso simbólico de 1922 é de tal ordem que se impôs como marco periodizador da cultura brasileira, homogeneizando os antecessores sob rótulos genéricos.6 No tocante a essas discussões, é preciso mencionar que as cartas foram analisadas com o mínimo possível de preconcepções. As relações tecidas com os movimentos literários mais estruturados da época, não se dão no sentido de enquadrá-las a uma ou outra escola literária, tal como o modernismo ou o regionalismo. Pelo contrário, a relação dessas cartas com a produção literária é justificada na medida em que esse tipo de reflexão ajuda a delimitar e configurar o objeto de pesquisa. Circunscrever as correspondências por meio da linguagem é um dos objetivos desse trabalho. O dialeto caipira, sua relação com a escrita macarrônica e o vínculo com a imprensa, sinalizavam para a linguagem moderna. Esse tipo de reflexão é essencial já que a realidade não pode ser pensada como uma referência objetiva, externa ao discurso, mas como constituída pela e na linguagem.7 Os autores serviram-se da palavra para significar o mundo à sua volta, ao mesmo tempo em que propunham intervenções por meio de seus discursos. Portanto, as cartas caipiras, mais do que o retrato ou a representação da sociedade paulistana, eram parte constituinte da sociedade moderna, enquanto prática cultural.8 3 O termo foi criado por Alceu Amoroso Lima em Contribuição à história do modernismo. Cf. LEITE, Sylvia H.T.A. Chapéus de palha, panamás, plumas, cartolas: a caricatura na literatura paulista (1900-1920). 1a. Ed. São Paulo: Ed.UNESP, 1996, p. 39. 4 Devido às ambiguidades do termo pré-modernismo, José Paulo Pais preferiu chamar a maior parte da literatura deste período de art nouveau, já que nela estava inserido o cosmopolitismo, o industrialismo, o erotismo, os mitos da civilização moderna, elementos novos que sugeriam as relações contraditórias daquele tempo: arte/natureza e arte/indústria no processo da modernidade. HARDMAN, Francisco Foot. Antigos Modernistas. In: NOVAES Adauto. (Org.). Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de Cultura, 1992, p. 291. 5 LEITE, S. Chapéus de palha, panamás, plumas, cartolas. Op.cit., 1996, p. 213. 6 LUCA, Tânia Regina de. República Velha: temas, interpretações, abordagens. In: SILVA, Fernando Teixeira da; NAXARA, Márcia Regina Capelari; CAMILOTTI, Virgínia (Orgs.). República, Liberalismo, Cidadania. Piracicaba: UNIMEP, 2003, p. 42. 7 LUCA, T. de. República Velha: temas, interpretações, abordagens. Op.cit., 2003, p. 88. 8 LUCA, T. de. “República Velha: temas, interpretações, abordagens”. Op. cit., 2003, p. 44. 13 Corroborando com o pensamento de Reinhart Koselleck9 tem-se que os acontecimentos históricos não são possíveis sem atos de linguagem e as experiências que adquirimos não podem ser transmitidas de outra forma. Porém, nem os acontecimentos, nem as experiências, reduzem-se à sua articulação linguística. Isso significa dizer que em cada acontecimento entram numerosos fatores extralinguísticos que precisam ser considerados também, tais como a autoria, o formato e o meio de publicação. No caso das cartas caipiras, além das questões linguísticas, é preciso também se considerar outras características produtoras de sentido, que estão ligadas a uma reflexão sobre o gênero literário, jornalístico, entre outros. As cartas caipiras encontradas nos periódicos de São Paulo no início do século correspondem a um total de noventa e cinco.10 Grande parte delas foi publicada em revistas humorísticas ou de variedades. Algumas cartas foram publicadas em periódicos dedicados aos “homens de cor”, como é o caso de A Liberdade, O Clarim e O Menelik e outras em periódicos para imigrantes, como é o caso alemão de Deutsche Zeitung Für São Paulo. Parte do material encontra-se digitalizado na internet, como é caso de O Pirralho, O Sacy e A Cigarra. A maioria, porém, foi pesquisada no original ou em microfilme nos acervos da Biblioteca Municipal Mario de Andrade, no Arquivo do Estado de São Paulo ou no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.11 Os periódicos com o maior número de cartas são: O Pirralho, com vinte e nove; A Cigarra, com doze; A Vida Moderna, com dez; O Sacy, com cinco; O Furão, com cinco e A Paulicéia Moderna, com três cartas.12 Praticamente todos os textos estão em formato de carta e seguem uma estrutura muito parecida: possuem remetente e destinatário, mesmo que este último seja a redação do próprio periódico; estão em formato de poesia, na maioria das vezes em redondilha maior; possuem uma linguagem informal, como uma conversa entre amigos e têm por função contar as novidades da cidade. Existem alguns textos que não recebem 9 KOSELLECK. Reinhart. [1979]. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad. Wilma Patricia Maas, Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro, Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006, p. 269. 10 Essa totalidade não é algo objetivo tendo em vista que alguns textos foram considerados nesta pesquisa, ainda que não possuíssem o título de carta, como por exemplo, o texto “Narração de um caipira” publicado por A Liberdade. 11 Deve-se mencionar que no período de realização desta pesquisa, nos anos de 2013 e 2014, o acervo do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo estava localizado no prédio do Arquivo do Estado de São Paulo. 12 Com a publicação de duas cartas temos os periódicos: São Paulo Illustrado, A Farpa, A Liberdade, O Alfinete e O Clarim. Com uma carta publicada: Zé Povo, A Juventude, A Gargalhada, O Queixoso, A Ribalta, O Menelik, O Pimpolho, A Sorocabana, Tagarela, A Faísca, O Jagunço, O Buraco, Mignon Ilustrado, O Destino, O Trocista e A Ortiga. Em anexo consta tabela com o título das cartas, com o ano de publicação e o número de vezes em que cada uma delas apareceu no periódico. 14 propriamente o título de carta ou correspondência, porém, são montados com a mesma estrutura narrativa dos demais e por esse motivo, foram igualmente considerados.13 A prática de escrever cartas está em grande medida associada à improvisação e à linguagem cotidiana. Associado ao “mito da sinceridade, à transparência e à espontaneidade da escritura”,14 o estilo epistolar parece trazer consigo o íntimo, a verdade mais profunda do narrador. Monteiro Lobato, ao referir-se ao gênero “carta”, afirmou que não se tratava de literatura: Porque literatura é uma atitude – é nossa atitude diante desse monstro chamado público, para o qual o respeito humano nos manda mentir com elegância, arte, pronomes no lugar e sem um só verbo que discorde do sujeito. [...] Mas cartas não... Carta é conversa com um amigo, é um duo – e é nos duos que está o mínimo de mentira humana.15 A concepção de carta descrita por Lobato deve ser tomada com cautela no caso das correspondências caipiras, já que estas, longe de estarem vinculadas ao segredo e ao íntimo do narrador, eram escritas para serem divulgadas na imprensa. De caráter público e eminentemente aberto, difere-se em grande medida da carta privada. A verdade do narrador passava pela construção do discurso e o gênero epistolar era de fato, um recurso estético. Ao lado das questões relacionadas à construção do texto, é preciso que não se perca de vista o periódico em que esse material foi publicado. Embora as cartas sejam parecidas em relação ao tema e ao formato, elas abordaram os assuntos de forma peculiar e as diferentes perspectivas diziam respeito ao próprio universo cultural e político das revistas da época. Como afirmou Tânia de Luca, o trabalho com a imprensa periódica, não se limita a extrair um ou outro texto de autores isolados, por mais representativos que sejam, mas antes prescreve[r] a análise circunstanciada do seu lugar de inserção e [delinear] uma abordagem que faz dos impressos, a um só tempo, fonte e objeto de pesquisa historiográfica rigorosamente inseridos na crítica competente.16 13 Os textos caipiras considerados nesta pesquisa que não recebem o título de carta são: Do meio do capoeira, publicado em A Paulicéia Moderna, Narração de um caipira, em A Liberdade, Um caipira na feira do Aranhá em O Alfinete, Regresso a roça em O Queixoso, P‟ro compadre Thomé em O Clarim, Amigo e confrade em O Destino, Do zóio do Jeca ninguém escapa e Arguem ta escapano em O Trocista e por fim, texto sem título publicado em O Jagunço. 14 BOUVET, Nora E., 2006, p. 24, apud ANDRADE, Maria Lúcia C. V. de Oliveira La escritura epistolar. Buenos Aires: Eudeba, 2008, p.06. 15 LOBATO, Monteiro. [1944]. A barca de Gleyre. São Paulo: Globo, 2010, p.31. 16 LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2003, p.141. 15 As revistas culturais que circularam na cidade possuíam um projeto cultural e político que, explícito ou implícito, faziam-nas manter uma postura própria e representativa dos debates ocorridos na sociedade. Eram testemunhas importantes do processo de metropolização de São Paulo e, ao mesmo tempo, porta-vozes de alguns setores sociais. Nesse sentido, ainda que as correspondências sejam primordialmente vistas pela perspectiva cultural e literária, buscou-se analisá-las também por meio do jogo de influência política e econômica que sofriam naquele período de maior profissionalização. Em grande medida as revistas veicularam o que era rentável no momento, expressaram o que o leitor queria ler, ou melhor, dirigiram-se a grupos específicos de possíveis leitores, procurando atender suas expectativas e interesses.17 Essas discussões conduzem para o fato de que nenhum documento histórico é imparcial, mas produto da sociedade que o fabricou.18 As cartas caipiras estiveram associadas a um determinado ponto de vista condicionado pelas circunstâncias e são, assim como todas as narrativas históricas, uma percepção da realidade. Como afirmou Edward Said, ler e escrever textos nunca são atividades neutras: acompanham-nas interesses, poderes, paixões, prazeres, seja qual for à obra estética ou de entretenimento[...].19 As representações que foram produzidas pelas correspondências caipiras, tanto da cidade quanto do habitante do interior, figuraram uma perspectiva histórica. Assim como qualquer fonte, não podem retratar a realidade passada tal qual ela ocorreu, mas trazem as marcas de seu tempo, exprimindo seus embates, revelando sensibilidades e desejos. A atividade histórica, fragmentária, não consiste mais em buscar objetos “autênticos” para o conhecimento, tampouco seu papel social é o de construir a representação global de um determinado assunto.20 E, como bem lembrou Márcia Naxara e Virgínia Camilotti, “ao se compreender a obra enquanto escritura e esta enquanto múltiplos polos da cultura, a inquirição se define como averiguação das muitas alteridades que nelas se podem presentificar”.21 É o olhar do historiador que cria as incessantes possibilidades que um documento pode oferecer em relação à construção do passado. É nesse sentido que a história é edificada por 17 De acordo com Ana Luíza Martins, quando o jornalismo se transformou em grande empresa, as publicações periódicas eram vendidas, sobretudo, para gerar lucro. Cf. MARTINS, Ana Luíza. Revistas em Revista: imprensa e práticas culturais em Tempos de República, São Paulo (1890-1922). São Paulo: Edusp; Fapesp, 2008, p.22. 18 Cf. LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. In: História e Memória. Trad. Bernardo Leitão (et al.). Campinas: Ed.Unicamp, 1996, p. 535-549. 19 SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p.390. 20 Conforme trabalho desenvolvido por Michel de Certeau sobre a escrita da história. Cf. CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense, 1982. 21 CAMILOTTI, Virgínia; NAXARA, Márcia R. C. História e Literatura: Fontes literárias na produção historiográfica recente no Brasil. In: História: Questões e Debates. Curitiba, n. 50, 2009, p.43. 16 meio de diferentes percepções da realidade e as cartas trazem uma visão alternativa tanto do caipira quanto da cidade. Em relação à representação do caipira, é preciso mencionar que ela não se deu de forma direta, mas como contraponto a representação da cidade e do citadino. Em alguns casos o caipira aparece como o habitante do interior, não havendo distinção nesse caso entre interior rural e urbano, e em outros, ele é o habitante de uma área rural. Na maior parte das vezes, conscientemente ou não, eles representaram o caipira como um indivíduo esperto, trabalhador, adaptável à cidade e de boa índole. Apesar desse esforço, o caipira apareceu como “o outro”, o estrangeiro que não pertencia àquela comunidade e inadequado aos padrões civilizados. A necessidade de afirmação acabava por estigmatizar o matuto. Essas discussões abarcam a questão da alteridade e estão diretamente interligadas às intensas reflexões do período sobre a nacionalidade brasileira. Conhecer o país e buscar um tipo étnico que representasse sua nacionalidade ou que pelo menos a simbolizasse, era objetivo disseminado na época e é em decorrência disso que a reflexão sobre a representação do caipira estará em diálogo com seu contexto histórico. Os anos finais do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX foram considerados por muitos um período eufórico e de sensação de que se estava em harmonia com as forças da civilização e do progresso.22 Mergulhada em um processo de transformações intensas, a cidade de São Paulo é reconhecida por suas mudanças sociais, políticas, econômicas e científico-tecnológicas. A transição para a “cidade moderna”, apesar de todos os esforços do poder público e de parte considerável da elite do país, era um processo social descontínuo e diversificado, no qual as inovações não chegavam a romper com os traços tradicionais. As ambiguidades vividas na capital somadas a fatores de ordem cultural, social e econômico, faziam com que as pessoas vivenciassem realidades distintas e contrastantes simultaneamente. É justamente das experiências díspares do ser urbano que a memória de São Paulo foi sendo construída ao longo dos anos. “Por isso, fazer história não está no ato de criar 22 O entusiasmo capitalista, típico deste período estava ligado às transformações europeias, sobretudo a chamada Segunda Revolução Industrial, ocorrida em meados dos anos 1870. Conhecida também como Revolução Científico-Tecnológica aplicava as descobertas científicas aos processos produtivos, possibilitando o desenvolvimento de novos potenciais energéticos, como a eletricidade e os derivados do petróleo. As descobertas a partir destes processos industriais foram imensas. Para se ter ideia, surgiram neste período o veículo motor, o avião, o telégrafo, o telefone, a luz elétrica, a fotografia, o cinema, dentre muitos outros. Cf. SEVCENKO, Nicolau. Introdução. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: SEVCENKO, Nicolau. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, v3, p.07-48. 17 o novo e destruir o velho. Uma História assim é, no fundo, uma História sem tensões, sem vida, falsa história. No vivido, a práxis é contraditória. Ela reproduz relações sociais.”23 Como recordou Maria Stella Bresciani, “o espaço urbano pode ser suporte de memórias diferentes, cenários contrastados, múltiplos”.24 Diante de uma realidade fragmentada, as cartas caipiras figuraram uma maneira possível de compreender e registrar a cidade. A ótica escolhida por estes escritores para enfrentar o momento de ebulição social a que era submetida a capital paulistana, foi a da realidade cotidiana. Como afirmou Fraya Frehse, “é na vida cotidiana que a vida conflitiva „historicidade-vivido‟ se manifesta”25 e é a partir das experiências e memórias díspares, que a história de uma cidade é construída. Por meio de uma versão engraçada, o personagem caipira foi percorrendo as ruas da cidade, “se metendo” em confusão, descobrindo coisas e espantando-se com o novo. Os comentários cotidianos sobre a política, com posicionamentos ideológicos e assuntos corriqueiros, tais como a alta dos preços, a falta de calçamento nas ruas e a falta de sinalização para os automóveis, fazia com que o escritor se colocasse diante das transformações vividas na cidade. Sempre em tom amigável, como quem escreve a um amigo, o caipira ia registrando o cotidiano da Paulicéia. Partindo do princípio de que a realidade da cidade surge da vida cotidiana, interessa- nos em especial a maneira como Georg Simmel e Walter Benjamin desenvolveram seus trabalhos.26 Foi em Baudelaire que Benjamin buscou indícios para refletir sobre a modernidade e as metrópoles do século XIX. Através de seus poemas “reconstruiu a Paris de Haussmann, cidade agitada por reformas, cidade violenta, selva habitada por homens-feras, frutos da destruição e reconstrução próprias do capitalismo”.27 Dedicaram-se aos problemas da vida nas metrópoles, pensando na atuação do indivíduo em relação à vida moderna, defendendo a ideia de que além das mudanças tecnológicas, demográficas e econômicas, a estrutura da modernidade alteraria também a experiência humana, caracterizada pelos choques físicos e perceptivos do ambiente urbano.28 23 MARTINS, José de Souza. A Sociabilidade do Homem Simples: cotidiano e história na modernidade anômala. São Paulo: Hucitec, 2000, p.121. 24 BRESCIANI, Maria Stella M. Permanência e ruptura no estudo das cidades. In: FERNANDES, Ana & GOMES, Marco Aurélio A. de Figueira. (Orgs.). Cidade e história: modernização das cidades brasileiras nos séculos XIX e XX. Salvador: UFBA/FAU/ANPUR, 1992, p.14. 25 FREHSE, Fraya. Ô da rua! O transeunte e o advento a modernidade em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2011, p.33. 26 Cf. SIMMEL, Georg. A Metrópole e a vida mental. VELHO, Otávio. (Org). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. BENJAMIN, Walter, Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad. José Martins Barbosa, Hemerson Alves Baptista. Obras Escolhidas, v. 3. São Paulo: Brasiliense, 1989. 27 RAMINELLI, Ronald. História Urbana. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Orgs). Domínios da História. Ensaios de teoria e metodologia. 5ª Ed. Rio de Janeiro; Campus: 1997, p.197. 28 Ronald Raminelli ao referir-se a modernidade e ao estudo das cidades, alertou para o fato de que “a historiografia caiu numa armadilha teórica, repetindo os mesmos resultados obtidos por historiadores 18 No mesmo sentido, José de Souza Martins afirmou que a modernidade é instaurada no momento em que um conflito torna-se cotidiano e é disseminado, “sobretudo sob a forma de conflito cultural, de disputa entre valores sociais, de permanente proposição da necessidade de optar entre isto e aquilo, entre o novo e fugaz, de um lado, e o costumeiro e tradicional, de outro”.29 Essas reflexões despertam interesse na medida em que as cartas caipiras acabaram por figurar os conflitos da modernidade paulistana por meio de registros do cotidiano da cidade, independente do seu aspecto ficcional. Por meio da vida comum dos personagens, os escritores representaram os embates vividos por aquela sociedade. O matuto, ao se posicionar diante do novo, exprimia sentimentos de angústia, euforia, medo, rejeição, alegria, perplexidade e assim ia compondo sua sensibilidade, quiçá do habitante urbano de modo mais geral. Foi a partir do relato cotidiano, também, que os escritores acabaram por tecer críticas contundentes à política da época, dirigidas, sobretudo às figuras importantes ligadas ao poder. A propósito, o mundo político foi comumente pintado como corrupto, pouco ligado às necessidades populares e erigido de acordo com interesses particulares. Mais do que representar, os escritores participaram ativamente da vida política de São Paulo, propondo intervenções por meio de seus discursos. As relações políticas, enquanto dominação de alguns homens por outros, não se reduzem ao poder constituído, mas são também construções simbólicas, tais como as produzidas pela imprensa, que atribuem legitimidade ao poder.30 Em outras palavras, é possível dizer que a atuação da imprensa era poderosa e influente e que não era algo neutro. A maneira como as cartas lidaram com os personagens e com os fatos cotidianos ligados às questões do poder, revelava aspectos ideológicos dos próprios escritores e da imprensa, pois como afirmou Bronislaw Backzco: Exercer um poder simbólico não consiste meramente em acrescentar o ilusório a uma potência “real”, mas sim em duplicar e reforçar a dominação efetiva para apropriação dos símbolos e garantir a obediência pela conjugação das relações de sentido e poderio. Os bens simbólicos, que qualquer sociedade fabrica, nada tem de irrisório.31 preocupados com outras realidades”. O autor refere-se à parte da historiografia que considera estar mais preocupada em seguir os caminhos de Benjamin e Marshall Berman do que fazer pesquisa histórica. Muitas das características observadas pelo escritor são típicas da sociedade capitalista nascente, mas elas não se aplicam a todas as cidades da mesma maneira. RAMINELLI, R. História Urbana. Op.cit., 1997, p.202. 29 MARTINS, J.S. A Sociabilidade do Homem Simples. Op.cit., 2000, p.22. 30 Neste caso, é interessante refletir sobre o conceito de cultura política. Nas palavras de Rodrigo Patto Sá Motta, uma definição adequada para cultura política seria: “conjunto de valores, tradições, práticas e representações políticas partilhado por determinado grupo humano, que expressa uma identidade coletiva e fornece leituras comuns do passado, assim como fornece inspiração para projetos políticos direcionados ao futuro.” Cf. MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Culturas políticas na história: novos estudos. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009, p.21. 31 BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: Enciclopédia Einaudi. Vol.5. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985. p.298-299 19 A perspicácia dos narradores e o veemente caráter crítico assumido pela maior parte das cartas caipiras estavam aliados ao humor dos cronistas. Divertimo-nos com o desprendimento e com as trapalhadas do matuto, mas o humor das cartas não era algo inocente. O riso escondia uma segunda intenção de entendimento, e como diria Henri Bergson,32 “quase de cumplicidade com outros ridentes, reais ou imaginários”. A maneira de dizer, o formato utilizado e também o aspecto cômico dos textos, portanto, parecia estar perfeitamente ajustado a seu objetivo. Diante dessas considerações, justifica-se a estrutura deste trabalho que está dividida em duas partes. A primeira delas foi denominada “Diz-me como se apresenta e dir-te-ei quem és!”. No primeiro capítulo, “Linguagem e Periodismo”, procuro pensar as cartas caipiras do ponto de vista da linguagem. Produzida pelo complexo jogo de relações humanas, a linguagem constitui-se também como elemento modelador desse conjunto de relações. Já o segundo capítulo, “Sobre as cartas”, é uma análise do material epistolar em si. É fundamental pensar sobre o gênero das correspondências, levando em consideração o espaço que elas ocuparam nos periódicos, o modo como foram dispostas, os aspectos poéticos, a utilização ou não de imagens, os pseudônimos e os aspectos cômicos. A segunda parte, “No percurso das representações”, é dedicada à maneira como os escritores construíram suas percepções da realidade. O capítulo três, “São Paulo em cena”, como o próprio título sinaliza, trata da maneira como as cartas expuseram a capital paulistana. Os narradores teceram um panorama diferenciado da belle époque, com tom jocoso e crítico. Como já mencionado, ao mesmo tempo em que os autores descreveram a(s) cidade(s) de acordo com suas percepções de mundo, delinearam e tipificaram a imagem do habitante do interior. É por esse motivo que o último capítulo, denominado “O habitante do interior em meio urbano”, é uma análise da figura do próprio caipira que foi construído nas correspondências. Ainda que não seja possível abarcar o passado por inteiro, o propósito desta pesquisa é refletir sobre as cartas caipiras que foram encontradas na imprensa paulistana no início do século XX. A realidade passada não nos aparece pronta e acabada para ser apreendida e é ofício do historiador, por meio dos documentos e vestígios encontrados, dialogar, reconstruir e reescrever histórias. 32 BERGSON, Henri. [1901]. O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. 2ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.04. 20 PARTE I - DIZ-ME COMO SE APRESENTA E DIR-TE-EI QUEM ÉS! 21 Capítulo 1 - LINGUAGEM E PERIODISMO As transformações e contradições que a cidade de São Paulo vivenciava nos primórdios do século XX fulguravam no cenário brasileiro expressões culturais diversas. A mecanização e a popularização da imprensa, aliada ao desenvolvimento do setor educacional, especialmente da alfabetização, eram fatores primordiais e catalisadores das manifestações culturais. O aspecto linguístico era outro elemento revelador da cultura, tendo em vista que a linguagem é um marcador social importante e está relacionada à concepção de mundo de uma dada sociedade. O som das ruas paulistanas, composto pela mistura do português, com destaque para o típico linguajar caipira e a língua do imigrante, somado às novas concepções de vida urbana, propiciaram um novo tipo de expressão/escrita da cidade moderna. Ao mesmo tempo em que a linguagem produzida no seio da sociedade paulistana refletia a cidade que ia aos poucos brotando, ela criava visões de mundo, expressando o social e infligindo ao indivíduo uma maneira peculiar de ver aquela realidade. A movimentação e a expansão da imprensa era um dos aspectos culturais mais importantes do processo de formação e transformação da vida na cidade e em suas folhas foram tecidas estreitas articulações com os projetos sobre o viver urbano. Em relação ao período anterior, a imprensa republicana diversificara-se. Embora variados temas fossem debatidos ao longo do século XIX, as questões políticas eram proeminentes. O crescimento urbano, a diversificação das atividades econômicas, a ampliação do mercado e o desenvolvimento da vida mundana, tornar-se-iam temas de destaque. Novos assuntos, novos personagens e novas linguagens transformavam tanto a cidade quanto suas manifestações impressas. Acompanhando o próprio ritmo de desenvolvimento de São Paulo, a imprensa periódica vivenciou um intenso processo de inovação tecnológica. Novos métodos de impressão possibilitaram o aumento das tiragens, a combinação de textos e imagens, a melhora na qualidade e o barateamento das folhas. O serviço dos correios e telégrafos e o desenvolvimento das linhas férreas agilizaram o processo de divulgação da notícia e melhoraram o serviço de entrega das assinaturas.1 De acordo com Tânia de Luca, a produção artesanal dos impressos passou no final do século XIX a ser substituída por um processo de caráter industrial, marcado pela especialização e divisão do trabalho no interior da oficina 1 CRUZ, Heloísa de Faria. São Paulo em Revista: Catálogo de Publicações da Imprensa Cultural e de Variedade Paulistana (1870-1930). São Paulo: Arquivo do Estado, 1997, p.21. 22 gráfica, com máquinas modernas de composição mecânica, clichês em zinco e rotativas cada vez mais velozes.2 Mais de seiscentas publicações começaram a circular pela cidade e as revistas emergiram como “publicações típicas da explosão jornalística do final do século”.3 Surgia uma gama variada de revistas: literárias, humorísticas, comerciais, doutrinárias, infantis, de variedades, dentre muitas outras.4 Dados referentes ao ano de 1912 informam que havia um total de 523 revistas publicadas no período entre 1870 e 1930 na capital paulista, 12% delas se intitulavam humorísticas, 15% de “variedades” e 34% se diziam literárias.5 Aproximando-se do público leitor, as revistas ofereciam atualidades diversas: cultura, política, esporte, além de seções especializadas, como moda, cozinha, etc. Seu acabamento mais apurado e o tratamento literário mais simples das matérias, de fácil acesso ao público em geral, significava uma maior participação da população na cultura letrada.6 Ademais, havia imensos esforços no sentido do letramento da população, justificado sobretudo pelo crescimento da cidade e do setor de serviços, pela expansão da malha ferroviária, do setor industrial, pela entrada de imigrantes e pelo desenvolvimento das vias de comunicação. Todas estas circunstâncias favoreciam e demandavam circulação de informação, incentivando diretamente a educação.7 Além da figura masculina da elite, outros personagens, tais como mulheres da alta sociedade, camadas intermediárias letradas, dentre eles, professores, estudantes e tipógrafos, além de outros trabalhadores, passaram a criar o hábito da leitura.8 Havia um significado no saber ler no Brasil republicano. A escola ocupava um lugar importante no imaginário – tanto entre liberais como positivistas. Aliás, a escola era um dos principais símbolos do período, em oposição à igreja, marca da educação no período imperial. 2 LUCA, Tania Regina de. A grande imprensa na primeira metade do século XX. In: MARTINS, Ana Luíza & LUCA, Tânia Regina de. (Orgs). História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Contexto, 2013, p.149. 3 LUCA, T. de. A grande imprensa na primeira metade do século XX. Op.cit., 2013, p.20. 4 É, sobretudo a partir de 1910 que estas publicações passaram efetivamente a receber o nome de revista e construíram ligações diretas com o mercado, assumindo-se enquanto empreendimentos comerciais, com estruturas de financiamento e produção bem mais profissionalizadas. Faziam parte desta produção mais estruturada: O Pirralho, A Cigarra, A Revista Feminina, A Vida Moderna, dentre muitas outras. CRUZ, Heloísa de Faria. São Paulo em Revista. Op.cit. 1997, p.21-26. 5 SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.39. 6 O índice de analfabetismo ainda era muito alto no final do século XIX. Segundo estimativas oficiais, ela chegava a 84% da população nacional e a literatura praticamente não possuía leitores e consumidores para seus produtos, tendo em vista o alto valor dos livros, especialmente para os trabalhadores assalariados. A literatura era uma verdadeira “missão”, para utilizar o termo de Nicolau Sevcenko. Cf. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 7 LUCA, T. de. A grande imprensa na primeira metade do século XX. Op.cit., 2013, p.150. 8 Em relação aos leitores em potencial, Tania de Luca ressaltou que em 1890, estimava-se em 15% o montante da população brasileira alfabetizada. Em 1900, essa porcentagem se elevou para 25%, não sofrendo alterações significativas em 1920. Já o Estado de São Paulo na mesma época, devido à reforma na escola primária, ostentava o índice de 70% de iletrados, declinando nos anos seguintes para 42%. LUCA, T. de. A grande imprensa na primeira metade do século XX. Op.cit., 2013, p.156. 23 A escola, laica e moderna, era responsável pela alfabetização e educação, ensinando a ler e escrever, mas responsável também pelos valores cívicos, ordem e controle do tempo a partir dos conteúdos e formas de organização do trabalho. Havia expectativas de que a educação atenuasse os problemas da República instituída e de que trouxesse a modernização para o país.9 A questão do ensino em São Paulo assumia proporções tão significativas na primeira República que os próprios periódicos publicavam informações, tabelas e imagens sobre a instrução e os estabelecimentos de ensino. Em O Pirralho,10 por exemplo, tabelas comparavam a quantidade de grupos escolares que foram formados na capital e no interior, evidenciando o crescimento gradual da escolarização. Os dados informavam sobre a “extraordinária actividade e o excellente progresso da Instrucção Publica em S. Paulo”. A educação, entenda-se principalmente a “leitura”, passava a ser um elemento classificador, que conferia status àquele que era alfabetizado e a capital paulista almejava um lugar de destaque no cenário educacional. Inclusive, de acordo com O Pirralho, “uma das melhores glorias de S. Paulo [era] a instrucção modelar do povo, organizada pelos últimos governos”.11 O amplo rol de transformações ocorridas na capital não dizia respeito apenas às questões urbanas e tecnológicas, mas abarcavam a expansão e a popularização da imprensa, o incentivo à educação e as mudanças na própria linguagem. Os novos modos de expressão também estavam interligados à nova cultura, influenciada pelas diferentes populações que passaram a conviver neste espaço: negros libertos, caipiras, imigrantes, coronéis, dentre outros. É nesta conjuntura de mudanças que textos em dialeto caipira e com a linguagem do imigrante passaram a ser publicados com bastante intensidade pela imprensa. Com o intuito de pôr em cena a cultura nascente, a imprensa, com uma linguagem mais simples, concisa e efêmera, estreitava sua articulação com o mundo urbano. Ao mesmo tempo em que esta linguagem representava a cidade moderna, era parte dela. 1.1 - Um sinal dos tempos... Já não lemos livros. A nossa ambição de saber contenta-se com a leitura das revistas, onde as lições de sciencia e noções de arte são synthetisadas em meia coluna e em estylo telegraphico. Queremos clareza no estylo e vocabulario facil. Odiamos os belos períodos, de feitura caprichosa e vocábulos raros, porque, para lhes penetrar a 9 CARVALHO, Marta Maria Chagas. A dívida Republicana. In: CARVALHO, Marta Maria Chagas. (Org). A Escola e a República e outros ensaios. Bragança Paulista: Edusf, 2003, p.09-10. 10 O ensino em S. Paulo. O Pirralho. São Paulo, n. 75, 25 jan. 1913, não paginado. 11 O ensino em S. Paulo. O Pirralho. São Paulo, n. 75, 25 jan. 1913, não paginado. 24 essencia, precisamos reflectir um segundo; e esse segundo de reflexão assusta-nos e esmorece-nos a curiosidade.12 A velocidade dos trens, o impacto causado pelo automóvel, o fonógrafo, o cinema, dentre outras inovações técnicas avassaladoras, delineavam o momento em que a consciência dos paulistanos experimentava valores, concepções e sentimentos nunca antes experimentados. A velocidade e a mobilidade tornavam-se fundamentais para o novo estilo de vida da metrópole em formação e os meios de comunicação passavam a estar vinculados a imediaticidade. Uma imprensa mecanizada era potencializada pela prontidão das informações, que não apenas expandia o poder de comunicação, como também transformava a linguagem dos jornais e revistas. A velocidade do mundo moderno parecia instar o escritor, bem como os artistas em geral, a acompanhar seu movimento rápido por meio da linguagem jornalística da prontidão e da transitoriedade – diz-se transitoriedade no sentido de desapego com a permanência. Havia um intenso processo de renovação das linguagens e as revistas, por meio de textos concisos, mais adequados à nova ordem, captavam com bastante acuidade as transformações daquele período. As narrativas curtas, sintéticas, objetivas, contos-casos e textos-relâmpagos passaram a abundar nos periódicos. De acordo com Heloísa de Faria Cruz,13 as folhinhas, cartões-postais, opúsculos, correspondências e almanaques, eram materiais pioneiros na difusão da palavra impressa do periodismo em São Paulo. Paula Janovitch14 afirmou que foi justamente neste momento que começaram a surgir as chamadas denominadas “Última hora”, “O Momento Político”, “Nossos Instantâneos” e assim por diante. Além do tamanho e do formato das publicações, havia uma espécie de acompanhamento do movimento de expansão da imprensa, sugerindo um processo de escrita mais dinâmica. Houve uma crescente aproximação de conteúdos mais leves, de caricaturas, de textos humorísticos, da fotografia, mais próximos ao cotidiano, em relação à linguagem séria e sisuda da academia. Os escritores assumiram uma posição mais informal e as narrativas tornaram-se mais modestas e coloquiais. Diversos periódicos assumiram caráter mais despojado, chegando inclusive a ironizar com os excessivos rebuscamentos e formalismos, como demonstrou um cronista de O Pirralho ao afirmar que “O Pirralho gosta muito de troça, de pagodeira apezar disso, 12 C. Século da rapidez. A Cigarra, São Paulo, n. 255, 14 Jan. 1915, não paginado. 13 CRUZ, Heloísa de Faria. São Paulo em papel e tinta: periodismo e vida urbana- 1890-1915. São Paulo: Educ: Fapesp; Arquivo do Estado de São Paulo; Imprensa Oficial SP, 2000, p.82. 14 JANOVITCH, Paula E. A mecanização da imprensa através dos semanários paulistanos de narrativa irreverente (1900-1911). Revista de História 149, São Paulo, n.2, p. 211-233, 2003, p.212. 25 frequenta tambem bôa sociedade, mesmo não tendo ainda educação suficiente, nem paciência p‟ra‟ essas coisas”.15 Amiúde, o escritor das cartas caipiras reconheceu seu linguajar simples, quase sempre associado à falta de estudo, como demonstrado nesta correspondência de A Gargalhada: “sinhô ridatô, apezá di não conhecê bem di ciença e não tê jeito pra escrevê nestes negocio di cumpania, eu venho pidi pra vancê, se pudé cê, botá estas linha no çeu jorná [...].”16 Conforme afirmação de Heloísa de Faria Cruz: No lugar de descrições áridas e os pesados artigos de fundo, entram quadrinhas, historietas, diálogos curtos e a crônica mais afeita ao linguajar do dia-a-dia e ao gosto do novo público que procura cativar. Personalidades políticas, grupos sociais diversos, figuras típicas da cidade são alegorizados em personagens com falas próprias. A gíria da moda, os estrangeirismos franceses e depois yankees penetram a crônica, os falares dos imigrantes são traduzidos em fala macarrônica e a presença das populações interioranas mostra-se através dos dialetos caipiras.17 Por meio de uma espécie de arrefecimento dos padrões formais e eruditos da norma culta, a oralidade das ruas foi sendo progressivamente incorporada às publicações. A linguagem mais simplificada, especialmente dos escritores caipiras e macarrônicos, do qual falaremos adiante, sinalizava para uma literatura mais informal e popular.18 Parecia haver um embate velado entre o linguajar simples e cotidiano e o linguajar acadêmico, pomposo e sisudo, propalado, sobretudo, por políticos e literatos. De acordo com Tânia de Luca19 havia os defensores da aplicação estrita dos cânones gramaticais e avessos a tudo que se afastasse da linguagem culta, de forma que, obviamente, os textos caipiras faziam parte da produção a ser combatida. Por outro lado, havia os que defendiam o afastamento do português brasileiro com o português de Portugal, combatiam o apego ao formalismo e ao academicismo, advogando a legitimidade dos brasileirismos e das construções populares.20 15 O Pirralho no interior. O Pirralho, São Paulo, 09, 07 out. 1911. 16 REGO, Juca do. Cartas de um caipira. A Gargalhada, São Paulo, n. 02, 28 abr.1909, p.02. 17 CRUZ, H. São Paulo em papel e tinta. Op. cit., 2000, p.111. 18 A linguagem macarrônica brasileira compunha-se pela mistura do português e outra língua distinta. Era veiculada pela imprensa e representava o linguajar dos imigrantes que vieram ao país. Neste sentido, devido à quantidade de imigrantes italianos que aqui aportaram, é mais comum encontrarmos textos em italiano. 19 LUCA, Tânia Regina de. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: Ed.UNESP, 1999, p.243-244. 20 Nesta época, muitos chegaram a defender uma língua brasileira, já que às distinções entre o português brasileiro e o português de Portugal eram significativas. A situação geográfica do Brasil, o contato com os indígenas, com o negro africano, com os holandeses, franceses e ingleses, dentre outras influências, transformaram rapidamente o português brasileiro em relação ao de Portugal. Cf. AMARAL, Amadeu. [1920] O dialeto caipira. 4 ed., São Paulo; Brasília: Hucitec; INL, 1982. 26 Amadeu Amaral21 foi um dos defensores da sistematização e simplificação da escrita. O escritor defendia uma revisão das regras para regulamentação dos sinais ortográficos, contra muitos que achavam que essas mudanças desvirtuariam a língua. Uma reforma ortográfica era necessária de acordo com o autor, pois esta traria uma sistematização que nunca havia existido no país, possibilitando uma maior aproximação com o que era falado nas ruas. A questão ortográfica precisaria ser resolvida com urgência, posto que o Brasil continuasse a ser o único país do mundo civilizado em que cada um escrevia como lhe parecia, onde nem sequer nas escolas oficiais se observava um sistema ortográfico único.22 Praticamente não havia normas ortográficas no Brasil e isto acarretava uma multiplicidade de grafias para uma mesma palavra. Em 1907, surgiu um projeto de simplificação ortográfica, defendido por Medeiros e Albuquerque e apresentado à Academia Brasileira de Letras. Este projeto foi bastante discutido, mas não foi implementado. Em 1915, a Academia Brasileira adotou a reforma ortográfica que havia sido colocada em prática por Portugal em 1911, que sugeria algumas mudanças no sentido de aproximar a escrita da fala, tais como a eliminação de consoantes que não tinham valor na palavra, como o “p” de optimo e o “s” de sciencia. Esta atitude gerou muitas polêmicas. Em primeiro lugar, porque colocava em xeque nossa autonomia e em segundo, porque ninguém havia sido consultado sobre esta mudança no Brasil.23 Passados quatro anos, a reforma foi revogada e novamente o pais ficava sem uma normatização na língua.24 Essas discussões sinalizavam para a necessidade de aproximar a ortografia e a realidade idiomática. Como dizia Amadeu Amaral, “ortografia não é língua: é apenas um sistema de sinais destinados a representar as palavras. Língua é a língua que se fala, que vive nos sons de que se compõem os seus vocábulos, nas formas orais que êstes assumem, nas infinitas combinações a que êles se prestam [...]”.25 Prossegue o autor em outro momento: “em língua nenhuma se conseguiu ainda, nem se conseguirá jamais, estabelecer um sistema ortográfico capaz de se ajustar como uma luva à imensa variabilidade dos fenómenos vivos, no tempo e no espaço. Todo sistema ortográfico é uma convenção [...]”.26 Amadeu Amaral tocava em pontos importantes que abalavam a ideia de uma escrita rígida, homogênea e imutável para o país. Em carta caipira publicada em A Vida Moderna, o 21 AMARAL, Amadeu. Comédia Ortográfica. In: O elogio à mediocridade (estudos e notas de literatura). São Paulo: Nova Era, 1924, p.61-77. 22 AMARAL, A. Comédia Ortográfica. Op.cit., 1924, p.103. 23 LUCA, T. de. A Revista do Brasil. Op.cit, 1999, p.247-248. 24 É apenas no ano de 1931 que a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa firmaram um acordo para unificar a língua. 25 AMARAL, A. Comédia Ortográfica. Op.cit., 1924, p.64. 26 AMARAL, A. Comédia Ortográfica. Op.cit., 1924, p.76. 27 escritor Ambrózio da Conceição questionava justamente a questão da aproximação da ortografia com a fala: “[...] co‟essa nova torgrafia que eles qué introduzi em S. Paulo, eu escrevo cum mais fé e cum muito mais certeza de não errá, e acho inté que escrevê cumo se fala é mais mió. Pois não é?”27 O próprio dialeto caipira já sinalizava para uma variação da língua portuguesa falada no Brasil e representava justamente a impossibilidade de uma escrita única. Além da linguagem utilizada, o autor referia-se diretamente às questões ortográficas discutidas naquele momento, demonstrando seu posicionamento sobre o assunto. É claro que todas essas discussões foram fortalecidas naquele momento pela questão da nacionalidade. A defesa da língua pátria relacionava-se a um objetivo de padronização cultural envolto ao projeto nacional. Havia um empenho pela valorização de elementos que pudessem servir como marcas da nacionalidade, já que a língua funciona como signo da identidade nacional e é um importante fator de coesão.28 Neste sentido, os embates que permeavam a questão da linguagem, tais como a aproximação ou o distanciamento do português de Portugal, a maior simplificação da escrita, a busca por linguajares que expressassem a diversidade do país, dentre outros, demonstravam um intenso processo de reflexão sobre o país e sua nacionalidade. Como visto, a questão da linguagem suscitava intensas controvérsias naquele momento de ebulição cultural. O movimento para tornar a linguagem da imprensa mais informal provocava polêmicas nas próprias páginas impressas. Um aluvião de artigos, crônicas e diversos tipos de textos questionavam aquelas transformações. Muitos entendiam que a renovação da linguagem era algo natural e condizente com a nova realidade da metrópole. Outros, porém, estarreciam-se e rejeitavam as mudanças, especialmente por considerar que a imprensa apagava a criação artística, sufocando a originalidade dos autores, contribuindo para o processo de banalização da linguagem literária. Além do mais, de acordo com Nicolau Sevcenko, mesmo sendo baixa a remuneração, exigiam-se “uma facúndia e prolixidade tal dos escritores, que impediam qualquer preocupação com o apuro da expressão ou do estilo”.29 27 CONCEIÇÃO, Ambrózio da. Cartas de um caipira mineiro. A Vida Moderna, São Paulo, n. 131, 22 ago. 1912, não paginado. 28Apesar da preocupação com a língua pátria, encontramos muitas palavras estrangeiras nas páginas impressas. Em vários periódicos, especialmente em A Cigarra, encontramos textos inteiramente escritos em francês. Era muito comum também que propagandas se utilizassem da língua estrangeira. Em 1914, a Prefeitura de São Paulo passou a cobrar uma taxa para propagandas que fossem feitas utilizando-se de palavras estrangeiras. Cf. CRESPO, Regina Aida. Crônicas e outros registros: Flagrantes do pré-modernismo (1911-1918). Campinas, 1900, 297f. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós Graduação em História, Unicamp, Campinas, 1990. 29 SEVCENKO, N. Literatura como missão. Op.cit., 1985, p.100. 28 Em texto intitulado “português” publicado em A Cigarra, o escritor Augusto de Castro problematizava a deturpação da linguagem: “a língua portugueza, a nossa doce língua, abastardar-se e prostitui-se. O culto da palavra, da palavra falada e da palavra escripta, perde- se dia a dia. Só raros espíritos, em Portugal e no Brasil, conservam, alimentam e animam esse culto precioso”.30 De acordo com o escritor, porém, o “mal” da língua não assombrava apenas o Brasil, era um mal da época: O mal é da época. A thecnologia scientifica, por um lado; a thecnologia industrial e comercial, o barbarismo, o estrangeirismo, por outro lado, invadem por toda a parte e tomam de assalto a linguagem moderna. A vida, cada vez mais ferozmente utilitária, é cada vez menos estetica. A linguagem tornou-se a expressão rude, rapida dessa existencia fremente que nós vivemos. Escreve-se cada vez mais e, por isso, cada vez peor. Fala-se cada vez mais depressa e, por isso, cada vez menos escropulosamente; fala-se cada vez mais, línguas estranhas e, por isso, cada vez peor a própria língua. Isto não é deste, nem daquelle paiz; não é defeito nosso ou alheio: é uma condição da época.31 Como a publicação de crônicas sobre o assunto era comum na imprensa da época, vários autores preocuparam-se em desvendar o responsável pela corrupção da língua portuguesa. Afirmava um dos cronistas de A Paulicéia Moderna32 que a influência estrangeira era um dos maiores responsáveis pela degeneração: “os estrangeiros que para aqui vêm, quer para fazer fortuna, quer não, pela necessidade que têm de pôr-se em contato com os naturaes da terra, aprendem o portuguez a seu modo, geralmente nas camadas mais baixas do povo, e não tardam a engrossar a corrente deturpadora do nosso idioma”. Um cronista de A Cigarra por sua vez, afirmava que não se tratava da influência dos imigrantes: “não se cuide que seja isso devido ao elemento extrangeiro, que já começa a predominar na população do nosso Estado, e a prova é que da língua italiana, tão vulgarizada na capital e no Interior, poucos vocábulos e formas idiomaticas entraram na linguagem popular”. A deformação da linguagem, de acordo com o autor, provinha das camadas mais baixas, “[...] para falar a verdade, a língua pura, ou mais ou menos pura, é privativa da classe culta e usada hoje por pouquissimos escriptores, por poetas principalmente”.33 Percebe-se que as modificações na linguagem iam muito além de uma questão puramente linguística, na medida em que aspectos relacionados aos costumes e a concepções de vida eram postos em reflexão, especialmente pela imprensa. De acordo com o escritor de A Cigarra, a própria condição financeira de um indivíduo estava atrelada ao modo de falar e 30 CASTRO, Augusto de. Portuguez. A Cigarra, São Paulo, n. 166, 15 Ago.1921, não paginado. 31 CASTRO, Augusto de. Portuguez. A Cigarra, São Paulo, n. 166, 15 Ago.1921, não paginado. 32 A nossa língua. Paulicéia Moderna, São Paulo, n. 03, 24 dez. 1916, não paginado. 33 Chronica. A cigarra, São Paulo, n. 257, jul. 1925, não paginado. 29 escrever, de modo que atribuiu à camada mais humilde da população a causa da decadência do português falado no Brasil. No excerto adiante, o mesmo autor relaciona a degeneração da linguagem a uma corrupção social difundida: E dizer que os mais incorrectos e detestáveis escriptores da phase actual serão os clássicos de amanhã! Nem podia ser de outro feitio. Atravessamos uma tremenda phase de dissolução de costumes. Os jogos de azar, largamente vulgarizados no paiz, os máus costumes, tudo com uma linguagem própria, invadiram a língua penetrando-a pelos alicerces.34 Os embates em relação às mudanças na linguagem moderna, seja censurando-a ou ratificando-a, revelavam aspectos muito variados da cultura paulistana. Os novos modos de viver e as novas sensibilidades proporcionadas pelo advento da metrópole moderna, marcados pela velocidade e pela brevidade, tornavam-se cada vez mais evidentes e a linguagem ocupava um lugar central nesse cenário, tanto refletindo a modernidade quanto participando ativamente em sua formação. Em relação a estes aspectos na literatura americana, Edgar Allan Poe afirmou que não se tratava de uma decadência de gosto: É, antes, um sinal dos tempos, é o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação. Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há um século, mas indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais reto, mais metódico, menos pesado.35 As reflexões sobre as profundas mudanças ocorridas neste período diziam respeito ao modo de vida moderno e a arte como um todo. De modo geral, os críticos da cultura pareciam declarar que se estava atravessando por um momento de crise espiritual, marcando a decadência cultural e artística. Em artigo intitulado “Democratisação ou degenerescencia da arte” de 1910, por exemplo, o escritor de A Gazeta Artística perguntava aos leitores: “na actual crise que atravessa, a arte tende para uma forma mais democrata ou está degenerando?”.36 34 Chronica. A cigarra, São Paulo, n. 257, jul. 1925, não paginado. 35 POE, Edgar Allan. Excertos da marginalia. In: Ficção completa, poesia & ensaios. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p.986. 36 PICCAROLO, A. Democratisação ou degenerescencia da arte. Gazeta Artística, São Paulo, n. 04, 30 jan.1910, p.03-04. 30 A arte estava passando por um processo de transformação e era importante compreender as razões intrínsecas daquelas mudanças. De acordo com muitos relatos da época, a impressão era de que se estava vivendo o fim de uma tradição cultural e artística. Se refletirmos sobre a transformação da arte, em especial da escrita nos moldes benjaminianos, poderíamos pensar que as revistas, bem como os textos enxutos por elas publicados, tais como as cartas, as crônicas, reportagens, comentários, dentre outros, através dos métodos de reprodução técnica que se utilizaram, pela inserção naquele contexto específico e pela brevidade, contribuíram para a dessacralização da arte.37 Benjamin constata a decadência da cultura literária e da crítica frente à mudança cultural. Para o autor, existia um verdadeiro confronto entre o escritor e a nova escrita da cidade, já que o escritor perdia prestígio para formas mais efêmeras de publicação.38 De acordo com Sylvia Leite,39 embora muitas vezes superficial, a opção por estórias curtas de ação, pela oralidade, pela estilização de personagens e pela abordagem pitoresca de situações, não deve ser lida unicamente como forma de estagnação ou retrocesso, já que a simplificação da literatura a tornava mais atraente e acessível ao leitor. Poe40 acrescentava que a mudança enriquecera “o fundo dos pensamentos”, que havia mais fatos conhecidos e registrados e, portanto, mais coisa para refletir. De acordo com o escritor, as pessoas eram conduzidas a enfeixar o máximo possível de idéias no mínimo de volume, a espelhá-las o mais rapidamente possível. “Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines.”41 Willi Bolle42 referiu-se à metrópole moderna como sendo definida pela linguagem da prontidão, dos panfletos, cartazes, placas de trânsito, outdoors, sinais, letreiros, informações, anúncios, manchetes, etc. Na nova cidade, as coisas seriam regidas em fragmentos, imagens, “tabuletas da escrita”, o que Bolle chamou de imagens do pensamento. “A imagem de pensamento enquanto fragmento urbano registra a experiência da metrópole, o aparelho gigantesco da vida social, a escrita da cidade.”43 Dessa forma, a escrita estaria pouco a pouco se deslocando para as ruas, no meio das multidões da cidade. Restava ao escritor, em vista do choque exercido pela nova forma de escrita da modernidade, redefinir seu ofício. 37 BENJAMIM, Walter. [1936]. A obra de arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. In: Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1985, p.165-196. 38 BOLLE, Willi. Fisiognomia da metrópole moderna: representação da história em Walter Benjamin. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2000, p.274-277. 39 LEITE, Sylvia H.T. A. Chapéus de palha, panamás, plumas, cartolas: a caricatura na literatura paulista (1900- 1920). 1a. Ed. São Paulo: Ed.UNESP, 1996, p.68. 40 POE, E. A. Excertos da marginalia. Op.cit., 1986, p.986. 41 POE, E. A. Excertos da marginalia. Op.cit., 1986, p.986. 42 BOLLE, W. Fisiognomia da metrópole moderna. Op.cit., 2000, p.273. 43 BOLLE, W. Fisiognomia da metrópole moderna. Op.cit., 2000, p.296. 31 1.2 - As correspondências caipiras e macarrônicas em circulação A transmissão rápida delineava-se como uma nova modalidade de publicação nos primórdios do século XX e as cartas, bilhetes, notícias breves, propagandas, telegramas, caricaturas, dentre outros, invadiram as páginas impressas. Inserida no rol das publicações efêmeras, as cartas, que por intermédio das postas fixas eram publicadas nos semanários, assumiram papel de destaque.44 Interessam em particular as cartas que foram escritas em dialeto caipira e em linguagem macarrônica, tipo de escrita que mistura duas línguas distintas para fins parodísticos.45 Mais de trinta semanários publicaram textos com este tipo de linguagem. Muitos deles, como é o caso de O Pirralho, Zé Povo, O Sacy, dentre outros, publicaram cartas nas duas versões. As cartas em dialeto caipira trouxeram a oralidade do habitante do campo para dentro das revistas numa ortografia quase fonética. Elas eram irreverentes e o linguajar do matuto dava um tom de leveza para as publicações. Há que se lembrar de que o tema principal era o cotidiano da cidade de São Paulo e que essas correspondências representaram um código alternativo de absorção e transmissão da realidade cotidiana. Por meio do humor, um recurso que possui certa função transgressora do ponto de vista da estética, os escritores dissiparam a fala do caipira pelas páginas impressas: Sinho Redactô do Pimpoio conforme já mandei arrepeti prô conhecimento di vancê e tudos cumpanherada de escrivinhação na foia do jorná – O Pimpoio – que vancês pertende fazê sahi na lues da purbicidade, eu isto aperparado pra arrmettê preça Capitá de Son Pólo, tudas novidade, tudas coisa que se arrefere- se as notiça d‟aqui do lugá.46 Tanto as correspondências caipiras quanto as macarrônicas estavam pautadas por uma espécie de linguagem de transição, uma mistura entre as diferentes linguagens que sintetizavam o momento peculiar pelo qual a cidade passava, incorporando as mudanças urbanas e os novos modos de falar que a cidade abrigava. “As colunas de „Cartas‟ dessa época aproximavam-se dos sons das ruas, denunciando a diversidade de linguagens presentes na 44 A reflexão sobre as cartas e a questão do gênero encontra-se no segundo capítulo desta dissertação. Neste momento, almeja-se estudá-las em conexão com as transformações da linguagem, bem como as polêmicas suscitadas por elas. 45 Por meio da linguagem macarrônica foram publicadas “As Cartas d‟abax‟o Pigues” escritas por Annibale Scipione e Juó Bananère em O Pirralho, a “Correspondência de Santa Catharina”, escrita por Franz Buller em O Bicho, as “Cartas Pomeranas” escritas por Fritz Helmoz Belotas em A Lua, as “Cartas do Bô Ritiro” escritas por Miniguccio Cicinderrela em Vida Paulista, dentre muitas outras. 46 DINIZ, Adolfo. Carta de um matuto. O Pimpolho, São Paulo, n. 01, 14 ago. 1902, p.03. 32 cidade, a fala dos caipiras, dos italianos e até mesmo dos pesados coronéis, assim como seus diversos ritmos.”47 Ambrózio da Conceição, escritor de diversas cartas caipiras, comentara em um de seus textos sobre a diversidade linguística da cidade após a chegada dos imigrantes: Todo dia, meu cumpade, Chega aqui gente de fóra. Lá destas terra da estranja Que aqui vem conta istóra. Mais eu cumo não compreendo Nada da sua oratóra, Não vo vê as suas fala Que pra mim não trais mióra. Ainda se eles falasse Protuguêis, podia sê Que eu lá uma vêis ou outra Fosse seus discurso vê, Mais o diabo é que eles fala Lingua que inté não sei lê – Intaliano e francêis Que eu nunca pude entendê.48 Paula Janovitch49 afirmou que a linguagem dialetal utilizada nessas cartas aproximava- se dos entretenimentos da cidade, tais como o teatro de costumes, dos vaudevilles e cafés- concertos. Muitas vezes, as mesmas pessoas que escreviam para os periódicos, encenavam apresentações com o dialeto caipira e havia uma versatilidade de produtores e escritores que, poderiam ser ao mesmo tempo, cenógrafos, ilustradores e tipógrafos. O que era encenado no teatro se transpunha para as colunas dos semanários e vice-versa. “Dessa versatilidade dos colaboradores da imprensa em se deslocarem com facilidade pela vida cultural também resultava essa maior autonomia da linguagem em sincronia com a vida noticiosa.”50 As seções de cartas registraram esteticamente aquela época. Isso não significa dizer que elas funcionassem como algum tipo de comprovação factual. Essas cartas não eram meros reflexos das condições que as engendraram, mas elas continham essas condições em si, já que eram produzidas a partir daquela realidade. Textos em dialeto caipira já haviam sido publicados anteriormente na imprensa, mas não com a intensidade e o propósito das 47 SALIBA, E. T. Raízes do Riso. Op.cit., 2002, p.177. 48 CONCEIÇÃO, Ambrózio da. Cartas de um caipira mineiro. A Vida Moderna, São Paulo, n. 133, 05 set. 1912, não paginado. 49 JANOVITCH, Paula E. Preso por Trocadilho. São Paulo: Alameda, 2006, p.167. 50 JANOVITCH, P. E. Preso por Trocadilho. Op.cit., p.167. 33 publicações do início do século XX. Aliás, trata-se de um caipira que representava um dos novos habitantes da cidade e que fazia dela seu objeto de reflexão. É nesse sentido que o dialeto caipira, veiculado por meio do gênero carta, sinalizava para a cidade paulistana moderna.51 Muitos escritores ironizaram com a formalidade da escrita, sobretudo com os discursos propagados pela Academia de Letras. Mesmo que muitos não estivessem engajados diretamente, o próprio “falar errado” do caipira e do imigrante já era um ato que por si só poderia ser considerado insolente se comparado às publicações de maior seriedade. Vejamos trecho de carta caipira retirada de A Vida Moderna em que o autor valorizava a ortografia simples, isto é, a forma de escrita próxima da oralidade: Cá‟ O Estado de S. Paulo, Meu cumpade, tem bem dia, Tá botando nos escrito Uma nova torgrafia Que elle chama de foneta, E que tem muita valia Pr‟a o povinho inguinorante Que não foi nas cademia. Eu tou muito sastifeito, Pois penso agora escrevê Cum muito acerto as palavra, Mêmo sem nada sabe.52 Vale a pena destacar também parte de um dos diversos textos em macarrônico italiano escritos por Juó Bananére, pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado. Bananére foi um importante cronista macarrônico, não apenas pela extensão do material produzido, mas pela agudeza com que se utilizou deste recurso linguístico. Escrevia numa mistura intencional de italiano e português, expondo a voz do imigrante italiano que vinha para o país. Sua forma de escrita assemelhava-se ao falante não letrado de São Paulo. Através da linguagem estropiada, Bananére “zombava” com a maneira moderna de escrita: “a artugrafia muderna é uma maniera di screvê, chi a genti escrive uguali como dice. Per imsempio: - si a genti dice 51 JANOVITCH, P. E. Preso por Trocadilho. Op.cit., 2006, p.167. 52 CONCEIÇÃO, Ambrózio da. Carta de um caipira. A Vida Moderna, São Paulo, n. 125, 11 julho 1912, não paginado. 34 Capitó, screvi Kapitó; si si dice Alengaro, si screvi Lenkaro; si si dice dice, non si dice dice, ma si dice ditche [...]”.53 Muitos utilizam o termo macarrônico referindo-se a alguém que não conhece bem determinada língua, “fulano falou inglês macarrônico”. Outros se referem a uma língua extremamente coloquial. No dicionário Aurélio, diz-se da língua mal falada ou de composição literária mal executada: latim macarrônico, poesia macarrônica ou, simplesmente, significa irônico, burlesco, jocoso.54 De fato, a linguagem macarrônica nem sempre é irônica, humorística ou satírica e, na verdade, é uma técnica de linguagem utilizada há muito tempo.55 O macarronismo é uma técnica literária que foi usada, sobretudo nos séculos XVI e XVII, em países, como França, Espanha e principalmente Itália. Otto Maria Carpeaux56 definiu este tipo de linguagem como “mistura intencional e literária de duas línguas para fins parodísticos”. Nesse sentido, não se trata de uma língua nova, “artificial”, mal conhecida ou copiada, mas, sobretudo, de um procedimento intertextual de construção da sátira. Mikhail Bakhtin57 referiu-se à poesia em latim macarrônico do final da Idade Média, como uma complexa sátira linguística. Estes poetas utilizaram a estrutura do latim clássico introduzindo palavras em italiano, considerado inferior, no intuito de zombar dos puristas ciceronianos, já que “a língua dos ciceronianos implicava um estilo elevado; ela era, na realidade, não uma língua, mas um estilo. Era este estilo, com norma lexical elevada e rígida que os macarrônicos parodiavam”.58 Desta maneira, a linguagem macarrônica representava o momento de transformação cultural do século XVI e era, ao mesmo tempo, representação desta transformação. O poeta italiano Teófilo Folengo teria sido um dos primeiros poetas macarrônicos. Sua paródia épica Baldus, em mistura de italiano e latim, tinha um significado particular para o contexto do final da Idade Média. Para Ernst Curtius,59 a linguagem de Folengo expressava sua própria luta interior em uma época de crise espiritual. O autor refere-se aos impasses culturais gerados entre as tradições cristãs e pagãs e ao mesmo tempo, ao impasse linguístico, entre humanistas latinizados e humanistas vulgarizantes, que preferiam a língua italiana ao 53 BANANÉRE, Juó. As cartas s‟abax‟o Pigues. O Pirralho. São Paulo, n. 49. 13 Jul. 1912, não paginado. 54Além destas associações, é comum também que a linguagem macarrônica seja associada exclusivamente ao italiano. Isto acontece porque os primeiros textos em macarrônico foram construídos nesta língua e porque existe certa assimilação do termo a cultura italiana, conhecida pela popularização do macarrão. 55 Conforme CARPEAUX, Otto Maria. Uma voz da democracia paulista. In: Reflexo e Realidade. Rio de Janeiro: Fontana, s.d., p.251. 56 CARPEAUX, O. M. Uma voz da democracia paulista. Op.cit., s.d., p.251. 57 BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de estética (A teoria do romance). São Paulo: Hucitec, 1998, p. 394. 58 BAKHTIN, M. Questões de Literatura e de estética. Op.cit., 1998, p.251. 59 CURTIUS, Ernst Robert. Literatura e Idade Média Latina. São Paulo: Hucitec; Edusp, 1996, p.396-307. 35 latim, considerado arcaico. De acordo com Carpeaux,60 a epopeia de Folengo “é uma sátira tremenda contra a arrogância dos humanistas latinizados, enquanto o enredo é terrível libelo de acusação contra a degenerada aristocracia italiana”. Ademais, “seu poema é forma de protesto do povo miúdo contra as falsas máscaras do latinismo e feudalismo que as decadentes classes dominantes usaram [...]”.61 No caso brasileiro, a produção macarrônica vigorou, sobretudo, entre os anos de 1900 e 1940 e foi marcada pela natureza jornalística. Ao lado dos textos caipiras, esteve presente em vários periódicos de São Paulo, principalmente em revistas de humor e variedades, tais como O Pirralho, O Parafuso, A manhã, O Alfinete, A Ronda, dentre outros. Estes textos estão em variadas versões, como italiano, alemão, francês, português (de Portugal), dentre outros de menor fôlego. A imagem seguinte corresponde a uma carta escrita em macarrônico italiano. Trata-se de uma publicação de “As cartas d‟abax‟o Pigues”, inventada por Oswald de Andrade, um dos fundadores de O Pirralho, que utilizava o pseudônimo Annibale Scipione. Apesar do pioneirismo de Oswald de Adrande, “As cartas d‟abax‟o Pigues”, bem como outros textos em macarrônico italiano, foram consagrados na figura de Juó Bananére. Importante ressaltar que o “Abax‟o Pigues” era na verdade um correlato de “Abaix‟o Piques”, forma popular de chamar o bairro do Bexiga e regiões próximas, que possuíam muitos imigrantes italianos: Figura 01: As cartas d‟abax‟o Pigues por Annibale Scipione. O Pirralho, n. 02, 19 Ago. 1911, p. 07. Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira62 60 CARPEAUX, O. M. Uma voz da democracia paulista. Op.cit., s.d., p.251-252. 61 CARPEAUX, O. M. Uma voz da democracia paulista. Op.cit., s.d., p.252. 62 Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=213101&pesq= Acesso em fevereiro de 2015. http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=213101&pesq 36 De acordo com Carlos Eduardo Capela63 a produção macarrônica brasileira é caracterizada por diversos fatores, mas ela obedece a alguns princípios básicos. Em primeiro lugar, a autoria dos textos é de origem estrangeira, simbolizando um dos grupos de imigrantes vindos ao Brasil. Além disso, a representação é fortemente baseada na linguagem, “que é sempre macarrônica, ou seja, composta a partir de uma combinação, em grau variável, de termos e expressões do português brasileiro, que recebe uma notação gráfica feita de modo a lembrar da aparência de uma língua estrangeira sobreposta”.64 A linguagem macarrônica também pode ser formada através da variante de uma mesma língua, como é o caso do macarrônico do português de Portugal.65 De qualquer forma, é difícil falar em norma ou definição para a linguagem macarrônica brasileira já que é comum encontrarmos em uma mesma página, vocábulos que são escritos de diferentes formas. Palavras são criadas e deformadas e sentidos inesperados são atribuídos. O léxico da língua escrita é alterado e através dos erros de concordância, a sintaxe também sofre modificações.66 O texto abaixo está escrito em macarrônico do português de Portugal. No fragmento, o cronista “brincava” com as formalidades da escrita: U redatoire deste quinta-ferino me pede que eu lh‟o escreva uma curónica de atualidade. / Eu não sai baim se me entendem cá no Vrasile ou se sou eu que nãon entendu baim us gajos daqui. / Lá na terra, curónica (pulo menos nu meu tempo de mulequinho e na minha aldaia) o que se chamava curónica eram as muléstias da gente. / [...] Agora aqui nu Vrasile a coisa é muito dif‟rente. Aqui, a curónica nãon é uma muléstia: é uma coisa, um artigo, uma histurieta qualquere que se lh‟o manda ao jurnale pra publicaire. / [...] U gajo que escrubinha a curónica é u curónista. / Ora, eu não sou e nunca fui repórtere; nunca escrubinhai curónicas, mesmo purque nunca sufri dessas muléstias. Mas o sinhoire redatoire me pediu e eu nãon q‟ria lho dizere que não savia, e por isso aqui tain bosmucês a minha curónica.67 63 CAPELA, Carlos Eduardo. S. “Entrevôos macarrônicos” em Travessia (Revista de Literatura), n. 39, jul-dez. 1999, Florianópolis, UFSC, p.74. 64 CAPELA, C. E. S. “Entrevôos macarrônicos”. Op.cit., 1999, p.74. 65 No caso do macarrônico português, o aspecto “estrangeirado” é alcançado através das diferenças fonéticas entre o português europeu e o brasileiro. Rita Selma Feltz realizou estudo do macarrônico do português de Portugal no periódico A Manhã e no Diário do abax’o piques. Cf. FELTZ, Rita Selma. O artifício da simulação (O macarrônico do português de Portugal em A Manha: 1926-1947 e no Diário do Abax’o Piques: 1933). Florianópolis, 2005. 95f. 1v. Dissertação (Mestrado em Literatura). Programa de Pós-graduação em Literatura, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2005. 66 Referindo-se ao macarrônico em italiano, Vera Chalmers afirma que sua comicidade está na paródia linguística. O macarrônico mistura palavras italianas, como “migliore”, a palavras do português, como “saúde” a outras que são comuns às duas línguas, como “pátria”. Para autora, o efeito mais engraçado, porém, é o da italianização das palavras portuguesas pela alteração fonética da primeira ou da última sílaba, “defensores”, “traidore”, “ilusdres”, etc. CHALMERS, Vera. 3 linhas e 4 verdades. São Paulo: Livraria duas Cidades, 1976, p.46. 67 CARNAXIDE, Visconde de. Curónica em Supprimento de Purtugali. A Manha, Ano XIX, n. 24, Rio de Janeiro, 03 Out. 1945, p. 05, apud, FELTZ, R. S. O artifício da simulação. Op.cit., 2005, p.24. 37 Elias Thomé Saliba68 chamou de macarrônicos todos os cronistas humorísticos de São Paulo da belle époque que foram de alguma maneira relegados ao esquecimento. São cronistas desconhecidos, tais como José Agudo, Cornélio Pires, Silvio Floreal, Léo Vaz, Juó Bananére, dentre outros que, se comparados à perspectiva da história da literatura, foram obscuros e praticamente excluídos. Existem, para Saliba, além da mistura linguística, outros aspectos que podem caracterizar a produção macarrônica em São Paulo. Para o autor, “o macarronismo ocorria em três planos, linguístico, estético e temático [...]”.69 O aspecto linguístico era um dos principais recursos, mas, no fundo, muitos personagens poderiam ser considerados macarrônicos porque eles eram construídos a partir da sátira; eram extremamente engraçados, inusitados, misturavam situações diversas e espelhavam, através do humor verbal, a própria imagem irregular e caótica da cidade paulistana. Neste caso, tanto os escritores que se utilizaram da linguagem do imigrante quanto do dialeto caipira, poderiam ser considerados macarrônicos. Saliba optou por chamá-los de macarrônicos: Em primeiro lugar, porque estilisticamente eles se caracterizaram pela mistura, pela arte do fragmento, contingente, provisória e, portanto, inclassificável [...]. O segundo caráter macarrônico desses escribas tem a ver com a peculiaridade da experiência coletiva e das sensibilidades sociais diante da metropolização de São Paulo. Poderíamos dizer que esses escribas criaram uma espécie de humor paulista, característico da belle époque e bem diferente dos humoristas da mesma época [...].70 Paula Janovitch afirmou que “o macarronismo, longe de ser uma língua mal falada, fosse ela em estilo italiano, caipira, germânico ou português, ganha [va] seu real valor por ser uma forma caricata de abordar os fatos do momento”.71 Vera Chalmers72 por sua vez afirmou que o todo do texto macarrônico não se forma devido à sua organização interna, mas também pela referência às circunstâncias políticas, exteriores a lógica da anedota. Abaixo, está transcrito fragmento de um texto em macarrônico italiano a título de demonstração. Nele, Juó Bananére traça um panorama da imigração, que em suas palavras é “una porcheria”, destacando as mazelas do sistema e os personagens envolvidos, tal como o “Lacarafo”, na realidade, Antônio Naccarato, delegado da polícia de São Paulo daqueles tempos.73 É 68 SALIBA, Elias Thomé. Juó Bananére e a literatura macarrônica na Primeira República. In: DECCA, Edgar Salvadori de & LEMAIRE, Ria. (Org.). Pelas margens: outros caminhos da história e da literatura. Campinas, Porto Alegre: Ed.Unicamp; Ed.da Universidade – UFRGS, 2000, p.29-30. 69 SALIBA, E. T. Juó Bananére e a literatura macarrônica na Primeira República. Op.cit., 2000, p.29-30. 70 SALIBA, E. T. Juó Bananére e a literatura macarrônica na Primeira República. Op. cit., 2000, p.30. 71 JANOVITCH, P. E. Preso por Trocadilho. Op.cit., p.170. 72 CHALMERS, V. 3 linhas e 4 verdades. Op.cit., 1976, p.112 e seg. 73 Devido às ações truculentas de Antônio Nacarato, muitos semanários daquele período teciam virulentas críticas ao delegado de São Paulo. 38 perceptível como Juó Bananére traça um panorama da situação do imigrante italiano na chegada ao Brasil de forma leve e descontraída, mas extremamente crítica: Istu affare da migraçó stá proprio una porcheria. Ninguê si compreende. A gente sái da Italia dove tê u ré, a vamiglia, o Giolitti ecc, ecc. E dove non tê né o Lacarafo e né o Capitó i intó s‟imbarga ingoppa o navilio pur causa di vigná afazé a América. Aora, quando a genti vê xigado in Santose, inveiz faiz a pesta bobóniga, a bescigga, a vebre marella ecc. Disposa a genti vê p‟ra spetoria ds migraçó, dove a genti apanha una sóva tuttos di di manhá cidinho p‟ra si alivanta. Illos manda a genti lavá a gaza, dá di mangiá p‟ro gaxoro, butá acua p‟ras galligna ecc. Quando illos té cavado imprego p‟ra genti, a genti vá p‟ra facenda garpiná o gaffé, garpina, garpina, i quano vê o fí do meiz, buta uno puntapé p‟ra genti i non apaga nada. Ma che figlio da mánia![…].74 Os textos caipiras, juntamente com os italianos, germânicos ou portugueses, possuíam, no fundo, uma mesma essência: registrar, satirizar e refletir sobre o momento de ebulição pelo qual a cidade de São Paulo passava. Para atingir tal objetivo, os escritores utilizaram-se da oralidade heterogênea das ruas, expressando o linguajar do habitante do interior e do estrangeiro, combinando-a a uma boa dose de bom humor. Referindo-se à linguagem macarrônica, Carlos Eduardo Capela75 afirmou que era das franjas da língua pátria que surgia a estilização das línguas párias: “As línguas párias, bastardas, a principio sem direito à consagração da forma escrita, são alçadas à condição de norma, servindo de apoio para um processo de relativização cômica do português-padrão literário e jornalístico brasileiro.”76 É possível conjecturar que a linguagem macarrônica e o dialeto caipira legitimaram outros falares e outras culturas na mídia impressa. Exprimir a heterogeneidade da cultura paulistana por meio da linguagem foi, sem dúvida, uma das marcas mais importantes desta produção. 1.3 - Manifestações literárias: “nem ua coisa nem ótra” Mudanças significativas foram vividas no campo cultural e literário brasileiro em fins do século XIX. A escrita passava por um processo de profissionalização e o papel da imprensa tornava-se cada vez mais expressivo.77 Diante dessas questões, é interessante refletir sobre as cartas caipiras, produção que não ocupou lugar de destaque no mundo das letras em 74 BANANÉRE, Juó. O Rigalégio. O Pirralho, São Paulo, n. 83, 22 mar. 1913, não paginado. 75 CAPELA, Carlos Eduardo S. Língua-Pátria, Línguas-Párias. Revista da ANPOLL, São Paulo, v. 4, p. 39-64, 1998, p.52. 76 CAPELA, C. E. S. Língua-Pátria, Línguas-Párias. Op.cit., 1998, p.58. 77 Cf. CAMILOTTI, Virgínia. João do Rio: ideias sem lugar. Uberlândia: Edufu, 2008, p. 109. 39 relação aos movimentos literários mais estruturados e os textos considerados canônicos. O termo cânone, deriva do grego kánon e diz respeito à regra, modelo ou norma a ser seguida. Neste caso, o cânone literário seria uma seleção de textos, estilos e gêneros mais valorizados em detrimento de outros. As discussões em torno dos cânones literários são bastante controversas, passam pela questão da hierarquização da arte, pelas relações de poder, pela reprodução hierárquica das classes sociais, dentre outros apontamentos destes derivados.78 Neste momento, o intuito não é traçar um panorama da literatura paulista do início do século e discutir a legitimidade dos cânones literários. O objetivo é perceber em que medida a produção humorística das cartas caipiras está relacionada, se afasta ou se aproxima de alguns movimentos literários, especialmente o modernismo e o regionalismo. É preciso salientar que desde o final do século XIX, literatura e imprensa tornaram-se muito próximas. A participação de escritores, a publicação de crônicas, contos e folhetins em jornais e revistas foi bastante intensa. Escritores de grande prestígio publicavam textos nas revistas: Afonso Arinos, Coelho Neto, Amadeu Amaral, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Olavo Bilac, dentre outros, sinalizavam para a inserção dos literatos no meio jornalístico. Se por um lado havia a publicação de textos mais formais, com o uso da norma culta com bastante desenvoltura, por outro, a linguagem informal, sobretudo por meio dos textos em dialeto caipira e macarrônico, ganhavam as páginas impressas, fazendo com que este tipo de produção convivesse lado a lado. Neste panorama, era evidente que embates seriam presenciados entre escritores renomados e escritores considerados menores pela crítica. Inseridos no rol dos escritores afamados, Olavo Bilac, por exemplo, defensor da norma culta da linguagem, era um verdadeiro inquisidor, sempre pronto a denunciar qualquer desvio dos padrões normativos da língua.79 Bilac era um intelectual envolvido com várias atividades do mundo das letras, um dos poetas mais lidos e celebrados por suas habilidades parnasianas, foi eleito o “príncipe dos poetas brasileiros” no concurso que a revista Fon-Fon lançou em 1º de março de 1913. Apesar do sucesso, muitos escritores criticavam Olavo Bilac pela maneira extremamente rebuscada com que escrevia. Embora a repreensão fosse ao estilo individual do escritor, ironizava-se na verdade com a corrente geral na qual ele estava inserido, no caso, o parnasianismo. O parnasianismo era ridicularizado, pois embora os poemas ligados ao movimento fossem permeados por expressões nobres, eram considerados portadores de um 78 Cf. COMPAGNON, Antoine. O demônio da