1 DAVI SILISTINO DE SOUZA A subalternidade em Cloud Atlas, de David Mitchell SÃO JOSÉ DO RIO PRETO 2018 DAVI SILISTINO DE SOUZA A subalternidade em Cloud Atlas, de David Mitchell Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de mestre em Letras, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de São José do Rio Preto. Financiadora: FAPESP – Processo 2015/25282-4. Orientadora: Profª. Drª. Cláudia Maria Ceneviva Nigro. SÃO JOSÉ DO RIO PRETO 2018 ERRATA SOUZA, Davi Silistino de. A subalternidade em Cloud Atlas. 2018. 114 f. Dissertação (Mestrado em Letras)-lnstituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", São José do Rio Preto, 2018. Folha Linha Onde se lê Leia-se Folha de rosto 11 Financiadora: Financiadora: F APESP - Processo CAPES 2015/25282-4. FAPESP- Processo 2015/25282-4. Agradecimentos 15 A FAPESP, pela Á Coordenação de confiança e Aperfeiçoamento de financiamento desta Pessoal de Nível pesquisa Superior (CAPES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (F APESP) processo nº 2015/25282-4, pela confiança e financiamento desta pesquisa. Souza, Davi Silistino de. A subalternidade em Cloud Atlas, de David Mitchell / Davi Silistino de Souza. -- São José do Rio Preto, 2018 114 f. Orientador: Cláudia Maria Ceneviva Nigro Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas 1. Literatura inglesa - História e crítica. 2. Literatura e sociedade. 3. Mitchell, David - Crítica e interpretação. I. Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas. II. Título. CDU – 820.09 Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca do IBILCE UNESP - Câmpus de São José do Rio Preto DAVI SILISTINO DE SOUZA A subalternidade em Cloud Atlas, de David Mitchell Dissertação apresentada como parte dos requisitos para obtenção do título de mestre em Letras, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de São José do Rio Preto. Financiadora: FAPESP – Proc. 2015/25282-4. Comissão Examinadora Profª. Drª. Cláudia Maria Ceneviva Nigro UNESP – São José do Rio Preto Orientadora Profª. Drª Divanize Carbonieri Universidade Federal de Mato Grosso Profª. Drª Norma Wimmer UNESP – São José do Rio Preto São José do Rio Preto 09 de fevereiro de 2018 Dedico este trabalho a todas as pessoas que, de alguma forma, já foram injustiçadas ou menosprezadas, por agirem com resiliência e por percorrerem trajetórias singulares. AGRADECIMENTOS Chegando ao fim desse percurso, gostaria de agradecer a todos e todas que estiveram comigo e me auxiliaram nesse trabalho. Em especial, agradeço: Aos professores do PPG Letras do IBILCE, pela formação acadêmica. À Profª. Drª. Cláudia Maria Ceneviva Nigro, mais do que excelente orientadora, alguém que acolheu a mim e minhas pesquisas desde o primeiro ano de graduação; pelos ensinamentos, carinho, força, amor, dedicação, amizade, risadas e companheirismo. Às Profª. Drª Divanize Carbonieri e Profª. Drª. Norma Wimmer, pelas valiosas considerações, correções e adições proporcionadas à dissertação. Aos funcionários da seção de Pós-Graduação e da biblioteca, pela competência e disponibilidade. À FAPESP, pela confiança e financiamento desta pesquisa. Aos familiares, pelo afeto. Ao meu pai, Joaquim, pelo ótimo convívio e apoio incondicional, pelo suporte financeiro e idas emergenciais ao supermercado, pelos melhores momentos juntos de nossa convivência. À minha mãe, Rosana, pelo amor, carinho, preocupação e incentivo na minha vida acadêmica, por escutar pacientemente meus desabafos e me deixar com um sorriso no rosto; por, mesmo estando longe fisicamente, estar presente sempre no meu coração. À minha querida irmã, por estar ao meu lado, não importa qual seja a situação, seja assistindo um episódio de Crazy Ex-Girlfriend ou recomendando uma receita nova, seja me fazendo companhia nos momentos mais difíceis dessa trajetória; pelo exemplo de dedicação e responsabilidade na pesquisa. À minha sobrinha Mila, por trazer alegria, vida e, sim, um pouco de bagunça, a nossa casa. Aos amigos e amigas, pela constante presença. À Nayara e Naiara, por me ensinarem o valor de uma amizade; pelas horas bem gastas simplesmente assistindo filmes, tocando violão ou fazendo planos para o futuro, me distraindo e tornando a pesquisa mais agradável; por cada instante juntos em que me foi dado amor, carinho e compreensão. À Débora, Isadora, Jéssica e Raul, por me ensinarem que o nível de uma amizade pode ser aprofundado, por compartilharem alguns dos melhores momentos nesses anos, pelas idas ao cinema, às baladinhas e às nossas casas, ainda que os prazos estivessem em cima. Ao Lucas, pelas conversas e debates sobre decolonialidade, pelos desabafos de nossas vidas pessoais; enfim, pela amizade decolonial à distância adquirida em Jataí. Aos demais colegas dessa travessia, pelas contribuições à pesquisa e pelos bons momentos juntos. RESUMO As injustiças e opressões enfrentadas pelos subalternos vêm sido estudadas há algumas décadas pelos Grupos de Estudos Subalternos, seja o de origem indiana ou latina. Com o auxílio dessas pesquisas, na contemporaneidade, os indivíduos excluídos adquirem voz, sendo ouvidos e respeitados na sociedade. Considerando esses fatos, a dissertação tem como objetivo contribuir para esse enfrentamento, ao estudar de que maneira a subalternidade é representada nas personagens de Cloud Atlas (2004), romance escrito por David Mitchell. Em nossas análises, evidenciaremos a presença de uma crítica às estruturas hegemônicas na construção das protagonistas, pertencentes a sociedades organizadas em hierarquias sociais e econômicas que propiciam a subjugação e abafamento da voz dos marginalizados. Verificaremos como Mitchell dá voz a personagens subversoras da relação de desprezo, ataque ou mesmo silenciamento. Como aparato crítico-teórico, fundamentamos nossa pesquisa em Grosfoguel (2008), Mignolo (2007) e Castro-Goméz (2005), para discutir questões relacionadas à decolonialidade; em Foucault (2015), Rabinow e Rose (2006), para tratar do conceito de biopoder; em Butler (2003), Foucault (1980) e Stadniky (2007), para estudar as questões de identidade e gênero; em Arendt (2000), Bauman (2014), Butler e Spivak (2007), para debater acerca da liberdade dos subalternos; em Bauman (2014) e Eagleton (2004; 1996), para estudar conceitos relacionados à contemporaneidade; e, por fim, Bhabha (2013) e Santana (2008), para discutir questões relacionadas às diversas concepções de tempo. Palavras-chave: Subalternidade. David Mitchell. Cloud Atlas. ABSTRACT Injustices and oppressions faced by subalterns have been studied for some decades by Subaltern Studies Groups, whether of Indian or Latin origin. With the aid of the group researches, contemporarily, excluded individuals acquire a voice, being heard and respected. Considering these facts, the dissertation aims to contribute to this fight by studying how subalternity is represented in characters in Cloud Atlas (2004), a novel written by David Mitchell. In our analysis, we will highlight the presence of hegemonic structure critiques in the construction of characters from subaltern groups. They belong to societies organized in a social and economic hierarchy, responsible for subjugation and muffling of subaltern’s voices. We will observe how Mitchell gives voice to characters who subvert the contempt, attack or even muzzling subalterns. As a critical- theoretical approach, we base our research on Grosfoguel (2008), Mignolo (2007) and Castro-Goméz (2005), to discuss issues related to decoloniality; in Foucault (2015), Rabinow and Rose (2006), to deal with the concept of biopower; in Butler (2003), Foucault (1980) and Stadniky (2007), to study identity and gender issues; in Arendt (2000), Bauman (2014), Butler and Spivak (2007), to discuss subaltern freedom; in Bauman (2014) and Eagleton (2004, 1996), to study concepts related to contemporaneity; and finally, Bhabha (2013) and Santana (2008), to discuss issues related to different conceptions of time. Keywords: Subalternity. David Mitchell. Cloud Atlas. SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................01 CAPÍTULO I: AUTUA E SONMI~451: ESCRAVIDÃO NA DECOLONIALIDADE 1.1. A decolonialidade dos subalternos........................................................................13 1.1.1. Autua e o poder decolonial.............................................................................16 1.1.2. Sonmi~451 e o giro decolonial.......................................................................22 1.1.3. Autua e Sonmi~451 e as hierarquias escravocratas.......................................29 1.2. O biopoder frente às vidas subalternas................................................................32 CAPÍTULO II: LUISA E ROBERT: IDENTIDADES E PERFORMATIVIDADE 2.1. Identidade, superioridade e fronteira...................................................................46 2.2. Identidades de gênero e performance....................................................................49 CAPÍTULO III: TIMOTHY E ZACHRY: LIBERDADE 3.1. Tem o subalterno liberdade em sociedades predatórias hierárquicas?............63 CAPÍTULO IV: TODAS AS VOZES: CONSUMISMO E O TEMPO CINDIDO 4.1. Tempos de consumo...............................................................................................77 4.2. Tempo cindido e simultaneidade temporal..........................................................90 4.2.1. Tempo duplo e cindido...................................................................................92 4.2.2. Simultaneidade temporal e a metáfora do deus Chronos...............................98 CONSIDERAÇÕES....................................................................................................107 REFERÊNCIAS..........................................................................................................111 1 INTRODUÇÃO Os estudos subalternos desenvolvem-se de forma e em contextos diferentes dos observados no início do Grupo de Estudos Subalternos indianos, na década de 1970. Teóricos como Gayatri Chakravorty Spivak e Ranajit Guha lutam por trazer à superfície vozes silenciadas e reprimidas de certos grupos na sociedade indiana, denominados ‘subalternos’. Segundo Spivak (1988), a proposta principal trazida pelo Grupo de Estudos é: “[…] revisar a definição geral e a teorização, ao propor pelo menos duas coisas: em primeiro lugar, que o momento de mudança deve ser multiplicado e organizado como confrontos, ao invés de transição […] e, em segundo lugar, as mudanças devem ser marcadas por uma mudança funcional no sistema. A mais importante é deixar de ser religiosa para ser militante” (p. 3).1 Assim, modificando o modo como a História é contada e revendo teorizações da História dos países, no caso específico da Índia, poderia haver uma igualdade entre as diversas forças de poder. Além disso, Spivak propõe encarar as mudanças como militância contra poderes hegemônicos2, mostrando a existência do subalterno merecedor do devido destaque pelo papel histórico empreendido. A historiografia tradicional foi - e ainda é - dominada pela classe social de elite, a qual descreve o subalterno por meio de uma perspectiva que privilegia os anseios e as demandas da sociedade hegemônica. De acordo com Spivak (1988), “[…] é somente nos textos de contrarrevolução ou na documentação elitista que recebemos as notícias da consciência do subalterno” (p. 12), de modo que a resistência vivida por grupos de classes inferiores é percebida como uma crise ou uma dificuldade enfrentada pelas autoridades. Há uma incapacidade hegemônica de compreender e lidar com a possibilidade de o subalterno 1 Tradução nossa do excerto: “[…] to be revising this general definition and its theorization by proposing at least two things: first, that the moment(s) of change be pluralized and plotted as confrontations rather than transition […] and, secondly, that such changes are signalled or marked by a functional change in sign- systems. The most important functional change is from the religious to the militant” (SPIVAK, 1988, p. 3). 2 Compreendemos hegemonia, conceito primeiramente cunhado por Gramsci, a partir do conceito de ‘hegemônico’ de Abagnanno (2007), isto é, “[…] a razão que anima e governa o mundo.” (p. 497). Assim, a hegemonia constitui-se em forças regendo as sociedades, contemplando, por exemplo, a figura masculina, branca e de classes sociais superiores, no contexto ocidental. É necessário atentar, no entanto, para a “personalidade” representativa da hegemonia não sendo a mesma para todas as situações e localizações. No contexto indiano, por exemplo, vemos essa relação de poder na cultura do ainda perpetuado sistema de castas. 2 ter alguma relevância social. No momento em que há demonstrações de ameaça da perda de poder, as classes superiores fazem questão de que isso não ocorra ou transpareça na historiografia. Ainda, de acordo com Guha (2000), essa historiografia “[...] falha em reconhecer, bem menos em interpretar, as contribuições feitas pelas pessoas, por si mesmas, isto é, independentemente da elite, para o desenvolvimento desse nacionalismo” (p. 2).3 Assim, a historiografia de diversos países apresenta relatos históricos de forma a vincular personagens, pertencentes à diferentes classes sociais, com a elite. A proposta do Grupo de Estudos Subalternos é subverter a perspectiva, e trazer à frente a percepção das classes silenciadas na História. Atualmente, os Estudos Subalternos, como abordagem crítica, superam o contexto inicial indiano, abarcando outros países que também enfrentaram a colonização, em especial a região da América Latina. De fato, no início da década de 1990, há a criação do Grupo de Estudos Subalternos Latino, cujos objetivos principais são a inserção do contexto latino-americano na discussão a respeito da subalternidade, além da introdução de conceitos como “decolonialidade” (GROSSFOGUEL, 2008), “colonialidade do poder” (QUIJANO, 2005), “giro decolonial” (MIGNOLO, 2007), entre outros. Como veremos no primeiro capítulo, por meio da decolonialidade, considera-se a colonialidade não extinta com o fim da colonialização, isto é, há a presença de resquícios das estruturas coloniais nos países latinos. Dessa maneira, os estudiosos do grupo iniciam as discussões contemporâneas acerca de uma relação de subalternidade global, que não se extingue com a historiografia ocidental. Para além das contribuições dos Estudos Subalternos, julgamos de grande relevância trazer para o escopo teórico outras [...] abordagens não apenas imanentes do texto, como os estudos de gênero, as abordagens sociopolíticas, as complexas relações estabelecidas pelo ato de fala, desviante e propiciador de aberturas das normas prescritas, e os estudos subalternos, principalmente o latino-americano. (NIGRO, 2017, p. 16) Cada um desses estudos possui particularidades que nos auxiliam a compreender a forma 3 Tradução nossa do excerto: “[…] fails to acknowledge, far less interpret, the contribution made by the people on their own, that is independently of the elite to the making and development of this nationalism” (GUHA, 2000, p. 2). 3 como o subalterno batalha para não ser silenciado por forças hegemônicas e como essa “intervenção política” apresenta-se no discurso do texto literário. Nesta dissertação, utilizaremos a abordagem pós-estrutural no primeiro capítulo, com o propósito de compreender a dinâmica das forças de poder em termos da vida e do corpo dos subalternos. Para tanto, fundamentaremos nossas pesquisas nos trabalhos de Foucault (2005; 2015), enfatizando uma genealogia do biopoder. A abordagem de gênero será empregada, a fim de compreender o enfrentamento das mulheres em uma sociedade pautada por princípios sexistas. Para isso, é de grande auxílio o percurso crítico percorrido por pensadores como Butler (2003; 2009) e Foucault (1980),4 bases para as reflexões do segundo capítulo da pesquisa. Já no terceiro capítulo, retornaremos para uma abordagem pós-estrutural e sociológica, com o intuito de compreender as possíveis manifestações de liberdade em uma sociedade injusta e opressiva. Empregaremos nesse momento as pesquisas de Arendt (2000), Butler e Spivak (2007) e Bauman (2014) como suporte teórico. No quarto capítulo, faremos uma análise geral da subalternidade, trazendo uma discussão acerca do período contemporâneo e do trajeto econômico e social percorrido desde a temporalidade inicial no romance, isto é, final do século XIX. Serviremo-nos de abordagens pós-estruturais contemporâneas, como os estudos de Bauman (2014) e Eagleton (1996; 2004). Além disso, será de grande auxílio uma abordagem pós-colonial, representada por Bhabha (2013), na medida em que examinaremos a constituição das diversas temporalidades em meio às altercações de poder nas sociedades. Tendo em vista essas considerações, o objetivo é analisar criticamente o romance Cloud Atlas, de David Mitchell, pelas abordagens dos Estudos Subalternos, de Gênero, do Pós-Estruturalismo, do Pós-Colonialismo, entre outras, buscando determinar como a obra mostra o tratamento de personagens subalternas em uma sociedade hegemônica. Objetivamos, ademais, compreender a situação de subalternidade nos contextos específicos das protagonistas, atentando-nos aos contrastes entre grupos no poder político e econômico e grupos fora do poder. Em Cloud Atlas, como em alguns romances de Mitchell, há várias particularidades e 4 Tanto no primeiro quanto no segundo capítulos fundamentamos nossa pesquisa na teoria foucaultiana, porém, assim como deixaremos claro a seguir, os textos utilizados referem-se ao pensamento pós-estrutural devenvolvido por Foucault. Afastamo-nos, assim, de abordagens e teorias estruturais, baseadas em dualidades e binarismos, não condizentes com nossa pesquisa. 4 complexidades, tanto em termos de estrutura, quanto em termos dos assuntos discutidos na narrativa. O romance narra seis histórias diferentes passadas em períodos históricos e locais distintos, desde as ilhas no sul do Oceano Pacífico durante o final do século XIX até o Havaí de um futuro pós-apocalíptico. No entanto, a complexidade não se limita somente ao enredo e às técnicas narrativas. A estrutura intrincada do livro, por exemplo, é baseada em um questionamento do autor: “O que aconteceria se um espelho fosse colocado ao final do livro, fazendo com que a história continuasse em uma segunda metade, levando o leitor ao início?” (MITCHELL, 2010, s/p)5. Desse modo, os seis capítulos são divididos em duas partes, sendo a primeira organizada em ordem numérica crescente (1-2-3-4-5-6) e a segunda decrescente (5-4-3-2- 1). Além da ordem não usual das narrativas, nota-se que cada uma é redigida em um gênero textual diferente. O primeiro texto pertence ao gênero diário, de Adam Ewing; o segundo, ao gênero epistolar (cartas de Robert Frobisher endereçadas a Rufus Sixsmith); o terceiro, ao gênero romance de banca (“romance de aeroporto” sobre Luisa Rey); o quarto, ao gênero “roteiro manuscrito” (um futuro filme sobre os acontecimentos na vida de Timothy Cavendish); o quinto, ao gênero entrevista (transcrições da última entrevista de Sonmi~451); e o sexto, ao gênero de narrativa oral (a história de Zachry). Cada história é lida/vista pela protagonista da história seguinte. A leitura inicia-se na primeira parte, é interrompida por um momento e finalizada na segunda parte do capítulo. Cabe aqui mencionar que Cloud Atlas não é o primeiro romance do autor e também detalhar um pouco da biografia. David Mitchell nasceu em Southport, na Inglaterra em 1969. Apesar de passar a infância e realizar graduação em Inglês e Literatura Norte- americana e mestrado em Literatura Comparada no país de nascença, o autor permaneceu parte da vida adulta na Sicília, Itália e em Hiroshima, Japão - essas variadas experiências culturais podem ser visualizadas em grande parte das obras. Atualmente Mitchell mora na Irlanda com a esposa Keiko Yoshida e dois filhos, tendo recentemente traduzido, do japonês para o inglês, o livro Fall Down 7 Times Get Up 8: A Young Man's Voice from the Silence of Autism, do jovem autor Naoki Higashida. Até o momento, Mitchell escreveu sete romances: ghostwritten (2001), Cloud Atlas (2004), The Thousand Autumns Of Jacob De Zoet (2011), Number9Dream (2014a), Black 5 Tradução nossa do excerto: “What would it actually look like if a mirror were placed at the end of the book, and you continued into a second half that took you back to the beginning?” (MITCHELL, 2010, s/p). 5 Swan Green (2007), The Bone Clocks (2014b) e Slade House (2015b). Dentre elas, somente as seguintes foram traduzidas para o português: Cloud Atlas (2004) para Atlas de nuvens (2016), The Thousand Autumns Of Jacob De Zoet (2011) para Os mil outonos de Jacob de Zoet (2015a), Black Swan Green (2007) para Menino de lugar nenhum (2008). Ressaltamos nossa decisão, nesta dissertação, de realizar as traduções de Cloud Atlas, ao invés de utilizar a versão existente. Essa escolha decorre da nossa leitura crítica sobre a tradução, optando por uma maior aderência a nossa interpretação do texto base. Reconhecemos a importância do trabalho realizado na tradução oficial, mas optamos por apresentar nossa própria tradução no decorrer da pesquisa. É necessário também mencionar que, devido às inovações linguísticas e semânticas trazidas por Mitchell no texto base, é possível notar, principalmente nas traduções relativas a quinta e sexta narrativas, uma escrita não usual. Buscamos manter a criação de novas palavras e a modificação de algumas palavras que comecem com as letras “ex” na quinta narrativa, e adequar a tradução para a variante que foge da norma padrão da língua portuguesa na sexta narrativa. Ambas as decisões seguem as escolhas do texto base, pois consideramos uma grande contribuição para a caracterização do período futuro e das personagens. Apesar das inúmeras riquezas da obra, nosso trabalho envolve averiguar como cada protagonista é representada em uma determinada classe subalterna, e como se posiciona na narrativa. Em ordem crescente dos capítulos, nos focaremos em Autua, escravo de uma tribo indígena; Robert Frobisher, compositor bissexual; Luisa Rey, mulher jornalista; Timothy Cavendish, editor idoso; Sonmi~451, escrava clone coreana; Zachry, jovem de uma tribo indígena prestes a se tornar escravo. Na dinâmica social em que cada personagem está inserida, é possível notar a presença de um contexto de disputa de poder em que são desprezadas e subjugadas. A seguir, relataremos uma síntese do que versam as seis narrativas de Cloud Atlas, contextualizando-as para as discussões na dissertação. A primeira história, situada no final do século XIX, trata da jornada de Adam Ewing, advogado estadunidense, e o retorno das ilhas Chatham, Nova Zelândia aos Estados Unidos de navio. Durante a estadia nessa região, a personagem encontra Henry Goose, suposto médico europeu, e estabelecem uma amizade – pelo menos na visão de Ewing. Após um desmaio, Goose falsamente o diagnostica com uma doença grave e lhe oferece um veneno, disfarçado de remédio. Conforme descobrimos depois, o objetivo de Goose é 6 se apossar dos bens de Ewing. No meio tempo, durante a viagem, Ewing descobre Autua, escravo Moriori da tribo Maori, viajando clandestinamente. Após vários pedidos, convence o capitão a deixá-lo trabalhar como pagamento da viagem. Essa atitude foi acertada, visto que Autua é o responsável, no final, por salvar Ewing de morrer envenenado por Goose. Uma das qualidades desta narrativa é a forma como Mitchell escreve: por meio de uma estrutura sintática e de um vocabulário mais arcaico. Dessa maneira, o leitor tem a oportunidade de sentir-se em contato direto com o contexto e com a época retratada. A segunda história, ambientada no início do século XX, ocupa-se dos meses em que Robert Frobisher, um compositor talentoso, vive como assistente de Vyvyan Ayrs, famoso e já idoso compositor, após ser deserdado e expulso de casa por se relacionar com Rufus Sixsmith. Desenvolvendo-se por meio de cartas, a narrativa revela as peripécias da vida de Frobisher, desde o caso com Jocasta Ayrs, mulher de Vyvyan, até a paixão por Eva Ayrs, filha de Vyvyan, e as realizações musicais criadas. A narrativa é ainda marcada pelo fim trágico do suicídio de Frobisher, após várias decepções amorosas e o término de seu sexteto intitulado Cloud Atlas. Assim, ao final, o leitor acompanha as dores e decepções da protagonista, que, apesar de trocar inúmeras cartas com Sixsmith, não consegue concretizar o relacionamento com ele. Novamente, o destaque da narrativa é a linguagem, dessa vez rebuscada e poética, própria de um jovem artista do início do século XX. A grande paixão da protagonista transparece nas cartas e nos projetos artísticos. A terceira história, contextualizada nos anos 1975, traz como foco a vida de Luisa Rey, jornalista estadunidense, que, ao entrar em contato com Rufus Sixsmith, decide investigar as mentiras e falhas nas plantas nucleares da companhia Seabord. Durante as investigações, Rey é perseguida, atirada dentro do carro em um rio, envolvida em um tiroteio e sofre atentados com uma bomba em que quase perde a vida. No final, após ainda ter de enfrentar ofensas machistas e assédio moral no trabalho, encontra um relatório de Sixsmith e decide publicá-lo na revista. O romance, nesse momento, distancia-se das narrativas anteriores, tanto pela presença de um narrador em terceira pessoa, quanto pela mudança para um gênero textual de romance de banca. No entanto, mesmo sendo um texto de leitura mais rápida e com um enredo repleto de ações passíveis de críticas, como Timothy Cavendish deixará claro na narrativa seguinte, o leitor identifica-se com a protagonista e torce para que tenha sucesso nas investigações. A quarta história, ambientada no tempo presente, permeia os infortúnios da vida de Timothy Cavendish, editor britânico, ao ser internado em uma casa de repouso pelo irmão. 7 Após pedir ajuda financeira, Cavendish é enganado e levado a assinar um contrato para ser mantido preso na casa. Como se não bastasse estar recluso contra a própria vontade, passa a enfrentar inclusive abusos físicos e psicológicos dos funcionários. Na busca por liberdade, Cavendish, junto com novos amigos, escapa, ao final. Se nas outras narrativas há a presença de um tom mais sério e dramático, nesse capítulo o tom de humor preenche as páginas, sem apartar a narrativa do tom denunciador. Com uma brilhante habilidade de narrar, Timothy Cavendish conta aventuras, na maioria tristes e revoltantes (envolvendo agressões verbais e físicas), sempre usando o humor. A quinta história, ambientada em tempos futuros, aborda a vida de Sonmi~451, escrava clone geneticamente criada por uma Coreia unificada e controlada por grandes corporações. A protagonista, vivendo de modo alienado e sem questionamentos a respeito das estruturas que a rodeiam, assim como as irmãs, trabalha em um restaurante de fast food, servindo os consumidores desde o dia da sua criação. Sonmi, no entanto, adquire lucidez para não concordar com as situações às quais é exposta e foge com a ajuda de integrantes de um grupo revolucionário. A partir desse momento, a personagem inicia uma jornada para conhecer o mundo, e suas injustiças e desigualdades, até o ponto em que decide escrever um tratado criticando a sociedade. No final, a personagem é presa e sentenciada à morte, porém se vê orgulhosa de ter espalhado os ideais de igualdade num manifesto. O leitor depara-se, então, com uma realidade nova, a prospectiva de Mitchell para um tempo futuro. E, de fato, isso ocorre, seja por meio de uma linguagem distinta e complexa – repleta de vocábulos criados ou com o significado modificado –, seja por meio das imagens descritas da cidade, dos restaurantes, entre outros. A sexta história, narrada em um futuro pós-apocalíptico, ainda mais distante da quinta narrativa, traz os acontecimentos da vida de Zachry, um adolescente dos Valleymen, uma tribo pacífica no Havaí, ao conhecer e conviver com Meronym, membro dos Prescientes, um grupo com tecnologias avançadas. Com o objetivo de resgatar o passado perdido no local, Meronym consegue a ajuda de Zachry para guiá-la. No entanto, a jornada dos dois é interrompida pelo constante ataque dos Konas, uma tribo violenta. Dessa forma, grande parte dos Valleymen é dizimada, mas Meronym e Zachry escapam e fogem com as tecnologias dos Prescientes. A última história pode ser considerada, à primeira vista, como a mais hermética e complexa de assimilar. Possui uma linguagem de difícil compreensão, com a escrita semelhante à transcrição de uma língua sem regras gramaticais fixas. Entretanto, o leitor encontra a beleza da narrativa justamente no ato de decifrar esse 8 desafio de linguagem e na percepção de uma realidade pós-apocalíptica, com um retorno ao primitivismo. As narrativas dos capítulos permitem um aprofundamento da leitura da obra guiado pelas personagens. É interessante apontar que o universo e as personagens criados por Mitchell não se limitam ao romance, mas continuam em outros textos do escritor. Assim, vemos a presença de diversas personagens em outras narrativas, sejam publicadas antes ou depois de Cloud Atlas. Por exemplo, tanto Luisa Rey quanto Timothy Cavendish têm uma curta aparição em ghostwritten (1999), assim como Eva Ayrs aparece em Black Swan Green (2006), como professora de francês do jovem Jason Taylor. Reiteramos que a complexidade do universo Mitchiano é grande, porém neste trabalho focamos na construção das personagens subalternas. De fato, em nossas análises, observamos que as protagonistas, com exceção de Adam Ewing, pertencem a grupos subalternos e lutam constantemente pela liberdade e possibilidade de fala. E, apesar de Ewing não se caracterizar como subalterno, vemos em Autua uma importante figura subalterna, desempenhando um papel de grande relevância, assim como veremos no primeiro capítulo. Em estágios iniciais da pesquisa, questionamos a exequibilidade da exposição e criação dessas personagens por Mitchell, propondo-nos a investigar se há alguns resquícios hegemônicos na obra. Assim como será comprovado nas próximas páginas, Mitchell é capaz de captar as problemáticas de épocas variadas e apresentar personagens complexas, que, apesar de enfrentarem um processo de exclusão, conseguem se impor e sugerir igualdade. Nossa única ressalva recai sobre Frobisher, protagonista da quarta narrativa, visto que, em uma primeira leitura, pode-se considerar o fim trágico como sua única possibilidade. Pode-se dizer que, em Mitchell, a vida do subalterno - relacionado a questões de gênero e sexualidade - somente encontra um desfecho com o suicídio ou situações desastrosas. Entretanto, como será visto no segundo capítulo da dissertação, a protagonista fornece ao leitor explicações sobre o porquê de ter cometido o suicídio no final, o qual não é motivado apenas por problemas amorosos ou relacionados às estruturas de poder. A atitude de Frobisher envolve questionamentos do contexto em que vive, das condições psicológicas, e do sofrimento acumulado, isto é, um panorama mais amplo da condição do sujeito. 9 Com o intuito de organizar a dissertação, na divisão de capítulos agrupamos as personagens subalternas de acordo com pontos em comum em termos de subjugação. Desse modo, apresentamos em conjunto as análises de Sonmi~451 e Autua (discriminados pela condição racial e escravidão); de Frobisher e Rey (discriminados por gênero); e de Cavendish e Zachry (discriminados e aprisionados por sociedades opressivas). Isso não significa que uma abordagem distinta não se encaixe nas outras personagens, mas, para fins didáticos, dividimo-nas de acordo com as similitudes e as afinidades. Em relação à estrutura desta dissertação, dividimos em quatro capítulos, subdivididos em uma ou duas seções, algumas das quais são novamente repartidas em subseções. No primeiro capítulo, intitulado Autua e Sonmi~451: Escravidão na decolonialidade, trataremos da maneira como as personagens da primeira e da quinta narrativa são representadas enquanto escravas, utilizando-nos da abordagem decolonial e pós-estrutural. Empregaremos como base crítica, para tanto, Grossfoguel (2008), Mignolo (2007), e Castro-Gómez (2005), a fim de analisar especificamente o esforço subalterno contemporâneo contra os resquícios do colonialismo. Além disso, basearemo-nos em Foucault (2015) para compreender como o biopoder se faz presente e como as personagens o enfrentam. No segundo capítulo, intitulado Luisa e Robert: identidades e performatividade, contextualizaremos os conceitos de identidade e performatividade segundo a abordagem de gênero, revelando como estas ocorrem na segunda e terceira narrativas. Ademais, enfatizaremos no enfrentamento, por parte de Frobisher e Rey, de uma sociedade sexista e homofóbica a partir das considerações de Butler (2003) e Foucault (1980), cujos estudos versam sobre a percepção contemporânea de gênero e sexo. No terceiro capítulo, Timothy e Zachry: liberdade, trataremos da forma como as protagonistas da quarta e sexta narrativa são privadas da liberdade por personagens detentoras de poder. Além disso, analisaremos quais ferramentas são usufruídas na construção dessas protagonistas e no empenho pela liberdade. Para tanto, utilizaremos os trabalhos de Arendt (2000), Bauman (2014), Butler e Spivak (2007), com a finalidade de entender o conceito de liberdade e emancipação, e as ligações com as concepções previamente vistos de performatividade. No quarto e último capítulo, intitulado Todas as vozes: consumismo e o tempo cindido, reuniremos as personagens subalternas investigadas nesse trabalho e realizaremos reflexões acerca das temporalidades no romance. Primeiro focaremos no tempo consumista 10 permeando cada uma das narrativas e sendo responsável pelas ideologias hegemônicas excludentes. Essa análise terá como base os estudos de Eagleton (2004) e Bauman (2014). Em seguida, investigaremos, a partir de Bhabha (2013) e Santana (2008), os conceitos de temporalidade cindida e simultaneidade temporal como responsáveis pela interferência e união de cada narrativa e personagem em Cloud Atlas. No conjunto dos capítulos, teremos um panorama da subalternidade em Cloud Atlas, cujas personagens contribuem, com o objetivo de tornar a realidade mais justa e igualitária, cada uma enfrentando desafios, contextos e limitações variados. Veremos, nessa dissertação, que o subalterno, no romance, adquire voz e, em conjunto com as outras personagens, desestabiliza as estruturas de poder. Segue, agora, a investigação das teorias e as análises propostas. 11 CAPÍTULO I AUTUA E SONMI~451: ESCRAVIDÃO NA DECOLONIALIDADE Nesse primeiro capítulo, objetiva-se apresentar a pesquisa efetuada acerca dos temas decolonialidade (GROSSFOGUEL, 2008) e biopoder (FOUCAULT, 2015), a fim de examinar as personagens Autua, do capítulo “The Pacific Journal of Adam Ewing”, e Sonmi~451, do capítulo “An Orison Of Sonmi~451”. Dessa maneira, buscaremos compreender como esses conceitos permeam as duas narrativas, e como as personagens combatem a colonialidade arraigada e o biopoder imposto. Partiremos em um primeiro momento das teorizações relacionadas à decolonialidade, realizadas pelo grupo de Estudos Subalternos Latino, cujo objetivo é dar um valor maior para a experiência subalterna. Assim, tendo visto o apagamento e silenciamento de personalidades subjugadas, os pensadores buscam criar um ambiente em que possam ser escutados, valorizados. Por isso, lançam-se de conceitos como o giro decolonial (MIGNOLO, 2007), em que há o reconhecimento da capacidade intelectual e da contribuição teórica de grupos invisibilizados. Discorreremos com mais profundidade nas páginas a seguir. É necessário mencionar que, de fato, não há uma cisão completa com o lado hegemônico/colonizador, isto é, o objetivo desse grupo não é a separação total entre subalternidade e hegemonia, em virtude de essa ser uma iniciativa impossível de ser realizada. Há uma busca pela união e pela pacificidade entre os grupos, ou seja, não se empenha em inverter posições de poder, e sim em dar um espaço justo para todos os grupos existentes. Como veremos a seguir, as personagens mencionadas acima podem ser consideradas representantes de conceitos da perspectiva decolonial. Desse modo, a forma como ambas enfrentam os grupos hegemônicos, isto é, os europeus e a tribo maori na narrativa de Autua e os sangue-puros e o governo corpocrático na narrativa de Sonmi, podem ser sustentadas pela perspectiva decolonial, isto é, como uma forma de resistência da cultura e do pensamento subalterno. Em um segundo momento, iremos tratar do conceito de biopoder, revelando a maneira como tanto Autua quanto Sonmi enfrentam uma dominação corporal por parte dos Maoris e Europeus, e do governo corpocrático, respectivamente. Reforçamos que, embora 12 haja forças hegemônicas se esforçando para controlá-las, as personagens subalternas de Mitchell são capazes de rebelar e, cada uma a seu modo, combater esses poderes. Serão exploradas nas próximas páginas punições, flagelações, abusos, extermínio do corpo dos escravos morioris, em específico de Autua; e objetificação, alienação, construção genética, com fins antiéticos, do corpo das escravas clones coreanas, em específico Sonmi~451. Com o propósito de tornar a apresentação do trabalho mais didática, o capítulo está dividido em (1.1.) A decolonialidade dos subalternos, sendo este dividido novamente em (1.1.1.) Autua e o poder decolonial, (1.1.2.) Sonmi~451 e o giro decolonial, e (1.1.3.) Autua e Sonmi~451 e as hierarquias escravocratas; e em (1.2.) O biopoder frente às vidas subalternas. 13 1.1. A DECOLONIALIDADE6 DOS SUBALTERNOS No presente subcapítulo, evidenciaremos de que maneira as personagens subalternas adquirem empoderamento nos capítulos “The Pacific Journal of Adam Ewing” e “An Orison of Sonmi~451”, isto é, veremos como as vozes e os discursos das personagens ampliam-se e ganham mobilidade diante de sociedades autoritárias e excludentes. Discutiremos conceitos recentes acerca dos Estudos Subalternos Latinos, principalmente os relacionados com a decolonialidade, e perceberemos de que maneira estão dispostos na narrativa em voga. Além disso, será feita uma reflexão acerca da necessidade das narrativas decoloniais estarem intimamente ligadas e dentro das metanarrativas hegemônicas. Começaremos pelo conceito de decolonialidade. O termo foi cunhado por pensadores do Grupo de Estudos Subalternos Latinos, representados por Walter M. Mignolo, Arturo Escobar, Enrique Dussel e Santiago Castro-Gomes, com o objetivo de expor a perpetuação da colonialidade após o fim da colonização e a necessidade de uma luta constante para subverter a situação. O grupo hoje se encontra desagregado, devido a divergências de percepção individual acerca dos novos conceitos. De acordo com Grosfoguel (2008), alguns dos membros conservaram-se focados apenas em pesquisas eurocêntricas, ou seja, teorias produzidas e ainda sediadas na região norte do globo. Sabemos que os Estudos Subalternos surgiram por meio da valorização dos chamados “os quatro cavaleiros do Apocalipse” (MALLON, 1994) — Foucault, Derrida, Gramsci e Guha —, e que aqueles membros voltaram a atenção para os três pensadores eurocêntricos, enquanto o não-europeu (Índia) foi, de certa forma, relegado. Foucault e Derrida, por exemplo, são uns dos principais autores dos movimentos pós- estruturalistas/pós-modernos, os quais apresentam, em certos momentos, uma perspectiva eurocêntrica (embora na sua maioria demonstrem estar aliados ao tema da subalternidade, assim como será visto no subcapítulo a seguir). Para Grosfoguel, há uma necessidade de incluir mais pensadores não europeus, fornecendo-os plataformas de exposição. Critica-se, 6 Tratando da tradução do termo “decolonialidad” para o português, a aparente não unanimidade deve ser abordada nesse momento. Preferimos o uso de “decolonialidade” ao invés de “descolonialidade” pelo fato de que o uso do prefixo “des-” indica uma negação, uma separação, isto é, um binarismo inevitável. Já o prefixo “de”, apesar de ter um sentido voltado para contradições, não nos remete a um sistema dual. Ou seja, enquanto no primeiro há uma tentativa de desfazer e superar o colonial, no segundo há uma possibilidade de empoderamento político da subalternidade na transcendência da colonialidade. 14 desse modo, o fato de não se dar força ao âmbito latino, isto é, desconsiderando o outro e reputando valor para o lado conservador dos europeus citados. Compreendemos que a motivação de Grosfoguel, por trás da crítica ao estudo pautado nos autores eurocêntricos, seja estabelecer uma caracterização forte do conceito de decolonialidade, o qual preza pela possibilidade de fala do subalterno. No entanto, não podemos desconsiderar as contribuições dos europeus para a modificação das estruturas hegemônicas. Derrida, por exemplo, por meio da desconstrução, apresenta fortes críticas às hierarquias da sociedade capitalista moderna, no sentido de defender a inversão das tradicionalmente impostas. Ao invés de cair em um discurso extremista, o pensador compreende essa situação como um jogo, em que há uma alternância contínua do poder, jamais binário. Já Foucault, embora hegemônico quando sustenta que nada pode ser pensado fora da estrutura do poder – A palavra e as coisas (2000) –, fornece aportes contra hegemônicos de suma importância para o estudo subalterno quando escreve A história da loucura (1997) e A história da sexualidade (2015), revelando injustiças quando o pensamento dominante influencia o “diagnóstico” da loucura e da subjugação do corpo humano. Reforçando a importância de Foucault para nossas pesquisas, traremos, na seção seguinte, a interpretação das personagens de acordo com o conceito de biopoder. Dessa maneira, excluir os pensamentos eurocêntricos dissidentes não será uma prática nesse trabalho, pois serão considerados como adjuntos a conceitos trazidos por autores subalternos. Concordamos com Grosfoguel (2008) quando afirma a necessidade de uma perspectiva não centralizadora. Percebemos que a decolonialidade não se dá como “[…] uma crítica anti-europeia fundamentalista e essencialista. Trata-se de uma perspectiva crítica em relação ao nacionalismo, ao colonialismo e aos fundamentalismos, quer eurocêntricos, quer do Terceiro Mundo” (p. 117). O próprio Grosfoguel não cai em extremismos. Não atesta a exclusão dos europeus. A proposta do crítico é a inclusão de mais autores não europeus, de linhas de pensamentos mais amplas na rede epistemológica, abarcando não somente o cânone, mas também os outros. Aproveitamos esse momento para observar que a narrativa de Cloud Atlas gira em torno de um pensamento não dual e não extremista, em que há uma busca pela união de tribos, civilizações, grupos sociais, entre outros comumente adversários. Tal característica perpassa diversas épocas, desde o fim do século XIX até os meados do século XXIV, ou 15 seja, manifestando-se em instantes cujo período histórico do colonialismo ainda não chega a um término, e em momentos em que a colonialidade permanece sem as administrações coloniais. É um “equívoco” pensar não haver conflitos ideológicos devido à colonialidade não estar em voga na Europa na década de 1930, por exemplo. É perceptível, em “Letters from Zedelghem”, a presença de um embate entre Robert Frobisher, um jovem bissexual, e a sociedade pautada na hegemonia machista de um “colonialismo romano”, representada, principalmente, pelo pai e pelo famoso compositor Vyvyan Ayrs. Assim como no ano de 2321, em “Sloosha’s Crossin’ An’ Ev’rythin’ After”, as forças hegemônicas dos prescientes, representadas por Meronym, funcionam, ainda que mais amenizada, como manifestações da colonialidade nos povos do vale, no futurístico e distópico Hawaii, manifestados principalmente por Zachry. Podemos observar a relação conflituosa no momento em que Meronym revela a possível reação da tribo de Zachry ao se deparar com os acontecimentos do passado: Os Valleymen não gostariam de ouvir, ela respondeu, que a fome dos seres humanos deu origem à civilização, mas também a matou. Eu sei pelas outras tribos fora do continente, com os quais fiquei. Quando você diz que as crenças de alguém não é verdade, acham que está falano que as vidas deles não é verdade e que a verdade deles não é verdadeira (MITCHELL, 2004, p. 273).7 Assim como atentado na citação anterior, os conflitos ideológicos e políticos estão presentes independente do período histórico, perspassando todo o romance de Mitchell. Isso se dá devido às relações histórico-políticas coloniais não desaparecerem milagrosamente das civilizações. As ideologias e os pensamentos hegemônicos não são simplesmente descartados. Há uma permanência, em grande parte dos países, do racismo, da homofobia, do machismo, entre outras ideologias opressoras, provenientes dos que estão no poder. O pensamento de que a colonialidade não existe constrói-se em cima do que Grosfoguel (2008) chama de um dos maiores mitos do século XX. Segundo o teórico, esse mito 7 Tradução nossa do excerto: “Valleysmen’d not want to hear, she answered, that human hunger birthed the Civ’lize, but human hunger killed it too. I know it from other tribes offland what I stayed with. Times are you say a person’s b’liefs ain’t true, they think you’re sayin their lifes ain’t true an’ their truth ain’t true” (MITCHELL, 2004, p. 273). 16 […] foi a noção de que a eliminação das administrações coloniais conduzia à descolonização do mundo, o que originou o mito de um mundo “pós-colonial”. As múltiplas e heterogêneas estruturas globais, implantadas durante um período de 450 anos, não se evaporaram juntamente com a descolonização jurídico-política da periferia ao longo dos últimos 50 anos. Continuamos a viver sob a mesma “matriz de poder colonial” (p. 126). De fato, apesar da independência política da maioria dos países, os povos ainda mantêm uma relação hierárquica com os poderes ocidentais, cuja dominação política e exploração econômica ainda acontecem. Embora pertença a uma nação hegemônica, Mitchell8 traz, em suas narrativas, não somente o poder hegemônico, mas a contrapartida nas vozes da subalternidade. A importância dos protagonistas, dos embates e das resoluções de conflitos, dá-se pelo fato de que, a cada capítulo, o subalterno consegue empoderamento e plataformas para expor pensamentos e ideologias próprios. Ou seja, a dominação política e social, a subjugação corporal, o poder e o efeito da colonialidade: todos são reduzidos na medida em que os subalternos começam a enfrentar e conquistar direitos e momentos de fala. Mitchell, portanto, faz-se dissidente como Derrida e Foucault. 1.1.1. Autua e o poder decolonial Tratando do capítulo “The Pacific Journal of Adam Ewing”, a luta de Autua é um pouco conturbada e diferenciada. Consideramos que a colonialidade na personagem manifesta-se por meio de uma dupla colonização, tendo em vista o contato hierárquico e de dominação com a tribo Maori e com a população ocidental. Para compreender o fenômeno, precisamos nos atentar à historiografia da região das ilhas da Polinésia, exclusivamente na Nova Zelândia. Antes das navegações e explorações europeias, havia duas tribos aborígenes: os Maoris e os Morioris. Enquanto os primeiros detêm o domínio quase completo das ilhas da Nova Zelândia, os segundos ocupam uma ilha chamada pelos nativos de Rēkohu, ou posteriormente de ilhas Chatham. 8 É interessante notar a perspicácia de Mitchell ao conseguir captar a atmosfera separatista contemporânea da Inglaterra, cujos avanços chegaram ao ápice de, em 2016, tomar a resolução de sair da União Europeia (UE). Em um momento histórico em que cresce consideravelmente o número de imigrantes, seja de países europeus, seja de ex-colônias, a Inglaterra reage pautada num movimento nacionalista. Ao não mais fazer parte da UE, vê-se a possibilidade de combater a iminente crise econômica europeia. Cloud Atlas, assim como compreendemos, serve justamente para criticar essas posturas extremistas, expondo tais atitudes reacionárias servindo para a hegemonia permanecer no poder silenciando os marginalizados. 17 Diferentemente dos Maoris, os Morioris adotam, desde a chegada em Rēkohu, a lei de Nunuku, criada pelo líder Nunuku-Whenua, cujos princípios básicos são a proibição do assassinato e do canibalismo. De acordo com Davis e Solomon (2016), o líder dirige-se aos nativos por meio da seguinte frase: “De agora em diante, até o sempre, nunca mais haverá guerra assim como se vê hoje”. As atitudes e ideologias pacíficas não são compartilhadas pela outra tribo, a qual vê as guerras como algo indispensável para a prosperidade dos povos: “Os Maoris prosperam por meio de guerras & vingança & disputas, mas a paz os mata” (MITCHELL, 2004, p. 32)9, nas palavras de Autua. A pacificidade Moriori mantém-se inalterada até o momento da invasão e do massacre Maori, cujo auxílio de armas e navios é proveniente dos colonizadores ingleses. Muitos são mortos pelas doenças trazidas da Europa, sendo que outros morrem brutalmente nas mãos dos Maoris. O restante é escravizado pelos Maoris em condições precárias. Dentre todas as atrocidades cometidas pelos Maoris, estão inclusas a destruição dos locais religiosos e a “esterilização” — proibição das uniões entre Morioris, impedindo a continuidade genealógica. Apesar das diferenças, as tribos possuem uma descendência em comum, provenientes dos polinésios ocupantes da região da Nova Zelândia no século XIII. Segundo Howe (2016), a separação das tribos dá-se possivelmente em 1500, quando os Morioris migram para as ilhas adjuntas ao país. É necessário mencionar que, no século XIX, a historiografia considerava os Morioris provenientes da Malásia, sem qualquer relação genealógica com os Maoris. Essa historiografia, feita por colonizadores ingleses baseados em relatos Maoris, revela apenas a posição ideológica de afastamento das tribos e da escravização dos Morioris por parte dos outros índios. Mais ainda, essa história, denominada “a história da grande frota” (The Great Fleet story), reforça a crença: “[…] os colonizadores europeus eram a próxima população ‘superior’, que iria assumir o papel ocupado pelos Maoris” (HOWE, 2016).10 Este olhar historiográfico eurocêntrico, amplamente divulgado em 1904, clarifica a posição colonial de justificação da colonização dos Morioris pelos Maoris e pelos Ingleses. Mais que isso, permite-nos perceber a presença da crença no mito ocidental denominado 9 Tradução nossa do excerto: "Maori thrive on wars & revenge & feudin’, but peace kills 'em off” (MITCHELL, 2004, p. 32). 10 Tradução nossa do excerto: “[…] European settlers were the next ‘superior’ people, who would take over from Māori” (HOWE, 2016). 18 por Castro-Goméz (2005) de “hybris do ponto zero”11 (p. 25), cuja assertiva é a existência de um ponto zero relacionado à epistemologia e às filosofias eurocêntricas. O mito, segundo o autor, provém da ideia de Descartes (1984) da necessidade da eliminação, para o pensamento científico ser concreto e válido, por parte do pesquisador, de todas as opiniões anteriores, dos contextos situacionais capazes de influenciar o resultado do experimento. Precursor do Iluminismo e do racionalismo moderno, o filósofo depreende a necessidade de ter, na pesquisa científica, um ponto de partida, sendo todos os fatos e teorias anteriores simplesmente rejeitados. A afirmação da neutralidade e do marco inicial historiográfico permite o apagamento dos Moriori, ressaltando e trazendo como fatos iniciais o domínio Maori e, principalmente, a chegada dos Europeus. Por meio da justificativa de imparcialidade, a perspectiva teórica eurocêntrica continua no ápice, enquanto as subalternas permanecem silenciadas. A respeito disso, Castro-Gómez (2005) comenta: Começar tudo de novo significa ter o poder de nomear pela primeira vez o mundo; de trazer fronteiras para estabelecer quais conhecimentos são legítimos e quais são ilegítimos, definindo, ademais, quais comportamentos são normais e quais são patológicos. Segundo ele, o ponto zero é o do começo epistemológico absoluto, mas também o do controle econômico e social sobre o mundo. Localizar-se no ponto zero equivale a ter o poder de instituir, de representar, de construir uma visão sobre o mundo social e natural reconhecida como legítima e garantida pelo Estado (p. 25).12 Dessa maneira, não é por acaso que há uma perpetuação do domínio epistêmico, econômico e social sob a perspectiva eurocêntrica na região da Nova Zelândia até meados da década de 1980. Também não é acidentalmente que a cultura dos Morioris vem sido silenciada desde o massacre cometido pelos Maoris, somente sendo resgatada e rediscutida na atualidade (começo do século XXI). 11 Tradução do sintagma: “hybris del punto cero” (CASTRO-GÓMEZ, 2005, p. 25). 12 Tradução do excerto: “Comenzar todo de nuevo significa tener el poder de nombrar por primera vez el mundo; de trazar fronteras para establecer cuáles conocimientos son legítimos y cuáles son ilegítimos, definiendo además cuáles comportamientos son normales y cuáles patológicos. Por ello, el punto cero es el del comienzo epistemológico absoluto, pero también el del control económico y social sobre el mundo. Ubicarse en el punto cero equivale a tener el poder de instituir, de representar, de construir una visión sobre el mundo social y natural reconocida como legítima y avalada por el Estado” (CASTRO-GÓMEZ, 2005, p. 25). 19 Tendo em vista a dominância colonial na retórica da historiografia moderna, pensadores decoloniais defendem a existência de uma realidade mais ampla, menos hegemônica. Mignolo (2007) contribui para esse debate quando apresenta: “A descolonialidade é […] a energia que não se deixa influenciar pela lógica da colonialidade, nem se permite acreditar nos contos de fadas da retórica da modernidade” (p. 27).13. Há uma busca pela abertura de um sistema fechado e pautado na realidade europeia, revelando e introduzindo a força dos povos colonizados. De fato, o silenciamento dos Morioris é parcialmente rompido quando, décadas depois da ampla divulgação da “história da grande frota”, comprova-se por estudos científicos a origem mútua das tribos aborígenes, tornando-se “menos justificável” a escravização dos Morioris. E, nesse ponto, há mesmo uma aproximação entre as tribos, já que os Morioris podem apenas se casar e reproduzir com os Maoris: um estupro institucionalizado: “Doravante, uniões entre Moriori foram proibidas & todas as questões envolvendo paternidade entre homens Maori e mulheres Moriori eram declaradas Maori” (MITCHELL, 2004, p. 31)14 Toda essa contextualização faz-se necessária devido ao fato de Mitchell criar Autua como pertencente à última geração de Morioris, sobrevivente das doenças trazidas pelos Ingleses e do massacre feito pelos Maoris. A personagem vive num período em que há a escravização dos Morioris pelos Maoris, no qual sua cultura é desvalorizada e literalmente apagada15, e em que há um domínio e presença forte dos Europeus na Oceania. Dessa maneira, a dupla colonialidade nessa personagem constrói-se pela subjugação, principalmente, perante a tribo oposta, mas também com relação aos europeus. Frente às atitudes mais agressivas e repressoras dos Maoris, Autua mostra-se obstinado e não permite o silenciamento ou exploração pela outra tribo. O escravo Moriori foge diversas vezes do domínio Maori, entretanto, vê como única alternativa de sobrevivência o envenenamento do líder da tribo: “Veneno ruim ruim esse peixe moeeka, senhor Ewing, um mordida, sim, você dorme, você nunca acorda mais” (MITCHELL, 13 Tradução nossa do excerto: “La decolonialidad es, entonces, la energía que no se deja manejar por la lógica de la colonialidad, ni se cree los cuentos de hadas de la retórica de la modernidad” (MIGNOLO, 2007, p. 27). 14 Tradução nossa do excerto: “Henceforth Moriori unions were proscribed & all issue fathered by Maori men on Moriori women were declared Maori” (MITCHELL, 2004, p. 31) 15 Percebemos esse apagamento no início da narrativa, quando Ewing cai em um buraco e encontra nas árvores resquícios das esculturas e desenhos Moriori, chamados dendroglyph, em inglês, ou momori rakau, na língua nativa. 20 2004, p. 31). 16 Ao buscar a liberdade por meio da vingança pela escravização de semelhantes, a atitude de Autua, além de manchar o histórico e ir expressivamente contra a lei de Nunuku, pode ser considerada como um princípio de manifestação fundamentalista subalterna contrária à colonialidade. Segundo Grosfoguel (2008), as manifestações à violência e à repressão de colonialidade ocorrem de duas formas: os nacionalismos e os fundamentalismos. Considera-se que, ao buscar reforçar um estado-nação, em termos de um sistema-mundo patriarcal/capitalista colonial/moderno, a primeira ainda apresenta resquícios da estrutura eurocêntrica. A colonialidade mantém-se, tendo em vista a busca por um local privilegiado frente à realidade global; os binarismos permanecem firmes nessa resposta ao eurocentrismo. A segunda forma é ainda mais perigosa, sendo a atitude evidenciada por Autua, isto é, um possível prelúdio a ações mais assertivas de subalternos fundamentalistas. A tentativa de envenenamento é uma ação desesperada da personagem de se libertar do grande mal recebido por anos; entretanto, essa atitude alimenta os binarismos e a segregação de culturas. Os fundamentalistas agem de modo a colidir com o eurocentrismo e com as colonialidades, negando não só as estruturas e as hierarquias, mas negando, de modo dual, as características ocidentais, incluindo a democracia. Desse modo, Se o pensamento eurocêntrico reivindica que a ‘democracia’ é um atributo natural do Ocidente, os fundamentalismos do Terceiro Mundo aceitam esta premissa eurocêntrica e reivindicam que a democracia não tem nada que ver com o não-Ocidente. Ela é, assim, um atributo intrinsecamente europeu e imposto pelo Ocidente (GROSFOGUEL, 2008, p. 138). Atitudes como a tomada por Autua, caso atinjam um nível extremo, em que há uma recusa total da influência colonial, podem levar os povos à concordância de que a democracia é um constructo europeu e à criação de governos fundamentalistas não- democráticos. Conforme Said (1997) aponta, essa espécie de nativismo, isto é, a negação completa de qualquer influencia colonial, é alarmante, visto que 16 Tradução nossa do excerto: “Bad bad poison this moeeka fish, Missa Ewing, one bite, aye, you sleep, you never wake no mo’” (MITCHELL, 2004, p. 31). 21 […] reforça a distinção ao se reavaliar o parceiro mais fraco ou subordinado. E isso tem frequentemente levado a asserções atraentes, mas demagógicas sobre um passado, uma história primitivos, ou uma realidade que parece permanecer livre não apenas do colonizador, mas ainda do tempo mundial (p. 82).17 Apesar das ações de certo cunho extremista, Autua não demonstra querer voltar a um período mais primitivo ou apagar as influências coloniais. De fato, o escravo moriori aproxima-se da cultura ocidental, principalmente no tocante à religião católica, visto as semelhanças com o pacifismo vivenciado pela tribo. As atitudes contrárias e de resistência da personagem revelam-se mais com relação aos Maoris do que com os europeus, que, apesar de tratá-la muitas vezes de modo racista e preconceituoso (exploraremos esse assunto no próximo subtópico), apresentam ideologias pacíficas. Pode-se argumentar que a personagem se mostra subordinada e até alienada perante a colonialidade inglesa, como se pode observar no trecho seguinte: Autua escapou novamente e, durante o segundo momento de liberdade, lhe foi permitido asilo secreto pelo senhor D`Arnoq, por alguns meses, com o mesmo risco do último [asilo]. Nessa residência temporária, Autua fora batizado e convertido ao Senhor (MITCHELL, 2004, p. 31).18 No entanto, defendemos a premissa de que o subalterno pode ter voz não importando o contexto, mas esta somente se amplia de maneira eficaz caso se manifeste dentro das metanarrativas hegemônicas. Vejamos o caso de Autua: compreendemos que tem consciência da função colonial eurocêntrica exercida na presença europeia nas ilhas da Nova Zelândia, mas sabe também que sem a união com a cultura inglesa, difícil e demoradamente sairia da escravização Maori. Destarte, apesar de a personagem “converter-se” ao catolicismo, é duvidável que o aborígene acate essa nova cultura de modo alienante. Em certos momentos da narrativa, é possível inclusive notar como há a manutenção de partes das próprias crenças, como no relato da fuga: “‘Noites, ancestrais 17 Tradução nossa do excerto: “Nativism, alas, reinforces the distinction by revaluating the weaker or subservient partner. And it has often led to compelling but often demagogic assertions about a native past, history, or actuality that seems to stand free not only of the colonizer but of worldly time itself” (SAID, 1997, p. 82). 18 Tradução nossa do excerto: “Autua escaped again & during his second spell of freedom he was granted secret asylum by Mr. D’Arnoq for some months, at no little risk to the latter. During this sojourn Autua was baptized & turned to the Lord” (MITCHELL, 2004, p. 31). 22 visitavam. Dias, eu contava histórias de Maui para os pássaros e os pássaros contavam historias do mar para eu’” (MITCHELL, 2004, p. 32)19. Vale lembrar ainda que o capítulo do romance é escrito sob a autoria da personagem Adam Ewing, isto é, repleto de ideologias e perspectivas culturais ocidentais. Vemos tais características no momento em que a personagem traz comida para o índio: Lembrei-me, medrosamente, que o passageiro clandestino poderia estar um dia & meio sem se alimentar, pois tinha receio de que alguma depravação bestial poderia acontecer motivada pelo estômago vazio do selvagem (MITCHELL, 2004, p. 28).20 Não podemos descartar a possibilidade de Ewing ter exacerbado na conversão religiosa de Autua, tendo em vista o “destino civilizatório” presente na mentalidade eurocêntrica. Desse modo, compreendemos a dupla colonização de Autua constituindo-se na medida em que há uma influência de ordem direta e violenta quanto aos Maoris e de ordem indireta e velada quanto aos Europeus. É importante notar que a personagem não abandona as origens aborígenes nem relega as qualidades dos colonizadores ingleses; ao contrário, abstrai as hierarquias marginalizadoras das características positivas do sistema capitalista e das estruturas sociais indígenas. Isto é, recusa pontos frágeis e negativos em prol dos positivos, como a possível bondade e pacifismo presentes nas ideologias cristãs europeias, além do misticismo e das crenças da tribo. 1.1.2. Sonmi~451 e o giro decolonial Vimos no tópico anterior, por meio da hybris do ponto zero, as teorizações eurocêntricas valorizadas e reforçadas em detrimento da cultura marginalizada obliterada. No entanto, a voz subalterna não deixa de existir, afinal tais grupos são capazes de falar e de expressar teorias e histórias. Para entendermos como conseguem se manifestar na sociedade, podemos recorrer à Sonmi~451, do capítulo “An Orison of Sonmi~451”, 19 Tradução nossa do excerto: “‘Nights, ancestors visited. Days, I yarned tales of Maui to birds & birds yarned sea tales to I’” (MITCHELL, 2004, p. 32). 20 Tradução nossa do excerto: “I recalled that the stowaway may not have eaten for a day & a half, fearfully, for what bestial depravity might a savage not be driven to by an empty stomach?” (MITCHELL, 2004, p. 28). 23 personagem que, apesar de ser oprimida por uma sociedade capitalista “decadente”, luta para mudar o mundo por meio de suas ações e escritos. Sonmi é uma escrava clone coreana, vivendo em um futuro distópico, no qual o mundo encontra-se repleto de destruição, porém com tecnologias avançadas. Um desses progressos é o desenvolvimento de programas de criação de clones, servindo incondicionalmente, sob o custo mais inferior possível, os cidadãos dessa nova organização coreana. De fato, a rotina de Sonmi é a de uma escrava: Um servo é acordado na hora 4:30 por um estímulo na corrente de ar, depois convocado a se levantar no nosso dormitório […]. Na hora 5:00 nós organizamos as caixas ao redor do balcão, à espera do elevador trazer os primeiros consumidores do novo dia. Pelas próximas 19 horas nós saudamos os clientes, recebemos os pedidos, entregamos a comida, vendemos bebidas, estocamos condimentos, limpamos mesas, e jogamos o lixo fora (MITCHELL, 2004, p. 185).21 Desenvolve-se no século XXII um governo corpocrático, pautado nos interesses e anseios de grandes corporações capitalistas. O extenso domínio dessas empresas contribui para que grande parte da população viva de forma alienada, mantendo uma ideia de que essa variante do capitalismo seja apenas um sistema econômico neutro. Pode-se notar tal fato na reação do arquivista, personagem que realiza a última entrevista de Sonmi, quando esta revela o quão perverso é o sistema: O que você descreve vai além do … imaginável, Sonmi~451. Assassinando clones para abastecer restaurantes com comida e Sabão … não. A acusação é absurda, não, é injusta, não, é uma blasfêmia! […] sendo um consumidor da corpocracia, eu sou obrigado a dizer que aquilo que você diz ter visto deve, deve ter sido criado pela União … um cenário para o seu proveito. Nenhum tipo de “sistema de massacre” poderia ser permitido xistir. O Amado Presidente nunca permitiria! […] Se clones não fossem pagos pelo trabalho com a ida para comunidades de retiro, a pirâmide inteira seria a mais abominável perfídia (MITCHELL, 2004, p. 343-344).22 21 Tradução nossa do excerto: “A server is woken at hour four-thirty by stimulin in the airflow, then yellow- up in our dormroom. […] At hour five we man our tellers around the Hub, ready for the elevator to bring the new day’s first consumers. For the following nineteen hours we greet diners, input orders, tray food, vend drinks, upstock condiments, wipe tables, and bin garbage” (MITCHELL, 2004, p. 185). 22 Tradução nossa do excerto: “What you describe is beyond the … conceivable, Sonmi~451. Murdering fabricants to supply dineries with food and Soap … no. The charge is preposterous, no, it’s unconscionable, no it’s blasphemy! […] as a consumer of the corpocracy, I am impelled to say, what you saw must, must have been a Union … set created for your benefit. No such … ‘slaughtership’ could possibly be permitted to xist. The Beloved Chairman would never permit it! […] If fabricants weren’t paid 24 A visão de que o capitalismo é apenas um sistema econômico, sem defeitos ou ideologias opressoras, é mantida pelo arquivista, pois também se insere na sociedade como um consumidor, isto é, um cidadão da corpocracia. Faz-se necessário, entretanto, perceber, de acordo com Castro-Goméz e Grosfoguel (2007), “[…] que o capitalismo não é apenas um sistema econômico […], nem tampouco apenas um sistema cultural […], mas sim uma rede global de poder, integrada por processos econômicos, políticos e culturais […]” (p. 17).23 O perigo de entender o capitalismo de maneira neutra, servindo apenas a esfera econômica, é a possibilidade de desconsiderar e rejeitar qualquer relação com as minorias subalternas e o reducionismo resultante disso. Sonmi e a cruel realidade dos clones são refutadas e rechaçadas pelo arquivista, ainda que a opressão e a subalternização desse grupo ocorram. O processo de criação dos clones na narrativa, a princípio, funcionaria como a elaboração de “máquinas” não pensantes e inanimadas, porém se torna o início de uma nova classe de subalternos — os clones são, apesar de possuírem uma fisiologia distinta dos seres humanos, seres vivos subjugados e tratados como objetos. Habitando essa atmosfera colonial, na qual há uma colonização e escravidão “justificadas”, vivem uma existência desprezível, com obrigações injustas e condições precárias de sobrevivência. Além disso, submetidos a um sistema alienatório, não é permitido pensar, questionar ou raciocinar, seguindo as ordens de pessoas hierarquicamente superiores. A alienação dá-se na medida em que os clones, principalmente os projetados para trabalharem na rede de restaurantes Papa Song, realizam todos os dias as mesmas atividades, sendo uma das primeiras a recitação de seis “catecismos” e ouvir o sermão feito pelo “Logoman”, uma espécie de pastor. Esse senso de superioridade, construído no “sistema mundo europeu/euro-norte- americano moderno/capitalista colonial/patriarcal” (acrescenta-se agora corpocrático), revela que, nesse sistema econômico, estão presentes diversas questões de exploração, dominação e subjugação cultural, político e histórico. Sonmi~451 não apenas sofre da for their labor in retirement communities, the whole pyramid would be … the foulest perfidy” (MITCHELL, 2004, p. 343-344). 23 Tradução nossa do excerto: “Debemos entender que el capitalismo no es sólo un sistema económico […] y tampoco es sólo un sistema cultural […], sino que es una red global de poder, integrada por procesos económicos, políticos y culturales […]” (Castro-Goméz e Grosfoguel, 2007, p. 17). 25 dominação econômica e social dos sangue-puros24, como também de outras hierarquias, como a sexual (machismo). Afinal, porque razão somente clones mulheres são criadas para trabalharem no restaurante Papa Song como garçonetes? Grosfoguel (2008) elucida que, por meio da colonização, “[…] chegou o homem heterossexual/branco/patriarcal/cristão/militar/capitalista/europeu, com as suas várias hierarquias globais enredadas e coexistentes no espaço e no tempo” (p. 122). Vivendo em uma sociedade corpocrática, Sonmi é acometida por essas hierarquias e ideologias marginalizadoras, tendo que lutar contra não apenas uma sociedade escravocrata, mas também machista e preconceituosa. É um equívoco pensar, destarte, que, por meio do sistema capitalista, não persistam também todas as ideologias, costumes e crenças europeias. Isto é, os países que portam esse modelo ocidental de organização social, econômico e cultural carregam muitas hierarquias: a hierarquia étnico-racial, discriminando os não-europeus a partir do fenótipo; a hierarquia patriarcal, priorizando o homem a despeito da mulher; a hierarquia sexual, beneficiando os heterossexuais e relegando as diversas identidade de gênero a segundo plano; a hierarquia religiosa e espiritual, favorecendo a religião cristã; e a hierarquia linguística e epistêmica, privilegiando as línguas e o conhecimento construídos na Europa. Frente a essa realidade exploratória, Sonmi~451 surge como uma das únicas clones capaz de desvencilhar-se da prisão intelectual. Sendo assim, consegue escapar do restaurante e iniciar uma jornada pelo mundo, tomando o conhecimento das práticas perversas da corpocracia. A partir da proximidade com novas experiências, toma ciência do modo de produção do sabão, bebida utilizada na alimentação de clones — “A indústria genômica necessita de quantidades gigantescas de biomatéria derretida […] para o Sabão. Que outra maneira mais barata de suprir proteína existe além de reciclar clones que atingiram o final de suas vidas trabalhadoras?” (MITCHELL, 2004, p. 343).25 De fato, essa é uma das principais motivações para que Sonmi decida escrever um manifesto abolicionista, intitulado Declarações. O que seria Declarações senão um aporte teórico subalterno? Esse é um exemplo do conceito de giro decolonial de Mignolo (2007), cuja função é a de conquistar: 24 Nomenclatura utilizada por Mitchell (2004) para designar pessoas que nasceram da concepção natural (tradução nossa de pureblood). 25 Tradução nossa do excerto: “The genomics industry demands huge quantities of liquefied biomatter […] for Soap. What cheaper way to supply this protein than by recycling fabricants who have reached the end of their working lives?” (MITCHELL, 2004, p. 343). 26 […] a abertura e a liberdade do pensamento e de formas de outras vidas (outras economias, outras teorias políticas); a limpeza da colonialidade do ser e do saber; o desprendimento da retórica da modernidade e de seu imaginário imperial articulado na retórica da democracia. O pensamento decolonial tem como razão de ser e objetivo a decolonialidade do poder […] (p. 29-30).26 O giro decolonial permite a recuperação de escritos de autores subalternos, esquecidos e apagados pela visão eurocêntrica do saber, revelando que o subalterno não somente fala, mas principalmente traz contribuições de conteúdo de extrema relevância para a historiografia e para teorizações diversas. A cientificidade do manifesto de Sonmi é descrito pela personagem no romance: Eu, somente eu, escrevi Declarações durante três semanas em Ulsukdo Ceo […]. Durante a escrita, consultei um juiz, um estudioso de genoma, um estudioso em sintaxe, e o general An-Kor Apis, mas os catecismos elevados de Declarações, sua lógica e ética, condenados no meu julgamento como “a perversão mais feia nos anais das depravações”, foram frutos da minha mente, Arquivista, alimentados por xperiências que narrei a você nessa manhã (MITCHELL, 2004, p. 346-347).27 Declarações é um documento que condensa críticas a uma sociedade patológica, exploratória e predatória, mas é utilizado posteriormente como atestado contrário à União e aos movimentos abolicionistas. No entanto, Sonmi sabe muito bem que as ideias estão disseminadas no mundo e permanecem à espera de um resgate, de um giro decolonial que dê valor aos escritos. Esse texto de Sonmi assemelha-se aos escritos de Waman Poma de Ayala, descrito por Mignolo (2007), um dos subalternos participantes do giro decolonial e que trouxe uma relevância inigualável para a discussão acerca das questões políticas, econômicas e sociais de sua respectiva época. Mignolo revela que Waman Poma de Ayala, habitante da região 26 Tradução nossa do excerto: “[…] la apertura y la libertad del pensamiento y de formas de vidas-otras (economías-otras, teorías políticas-otras); la limpieza de la colonialidad del ser y del saber; el desprendimiento de la retórica de la modernidad y de su imaginario imperial articulado en la retórica de la democracia. El pensamiento decolonial tiene como razón de ser y objetivo la decolonialidad del poder […]” (MIGNOLO, 2007, p. 29-30). 27 Tradução nossa do excerto: “I, only I, wrote Declarations over three weeks at Ulsukdo Ceo […]. During its composition I consulted a judge, a genomiscist, a syntaxist, and General An-Kor Apis, but the Ascended Catechisms of Declarations, their logic and ethics, denounced at my trial as ‘the ugliest wickedness in the annals of deviancy,’ were the fruits of my mind, Archivist, fed by xperiences I have narrated to you this morning” (MITCHELL, 2004, p. 346-347). 27 de Peru no ano de 1616, tenta, logo no início da colonização, registrar como as tribos Incas são tratadas pelos colonizadores e realizar uma forte crítica ao sistema político colonial instaurado pela Espanha. Buscando substituir a perspectiva histórica da época acerca das tribos indígenas e da colonização, Waman Poma aventura-se a criar crônicas que descrevam a dura realidade da destruição da cultura nativa. O manuscrito, o qual fora “dedicado” ao rei Felipe III da Espanha, muito provavelmente nem ao menos chega às mãos do rei, sendo o autor indígena apagado da memória teórica do período. Comparamos aqui Declarações com os escritos de Waman Poma, considerando que o documento de Sonmi também não é valorizado pela sociedade da época, sendo ela presa e executada por traição e conspiração. No entanto, os resultados são grandes no futuro, como pode ser abstraído no capítulo seguinte da narrativa. Em “Sloosha’s Crossin’ an’ Ev’rythin’ After”, as tribos do vale cultuam a deusa Sonmi e os prescientes estudam suas palavras de paz e de decolonialidade, as quais alcançam esse tempo futuro pela última entrevista e pelo manifesto. De forma semelhante, segundo Mignolo (2007), o giro decolonial de Waman Poma deu-se depois de 400 anos, quando os escritos foram “descobertos” e valorizados. A partir daí surgem ao menos três interpretações possíveis para o texto: […] a dos conservadores, que insistiram na falta de inteligência de um índio; a posição acadêmica progressista (com Franklin Peace no Peru, Rolena Adorno e Raquel Chang-Rodríguez nos Estados Unidos, Birgit Scharlau na Alemanha, e Mercedes López Baralt no Porto Rico), que compreendeu tanto a contribuição de Waman Poma como seu silenciamento por parte dos hispânicos peninsulares e dos crioulos da América do Sul; e, por último, a incorporação de Waman Poma no pensamento indígena como um dos fundamentos epistêmicos (da mesma forma que Platão e Aristóteles têm sido interpretados no pensamento europeu) (p. 34).28 A última interpretação é impactante, no sentido de que subverte de modo integral a epistemologia ocidental; aqui o ponto zero não se inicia de uma perspectiva eurocêntrica, e 28 Tradução nossa do excerto: “[…] la de los conservadores, que insistieron en la falta de inteligencia de un indio; la posición académica progresista (con Franklin Peace en Perú, Rolena Adorno y Raquel Chang- Rodríguez en Estados Unidos, Birgit Schar- lau en Alemania, y Mercedes López Baralt en Puerto Rico), que comprendió tanto la contribución de Waman Poma como su silenciamiento por parte de los hispanos peninsulares y los criollos de América del sur; y, por último, la incorporación de Waman Poma en el pensamiento indígena como uno de sus fundamentos epistémicos (a la manera como han sido interpretados Platón y Aristóteles para el pensamiento europeo)” (MIGNOLO, 2007, p. 34). 28 sim a partir dos estudiosos provenientes de países colonizados. Tanto a personagem Sonmi, quanto Waman Poma conseguem, séculos depois, influenciar e modificar ideologias das sociedades por meio do giro decolonial, isto é, da abertura para outros conhecimentos, não apenas os canônicos. No caso de Sonmi, vemos a presença de sua influência na narrativa seguinte. Na sexta história, os valleymen cultuam a personagem como uma Deusa, realizando milagres e promovendo a bondade e justiça: “Sonmi ajudava os duentes, retirava o azar, i quando um alguém verdadeiro e civilizado da tribo do valley morria, ela carregava sua alma até um últero em algum lugar nos vales” (MITCHELL, 2004, p. 244).29 Além disso, para os prescientes, o legado de Sonmi, isto é, os escritos e a entrevista, são relevantes e, por isso, estudados. Gostaríamos de, nesse momento, reservar um espaço para discorrer acerca das formas pelas quais os documentos se mantêm intactos. Afinal, sabe-se que os colonizadores não prezam pela cultura do outro e que inclusive buscam destruir e apagar qualquer registro proveniente de minorias (vide a maneira como os Morioris foram apagados da historiografia, a tal ponto que na contemporaneidade há um lento movimento de reavivamento cultural e social dessa tribo). Dessa forma, atentamos ao fato de que, se alguns registros resistem ao tempo e à imposição hegemônica do colonizador, há uma possibilidade de pessoas participantes das metanarrativas hierárquicas capitalistas modernas serem responsáveis por perceber o valor e guardar os escritos. Não há coincidência ou sorte na sobrevivência desses documentos, e, como muito dificilmente os marginalizados teriam poder de guardá-los a salvo, trazemos a hipótese da existência de dissidentes dentro das metanarrativas, humanistas ou sabedores de que um dia o giro decolonial poderia ocorrer e os registros seriam de grande relevância. Dessa maneira, por meio do giro decolonial, Sonmi é capaz de propiciar que os registros e pensamentos ultrapassem o tempo/espaço e atinjam a vida de populações futuras. Zachry e o restante da tribo na história seguinte baseiam-se nos ensinamentos da clone para manterem uma ideologia pacífica, mas de não subordinação às tribos mais agressivas. Portanto, a voz subalterna não se perde; apenas transita nas espirais do tempo. 29 Tradução nossa do excerto: “Sonmi helped sick uns, fixed busted luck, an’ when a truesome’n’civ’lized Val-leysman died she’d take his soul an’ lead it back into a womb somewhere in the Valleys” (MITCHELL, 2004, p. 244) 29 1.1.3. Autua e Sonmi~451 e as hierarquias escravocratas Retornando às hierarquias do sistema, enquanto Sonmi luta contra as hierarquias escravocratas patriarcais, Autua enfrenta as de cunho racistas, pautadas nas ideologias capitalistas. Quijano (2007) admite questões raciais no cerne das discussões de poder e do Capitalismo, percebendo que conjuntamente com a diferenciação da população entre europeus e não europeus veio a classificação de dominantes/superiores e dominados/inferiores, respectivamente. Dessa maneira, como os grupos hegemônicos europeus consideram-se superiores, todos os grupos distintos — aqui a aparência biológica como raça, gênero, sexo, entre outros, são levados em conta — são tratados como inferiores. É por isso que na narrativa de Mitchell, principalmente quando se dá na metade do século XIX em “The Pacific Journal of Adam Ewing”, há uma forte presença de racismo. Os Europeus não chegaram às terras do pacífico sem ideologias; de fato, a latência de hierarquias nos diversos níveis sociais foi gigantesca. Advindos de partes da Europa e dos Estados Unidos, os marinheiros e passageiros do navio Prophetess, no qual Ewing e Autua conversam pela primeira vez, manifestam, de modo predominante, um racismo explícito quanto às tribos indígenas da Nova Zelândia. O racismo constrói-se pelo choque cultural e pela forte presença de hierarquias por parte dos grupos hegemônicos, que, no caso de Autua, o desconsideram por causa de características fenotípicas e culturais. Segundo Quijano (2007), essa identificação biológica exterior se dá: […] em um primeiro momento, principalmente pela “cor” da pele e do cabelo, e pela forma e cor dos olhos; mais tarde, nos séculos XIX e XX, também por outros traços como a forma do rosto, o tamanho do crânio, a forma e o tamanho do nariz. […] Desse modo, definiu-se aos dominadores/superiores europeus o atributo da “raça branca”, e a todos os dominados/inferiores “não europeus”, o atributo das “raças de cor” (p. 120).30 30 Tradução nossa do excerto: “[…] en un primer periodo, principalmente el ‘color’ de la piel y del cabello y la forma y el color de los ojos; más tarde, en los siglos XIX y XX, también otros rasgos como la forma de la cara, el tamaño del cráneo, la forma y el tamaño de la nariz. […] De ese modo, se adjudicó a los dominadores/superiores europeos el atributo de ‘raza blanca’, y a todos los dominados/inferiores ‘no- europeos’, el atributo de ‘razas de color’” (QUIJANO, 2007, p. 120). 30 Autua sofre com personagens como Mr. Boerhaave, tripulante de Prophetess, que traz o racismo explícito em diversas situações. Notamos esse comportamento no momento em que Adam Ewing revela ao capitão Molyneux e à Boerhaave a clandestinidade e o compromisso em trabalhar como marinheiro de Autua na expedição: “Então esse m——a de preto quer que nós o sejamos gratos?” (MITCHELL, 2004, p. 33).31 Ou ainda quando Autua tenta ajudar Ewing a vomitar todo o veneno que Henry Goose lhe deu e Boerhaave tenta impedi-lo: “Eu já te disse, seu nego, que o Yankee não é seu problema! & se uma ordem direta não convencer você —” (MITCHELL, 2004, p. 504).32 Nesses exemplos, conseguimos abstrair a superioridade de Boerhaave na posição de colonizador. Para o marinheiro, Autua é um escravo fugitivo desprezível, sem cultura nem modos e, por isso, passível de ser tratado como um objeto, isto é, inferiorizado e até mal tratado fisicamente. O racismo e as divisões de poder pautadas nas diferenças raciais são práticas constantes nas colônias e se mantêm, em certo grau, com o fim da colonização, com a manutenção das práticas coloniais. Não é por acaso que vemos Sonmi, séculos depois, sendo considerada como alguém de raça diferente dos cidadãos da corpocracia; até os nomes são distintos: os clones são chamados de “fabricantes” e os cidadãos de “consumidores” ou “sangue-puros”. De fato, exemplos em que o racismo aparece na narrativa de Ewing são constantes. O racismo eurocentrado também é observado quando relatam a Ewing a posição dos europeus perante o genocídio dos Morioris: “James Coffee, um criador de porcos, disse que os Maoris fizeram um serviço aos homens brancos ao exterminarem outra raça de brutos para abrir espaço pra nós […]” (MITCHELL, 2004, p. 16).33 Ademais, quando Autua está procurando um hospital em Honolulu para salvar Ewing, são perceptíveis atitudes racistas: “Três vezes perguntou a estranhos, ‘Onde doutor, amigo?’ Três vezes foi ignorado (um respondeu, ‘Nenhum medicamento para Pretos fedidos!’) até que um velho vendedor de peixes grunhiu a localização de um hospital” (MITCHELL, 2004, p. 505).34 31 Tradução nossa do excerto: “So this d——d Blackamoor wants us to be grateful to him?” (MITCHELL, 2004, p. 33). 32 Tradução nossa do excerto: “I told you once, nigger, that Yankee’s no concern of yours! & if a direct order won’t convince you—” (MITCHELL, 2004, p. 504). 33 Tradução nossa do excerto: “James Coffee, a hog farmer, said the Maori had performed the White Man a service by exterminating another race of brutes to make space for us […]” (MITCHELL, 2004, p. 16). 34 Tradução nossa do excerto: “Thrice he asked of strangers, ‘Where doctor, friend?’ Thrice he was ignored (one answered, ‘No medicine for stinking Blacks!’) before an old fish seller grunted directions to a sick house” (MITCHELL, 2004, p. 505). 31 O escancaramento da hierarquia étnico-racial está presente na narrativa com a finalidade de expor uma realidade crua e perversa da metade do século XIX. Afinal, o sistema mundo europeu/euro-norte-americano moderno/capitalista colonial/patriarcal, com hierarquias sociais e relações de poder, funciona dessa maneira. As metanarrativas machistas, racistas, heteronormativas percorrem todos os períodos do romance, tendo em vista que o sistema não muda, apenas continua e evolui dentro de ideologias próprias. No entanto, as personagens principais de Cloud Atlas são louváveis devido ao grau baixo de dualismos e fundamentalismos. É o modo de encarar firmemente as adversidades que permite Autua, por exemplo, impactar na vida de Ewing, isto é, que fazem a personagem norte-americana repensar a estrutura social capitalista hierárquica e buscar um projeto (pós-vida?) pautado no abolicionismo e na igualdade social. De maneira semelhante, Sonmi~451, mesmo enfrentando o governo corpocrático repressor, e sabendo da traição de praticamente todos os companheiros da jornada pelo território de Nea So Copros, é capaz de redigir Declarações e de realizar uma entrevista que influenciará a vida de inúmeras pessoas. Dessa forma, as personagens conseguem perceber, assim como Said (1997) compreende, a necessidade de uma nova manifestação dos subalternos, uma expressão não primitiva, surgindo como uma resposta positiva ao apagamento da história, mas sim da confrontação com o presente. O subalterno não pode apenas se rebelar instintivamente, refutando as influências ocidentais, mas utilizá-las como plataformas da expressão dos marginalizados. E as personagens subalternas de Cloud Atlas sabem muito bem disso. Pensamos que o discurso e as atitudes de Autua iniciam um trajeto decolonial ao longo do livro, afetando de modo direto outras personagens, como Robert Frobisher, Luisa Rey, Timothy Cavendish, Sonmi~451 e Zachry, cujas histórias estão repletas de uma luta contra a subjugação, o rebaixamento e o apagamento. Ao considerarmos a marca de nascença no formato de cometa, presentes em Frobisher, Rey, Cavendish, Sonmi e Meronym, indicando a possibilidade de reencarnação, ou seja, a mesma pessoa vivendo várias vidas em diversos períodos históricos, a ação pacífica de Autua motiva o movimento inicial da luta contra esse sistema de poder. E, de fato, esta atitude reverbera em gerações consequentes, com amplitudes cada vez mais fortes e mais incisivas. Sonmi resume essa discussão: “Minhas ideias foram reproduzidas um bilhão de vezes. […] Como Seneca alertou Nero: não importa quantos de nós você matar, nunca irá matar seu sucessor” (MITCHELL, 2004, p. 32 349). 35 Esse assunto acerca do movimento de reverberação em outras histórias será abordado com maior detimento no último capítulo dessa dissertação. Portanto, ao fim deste tópico pudemos reconhecer a pertinência de estudos decoloniais na atualidade devido à manutenção histórica e social das estruturas da colonização nos países já independentes e “tecnicamente descolonizados”. A decolonialidade faz-se mais necessária na medida em que se percebem teorias e escritos subalternos desprezados e emudecidos pela crítica, cujo clamor atende aos pensadores eurocêntricos. Mais do que isso, apesar de estar ganhando um forte apoio dos diversos grupos subalternos, grande parte da população ainda desconhece esse trabalho. Tratando, por sua vez, da narrativa em análise, tanto Autua quanto Sonmi~451 funcionam como exemplos de discursos decoloniais, seja pelo giro decolonial da clone coreana ao escrever as Declarações, seja pelas atitudes decolonizadoras do índio Moriori, ao mesclar os ideais pacifistas de sua tribo com as ideologias de bondade cristãs ocidentais. Ambos contribuem para a disseminação do ideal de um mundo onde os subalternos não são menosprezados e silenciados. Nos próximos tópicos e capítulos dessa dissertação, a decolonialidade e subalternidade estarão presentes quando trataremos das hierarquias capitalistas hegemônicas e das formas de contestações subalternas. Por meio da agregação de outros escritores e abordagens, notaremos como o romance traz uma visão não binária, considerando, por exemplo, uma personagem como Autua, embora não protagonista e não detentor do foco da narrativa, possuidora de uma função inigualável: desencadear em Ewing uma transformação de vida, uma (re)perspectivação do sistema, uma luta em favor dos direitos dos subalternos. 1.2. O BIOPODER FRENTE ÀS VIDAS SUBALTERNAS A abordagem da decolonialidade permite que grupos subalternos reflitam sobre as influências de uma sociedade capitalista predatória e percebam as consequências da colonialidade. Continuando a tratar das formas de exploração e subjugação das personagens escravas, no atual subcapítulo, trataremos do conceito foucaultiano de 35 Tradução nossa do excerto: “My ideas have been reproduced a billionfold. […] As Seneca warned Nero: No matter how many of us you kill, you will never kill your successor” (MITCHELL, 2004, p. 349). 33 biopoder (2015)36, isto é, acerca da influência que os governos têm sobre a vida e os corpos da população. Nesse momento da dissertação, exploraremos como as formas de controle corporais estão presentes nas sociedades ocidentais e a maneira como Mitchell transporta, em Cloud Atlas, para as vidas de Autua e Sonmi~451. Assim, analisaremos o contexto do escravo moriori, considerando o controle exercido pelos Maoris como exemplar de um poder soberano; e o contexto da clone coreana, como representante das possibilidades futuras do desenvolvimento tecnológico do biopoder para assujeitar os indivíduos por meio da neoescravidão. Ao iniciar o percurso da genealogia do conceito, Foucault revela a existência de um biopoder sob a forma da soberania na Roma antiga. Nesse contexto, o soberano dispõe do direito à vida e à morte dos cidadãos, fato que remonta ao direito de os pais de família terem a posse da vida dos filhos e escravos: é possível tomar-lhes a vida caso seja da vontade dele. Dessa maneira, o soberano conta com a posse da vida dos súditos, os quais são subordinados e obrigados a defendê-lo de possíveis inimigos. Aqui a vida dos súditos é posta em risco para defender a soberania de quem possui autoridade. Além disso, pessoas contrárias às ideias ou decisões tomadas pelo soberano podem ser executadas. Nota-se que a pessoa detentora da decisão na manutenção do biopoder afeta diretamente a vida (e morte) das outras pessoas, de acordo com as ideologias e interesses. De fato, concebemos que a influência dos Maoris na tribo Moriori está relacionada ao biopoder de ordem soberana. Em termos do biopoder, vemos os poucos Morioris que restaram após a vinda da tribo rival, agora dominados e escravizados. Dessa maneira, os Maoris dispõem de poder, influência e posse da vida dos recém-escravos. A relação entre as tribos encaminha-se para um estado de biopoder de soberania: “[...] é simplesmente por causa do soberano que o súdito tem direito de estar vivo ou tem direito, eventualmente, de estar morto” (Foucault, 2005, p. 286). Embora de imensa perversidade, a relação grupo dominador e grupo escravizado dispõe como base um sistema em que a vida está na mão de outros. Os grupos específicos de Maoris tomam 36 Foucault (2015) é um dos primeiros estudiosos a utilizar o termo biopoder e abordar de forma concisa o surgimento e desenvolvimento do poder relacionado a vidas humanas, incluindo a análise, o controle e a definição do corpo humano. 34 partido direto dessa forma de biopoder, a fim de realizar um massacre à vida da tribo Moriori. De acordo com Davis e Solomon (2017), Apesar de dizerem que um número total de Morioris a princípio massacrados ter sido por volta de 300, mais de centenas foram escravizados e mortos posteriormente. Alguns foram mortos pelos Maoris. Outros, horrorizados pela dessacralização de suas crenças, morreram de “kongenge” ou desespero. De acordo com registros feitos pelos mais velhos, 1,561 Morioris morreram entre 1835 e 1863, quando a escravidão foi abolida. Muitos sucumbiram às doenças trazidas pelos Europeus, mas um grande número morreu nas mãos de Ngāti Mutunga e Ngāti Tama.37 Em 1862 somente 101 sobreviveram (s/p).38 Mitchell traz parte da historiografia invisibilizada dos Morioris na narrativa, revelando as crueldades da escravidão Maori. Por meio da narração de Ewing, muitas vezes interrompida por comentários próprios da ideologia hegemônica, entramos em contato com a história da vida de Autua, sobrevivente da escravidão: O mestre de Autua era o Maori com tatuagem de lagarto, Kupaka, o qual contou a seus escravos aterrorizados, despedaçados, que tinha vindo purificá-los de seus falsos ídolos (“Seus deuses os salvaram?”, ridicularizava Kupaka); de sua linguagem contaminada (“Meu chicote vai ensiná-los Maori puro!”); de seu sangue corrompido (“Cruzamentos consanguíneos diluíram sua mana original!”) (MITCHELL, 2004, p. 31).39 Aqui, vemos como o biopoder é utilizado pelos líderes Maori com o objetivo de objetificar a vida daqueles pertencentes às tribos/raças diferentes. O mesmo processo civilizatório propagado pelos ocidentais – para Ewing, “[...] civilizar as raças Negras pela conversão deveria ser nossa missão, não a extirpação deles, pois a mão de Deus tinha os 37 Tanto Ngāti Mutunga e Ngāti Tama são tribos Maoris, nativas da região da Nova Zelândia. 38 Tradução nossa do excerto: “Although the total number of Mor