HELTON MARQUES ECOS PERMANENTES DO PASSADO NO PRESENTE: Violência, História e Memória na obra de Graciliano Ramos ASSIS 2018 HELTON MARQUES ECOS PERMANENTES DO PASSADO NO PRESENTE: Violência, História e Memória na obra de Graciliano Ramos Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em Letras (Área de Conhecimento: Literatura e Vida Social) Orientador: Prof. Dr. Gilberto Figueiredo Martins Bolsista: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ASSIS 2018 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da F.C.L. – Assis – Unesp M357e Marques, Helton Ecos permanentes do passado no presente: violência, história e memória na obra de Graciliano Ramos / Helton Marques. Assis, 2018. 240 f. Tese de Doutorado – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis Orientador: Dr. Gilberto Figueiredo Martins 1. Literatura e história. 2. Memória. 3. Violência na lite- ratura. 4. Literatura brasileira. 5. Ramos, Graciliano, 1892- 1953. I. Título. CDD 869.909 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a toda minha família, cujo apoio ao longo de minha formação acadêmica tem sido fundamental para a realização de estudos e pesquisas que se apresentam como base para o desenvolvimento desta Tese. Também dedico este trabalho, de modo especial, ao Prof. Dr. Gilberto Figueiredo Martins, meu Orientador desde meu primeiro ano de Graduação em Letras, quando tive o privilégio de receber seus ensinamentos durante as aulas e iniciar, com seu valioso apoio, um percurso de leituras e reflexões sem as quais esta tese não seria possível. AGRADECIMENTOS Ao longo dos anos dedicados ao desenvolvimento desta tese, várias pessoas foram importantes, seja pela participação direta ou indireta neste trabalho. Dentre elas encontram-se familiares, amigos e colegas de profissão que contribuíram por meio de orientações, gestos de motivação e palavras de incentivo. Ao lembrar-me de algumas pessoas com o objetivo de agradecê-las, corro o risco de me esquecer de outras, mas tenho certeza de que vale a pena arriscar e registrar aqui meus sinceros agradecimentos àqueles que tiveram participação especial durante o desenvolvimento desta tese. Em primeiro lugar, agradeço a todos da minha família: minha mãe, Maria; meu pai, Homero; meu irmão, Homerinho; e minha noiva, Mônica. Muito obrigado pela presença e apoio nos momentos que mais precisei. Também agradeço, de modo especial, ao Prof. Dr. Gilberto Figueiredo Martins, pela confiança depositada em mim e pelas valiosas orientações e ensinamentos durante os últimos anos. Aos Profs. Drs. Sandra Aparecida Ferreira e Benedito Antunes, docentes da UNESP/Assis, meus sinceros agradecimentos por participarem da Banca do Exame Geral de Qualificação. Obrigado, professores, pela atenção dedicada à tese e pelas sugestões de grande valor para este trabalho. Aos funcionários do Departamento de Pós Graduação e da Biblioteca “Acácio José Santa Rosa”, da UNESP/Assis, pelas vezes quando precisei de algumas informações específicas. Obrigado por sempre me atenderem de modo gentil e amigável. Ao CNPq, enfim, meus sinceros agradecimentos pelo apoio financeiro concedido por meio de bolsa de estudos para o desenvolvimento desta tese de Doutorado. “Quando os nossos olhos se abrem para este mundo de miséria e dor, é impossível não reagir, não clamar contra tanto infortúnio. E eles querem que nos calemos, de braços cruzados, ou que façamos arte pela arte...” (Graciliano Ramos) “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa) https://www.pensador.com/autor/guimaraes_rosa/ MARQUES, Helton. Ecos permanentes do passado no presente: violência, história e memória na obra de Graciliano Ramos. 2018. 240 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2018. RESUMO Graciliano Ramos era um escritor extremamente cuidadoso quanto à forma e reescrevia seus livros sem cessar, só os publicando quando estivessem enxutos, livres de quaisquer excessos. Seus textos literários trazem não somente o estilo “seco”, apurado e preciso do autor alagoano, mas também representam exemplarmente o contexto sócio-histórico brasileiro da primeira metade do século XX. De modo geral, a crítica literária aponta a tênue linha fronteiriça que divide, de certa forma, a obra de Graciliano em narrativas autobiográficas, memorialistas e ficcionais. Certamente essas fronteiras devem ser levadas em consideração quando analisado o conjunto da obra do autor, mas o que também se deve considerar é o traço comum que aproxima todas as narrativas, sejam as ficcionais, as memorialistas e as realmente autobiográficas, como é o caso da temática da violência e suas diversas formas de manifestação presentes na maioria de seus textos literários. É importante destacar ainda que, a partir da reelaboração literária de sua própria experiência, Graciliano, movido pela memória, procurou refletir sobre a relação do indivíduo com o Poder e as agruras da Lei, seja esta paterna ou social, retratando as formas de sociabilidade e os modos de subjetivação próprios de um contexto histórico marcado pela violência e opressão. Tendo isso em vista, esta Tese tem como principal finalidade desenvolver uma análise interpretativa da representação literária da violência na obra de Graciliano Ramos, principalmente nos romances São Bernardo, Angústia e Infância, este último a partir do capítulo-conto intitulado “Um cinturão”, destacando os possíveis vínculos entre conteúdo temático e forma literária, ou seja, analisando em que medida a matéria social e histórica é tematizada e, acima de tudo, formalizada na obra de um dos principais escritores do Modernismo no Brasil. Para tanto, os principais textos da Fortuna Crítica do autor, como os de Antonio Candido, João Luiz Lafetá e Álvaro Lins, por exemplo, e estudos de outras áreas do conhecimento, como a História, Sociologia e Psicanálise, servem como base para o desenvolvimento das análises apresentadas ao longo desta tese. Palavras-chave: Literatura e História. Violência. Memória. Representação literária. Romance Brasileiro. Graciliano Ramos. MARQUES, Helton. Permanent echoes of the past in the present: violence, history and memory in Graciliano Ramos’ work. 2018. 240 f. Thesis (Doctorade in Languages) – São Paulo State University (UNESP), School of Sciences, Humanities and Languages, Assis, 2018. ABSTRACT Graciliano Ramos was an extremely careful writer worried about the literary form who used to rewrite his books incessantly, only publishing them when they were free of any excesses. His literary texts presents not only the "dry", accurate and precise style of the alagoan author, but they also represent exemplarily the Brazilian social and historical context of the first half of the twentieth century. In general, literary criticism points to the tenuous frontier line that divides the Graciliano's work into autobiographical, memoirist, and fictional narratives. Of course, these boundaries must be taken into account when analyzing the author's entire work, but what should also be considered is the common features that brings the fictional, memorialist and autobiographical narratives closer, as it happens in relation to the theme of violence and its various forms of expression represented in most of the author’s literary texts. It is important to point out that, based on the literary re-elaboration of his own experience and memories, Graciliano reflects on the relation of the subject to the Power and the hardships of the Law, paternal or social, and he represents the forms of sociability and the manners of subjectivation typical of a historical context marked by violence and oppression. The main purpose of this Thesis is to develop an interpretative analysis of the literary representation of violence in Graciliano Ramos' work, especially in the novels São Bernardo, Angústia and Infância, this last one based on the chapter/tale entitled "Um cinturão". The objective is to analyze the possible links between thematic content and literary form, that is, to analyze how the social and historical element is a formalized theme in the work of one of the main writers of Modernism in Brazil. Therefore, the main texts of the Critic Fortune about the author, such as the studies developed by Antonio Candido, João Luiz Lafetá and Álvaro Lins, and studies of other areas of knowledge, such as History, Sociology and Psychoanalysis, are the basis for the development of the analyzes presented in this thesis. Keywords: Literature and History. Violence. Memory. Literary representation. Brazilian novel. Graciliano Ramos. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ....................................................................................................10 CAPÍTULO I - Graciliano Ramos Formação e Trajetória Literária .................................................................................15 CAPÍTULO II - São Bernardo e a (des)construção de um mundo moderno Contextualização do romance: de Caetés a São Bernardo ..................................... 37 Da ascensão à decadência: a trajetória do herói e o fracasso inevitável ................ 41 Patriarcas enciumados e esposas oprimidas: uma aproximação entre Dom Casmurro e São Bernardo ou “O que os olhos não veem o coração... sente” ......................... 62 A ética do indivíduo e o ethos do proprietário: o dilema de um enigma ................... 69 Em torno de espelhos, lobisomens e corujas: imagens do duplo em São Bernardo .................................................................................................................. 80 São Bernardo e o drama das contradições histórico-sociais brasileiras .................. 88 A representação do herói problemático na Era do Capitalismo Moderno .............. 104 CAPÍTULO III - Solidão, Violência e Angústia no mundo moderno Breve apresentação do romance ........................................................................... 117 Em torno de ratos, cobras e cordas: as origens da violência em Luís da Silva ..... 130 Realidade opressiva e futuro ilusório: a raiva de um “cangaceiro emboscado” ..... 147 A “cicatriz primordial” e o retorno do re[o]primido .................................................. 157 Luís da Silva e a angustiante experiência da cidade moderna .............................. 167 O Crime e Castigo de Luís da Silva, o “homem do subsolo” .................................. 184 CAPÍTULO IV - Memórias de uma Infância infeliz Violência, opressão e... “Um cinturão” ................................................................... 205 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 220 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 231 10 APRESENTAÇÃO O século da bomba atômica é também, como não poderia deixar de ser, o século dos temas e das narrativas explosivas. É o século em que nos indignamos contra a opressão e endereçamos nosso pensamento no sentido de solucioná-la mesmo que para tanto tenhamos de enfrentar a dor. Que outra literatura esperar da nossa força criativa? Ronaldo Lima Lins1 Esta tese parte do princípio de que a arte da Literatura, assim como as demais manifestações artísticas, está estreitamente vinculada ao seu contexto histórico de produção, revelando, na ficção, as marcas do entorno social e político de uma determinada época. Desse modo, a Literatura representa o ser humano, com suas qualidades e defeitos, e as formas de sociabilidade próprias de um determinado momento da História. Com isso, a Literatura não deve ser pensada como manifestação artística independente, mas, pelo contrário, como a arte que usa como matéria-prima de suas criações a palavra para representar o homem, com as suas angústias e formas de pensar, agir e (sobre)viver em sociedade. Assim, a Literatura, de certa forma, sempre tratou de temas vinculados à realidade humana, seja por representar a realidade histórica e empírica de um determinado contexto, seja por representar os desejos e instintos mais primitivos do homem, revelando não somente os sentimentos nobres que podem caracterizá-lo, como o amor, a amizade e o perdão, por exemplo, mas também toda a potencialidade do ser humano para a agressividade, destruição, ódio e violência. Foi com base nessas premissas que surgiu o interesse em pesquisar como ocorre a representação da violência na obra de Graciliano Ramos, uma vez que essa temática é recorrente em seus textos e reflete uma época de instabilidade marcada por profundas mudanças sociais e históricas. Dessa forma, o diálogo entre a análise literária e outras áreas do conhecimento, como a História, a Psicologia e a Psicanálise, por exemplo, será imprescindível em vários momentos ao longo deste trabalho. De modo geral, portanto, esta tese tem como principal finalidade verificar em que medida o conteúdo temático presente em alguns textos de Graciliano é 1 LINS, Ronaldo Lima. Violência e Literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990, p. 26. 11 formalizado e internalizado nas malhas do próprio enredo, isto é, como tema e forma literária complementam-se ao longo das narrativas analisadas. O objetivo, então, não é apresentar um estudo sociológico sobre a temática da violência no Brasil durante a primeira metade do século XX, época em que são escritos e publicados os textos de Graciliano Ramos, mas desenvolver um estudo literário, crítico e analítico sobre o fenômeno da violência, tão caro e discutido hoje em dia, representado temática e formalmente na obra do autor, principalmente nos romances São Bernardo (1934) e Angústia (1936), e no capítulo-conto intitulado “Um cinturão”, de Infância (1945), levando em consideração, para tanto, os fatos históricos ocorridos no Brasil ao longo da primeira metade do século XX e as experiências pessoais do próprio autor, que ilustram e reforçam a recorrência da temática da violência em seus escritos. Não se trata, todavia, de realizar um levantamento de manifestações circunstanciais de violência presentes nos textos analisados, mas, pelo contrário, trata-se de, a partir dessa temática, desenvolver algumas considerações sobre como Paulo Honório, Luís da Silva e o adulto anônimo que narram suas histórias, respectivamente, em São Bernardo, Angústia e Infância fazem parte de um mesmo contexto histórico marcado por transformações reveladoras de uma complexa rede de contradições sócio-históricas estruturantes e determinantes de valores e comportamentos. Segundo o pensador e professor francês Jacques Leenhardt, no prefácio do livro Violência e Literatura, de Ronaldo Lima Lins, todo discurso sobre a violência seria necessariamente uma representação dela mesma. Assim, é possível afirmar que na Literatura a distância entre a violência tematizada e o discurso literário seria praticamente anulada já a partir desse ponto, isto é, pela natureza do discurso sobre o fenômeno da violência em consonância com a especificidade de representação própria do discurso literário: “Daí que todo discurso sobre a violência é dela necessariamente uma representação e não uma descrição, mostrando-se, por essência, da ordem da ficção. É por essa via, enfim, que violência e literatura se acham tão intimamente ligadas.” (LEENHARDT, in LINS, 1990, p. 15, destaques do autor). Em outras palavras, se todo discurso sobre a violência já constitui uma representação desse fenômeno, na Literatura a violência, quando aparece tematizada, é representada por meio de um discurso específico, no caso, o literário, 12 cuja principal finalidade é representar, por meio da arte da palavra, o que se convencionou chamar de “realidade”, seja esta histórica, social, psíquica etc. Desse modo, este trabalho almeja analisar os mecanismos próprios do discurso literário mobilizados por Graciliano Ramos em seus textos para a representação temática e formal da violência, a partir das lembranças dos narradores protagonistas (e do próprio autor), que ecoam através dos tempos e constituem aquilo que chamamos de memória, e com base em alguns acontecimentos que marcaram a História do país. Pensar o fenômeno da violência no Brasil e no mundo a partir da arte literária já foi inclusive sugerido por estudiosos de outras áreas do conhecimento, como, por exemplo, o filósofo Nilo Odalia, no livro O que é violência: Acredito, também, que para se conhecer e poder pensar sobre a violência, os romances são necessários. Neste particular, destaco a obra de Dostoievski. Não é fácil destacar títulos de sua obra, pois quase todos os seus romances tratam do problema da violência, em suas mais diversas manifestações. Por preferência pessoal, destacaria: Crime e Castigo, Recordações da Casa dos Mortos, Humilhados e Ofendidos, Os Demônios. O ideal seria ler toda a sua obra. Na literatura brasileira, todo o chamado ciclo nordestino do romance é importantíssimo. Destaco: Graciliano Ramos e José Lins do Rego, José Américo de Almeida. Os primeiros romances de Jorge Amado são importantíssimos: Jubiabá, Mar Morto, Capitães da Areia. Em princípio, todos os romances que vão até Gabriela, Cravo e Canela. (ODALIA, 1986, p. 93). Como esta tese leva em consideração, portanto, os estreitos vínculos entre Literatura e História, tendo inclusive como suporte teórico vários estudos desenvolvidos por renomados historiadores, filósofos e sociólogos para uma melhor compreensão do contexto de escrita e publicação dos textos de Graciliano, no primeiro capítulo apresentamos uma breve biografia do autor, com o objetivo de destacar alguns episódios biográficos (portanto históricos) que serviram como força motriz para a elaboração de alguns de seus escritos. Ao lado de sua formação e trajetória literária, vemos surgir o anseio por um projeto de modernização de um Brasil marcado por contradições históricas e sociais, que se apresentam como estruturas enraizadas na sociedade brasileira. O papel da memória do autor, portanto, marcada pelo contexto histórico em que viveu, é 13 destacado como principal fonte de “inspiração” para a escrita de seus textos, e, com isso, a figura histórica do próprio escritor Graciliano Ramos aproxima-se da figura de alguns de seus narradores protagonistas. Em seguida, no segundo capítulo, o foco da análise volta-se para São Bernardo, segundo romance do autor, publicado em 1934. Ao longo desse capítulo, a figura central do romance, ou seja, o narrador protagonista Paulo Honório, destaca-se como principal elemento articulador de toda a narrativa, constituindo-se, portanto, como uma chave de leitura para uma melhor compreensão tanto de São Bernardo-fazenda como de São Bernardo-livro. Os episódios de crise de ciúmes de Paulo Honório, sujeito bruto, violento e dominador, lembram muito o comportamento de Bento Santiago, protagonista do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. A aproximação entre os dois personagens, então, é inevitável e por isso recorrente nos estudos da fortuna crítica de Graciliano Ramos, o qual, por extensão, aproxima-se da figura do escritor carioca devido à semelhança de alguns traços estilísticos, como, por exemplo, o humor fino e a ironia corrosiva, embora certamente haja nítidas diferenças com relação ao uso desses recursos por ambos os autores. No terceiro capítulo, entra em cena o terceiro romance, Angústia, publicado em 1936, que apresenta o narrador protagonista Luís da Silva como eixo central da análise. Tendo em vista o título do romance, é imprescindível recorrer aos estudos psicanalíticos para uma melhor compreensão do próprio sentimento de angústia que marca o narrador/protagonista, de modo particular, e a estrutura da narrativa como um todo. Nesse capítulo, as reflexões em torno de Luís da Silva proporcionaram uma rede intertextual com vários personagens literários, dentre os quais se destacam, pela complexidade e densidade psicológica, Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo, e o “homem do subsolo”, narrador personagem de Diário do subsolo, ambos romances de Dostoiévski, autor russo de considerável importância para uma melhor compreensão da obra ficcional de Graciliano Ramos. No quarto capítulo desta tese, desenvolvemos a análise de um capítulo do romance Infância, publicado em 1945, que apresenta um narrador adulto anônimo reelaborando, por meio da memória, episódios de sua infância, marcada sobretudo por momentos de violência e opressão praticadas principalmente pelos próprios pais. 14 O capítulo analisado intitula-se “Um cinturão”, o qual, pela estrutura circular fechada, forte tensão e unidade de efeito, foi considerado um d’Os cem melhores contos brasileiros do século, podendo, então, ser lido e analisado como um conto. Todavia, algumas passagens de Infância surgem durante a análise com o objetivo de contextualizar melhor o episódio narrado no capítulo-conto e para refletir com mais profundidade sobre a constituição do sujeito adulto narrador de sua própria história/estória. Por fim, nas Considerações Finais, apresentamos algumas reflexões sobre a obra de Graciliano Ramos como um todo, pois, embora esta tese apresente como foco central de análise os romances São Bernardo, Angústia e Infância (analisado de forma mais restrita a partir do capítulo-conto “Um cinturão”), em vários momentos surgem referências e até mesmo breves análises de outros textos do autor, como Caetés, Vidas Secas, Memórias do cárcere e alguns contos do livro Insônia. O objetivo das Considerações Finais é, portanto, refletir sobre a possível aproximação entre os textos literários de Graciliano por meio dos traços estilísticos recorrentes em sua obra, marcada, a propósito, pela superposição dos planos regional e universal, o que também contribui com a aproximação entre seus textos. Além disso, observamos o contexto histórico de produção e publicação para melhor compreender não apenas a figura do autor, de modo particular, mas principalmente seu universo ficcional como um todo. Surge, assim, a temática da violência, inserida em um determinado momento da História do Brasil, isto é, a primeira metade do século XX, período em que se encontram os narradores dos textos analisados reelaborando, por meio da memória, episódios do passado que ecoam através dos tempos e ressurgem como conteúdo para o desenvolvimento de suas narrativas. Desse modo, a proposta de leitura aqui apresentada leva em consideração esses “Ecos permanentes do passado no presente”, elementos estruturadores das narrativas, a fim de analisar, portanto, o modo como se relacionam temática e formalmente nas malhas do texto literário a “Violência, História e Memória na obra de Graciliano Ramos”, um dos principais nomes da literatura brasileira de todos os tempos. 15 CAPÍTULO I GRACILIANO RAMOS Nasci na zona árida, numa velha fazenda, e ali passei quase toda a minha infância, convivendo com o sertanejo. Fui depois para a cidade estudar e mais tarde diversas vezes visitei o meu recanto natal, bem como outras paragens do sertão nordestino. Os meus personagens não são inventados. Eles vivem em minhas reminiscências, com suas maneiras bruscas, seu rosto vincado pela miséria e pelo sofrimento. Graciliano Ramos2 Formação e trajetória literária Aos 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Estado de Alagoas, nasceu Graciliano Ramos de Oliveira, primeiro dos dezesseis filhos do casal Sebastião Ramos de Oliveira, de 37 anos, e Maria Amélia Ferro e Ramos, com então 14 anos de idade. Segundo Dênis de Moraes, em O Velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, “Encravada na montanha, a cidade em nada diferia dos pequenos vilarejos: comércio de ocasião, trabalho no roçado, boas pastagens para a pecuária e vida arrastada. Mas havia a expectativa de progresso com a chegada dos trilhos da Great Western; Maceió ficaria a um pulo.” (MORAES, 2012, p. 23). Mesmo existindo essa perspectiva de progresso, alguns anos mais tarde, em 1895, antes de Graciliano completar três anos, seus pais decidiram mudar-se com os filhos para a Fazenda Pintadinho, na cidade de Buíque, localizada no sertão de Pernambuco, onde viveram até 1899, quando houve uma nova mudança da família, desta vez para o município de Viçosa, no estado de Alagoas. Aos dez anos, ou seja, no ano de 1902, Graciliano leu seu primeiro livro, O Guarani, mas a estética romântica não o conquistou, muito menos influenciou sua produção artístico-literária, apesar de afirmar que admirava “(...) as bonitas descrições, a linguagem atraente do autor de Iracema, os lances de fidelidade e de amor platônico de um índio, sentimentos impossíveis entre os nossos selvagens, homens desconfiados e lúbricos, segundo a opinião de Southey, Léry etc.” (FACIOLI, 1987, p. 31). 2 BROCA, Brito. Vidas secas: Uma palestra com Graciliano Ramos – O sertanejo da zona árida – O homem no seu habitat. In: LEBENSZTAYN e SALLA, 2014, p. 68. 16 Em apenas alguns meses, vários romances de diferentes autores, como José de Alencar, Júlio Verne e Joaquim Manuel de Macedo, por exemplo, já haviam sido “devorados” pelo jovem leitor, que sempre se revelou um apaixonado pela arte literária, exercitando o hábito da leitura em diversos lugares, como “(...) na escola, debaixo das laranjeiras do quintal, nas pedras do rio Paraíba, em cima de uma caixa de velas, junto ao dicionário, que tinha ‘bandeiras e figuras’.” (MORAES, 2012, p. 30). Em 24 de junho de 1904, Graciliano, com apenas 11 anos de idade, fez sua estreia literária com o conto “O Pequeno Pedinte”, publicado na primeira edição do jornal O Dilúculo, do Internato Alagoano de Viçosa, revelando, ainda durante a infância, sua inclinação para a literatura em prosa. O jornal circulou até o início de 1905, quando o jovem autor foi matriculado no Colégio Quinze de Março (ou Maio)3, em Maceió. O conto de estreia de Graciliano, segundo Dênis de Moraes, teria sofrido várias alterações e emendas feitas por Mário Venâncio, espécie de mentor intelectual do jovem autor. Venâncio era conhecido por admirar e usar palavras incomuns, raras, ao gosto dos poetas parnasianos, como revela o título “O Dilúculo”, por exemplo, escolhido por ele, que significa “amanhecer”, “despontar do dia”, “alvorada” (FERREIRA, 1986). Alguns termos provavelmente usados por Venâncio durante a correção que fez do breve conto de Graciliano também revelam essa inclinação preciosista. O conto é relativamente curto e vale a pena transcrevê-lo a fim de exemplificar como o jovem escritor de apenas onze anos de idade já se preocupava em tematizar o sofrimento do outro que é socialmente marginalizado, vítima do violento processo de exclusão social que marca a História do Brasil: Tinha oito anos! A pobrezinha da criança sem pai nem mãe, que vagava pelas ruas da cidade pedindo esmola aos transeuntes caridosos, tinha oito anos. Oh! Não ter um seio de mãe para afogar o pranto que existe no seu coração. 3 O nome do Colégio onde Graciliano Ramos foi matriculado em 1905 não é um dado preciso, pois durante a pesquisa foram encontradas duas referências: “Colégio Quinze de Março”, presente tanto no site oficial sobre o escritor (http://www.graciliano.com.br) como no livro O Velho Graça, de Dênis de Moraes (MORAES, 2012, p. 32), e “Colégio Quinze de Maio”, que consta na Biografia Intelectual intitulada “Um homem bruto da terra”, de Valentim Facioli (In: GARBUGLIO et al, 1987, p. 28). 17 Pobre pequeno mendigo. Quantas noites não passara dormindo pelas calçadas exposto ao frio e à chuva, sem o abrigo do teto. Quantas vergonhas não passara quando, ao estender a pequenina mão, só recebia a indiferença e o motejo. Oh! Encontram-se muitos corações brutos e insensíveis. É domingo. O pequeno está à porta da igreja, pedindo, com o coração amargurado, que lhe deem uma esmola pelo amor de Deus. Diversos indivíduos demoram-se para depositar uma pequena moeda na mão que se lhes está estendida. Terminada a missa, volta quase alegre, porque sabe que naquele dia não passará fome. Depois vêm os dias, os meses, os anos, cresce e passa a vida, enfim, sem tragar outro pão a não ser o negro pão amassado com o fel da caridade fingida. (MORAES, 2012, p. 31). No início de 1906, o jovem escritor, com 13 anos de idade, redigiu o periódico quinzenal Echo Viçosense, que teve apenas dois números publicados, devido ao suicídio de Mário Venâncio, que também era um dos redatores. Nesse mesmo ano, Graciliano publicou dois sonetos na revista carioca O Malho, usando o pseudônimo Feliciano de Oliveira, e, no período aproximado de 1909 a 1914, após uma nova mudança da família para a cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas, publicou outros poemas sob vários pseudônimos, como, por exemplo, “(...) S. de Almeida Cunha, Almeida Cunha, Soares de Almeida Cunha e Soeiro Lobato.” (Idem, p. 33). Em depoimento publicado em 1910, no Jornal de Alagoas, na época o mais importante do Estado, Graciliano, com menos de dezoito anos, revelou gostar “(...) dos versos verdadeiramente artísticos de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Guimarães Passos, Luís Murat, Luiz Guimarães, etc.” (LEBENSZTAYN e SALLA, 2014, p. 52). Em seguida, afirma, porém, que sua influência literária viria de Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Eça de Queirós, como demonstra o excerto: “Tenho predileção por Aluísio Azevedo, mas não deixo de admirar outros escritores nacionais e estrangeiros. Assim, predominaram também sobre mim o realismo nu de Adolfo Caminha e a linguagem sarcástica de Eça de Queirós.” (Idem, ibidem). E, finalmente, conclui suas considerações afirmando que prefere “(...) a prosa ao verso. Se tenho trabalhos poéticos, esquecendo a prosa – por que não confessá- lo – é porque não tenho talento para cultivar a escola que prefiro: a escola realista. E o verso ocupa menor espaço nos jornais.” (Idem, p. 53). 18 É interessante destacar a preferência do jovem autor pelo Realismo, o qual segundo ele seria “(...) a escola que, rompendo a trama falsa do idealismo, descreve a vida tal qual é, sem ilusões nem mentiras.”, e por isso tornar-se-ia “(...) a escola do futuro.” (Idem, p. 55). Além disso, também é importante destacar a intenção de Graciliano em preservar seu pequeno espaço literário nos jornais com a publicação somente de poemas, já que os versos ocupariam menos espaço do que os textos em prosa, e, por isso, a “opção” naquele momento pela produção de poemas. Todavia, essa “opção”, na verdade, significava a “falta de opção” do autor, que necessitava de um veículo para a publicação de seus escritos, mas, naquela região onde se encontrava, o único meio de circulação de informação e entretenimento era o periodismo, com a oferta de espaços muito reduzidos para a literatura. Assim, o jornal era o principal suporte para a sobrevivência e difusão de textos literários, como reconhece o próprio autor: “Creio que o jornal é absolutamente necessário, indispensável mesmo à literatura, principalmente em um lugar onde apenas de longe em longe aparece um livro.” (Idem, p. 54). Com relação aos poemas de Graciliano, dentre os quais se destacam os sonetos, é possível perceber em seus versos a presença de um jovem poeta atento a certo rigor formal típico da estética parnasiana (em decadência naquela época), desenvolvendo métrica regular, rimas ricas, objetividade e impassibilidade. Como Graciliano Ramos consagrou-se grande romancista, ao ponto de seus poemas serem (quase) totalmente desconhecidos, pois foram publicados em obras de circulação muito restrita, segue abaixo um exemplo de soneto do autor, que, de acordo com a “Biografia Intelectual – Um homem bruto da terra”, de Valentim Facioli, foi publicado sob o pseudônimo de Almeida Cunha, em 1909, no Jornal de Alagoas: CÉPTICO Quanto mais para o céu ergo o olhar compungido, De tristeza repleto e de esperança vazio, Mais encontro impiedoso, agitado e sombrio Sempre o céu que me abate e me torna descrido. É em vão que a crença busco, embalde fantasio Meu passado sem névoa, um passado perdido... Só sinto o coração pulsando colorido Ao peso glacial de um cepticismo frio. 19 Tenho a cabeça em brasa e o pensamento enfermo. A alma se me compunge e tudo é triste e ermo, Nos arcanos sem fim de um peito esquelético. Pesada treva envolve o meu olhar ardente, E mais fico agitado e mais fico descrente Quanto mais para o céu ergo os olhos céptico. (RAMOS in FACIOLI, 1987, p. 30). Como é possível observar, o soneto apresenta características formais (não temáticas) típicas do Parnasianismo, que se aproximam de alguns dos traços estilísticos da prosa de Graciliano Ramos, também marcada pela objetividade, precisão e concisão. A propósito, seu filho Ricardo Ramos, em “Lembrança de Graciliano”, relata um episódio em que conversava com o pai sobre a produção de alguns textos que pareciam contos, e Graciliano aconselha o filho dizendo: “Não escreva algo (...). É crime confesso de imprecisão.” (RAMOS apud GARBUGLIO, 1987, p. 13, grifo do autor). Para o autor, portanto, a palavra deveria ser sempre precisa, exata e empregada com máxima objetividade. E Graciliano realmente era um escritor muito cuidadoso quanto à precisão das palavras e à forma literária, pois tinha o hábito de corrigir exaustivamente seus textos e só os publicava quando estivessem livres de excessos, o que demonstra o árduo trabalho de lapidação textual que pode ser observado em toda sua obra. A propósito, em uma entrevista ao jornalista e escritor Joel Silveira, concedida em 1938, Graciliano comparou o trabalho de escrever ao trabalho das lavadeiras de Alagoas, para expressar o grau de precisão que exige o ofício de escritor: Elas [as lavadeiras] começam com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam, e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer. (SILVEIRA, 2014, p. 77). 20 Neste ponto, Graciliano parece afastar-se de um dos primeiros princípios da poesia parnasiana, que se refere ao ideal da “arte pela arte”, segundo o qual a arte literária deveria ser desenvolvida com o máximo de precisão para se alcançar a perfeição formal do poema, sem haver muita preocupação com o conteúdo, apenas com a métrica dos versos, o jogo de sons e imagens, o preciosismo vocabular, a sintaxe rebuscada, enfim, com a estrutura formal do texto. Este árduo trabalho com a palavra, realizado pelos poetas parnasianos, que exigia muito mais transpiração do que inspiração, foi até mesmo comparado, no poema “Profissão de Fé”, de Olavo Bilac, ao trabalho do ourives, que se dedica a lapidar cuidadosamente uma pedra preciosa bruta e disforme até conseguir alcançar o brilho limpo e a perfeição da forma. Quando Graciliano afirma, portanto, que “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso”, mas “foi feita para dizer”, deixa claro que, juntamente com a precisão, concisão e objetividade, que marcam sua produção literária, a palavra também deve passar uma mensagem, dizer algo para o leitor. E realmente muitos de seus textos, caracterizados pela secura e precisão da palavra, apresentam temas engajados e conteúdos críticos, que, inclusive, se relacionam com o estilo de escrita do autor, como é o caso, por exemplo, da temática da violência, representada formalmente em alguns textos por meio da palavra áspera, precisa, dura e violenta, sem ornamentos. A violência da linguagem, portanto, aparece como um modo de formalização de um tema recorrente em seus textos, constituindo uma característica do que poderíamos chamar de uma estética da violência na obra do autor. Retomando o percurso biográfico de Graciliano Ramos, é interessante destacar que, entre os anos de 1910 e 1914, além de escrever e publicar poemas em jornais, o jovem autor trabalhou na casa comercial de tecidos de seu pai, a “Loja Sincera”, em Palmeira dos Índios, mas não abandonou o interesse pela leitura das obras dos grandes escritores. Além de continuar lendo vários textos literários, Graciliano “Aproveita os momentos de folga para escrever, embora nisto seja contrariado pela família. Esta o trata hostilmente. Vê em Graciliano um rapaz inútil fadado ao fracasso na vida. Sem dúvida, este ambiente de hostilidade e a maior integração à leitura levam o moço a empreender uma viagem ao Rio (...).” (CONDÉ, 2014, p. 83). 21 Essa situação revela o olhar negativo de uma família tradicional do sertão alagoano em relação ao jovem intelectual Graciliano, que se vê motivado a realizar uma viagem ao Rio de Janeiro, na época Capital Federal do Brasil, a fim de prosseguir suas leituras e seu trabalho com a palavra. Essa desaprovação da família em relação ao ofício de escritor reflete metonimicamente e no plano privado a difícil situação vivenciada, de modo geral, pelo intelectual brasileiro, sobretudo no Brasil do início do século XX. Em meados de 1914, recém-chegado ao Rio, o jovem autor trabalhou como revisor nos jornais Correio da Manhã, A Tarde e O Século, mas, no ano seguinte, precisou retornar rapidamente a Palmeira dos Índios devido à morte de seus irmãos Leonor, Otacílio e Clodoaldo, e do sobrinho Heleno, todos vítimas da epidemia da peste bubônica. No mesmo ano de 1915, Graciliano casou-se com Maria Augusta de Barros, com quem teve quatro filhos: Júnio, Márcio, Maria Augusta e Múcio. Como o autor era ateu, a cerimônia foi apenas civil e contou com poucas pessoas presentes. Por esses tempos, mandou alguns textos para o Jornal de Alagoas e passou a escrever semanalmente uma crônica para o Jornal Paraíba do Sul, da cidade homônima, localizada no interior do estado do Rio de Janeiro. Em 1917, interrompeu sua produção literária e assumiu a administração dos negócios da loja de seu pai, pois este se tornara pecuarista, proprietário de muitas terras, com criação de cavalos e usina de algodão. Os negócios da loja tomavam todo o tempo de Graciliano, que ficou durante os anos seguintes distante do ofício de escritor, mas sempre atento às principais novidades do universo literário. Anos depois, em 1920, Maria Augusta, esposa de Graciliano, faleceu devido a complicações no parto, e o autor passou a criar sozinho seus quatro filhos. Esses tempos foram muito difíceis, não apenas por complicações financeiras, mas também por questões emocionais, como confessou o autor em uma carta enviada ao amigo Joaquim Pinto da Mota Lima Filho, que vivia no Rio de Janeiro: Sou um pobre-diabo. Vou por aqui, arrastando-me, mal. Há cinco anos não abro um livro. Doente, triste, só – um bicho. Tenho quatro filhos: Márcio, Júnio, Múcio e Maria. Esta, coitadinha, provavelmente não viverá muito: está à morte. Se morrer, será uma felicidade. Para que viver uma criaturinha sem mãe? (RAMOS, 1994a, p. 74). 22 Apesar de todo esse abatimento, Graciliano lecionava francês no Colégio Sagrado Coração, e português e gramática para grupos de pessoas, sem formalidades escolares. Após cinco anos sem publicação alguma, ou seja, no ano de 1921, o autor retomou suas atividades literárias por meio de colaborações para o jornal semanário O Índio, de Palmeira dos Índios, sob os pseudônimos J. Calisto, Anastácio Anacleto, J.C. e Lambda. Em 1925, Graciliano iniciou a escrita de seu primeiro romance, Caetés, publicado apenas em 1933, após incansáveis revisões feitas pelo autor. O romance de estreia de Graciliano, na verdade, iniciou-se como um projeto de conto, mas a narrativa estendeu-se ao ponto de se tornar romance, como revela o próprio escritor na crônica “Alguns tipos sem importância”, publicada em 1939, na Imprensa Carioca, e no livro póstumo Linhas Tortas, publicado em 1962: Esforcei-me por distrair-me redigindo contos ordinários e em dois deles se esboçaram uns criminosos que extinguiram as minhas apoquentações. O terceiro conto estirou-se demais e desandou em romance, pouco mais ou menos romance, com uma quantidade apreciável de tipos miúdos, desses que fervilham em todas as cidades pequenas do interior. (...) O livro que menciono saiu cheio de diálogos, parece drama. Publiquei- o oito anos depois de escrito, por insistência de Augusto Frederico Schmidt, que tinha virado editor. (RAMOS, 1994b, p. 190-191, grifos nossos). O “terceiro conto [que] estirou-se demais e desandou em romance” redundou no livro de estreia, Caetés, enquanto os outros dois contos mencionados são, de acordo com Valentim Facioli, “A carta”, em que a personagem principal chama-se Paulo Honório, e “Entre grades”, no qual o protagonista chama-se Luís da Silva. (FACIOLI, 1987, p. 40). A referência aos dois contos em que figuram dois tipos de criminosos também aparece em uma carta enviada ao amigo Joaquim P. da Mota L. Filho, datada do ano de 1926: “(...) tive a fraqueza de poupar ao fogo umas coisas velhas que me trazem recordações agradáveis e dois contos que andei compondo ultimamente, porque tenho estado desocupado e me imaginei com força para fabricar dois tipos de criminosos.” (RAMOS, 1994a, p. 80). 23 A partir desses relatos, portanto, é possível afirmar que inicialmente a escrita de contos funcionou como exercício para o desenvolvimento posterior dos três primeiros romances de Graciliano. Desse modo, esses contos representam os embriões de Caetés, São Bernardo e Angústia, como o próprio filho do autor, Ricardo Ramos, reconhece: “Caetés e Angústia nasceram de duas novelas anteriores, ‘A carta’ e ‘Entre grades’, quem sabe sinopses a serem desenvolvidas.” (RAMOS, 1992, p. 116, grifos do autor). Retomando a trajetória biográfica do autor, em outubro de 1927, com 433 votos, Graciliano foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios, pelo Partido Democrata, e assumiu a prefeitura no ano seguinte, quando se casou com Heloísa Leite de Medeiros, de dezoito anos de idade, ou seja, dezoito anos mais jovem do que ele. Com Heloísa, o autor teve outros quatro filhos: Clara, Luiza, Ricardo e Roberto. Antes da realização do casamento, Graciliano escreveu algumas cartas de amor à futura esposa, dentre as quais uma se destaca pela linguagem, que se aproxima do estilo usado pelos poetas e romancistas mais representativos do Romantismo brasileiro, como sugere o seguinte trecho: É verdade que és minha noiva? Não é possível, sei perfeitamente que tudo isto é um sonho, que vou acordar, que ainda estamos em princípio de dezembro, que tu não tens existência real. Esta carta nunca te chegarás às mãos, és uma criatura imaginária. A flor que me deste e que agora vejo, murcha, é simplesmente um defeito dos meus nervos. Beijando-a, tenho a impressão de beijar o vácuo. Já tiveste em sonho a consciência de estar sonhando? É assim que me acho. Vem para junto de mim e acorda-me. (RAMOS, 1994a, p. 91). O distanciamento da amada, a idealização da figura feminina, a atmosfera de sonho e a linguagem solene própria principalmente dos textos da segunda geração romântica brasileira caracterizam a escrita de Graciliano Ramos nesta carta, de 18 de janeiro de 1928, na qual expressa seus sentimentos e emoções à futura esposa, por meio de um estilo muito diferente daquele encontrado no conjunto de sua obra literária. No entanto, é importante lembrar que esse estilo de escrita não deve ser compreendido como algum tipo de influência do Romantismo na produção literária do autor, como já destacado, mas sugere que a admiração que tinha, por exemplo, 24 pela “(...) linguagem atraente do autor de Iracema (...)” (FACIOLI, 1987, p. 31), isto é, a admiração pela literatura de um dos autores mais representativos do Romantismo brasileiro, pode ter sido o leitmotiv para a escrita de algumas cartas de amor à mulher amada. No mesmo ano em que se casou com Heloísa Leite, Graciliano assumiu a Prefeitura de Palmeira dos Índios. Com relação à sua candidatura e eleição para prefeito, é interessante destacar um trecho da entrevista realizada por Homero Senna, publicada na Revista do Globo, em 1948, em que Graciliano, com tom crítico, revela como supostamente chegou à Prefeitura da então pequena cidade do interior de Alagoas: “Assassinaram meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 30), e fiquei vinte e sete meses na Prefeitura.” (SENNA, 1978, p. 51). Durante esse período em que foi prefeito, Graciliano escreveu dois relatórios de prestação de contas da administração pública ao Governador de Alagoas: um em 1929 e outro no ano seguinte. Devido à linguagem incomum que empregou nesses documentos, marcada por um tom de ironia e crítica, o primeiro relatório ganhou repercussão nacional, sendo inclusive transcrito integralmente em alguns jornais de grande circulação, após sua publicação no Diário Oficial do Estado. Além disso, pela qualidade literária do texto, o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt procurou Graciliano para saber se havia outros textos que pudessem ser publicados. Foi então que o romance Caetés, após algum atraso, chegou às mãos do editor e foi publicado em 1933. Para exemplificar a subjetividade, irreverência e até certa literariedade empregada pelo político nos relatórios que escreveu, segue abaixo um excerto do “Relatório ao Governador do Estado de Alagoas”, de 1929, referente às contas públicas da gestão administrativa do município de Palmeira dos Índios em 1928: Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de toda a ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada da cidade. Chegaram lá pedreiros – outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de réis, dizem. Custarão alguns, provavelmente. Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. O que a Prefeitura arrecada basta para que nos não 25 resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros. (RAMOS, 1994d, p. 173). A linguagem subjetiva, a carga emotiva e a marcada ironia cáustica, que caracterizam todo o primeiro relatório, constituíram o principal motivo para que o documento ganhasse repercussão nacional. Nota-se, por meio do excerto transcrito, que Graciliano dispensou a escrita objetiva e técnica, que tipicamente caracteriza um documento oficial, quando redigiu seu relatório de prestação de contas ao então Governador de Alagoas, Álvaro Paes. O segundo relatório também é caracterizado pela escrita subjetiva e ironia fina. Às vésperas de renunciar ao cargo de prefeito, Graciliano enviou, em 11 de janeiro de 1930, a prestação de contas, referente ao ano de 1929, quando desenvolveu duras críticas, marcadas por uma ironia corrosiva, em relação à própria população de Palmeira dos Índios, e até relatou, com forte tom de humor e sarcasmo, um recente acidente envolvendo uma senhora e uma criança: POBRE POVO SOFREDOR – É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu. Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão. Como ninguém ignora que se não obtêm de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros. (...) Uma senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andaram rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem braços, pernas, costelas e outros órgãos apreciáveis. Julgo que, por enquanto, semelhantes perigos estão conjurados, mas dois meses de preguiça durante o inverno bastarão para que eles se renovem. (Idem, p. 190- 191). Os dois relatórios são, portanto, caracterizados por uma linguagem criativa e apurada, de qualidade literária e estilo incomuns em textos oficiais daquele tipo, e sua repercussão nacional tornou o nome de Graciliano conhecido inclusive no meio intelectual brasileiro da época, pois, além de o primeiro documento conseguir atrair a atenção e despertar o interesse do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, o 26 relatório e seu autor também foram alvo de admiração de um distinto grupo de literatos do Rio de Janeiro. Devido ao grande crack da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, que deflagrou uma crise mundial que atingiu até mesmo o pequeno município de Palmeira dos Índios, e também devido ao descontentamento à frente da gestão pública da cidade, Graciliano, no dia 10 de abril de 1930, decidiu renunciar ao cargo de prefeito, e, no mesmo ano, liquidou a “Loja Sincera”, que administrava desde 1917. Com o dinheiro que conseguiu na liquidação da loja, pagou suas dívidas e se mudou com a família para Maceió, onde, aceitando convite do então governador Álvaro Paes, foi nomeado Diretor de Imprensa Oficial de Alagoas. Apesar de haver ocupado o cargo de prefeito durante dois anos, Graciliano ainda enfrentava sérias dificuldades financeiras, geradas, sobretudo, pela grave crise mundial, além de passar por momentos de profunda tristeza devido à morte de seu sexto filho, Roberto de Medeiros Ramos, com poucos meses de vida. Nesse período, começou a conviver com um grupo de jovens intelectuais, entre os quais alguns seriam renomados mais tarde, como, por exemplo, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queirós, que se mudou para Maceió por volta de 1934. Esse grupo discursava sobre questões do Brasil e do mundo, e escrevia e publicava vários textos, alguns com maior repercussão do que outros. Graciliano continuou no cargo de Diretor de Imprensa Oficial de Alagoas até dezembro de 1931, quando, devido às consequências da Revolução de 1930, e “Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos Índios, onde, numa sacristia, fiz S. Bernardo.” (FACIOLI, 1987, p. 47). O ano de 1932 foi então de muitas dificuldades para o autor e sua família, pois, além de não receber proposta alguma de trabalho definido, o que o levou a novamente dar aulas esparsas, Graciliano precisou retornar a Maceió para ser operado de um abscesso na região da bacia. As impressões que lhe ficaram na memória em relação ao ambiente do hospital aparecem inclusive representadas em alguns de seus textos, como revela o próprio autor: “Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos – ‘Paulo’ e ‘O relógio do hospital’ – e no último capítulo de Angústia. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas 27 partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério.”4 (FACIOLI, 1987, p. 47-48). A escrita de São Bernardo também foi, de certa forma, influenciada pelo momento de sérias dificuldades por que passava o autor, especialmente se considerarmos a construção do narrador protagonista Paulo Honório, com sua brutalidade e aspereza: Nessa crítica situação voltou-me ao espírito o criminoso que em 1924 me havia afastado as inquietações – um tipo vermelho, cabeludo, violento, de mãos duras, sujas de terra como raízes, habituadas a esbofetear caboclos na lavoura. As outras figuras da novela não tinham relevo, perdiam-se a distância, vagas e inconsistentes, mas o sujeito cascudo e grosseiro avultava, no alpendre da casa-grande de S. Bernardo, metido numa cadeira de vime, cachimbo na boca, olhando o prado, novilhas caracus, habitações de moradores, capulhos embranquecendo o algodoal, paus d’arco floridos a enfeitar a mata. (...) A verdade é que meus negócios andavam encrencadíssimos. É possível que esse sujeito reflita alguma tendência que no autor existisse para matar alguém, ato que na realidade não poderia praticar um cidadão criado na ordem, acostumado a ver o pai, homem sisudo e meio-termo, pagar o imposto regularmente. (Idem, p. 48). O momento de problemas com a saúde, delírios pós-operatórios, dificuldades financeiras e instabilidade política e econômica no país são situações que não devem ser descartadas quando analisados os textos de Graciliano, pois o próprio autor revela as influências contextuais na elaboração de seus escritos. Tendo isso em vista, é possível afirmar que os fortes vínculos entre História e ficção aparecem em sua obra como um modo de diminuir distâncias entre os fatos históricos (e certamente biográficos) e a arte literária. As dificuldades parecem ser amenizadas quando, em janeiro de 1933, Graciliano é nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo que corresponde atualmente ao de Secretário Estadual da Educação, e também é 4 O conto “Paulo” representa com mais clareza essas “impressões” do autor, como demonstra o seguinte excerto: “A minha banda direita está perdida, não há meio de salvá-la. As pastas de algodão ficam amarelas, sinto que me decomponho, que uma perna, um braço, metade da cabeça, já não me pertencem, querem largar-me. Por que não me levam outra vez para a mesa de operações? Abrir- me-iam pelo meio, dividir-me-iam em dois. Ficaria aqui a parte esquerda, a direita iria para o mármore do necrotério. Cortar-me, libertar-me deste miserável que se agarrou a mim e tenta corromper-me.” (RAMOS, 1986, p. 55). 28 contratado como redator do Jornal de Alagoas. Nesse mesmo ano, chega ao público seu romance de estreia, Caetés, e, no ano seguinte, São Bernardo. Em 1935, as primeiras referências ao terceiro romance, Angústia, começam a aparecer em cartas enviadas à esposa, Heloísa, como demonstra o seguinte trecho: “Julgo que continuarei o Angústia, que a Rachel acha excelente, aquela bandida. Chegou a convencer-me de que eu devia continuar a história abandonada. Escrevi ontem duas folhas, tenho prontas 95. Vamos ver se é possível concluir agora esta porcaria.” (RAMOS, 1994a, p. 140-141). Graciliano, como é possível observar, expressava muita autocrítica com relação aos seus escritos, os quais, apesar de passarem por frequentes revisões e “correções” feitas pelo próprio autor, não eram reconhecidos por ele como as grandes obras literárias que viriam a se tornar alguns anos mais tarde. Esse fato é inclusive relatado por Graciliano em outra carta enviada a Heloísa, no dia 3 de abril de 1935: “Há pouco Seu Américo pediu-me para ler uns capítulos do Angústia. Li, sem entusiasmo, e como ele me dissesse que alguém gostava dos meus livros e entendia de literatura, passei uma hora convencendo-o de que isso não era possível.” (Idem, p.147). A partir desse ano de 1935, o Governo Vargas intensificou a repressão no país com a promulgação da Lei de Segurança Nacional, que restringia as liberdades públicas, com base nas ideologias fascista e nazista, e combatia o comunismo e a democracia liberal proposta pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), cujo lema era “Pão, terra e liberdade”. O resultado de uma tentativa de revolução por parte dos adeptos da ANL foi a decretação de estado de sítio por Getúlio Vargas e a prisão de milhares de pessoas, dentre as quais Graciliano Ramos, preso em sua casa no dia 3 de março de 1936, após telefonemas com várias ameaças e pressões feitas por membros do movimento integralista e por militares. Ironicamente, em agosto desse mesmo ano foi publicado, pela editora José Olympio, seu romance Angústia, que teve uma imediata e favorável repercussão entre os intelectuais presos com Graciliano e os críticos literários da época. Até janeiro de 1937, o autor ficou mantido em cárcere sem qualquer tipo de formação de culpa ou acusação formal, apenas com base em pretextos e pressupostos, como, por exemplo: sua participação em um grupo de intelectuais, dentre os quais alguns eram declaradamente de esquerda; a suposta simpatia pelos 29 comunistas; a publicação de dois romances considerados pela censura pouco instrutivos para a população; a militância na Juventude Comunista de dois filhos estudantes; a opinião sarcástica sobre a Revolução de 30 e os militares; dentre outros pretextos que não constituíam provas de crime ou formação definitiva de culpa. Esses onze meses durante os quais ficou preso sem motivo justo em cadeias de Maceió, Recife e do Rio de Janeiro aparecem representados em Memórias do Cárcere, publicado postumamente em 1953, livro de memórias em que o autor relata a violência e a opressão de um Brasil marcado pelo atraso político e social e pelo poder das classes hegemônicas exercido principalmente por meio da repressão. De acordo com o jornalista e escritor Ruy Facó, no artigo “Graciliano Ramos, escritor do povo e militante do PC”, publicado em 1945 no Jornal Tribuna Popular, A prisão abriu mais os olhos de Graciliano Ramos, trouxe-o mais para perto da vida, fazendo-o enxergar a vida por ângulos até então imperceptíveis. Era o caminho aberto para sua última resolução, resolução mais importante de sua vida: o ingresso no Partido Comunista. Lembremo-nos que na prisão, intimidado pela polícia política a assinar um documento pelo qual se ‘obrigaria a abandonar suas atividades de comunista’, Graciliano recusou-se terminantemente a fazê-lo, mesmo não sendo comunista, como de fato não o era, então. Preferiu as torturas da prisão, que o puseram gravemente enfermo, a submeter-se a humilhação semelhante. (FACÓ, 2014, p. 160). Libertado em janeiro de 1937, após passar dois meses em uma enfermaria devido ao adoecimento causado pelos martírios da prisão, Graciliano preocupou-se em resolver primeiramente questões mais urgentes, como recompor a família, que estava dispersa, providenciar o sustento de seus filhos, dentre os quais alguns ainda eram crianças, manter a profissão de escritor e se mudar definitivamente com a família para o Rio de Janeiro. Porém, nos primeiros meses de liberdade, precisou ficar hospedado na casa de um de seus grandes amigos, o escritor José Lins do Rego, devido a dificuldades financeiras, até logo se mudar para uma pequena pensão onde viviam também Rubem Braga, considerado um dos melhores cronistas brasileiros, e sua esposa, Zora Seljan, importante dramaturga, cronista, romancista e crítica de teatro. 30 Nesse mesmo ano de 1937, Graciliano escreveu uma narrativa infantil, A terra dos meninos pelados, para participar de um concurso promovido pelo Ministério da Educação e da Saúde, obtendo o terceiro lugar e o Prêmio de Literatura Infantil do Ministério da Educação. No entanto, a narrativa seria publicada pela editora Globo somente dois anos depois. Em 1938, foi publicado pela editora José Olympio o romance Vidas Secas, primeiro de Graciliano em que aparece um narrador heterodiegético, onisciente, narrando os sofrimentos de Fabiano e sua família (Sinhá Vitória, o Menino mais novo, o Menino mais velho e a cachorra Baleia), que vagam sem destino certo lutando pela sobrevivência durante um período de grave seca no sertão nordestino. Assim como os três primeiros romances, Vidas Secas também foi escrito a partir de um conto, o depois célebre capítulo que narra a morte de Baleia. Esse procedimento de partir de um núcleo, uma célula narrativa menor, à qual vai acrescentando outras, até desenvolver uma novela ou romance, demonstra uma prática constante na produção ficcional do escritor e o processo criativo de sua obra literária. Apesar de Vidas Secas ter uma repercussão grandiosa e muito positiva, as dificuldades financeiras ainda permaneciam para o autor, que desenvolvia várias atividades ao mesmo tempo, como escrever colaborações variadas para jornais e revistas, trabalhar como fiscal de ensino após ser nomeado por Getúlio Vargas, e fazer “bico” no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que funcionava no Palácio Tiradentes e era a central responsável pelas atividades censórias em relação a teatro, cinema, literatura, imprensa, radiodifusão e atividades esportivas e recreativas do Governo Vargas (ironicamente o mesmo que o aprisionara). A situação econômica de Graciliano só começaria a realmente melhorar em 1939, quando o autor foi nomeado Inspetor Federal de Ensino Secundário do Rio de Janeiro e passou a receber remuneração fixa, complementando a renda variável e por vezes incerta proveniente do ofício de escritor. A intenção do autor com Vidas Secas, como ele próprio revelou em entrevista ao historiador e crítico literário Brito Broca, publicada em 1938, no Jornal A Gazeta, foi representar o sertanejo como ele realmente era, com modos brutos e poucas palavras, de maneira diferente dos outros romancistas do Nordeste, como José Lins do Rego e José Américo, por exemplo, que, de acordo com Graciliano, preocupavam-se mais em representar o meio do que propriamente o homem: 31 O que me interessa é o homem, o homem daquela região aspérrima. Julgo que é a primeira vez que esse sertanejo aparece na literatura. Os romancistas do Nordeste têm pintado geralmente o homem da zona do brejo. É o sertanejo que aparece na obra de José Américo e Zé Lins. Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão, observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior, isto é, a hostilidade do mundo físico e a injustiça humana. Por pouco que o selvagem pense – e os meus personagens são quase selvagens – o que ele pensa merece anotação. Foi essa pesquisa psicológica que procurei fazer, pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer, porque comumente não conhecem o sertão, não são familiares do ambiente que descrevem. (...). O que procurei fazer foi mostrar o homem no seu ambiente, vivendo a sua vida e falando a sua língua. É um livro amargo, duro, ríspido, mas verdadeiro, profundamente verdadeiro... (BROCA, 2014, p. 68-69, grifos nossos). Essa “hostilidade do mundo físico e a injustiça humana” constituem, portanto, uma chave de leitura para uma compreensão mais profunda não apenas de Vidas Secas, mas também de outros textos literários do escritor, uma vez que essa temática da hostilidade e violência, representada por meio de suas diversas formas de manifestação em relação ao outro, caracteriza a maioria dos romances e vários dos contos de Graciliano. É importante destacar ainda que as expressões “hostilidade do mundo físico” e “injustiça humana” revelam tanto o enfoque temático do autor, como também sua principal intenção: realizar uma “pesquisa psicológica” com base nas consequências dessa hostilidade e injustiça para a constituição e caracterização do sujeito, isto é, “observar a reação desse espírito bronco ante o mundo exterior”. Nesse sentido, é possível afirmar que Graciliano aproxima-se de Machado de Assis, pois ambos desenvolveram grandes obras literárias caracterizadas pelo realismo psicológico e pela crítica à sociedade burguesa, além de ambos terem sido homens engajados e envolvidos com as questões sociais de suas respectivas épocas.5 5 Vale lembrar, contudo, certa tendência da crítica a apontar o absenteísmo de Machado, ou seja, sua suposta neutralidade frente a episódios históricos fundamentais de sua época. No entanto, a partir dos anos de 1960, esse posicionamento crítico passará a ser revisto. 32 Apesar de alguns críticos apontarem uma possível “influência” de um sobre o outro, segundo Álvaro Lins, “Graciliano se defendeu com o argumento fulminante de que não havia lido antes Machado de Assis.” (LINS, 1974, p. 26); mas, para o crítico literário, a aproximação entre os escritores é inevitável, pois as semelhanças nascem não “(...) só da influência direta de um autor sobre o outro, mas de uma certa identidade de sentimentos em face da vida e da literatura.” (Idem, ibidem). O importante, todavia, é que as relações entre literatura e sociedade são o aspecto fundamental na obra dos dois autores, e a sondagem psicológica de seus personagens, sobretudo nos textos narrados em primeira pessoa, também confirma a intenção de ambos de refletir sobre questões que dizem respeito ao ser humano. Todo esse empenho ao realizar uma “pesquisa psicológica” torna único o regionalismo na obra de Graciliano, diferente dos demais modos de desenvolver essa vertente literária. Além de ficcionista, o autor de Vidas Secas também realizou trabalhos como tradutor, como no ano de 1940, quando traduziu para a Companhia Editora Nacional, de São Paulo, o livro Memórias de um Negro, do norte-americano Booker T. Washington. No ano seguinte, publicou uma série de crônicas intituladas “Quadros e Costumes do Nordeste”, na Revista Cultura Política, do Rio de Janeiro, textos que viriam a ser publicados postumamente, no ano de 1962, com o título Viventes das Alagoas. Em um jantar comemorativo de seus cinquenta anos de idade, em 1942, Graciliano recebeu o Prêmio Felipe de Oliveira, pelo conjunto da obra. Nesse mesmo ano, foi publicado pela Livraria Martins o romance Brandão entre o mar e o amor, em parceria com Rachel de Queiroz, Aníbal Machado, José Lins do Rego e Jorge Amado. No início de 1943, foi publicada uma coletânea de artigos escritos para jornais e discursos proferidos em eventos pelo autor, com o título Homenagem a Graciliano Ramos, que teve uma pequena edição de apenas 500 exemplares e não foi reeditada, com exceção de alguns textos republicados pelos organizadores em obras próprias. No ano seguinte, Graciliano publicou, pela editora Leitura, o livro Histórias de Alexandre, um conjunto de narrativas, possivelmente ouvidas e herdadas do folclore nordestino. Essas Histórias, juntamente com os textos publicados na seção “Quadros e costumes do Nordeste”, da revista Cultura Política, e o romance Vidas 33 Secas, constituem um retrato dessa região do Brasil, na época (e até os dias de hoje) marcada pelos prolongados períodos de forte seca e pelo sofrimento do trabalhador sertanejo e de sua família. Em 1945, Graciliano publicou o livro Infância, pela editora José Olympio, e o livro de contos Dois Dedos, pela Revista Acadêmica. Nesse mesmo ano, o autor filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), após convite de Luís Carlos Prestes, então Secretário Geral do partido. Nessa época, o PCB funcionava legalmente, e sua política pautava-se na ideia da união nacional para estimular a entrada do Brasil na guerra contra o nazi-fascismo e conquistar a anistia, visto que muitos comunistas ainda continuavam presos. Nesse ano de 1945, Graciliano já era um escritor consagrado, e suas obras eram constantemente reeditadas no Brasil e no exterior. Como ativo militante do PCB, o autor aceitou sair candidato a senador pelo Estado de Alagoas, mas, como não fez campanha eleitoral, não foi eleito. No ano seguinte, publicou Histórias Incompletas, reunindo os contos de Dois Dedos e um novo texto, intitulado Luciana. Também aparecem nessa coletânea de contos três capítulos de Vidas Secas e quatro de Infância. Em 1947, outro livro de contos foi publicado – Insônia – que reúne os textos de Dois Dedos. Como é possível perceber, o consagrado romancista dedicou-se também ao exercício de escrever, publicar e republicar contos, distintos entre si do ponto de vista temático, mas próximos pela extensão limitada a poucas páginas e pela densidade psicológica de seus personagens protagonistas. Em 1949, a repercussão da obra de Graciliano ganhou um novo veículo, pois São Bernardo foi radiofonizado pela Rádio Globo, do Rio de Janeiro, e, alguns meses depois, pela Rádio Jornal do Comércio, do Recife. Apesar disso, não houve um aumento significativo das vendas de seus livros, uma vez que as reedições de 1947 ainda durariam até 1952, quando sairiam novas edições de seus romances e do livro de contos Insônia. Em 1950, Graciliano realizou um novo trabalho de tradução, desta vez do romance francês A Peste, de Albert Camus, com dedicação e eficácia notáveis, possivelmente devido à familiaridade que possuía com a temática do sofrimento e da perda provocados por causa de uma epidemia de peste bubônica. Nesse mesmo ano, Márcio Ramos, primeiro filho de Graciliano, cometeu suicídio na casa de um irmão, Júnio, cinco dias após uma crise de loucura que o 34 levou a assassinar um colega de pensão na Tijuca. Esse episódio abalou consideravelmente a vida do autor, o qual entrou, no início da década de 1950, numa séria fase de alcoolismo e melancolia, o que o levou a uma clínica de repouso na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, para tratamento de desintoxicação, acompanhado de sua esposa e de uma de suas filhas. Na verdade, Graciliano já consumia bebidas alcoólicas há alguns anos, e inclusive muitas vezes chegou a escrever algumas páginas sob o efeito de álcool, cigarros e café, como revela Aurélio Buarque de Holanda em um depoimento publicado, segundo Valentin Facioli, no Correio da Manhã: Surpreendi-o, por mais de uma vez, a escrever Angústia. (...) Eu olhava pelo buraco da fechadura da porta de entrada, que dava para um alpendre, onde costumava ficar o escritor, sentado a uma mesa nua, na qual se via, entre outras coisas, um maço de cigarros, uma garrafa de aguardente e não me lembro se também um bule ou garrafa térmica com café. Com a cachaça e o fumo, era o café, por assim dizer, um dos seus materiais de trabalho – quase tão indispensável quanto o papel, a pena, o tinteiro, o dicionário Aulete e uma régua. (HOLANDA apud FACIOLI, 1987, p. 84). Após o período de tratamento, Graciliano, em abril de 1951, tornou-se Presidente da Associação Brasileira de Escritores (ABDE), e, em um de seus discursos, deixou clara a sua base de formação política do PCB ao reafirmar seu apoio à independência nacional e ao anti-imperialismo, e expressar o desejo de ampla unidade nacional em defesa da paz: “Claro que somos políticos. Tentaram separar-nos. Norte contra Sul, materialistas contra idealistas; realistas e românticos são inimigos. E quem não pensar assim é comunista, deve ser metido na cadeia. (...). Queremos viver em paz (...).” (Idem, p. 87). Nesse mesmo ano, o autor publicou mais um livro, intitulado Sete Histórias Verdadeiras, pela Editora Vitória, com narrativas extraídas de Histórias de Alexandre. Este livro, no entanto, se tornou mais reconhecido do que aquele e serviu até mesmo de inspiração para a produção da minissérie Alexandre e outros heróis, dirigida por Luiz Fernando Carvalho e lançada em 2013 pela tv Globo como homenagem aos 60 anos da morte do escritor alagoano. Outras narrativas literárias de Graciliano que ganharam adaptação cinematográfica são Vidas Secas, filmado em 1962, e Memórias do cárcere, 35 produzido em 1984, filmes homônimos dirigidos por Nelson Pereira dos Santos, considerado o maior intérprete da obra do autor para o cinema. Além dos longas- metragens produzidos, o cineasta ainda dirigiu, em 1980, um curta-metragem baseado no conto O ladrão, publicado na coletânea de contos Insônia. Leon Hirszman também produziu, em 1972, uma obra-prima do cinema nacional, o filme São Bernardo, baseado no romance homônimo de Graciliano. E o cineasta Sylvio Back dirigiu o documentário O Universo Graciliano, lançado em 2012, que apresenta a biografia e trajetória literária do autor alagoano a partir de vídeos de arquivo, depoimentos de estudiosos, fotografias e entrevistas com pessoas que tiveram a honra de conhecer pessoalmente o Velho Graça, como era chamado pelos amigos mais próximos. Em 1952, Graciliano realizou com a esposa uma viagem a Moscou, para assistir às comemorações do dia 1º de maio, a convite do governo da União Soviética, e acabou visitando também outros países, como a Tchecoslováquia, França e Portugal. Porém, a viagem parece que não agradou muito o autor, como ele próprio afirmou no livro Viagem, publicado postumamente, em 1954: Absurda semelhante viagem – e quando me trataram dela, quase me zanguei. Faltavam-me recursos para realizá-la; a experiência me afirmava que não me deixariam sair do Brasil; e, para falar com franqueza, não me sentia disposto a mexer- me, abandonar a toca onde vivo. Recusei, pois, o convite, divagação insensata, julguei. Tudo aquilo era impossível. (...). Depois de andar por cima de vários Estados do meu país, tinha-me resolvido a não entrar em aviões: a morte horrível de um amigo levara-me a odiar esses aparelhos assassinos. (RAMOS, 1994c, p. 11-12). Dois meses após o retorno da viagem à então União Soviética, mais precisamente em setembro de 1952, Graciliano precisou viajar novamente, desta vez a Buenos Aires, para ser operado, pois a doença que o levaria a óbito já começava a se manifestar. No mês seguinte, de volta ao Brasil, o autor recebeu várias homenagens por ocasião do seu sexagésimo aniversário, comemorado com uma sessão solene, presidida por Peregrino Júnior, da Academia Brasileira de Letras, no Salão Nobre da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na qual o autor foi representado por sua filha Clara Ramos, pois não pôde comparecer devido à fragilidade física em que se encontrava. 36 Em janeiro de 1953, o estado de saúde de Graciliano piorou e ele precisou ser novamente hospitalizado. Dois meses depois, seu filho Ricardo Ramos, prevendo que o autor não resistiria à agressividade da doença, decidiu então realizar seu casamento antecipadamente, no dia 14 de março, para prestar homenagens a Graciliano, que faleceu de câncer no pulmão na semana seguinte, no dia 20 de março, às cinco horas da manhã. Inúmeros foram os discursos de homenagem ao escritor e as coroas de flores enviadas ao funeral. Personalidades importantes do cenário político nacional, diversos intelectuais e uma multidão de pessoas compareceram para os últimos tributos àquele que certamente foi um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos: Graciliano Ramos. 37 CAPÍTULO II SÃO BERNARDO E A (DES)CONSTRUÇÃO DE UM MUNDO MODERNO O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isso não se discute. Mas por que ele adora também a destruição e o caos? Digam, por quê? Porém, a respeito disso eu mesmo queria dizer duas palavras em separado. Será que ele gosta tanto da destruição e do caos (é indiscutível que gosta, por vezes, e muito, é assim mesmo) por ter, instintivamente, medo de alcançar o objetivo e finalizar o prédio em construção? Dostoiévski6 Contextualização do romance: De Caetés a São Bernardo Publicado em 1934, um ano após a publicação do livro de estreia, Caetés, o segundo romance de Graciliano Ramos, intitulado São Bernardo, apresenta, em relação ao primeiro, nítidas diferenças no plano da composição e do estilo que revelam o amadurecimento da consciência literária do autor. Enquanto Caetés foi considerado por parte da crítica como um romance marcado por vestígios de certa tendência naturalista, vista como ultrapassada para a época em que foi publicado, e por uma composição literária não muito bem definida em torno de um drama banal de pequena província, São Bernardo surge como um romance de estrutura mais densa, precisa e coesa, sem vícios nem excessos. No entanto, além de ambas as narrativas serem desenvolvidas a partir da escrita de alguns contos, como destacado no primeiro capítulo, há outro elemento em comum que aproxima os dois primeiros romances de Graciliano: a opção por um narrador em primeira pessoa, o que revela o interesse do autor pelo mergulho psicológico e pela exploração do mundo introspectivo do personagem.7 Tanto Caetés como São Bernardo, e até mesmo Angústia, como se verá mais adiante, apresentam narradores autodiegéticos8 que pretendem escrever um livro, o 6 DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Diário do subsolo. Tradução de Oleg Almeida. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 47. 7 O crítico literário Álvaro Lins considera, inclusive, que “(...) o mundo romanesco do Sr. Graciliano Ramos é pobre, limitado, deficiente. O que transmite vitalidade e beleza artística aos seus romances não é o movimento exterior, mas a existência interior dos personagens. Os acontecimentos só têm significação pelos seus reflexos nas almas (...).” (LINS, 2015, p. 89). 8 De acordo com o crítico literário francês Gèrard Genette, o narrador em primeira pessoa pode ser autodiegético, quando narra uma história em que ele próprio é o protagonista, ou homodiegético, 38 que também pode indicar a intenção de Graciliano em problematizar a condição do escritor e o papel do intelectual no Brasil, como afirma Luís Bueno sobre Caetés e Angústia em seu texto “Uma grande estreia”: Enfim, Caetés e Angústia trabalham mais ou menos com a mesma equação: a do intelectual oriundo de uma aristocracia rural decadente que tem dificuldade em ver-se socialmente diminuído. O que muda são alguns termos dessa equação, que resulta bastante linear no primeiro livro e muito complexa no outro. (BUENO, in RAMOS, 2010a, p. 190-191). No caso de Caetés, o narrador é João Valério, sujeito introvertido e romântico que se apaixona por Luísa, esposa de Adrião, o qual, por sua vez, é proprietário do estabelecimento comercial em que João Valério trabalha e do qual é sócio. Após algum tempo, o protagonista percebe que seu amor, de certa forma, é correspondido, e então se dá o início de um caso amoroso posteriormente descoberto por Adrião por meio de uma carta anônima, o que leva o marido traído a cometer suicídio. Arrependido, João Valério afasta-se de Luísa, mas continua como sócio da empresa comercial. De modo geral, esse narrador reúne em si uma espécie de duplo que caracteriza todo ser humano, pois representa ao mesmo tempo o homem civilizado e o homem selvagem, como ele mesmo declara em sua narrativa: Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um caeté. (RAMOS, 2010a, p. 177). Para Álvaro Lins, Caetés apresenta um enredo trivial, que não desperta interesse algum no leitor. “Além disso, o processo do romance é de caráter fotográfico, com mais pitoresco do que dramaticidade; os personagens são tipos quando desenvolve uma narrativa, participa dela, mas não é o protagonista, apenas um dos personagens do enredo. (GENETTE, 1972). 39 convencionais, que não se individualizam nem pelos seus atos nem pelos seus caracteres.” (LINS, 2015, p. 88). Em carta enviada ao cunhado Luís Augusto de Medeiros, o próprio autor reconhece, usando o habitual tom irônico também presente em muitas de suas cartas, que seu primeiro romance supostamente não apresentava a qualidade literária esperada pelos editores e escritores da época. De acordo com Graciliano, “(...) eles imaginaram que aquilo era realmente um romance e começaram a elogiá- lo antes do tempo. Quando viram que se tinham enganado, tiveram acanhamento de desdizer-se. Compreendo perfeitamente a situação e, para não entrarmos em dificuldades, não toco mais no assunto.” (RAMOS, 1994a, p. 118). Apesar das críticas recebidas e da forte autocrítica de Graciliano, seu romance de estreia surge como o início de uma obra literária que se voltaria principalmente para a exploração da vida interior, subjetiva, do indivíduo. Assim, as diversas cenas coletivas ao longo de Caetés, como as noites de jogos, jantares, festas, saraus, reuniões com músicas e bebidas, enfim, a representação desses momentos em que o corpo coletivo parece ganhar o primeiro plano (traço tipicamente naturalista), na verdade, surge como elemento que proporciona a reflexão sobre a forma como a vida social no espaço urbano repercute no indivíduo, em seu processo de subjetivação. Dessa forma, Caetés já sinaliza o início de um projeto literário voltado para a representação do conflito entre realidade objetiva e mundo subjetivo; ou entre razão e emoção; ou ainda, como sugere o narrador João Valério, conflito entre aparência e essência (tão marcante também na obra de Machado de Assis): “Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? (...). Guardo um ódio feroz ao Neves, um ódio irracional, e dissimulo, falo com ele: a falsidade do índio. E um dia me vingarei, se puder.” (RAMOS, 2010a, p. 177-178). No final de sua narrativa, João Valério então descobre que, “por dentro”, também é um selvagem, tal como os índios caetés sobre os quais escrevia, constituído por elementos contraditórios, como, por exemplo, amor e ódio, desejo e frustração, civilização e violência. Nesse ponto, o romance de estreia de Graciliano já lança as bases para uma melhor compreensão de seus romances posteriores e futuros personagens, como conclui Luís Bueno em seu texto citado anteriormente: 40 E são todos caetés: Valério, Paulo, Luís, Fabiano. Pobres homens desejando muito e obtendo pouco – ou obtendo o que não desejam. Debatendo-se num esforço inútil por uma realização que não sabem onde está. Incapazes de lutar contra as estruturas que os oprimem e chafurdando numa briga encarniçada em que derrotam apenas a si mesmos e às Luísas e Adriões que cruzam seus caminhos. (BUENO, in RAMOS, 2010a, p. 192). Vale lembrar que o título do romance Caetés remete ao daquele livro que João Valério, sem sucesso, pretendia escrever, inspirado em um fato histórico ocorrido no século XVI, quando houve o naufrágio em costas brasileiras do bispo Sardinha (nome muito sugestivo, a propósito), consumido antropofagicamente pelos índios caetés: “Por que procurei os brutos de 1556 para personagens da novela que nunca pude acabar?” (RAMOS, 2010a, p. 178). Apesar do empenho, João Valério fracassa ao escrever seu livro sobre os caetés, diferentemente do que ocorre em São Bernardo, cujo narrador Paulo Honório desenvolve sua narrativa mesmo diante da impossibilidade de concretizá-la como desejava no início, por meio do princípio da “divisão do trabalho”, segundo o qual as etapas de elaboração do livro seriam de acordo com as especialidades profissionais de cada sujeito envolvido: a Padre Silvestre caberia a parte moral e as citações latinas; a João Nogueira, a revisão gramatical; a Arquimedes, a composição tipográfica; a Azevedo Gondim, a composição literária; e a Paulo Honório, questões sobre agricultura e sobre pecuária, além do financiamento e da autoria. Como cada participante apresenta modos diferentes de pensar a composição do livro e estilos próprios que divergem da maneira como Paulo Honório almeja ser sua narrativa, decide abandonar a ideia de escrever com a colaboração dos outros, considerados intelectuais9, e começa a narrar a história de sua vida, solitário, imerso em suas próprias recordações e sentimentos. Sua intenção aparece logo no início do capítulo 2, quando afirma “Tenciono contar a minha história.” (RAMOS, 2010b, p. 7), e, na medida em que os capítulos 9 Luís Bueno, em Uma História do romance de 30, afirma, a respeito de São Bernardo, que Paulo Honório “(...) deseja mostrar que mesmo no campo do outro – e do mais desprezível dos outros, o intelectual – ele pode obter resultados muito bons e se reequilibrar face quem o havia colocado em xeque.” (BUENO, 2006, p. 617). Para Bueno, “A nenhuma atividade Paulo Honório devota maior desprezo do que à do intelectual. Basta ver como ele ridiculariza os ‘contozinhos sobre os proletários’ de Padilha (p. 132) e como se refere às ‘mulheres sabidas’: ‘Chamam-se intelectuais e são horríveis’ (p. 133).” (Idem, ibidem). 41 se sucedem, essa intenção vai se concretizando, pois a narrativa de São Bernardo é de fato a história de vida do próprio narrador, desde sua juventude, quando era trabalhador da fazenda São Bernardo, até a posse destas terras por um preço irrisório, o casamento com Madalena e seu fracasso na vida pessoal e profissional. Da ascensão à decadência: a trajetória do herói e o fracasso inevitável De origem desconhecida, Paulo Honório recorda-se vagamente de sua infância, durante a qual foi criado por uma senhora doceira, a “velha Margarida”. Recorda-se apenas desta mulher, uma espécie de mãe adotiva, e de um cego que lhe puxava as orelhas, o qual, após algum tempo, desapareceu pelo mundo. De posse de sua certidão de nascimento, o narrador afirma que os únicos nomes mencionados são os de seus padrinhos. Seu pai e sua mãe não são mencionados, o que o faz imaginar que “Provavelmente eles tinham motivos para não desejarem ser conhecidos.” (Idem, p. 9). Com isso, desconhecedor de suas próprias raízes familiares, Paulo Honório considera-se “(...) o iniciador de uma família (...)” (Idem, ibidem) e o criador do “(...) lugar mais importante do mundo.” (Idem, p. 57), isto é, a fazenda São Bernardo. Como não se recorda de nada mais de sua infância, a narrativa dá um salto ao início da vida adulta de Paulo Honório, quando tinha dezoito anos. Até esta idade, lembra-se de haver trabalhado pesado no eito, ganhando apenas “(...) cinco tostões por doze horas de serviço.” (Idem, p. 10), e de se envolver em uma briga com João Fagundes por causa de Germana, uma “(...) cabritinha sarará danadamente assanhada (...)” (Idem, Ibidem), com quem teve sua primeira relação sexual. Esse episódio de violência e agressão é brevemente narrado no romance, porém já é possível destacar a brutalidade que, desde jovem, caracteriza Paulo Honório, que sempre usou da violência quando lhe convinha, fosse por vingança, ciúmes ou simplesmente para conseguir o que desejava. No caso do episódio ocorrido aos dezoito anos, Paulo Honório agride fisicamente Germana, por ela haver se envolvido com outro homem, João Fagundes, que acaba sendo esfaqueado pelo protagonista por motivo de vingança, atitude considerada pelo narrador como seu “(...) primeiro ato digno de referência.” (Idem, ibidem). 42 Como consequência, o protagonista vai preso, é agredido violentamente com cipó de boi pelas próprias autoridades da Polícia e toma chá de cabacinho (ou cabacinha), que, de acordo com Raquel L. Botelho C. Vieira, trata-se de um regionalismo nordestino referente ao chá feito com uma planta medicinal específica para “(...) tratar dos ferimentos e febre causados pela surra de cipó.” (VIEIRA, 2013, p. 142). Paulo Honório, então, permanece preso por quase quatro anos, período em que aprende a ler e a escrever com um companheiro de cela, Joaquim sapateiro, por meio de uma pequena bíblia de protestantes. Apesar de aprender a leitura e a escrita por meio deste livro, o protagonista não se revela um sujeito religioso, e, além disso, ao longo da narrativa, não aparece resquício algum de episódios bíblicos, o que indica que Paulo Honório, durante seu processo de aquisição da leitura e escrita, não levou em consideração ensinamentos e valores morais apresentados ao longo da bíblia, livro que funciona somente como meio de alfabetização, ou seja, elemento para uma aprendizagem prática.10 Após sair da prisão, o protagonista pensa apenas em ganhar dinheiro, mas “A princípio, o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo sertão, negociando com redes, gado, imagens, rosários, miudezas, ganhando aqui, perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operações embrulhadíssimas.” (RAMOS, 2010b, p. 11). Além disso, também se recorda de que passou sede e fome, dormiu nas beiras de rios secos e se envolveu em brigas e negociações com armas de fogo engatilhadas. Quando consegue vender uma boiada ao dr. Sampaio, homem muito respeitado em seu município, Paulo Honório não recebe o valor combinado, mesmo após várias conversas e insistências. Incansável e sempre empenhado em conseguir dinheiro, o protagonista, então, planeja uma tocaia e captura o dr. Sampaio em uma estrada deserta, quando este voltava para sua fazenda. Os detalhes da abordagem inesperada revelam toda a violência e brutalidade do protagonista ao capturar sua “presa”: (...) quando o dr. ia para a fazenda, caí-lhe em cima, de supetão. Amarrei-o, meti-me com ele na capoeira, estraguei-lhe 10 Vale lembrar, entretanto, que a bíblia – ambos os testamentos, inclusive – é um dos livros com maior número de episódios violentos da cultura ocidental, o que se relaciona com a temática da violência presente em São Bernardo. 43 os couros nos espinhos dos mandacarus, quipás, alastrados e rabos-de-raposa. − Vamos ver quem tem roupa na mochila. Agora eu lhe mostro com quantos paus se faz uma canoa. O doutor, que ensinou rato a furar almotolia, sacudiu-me a justiça e a religião. − Que justiça! Não há justiça nem há religião. O que há é que o senhor vai espichar aqui trinta contos e mais os juros de seis meses. Ou paga ou eu mando sangrá-lo devagarinho. (Idem, ibidem, grifo nosso). A ausência de receio das justiças humana e divina revela também a ausência de limites que marca as ações de Paulo Honório, destemido e ousado, calculista e paciente, que passa por cima de tudo e de todos para conseguir satisfazer seus desejos e alcançar seus objetivos pessoais. A armação da tocaia resulta no pagamento integral da dívida, ao final do mesmo dia da captura. O portador do bilhete para a família de dr. Sampaio e do dinheiro para saldar a dívida com Paulo Honório é seu fiel companheiro e protetor, Casimiro Lopes, sujeito “(...) corajoso, [que] laça, rasteja, tem faro de cão e fidelidade de cão.” (Idem, p. 12). Trata-se de um personagem que executa todas as ordens do protagonista, desde a entrega de recados até a eliminação de sujeitos que representam obstáculos para a concretização dos desejos de Paulo Honório. Outro episódio que também merece destaque por revelar o caráter prático do protagonista perante o outro é quando ele pega dinheiro emprestado a juros de seu Pereira, um chefe político agiota. Para saldar a dívida total, o narrador relembra que estudou aritmética, “(...) para não ser roubado além da conveniência.” (Idem, p. 10), e acaba conseguindo, por meio de negociações, a redução dos juros de 5% para 3,5% ao mês, e mesmo assim afirma que consegue pagar sua dívida somente após muito esforço e sofrimento. O que chama a atenção nesse episódio é que, certo tempo depois, seu Pereira precisou hipotecar sua propriedade para Paulo Honório, o qual, motivado por um forte sentimento de vingança, tira-lhe todos os seus pertences: “Depois vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe tudo, deixei-o de tanga.” (Idem, ibidem). É importante notar o estilo objetivo e seco de narrar alguns momentos de sua vida, o que reflete o próprio caráter do narrador protagonista, que, logo na juventude, antes mesmo de colocar em prática seu plano para adquirir a fazenda São Bernardo, já revelava objetividade e frieza em relação ao outro durante suas negociações. 44 Essa objetividade e precisão que marcam a narrativa e o modo de organizar as ideias durante o ato da escrita aparecem, por exemplo, quando o narrador, no capítulo 3, decide finalmente iniciar a história de sua vida, informando alguns detalhes específicos de sua aparência física, em princípio desnecessários para o desenvolvimento da narrativa: Começo declarando que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo S. Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração. Quando me faltavam estas qualidades, a consideração era menor. (Idem, ibidem). Além da objetividade do estilo e precisão das informações apresentadas, que revelam o perfil direto e calculista do narrador, o modo como este se mostra no início da narrativa também mostra a consciência que possui de si perante o outro. A partir de traços físicos fortes e marcantes, Paulo Honório acredita que recebe consideração maior do que antigamente, quando não possuía estes traços, o que indica seu próprio modo de julgar os outros ao seu redor perante si mesmo. Por exemplo, quando decide escolher uma esposa para lhe dar um herdeiro às terras de São Bernardo, o protagonista, no início, pensa muito em D. Marcela e quase demonstra suas intenções para com ela. No entanto, quando conhece a professora Madalena, começa a querê-la bem e a frequentar sua humilde casa, até pedi-la em casamento. O que interessa destacar neste momento com relação às duas figuras femininas são as características físicas de cada uma, pois são esses traços de aparência que impulsionam Paulo Honório no momento de escolher sua esposa. Enquanto D. Marcela “(...) era bichão. Uma peitaria, um pé de rabo, um toitiço!” (Idem, p. 51), Madalena era “Miudinha, fraquinha.” (Idem, ibidem), e essa diferença no plano do corpo é o que importa para o protagonista no momento de sua escolha, já que D. Marcela, a partir de uma aparência física mais robusta, poderia ser mais difícil de Paulo Honório controlar, devido à suposta austeridade e firmeza de caráter espelhados no plano do próprio corpo. Por outro lado, Madalena, magra, loura, de olhos azuis e aparência frágil e delicada, supostamente não apresentaria personalidade forte, e seria fácil para o 45 futuro marido “controlá-la”. Como o protagonista revela-se um sujeito bruto, autoritário e dominador, Madalena, pela aparência física frágil, não representaria um obstáculo para a concretização de seus planos, nem seria difícil se submeter a seus caprichos. Além de a aparência física do outro revelar para Paulo Honório supostos traços significativos de personalidade, os quais constituem indícios que determinam seu modo de agir, outro elemento que para ele também indicaria traços de caráter é o comportamento social, como no caso de Luís Padilha, filho de seu antigo patrão, Salustiano Padilha, antigo proprietário da fazenda São Bernardo na época em que Paulo Honório era trabalhador do eito, com salário de cinco tostões por doze horas de trabalho pesado. Após a morte de Padilha pai, a propriedade passa então aos cuidados de Padilha filho, o qual é logo percebido pelo protagonista como um sujeito de personalidade fraca, desajuizado e sem ambições na vida. Ao relembrar seu encontro com o jovem Padilha, após tempo sem o ver, o que chama a atenção é a sinceridade do relato, pois o narrador, com um tom confessional, narra o momento em que iniciou uma amizade falsa com Luís Padilha, como um primeiro passo de seu plano para adquirir São Bernardo: Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, município de Viçosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade S. Bernardo (...). Como quem não quer nada, procurei avistar-me com Padilha moço (Luís). Encontrei-o no bilhar, jogando bacará, completamente bêbedo. Está claro que o jogo é uma profissão, embora censurável, mas o homem que bebe jogando não tem juízo. Aperuei meia hora e percebi que o rapaz era pexote e estava sendo roubado descaradamente. (Idem, p. 12). De maneira análoga à armação de uma tocaia, Paulo Honório procura sua “vítima” e, quando a encontra, pacientemente a observa de longe, “aperuado”, isto é, escondido, como em uma moita na beira da estrada. Percebendo a fraqueza de caráter de Luís Padilha, aproxima-se e inicia uma amizade traiçoeira, com jogo de intenções veladas para conquistar a tão almejada posse de São Bernardo: Travei amizade com ele e em dois meses emprestei-lhe dois contos de réis, que ele sapecou depressa na orelha da sota e em folias de bacalhau e aguardente, com fêmeas ratuínas, no 46 Pão-sem-Miolo. Vi essas maluqueiras bastante satisfeito, e quando um dia, de novo quebrado, ele me veio convidar para um S. João na fazenda, afrouxei mais quinhentos mil-réis. Ao ver a letra, fingi desprendimento: − Para que isso? Entre nós... Formalidades. Mas guardei o papel. (Idem, ibidem). Todo esse fingimento de Paulo Honório revela sua habilidade para manipular Luís Padilha e conquistar sua confiança. E nesse jogo de “gato e rato”, o protagonista sai vitorioso, cercando o jovem Padilha por todos os lados, até que sua única alternativa é entregar, por um valor irrisório, a fazenda São Bernardo, a qual não lhe garantia renda alguma, mas pela qual possuía grande estima, já que representava para