UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS CAMPUS DE MARÍLIA - SP LEONARDO BORGES REIS Linguagem e Política no Pensamento de Avram Noam Chomsky MARÍLIA 2010 LEONARDO BORGES REIS Linguagem e Política no Pensamento de Avram Noam Chomsky Dissertação apresentada como exigência final para a obtenção do grau de Mestre em Filosofia à Comissão Julgadora da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho- UNESP. Área de Concentração: Ética e Filosofia Política. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Monteagudo. MARÍLIA 2010 Ficha catalográfica elaborada pelo Serviço Técnico de Biblioteca e Documentação – UNESP – Campus de Marília Reis, Leonardo Borges. R375l Linguagem e política no pensamento de Avram Noam Chomsky / Leonardo Borges Reis. – Marília, 2010. 158 f. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2010. Bibliografia: f. 153-158 Orientador: Profº Drº Ricardo Monteagudo 1. Filosofia da linguagem – Concepções políticas. 2. Linguagem – Reflexão epistemológica. 3. Chomsky, Noam. I. Autor. II. Título. CDD 401 LEONARDO BORGES REIS Linguagem e Política no Pensamento de Avram Noam Chomsky Este exemplar corresponde a redação final da Dissertação apresentada para a Defesa pela Banca Examinadora em 31/05/2010. BANCA EXAMINADORA: Prof. Dra. Maria Eunice Quilici Gonzalez Prof. Dr. Ricardo Monteagudo Prof. Dr. Vladimir Pinheiro Safatle Marília 2010 AGRADECIMENTOS Quero expressar minha profunda gratidão ao orientador desse trabalho, professor Ricardo Monteagudo, foi ele, afinal, quem deu possibilidade à existência desse projeto. Mesmo conhecendo-o há pouco tempo, pude notar algo em sua personalidade que me cativou intensamente: seu amor pela filosofia. Nos momentos de tormenta sua demonstração de zelo serviu-me de alento e incentivo. Sou ainda excepcionalmente grato pelos conselhos das professoras Patrizia Piozzi e Maria Eunice, assim como daqueles direcionados pelo professor Vladimir Safatle. Esses profissionais leram meu trabalho e apontaram lapsus calami, além disso mencionaram críticas de imenso valor. Não poderia esquecer-me do apoio e carinho que recebi de minha sincera companheira Letícia. Quero também registrar aqui meu agradecimento ao “mecenato” de minha querida mãe Rosemeire e de minha estimada tia Renilda. Cito também a formidável presença dos meus afetuosos amigos: o valioso mineiro Leandro, e meu velho camarada Ronaldo, pessoas com as quais aprendo sobre a vida de maneira descontraída. Muito contribuíram meus queridos professores David Victor- Emmanuel Tauro e Raymond Rainville. RESUMO O presente trabalho procura investigar as concepções políticas da filosofia da linguagem de Noam Chomsky. Através da construção do conceito de natureza humana, desenvolvido pelo lingüista (modelo sugestivo), há uma importante mediação entre linguagem e política. A metodologia de Chomsky constitui um vigoroso esforço para construir a mediação da ação humana, relacionada com o socialismo e a liberdade. A linguagem, ligada ao conhecimento humano, espelha propriedades essenciais do espírito. A reflexão epistemológica suscitada pela análise da linguagem, apesar de seus contrapontos técnicos, a exemplo da ciência lingüística, alimenta uma abrangência filosófica que se ramifica nos campos da ética, da filosofia política e estética, chegando até mesmo a uma teoria social. Assim, Chomsky propõe um princípio auto-realizador criativo, inerente à espécie. ABSTRACT The present work attempts to investigate the political conceptions of Noam Chomsky’s philosophy of language. Through construction of human nature concept developed by the linguist (suggestive model), there is an important mediation between language and politics. Chomsky’s methodology constitutes a vigorous effort to build a mediation of human action related to the socialism and to the freedom. The language linked to human knowledge reflects the essential properties of the spirit. The epistemological reflection raised by the analysis of language, despite its technical counterpoints, such as the linguistic science, feeds a philosophical range with ramifications in the fields of ethics, political philosophy and aesthetics, even coming to a social theory. Thus, Chomsky proposes a principle of creative self-realization as inherent to the species. LISTA DE ABREVIAÇÕES ATS Aspects of the Theory of Syntax. DE Descrição Estrutural EA Estruturalismo Americano EC Estrutura Cognitiva EP Estrutura Profunda ES Estrutura Superficial GG Gramática Gerativa GL Gramática da Língua. GU Gramática Universal. LC Lingüística Cartesiana LSLT The Logical Structure of Linguistic Theory SS Syntactic Structures LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Modelo transformacional de Zellig Harris..............................................................33 Figura 2 – Modelo simples de axiomas para Regras Recursivas..............................................35 Figura 3 – Esquema simples do funcionamento de Regras Recursivas....................................35 Figura 4 – Esquema em árvore para o indicador sintagmático (3)...........................................37 Figura 5 – Esquema da Teoria Padrão......................................................................................47 Figura 6 – Quadro de uma Teoria da Aprendizagem................................................................98 SUMÁRIO LISTA DE ABREVIAÇÕES ....................................................................................... 08 LISTA DE FIGURAS ................................................................................................... 09 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 11 PARTE I - DA NATUREZA DO CONHECIMENTO LINGÜÍSTICO ................. 16 Capítulo I. Da taxionomia à explicação......................................................................... 17 Capítulo II. A Teoria Padrão.......................................................................................... 46 Capítulo III. Lingüística cartesiana e naturalização....................................................... 57 Capítulo IV. O problema de Platão................................................................................. 73 Capítulo V. Gramática Universal e condições sobre regras........................................... 82 PARTE II – SOBRE LINGUAGEM, NATUREZA HUMANA E LIBER DADE 93 Capítulo VI. Teoria da aquisição da linguagem............................................................. 94 Capítulo VII. Linguagem e natureza humana................................................................. 103 Capítulo VIII. Linguagem e liberdade............................................................................ 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 150 BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................... 153 11 INTRODUÇÃO As coisas acontecem no mundo devido aos esforços de pessoas dedicadas e corajosas, de cujo nome ninguém ouviu falar, e que não passam para a história. Noam Chomsky. Dissertar a propósito do pensamento do americano Avram Noam Chomsky (1928) significa defrontar-se com um vasto e profundo campo intelectual. Ao longo de sua intensa carreira, Chomsky publicou mais de 80 livros, assim como um grande número de artigos (praticamente mais de um milhar). Aos oitenta e dois anos de idade, Chomsky continua ativo e, como alguém lhe descreveu: "a rebel without a pause”. Sua produção, afinal, parece não ter alcançado um limite, visto que as urgências políticas de nossa época encontram em Chomsky um dedicado analista. Basta proceder a um simples acesso do seu site oficial para que se verifique com que entusiasmo e coerência aumentam constantemente o montante dessa produção. Seus temas de interesse percorrem uma ampla área de disciplinas: lingüística, política, filosofia, ciências cognitivas, psicologia, educação, etc. Chomsky se tornou professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) aos 29 anos de idade e, desde então, pôde dedicar-se integralmente à pesquisa e ao ensino. Seus cursos no MIT ajudaram a formar nomes hoje reconhecidos, entre os quais temos os de Jerry A. Fodor, Jerrold J. Katz, Steven Pinker, entre outros. Diante desse quadro, não seria difícil entender a razão pela qual seus livros são traduzidos e reimpressos em diversas línguas, assim como o motivo de encontrarmos sua agenda de palestras e entrevistas lotada pelos próximos três anos. Não obstante a toda essa intensa atividade, Chomsky costuma reservar cerca de 20 horas semanais para responder às correspondências que lhe são enviadas. Circunspecto e coeso, raramente menciona sua vida particular, já que rejeita com veemência qualquer culto de caráter personalista. Através de uma concepção engajada do mundo, está sempre a enfatizar que “as coisas acontecem no mundo devido aos esforços de pessoas dedicadas e corajosas, de cujo nome ninguém ouviu falar, e que não passam para a história” (CHOMSKY, apud BARSKY, 2005, p. 18). Chomsky ficou conhecido internacionalmente como um distinto ativista da nova esquerda americana em decorrência, sobretudo, de sua postura de resistência à política externa de seu país. Com maior propriedade, pode-se dizer que a Guerra do Vietnã encarnou o cenário 12 em que desponta o ativismo político chomskiano. Porém, muito antes desse episódio, o jovem Chomsky - criado sob a influência do movimento operário americano dos anos 30 - se viu desde muito cedo arrebatado pela idéia de que as sociedades libertárias “podiam funcionar e atender às necessidades do indivíduo e da coletividade” (BARSKY, 2005, p. 42.). Os eventos relacionados à Revolução Espanhola, unidos à posição ocupada pelos anarquistas nesse conflito fizeram-lhe refletir, já na década de 1940, quando adolescente, sobre as semelhanças entre o programa fascista e ocidente democrático. Podemos dizer que suas análises sociais e políticas ainda transcorrem sob um viés libertário. Os rumos adotados nas políticas intervencionistas do império americano levaram o lingüista a concentrar sua atenção sobre os meios de comunicação de massa. Produziu-se daí um substancial conjunto de comentários a respeito da construção das “verdades oficiais”. No referido ativismo encontramos uma árdua defesa do antiintelectualismo. Seus textos políticos, dessa maneira, são abalizados por uma clareza e simplicidade excepcionais. Segundo o que Chomsky tem reiterado por todos esses anos, os padrões que subjazem aos fenômenos mais importantes da vida econômica, social, política, não são muito difíceis de distinguir, embora se façam muitos esforços para ocultar os fatos. Sua confiança no papel dos intelectuais dispõe da necessidade moral e do compromisso desses em reagir aos “sistemas de doutrinação”. Por outro lado sabe-se que, já nos anos 60, Chomsky se tornara um “revolucionário” na ciência lingüística. Junto ao trabalho de ativismo social, Noam foi responsável por uma das mais notáveis criações da lingüística teórica do século XX: a Gramática Gerativa. Através dessa teoria foi introduzida a idéia de que a linguagem humana se assenta sobre a manifestação de estruturas abstratas universais, que tornam possível a aprendizagem de sistemas particulares de línguas. A manifestação da linguagem dependeria, dessa forma, do estímulo do contexto lingüístico e do emprego de estruturas universais, subjacentes aos humanos. Dado esse quadro notamos que, mesmo com o enorme desenvolvimento e alcance de suas idéias, o conjunto do pensamento de Chomsky permanece imerso sob relações aparentemente enigmáticas1. Nos referimos aqui às ligações entre a sua teoria da linguagem e sua obra política. Normalmente, as referências encontradas sobre Chomsky oscilam entre dois territórios de fronteiras supostamente intransponíveis: de um lado encontra-se o político e do outro o lingüista. Um primeiro olhar sobre a produção intelectual de Chomsky, portanto, releva a magnitude e ambivalência dessa obra. Tal amplitude oferece até mesmo ao investigador mais 1 KIGNT, 2004. 13 treinado sérias dificuldades. Porém, mesmo com a clivagem entre a obra de ativismo e de ciência da linguagem2, um olhar mais aguçado pode vir a identificar breves incursões do autor no campo de uma teoria social3. Teoria baseada num modelo de natureza humana. Esse movimento terá uma rápida, mas profunda relação com a análise da linguagem. Em algumas obras como Linguagem e Política, Problemas do conhecimento e da liberdade, Linguagem e Responsabilidade, entre outras, faz-se alusão à possibilidade de construção de uma análise política (chamada de análise genérica) inspirada sob um conceito de natureza humana. A estrutura do conceito de natureza humana, como se pretende demonstrar, encontra sua ancoragem, segundo o próprio lingüista, numa investigação de fatos presentes na linguagem. Se observarmos a questão desse ponto, podemos falar, portanto, numa reciprocidade entre política e teoria da linguagem. Mesmo com a manifestação dessas relações mútuas, há certa dificuldade em encontrar intérpretes que tentem considerar as questões que envolvem os estudos da linguagem e seus aspectos políticos4. Entre as razões desse descaso podemos nomear a própria dificuldade que o tema impõe. Chomsky, como veremos, tece seus comentários entre linguagem e política e, nunca diretamente, entre a lingüística técnica e a política. Ao mesmo tempo, pode-se indicar como causa dessa nebulosidade a relativa escassez de pesquisas que tentem detalhar o procedimento filosófico de Chomsky no estudo da linguagem (do ponto de vista de aspectos mais gerais). Reside aí, a nosso modo de ver, a importância de abordagens filosóficas dessa obra. Tendo em vista a citada clivagem, entre política e linguagem, pretendemos com esse trabalho apontar os elementos articuladores dos temas em questão. Para realizar tal empresa procuramos acentuar, precisamente, a condição epistemológica elaborada pelo autor para a congruência dos temas em questão. É válido lembrar que a obra do lingüista apresenta um contorno extremamente heterogêneo e que, por essa razão, não ambicionamos que nossa leitura demarque um ponto final sobre o assunto. Não temos, aliás, condições de chegar a um arbitramento que indique, por exemplo, um “sistema” (no sentido hegeliano) nas idéias de Chomsky. Por esse motivo, conforme veremos, o enfoque da clivagem entre linguagem e política se assenta sobre reflexões condicionais. Veremos que não há um sistema de idéias em Chomsky, envolvendo a natureza 2 Cf. CHOMSKY, 2007. 3 Cf. Id., 2006. 4 Segundo Barsky “embora seu trabalho lingüístico tenha sido razoavelmente bem coberto (a despeito das fragilidades de muitos estudos históricos), há uma quantidade pequena de comentários disponíveis sobre a formação política de Chomsky e sua contribuição para a teoria política”.(BARSKY, p. 18, 2005). 14 humana (suporte da política) e a linguagem, por conta, em primeiro lugar, do caráter das disciplinas e, em segundo, pelo fato de não existir uma representação final (ou científica) e acabada de toda a verdade possível para a natureza humana, visto que o próprio caráter do programa de investigação de Chomsky “é singularmente incompatível com todo tipo de dogmatismo” (OTERO, 1984, p. 19). Notaremos um sugestivo interesse do lingüista na ampla investigação dos sistemas cognitivos humanos, devido, principalmente, àquela reflexão sobre a natureza humana que brota, por conseguinte, de uma generalização epistemológica no campo da linguagem. Convém, então, notar a existência de estrutura de procedimentos e interesses, segundo a divisão do próprio Chomsky, que se revela em duas frentes: O Problema de Platão e o Problema de Orwell. Ao problema de Platão cabe “descobrir princípios explicativos, por vezes ocultos e abstratos, que possam dar sentido a fenômenos que, à superfície, parecem caóticos, discordantes e carecendo de qualquer padrão de significado” (CHOMSKY, 1994, p. 18). Temos aqui o referido problema epistemológico, que tem por matéria o uso e a aprendizagem da linguagem. Já o estudo do problema de Orwell é uma questão de reunião de evidência e de exemplos para ilustrar aquilo que poderia ser inequívoco para um observador racional qualquer, afinal “o poder e o privilégio” são perfeitamente analisáveis para a mente regular (CHOMSKY, 1994). O Problema de Platão, como se vê, está para a linguagem assim como o Problema de Orwell está para a análise política. A disposição dessas frentes de trabalho não indica, porém, como poderia suscitar, uma ordem de preponderância lógica de uma seqüência sobre a outra. Mas, conforme o que pretendemos apresentar ao leitor - na segunda parte desse trabalho -, se quisermos compreender com maior amplitude conceitos tais como os de poder ou justiça, que organizam os juízos de Chomsky, dentro da massa de referências de que se compõe o Problema de Orwell, teremos que fazer conexão com o conceito de natureza humana. Ora, esse conceito é gestado, praticamente, em virtude de concepções presentes na teoria da linguagem. A respeito disso, a obra de Chomsky parece deixar claro: o Problema de Orwell, que se enraíza sob a atuação do ativista e conferencista, não poderia estar completamente isolado do restante da obra. Nesse processo, o conceito de natureza humana é central para a sustentação de parte considerável dos juízos políticos usados por Chomsky. Se o conceito de natureza humana não é, contudo, absorvido rigidamente pela ciência, mas apenas dá curso a uma apresentação racional e adequada da realidade, isso não impede que o Problema de Orwell esteja na ordem do dia. Sob os temas do ativismo, segundo 15 Chomsky, reside a condição primária e real para a subsistência de quaisquer projetos intelectuais mais profundos: o problema de Platão é profundo e intelectualmente excitante: o problema de Orwell pelo contrário, parece-me sê-lo muito menos. Mas, a menos que consigamos chegar a compreender o problema de Orwell, a reconhecer o seu significado na nossa própria vida social e cultural e a ultrapassá-lo, são poucas as possibilidades de a espécie humana sobreviver o tempo suficiente para descobrir a resposta ao problema de Platão ou a outros que desafiem o intelecto e a imaginação. (CHOMSKY, 1995, p. 19). Diante da força reivindicatória do Problema de Orwell, não deixa de nos parecer esclarecedor que Chomsky tenha adotado nos últimos anos uma tendência surpreendente em suas obras sobre lingüística teórica. Paralelamente aos ensaios com áridas discussões teóricas no campo lingüística, Chomsky tem inserido em seus livros capítulos políticos, sobre os mais diversos assuntos, tais como a escalada nuclear dos Estados Unidos, as políticas do império para os países de periferia, etc.5 Tendo em vista o breve conjunto aqui apresentado, estruturamos nossa dissertação na direção da elucidação dos aspectos epistemológicos da lingüística de Chomsky, para então, reconstruir paulatinamente os conceitos políticos gerais, daí oriundos. Dessa maneira, nosso trabalho divide-se em duas partes. Cada uma dessas está desenvolvida em tópicos. A primeira parte versa sobre a revolução lingüística de Chomsky, onde procura-se entender a natureza do conhecimento lingüístico. Na segunda parte do trabalho demonstraremos como o conceito de natureza humana encontra-se vinculado à argumentação da teoria linguagem, permitindo, ao final, o alicerce do prédio político de Chomsky. Por conta desse objetivo, não poderemos oferecer maiores esclarecimentos sobre a imensa obra política de Chomsky, que contém um amplo número de análises, muitas vezes circunstanciais. Porém, esperamos indicar ao leitor algumas idéias centrais que compõem tais análises. Principalmente no que diz respeito aos recorrentes conceitos de poder, natureza humana e liberdade. Optamos por não traduzir as obras de referência que já tenham sua versão em língua portuguesa, porém, a cada citação das traduções adotadas, indicaremos sua forma no original conforme o material de que dispomos. Para as obras cuja tradução continua inédita, fizemos nossa própria versão em língua portuguesa dos trechos citados. 5 Podemos citar, por exemplo, publicações como Sobre a natureza da linguagem, O conhecimento da língua, sua natureza, origem e uso, Problemas sobre o conhecimento e a liberdade, que incluem debates estritamente políticos em capítulos separados, geralmente ao final dos debates lingüísticos. PARTE I DA NATUREZA DO CONHECIMENTO LINGÜÍSTICO 17 CAPÍTULO I - DA TAXIONOMIA À EXPLICAÇÃO A expressão “revolução” 6, adotada por comentadores para descrever o impacto causado pelas contribuições de Avram Noam Chomsky, pode nos inquietar, sugerindo um exagero. Porém, descartada a primeira impressão, a adoção do termo não parece sem fundamento. Uma caracterização tão aguda desse pensamento, como se verá, refere-se fundamentalmente a inovação promovida por Chomsky na lingüística do século XX. Tal novidade se estabeleceu, segundo historiadores da lingüística (RUWET, 2001), nomeadamente, na passagem de um modelo de descrição ao de explicação dos fenômenos da linguagem. Enquanto as teorias estruturalistas7 assumiram, em geral, posições aparentemente descritivistas, Chomsky introduz em 1957, com seu livro Syntatics Structures (SS), a idéia de que muitos dos fenômenos lingüísticos existentes poderiam ser explicados em termos de princípios gerais. A fronteira central do então nascente projeto investigativo “revolucionário” definiu-se, sobremaneira, pela admissão ousada de um modelo de ciência hipotético-dedutivo. O conjunto do pensamento chomskiano – divisor de águas na moderna lingüística teórica - é simultaneamente acompanhado por reflexões filosóficas e políticas adjacentes. Entretanto, essas reflexões não possuem congruência par a par com o trabalho desenvolvido pelos estudos da estrutura da linguagem. Parte considerável do trabalho teórico político de Chomsky baseia-se em uma revitalização de posições clássicas sobre a natureza humana, no sentido cartesiano. O arcabouço dessa construção, todavia, é fruto de peculiares cogitações efetuadas pelo lingüista a partir de modelos da linguagem. Pode-se dizer que sua teoria política (tal como a noção de natureza humana que lhe é inseparável) está modelada até certo nível por profundas sugestões oriundas dos estudos da linguagem. Para o leitor acostumado a uma interpretação mais ou menos técnica dessa obra, como no caso dos lingüistas, fonólogos, etc., tal aspecto do pensamento chomskiano pode até mesmo parecer suspeito. Para outros, esse tópico talvez soe apenas como um eco longínquo. Logo, como se notará, a discussão sobre a natureza humana somente se deixa entrever nos trabalhos lingüísticos, dada a condição aparentemente desarticulada da exposição. 6 A expressão “revolução” é adotada por diversos comentadores, por exemplo: OTERO, 1984; LYONS, 1995; GARDNER, 2003 e SEARLE, 1974. 7 Nossas referências ao estruturalismo se concentram, sobretudo, na vertente norte-americana (Estruturalismo Americano-EA) representada principalmente pela figura de Leonard Bloomfield (1887-1949). De certa maneira Bloomfield e sua “escola” definiram, até meados dos anos cinqüenta do século XX, as linhas gerais da disciplina lingüística. Para Bloomfield a tarefa elementar da lingüística estava na descrição das línguas através do recolhimento de um corpus representativo, o instrumental para a coleta dessas informações seria fornecido pelos “procedimentos de descoberta”. Ver a esse respeito BLOOMFIELD, 1957. 18 De outro lado, a análise política de Chomsky, que se caracterizou, sobretudo, pela denúncia da política expansionista do Império Americano, foi muitas vezes tomada pela nova esquerda (em seus vários matizes) como um bloco, separado das reflexões sobre a linguagem. O exame crítico que lhe rendeu, e que ainda hoje lhe rende atenção do público, baseia-se comumente na coleta de informações e ardis de uma vasta fonte de documentos. Entre estes encontram-se relatórios estratégicos da política externa dos EUA; declarações oficiais de aparelhos da inteligência; notícias da imprensa; relatórios de organismos multilaterais; etc. Pode-se classificar a massa de provas e críticas produzidas, nesse âmbito, como uma investigação sobre as “Razões de Estado”. Pretendemos com este trabalho demonstrar a existência de um relativo suporte de afinidades entre a obra política de Chomsky e, sua investigação da linguagem. Segundo o que pensamos, tal hipótese de trabalho não está desprovida de fundamento. Porém, devemos tomar a questão com prudência. Afinal, a hipótese esbarra na própria negativa de Chomsky, concernente à ligação entre seus trabalhos de política e da estrutura da linguagem. Uma leitura desarmada pode tomar essa negação como símbolo enfático da separação dos temas. Veremos, contudo, que existem condições específicas para o parentesco entre os temas. A explicação para a negação está no estudo técnico proporcionado pela concepção da estrutura da linguagem. A compreensão técnica da linguagem é distinta da reflexão sobre a linguagem. Essa última locação é a mais adequada para se extrair ligações com os problemas humanos, bem como para as questões de ordem política. De outro lado, há certa escassez de referências às conjunções presentes na filosofia política chomskiana8 . Tal carência, porém, não indica que haja, necessariamente, uma desestruturação interna na obra teórica do autor. Veremos que existem relações incisivas entre linguagem e política, porém, essas são demarcadas. Além disso, vários os comentadores estão preocupados em entender a conexão existente entre os temas de política e linguagem na obra de Chomsky. Portanto, acreditamos que a argumentação geral que aqui se desenvolverá está suficientemente afiançada. Comentadores, sobretudo estrangeiros, tais como Robert F. Barsky, Carlos-Peregrín Otero, James McGilvray, Milan Rai, interpretam a obra de Chomsky para além de uma contribuição lingüístico-científica estrita. O esforço interpretativo desses autores não prescinde da conexão entre política e linguagem. Como esperamos demonstrar, o próprio 8 Principalmente no Brasil, onde praticamente não encontramos trabalhos de filosofia sobre Chomsky. Geralmente suas contribuições são analisadas pelo viés dos especialistas da ciência lingüística, ou por cientistas políticos que citam apenas sua leitura geopolítica, sem demais referências aos conceitos do autor sobre ética, poder, etc. Por exemplo, Jayme Benvenuto dedica um excelente artigo à análise chomskiana das relações internacionais, porém, em nenhum momento amplia os conceitos de poder ou justiça empregados por Chomsky. Cf. LIMA JR., 2008. 19 Chomsky não parte de uma separação radical desses temas. Parece-nos que o mal-estar instaurado sobre a questão, afinal de contas, é resultado de escassas pesquisas, de leituras apressadas ou, até mesmo, quem sabe, da divisão social e intelectual do trabalho acadêmico, que revela de maneira tão distinta a funcionalização de nossa época. Corroborando nossa hipótese de trabalho, temos Robert F. Barsky que, por exemplo, aponta a investigação racionalista da lingüística Cartesiana como “essencial para entender a posição de Chomsky sobre a natureza humana, a linguagem e até mesmo a política” (BARSKY, 2005, p. 139). Temos ainda, no mesmo aspecto, a declaração de John Lyons de que “deve, talvez, merecer referência enfática a circunstância de que sua teoria da linguagem e sua filosofia política não estão de modo algum desligadas uma da outra, como poderia parecer à primeira vista” (LYONS, 1970, p. 15). Em resumo, por conta dessas e de diversas outras passagens, podemos considerar suficientes os elementos para a análise que ora empreendemos. Inicialmente, para que possamos elucidar a posição ocupada pela reflexão política e filosófica da linguagem, temos por necessidade que nossa argumentação se inicie, obviamente, pelo exame da natureza dos campos em questão, ou seja, precisamos detalhar minimamente a natureza do conhecimento lingüístico. Depois, então, buscaremos demonstrar o que nessa matéria se relaciona com a política. Essa investigação, como é válido ressaltar, não se distancia do que faz o próprio Chomsky ao esboçar o que lhe “parece ser um esquema adequado no qual o estudo da linguagem possa provar ter um interesse intelectual mais vasto” (CHOMSKY, 1975a, p. 09)9. Esse esquema ficará mais claro se formos eficazes na distinção entre a classe de conhecimento que nos lega a lingüística e se identificarmos, nessa situação, o que daí serve de modelo a outros campos intelectuais. Para explicitar a natureza do conhecimento produzido pela lingüística, antes de tudo, convém que façamos uma advertência ao leitor. A primeira fase de nossa análise não ambiciona grandes contribuições, pois, para nosso empreendimento, não é necessária a demonstração exaustiva da correção ou não das teses de lingüística10, o que nos custaria muito tempo. A primeira parte desse trabalho, por isso, explora através de um curto levantamento a concepção de linguagem proposta por Chomsky em sua teoria da Gramática Gerativa. 9 No original: “an appropriate framework within which the study of language may prove to have more general intellectual interest”. 10 Estamos cientes das críticas e divergências que o chamado “projeto gerativo” tem enfrentado ao logo dos seus mais de 50 anos. Quando possível faremos referência a essas. Porém, lembramos ao leitor que por motivos de economia textual não podemos nos reportar à totalidade das críticas, nem ao processo de defesa intelectual a que Chomsky tem se dedicado ao longo dos anos. Para uma avaliação crítica do conjunto da obra de Chomsky Cf. HARMAN, 1974. 20 Caminharemos, portanto, numa determinada ordem: da concepção de linguagem até o conceito de natureza humana, e deste, até a política. Esse movimento nos sugere uma apresentação adequada ao pensamento do próprio autor. Para o lingüista, é possível a construção de um modelo sugestivo para a filosofia política, abalizado na reflexão sobre a linguagem. Para isso precisamos, pois, partir à procura do que sugere tal modelo, abordando, em linhas gerais, aquele saber produzido pela lingüística, capaz de sugestionar pontes para a política. 11 Sobre a capacidade humana de linguagem, por exemplo, o que se pode inferir sobre essa extraordinária e privilegiada aptidão? Em relação ao uso normal da linguagem - que ultrapassa o que nos é apresentado pelos estímulos externos - o que podemos compreender a respeito de nossa natureza? Tais questões cruzam inevitavelmente o caminho do estudo técnico da linguagem e, logicamente, também merecem parte numa reflexão teórica razoável sobre “nosso lugar no mundo” (CHOMSKY, 2004a). A proposta de Chomsky, de explicar como podemos utilizar a linguagem de maneira criativa, rica e complexa, mesmo sob a pobreza dos estímulos, sugere que “as relações entre os estados internos e os processos e coisas do mundo exterior parecem estar sujeitas às operações da liberdade humana” (MCGILVRAY, 2006, p. 43). A abordagem técnica da linguagem nos revela a manifestação, de modo geral, de estruturas cognitivas complexas. Tais estruturas indicam que as particularidades das línguas naturais, sua organização e utilização podem nos oferecer algum conhecimento sobre as características específicas da inteligência humana. (CHOMSKY, 1975a). É por esse âmbito geral - da capacidade de linguagem e sua relação com a inteligência humana - que procuraremos entender a natureza do conhecimento lingüístico. Na obra de Chomsky a linguagem não é tomada apenas como objeto da rigorosa formalização gerativista, é também a manifestação do âmbito humano num sentido mais amplo.12 John Lyons, conforme a assunção acima exposta sobre a linguagem e suas estruturas, 11 Chomsky afirma que são aqueles problemas relacionados à capacidade linguagem e a sua utilização que conferem ao estudo técnico da linguagem um “interesse intelectual mais vasto”. (CHOMSKY, 1975a, p. 19). Destarte, para discutir política, por exemplo, não podemos escapar de temas lingüísticos tais como o da faculdade de linguagem. 12 Existe pelo menos a tentativa de transcender o âmbito técnico da abordagem lingüística, da competência lingüística dos sujeitos. O que não quer dizer que essa empreitada esteja isenta de críticas ou que obtenha sucesso absoluto. Jürgen Habermas, por exemplo, salienta a importância do trabalho de Chomsky por ter demonstrado como um sistema de regras “que subjaz à capacidade de um indivíduo para gerar frases bem formuladas em qualquer língua” pode se estabelecer. Porém, a função pragmática universal dos atos de fala exige, outrossim, uma teoria que exponha sistemas de regras intersubjetivos (o que não existe em Chomsky), capazes de conferir aos falantes adultos a chamada competência comunicativa, responsável por transmitir “toda uma realidade” através das frases. Voltaremos ao assunto ao longo do trabalho. Cf. HABERMAS, 1996. 21 aponta, no mesmo sentido, a importância do trabalho chomskiano para a renovação do conhecimento da inteligência e das capacidades do espírito humano. A capacidade para a linguagem marca, definitivamente, um interesse mais genérico por um fenômeno humano central: a importância da obra de Chomsky, para campos do conhecimento diversos da lingüística decorre, portanto e principalmente, da reconhecida relevância da linguagem em todas as áreas a atividade humana e da relação peculiarmente íntima que se diz existir entre a estrutura da linguagem e as propriedades ou capacidades inatas do espírito [...] Muitos estudiosos que trabalham atualmente no campo das ciências sociais e das humanidades acreditam que assim seja. Para eles a formalização que Chomsky emprestou à teoria gramatical serve de modelo e padrão. (LYONS, 1995, p. 14). Buscaremos entender, portanto, como o estudo técnico da linguagem torna possível a manifestação de uma arquitetura da mente, a fim de estabelecer relações posteriores (no chamado modelo sugestivo – suggestive model) com a reflexão política. Uma vez que através da análise da linguagem, de sua estrutura e organização, constroem-se as pontes com campos intelectuais mais vastos. Não obstante, precisamos entender a natureza desse conhecimento lingüístico, presumivelmente habilitado a infundir transposições. * * * Antes de 1957, ano de publicação da pequena e densa monografia Estruturas Sintáticas13 (doravante SS), a lingüística americana, com raras exceções, esteve até então centralizada sob um estilo de trabalho lingüístico, em geral, de cunho classificatório. Segundo tal concepção, outrora corrente, o trabalho da ciência lingüística consistia em analisar de forma objetiva o maior número possível de dados ou fatos da linguagem, de modo a agrupar e classificar sistematicamente tais eventos. A finalidade global era a de descobrir nessa massa de fatos uma organização inerente. Essa concepção de gramática se definiu pelo chamado 13 Pode-se dizer que Chomsky só foi reconhecido pela comunidade científica após a publicação de Estruturas Sintáticas, um livreto inspirado em notas de aula. Antes dessas notas, Chomsky já havia produzido um denso estudo sobre o hebraico moderno, como também outra importante tese a respeito da estrutura lógica da lingüística teórica. Nestes trabalhos, anteriores a 1957, já se encontram elementos gerais da teoria gerativa. Ou pelo menos de uma teorização in fieri. 22 paradigma taxionômico. (CHOMSKY, 1964, p. 52). Consoante a esse paradigma lingüístico, tratava-se de seguir um padrão cuja tarefa prevalecente era a classificação sistemática, ou o agrupamento ordenado de eventos lingüísticos exogêneos. Assim, “o trabalho do lingüista seria observar um grande número de enunciados, orais ou escritos, agrupá-los em diversos tipos, decompô-los em diferentes espécies de elementos (tais como palavras, morfemas, fonemas etc.) e classificar estes últimos em diversas categorias (partes do discurso, consoantes e vogais etc.)” (RUWET, 2001, p.17). A intervenção de Chomsky divergirá em muitos aspectos desse padrão mais ou menos geral de pesquisa, seguido pela lingüística americana. Teremos, a partir de então, novas tarefas de investigação para o campo – numa empreitada até mesmo contraposta à anterior - versadas, sobretudo, na busca de “leis ocultas e subjacentes” da linguagem. Uma prática que não é radicalmente nova na história dos estudos da linguagem, mas que se estabeleceria sobre novas e reforçadas bases formais14. O fato basilar da “nova” investigação da linguagem centrou-se no “falante nativo que tem a capacidade de compreender um número imenso de orações inéditas” (CHOMSKY; MILLER, 1972). As perguntas que se desenvolvem seguem- se num sentido subjetivo: Em que consiste exatamente esta capacidade de linguagem? De que modo se põe em funcionamento? Como surge no indivíduo? Nessas interrogações distinguimos o contorno da visível mudança de paradigmas, alteração que é considerada “revolucionária”. Segundo Searle (1974): sua revolução segue estreitamente o esquema geral descrito na obra de Thomas Kuhn A estrutura das revoluções científicas: o paradigma ou modelo aceito pela lingüística tem sido enfrentado – em grande medida por meio do trabalho de Chomsky – com um número cada vez maior de contra exemplos molestadores e dados recalcitrantes que era incapaz de explicar. (p. 17). A orientação metodológica do EA, que começava a ser obsoleta (em grande medida graças ao trabalho de Chomsky), previa que a tarefa do lingüista estava na minuciosa descrição de uma língua, fosse ela exótica ou conhecida - uma atividade até mesmo valiosa em si. Ao lingüista cabia o recolhimento dos dados da língua, reunindo-os em uma ampla gama de emissões, obtendo então um “corpus” 15. Esse conjunto representativo forma o objeto 14 John Searle defende que Chomsky se situa entre aqueles pensadores, tal como Freud, proponentes de um estudo do homem que se revele não apenas pela observação rigorosa da conduta, mas, sobretudo, que essas observações “são interessantes somente na medida em que nos revelam leis subjacentes, ocultas e possivelmente misteriosas, que se revelam a nós só parcialmente e de forma distorcida na conduta”. (SEARLE, 1974, p. 16). 15 O corpus em gramática descritiva estabelece-se através da análise de um conjunto de enunciados, esse conjunto é apenas a amostragem das características estruturais da língua em análise e não a própria língua. A extração do corpus representativo de uma língua figura-se sobre um número finito de enunciados produzidos. 23 de estudo da disciplina. Diferentes níveis lingüísticos16 permitiam a classificação do corpus em fonemas (elementos mínimos portadores de significado), morfemas (unidades sonoras funcionais), sendo que estes, em seguida, se aglutinavam na formação de palavras, sintagmas nominais e verbais. Num exemplo singelo: a palavra “sais” possui um morfema simples constituído por três fonemas. Já a palavra “desinteressado” constrói-se através de três morfemas: “des”, “interes”, “sado”. Tal imperativo descritivo foi motivado, se retrocedermos na história da disciplina, em parte pela necessidade de avaliação da grande quantidade de línguas existentes nos EUA no início do século XX17. A situação das línguas indígenas, foco principal do trabalho lingüístico americano no período, imprimia o caráter prático e urgente da atividade, pois, antes de mais nada, o objeto da disciplina estava sujeito ao desaparecimento. Tais línguas corriam o risco de se perderem na homogeneização lingüística desencadeada pela colonização. O registro e descrição dessas línguas tornaram-se imprescindíveis e, por essa razão, o desenvolvimento de “métodos de campo” descritivos foi fundamental no período. As técnicas de registro e interpretação (perseguidas pelos lingüistas) dos dados se tornaram mais rigorosas a cada dia, sobretudo do ponto de vista da pretensão de objetividade científica. Dessa maneira, em decorrência do contexto descrito, a teoria lingüística foi encarada por muitos estudiosos norte-americanos como uma “fonte de técnicas para a descrição” de línguas ainda não catalogadas. (LYONS, 1995). Chomsky criticou posteriormente os efeitos desse movimento sobre a lingüística como um todo, apontando um “eclipse da teoria”, dada a preocupação exacerbada com o refinamento de métodos de descoberta. A oclusão causada pelo trabalho classificatório deixara de lado a investigação daquelas propriedades mais gerais das sentenças, que todos os falantes e ouvintes regulares distinguem intuitivamente. Além do mais, o desencorajamento aos empreendimentos generalizadores levava ao risco de redução da lingüística a uma história natural. (CHOMSKY, 2007a, p.64). É certo que nem todos os lingüistas aderiram a esse paradigma, existem exceções notáveis, Edward Sapir é um exemplo. Positivamente, porém, a gama de variações que pode atingir as línguas humanas era (DUBOIS, 2001). 16 Nas primeiras gramáticas propostas por Chomsky a noção de nível lingüístico não foi abandonada, por isso, apesar da distância teórica que se instalou entre gerativistas e estruturalistas, existem ressalvas quanto ao abandono total da influência estruturalista nos primeiros trabalhos da gramática gerativa. Desse modo, não podemos dizer de maneira simples que sua proposta superou drasticamente o EA logo de início. Segundo José Borges Neto no princípio “o único ponto em que a proposta de Chomsky parece se distanciar das propostas estruturalistas é quanto ao número de níveis necessários para a descrição lingüística [...] aparentemente, para Chomsky, o acréscimo de um nível transformacional à ‘teoria lingüística conhecida’ (o estruturalismo americano, em outras palavras) é suficiente para torná-la adequada”. (BORGES NETO, 2004, p. 105). 17 No início do século XX a estimativa era de que cerca de 200 línguas indígenas ainda fossem faladas nos EUA. (WEEDWOOD, 2005). 24 eficazmente ressaltada e, assim, tornava-se crucial um certo “relativizar” no campo gramatical, já que as categorias gramaticais tradicionais não davam conta da descrição de línguas inteiramente novas. Franz Boas18 constatou o que hoje nos parece óbvio: toda língua possui uma estrutura gramatical distinta. A ocupação principal de qualquer lingüista estava em construir categorias de descrição que fossem compatíveis às variedades “de campo”. O estruturalismo lingüístico americano, na empreitada de classificação, assumiu, de certo modo, o caráter etnográfico e relativista da influência Boasiana. Tal foi a idiossincrasia geral do estruturalismo norte-americano do período. Há de se lembrar que essa tendência se inclui no vasto universo do chamado campo teórico estrutural. O estruturalismo tradicional, complexo e multifacetado19, indicou apenas um ponto de partida para o EA, que se constituía por características singulares. Todavia, até mesmo nos estudos lingüísticos realizados por Franz Boas, segundo Roman Jakobson, não podemos dizer que houve o abandono total da preocupação com os chamados universais da linguagem. De fato, tal conclusão afetaria a noção relativizadora de cultura desenvolvida pelo antropólogo. Boas distinguiu categorias relacionais que seriam obrigatórias para todas as línguas A forma por meio da qual essas relações se exprimiam certamente variava, sua concepção de gramática se constituía por elementos necessários (formais). Esse é, por exemplo, o caso da distinção entre sujeito e predicado, ou entre predicado e atributo, e até mesmo da referência gramatical ao remetente e ao destinatário. Em outras palavras “esse problema de categorias gramaticais indispensáveis e universais foi esboçado por Boas e por seu indagador discípulo Sapir (1921) em desafio à aversão dos neogramáticos por toda pesquisa de leis universais; tornou-se um problema crucial para a Lingüística, hoje” (JAKOBSON, 2003, p. 91). Depois de Franz Boas a lingüística americana encontrou grandes contribuições, concentradas em dois expoentes capitais: Leonard Bloomfield (1887-1949) e Edward Sapir (1884-1939). Bloomfield exerceu grande autoridade na tentativa de tornar a lingüística uma 18 Franz Boas (1858-1942), nascido na Prússia, e mais tarde radicado nos EUA, estudou inicialmente física, e interessou-se posteriormente por Antropologia. Foi um dos responsáveis pela fundação da revista American Anthropologist (1899). Dentre os vários livros de Boas encontra-se o famoso Handbook of North American Languages. Boas foi responsável por diversos estudos envolvendo a construção de gramáticas para as línguas nativas americanas. 19 Um exemplo notório dessa complexidade está nos trabalhos de Roman Jakobson. Segundo Chomsky “Roman Jakobson sempre se preocupou com os universais lingüísticos que estrangulam estreitamente a classe de linguagens possíveis, especialmente na fonologia”. Ao contrário de outros autores, que também se encontram sobre a insígnia da “lingüística estrutural”, como Martin Joos, que chegou “a ponto de declarar como proposição geral da ciência lingüística, que as linguagens podem diferir uma da outra de maneira arbitrária. Quando falam de ‘universais’, isso envolve uma caracterização muito limitada, talvez algumas observações estatísticas”. (CHOMSKY, 2007a, p. 81). Como vemos, a crítica ao estruturalismo deve ser feita com cautela, sem generalizações simplificadoras. 25 ciência autônoma. O termo “ciência”, em sua concepção, recebia um sentido específico. Aqueles aspectos “volitivos” da linguagem, cognitivos principalmente, não eram vistos como suscetíveis à elaboração científica rigorosa, logo, se tornavam descartáveis. Os trabalhos de Sapir, contudo, centravam-se na característica claramente humana e não puramente instintiva da linguagem. Curiosamente, algumas das perspectivas relativas ao estudo da linguagem, adotadas por Sapir, se aproximariam mais tarde daquelas desenvolvidas e aperfeiçoadas por Chomsky20. A influência de Sapir, contudo, não teve grande penetração no EA. Já as idéias de Bloomfield passaram pelo processo de escolarização, graças, sobretudo, a “boa” reputação científica conferida a essas. O sentido que Bloomfield conferia ao termo “científico” tornou-se praticamente lugar-comum. Havia, no termo, um conceito behaviorista clássico de ciência que estabelecia para a lingüística, axiomaticamente, a conduta de rejeição de todos aqueles dados que não fossem diretamente observáveis e mensuráveis fisicamente. Tal opinião era a mesma seguida pela metodologia científica da psicologia comportamental de J. B. Watson. Essa metodologia rejeitava veementemente a necessidade de postulação de qualquer ocorrência que não fosse observável. Quando o assunto envolvesse a explicação das atividades e capacidades volitivas dos seres humanos, classificadas pela tradição como “racionais” ou “mentais”, normalmente despachavam-se tais influências pela pecha de “questões extra-científicas” (BLOOMFIELD, 1973). A descrição e explicação do comportamento de qualquer organismo eram necessariamente uma tarefa a cargo de respostas aos estímulos oriundos do ambiente. Essas respostas comportamentais eram explicadas pelas leis da física e da química, assim como explicamos as “respostas” de um termostato às variações de temperatura. (BLOOMFIELD, 1973). Leonard Bloomfield adota o behaviorismo clássico de John B. Watson como estrutura geral a ser seguida pela teoria lingüística. Sua concepção da forma lingüística, por exemplo, encontra-se diretamente relacionada aos acontecimentos chamados “práticos”, que envolvem situações concretas de fala, capazes de despertar respostas em um ouvinte: “Por suposto, é verdade que a ciência só pode versar sobre fatos que exijam uma resposta verbal por parte de alguma pessoa – em último caso, do cientista que se ocupa de um fato dado” (BLOOMFIELD, 1973, p. 35). Para uma descrição científica do universo lingüístico, segundo Bloomfield, não é 20 Cf. CHOMSKY, 2007a, p. 121. 26 necessário nenhum termo mentalista, pois os argumentos com que se pretende embasar a descrição existem somente à margem da linguagem fatual. A linguagem, - como quaisquer outros aspectos da atividade humana - se está de acordo com a ciência, ocupa-se somente daqueles fatos acessíveis no tempo e espaço (mecanicismo), e compõe-se, dessa forma, apenas de enunciados e predicados iniciais que conduzam até operações práticas definidas (operacionalismo). Esses termos, enfim, derivam de uma rígida definição de acontecimentos cotidianos, concernentes aos eventos físicos (fisicismo). (BLOOMFIELD, 1973). De acordo com essa concepção “científica” da lingüística, prescrita por Bloomfield, em uma situação simples de utilização da linguagem é possível observar o que há para se examinar: imaginemos que João e Maria estão passeando, Maria avista maçãs numa árvore e, estando com fome solicita que João apanhe algumas das maçãs; João dá à Maria uma das maçãs; Maria a come. Tal seria um exemplo de acontecimento científico normal, fatual. Na descrição behaviorista de Bloomfield, temos: fluídos são segregados na boca de Maria, indicando a presença da fome, a onda de luz que percorre o sistema visual de Maria lhe dá a imagem da maçã, constituindo assim um estímulo. A resposta de Maria ao estímulo é o de subir imediatamente atrás do fruto. Porém, ela dá uma resposta em substituição, sob uma seqüência de ruídos, que chegam até João. João age como se ele mesmo estivesse com fome, atendendo ao estímulo substitutivo. (LYONS, 1995). Certamente, tal exemplo deixa muito a desejar, principalmente pela simplicidade. Por isso mesmo Lyons, que cita esse exemplo, restringe o argumento à visão behaviorista clássica incorporada por Bloomfield: o exemplo em questão não caberia a muitas escolas desse ramo da psicologia, trata-se portanto de uma excepcionalidade. Tencionamos através desse rápido exemplo, citado por Lyons, ilustrar o que se entendia por “atuação da linguagem em uma situação prática”, isto é, trata-se de localizar o chamado processo de substituição (lingüístico) em relação a outros tipos de comportamento não simbólico. Na sintaxe e na fonologia o argumento behaviorista de Bloomfield não obteve tanto sucesso. Porém, sua apresentação científica influenciou profundamente a lingüística no sentido de uma metodologia empirista restrita. (Cf. BLOOMFIELD, 1973). Mesmo com o insucesso da sua semântica, Bloomfield buscou construir um estudo do significado através do behaviorismo. Porém, certo pessimismo surgiu, a descrição científica dos significados exigia a exposição de inúmeros eventos práticos, capazes de atuar como substitutos. Um grande número de palavras (referentes a plantas, animais etc.) encaixava-se na descrição, porém, outras (como ódio, amor) não possuíam definição semelhante. Diante da dificuldade relativa ao processo de construção do significado, 27 Bloomfield afirmava que bastaria uma compreensão superficial desse, ou seja, bastava saber se duas formas enunciadas eram as mesmas ou diferentes, pois as considerações de ordem semântica limitavam-se estritamente à tarefa de identificar as unidades de fonologia e sintaxe e de modo algum diziam respeito à especificação de regras ou princípios disciplinadores de suas permissíveis combinações. Essa parte da gramática devia constituir um estudo puramente formal, independente da semântica. (LYONS, 1995, p. 34). Assumindo as preocupações de Bloomfield, o lingüista Zellig Harris, professor do jovem Chomsky, buscou aperfeiçoar os chamados procedimentos de descoberta para a descrição gramatical, sustentando que a fonologia e a sintaxe deveriam ser, de fato, descritas de maneira formal, sem referência às questões semânticas. A linguagem era, então, concebida como um instrumento de “transporte” ou de “expressão de significados” através de estruturas sintagmáticas. A tarefa possível e desejável da lingüística consistia, simplesmente, na descrição formal desse processo sintagmático instrumental de expressão dos significados. Para a semântica restava descrever o emprego da linguagem, a sintaxe designava o centro da análise lingüística. Em 1957, com a publicação de Syntatics Structures, Chomsky ainda se situava de certa maneira sob a influência dos trabalhos de Harris e Bloomfield.21 Nesta publicação, por exemplo, nada fala sobre o racionalismo ou idéias inatas. Finalmente, podemos nos perguntar: qual a divergência ou contraste exposto pela dissertação de SS capaz de torná-la revolucionária? Como já citamos, a ênfase inovadora de SS encontrava-se na preocupação com os aspectos mentais (intuitivos) da linguagem, que estavam até então, parcialmente fora de questão para Harris e Bloomfield. Junto desse aspecto, SS trazia o argumento de que apenas a acumulação de observações ou de experiências de classificação não era possível para induzir rigorosamente uma teoria da linguagem. No julgamento de Chomsky a lingüística estrutural (tomado aqui a devido cuidado com a heterogeneidade do termo “lingüística estrutural”) já havia acumulado conhecimentos satisfatórios que permitiam ultrapassar o estágio classificador da ciência lingüística. Podíamos produzir gramáticas explícitas das línguas particulares e, ao mesmo tempo, determinar a forma dessas gramáticas (modelo do mecanismo geral da linguagem): “Uma teoria lingüística 21 De acordo com Roman Jakobson em SS “Chomsky fez uma tentativa engenhosa de construir uma ‘teoria completamente não-semântica da estrutura gramatical’. Esse intrincado experimento constitui realmente um magnífico argumentum a contrario, particularmente útil às investigações em curso acerca da hierarquia das significações gramaticais” (JAKOBSON, p. 93, 2003). Veremos mais adiante que Chomsky fez ressalvas a uma teoria não-semântica da sintaxe. 28 não deve ser identificada como um manual de procedimentos úteis, nem se deve esperar que forneça procedimentos mecânicos para a descoberta das gramáticas” (CHOMSKY, 1957). Chomsky insistia, no terceiro capítulo de SS, denominado “Sobre os objetivos da teoria lingüística”, que a criatividade humana empregada no uso cotidiano da linguagem deveria ser objeto de maior atenção por parte dos lingüistas22. O fato de um falante normal exprimir sentenças jamais faladas antes exigia maior prudência por parte dos investigadores. Por mais que os procedimentos de descoberta fossem aprimorados, pela descrição ou simples taxionomia - o que consistia em registrar os pronunciamentos - não se dava conta desses fatos corriqueiros até para uma criança. (CHOMSKY, 1957). Na monografia de 1957, portanto, a tarefa da lingüística torna-se a de sugerir mecanismos subjacentes à habilidade humana de detectar e resolver as ambigüidades entre sentenças. Essas regras ou princípios jamais poderiam emergir de um estudo das expressões em si (pela indução). Tais regras constituíam o principal desafio da formalização lingüística, pois deveriam ser expressas, nesse caso, dedutivamente. Segundo Otero, “Chomsky levou vários anos para entender que nenhum processo indutivo já proposto poderia conduzir, a partir do tipo de dados que estão disponíveis à criança, aos princípios de abstração exigidos na teoria da linguagem” (OTERO apud BARSKY, 2004, p. 106). Chomsky relata o momento crucial dessa “virada” intelectual, desse insight, numa passagem curiosa e surpreendente de sua carreira: em retrospecto, não consigo compreender por que demorei tanto para chegar a essa conclusão, lembro-me exatamente do momento no qual me senti convencido. A bordo de um navio no meio do Atlântico, ajudado por um surto de enjôo, em uma banheira instável que inclinava visivelmente - ela tinha sido afundada pelos alemães e fazia a primeira viagem depois de ser recuperada. De repente, pensei que havia uma boa razão - a razão óbvia - pela qual tantos anos de trabalho intenso destinados a melhorar os procedimentos de descoberta tinham dado em nada, enquanto o trabalho que eu fizera no mesmo período na gramática gerativa e na teoria explanatória, em isolamento quase completo, parecia estar chegando constantemente a resultados interessantes. Depois que reconheci isso, o progresso veio rapidamente. Nos dezoito meses seguintes escrevi o LSLT, que tinha cerca de mil páginas impressas, quase tudo o que continha o Syntactic Structure, o paper para a Texas Conference de 1958 e assim por diante. (CHOMSKY, 2007, p. 133). Como exemplo da mudança de perspectiva temos a análise da língua inglesa que, por exemplo, como qualquer língua natural, está firmada em um número de sentenças que se 22 A formalização das regras sintagmáticas, propostas por SS, não significou uma explicação cabal para o comportamento lingüístico. A questão é pontual: trata-se de estudar aquelas intuições que não podem ser tratadas por analogia. Voltaremos ao tema da criatividade lingüística e da explicação do comportamento normal dos falantes. 29 proliferam de maneira infinita. A tarefa do lingüista está em ocupar-se qualitativamente desse número amplo de sentenças que constituem a linguagem e não apenas extrair daí um corpus representativo (quantitativo). Para Chomsky, a gramática de uma língua “gera” todas as sentenças da língua, ou seja, não separa as sentenças que foram emitidas daquelas que permanecem inéditas. A gramática deverá, assim, estar equipada por um aparato formal capaz de explicar todas as sentenças gramaticais aceitáveis de uma língua. (CHOMSKY, 1957). Segundo Chomsky, a tradição de Harris e Bloomfield “pensava na lingüística como um conjunto de procedimentos para organizar textos e opunha-se fortemente à idéia de que haveria algo real a ser descoberto” (CHOMSKY apud BARSKY, 2004, p. 73). A partir de SS a concepção lingüística de Bloomfield e Harris, que havia sido adotada amplamente, entra em declínio23. Os comportamentos lingüísticos, em sua totalidade comunitária, não eram mais tomados como objetos de estudo em si próprios, e a língua, que era recolhida pelo corpus representativo e minuciosamente descrita pelos instrumentais dos procedimentos de descoberta, não é mais tomada como “corpora representativos”. Chomsky supõe a existência de algo anterior “à língua dos estruturalistas: a capacidade que os falantes têm de produzir exatamente os enunciados que podem ser feitos” (BORGES NETO, 2004, p. 99, grifo do autor). Este novo trabalho não partia de procedimentos de descoberta, as regras da gramática tornam-se holísticas: as regras de estrutura da frase podem gerar representações da estrutura sintática com bastante êxito [...] para uma grande variedade de expressões, e foram introduzidas com esse propósito no primeiro trabalho sobre gramática gerativa. Entretanto, ficou imediatamente claro que as regras de estrutura da frase [...] por si só são insuficientes para justificar apropriadamente a variedade de estruturas da sentença. O enfoque inicial desse problema, que tem uma série de variantes subseqüentes e correntes, era o de enriquecer o sistema de regras, introduzindo categorias complexas com características que podem ‘tomar a forma de’ categorias nelas contidas, expressando dependências globais não captadas em um simples sistema de regras de estrutura da frase [...] Eu adotei esse enfoque em um trabalho de conclusão de curso em 1949, modificando idéias de Zellig Harris a partir de uma estrutura um tanto diferente. (CHOMSKY, apud BARSKY, 2004, p. 74). Podemos avançar nesse ponto, anacronicamente, a fim de melhor elucidar a questão ao leitor. Chomsky, em 1986 24, empreendeu um recenseamento dos seus mais de 30 anos de pesquisas sobre a linguagem (contados até aquele período), publicado sob o título de “O 23 Essa mudança, porém, no sentido que expomos, estava em 1957 restrita ao “papel” e à mente de Chomsky. A batalha de idéias na Sociedade Lingüística Norte-Americana durou pelo menos 3 anos, foi só depois de um longo tempo que a comunidade intelectual se “dividiu” ao longo de seus congressos anuais. Robert Barsky apresenta uma detalhada e instrutiva história sobre essa “batalha de idéias”, da qual a Texas Conference foi o grande palco. (BARSKY, 2004, p.129 e p. 120). 24 Cf. CHOMSKY, 1994. 30 conhecimento da língua”. Nesta obra, encontramos a clara definição do que se pretendia em SS. Chomsky defende que, naquele momento (1957), o sentido da mudança de foco demonstrava que a comunidade lingüística, como sabemos desde Saussure, possui um conhecimento compartilhado sobre os diversos enunciados que podem ou não ser produzidos, o que deveria ser abordado era justamente esse conhecimento. O corpus representativo é apenas o resultado desse conhecimento, apoiado na criatividade lingüística que habilita os falantes a compreender e produzir sentenças a que nunca foram expostos anteriormente: a gramática generativa mudou o foco de atenção do comportamento lingüístico real ou potencial e dos produtos deste comportamento para o sistema de conhecimento que sustenta o uso e a compreensão da língua, e, mais profundamente, para a capacidade inata que permite aos humanos atingir tal conhecimento. (CHOMSKY, p. 43, 1994).25 Chomsky enfatizava que se deveria tentar entender “que tipo de sistema é a linguagem”, sendo que as conclusões sobre esse sistema precisavam ser explicadas em termos de notações próprias de um sistema formal. Dessa maneira a análise buscava a postulação de regras que pudessem explanar a respeito da produção das sentenças como produção de qualquer sentença possível. Essas regras, de base, não deveriam gerar nenhuma sentença agramatical, pois “uma vez que o sistema tenha sido estabelecido, dever-se-ia então examinar expressões particulares para determinar se podem, de fato, ser adequadamente geradas através da adesão às regras do sistema lingüístico” (GARDNER, 2003). Ou seja, as abstrações das regras formais geradoras deveriam ser adequadas àquelas expressões reais da língua. A concepção gramatical de 1957 vai além da descrição de um corpus, pois tem por fim descrever não um número representativo e finito de enunciados, mas ao contrário, coloca- se em questão aquela capacidade dos sujeitos de produção infinita e indefinida de frases possíveis: a gramática gerativa não parte do corpus, mas da capacidade do sujeito de produzi- lo Em SS se consegue, finalmente, a proposição de uma nova concepção de estrutura lingüística. O trabalho de avaliação do melhor corpus (procedimento de avaliação ou descoberta) já não era razoável para a explicação de pontos tais como a criatividade na produção infinita das expressões. Deste jeito, a estrutura gramatical deveria tornar-se mais complexa. Chomsky constata que 25 Conforme José Borges Neto “podemos dizer, então, que já se delineava nos primeiros trabalhos de Chomsky um objeto psicológico para os estudos lingüísticos, embora Chomsky não explicitasse isso. Em outras palavras, os ‘estados da mente/cérebro’ [...] já eram vislumbrados” (BORGES NETO, 2004, p.100). 31 a maioria das propostas mais rigorosas de desenvolvimento da teoria lingüística [...] tentam formular métodos de análise que um investigador poderia efetivamente utilizar se dispusesse do tempo suficiente para construir uma gramática de uma língua diretamente a partir de dados brutos. Parece-me muito discutível que este objetivo seja alcançável de forma minimamente interessante e suspeito de que qualquer tentativa neste sentido conduza a um intrincado conjunto de processos analíticos cada vez mais elaborados e complexos que não estarão aptos a fornecer soluções para muitas questões relevantes sobre a natureza da estrutura lingüística.(CHOMSKY, 1957, p. 58).26 Dessa maneira, o corpus não é mais a representação exata da estrutura da língua. O que Chomsky propõe, de forma original, é a idealização a partir de fatos brutos, na qual se eliminam todas aquelas expressões não gramaticais capazes de serem interpretadas como não aceitáveis para os falantes. A sintaxe pode, além disso, ser examinada separadamente em relação a outros aspectos da linguagem. Para concretizar o projeto, buscou-se demonstrar como os métodos existentes para analisar a sintaxe e explicar sentenças aceitáveis não funcionavam. As chamadas gramáticas de estado finito – tal como máquinas que na posse de estados internos limitados geram sentenças – são inapropriadas para expressar as propriedades recursivas do inglês. Isto é, uma gramática de estados finitos não pode gerar frases nas quais uma oração esteja introduzida em outra, pois excluem cadeias que contradigam estas dependências. As gramáticas de estado finito não captam a ligação estrutural de sentenças que costumam recorrer indefinidamente a certas conformações lingüísticas, tal como na inserção de uma oração dentro de outra (o rapaz que a mulher que viu o cão que...). Essas sentenças são difíceis de manejar no exercício cotidiano, porém, são estritamente gramaticais e não captáveis pelas máquinas. De um ponto de vista mais geral, a língua inglesa, conforme se observou, não opera colocando em posição uma palavra e em seguida indicando aquelas que podem seguir “à direita” dessa. Na prática, as sentenças são construídas de modo mais abstrato, recorrendo a situações onde orações (sintagmas) podem ser recolocadas inteiras dentro de outros elementos. Chomsky, do mesmo modo, também questionou a gramática estrutural de análise de constituintes imediatos. Nesta gramática dispõe-se de um conjunto finito de estruturas de frases ou regras de reescrita. Esses sistemas geravam imperfeitamente as frases, não conseguindo explicar regularidades que qualquer falante normal percebe com facilidade. 26 No original: “As I interpret most of the more careful proposals for the development of the linguistic theory, they attempt to meet the strongest of these three requirements. That is, they attempt to state methods of analysis that an investigator might actually use, if he had the time, to construct a grammar of a language directly from the raw data. I think that it is very questionable that this goal is attainable in any interesting way, and I suspect that any attempt to meet it will lead into a maze of more and more elaborate and complex analytic procedures that will fail to provide answers for many important questions about the nature of linguistic structure”. (CHOMSKY, 1957b, p. 53). 32 Por exemplo, uma gramática estrutural de constituintes imediatos não consegue explicar a diferença entre estruturas como What are you looking for? [O que você está procurando] e What are you running for? [Por que você está correndo?]. A gramática em questão só pode ser escrita à medida que recorre às várias reafirmações já estipuladas, o que a torna demasiadamente extensa. Isso mostra sua inabilidade em explicar a ligação sintática lógica entre as estruturas. Deste modo, acaba compondo-se de partes de orações que são continuamente copiadas, de forma mecânica. O falante normal, como sabemos, lida com um verdadeiro turbilhão de novas orações a cada momento e, na prática, o uso da linguagem é bem mais complexo do que pretendiam tais gramáticas, que não conseguiam captar de maneira satisfatória o uso de estruturas jamais vistas ou geradas antes. Segundo o que nos diz Chomsky, nesses procedimentos, em um “sentido interessante, se tudo o que está em discussão é uma forma de organização de dados, então, só podem [levar a] resultados que não são nem bons nem maus, aparte considerações mínimas de redundância ou consistência” (CHOMSKY, 2007a, p. 122)27. Há nesse procedimento estrutural um vácuo, incapaz de avaliar os resultados, ninguém poderia estar certo ou errado ao arranjar dados em um “vácuo teórico”. A rejeição explícita dos aspectos psicológicos deixa o empirismo estruturalista numa situação estranha: “A rejeição explícita de um compromisso como esse torna muito difícil chegar a uma interpretação de boa parte desse trabalho - que poderia encontrar sua fundamentação nesta interpretação” (CHOMSKY, 2007a, p. 122)28. Para Harris, por exemplo, as transformações eram relações sistemáticas entre sentenças, entre "estruturas superficiais", por assim dizer. Uma transformação gramatical, para Harris, envolve um par caótico de estruturas lingüísticas, tomadas pela análise como estruturalmente equivalentes. Harris sustentava que as estruturas dos dois lados da seta (na expressão descrita no quadro abaixo) são análogas, pois, se elegemos um dado concreto, como por exemplo, a palavra João, representada por Nx e um substantivo como Maria, expresso por Ny, junto de um verbo V (ver), e se nesse caso aplicamos a substituição nos dois lados da fórmula, temos: à esquerda, “João vê Maria” e, à direita, “Maria é vista por João”. Essas sentenças, por conseguinte, terão o mesmo grau de aceitabilidade ou de equivalência estrutural. (CHOMSKY, 2007a, p. 124): 27 No original: “in any interesting sense, if all that is at stake is a way of organizing data; then there can only be results that are neither good nor bad, apart from minimal considerations of redundancy or consistency”. (CHOMSKY, 1977, p. 119). 28 No original: “The explicit rejection of such a commitment makes it very difficult to arrive at such an interpretation of much of this work – which might find its rationale in this interpretation”. (CHOMSKY, 1977, p. 119). 33 Nx V Ny Ny é Ved por Nx Fig. 01 As equivalências estruturais eram importantes para Harris, que buscava a normalização e/ou organização do discurso. Dessa maneira, se temos uma sentença na língua, com uma das duas formas, da direita ou da esquerda, podemos substituí-la pela sentença correspondente à forma reguladora equivalente. Nesse procedimento de análise procura-se distribuir as relações ou similaridades presentes na fala. Como resultado temos a lingüística descritiva de um “sistema de elementos ampliados” pertencentes a “um dialeto particular” (HARRIS, 1951). Do chamado transformacionalismo de Harris, chegamos à idéia básica para a análise do discurso, afinal continuando a aplicar essas transformações de equivalência a um discurso, podemos reduzir as sentenças a formas similares, às quais os procedimentos de substituição desenvolvidos para a gramática das frases podem ser aplicados. Podemos também construir classes de substituição de palavras que têm mais ou menos o mesmo papel no discurso. Essas categorias de discurso não devem ser confundidas com as categorias léxicas ou frasais da língua. Essa é a idéia básica da ‘análise do discurso’. (CHOMSKY, 2007a, p. 124).29 Qual a diferença dessa análise para a de Chomsky? No nível teórico, uma característica fundamental das transformações de Harris é a de que cada uma das transformações se estabelece de forma independente em relação a outros aspectos mais gerais da gramática. Ou seja, cada transformação é estendida para o discurso através da observação e evidência. Mas cada relação estabelecida entre as transformações existe de maneira independente do que é falso ou verdadeiro para o resto da linguagem. No procedimento de Harris uma transformação é, com efeito, uma generalização sobre a aceitabilidade das ocorrências de duas formas de frases, e a generalização factual é verdadeira ou falsa muito separadamente de qualquer coisa que possamos descobrir subseqüentemente sobre a linguagem em questão ou a teoria da linguagem, ou de qualquer outra fonte - concepção não por exemplo, um experimento psicológico. Essa atitude é natural na abordagem geral do ‘Meethods’ de Harris - uma psicológica da lingüística. 29 No original: “By continuing to apply these equivalence transformations to a discourse, we can reduce the sentences to similar forms, to which the substitution procedures developed for the grammar of sentences can be applied, and we can construct substitution classes of words that play more or less the same role in discourse; these discourse categories must not be confused with the lexical or phrase categories of the language. This is the basic idea of ‘discourse analysis”. (CHOMSKY, 1977, p. 121). 34 (CHOMSKY, 2007a, p. 124)30. Harris não parte da idealização, conforme faz Chomsky, pois no seu transformacionalismo, renuncia-se à idéia de que a linguagem de certa comunidade possa ser apreciada como um conjunto definido de sentenças dotadas de estruturas, vinculadas às marcações de princípios gramaticais verdadeiros ou falsos. Dessa forma, a análise transformacional de Harris é simplesmente uma maneira diferente de descrever um conjunto de observações coletadas. Portanto, continua a ser cômoda ao paradigma da descrição, já que parte da transformação como generalização de dados. Através dos dados expõem-se propriedades, no caso em questão (fig. 01), temos a chamada “propriedade de igual aceitabilidade sob a substituição sistemática”. Há portanto, nesse procedimento, uma diferença sensível em relação às teorias das ciências naturais31, para as quais duas teorias podem estar em conflito mesmo se concordam sobre os dados disponíveis e o cientista, então, vai procurar novos dados para escolher entre as duas, prosseguindo de acordo com a admissão "realista" de que aquilo que as teorias alegam sobre as entidades nelas apresentadas é verdadeiro ou falso e, portanto, suscetíveis a novos testes. Mas Harris, pelo menos no início da década de 60, assumiu a posição de que as descrições lingüísticas alternativas não podem estar em conflito nesse sentido. (CHOMSKY, 2007a, p. 125)32. Ainda que “descritivista”, foi através do trabalho de Zellig Harris que Chomsky conseguiu indicar uma série de regras a partir das quais as sentenças podem ser relacionadas formalmente umas às outras, em transformações cujas representações são abstratas e coordenadas. A nova gramática transformacional, então proposta por SS, continha um sistema de regras formalizadas matematicamente, capazes de gerar as sentenças da língua caracterizada, onde cada sentença nova recebia uma descrição estrutural ou análise gramatical. 30 No original: “A transformation is in effect a generalization about the acceptability of instances of two sentence forms, and that factual generalization is true or false quite apart from anything we many subsequently discover about the language in question or the theory of language, or from any other source – say psychological experiment. This account is a natural one within the general approach of Harris’s Methods – a no psychological conception of linguistics”. (CHOMSKY, 1977, p. 122) 31 Chomsky lembra que sua concepção de estrutura pretende ultrapassar uma concepção de ciência naturalista e classificatória, preocupada em descrever e arranjar eventos. Trata-se agora de estabelecer uma “ciência natural”, na qual a geração é uma tarefa da linguagem humana. A melhor formulação da gramática é explicada se corresponde aos fatos desencadeados legitimamente. 32 No original: “In the natural sciences, two theories may be in conflict even if they agree on available data, and the scientist will then search for new data to choose between them, proceeding on the ‘realist’ assumption that what the theories allege about the entities postulated in them is true or false, and therefore susceptible to further test. But Harris, at least through the early sixties, took the position that alternative linguistic descriptions cannot be in conflict in this sense”. (Ibid, p. 122). 35 Através da expressão algébrica, exemplifica-se a referida geração: tomemos 2x+3y-z, por exemplo, em que x, y e z são variáveis. Devido a essa expressão, pode-se apontar um infinito conjunto de valores a serem gerados. Caso as regras indiquem resultados absurdos frente aos dados, a gramática será descartada: “A concepção de Chomsky a respeito das regras de gramática é similar. Devem elas ser tão precisamente especificadas – formalizadas é o termo técnico – quanto as regras da aritmética” (LYONS, 1970, p. 43). Essas regras são capazes de gerar a mesma sentença mais de uma vez. Já não são meras organizadoras do discurso, são hipóteses sobre a gramática gerada pelos falantes. Para ilustrar ao leitor um procedimento simples de um conjunto gerado por funções, devemos citar, mesmo que de passagem, a base de operação de um sistema recursivo elementar. Um sistema recursivo trivial consta de um símbolo axiomático inicial e de suas regras. Como exemplo, tomemos o axioma S: (1). Axioma Inicial: S R.1. S W R.2. W W + W Fig. 02 A flecha interpreta a instrução de reescrever o símbolo da esquerda à direita, pela cadeia de símbolos da direita. Ao aplicar a primeira regra R.1, obtemos a linha W; ao aplicarmos a segunda regra R.2, obtemos a linha W+W (o sinal de + é apenas um símbolo de concatenação). Ao aplicarmos novamente a segunda regra R.2 (substituindo um caso W pela cadeia W+W ), obtemos a cadeia W+W+W e, consecutivamente, obtemos: 1. W (ao aplicar R.1) 2. W+W (ao aplicar R.2) 3. W+W+W (ao reaplicar R.2 na linha anterior) 4. W+W+W+W (ao reaplicar R.2 na linha anterior) Fig. 03 Deste modo segue continuamente. Em suma, a aplicação continuada dessas regras enumera ou especifica tecnicamente o que se diz por “gerar”, para um conjunto infinito de cadeias da forma W, WW, WWW, WWWW... (abstraindo o sinal + como símbolo da concatenação). Em outras palavras, essas regras constituem uma diminuta “gramática gerativa” e as cadeias e símbolos “gerados” por essa gramática em miniatura são um exemplo extremamente simples, por suposto, da “língua” (OTERO, 1973, p. 153). 36 As sentenças não-gramaticais podem ser explicadas à medida que o estabelecimento das regras da gramática corresponder ao conhecimento dos falantes. De tal modo, saberemos quais frases são ou não permitidas na geração. Por essa razão a gramática deve gerar “todas e somente” as sentenças da língua. Tal ambição constitui o “ideal” a ser alcançado por qualquer lingüista. Há aqui um procedimento de teste da melhor opção a ser gerada pelo indivíduo, visto que não se trata mais de somente descrever ou organizar o discurso. Notemos ainda que a formalização de uma gramática corresponde, até o momento, a um sistema recursivo para línguas específicas. A gramática transformacional, dessa maneira, propunha sentenças-núcleo que, seguindo um conjunto de instruções, constroem infinitas sentenças. Por exemplo, as Regras Sintagmáticas formam Indicadores Sintagmáticos, e estes, por decorrência, são representações que manifestam estruturas categoriais, compostas por sintagma nominal, sintagma preposicional, frase, etc. Chomsky admite que esse formato proposto para as regras já era adotado na “gramática tradicional descritiva e histórica”. A novidade, porém, estava na reformulação dessas em termos das idéias desenvolvidas na teoria da computação, tais como das funções recursivas. O conjunto infinito de estruturas, geradas por um sistema de regras finito, bastava para representar a estrutura sintagmática. No caso que adotamos como exemplo, tratam-se das frases mais simples praticáveis. As representações sintagmáticas geradas eram, então, associadas à forma fonética (sucessão de regras de alteração de som). Já os itens lexicais são dados de maneira abstrata na representação da estrutura sintagmática, pois esses itens são convertidos na sua forma final graças à aplicação de regras fonológicas e fonéticas. Citamos abaixo um sistema de regras sintagmáticas simples, conforme o exemplo de Chomsky (1986): 33(2) (i) F SN SV (ii) SV V SN (iii) SN DET N (iv) SN N (v) V hit (vi) N boy (vii) N John (viii) DET the (ix) X ... 33 Sugerimos aqui, a fim de ilustrar o esquema para o leitor, um sistema de regras sintagmáticas em língua portuguesa: (1) Sentença = Frase Nominal (Noun Phrase) + Frase Verbal (Verb Phrase); (2) Frase Nominal = A + N; (3) A = o, a, os, as (the); (4) N = homem, bola; (5) Frase Verbal = Verbo + Frase Nominal; (6) Verbo = bater, pegar; etc. Cf. GARDNER, 2003. 37 As regras (i) e (iv) são moderações sintáticas; (ii), (iii), (vi) e (viii) são símbolos únicos; em (vii) e (v) temos entradas lexicais. O símbolo (ix) representa as regras léxico- fonológicas que associam palavras como hit, boy, etc. Pelo que se deduz o indicador sintagmático (3) é gerado pelas regras sintagmáticas de (2): (3) [F [SN [N John] ] [ SV [V hit ] [ SN [DET the] [N boy] ] ] A idéia central é que a sentença John hit the boy, um indicador sintagmático, como qualquer outra sentença da língua inglesa, recebe um conjunto de representações, que podem ser reconstruídas por uma regra imediatamente anterior. Assim, podemos dizer que (F), no caso a sentença (3), é constituído por um sintagma nominal (SN), acompanhado por um sintagma verbal (SV). Os sintagmas nominais possuem nomes próprios (N) e os sintagmas verbais acoplam (V), etc. A sentença (3) pode ser descrita conforme o sistema de parênteses (acima exposto) ou em forma de árvore, como no exemplo que se segue: (3) F SN SV N V SN DET N John hit the boy Fig. 04 As primeiras gramáticas propunham 2 tipos de regras: regras sintagmáticas e regras transformacionais. As regras sintagmáticas, como em (2), formam os indicadores sintagmáticos, tal como a forma em árvore (3). Ou seja, os indicadores são representações em que se estipulam estruturas categoriais (sintagmas nominais, verbais, etc.). As regras 38 transformacionais convertem os indicadores sintagmáticos (representações) noutros indicadores sintagmáticos, por exemplo, em formas como passiva, interrogativa, etc. Nota-se que esse formato é, até certo ponto, uma adaptação da gramática tradicional, porém, muito mais rico e complexo, pois a gramática de Chomsky incorpora funções recursivas e algorítmicas. (CHOMSKY, 1994). Se as regras sintagmáticas de (2) geram infinitas representações, o que se revela aqui é a nova estrutura de que falávamos: a estrutura sintagmática. As regras que originam essa estrutura recebem restrições através da teoria das funções recursivas. As representações geradas pelas regras são “revestidas” foneticamente. Ou seja, o lugar do léxico (N), abstrato na representação da estrutura sintagmática, recebe um item qualquer com a sucessão de sons próprios das línguas naturais. Para descobrirmos, por exemplo, se (3) é gerado (bem formado) por um determinado sistema de regras, Chomsky nos diz que devemos assumir a convenção de que uma sub parte de um indicador sintagmático com a forma [xY] é substituída por X. Desse modo: “se o sistema de regras contiver a regra X Yˣ, este processo repete- se e, se o resultado for um símbolo único, [então] o indicador sintagmático é gerado pelo sistema de regras” (CHOMSKY, 1994, p. 73). Por exemplo, aplicando a (3) as regras lexicais (v)-(vii) do sistema (2) podemos substituir [N John] pelo termo N, [V hit] por V, e assim por diante, até que tenhamos a forma (4): (4) [F [SN N] [SV V [SN DET N]]] Se continuarmos a aplicar as regras (2iv) e (2iii) à (4), teremos (5): (5) [F SN [SV V SN ]] Finalmente, se aplicamos as regras (2ii) a (5), derivamos [F SN SV], e novamente justapondo (2i) a essa, obtemos (3) ou simplesmente F. Temos, no exemplo simples, o sinal de que (3) é o indicador sintagmático de uma oração bem-sucedida para o inglês. Porém, o sistema de regras (2) precisa ser modificado, de modo a excluir a possibilidade de serem gerados indicadores sintagmáticos bem formados para frases como John hit, em que o verbo ficaria desprovido de objeto. Temos, dessa maneira, a regra (2v): (6) V hit/-SN. Nesta ocasião (6) significa que V pode substituir hit, no modo descrito, apenas quando estiver no 39 contexto de um SN (quando anteceder um sintagma nominal). As regras sintagmáticas, em geral, apresentam a seguinte forma: (7) X Y / 2-W. Nas regras com a forma disposta por (7) Z e W são não-nulos. Isto é, em (6) temos uma regra dependente de contexto. As regras de (2) são, dessa forma, independentes de contexto. (CHOMSKY, 1994, p. 74). A função gramatical “sujeito de” pode definir-se por “SN de F”, o que indica-nos que há um SN contido imediatamente em F. Como na frase (3) John hit the boy. A função “objeto de” pode definir-se por “SN de SV”. Dessa forma, the boy é objeto de hit. Existem núcleos para o SN e SV no exemplo (3), boy (N) é o núcleo de SN; O nome John é núcleo do SN John. A conclusão fundamental que Chomsky extrai dessas relações entre os sintagmas é o fato de existir uma assunção explícita em (2): há uma assimetria na relação do sujeito e do objeto com o verbo transitivo: o objeto liga-se diretamente ao verbo, enquanto o sujeito só se relaciona indiretamente com o verbo, ligando-se diretamente ao sintagma verbal que contém o verbo e o seu objeto. Esta assunção é puramente empírica, portanto controversa, mas parece ser apoiada por evidência multilíngüe de vários tipos. .(CHOMSKY, 1994, p. 74, grifo nosso). As propriedades sintáticas e semânticas do inglês fornecem evidência para a assimetria. Todavia, Chomsky acredita que essas constatações podem ser parte de fatos multilíngües Em frases simples, como SN-V-SN, a seqüência V-N pode se deslocar como uma unidade. O símbolo e preenche a posição de onde a unidade V-SN foi deslocada: (8) John wanted to win the race, and [win the race] he did e. No exemplo (8), podemos vislumbrar ou ter noção da presença das regras transformacionais. As transformações deslocam sintagmas, mas não seqüências que constituem um sintagma. Em [win the race], por exemplo, um sintagma SV é deslocado. Em contrapartida, não encontraremos regras que desloquem a seqüência SN-V numa frase como SN-V-SN. Em frases simples do gênero SN-V-SN, não é raro que V-SN funcione como uma unidade semântica. Afinal, V-SN possui um “significado” determinado na composição. Tomando os exemplos abaixo: (9) (i) John threw a party (threw a fit, threw the ball) (ii) John broke his arm (broke the window) Na seqüência (i), as regras semânticas determinam o significado de threw-SN; o 40 papel semântico do sujeito pode alterar-se relativamente ao significado atribuído a essa unidade. Por exemplo, John é agente em “John threw the ball”, mas não o é em “John threw a fit”. Em (ii), John é agente relativamente ao objeto the window. Também o é, em uma das interpretações de “John broke his arm” (Por exemplo, “John broke Bill’s arm”). John também pode ser não agente, se interpretamos a frase no sentido “John’s arm broke”. O que vemos nos exemplos da seqüência V-SN é que essa unidade atribui significado. O papel semântico do sujeito é determinado em conformidade à composição, de acordo com o “significado” contido na unidade V-SN. Raramente será possível encontrar seqüências SN-V-SN em que seja atribuído um significado à combinação sujeito-verbo que determine o papel semântico do objeto. Portanto, V-SN é um sintagma, uma unidade. Um SV é característico pela atribuição de um papel temático de unidade. (CHOMSKY, 1994, p. 75). Toda essa seqüência de demonstrações indica, de maneira resumida e simples, o que mais tarde será a chamada Teoria da Ligação. Segundo essa teoria, “um pronome não pode ter como antecedente um elemento que pertença ao seu domínio”. (CHOMSKY, 1995, p.75). Este princípio é extraído como invariável de língua para língua. Sua constatação envolve o postulado de uma “faculdade de linguagem”. Voltaremos mais à frente a essa questão, quando da discussão sobre a Gramática Universal (GU). Em nosso breve recenseamento de SS, observamos que através do conceito de transformação podemos estabelecer ligações abstratas entre as sentenças geradas numa língua. Por exemplo, a ligação entre frases como “O garoto beijou a garota” e “A garota foi beijada pelo garoto”, ou ainda, a diferença entre arranjos sintáticos superficialmente parecidos: “A garota é ávida de agradar” e “A garota é fácil de agradar” (GARDNER, 2003). O conceito de transformação compreende, desse modo, uma “dependência estrutural”. Em outros termos, as transformações não atuam simplesmente sobre palavras, isoladamente, ou sobre cadeias de palavras em extensão arbitrária. As transformações ocorrem sobre cadeias ou sentenças representadas abstratamente. Essas cadeias são compostas por meio de constituintes sintáticos apropriados à língua em análise, que determinam, desta forma, a regularidade e aplicação das transformações. Posteriormente, o “componente transformacional” da gramática foi reavaliado, devido, principalmente, a possibilidade de resgate de análises que não são apropriadas aos dados lingüísticos. Cabe ressaltar que o modelo gramatical exposto em SS passou por inúmeras modificações, as quais não abordaremos, visto que nosso inventário comporta apenas idéias gerais da gramática gerativa. O que nos importa nisto é que a partir de 1957 o nível transformacional surge como uma nova e atraente proposta para a lingüística teórica. As 41 transformações de Harris (que poderiam apenas ligar sentenças, regularizando-as), de caráter classificatório, estavam excluídas das tarefas lingüísticas mais prementes. Não por uma questão de erro ou inadequação essencial, mas simplesmente por obsolescência frente aos fatos que se apresentaram desde então. A novidade das transformações trouxe também outros critérios teóricos para a lingüística como um todo, da mesma forma, naturalmente, novos objetivos deveriam ser iluminados pela concepção chomskiana da estrutura transformacional. Robert B. Lees, responsável direto pela divulgação de Estruturas Sintáticas34, fez uma importante resenha do livro, que foi publicada no célebre periódico norte-americano Language. Nela, considerou-se o impacto da monografia de 1957 e seus novos critérios, cujo passo essencial estava, segundo Lees, na introdução de uma perspectiva científica capaz de construir uma teoria lingüística abstrata com poder de previsão, que rompia com o chamado “estágio pré-científico” da lingüística classificatória (taxionômica). Chomsky, segundo Lees, não estava propondo apenas uma nova descrição gramatical, mas antes, propunha tarefas novas para o campo, distinguindo-o radicalmente das disciplinas sociais. A novidade dessa teoria científica pode ser entendida no mesmo sentido em que uma teoria química ou biológica geralmente é entendida pelos especialistas destes campos. Ela não é uma mera reorganização dos dados em um novo tipo de catálogo de biblioteca, nem mais uma filosofia especulativa a respeito da natureza do homem e da linguagem, e sim uma explicação vigorosa de nossas intuições sobre nossa língua em termos de um sistema axiomático claro, dos teoremas deriváveis dele, de resultados explícitos que podem ser comparados com dados novos e outras intuições, tudo baseado simplesmente em uma teoria clara da estrutura interna das línguas; e ele pode muito bem fornecer uma oportunidade para a aplicação de medidas explícitas de simplicidade para decidir a preferência de uma forma de gramática em detrimento de outra. (LEES, 1974, p. 52). Outra diferença suplementar, da nova perspectiva, dos recém-adquiridos “o