CARLOS EDUARDO DE OLIVEIRA BEZERRA ADOLFO CAMINHA: um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885 – 1897) ASSIS 2009 CARLOS EDUARDO DE OLIVEIRA BEZERRA ADOLFO CAMINHA: um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885 – 1897) Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista – para a obtenção do título de Doutor em Letras (Área de conhecimento: Literatura e Vida Social) Orientador: Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo ASSIS 2009 “Lecturis salutem” Ficha Catalográfica elaborada por Telma Regina Abreu Camboim – Bibliotecária – CRB-3/593 fichacatalografica@hotmail.com B469a Bezerra, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha [manuscrito] : um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885-1897) / por Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra. – 2009. 434f. : il. ; 31 cm. Cópia de computador (printout(s)). Tese(Doutorado) – Universidade Estadual Paulista,Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Programa de Pós-Graduação em Letras, Assis(SP),25/06/2009. Orientação: Prof. Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo. Inclui bibliografia. 1-CAMINHA,ADOLFO,1867-1897 – CRÍTICA E INTERPRETAÇÃO.2- CAMINHA, ADOLFO,1867-1897 – LIVROS E LEITURA.3-AUTORIA – ASPECTOS POLÍTICOS – 1885-1897.4-AUTORIA – ASPECTOS ECONÔMICOS – 1885-1897.5-ESCRITORES E EDITORES – BRASIL – 1885-1897.6-ESCRITORES E LEITORES – BRASIL - 1885-1897. 7-LITERATURA BRASILEIRA – ASPECTOS POLÍTICOS – 1885-1897.8-LITERATURA BRASILEIRA – HISTÓRIA E CRÍTICA – 1885-1897.9-BRASIL – VIDA INTELECTUAL – 1885-1897.10-BRASIL – CONDIÇÕES SOCIAIS – 1885-1897.11-BRASIL – CONDIÇÕES ECONÔMICAS – 1885-1897.12-BRASIL – USOS E COSTUMES – 1885- 1897.I- Cairo, Luiz Roberto Velloso, orientador. II-Universidade Estadual Paulista. Programa de Pós-Graduação em Letras.III-Título. CDD(22ª ed.) B869.33 02/09 DEDICATÓRIA Esta tese é dedicada ao Professor Dr. Sânzio de Azevedo, em retribuição à sua generosidade com os novos pesquisadores, pelo seu amor às coisas e gentes do Ceará. AGRADECIMENTOS Esta tese foi escrita graças à ajuda de muitas pessoas. Sou-lhes imensamente grato. Aqui, cito os seus nomes como forma de retribuir o muito que fizeram: Aos meus pais e família, especialmente Tereza e Thamirys. Ao Dr. Sânzio de Azevedo, por ter-me dado acesso a inúmeras fontes utilizadas na escrita desta tese. Sua generosidade com os novos pesquisadores é imensa, como também é o seu amor as coisas e gentes do Ceará. Assim, não poderia deixar de lhe agradecer e dedicar esta tese. À Dra. Odalice de Castro e Silva, minha orientadora de especialização e mestrado na UFC. Sou-lhe grato por acreditar no projeto inicial que deu origem a esta tese e por me receber no mundo das letras. Ao Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo, pela orientação feita com liberdade para que eu seguisse os meus caminhos. Aos professores do curso de graduação em História na UFC, pois o que aprendi com eles permanece de algum modo neste meu diálogo com a literatura. Sou especialmente grato a Sebastião Rogério Ponte, que me orientou na Iniciação Científica, Meize Regina de Lucena Lucas, Eurípedes Funes e Ivone Cordeiro Barbosa. Aos professores nos cursos de Especialização em Investigação literária e Mestrado em Letras na UFC, pois foi com eles que iniciei o meu diálogo com a literatura. Não poderia deixar de citar os nomes de Vera Lúcia Albuquerque de Moraes, Angela Maria Rossas Mota de Gutiérrez, José Linhares Filho. Ao Dr. Álvaro Santos Simões Junior (Unesp/Assis), à Dra. Tânia Regina de Luca (Unesp/Assis), que gentilmente participaram das banca de qualificação e defesa desta tese, recomendando-me modificações, que muito me foram importantes. À Dra. Isabel Lustosa (Fundação Casa de Rui Barbosa/Rio de Janeiro) e ao Dr. Marco Antônio de Moraes (USP/São Paulo), que também gentilmente aceitaram participar da banca de defesa. Sou-lhe imensamente grato pela leitura e contribuição valiosa. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Letras da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, da Universidade Estadual Paulista, com os quais estudei durante o doutorado: Dra. Maria Lídia Lichtscheidl Maretti, Dra. Rosane Gazolla Alves Feitosa, Dr. João Luís Cardoso Tápias Ceccanttini. O que aprendi com eles foi imprescindível para concluir esta etapa dos meus estudos. Ao Dr. Leonardo Mendes (UERJ), pela amizade, pela publicação de textos, pelas conversas a respeito da obra de Adolfo Caminha, graças à internet. Neste percurso não faltou a ajuda dos amigos e amigas de Fortaleza: Miguel Leocádio Araújo Neto e David Krebs, Fernanda Coutinho, Socorro Acioli, Afonsina Moreira, Meize Regina, Socorro Monte, Ruy Ferreira Lima (com “y” né, Ruy?), Roterdam Damasceno, Chico Miranda, Cláudia Régia, Gláucia e Rejane, Neudina Paiva, Carla e Isac Férrer, Lina Luz, amiga das mais queridas, Veleiro. Aqui, não posso deixar de citar os nomes de amigos e amigas conhecidos em Assis e São Paulo: Telma Maciel, companheira nesta jornada. Com ela dividi incertezas, sonhos e delírios... Viviane Pereira, Gilmar Tenório Santini (escrevi o nome completo, Gilmar, pra você não ficar triste), Jacicarla Souza, Ana Maria Domingues de Oliveira, que me presenteou com uma edição espanhola do Bom-Crioulo, e Carmem Almeida, sempre carinhosas, Anderson Roszik, Roberta e Aline, Ritinha, Luciana Brito, Aparecida, Eliane, Sandra, Chico, Maísa, Gabriela e Elida, Édima e Eli, Amélia e Sandro, Júnior Rebelo, Paula Shafirovitz. Sou grato aos meus companheiros de república nos anos em que morei em Assis: Helton Alves Lima, Ulisses Moura e Silva, Eric Tiago Minervino (Fofuxo), Luis Felipe (Tupã) e Aluísio Martins. Morar com eles foi uma aventura... Agradeço aos funcionários da Seção de Pós-Graduação da FCL de Assis, especialmente, à Catarina, Lílian, Lucilene, e Marcos. Agradeço também aos funcionários da biblioteca, notadamente ao Auro, sempre atencioso na minha busca constante de livros e periódicos. Não poderia deixar de agradecer à Gertrudes Costa Sales, do setor de microfilmes da Biblioteca Pública Estadual Governador Menezes Pimentel, em Fortaleza – CE, pela amizade e atenção. Agradeço igualmente ao funcionários da Academia Cearense de Letras e Instituto Histórico do Ceará. Aos cantores e cantoras que ouvi durante a escrita, o que fez com que esta tese tivesse uma trilha sonora. Aos poetas e prosadores lidos, alguns deles me servido de inspiração. À cidade de Assis, que me recebeu, e da qual eu guardo ótimas e deliciosas lembranças... Não poderia deixar de citar aqui três nomes: Fran, Dona Dita e Maria. Ao CNPq que concedendo-me uma bolsa de estudos permitiu que a tese fosse escrita e defendida em tempo hábil. “Adolpho Caminha no pouco que deixou, deixou muitíssimo...” JUNIOR, Pápi. Adolpho Caminha e sua obra litteraria. (Pronunciado na sessão commemorativa do Centro Litterario em 8 de fevereiro de 1897). Fortaleza: Lith. Cearense, 1897. 15p. p. 3. BEZERRA, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do século XIX. 2009. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2008. RESUMO Nesta tese analisamos o conjunto da obra de Adolfo Caminha, tendo por objetivo defini-lo como um polígrafo na literatura brasileira do século XIX, notadamente no período de 1885 a 1897. Por conjunto da sua obra compreendemos não somente os seus textos ficcionais, mas também os seus textos críticos e jornalísticos. Desse modo, nos detivemos na suas atuações como político, editor, leitor e crítico literário. Para contemplar este objetivo, constituímos como método a polileitura. Concluímos que a poligrafia caminhiana se caracteriza por dois movimentos, um horizontal, que estende a sua obra, e um outro vertical, que produz uma estética do aproveitamento, constituída a partir dos diálogos existentes entre um e outro dos seus fazeres. Palavras-chaves: 1 - Adolfo Caminha; 2 – Polígrafo; 3 – Literatura brasileira; 4 - Século XIX. BEZERRA, Carlos Eduardo de Oliveira. Adolfo Caminha: un polygrafe dans la littèrature brésilienne au XIX ème siècle. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras de Assis, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2008. RÉSUMÉ Dans cette thèse nous analysons l'ensemble de l'oeuvre d'Adolfo Caminha, en ayant par objectif la definition de cet auteur comme un polygraphe dans la littérature brésilienne du XIXème siècle, dans la période de 1885 à 1897. Par ensemble de son oeuvre nous comprenons non seulement leurs romances, contes, mais aussi leurs textes critiques et de la presse. De cette manière, nous avons retenu ses performances comme politique, éditeur, lecteur et critique littéraire. Pour envisager cet objectif, nous constituons comme méthode la polilecture. Nous concluons que la polygraphie d’Adolfo Caminha se caractérise par deux mouvements, un moviment horizontal, qui a élargit son oeuvre, et un autre vertical, qui produit une esthétique de l'exploitation, constituée à partir des dialogues existants entre l'un et l’autre de leurs faires. Mots-clés: 1 - Adolfo Caminha; 2 – Polygraphe; 3 – Littérature brésilienne; 4. XIXème siècle. LISTA DE ILUSTRAÇÕES p.69 – Folha de rosto da primeira edição do romance A Normalista (Cenas do Ceará). Fonte: AZEVEDO, Sânzio de. Adolfo Caminha (Vida e obra). 2. ed. rev. Fortaleza: EUFC, 1999. 190p. p. 183. p.72 – Folha de rosto de Voos incertos. Fonte: Biblioteca particular do Professor Dr. Sânzio de Azevedo p. 76 – Folha de rosto de Judith. Fonte: Biblioteca particular do Professor Dr. Sânzio de Azevedo. p.179 – Retrato de Adolfo Caminha, em xilogravura de Pastor, publicado n’A Mala da Europa, de Portugal, em 1896. Fonte: AZEVEDO, Sânzio de. Adolfo Caminha (Vida e obra). 2. ed. rev. Fortaleza: EUFC, 1999. 190p. p. 177. p.180 – Fotografia de alguns membros da Padaria Espiritual na qual aparece Adolfo Caminha de pé no canto direito. Fonte: AZEVEDO, Sânzio de. Adolfo Caminha (Vida e obra). 2. ed. rev. Fortaleza: EUFC, 1999. 190p. p. 178. De pé da esquerda para direita: Álvaro Martins, Raimundo Teófilo de Moura, José Maria Brígido e Adolfo Caminha. Sentados da esquerda para a direita: Sabino Batista, Antônio Sales e Carlos Vítor. p.233 – Capa do romance Tentação. Fonte: AZEVEDO, Sânzio de. Adolfo Caminha (Vida e obra). 2. ed. rev. Fortaleza: EUFC, 1999. 190p. p. 187. p.218 – 1ª. Página do número 1 do jornal O Diário Fortaleza, 16 de maio de 1892. Fonte: Biblioteca particular do Professor. Dr. Sânzio de Azevedo p. 271 – Anúncios do jornal O Diário. Número 8. Fortaleza, 18 de maio de 1892. Fonte: Biblioteca particular do Professor. Dr. Sânzio de Azevedo. p.274 – Anúncio “Um achado curioso” publicado no jornal O Diário. Número 35. Fortaleza, 30 de junho de 1892. Fonte: Biblioteca particular do Professor Dr. Sânzio de Azevedo. p.276 – Página 1 do primeiro número d’A nova revista. Fonte: Coleção Plínio Doyle. Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro. SUMÁRIO INTRODUÇÃO....................................................................................................................p.13 CAPÍTULO 1 – ADOLFO CAMINHA E AS CONDIÇÕES MATERIAIS E INTELECTUAIS DE PRODUÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA NO FINAL DO SÉCULO XIX......................................................................................................................p.48 1. 1 As condições materiais.................................................................................................. p.49 I. Um tratado urgente............................................................................................................p.49 II. Comer, comer, é o melhor para poder escrever!...............................................................p.54 III. O século XIX para além do XX......................................................................................p.68 IV. Em acordo com o tempo.................................................................................................p.60 V. 1890: crise e reestruturação. A hora e a vez da Domingos de Magalhães & Cia.............p.65 VI. A epiderme dos livros......................................................................................................p.70 VII. O rosto de Judith............................................................................................................p.73 VIII. Um mapa tipográfico da cidade....................................................................................p.77 IX. Rio de Janeiro, capital da República das Letras no Brasil...............................................p.78 X. Um breve balanço.............................................................................................................p.85 1. 2. As condições intelectuais...............................................................................................p.86 I. O Modernismo de 1870 ou Aprendendo sumariamente com os sumários.........................p.87 II. Admiração e espanto.........................................................................................................p.92 III. Une Académie Française au Ceará..................................................................................p.96 V. Um Clube literário...........................................................................................................p.105 V. Uma Padaria para o espírito............................................................................................p.119 VI. O discurso do descontente. Os perfis do autor. As memórias de produção da literatura brasileira...............................................................................................................................p.127 VII. Tato e transcendência, amor e objetividade ou Um modo de voltar ao começo..........p.131 CAPÍTULO 2 - ADOLFO CAMINHA AUTOR- POLÍTICO NA REPÚBLICA DAS LETRAS..............................................................................................................................p.133 2. 1 A política dentro e fora das letras.................................................................................p.133 I. O autor-político na República das letras...........................................................................p.133 II. O minotauro versus os abnegados...................................................................................p.144 III. Os editores segundo os historiadores.............................................................................p.145 IV. As intermediações..........................................................................................................p.150 V. Os herdeiros....................................................................................................................p.152 VI. Um conto perdido chamado “Vencido” ou Um fantasma literário ou Uma fonte fantasma...............................................................................................................................p.155 VII. Os (des)organizadores de edições e os (des)caminhos do texto de Caminha...............p.157 VIII. Os tradutores e as traições do texto.............................................................................p.160 IX. No mundo dos livros sempre cabe mais um..................................................................p.162 X. O Minotauro na mitologia do mundo dos livros.............................................................p.165 XI. Os autores e suas preocupações.....................................................................................p.171 2. 2. O autor-político e os editores.......................................................................................p.181 I. A face negativa dos editores atravessa os séculos............................................................p.181 II. Um certo senhor F...........................................................................................................p.183 III. O editor, um sanguessuga..............................................................................................p.185 IV. O mundo ideal não é aqui..............................................................................................p.186 V. A literatura ideal..............................................................................................................p.190 VI. A França não é aqui? A França é aqui?.........................................................................p.191 VII. Baptiste Louis Garnier..................................................................................................p.196 VIII. Tensões e mais tensões................................................................................................p.199 IX. O primeiro editor o autor nunca esquece.......................................................................p.205 X. Domingos de Magalhães.................................................................................................p.207 XI. Escândalo sim, mas com contrato..................................................................................p.209 XII. Viver custa caro............................................................................................................p.211 XIII. A conquista aos poucos...............................................................................................p.213 XIV. Arte e artista na visão de Adolfo Caminha.................................................................p.215 CAPÍTULO 3 - ADOLFO CAMINHA AUTOR-EDITOR............................................p.219 3. 1 O autor-editor................................................................................................................p.219 I. Mais uma face (ou máscara?) do autor.............................................................................p.219 II. Uma redação com um homem só....................................................................................p.222 III. Os tempos começam a mudar........................................................................................p.225 IV. A literatura nos jornais; os jornais na literatura.............................................................p.227 V. Os jornais e revistas como vitrines..................................................................................p.230 3. 2 A experiência d'O Diário..............................................................................................p.232 I. Adolfo Caminha editor d'O Diário...................................................................................p.232 II. Uma radiografia d'O Diário............................................................................................p.232 III. O programa d'O Diário..................................................................................................p.242 IV. A pressão política...........................................................................................................p.243 V. A concorrência dos “pasquins immundos”.....................................................................p.245 VI. Um Zé Pacato não tão pacato assim ou Controvérsias em volta do nome....................p.247 VII.“O ponto nos iii”............................................................................................................p.251 VIII. O Pão que O Diário de cada dia nos dá hoje ou As relações entre os periódicos......p.252 IX. A concorrência com a imprensa política: o jornal A República....................................p.256 X. Quanto custava pôr o jornal na rua? ou Para não dizer que não falei de número$.........p.257 XI. Uma Luluzinha no clube do Bolinha.............................................................................p.259 XII. Anunciar para faturar...................................................................................................p.270 3. 3. A expeiência d'A Nova Revista....................................................................................p.275 I. Adolfo Caminha editor d'A Nova Revista: uma radiografia do periódico........................p.275 II. O programa d'A Nova Revista ou A crença no novo era uma novidade.........................p.279 III. O programa de fato........................................................................................................p.286 IV. Parada para reflexão I....................................................................................................p.287 V. Retorno adiante: os contos em A Nova Revista..............................................................p.294 VI. Jornalismo, Literatura e quem mais chegar...................................................................p.296 VII. Parada para reflexão II.................................................................................................p.297 VIII. Livros e revistas na vitrine..........................................................................................p.298 IX. Concluir para ir adiante.................................................................................................p.313 CAPÍTULO 4 – ADOLFO CAMINHA, AUTOR-LEITOR..........................................p.315 4. 1 Leitura e escrita na obra de Caminha............................................................................p.316 I. Uma lista a perder de vista................................................................................................p.321 II. Primeiro pacote................................................................................................................p.324 III. Segundo pacote..............................................................................................................p.330 IV. Terceiro pacote..............................................................................................................p.351 V. Quarto pacote..................................................................................................................p.329 VI. Quinto pacote.................................................................................................................p.371 VII. Sexto pacote................................................................................................................. p.376 VIII. Sétimo pacote..............................................................................................................p.387 4. 2 Adolfo Caminha, autor-leitor de si ou As cartas não mentem jamais (só quando preciso).................................................................................................................................p.392 I. Ausência-presença do autor-leitor de si............................................................................p.393 II. Estudo comparado das edições das Cartas literárias......................................................p.396 III. “Cartas literárias I”.........................................................................................................p.397 IV. “Cartas literárias II”.......................................................................................................p.400 V. “Cartas literárias III”.......................................................................................................p.400 VI. “Cartas literárias IV”.....................................................................................................p.401 VII. “Cartas literárias V”.....................................................................................................p.402 VIII. “Cartas literárias VI”...................................................................................................p.402 IX. “Cartas literárias VII”....................................................................................................p.402 X. “Cartas literárias VIII”....................................................................................................p.403 XI. “Cartas literárias IX”.....................................................................................................p.403 XII. “Cartas literárias X”.....................................................................................................p.404 XIII. “Cartas literárias XI”...................................................................................................p.404 XIV. “Cartas literárias XII”.................................................................................................p.405 XV. Algumas considerações................................................................................................p.405 CAPÍTULO 5 – ADOLFO CAMINHA, AUTOR-CRITICO.......................................p.408 5. 1 A retomada do crítico....................................................................................................p.408 I. Adolfo Caminha, o autor-crítico-cronista de arte.............................................................p.410 II. O autor-critico teatral......................................................................................................p.423 III. A volta do autor-político................................................................................................p.426 IV. A volta do autor-crítico de si mesmo.............................................................................p.431 V. O autor-crítico-prefaciador..............................................................................................p.436 6. CONCLUSÃO................................................................................................................p.443 7. BIBLIOGRAFIA............................................................................................................p.453 INTRODUÇÃO I. O começo de tudo... Caro leitor, No ano 2000, iniciamos o processo de pesquisa a respeito da obra de Adolfo Caminha. Esta tese é o amadurecimento do processo, uma vez que nos empenhamos para tornar real uma idéia inicial, que, ao longo de seu desenvolvimento, foi tantas vezes mudada, alterada, posta em dúvida e, por alguns momentos, abandonada. Ainda assim, ela foi perseguida e dada à conclusão, mesmo que, ao longo da sua escrita, as falhas e as fragilidades de sua constituição e defesa sejam evidentes e imensas. Diante disso, pedimos ao leitor que seja paciente. Chegar a este momento obrigou-nos à retomada dos passos dados ao longo deste percurso. Desse modo, a presente introdução, além do seu papel ordinário, que é o de colocar o leitor a par daquilo que ele pode encontrar no corpo da tese, tem também o caráter de memória, o que implica em retomar, ao menos em parte, os esforços realizados para alcançar um objetivo: o estudo do conjunto da obra de um autor brasileiro do século XIX, aquele século que, para Arnold Hauser, pensando a arte e a literatura na sociedade européia, em sua História social da arte e da literatura, teve início em 1830, ano deflagrador de uma modernidade artística e especificamente literária até então não vista. No caso brasileiro, uma modernidade correspondente talvez tenha ocorrido a partir da chamada Geração de 1870 da qual Adolfo Caminha foi um herdeiro intelectual. Seguindo esta lógica deflagrada por Hauser, Adolfo Caminha não seria um autor do final do século XIX, mas um autor do seu “início”, que, além de ser marcado por uma possível modernidade artística e intelectual, foi marcado também por transformações profundas na sociedade brasileira como a Abolição da escravatura, em 1888; a Proclamação da República, em 1889, ambas mobilizadas e mobilizadoras dos seus pares e deles mesmos, servindo-lhes como possibilidades de encontro ou de vitrines públicas, uma vez que, armados de discursos escritos e orais, estes homens de letras, alguns deles também homens das armas, como o fora Adolfo Caminha, entravam na arena política contracenando com outros “atores”; na economia do período destacou-se a entrada crescente do país no sistema capital de produção como mercado consumidor de bens industrializados; na literatura deu-se a consolidação de uma dita era nacional iniciada pelo Romantismo. O Realismo e o Naturalismo trouxeram para o centro da cena literária brasileira temas e representações de sujeitos ainda não vistos, como o negro, o pobre, o escravo, o homossexual, todos estes presentes na obra de Adolfo Caminha, especialmente em seu Bom-Crioulo. Um misto de crescimento material e crescimento intelectual marcaram o período. A este respeito afirmou Antonio Candido: A vida cultural se desenvolveu muito nos decênios de 1860 e 1870, caracterizando-se este último pelo grande progresso material, inclusive o desenvolvimento das vias férreas e a inauguração, em 1874, do cabo telegráfico submarino, que permitiu a aproximação com a Europa por meio da notícia imediata. Foram então fundadas ou reorganizadas escolas de ensino superior, o jornalismo ganhou tonalidade mais moderna e houve notável progresso na produção de livros, graças a algumas casas editoras das quais ressalta a Garnier, que promoveu a publicação em escala apreciável de autores brasileiros do passado e do presente, sem falar no incremento de obras traduzidas. Além disso, ela editou a boa Revista Popular (1859 – 62), que exprime o amadurecimento dos pontos de vista críticos do Romantismo.1 Foi, então, neste contexto social, político, econômico e cultural que Adolfo Caminha escreveu e teve a sua obra publicada, o que significa dizer que foi neste contexto que se deu também a sua formação e a construção do seu nome de autor. No centro da discussão que propusemos nesta tese está a figura do autor, tanto como sujeito como categoria para os estudos literários. Mas, uma pergunta se nos mostrou capital: como Adolfo Caminha foi lido ao longo da recepção de sua obra? O que significa também perguntar: como Adolfo Caminha foi lido na sua atuação como autor? Tentando responder a estas perguntas, vejamos alguns exemplos da fortuna crítica da obra caminhiana. II. Alguns leitores da obra de Adolfo Caminha: breve revisão de sua fortuna crítica A fortuna crítica sobre a obra e sobre Adolfo Caminha é marcada por características e critérios fundamentados da equação vida+obra. Duas palavras reverberam em sua fortuna crítica: vingança e imoralidade. Estas palavras são lançadas sobre os seus dois mais conhecidos romances: A Normalista e Bom-Crioulo. Salvo dois artigos escritos por Araripe Júnior, os demais fazem ressoar aquelas palavras alicerçando-as na equação vida+obra. Araripe Júnior associou A Normalista a um retrato da vida nas capitais das províncias, notadamente as mais acanhadas e afastadas do Rio de Janeiro, como era o caso de Fortaleza, onde se passa o enredo do romance. Assim pronunciou-se Araripe Júnior: 1CANDIDO, Antonio. O Romantismo no Brasil. 2. ed. São Paulo: Humanitas, 2004. 95p. p. 63 – 64. Quem quiser conhecer a cidade de Fortaleza e intoxicar-se um pouco com a barbaria semi-civilizada de uma capital provinciana, onde reina o babismo em todo o seu furor, não tem mais do que abrir o livro de Adolfo Caminha e entregar-se à leitura de suas páginas sem preocupação de crítico. Reproduzo o que escrevi algures. Enquanto se lêem aquelas páginas, vive-se um pouco no Ceará. Os acidentes físicos estão todos nos seus lugares. As ruas principais da cidade, o Passeio Público, o Trilho, o Pajeú, o Mucuripe, surgem aqui, ali, sugestivos e pitorescos. Os aspectos particulares dos costumes cearenses confundem-se a todo instante com a ação do romance.2 Ao afirmar que “Reproduzo o que escrevi algures”, Araripe referiu-se ao artigo “O romance brasileiro – A Normalista – Cenas do Ceará, por Adolfo Caminha – 1893”. Este seu artigo é um dos primeiros a tratar do romance de estréia de Adolfo Caminha. Sem que a opinião de Araripe Júnior viesse a desaparecer, a recepção dos romances de Caminha tocou outros sons, fundamentados, sobretudo, nos fatos da vida do autor. Um dos primeiros artigos escritos logo após a morte de Caminha, em 1897, traçou relações entre a sua vida e a sua obra, esta como sendo resultado de sua personalidade, supostamente, nervosa, inquieta e revoltada. Nele, Pápi Júnior afirmou: porque a alma de Adolpho Caminha era feita dos pesadumbres ignotos dos que soffrem sempre, desse mau-humor contumaz dos visionarios; tinha enfim, toda uma conformação de grande artista, cheia de nevroses rosaceas do Bello, e das irresponsabilidades idiosyncrasicas do temperamento.3 A união entre os aspectos da vida do autor e a realização de sua obra foi, mais e mais, destacada na sua fortuna crítica. A equação vida+obra, a qual já nos referimos, sempre serviu a esse propósito. São diversos os críticos que se fundamentaram nela para julgar a obra de Adolfo Caminha. Os prefácios das edições de A Normalista prestam-se bem para esta análise. Segundo os seus autores, A Normalista (Cenas do Ceará), de 1893, foi escrito com a tinta da vingança, cujo alvo seria a sociedade cearense, que não aceitou o relacionamento de Adolfo Caminha com Isabel Jataí de Paula Barros, à época já casada com um militar do Exército. Este mesmo critério, ou seja, a vingança, serviu, segundo os críticos, para o romance Bom- Crioulo. Neste, o alvo seria a Marinha, instituição militar da qual Adolfo Caminha fazia parte e dela saiu para viver com a citada Isabel. Nada pior para a Marinha brasileira do que ser o cenário de um relacionamento entre dois homens como vemos em Bom-Crioulo. De praça de 2JUNIOR, Araripe. “Movimento literário do ano de 1893”. In: Obra crítica de Araripe Júnior. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Casa de Rui Barbosa, 1863. v. III. p. 171. (Coleção de textos da Língua portuguesa Moderna). 3JUNIOR, Pápi. Adolpho Caminha e a sua obra literaria. (Pronunciado na sessão commemorativa do Centro Literario em 8 de Fevereiro de 1897). Fortaleza: Lith. Cearense, 1897. 15p. p. 2. [Grifos nossos]. armas a Marinha se viu praça de amantes do mesmo sexo, o que não era a imagem desejada pela instituição. A personalidade supostamente dada à polêmica e aos infortúnios foi o principal julgamento que fizeram de Adolfo Caminha. Segundo os críticos, estas características não deixaram de respingar sobre a obra caminhiana. Os mesmos críticos não economizaram na busca de dados que confirmassem esta tese. Raimundo de Menezes, que citaremos mais uma vez, foi buscar na infância do autor exemplos que a confirmassem. Um dos mais “interessantes” reproduzimos abaixo, destacando em itálico palavras que reforçam a confirmação da tese citada. Era uma criança raquítica e que parecia predestinada a poucos meses de vida. Antes dos oito anos por duas ou três vêzes às portas da morte. Em uma dessas ocasiões chegou mesmo a ser feita a encomenda de um caixão para o seu enterro, sendo como era esperado um desenlace a qualquer momento.4 Juízos como esses, feitos com fundamento nos aspectos da vida, repetem-se na fortuna crítica de Caminha. Foi também neste tom que tocou a crítica de Frota Pessoa, que a respeito afirmou em 1902: Adolpho Caminha foi um desses seres de destino errado. Elle não nasceu, nem para o homem que foi, nem para o escriptor que se manifestou. O desencontro da sua missão social e da sua missão intelectual formou todo o seu infortunio.5 Citamos os nomes de Pápi Júnior e Frota Pessoa e os designamos como críticos fundadores de um julgamento, que, recorrentemente, encontramos na fortuna crítica da obra de Adolfo Caminha durante mais de cem anos. A segunda edição de A Normalista, de 1936, traz um prefácio de Décio Pacheco Silveira, que afirmou: ‘A Normalista’, comtudo, não é uma obra livre de defeitos. O autor era moço e o romance foi escripto sob a impressão dos acontecimentos que lhe perturbaram e estragaram a vida. Está, por isso, impregnada de um pessimismo em que se sente o surdo desígnio de uma desforra contra a sociedade provinciana, que o julgou e condemnou com tanta severidade.6 4MENEZES, Raimundo de. “Adolfo Caminha, esse desconhecido...”. In: A Normalista. 3. ed. São Paulo: Editora Jornal dos livros, 1950.p. 5 – 14. p. 7. [Grifos nossos]. 5PESSOA, Frota. Adolpho Caminha. In: Crítica e polêmica. Rio de Janeiro: Editor Arthur Gurgulino, 1902. 295p. p. 215 – 233. p. 226. [Grifos nossos]. 6SILVEIRA, Décio Pacheco. “Apresentação”. In: CAMINHA, Adolfo. A Normalista (Scenas do Ceará). 2. ed. Valdemar Cavalcanti que também se ocupou da obra de Adolfo Caminha a respeito afirmou: Tudo o que saiu da penna de Adolpho Caminha tem, necessariamente, a marca de suas desgraças pessoaes: em sua obra decerto que se reflecte o amargor profundo do orphão do destino. De seus romances chega até nós um bafo ácido de dor, de raiva, de repulsa e odio, não em relação a determinados indivíduos ou costumes, mas talvez a certo meio e tempo. Tudo nas paginas que escreveu transpira o desejo de vingança do homem falhado e vencido pelo destino.7 Não parece ser acaso que o artigo de Cavalcanti seja intitulado “O enjeitado Adolpho Caminha”. Já o seu título revela a leitura de Cavalcanti, que a respeito do romance A Normalista afirmou: A Normalista representa uma revolta contra habitos e temperamentos forrados de hypocrisia. Aqui e ali, o romancista como que rilha os dentes, enterra as unhas na própria carne, interrompe o fio da história para dizer não. E’ uma atitude sem duvida perversa e impertinente, peculiar, aliás, aos naturalistas. E’ contra a vida, que elle quer traduzir ao pé da letra e por isso mesmo traindo e deformando o original, - é contra a vida que Adolpho Caminha se revolta, ao acompanhar as suas curvas caprichosas e ao focalizar certos trechos menos límpidos da paisagem humana posta sob seus olhos. Recortando figuras angulosas de gente infeliz e contando a sangue frio as desgraças alheias, o que elle faz é vingar-se de seu próprio destino.8 No prefácio escrito para a terceira edição do romance A Normalista, que foi publicada em 1950, Raimundo de Menezes afirmou: “Para compreender-lhe a obra, faz-se mister recompor-lhe a vida.”9 E continuou Menezes: Trazia consigo, escritos nos tempos de Fortaleza, os originais de um romance a que dera o título de ‘A Normalista’, em que procurara retratar com mordacidade os hábitos e costumes da pequenina capital provinciana. Era uma espécie de revanche contra tudo quanto o tinham feito sofrer. Uma válvula de escapamento para um ressentimento recalcado.10 São Paulo: Empresa Editora J. Fagundes. 1936. 230p. p. I – V. p. IV. (Collecção Reminiscências). [Grifos nossos]. 7CAVALCANTI, Valdemar. “O enjeitado Adolpho Caminha”. In: Revista do Brasil. 3. Phase. Anno IV. Maio de 1941. No. 35. p. 156 – 165. p. 158. [Grifo nosso] 8Idem, p. 158 - 159. [Grifo nosso]. 9MENEZES, Raimundo de. “Adolfo Caminha, esse desconhecido...”. In: CAMINHA, Adolfo. A Normalista. 3. ed. São Paulo: 1950. p. 5-14. p. 6. 10Idem, p. 10. [Grifos nossos]. Afirmações como esta a propósito do romance em causa se repetirão ao longo de sua fortuna crítica. Na quarta edição do romance, Sabóia Ribeiro afirmou: Todos reconheceram certa ligação entre o entrecho do romance e o caso sentimental do escritor, quando se viu perseguido na capital cearense, em nome dos seus pundonores. A Normalista seria, no fundo, um revide aos agravos que sofrera. No Ceará, ainda pela primeira década e inícios da segunda, eram citadas nominalmente algumas figuras que Adolfo Caminha pusera na sua ficção e seus correspondentes na vida real, umas, vivendo no meio fortalezense, outras no Rio, como o ‘Presidente Castro’, já baixado no túmulo.11 Como o leitor vê, mesmo passados 83 anos da primeira edição, na quarta edição o critério da vingança se repetiu. Ribeiro acrescentou a esta informação o fato de haver na leitura das primeiras décadas do século XX o estabelecimento de uma ligação entre as personagens do romance e a “realidade”. Neste caso, parece válido perguntar: o que é ficção? O que é realidade? Sabóia Ribeiro não se ocupou somente uma vez da obra de Adolfo Caminha. No livro que escrevera para comemorar o centenário de nascimento do autor em causa, em um tópico intitulado de “Os subterrâneos do escritor”, Sabóia Ribeiro afirmou: “Um propósito vingador constitui, ao menos parece, o impulso inicial de seu primeiro romance – A Normalista.”12 Ainda no mesmo livro, porém no tópico “Condicionamentos do romancista”, Ribeiro apontou para cinco circunstâncias da vida de Caminha que teriam condicionado a produção de sua obra, mais uma vez a equação vida+obra foi o critério utilizado para explicar a obra caminhiana. A vingança ou revide aparece como contexto do quarto condicionamento. A este respeito lemos: O quarto, seu drama passado de amor passado em Fortaleza, onde servia como oficial de Marinha, e em que raptara uma mulher casada. Diante da campanha que lhe moveram, lá, em nome do pundonor da sua sociedade, Adolfo Caminha foi transferido e, não aceitando a transferência, teve de deixar a farda, sacrificando a sua carreira. Concebeu então A Normalista, que é, incontestàvelmente, um revide ao que lhe fizeram.” 13 11RIBEIRO, Sabóia. “Nota preliminar”. In: CAMINHA, Adolfo. A Normalista. 4. ed. São Paulo: Ática, 1976. p. 6. (Série Bom libro). [Grifo nosso] 12RIBEIRO, Sabóia. O romancista Adolfo Caminha. Em comemoração do seu Centenário: 1867 – 1967. Rio de Janeiro: Pongetti, 1976. 98p. p. 14. [Grifo nosso]. 13Idem, p. 15. A vingança também será considerado como o motivador da escrita do Bom-Crioulo, como também o afirmou Sabóia Ribeiro: Esse quarto fator se desdobra naturalmente na mágoa que lhe teria ficado de seus superiores, que recusaram suas razões e lhe impuseram uma transferência reputada por ele, mas do que arbitrária, humilhante. Não se pode desvincular desse fato algum desabafo já repontado no seu Pais dos YanKees e algum traço caricatural mais forte existente nas dobras de Bom- Crioulo. É, por exemplo, aquêle Comandante implacável da corveta diante dos castigos a marinheiros, a explodir: - Hei de corrigi-los: corja! A marinhagem embotada assistindo à cena da flagelação, ‘sem nenhum frémito, como se fosse a reprodução banal de um quadro muito visto’.14 Poderíamos aqui arrolar uma lista extensa de textos críticos que voltam a basear-se na vingança, revanche ou revide como critério de julgamento e sentença última do romancista Adolfo Caminha, bem como o seu gênio difícil tantas vezes chamado de birrento, como o fizera, por exemplo, Antonio Sales, um dos seus companheiros de Padaria Espiritual. Estas palavras aparecem como palavras-chaves de um modo de ler a obra de Adolfo Caminha. Ficamos com estes nomes citados, mas o leitor pode juntar a eles vários dos nomes constantes na bibliografia sobre o autor e sua obra que aparece no final desta tese. Como o leitor também verá nos capítulos da tese, citaremos diversas vezes a biografia de Adolfo Caminha escrita por Sânzio de Azevedo, que muito se dedicou ao estudo do autor. O leitor pode estar-se perguntando por que praticamente todos os exemplos dados dizem respeito ao romance A Normalista? Porque, como o leitor constatou, os critérios usados para julgar A Normalista também serviram para julgar o Bom-Crioulo, como já o afirmou Sabóia Ribeiro. No caso do romance Tentação, a fortuna crítica é escassa. Talvez, por tratar-se de um romance publicado postumamente, ele quase não recebeu a atenção dos críticos. O mais que se afirmou a seu respeito é que se trata de uma romance realista e não de um romance naturalista como os anteriores. Para finalizar esta revisão da fortuna crítica, vale dizer que os julgamentos realizados são também representativos de um momento e de um tipo de crítica. Trata-se de um modo de ler e de compreender a obra. Não nos cabe conceituá-los como incorretos. São julgamentos válidos para o momento em que ocorreram, levando-se em conta as idéias circulantes e o modo como a literatura era compreendida. Nos tempos atuais, uma outra leitura da obra caminhiana parece-nos válida. Por isso propusemos a tese do polígrafo. 14Idem, p. 15 – 16. [Grifo nosso]. III. Adolfo Caminha: um autor tenso e intencionado As histórias da literatura brasileira categorizaram Adolfo Caminha como um autor contraditório, frágil e menor, talvez marginal se pensado em relação aos grandes nomes do período. Preferimos chamá-lo de um autor tenso. Tenso em relação às transformações que marcaram aquele “início” do século XIX, pois, ao mesmo tempo em que ele as louvava e pedia por elas, ele também as via com desconfiança, destacadamente no caso da entrada do Brasil no mercado consumidor de bens importados, que a seu ver ameaçava a cultura e os costumes locais, como é possível apreender da leitura de sua coluna intitulada de “Sabbatina”, no jornal O Pão, da Padaria Espiritual. Adolfo Caminha foi tenso também em relação à encruzilhada estética que foi o século XIX, cheia de possibilidades no campo geral das artes e da literatura em particular. E por fim, tenso em relação à escrita ficcional e à remuneração financeira dela advinda. Tensão parece ser uma das suas principais características. Tensão entre a vida e a arte, entre o viver e o escrever, entre a escrita e a publicação, entre as letras e os números, entre um suposto heroísmo e uma igualmente suposta vitimização de sua personalidade. Foi assim que iniciamos a nossa leitura do conjunto da obra de Adolfo Caminha. Mais do que um pólo ou outro, o que nos parece mais importante é a tensão entre eles, pois Adolfo Caminha não esteve só de um lado ou de outro. Foi da tensão desses pólos que resultou o conjunto da sua obra. Além de tenso, também o consideramos intencionado, isto é, motivado por uma intenção, uma missão, como era comum aos seus pares letrados do período. Adolfo Caminha é um crente da literatura como arte civilizadora. Em seus textos críticos são muitos os exemplos desta sua crença. Igualmente intencionada foi a sua participação no movimento republicano, notadamente no Ceará, movimento político este que ele fez questão de representar em seus romances A Normalista e Tentação. Tenso e intencionado é um binômio que o leitor pode encontrar no conjunto da obra caminhiana. Este binômio ajudou-nos a compor aquela que achamos que é a sua maior característica como autor: a poligrafia. Uma poligrafia segundo as condições sociais e intelectuais de seu tempo e segundo as suas próprias necessidades pessoais, incluindo-se nelas as financeiras, bem como as necessidades de seu projeto literário: a de fazer-se um autor profissional. O possível é sempre a medida neste projeto. Ser o polígrafo, no caso de Adolfo Caminha era ser o autor possível em seu tempo, o que significa dizer também nas circunstâncias que o rodeavam. Portanto, estar em toda parte através da poligrafia era levar a cabo, ou ao menos tentar levar, este projeto. O fim de sua poligrafia nos pareceu ser este. Esta é a tese que aqui defendemos. Mostrando-se consciente do meios que o cercavam, e quando dizemos meio pensamos em sistema ou campo literário, Adolfo Caminha procurou estar em toda parte, ainda que suas ambições pessoais o limitassem a alguns circuitos específicos. Considerado pela história tradicional da literatura brasileira como um autor naturalista, Adolfo Caminha morreu de tuberculose, a doença que mais vitimou os românticos e serviu à historiografia como critério de conceituação dos românticos. Louvando Émile Zola como exemplo a seguir, tanto nas letras como na vida, não deixou de reconhecer Cruz e Souza como o poeta mais bem acabado do seu tempo. Em comum com os homens de letras de sua época, deixou o Ceará, a sua província natal, para viver na capital do império e, em seguida, a capital da república, que era também a capital da república das letras nacionais. Ir ao Rio Janeiro era como ir a “Paris em ponto pequeno”, como ele afirmou em seu romance Tentação. Se o dinheiro não dava pra atravessar o Atlântico, que tal desembarcar no Rio? Este foi o percurso que o dinheiro possibilitou ao nosso autor. Na então capital do país, associou-se aos simbolistas, estes também marginalizados. Nela, criticou a poesia parnasiana e louvou a relação entre a ciência e a arte. O homem que buscamos conhecer é o autor Adolfo Caminha e, mais especificamente, o autor na sua condição de polígrafo, como o definiremos a seguir. IV. Passo a passo... Para conhecer este sujeito multifacetado, muitos passos foram dados. O primeiro passo do processo de pesquisa foi recolher o maior número de fontes possível em instituições cearenses: Academia Cearense de Letras; Biblioteca Pública Estadual Governador Menezes Pimentel; Biblioteca Pública Municipal Dolor Barreira, Casa de José de Alencar; Instituto Histórico e Geográfico do Ceará. Somamos às fontes reunidas nestas instituições as fontes coletadas na Biblioteca Nacional e na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Assim, reunimos fontes de Adolfo Caminha ou a seu respeito e a respeito de sua obra, além de fontes que nos permitiram propor e desenvolver as discussões em cada um dos capítulos desta tese, como o leitor confirmará adiante. Dito deste modo, a coleta e catalogação de fontes pode parece ao leitor uma etapa simples. Talvez o fosse se não se tratasse de obra publicada no século XIX. Esta etapa foi uma verdadeira arqueologia literária, sobretudo pelas péssimas condições em que as fontes eram encontradas. Some-se a esta dificuldade o fato de parte importante do conjunto da obra de Adolfo Caminha encontrar-se ainda dispersa. O autor sobre quem supostamente já se sabia tudo viria a nos causar surpresas. Nestes nove anos de pesquisa, a coleta e sistematização das fontes foram constantes e realizadas ao longo dos cursos de Especialização em Investigação Literária (2002) e o Mestrado em Letras (2004), ambos na Universidade Federal do Ceará, onde havíamos concluído o curso de Licenciatura plena em História (1999). No curso de especialização procedemos um diálogo inicial com as fontes reunidas naquela fase. Em seguida, no curso de mestrado, analisamos a atuação de Adolfo Caminha como crítico literário. Para tal, nos detivemos em seu único volume de crítica literária – Cartas literárias – e sua relação com a ficção caminhiana. Os resultados então alcançados foram expressos na dissertação intitulada Cartas literárias: questionamentos e comentários a propósito da contribuição crítica e ficcional de Adolfo Caminha, que já nos levava a reunir os indícios para a tese que defendemos agora, ou seja, a de Adolfo Caminha como um polígrafo possível para o sistema literário vigente de um modo geral e para um sistema que lhe foi particular e possível de executar seguindo normas comuns aos homens de letras de seu tempo e normas às quais ele mesmo se impôs, daí falarmos em um modo particular de proceder e executar o conjunto de sua obra. Ao considerá-lo como um polígrafo possível, pensamos também nesta possibilidade como forma de existência o que significa dizer como uma forma de inserção nos sistemas que nem sempre lhe foram favoráveis, como o sistema econômico, político e social. Em linhas gerais é esta a tese que aqui defendemos. Nesta tese ainda voltaremos à análise de sua atuação como crítico, pois na dissertação de mestrado não nos detivemos no conjunto de seus artigos críticos intitulados de “Crônicas de Arte” nem no prefácio intitulado “Carta”, fontes as quais não tínhamos acesso à época do mestrado. Desde o princípio, a pesquisa e os resultados alcançados tiveram um caráter transdisciplinar, oriundo de nossa formação acadêmica, ainda que não fosse reconhecida pelos historiadores como uma pesquisa histórica propriamente dita, nem pelos estudiosos da literatura como uma pesquisa intrinsecamente literária, mas justamente de história nas áreas específicas de história social da literatura, sociologia da literatura ou história cultural da literatura. O que parece um problema de definição para uns talvez seja a única virtude desta tese: a possibilidade de transitar entre fazeres e colocar-se em um espaço de diálogo. Falta de reconhecimento dos historiadores e estudiosos da literatura à parte, procuramos formatar a pesquisa no diálogo entre essas duas áreas, utilizando para tanto o instrumental teórico e crítico das áreas citadas ou de áreas correlatas, notadamente a Sociologia, uma vez que citamos Pierre Bourdieu e utilizamos várias de suas propostas na abordagem do fenômeno literário. O caráter transdisciplinar da tese parece tê-la adequado bem ao Programa de Pós- graduação em Letras da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, da Unesp, Universidade Estadual Paulista, onde defendemos esta tese sob a orientação do Dr. Luiz Roberto Velloso Cairo, uma vez que a área de concentração do programa é Literatura e Vida Social. Neste caso, o diálogo com a História e a Sociologia procurou contemplar aquilo que o programa intitulou de “Vida Social”. V. O objeto Dito isto, o leitor pode estar-se perguntando: por que escolhemos a obra de Adolfo Caminha como nosso objeto de pesquisa? Instigou-nos o fato, leitor, de Adolfo Caminha ser, pelo menos no Ceará, sua terra natal e nossa também, um autor sobre quem supostamente já se sabe (ou se saberia) tudo. Porém, o exame mais atencioso de sua produção ou do que preferimos chamar de conjunto da sua obra levou-nos a considerar como equivocada aquela afirmação, seja porque sempre é possível dizer algo, ainda que a contribuição a ser dada seja pequena com é a nossa, e este nos parece um princípio básico da ciência ou do conhecimento cientificamente organizado, seja porque percebemos que boa parte das fontes que formam o conjunto de sua obra, notadamente os periódicos, bem como as primeiras edições de seus livros, pouco haviam sido coletadas, organizadas, analisadas e problematizadas à luz de um instrumental teórico atualizado, tanto na perspectiva dos estudos literários e/ou históricos ou ainda na perspectiva transdisciplinar a qual nos propusemos realizar. Some-se a isso o fato de que na escala maior de valoração do autor, isto é, na escala da literatura brasileira, Adolfo Caminha ser um autor considerado menor em relação aos seus pares naturalistas, sempre mostrado, por exemplo, à sombra de Aluísio Azevedo, e aos pares de sua época de um modo geral. A valoração local de sua atuação como escritor contrasta com a sua valoração nacional e este contraste é relevante para pensarmos a presença das literaturas ditas locais em relação à literatura dita nacional. O que representa a literatura cearense para a literatura brasileira? Mas, qual é mesma a literatura nacional? Estas foram algumas das perguntas que fizemos ao longo da escrita da tese, mesmo que não as tenhamos respondido. Obviamente, leitor, houve em nossa escolha um aspecto fundamental: o fato de Adolfo Caminha ser cearense como nós. Não acreditamos na neutralidade da pesquisa, mas na capacidade que um objeto de pesquisa tem de nos afetar, ou seja, de estimular em nós um afeto fundamental como um motor de estímulos que nos levou a produzir a pesquisa. Haverá para alguns um grave defeito neste critério. Mas este será apenas mais um defeito entre tantos que os leitores poderão encontrar aqui. A história de Adolfo Caminha, as suas idas e vindas entre o Ceará, Rio de Janeiro, Estados Unidos e definitivamente o Rio de Janeiro onde ele faleceu precocemente, afetou-nos profundamente. Não fosse este afeto não teríamos dedicado todos esses anos ao estudo de sua obra. VI. As fontes Como já afirmamos, temos como fonte de pesquisa o conjunto da obra de Adolfo Caminha. A principio chamou-nos atenção aquela afirmação de Pápi Júnior que serve de epígrafe a esta tese: “Adolpho Caminha no pouco que deixou, deixou muitissimo.”15 O que seria este muitíssimo? Como conhecê-lo? Estaria o crítico se referindo somente à ficção caminhiana? Foi assim que optamos por analisar o conjunto da obra de Adolfo Caminha. Por conjunto da sua obra compreendemos todas as suas realizações no campo intelectual. Analisar este conjunto da obra deu a esta tese o caráter de uma leitura panorâmica. Eleger o conjunto da sua obra como fonte fez com que não nos detivéssemos em um ponto único, fosse este ponto um romance, um texto crítico ou um texto jornalístico. A compreensão de que Adolfo Caminha é um polígrafo fez também com que não nos detivéssemos em somente uma de suas faces, mas que elas estivessem em nossa abordagem, sempre que possível, em diálogo. Este fato poderá causar nos leitores um certo estranhamento quanto à metodologia, que muda conforme a nossa necessidade de análise em um e outro capítulo. Leitura de sua obra como uma poligrafia exigiu-nos um método específico: a polileitura. Ainda a respeito das fontes, podemos dizer que se tratam de fontes impressas, como o leitor verá adiante; no caso específico dos livros, eles foram tratados como livros- documentos16, pois não somente trabalhamos com romances, contos, poesias, mas sobretudo com várias edições de um mesmo romance, como foi o caso de A Normalista (Cenas do Ceará), recorrendo, na medida do possível, às primeiras edições de um mesmo título. Neste caso o livro foi tratado como documento de si mesmo e como documento do seu processo de existência, incluindo-se nesse processo a análise de seus elementos materiais. A materialidade dos livros foi um aspecto bastante observado ao longo da escrita da tese. Juntem-se a estas fontes a fortuna crítica delas. O diálogo estabelecido com as fontes também deu à tese um caráter de revisão da historiografia literária brasileira do período em causa e, destacadamente, da obra de Adolfo Caminha. Como já dissemos, uma das fases mais importantes e difíceis da 15JÚNIOR, Papi. Adolpho Caminha e a sua obra literária. (Pronunciado na sessão commemorativa do Centro Litterario em 8 de Fevereiro de 1897). Fortaleza: Lith. Cearense, 1897. 15p. p. 3. 16A idéia de trabalhar com o conceito livro-documento foi-nos suscitada pela leitura do artigo O livro Fontes históricas como fonte, de Maria de Lourdes Janotti. JANOTTI, Maria de Lourdes. O livro Fontes históricas como fonte. In: PINSKY, Carla Bassanezi. (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 300p. p. 9 -22. p. 9. pesquisa foi a reunião da fontes. Como afirmou Carla Bassanezi Pinski: “Historiadores trabalham com fontes. Nós nos apropriamos delas por meio de abordagens específicas, métodos diferentes, técnicas variadas.”17 Portanto, perguntamos: como analisar tantas fontes diferentes com uma mesma metodologia? Como nos propor a analisar Adolfo Caminha como um polígrafo sem experimentar um método específico para cada face de sua poligrafia? Parte importante do tempo de escrita foi usado na tentativa, repetimos, TENTATIVA, de constituir este método mutante: a polileitura. Esperamos ter conseguido. Assim, o que o leitor encontrará no corpo da tese é uma tentativa de diálogo com as fontes que arrolaremos a seguir. Sobre a natureza objetiva das fontes utilizadas, podemos dizer que há aquelas que a tradição dos estudos literários considera (ou considerou) como propriamente literárias – a ficção em prosa e poesia – e também aquelas que gravitam (ou gravitavam) em torno das primeiras, como os jornais, as cartas, a crítica, etc. Considerá-las como propriamente literária ou não dependerá da opinião do leitor. Aqui, todas estão em cena ou talvez a ficção esteja de fato nos bastidores, pois é de lá que ela dialoga com as demais fontes e fazeres, como o leitor também verá. Não há na tese um capítulo sobre o autor de ficção, o que poderia indicar aos leitores que não nos ocupamos desta face do polígrafo. Mas, como verá o leitor mais atento, a ficção caminhiana percorre toda a tese, mas sempre em diálogo com os seus outros fazeres. As realizações intelectuais de Adolfo Caminha, como as consideramos, são aqui citadas conforme a data de publicação. São de 1885, por exemplo, os textos críticos “Pseudo- Teatro” e “O Indianismo”, os primeiros que ele teve publicados, daí servir esta data como o início do recorte temporal que realizamos. Dados de sua biografia fizeram-nos crer que o autor estava à época no Rio de Janeiro, onde vivia desde 1880, pois para lá ele fora levado com a finalidade de continuar os estudos após o falecimento de sua mãe. Em 1887, Adolfo Caminha teve publicado dois livros Vôos incertos (primeiras páginas) e Judith e Lágrimas de um crente. No primeiro, reuniu poemas escritos entre os anos de 1885 e 1887. Portanto, ao mesmo tempo em que escrevera os seus textos críticos citados acima escreveu também, ou começou a escrever, os seus poemas. Vemos desse modo o encontro do crítico com o poeta. Não podemos afirmar, ao certo, se um tipo de texto, o que significa também afirmar um tipo de fazer, precedeu o outro, ou seja, se os poemas precederam os artigos ou vice-versa, o que resultaria em uma estréia diferenciada a partir de cada tipo de texto. Se não o afirmamos é 17PINSKY, Carla Bassanezzi. Apresentação. In: PINSKY, Carla Bassanezi (Org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005. 300p. p. 7 – 8. p. 7. porque não pudemos consultar a revista da Escola de Marinha na qual vários poemas de Vôos incertos (primeiras páginas) foram originalmente publicados. Este mesmo livro, ou seja, os ditos Vôos incertos, traz estampado na capa o seu local de publicação e o editor: Rio de Janeiro, Typ. da Escola de Serafim José Alves, localizada no número 83 da rua Sete de setembro, o que nos faz concluir que os textos críticos também foram publicados naquela capital. Segundo Sânzio de Azevedo, em Adolfo Caminha (Vida e obra), foi também em 1887 que o autor teve o seu conto “A chibata” publicado nas páginas da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. Portanto, em um único ano temos Adolfo Caminha realizando crítica literária, poesia e prosa de ficção, destacadamente o conto, que ele cultivou ao longo de sua atuação. Se todos os artigos foram publicados em periódicos, temos também Adolfo Caminha lançando-se na imprensa literária e na imprensa noticiosa, prática que ele manteve até o final de sua vida. Desse fato resultou o encontro do escritor de ficção com o articulista e o poeta. Infelizmente, nos microfilmes daquele órgão, consultados na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, não encontramos o conto citado. Precisamos também atentar para o fato de que a publicação dos artigos na revista da Escola de Marinha inseriu Adolfo Caminha e sua obra no tipo de imprensa que podemos chamar de imprensa institucional pública, notadamente a militar com a qual ele manteve laços mesmo afastado oficialmente da Marinha como veremos no arrolamento dos periódicos que eram recebidos e comentados n’A Nova Revista. Este fato, aparentemente menor ou sem importância, traz para a análise da atuação de Adolfo Caminha uma pergunta que consideramos capital: como um homem de Marinha tornou-se um homem de letras? Em desdobramento poderíamos perguntar: como a sua formação nos bancos escolares militares resultou na escrita de romances, poemas, contos, crítica literária e artigos de jornal? Infelizmente, não conseguimos responder as perguntas que propusemos, uma vez que, entre as fontes arroladas, não constam dados a respeito da formação militar de Adolfo Caminha. Uma possibilidade de levantar algumas respostas ou hipóteses seria comparar a sua formação com a de outros homens de letras de sua época como, por exemplo, Euclides da Cunha, Visconde de Taunay e outros, que também tiveram formação militar. No entanto, é preciso lembrar que estes homens de letras foram formados no Exército e não na Marinha, ainda que todos fossem militares, podendo haver na formação dos quadros destas forças armadas alguns pontos em comum. No entanto, o destino do mar parece ter de algum modo banhado a obra de Adolfo Caminha. Ainda que aquelas perguntas fiquem sem resposta, achamos por bem fazê-las. Talvez, elas fiquem como sementes para os que virão a se interessar pela sua obra e por ele. Voltemos, então, ao arrolamento do conjunto da obra. Em 1888, Adolfo Caminha, então segundo-tenente da Marinha, foi transferido para o cruzador Paquequer, sediado em Fortaleza. Por motivo de doença, o jovem marinheiro e então autor dos títulos que mencionamos retornava à sua terra natal. O menino saído do Aracati voltava homem feito à Fortaleza. No jornal O Norte, em 1890, teve publicado os capítulos de No país dos ianques, memórias da viagem que fez aos EUA. Ainda em Fortaleza, em 1891 editou a Revista Moderna, a qual, infelizmente, não tivemos acesso, mas da qual temos algumas informações. As suas atuações como escritor de memória e editor de periódico literário formam uma outra face da sua atuação como polígrafo. É também daquele ano – 1891 – o prefácio intitulado de “Carta” feito para o livro Estrofes, de F. Alves Lima. O prefaciador apareceu uma única vez, o que dá a esta sua atuação e ao próprio prefácio um caráter que consideramos especial. Em 1892, editou, juntamente com R d'Oliveira e Silva o jornal O Diário do qual consultamos todos os cinqüenta e nove números, graças à generosidade do Dr. Sânzio de Azevedo. Naquele mesmo ano, Adolfo Caminha colaborou com o jornal O Pão, órgão oficial da Padaria Espiritual, agremiação de rapazes de Letras e Artes, da qual fez parte desde a sua fundação. Nas suas páginas assinou, com o pseudônimo Felix Guanabarino, as colunas intituladas Sabbatina, uma espécie de crônica de crítica social. Temos então o encontro do editor de jornal noticioso e do articulista nas páginas d’O Pão. A vida o chamou para mais uma viagem. Mais uma vez, e esta seria definitiva, Adolfo Caminha deixou o Ceará para viver no Rio de Janeiro, porto da esperança dos homens de letras do seu tempo. Foi em 1893, na então capital da república recentemente proclamada, que Adolfo Caminha teve publicado o seu romance de estréia: A Normalista (Cenas do Ceará), que acreditamos ter sido, pelo menos em parte, escrito em Fortaleza como pudemos constatar no número 3, do jornal O Pão, em artigo intitulado também de A NORMALISTA, escrito por Lucio Jaguar, pseudônimo de Tibúrcio de Freitas. É também daquele ano o início da publicação, na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, das Cartas literárias, entre os meses de novembro de 1893 e julho de 1894, quando Adolfo Caminha tem os relatos de sua viagem aos EUA publicados em livro. Assim, outro encontro triangular se apresenta na atuação de Adolfo Caminha: o romancista, o memorialista e o crítico literário. Em 1895, Adolfo Caminha teve publicado o seu segundo romance – Bom-crioulo – e as já citadas Cartas literárias, reunidas naquela ocasião em livro e acrescidas pelo próprio autor de mais dez artigos, retomando também aqueles de 1885 que citamos no começo, fazendo com que este seu livro seja o resultado de uma década de trabalho no campo da crítica literária. Em 1896, editou A Nova Revista. No ano seguinte, foi publicado postumamente seu último romance: Tentação, escrito, possivelmente, em 1896, o que resulta em um outro encontro: o do editor de periódico com o romancista. Juntam-se a este rol de fontes, os contos reunidos pelo Dr. Sânzio de Azevedo em 2002, contos estes que foram publicados entre 1893 e 1895. Os mesmos contos tiveram diversas publicações após a morte do seu autor. Se atentarmos para a data de publicação dos contos, vemos que enquanto o romancista estava em atuação o contista também estava desperto. As múltiplas mãos do polígrafo parecem não parar de funcionar. A poligrafia como um possível modo de inserção no sistema literário requeria que o autor estivesse em todos os lugares, o que significa dizer em diálogo com o maior tipo possível de textos e de seus suportes. Como podemos constatar, as fontes assim apresentadas evidenciam que as várias atuações do autor no sistema ou campo literário se davam de forma simultânea. Fizemos questão de destacar os encontros destas atuações, de pontuar as interações entre fazeres como modo de marcar a sua atuação como polígrafo. A estas suas atuações procuramos juntar as atuações políticas, como, por exemplo, a sua participação no movimento republicano, estabelecendo, desse modo, relações do campo literário com o campo de poder. Unimos também às atuações já citadas as suas preocupações com os direitos do autor, o que, de algum modo, o situa no campo da política das letras e no campo econômico, daí analisarmos a sua atuação como um político. Ao longo da tese procuramos mostrar que estas atuações simultâneas contribuem entre si para a constituição do conjunto da obra de Adolfo Caminha e também para a construção de seu pensamento a propósito do fazer literário. Foi com este modo de ler, que chamamos de polileitura, que a tese se diferenciou em relação à fortuna crítica da obra de Adolfo Caminha, que sempre procurou analisá-lo em seu fazeres separadamente, sem buscar relações entre eles ou sem analisar os seus fazeres. VII. O período O recorte temporal, centrado nos anos de 1885 a 1897, corroborou a afirmação de que a presente tese teve como fonte o conjunto da obra de Adolfo Caminha publicado entre Fortaleza e o Rio de Janeiro, funcionando aqui como um recorte espacial, que, se pensado em termos das relações regionais significava dizer entre a província e a capital, entre um eixo econômico fraco e um eixo econômico forte, que atraia os nossos homens de letras. Estar no Rio de Janeiro era estar mais próximo do capital circulante. O recorte temporal proposto rompe com o biografismo como método, uma vez que centra sua análise na obra do autor e não na sua vida. Se assim o fizéssemos, o recorte temporal corresponderia ao tempo de vida do autor: 1887 – 1897. O ano de 1897 fecha o recorte não somente por corresponder ao ano da morte de Adolfo Caminha, mas porque marca a circulação de seu último romance, publicado no ano anterior, bem como por tratar-se do ano de fundação da Academia Brasileira de Letras, marcando, desse modo, uma nova etapa na vida literária brasileira, reforçando as ações associativas dos homens de letras, mas também os laços de dependência entre a província e a capital do país. A vida pessoal aqui considerada é aquela que nasce com o processo de escrita. No entanto, o recorte aqui realizado dialoga com o biografismo como fonte, como um modo de ler a obra de Adolfo Caminha, pois este, como já dissemos, constitui, indiscutivelmente, grande parte de sua fortuna crítica. Além disso, o biografismo nos parece falar muito mais da crítica que foi feita à sua obra do que propriamente desta. Pierre Bourdieu chamou-nos atenção para o uso da biografia como método de explicação da obra: Todavia, o culto romântico da biografia é parte integrante de um sistema ideológico onde se inserem, por exemplo, a concepção de 'criação' como expressão irredutível da 'pessoa' do artista ou a utopia, tão estimada por Flaubert, por Renan ou Baudelaire, de um 'mandariato intelectual' fundado nos princípios de um aristocratismo da inteligência e de uma representação carismática da produção e da recepção das obras simbólicas. Não seria difícil mostrar que são esses os mesmos princípios que engendram ainda hoje a representação que os intelectuais possuem do mundo social e de sua função neste mundo. Também não surpreende o fato de que a quase totalidade das pesquisas em história da arte e literatura mantenham com o 'criador e com sua criação' a relação encantada que, desde a época romântica, a maioria dos 'criadores' tem mantido com sua 'criação'.18 Assim, não deixamos de fazer uso de dados biográficos, apesar de centrarmos a nossa preocupação na obra, como já o dissemos, nas condições materiais, sociais e intelectuais que colaboraram para a sua constituição. Mas, por dados biográficos entendemos não as experiências particulares, pessoais e íntimas do autor como explicação direta de aspectos de sua obra; interessou-nos saber, por exemplo, o modo como a obra literária foi motivo de sua preocupação; quais relações, conflituosas ou amigáveis, estabeleceu com seus pares para 18BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005. p. 185. (Coleção estudos, 20). colocar-se no campo literário de sua época, uma vez que defendemos a tese de sua atuação de polígrafo como uma forma possível de inserção no sistema literário; como dialogou com editores, críticos literários, e demais sujeitos envolvidos no campo literário, pois não negamos que há neste aspecto algo de biográfico, mas procuramos utilizar a biografia de um modo distinto do uso romântico que se fez dela, como afirmou Bourdieu: “é na época romântica apenas que a vida do escritor tornada ela própria uma espécie de obra de arte (por exemplo, Byron) ingressa enquanto tal no âmbito da literatura.”19 Interessou-nos a vida do autor como personagem da crítica e como personagem das condições materiais e intelectuais de sua época. Enfim, interessou-nos tratar a biografia como mais uma entre aquelas forças atuantes no campo literário, o que significa também propor um diálogo com outras áreas do conhecimento. Ao longo da pesquisa procuramos tornar evidente o diálogo entre literatura e história, como afirmamos anteriormente. Por compreendermos como conjunto da obra de Adolfo Caminha a totalidade de suas ações no campo intelectual vigente à época, a literatura de ficção foi vista por nós como mais uma possibilidade de ação, uma vez que, no Brasil do século XIX, os autores escreviam sobre mais de um assunto e o faziam em diversos suportes: jornal, revista, livro, etc. o que dava origem ao fenômeno da poligrafia. VIII. A poligrafia: conceito e fundamentos Vários autores brasileiros do século XIX cultivavam ao mesmo tempo poesia, romance, conto, novela, literatura de informação e não eram raros os que também se dedicavam à crítica literária, como o fez Adolfo Caminha. Alguns estrearam na ficção e se notabilizaram na crítica como o fizeram Araripe Júnior e José Veríssimo. Outros se destacaram na historiografia, tendo estreado na crítica, como foi o caso de Capistrano de Abreu. Outros tantos circularam entre os diversos veículos e suportes de informação disponíveis à época. Os exemplos seriam inúmeros. Aos homens de letras tudo parecia-lhes interessar. Tudo podia ser motivo de escrita. No entanto, é preciso julgar o que era aparência, o que era motivado pelas condições e circunstâncias de produção da literatura e da cultura letrada do período. É preciso considerar também que estar em toda parte ao mesmo tempo poderia assegurar-lhes ganhos financeiros com os quais sustentariam a si, a família e a própria 19Idem. literatura. As diversas ações executadas por um único sujeito dão origem ao conceito de autor polígrafo, do qual Adolfo Caminha é, como já afirmamos, um exemplo entre outros. Mas consideramos que no seu caso específico a sua caracterização como polígrafo dá-se também pelo fato de estas diversas escritas produzidas por ele manterem entre si alguma relação, que procuramos tornar evidente em cada um dos capítulos da presente tese. Portanto, os conceitos de autor e poligrafia, que procuramos desenvolver ao longo da tese, estão no centro de nossa analise e problematização. IX. A problematização Como problematização propusemos as seguintes questões: 1. O que faz de Adolfo Caminha um autor polígrafo? 2. Como compreendemos e definimos a sua poligrafia? 3. Se era comum aos autores contemporâneos atuar em mais de um frente, tratar de mais de um assunto, utilizar mais de um suporte e gênero literário, por que, então, deter-se no exame de uma situação definida como habitual? 4. Como Adolfo Caminha realiza a sua poligrafia? 5. Em que esta tese contribui para a leitura da obra de Adolfo Caminha? 6. No caso específico da atuação de Adolfo Caminha a poligrafia está a serviço de que? 7. Por que Adolfo Caminha tornou-se um polígrafo? X. Adolfo Caminha pelo método da polileitura. Por tratar-se de uma tese, nosso objetivo principal foi confirmá-la e nosso objetivo específico foi procurar responder ao menos em parte as questões propostas acima. Para cumprir o que propusemos, usamos como metodologia a estruturação do conjunto da obra de Adolfo Caminha de forma concomitante, ou seja, alinhando cada título à medida que era publicado, sem, no entanto, agrupá-los, necessariamente, em conjuntos estanques como poesia, contos, romances, crítica literária, jornalismo. A este método demos o nome de polileitura. Procuramos tornar evidente o fato de que havia uma produção simultânea de textos de diversos gêneros literários. Esta abordagem fez-nos pensar em uma estrutura dialógica da qual a parte em comum é o autor. Portanto, investigamos a atuação do autor como político, editor, leitor e crítico literário, destinando para cada um deles um capítulo específico. Dessa proposta surgiu, então, uma pergunta: qual a presença da atuação do ficcionista? ou por que não há na tese um capítulo para tratar especificamente do ficcionista? Como já afirmamos, nesta tese, a análise da atuação de Adolfo Caminha como autor de ficção aparece por trás da atuação dos diversos sujeitos que compuseram a sua figura de polígrafo. Assim, sempre estaremos nos voltando para a sua obra ficcional, mas à medida que as questões suscitadas nos capítulos específicos o exigirem. Este lugar sagrado da ficção abre espaço para outras atuações e o palco ficcional vai abrindo as suas cortinas para outros sujeitos. O que faz com que a obra ficcional seja vista e revista por ângulos e propostas diferenciadas, fundamentada no fazer de cada um desses papéis que constituíram a sua figura como a de um polígrafo: o político, o editor, o leitor e o crítico literário. Assim, o Adolfo Caminha como autor de ficção, que já conhecemos dos títulos de história da literatura brasileira, está presente na tese à medida que os outros estão. Ele o é à medida que os outros são. Procuramos montar uma estrutura de partes comunicantes, que, ao nosso ver, intercambia valores e colabora com práticas e saberes. Trata-se de uma abordagem metodológica. Buscamos novos horizontes interpretativos e alguma inovação possível para a leitura de uma obra constituída há mais de cem anos. Trata-se de tentar olhar com novos olhos o que, supostamente, seria um velho conhecido nosso. Trata-se de reeducar o olhar. Até então, falou-se de Adolfo Caminha como romancista, contista, ficcionista, jornalista sem que estas práticas dialogassem. A leitura que se fez de sua obra foi centrada em partes estanques, o que significava compor um conjunto de partes, de objetos distintos em sua forma, mesmo que fossem comuns em sua essência. Assim, a metodologia que propusemos – a polileitura – é exatamente o contrário do que foi feito até o momento. Interessou-nos ver em que medida uma atividade colaborou com a outra e fez deste autor um polígrafo, aqui entendido não somente como aquele que trata de vários assuntos, o que nos pareceu óbvio, mas aquele que vai além e faz o tratamento dado aos assuntos e faz eles mesmos dialogarem, realizando práticas diversas que colaboram entre si a serviço da constituição de sua obra no campo literário possível de sua época. Para nós, Adolfo Caminha é um autor possível. Interessou-nos também estabelecer as relações entre os campos de poder, econômico, literário e político, fazendo costuras internas destes campos com o campo literário sem retirar a obra do teatro das operações diversas que lhe deram conteúdo e forma. Estes campos também foram compreendidos por nós como forças que interagem na constituição do autor, uma vez que não o entendemos somente como um escritor. Estas relações estão embasadas nas contribuições de Pierre Bourdieu como veremos ao tratar dos fundamentos teóricos. XI. A teoria Como fundamentação teórica, serviram-nos as contribuições de Antonio Candido, Roland Barthes, Michel Foucault, Pierre Bourdieu, e Roger Chartier. De fato, não nos ativemos a seguir um caminho bem delimitado em termos de conceitos. Não há ao longo da tese uma filiação conceitual ou teórica. Fomos ao longo da sua escrita nos valendo de contribuições que nos pareciam importantes e que dialogassem com as fontes tratadas em momentos específicos. Assim, o leitor encontrará em cada capítulo nomes e obras com os quais procuramos dialogar. Ainda assim, alguns conceitos nos foram basilares. De Antonio Candido, por exemplo, utilizamos o conceito de literatura como sistema presente em seu livro Formação da literatura brasileira. No centro do conceito de sistema literário está a divisão proposta por Candido ao considerar em seu estudo somente o que chamou de “momentos decisivos” da formação da literatura brasileira, distinguindo as manifestações literárias da literatura nacional propriamente dita. Para Candido, esta seria definida pela existência de um “sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes de uma fase.”20 Foi assim que nasceu na sua obra o conceito de sistema literário e também se pensou em um momento específico de formação da literatura brasileira, de onde decorre o título de uma de suas obras mais representativas para a área dos estudos literários. Críticas à parte, este momento de fundação estaria, segundo Candido, fundamentado em denominadores comum, que foram por ele assim definidos: (...) além das características internas, (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes de seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns aos outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade.21 20CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6. ed. Belo Horizonte, Itatiaia, 2000. 2v. v. 1. p. 23. (Coleção Reconquista do Brasil, 2a. Série. Vol. 177 - 178). 21Idem Vale destacar desta citação de Candido o fato de não constar entre os aspectos que ele aponta como fundamentais para a existência da literatura propriamente dita a atuação de inúmeros sujeitos tidos como intermediários entre o autor e o leitor, como, por exemplo, os editores. Diante deste fato, ou seja, a ausência dos intermediários no conceito de Candido, nos valemos também da contribuição de Robert Darnton para quem a escrita de uma nova história da literatura só é possível com a inserção de novos problemas, novos objetos e novas abordagens, lembrando aqui da contribuição da Nova História para a constituição de uma nova historiografia literária. Entre os pressupostos que resultariam em uma nova história da literatura estaria a inserção de novos sujeitos, exatamente aqueles que Darnton chamou de “intermediários esquecidos da literatura”22, considerando o fato de que os editores, tipógrafos, organizadores e muitos outros sujeitos não aparecem nas histórias das literaturas nacionais e que são sujeitos importantes na sua constituição, notadamente na forma de livro impresso, que é a forma como as lemos. As suas atuações são práticas que os autores geralmente não realizam, o que resulta em uma delegação do poder de transformar o texto, que os autores produzem, em livro, que nós, os leitores lemos, seja através da compra, do empréstimo, do roubo, etc. Este mesmo conceito de “personagens intermediários” da literatura é também utilizado por Bourdieu em As regras da arte. Para Bourdieu, os intermediários estão “entre o artístico e o econômico”23, ou seja, localizam-se entre a produção do texto, realizada pelo autor, e a leitura, realizada pelo leitor, que é, na escala de produção do livro, o seu comprador. Cabe, portanto, nesta nova visão da história da literatura por em destaque a figura do editor e dos demais sujeitos envolvidos no processo de produção do texto em livro. Roger Chartier, a esse respeito, foi claro ao afirmar: “Para 'erigir-se como autor', escrever não é suficiente; é preciso mais, fazer circular as suas próprias obras entre o público, por meio da impressão.”24 E continua Chartier: “Os autores não escrevem livros: não, eles escrevem textos que se tornam objetos escritos, manuscritos, gravados, impressos e, hoje, informatizados.”25 São estes objetos que nós consumimos. Como, então, não considerar a atuações dos sujeitos que os produzem? 22DARNTON, Robert. Os intermediários esquecidos da literatura. In: O beijo de Lamourette. Mídia, Cultura e Revolução. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras. 1990. 330p. p. 132 – 145 23BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das letras, 1996. p. 86. 24CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução Mary Del Priori. 2. ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1999. 111p. p. 45 (Coleção Tempos). 25Idem. Desse modo, dialogando com as contribuições de Darnton, Bourdieu e Chartier, tentamos tornar mais complexo o conceito de Candido, como também procuramos estabelecer o diálogo com outras contribuições. Trata-se, no entanto, de uma TENTATIVA. Com a tentativa de atualização do conceito de sistema literário, vale destacar que as fontes usadas para a criação do conceito de “personagens intermediárias”, seja por Darnton e Chartier, destacadamente o primeiro, são fontes diferentes da realidade brasileira. O que parece uma obviedade, muitas vezes leva a aplicações diretas de uma metodologia em um outro conjunto de fontes, sobretudo no caso de Bourdieu, que analisa a obra de Flaubert, que estava submetida aos influxos da realidade européia e também submetida, do ponto de vista da produção, à mecanização e industrialização da arte, ambas oriundas da segunda fase da Revolução Industrial. Assim, a tentativa de utilização desses conceitos busca dialogar com as fontes desta pesquisa, porém sem submetê-las à inteireza de sua aplicação como camisa de força. De Barthes, em seu livro Crítica e verdade, utilizamos o conceito de crítica literária como validade: “Pois se a crítica é apenas uma metalinguagem, isto quer dizer que sua tarefa não é absolutamente descobrir 'verdades' mas somente 'validades'”26, ou seja, diferentemente do conceito de verdade, cabe à crítica dizer o que é válido em relação ao sistema criado pelo autor e não estabelecer verdades cristalizadas como algumas que podemos encontrar na fortuna crítica de Adolfo Caminha, além de outros suportes que motivam uma leitura cristalizada de sua obra, como, por exemplo, a de ser A Normalista, seu romance de estréia, um “livro de vingança” ou o seu segundo romance, Bom-Crioulo, um “livro imoral” por ter como personagens dois homens homoeróticos. O que aqui chamamos de cristalização, Barthes chamou de verdade em oposição à validade. Bourdieu chamou de “lugares-comuns conservadores”, “topos gastos” e “enfadonhos tópicos sobre a vida e a arte”27. Outro tipo de cristalização da leitura do conjunto de sua obra está presente no fato de Adolfo Caminha ser localizado na história da literatura brasileira somente como exemplo de um autor naturalista. Suas produções românticas, notadamente, os seus dois primeiros livros, são considerados como casos à parte, exceções dentro da “regra”, que é a de capturá-lo na estética naturalista como forma de ordenar os objetos literários, deixando à parte uma discussão que nos parece importante: o momento da produção do texto como um constante entrelaçamento de valores estéticos, destacadamente no final do século XIX no Brasil, quando 26BARTHES, Roland. O que é a crítica. In: Crítica e verdade. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999. p. 157 – 163. p. 161. (Debates, 24). 27BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das letras, 1996. p. 11. o Romantismo, o Realismo, o Simbolismo, o Parnasianismo e o Naturalismo conviveram como estéticas do sistema literário, como possibilidades de entrada para o campo da linguagem ficcional. Não nos cabe medir em quanto Adolfo Caminha foi romântico, realista, naturalista, simbolista; preocupa-nos perceber como ele dialogou com estas estéticas e seus valores defensáveis. Adolfo Caminha, simbolista, por exemplo, pode parecer um absurdo pela inúmeras críticas que fez aos nefelibatas. Mas pode parecer lógico, obviamente em uma lógica interna do seu sistema próprio, para o crítico literário que viu em Cruz e Souza “o artista mais bem dotado entre os que formam a nova geração brasileira – pergunta indiscreta e ociosa – eu indicaria o autor dos Broquéis, o menosprezado e excêntrico aquarelista do Missal.”28 Além disso, que obra literária não é simbólica? Que obra não traz em si o signo? Obviamente, trata- se, neste caso específico, do signo sob condições e valores estéticos, mas ainda assim podem ser objeto de nossas inquirições. Além de valores estéticos, a produção do texto implica também no uso de outros valores morais, sociais, éticos, políticos, financeiros, todos eles experimentados pelo autor. Assim, tomamos a contribuição de Barthes também para a nossa metodologia, ou seja, o que procuramos afirmar é válido para o sistema que construímos como modo de interpretação do conjunto da obra de Adolfo Caminha do qual é valido dizer validades, mas não verdades. De Bourdieu, como já se constatou nas páginas anteriores, interessou-nos utilizar os conceitos de campo literário e campo de poder presentes em As regras da arte e em A economia das trocas simbólicas. Para Bourdieu, a constituição do campo literário dá-se na troca de forças com outros campos, notadamente, o de poder e o econômico. A sua crítica principal é à autonomia da literatura, ou melhor, a da defesa da idéia de que a arte se faz, essencialmente, pela arte e nisto reside todo o interesse do seu estudioso. Com profundidade e ironia, Bourdieu questiona: “Por que se faz tanta questão de conferir à obra de arte – e ao conhecimento que ela reclama – essa condição de exceção?”29 Também de Bourdieu trouxemos alguns conceitos para tratar dos bens simbólicos como objetos de mercado, pois, no jogo de força dos campos, sobretudo com a chamada Segunda Revolução Industrial, a produção artística e seu produtor passaram a dialogar com novos sujeitos: o capitalista, o empresário, o comprador de bens cujo valor simbólico e cultural podem ser trocados por moeda. No centro desta discussão estão os direitos autorais, 28CAMINHA, Adolfo. Novos e velhos. In: Cartas literárias. 2. ed. Fortaleza: UFC Edições, 1999. 1175p. p. 23 (Coleção Nordestina, 6). 29BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das letras, 1996. p. 12. que Adolfo Caminha fez questão de reclamar em um de seus textos críticos presente em Cartas literárias: “Devia existir um rigoroso tratado literário, em que os direitos do autor fossem claramente expressos, uma lei severa e positiva, estabelecendo medidas contra a especulação, o abuso e a improbidade comercial dos editores.”30 Juntaram-se a estes conceitos contribuições de inúmeros autores de diversas áreas do conhecimento, mas notadamente da Literatura e da História. Todas as contribuições utilizadas foram devidamente referenciadas. XII. Algumas considerações a propósito do polígrafo autor /ô/ s. m. (s XIII cf IVPM) 1 aquele que origina, que causa algo; agente o assistente foi o a. das polêmicas mudanças estruturais foste o a. desse infortúnio 2 indivíduo responsável pela invenção de algo; inventor, descobridor o a. da bomba atômica 3 o responsável pela fundação ou instituição de algo o a. de um espaço cultural 4 pessoa que produz ou compõe obra literária, artística ou científica 4. 1 escritor foi o primeiro a. português a receber o Nobel de literatura 5 p. met. a obra de um autor só lê autores clássicos 6. o primeiro a divulgar uma notícia, um boato etc. 7 JUR aquele que promove uma ação judicial contra ou em face de outrem 8. JUR indivíduo que pratica um delito. a. de seus dias o pai ou a mãe em relação aos filhos. a. físico ou material JUR pessoa que executa o crime idealizado por outrem ou co-participa na sua prática. a. intelectual ou moral JUR pessoa que idealiza o crime, mas determina a outrem que o execute. ETIM. lat. auctor, oris 'o que produz, o que gera, faz nascer, fundador, inventor; ver aug-, f. hist. sXIII outor, sXIV autor, sXIV auctor, sXV author, sXV auttor. Como é possível constatar no verbete “autor” citado acima e retirado do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, a sua grafia tem variado desde os primeiros registros da palavra no século XIII, quando era grafada como outor. No século XIV, a grafia foi alterada para auctor. No século seguinte, assumiu as formas author e auttor. Ao nosso ver, o que não poderia passar de mudanças ortográficas é o indício de que o autor é um sujeito e um conceito históricos, ou seja, está em movimento na história, sendo definido à medida que passa por processos de transformação. Esta variação ortográfica, além de denotar os processos de variação da língua, denota também a sua inserção variada no campo da palavra, campo este que ele mesmo ajudou a constituir através da poética e de todos os outros tipos de texto que veio a produzir. Tratando desta variação ortográfica que também significa uma variação semântica, afirmou Chartier a respeito do autor: 30CAMINHA, Adolfo. Editores. In: Cartas literárias. 2. ed. Fortaleza: UFC Edições, 1999. 1175p. p. 122 (Coleção Nordestina, 6). [grifo nosso] D'abord, pour des questions proprement lexicales. Au XIVe siècle et au début du XVe siècle, trois mots changent de sens dans toutes les langues, mais prenons l'exemple du français. C'est d'abord le mot: auteur, et je rappelais, mettant mes pas dans le Buenos Aires de Borges, qu'il marquait cette difference, peut-être inconsciemment, estre l'auctor, celui qui fait advenir à l'existence et qui a poids d'autorité, et l'actor, celui qui fait, qui est, dans la langue médéiévale classique, le contemporain, le compilateur, le glossateur. Le mouvement est une conquête progressive de l'autorité des auctores par les actores, et finalement une utilisation systématique du terme latin ou du mot français acteur, fin XIVe – XVe siècle et au XVe siècle, pour désigner à la fois les auteurs de la tradition antique ou chrétienne et un certains nombre d'écrivains em langue vulgaire. À partir de 1530, le terme moderne d'auteur vient se substituer au terme d'acteur, investi de ce qui appartenait en propre auparavant aux auctoritates. Le mot écrivain prend non plus seuleument le sens de celui qui copie, mais de celui qui compose, et le terme invention ne définit plus seulement ce qui est trouvaille de ce que Dieu a crée, mais aussi ce qui est création humaine originale.31 Ainda do verbete, destacamos o fato de que o autor como sinônimo de “pessoa que produz ou compõe obra literária, artística ou científica” aparece em quarta colocação, sendo antecedido por “aquele que origina, que causa algo; agente”; por “indivíduo responsável pela invenção de algo; inventor, descobridor”; seguido de “o responsável pela fundação ou instituição de algo”. É importante observar que somente após estes significados, o autor é ligado à produção de bens culturais, notadamente os bens literários e, neste sentido, ele é associado ao escritor: aquele que já não produz bens quaisquer, mas produz a escrita e uma escrita específica: a ficcional. O verbete marca ainda a inserção do autor em outros campos como o jurídico. Neste, ele pode assumir as vezes de réu ou de vítima, ou seja, o autor de um crime ou o autor de uma ação contra outrem. Assim, a palavra passa a funcionar em um outro campo semântico, distinto do literário: aquele que tece a familiaridade entre o autor e o léxico do poder: autoria, autoridade, autorizar, etc. Este funcionamento em outro campo não deixa de lado as relações com o campo literário. Portanto, os registros do dicionário nos levam a compreender o autor como um sujeito submetido a um longo processo de mudanças; a sua inserção no campo literário é somente mais uma possibilidade de apresentar-se. Este pensamento é reforçado com a seguinte afirm